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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Dom Geoffrey Robinson e a redenção de Eros

Foto: Herb Ritts

Dom Geoffrey Robinson quer que a Igreja, segundo a frase da época de Pentecostes, "fale uma linguagem inteiramente nova" sobre os atos sexuais, mas entende que deve pronunciar o seu convite em um vocabulário de distinções e regulações legais à moda antiga, que se tornou a língua nativa e às vezes bifurcada da instituição.

A opinião é de Eugene Cullen Kennedy, professor emérito de psicologia da Loyola University, Chicago, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 20-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


O abençoado bispo da Austrália que fala com tão bom senso sobre a sexualidade humana é um Robinson por nome e por mito. Porque ele é um Robinson Crusoé, construindo um barco com a ajuda de Sexta-Feira, avatar de todos nós, que permitirá que a Igreja zarpe até as profundezas da experiência sexual humana.

O bispo quer que a Igreja, segundo a frase da época de Pentecostes, "fale uma linguagem inteiramente nova" sobre os atos sexuais, mas entende que deve pronunciar o seu convite em um vocabulário de distinções e regulações legais à moda antiga, que se tornou a língua nativa e às vezes bifurcada da instituição.

Ele faz isso graciosamente, fazendo uma proposta radical para se reexaminar e renovar os ensinamentos da Igreja sobre os atos heterossexuais, condição necessária para que ela possa olhar de novo para os atos homossexuais. Ele compreende que os saudáveis Sextas-Feiras, os homens e mulheres comuns do catolicismo, ultrapassaram há muito tempo a Igreja institucional em seus esforços para compreender e integrar a sua sexualidade em suas vidas.

O propósito de Dom [Geoffrey] Robinson é, de fato, aquele definido pelo Papa João XXIII como a sua razão para a convocação do Vaticano II: "Tornar a caminhada humana sobre a Terra menos triste".

De fato, ao urgir uma revisão muito necessária do que e de como a Igreja ensina sobre sexualidade humana, Dom Robinson se baseia sobre temas centrais do Vaticano II. O primeiro deles se encontra no fato de colocar a realidade da pessoa humana, em vez da abstração da lei natural, como o ponto de referência central nos ensinamentos da Igreja e nos pronunciamentos papais sobre matrimônio e atividade sexual.

O segundo se encontra na mudança de uma ênfase em atos objetivos para intenções e disposições subjetivas ao fazer julgamentos sobre a maldade ou a bondade de como as pessoas se comportam. Isso enfatiza justamente o impacto que nossas ações ou omissões têm sobre outras pessoas, em vez da ira que se estagnou dentro de tantos líderes da Igreja que têm se preocupado tanto com o pecado.

O bravo bispo também aponta para o trabalho acadêmico, em grande parte com o pioneirismo, nos EUA, do corajoso padre Charles Curran, para modificar o antigo ensino de que, devido à sua natureza especial, todo ato, pensamento, desejo ou mesmo distração sexual permitidos a iluminar por muito tempo na alma sempre foram um pecado grave e mortal.

As convicções de Robinson sobre a necessidade de uma análise aprofundada do ensino da Igreja sobre a sexualidade são importantes em si mesmas, mas também porque ele encontrou uma forma de falar sobre essa questão essencial a partir de dentro da Igreja, mesmo que de uma forma tradicional e afetada, em que o diálogo se move, embora lentamente, em direção a um círculo mais amplo de prelados.

Ele está buscando, por assim dizer, redimir Eros, isto é, reconhecer a natureza fundamentalmente saudável e criativa de Eros, em vez de rotulá-la, como os Padres da Igreja primitiva fizeram em sua incompreensão do mito do Jardim do Éden, como a consequência carregada de concupiscência do Pecado Original.

As apostas são altas nesse esforço de entender Eros como um impulso humano basicamente saudável que assume seu caráter moral de energia positiva em todas as atividades que dão vida e melhoram a vida, da arte verdadeira ao amor verdadeiro. O Papa Bento XVI falou sobre Eros de uma forma positiva em sua primeira encíclica sobre o amor.

Os Padres do Vaticano II, convidados a votar sobre uma proposta para condenar uma ampla variedade de "ismos", do comunismo ao erotismo, se recusaram a incluir este último depois que um bispo se levantou para objetar a esse mal-entendido do Eros que, como ele disse, tem "algo de bom".

Geoffrey Robinson é um bispo apenas também, levantando-se sozinho como seus antecessores do Vaticano II fizeram, para se dirigir aos outros bispos amontoados sobre ele ao falar da sua necessidade de compreender e afirmar novamente o que é bom e criativo, ao invés do que é mau e destrutivo, em toda expressão de amor sexual verdadeiramente humana.

Eu aposto que, contra todas as possibilidades, Dom Robinson irá falar e, finalmente, será ouvido pelo que há de saudável em seus irmãos bispos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dicotomias, lutas, fé e amor: gays versus Igreja?

Foto via Facebook

Certa feita, uma amiga comentava sobre as crises possíveis na cabeça de homossexuais religiosos. Se a sociedade diz que a homossexualidade é anormal, a religião diz que é errado, que é pecado...

Todo mundo pode se sentir no direito de fugir da normalidade, se for esse o caso (não é esse o caso). Mas fugir do que é certo tem efeitos piores. A carga do “anormal” pode até ser suportada (quem disse que estou a fim de ser “normal”?), mas a carga do “errado” pesa.

E enquanto seguem essas dicotomias extremistas, esse jeito limitado mesmo de enxergar as coisas, seguem cristãos e homossexuais massacrados dentro de sua própria consciência, sem liberdade, sem vida, sem fé, sem amor. Os paradigmas ainda atrasados que as igrejas oferecem são um grande desafio para a luta LGBT, para as saídas do armário, para o fim da homofobia.

Mas disso, todo mundo sabe. Preciso falar diferente.Se as igrejas ainda erram ao tratar dos gays, o movimento ainda erra ao tratar da igreja. Vício de tantos grupos que se articulam em torno de várias causas, temos a mania de personificar as lutas em torno de um inimigo só. Muitas vezes, o nosso debate sobre homofobia soa como se desejássemos acabar com as religiões (especialmente com o cristianismo) para ter, enfim, tudo muito resolvido.

A matriz religiosa da formação da nossa sociedade meio que já limitou nossa visão de mundo, nessa coisa de céu e inferno, homem e mulher (opostos completos, sem se misturar ou se confundir). A bagunça já está feita. Assim, simplesmente derrubar a instituição não faz com que derrubemos o pensamento discriminador que anda espalhado por aí, influenciando até mesmo quem está fora das igrejas. A mudança tem que proceder no pensamento do povo, não na estrutura, na hierarquia. Muitas vezes, precisamos até mesmo da estrutura para mudar o pensamento.

Digo isso por visualizar um lado (muito forte, por sinal) da igreja e do cristianismo que enxerga um outro Cristo, um carinha que morava lá pelas periferias da Galiléia, carpinteiro, favelado, sofredor... e que por isso entendeu e defendeu na sua mensagem todo um povo que, como ele, sofreu alguma opressão.

Jesus hoje iria na Parada Gay. Mesmo que não gostasse de homens, estaria lá pela causa política, pelo debate, pela luta por visibilidade de uma galera segregada pela falta de amor e respeito pela diferença. Estaria lá, assim como estaria no acampamento dos sem-terra, na ocupação dos atingidos por barragens, no protesto do movimento estudantil. Foi um preso político do seu tempo, defendendo as causas dos oprimidos, fortalecendo as lutas do povo, e cobrando de seus seguidores (até hoje) um posicionamento transformador.

Lá, na multiplicação dos pães, Jesus pede que as pessoas “se sentem” em grupos de cinquenta. O povo que o seguia era um povo de sofridos, de escravos. Nessa época, escravo não comia sentado. Pedir que se sentem, assim, sutilmente, é pedir que se libertem. As pessoas só precisam entender isso, mudar os pensamentos.

E assim, mais do que segregar e desejar um forte “cala a boca, senhor bispo!”, é preciso fazer entender que há um diálogo possivel, pela compreensão de que o amor tem a função primordial de libertar (assim como Jesus o quis)... A missão é fazer com que as pessoas acreditem é direito de todos sentir essa coisa que é o sentimento, coisa doida que deixa mais vivo, que faz lutar pela vida do outro através do cuidado e da afetividade, que pega a gente sem que possamos escolher o alvo... nem homem, nem mulher...

Faço, sim, uma defesa da religião. Faço por entender que, ao contrário do que se imagina, lá dentro a gente também se livra de alienações. Não se trata de uma evangelização cega, mas de um desabafo de cansaço por ouvir os comentários chatos de quem (dicotomicamente, também) acha que gays não podem estar na igreja, e que tudo o que virá dela será prejudicial. Se ainda precisamos que ela mude, a função de quem quer mudança é se inserir para mudar. É necessário postura de quem quer tranformação.

Pode até não parecer possível, mas é cá na minha fé que eu milito. Mais que por qualquer coisa, é por ser muito religioso que eu repito incessantemente o grito de não à Homofobia!

- Murilo Araújo
Jornalista e professor. Homem feminista, católico homossexual, fã de Beyonce e Bethânia. Sem enxergar nenhuma ambiguidade em nada disso.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Posicionamento do CFP: tratamento da mídia sobre homossexualidade


A esta altura do campeonato já não é nenhuma novidade esta nota emitida dia 11/04/12 pelo Conselho Federal de Psicologia a respeito da questão da "cura homossexual". Mas, como a gente não tem mesmo como ser mais rápido no gatilho que o Sérgio Viula em seu excelente blog Fora do Armário, que está sempre dando as notícias mais relevantes em primeiríssima mão, reproduzimos, mesmo com atraso, porque vale o registro e nunca é demais divulgar. ;-)

Diante das recorrentes discussões por parte da mídia sobre a questão da orientação sexual e a possibilidade de “cura” dos homossexuais pelas psicólogas e psicólogos, tendo como exemplo o programa "VEJAM SÓ" da Rede Internacional de Televisão (RIT TV), transmitido dia 19/03/2012 e que levantou o tema “você concorda que os psicólogos sejam proibidos de ajudar os gays que desejem mudar sua orientação sexual?”, o CFP tem o seguinte posicionamento:

Primeiramente, já foi esclarecido anteriormente em nota publicada dia 28/03 que a Resolução do CFP nº 001/99 referenda a posição internacional frente ao tema, pois em 1993, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade do rol de doenças e patologias da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID 10).

Da leitura da Resolução nº 001/99, constata-se que, bem ao contrário do que sustenta o autor do PDC 234/2011, o CFP em momento algum veda a prestação de orientação psicológica profissional aos que pretendam voluntariamente alterar sua orientação sexual. O que se veda é que a psicóloga (o) preste os seus serviços de modo a tratar ou a prometer a cura da homossexualidade, pois a homossexualidade não é uma doença.

A (o) psicóloga (o) deve acolher o sujeito em sofrimento psíquico, seja ele proveniente de sua orientação sexual ou qualquer outro, entendendo que cabe ao indivíduo expressar-se livremente em suas demandas para a construção de um projeto terapêutico singular.

Deverá a (o) psicóloga (o) ter como princípio o respeito à livre orientação sexual dos indivíduos, e conforme o artigo 2º item b de nosso Código de Ética, é vedado à/ao Psicóloga(o) induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito quando no exercício de suas funções profissionais.

A questão da orientação sexual como expressão do direito humano, distancia-se radicalmente de conceitos de cura e doença. O objetivo terapêutico não será a reversão da homossexualidade porque esta não é uma demanda passível de tratamento, já que não se configura como distúrbio ou transtorno. O projeto terapêutico proposto estará direcionado para o bem-estar daqueles que procuram auxílio psicológico, contribuindo para a universalização do acesso da população as informações, ao conhecimento da ciência psicológica e aos padrões éticos da profissão.

Mas uma segunda questão vem à tona, relativa ao papel da mídia brasileira na discussão de tais questões, que têm sido muitas vezes debatidas de forma rasa e tendenciosa, sem entrar no mérito de um assunto tão sério, que acaba guiado por paradigmas religiosos.

Muitas das discussões desencadeadas pelos referidos meios ferem a Democracia e substituem o necessário embate de ideias políticas por denúncias unilaterais e, de modo geral, sem comprovação informativa, e sem o livre exercício do direito ao contraditório.

Acreditamos que fatos como estes mostram, mais uma vez, que a ausência de mecanismos de regulação democrática capazes de apurar e providenciar ações imediatas para lidar com as infrações cometidas pelas emissoras demandam uma das políticas públicas que necessitam ser construídas no Brasil como um Conselho Nacional de Comunicação, com participação dos diversos segmentos da sociedade, assim como já ocorre nos países democráticos.

Esta é uma das políticas em que o CFP atua no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), onde o Conselho ocupa a Secretaria-Geral da coordenação executiva no biênio 2012-2013. A coordenação executiva do FNDC é composta atualmente por nove entidades que trabalham juntas na luta por uma Comunicação Democrática no Brasil.

É fundamental que o Ministério das Comunicações coloque em discussão, imediatamente, propostas para um novo marco regulatório das comunicações, com mecanismos que contemplem órgãos reguladores democráticos capazes de atuar sobre estas questões.

Acesse: http://www.comunicacaodemocratica.org.br/

Assista a seguir debate transmitido no dia 22/01 no programa Ver TV, da TV Brasil, com a participação da conselheira do CFP Roseli Goffman. O programa organizou debate sobre os excessos na programação da TV brasileira. Veja a seguir os blocos do Programa:

Parte 1:
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Parte 2:
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Parte 3:
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domingo, 22 de abril de 2012

Intolerância religiosa


SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.

Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.

Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.

Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

- Drauzio Varella
Reproduzido via Conteúdo Livre

sexta-feira, 20 de abril de 2012

"Aceitar meu filho incondicionalmente me fez uma pessoa mais feliz"

Receber a notícia de que o filho é homossexual é um acontecimento que pode abalar as estruturas de uma família, por mais que ela se considere aberta às diferenças. É mais fácil lidar com as piadinhas maldosas quando tudo não passa de suspeita e falatório. Mas o cenário muda depois de um irrefutável: "Pai, eu sou gay".

Para o industriário Ricardo Reder, 48 anos, de Santana do Parnaíba (SP), o fato de Victor ter admitido ser homossexual, há cerca de dois anos, caiu como uma bomba. "Pertenço a uma família tradicional do interior de Minas Gerais, de uma cidadezinha pequena. Imagine, para mim, o que essa descoberta causou", admite. O garoto, hoje com 18 anos, ficou tão perturbado com a reação dos pais que decidiu buscar abrigo na casa da avó. "Você nunca acha que tem preconceito, até a realidade tomar conta da sua vida", diz Ricardo.

Ele e a mulher, a analista de faturamento Suerda, de 42 anos, descobriram o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH) na internet e encontraram na figura de Edith Modesto, sua fundadora, o apoio de que precisavam. "Ela nos disse algumas verdades", confessa Ricardo, que um mês após a declaração do filho resolveu trazê-lo de volta para casa. Edith chamou a atenção do casal para o fato de que uma relação não é feita só de sexo. "Em vez de ficar imaginando seu filho na cama com outro homem, pensa que ele vai ter alguém pra cuidar dele quando estiver doente", ela disse para Ricardo. Essa visão amorosa fez com que ele repensasse alguns conceitos. "Nunca deixei de amá-lo. E me coloquei no lugar dele, tentando compreender o seu sofrimento."

Da rejeição inicial até hoje, o relacionamento da família só melhorou. "Fui para a casa da minha avó porque fiquei muito chateado com a reação dos meus pais", conta Victor. O jovem quis dar um tempo para Suerda e Ricardo, e também para si mesmo. "Queria que sentissem a minha falta", completa. Ele conta que uma das maiores emoções da vida dele foi quando o pai foi buscá-lo: "Me senti amado, acolhido. Nossa relação, que até então era um pouco distante, melhorou muito. Ele passou a me ver como pessoa, como ser humano. Hoje somos muito unidos".

O grupo de Edith, pesquisadora e especialista em diversidade sexual, surgiu a partir de uma experiência pessoal. Mãe de sete filhos, ela e o marido passaram pela mesma situação de Ricardo e Suerda quando seu caçula, Marcello, assumiu ser homossexual. "Fiquei muito surpreso quando soube, há vários anos", conta o professor universitário aposentado Lauro, 81. "Nunca percebi, porque ele não tinha nenhuma característica. O que me importa é que ele é um professor da USP, com doutorado nos Estados Unidos, inteligente, trabalhador e meu amigo", afirma.

Militar e evangélico, Antonio Aparecido dos Santos, 51 anos, de São Paulo, é um exemplo para muita gente que se considera de mente aberta e moderna. Sobre a homossexualidade, ele é objetivo em seu argumento: "Quem somos nós para julgar a natureza alheia?”. Após sempre ter desconfiado que o filho, Airon Wisniewski, de 22 anos, fosse gay, Antonio não se surpreendeu com a confirmação. "Não me choquei nem um pouco e aceitei numa boa”, afirma. O filho se orgulha de ter uma relação de companheirismo com o pai. “Nunca vou me esquecer do momento em que decidi ‘sair do armário’. Ele tirou os óculos, colocou a mão no meu ombro e disse que, independente de qualquer coisa, continuaria a ser meu pai e a me amar muito”, revela, emocionado.

Foi com a mesma convicção que Laurindo Pissioli, de 61 anos, de Frutal (MG), apoiou a filha, a analista de testes Cristiane, 35 anos. “Quando ela era pequena, todo mundo a achava diferente", lembra. Cristiane diverte-se ao contar que o pai sempre apresenta suas namoradas aos amigos como noras. "O pessoal questionava: ‘Laurindo, como você pode ter uma nora se só tem filhas?' E ele: ‘É nora porque é mulher da minha filha, oras!’. Todo mundo ria”, afirma Cristiane.

Agir com naturalidade é a resposta do militar Antonio para quem tenta atingi-lo com preconceitos. Quando alguém diz que o filho dele é "bicha", sabe o que ele diz? “É bicha, sim. Tem saúde e me dá muita alegria. E aí?", conta Antonio, que considera o namorado de Airon um filho. “Gosto tanto do Anderson que até dou bronca de pai nele”, diverte-se ele, que, no quartel, aconselha um amigo de trabalho a aceitar a filha homossexual.

Para Ricardo Reder, o caminho da aceitação foi mais doloroso. Hoje ele até permite que Victor leve o namorado para dormir em casa. "Eu achava que fazia de tudo por meu filho e descobri que estava errado. Hoje posso afirmar que aceitá-lo plena e incondicionalmente me transformou numa pessoa mais feliz e completa."

- Heloísa Noronha
Colaboração para o UOL

Preconceito aumenta risco de depressão, diz estudo

Mães de gays se recusam a permanecer no armário e afirmam o orgulho que têm dos filhos
na Parada do Orgulho Gay de Nova York em 1974. Vimos no blog da Amelia, aqui.

O preconceito pode estar levando jovens homossexuais a casos de depressão e suicídio. Pesquisa realizada pelo Instituto de Ciências Médicas da Unicamp constatou que homossexuais têm tendência maior a desenvolver transtornos mentais em relação a jovens heterossexuais da mesma faixa etária. A discriminação, sobretudo por parte da família, é um fator de risco para o aumento desses casos.

Isso porque o adolescente ainda necessita da proteção do ambiente familiar e mimetiza seus valores. Assim, quando rejeitado, acaba internalizando o preconceito sofrido e se auto-discrimina por sua orientação sexual.

“Nos adolescentes, isso funciona de forma mais grave porque ainda está num momento crítico de construção da individualidade”, afirma Daniela Ghorayeb, autora do estudo e PhD em saúde mental pela Unicamp. A pesquisa faz parte de sua tese de doutorado, que deu sequência a um estudo anterior sobre a saúde mental dos adultos homossexuais.

Cerca de 67% dos entrevistados afirmaram sentir vergonha de sua orientação sexual. E, enquanto nos adultos a religião e pressões da sociedade são os fatores que induzem a esse tipo de sentimento, sobretudo entre as mulheres, nos adolescentes entre 16 e 21 anos é o medo de frustar a família o que mais pesa. “Acho que até já tive raiva de mim, mas não era só ser gay, era muita coisa junto”, diz um entrevistado.

Além disso, 35% dos pesquisados apresentaram depressão e 10%, risco de suicídio. Já entre os heterossexuais, apenas 15% sinalizaram quadro depressivo e nenhum caso de tentativa ou intenção de se matar. Por sua vez, quando a homossexualidade do jovem é bem recebida pela família, e a proteção aumenta, diminuem os riscos de transtornos mentais. “Pior porque passei por muita coisa e melhor porque enfrentei, mesmo com a depressão, eu só me trancava, chorava, não queria nada, foi horrível, aí sou melhor porque tá passando”, declara um dos participantes, em trecho da pesquisa.

Segundo Ghorayeb, muitos adolsecentes afirmaram terem sido impedidos de exercer afetividade e terem medo de serem agredidos fisicamente e verbalmente. “Alguns adolescentes, a partir de um certo horário, não andam na rua. Não anda porque sabe que existe iminência de violência física”, explica a pesquisadora. Tanto a falta de liberdade para expressar sentimentos quanto o risco de agressão tem efeito negativo na saúde mental e qualidade de vida das pessoas. No último mês, uma criança de 12 anos cometeu suicídio depois de sofrer “bulling” na escola por conta de sua orientação sexual, em Vitória (ES).

Ghorayeb comenta que no exterior existem cada vez mais pesquisas para mensurar o quanto o preconceito pode interferir na saúde mental de jovens. Há também um cuidado, em alguns lugares, de se proporcionar tratamento na rede de saúde tanto para os adolescentes quanto para a família, que recebe parte desse impacto. No Reino Unido, nos centros de saúde públicos, há profissionais especializados no tema para auxiliar na orientação familiar. Aqui no Brasil, este é o segundo estudo que cruza homossexualidade e saúde mental, sendo o primeiro a sua tese de mestrado.

Na rede de saúde, não existe nenhum tipo de auxílio especializado para estes casos. “É necessário divulgar para a comunidade acadêmica melhorar a formação dos profissionais de saúde nesse sentido”, afirma Ghorayeb.

A pesquisa considerou apenas os homossexuais que assim se definiram. Além disso, por conta da dificuldade de se conseguir voluntários com esse perfil, por conta da discriminação, a pesquisadora utilizou a técnica de recrutamento denominada “snowball sampling”. Cada entrevistado indicava outros cinco que correspondiam ao perfil.

Por conta disso, o público foi bastante homogêneo e não teve abrangência de diversas classes sociais. A média de renda familiar foi entre cinco mil e sete mil reais. A maioria tinha planos de ingressar no ensino superior. “Se pesquisar outra faixa de renda, vai se chegar a resultados bem diferentes”, afirma Ghorayeb.

- Clara Roman, em sua coluna na Carta Capital em 06/04/12
Colaboração do amigo @wrighini

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Entre a cruz e o arco-íris

Bordado daqui

Ainda sobre o episódio do cartaz da parada LGBT de Maringá e seu diálogo com a arquidiocese local: nosso amigo Murilo Araújo escreveu um brilhante editorial no Vestiário.org, que vale muito a pena ler (aqui). Achamos tão pertinente a sua reflexão, que resolvemos reproduzir um trechinho aqui:
(...) Vamos fazer um esforço de repensar: em vez de ficar reproduzindo a mania de perseguição, afirmando um eterno embate entre religiosos e militantes, alguém parou para pensar no significado bonito que esse cartaz carrega? 
De certo modo, ele representa a igreja com que eu sonho cotidianamente. Trata-se de um sonho muito particular, porque quem tem outra fé (ou não tem nenhuma) tem todo o direito de discordar desse meu pensamento, ou de apenas não se preocupar com isso. Mas, se substituíssemos a Catedral de Nossa Senhora da Glória por uma escola, ou por um prédio do governo, o cartaz continuaria representando a minha utopia: uma instituição que transforma uma só cor em várias, e que gera a diversidade, em vez de anulá-la. 
(...) [O arcebispo, D. Anuar] Batistti afirmou que a preocupação maior da Igreja deve ser contra a violência e não contra o movimento, e apontou caminhos para a criação de uma espécie de “pastoral da diversidade” na Arquidiocese. Se a iniciativa é válida ou não, a discussão é outra, mas eu, talvez inocentemente, vejo pelo menos o esforço de diálogo como um sinal de esperança. Continuar na briga desmedida é fazer mais do mesmo. E acho que não queremos ser todos um bando de fundamentalistas, mesmo que cada um ao seu modo.


Leia também:
Uma questão de justiça: os LGBTs de Maringá e a Catedral
Entre a cruz e o arco-íris

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Família e casamento: construções históricas

Foto via Facebook

O chamado “casamento por amor”, como o compreendemos na atualidade, é invenção recente, surgida no período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, com o advento do individualismo e das exigências de controle dos comportamentos, operacionalizadas através da instituição de “normas de civilidade” ou da “gramática dos gestos”.

O dever do historiador é dar à sociedade que é sua o sentimento da relatividade de seus valores 
(Veyne, 1987, p. 44).

É usual lermos e ouvirmos afirmações de que “a família, desde o início, tem sido a base da sociedade civilizada, composta por pai, mãe e filhos”; que “família é algo de direito natural, inscrito na própria condição humana”; que estaríamos a presenciar iniciativas tendentes a “modificar conceitos milenares como o do casamento”... Gostaria, aqui, de trazer algumas breves notas de caráter histórico, para contribuir com o debate.

Ao longo de toda a história da espécie humana, diversas foram as conformações assumidas pelos agrupamentos familiares. Distintas como distintas suas culturas, visões do mundo, concepções religiosas. Nos tempos atuais ainda podemos ver, nos diversos países, conformações familiares diferenciadas, onde igualmente encontraremos diferenciada distribuição de poder e reconhecimento da dignidade.

Ainda que as religiões cristãs sejam majoritárias em nosso país, não podemos nos esquecer de que este é um país laico e democrático, regime que não se deixa regular pela primazia dos interesses da maioria sobre os da minoria, como magistralmente lecionou o ministro Ayres Brito, por ocasião do julgamento da ADPF 132, em maio do ano de 2011. No Brasil, a liberdade de culto (inclusive a de não professar credo nenhum) é direito constitucionalmente assegurado. Dessa forma, resulta inválido invocar argumentação de caráter religioso para tratar institutos de natureza civil. Tratar dessa forma – histórica e dogmática - as questões da vida civil, penso que não contribui para melhorar o entendimento entre os segmentos em debate.

Se nos voltarmos para o Antigo Testamento (conjunto de livros bíblicos que serve de fundamento além dos cristãos, aos judeus), vamos constatar que a família entre os hebreus tinha caráter poligâmico. Mas poligamia unilateral: o varão possuía várias fêmeas, assim como possuía rezes e filhos; quanto maior o número desses bens, maior o seu poder no seio da tribo. Naquele contexto, dada a necessidade imperiosa de se garantir a viabilidade demográfica e militar da tribo, sempre ameaçada por guerras e escassez de alimentos, a procriação ocupava papel de valor estratégico, tão importante a ponto de constituir crime o desperdício do sêmen – recordemos a sanção aplicada pelo deus hebreu a Onam, por este haver vertido ao solo seu esperma, a fim de não fecundar sua cunhada, com quem realizara casamento levirato, vigente entre os hebreus (Regulamentado no Gênesis 38:9-10 e no Deuteronômio 25:5-6; 9-10 e condenado no Levítico, 18:16; 20; 20:21).

Nesse período (da primazia do Antigo Testamento como bússola moral e jurídica), o amor no interior do casamento, quando existe, é no contexto da poligamia: a mulher fecunda não necessariamente será a amada (diligebat; dilectio). Como diz o historiador Philippe Áries, “a mulher perfeita do Antigo Testamento (mas tambem a do Antigo Regime) não é apenas fecunda e mãe, ela é dona da casa, à testa de uma verdadeira empresa doméstica” (ARIÈS, 1987, 15-3-154).

Submetida à rigorosa moral que lhe impunha reserva, recato e pudor, a esposa-mãe-dona de casa até o século XVIII viveu sob o modelo apropriado pelos cristãos dos estóicos, que reprimia todos os arroubos sentimentais, fosse qual fosse a natureza dos sentimentos. Assim, temos os principais teólogos dos primeiros anos do cristianismo a censurar intensamente o desejo e a paixão, ainda que entre os esposos – “Nada é mais imundo do que amar a sua mulher como uma amante...”, nos diz São Jerônimo, tomando emprestado o texto de Sêneca (ARIÈS, 1987, 157). Mesmo aí, vamos constatar que o casamento nada mais era do que uma transação comercial. Sua finalidade principal manteve-se sendo a garantia da transmissão do patrimônio, operada por meio da circulação das mulheres; daí porque a filiação segue a linha masculina e a virgindade e a fidelidade feminina foram valores tão importantes – do contrário ter-se-ia ameaçada a linha sucessória do patrimônio, que era essencialmente reconhecimento ao homem: – como ser certeza de que aquele filho é mesmo do marido, gozassem as mulheres dos mesmos direitos sexuais que os homens? (RUBIN, 1975).

Outra de sua finalidade era o controle da concupiscência (desejo, paixão). Resistindo à tendência de proscrever o casamento, traço de sua inclinação ao estoicismo, o cristianismo também precisava censurar as tendências sensualísticas, eróticas. Para Paulo de Tarso (São Paulo) seria bem preferível que se abstivessem do casamento. Não sendo possível, ele o vê como o meio legítimo para extravasar os desejos não dominados – “é melhor casar do que arder” (ARIÈS, 1987, p. 53). Nesse contexto, o sexo torna-se uma obrigação recíproca entre os esposos – debitum. O esposo deve amar (diligite) a sua mulher como seu próprio corpo; estas, porém, devem se manter submissas (subditae). Um amor assim, diz-nos Ariès, é apropriação, demanda tempo para se consolidar (depende da mutualidade de interesses e apego): “É por essa razão que não há nada de chocante, mesmo para as concepções morais mais exigentes, se os casamentos são negociados em função das alianças e dos bens” (ARIÈS, 1987, 158).

Aos afeitos a afirmações categóricas e intelectualmente levianas, que proclamam ser o casamento como o temos hoje em nosso ordenamento um conceito milenar, impõe-se recordar que até o século XIII - há apenas oitocentos anos atrás, portanto -, o casamento era instituído através de um contrato de celebração privada, no âmbito restrito das duas famílias envolvidas e cuja dissolução poderia se dar a qualquer tempo, por simples vontade de qualquer dos cônjuges. Era constituído por meio do pagamento dos esponsais, ou dote (do latim pretium, preço; ou dos, doação), prática originária do código visigótico e que chegou ao direito português sob o nome de arras. Tanto que a expressão "mulher arriada" significava "mulher legalmente casada", em oposição à "mulher barregã" - mulher amancebada (ALMEIDA, 1993, pp. 46-58). Em outras palavras, constituía uma negociação mercantil, operada através da compra da mulher pelo noivo, que remunerava o seu genitor pela tradição do bem.

Casamento enquanto sacramento religioso é instituto que, como todos, possui datação histórica: a Igreja Católica travou batalha que durou do século IV ao XIII para conseguir transformar o casamento de simples contrato civil e privado em sacramento, a ser conferido pela sua ordem religiosa, hegemônica. Perante a legislação portuguesa (Ordenações Manuelinas, promulgadas em 1521, e as Ordenações Filipinas, promulgadas em 1603 e confirmadas em 1640), possuíam os mesmos direitos os casados pelo sacramento religioso (católico), os que apenas coabitavam e aqueles casados por contratos (ALMEIDA, 1993, pp. 46-58).

O chamado “casamento por amor” como o compreendemos na atualidade é, portanto, invenção recente, surgida no período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, com o advento do individualismo e das exigências de controle dos comportamentos, operacionalizadas através da instituição de “normas de civilidade” ou da “gramática dos gestos” – uso de pratos individuais ao comer, não escarrar na hora das refeições, usar talheres, falar com moderação, dormir em quartos individuais, controlar os sentimentos, atentar para a postura e a aparência etc. O indivíduo e o casal romântico, estruturado “no amor divino que une duas almas na terra” são invenções precisamente dessa época, na Europa, e daí disseminadas para as colônias que explorava. Até o século XIX, o modelo que vigora no interior dessas famílias europeias é profundamente hierarquizado: a família-tronco correspondia à maior parte das vezes a um modelo de exploração agrícola da pequena propriedade familiar, que não contemplava a partilha entre os filhos, a sucessão restrita ao filho mais velho. A solidariedade pautava-se em laços de linhagem e não numa concepção universal humanista (ARIÈS e DUBY, 1991, p. 254; 540).

Os profissionais do Direito, sobretudo, não podem se deixar levar por idealizações míticas. Não podemos perder de vista a perspectiva histórica e cultural na construção e modificação dos institutos sociais e jurídicos – recordo-me, criança, o quanto eram estigmatizadas as mulheres “amasiadas”, tidas como não constituintes de família, colocadas no lugar da imoralidade e do despudor, demandando intensas e longevas batalhas judiciárias até que, por fim, a norma viesse a reconhecer-lhe os direitos.

Como revela a historiadora Lynn Hunt, foi graças ao desenvolvimento da empatia – a capacidade de se por no lugar do outro e compreender o seu sofrimento – que a noção de Direitos Humanos pode se desenvolver (HUNT, 2009). É necessário que não percamos de vista essa sua marca originária. Do contrário, não estaremos a promover a ideia de justiça, do “a cada um o que lhe cabe segundo as suas necessidades”, mas apenas a empregar nossa autoridade intelectual à serviço de concepções dogmáticas. Conduta que, absolutamente, não se coaduna com o papel que cabe aos profissionais do Direito.

- Rita C. C. Rodrigues
Publicado originalmente na Revista Jus Navigandi

Referências:
ALMEIDA, Angela Mendes de. O gosto do pecado: Casamento e sexualidade nos manuais de confessores dos séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
ARIÈS, Phillippe e DUBY, Georges. História da vida privada. Da renascença ao Século das Luzes. Volume 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
ARIÈS, Philippe e BÉJIN, André (orgs.). Sexualidades Ocidentais. 3ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1987.
HUNT, Lynn. A Invenção dos Direitos Humanos: Uma História. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
RUBIN, Gayle. The traffic in women. in REITER, Rayna (ed.) Towards an anthropology of women. New York, Monthly Rewiew Press, 1975. pp.157-210. (Tradução de Edith Piza, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social/PUC/SP).

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Qual é a sensação do preconceito?


Enquanto o belo curta acima estava sendo produzido, a equipe que trabalhava nele recebeu a triste notícia: uma amiga deles, a ativista mexicana Agnes Torres, havia sido assassinada em um ato de ódio. O objetivo do vídeo é promover a conscientização de que a transfobia e a homofobia atingem e ferem a todos, na própria carne.

(Fonte: Update or Die)

domingo, 15 de abril de 2012

Quando a ética deixa de ser ética e vira instrumento para julgar


"Havia pessoas ruins no mundo e pessoas boas no mundo. Fomos criados acreditando nisso. Se as pessoas eram más, nós as tratávamos como se fossem o próprio mal ou alvo de caridade: se elas eram más e ricas, eram o mal. Se eram más e pobres, eram caridade. O Cristianismo esteve sempre certo; estávamos sempre acima de todos os outros. E eu odiava isso, odiava com toda força. Tudo em minha alma me dizia que isso era errado. A mim parecia tão errado quanto um pecado.

"Eu queria era amar todo mundo, eu queria que tudo fosse legal. Sei que isso soa como tolerância, mas é exatamente o que queria. Eu queria tolerância. Eu queria que todo mundo deixasse os outros em paz, independente de suas crenças religiosas, independente de suas afiliações políticas. Eu queria que as pessoas gostassem das outras. A mim o ódio parecia fruto da ignorância. Eu estava cansado de ver a ética religiosa ser utilizada como ferramenta para julgar as pessoas.

"Eu estava cansado de líderes cristãos se valerem de princípios bíblicos para preservar seu poder, para separar uma linha na areia separando o exército bom do ruim. A verdade é que eu tinha encontrado o inimigo na floresta e descoberto que ele não era o inimigo."


(Trecho do livro "Como os pinguins me ensinaram a entender Deus", reproduzido do blog Acasos Afortunados, via Diário de Luísa Stern. Fica para reflexão.)

sábado, 14 de abril de 2012

Preconceito: Gabriela e João querem mudar o mundo com um vídeo


Em dois dias o vídeo “Think twice before you hate...” ("Pense duas vezes antes de odiar", em tradução livre), alcançou quase 4 milhões de visualizações no Youtube.

Mas os autores dizem que ainda não é suficiente para mudar o mundo. João Tomás Correia e Gabriela Ribeiro são dois amigos adolescentes e decidiram fazer um vídeo que mostrasse ao mundo a sua revolta em relação à homofobia, lesbofobia e bifobia.

Depois de partilharem a sua experiência pessoal, ambos deixam uma mensagem de esperança para gays, lésbicas e bissexuais. Ao longo de quase cinco minutos de vídeo apresentado em inglês e português pode ler-se: “Eles não nos respeitam, mas não nos conhecem” ou “Nós nos magoamos, choramos, ficamos com medo. Como tu”. “Todos os dias esperamos [… ] que as pessoas mudem”.

Um dia depois do vídeo ter sido publicado João Correia soube que foi alvo de deboche por ter assumido a sua bissexualidade no vídeo. Sua reação foi rir. E esse é um dos conselhos que ambos os protagonistas dão no vídeo contra o preconceito.

(Fonte: dezanove.pt)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Professores têm preconceitos contra gays

Clique na imagem para ampliar. Fonte: Facebook

Quem deveria ensinar o respeito à diversidade também demonstra preconceito contra os homossexuais ou, no mínimo, total desconhecimento do tema. É o que indica um relatório sobre homofobia nas escolas que a ONG Reprolatina acaba de divulgar em seu site (aqui) [na verdade, o relatório é datado de 2011]. Para o estudo, que tem apoio do Ministério da Educação (MEC), foram entrevistados professores, diretores, funcionários e alunos do 6º ao 9º ano do fundamental de 44 escolas estaduais e municipais de 11 capitais do País, entre elas São Paulo.

Os depoimentos, colhidos entre 2009 e 2010, falam de educação sexual, homossexualidade e preconceito. Na maioria das escolas, casos de bullying contra gays são encarados como brincadeiras naturais, o que torna a homofobia um problema invisível. Alguns relatos presentes no relatório expressam, ainda, profundo desconhecimento sobre a sexualidade.

Um educador de São Paulo diz, por exemplo, que sente “pena” dos gays e afirma não saber se a homossexualidade “é uma doença” ou se o jovem “fica assim” por ser criado no meio de mulheres. Outro, também da capital, diz que a homossexualidade pode ser detectada pela anatomia, já que as lésbicas não teriam “cintura afinada.”

Cada cidade recebeu seis pesquisadores, que criaram grupos de discussão e observaram o cotidiano das escolas. Coordenadora do estudo, a ginecologista Magda Chinaglia participou das entrevistas em São Paulo. E diz que uma das principais constatações é a de que a educação sexual é deixada de lado. “Ela não existe, embora seja uma política bem antiga. Quando existe, está focada no lado biológico. A sexualidade não é discutida e os professores não se sentem preparados.”

Magda conta que casos de homofobia foram presenciados até mesmo pelos pesquisadores. Uma garota da capital contou o que ouviu dos colegas: “Eles vieram pra mim e disseram: ‘Você não é bem-vinda aqui, nós não te aceitamos. Além de ser baiana, você ainda é sapatona?’ Falaram um monte de coisas”. Um outro estudante disse que seu amigo teve de sair da escola por causa do preconceito.

Apesar dos relatos dos jovens, as autoridades escolares afirmaram, quando questionadas, não terem conhecimento dos casos. “Diretores e professores não veem as situações mais graves”, diz Magda. Segundo ela, a homofobia não é enxergada porque está naturalizada e foi incorporada ao cotidiano escolar. No documento, os próprios professores reconhecem que não sabem lidar com o problema e um deles diz que a “escola reza” para que “essas coisas” não aconteçam, “para não ter de resolver”. Outro admite: “Não estamos ainda aptos para falar disso. O que a gente fala é o superficial”. Eles também apontam os pais, que desaprovam aulas de educação sexual, como empecilho.

“Cada situação dessas mexe comigo. São coisas que vivi na escola, senti na pele. Surpreende a professora falar que, se você é homossexual, é democracia a outra pessoa o xingar”, diz o educador Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). Ele se refere ao jovem gaúcho de 15 anos que, no mês passado, foi agredido na saída da aula após assumir ser gay. Ao perguntar para a professora por que não interferia, ouviu que “os outros tinham direito de se expressar daquela forma.”

Reis estudou a homofobia nas escolas em seu doutorado. “Temos várias políticas públicas estabelecidas no âmbito nacional e estadual, mas não estão chegando às escolas”, diz. A conclusão de seu estudo é semelhante àquela indicada pela Reprolatina: até existem professores sensibilizados para o tema, mas falta capacitação para que aprendam a lidar com o problema.

(Publicado originalmente no Jornal da Tarde)

Leia também:
Diversidade Sexual e Educação: Problematizações sobre a Homofobia nas Escolas (pdf para download, 2009)
Estudo qualitativo sobre a homofobia na comunidade escolar em 11 capitais brasileiras: Relatório técnico Final (pdf para download, 2011)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Arcebispo de Barcelona pede "dignidade e respeito" para os homossexuais

Foto daqui

O cardeal arcebispo de Barcelona, Lluís Martínez Sistach, reafirmou que a postura da Igreja com relação aos homossexuais é que "são pessoas como as outras e merecem toda a dignidade e respeito".

Veio expressar, assim, seu desacordo com as declarações feitas, na homilia de Sexta-feira Santa, pelo bispo de Alcalá de Henares, Juan Antonio Reig Plá, que se referiu aos gays como "pessoas que se prostituem e promovem a corrupção de menores".

Esse bispo de Alcalá de Henares é conhecido por algumas declarações e ações polêmicas. Em 2011 (contrariando a doutrina oficial de acolhimento e respeito aos gays), autorizou a publicação no site da diocese de um guia que oferecia aos homossexuais instruções para "uma mudança" e uma "esperança" para "transformar as suas vidas". Um ano antes, havia afirmado que os casamentos católicos eram "menos dados à violência de gênero que as uniões de fato" - valendo-se, pois, de sua posição de destaque para divulgar seus próprios preconceitos.

Mas, como a Igreja é uma multidão de vozes, na qual há lugar para uma diversidade de pontos de vista, o arcebispo de Barcelona defendeu que a Igreja, "para além das ideologias", abra-se "a todas as pessoas com sentimento religioso"; afinal, disse, a questão de Deus "é a grande questão". E acrescentou: "é de acordo com a nossa fé que nossos atos serão bons ou não".

Fontes: El Mundo e tvi
(Mais uma colaboração preciosa do amigo @wrighini)

Leia também:
Vozes cristãs pró-LGBT que se destacaram em 2011
Vozes homofóbicas, calem-se!

domingo, 8 de abril de 2012

Uma palavra de amor e libertação




Só para lembrar: a leitura literal da Bíblia está longe de ser um enfoque cristão clássico. Na verdade, é bem moderno: teve início na primeira metade do século XX. Portanto, são quase 2 mil anos de cristianismo sem uma leitura literal da Bíblia. O literalismo é uma invenção moderna. E, sob a aparência de "fidelidade", não passa de uma leitura seletiva do texto sagrado; afinal, quantas pessoas você conhece que seguem à risca o preceito de que devemos dar tudo o que temos aos pobres? ;-)

O mais importante disso tudo para nós, hoje, e o interesse de postarmos aqui esses trechos do documentário "Assim me diz a Bíblia" (de que já falamos aqui, com link para o filme completo aqui - se você ainda não viu, não deixe de ver :-)), é reiterar algo que não nos cansamos de enfatizar: a Bíblia, ou a igreja, ou qualquer religião baseada nela, não são intrinsecamente más per se. Toda religião existe em um contexto cultural, social, histórico, e é por ele moldada. A homofobia da nossa época usa mais a Bíblia, as igrejas e as religiões para se impor do que o contrário. As Escrituras não são inerentemente homofóbicas, ou sexistas, ou escravagistas. Elas foram produzidas, ao longo do tempo, em contextos culturais e momentos históricos específicos, e a leitura que delas fazemos também é localizada em termos culturais e históricos, conforme os interesses de cada tempo.

* * *

Um aspecto de grande interesse nos cristianismos é que o texto sagrado não é uma mensagem enviada diretamente por Deus para nós. Não foi escrita pelas mãos divinas, ou por um anjo. Foi escrita por seres humanos, pessoas, ao longo do tempo. É, portanto, a história de como, com o tempo, fomos sendo capazes de compreender a mensagem de Deus para nós. Porque o Deus aí retratado é um Deus que dialoga, que fala conosco, para que entendamos conforme os nossos parcos recursos e nossa escassa capacidade.

Abominação, na verdade, é deturpar a mensagem de amor e misericórdia do Criador e colocá-la a serviço do ódio, da opressão, da exclusão e da desumanização - quando ela é, em essência, eminentemente libertadora e humanizadora. E esse sempre foi o grande drama das relações entre Deus e o homem: Ele tentando nos transmitir sua mensagem de amor e libertação, e nós a distorcendo a serviço dos nossos ídolos e miragens mundanas. E Ele insistindo. Por isso, a história contada nas Escrituras é, na verdade, a história da nossa contínua conversão.

Cristo foi um revolucionário, cuja mensagem veio subverter toda a lógica dos poderes humanos. A história do povo de Deus é a história de uma caminhada rumo à liberdade, pela construção de relações verdadeiramente fraternas, em que, colocando-nos como irmãos, colocamo-nos como iguais. O grande escândalo de Cristo foi virar de ponta-cabeça as estruturas humanas de poder ao arrogar-se o direito de entender a Lei com o seu coração, lendo-a sob a luz do amor e da misericórdia, pondo-a a serviço do ser humano, em vez de usá-la para subjugá-lo. Por isso ele foi morto.

E o grande escândalo de um Deus infinito que se reduz ao nosso tamanho para falar-nos e, como homem, leva sua missão de serviço até o final, respeitando as nossas escolhas e submetendo-se ao fim que decidimos lhe dar, é que esse não é o Deus glorioso e coberto de ouro que interessa aos poderosos - mas um Deus humilde dos pequeninos, que nos convida a, com ele, em tudo amar e servir. O perigo de se dar demasiada ênfase à Cruz e à morte de Cristo é acabar caindo na tentação de ver sua morte como um sacrifício que cria uma dívida que temos de saldar: se Ele se sacrificou por nós, cabe a nós nos sacrificarmos por Ele. Só que a história não pára aí. Ao ressuscitar, ele vence a morte. Fizemos o pior que podíamos fazer-lhe, dentro do alcance de todo o poder que temos: nós o matamos de uma maneira horrível. Mas essa não é a palavra final. Ele volta para nós, e recria a vida na Terra. Para que, a cada queda, possamos nos levantar. Para que, a cada tropeço, possamos recomeçar. Para que, a cada erro, tenhamos a certeza de seu perdão amoroso e gratuito. Para que, a cada morte, possamos renascer e continuar.

É loucura, mas é um Deus louco. Louco de amor por nós, e todo, inteiro gratuidade e doação - Ele que se entrega e desabrocha em beleza e amor por cada um de nós a cada instante. Basta termos olhos para ver, e um coração disposto a receber.

Que esta Páscoa seja mais um passo em nossa contínua caminhada de conversão e reconciliação com o Pai amoroso que vive e fala em nosso coração. Feliz Páscoa! :-)

sábado, 7 de abril de 2012

Pesach 5772/2012: Entre a liberdade e a escravidão



No deserto, toda a comunidade de Israel reclamou a Moisés e Arão. Disseram-lhes os israelitas: "Quem dera a mão de Deus não nos tivesse matado no Egito! Lá nos sentávamos ao redor das panelas de carne e comíamos pão à vontade, mas você nos trouxeram a este deserto para fazer morrer de fome toda esta multidão! " (Êxodo 16)

Porque viver é uma luta constante entre liberdade e escravidão, entre a liberdade que nos deixa inseguros, e o desejo de segurança que limita nossa liberdade, Pesach nos lembra de que a vida é uma travessia:

Entre o medo ao desconhecido que pode nos mudar e a curiosidade e a coragem de abrirmos para novos pensamentos e experiências.
Entre as expectativas dos outros e agir de acordo com o que consideramos certo e errado.
Entre a insegurança que não nos permitem reconhecer nossos limitações e a ironia que nos permite rir de nossa forma de ser.
Entre a fixação no trauma e sua superação.
Entre as vitrines externas e a vida interior.
Entre se queixar e agir.
Entre o dogmatismo e a abertura á opinião dos outros.
Entre ter e ser.
Entre contemplar e possuir.
Entre querer tudo e estar satisfeito com o que se tem.
Entre o supérfluo e o essencial.
Entre impor e dialogar.
Entre falar e ouvir.
Entre um passado que nos oprime e um passado que nos ensina.

Em Pesach aprendemos que o opressor tem delírios de onipotência, e para impor sua vontade quer dominar e controlar os outros para que se ajustem a seu desejo. Mas os seres humanos somos finitos e mortais.

E porque somos finitos e mortais, não controlamos o mundo.
E porque somos finitos e mortais, vivemos na incerteza.
E porque somos finitos e mortais, temos medos, inseguranças e carências afetivas.
E porque somos finitos e mortais, o outro é uma fonte de aprendizagem, apoio e alteridade.

E, como judeus, devemos sempre lembrar que Pesach nos ensina:
Que fomos perseguidos e nunca devemos perseguir.
Que fomos humilhados e não devemos humilhar.
Que fomos estigmatizados e não devemos estigmatizar.
Que fomos oprimidos e não devemos oprimir.
Que fomos confinados em guetos e ninguém deve viver em favelas.
Que toda escravidão termina em luta pela liberdade.

Por isso, em Pesach festejamos nossa disposição a sermos livres sem ocultar nem negar nossos medos, inseguranças e carências, e afirmamos nossa vontade de amar e aprender, e os valores da liberdade e da justiça.

Shehechyanu, ve´quimanau ve’higuianu lazman haze.
Que vivemos, que existimos, que chegamos, a este momento.

Bernardo Sorj
Reproduzido via Amai-vos

quarta-feira, 28 de março de 2012

E o Concílio descobriu a liberdade de consciência

Foto: Chris Engman

Um novo passo para expor as autênticas novidades “reformadoras”, não “revolucionárias”, de acordo com a contraposição, que também já foi usada mais de uma vez por Joseph Ratzinger, justamente a propósito da sua atitude em relação à historicidade da Igreja católica e, portanto, também do Concílio. Nos artigos anteriores, vimos a recuperação da centralidade da Palavra de Deus, da Escritura, na vida da comunidade de fé e a difusão da Bíblia em língua moderna, acessível a todo o povo de Deus. Na mesma linha – a segunda novidade – a forte afirmação da necessidade do ecumenismo, com a busca da unidade, perdida há séculos – nove, quase dez para as Igrejas ortodoxas, e quase cinco para os evangélicos. Depois, passando para uma relação decididamente nova com a realidade do judaísmo, religião e cultura, com o pedido de perdão pelo anti-semitismo religioso, muito cultivado em séculos e originando, ainda que indiretamente, trágicas realidades como a Shoah. Esta é a importância do ponto quatro da declaração Nostra Aetate, com a recomendação de se superar as hostilidades do passado, e a condenação de atitudes diferentes, com a reprovação de “ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo para com os Judeus em todos os tempos, não importando quem cometeu tais atitudes”.

Outra grande e inegável novidade do Vaticano II – a quarta nesta lista – constitui o tema do que hoje se chama “liberdade religiosa”, o que costumamos considerar no âmbito da “liberdade de consciência”. É o tema presente no documento intitulado “Dignitatis Humanae”, que foi aprovado na véspera da conclusão do Concílio, no dia 7 de dezembro de 1965, após as animadíssimas discussões e dos muitos embates, sobretudo dos tradicionalistas pertinentemente conservadores, que viam em alguns desses passos uma concessão contrária à afirmação da verdade da fé e do Evangelho de salvação.

Na declaração “Dignitatis Humanae”, ressoam fortes palavras no ponto sete: “Todos devem ser isentos da coerção individual, de grupos sociais, de qualquer tipo de poder humano... Que ninguém seja obrigado a atuar contra a sua consciência... Ninguém pode ser obrigado a abraçar a fé contra a sua vontade... todos devem buscar a verdade, porém tal verdade não deve ser imposta pela força, mas difundida docilmente e fortemente”.

O tema da liberdade religiosa, no Concílio, teve precisas consequências também para os traços da atividade missionária. Sobre este ponto, é suficiente observar o ponto treze da Ad Gentes. “Onde quer que Deus abra a porta da palavra, para anunciar o mistério de Cristo a todos os homens, deve ser anunciada com franqueza e perseverança (o Deus vivente é aquele que Ele enviou para a salvação de todos, Jesus Cristo).

“Somente deste modo, os não cristãos, que o Espírito Santo abrirá os corações, crerão e livremente se converterão ao Senhor, e sinceramente aderirão Àquele que, sendo “o caminho, a verdade e a vida” (Jo, 14,6), responde a todas as aspirações do espírito e, mais, as superam infinitamente”.

Isto é a confirmação da obrigação, para todos os crentes, do anúncio da fé, mas depois, com inegável clareza, o texto segue dizendo como se deve agir, mencionando os documentos “Dignitatis Humanae” e Lumen Gentium, explicitando o modo pelo qual o necessário anúncio deve se encarnar para ser autenticamente cristão e eclesial: “A Igreja proíbe severamente obrigar ou induzir e atrair as pessoas com inoportunos enganos, a abraçar a fé, da mesma forma que energicamente reivindica o direito de que ninguém, com injustas vexações, seja separado da sua fé. De acordo com um costume muito antigo da Igreja, os motivos de conversão devem ser examinados detalhadamente, e, se necessário, purificados”.

Um tema candente, durante séculos, e que recebeu pouca atenção da parte de muitos no conjunto da história, inclusive, “pessoas santas”, às vezes, mais tarde canonizadas, certamente não por esse motivo... Mesmo considerando que a cultura do tempo conduzia a essas consequências, é necessário recordar que Gregório XVI, na primeira metade do século XIX, definia como “deliramientum” (uma loucura) a tese que sustentava o respeito à liberdade de consciência e de religião... Porém, é necessário certificar que essa mesma liberdade, que pode parecer uma “novidade” em relação ao costume eclesiástico durante séculos, não é uma negação do passado da fé, ao contrário, pois possui sua origem nos textos de fé, como nos Evangelhos e nas cartas de Paulo. E por esse propósito, grandes teólogos como São Tomás, já no século XIII e John Henry Newman, no século XIX, exaltaram o primado da boa consciência, portanto, da “boa fé”. Além disso, a maneira de anunciar, do “render contas da esperança que há dentro de nós” já estava explícita nas palavras de São Pedro, que serenamente indicava: “Porém tudo isto tem que se fazer com mansidão, respeito e em boa consciência” (I Pe, 3,15).

É certo que durante séculos não foram ideias evidentes. Além disso, uma longa série de eventos as contradiziam. Por enquanto, a última consequência: só neste contexto de liberdade de consciência é que se deve interpretar a forte advertência de São Paulo: “Tudo o que não vem da fé é pecado” (Rom, 14,23). O que Paulo quer dizer com esta palavra “fé”?

Como se pensou que a “fé” tem que ser forçosa e explicitamente sempre fé cristã, conhecimento e reconhecimento da divindade de Cristo e da realidade da Igreja como tal, teve como consequência que todos os atos de virtude de um não cristão na realidade eram pecado. Sabemos que, durante séculos, esta ideia foi o fundamento teórico para difundir e impor a fé, com os instrumentos da violência e do poder político e colonial. O Concílio claramente indica outro caminho, importante também por suas imediatas consequências. Esta será a novidade sucessiva destas reflexões: a atitude do Vaticano II para com as outras religiões e, ao final de contas, também para as consciências dos homens que podem não pertencer a nenhuma religião...

- Gianni Gennari, teólogo italiano,
Publicado no sítio Vatican Insider, 09-03-2012.
Tradução: Cepat, aqui reproduzida via IHU.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Cale-se! O silêncio machuca, o diálogo é música

Foto: Paul Spielvogel / CATERS NEWS, aqui

Discordo visceralmente de muita coisa que leio e escuto, mas nem por isso acho que elas não tenham o direito de vir a público. Pelo contrário, repetindo Voltaire, discordo, mas defendo o direito de que seja dito. Afinal de contas, a saída para contrapor uma voz não é forçar o silêncio, mas sim outra voz. O silêncio dói, machuca. O diálogo é música.

Por isso, sinto um amargo na boca quando vejo pessoas que, sob o risco de verem seus argumentos naufragarem em sua própria arrogância, tentam calar o outro. Não percebem elas que muitas vozes dissonantes não vêm da cabeça ou do coração, mas sim do fígado. Por isso, regeneram-se. E, se cortadas ao meio, geram duas. Multiplicam-se. Uma idéia forte é algo poderoso. Difícil de ser contido com a força física. Tomo a liberdade de retomar um debate que travei aqui, tempos atrás, e que cai como uma luva com fatos que aconteceram recentemente.

Acredito que meu ponto de vista está correto, mas isso não faz dele uma Verdade Absoluta – até porque verdades absolutas – do meu ponto de vista – não existem. Não mais. Morreram. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por outro caminho. Ou que a paz de espírito ocorra obrigatoriamente através de grandes concessões pessoais ou obediência a regras ditadas por profetas. Desse enfrentamento de idéias e de propostas sairá um vetor resultante que apontará para uma direção, dependendo da correlação de forças envolvidas, dos atores dedicados a isso, da aceitação dessas idéias pelo restante de uma sociedade.

Por exemplo, não acredito que o livre mercado seja a panacéia para tudo, mas há quem diga que sim. Ótimo, vamos discutir os argumentos que embasam as diferentes posições e não chamar o outro de canalha ou burro, esquerdista idiota ou direita fascista, e travar por aí a discussão. Ou pior, defender o fechamento de um veículo de comunicação, a demissão de uma profissional, o fechamento de uma igreja.

Muitos simplesmente repetem mantras que lêem na internet, ouvem em bares ou vêem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando esse outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais bisonhos. Afinal de contas, não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a companheira como uma serva em casa.

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

Sugiro que busquem a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e se perguntem se acham que estão certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza não é de certezas, mas de dúvidas e falhas que só conseguem ser melhor percebidas no tempo histórico.

- Leonardo Sakamoto
Publicado originalmente no blog do autor

sábado, 24 de março de 2012

O lado positivo de alguém que você conhece


"Qual o nome do(s) soropositivo(s) que você conhece? Não, você conhece algum soropositivo. Conhece sim, porém, você não sabe que essa pessoa tem o vírus da AIDS em seu corpo. Agora responda para si mesmo como você agiria com essa pessoa se você soubesse que ela tem HIV, o que você pensaria dela ou de si mesmo? Quais as chances dessa informação não fazer nenhuma diferença na forma que você pensa sobre essa pessoa? Pense agora na resposta da maioria das pessoas a essas últimas perguntas, lembre-se que elas responderiam apenas para elas mesmas, imagine o que elas pensariam e como agiriam se soubesse que alguém é soropositivo. Entendeu porque você acha que não conhece nenhum soropositivo?"

terça-feira, 20 de março de 2012

Dores e amores da homossexualidade

Foto: i can read

Recebemos de um amigo este lindo depoimento, e é com muita gratidão e sentindo-nos muito honrados que o reproduzimos aqui.

Enquanto homossexual não saberia dizer se a homossexualidade nos faz mais sensíveis. Penso que na condição de seres humanos vivemos num mundo diverso, pronto a ser descoberto na sua riqueza existencial infinita. Por isso, seria importante que estivéssemos sempre sensíveis a tudo que nós rodeia. Sou daqueles que acreditar que sensibilidade também se aprende. Mas, talvez, aqueles que, por algum motivo, não são desejados pela sociedade tentem a criar um mundo particular e, neste mundo, vivem seus sonhos e pesadelos, tentando, de algum modo, encontrar a forma como aparecer no mundo concreto sem precisar sofrer muito.

Enquanto permanecemos no mundo particular ganhamos tempo para nos compreender internamente. Percebo que nesta experiência ganhamos em sensibilidade na medida em que é preciso criar pequenos modos de felicidade. Lembro-me, por exemplo, da minha infância na qual por não poder brincar com bonecas eu pedia aos meus pais lápis de cor e muitas folhas para poder desenhá-las e, assim, me divertir com elas no meu imaginário. Deste modo, eu fui desenvolvendo a sensibilidade para as cores. Também comecei a prestar atenção às bonecas para poder reproduzi-las, em detalhes, no papel. Enquanto as outras crianças já tinham o seu brinquedo pronto, eu era desafiado a aguçar as minhas capacidades perceptivas e criativas. E quanto mais eu desenhava e melhorava o meu traço, apesar de muitos estranhamentos por parte das pessoas por eu só reproduzir bonecas, era muito elogiado por todos. Bom, mas é claro que, por outro lado eu sofria. Sofria porque enquanto criança o mundo era severamente posto de uma forma na qual eu não encontrava um lugar. E, apesar de todos perceberem a minha homossexualidade, era como se ela não existisse. O que existia era uma criança sensível, diferente das demais. Muitas vezes introvertida. Fui crescendo num mundo confuso, entre formas de disciplinamento heterossexuais e a fantástica descoberta da minha sexualidade. A atração pelo mesmo sexo provocava em mim, ao mesmo tempo, prazer e medo. Eu achava curioso o encantamento pelo mesmo sexo. Minha sensibilidade me dizia intimamente que aquela combinação era uma coisa bonita, e isso era muito natural. No entanto, eu não podia imaginar em dizer isso para ninguém. Tinha medo de não ser compreendido e aceito. Parece estranho dizer, mas isso era dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

O tempo passou, e eu fui direcionando todas as minhas energias para os estudos. Lembro-me que quando cursava o segundo grau eu me apaixonei por um rapaz. Ele era da minha turma. Como era bom conversar com ele! Mas, com medo de que ele se distanciasse de mim, calei. Foi duro! Acabamos brigando. Foi uma forma que eu encontrei para não sofrer mais. Depois que o ano letivo terminou, eu nunca mais o vi. Entrei na faculdade e comecei a investir pesado nos estudos. Na minha família ninguém cursou uma faculdade, e para mim era um desafio. Concluí a faculdade com boas expectativas. Fui elogiado e incentivado pelos professores a realizar o mestrado e seguir a carreira docente. Embora introvertido, me fascinavam as relações humanas, e via na relação de ensino e aprendizagem a mais bonita forma de diálogo. Esse passou a ser o meu grande projeto. O mestrado foi concluído com sucesso.

Neste percurso não deixei de pensar, sofrer e me alegrar com a minha sexualidade. Mas o fato é que até então eu não havia vivido a minha homossexualidade. Eu não tinha tido uma experiência homossexual. Não tinha amigos gays e nunca havia falado sobre a minha sexualidade para ninguém. Pode-se imaginar como é difícil não poder falar o que se sente? Mas o fato é que eu tinha me tornado um homem inteligente e sensível e, também, bonito. Já não era mais um menino franzino. Faltava apenas que eu me percebesse.

Logo retorno aos estudos para a realização do Doutorado, com 27 anos. E assim continuava a minha trajetória de estudos. Paralelamente a minha sexualidade permanecia oculta para o mundo. Hoje penso que não ter falado sobre a minha condição me afastou da possibilidade de experiências afetivas e sexuais. Mas, se até então eu não havia tido a coragem de revelar a minha sexualidade, as circunstâncias da vida me puseram a prova.

Um colega com o qual eu convivia por aquele período começou a me notar. Mas eu acreditava que me mantinha tão imperceptível do ponto de vista da sexualidade, que não acreditei que ele pudesse ser gay e que estava interessado em mim. O fato é que ele era gay e tinha interesse. A cada encontro nos aproximávamos mais. E quando dei por mim eu já estava apaixonado. Talvez não pelo rapaz, e sim por toda aquela situação que para mim era uma extrema novidade. O fato é que eu lhe despertei o interesse. Neste caso eu me vi percebido por ele. Alguém havia me visto e isso mexeu demais com a minha auto-estima. Bom, custei a entender que o meu colega não estava apaixonado por mim, era apenas uma atração. Claro que eu sofri muito, pois me vi apaixonado e ao mesmo tempo vivendo e descobrindo as possibilidades da minha sexualidade. Parecia que uma represa tinha se rompido dentro de mim. Não sabia o que fazer com todos aqueles sentimentos e descobertas. Era a minha sexualidade me confrontando e me dizendo: como é que você vai querer viver daqui em diante?

Na ocasião eu revelei a situação a uma amiga. A escuta dela foi fundamental. Pela primeira vez eu me via falando sobre a minha sexualidade, ainda com muitos receios, mas eu falava, eu expressava. Esta amiga, na tentativa de me ajudar, apresentou-me a um amigo seu que era gay. Ela fez isso por acreditar que ter um amigo gay iria me ajudar. O rapaz tinha 21 anos e uma cabeça de adolescente. Ele vivia na região serrana, numa cidade pequena e cheia de repressões. Eu percebia que isso havia aflorado a sua rebeldia e ele se expressava de maneira bem intensa, parecendo querer provocar a atenção de todos. Apesar de um tanto assustado, eu comecei a manter contato com ele. Assim nos aproximamos e, após duas semanas de contato, fui conhecê-lo na sua cidade. Comprei um tênis all star, vesti uma bermuda, coloquei um boné e uma mochila nas costas. Segui viagem pela Serra. Essa sensação da viagem foi maravilhosa! Era como se eu estivesse mudando o cenário da minha vida. Dizem que às vezes é preciso viajar, sair de si, para depois retornar à nossa essência. Eu acho que era um pouco isso que estava acontecendo comigo. Trajado do modo como descrevi anteriormente, ali eu era um adolescente. Enfim, eu experimentava a adolescência que não havia vivido! Encontrei-me com o rapaz, juntei-me ao seu grupo de amigos adolescentes e vivi dias maravilhosos. Acordei no dia seguinte com as badaladas do sino da igreja local, que me transmitiam sinais de vida. Retornei para casa com entusiasmo para prosseguir. O namoro com o rapaz não foi adiante, e nem tinha condições de dar certo. Era mais uma experiência que a vida estava me anunciando. O anuncio era: nunca mais deixe as páginas da sua vida em branco, você tem o direito de ser feliz, você é especial.

Nesta experiência acabei me apaixonando pela região serrana. Aquela sensação do ônibus subindo a Serra mexia comigo, me enchia os pulmões e, eu sentia, alargava os meus caminhos de liberdade. Numa dessas subidas conheci outro rapaz. Um homem simples, mas com imensa sabedoria, cultivador de orquídeas na região. Eu sempre gostei de flores e ele me apresentou muitas delas. Passamos um final de semana num lugarejo chamado São Pedro da Serra. Este é um lugar que vai ficar pra sempre na minha memória! Lá pude entrar em contato com muitas cores. Eu precisava de cores, muitas cores! Fiquei encantado com a diversidade da natureza e, nesta experiência, pude compreender a minha própria riqueza e diversidade. No contato com cada flor, com cada fruta, com cada planta que ele me apresentava eu descobria uma sensação nova, um novo sentido! Marcou-me uma experiência em que ele me levou diante do espelho e chamou atenção para a minha aparência, para que eu valorizasse a minha aparência no mundo. Eu não podia mais me esconder, e nem tinha porque fazer isso.

Namorei este rapaz por alguns meses e com ele aprendi muito. A relação afetiva com ele foi fundamental. Com a sua simplicidade e sabedoria ele me mostrou como ser gay podia ser especial, como podia ser maravilhoso o sentimento entre dois homens. Sou-lhe grato por isso e, até hoje, tenho um carinho e uma amizade muito especial por ele.

Assim eu prossegui a minha experiência de vida. Conheci pessoas, namorei, conheci novos lugares, continuei me empenhando nos estudos... apareci para mim e para o mundo, com serenidade e orgulho. Ficou-me a certeza de que eu podia conhecer!

O mais importante dessa história foi que eu pude, entre dores e amores, me apresentar à vida. Apresentar-se a vida é confirmar a nossa existência. Como é que as pessoas saberão quem você é, quais são os seus valores, se você não se apresenta para o mundo? E quanto mais temos orgulho ao nos apresentar, mais as nossas relações afetivas vão se ampliando...maiores são as possibilidades de ser feliz!

E hoje me apresento à vida com grande orgulho de ser gay! Deus me fez especial nesta condição, e como é bom vivê-la sem medo! Embora a minha vida não se resuma a minha sexualidade, ela não seria nada se eu não pudesse expressar e viver as minhas relações sociais e afetivas como gay. Compreendo que a minha riqueza, o que me torna singular e especial neste mundo é a minha condição sexual. Não seria inteligente e justo anular justamente aquilo que me torna especial. Por isso - embora eu compreenda que ser gay não é uma opção - se eu tivesse que optar eu escolheria ser gay sempre! O bom é viver e poder se apresentar à vida, ao mundo! E, sobretudo compreender que não estamos sós. Há uma infinidade de pessoas no mundo e o nosso desafio é construir relações com elas. Quando eu decidi assumir a minha sexualidade eu me perguntei: “que mal há em viver o que somos de modo verdadeiro e digno”? “Ser homossexual não é um crime, então eu não preciso viver em clandestinidade”. “Para quem sobrará o ônus da infelicidade se eu não me assumir”? Mas até chegar a essa compreensão foi um longo caminho. Não é nada simples. As famílias, as instituições, algumas religiões, apesar de toda a mudança ocorrida nos últimos tempos no mundo, ainda não estão preparadas para acolher e respeitar a diversidade. A produção da culpa, da violência, da exclusão infelizmente ainda é recorrente. É preciso esclarecimento, fé, apoio e coragem! Mas o bacana é descobrir a nossa essência, o quanto somos especiais e o quanto é bom defender a nossa auto-estima com vigor. O que nos sustenta e amplia horizontes não são somente as dores, mas, sobretudo os amores. E eu decidi que estou na vida para amar. Eu escolhi amar e por isso sou feliz na minha condição. Nesta minha caminhada, entre dores e amores, ficou um aprendizado: O mais duro não é sofrer por amor...o mais duro é sofrer pelo desamor, pela ausência, por aquilo que não vivemos, ou deixamos de viver. Abraçar a nossa homossexualidade e vivê-la com plenitude, responsabilidade e fé é um ato de amor por si, pelos outros e pelo mundo!

- Bruno Peres
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