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terça-feira, 5 de junho de 2012

Chore comigo


Chore comigo. Precisamos nos juntar e reverter o que disfarça os processos que conspiram contra a vida. Vivemos em um mundo alheio, frio, indiferente. Para não ficarmos cara a cara com a morte lenta do planeta, das famílias, das pessoas, criamos palavras, conceitos e lógicas; meros anteparos para nosso desdém. Quando convém somos piedosos, outras vezes, inclementes. Mas, sempre em busca de justificativas.

Chore comigo. Fazemos tudo para impedir que alardeiem, em cima dos telhados, uma verdade cruel: somos fugitivos. Fugimos, sim, de admitir a nossa indiferença. Procuramos dar um ar de intelectualidade ao nosso distanciamento. Como somos rigorosos em nossas análises, desde que não precisemos sujar colarinhos bem engomados e punhos abotoados. Discussões intermináveis camuflam nossa complacência. Raiva, muxoxo, zelo, zanga, tudo para preservar-nos nas zonas de conforto.

Chore comigo. Andam bombardeando as salas de diálogo. “Cala a boca que eu tenho a razão…”, é o que mais se ouve. Somos previsíveis em nossa intolerância; donos de uma razão vaidosa. E não conseguimos esconder os sintomas dessa tosca onipotência. Nosso monólogo é afetado, o discurso, rancoroso, e o ponto de vista, intolerante. Conversar virou um exercício penoso. Odiamos sem conhecer, desmerecemos sem ouvir. Cortamos, machucamos. E mal notamos a volta do bumerangue. Quantas feridas! Um mundo onde se retribui ódio com ódio, desprezo com desprezo, frieza com frieza, merece ser chamado de inferno.

Chore comigo. Até esgotarmos nosso paiol de autodefesa, nunca experimentaremos uma nesga de liberdade. Enquanto projetarmos no outro o motivo de nossa pequenez, precisaremos nos especializar em diminuir os demais. Icemos bandeiras brancas antes que se torne necessário contemplá-las a meio pau.

Chore comigo. Acolhamos amorosamente a falibilidade humana. Sejamos compreensivos com nossas inadequações. Lembremo-nos: cada um foi criado do pó. Baixemos a guarda. Deponhamos os escudos. Algumas de nossas feridas ainda não cicatrizaram. Celebremos as dores comuns de mãos dadas.

Chore comigo. Gritemos chega. Já não resta tempo para semear desesperança. Se não podemos conviver no mesmo espaço, cedamos. Quem dará um passo para trás? O outro merece respirar. Que nosso discurso se manifeste pelo entendimento que limpezas étnicas, propostas eugênicas e ambições totalitárias só produziram carnificinas. Assim como a humanidade acabou com a paralisia infantil, vamos acabar com valas comuns, salas de torturas, movimentos persecutórios. Homossexuais, ciganos, deficientes físicos, negros, pobres ou quaisquer outras minorias (pobres, minorias?) merecem viver com a mesma dignidade que todos.

Chore comigo. Parir outro mundo nunca será indolor. Não tenhamos nosso conforto por precioso. Encarnar a regra de ouro custa caro: “Faça com o outro o que você gostaria que fizessem com você”. Caminhar uma segunda milha ao lado de gente que discordamos requer grandeza. Querer salvar a vida do proscrito antes da sua exige verdadeiro amor. Transformar o substantivo abstrato amor no verbo transitivo amar diviniza.

“Bem aventurados os que choram, pois serão consolados” Mateus 5.4.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim, via PavaBlog

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Colégio é acusado de se omitir em caso de bullying

 

É isto que é inaceitável: que uma instituição de ensino compactue, de fato ou por conivência, com a agressão. E é tanto mais inaceitável que se trate de uma instituição católica, que deveria pautar todas as suas relações pelo respeito, pelo acolhimento incondicional e pelo amor irrestrito. Esses deveriam ser os valores transmitidos às crianças e jovens ali educados. E, no entanto, que mensagem se comunica com o silêncio ou a justificação da violência?

Está mais do que na hora de os cristãos assumirem uma posição firme, acima de tudo, contra toda e qualquer forma de violência.


No momento em que o País discute a possibilidade de criminalização do bullying, uma tradicional escola católica da cidade é acusada de omissão no caso de um garoto de 13 anos que conta ter sido agredido pelos colegas por ser bailarino. A mãe da vítima, que trabalhou na instituição por 18 anos, também acusa o colégio de assédio moral e demissão indevida. Os dois processos tramitam na Justiça, mas a escola rebate as alegações.

As primeiras ofensas começaram logo que Enzo Frizzo Paulino começou a fazer balé, aos 8 anos. “Alguns colegas sabiam que eu dançava. Começaram a me chamar de ‘veado’, ‘bicha’ e gay”, lembra o menino, que estudava no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, que tem mais de 70 anos e fica na Vila Regente Feijó, região de Água Rasa, na zona leste. Para acabar com as provocações, a família decidiu transferir o garoto para o turno da tarde. “Falei com a escola e disseram que resolveriam a situação”, conta a mãe do menino, Alba Mara Paulino.

Mas, na nova turma, a situação de Enzo piorou. “Eu escondia que era bailarino, morria de medo de ser descoberto. Mesmo assim, era chamado de gay e os garotos não me deixavam usar o banheiro masculino”, lembra. “Procurei a coordenadora, mas ela disse que, como ele era bailarino, deveria estar acostumado a ser chamado de ‘veado’”, conta Alba.
O garoto afirma que, quando os colegas da tarde descobriram que era bailarino, ele nunca mais teve paz. A mãe ainda não sabe como a notícia se espalhou. “Os alunos do período não sabiam e só os professores e funcionários sabiam”, lembra Alba. Por isso, para ela, a informação foi provavelmente repassada por um adulto. “Com certeza, a pessoa que contou não imaginou o impacto disso na vida do Enzo.”

O menino percebeu que seu segredo havia sido revelado em 2010, após retornar de um festival de dança em Joinville, em Santa Catarina, um dos mais importantes do País. Foi quando as agressões passaram a ser também físicas. “Eles me batiam e gritavam: ‘veado’, ‘veado’, ‘sua bicha’”, conta o garoto, cerrando um dos punhos e batendo três vezes contra a outra mão. “Eu me sentia a escória. E eu não sou gay.”

Enzo sofreu calado. Aguentou meses de surras e xingamentos sem contar nada à mãe. Até que um dia, Alba entrou no banheiro enquanto o filho estava no chuveiro e o viu machucado. “Foi quando ele me contou tudo”, desabafa a mãe. A professora afirma ter procurado a coordenação da escola mais de uma vez. “Disseram que iriam resolver e acabei não fazendo boletim de ocorrência. Eu mesma estudei na escola, de criança até o Ensino Médio, tinha uma relação com a instituição, e não achei que poderiam negligenciar ajuda ao meu filho.”

Hoje, ao lembrar do comportamento do filho, Alba se lamenta. “Eu me sinto culpada por não ter percebido antes”, diz ela, com os olhos cheios d’água. “Ele não contava. Mas começou a faltar, a ter problemas com as notas e a ficar doente”, relata. Enzo teve anorexia e ficou um ano afastado da dança. “Cheguei a pensar em desistir da dança para não sofrer mais”, diz o garoto.

O menino ficou fascinado pela dança após ver o filme Encantada, no cinema, com a mãe. “Deixamos a sessão e ele dizia que queria ser bailarino”, conta a professora. A mãe levou o garoto ao futebol, à natação e ao tae-kwon-do, mas Enzo só queria dançar. “Ele pediu para ir a uma academia de balé. Estava firme na decisão”, diz Alba. Hoje, em um novo colégio, voltou a dançar e não precisa mais esconder isso de ninguém. “Já não tenho medo de dizer que sou bailarino. Agora, eu tenho amigos”.

(Fonte: Estado de S. Paulo, conforme tuitado pelo @celsodossi)

Fé cristã e diversidade sexual: algumas reflexões

Foto: Hugo Nogueira


Transcrevemos abaixo a fala de uma integrante do Diversidade Católica e uma das moderadoras do blog, Cristiana Serra, no nosso evento de ontem. A quem esteve com a gente, nossa mais profunda gratidão pela presença e pelo tempo que partilhamos juntos. A quem não pôde estar, vamos postar, ao longo dos próximos dias, alguns conteúdos relacionados ao evento, para poder dividir com todo mundo um pouco do que aconteceu.

Ao contrário dos meus colegas de mesa, não sou teóloga nem religiosa. Sou uma católica leiga, e é desse ponto de vista que gostaria de compartilhar algumas reflexões com vocês aqui, hoje.

Hoje é dia da Santíssima Trindade. A crença cristã na Trindade fala muito sobre a forma como nós, na longa tradição judaico-cristã, chegamos a expressar nossa intuição mais profunda a respeito de Deus. Nós acreditamos em um Deus que é Pai, que ama o Filho, que é amado pelo Pai, e o Espírito Santo é o veículo desse amor. Por isso a gente fala que Deus é Amor; mas, quando dizemos que Deus é amor, que Ele não poderia fazer outra coisas senão amar, isso quer dizer que o mais importante na nossa relação com Ele não é o que a gente pensa sobre Ele.

Jesus não veio fazer tratados ou teorias sobre Deus. Ele encarnou esse amor. Ele se aproximava das pessoas com espírito de total entrega, total abertura, a serviço das pessoas. E isso é um pouco chocante pra gente, pensar num Deus que se ajoelha na nossa frente e nos lava os pés.

Porque a gente tem uma tentação constante que é o desejo de poder Para Mim. Eu ganho, eu fico com isso pra mim, e você fica sem, azar o seu. Tem que ter sempre um que ganha e outro que perde. O efeito disso pras sociedades é que a gente cria, coletivamente, estruturas de poder baseadas na exclusão: cria normas e, se não se enquadrar, fora. É um mecanismo de controle muito eficiente, baseado sempre na ameaça de exclusão.

A mensagem revolucionária de Cristo foi derrubar esses muros de dentro e fora. Quando ele fala que nós somos irmãos que têm de ser amar e servir uns aos outros, ele nos torna todos iguais, sem ninguém em cima e outro embaixo, sem gente dentro e gente fora. As estruturas humanas são verticais. A proposta de Jesus é horizontal: todo mundo junto. Quando derruba muros, isso se torna muito perigoso, porque poe abaixo as estruturas de poder humanas. Isso é insuportável, e a gente escolhe: isso a gente não quer. E manda Cristo pra cruz. Porque ele ousou nos colocar todos como iguais, como irmãos. E a palavra-chave aqui é fraternidade. Guardem essa palavra, que é importante, e vamos voltar a ela já, já.

Daí a gente passa 2 mil anos divididos entre o quase entendimento que a gente tem dessa lógica nova do serviço, de lavar os pés do outro, de um Deus que diz SIM pra gente a ponto de respeitar a nossa escolha quando a gente diz pra ele Não, e coloca ele pra fora; ou tentar enquadrar essa história na lógica do nosso poder humano: então, Deus mandou seu Filho inocente pra morrer por nós. Então, temos uma dívida impagável com ele. E, se ele se sacrificou a esse ponto por nós, a gente tem um Deus que tem o direito de cobrar também da gente um sacrifício. E aí a gente deixa de ter um Deus que se entrega inteiro para nós tal como somos, de graça, sem a gente ter feito nada para merecer isso, e que quer acima de tudo ver a gente feliz AGORA, pra ter um Deus que nos fiscaliza e promete a nossa felicidade pra depois, SE a gente se comportar direitinho.

Então a gente tem, de um lado, a vivência de um Deus que ama a gente de graça, inteiro - e isso é inebriante, é arrebatador, é uma alegria imensa se saber amado assim, do jeito que a gente é. E do outro a gente tem um Deus que impõe uma lista de condições, e uma receita: se você fizer isso você está no bom caminho, tá salvo, tá dentro. Se não fizer, está fora.

A história da Igreja – e quando falo Igreja falo todo o povo de Deus, todos os batizados, todo o corpo de Cristo, do qual todos nós somos membros – é a história dessa divisão. Você vê nomes como Francisco de Assis, como Inácio de Loyola, como Hélder Camara, como Zilda Arns, como Dorothy Stang, como James Alison, como Marcio Retamero, que estão na rua, que estão diante dos seus irmãos e olham para eles não com um monte de afirmações e preconcepções de certo e errado, tentando enquadrar as pessoas nos seus próprios conceitos de bom e mau, mas sim como pessoas que antes de mais nada olham para o outro e perguntam: em que eu posso te ajudar? Como eu posso te servir? E você tem o contrário, o olhar de quem julga e condena de acordo com padrões preconcebidos e quando olha o outro, em vez de ver um irmão amado, mede a pessoa com os seus preconceitos de bom e mau, de certo e errado.

Agora vejam só: quando eu falo isso, parece que eu estou fazendo o que? Dividindo as pessoas em dois grupos: a galera que entendeu, e os que não entenderam. Os que estão no caminho certo, e os que estão no caminho errado. Naturalmente, eu estou do lado que entendeu, o lado certo, claro. Eu, que estou pensando nisso tudo, também faço isso, também caio na mesma esparrela. Por quê? Porque a lógica do nosso pensamento é a comparação, é a criação de dicotomias bom x mau, a divisão em dois lados. Dentro e fora. Incluídos e excluídos. É um aprendizado individual superar essa lógica e simplesmente se abrir para o encontro com o outro. Eu sou eu, você é você e vamos nos conhecer, sem julgamentos, sem categorizações, como pessoas diferentes uma da outra e únicas que somos.

E essas duas lógicas vão sempre conviver dentro da gente, o que cria uma tensão. E a gente vive nessa tensão, entre a abertura para o encontro e para o novo e o fechamento nas preconcepções que a gente usa para organizar o nosso mundo.

Coletivamente também é assim: nas sociedades e nas instituições. Na Igreja é assim. E é preciso entender isso porque hoje em dia existe uma tendência a dizer que gays e religiosos são incompatíveis. Assim como muitos fundamentalistas julgam e condenam os gays, muitos gays julgam e condenam os religiosos.

Ou não, a gente pode dizer simplesmente que a Igreja condena os gays e ponto, mas isso cria alguns problemas. Primeiro: a Igreja não é só a hierarquia. Somos todos nós. Então, qual Igreja condena os gays? O padre que destitui um rapaz das suas atribuições pastorais na paróquia porque ele contou que é gay? Ou o padre que sabe que um cara é gay e mesmo assim o indica para ser Ministro da Eucaristia e lidera da Pastoral da Liturgia da paróquia? Que Igreja condena os gays? O catecismo? Qual parte? A parte que diz que os gays devem ser respeitados como pessoas que são e acolhidos sem discriminação? A parte que diz que a gente tem que ser casto? Mas tem uma parte que diz que "ser casto" é viver a sua vida sexual e afetiva de maneira ordenada, de abertura e encontro com o outro. Ou a parte que, dentro daquela lógica do sacrifício, fala para a gente pegar a nossa cruz, e isso quer dizer entender AQUI, especificamente no caso dos gays, "castidade" como "celibato"? A parte que diz “ame o pecador, mas odeie o pecado” (que é uma coisa meio difícil de entender, porque como é que você separa a pessoa daquilo que ela faz? Cristo é amor. Cristo é ato, é aquilo que ele faz. Deus é Verbo, é ação. Como é que a gente separa quem a gente é, abstratamente, daquilo que a gente faz? Mas isso é outra história)? Qual Igreja condena os gays? O fundamentalista que berra "eu te amo, mas, demônio, sai desse corpo que não te pertence"? Ou a comunidade da minha paróquia, que me recebe junto com a minha mulher de braços abertos, e não dá a mínima se a gente é um casal?

Que Igreja condena os gays? O gay que sabe quem é e se aceita como é, porque se sabe amado e aceito por Deus, ou o que vive um sofrimento dilacerante, porque se sente julgado e excluído pelo próprio Pai?

O que eu quero dizer é que existe um jogo muito complexo de forças em ação nesse corpo coletivo que é a Igreja. Existem pessoas, grupos, religiosos, comunidades, iniciativas, de inclusão de gays. E existem pessoas, grupos, religiosos, leigos, que excluem os gays. E isso está muito além do que a gente escolhe ouvir dos pronunciamentos e dos documentos oficiais. Porque a gente escolhe o que vai escutar dos pronunciamentos e documentos oficiais, também, viu, gente? Tem um enorme recorte aí, a serviço das nossas próprias preconcepções do que é a Igreja e de como ela funciona. Mas a verdade é que, mesmo no que é oficial, com chancela do Vaticano e tal, existem as falas de exclusão e as de inclusão.

Este ano está fazendo 50 anos da convocação do Concílio Vaticano II, que aconteceu entre 1962 e 1965. Esse Concílio representou uma tentativa de transformação da Igreja. Você tinha uma Igreja cheia de vícios de 1950 anos de história, ao longo da qual ela se misturou muito com os poderes mundanos. Houve um longo momento da história em que o Estado, no Ocidente, desapareceu, ficou todo fragmentado, e a Igreja virou a fonte de organização da sociedade. Ela passou a ser o Estado. Mas aí, o tempo passou, as mudanças vieram, o Estado surgiu de novo, quer dizer, voltou a haver uma estrutura pública e, curiosamente, passou a se entender que essa estrutura pública tinha que cuidar e zelar pelo bem-estar dos cidadãos, prestar serviços. Onde antes você tinha os poderosos explorando o povo, e se você era poderoso, muito bem; se você era povo, dane-se – você passou a ter aos poucos, cada vez mais, a noção de cidadania, de direitos para todos. Antes quem tinha direitos era um grupinho, uma elite; aos poucos cada vez mais gente passou a ter direitos: primeiro, os de determinadas linhagens (os nobres); depois, os que tinham dinheiro; depois, os direitos foram estendidos a todos os homens brancos acima de determinada idade; depois, às mulheres, aos negros, e também as crianças e jovens e velhos começaram também a ter seus direitos assegurados e protegidos. Mas isso é uma novidade muito recente na história, coisa de 2-3 séculos para cá. A gente hoje vive num país que diz que todo mundo é igual perante a lei, todo mundo é cidadão, e esquece que nem sempre foi assim.

Então, o Concílio Vaticano II foi uma tentativa da Igreja de entender e se adaptar a esse mundo. De se perguntar: tá, então neste novo mundo, a gente entra onde? Pra que a gente serve? E daí saíram duas conclusões muito importantes: primeiro, a noção de que, para além da imposição de uma lista de certos e errados, o que cada pessoa tem de mais importante, o que torna todo mundo igual, igualmente digno, o que cria uma dignidade humana que é inerente a todas as pessoas e faz com que todas as pessoas sejam portadoras dos mesmos direitos, é a liberdade de consciência.

“A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes. Isso significa que qualquer norma deve ser colocada diante da consciência de cada um. E cada um de nós é responsável por estar atento à própria consciência, e não ir contra ela.

Os documentos do Concílio dizem que a liberdade de consciência, a liberdade de crença, é a mais importante de todas porque é a base de todas as outras e de todos os direitos. E daí veio a segunda conclusão muito importante do Concílio: se existe liberdade de consciência, a gente não tem uma única maneira de perceber a verdade, então não existe só um certo ou só um errado. Porque a verdade, ou o sagrado, não tem como ser inteiramente apreendida por um ser humano ou um grupo. Não existe mais o dono da verdade, e ou você está com ele, ou está contra ele. Ou está do lado certo ou do lado errado, ou dentro, ou fora. Existe um monte de gente e grupos, cada um dentro da sua percepção inevitavelmente limitada da realidade contando pros outros o que está podendo ver dali de onde está.

Como os cegos apalpando o elefante, vocês conhecem essa história? Um pegava no rabo e dizia “ah, o elefante é um animal curto e roliço como um graveto fino”. O outro pegava na tromba e dizia: “Você está louco, o elefante é um animal cilíndrico e flexível, e grosso como um grande galho de árvore”. E um terceiro, apalpando o pé do elefante, exclamava “Vocês estão errados, o elefante é rígido e ereto como um tronco de árvore”.

Então, o Concílio vem falar no pluralismo da sociedade em que a gente vive, e em como é imprescindível a Igreja respeitar as diferenças e se colocar aberta para o diálogo com a diversidade. Vale a pena ler documentos como a Gaudium et Spes ou a Dignitatis Humanae. São lindas.

Aliás, está justamente aí a fundamentação do necessário laicismo do Estado, pois só um Estado Laico pode assegurar essas liberdades individuais mais fundamentais e o direito à diferença. E a própria Igreja, em documentos como esses dois que acabo de citar, reconhece a necessidade imperiosa do Estado Laico.

E aí a gente lê esses documentos de 50 anos atrás e pergunta: onde está essa Igreja? Por que salta muito aos olhos a dificuldade da instituição em colocar essa postura de diálogo aberto em prática, essa maneira de perceber o mundo e as pessoas de uma maneira verdadeiramente fraterna. E olha aí a palavra fraternidade de novo: porque, se você tem um mundo de pessoas igualmente livres nas suas consciências, você tem um mundo de irmãos, que vivem as suas histórias e procuram se ajudar na busca honesta da verdade, cada um com a contribuição única do seu próprio olhar.

E onde está essa Igreja que dialoga? Ela está mudando. Porque é muita gente, é uma estrutura muito pesada, e todas as mudanças ao longo de 2 mil anos de história vieram assim: da mudança das bases, da mentalidade dessa multidão, para o alto. O alto, onde está o poder, resiste, claro, então muda devagar.  Por isso é responsabilidade de cada um de nós estar atento à própria consciência, porque é nesse conjunto da base, de todas as nossas consciências juntas, que sopra o Espírito da Verdade. Porque só juntos a gente enxerga o elefante, e quanto mais forem as pessoas de olhos abertos, melhor visão a gente tem desse elefante. E isso é diálogo. O diálogo está acontecendo aqui, agora. O diálogo acontece quando as pessoas se encontram. Se a gente divide o mundo em estereótipos, seja o estereótipo do gay, seja o estereótipo do religioso, do fundamentalista, não tem pessoas, não tem encontro, não tem diálogo. O encontro e o diálogo acontecem entre pessoas.

Coletivamente, nós, gays, temos uma grande contribuição para dar à Igreja e ao mundo: quando, indo contra todas as normas e preconceitos, a gente está tão em contato com a nossa consciência e com quem a gente é que sabe que não pode se esconder da gente mesmo e tem que ser quem a gente é, a gente está em contato com a nossa verdade. E a nossa verdade mais profunda é um pedacinho da verdade maior. É o nosso pedacinho do elefante.

O Evangelho diz “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E isso, essa honestidade profunda com a verdade da nossa consciência, é uma dádiva. Essa é a nossa contribuição, é dizer “olha, mesmo contra todas as dificuldades, você tem que ser verdadeiro com você mesmo, porque isso é libertador. Eu estou conseguindo, viu? Experimenta. Isso derruba muros. Incomoda, porque a emancipação exige responsabilidade e maturidade, e é difícil, mas também é tão profundamente libertador”. Essa é a dádiva que os gays oferecem para o mundo.

Domingo passado foi Pentecostes, a festa do Espírito Santo. Que o Espírito da Verdade e do Amor nos inspire para o encontro e a abertura com os irmãos. E que nós possamos, gay e não-gays, religiosos e não religiosos, cada vez mais assumir as nossas responsabilidades perante nós mesmos e nossas consciências, e trabalhar por um mundo melhor, em que a gente possa ser mais irmãos.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 3 de junho de 2012

Hoje, daqui a pouco: gays cristãos na Igreja Católica - e quem está nos dando a maior força :-)



@CarlosTufvessoncoordenador da CEDS Rio, ontem



Está chegando! Você encontra mais informações aqui - e olha, aí em cima, que super força a gente tem recebido de gente muito, muito boa.

Fora o Vitor Angelo, do Blogay (Folha de S. Paulo), que entrevistou a Cristiana Serra, uma das moderadoras aqui do blog e palestrante no evento de logo mais. Confira a entrevista aqui.

E o Felipe Valença, do DiverCidade Maravilhosa, que também publicou uma nota a respeito, aqui.

sábado, 2 de junho de 2012

Foi Deus quem mandou?

Do querido Murilo Araújo (em mais um editorial brilhante para o Vestiario.org), que já chegou no Rio de Janeiro e nos dará a alegria de participar do nosso evento amanhã (saiba mais aqui), partilhando conosco seu testemunho de gay cristão:
(...) me deparei com a seguinte notícia, hoje mais cedo: “Pastor diz em sermão que governo deveria matar homossexuais”. Minha primeira reação foi pensar: “como assim? Que ano é hoje? Inquisição, é você? Não, pera… Inquisição era coisa dos católicos, e o cara aí não é padre, é pastor.” Depois de me dar conta de que a história parecia verdadeira mesmo, de que estamos mesmo em 2012, minha segunda reação foi uma mistura de nojo e revolta. A terceira foi vir escrever. 
Sei que a crítica que essa figura precisa receber pode até parecer óbvia, sei que um cara desses merece nada mais que desprezo pela sua suprema imbecilidade, sei até que muita gente deve estar começando a encher o saco de me ver falar sempre dessa questão de religião no debate sobre homofobia. Mas desculpa, eu não consegui ficar na minha. Se me revolto só de pensar que ainda existe gente encarando a homossexualidade dessa maneira, imaginem o tamanho da indignação que me bate quando vejo uma suposta autoridade propagar esse tipo de discurso de ódio, com a mesma tranquilidade (e uma pitada a mais da veemência) com que mandaria as pessoas rezarem antes de dormir. 
E não é o primeiro caso: na semana passada, após Barack Obama ter defendido abertamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o pastor Charles Worley, da Carolina do Norte, sugeriu que gays e lésbicas fossem trancados em campos de concentração, rodeados por cercas eletrificadas, como uma forma de se ver livre deles e delas – afinal de contas, isolados do resto do mundo, “eles não podem se reproduzir”. 
Desta vez, no mesmo estado (onde um referendo popular proibiu casamento e união civil entre homossexuais um dia antes da declaração de Obama), foi a vez do pastor Curtis Knapp ir ainda mais longe e defender morte. Assim, direto. Pelo menos teve a decência de esclarecer que a ideia não era dele, e mencionar o suposto autor original, ninguém mais ninguém menos que Ele, o “Todo-Poderoso”: “Você dirá: Oh, eu não posso acreditar, você é horrível. Você é um neanderthal. É disso que você está chamando Deus? Ele é um neanderthal? As Escrituras são a sua palavra ou não? Se é a sua palavra, ele ordenou. É sua ideia, não a minha. E eu não me envergonho disso. Ele disse que os colocará à morte. (…) Você tem uma ideia melhor? Uma ideia melhor do que a de Deus?”. 
E o que me deixa mais curioso nessa história é a apropriação indevida das tais boas ideias de Deus, usadas apenas na hora em que interessa. Duvido muito que estes mesmos pastores que invocaram a citação bíblica de Levítico para destilar sua homofobia deixem de comer moluscos quando queiram (Levítico 11, 10), ou de fazer a barba quando incomodar (Levítico 19, 27; Levítico 21, 5) ou ainda que ordenem que as mulheres de suas igrejas raspem as cabeças se não desejarem usar véus dentro dos templos (Carta de Paulo aos Coríntios 11, 6). Não é estranho ser fundamentalista para algumas coisas, relativizando outras com tanta tranquilidade
Penso na quantidade de fieis presentes dentro destas igrejas, ou até mesmo fora delas, que certamente sairão pelas ruas repetindo este tipo de discurso de ódio, e promovendo todo tipo de violência. Acho que todo mundo tem memórias de algum homofóbico (por menos religioso que seja) afirmando que Deus fez o homem para a mulher, como justificativa para não apoiar a igualdade de direitos. Isso para não falar dos muitos casos de espancamentos a chute, pedra e lâmpada. Ou dos constantes assassinatos – que é exatamente o que o tal pastor está querendo que o governo faça. 
E quem calará a boca destas figuras? Quem, se a sociedade também homofóbica dá a eles o direito de dizer as babaquices que quiserem, sob o suposto princípio da liberdade de expressão? É por essas e outras que ainda escrevo sobre este assunto. Se eles podem dizer aquilo que quiserem, ao menos precisamos nos preocupar em escancarar o preconceito e a intolerância. (...)


Leia também:
Porque nada justifica a homofobia. Nem a Bíblia
Leia o texto do Murilo na íntegra aqui

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O importante é ser uma boa pessoa

Foto via Blue Pueblo

São palavras assim que nos iluminam o caminho e nos fazem cada vez mais acreditar que, sim, um mundo melhor está nascendo, neste exato momento.

Amigas/os,
Parabens pelo seu site!!! Sou uma velha mulher heterosexual, casada, 71 anos. Por um acaso achei o seu site. Está muito bom!
Na minha longa vida encontrei um bom número de gays e lesbicas, colegas, chefes, amigas/os.
Eram todos pessoas maravilhosas, excelentes profissionais, bons chefes ou colegas, fiel amigos. Em regra pessoas muito preocupados com o "social". Ajudavam aos menos favorecidos.
Eu acho que o importante é ser uma boa pessoa, ter bom carater, ser honesto, trabalhar. Se a pessoa prefere viver com uma pessoa do mesmo sexo, ou do sexo oposto é de importância nenhuma. E quem se sente atraido pelo mesmo sexo tem o mesmo direito de amar como uma pessoa que se sente atraído pelo sexo oposto.
Um abraço
Irene Ortlieb

Comentário recebido por e-mail, reproduzido com autorização da autora.


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Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (3)

Foto: Tony Park

Começamos a publicar há duas semanas (veja a primeira parte aqui e a segunda, aqui), em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

A Sagrada Escritura
Com relação à Sagrada Escritura e a homossexualidade, convém ir além da leitura ao pé da letra. Há novas maneiras de se compreender os textos bíblicos, utilizando o método histórico-crítico que os situa em seus respectivos ambientes sócio-culturais, com seus modos de expressão próprios. A Igreja reconhece esta abordagem desde o tempo do papa Pio XII, e a aprofundou com o Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que busca harmonizá-la com os conteúdos da fé.

A Revelação divina testemunhada na Bíblia é proposta e expressa de modos diversos, através de ‘gêneros literários’ históricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa que o intérprete busque o sentido que os autores sagrados em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos gêneros literários então usados. Para se entender corretamente o que os autores sagrados quiseram afirmar, devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre os homens daquela época (Dei verbum, nº12).

No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Há uma espécie de heterossexualidade universal que está suposta, expressa no imperativo ‘crescei-vos e multiplicai-vos’. O livro que contem este preceito, o Gênesis (1,28), foi escrito no tempo do exílio judaico na Babilônia. Para o povo de Israel, expulso de sua terra e submetido a uma potência estrangeira, crescer era fundamental para a sobrevivência da nação e da religião. O sêmen do homem supostamente continha o ser humano inteiro em miniatura, e deveria ser colocado no ventre da mulher assim como a semente é depositada na terra. Não se conhecia o óvulo. O sêmen jamais deveria ser desperdiçado, como mostra a história de Onã, fulminado por Deus por causa deste tipo de transgressão (Gên 38,1-10).

É neste contexto que a relação sexual entre dois homens era considerada uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, pelo seu culto e por uma série de usos e costumes, segundo o código de santidade do livro do Levítico. Aí se inclui a proibição do homoerotismo (Lv 18,22). Proíbe-se também, e com rigor: trabalhar no sábado, comer carne de porco ou frutos do mar (ou qualquer animal marítimo ou fluvial que não tenha barbatanas e escamas), aparar o cabelo e a barba, tocar em mulher mestruada durante sete dias, usar roupa tecida com duas espécies de fio, semear no campo duas espécies de semente e acasalar animais de espécies diferentes. Quando o cristianismo se expandiu entre os povos não judeus, este código deixou de ser normativo, mas a proibição do homoerotismo permaneceu. A Igreja herdou a visão antropológica da heterossexualidade universal, com suas interdições.

O pecado de Sodoma foi recusar hospitalidade, levando à tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. Com freqüência, o estupro era uma forma de humilhação imposta por exércitos vencedores aos vencidos. Originalmente, o delito de Sodoma era visto como “orgulho, alimentação excessiva, tranqüilidade ociosa e desamparo do pobre e do indigente”. Através do Profeta, o Senhor diz: “Tornaram-se arrogantes e cometeram abominações em minha presença” (Ez 16, 49-50). Posteriormente tal pecado foi identificado com o homoerotismo, mas na origem ele nada tem a ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo, ou mesmo com as relações sexuais livremente consentidas entre pessoas do mesmo sexo.

Há um relato semelhante ao de Sodoma no livro dos Juízes (cap. 19 e 20). Um levita e sua concubina se hospedaram na cidade de Gabaá, da tribo de Benjamin. Os habitantes da cidade hostilizaram os visitantes e estupraram até a morte a concubina do levita. O Senhor suscitou os israelitas contra aquela cidade, e ela foi completamente destruída. Não se deve, a partir deste relato, condenar a heterossexualidade. O que se condena, tanto em Sodoma quanto em Gabaá, é a falta de hospitalidade e a hostilidade violenta para com a pessoa que vem de fora.

No Novo Testamento, a carta de São Paulo aos Romanos contém uma refutação do politeísmo (1,18-32). Os pagãos não adoravam o Deus único, mas as criaturas. E ainda permitiam o homoerotismo, que era abominação para os judeus. Este comportamento era visto como castigo divino pela prática religiosa errada: “Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas”. Outros escritos paulinos têm a mesma posição, associando o homoerotismo à idolatria e à irreligião (1 Cor 6, 9-11; 1 Tm 1, 8-11). No contexto judaicocristão da antiguidade, este argumento era compreensível. Não havia o que atualmente se entende por orientação sexual: uma característica constitutiva dos indivíduos que os faz gays ou héteros. É algo que nada a ver com a crença em um ou em vários deuses, ou com qualquer prática religiosa.

Muitas vezes estes textos bíblicos são usados sem a devida contextualização de sua época, sociedade e cultura; e sem a devida compreensão da situação presente, em um forte assédio moral contra pessoas homossexuais. Os norte-americanos chamam isto bible bullets, balas bíblicas. Elas são impiedosamente disparadas e ferem a autoestima das pessoas de modo devastador. A Palavra de Deus, fonte de vida em plenitude, acaba por gerar uma chaga profunda de sofrimento intenso, depressão e morte. É um terrorismo espiritual, face perversa do fundamentalismo religioso.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Hospitalidade: um dom para o outro e para si mesmo


Praticar a hospitalidade traz consigo um dom inesperado: descobrimos que, dando espaço ao outro na nossa casa e no nosso coração, a sua presença não nos subtrai espaço vital, mas amplia os nossos ambientes e os nossos horizontes, assim como a sua partida não deixa um vazio, mas dilata o nosso coração até permitir-lhe abraçar o mundo inteiro.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 25-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


"Não esqueçais a hospitalidade: alguns, praticando-a, acolheram anjos sem sabê-lo". Essa exortação da Epístola aos Hebreus nos lembra que a acolhida autêntica cria um diálogo fecundo de mudanças e de enriquecimentos para o hóspede, assim como o anfitrião: do diálogo, não saímos como havíamos entrado, e o desafio do diálogo requer a disponibilidade para empreender esse caminho.

No diálogo, surgem visões inéditas do outro, ganha espaço o fim do preconceito, a descoberta do que se tem em comum e também o que falta a cada um dos interlocutores. Ali ocorre a contaminação, o deslocamento das fronteiras: aquele outro que eu situava em uma dimensão remota se revela muito mais próximo e parecido comigo do que eu pensava. A fronteira permanece, mas não é mais um lugar de conflito ou de maus entendidos, mas sim de pacificação e de encontro. A hospitalidade, que exigiu que se ultrapassasse a soleira de uma casa, agora se aprofunda e se torna encontro entre humanos.

Certamente, se não se espera nada do outro, o diálogo já nasce morto: a suficiência, o querer bastar a si mesmo é de fato negação do outro, quer ele seja considerado como objeto a ser possuído, quer nos recusemos a vê-lo e a levá-lo em consideração. Mas, se aceitarmos a presença do outro, ainda mais se estivermos disposto a acolhê-lo como "hóspede interior", reconhecendo os seus traços presentes em nós, então explode a centelha do diálogo autêntico: damos tempo ao outro, trocam-se palavras que se tornam dons recíprocos.

O diá-logos, de fato, é uma palavra que se deixa atravessar por uma palavra outra, é um entrelaçamento de linguagens, de sentidos, de culturas: as interrogações do outro se tornam as minhas, as suas dúvidas incomodam as minhas certezas, as suas convicções interpelam as minhas. Então, descobriremos que, no diálogo, chegamos a expressar pensamentos jamais pensados antes, com a fascinante percepção de senti-los ao mesmo tempo como inauditos, embora familiares a nós mesmos, acabando por descobrir que temos há muito tempo entre as nossas mãos realidades que estávamos convencidos de ignorar.

É no diálogo, nesse lugar privilegiado em que cada um continua sendo ele mesmo e, ao mesmo tempo, aceita o risco de se tornar "outro", que o hóspede se torna a revelação de um dom que vem de "outro lugar", a descoberta de um ponto de vista inédito sobre a própria existência, o florescimento com palavras e gestos da interioridade que nos habita.

E tudo isso a partir de um gesto muito simples e concreto: o dar de beber e de comer ao hóspede. Sabemos que, nos países mediterrânicos, um copo de água ou uma xícara de café são o gesto mais espontâneo, mais imediato de hospitalidade. Mas hoje, na nossa sociedade, a mesa ainda é o centro, o polo em torno do qual se organiza a casa para que seja acolhedora?

Desde a sua primeira aparição na evolução das civilizações, a mesa se manifestou como lugar feito não só para comer, mas também para comunicar: se o alimento não é "falado", nutre apenas agressividade, violência e opressão. A mesa em comum com o hóspede é o espaço em que o alimento é compartilhado, e o comer se torna "convívio", ocasião de comunhão vital: é à mesa, à mesa compartilhada, que o ser humano tem a oportunidade, todas as vezes renovada, de se libertar do seu ser "devorador" – do alimento e do outro – e de se tornar mais uma vez, a cada dia, uma pessoa de comunhão.

A mesa é, de fato, o lugar em torno do qual o ser humano começou a fazer amizade, a criar sociedade, a estipular alianças. É ato comunal por excelência. Comer também é o comportamento humano mais carregado de simbolismo. Comer juntos, oferecer a própria comida ao hóspede, significa fazer com que o outro entre em uma comunhão muito profunda conosco.

De fato, "nós comemos o que a nossa mãe nos ensinou a comer. E não só isso – nos lembra Leo Moulin –, mas tal comida nos agrada e continuará agradando por toda a vida, porque nós comemos com as nossas recordações (...) Ou, melhor, nós comemos as nossas lembranças, porque nos dão segurança, temperadas como são por aquele afeto e por aquela ritualidade que caracterizaram os nosso primeiros anos de vida".

Isso também vale para a cultura-mãe, para a cultura em que fomos criados, para a cozinha particular daquela região ou daquela cidade que nós oferecemos ao hóspede (ou que vemos ser oferecida a nós). E entendemos também, descobrindo o desgosto que pode nos provocar a comida que nos é oferecida quando somos hóspedes ou as resistências que o outro manifesta diante dos alimentos que nós lhe oferecemos quando o hospedamos, como estamos enraizados em uma história particular e como é longo e cansativo o caminho rumo ao encontro com o outro.

Então, da partilha da palavra no diálogo e do alimento em torno de uma mesa, nasce um conhecimento novo do hóspede: aquele que era estranho, de quem se ignorava a proveniência, de quem custávamos a compreender a linguagem, agora se tornou alguém familiar, parte daquele círculo de pessoas e de mundos que constitui o "nosso" mundo, feito de semelhanças e de alteridades, de costumes e de novidades, de tradições recebidas e de novos caminhos tomados.

E esse elementos "socializante" da hospitalidade não deveria ser esquecido. Quando um de nós acolhe um outro, de fato, nunca está só: no meu acolher o outro sempre está comigo a minha história, as pessoas que a atravessaram, os encontros que a determinaram, a cultura que a orientou. Da mesma forma, o hóspede acolhido também não é um indivíduo fechado em si mesmo, nunca chega sozinho: consigo, ele traz o seu passado, as pessoas e os fatos que o fizeram sofrer ou alegrias, as esperanças e as decepções, o futuro esperado o o desconhecido.

Sim, no face a face de duas pessoas individuais, a hospitalidade também continua sendo o lugar comunitário por excelência: são dois mundos que se encontram através do entrelaçamento de dois olhares e do dialogar de dois rostos.

A hospitalidade é um dom! Dom a quem é hospedado, dom a quem hospeda. Certamente, a hospitalidade é apenas uma etapa, não pode ser traduzida em uma situação definitiva, porque ela sempre se dirige a novos interlocutores temporários que se voltam para a soleira da casa ou da cidade. A condição do hóspede é a de quem não permanece, senão se tornaria um membro e perderia a sua própria qualidade de forasteiro, estrangeiro, outro, peregrino: a hospitalidade é um rito de passagem, o dom temporário de um espaço.

Praticar a hospitalidade, então, trará consigo um dom inesperado: quase inadvertidamente acabaremos descobrindo que, dando espaço ao outro na nossa casa e no nosso coração, a sua presença não nos subtrai espaço vital, mas amplia os nossos ambientes e os nossos horizontes, assim como a sua partida não deixará um vazio, mas irá dilatar o nosso coração até permitir-lhe abraçar o mundo inteiro.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A verdade que emerge


Recebemos do nosso querido amigo Pe. James Alison a seguinte mensagem, a respeito de sua participação no evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays cristãos na Igreja Católica", que realizaremos no próximo domingo, dia 03/06, na UNIRIO (saiba mais aqui):
"Estou imensamente honrado pelo convite, e cheio de entusiasmo para partilhar com tod@s. Sinto que a nossa confiança está crescendo por todo o mundo, na medida em que fica cada vez mais evidente que estávamos falando a verdade, por menos conveniente que parecesse no passado."
O Pe. James participará da nossa mesa-redonda com o tema "A verdade que emerge", sobre a presença e pertença dos LGBTs na Igreja e o amor irrestrito e incondicional do Pai por cada um de nós.

Se quiser saber mais, leia sua "Carta de um padre católico a um jovem homossexual", aqui, e a introdução de João Batista Libânio, SJ, ao seu livro "Fé além do ressentimento: fragmentos católicos em voz gay", aqui.

Eu só queria que vocês soubessem


Não é incomum que eu seja abordado ou receba emails de pessoas que leram coisas que escrevi ou me ouviram em algum espaço falando sobre suas experiências e de que forma o meu trabalho de alguma forma ressoa nessas experiências. Foi assim, inclusive, que conheci o meu namorado. Guardo com muito carinho e respeito todas essas confissões, em geral carregadas de muita dor e sofrimento, mas também há alegria e satisfação. Elas acontecem (pessoal ou virtualmente) num espaço que eu chamaria de sagrado e sempre me emocionam, fazendo com que me sinta ao mesmo tempo privilegiado e responsável diante de tamanha confiança. Essas experiências e os seus sujeitos, sem dúvida, são incorporadas no trabalho que desenvolvo e na defesa das coisas nas quais acredito e pelas quais procuro lutar.

Recentemente tive mais uma dessas experiências e que me marcou profundamente. Fui abordado por um rapaz que disse que queria conversar comigo. Percebi que ele tinha me esperado, e esperado a oportunidade em que pudesse falar comigo privadamente. Naquela ocasião, não consegui dar atenção a ele e ficamos de conversar em outro momento. Acabei esquecendo e quando o vi novamente disse que ainda conversaríamos. Ele disse que não era nada importante e apenas algum tempo depois a conversa aconteceu. Achei que ele queria comentar algo sobre meu trabalho, perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida. Ele era bastante tímido e a conversa foi curta, talvez mais curta do que deveria ter sido.

Em poucas palavras ele me disse: “Eu queria te dizer que meus pais me mandaram para um desses programas para ex-gays. Eu fique lá durante um período longo e no último dia em que eu estive nesse lugar eu fui abusado sexualmente pelo diretor. Foi então que eu tive certeza de que não havia nada de errado comigo. Eu só queria que você soubesse”. Ou mais ou menos isso, porque de repente eu já nem consegui mais prestar atenção aos detalhes, embora ele falasse com uma serenidade que ainda agora me espanta. Ainda falamos de algumas outras questões. Eu disse que era importante que ele se cuidasse, especialmente agora que estava explorando com liberdade o fato de ser homossexual.

Foi apenas o tempo de eu me afastar um pouco, ficar sozinho, e começar a chorar quase sem me dar conta. Chorei por sentir uma profunda tristeza, de não ter dito tudo o que eu poderia ter dito para que ele ficasse bem e para que as suas feridas, se não fossem curadas, fossem aliviadas. Chorei de raiva, por imaginar que essas histórias são tão reais e tão presentes e continuamos permitindo que elas se repitam em nome de sei lá o que. Chorei por imaginar todas as coisas que foram feitas com esse rapaz e com tantos outros nesse lugar e chorei por causa da minha sensação de impotência, por pensar que eu não pude fazer nada para que isso não acontecesse, para que ele não tivesse que passar pelo que passou. Chorei por tantos outros motivos e todas as vezes que lembro dessa história choro de novo. E, provavelmente, todas essas questões são mais minhas do que dele, pois o seu olhar expressava exatamente o que ele me dizia: “Eu só queria que você soubesse”.
Queria pegar ele no colo, dizer que tudo ia ficar bem e que ninguém mais faria mal a ele – algo que infelizmente eu não posso fazer, nem garantir. Ainda tive uma última oportunidade de abraçá-lo e, olhando em seus olhos, que nesse momento também se encheram de lágrimas disse: “Você é lindo, Deus te ama e não deixa ninguém dizer o contrário”. Uma tentativa de bênção para quem tão generosamente me buscou em confissão e compartilhou algo tão íntimo e pessoal.

Fiquei pensando no que fez com que eu fosse, naquele momento, a pessoa escolhida para ouvir essa confissão. Penso, e só consigo escutar ele dizendo que “queria que eu soubesse”. Talvez como prova definitiva de que os tais ministérios para ex-gays são efetivamente uma violação do direito humano de auto-determinação no âmbito do gênero e da sexualidade e uso abusivo da religião para manutenção de estruturas, padrões e relações de poder desiguais. Talvez o fato de contar para alguém também fosse parte de um processo de cura através da verbalização e do reconhecimento da violência sofrida.

Na verdade não sei. Mas a firmeza, a simplicidade e a serenidade com a qual ele me contou essa experiência me fazem pensar que, de alguma forma, o fato de ele falar e o fato de eu saber pudessem fazer com que outras pessoas não tenham que passar por essa mesma experiência, fazendo da confissão uma denúncia. Por isso, talvez arbitrariamente, eu escrevo esse texto pois, assim como esse rapaz, eu queria que vocês soubessem!

E sabendo, fizessem alguma coisa para que impedir que histórias como essas se repitam, marcando profunda e irremediavelmente a vida de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

- André S. Musskopf, bacharel, mestre e doutor em teologia pela Escola Superior de Teologia
Reproduzido via blog do autor

''O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor''

Foto: Pink Sword

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças.

Publicamos aqui a Audiência Geral do Papa Bento XVI, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 23-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


Queridos irmãos e irmãs,

Quarta-feira passada, eu mostrei como São Paulo diz que o Espírito Santo é o grande mestre da oração e nos ensina a nos voltarmos novamente para Deus com os termos afetuosos dos filhos, chamando-o de "Abba, Pai". Assim fez Jesus. Mesmo no momento mais dramático da sua vida terrena, Ele nunca perdeu a confiança no Pai e sempre o invocou com a intimidade do Filho amado. No Getsêmani, quando sente a angústia da morte, a sua oração é: "Abba! Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice! Mas não o que eu quero, mas sim o que tu queres" (Mc 14, 36).

Desde os primeiros passos do seu caminho, a Igreja acolheu essa invocação e a assumiu como própria, sobretudo na oração do Pai Nosso, em que dizemos cotidianamente: "Pai ... seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6, 9-10). Nas Cartas de São Paulo, encontramo-la duas vezes. O Apóstolo, ouvimo-lo agora, se dirige aos gálatas com estas palavras: "A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abba, Pai!" (Gl 4, 6). E no centro daquele canta ao Espírito que é o capítulo oitavo da Carta aos Romanos, São Paulo afirma: "E vocês não receberam um Espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abba! Pai!" (Rm 8, 15).

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças; uma relação filial análoga à de Jesus, embora a origem e a espessura sejam diferentes: Jesus é o Filho eterno de Deus que se fez carne, nós, ao contrário, nos tornamos filhos n'Ele, no tempo, mediante a fé e os Sacramentos do Batismo e da Crisma. Graças a esses dois sacramentos somos imersos no Mistério pascal de Cristo. O Espírito Santo é o dom precioso e necessário que nos torna filhos de Deus, que realiza aquela adoção filial a qual são chamados todos os seres humanos para que, como precisa a bênção divina da Carta aos Efésios, Deus, em Cristo, "nos escolheu antes de criar o mundo para que sejamos santos e sem defeito diante dele, no amor" (Ef 1,4).

Talvez, o ser humano de hoje não percebe a beleza, a grandeza e a consolação profunda contidas na palavra "pai" com que podemos nos dirigir a Deus na oração, porque a figura paterna muitas vezes hoje não é suficientemente presente, embora muitas vezes não seja suficientemente positiva na vida cotidiana. A ausência do pai, o problema de um pai não presente na vida da criança é um grande problema do nosso tempo, por isso se torna difícil entender na sua profundidade o que quer dizer que Deus é Pai para nós.

De Jesus mesmo, da sua relação filial com Deus, podemos aprender o que significa propriamente "pai", qual é a verdadeira natureza do Pai que está nos céus. Críticos da religião disseram que falar do "Pai", de Deus, seria uma projeção dos nossos pais no céu. Mas o oposto é verdadeiro: no Evangelho, Cristo nos mostra quem é pai e como é um verdadeiro pai, de modo que possamos intuir a verdadeira paternidade, aprender também a verdadeira paternidade. Pensemos na palavra de Jesus no Sermão da Montanha, onde diz: "Amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu" (Mt 5, 44-45).

É justamente o amor de Jesus, o Filho unigênito – que chega ao dom de Si mesmo na cruz – que nos revela a verdadeira natureza do Pai: Ele é o Amor, e nós também, na nossa oração de filhos, entramos nesse circuito de amor, amor de Deus que purifica os nossos desejos, as nossas atitudes marcadas pelo fechamento, pela autossuficiência, pelo egoísmo típicos do homem velho.

Gostaria de me deter um momento sobre a paternidade de Deus, para que possamos nos deixar aquecer o coração por essa profunda realidade que Jesus nos fez conhecer plenamente e para que a nossa oração seja por ela nutrida. Portanto, podemos dizer que, em Deus, o ser Pai tem duas dimensões. Acima de tudo, Deus é nosso Pai, porque é o nosso Criador. Cada um de nós, cada homem e cada mulher, é um milagre de Deus, é querido por Ele e é conhecido pessoalmente por Ele.

No Livro do Gênesis, quando se diz que o ser humano é criado à imagem de Deus (cf. 1, 27), quer-se expressar justamente essa realidade: Deus é o nosso Pai, por Ele não somos seres anônimos, impessoais, mas temos um nome. E uma palavra nos Salmos sempre me toca quando eu a rezo: "Tuas mãos me plasmaram", diz o salmista (Sl 119,73). Cada um de nós pode dizer, nessa bela imagem, a relação pessoal com Deus: "Tuas mãos me plasmaram. Tu me pensaste e criaste e desejaste".

Mas isso ainda não basta. O Espírito de Cristo nos abre a uma segunda dimensão da paternidade de Deus, além da criação, porque Jesus é o "Filho" em sentido amplo, "da mesma substância do Pai", como professamos no Credo. Tornando-se um ser humano como nós, com a Encarnação, a Morte e a Ressurreição, Jesus, por sua vez, nos acolhe na sua humanidade e no seu próprio Filho, para que possamos entrar no seu específico pertencimento a Deus.

Certamente, o nosso ser filhos de Deus não tem a plenitude de Jesus: devemos nos torná-lo cada vez mais, ao longo do caminho de toda a nossa existência cristã, crescendo no seguimento de Cristo, na comunhão com Ele para entrar cada vez mais intimamente na relação de amor com Deus Pai, que sustenta a nossa vida. É essa realidade fundamental que nos é descerrada quando nos abrimos ao Espírito Santo, e Ele nos faz voltar novamente a Deus dizendo-lhe: "Abbá!", Pai! Realmente entramos além da criação na adoção com Jesus; unidos estamos realmente em Deus e filhos de um modo novo, em uma dimensão nova.

Mas gostaria agora de voltar aos dois trechos de São Paulo que estamos considerando acerca dessa ação do Espírito Santo na nossa oração. Aqui também são duas passagens que se correspondem, mas contêm uma tonalidade diferente. Na Carta aos Gálatas, de fato, o Apóstolo afirma que o Espírito grita em nós "Abba! Pai!". Na Carta aos Romanos, ele diz que somos nós que gritamos: "Abbá! Pai". E São Paulo quer nos fazer compreender que a oração cristã nunca é, nunca ocorre apenas em sentido único de nós a Deus, não é só um "agir nosso", mas é também expressão de uma relação recíproca em que Deus age por primeiro: é o Espírito Santo que grita em nós, e nós podemos gritar porque o impulso vem do Espírito Santo. Nós não poderíamos rezar se não estivesse inscrito nas profundezas do nosso coração o desejo de Deus, o ser filhos de Deus.

Desde que existe, o “homo sapiens” sempre está em busca de Deus, tenta falar com Deus, porque Deus inscreveu a si mesmo nos nossos corações. Portanto, a primeira iniciativa vem de Deus, e, com o Batismo, Deus de novo age em nós, o Espírito Santo age em nós; é o primeiro iniciador da oração, para que possamos depois realmente falar com Deus e dizer "Abba". Portanto, a Sua presença abre a nossa oração e a nossa vida, abre aos horizontes da Trindade e da Igreja.

Além disso, compreendemos – este é o segundo ponto – que a oração do Espírito de Cristo em nós e a nossa n'Ele não é só um ato individual, mas também um ato de toda a Igreja. No rezar, abre-se o nosso coração, entramos em comunhão não só com Deus, mas precisamente com todos os filhos de Deus, porque somos uma coisa só. Quando nos dirigimos ao Pai na nossa sala interior, no silêncio e no recolhimento, jamais estamos sozinhos. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, fazemos parte de uma grande sinfonia que a comunidade cristã espalhada em toda a parte da terra e em todo tempo eleva a Deus.

Certamente, os músicos e os instrumentos são diferentes – e esse é um elemento de riqueza –, mas a melodia de louvor é única e em harmonia. Todas as vezes, então, que gritamos e dizemos: "Abba! Pai!" é a Igreja, toda a comunhão dos seres humanos em oração que sustenta a nossa invocação e a nossa invocação é invocação da Igreja. Isso se reflete também na riqueza dos carismas, dos ministérios, das tarefas, que desenvolvemos na comunidade.

São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: "Existem diversos carismas, mas um só é o Espírito; há diversos ministérios, mas um só é o Senhor; há diversas atividades, mas um só é Deus que realiza tudo em todos" (1Cor 12, 4-6). A oração guiada pelo Espírito Santo que nos faz dizer "Abbá! Pai!" com Cristo e em Cristo nos insere no único grande mosaico da família de Deus, em que cada um tem um lugar e um papel importante, em profunda união com o todo.

Uma última anotação: aprendemos a gritar! "Abba!, Pai" também com Maria, a Mãe do Filho de Deus. O cumprimento da plenitude do tempo, do qual fala São Paulo na Carta aos Gálatas (cf. 4, 4), acontece no momento do "sim" de Maria, da sua adesão plena à vontade de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38).

Queridos irmãos e irmãs, aprendamos a apreciar na nossa oração a beleza de sermos amigos, ou, melhor, filhos de Deus, de podê-lo invocar com a confidência e a confiança que um filho tem pelos pais que o amam. Abramos a nossa oração à ação do Espírito Santo para que em nós ele grite a Deus "Abba! Pai" e para que a nossa oração mude, se converta constantemente o nosso pensar, o nosso agir para torná-lo cada vez mais conforme ao do Filho Unigênito, Jesus Cristo. Obrigado.

domingo, 27 de maio de 2012

Uma fé para além do ressentimento


“Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele”, reflete James Alison [que participará da mesa-redonda em nosso evento no dia 3/6, aqui no Rio de Janeiro - mais informações aqui] na entrevista exclusiva que concedeu por telefone à IHU On-Line. Ele analisa a possibilidade de uma fé para além do ressentimento. Em sua opinião, isso é possível “quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém”. E frisa: “Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem”.

Outro tema da conversa com Alison foi a questão do desejo rivalístico. James explica que o desejo não nasce em nós, mas nos outros. “Assim, nossos desejos são ‘emprestados’”. E pondera: “Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico”.

James Alison (Londres, 1959) é teólogo católico, sacerdote e escritor. Com estudos em Oxford, é doutor pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte. É considerado um dos principais expositores da vertente teológica do pensamento de René Girard. Atualmente é Fellow da Fundação Imitatio, instituição que apoia a divulgação da teoria mimética. Há mais de 15 anos é um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays. Seu trabalho é respeitado em todo o mundo pelo caminho rigoroso e matizado que tem aberto nesse campo minado da vida eclesiástica. Seus sete livros já foram traduzidos para o espanhol, italiano, francês, holandês e russo. Em português podem ser lidos Uma fé além do ressentimento: fragmentos católicos numa chave gay (São Paulo: É Realizações, 2010 com introdução de João Batista Libânio, SJ [leia aqui]) e O pecado original à luz da ressurreição (São Paulo: É Realizações, 2011). Seu trabalho mais recente é A vítima que perdoa – uma introdução para a fe cristá para adultos em doze sessões. A versão em língua inglesa será lançada em texto e vídeo ainda em 2012 com a possibilidade de versões em outros idiomas em andamento. James Alison reside em São Paulo, onde está iniciando uma pastoral católica gay e viaja pelo mundo inteiro dando conferências, palestras e retiros. Textos seus podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk. Mais detalhes sobre a Fundação Imitatio encontram-se disponíveis aqui.

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


IHU On-Line – Por que o dogma do pecado original sempre foi alvo de críticas?
James Alison – O pecado original tem sido alvo de dois tipos de críticas. A primeira delas é porque vem sendo associado, há muito tempo, com uma visão muito primitiva da antropologia ou das origens humanas em termos de paleontologia, ou seja, aquilo que já se sabe sobre as origens. À medida que as pessoas imaginam que a doutrina do pecado original tem a ver com Adão e Eva no Jardim do Éden (e tudo fica em torno dessa questão) parece que, na mente popular, a doutrina está vinculada a uma visão ultrapassada das origens humanas. Acrescento que, na verdade, trata-se de uma falsa caracterização da doutrina essa associação de Adão e Eva no Jardim. O segundo motivo é porque desde o Iluminismo o pensamento ocidental não tem gostado muito da ideia de que a nossa razão seria, digamos, viciada. O mundo da ilustração gosta de pensar que somos “inocentes”, e que o mal está nos outros, que nascemos inocentes e estruturas sociais ruins fazem com que a vida seja difícil. Procuram, assim, salvar a suposta inocência da humanidade e acham que a doutrina do pecado original é uma acusação provinda de um deus cruel e vingativo. Essa segunda crítica é muito menos ouvida ultimamente. Nos últimos 50 anos ouve-se falar no colapso da mente ilustrada como um crescente entendimento de como somos violentos desde os nossos começos. É muito menos difícil agora pensar os seres humanos como não inocentes do que era há umas cinco décadas atrás.

IHU On-Line – Em que aspectos o pecado original é a base indispensável de toda a doutrina da salvação?
James Alison – Não é a base indispensável, porque a base é de onde começa. O pecado original é uma das conclusões de toda a doutrina da salvação. A doutrina do pecado original é uma visão retrospectiva, ou seja, no centro da fé cristã está a vivência entre nós, da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. A partir da ressurreição como dom do Espírito Santo é que o grupo apostólico começa a poder olhar para trás, pensando que imaginávamos como era a vida e agora podemos encará-la de outra forma. Jesus abriu nossos olhos sobre que tipo de pessoa o ser humano é capaz de ser: um ser humano não fadado à morte, não necessariamente movido pelas violências que estão na base de toda a comunidade humana. A partir desse momento em que se olha retrospectivamente, percebe-se que desde o início da humanidade (e a palavra Adão é uma espécie de atalho para se refletir os começos de toda humanidade) a cultura humana tem sido, de alguma maneira, desenvolvida na morte. Agora estamos entendendo essa cultura como contingente, e não necessária. Não fomos feitos para isso, mas para outra coisa. A doutrina não é a base, mas a visão retrospectiva a partir da ressurreição, e algo necessário. É o sinal de quanta diferença fez Jesus.

IHU On-Line – Em que sentido a salvação conseguida por Cristo é a superação de toda religião sacrificial?
James Alison – Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro, e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.

IHU On-Line – Como a hipótese mimética de René Girard ajuda a compreender esse dogma?
James Alison – Quero enfatizar a importância do que é uma visão retrospectiva no sentido daquilo que o pensamento de Girard nos permite fazer, e entender melhor essa visão restrospectiva. A partir da ressurreição, quando se percebe como os humanos podem ser, olhamos para trás e nos damos conta de que pensávamos algo como normal, e depois nos espantamos com isso. O que parecia destino era, na verdade, contingência. Não somos seres fadados à morte, mas à vida. Isso altera todas as relações entre nós.

IHU On-Line – A partir do pensamento de Girard, como é possível distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico e o desejo pacífico/criador?
James Alison – O centro do pensamento de Girard é que desejamos segundo o desejo do outro. O desejo não nasce em nós, mas no outro. Isso nos incita a desejar. Assim, nossos desejos são “emprestados”. Isso significa que tipicamente nos achamos dentro de rivalidades antes mesmo de nos darmos conta de que isso está acontecendo. Para que haja um desejo, em primeiro lugar, este precisa ser pacífico. É o caso da criança desejante. Muito do que ela quer é incitado pelos próprios pais. É interessante notar o quanto o desejo tende a ser rivalístico inclusive nas crianças pequenas. Desde cedo, os pequenos podem ficar com raiva se percebem que outras crianças ao seu lado estão sendo atendidas primeiro. Não pensemos que somos inocentes durante muito tempo e que depois não o somos mais. Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico. Ninguém de nós consegue viver sem rivalidade, inclusive para construir nossa identidade por contraste com os outros. Em nosso caso, esse desejo possessivo ou rivalístico é o normal, tal como se apresenta em nossa vida. É o que mais há, e aquilo que todas agências de publicidade conhecem muito bem. Se você quer vender algo, você tem que dar a impressão à pessoa de que ela precisa daquilo. Quando uma modelo aparece vendendo alguma coisa, tem-se a impressão de que, se adquirirmos aquilo, seremos como ela. O difícil em todos os casos é voltarmos a descobrir aquilo que é possível dentro do nosso desejo, que é a possibilidade de uma emulação, uma imitação não rivalística. Quando recebemos o que vem do outro sem a necessidade de “agarrar” esse desejo. É o sentido saudável, e o que chamo de desejo pacífico. Girard fala em desejo mimético sobretudo para a versão mais negativa do desejo. Em princípio, existe o desejo apropriativo, que aparece “agarrando”. E há o desejo pacífico, aquele que é de imitação sem essa necessidade de “agarrar”.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para pensarmos uma fé para além do ressentimento?
James Alison – O que é interessante no pensamento de Girard é que ele aceita o desafio de Nietzsche, o pensador que acusou o cristianismo de ser ressentido e dependente desse sentimento. Alguns dos textos mais bonitos de Girard são, justamente, textos em que ele discute Nietzsche. Descobri que Girard, ao desmascarar o mecanismo do bode expiatório, da vitimização que há na base da sociedade, também nos oferece a possibilidade de pensar de forma não vitimária. Essa é a grande novidade para mim. Em vez de se pensar o herói ou vítima, que na verdade são a mesma pessoa, trata-se de reconhecer a cumplicidade dentro daqueles mecanismos sem ser levado por eles. Isso é a possibilidade da fé além do ressentimento. É dar-se conta de que se é partícipe de um mundo no qual a vitimização está por todas as partes. Mas estou disposto a aprender a amar mesmo dentro de toda essa confusão. Isso Nietzsche não entendeu no cristianismo, mesmo que chegou muito próximo disso, segundo Girard. Mesmo que Nietzsche tenha optado por Dionísio em lugar do Crucificado.
Uma fé além do ressentimento é quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém. Em termos de vivência pessoal, isso é o mais fundamental: como deixar de se considerar vítima ou herói. Como perder o ressentimento e chegar a desenvolver o papel de irmão, ou irmã em vez de vítima ou herói, um processo de humanização. É o que busco elaborar.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para uma melhor compreensão da questão gay em nossa sociedade?
James Alison – Sim, oferece, mesmo que a questão gay não seja um dos interesses principais de sua obra. É possível vermos como Girard entende os mecanismos violentos de exclusão que os diferentes grupos humanos fazem com uma série de grupos considerados perigosos, contaminantes, diferentes. A partir disso, chegam a ser bem compreensíveis os mecanismos irracionais que levam à exclusão e tratamento indigno das pessoas gays e lésbicas em nossa sociedade precisamente porque chegam a ser portadores de acusações estereotipadas, como se estivessem causando o colapso da sociedade, da família e da moral.

Essas acusações são feitas contra alguém que é “dispensável”, que você quer convenientemente jogar fora, sem ter que olhar para as causas reais do que está acontecendo. Dizer que os gays estão provocando o colapso da família é uma declaração que só pode partir de uma pessoa que não quer prestar atenção nas dinâmicas reais das famílias modernas. Atribuem esse poder maléfico aos gays, que são um grupo muito pequeno para uma realidade social grande, que são as mudanças na maneira de ser família. Isso é ridículo, especialmente em se considerando que os próprios gays são membros de famílias. Chega-se a dizer que deixar os gays casarem irá provocar o colapso do matrimônio.

O que, na verdade, provoca o colapso do matrimônio é o comportamento dos heterossexuais em seus relacionamentos matrimoniais. Já é muito para nós, pessoas gays ou pessoas heterossexuais, arcar com os fracassos de nossos próprios relacionamentos! Para a mentalidade sacra, contudo, esses argumentos não importam. O que importa é poder desenhar o mal, e, uma vez que este fique desenhado, torna-se possível construir uma falsa bondade às costas da vítima. Esse é o mecanismo que Girard desvela. Nossas sociedades são, sim, sacrificiais, seguindo padrões arcaicos, nos pensando modernos e ilustrados.

IHU On-Line – Quais são as maiores contribuições de Girard para a filosofia e a teologia no século XXI?
James Alison – Suas maiores contribuições são um desafio de uma antropologia nova, entendendo a maneira como os “bichos” humanos, que se comportam de maneira imitativa, se comportam e como constroem suas sociedades, sem recorrer para ideias muito idealistas. Precisamos nos fixar num entendimento de mecanismos muito humanos na construção da sociedade. Isso é a insistência girardiana.

Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele.

Sabe-se que grande parte do discurso sobre Deus tem sido viciado pela atribuição de violência para poder entender a morte de Jesus de maneira salvífica. Várias teorias da salvação, expiação e redenção pensam assim. Então, pela primeira vez em muitos séculos, Girard nos permite entender de uma nova forma a maneira pela qual a morte de Jesus é salvífica sem que isso atribua qualquer tipo de violência a Deus. Essa é uma questão fundamental.

Outra área na qual Girard faz muita diferença na Teologia é na questão da leitura bíblica. Isso porque Girard é um leitor de textos a partir de sua intuição mimética. E é como leitor de textos que nos ajuda a ler o Antigo e Novo Testamento e mostrar, pela primeira vez em séculos, uma maneira de perceber como o Novo Testamento se aninha dentro do Antigo. Isso nos permite avançar além daquelas tendências do cristianismo que não prestam atenção ao Antigo Testamento porque é demasiado violento, ou aquela posição fundamentalista de deixar que o Novo Testamento seja totalmente dominado pelo Antigo.

IHU On-Line – Em que medida suas ideias podem ajudar a “arejar” a Igreja Católica?
James Alison – Na verdade, só o Espírito Santo poderia arejar a Igreja Católica, uma vez que ela ainda é muito resistente... Girard nos permite elaborar um novo paradigma da fé, entender de novo a fé cristã. Em vez da explicação da fé que recebíamos nos catecismos antigos, muito moralistas, chega a ser possível agora entender a fé de maneira orgânica, como boa nova, com o pensamento de Girard como catalizador. Esse é o dom fundamental que esse autor nos oferece.

É a possibilidade de uma nova evangelização que seja autenticamente boa nova, e não o moralismo antiquado disfarçado de alta tecnologia moderna, muito chique e atual, mas que ao ter seu véu retirado, mostra a mesma incapacidade de tratar com questões como a relativa aos gays, por exemplo. Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem.

Em segundo lugar, destaco que ao nos desvelar o mecanismo do bode expiatório, Girard nos oferece a possibilidade de fazer uma autocrítica institucional constante. Isso em termos eclesiásticos talvez seja a contribuição mais interessante, se é que estamos dispostos a fazê-lo. A partir do Cristo ressuscitado, da vítima que está no nosso meio, começarmos a ser autocríticos com os posicionamentos vitimários de nossos mecanismos eclesiásticos. Mesmo fora do âmbito da igreja isso é algo de fundamental importância.

Na sociedade moderna nos damos conta do quanto pesam as instituições sobre nós. Como seres humanos dependemos fatalmente das instituições. Ao mesmo tempo, nos damos conta de que elas nos movem fora do nosso controle. É difícil tomarmos responsabilidade por nossa vida institucional. As vozes dissonantes são as de pessoas “jogadas fora”, que passam a protestar e se colocar contra essas instituições. Por isso a possibilidade de uma vivência autocrítica, que não tem necessidade de recorrer a estes jogos vitimários, seria um dom muito, muito grande para nós todos.

sábado, 26 de maio de 2012

Igualdade, não "tolerância"


"Ao longo da história, as afirmações de 'liberdade religiosa' e as atitudes de 'tolerância' às vezes se confundem. E sempre foi mais fácil tolerar o outro, do que lhe conceder real liberdade para ser tal como é."

- Elias Wolff, em sua análise da declaração Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa


"Seis anos atrás, na escola de meus filhos, foi criada a Aliança Gay-Hetero de Pais para ajudar a escola a incorporar os direitos dos gays em seu currículo de direitos civis. Alguns pais relutantes confundiram a meta de ensinar as crianças a enxergar a escolha de amar uma pessoa do mesmo gênero como sendo um direito civil fundamental com ensiná-las sobre comportamentos sexuais. Foram precisos alguns anos para mostrar a diferença aos pais e para superar a mensagem um tanto quanto aviltante de 'tolerância', substituindo-a pelo conceito de igualdade e proteção plenas garantidas em lei.

O exercício pedagógico empreendido por nossa escola e que o país [EUA] como um todo está enfrentando com dificuldades acaba de ganhar um ímpeto importante do presidente [Obama]. Em 122 palavras, ele traçou um marco contra o qual serão medidas leis e normas culturais futuras."

- Julia Sweig, em artigo publicado na Folha de S. Paulo esta semana



Como combater a homofobia na escola

Foto daqui

Do aluno que desmunheca ao grupinho de meninas que brinca de beijar na boca, a escola convive diariamente com situações que colocam a orientação sexual dos alunos em discussão. Os jovens que apresentam comportamentos heterossexuais, condizentes com o sexo biológico, não preocupam. Meninos se comportam dentro das regras para o gênero masculino e meninas seguem o jeito predefinido das garotas.

O termo heteronormatividade resume esse conjunto de atitudes preconceituosas e compulsórias. "O conceito embasa a ideia de que a heterossexualidade é a sexualidade natural", diz Maria Cristina Cavaleiro, pedagoga do Grupo de Estudos de Gênero, Educação e Cultura Sexual da Universidade de São Paulo (USP).

Nesse cenário, a homossexualidade e a bissexualidade são consideradas desvios da norma. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo publicada em 2009 mostra que, quando perguntados sobre pessoas que menos gostam de encontrar, os entrevistados classificaram em quarto lugar os homossexuais (16%). Foram deixados para trás somente por usuários de drogas, pessoas que não acreditam em Deus e ex-presidiários.

Quando o olhar se volta para a escola, o panorama não é diferente. Outro estudo, divulgado em 2004 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), revela que quase 40% dos alunos entrevistados não gostariam de ter homossexuais como colegas e mais de 35% dos pais não gostariam de tê-los como amigos dos filhos.

Antes de tudo, o que deve ficar claro para todos é que ninguém escolhe ser gay. "Essa orientação tem relação direta com o desejo, a atração física por alguém do mesmo sexo. E não é premeditado. Ocorre espontaneamente", diz o professor Luiz Ramires Neto, mestre em Educação pela USP e um dos diretores da organização não-governamental Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor (Corsa), de São Paulo.

Segundo ele, até hoje não há análises conclusivas sobre o assunto, nem no campo da genética nem nos estudos sobre o impacto do ambiente social (leia as dúvidas respondidas nos destaques desta reportagem). O fato é que, no ambiente escolar, comportamentos desviantes da norma muitas vezes são encarados como problemas. "O professor tem de entender que não vai mudar a orientação sexual de um jovem, mas tem como despertar na turma o respeito pela diversidade sexual", aconselha Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, especializado em Educação e sexualidade. "O educador pode debater com base na história de homossexuais que desempenham funções de destaque ou aproveitar um debate sobre a família para tratar de tipos de arranjo, especialmente os que vão além de pai, mãe e filhos."

Preconceito contra alunos, parentes e educadores
No dia a dia da escola, uma das situações mais incômodas é a manifestação exagerada da homossexualidade. "Assumir uma postura de enfrentamento é uma tática de reação muito comum do jovem, que pode se dar por meio de atitudes como afinar a voz, rebolar (se menino) ou agir de maneira bem agressiva e engrossar a fala (se menina)", descreve Lúcia Facco, doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e estudiosa do assunto. "Quem chama a atenção dessa forma está defendendo seu jeito de ser, da mesma maneira que o faria um aluno esquerdista que vai à aula vestindo uma camiseta com a estampa de Che Guevara", diz Ramirez Neto, da ONG Corsa.

Mas nem todos extravasam os sentimentos. Alguns ficam quietos. São esses os que mais sofrem. "Desenvolvem depressão e até abandonam a escola", comenta a professora e pesquisadora de diversidade de gênero Edith Modesto. Angela Moysés Nogueira Rodrigues, de Brasília, observou que a sua filha mais velha, Thaís, parecia ser muito tímida. Enquanto todos brincavam no pátio da escola de Ensino Fundamental em que estudava aos 13 anos, ela se sentava num canto para ler. Até que, com o tempo, numa conversa franca, a menina assumiu ser lésbica. Não havia política na escola sobre o tema, mas, com a ajuda dela, a direção passou a orientar os professores para trabalhar a temática.

E quando os pais de alunos são homossexuais? Jéssica Gutierrez e Carina Ramires, da capital paulista, criam juntas as filhas biológicas de outros casamentos, uma de 8 anos e outra de 10. "Hoje, as duas não enfrentam dificuldades. Todos sabem que elas têm duas mães", fala Jéssica. O casal de mulheres participa de reuniões e de eventos sem constrangimentos. Uma vez, uma das professoras perguntou qual era a formatação da família, pois precisava preparar atividades para o dia dos pais. "Explicamos naturalmente e todos entenderam", lembra Jéssica.

Pena que a clareza e o entendimento nem sempre dão o tom. Há casos em que manter a discrição sobre a homossexualidade poupa sofrimento - e, em última instância, garante o emprego. Renato*, professor do Ensino Fundamental da rede estadual paulista, é gay e procura deixar esquecer isso na escola. "Nem todos os alunos sabem. A maioria gosta de estar comigo. E os jovens podem se afastar ao saber. Não vejo professores homossexuais assumidos sendo abraçados pelos alunos com carinho ou afetividade", diz.

Levar uma vida de fingimento, porém, é cansativo. No tempo livre com os colegas, por exemplo, Renato se vê obrigado a passar por situações constrangedoras, como omitir detalhes do seu último fim de semana. Em pesquisas sobre o tema, a escritora Lúcia Facco presenciou casos semelhantes e orienta: "Primeiramente, o gay precisa entender que não é nenhum ser especial. Além disso, cabe a ele buscar apoio na direção, já que um trabalho isolado pode ser mal entendido e visto como uma espécie de apologia. É vital saber que essas atitudes funcionam e vão ajudar outras pessoas".

* * *

Como lidar com uma aluna gay assumida?
Pergunta do leitor A. S., São Luis, MA
Ao iniciar qualquer diálogo, o professor deve aceitar a autodefinição da aluna, sem a questionar. A estudante tem o direito de proteção a reações hostis para se ver e se julgar pela sinceridade dos seus desejos, sem preconceitos. Outros estudantes poderão reagir negativamente à presença de um gay na sala de aula, mas lembre-se de que eles também estão preocupados em tentar construir a própria identidade (e pode ser perturbador observar esse confronto com alguém que não siga o caminho da maioria). Grande parte dos homossexuais descobre seu desejo sexual na idade escolar, como acontece com os heterossexuais. Durante a adolescência, jovens podem ter experiências com colegas do mesmo sexo, o que não é a comprovação irrefutável da orientação de alguém. Pode ser um meio de buscar conhecer certas formas de satisfação. Mas pode também ser o momento de uma descoberta, caso o jovem se sinta confortável com a experiência. O problema não é o aluno ser declaradamente gay, mas como podemos aprender (e também ensinar) que são múltiplas as formas de vivenciar os afetos e a sexualidade. A Educação deve desmontar estereótipos, veicular conhecimentos objetivos e fomentar nos jovens a capacidade de defender a si próprios de forma não violenta.

* * *

A mãe de uma aluna é lésbica. O que faço?
Pergunta da leitora B. P., Ilhéus, BA
Primeiramente, trate essa família como qualquer outra. A maioria das escolas ainda só entende uma organização: a heteropatriarcal, em que há o pai, a mãe e os filhos. A questão é que hoje existem várias configurações possíveis na sociedade: mães solteiras ou separadas que criam os filhos sozinhas, avós que cuidam dos netos integralmente, homens e mulheres separados que se casam novamente e passam a criar juntos os filhos de outros casamentos, casais homossexuais que se unem e, juntos, cuidam dos filhos de relacionamentos heterossexuais que tiveram e assim por diante. Essas diferentes constituições de família, aos poucos, vão sendo assimiladas por diretores, coordenadores pedagógicos e professores. Esse movimento, porém, se dá de fora para dentro e, muitas vezes, ocorre lentamente. É só pensar que, há 30 anos, ninguém ousava comentar nas unidades de ensino quando uma criança era filha de pais divorciados. Aos poucos, a comunidade escolar vai se acostumar com a condição da aluna que tem duas mães, por exemplo. Uma das formas de auxiliar esse processo é abordar a questão. Sempre que houver oportunidade de falar sobre a família e suas possíveis constituições, inicie um debate sem preconceito nem viés religioso. A reunião de pais é outra oportunidade de a escola conhecer quem são os responsáveis por cada criança e saber que tipos de arranjo familiar existem naquele momento.

* * *

Como deve se portar um professor gay?
Pergunta do leitor P. N., Guajara-Mirim, RO
Nada pode forçá-lo a manifestar seus desejos e nada o obriga a calar sobre as próprias vontades. Decidir como se posicionar, contando ou não sobre sua orientação sexual, vai depender de uma série de fatores. Um deles é o contexto. Às vezes, assumir a homossexualidade acarreta consequências reais, como o preconceito aberto e a perseguição por parte de algum integrante da equipe. Fora isso, é possível que os adolescentes sejam invasivos ao fazer perguntas muito pessoais. O educador decide se entra no assunto ou não. Quanto mais a escola lida abertamente com a questão da sexualidade, mais condição o professor tem de responder francamente às colocações da turma, mesmo as mais ousadas. A não discriminação sexual é garantida pela Constituição, mas em um ambiente homofóbico esse direito fica prejudicado. Nesse caso, autoridades como promotores de Justiça e até a polícia devem ser acionadas. Por outro lado, o docente que se sentir confortável pode assumir sua opção sexual. É recomendado que se busque apoio na direção ou na coordenação pedagógica, já que um trabalho isolado corre o risco de ser visto como apologia. Em todas as situações, o educador precisa ter consciência de que, quanto maior a visibilidade das ações, mais avanços se conquistam.

Questões repondidas por: Maria Cristina Cavaleiro, da USP, e Luiz Ramires Neto, da ONG Corsa.
* O nome foi trocado para preservar o personagem.

(Fonte: Nova Escola)
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