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quinta-feira, 1 de março de 2012

Pede à Quaresma


«E logo o espírito o impeliu para o deserto. E ele esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás» (Marcos 1, 12).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do deserto. Para que o teu coração se deixe purificar. Da tentação de tudo possuir. Do egoísmo do não-compromisso. Da ganância do isolamento. Ou da omnipotência de tudo realizar. E querer ser deus. E da ousadia de não saber esperar. E da certeza de possuir a verdade.
Pede à Quaresma que te mostre o caminho do deserto. Onde Jesus te dará o pão da Palavra e do silêncio. No deserto o coração saberá encontrar o silêncio que regenera e reinventa. No deserto o silêncio fará do teu coração uma fonte de onde pode jorrar a verdade de Deus.

«Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e os levou, sozinhos, para um lugar retirado sobre uma alta montanha. Ali foi transfigurado diante deles» (Marcos 9, 2).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho da montanha. Para que ouses subir ao lugar do encontro com o Deus da vida e da história. Na montanha contemplarás o Rosto. E fixarás nele o olhar. E descobrirás nele o teu rosto. E contemplarás todos os horizontes. Os do teu coração e todos aqueles onde o humano se espraia em tantos desafios.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho da montanha. E ousarás descer para que o teu olhar de encantamento incendeie a vida por onde passas. E sejas sinal de ressurreição.

«Chegou, então a uma cidade da Samaria, chamada Sicar… Ali se achava a fonte de Jacob... Uma mulher da Samaria chegou para tirar água.» (cf. João 4, 5-7).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do poço de Sicar. Sentado à beira desse lugar de encontros singulares está Alguém que te oferecerá água viva. Outrora uma samaritana deixou-se enamorar pelo olhar e pelo coração livre de um sedento. Também ela não ousou recusar dessa água que sacia todas as sedes.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do poço de Sicar. Para que Deus se sente contigo e te sacie. E o teu poço-coração possa recriar-se e ser fonte. E alimentar outras nascentes. Também as que teimam em não jorrar. E saciar todas as sedes e as de todos os que se cruzam com a borda do teu poço.

«Partiu, então, e foi ao encontro do seu pai. Ele ainda estava ao longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos» (Lucas 15, 20).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho para o abraço de Deus. O caminho para esse lugar onde a festa nunca termina. O caminho para esse lugar de onde saíste para viver a vida do sem rumo e do sem sentido. Porque querias ser livre. Porque querias escutar as mil melodias que ainda não tinham sido tocadas no teu coração. Em vez disso a vida empurrou-te para um lugar de desespero onde nem as bolotas eram tuas amigas.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho para o abraço de Deus. E ousa recomeçar. E ser filho. E vestir o traje da festa que o Amor prepara para ti a todo o instante.

«Não é preciso que vão embora. Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mateus 14, 16).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do coração do irmão. Daquele que está debruçado sobre o próprio coração em sangue. O coração daquele que a vida atirou para a beira da estrada e que agora espera um qualquer samaritano. O coração e a vida daquele que este tempo defraudou espera que tu sejas consolo e abrigo. Também abraço.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do coração do irmão. E ousa partilhar da tua pobreza. Daquilo que mesmo fazendo-te falta suavizará a dor de quem já nada tem. De quem já não tem onde morar ou de que se alimentar. Pede à Quaresma que te ensine o caminho da partilha e o coração do irmão pulsará com renovada esperança.

“Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só: mas se morrer, produzirá muito fruto” (João 12, 24).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho de Jerusalém. A cidade santa espera que os teus passos sigam firmes na senda d’Aquele que já fez o mesmo caminhar. Arrisca nesse seguimento. Mesmo que a luz teime em esmorecer dentro de ti. Mesmo que te impeçam de caminhar atrás do Mestre. A cidade santa espera por ti.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho de Jerusalém. Porque a vida e a felicidade que tanto desejas também passa por lá. Não ouses voltar as costas à cruz que a cidade te entrega. Segue atrás desse desejo de vida que nenhuma dor será capaz de enterrar. Pede à Quaresma que te ensine o caminho de Jerusalém. E deixa-te morrer. A terra que és será nova quando o milagre do grão de trigo irromper.

- P. Manuel Afonso de Sousa, CSh
Diretor espiritual do Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo, Braga
Reproduzido do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Chamados a um esforço escondido e solitário de recolhimento


«Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há de recompensar-te» (Mateus 6,6).

Como pessoas de oração, eis o nosso programa para a Quaresma: entrar neste lugar secreto, oculto aos homens, que só o Pai vê. Somos chamados a um esforço de recolhimento e aprofundamento. Um esforço escondido e solitário que ninguém pode fazer por nós. É preciso afastarmo-nos de todas as nossas pequenas preocupações e dependências do amor-próprio; encontrar tempo para entrar nas profundezas do coração, num esforço de abertura e lucidez, e aí rezar ao nosso Pai.

É uma tarefa que exige perseverança e coragem. Porque é preciso aceitar ser o que somos em toda a nossa pobreza. É preciso enfrentar no silêncio as nossas dores secretas de que tentamos fugir pelas nossas atividades e tagarelices. É preciso suportar a obscuridade da fé pois esse lugar secreto também está oculto para nós, que não vemos o Pai. É preciso que nos apoiemos sobre a Palavra de Cristo: «O vosso Pai sabe do que precisais antes que vós lhe pedis». O meu Pai sabe! Que paz encontramos na envolvência do seu amor que abraçamos no segredo, na escuridão, por vezes no sofrimento. Ele sabe, Ele compreende.

Tentemos deixar brotar em nós a oração de Cristo, a oração do Filho. A nossa oração não é uma questão de técnica, truques, emoções subjetivas, mesmo que sublimes, nem de conhecimentos, mesmo que profundos. Ela é algo de infinitamente maior que nós, excede por todos os lados as capacidades do nosso coração. Ela é a oração de Cristo em nós. Uma oração que tem a sua fonte no amor eterno do Filho pelo Pai, que é este amor voltado para o Pai, que dEle recebe tudo, a Ele dando tudo num dom de si perfeito. Uma oração-amor que se exprime na linguagem humana do “Abbá”, paizinho, sobre as lágrimas de Cristo, nas suas noites de contemplação solitária na montanha, em toda a sua vida, sobretudo na sua morte «por nós» no madeiro da cruz. Oração-amor que abraça todos os homens de todos os tempos. Que esta oração-amor que transcende o tempo e o espaço habite em nós, fazendo dos momentos transitórios da nossa existência momentos, de alguma forma, eternos.

A carta de São Paulo aos Filipenses (3, 10-11) resume a essência da nossa Quaresma: «Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos».

Paulo só persegue um objetivo: «Esquecendo-me daquilo que está para trás e lançando-me para o que vem à frente, corro em direção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus» (Filipenses 3, 13-14).

A nossa preparação para a Páscoa deve ser motivada por impulso semelhante.

- Um monge Cartuxo
Reproduzido do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não vos preocupeis

Foto: Eric Cahan

No Sermão da Montanha, Jesus identificou as preocupações materiais como sendo nossa principal fonte de ansiedade. Como podemos nos sentir mais confortáveis e reduzir o sofrimento pessoal? Esta é a maior preocupação que obscurece o momento presente e nos desconecta das verdadeiras prioridades.

"Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento e o corpo mais do que a roupa?" Mt 6:25.

Quando ele nos diz para não nos preocuparmos, Jesus não está negando a realidade dos problemas do dia-a-dia. Está nos dizendo para abandonarmos a ansiedade, e não a realidade. Aprender a não se preocupar é uma tarefa difícil....[No entanto], a despeito de sua síndrome de atenção deficiente, até a mente moderna também tem sua capacidade natural de se aquietar e de transcender suas fixações. Nas profundezas, ela descobre sua própria clareza onde está em paz, livre da ansiedade. A maioria de nós tem cerca de meia dúzia de ansiedades favoritas, tais como doces amargos que mastigamos sem parar. Ficaríamos assustados se nos privassem delas. Jesus nos desafia a superar o medo de abrir mão da ansiedade, o medo que temos da própria paz. A prática da meditação é uma forma de aplicar seu ensinamento à prece; através da experiência, ela prova que a mente humana pode realmente optar por não se preocupar.

Isto não significa que possamos facilmente esvaziar a mente e afastar todos os pensamentos, à nossa vontade. Na meditação, permanecemos distraídos e, contudo, livres da distração, porque - por menos que seja, a princípio - estamos livres para optar por onde colocar nossa atenção. Gradualmente, a disciplina da prática diária fortalece essa liberdade. Seria pueril imaginar que conseguiremos realizar isso plenamente, em curto prazo. Permanecemos distraídos por muito tempo. Logo nos acostumamos com as distrações, como companheiras de viagem no caminho da meditação. Mas, elas não precisam ser dominantes. Optar por repetir o mantra com fé, e voltar a ele, sempre que as distrações intervém, é o exercício da nossa liberdade de prestar atenção.

Não se trata de algo como uma opção por uma determinada marca da prateleira do supermercado. É a opção pelo compromisso. O caminho do mantra é um ato de fé, e não uma jogada de poder do ego. Em cada ato de fé existe uma declaração de amor. A fé prepara o terreno para que a semente do mantra germine no amor. Não criamos um milagre da vida e do crescimento sozinhos, mas, somos responsáveis por seu desabrochar. Chegar à paz da mente e do coração - ao silêncio, à tranqüilidade e à simplicidade - não exige a vontade de um campeão, mas a atenção incondicional, a fidelidade continuada de um discípulo.

- Laurence Freeman OSB
In "Jesus, o Mestre Interior" (São Paulo, Martins Fontes,2004), pp. 277-278
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A missão de um bispo: primeiro os pobres, os presos, os doentes, os estrangeiros

Imagem daqui

O perfil do bispo contemporâneo em debate: para o bispo recém-eleito de Novara, na Itália, Franco Giulio Brambilla (foto), o cardeal Carlo Maria Martini delineia a figura pastoral do bispo sobre o pano de fundo dos grandes textos da tradição bíblica, que enfatizam a sua dedicação, amorosidade e o mandato que vem de Cristo.

A opinião – escrita por ocasião do lançamento do novo livro do cardeal Martini, intitulado Il vescovo [O bispo] (Ed. Rosenberg & Sellier, 92 páginas) – foi publicada no jornal Corriere della Sera, 22-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Vou saudar o cardeal Martini. Em poucos dias, farei o ingresso como novo bispo da diocese de Novara. Ele foi o da minha maturidade de padre. Falamos longamente com o olhar no momento presente da Igreja e do mundo. A sua voz imperceptível intervém pouquíssimo, com palavras afiadas e encorajadoras.

A certa altura, ele me pergunta: que programa você tem para Novara? Ele pede que o secretário busque um pequeno livro, ainda quente da imprensa: Il vescovo [O bispo]. Ele me diz: quis escrever de minha mão com dificuldade. Ele será lançado em alguns dias dias. Em casa, leio-o de uma vez só.

É um pequeno livro pensado no rastro da grande tradição do Liber pastoralis, de Gregório Magno a Carlos Borromeu. Ele não frequenta os grandes picos da teologia. Protela-os conscientemente. Devia ser – diz a nota introdutória do editor – a primícia da coleção La cura delle parole. É como o número zero, confiado a "um verdadeiro mestre do cuidado com as palavras". E assim foi escrito. Ele quer falar do bispo para "arrancá-lo do nicho e vê-lo em contato com as pessoas (...) com uma imagem menos vaporosa e hierática, mais viva e sem falsas pretensões".

Martini, mestre da Palavra, é capaz de tecer sobre a trama da linguagem humana uma reflexão sapiencial, tingida de ironia e desencanto, de pontas marcantes e saborosas notações. Ele a entrega a todos aqueles que se perguntam sobre o sentido de autoridade na Igreja e sobre a sua presença na sociedade civil.

As palavras precisam de cuidado, senão se consomem. Ou, melhor, corrompem a nossa relação com o real, porque são a porta para o mistério do ser. A etimologia do termo "bispo" (de epi-skopein: supervisor, guardião, guia, pastor) tende a esmagar a sua figura sobre a questão da autoridade. Essa, na comunicação pública, goza hoje de uma má fama. Martini a remove da sua concentração sobre o poder de governo para colocar o bispo em relação com a Palavra e a sua ação santificadora. Quando estava em Milão, ele dizia frequentemente que sentia o ônus de ser um símbolo também para a cidade.

A figura pastoral do bispo é lida sobre o pano de fundo dos grandes textos da tradição bíblica, que enfatizam a sua dedicação, amorosidade e o mandato que vem de Cristo. Surge daí uma imagem persuasiva que faz do bispo um "servidor da Palavra de Deus". O próprio Martini foi como que o seu ícone: "Ele deve ter o Evangelho dentro de si mesmo e, assim, ser um Evangelho vivo".

Surpreenderá muito, até mesmo aqueles que não frequentam a língua da Igreja, a sua insistente referência ao vínculo do bispo com a Igreja celeste: ele deve "ser homem de oração, sobretudo de oração de intercessão". Para concluir de modo icônico: "Se queremos um bispo profeta, é preciso dar-lhe muito tempo para rezar".

A imagem perfilada por Martini no capítulo crucial do pequeno livro relê radicalmente o tema da autoridade. O seu poder é iluminador e libertador, que participa dos gestos de libertação do mal de Jesus e transmite a força do fermento evangélico. A autoridade na Igreja tem a forma testemunhal, porque coloca em contato vital a consciência com a Palavra. Como disse em um texto fulgurante, o terreno não existe sem a semente: "Terra e semente foram criados um para o outro. Não faz sentido pensar na semente sem uma relação própria com o terreno. E este último sem a semente é deserto inabitável. Fora da metáfora: o homem, assim como nós o conhecemos, se cortar toda a sua relação com a Palavra, torna-se estepe árida, torre de Babel".

A ponta de diamante da figura do bispo, segundo Martini, se desdobra no terceiro capítulo de modo agradável por parte de todos. Passam-se em resenha todos os contatos do bispo: com os não crentes, os pobres, os doentes, os encarcerados, os estrangeiros. Depois, a ampla rosa das relações eclesiais: os fiéis, os colaboradores, os padres e diáconos, os teólogos, o seminário, os religiosos, o mundo missionário. Para terminar com as instituições, os judeus e o mundo da mídia. É o capítulo mais "martiniano", onde se desenha a imagem do bispo que se deixa guiar – na dialética com o mundo – pela pergunta: Quid hoc ad Evangelium?, "o que eu faço e digo, o que tem a ver com o Evangelho?”.

Um texto provocativo que não despreza nem o debate com o peso burocrático da vida da Igreja e a sua relação com as diversas instâncias da Igreja universal.

Enfim, à margem do livro, as características atuais de um bispo: a integridade, a lealdade, a paciência e a misericórdia. Esculpidas com o estilete de um sábio bíblico e entregues idealmente a um jovem bispo. Como a conclusão final do livro: "Um homem humilde, que vence as durezas com a sua doçura, que sabe ser discreto, que sabe rir de si mesmo e das suas fragilidades. Que sabe reconhecer seus próprios erros, sem muitas autojustificações. Portanto, acima de tudo, um homem de verdade".

Um Martini clássico!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Milagres


Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?

Walt Whitmann

(Via Tiago Medeiros)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Oração ao Deus desconhecido (F. Nietzsche)


Leonardo Boff traduz e declama a "Oração ao Deus desconhecido", de F. Nietzsche.*

Que o Deus que, das profundezas do nosso ser, nos chama pelo nome e nos convida a conhecê-lo, anime nossos passos na busca de atender ao seu apelo - ele que não será conhecido jamais. ;-)

Bom fim de semana a todos. :-)


*Fonte: Blog do Fabricio Cunha

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Salve Maria sob todos os títulos... Senhora dos Navegantes!

Imagem daqui

Ó Nossa Senhora dos Navegantes, Santíssima Filha de Deus, criador do céu, da terra, dos rios, lagos e mares; protegei-me em todas as minhas viagens.
Que ventos, tempestades, borrascas, raios e ressacas não pertubem a minha embarcação e que nenhuma criatura nem incidentes imprevistos causem alteração e atraso em minha viagem ou me desviem da rota traçada.
Virgem Maria, Senhora dos Navegantes, minha vida é a travessia de um mar furioso. As tentações, os fracassos e as desilusões são ondas impetuosas que ameaçam afundar minha frágil embarcação no abismo do desânimo e do desespero.
Nossa Senhora dos Navegantes, nas horas de perigo eu penso em vós e o medo desaparece; o ânimo e a disposição de lutar e de vencer torna a me fortalecer. Com a vossa proteção e a bênção de vosso Filho, a embarcação da minha vida há de ancorar segura e tranqüila no porto da eternidade. Nossa Senhora dos Navegantes, rogai por nós.
Amém.

(Fonte: Amai-vos)

Nossa Senhora dos Navegantes, mulher de terra, água e gente, rogai por nós.

Odoyá! :-)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Evangelho é um jardim

Foto: Walter Mason

Recebemos de um dos membros do grupo esta bela mensagem:
Partilho com vocês essa interessante e breve reflexão encontrada no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal).
Em meio à conjuntura acalentada (...); com as indagações em voga se na Igreja Católica Apostólica Romana haveria lugar para este ou outro tipo de pessoa... Abrindo mais o horizonte e olhar, convido a refletirem sobre as experiências pessoais com DEUS, seu lugar, seu momento. 
Fica a pergunta: "Onde estás?"
Abração.
Não será de todo irrelevante que a primeira coisa que Deus nos pergunte seja: «Onde estás?» (Gn 3, 9). Na verdade, peregrinos no tempo, nós existimos sempre num determinado espaço. Por mais que vivamos num mundo crescentemente global, somos e vivemos sempre num certo local.

Também a nossa experiência cristã pode ser descrita por um mapa onde se registam os locais do encontro com Deus e se traçam os percursos da Sua passagem. O nosso seguimento de Jesus não se deixa descrever apenas pelos momentos desse encontro (quando?), mas pede ainda que se apontem os seus lugares (onde?). Há, de facto, um quê de topografia do sagrado a que o cristianismo não poderá renunciar. A Sagrada Escritura regista, ela própria, um número assinalável de lugares onde, por excelência, se dá essa epifania de Deus.

Um desses lugares é o jardim. Talvez nem sempre disso tenhamos a devida consciência, mas há entre a experiência cristã e o espaço do jardim uma íntima relação: do jardim original do Éden (Gn 2-3), ao jardim minimal das Oliveiras (Jo 18, 1); do jardim perfumado do Cântico dos Cânticos (Cant 4, 16), ao jardim de pasto verdejante cantado pelo salmista (Sl 23); do jardim silencioso onde Jesus foi sepultado, ao mesmo jardim onde Ele próprio, uma vez ressuscitado, aparece como «jardineiro» (Jo 19, 40–20, 16). Há ainda jardins em tantas conversões pessoais, como a de S. Agostinho (Confissões VIII), e em tantas empresas comunitárias, como nos mosteiros, casas construídas à volta de um claustro/jardim. Como uma metáfora aberta, o jardim surge pois como um desses lugares em que Deus ama encontrar-se com a humanidade. Ele representa simbolicamente uma «feliz harmonia entre céu e terra, entre graça e esforço, entre natureza e cultura» (cf. E. Salmann).

Não sei bem se o jardim surge como lugar do sagrado porque a Deus agrade deambular por estes espaços aprazíveis, ou se porque Deus transforme em jardins os lugares por onde passa. Todavia, parece-me que na metáfora do jardim o cristianismo encontra não apenas um traço da sua identidade, mas também uma perspetiva para a sua missão: ser no mundo o que um jardim é numa cidade. Um espaço tranquilo no meio do bulício. Um lugar onde o cinzento da envolvência não abafa a cor da vida. Um local onde o ar corre fresco. Um lugar onde, apesar dos pesos da vida, se experimenta aquela «carga leve» e aquele «jugo suave» de que falava Jesus (Mt 11, 30). O Evangelho aparecerá então como aquele jardim em que sempre podemos passear, mesmo quando o inverno é severo.

- P. Alexandre Palma
In Voz da Verdade, 14.01.12

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Súplica reeditada


Pai nosso e dos exilados, dos deprimidos, das meninas vendidas à prostituição, dos curdos, das aeromoças, dos ianomâmis, dos carvoeiros, das juízas, dos mineradores chineses, dos médicos legistas, dos cabelereiros, das noviças, dos poetas, das atrizes, dos teólogos, das massagistas, dos meus filhos e netos, dos ateus, das motoristas de ônibus, dos carcereiros.

Que estás no céu, na terra, no vácuo, no hades, no patíbulo, na floresta, na sala de hemodiálise, no cabaré, na UTI, no acampamento dos sem-terra, na catedral, na sala de tortura, no asilo de velhos, no botequim, no matadouro, no quartel, na ambulância, no escafandro, no aeroporto, no palco, na piscina, no hospício.

Santificados sejam o teu nome, a ideia que fazemos de ti, o livro que escrevemos sobre ti, a música que cantamos sobre ti, os planos de paz que organizamos pensando em ti, a mulher que tocamos por seguirmos a ti; e o futuro que sonhamos por ousarmos te chamar de Pai.

Venha o teu reino. Sentimos a urgência não de ir até aí, mas de demonstrar aqui neste planeta diminuto a aspiração que está no além. Queremos nos enraizar neste chão para fazer algo novo, algo que se sobreponha ao que já se construiu na história. Acontece que somos inadequados, claudicantes e egoístas. Incentiva-nos a querer mostrar lampejos do que seria a vida se vivêssemos, minimamente, teus valores. Faze-nos subversores do inexorável, sabotadores das sinas, revolucionários do amanhã. Precisamos da esperança que desvela outra realidade, outro mundo, outra forma de viver.

Seja feita a tua vontade na terra como ela é feita no céu. Desde a criação decidiste que homens e mulheres tomariam os rumos da história. Tu assinalaste a eles a responsabilidade de disseminar bondade e não crueldade, equidade e não injustiça, criatividade e não opressão, liberdade e não escravidão. Anima-nos para que possamos incubar vida, parir oportunidade, perenizar o bem e assim estreitar esse abismo que nos separa de tua morada.

O pão nosso de cada dia, nos dai hoje, mas que este pão nos alimente física, emocional e espiritualmente. Não nos deixe satisfeitos com a ração que nos apequena em nossa humanidade. Temos fome de sentido, carecemos de afetos, ansiamos por beleza, desejamos transcendência. Dá-nos gula de palavras; e que as palavras, transformadas em versos, nos saciem de eternidade. E que as parábolas, temperadas de metáforas, se transformem no banquete que nos salva no dever inclemente de sobreviver, só sobreviver.

Perdoa a nossas dívidas bem como as ofensas grosseiras de quem ataca a adolescente, o homossexual, o pobre, o negro, o cigano, o gari, o porteiro, a babá, o garçom, o pedreiro, o trovador, a enfermeira, a maria-ninguém. Somos cruéis uns com os outros, lentos em reconhecer a dignidade alheia. Mordazes, desaprendemos a respeitar dores. Inclementes, desonramos sonhos. Insensíveis, não paramos para ouvir queixas. O perdão nos livra dos grilhões que nos aferramos com o endurecimento. Precisamos de misericórdia, antídoto que nos salva do veneno que tentamos inocular nos outros. Falta-nos a percepção que revidar só expõe a soberba de nos achar melhores e mais privilegiados que os demais.

Assim como perdoamos aos nossos devedores, não nos deixa aspirar de ti nada além do que fazemos pelo próximo. Não te sintas obrigado a nos absolver mais do que absolvemos, a nos compreender mais do que compreendemos, a nos proteger mais do que protegemos. A régua que medirmos deve ser a mesma que esperamos ser aferidos. Que nossa balança não se vicie. E que nós nos identifiquemos no próximo, única forma de amá-lo.

Não nos deixe cair em tentação. Livra-nos do mal, que é a desgraça de cobiçar poder, honra e glória. Lembra-nos: cobiçar poder transforma anjo em diabo e homens em demônios. Que não nos iludamos com caminhos largos, com brilho intenso ou com segurança de riqueza sem fim. Desperta-nos para a vida do Nazareno que desprezou valer-se do divino em sua árdua trilha humana. Sem apelar para poderes sobrenaturais, ele se fez gente. Foi grande porque não fugiu da morte estúpida e banal que os opressores lhe impuseram. Dá-nos a serenidade de não nos seduzir pela mentira de que existe outra senda senão a que ele escolheu.

Amém.

Soli Deo Gloria

- Ricardo Gondim
Reproduzido via site do autor.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Encontrando-nos na história do Natal

 

(...) Há aquela força invisível, mas a mais poderosa de todas, o amor: o amor de José e Maria um pelo outro e por seu bebê. Há a esperança que os mantém caminhando através das dificuldades e alegrias da vida familiar, do trabalho, da sociedade; virtudes, paixões e compromissos tão reais e concretos quanto tudo o que pertence à esfera que César pode ver e comandar. E há os "anjos que ouvimos nas alturas, cantando docemente sobre as planícies" - uma ecologia ao mesmo tempo física e espiritual, que se estende para muito além da política e do comércio e que também é trazida na noite de Natal pelo Menino Jesus. Portanto, mais uma vez, nada deixemos de Lhe ofertar, visível ou invisível, nossas aspirações ou receios, as trevas em que caminhamos e as grandes luzes que avistamos.

Esta noite, trazemos tudo para Lhe oferecer. Ele convida para vir ao Seu encontro todos os seres humanos e tudo o que existe. Tudo o que nos diz respeito interessa a Ele. Deus abraça nossa condição humana e tudo o que nos diz respeito, e a tudo isso agarra com Suas mãozinhas de bebê. Ele abraça a todos e cada um de nós com os braços abertos de um Menino que os estende para Sua mãe, os mesmos do homem pendente da cruz.

Dentro de alguns instantes, vamos nos ajoelhar às palavras "e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem" - pois, nesta noite, nós O adoramos como Aquele que ligou os céus e a terra. No entanto, há uma outra razão para nos ajoelharmos, como os reis que Lhe trouxeram presentes: ajoelhamo-nos para Lhe dar tudo o que é nosso, de modo que a terra se una aos céus.

"Toma tudo o que eu sou, Senhor, minhas esperanças e sonhos e modestas orações, minha grandeza angélica e minha humildade pastoril, meus amigos e parentes, meu trabalho e meu lazer, minhas esperanças e temores. Apresento-me, com todas as minhas preocupações, à Tua manjedoura. A tudo deponho em Teu berço, para que também eu possa receber a Tua misericórdia; para que eu possa ouvir a promessa dos Teus anjos de paz na terra e boa vontade para todos; e para que eu me aproxime de Ti para dar glória a Deus no mais alto dos céus."

- Do sermão de Natal do bispo australiano Anthony Fisher OP
Reproduzido via Religion and Ethics, com tradução nossa.

Feliz Ano Novo!


No primeiro dia do ano comemora-se o Dia Mundial da Paz. Comecemos, pois, 2012, refletindo...

Senhor, vós sois a fonte da paz! Tem paz em si quem permanece no vosso amor e se deixa guiar por vossa palavra. Neste mundo, muita gente perdeu a paz e vive, hoje, de roubar a paz dos outros. A guerra é tramada, arquitetada em nome de interesses econômicos, políticos e religiosos. A paz é agredida, como uma criança indefesa... Não pode haver paz nos corações que se esquecem de vós. Não pode existir paz onde reina a injustiça. O mundo está morrendo, carente e faminto do pão da paz. Tende piedade dos que são vítimas da falta de paz, da violência e das injustiças.
Enviai sobre nós um sopro de paz que tome conta dos líderes políticos e religiosos, das instituições, de todos os povos e de todas as raças, de todas as famílias e de cada pessoa. Dai-nos, Senhor, a vossa paz! Amém!


- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

sábado, 17 de dezembro de 2011

O “Magnificat” da Estrela Virgem: respeito às tradições religiosas mais antigas que foram ensinadas a Jesus

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Este texto é para mostrar como a oração conhecida como “Magnificat” (Evangelho de São Lucas, 1:46-55), dita pela Virgem de Nazaré após a visitação do Arcanjo São Gabriel, profetiza, em tudo, os ensinamentos de Jesus, seu filho, por Ele sintetizados no “Pai-Nosso” (oração que, por seu turno, será analisada num artigo posterior).

Antes de analisar o “Magnificat”, entretanto, é bom lembrarmos que Maria de Nazaré é o elo entre as três religiões monoteístas do Ocidente: 1) Maria é a única mulher profeta no Corão (é reverenciada no Islamismo, com ritos e cerimônias específicas a ela, considerada a mãe de outro profeta para o Corão, que é Jesus de Nazaré segundo a concepção do sábio profeta Maomé); 2) Maria é judia, foi educada como judia (em escolas extremamente restritas e rigorosas na lei de Salomão, como se vê em Evangelhos apócrifos) e nunca deixou as tradições judaicas (é, pois, reverenciada no Judaísmo); 3) Maria foi a primeira cristã, aquela que trouxe no ventre o anúncio da interpretação das Escrituras pela óptica do amor de Cristo (é, portanto, a Arca da Aliança do Cristianismo).

Sempre digo, quando me é concedida a voz para isso, que em Maria se pode perceber a esperança de um mundo em que as diferenças de pontos de vista, de ideologias e até de religiões não se contrariam nem entram em choque, mas, antes, se complementam como numa verdadeira Santíssima Trindade. Deus criou a diferença, ATÉ, de ideias, e, pois, ATÉ essa diferença deve ser respeitada como fruto da Vontade do Pai.

Ditas essas palavras de preâmbulo, vamos à análise das profecias crísticas contidas no Magnificat.
Farei a análise do original grego (idioma em que sou bacharel e especialista), cuja tradução posterior para o latim (a da Vulgata, de São Jerônimo) e mesmo a dos padres barnabitas para o francês da Bélgica são excelentes.
Μεγαλύνει (Magnificat) 
Μεγαλύνει ἡ ψυχή μου τὸν Κύριον καὶ ἠγαλλίασε τὸ πνεῦμά μου ἐπὶ τῷ Θεῷ τῷ σωτῆρί μου, ὅτι ἐπέβλεψεν ἐπὶ τὴν ταπείνωσιν τῆς δούλης αὐτοῦ.

ἰδοὺ γὰρ ἀπὸ τοῦ νῦν μακαριοῦσί με πᾶσαι αἱ γενεαί.
ὅτι ἐποίησέ μοι μεγαλεῖα ὁ δυνατός καὶ ἅγιον τὸ ὄνομα αὐτοῦ, καὶ τὸ ἔλεος αὐτοῦ εἰς γενεὰς γενεῶν τοῖς φοβουμένοις αὐτόν. 
Ἐποίησε κράτος ἐν βραχίονι αὐτοῦ, διεσκόρπισεν ὑπερηφάνους διανοίᾳ καρδίας αὐτῶν•
καθεῖλε δυνάστας ἀπὸ θρόνων καὶ ὕψωσε ταπεινούς, πεινῶντας ἐνέπλησεν ἀγαθῶν καὶ πλουτοῦντας ἐξαπέστειλε κενούς. 
ἀντελάβετο Ἰσραὴλ παιδὸς αὐτοῦ, μνησθῆναι ἐλέους, καθὼς ἐλάλησε πρὸς τοὺς πατέρας ἡμῶν, τῷ Ἀβραὰμ καὶ τῷ σπέρματι αὐτοῦ εἰς τὸν αἰῶνα.

Qualquer pessoa que esteja familiarizada com a tradição do cristianismo sabe – embora nem sempre reconheça – que Maria, a mãe de Jesus, foi a primeira cristã da história, como foi dito. Até mesmo o primeiro milagre público de Jesus (isso para ficarmos apenas nos Evangelhos canônicos, sem precisarmos, por ora, recorrer aos apócrifos) foi obedecendo a uma solicitação da Virgem de Nazaré. Nas bodas de Caná, quando Jesus transforma água em vinho, demonstrando o poder da conversão e da transubstanciação da Alquimia, que um São Tomás de Aquino e um São Gregório Magno (este, professor daquele) reconheceram em suas obras, Ele o faz a pedido de sua Mãe, que, imediatamente, demonstrando em público que era Ela mesma uma cristã (a primeira entre os primeiros), declara: “Fazei TUDO o que Ele vos disser”. Estava lançada publicamente a tradição do Cristianismo, ou da Cristandade, como se prefira.

Maria diz: “Fazei TUDO o que Ele vos disser”. Ela sabe que Jesus é um Mestre e que, como tal, conhece TUDO o que nos é necessário para o aperfeiçoamento segundo a Lei.

Maria é, desde a gênese, a Voz do Ecumenismo. Se a comunhão da Eucaristia significa comer o corpo de Jesus, bebendo o vinho que lhe é o sangue, Maria obviamente foi a primeira a comungar, uma vez que nem precisou comer a carne e o sangue de Cristo, já que os trouxe em seu ventre, gerando-os de sua própria carne e de seu próprio sangue. Maria deu à Luz o “Verbo que se fez carne e habitou entre nós” (Evangelho de São João). Maria é a Arca da Aliança do Cristianismo, a primeira de toda essa tradição teológica, a Pedra da Sabedoria Cristã. Sem Maria, Cristo não seria possível. Ela foi a escolhida do Criador para gerar do Espírito Santo o corpo do Messias. Ela disse ao Arcanjo Gabriel “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Evangelho segundo São Lucas, 1: 38), permitindo, com seu livre-arbítrio, que a Vontade do Criador se manifestasse na terra e “habitasse entre nós”. Sem o “Fiat” (“Faça-se”, Evangelho de São Lucas) de Maria, o “Fiat Lux” (“Faça-se a Luz”, Gênesis) do Criador não seria possível. Se Maria não aceitasse totalmente o risco de ser até repudiada e apedrejada em público como adúltera, o Caminho não poderia ser revelado.

O que poucos lembram é que Maria foi co-responsável, como uma Mestra, para ensinar com retidão a seu filho. Maria fora educada segundo tradição antiquíssima dos Sacerdotes de Melquisedeque e Salomão (um dos títulos de Jesus fora “Sacerdote de Melquisedeque”, assim como “Filho de Davi” etc.), e ela própria transmitiu esses ensinamentos ao jovem Filho Jesus, que ela tão discretamente educou segundo os princípios de piedade e religiosidade judaica, a fim de que o mesmo Jesus, no momento oportuno, viesse a transcender como um Mestre do Verdadeiro Caminho, na Boa Nova de seu Evangelho (do grego ἐὐανγελὸς).

Maria iniciou Jesus nos mistérios da Tradição mais antiga, inclusive quando visitou o Egito (“Do Egito chamei meu filho” Profeta Oseias, 11: 1, confirmado no Evangelho de São Mateus, 2:15: “e lá ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito chamei o meu Filho”) para livrar-se da fúria do imperador, quando recebeu a visita dos três reis Magos do Oriente, que também ajudaram na iniciação do Menino Jesus, e, posteriormente, quando permitiu que seu Filho viajasse para a Grande Escola, dos 12 aos 30 anos de idade, onde sua educação, que teve de se manter um mistério para os cristãos, por razões que os desígnios de Deus o sabem, foi, enfim, completada. Dali em diante, ele começou sua chamada “vida pública”. Até então, sua vida foi de aprendizado e educação nas mãos de sua mãe, de seu pai adotivo, a árvore da sombra, São José, do Espírito Santo e de outros mestres.

O que também poucos lembram é que Maria se manteve firme em seu propósito de cristã até o último instante de sua vida terrena. Ela assumiu o risco durante a crucificação de Seu Filho, momento em que até seus apóstolos mais chegados, premidos pelo medo do flagelo, negaram a Cristo tantas quantas fossem as vezes necessárias. O próprio São Pedro, por exemplo, questionado se era seguidor de Jesus, por três vezes, por três vezes o negou. Mas Maria lembrava-se de que seu propósito não era um caminho egocêntrico, mas sim O Caminho Cristão, e não se desviou dele, assumindo todos os riscos que isso pudesse lhe acarretar. Stabat Mater: “Estava a mãe em pé diante da cruz”. Quem teme a Deus não precisa temer a mais nada.

Maria é a primeira Santa do Cristianismo. E é a única Santíssima. Enquanto São Dimas, o bom ladrão, foi canonizado pelo próprio Cristo, na cruz, ao seu lado, Maria já fora canonizada pelo emissário de Deus, o Arcanjo Gabriel, com a autoridade do Espírito Santo, quando o Arcanjo, profetizando o “Sim” de Maria, lhe anuncia pela voz do Criador: “Ave Maria, cheia de graça. Não temas, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. O Espírito Santo descerá sobre ti e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra” (Evangelho de São Lucas, 1).

Santa Isabel, também profeta, mãe do precursor de Jesus, São João Batista, confirma as palavras do Arcanjo da Anunciação e exalta a visita da Virgem Maria: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”.

Então, Maria, a Santíssima, Primeira entre os Primeiros, diz o seu “Magnificat”, que é o prenúncio do caminho anunciado na oração ecumênica do “Pai-Nosso”.

O “Magnificat” é inspirado no cântico de Ana, do Antigo Testamento, e veio a fim de glorificar a própria ascendência marista e a de seu Filho, já que a mãe de Maria se chamava, também, Ana. O “Magnificat”, se comparado às exortações e aos ensinamentos do “Pai-Nosso”, mostra como Maria já tinha a Revelação da Divindade em sua Consciência.

Vamos a uma interpretação trazida do grego acima exposto no texto original que chegou a nós graças aos Doutores em Sagradas Escrituras, cujo pré-requisito, até hoje, num seminário de formação sacerdotal católico, é ser conhecedor fluente do idioma grego ático-jônico ou clássico.
“Minha alma (no original, “ψυχή”, também significa “borboleta” em grego, aquela criatura que precisa sofrer o “casulo” para deixar de rastejar e voar) glorifica ao Senhor, 
meu espírito (πνεῦμά, “Pneuma”, como eu falei em outro artigo, “pneuma”, em grego, quer dizer “ar”, cf. “pneumático”, e também “espírito”; a polissemia é frequente no grego para enriquecer as exegeses) alegra-se profundamente (ἠγαλλίασε) 
em Deus, meu Salvador (σωτῆρί – Soteri será o título de Jesus),

porque olhou para a humildade (ταπείνωσιν) de sua serva.”

Nos quatro primeiros versos, a Virgem já fala dos três níveis de conversão necessários à consecução do Caminho de Cristo: fala em “alma” (v. 1), em “espírito” (v. 2) e em corpo (“serva”, v. 4). Em resumo, ela aponta para os três caminhos básicos que Jesus explicita de modo sintético e claro no “Pai-Nosso”: o caminho do espírito, o caminho do corpo e o caminho da alma. À frente, Maria falará da conversão milagrosa do amor e da compaixão de Deus, que NÃO olha nossos pecados, mas abre-se a qualquer um que lhe implorar o perdão, sendo todo o passado ESQUECIDO, e lembrado apenas o pedido de perdão; a conversão da fé: quando diz “lembrado de sua misericórdia” (verso 19), como veremos.

E, assim como o “Pai-Nosso” começa com a evocação do Supremo Criador (“Pai Nosso, que estais no céu”), o “Magnificat” se inicia com a mesma evocação, com a alma olhando para o “Senhor” (“Minha alma glorifica ao Senhor” – “Magnificat”, v. 1), para o Pai. Assim também como o “Pai-Nosso” diz que o nome de Deus não importa (reiterando a resposta do Próprio Deus a Moisés, quando lhe pergunta: “Quem és tu?”, e Deus diz: “Eu sou aquele que sou”), que, sendo Ele o Criador, Ele é “santificado” (“Santificado seja o vosso NOME” – “Pai-Nosso”), Maria tampouco nomeia ao Senhor, chamando-o apenas de “Deus” e de “meu Salvador” (v. 3), seguindo as instruções de Deus a Moisés e o futuro ensinamento de Jesus.

Aqui se percebe de quem, antes de tudo, Jesus aprendeu sua lição de ecumenismo: de sua mãe, a Virgem Maria. Sobre o Nome de Deus, Maria vai mais além, como uma verdadeira Mestra que terá de dar os primeiros passos àquele cuja missão é redentora. Segue no Magnificat”:
"Por isto, desde agora, 
Proclamar-me-ão bem-aventurada (μακαριοῦσί) todas as gerações (πᾶσαι αἱ γενεαί), 
Porque realizou maravilhas em mim aquele que é poderoso 
E cujo nome é Santo. (καὶ ἅγιον τὸ ὄνομα αὐτοῦ) ”
Nos versos 7 e 8, Maria, mais uma vez, remete à “definição” de Deus, comprovando que, na verdade, o Senhor é inefável, não suscetível de ser nomeado, como ele mesmo se apresentou: “Eu sou aquele que sou”, como dissemos. Diz Maria, falando sobre “quem” é Deus: “[Ele é] aquele que é poderoso / e cujo NOME É SANTO” (vs. 7 e 8). Indo-se ao Pai-Nosso, vemos a sabedoria dessa lição no verso 2 : “SANTIFICADO SEJA o Vosso NOME” ("cujo NOME É SANTO", Magnificat, v. 8). Impossível não ver a doce mão de Maria sobre a língua de seu filho Jesus em seu “Pai-Nosso”.

Também está presente o ecumenismo de Deus quando Maria diz: “me proclamarão bem-aventurada TODAS AS GERAÇÕES”. Isto é, a salvação é aberta indistintamente a todos que se propuserem, por livre e espontânea vontade, seguir o Caminho. Não há discriminações, preconceitos, discórdias, raças, orientações etc. que impeçam a salvação: quem seguir o caminho chegará ao galardão prometido. “Pedi, a abrir-se-vos-á”. Ainda em relação à não segregação, Maria completa, reiterando o ecumenismo intrínseco à misericórdia de Deus, nos versos 9 e 10 do Magnificat:
“Sua misericórdia (καὶ τὸ ἔλεος αὐτοῦ) se estende, de geração em geração (γενεὰς γενεῶν), 
Sobre os que o temem”.
Ela, assim como Jesus, não distingue pessoas por características quaisquer, a não ser a de temer a Deus e seguir o seu Caminho.
Além de expressar o amor incondicional de Deus, Maria também reforça que somente Ele é digno de temor, de respeito e de adoração, no verso “sobre os que o temem”. Vemos aqui a lição da Entrega Suprema, presente no “Pai-Nosso” no “Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade”. Mais uma vez é evocada a alta clemência e misericórdia de Deus, sem cuja ajuda nada se pode fazer, quando Maria nos revela mais uma vez quem é a fonte única do poder:
“Manifestou o poder de seu braço: 
Desconcertou completamente os corações dos soberbos (διεσκόρπισεν ὑπερηφάνους)”.
Dura, porém doce, é esta lição da Mãe, que o Filho tão bem guardou em seu coração. Ela nos ensina que a primeira “tentação” é a ilusão de que temos o poder, a ilusão que acomete o espírito, a alma e o corpo – a ilusão da soberba. O poder real é do braço de Deus, e este poder, que é o único verdadeiro, desconcerta os que estão iludidos com a soberba. – Desconcertou os corações dos soberbos”. Di-no-lo Santa Maria, a Nuvem Alva Perene da Montanha de Sião.

Jesus precisou, e muito, desta lição quando o demônio o tentou no deserto sugerindo-lhe que Ele, Jesus, se arremessasse das pedras para provar seu poder, fazendo com que os anjos de Deus viessem resgatá-lo (o demônio, que conhece muito bem as Sagradas Escrituras, porque ele fora o anjo mais próximo de Deus outrora, e foi arremessado aos infernos exatamente porque acreditou que poderia julgar e ter os mesmos poderes exclusivos de Deus – era soberbo –, evoca o Salmo 90). Jesus, sabendo que aquele seu ato demonstraria soberba de sua parte, responde com outra passagem do Antigo Testamento: “Não tentarás ao Senhor teu Deus”, provando, também, sua submissão e sujeição à Lei maior, que é a força de Deus, e não à força de um ego frágil e desconcertante, cheio de dúvidas e receios, angústias e apego aos bens materiais, inclusive a materialidade da palavra do Antigo Testamento, que sem o Espírito (como mostra São Paulo), mata, mas, com o Espírito, vivifica.

Quem teme a Deus não precisa temer a mais nada. Esta é a lição da Santíssima Mãe de Jesus ao dizer que “Sua misericórdia se estende, de geração em geração, SOBRE OS QUE O TEMEM”. E essa lição é repetida por Jesus, que demonstra tê-la aprendido, diante do demônio, nas tentações do deserto. Continuando a falar sobre a ilusão da soberba, Maria continua: “Derrubou do trono os poderosos / E exaltou os humildes”.

Ou seja, só na entrega, na submissão e na gratidão o caminho pode ser iniciado.
“Saciou de bens os indigentes 
E despediu de mãos vazias os ricos”.
Isso está presente nas palavras futuras de Jesus, em São Mateus: “Ao que tem, mais lhe será dado, e ao que não tem, até o que pensa que tem lhe será tirado”. Esse “ter” a que Jesus faz menção não é o “ter” em posses, mas sim o “ter” em Consciência. E, para chegar a ela, é preciso, antes de tudo, saber-se que NÃO SE SABE: ter consciência da própria inconsciência e inaptidão em alcançá-la sozinho, para, com isso, haver a total entrega ao poder de Deus – humildade. Consciência de que só na humildade se chega à sabedoria de Deus: “Não alcanço de tão alto” (Salmo 118).
“Acolheu a Israel, seu servo, (Ἰσραὴλ παιδὸς – “Israel paidós”, literalmente: “Israel, sua criança”), 
Lembrado da sua misericórdia, 
Conforme prometera a nossos pais, 
Em favor de Abraão e sua posteridade (σπέρματι – “spermati”, literalmente, “semente”, “fonte original”), para sempre”.
O que vemos aqui é o reforço da Natureza ecumênica de Deus, já que Israel simboliza, neste verso, todas as pessoas que quiserem ser salvas na Luz da Consciência Crística, e que estiverem prontas à entrega e submissão totais (já que Israel é “seu SERVO”) que essa salvação exige. O “lembrado da sua misericórdia” remete imediatamente ao “não nos deixeis cair em tentação”, que é o caminho da conversão pela fé e humildade, único possível para se chegar à Sabedoria verdadeira, a que vem do Espírito, não da literalidade.

“Conforme prometera a nossos pais” é reiterado por Jesus quando diz “Eu não vim abolir a lei, mas sim confirmá-la”. Isso não significaria que ele veio manter a literalidade, pois o próprio Jesus diz que “não se faça mais de hoje em diante olho por olho, dente por dente, mas, antes, ao contrário, se alguém te ferir uma face, oferece a outra; se alguém te roubar uma túnica, dá-lhe a outra” – o “não revogar” de Jesus significa DAR A VERDADEIRA INTERPRETAÇÃO – na luz, no amor, no Espírito Santo, cuja sabedoria só é revelada, como estamos vendo, aos humildes, e nunca, jamais, aos soberbos.

Ou seja, a promessa de Salvação incondicional, através do caminho da entrega em direção à recordação (conhecimento da tradição) e Consciência, existia já aos “nossos pais” (v. 19). Daí Jesus começar a sua oração ecumênica chamando Deus de “Pai nosso”, e lembrando “assim na terra como no céu”, ou seja, aos “nossos pais” da terra (“Magnificat”, verso 19), encarnados e metonimizados por Maria em “Abraão e sua posteridade” (“Magnificat”, verso 20) e ao “Pai Nosso” (Pai-Nosso, verso 1), “que estais nos céus” (“Pai-Nosso”, verso 1). O “para sempre” que fecha o Magnificat evoca que o poder de Deus é infinito e que sua misericórdia é eterna e não faz distinções “humanas”.

Sem o ventre e os ensinamentos de Maria – que é a carne e o sangue de Jesus –, não se abriria a porta que leva ao Reino da Consciência e da Responsabilidade. Na grande tradição cristã, Maria também é, portanto, Redentora da espécie humana e das espécies que habitam a Terra, cada uma segundo seu entendimento.

- Marcelo Moraes Caetano

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Orai e vigiai

Foto enviada por nosso amigo Hugo Nogueira, via Facebook

Há algo de que eu gostaria muito de falar, porque sinto, em muitos de nós, católicos, certo esquecimento em relação ao tema: a oração.

A vigília, estarmos atentos às circunstâncias e às características do mundo que vão de encontro ao Evangelho, parece-me bastante mais encarecida pelos cristãos, nos dias de hoje, do que a oração.

Trata-se de uma consequência da correria do dia a dia, em que todos nós estamos submetidos a cargas horárias de trabalho e/ou estudo estafantes, extenuantes, que nos consomem todo o tempo, e mais nos consumiriam se mais tempo tivéssemos.

Madre Teresa de Calcutá passou por um episódio que considero importante de ser aqui relatado. Suas freiras e noviças acordavam bem cedo para iniciar os serviços de caridade que caracterizam a sua Ordem. Mas, antes dos serviços, Madre Teresa reunia todas as religiosas para 4 horas de oração e, no fim do dia, a ida à missa. As religiosas, num dado momento, começaram a reclamar de “tantas” horas de oração, que poderiam ser convertidas em mais serviços de caridade.

Foram falar com Madre Teresa sobre o caso. Pediram-lhe que diminuísse o tempo de oração para que o tempo de serviço aumentasse.

Madre Teresa pediu um dia para lhes dar a resposta. Orou sobre o assunto, pediu discernimento, e, no dia seguinte, reuniu as religiosas e lhes anunciou: daquele dia em diante, o tempo de oração passaria de 4 horas diárias para 6 horas diárias. E assim foi feito.

O serviço de caridade, que aquelas religiosas parecem não ter compreendido na dimensão completa do Mistério Pascal, está também na oração.

Devemos orar, não apenas vigiar.

A propósito, não é à toa que a padroeira dos missionários católicos, juntamente com São Francisco Xavier, seja Santa Teresinha do Menino Jesus, ou Santa Teresa de Lisieux, que era uma freira de clausura, ou seja, que não era missionária, que não saía em missão ao mundo, melhor dizendo. Por quê? Porque alguém que queira ir ao mundo para pregar ou para se comprometer com a fraternidade como solução das injustiças sociais PRECISA ter como protetor alguém cuja grande missão à humanidade não foi a vigília, mas a oração. Santa Teresinha é uma missionária da oração. Por isso é fácil entender, também, que os Frades Mínimos, de São Francisco de Paula, missionários em essência, tenham como patrona Nossa Senhora dos Milagres, a quem, sempre, levam junto à sua chancela eclesial de CHARITAS – GRAÇA, CARIDADE.

Nossa caridade, nosso conhecimento advindo por leitura das Sagradas Escrituras, tudo o que fazemos, mesmo em benefício de nossos semelhantes, deve ser precedido e sucedido pela oração. É ela que nos torna piedosos. A mera leitura e compreensão do magistério nos tornaria intelectuais, eruditos. A oração nos torna mais: nos torna piedosos. A oração é a base do serviço correto, da interpretação correta, é a base do amor.

O que Nossa Senhora de Fátima pediu em suas aparições em Portugal foi, sobretudo, oração, muita oração. Oração para que os corações duros se convertessem à misericórdia, oração para que a Igreja não ficasse acéfala (já que Fátima profetizou o atentado a João Paulo II, e Ela própria salvou sua vida), oração para que a Rússia se convertesse ao catolicismo; e o próprio “Bispo de branco”, o Papa João Paulo II, profetizado como “sangrando e tombado” na profecia da Mãe de Jesus, foi um dos principais responsáveis políticos pela queda do comunismo de bases stalinistas que grassava na União Soviética, para desespero do povo russo que queria se converter a Jesus e a Maria, à Igreja, quero dizer. Há um filme russo muito bom: “Anna, dos 6 aos 18”, em que o diretor, Nikita Mikhalkov, filma sua filha Anna dos 6 aos 18 anos, e lhe faz, ao longo do tempo as mesmas perguntas. É incrível a cena em que velhos e velhas que viveram antes do stalinismo sobem de joelhos uma escarpa pedregosa e alcantilada, para rezar a Cristo aos pés de uma árvore, pois ali havia uma catedral que Stalin mandou derrubar. Isso comprova a fé daquelas pessoas, que – numa atitude piedosa – iam implorar àquela árvore, resquício do sagrado, sagrada ela mesma, portanto, o Espírito de Cristo. Regimes tentaram banir a Igreja, mas nunca, jamais conseguiram arranhar a fé.

Sim, a Igreja, ao longo de sua história, tem feito inúmeros serviços sociais, políticos. Tem participado de tantos marcos históricos, que seria necessário escrever-se uma tese de doutoramento para relatá-los. Não me refiro a acontecimentos de cunho eclesiológico, mas a acontecimentos de cunho temporal, como, para não irmos muito longe, a assinatura da Bula Inter Coetera (Papa Alexandre VI), o Tratado de Tordesilhas, e, muito recentemente, vários tratados do Concílio Vaticano II, como o Gaudium et Spes, que, diferentemente do Lumen Gentium, que tratava mais profundamente dos aspectos do clero e sua missão, trata, agora, da participação da Igreja como instrumento social de transformação e fraternidade num mundo conturbado por excesso de materialismo, entre outras questões prementes às quais a Igreja, como sempre fez, não virou as costas: “a explosão demográfica, as injustiças sociais entre classes e entre povos e o perigo da guerra nuclear, entre outros problemas socias e econômicos.” (GS, 46 e ss.). O Gaudium et Spes também ficou notório pela abertura gradativa e permanente da Igreja aos progressos científicos em prol da humanidade. Diz-se, até, que o Gaudium et Spes veio para fazer a Igreja e a Ciência se reconhecerem como irmãs, não como inimigas, antípodas.

Mas tudo isso precisa ter como lastro a oração. A contemplação silenciosa e profunda aos mistérios de Deus. O amor ao Santíssimo Sacrário. O exame de consciência – da própria consciência, não da consciência alheia – ali, diante do Cordeiro de Deus. A súplica sincera a Deus pelo discernimento real do que é e do que não é pecado.

Somos todos pecadores, e a oração nos aproxima de Deus, dando-nos um vislumbre, por meio do Mistério de sua palavra, de onde, como, quando, por quê e contra quem pecamos. E como podemos nos remir dessas faltas. Precisamos fazer esse exame de consciência profunda, precisamos criar intimidade com Deus para discernirmos, em nós, quais são nossos pecados e como podemos, com o auxílio do Espírito Santo, redimi-los, como foi dito.

A vontade de Deus não é o que queremos e como queremos, mas Lea é aquilo que é. Porém, nós, falíveis que somos, só alcançaremos esse conhecimento, ainda que parcial, parcimonioso, graças ao discernimento que a oração sincera fecundará em nossos corações.É a chamada reforma interior. Cada um deve se comprometer à sua própria, e, de coração aberto a Deus, aprender a orar aceitando que “seja feita a Sua Vontade”, não a nossa.

No período composto por coordenação, em que há dois imperativos, “orai” vem antes de “vigiai”. O que isso significa? Significa que a vigília sem oração é exclusivamente secular, e não caracteriza o fideísta, não importando a que religião ele pertença. Significa que a oração precede a ação.

Na oração ecumênica de Cristo, o Pai-Nosso, ele deixa bem claro: “Venha a nós o Vosso Reino”. Não somos nós que alcançamos a Graça, por supostos méritos que tenhamos ou deixemos de ter; ao contrário, é a Graça que vem até nós, pela misericórdia de Deus, no que, na missa latina, chamava-se o Miserere (ouçam-se as missas de Mozart e Bach por exemplo, ou os Réquiens de Brahms, Mozart, Verdi etc., e ali se encontrará o Miserere).

A oração, porquanto nos aproxima de Deus, vai, pouco a pouco, mitigando o pecado da soberba. Passamos, cada vez mais, a nos reconhecer criaturas dependentes do amor de Deus, manifestado na santa natureza, e a reconhecer que por nossa simples consciência, intelectualidade, erudição ou racionalismo, não conseguiremos compreender os altos desígnios divinos.

Há quatro fontes de conhecimento humano: a Teologia, a Filosofia, a Ciência e a Arte. Cada uma dessas fontes contribui com o homem e seu contato com a natureza que o envolve carinhosamente. Todos nós, mesmo que inconscientemente, somos, em nosso pensamento, consequência das quatro fontes de conhecimento.

Com a Filosofia, aprendemos a refinar o pensamento e a adaptá-lo às diferentes categorias da sociedade, pensando-a por diversos prismas e epistemes que se encaixam como num verdadeiro mosaico.

Com a Ciência, saímos do senso comum, aprendemos a ter paciência, a observar experimentos e anotar resultados para uma futura conclusão, aprendemos a pensar a médio e longo prazos, aprendemos a hierarquizar a qualidade e a quantidade de dados empíricos e teóricos, aprendemos a ser flexíveis, pois nem sempre uma hipótese que aventáramos se consolida numa tese que supúnhamos verdadeira.

Com a Arte, aprendemos a apreciar o belo em todas as suas manifestações criadas pelo homem como espelho de Deus. Mesmo com a corrente desconstrucionista, que supostamente propunha que Arte não é apenas o que é belo, o beletrismo ou as Belas Artes, não deixa de ser no belo e na beleza que, afinal, essa premissa se sustenta. O próprio Duchamp assumiu, no fim de sua vida, que o seu urinol, no fim das contas, tratava de reafirmar a beleza do Renascimento. Os gregos já haviam percebido essa possibilidade de contraste no conceito de antiperístase (tratei desse conceito num capítulo de livro que publiquei em Angola sobre a obra de Manuel Bandeira, poeta que nossos patrícios angolanos muito admiram).

Mas e a Teologia? O que aprendemos com ela? Antes de responder a isso, é preciso saber de onde vem a experiência íntima teológica, e em que ela se difere das outras fontes de conhecimento.

A Teologia surge da revelação, não do raciocínio. A fé é sobrenatural, não pode e nem deve ser explicada de modo científico, filosófico ou artístico. A Teologia é a primeira das fontes de conhecimento, primeira até mesmo do ponto de vista cronológico, como nos prova a Arqueologia e a Antropologia, e também a Psicologia. Por isso, é natural que Filosofia, Arte e Ciência se relacionem com a Fonte-Mãe de conhecimento, a Teologia. Mas sublinho a autonomia da Teologia em face das outras fontes.

A fé é suprarracional, prescinde das explicações filosóficas. A fé existe ou não existe. A fé é tautológica, e, no caso dos católicos, diz respeito ao sentimento profundo, à esperança da parousia, da escatologia cristológica. Assim, o campo da Teologia necessita da oração para se manter, porque a oração é a consequência da fé, cuja causa é, para todos nós, um mistério, como nos anuncia a Santa Missa: “Eis o Mistério da Fé”.

A fé sem oração tende a se esvanecer e a se desintegrar. A Teologia se diferencia das outras fontes de conhecimento pelo fato de que não é apenas intelectual, racional, nem diz respeito aos cinco sentidos, nem pode ser alcançada apenas mediante controle estrito de experimentos. A Teologia, por ser suprarracional, possui um elemento que a diferencia de todo tipo de conhecimento humano: a fé.

Não foi à toa que Jesus encareceu tanto esse dom: “Se tivesses fé, ordenarias à montanha e ela se atiraria ao mar”.

- Marcelo Moraes Caetano

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Para cuidar da preparação para o Natal


Os jesuítas do Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici elaboraram um material incrível de preparação para o Natal neste Advento, para quem quiser fazer uma reflexão diária neste período. O material está muito bem organizado em arquivos pdfs (versões completa, com toda a orientação acerca da oração inaciana, e resumida) que podem ser baixados e impressos. Caso se interessem, deem uma olhada aqui. Reproduzo abaixo o texto de apresentação do material.

Beijos carinhosos a tod@s! :-)

* * *

Mais uma vez estamos disponibilizando, através do site do CEI-Itaici, roteiros de oração para que os grupos e comunidades cristãs possam viver mais intensamente o Tempo do Advento e alargar suas vidas para caber o mistério do Natal.

Advento nos revela a presença da eternidade no coração do tempo. O Eterno continua vindo, pelos caminhos mais imprevisíveis, iluminando a dura rotina e a seqüência do cotidiano.

Advento é tempo de espera, de preparação e de chegada. Tempo forte carregado de sentido, que nos faz ter acesso àquilo que é mais humano em nós: o sentido da esperança, a travessia, o encontro com o novo... Tempo que nos arranca de nossas rotinas e modos fechados de viver.

A Vinda de Cristo é o grande evento que agita os corações, sacode as inteligências, inquieta as pessoas, move as estruturas... Toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente.

Por isso, o Advento deveria ser um tempo para voltar-nos para o interior em meio à agitação, e olhar para dentro de nós mesmos. Aí, no nosso interior, há tanto de eterno. A eternidade dialoga com a gente, fala por dentro. Caminhamos para O Senhor que vem à medida que mais nos adentramos ao fundo de nós mesmos e da realidade. Advento nos convida a “contaminar-nos” da realidade; e isso nos humaniza.

Somos “seres de travessia”. O Advento nos convida a não perder de vista nosso horizonte, nossos objetivos, nosso propósito de investir a vida, gratuitamente, naquilo que vale a pena. Cada momento é o “hoje” de Deus; por isso o “fim” está sempre chegando.

O Esperado traz uma novidade que envolve e que se revela em cada rosto humano e em cada fragmento de tempo, deste tempo colocado em nossas mãos.

Contemplando o “hoje” de Deus, o coração se alarga até o assombro, os braços se abrem para a acolhida, os pés se movem para o encontro, os olhos se aquecem para o reconhecimento.

Vamos todos fazer este “caminho orante”, descendo em direção à nossa humanidade. Ali, nas grutas de nosso interior, uma Infância Divina nos espera... e nos enche de alegria.

Bom proveito.

Itaici, Indaiatuba, SP, Novembro de 2011.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Vigilância e oração

Foto: Rebeca Cygnus

A cada uma das quatro semanas do Advento é proposto um tema central. À primeira, cabe a Vigilância. Sendo esse um período em que a Igreja chama à conversão, à oração e à penitência, o chamado a vigiar soa como um convite para fazer a leitura daquilo que é preciso abandonar de modo que se possa celebrar o Natal em toda a sua plenitude.

Jesus nos adverte para o fato de que ninguém sabe o dia ou a hora em que Deus chegará. Assim se deu nos tempos de Noé, em alusão que faz ao dilúvio enviado por Deus como sinal da necessidade de conversão. Assim se dá também em nossos dias. Talvez não com um dilúvio, nem como grandes tragédias, mas pequenos sinais diários em que Deus nos mostra o caminho a seguir.

Vigiar é a atitude daquele que deseja encontrar algo, daquele que busca, daquele que guarda um tesouro e não quer se ver aviltado. Quando Jesus nos adverte para a necessidade de vigilância, não quer nos apresentar um Deus castigador, que pune o ímpio. Ao contrário, quer nos mostrar Sua grande misericórdia, que mesmo diante de tantas ingratidões que cometemos, é capaz de a cada minuto nos oferecer novas e novas oportunidades. Vigiar é buscar encontrar os sinais da Vida em nossas vidas, é cuidar para que nosso corpo e nosso espírito sejam inteiros direcionados para o Senhor, é lutar pela preservação da vida, dom maior de Deus.

A oração é o caminho de encontro com o Senhor. A porta por onde nos é comunicada a graça de Deus e que, no silêncio de um quarto, pode aclarar e acalmar nossos corações para o verdadeiro encontro de Deus. Assim, vigilância e oração caminham juntas no dia-a-dia daqueles que esperam em Deus, daqueles que desejam firmemente encontrá-Lo e poder contemplar Suas maravilhas em um mundo nem sempre disposto a mostrá-las.

A caminhada rumo a Belém começa, pois, com esse apelo à abertura de sentidos para o verdadeiro encontro com Aquele que traz em si todo o sentido da verdadeira Vida: vigilância, oração, misericórdia...

Texto para oração
Mc 13, 33-37

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

sábado, 12 de novembro de 2011

Encontro de Assis: uma ''viagem fraterna'' rumo a um horizonte maior

Foto daqui

Uma peregrinação "pela verdade e pela paz". Foi com esse propósito que Bento XVI e diversos outros líderes religiosos de todo o mundo estiveram reunidos em Assis, na Itália, entre 27 e 28 de outubro. Uma data e um encontro histórico, a 25 anos da primeira Jornada de Oração pela Paz, convocada por João Paulo II em 1986, para uma oração comum pela paz em um período histórico marcado pela Guerra Fria.

Na opinião do teólogo Faustino Teixeira, a iniciativa de João Paulo II “deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um ‘espírito’ novidadeiro de respeito e abertura aos outros”. Por isso superou as críticas – inclusive as do atual papa, naquela época cardeal e presidente da Congregação para a Doutrina da fé – e recebeu uma nova edição, em 2002, após os atentados do 11 de setembro.

Nesta terceira edição, relembra Teixeira, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, retorna a “linda imagem” utilizada por João Paulo II para expressar aquele momento inaugural: “uma ‘viagem fraterna’ em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos”.

Nos últimos anos, no papado de Bento XVI, “não houve nenhum documento ou gesto concreto que modificasse a nítida perspectiva teológica que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana”, pondera Teixeira.

Mas revela: “O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos”. Ou seja, uma “possibilidade de transmitir a essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo”.

Faustino Teixeira é professor do programa de pós-graduação em ciência da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, pesquisador do CNPQ e consultor do ISER-Assessoria. É pós-doutor em teologia pela Pontificia Universidade Gregoriana. Entre suas últimas publicações, encontram-se Catolicismo Plural: Dinâmicas contemporâneas (Ed. Vozes, 2009) e Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso (Ed. Santuário, 2008).

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O que significou o gesto de João Paulo II, há 25 anos, ao convocar uma Jornada Mundial de Oração pela Paz junto aos grandes líderes religiosos mundiais?

Foi um dos mais significativos gestos de João Paulo II em seu pontificado. Foi um encontro paradigmático, na medida em que facultou uma profunda ruptura no posicionamento tradicional da Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR no campo do diálogo inter-religioso. O próprio Papa João Paulo II se expressou a propósito em seu discurso natalício aos membros da cúria romana, em 22 de dezembro de 1986: “O acontecimento de Assis pode ser considerado uma demonstração visível (…) daquilo que pressupõe e significa o esforço ecumênico e o esforço pelo diálogo inter-religioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II”.

Foi um evento grandioso e deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um “espírito” novidadeiro de respeito e abertura aos outros. E também a convicção firmada de que a oração de todos, no respeito às suas diferenças, é fundamental para a paz entre as nações. E, quando é autêntica, traduz um significativo fruto do Espírito.

Houve resistências a essa iniciativa?

Foi um evento que suscitou muitas reservas, sobretudo entre os tradicionalistas lefebvrianos, mas também entre cardeais da cúria romana, que manifestavam temor pelo risco de sincretismo. Marcel Lefebvre identificou o evento como um escândalo e uma “blasfêmia pública”. Mesmo o cardeal Ratzinger, na ocasião, não manifestou grande entusiasmo pela iniciativa, preferindo manter uma “reserva mais que morna”, para utilizar a expressão do historiador Alberto Melloni.

Apesar das resistências, prevaleceu a ousadia dialogal de João Paulo II, que soube reconhecer que o desafio da paz é mais amplo e urgente do que as diferenças religiosas. E dizia: “Ou aprendemos a caminhar juntos em paz e harmonia, ou nos desconhecemos mutuamente e nos destruímos a nós mesmos e aos outros”. E linda foi a imagem que utilizou para expressar aquele momento: uma “viagem fraterna” em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos.

Na preparação ao primeiro encontro, na década de 1980, grupos mais tradicionais da Igreja criticaram as tendências relativistas ou sincretistas do encontro, como os lefebvrianos. E as críticas retornam nessa nova edição. Que desafios o diálogo inter-religioso apresenta à Igreja?

De fato, os lefebvrianos continuam em sua rígida oposição. O superior atual do grupo lefebvriano, D. Bernard Fellay, reagiu de forma dura ao saber das intenções de Bento XVI em retomar o curso dos eventos de Assis. Ele comenta: “Todos os deuses pagãos são demônios e Assis estará cheia de demônios”. Sem comentários…

As maiores dificuldades, já no primeiro evento, estavam relacionadas ao tema da “oração comum”. Houve então uma preocupação permanente dos idealizadores de evitar o risco de sincretismo religioso, e isso se manifestava na fórmula escolhida para o encontro: “juntos para rezar” e não “rezar juntos”. Evitou-se fazer qualquer tipo de oração comum, mas as orações foram realizadas com muita liberdade, expressando assim os caminhos diversos, mas nobres, de relação amorosa com o Mistério Absoluto. E elas aconteceram no interior da Basílica inferior de São Francisco, em sucessão contínua, com a assistência reverencial de todos. Isso será modificado nos eventos sucessivos. Não se pode, porém, descartar a plausibilidade de eventos pontuados pela presença de uma oração comum, e isso não significa necessariamente recair no sincretismo. É o que expressou tão bem, Marcello Zago, em texto publicado no L'Osservatore Romano de outubro de 1986: “Estar junto para rezar, e às vezes rezar junto, é reconhecer este fato essencial da relação de todos os homens com Deus”.

O rico documento do então Secretariado para os não Cristãos, Diálogo e Missão (1984) – assinado também pelo então secretário, Marcello Zago – ressaltava como o nível mais profundo do diálogo a “partilha das experiências de oração, contemplação e fé” (DM 35). Infelizmente a dinâmica dos eventos sofreu mudanças substantivas nesse campo.

Desde 1986, houve algumas mudanças a partir do título: de “Jornada Mundial de Oração pela Paz” passou-se a “Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo”. Como podemos entender essas novas ênfases?

A nova jornada de Assis, em comemoração ao 25º aniversário do primeiro evento, realizado em 1986, muda de fato o seu tom. De uma jornada de oração passa a ser, sobretudo, uma jornada de reflexão. Isso não significa a inexistência de um momento específico de oração silenciosa individual, que também ocorrerá. Mas o traço substantivo será de índole reflexiva, em favor da paz mundial. Como expressou o cardeal [Jean-Louis Pierre] Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, “no mundo tão precário e cheio de muros de separação físicas e morais, me parece mais do que nunca oportuno que as religiões, apesar de suas diferenças, promovam juntas a paz. O diálogo entre as religiões é sempre um chamado de Deus a redescobrir suas próprias raízes espirituais”.

De forma bem curiosa, o Papa Bento XVI, antes resistente aos eventos desta natureza, se vê agora diante de sua urgência e inevitabilidade. Redescobre, assim, o valor da intuição de João Paulo II. Mas a perspectiva agora é diferente, marcada por um controle doutrinal mais decisivo e com a ênfase voltada mais para a dimensão cultural do diálogo. A ausência premeditada de momentos públicos de oração comum é uma forma precisa de evitar o risco de um binômio que acompanha as lides desse pontificado: relativismo/sincretismo.

Quanto à novidade de estender o convite aos não crentes, julgo a ideia bem pertinente. O diálogo inter-religioso deve envolver, igualmente, as distintas opções espirituais, religiosas ou não. É uma ideia que vem corroborar o projeto ratzingeriano de transformar o diálogo inter-religioso num diálogo mais cultural.

Qual o significado e o valor da oração inter-religiosa? Ou, em outros termos, qual o medo da Igreja de rezar junto com as demais religiões?

Num belo livro em que recolhe seus sermões, "Passion de l’homme passion de Dieu" (1991), o teólogo Claude Geffré trabalha de forma magnífica a ideia da oração como “mistério de gratuidade”. Ele sinaliza que a oração é a “atitude fundamental do homem religioso, mais universal do que a fé explícita num Deus pessoal”. Há uma dimensão universal da oração que ultrapassa a dinâmica particular e restrita das religiões.

Na visão de Geffré, com a qual concordo plenamente, o primeiro encontro de Assis fez eclodir um “ecumenismo planetário”, pontuado pelo alcance universal da oração. A oração suscita, antes de tudo, um descentramento de si e um recentramento no outro, um grande aprendizado de gratuidade, de abertura e conversão do coração. Grandes momentos dialogais foram e são vividos pontuados pela oração em comum: veja os importantes exemplos dos monges de Tibhirine (Argélia) e dos religiosos da Comunidade de Mar Musa (Síria), no diálogo com os muçulmanos e outros tantos exemplos nessa linha.

Não sem razão, sublinha Jacques Dupuis: “A oração comum se apresenta como a alma do diálogo inter-religioso, mas também como a expressão mais profunda do diálogo e, ao mesmo tempo, como a garantia de uma conversão comum mais profunda a Deus e aos outros”.

O tema deste ano é Peregrinos da verdade. Peregrinos da paz. E a peregrinação dos líderes religiosos será também um ponto forte do encontro, seja de trem (do Vaticano até Assis) ou a pé (para a entrada na Basílica de São Francisco). Como essa imagem do “caminhar juntos” pode inspirar o diálogo inter-religioso?

Em editorial da revista Concilium, cujo tema versava sobre as peregrinações (1996/4), Christian Duquoc e Vigil Elizondo sublinhavam que o senso da peregrinação parece responder a uma profunda necessidade que o ser humano tem de ir além dos limites da experiência ordinária e entrar no misterioso reino do além”. De fato, há algo de ousado na experiência das peregrinações, sobretudo a disposição de “expor-se a novas paisagens” e arriscar-se a ampliar as possibilidades. E as religiões, como fragmentos, estão desafiadas a fazer essa travessia. Volto aqui à bela imagem de João Paulo II, de uma “viagem fraternal” pontuada pelo mútuo aprendizado e pela troca de dons, rumo a um horizonte maior, ainda inominado.

A inclusão de não crentes no debate inter-religioso por parte do Vaticano também remete à proposta do “Átrio dos Gentios”, impulsionado pelo cardeal Gianfranco Ravasi. Qual a contribuição dos ateus e dos não crentes para o diálogo entre os que creem?

A proposta é interessante, mas a imagem ainda é precária. Falar em “Átrio dos Gentios”, tomando a metáfora de Bento XVI, é ainda realçar a disparidade entre aqueles que detêm a verdade e os “outros” que se encontram no pórtico exterior. É uma imagem que pressupõe, ainda que não intencionalmente, a apropriação da verdade por parte de alguns em detrimento de outros. Sobre isso chamou a atenção o sociólogo Peter Berger, sendo retomado por Marco Politi em sua recente obra sobre o papado de Joseph Ratzinger ("Joseph Ratzinger. Crisi di un papato" – 2011).

Não há dúvida, porém, da importância dessas novas presenças no evento de Assis, entre as quais [a filósofa e psicanalista búlgara-francesa] Julia Kristeva e [o filósofo italiano] Remo Bodei. Esse último autor, filósofo e professor na Universidade da Califórnia, acolheu prontamente o convite feito pelo cardeal Ravasi e sublinhou o significado dessa florescente consciência: “Se os dogmas religiosos entram em contato com as ideias do mundo e saem de sua clausura, isso se torna um fato positivo também para os ‘laicos’, isto é, aqueles não crentes que não querem viver na banalidade”. Também a Igreja vem enriquecida por essa pars paganorum, essa parte de paganidade, esse “lugar fora de sua residência”, capaz de favorecer a ampliação do olhar e a abertura atenta para as coisas deste mundo. Como indicou o teólogo belga Adolphe Gesché, “o Evangelho não é suficiente para tudo, não diz tudo sobre o ser humano”.

No livro "Joseph Ratzinger, Crisi di un papato" (Ed. Laterza), o vaticanista Marco Politi, como aponta o título, delineia uma forte crítica ao pontificado de Bento XVI em seus seis anos de pontificado. Como o evento de Assis se encaixa nessa análise? Que continuidades ou rupturas se apresentam nesse fato?

Vou aqui me fixar nos traços específicos do livro que tratam da questão das religiões, e em particular ao evento de Assis. Trata-se de um livro precioso, recheado de uma “impecável documentação” sobre o percurso do pontificado de Bento XVI. O diagnóstico feito por Politi é sombrio, apontando “sinais de incerteza” na condução estratégica do pontificado em vários âmbitos. Um deles é justamente o do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

Com precisão certeira, Politi sinaliza que a lógica que marca o itinerário do pontificado é tecida por uma “mecânica de passos em falso”. Atuações problemáticas são depois corrigidas por “intervenções de socorro”, que buscam amenizar o impacto das controvérsias. E são tantas as que podem ser nomeadas, como o fez brilhantemente Marco Politi em seu livro e não vem ao caso aqui retomá-las. O autor fala na presença de uma “mão invisível” a suscitar novas e previsíveis polêmicas.

Nesses seis anos de pontificado, seguindo a argumentação de Politi, o “lobby pró-Ratzinger”, que o impulsiona adiante, não apresenta um “projeto de respiro para o futuro da Igreja”. O que se verifica é uma dinâmica marcada pelo traço defensivo, de reação ao mundo contemporâneo, frágil para anunciar a alegria de um Deus misericordioso e atento aos sussurros do plural. Para muitos das novas gerações, como indica Politi, é um papa que “não transmite esperança”, que não suscita atração. Fala nele mais o homem das palavras, o teólogo racional, distante da possibilidade de mostrar uma “Igreja de misericórdia”.

Com respeito às religiões, os desencontros são inúmeros. A tensão com o mundo protestante vem acirrada desde a década de 1990, com a minoração eclesial das Igrejas protestantes, reduzidas a partilharem apenas “elementos da Igreja de Cristo”. Nesse período, estava na direção da Congregação para a Doutrina da Fé o cardeal Ratzinger, que defendia firmemente tal posição, que depois veio reiterada na Declaração Dominus Iesus, de 2000. Em sua obra "Igreja: carisma e poder" (na edição revista de 2005), Leonardo Boff relata com detalhes a tensão que marcou seu colóquio com o cardeal Ratzinger em torno da interpretação da passagem da Lumen Gentium 8, que trata da questão do subsistit in, ou seja, da forma de subsistência da Igreja de Cristo na Igreja Católica.

Para Boff, a Igreja de Cristo ganha sua forma na Igreja Católica, embora se concretize igualmente, de um modo particular, nas demais Igrejas, portadoras da herança de Jesus. Para Ratzinger, diversamente, a Igreja romano-católica é a “única Igreja de Cristo”, enquanto as demais têm apenas “elementos eclesiais”. Essa posição veio confirmada na Dominus Iesus. A relação com os judeus vem também tensionada nos últimos anos e isso se deve a certas atitudes como a liberação do rito tridentino e o motu proprio, summorum pontificum (de julho de 2007), que resgata a oração da sexta-feira santa, que fala dos “pérfidos judeus”; a reabilitação de quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, criada por Marcel Lefebvre, sendo que um deles, o bispo Richard Williamson, chegou a colocar em dúvida a existência do Holocausto. Acrescentam-se os percalços da viagem papal à Polônia, em maio de 2006. Mais recentemente, reacende-se a polêmica quando o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, publica um artigo no L'Osservatore Romano (07-07-2011) assinalando que a cruz de Jesus é para os cristãos o permanente e universal Yom Kippur. O artigo provocou duras reações do rabino de Roma, Di Segni.

Com respeito ao islã, há uma certa “desconfiança de fundo” que acompanha boa parte do pontificado de Bento XVI. O ponto culminante foi o discurso na universidade de Regensburg, em setembro de 2006. Marco Politi fala na “catástrofe de Regensburg”, que joga ao chão 20 anos da política wojtyaliana nos confrontos do islã. Como sempre ocorre nesse pontificado, depois do desfeito sucedem-se as tentativas de reparo, e isso ocorreu com as declarações reparadoras do secretário de estado, cardeal Bertone, e também do próprio papa. Em suas viagens à Turquia e Terra Santa a tonalidade já foi outra, embora saliente com razão Politi, não se abriu em seguida novas páginas na relação com islã.

Um estranho episódio que diz respeito ao diálogo com o islã foi a destituição do antigo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Michael Fitzgerald, e seu encaminhamento para o “exílio” no Cairo. O seu dicastério funde-se com o Pontifício Conselho para a Cultura em março de 2006. A decisão mostra-se problemática já no ano seguinte, dada a importância estratégica da relação com o islã. E o processo vem refeito, em junho de 2007, com a nomeação do cardeal Jean-Louis Tauran para presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Como ex-ministro do exterior do Vaticano era um homem de diálogo e bom conhecedor do mundo árabe, como Fitzgerald.

Com respeito às outras religiões, fica ainda registrado na memória aquela infeliz expressão da Dominus Iesus, que indica que elas encontram-se numa “situação gravemente deficitária, se comparada com a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos meios de salvação” (DI 22). Não houve nenhum documento ou gesto concreto nesse atual pontificado que modificasse essa nítida perspectiva teológica, que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana. O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos.

Assis também tem um imenso legado religioso por ser a terra de Clara e Francisco. Como esse legado pode inspirar, hoje, o diálogo inter-religioso, especialmente por parte de seus herdeiros “diretos”, ou seja, os cristãos católicos?

Não foi sem razão que João Paulo II escolheu Assis para a realização da primeira Jornada Mundial de Oração pela Paz. É, antes de tudo, um símbolo fundamental para o diálogo e entendimento entre as religiões. E dois nomes, como bem lembrou Wojtyla, estão intimamente ligados na lembrança dessa cidade: Francisco e Clara – “Dois nomes, duas vocações, que recordam os valores evangélicos da caridade, da pobreza, da pureza, da amizade espiritual, da oração e da paz”.

A imagem de Francisco, em particular, traz a singular marca do amor cortês, de um amor intenso e generoso para com os outros, de delicadeza única para com toda a criação. Como bem assinala Chiara Frugoni em sua bela biografia sobre Francisco ("Vida de um homem: Francisco de Assis", 2011), ele “está muito distante daqueles rostos tristes da espiritualidade monástica tradicional”. É dessa alegria e dessa esperança que tanto necessitamos hoje em dia, de uma alegria que possa reaquecer nossas energias vitais para fazer frente ao desencanto crescente.

E aqui me vem também à mente o lindo livro de [José Antonio] Pagola sobre Jesus. Não é fortuito o fato desse livro estar em sua quarta edição no Brasil. É um livro que traduz uma linda imagem de Jesus, como alguém que transmite alegria, saúde e vida. E um amor apaixonado à vida que se soma à sua impressionante capacidade de acolhida do outro. Acredito que é esse “espírito” que deve animar o encontro de Assis, que agora se inicia. Antes de tudo, a possibilidade de transmitir essa essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo.

(Por Moisés Sbardelotto)

sábado, 29 de outubro de 2011

Jesus convida à sua mesa os cristãos divididos

Projeto paisagístico: Visiondivision

A 'hospitalidade eucarística' é abordada por Paolo Ricca. teólogo italiano, em artigo publicado na revista semanal italiana Riforma, 16-09-2011. Riforma é o semanário das Igrejas Evangélicas Batistas, Metodistas e Valdenses da Itália. O teólogo responde à demanda feita pelo movimento ecumênico de Turim, denominado "Instrumentos da Paz", através de pergunta enviada pela leitora Eugenia Ferreri.

A tradução é de Benno Dischinger, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o artigo.

"Pertenço à Igreja valdense de Turim e há alguns anos me ocupo com o ecumenismo, sobre o qual, em âmbito valdense, as opiniões são diversas; há quem seja contrário, quem seja indiferente, quem seja cético, quem gostaria de interromper o diálogo considerado inútil, enquanto outros, afortunadamente compartilham objetivos e razões. No quadro do trabalho ecumênico que se desenvolve em Turim, eu gostaria de falar de uma iniciativa levada em frente pelo grupo ecumênico “Instrumentos de paz”, nascido em 1966 e composto por católicos, evangélicos batistas, valdenses, adventistas e esporadicamente por ortodoxos. A iniciativa consiste num caminho empreendido pelo compartilhamento da eucaristia ou ceia do Senhor.

Para fazer este objetivo chegar aos pastores das várias igrejas evangélicas, a alguns padres e correspondentes paróquias, bem como à comissão diocesana e à evangélica para o ecumenismo, foram enviadas cartas solicitando expressamente que com encontros mensais itinerantes, se possa compartilhar também em igrejas católicas a eucaristia, precisamente como já é possível compartilhar a ceia do Senhor nas igrejas evangélicas. A motivação dada é esta: “Gostaríamos, com este gesto, de responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Quereríamos, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”.

A iniciativa terá início em outubro. Agora está claro que permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor. E então a pergunta é: é correto compartilhar um gesto tão importante na divisão das confissões de fé? O que se quer fazer é, por ora, um pequeno passo: o que poderemos ou deveremos fazer para que o pequeno passo possa levar a uma mudança bem mais importante? Como ninguém querer dar um passo para trás no referente à própria teologia, talvez fosse melhor realizar um gesto diferente, para manifestar a comunhão ecumênica já existente. Se sim, qual?"

(Eugenia Ferreri – Turim)

Não é por acaso que a iniciativa do Grupo ecumênico turinense “Instrumentos de paz” de promover, como cristãos de diversas confissões, uma ação comum para chegar a compartilhar a eucaristia (como costumeiramente a chamam os católicos) ou Santa Ceia ou Ceia do Senhor (como costumeiramente a chamam os evangélicos) em cultos públicos, celebrados em paróquias católicas e comunidades evangélicas da cidade – não é por acaso, dizia, que esta iniciativa nasceu neste ano de 2011.

Por que não por acaso? Porque o texto bíblico proposto neste ano às comunidades cristãs de todo o mundo por ocasião da Semana de oração pela unidade dos cristãos, realizada, como a cada ano, de 18 a 25 de janeiro passado, era Atos 2,42, onde se diz que os primeiros cristãos “eram perseverantes na escuta do ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações”.

Partir o pão juntos era, pois, um dos distintivos da primeiríssima comunidade cristã – a que nasceu em Jerusalém no dia de Pentecostes. Como sabemos, esta expressão indica duas coisas distintas, mas na origem estreitamente ligadas entre si.

A primeira é a refeição comum dos cristãos, consumida juntos e chamada ágape; a segunda é a ceia do Senhor, que habitualmente ocorre no quadro do ágape, como sua conclusão e coroamento. Compartilhando o pão e o vinho da ceia do Senhor, os primeiros cristãos manifestavam sua comum pertença a Cristo e sua recíproca fraternidade. Reconhecerem-se como cristãos implicava, entre outras coisas, partirem juntos o pão da Ceia.

Agora, em janeiro deste ano, tocamos com a mão a grande contradição na qual nos encontramos: mesmo pertencendo a igrejas diversas, nos reconhecemos todos como cristãos, mas, não obstante isso, não partimos juntos o pão da Ceia. Este verdadeiro e próprio “apartheid eucarístico” era compreensível quando não nos reconhecíamos como cristãos, mas cada um considerava o outro como herege. Hoje não é mais assim. A própria Igreja católica, que, como sabemos, a seu tempo excomungou a Reforma, os reformadores e seus seguidores, com o Concílio Vaticano II abandonou este juízo, declarando que protestantes e ortodoxos “justificados no batismo da fé, são incorporados a Cristo, e por isso são, com razão, assinalados com o nome de cristãos, e pelos filhos da igreja católica são justamente reconhecidos como irmãos no Senhor” (Concílio Vaticano II, Decreto sobre o ecumenismo, n. 3).

Ora, de duas uma: ou isto não é verdade, isto é, não é verdade que sejamos “irmãos”, embora “separados”, não obstante “assinalados com o nome de cristãos”, se isto, dizia, não é verdade e consequentemente não nos reconhecemos reciprocamente como cristãos, então, sim, é lógico que não partamos juntos o pão da Ceia. Se, ao invés, é verdade que somos “irmãos”, embora “separados”, reconhecendo-nos, pois, reciprocamente como cristãos, mesmo nas diversas pertenças confessionais, então não só podemos, mas devemos partir conjuntamente o pão, porque isto faziam os cristãos quando se encontravam para escutar juntos a Palavra de Deus, para praticar a comunhão fraterna e para orar. Quem faz conjuntamente estas coisas, pode e deve também partir conjuntamente o pão da Ceia.

É esta a proposta do Grupo ecumênico “Instrumentos de paz”. Nossa leitora nos comunica também a motivação: “Queremos com este gesto responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Querer-se-ia, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”. Esta motivação é mais que suficiente. Jesus celebrou a Ceia até mesmo com Judas, não excluiu nem sequer a ele. Quem tem a coragem e a autoridade de excluir quem quer que seja? O pão e o vinho da Ceia são o dom que Jesus nos concedeu, dando-se a si mesmo: quem tem a coragem e a autoridade de retirar este dom do senhor da mão de um irmão reconhecido como cristão? A proposta, portanto, é boa, evangélica, cristã; é um ato de obediência ao convite de Jesus e de coerência ecumênica, com o qual, por certo – não seria honesto silenciá-lo – se transgride uma lei eclesiástica, mas isto é inevitável caso se queria viver verdadeiramente, neste campo, a liberdade cristã. A lei jamais consegue conter a graça, que transborda de todo lado; por isso Jesus tantas vezes transgrediu a lei do sábado.

Vai por si que, como justamente observa nossa leitura, “permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor”. Por exemplo, os evangélicos não compartilham a doutrina da transubstanciação, e os católicos (caso sigam a doutrina oficial de sua Igreja) pensam que somente um sacerdote ordenado por um bispo (católico ou ortodoxo) tenha a assim dita potestas consecrandi, isto é, o poder de “consagrar o pão e o vinho de modo a transformá-lo no corpo e sangue de Cristo. Mas, se as diferenças de doutrina entre católicos e evangélicos sobre a Ceia permanecem aquelas anteriores, que sentido tem que eles a celebrem juntos, dado que a compreendem de modo diverso? Celebram verdadeiramente a mesma Ceia, ou não celebram talvez duas Ceias diversas, embora chegando juntos à mesma mesa e compartilhando o mesmo pão e o mesmo vinho?

Mas, se devesse ser assim (duas Ceias diversas celebradas conjuntamente por católicos e evangélicos em torno à mesma mesa), a comunhão realizada em torno àquela mesa seria real ou somente aparente? São estes os interrogativos – muito sérios – que nossa leitora levanta e às quais respondo assim: o que conta na ceia do Senhor são suas palavras (“Tomai, este é o meu corpo”; “Este é o meu sangue, o sangue da aliança...” e os seus dons – o pão e o vinho: Marcos 14, 22-25). Nem o próprio Jesus, que por primeiro celebrou a Ceia, nem o apóstolo Paulo, que narra sua “instituição” (Coríntios 11, 23-25), sentiram a necessidade de explicar, isto é, de interpretar as palavras da Ceia.

Isto, no mínimo, significa duas coisas: a primeira é que a interpretação é livre, isto é, são possíveis diversas interpretações, nenhuma das quais pode, no entanto, pretender ser canônica, porque na Escritura, que é o cânone (isto é, a regra de nossa fé cristã), as palavras de Jesus são aduzidas, mas não interpretadas. A segunda é que, embora a interpretação seja necessária (no sentido que cada um deve saber o que está fazendo quando participa da Ceia), todavia, esta interpretação não é constitutiva da própria Ceia, a qual é a Ceia do Senhor, independentemente das interpretações que nós lhe damos. O que une aqueles que participam da Ceia do Senhor são o pão, o vinho, as palavras de Jesus e a ação invisível do Espírito, e não as nossas explicações das palavras de Jesus e as nossas interpretações dos seus dons.

Embora, quando celebramos a Ceia entre cristãos de diversas confissões, estivéssemos de acordo e déssemos a mesma explicação daquilo que na Ceia acontece (esta unanimidade, entre outros aspectos, não existe sequer quando a celebram cristãos da mesma Igreja; também ali, secretamente, as opiniões divergem!), não seria aquele acordo o vínculo real de nossa comunhão, e sim o seriam as palavras, o pão, o vinho de Jesus e o testemunho interior do Espírito Santo. Eis porque tem sentido que cristãos de diversas igrejas celebrem juntos a Ceia do Senhor, porque é aí que Jesus os convoca, e aí eles se reúnem, aceitando, com alegria e gratidão (“eucaristia” significa em grego “reconhecimento”, “agradecimento”), o seu convite para receberem juntos as suas palavras e os seus dons, independentemente das diversas interpretações que eles possam dar da Ceia. O que nos une a Jesus quando celebramos a Ceia não é esta ou aquela doutrina, mas a fé.

Na linguagem ecumênica, este tipo de celebração se chama “hospitalidade eucarística”: somos todos hóspedes (indignos) do Senhor em sua mesa, e ali, recebendo o pão e o vinho com sua palavra, celebramos conjuntamente a “comunhão com o corpo e o sangue de Cristo”, como diz a Escritura (1 Co 10, 16). Como ocorra esta comunhão a Escritura não o diz, e não temos necessidade de dizê-lo nós. A Escritura diz somente que ela acontece, entende-se na fé, e isto nos deve bastar.

As doutrinas entre si diversas permanecem, e podem continuar a confrontar-se, mas o convite de Jesus deve ter o primado. Nem se pode pensar em cerimônias substitutivas, às quais Jesus não nos convida: ele nos convida à sua mesa, que é única, e não a outras. A iniciativa de ”Instrumentos de paz”, como eu já disse, é boa precisamente porque afirma o primado do dom de Deus acima de nossas interpretações, e este dom é único e o mesmo para todos. Jesus não divide e sequer aceita as nossas divisões, pelo menos à sua mesa. A única condição é a fé nele e a clareza nas relações entre nós. As nossas diferenças na interpretação da Ceia não devem ser caladas ou espezinhadas – aqui se requer total transparência -, mas também não devem ser dogmatizadas a ponto de se tornarem mais importantes do que o convite de Jesus. O Senhor é Ele, e não nós.
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