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domingo, 20 de julho de 2014

Um mestre ouvinte e aprendiz


Ontem, Rubem Alves se foi. Que esse mestre cujas palavras doces e frescas tanta falta nos farão agora interceda por nós junto à luz do Pai Amoroso.

"Mestre, ensina-nos a orar", pediu uma velhinha.

"Quando orarem, vocês não serão como os vaidosos que gostam de orar em lugar visível para serem vistos pelos homens. Você, quando orarem, entrem nos seus quartos e, fechada a porta, orarão ao seu Pai, que ali está, invisível, mesmo que ninguém o veja. E não fiquem repetindo a mesma coisa, como se Deus fosse surdo. Deus sabe do que vocês necessitam, antes que vocês o digam. Vocês orarão assim:

Pai-Nosso… Mãe-Nossa…

Pai… Mãe… de olhos mansos, sei que estás invisível em todas as coisas.

Que o teu nome me seja doce, a alegria do meu mundo.

Traze-nos as coisas boas em que tens prazer:

Os jardins, as fontes, as crianças, o pão e o vinho, os gestos ternos, as mãos desarmadas, os corpos abraçados…

Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo, desejo cujo nome esqueci… mas tu não esqueces nunca.

Realiza pois o teu desejo para que eu possa rir.

Que o teu desejo se realize em nosso mundo, da mesma forma como ele pulsa em ti.

Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje: o pão, a água, o sono…

Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus o são para conosco.

Porque, se formos ferozes, não poderemos acolher a tua bondade.

E ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos desejos maus.

E livra-nos daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.

Amém.

(Rubem Alves)

Referência-homenagem via nossos irmãos do Episcopaz (aqui)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Oração de ano novo


Penetra a aurora.

Corta as amarras.
Desembaraça os fios.
Rompe os grilhões
que atam e prendem.

Caminha, livre
como Nelson Mandela liberto da prisão,
adentrando a possibilidade
de um caminho novo
onde os inimigos sejam surpreendidos pela Graça.

A vida, em sua dor e delícia,
te conduziu até aqui.
Tudo é aprendizado.
Desvencilha-te do passado.
Desperta para os sinais, para as maravilhas.
Percebe os guias sábios, os marcos de pedra
que indicam a direção e te resguardam os caminhos.

Encontra tuas almas gêmeas, teus espaços sagrados,*
aquelas pessoas e lugares que alimentam tua alma.
Trata de mantê-los perto.

Reconhece a esperança de ressurreição a cada novo dia,
para mais uma vez começar
e adentrar a vida ainda por viver;
para fazer a paz,
ser puro de espírito,
caminhar com deferência,
amante da misericórdia e da bondade,
e praticar o bem que bem sabes fazer.

Vê com olhos novos
o caminho que sempre foi,
o que nos conduz ao nosso lugar nesta terra
— aquele que nos leva para casa.

- Christy Caine

[*No original, Anam Cara (expressão celta que significa “amigo de alma”) e Caol Ait (expressão celta que significa “lugar tênue”— onde a distância entre o divino e o humano é tão tênue que facilita o encontro espiritual).]

Fonte | Tradução: Cris

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Viver no nosso lugar


Para aprender a meditar, precisamos aprender a ser humildes. (...) O que significa ser humilde? Significa começarmos a compreender que há uma realidade fora de nós mesmos, que é maior que nós mesmos e, que nos contém. Humildade simplesmente, é aprendermos a encontrar nosso lugar dentro dessa realidade maior e. . . aprendermos a viver em nosso lugar. A primeira coisa a aprender, é que você é seu próprio lugar. Para fazermos as pazes com toda a realidade, precisamos primeiro fazer as pazes com nossa própria realidade. É na imobilidade da meditação, a imobilidade de corpo e de espírito que revela a unidade de corpo e de espírito, que adentramos a experiência de realmente sabermos que somos. Passamos a saber disso, com clareza absoluta e, certeza absoluta. Só então, estamos prontos para seguir para o próximo passo, que é o de irmos além de nós mesmos, de nos elevarmos além de nós mesmos. A tragédia da pessoa egoísta é que, ele ou ela não conhece seu lugar. O egoísta pensar estar no centro de tudo e, enxerga todas as coisas... apenas em relação a si mesmo.

A meditação e, o constante retorno a ela, todos os dias de nossa vida, é como abrirmos caminho em direção à realidade. Uma vez que conhecemos nosso lugar, começamos a ver tudo sob uma nova luz, por termo-nos tornado quem realmente somos. E, ao nos tornarmos quem somos, podemos agora ver tudo como realmente é e, assim começar a ver todas as pessoas como realmente são. A mais verdadeira maravilha da meditação é que começamos até mesmo a ver Deus como Deus é. A meditação, portanto, é um caminho para a estabilidade. Através da prática e, a partir da experimentação, aprendemos como lançar raízes em nosso ser essencial. Aprendemos que lançarmos raízes em nosso ser essencial, é lançarmos raízes em Deus, o autor e princípio de toda realidade. E, não é pouca coisa, adentrarmos a realidade, nos tornarmos verdadeiros, nos tornarmos quem somos, pois, nessa experiência, somos libertados de todas as imagens que nos afligem tão continuamente. Não precisamos ser nenhuma imagem que qualquer outra pessoa faça de nós, mas, simplesmente, a verdadeira pessoa que somos.

A meditação se pratica em solitude, mas, é o grande caminho para aprendermos a nos relacionar. A razão deste paradoxo é que, ao entrarmos em contato com nossa própria realidade, ganhamos a confiança existencial para alcançar as outras pessoas, para encontrá-las em seu verdadeiro nível. Por isso, o elemento solitário da meditação, misteriosamente é o verdadeiro antídoto para a solidão. Tendo entrado em contato com nossa conformidade com a realidade, não mais somos ameaçados pela diversidade de outrem. Não estaremos sempre buscando nos afirmar. Estaremos fazendo a busca do amor, buscando a realidade do outro. (...)

A meditação é exigente. Devemos aprender a meditar, quer estejamos dispostos, ou não, quer esteja chovendo, ou faça frio, ou o sol esteja brilhando, ou o que quer que esteja passando na televisão, ou qualquer que tenha sido o tipo de dia que tenhamos tido. Na visão cristã da meditação. . .encontramos a realidade do grande paradoxo ensinado por Jesus: Caso queiramos encontrar nossas vidas, deveremos estar preparados para perdê-las. Ao meditarmos, é exatamente isso o que fazemos. Nos encontramos por estarmos preparados para nos abandonarmos, para nos lançarmos às profundezas... que logo se mostram como sendo as profundezas de Deus.

- John Main, OSB
In THE HEART OF CREATION (New York: Continuum, 1998), pg. 9-10.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos


Entre os dias 20 e 27 de maio, semana que antecede Pentecostes, cristãos de todo o hemisfério Sul estaremos unidos celebrando a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; pessoas das mais variadas raças, etnias e culturas nos dedicaremos à reflexão sobre a importância da unidade na diversidade e à oração para que ela aconteça.

Mas o que é estar unido na diversidade?

A junção dessas duas palavras, unidade e diversidade, ou unidade na diversidade, dá a impressão de que é impossível construir um ambiente assim, pois, em tese, diversidade geraria separação. Mas no mundo cristão esse raciocínio dribla a lógica, pois o diálogo aberto e fraterno permite, mesmo na diversidade, a abertura ao outro, àquilo que eu não tenho, mas admiro e respeito no meu irmão de fé. Afinal, existe uma máxima que gere todos os cristãos: “maior é aquilo que nos une do que o que nos separa!...” Todos estamos sob um só Cristo, Pastor, fazendo parte do seu Rebanho. Os caminhos podem ser variados, mas a meta é sempre a mesma: “amar o próximo como a si mesmo...” (Gl 5,14).

A unidade dos diferentes nem sempre é fácil de conseguir, mas os esforços de muitas igrejas no Brasil, membros do CONIC ou não, têm sido cada dia maiores. Nesse sentido, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que este ano tem como tema “Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 15, 51-58), pretende contribuir para que irmãos de diferentes denominações se juntem em momentos de partilha fraterna, comunhão eclesial e integração amiga.

Uma proposta: sem perder sua identidade, vá ao encontro do diferente! Participe e sejamos sempre irmãos de todos no Senhor!

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña SJ, no Terra Boa

sábado, 19 de maio de 2012

29ª Vigília internacional pelos mortos de Aids: amanhã, 20/05, em São Paulo


Amanhã, 20/05, o pessoal da Pastoral da Diversidade vai participar da Vigília Internacional sobre a AIDS. Saiba mais sobre o grupo aqui e  no www.pastoraldadiversidade.com.br.

Em torno de 100.000 pessoas de todo o mundo celebrarão no próximo dia 20 de maio a Vigília Internacional sobre a AIDS para recordar aqueles que perderam suas vidas como consequência da enfermidade e apoiar aqueles que vivem com HIV ou se veem afetados pelo seu impacto. Apoiados por líderes comunitários, empresários e religiosos de 500 cidades e povos de 115 países, os participantes da Vigília têm pedido a todos os atores da resposta ao HIV que atuem com maior intensidade.
"A Vigília Internacional sobre a AIDS é um lembrete vivo de nossa constante batalha contra essa enfermidade tão letal”, afirma Mayowa Joel, coordenador da Vigília na Nigéria. "Recordar aos amigos e entes queridos que perdemos pela AIDS é essencial nesse momento em que os financiamentos diminuem e mudam as prioridades de saúde e desenvolvimento, o que ameaça os avanços que temos realizado para acabar com a Aids e reduzir a propagação do HIV e outras enfermidades intimamente relacionadas, especialmente a tuberculose”.

Segundo as últimas estatísticas de ONUSIDA, em todo o mundo cerca de 34 milhões de pessoas vivem com a Aids. Aumentar o acesso ao tratamento tem conseguido estabilizar a epidemia, no entanto morrem a cada ano 1,8 milhões de pessoas de enfermidades relacionadas à Aids, enquanto em torno de 2,7 milhões de pessoas se infectam. Anualmente, pelo menos 390.000 crianças nascem com o HIV, algo que é absolutamente prevenível com o conhecimento médico atual.

As pessoas que têm participado da Vigília Internacional desse ano solicitaram aos governos e aos organismos internacionais que garantam que mais pessoas possam ter acesso a melhores serviços sanitários, assim como ao tratamento do HIV. Também pediram aos governos locais e nacionais que façam mais para defender os direitos das pessoas que vivem com o HIV e deixem de tolerar o estigma e a discriminação.

Segundo os participantes da Vigília, a resposta ao HIV só terá êxito quando se converter em um esforço que aborde e se sustente nas necessidades de todos os afetados pelo HIV, incluindo as pessoas que vivem com o vírus e grupos específicos como homens que têm relações sexuais com homens, usuários de drogas, profissionais do sexo, mulheres e jovens.

Promover conjuntamente a saúde e a dignidade é o tema da Vigília desse ano. Salienta que não se pode preservar a saúde nem o bem-estar se não se respeita a dignidade da pessoa e se promovem ou protegem os direitos de todos. Promover conjuntamente a saúde e a dignidade está intimamente relacionado ao marco baseado nos direitos da Saúde, dignidade e prevenção positivas, que focam na saúde e no bem-estar das pessoas soropositivas. Desenvolvido pela UNISIDA e GNP+, este marco tem servido como referência para as políticas nacionais que respondem às necessidades das pessoas que vivem com HIV em todo o mundo.

Histórico
A Vigília Internacional sobre a AIDS, coordenada pela Rede Mundial de Pessoas que Vivem com o HIV, é uma das maiores e mais antigas campanhas de mobilização popular para promover a sensibilização sobre o HIV no mundo. Começou no ano de 1983 e se celebra a cada terceiro domingo de maio sob a liderança de organizações comunitárias, sanitárias e religiosas de 115 países. A Vigília, tendo em conta que 33 milhões de pessoas vivem atualmente com o vírus, é uma intervenção importante para promover a solidariedade mundial, reduzir o estigma e a discriminação e dar esperança às novas gerações.

Para muitos organizadores, a mobilização comunitária para a Vigília começa no Dia Mundial de Combate à Aids (1º de dezembro) e acaba com o ato internacional de maio. As organizações coordenadoras são diversas e nelas se incluem as principais redes da população, organizações de serviços, instituições acadêmicas, centros de atenção sanitária, grupos religiosos, empresas, meios de comunicação, entre outros.

Os atos de comemoração vão de pequenas vigílias comunitárias a celebrações nacionais que transcorrem durante dias. Para além da memória, muitas organizações coordenadoras utilizam a Vigília como uma oportunidade para promover os serviços locais do HIV, fomentar a educação e o diálogo comunitário e defender a melhora das políticas públicas.

A liderança das pessoas que vivem com HIV e daqueles afetados pelo vírus é um aspecto essencial da Vigília. O fato de que é liderado pelas comunidades é o que torna este evento tão especial e importante.

(Fonte: Adital)

domingo, 6 de maio de 2012

“Santíssimo deus”

Foto via Blue Pueblo

...E não foi exatamente atendendo ao convite abaixo e na intenção expressa por seu autor que Cristo encarnou entre nós? :-)

Não posso generalizar, mas nos meus trinta e um anos de vida pus o pé em uma grande quantidade de templos. Lembro-me, inclusive, que quando tinha nove anos fui “um menino pregador” e isso me permitiu colocar o pé “nos altares” de uma grande quantidade de templos. Mas eu não posso generalizar: eu fui em alguns nos quais se permite pensar, onde a pessoa pode se expressar, nos quais a interação é real e não conveniente. No entanto, segue sendo maior a quantidade de templos nos quais a liberdade é só um conceito conveniente que escraviza.

Não só a liberdade é um conceito conveniente; em muitos lugares e pelos lábios de muitas pessoas, “deus” continua sendo uma ideia, um instrumento, um método e até uma credencial que dá crédito a seus portadores para validar as doutrinas mais retorcidas que fomentam desigualdades e conflitos sociais…

Se hoje eu tivesse que começar minha oração com uma frase como “santíssimo deus”, como condicionam em alguns templos, seria para dizer ao deus desses templos:

“Santíssimo deus, deixe as tuas vestes santas no teu céu e vem aqui. Venha disposto a se sujar enquanto jogamos futebol em alguma cancha abandonada com os adolescentes do meu bairro ou em algum terreno coberto de ervas. Venha jogar com eles que, desesperados e em silêncio, anelam por um futuro melhor…

Venha e experimente nossa versão do céu. Experimenta o que há de melhor e fique aqui conosco. Sai dos templos um pouquinho, veja-os de fora, contempla a majestade desses santuários e compara-os com as malocas improvisadas nesses lugares que, com desprezo, muitos dos que entram nos templos chamam de “invasões”. Se te enches de ira ao comparar o luxo desses templos e a pobre condição de muitos habitantes das invasões, prometo não julgar-te. Não poderia porque conheço a ira e também a impotência. Mas se desceres dos céus e saíres dos limites dos templos, passa aqui uns dias e passeia pelas ruas da América Latina. Assim poderás ver como o mundo está girando; talvez escutes os gritos dos que dizem estar ofendidos, mas não te confundas: ofende-os o fato de que já não poderão continuar abusando das terras que não são suas, da liberdade que não pode continuar sendo administrada…

Desça dos céus, e talvez consigamos seduzi-lo com o futuro que vemos. Venha e converte-te conosco em prisioneiro de esperanças…

Por um pouco veste-te de identidade latina e fica em nossas terras escutando a chuva debaixo dos telhados de zinco. Fica escutando nossos idosos falando “daqueles tempos”. Fica e observa como o mundo vai girando e nossas terras latinas vão libertando-se dos grilhões e rastros do colonialismo… A propósito, observa como vamos silenciando a voz daqueles que dizem falar em teu nome e que em teu nome estão saqueando os bairros, as famílias. Venha conosco silenciar a estes que estão roubando com palavras santas o sustento das famílias, o salário que com tanto trabalho alguns ganham…

Venha e vê quão absurdas se tornam essas escatologias que proferem em teu nome… Talvez termines brindando conosco enquanto rimos de quão cruéis foram aqueles que desenharam teu rosto… Conheço lugares onde se pode ficar tranquilo, onde não importa se és um deus ou um mortal. Não importa a tua cor de pele. Não são templos, mas podes sorrir e conversar até o amanhecer… Senta-te um pouco em uma das nossas praças e admira quão grandioso é o ser humano, embora muitos persistam em desconhecer tal grandeza.

Venha e denunciemos juntos. Acompanha-nos na sabotagem do jogo daqueles que deveriam fomentar o bem-estar comum e, em vez disso, se aproveitam de suas posições para explorar e colonizar…”

Essa seria a minha oração e definitivamente não a pronunciaria dentro de um templo, porque às vezes penso que neles deus está obrigado a ficar em silêncio ou a responder de forma conveniente.

- Gusmar Sosa, em La Vida no es Corta
Tradução de Gustavo K-fé Frederico para o PavaBlog

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Dar razão da esperança em nós


Para fechar com chave de ouro esta semana iniciada com a celebração do dia de S. Jorge:

“Onipotente Deus, que deste ao teu servo São Jorge a ousadia de confessar o Nome de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo diante dos poderosos deste mundo e a coragem de morrer por nossa fé. Concede que sempre estejamos prontos a dar razão da esperança que está em nós e a sofrer alegremente por amor de nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.” (Mártir, LOC, 146)

(Linda imagem e bela oração compartilhadas no Facebook pela Rev. Josi Saldanha)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Prece

Foto via Blue Pueblo

Dá-me alma para te servir e alma para te amar.
Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra,
ouvidos para te ouvir no vento e no mar,
e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos
nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos
e servir-te com a um pai.

- Fernando Pessoa
(Conforme visto aqui)

terça-feira, 10 de abril de 2012

Os sonhos das três árvores


Uma vez, no cume da montanha, três pequenas árvores amigas sonharam sobre o próprio futuro. A primeira olhou para as estrelas e disse: "Eu quero guardar tesouros, ouro e pedras preciosas; serei o baú mais formoso do mundo!" A segunda observou um pequeno arroio e disse: "Eu quero viajar através de mares e levar gente importante; serei o navio mais importante do mundo". A terceira arvore olhou para o vale e viu homens trabalhando e disse: "Eu não quero jamais deixar o topo da montanha. Quero crescer tão alta que, quando as pessoas do povoado se detenham para me olhar, levantarão seu olhar ao céu e pensarão em Deus. Eu serei a árvore mais alta do mundo!"

Os anos passaram. Choveu, brilhou o sol e as pequenas árvores se converteram em majestosos cedros. Um dia, três lenhadores subiram ao cume da montanha e um deles disse: "Que árvore tão formosa!" E com a força do seu braço, derrubou a primeira árvore com o seu machado. "Agora me transformarão em um baú formoso; vou conter tesouros maravilhosos!" disse a primeira árvore.

Outro lenhador olhou a segunda árvore e disse: "Esta árvore é muito forte e perfeita para mim!". E com o arremesso de seu machado, a segunda árvore caiu. "Agora deverei navegar por mares imensos", pensou a segunda árvore, "serei o navio mais importante dos mares!"

A terceira árvore sentiu seu coração entristecer, quando o último lenhador se fixou nela e disse: "Qualquer árvore me servirá para o que procuro!" E com o arremesso de seu machado, a terceira árvore tombou.

A primeira árvore se entristeceu quando o carpinteiro a converteu em um mero presépio, para alimentar as bestas. "Cadê o ouro e as pedras preciosas? Usada apenas para pôr o pasto..."

A segunda árvore se contristou quando fizeram dela apenas um pequeno barco de pesca. Ficou aolí, na beira de um lago servindo uns pobres pescadores galileus...

O tempo passou... Numa noite estrelada, uma jovem pôs a seu filho recém-nascido naquele humilde presépio. "Eu queria lhe haver construído um formoso berço", disse-lhe seu marido... A mãe lhe apertou a mão e sorriu, enquanto a luz da estrela iluminava o menino que agradavelmente dormia sobre a palha. "O presépio é formoso", disse Maria - e, de repente, a primeira árvore compreendeu que continha o maior tesouro do universo.

Passaram os anos... Numa tarde, um homem forte subiu no barco de pesca, com uns poucos seguidores. O mestre, esgotado, adormeceu logo. De repente, uma tormenta aterradora se abateu sobre eles. A barca estremeceu e temeu naufragar, pois as ondas eram muito fortes. De repente, ouviu a voz do Mestre gritar: "Acalma-te!" A tormenta lhe obedeceu. De repente, a segunda árvore percebeu que era a barca de Pedro e levava a bordo o Rei dos céus, da terra e dos mares.

E a terceira árvore? Convertida em travessões de lenha, fora esquecida em um escuro armazém militar. De repente, numa sexta-feira da manhã, alguns homens violentos tomaram aqueles madeiros e os colocaram nas costas de um inocente que tinha sido golpeado sem misericórdia. Depois, lhe cravaram mãos e pés e sentiu que um sangue divino escorregava por ela... e entendeu que ela era a árvore mais privilegiada, pois ajudava a salvar o mundo! De uma maneira misteriosa, tornar-se realidade seu sonho antigo. Ela se converteu não na mais alta, mas na mais preciosa, pois todos ao olhá-la pensarão sempre no amor de Deus.

Uma pergunta: seus sonhos são muito diferentes dos sonhos de Deus?

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña SJ
Reproduzido do blog Terra Boa

* * *

Senhor Jesus, não lhe pedimos que nos livres das provações, mas que concedas a força do teu Espírito para superá-las em bem da Igreja. A certeza do seu amor nos renova a cada dia. A alegria de servir aos irmãos é a nossa melhor recompensa. Ensina-nos, a exemplo de nossa Mãe, a dizer sempre SIM no cumprimento da vontade do Pai.
Amém!

(Oração de D. Luciano Mendes de Almeida, SJ)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Jesus aparece para sua mãe


A dor da perda do Filho amado feriu brutalmente o coração de Maria. Porém, a fé que nele habitava, a fazia crer que a morte de Jesus não era o fim e acreditava que seu Deus teria uma resposta a tudo aquilo. E assim ocorreu... O Cristo Ressuscitado era a resposta esperada, a confirmação da certeza há muito sabida no coração daquela que nunca deixou de acreditar.

Santo Inácio de Loyola, em seus Exercícios Espirituais, nos leva a contemplar o encontro entre a Mãe e o Filho Ressuscitado. Inácio chama a atenção para a relação dos dois e sua intensidade, deixando claro que é de se esperar que entre aqueles que tinham tal intimidade e que viviam envolvidos em tamanho amor, que a primeira aparição de Jesus após Sua ressurreição – ainda que não relatada nos Santos Evangelhos – teria sido à sua Mãe. E é razoável e inteligente aceitar essa idéia do Santo. Não só por Jesus ter sido um bom filho e desejar terminar com a dor de sua mãe, mas pelo mérito próprio de Maria: é justo que aquela que primeiro acreditou e aceitou fazer a vontade de Deus e que com seu “sim” mudou a história humana fosse a primeira portadora da grande novidade – a vida venceu a morte!

Ninguém sabe como foi aquele encontro. Podemos apenas crer nele e vê-lo com os olhos da fé e da imaginação. É uma contemplação riquíssima: Mãe e Filho livres da dor e do sofrimento, perdidos no tempo a conversar sobre todos os acontecimentos, cheios de alegria, consolo e glória.

A certeza da ressurreição de Cristo não ficou apenas no encontro entre Mãe e Filho. Maria experimenta primeiro a glória de Deus e logo sai em missão. Como na Anunciação, trabalha no silêncio. Naquele primeiro momento, espera a promessa de Deus se cumprir: a virgem conceberá e Deus proverá para que Seu filho nasça. Deus transforma o coração de José e a Sagrada Família se forma. Maria e José portadores silenciosos do maior tesouro de Deus para a humanidade. Agora, tendo visto o Filho vivo, Maria torna-se também portadora da maior notícia já ouvida pelos homens – Jesus está vivo e é preciso trabalhar por Ele.

Por isso, naqueles primeiros momentos após a ressurreição de Jesus, Maria vai se unir aos apóstolos e será de fundamental importância junto ao grupo de amigos de Jesus. Mãe do Mestre e, por consequência, Mãe daqueles homens confusos pela transformação ocorrida em suas vidas, Maria será quem reunirá em torno de Si o grupo de discípulos, fazendo-o compreender a mensagem daqueles dias. Não é por acaso que estará com eles quando da vinda do Espírito Santo em Pentecostes...

O impacto da ressurreição de Jesus na vida de Sua mãe produz um efeito cicatrizante em um coração ferido pela maldade humana. Maria será, então, capaz de testemunhar vivamente a experiência daquele que viveu a vitória sobre a morte e, assim, torna-se Mãe da humanidade, sendo desta o ponto de apoio para o consolo e entendimento dos acontecimentos não entendidos por todas as gerações futuras.

Maria compreendeu o mistério que cercou a ressurreição de Jesus e nos ensina a também compreendê-Lo, mostrando a atualidade daquele acontecimento perdido em um túmulo de Jerusalém e que continua hoje a acontecer, silenciosa e gloriosamente, em cada vida que renasce, não da morte física, mas da morte do pecado.

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

domingo, 8 de abril de 2012

Oração a Jesus ressuscitado

Foto via Blue Pueblo

Jesus ressuscitado, que destes a paz aos apóstolos, reunidos em oração, dizendo-lhes: “A paz esteja convosco”, concedei-nos o dom da paz. Defendei-nos do mal e de todas as formas de violência que agitam a nossa sociedade, para que tenhamos uma vida digna, humana e fraterna.

Ó Jesus, que morrestes e ressuscitastes por amor, afastai de nossas famílias e da sociedade todas as formas de desesperança e desânimo, para que vivamos como pessoas ressuscitadas e sejamos portadores de vossa paz.

Amém!

(Fonte: Amai-vos)

sábado, 7 de abril de 2012

Respirar Deus

Foto via Blue Pueblo

A atenção é o mutismo permanente do coração, onde com Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus, e só com Eles, respira e chama por Ele sem interrupção, permanentemente, e com Ele corajosamente luta contra os inimigos, e a Ele, que tem o poder, confessa os seus pecados.

A abstinência é a forte implementação e permanência da mente à porta do coração. Desse modo, ela vê como os pensamentos indesejados se aproximam, ouve o que dizem e fazem estes géneros do mal, qual a imagem que os demónios desenham para melhor a arrebatarem para o sonho e assim seduzi-la. Se agirmos com firmeza, então ela mostrar-nos-á a arte da luta contra esses pensamentos.

Os tipos de abstinência: primeiro - olhar consciente para os sonhos, ou para as propostas; segundo - ter o coração sempre profundamente silencioso, e, em silêncio, afastar-se de qualquer intento, e rezar; terceiro – invocar humildemente a ajuda permanente de Nosso Senhor, Jesus Cristo; quarto - ter na alma a permanente lembrança da morte; quinto, o mais eficiente de todos - olhar para o céu, sem se lamentar na terra. (...)

Como o sal dá bom sabor ao pão e a qualquer outra comida, evita que a carne se deteriore, e mantém-na intacta durante muito tempo, assim se entende a conservação no coração do feliz pensamento e da maravilhosa ação. Estas ações temperam, de uma forma sagrada, o interior e o exterior do homem, afastam a fetidez dos pensamentos maus e mantém-nos permanentemente na bondade.

Quanto mais vigilante a mente estiver, mais ardente será o teu desejo de orar a Jesus, e também, quanto mais negligentemente vigiares a mente, mais dele te afastarás. E, como a vigilância ilumina fortemente o ar da mente, assim a abstinência do doce chamamento de Jesus, normalmente entristece-a.

O permanente chamamento de Jesus, com desejo caloroso, cheio de felicidade e alegria, leva a que o ar do coração, da extrema atenção se encha do delicioso silêncio. Acontece a mesma coisa para que a oração se purifique completamente. Jesus Cristo, Filho de Deus.

A condição sagrada surge da lembrança permanente e do chamamento de Nosso Senhor, Jesus Cristo, em harmonia com Ele, na abstinência e com a oração na mente, como uma ação única e necessária. Em verdade, para que esta ação se realize sempre da mesma maneira devemos invocar o nome de Jesus Cristo. Chamamo-lo com o coração ardente, para que Ele connosco comungue e para que saboreemos o seu nome. A repetição é a mãe dos hábitos, tanto em relação aos bons, como em relação aos vícios, e o hábito acaba por dominar como a natureza. Chegados a uma tal situação, a própria mente procura os seus inimigos, como o cão de caça procura a lebre nos arbustos. Enquanto o cão procura para comer, a mente procura para derrotar e expulsar.

O grande David, o mais experiente nestes assuntos, diz ao Senhor: «Ó minha força, é para ti que eu me volto, pois Tu, ó Deus, és a minha fortaleza» (Sl 59 [58],10). Assim, a guarda da força do silêncio do coração e do pensamento, do qual nascem todas as virtudes, depende da colaboração do Senhor, que nos transmite os ensinamentos quando o chamamos sempre, e afasta-se de nós, quando desnecessariamente o esquecemos, e acaba com o silêncio do coração, tal como a água acaba com o fogo. Por isso, não te entregues à incúria do sono pernicioso e, em nome de Jesus Cristo, flagela os teus inimigos. Este doce Nome agarra-se à tua respiração e reconhecerás o fruto do silêncio.

- Sermões de Santo Isaías, O Presbítero, de Jerusalém
In Relatos de um peregrino russo, ed. Paulinas
Reproduzido via SNPC (Portugal)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Tudo está consumado

Foto daqui

A Sexta-feira Santa é um dia de jejum de alimentos, de palavras e de tudo que nos distraia da contemplação da paixão e morte de Jesus. Vamos percorrer alguns pontos da Paixão segundo o Evangelho de João (Jo 18, 1 – 19,42), proposto pela liturgia deste dia.

O Evangelho de João narra a Paixão com características que o distinguem dos sinóticos (os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas) e coloca em evidência a soberania de Jesus. (...) João dá um destaque especial à liberdade com que Jesus aceita o sofrimento pela salvação da humanidade, diante da liberdade de quem o entrega a Pilatos e a do próprio procurador romano, fraca e covarde. “Como poderia salvar os pecadores, se tivesse resistido aos perseguidores?”, indaga S. Leão Magno.

Eis o homem
No processo que se desenrola diante de Pilatos, Jesus é rejeitado quer como Filho de Deus, quer como rei messiânico, quer como homem. Tanto é verdade que não encontra compaixão nem mesmo depois da flagelação. Ao ser apresentado à multidão por Pilatos com o “eis o homem”, é rejeitado pelo povo com o “crucifica-o, crucifica-o!”. A cena da flagelação, situada no vaivém de Pilatos entre Jesus e os judeus, dá a medida da dramática injustiça do processo, da dolorosa humilhação a que chega o caminho da Encarnação e torna-se o símbolo da violência do ser humano sobre o ser humano.

Minha participação no drama
[Na contemplação e oração,] com minhas atitudes, posso tomar parte nas diversas cenas: na traição de Judas, nas negações de Pedro, no zelo hipócrita dos sacerdotes; na volubilidade da multidão; na fraqueza de Pilatos; na crueldade gratuita dos soldados etc... Contemplando a Paixão, procuro em imaginação entrar dentro das cenas evangélicas e fazer um discernimento sobre minhas atitudes e comportamentos.

“Eis sua Mãe, eis seu filho”
Ao ver aos pés da cruz sua Mãe e o discípulo amado, Jesus revela seu coração, sempre orientado pelo bem do próximo. São as pessoas que ele mais ama e as confia uma à outra. A Virgem Maria, enquanto perde seu Unigênito, nos acolhe como filhos. Com João acolho Maria em minha casa, em minha vida. A Mãe de Deus se torna também Mãe da Igreja.

Tudo está consumado
O “tudo” não se refere só à Paixão, mas alarga-se ao plano de Deus na história. A chave de leitura da História da Salvação está na Cruz, onde a realização coincide com o fracasso. Mas esta palavra de Jesus se completa com outras, em que a Cruz se liga paradoxalmente à glória [escândalo e loucura]: a glorificação do Pai, de quem o Filho completou a obra, e a exaltação do Filho, que do alto atrai todos a si.

- Pe. José Marcos de Faria, SJ
Retiro Quaresmal 2012 (CEI-Itaici)

* * *

A injustiça e a violência se instalam no coração do Homem que se fecha e recusa a presença Deus, e sua brutalidade reside justamente na total ausência de sentido. A morte de Cristo reveste-se de significado não pela morte em si; seu sofrimento brutal ganha razão de ser não pelo sofrimento em si – mas pela atitude com que Ele, em seu profundo amor por nós, se esvazia de si mesmo, se humilha e se entrega nas mãos de seus algozes – que somos todos nós – em profundo respeito pela nossa liberdade. E, no entanto, que contraste entre o vazio absoluto que nos invade quando escolhemos nos apartarmos da nossa fonte de vida, e o esvaziamento amoroso com que Ele se apequena e entrega às mãos com que o trucidamos!

Paradoxalmente, é no momento do “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?” – no momento em que, no silêncio do Pai, as trevas invadem o coração do Filho – que o Filho ultrapassa a experiência da Fé e da Esperança, e vive o Amor em sua plenitude. Porque não se trata mais de certezas ou da confiança no Pai, cuja presença o Filho já não sente; trata-se de amar inteiramente o Pai e se entregar a seu serviço, mesmo que Ele não esteja lá. Mesmo não se sentindo amado de volta. Mesmo sem retribuição. Nesse momento de escuridão, Cristo é pura gratuidade, é a plenitude do amor de Deus que se realiza em seu corpo agonizante de homem. Nesse momento, o Filho e o Pai são um só, um só corpo, uma só carne, porque só o Pai pode amar no Filho tão gratuita e intensamente – e nesse amor incompreensível está o seu Espírito, que nos será legado e nos acompanhará na construção do Reino. Quando Jesus ama mais plenamente, aí se efetiva a sua redenção, e a nossa n’Ele. Aí a Trindade transcende a Cruz para nos salvar, e somos resgatados para a eternidade.

- Equipe Diversidade Católica

* * *

Derrame, Senhor, a sua bênção sobre este povo
Que celebrou a morte de seu Filho na esperança de sua Ressurreição;
Concede-lhe o perdão e o conforto, aumente a sua fé
E confirme-o na esperança da salvação eterna.
Amém.

(Oração sobre o povo da Celebração da Paixão)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Reaprender a arte da procura

Escultura: Dominic Wilcox

«Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: “Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.” Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.» (Lucas 15, 8-10)

Varrer
Varrer é um verbo ativo. Não fico apenas a lamentar o sucedido. Aceito «varrer», limpar, transformar, aclarar. Amontoam-se poeiras e desordens de todo o tipo. Penso, muitas vezes, no minúsculo planeta do Principezinho, a personagem criada por Saint-Exupéry.

«Como em todos os planetas, no planeta do Principezinho havia ervas boas e ervas daninhas e, logo, sementes boas de ervas boas e sementes daninhas de ervas daninhas. Mas as sementes são invisíveis. Dormem no segredo da terra até que a uma lhe dê para acordar... Então, espreguiça-se e começa a lançar timidamente um pequeno rebento inofensivo e encantador em direção ao Sol. Se é um rebento de rabanete ou de roseira, pode crescer à vontade. Mas mal se perceba que é de uma planta daninha, é preciso arrancá-lo imediatamente. No planeta do Principezinho havia umas sementes terríveis... eram as sementes de baobá. O solo estava infestado delas. Ora, se só se reparar num baobá quando este já for bastante grande, nunca mais ninguém se vê livre dele. Atravanca o planeta todo. Esburaca-o com as raízes. E um planeta muito pequeno, com muitos baobás, acaba fatalmente por explodir. "É uma questão de disciplina", dizia-me, dias depois, o Principezinho. "De manhã, quando nos levantamos, lavamo-nos e arranjamo-nos, não é? Pois lá também é preciso ir limpar e arranjar o planeta"... Às vezes, não faz mal nenhum deixar um trabalho para depois. Mas com os baobás, é sempre uma catástrofe. Uma vez fui a um planeta habitado por um preguiçoso. Não esteve para se ralar com três arbustos...»

Mesmo se a nossa vida se parece a um ínfimo planeta, os trabalhos são inúmeros e diários. No fundo, trata-se de aceitar que a vida reclama de mim, nesta hora, um enérgico sim. Tenho de lutar para ser eu. Se não varrer a minha casa, ela deixa de ser habitável, deixa de ser minha...

No diário de Paul Claudel há uma frase curiosa: «A vida espiritual não é uma questão de portas, mas de janelas.» De facto, não se trata de sair do que sou ou de buscar na exterioridade a solução, mas de abrir as jane­las e deixar o ar de Deus entrar, deixar circular o vento do Espírito.

Procurar cuidadosamente
A nossa procura de conversão não é exterior. Não pretendemos chegar a fazer uma tabela ou uma lista onde amontoamos as nossas imperfeições, como se entre elas não existisse um nexo... e nesse nexo não estivesse, de facto, o que eu sou. Há razões de fundo e obstáculos interiores em nós que é necessário identificar. «Procurar cuidadosamente», ensina a mulher da parábola. Nós também temos de ir ao fundo e procurar a raiz daquilo que nos desvitaliza espiritualmente. Talvez seja um enorme, um terrível medo... Talvez seja uma insegurança fundamental no amor de Deus... Talvez me falte a confiança e também, por isso, a minha coragem é incipiente... Talvez tudo nasça de uma incapacidade de perdoar, isto é, de sobrepor às feridas e humilhações sofridas a certeza de que o amor é o único bem... Eu procuro cuidadosamente. Pudéssemos nós dizer com Santa Teresa Benedita da Cruz: «A minha procura da verdade foi autenticamente uma oração.»

Alegrai-vos comigo
A reconciliação ficaria inacabada se ela não desembocasse num reencontro com a alegria. Muitas vezes, a alegria é circunstancial: contamos ou ouvimos uma história engraçada, há uma situação divertida que se cria, etc. Mas a mulher alude a uma coisa diferente quando diz: «Alegrai-vos comigo.» Há uma genuína e transbordante alegria por aquilo que Deus faz acontecer em nós: a revitalização surpreendente e pascal da nossa vida. A alegria não é, então, um aparato exterior, mas nós próprios nos tornamos motivo de alegria uns para os outros, uma alegria sentida não apenas na terra, mas que invade os próprios céus.

- José Tolentino Mendonça
In O tesouro escondido, ed. Paulinas
Reproduzido via SNPC (Portugal)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Se eu me esquecer, Senhor

Foto via Blue Pueblo

Senhor,
ajuda-me a dizer a verdade diante dos fortes
e a não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos fracos.
Se me dás fortuna, não me tires a razão.
Se me dás sucesso, não me tires a humildade.
Se me dás humildade, não me tires a dignidade.
Ajuda-me a enxergar o outro lado da moeda.
Não me deixes acusar o outro por traição aos demais,
apenas por não pensar igual a mim.
Ensina-me a amar os outros como a mim mesmo.
Não deixes que me torne orgulhoso, se triunfo;
nem cair em desespero se fracasso.
Mas recorda-me que o fracasso é a experiência que precede o triunfo.
Ensina-me que perdoar é um sinal de grandeza
e que a vingança é um sinal de baixeza.
Se não me deres o êxito, dá-me forças para aprender com o fracasso.
Se eu ofender as pessoas, dá-me coragem para desculpar-me.
E se as pessoas me ofenderem, dá-me grandeza para perdoar-lhes.
Senhor, se eu me esquecer de Ti, nunca Te esqueças de mim.

- Mahatma Gandhi

quinta-feira, 29 de março de 2012

Abre o teu Evangelho e medita

Foto: David Lazar

- Abre o teu Evangelho, olha para ele e toma nota do que te vou dizer.

Deu-me um lápis.

- Procura, primeiramente, no Evangelho de São Mateus, o sexto capítulo, e lê, desde o quinto ao nono versículo (Mt 6,5-8). Aqui está a preparação ou a introdução. Ensina, que não é na vaidade, nem no meio do barulho, mas num lugar isolado e tranquilo que se deve orar; orar para pedir perdão pelos nossos pecados, em união com Deus. Não se deve fazer muitos pedidos sobre as necessidades do dia a dia, como fazem os pagãos.

Depois, lê ainda do nono até ao décimo quarto versículo (Mt 6,9-13), onde encontras a forma da oração, isto é, as palavras que devemos pronunciar. Tudo o que precisamos para a nossa vida está aqui sabiamente reunido. Lê também o décimo quarto e décimo quinto versículos deste capítulo e verás qual a condição que é necessária manter, para que a oração seja efetiva, pois se não perdoarmos aos que nos ofendem, Deus não perdoará os nossos pecados.

No sétimo capítulo, do sétimo ao décimo segundo versículo, encontramos os meios para o sucesso na oração e a aprovação na esperança: pedir, procurar, bater. Esta expressão intensa representa uma parte da oração e o exercício principal, para que a oração não só esteja presente em todas as ações, mas que as supere no tempo. Esta é a principal riqueza da oração... Verás o exemplo no décimo quarto capítulo do Evangelho de São Marcos, do trigésimo segundo versículo ao quadragésimo, onde o próprio Jesus Cristo repete as mesmas palavras na oração. Encontramos um exemplo semelhante no Evangelho de São Lucas (cf. Lc 11,5-13) na parábola do amigo importuno e na parábola do juiz iníquo e da viúva (cf. Lc 18,1-14), apresentando o mandamento de Jesus, que nos manda rezar sempre, a toda a hora e em qualquer lugar; orar e não desanimar, isto é, não se entregar à preguiça.

Além destes sensatos conselhos, o Evangelho de São João mostra-nos ainda um ensinamento fundamental sobre a misteriosa oração interior do coração. Em primeiro lugar, assistimos à conversa de Jesus Cristo com a samaritana, onde é revelado o culto interior a Deus do espírito e da verdade, como Deus deseja, e que representa a verdadeira oração permanente, como uma nascente de água viva a jorrar para a vida eterna 0o 4,5-24).

Mais à frente, no décimo quinto capítulo, do quarto versículo ao oitavo, descreve-se, ainda de forma mais clara, a força, a potência e a necessidade da oração interior, isto é, o refúgio da alma em Cristo, na recordação eterna de Deus.

Depois, lê, no décimo sexto capítulo, do vigésimo terceiro ao vigésimo quinto versículo, no mesmo Evangelho. Que mistério aí se nos apresenta! Vê que a oração em nome de Jesus, ou como é conhecida, a oração de Jesus «Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!», se repetida frequentemente, tem uma força enorme, e ilumina o nosso coração. Isso nos é dado ver nos Apóstolos, que, sendo discípulos de Jesus Cristo há menos de um ano, aprenderam a rezar ao Senhor, isto é, o «Pai-Nosso».

Sabemos também que, no fim da sua vida terrena, Jesus Cristo lhes desvendou o seu mistério, para que a oração fosse definitivamente um sucesso. Ele disse-lhes: «Nesse dia nada me perguntareis. Em verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, Ele vos dará. Até agora, nada pedistes em meu nome; pedi e recebereis» (Jo 16,23-24). Assim sucedeu. Quando os Apóstolos aprenderam a dizer a oração em nome de Jesus Cristo, então, realizaram-se milagres admiráveis, e eles próprios ficaram maravilhados!

Vês agora a ligação e a plenitude do ensinamento sobre a oração, tão sabiamente exposta no Evangelho? Se, depois, começares a leitura das Epístolas dos Apóstolos, aí encontrarás, consequentemente o ensinamento da oração.

Para continuarmos as observações anteriores, indico-te algumas passagens que revelam os atributos da oração. Nos Atos dos Apóstolos, descreve-se a prática, isto é, o exercício aplicado e permanente na oração dos primeiros cristãos, instruídos na fé em Jesus Cristo (cf. Act 4,31). Indicam-nos os frutos ou os resultados da oração permanente, isto é, a expansão do Espírito Santo e das suas dádivas àqueles que oram.

Verás algo semelhante no décimo sexto capítulo, nos versículos vinte e cinco e vinte e seis. Continua, ordenadamente a leitura das Mensagens dos Apóstolos e verás:

1) como a oração é necessária em todos os atos da vida (Tg 5,13-16);
2) como o Espírito Santo ajuda a rezar (Jd 20-21; Rm 8,26);
3) como devemos rezar com o espírito (Ef 6,18);
4) como é necessário, ao orarmos, sossego ou paz interior (Fl 4,6-7);
5) como é necessário orar sem cessar (1 Ts 5,17);
6) finalmente, notamos que devemos rezar não só por nós, mas por todos (1 Tm 2,1-5).

In Relatos de um peregrino russo, ed. Paulinas

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Para que os seres humanos possam ser Deus

Foto: Théo Gosselin 

Nascida de uma visão mais profunda do que palavras, e transmitida através do silêncio cheio do Espírito, a mensagem cristã é constrangedora. "Deus fez-se humano para que os seres humanos possam ser Deus."

Esta recorrente afirmação dos primeiros teólogos soa mais ousada do que muitos teólogos arriscariam dizer hoje, e resistiu com muita força às tentativas do dualismo gnóstico de diluí-la. É claro que só podemos compreender o que isso significa pela experiência de nossas vidas, quando tentamos viver – e fracamente, na maior parte do tempo – como se fosse a verdade central, a coisa real em todas as circunstâncias.

Ela sugere que a Encarnação é Deus concentrado em um ser humano singular, para que Deus possa de fato "tornar-se plenamente humano". De que outra forma pode-se ser humano sem ser um ser humano em um tempo e lugar determinados? Os teólogos clássicos achavam que isso era necessário, mas que o sofrimento experimentado por este indivíduo era inevitável. Deus precisava ser humano. Jesus, o cumprimento dessa necessidade divina, assim como qualquer outro humano, não queria sofrer. (Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice!).

Para muitos, hoje em dia, essa doutrina pode parecer abstrata e paroquial. Na verdade, ela muda a forma como nós mesmos nos encarnamos em nossas próprias e únicas histórias de vida, através de todas as fases de nosso desenvolvimento. Ela nos ajuda a não ficar presos na mentalidade infantil ou no comportamento adolescente, como vemos acontecer na maioria dos conflitos violentos e, de fato, em muitos dos nossos próprios problemas pessoais.

Ele também nos ensina o modo autêntico de lidar com o sofrimento. Como diz Leonard Cohen, devemos aprender a lamentar nos estritos limites da dignidade e beleza. A tendência do ego à auto-piedade arrisca tornar-nos isolados e amargos. Mas saber qual é nosso destino, para onde o sofrimento nos leva, dá tanto compaixão quanto dignidade para a nossa abordagem da decepção, do sofrimento e da perda.

É por isso que a Quaresma é um tempo cristão. E que a meditação é uma oração cristã. Não devemos nos castigar por causa de nossas falhas, ou buscar a iluminação apenas como uma fuga do sofrimento. Mas para ser plenamente humanos, completamente acordados, a fim de que possamos realmente "tornar-nos Deus", como estamos programados a ser.

- Laurence Freeman OSB
Mensagem para a Segunda-Feira da Terceira Semana da Quaresma (12/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

domingo, 25 de março de 2012

Ave, cheia de graça! O Senhor está contigo!

Imagem daqui

25 de março, Festa da Anunciação de Nossa Senhora

A Anunciação do anjo à Maria marca o início da Redenção humana. Com seu “sim”, Maria divide a história da humanidade em antes e depois, em velho e novo. Ao aceitar o projeto de Deus, Maria se insere definitivamente na aliança de Deus com seu povo: através dela o Filho de Deus se fará homem e se fará presente e atuante em seu tempo e por toda a eternidade.

Com sua atitude, Maria torna-se co-redentora, participando do resgate da humanidade em direção ao coração de Deus. Através de Maria Deus se fará homem e na vida terrena experimentará o limite da condição humana para revelar-Se Pai amoroso, Filho amado, Espírito amante.

Com a festa da Anunciação a Nossa Senhora, a Igreja quer celebrar esse momento único em que Cristo começa a ser gerado no ventre de Maria. A jovem, que questiona o anjo por não entender como tal coisa poderia acontecer já que não conhecia homem, consegue perceber nas palavras do mensageiro a certeza de Deus e Sua verdade. Assim, abre seu coração e seu corpo ao extraordinário, àquilo que assombrará a humanidade por gerações: ser corpo virgem gerará uma vida – mistério insondável de Deus, revelação suprema de Seu poder em tornar possível o impossível aos olhos humanos.

Possamos com essa festa nos abrir ao extraordinário, aceitar com gratidão o projeto de Deus sabendo-nos partícipes da construção de um novo estado de coisas e, sobretudo, testemunhar que desde aquele dia comum, na pequena cidade de Nazaré da Galiléia, o próprio Deus está presente no meio da humanidade.

Textos litúrgicos da Festa
1ª leitura – Is 7, 10-14; 8-10
2ª Leitura – Hb 10, 4-10
Evangelho – Lc 1, 26-38

Oração a Nossa Senhora da Anunciação
Todas as gerações vos proclamam bem-aventurada, ó Maria!
Crestes na mensagem divina e em vós se cumpriram grandes coisas, como vos fora anunciado.
Maria, eu vos louvo!
Crestes na Encarnação do Filho de Deus no vosso seio virginal e vos tornastes Mãe de Deus.
Raiou, então, o dia mais feliz da história da humanidade e Jesus veio habitar entre nós.
A fé é dom de Deus e fonte de todo bem, por isso, ó Mãe, alcançai-nos a graça de uma fé viva, forte e atuante, que nos santifica cada dia mais.
Que possamos comunicar com a vossa vida a mensagem de Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida da humanidade.
Amém!

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

sábado, 24 de março de 2012

Quem poderá compreender a riqueza de uma só das vossas palavras?

Imagem via Blue Pueblo

Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza de uma só das vossas palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A palavra do Senhor apresenta aspetos muito diversos, segundo as diversas perspetivas dos que a estudam. O Senhor pintou a Sua palavra com muitas cores, a fim de que cada um dos que a escutam possa descobrir nela o que mais lhe agrada. Escondeu na sua palavra muitos tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita.

A palavra de Deus é a árvore da vida, que de todos os lados oferece um fruto bendito, como a rocha que se abriu no deserto, jorrando de todos os lados uma bebida espiritual. «Comeram – diz o Apóstolo – uma comida espiritual e beberam uma bebida espiritual.»

Aquele que chegou a alcançar uma parte deste tesouro, não pense que nessa palavra está só o que encontrou, mas saiba que apenas viu alguma coisa de entre o muito que lá está. E porque apenas chegou a entender essa pequena parte, não considere pobre e estéril esta palavra; incapaz de apreender toda a sua riqueza, dê graças pela sua imensidade inesgotável. Alegra-te pelo que alcançaste, e não te entristeças pelo que ficou por alcançar. O que tem sede alegra-se quando bebe, e não se entristece por não poder esvaziar a fonte. Vença a fonte a tua sede, e não a tua sede a fonte, poderás ainda beber dela quando voltares a ter sede; se, ao contrário, saciada a sede, secasse a fonte, a tua vitória seria a tua desgraça.

Dá graças pelo que recebeste, e não te entristeças pelo que sobrou e deixaste. O que recebeste e alcançaste é a tua parte, e o que deixaste é ainda a tua herança. O que não podes receber imediatamente por causa da tua fraqueza, poderás recebê-lo noutra altura se perseverares. E não tentes avaramente tomar tudo dum só fôlego o que não podes abarcar duma vez, nem desistas, por preguiça, do que podes ir conseguindo pouco a pouco.

- Santo Efrém
Reproduzido via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

sexta-feira, 23 de março de 2012

O reino dos céus está próximo

Foto: i can read

O reino dos céus está próximo. Este é o subtexto de todas as práticas da Quaresma, que são projetadas para nos lembrar quão facilmente nos esquecemos disso e como é possível simplesmente recordar.

Etty Hillesum era uma mulher vivaz, jovem judia que morreu em Auschwitz em 1943. No meio do horror da deportação dos judeus de sua Holanda natal, ela passou por um despertar espiritual pessoal que ressoou nas últimas décadas. Sustentada por seu profundo mundo interior e por uma nova visão da vida humana, ela se dedicou a aliviar a miséria de seus companheiros de sofrimento. Ela se recusou a odiar os seus perseguidores e nas flores e céu ao seu redor ela encontrou tesouros inesgotáveis de beleza e revelação.

Uma das pessoas a quem ela estava ajudando uma vez perguntou-lhe como ela podia perder tempo pensando em flores no meio de sua provação.

Ela descobriu Deus ao se abrir ao mundo interior. Mas ela não parecia se preocupar sobre como as religiões competem entre si. Uma vez ela estava expressando algumas ideias sobre o perdão e alguém respondeu: "Mas isso soa como o Cristianismo". "Sim", respondeu ela, "Cristianismo, e por que não?".

Seja qual forem as ansiedades e medos que carregamos conosco hoje - e eles certamente devem ser menores do que aqueles que ela e seus companheiros judeus sofreram na época da loucura - a flor e a fé capazes de mergulhar-nos nas profundezas de Deus estão ao alcance da mão.

- Laurence Freeman OSB
Mensagem da quarta-feira da Terceira Semana da Quaresma (14/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristão no Brasil
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