Campanha de esclarecimento da população sobre homofobia e incentivo
à denúncia através do Disque Direitos Humanos - Disque 100.
A mobilização é uma iniciativa da Secretaria de Direitos Humanos
da Presidência da República, do PNUD, da Unesco e da TV Globo.
A peça é protagonizada pelos atores Marcos Damigo e Rodrigo Andrade, que interpretaram um casal gay na novela Insensato Coração.
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Entendendo a fé (3)
Foto: i can read
Continuação do post de 27/10/11...
Ao confundirmos crença e fé, e, assim, perdermos a sua distinção, caímos na armadilha da lei, em meio às coisas que podemos definir, regulamentos que podemos impor, fórmulas específicas de credos, que justificam nossa rejeição aos outros. Mais do que qualquer outra religião, o Cristianismo caiu nas tentações do poder que a uniformidade das crenças cria.
A ortodoxia de culto da crença, o aprendizado exatamente correto das palavras, rituais, externalidades e fórmulas trai o Deus vivente por outro falso que nós mesmos construímos. A diferença precisa ser compreendida à luz da fé, até mesmo nas tradições religiosas. Todas as religiões possuem suas diferenças internas, que levam o nome de diálogo intrarreligioso. Os judeus dizem que caso você tenha três rabinos discutindo um aspecto da lei, você terminará com quatro opiniões diferentes. Sunitas e xiitas, mahayanas e theravadas, católicos e protestantes, todos sustentam convicções diferentes, dentro da mesma tradição de fé.
A crença pode ser heroica. Você pode se recusar a negar suas convicções, e poderá ficar feliz em ser queimado na pira, ou despojado de posição e status, por elas. Muitos crentes se motivaram pelas histórias desses mártires heroicos, que preferiram entregar suas vidas a negar suas convicções. Não deveríamos depreciar o heroísmo da convicção em face da opressão e da perseguição. Necessitamos força e integridade para resistir à força violenta que nos obrigaria a negar nossos princípios e convicções. Todavia, o reino espiritual não gira em torno do heroísmo. A mentalidade heroica do guerreiro, ou do mártir, se rende a um outro tipo de autoconsciência, uma vez que experienciemos a Deus como amor, em lugar de doador de fama ou glória eterna. Aquiles é admirável, mas não é um santo. Thomas More é um herói da liberdade religiosa e da integridade pessoal, mais do que um professor dos mistérios. A fé é mais do que a crença mais heroica. Ela não é apenas uma convicção sustentada apaixonadamente, por mais leal e de autossacrifício que seja essa convicção. A fé é mais do que um conceito, e mais do que um signo do leal pertencer a um grupo específico.
Trata-se do relacionamento com aquilo que acreditamos; com aquilo que acreditamos porque o experienciamos, e com aquilo que experienciamos porque somos simplesmente projetados para isso, e por isso. A fé nos mergulha na ontologia e, interminavelmente, revela toda a extensão dos mistérios do ser.
- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos
In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.14-15).
Tradução de Roldano Giuntoli Tweet
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Contra o ódio
Entre os líderes retratados estão o presidente americano, Barack Obama, que aparece numa das fotomontagens beijando o líder chinês, Hu Jintao e, em outra, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez; o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) aparece beijando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu; e a chanceler alemã, Angela Merkel, é retratada beijando o presidente francês, Nicolas Sarkozy (veja algumas das imagens aqui).
Já o papa Bento 16 dá um beijo no Imã do Cairo, Safwad Hagazi (a autoridade muçulmana do Egito). Uma faixa com essa montagem foi estendida na Ponte dell'Angelo, em Roma, localizada nas proximidades do Vaticano. O site oficial da fundação Unhate divulgou as montagens na manhã da última quarta-feira, mas antes do lançamento oficial pedestres curiosos já haviam fotografado as faixas espalhadas por Roma e Milão e as imagens foram divulgadas pela mídia italiana.
A repercussão foi tamanha que, no mesmo dia, a Benetton anunciou a decisão de retirar de circulação a fotomontagem com o papa e o imã sunita, dizendo-se "desolada com o fato de a utilização da imagem ter chocado tanto a sensibilidade dos fiéis". "Lembramos que o sentido desta campanha era exclusivamente combater a cultura do ódio sob todas as formas", comentou, em um comunicado, o porta-voz do grupo.
Minha opinião pessoal: é uma pena que a gente ainda viva em um mundo em que a imagem de duas pessoas se beijando, seja quem for, choque mais que tantas outras, de violência brutal, com que somos bombardeados diariamente - tanto na mídia quanto nas ruas. Mas, enfim... Achei a campanha, e o filme, lindos.
Um fim de semana de muitos beijos e muito amor para todos. :-)
Com informações da Folha de S. Paulo (aqui e aqui) e do Terra (aqui). Tweet
sábado, 12 de novembro de 2011
Encontro de Assis: uma ''viagem fraterna'' rumo a um horizonte maior
Foto daqui
Uma peregrinação "pela verdade e pela paz". Foi com esse propósito que Bento XVI e diversos outros líderes religiosos de todo o mundo estiveram reunidos em Assis, na Itália, entre 27 e 28 de outubro. Uma data e um encontro histórico, a 25 anos da primeira Jornada de Oração pela Paz, convocada por João Paulo II em 1986, para uma oração comum pela paz em um período histórico marcado pela Guerra Fria.
Na opinião do teólogo Faustino Teixeira, a iniciativa de João Paulo II “deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um ‘espírito’ novidadeiro de respeito e abertura aos outros”. Por isso superou as críticas – inclusive as do atual papa, naquela época cardeal e presidente da Congregação para a Doutrina da fé – e recebeu uma nova edição, em 2002, após os atentados do 11 de setembro.
Nesta terceira edição, relembra Teixeira, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, retorna a “linda imagem” utilizada por João Paulo II para expressar aquele momento inaugural: “uma ‘viagem fraterna’ em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos”.
Nos últimos anos, no papado de Bento XVI, “não houve nenhum documento ou gesto concreto que modificasse a nítida perspectiva teológica que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana”, pondera Teixeira.
Mas revela: “O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos”. Ou seja, uma “possibilidade de transmitir a essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo”.
Faustino Teixeira é professor do programa de pós-graduação em ciência da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, pesquisador do CNPQ e consultor do ISER-Assessoria. É pós-doutor em teologia pela Pontificia Universidade Gregoriana. Entre suas últimas publicações, encontram-se Catolicismo Plural: Dinâmicas contemporâneas (Ed. Vozes, 2009) e Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso (Ed. Santuário, 2008).
Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.
O que significou o gesto de João Paulo II, há 25 anos, ao convocar uma Jornada Mundial de Oração pela Paz junto aos grandes líderes religiosos mundiais?
Foi um dos mais significativos gestos de João Paulo II em seu pontificado. Foi um encontro paradigmático, na medida em que facultou uma profunda ruptura no posicionamento tradicional da Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR no campo do diálogo inter-religioso. O próprio Papa João Paulo II se expressou a propósito em seu discurso natalício aos membros da cúria romana, em 22 de dezembro de 1986: “O acontecimento de Assis pode ser considerado uma demonstração visível (…) daquilo que pressupõe e significa o esforço ecumênico e o esforço pelo diálogo inter-religioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II”.
Foi um evento grandioso e deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um “espírito” novidadeiro de respeito e abertura aos outros. E também a convicção firmada de que a oração de todos, no respeito às suas diferenças, é fundamental para a paz entre as nações. E, quando é autêntica, traduz um significativo fruto do Espírito.
Houve resistências a essa iniciativa?
Foi um evento que suscitou muitas reservas, sobretudo entre os tradicionalistas lefebvrianos, mas também entre cardeais da cúria romana, que manifestavam temor pelo risco de sincretismo. Marcel Lefebvre identificou o evento como um escândalo e uma “blasfêmia pública”. Mesmo o cardeal Ratzinger, na ocasião, não manifestou grande entusiasmo pela iniciativa, preferindo manter uma “reserva mais que morna”, para utilizar a expressão do historiador Alberto Melloni.
Apesar das resistências, prevaleceu a ousadia dialogal de João Paulo II, que soube reconhecer que o desafio da paz é mais amplo e urgente do que as diferenças religiosas. E dizia: “Ou aprendemos a caminhar juntos em paz e harmonia, ou nos desconhecemos mutuamente e nos destruímos a nós mesmos e aos outros”. E linda foi a imagem que utilizou para expressar aquele momento: uma “viagem fraterna” em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos.
Na preparação ao primeiro encontro, na década de 1980, grupos mais tradicionais da Igreja criticaram as tendências relativistas ou sincretistas do encontro, como os lefebvrianos. E as críticas retornam nessa nova edição. Que desafios o diálogo inter-religioso apresenta à Igreja?
De fato, os lefebvrianos continuam em sua rígida oposição. O superior atual do grupo lefebvriano, D. Bernard Fellay, reagiu de forma dura ao saber das intenções de Bento XVI em retomar o curso dos eventos de Assis. Ele comenta: “Todos os deuses pagãos são demônios e Assis estará cheia de demônios”. Sem comentários…
As maiores dificuldades, já no primeiro evento, estavam relacionadas ao tema da “oração comum”. Houve então uma preocupação permanente dos idealizadores de evitar o risco de sincretismo religioso, e isso se manifestava na fórmula escolhida para o encontro: “juntos para rezar” e não “rezar juntos”. Evitou-se fazer qualquer tipo de oração comum, mas as orações foram realizadas com muita liberdade, expressando assim os caminhos diversos, mas nobres, de relação amorosa com o Mistério Absoluto. E elas aconteceram no interior da Basílica inferior de São Francisco, em sucessão contínua, com a assistência reverencial de todos. Isso será modificado nos eventos sucessivos. Não se pode, porém, descartar a plausibilidade de eventos pontuados pela presença de uma oração comum, e isso não significa necessariamente recair no sincretismo. É o que expressou tão bem, Marcello Zago, em texto publicado no L'Osservatore Romano de outubro de 1986: “Estar junto para rezar, e às vezes rezar junto, é reconhecer este fato essencial da relação de todos os homens com Deus”.
O rico documento do então Secretariado para os não Cristãos, Diálogo e Missão (1984) – assinado também pelo então secretário, Marcello Zago – ressaltava como o nível mais profundo do diálogo a “partilha das experiências de oração, contemplação e fé” (DM 35). Infelizmente a dinâmica dos eventos sofreu mudanças substantivas nesse campo.
Desde 1986, houve algumas mudanças a partir do título: de “Jornada Mundial de Oração pela Paz” passou-se a “Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo”. Como podemos entender essas novas ênfases?
A nova jornada de Assis, em comemoração ao 25º aniversário do primeiro evento, realizado em 1986, muda de fato o seu tom. De uma jornada de oração passa a ser, sobretudo, uma jornada de reflexão. Isso não significa a inexistência de um momento específico de oração silenciosa individual, que também ocorrerá. Mas o traço substantivo será de índole reflexiva, em favor da paz mundial. Como expressou o cardeal [Jean-Louis Pierre] Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, “no mundo tão precário e cheio de muros de separação físicas e morais, me parece mais do que nunca oportuno que as religiões, apesar de suas diferenças, promovam juntas a paz. O diálogo entre as religiões é sempre um chamado de Deus a redescobrir suas próprias raízes espirituais”.
De forma bem curiosa, o Papa Bento XVI, antes resistente aos eventos desta natureza, se vê agora diante de sua urgência e inevitabilidade. Redescobre, assim, o valor da intuição de João Paulo II. Mas a perspectiva agora é diferente, marcada por um controle doutrinal mais decisivo e com a ênfase voltada mais para a dimensão cultural do diálogo. A ausência premeditada de momentos públicos de oração comum é uma forma precisa de evitar o risco de um binômio que acompanha as lides desse pontificado: relativismo/sincretismo.
Quanto à novidade de estender o convite aos não crentes, julgo a ideia bem pertinente. O diálogo inter-religioso deve envolver, igualmente, as distintas opções espirituais, religiosas ou não. É uma ideia que vem corroborar o projeto ratzingeriano de transformar o diálogo inter-religioso num diálogo mais cultural.
Qual o significado e o valor da oração inter-religiosa? Ou, em outros termos, qual o medo da Igreja de rezar junto com as demais religiões?
Num belo livro em que recolhe seus sermões, "Passion de l’homme passion de Dieu" (1991), o teólogo Claude Geffré trabalha de forma magnífica a ideia da oração como “mistério de gratuidade”. Ele sinaliza que a oração é a “atitude fundamental do homem religioso, mais universal do que a fé explícita num Deus pessoal”. Há uma dimensão universal da oração que ultrapassa a dinâmica particular e restrita das religiões.
Na visão de Geffré, com a qual concordo plenamente, o primeiro encontro de Assis fez eclodir um “ecumenismo planetário”, pontuado pelo alcance universal da oração. A oração suscita, antes de tudo, um descentramento de si e um recentramento no outro, um grande aprendizado de gratuidade, de abertura e conversão do coração. Grandes momentos dialogais foram e são vividos pontuados pela oração em comum: veja os importantes exemplos dos monges de Tibhirine (Argélia) e dos religiosos da Comunidade de Mar Musa (Síria), no diálogo com os muçulmanos e outros tantos exemplos nessa linha.
Não sem razão, sublinha Jacques Dupuis: “A oração comum se apresenta como a alma do diálogo inter-religioso, mas também como a expressão mais profunda do diálogo e, ao mesmo tempo, como a garantia de uma conversão comum mais profunda a Deus e aos outros”.
O tema deste ano é Peregrinos da verdade. Peregrinos da paz. E a peregrinação dos líderes religiosos será também um ponto forte do encontro, seja de trem (do Vaticano até Assis) ou a pé (para a entrada na Basílica de São Francisco). Como essa imagem do “caminhar juntos” pode inspirar o diálogo inter-religioso?
Em editorial da revista Concilium, cujo tema versava sobre as peregrinações (1996/4), Christian Duquoc e Vigil Elizondo sublinhavam que “o senso da peregrinação parece responder a uma profunda necessidade que o ser humano tem de ir além dos limites da experiência ordinária e entrar no misterioso reino do além”. De fato, há algo de ousado na experiência das peregrinações, sobretudo a disposição de “expor-se a novas paisagens” e arriscar-se a ampliar as possibilidades. E as religiões, como fragmentos, estão desafiadas a fazer essa travessia. Volto aqui à bela imagem de João Paulo II, de uma “viagem fraternal” pontuada pelo mútuo aprendizado e pela troca de dons, rumo a um horizonte maior, ainda inominado.
A inclusão de não crentes no debate inter-religioso por parte do Vaticano também remete à proposta do “Átrio dos Gentios”, impulsionado pelo cardeal Gianfranco Ravasi. Qual a contribuição dos ateus e dos não crentes para o diálogo entre os que creem?
A proposta é interessante, mas a imagem ainda é precária. Falar em “Átrio dos Gentios”, tomando a metáfora de Bento XVI, é ainda realçar a disparidade entre aqueles que detêm a verdade e os “outros” que se encontram no pórtico exterior. É uma imagem que pressupõe, ainda que não intencionalmente, a apropriação da verdade por parte de alguns em detrimento de outros. Sobre isso chamou a atenção o sociólogo Peter Berger, sendo retomado por Marco Politi em sua recente obra sobre o papado de Joseph Ratzinger ("Joseph Ratzinger. Crisi di un papato" – 2011).
Não há dúvida, porém, da importância dessas novas presenças no evento de Assis, entre as quais [a filósofa e psicanalista búlgara-francesa] Julia Kristeva e [o filósofo italiano] Remo Bodei. Esse último autor, filósofo e professor na Universidade da Califórnia, acolheu prontamente o convite feito pelo cardeal Ravasi e sublinhou o significado dessa florescente consciência: “Se os dogmas religiosos entram em contato com as ideias do mundo e saem de sua clausura, isso se torna um fato positivo também para os ‘laicos’, isto é, aqueles não crentes que não querem viver na banalidade”. Também a Igreja vem enriquecida por essa pars paganorum, essa parte de paganidade, esse “lugar fora de sua residência”, capaz de favorecer a ampliação do olhar e a abertura atenta para as coisas deste mundo. Como indicou o teólogo belga Adolphe Gesché, “o Evangelho não é suficiente para tudo, não diz tudo sobre o ser humano”.
No livro "Joseph Ratzinger, Crisi di un papato" (Ed. Laterza), o vaticanista Marco Politi, como aponta o título, delineia uma forte crítica ao pontificado de Bento XVI em seus seis anos de pontificado. Como o evento de Assis se encaixa nessa análise? Que continuidades ou rupturas se apresentam nesse fato?
Vou aqui me fixar nos traços específicos do livro que tratam da questão das religiões, e em particular ao evento de Assis. Trata-se de um livro precioso, recheado de uma “impecável documentação” sobre o percurso do pontificado de Bento XVI. O diagnóstico feito por Politi é sombrio, apontando “sinais de incerteza” na condução estratégica do pontificado em vários âmbitos. Um deles é justamente o do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.
Com precisão certeira, Politi sinaliza que a lógica que marca o itinerário do pontificado é tecida por uma “mecânica de passos em falso”. Atuações problemáticas são depois corrigidas por “intervenções de socorro”, que buscam amenizar o impacto das controvérsias. E são tantas as que podem ser nomeadas, como o fez brilhantemente Marco Politi em seu livro e não vem ao caso aqui retomá-las. O autor fala na presença de uma “mão invisível” a suscitar novas e previsíveis polêmicas.
Nesses seis anos de pontificado, seguindo a argumentação de Politi, o “lobby pró-Ratzinger”, que o impulsiona adiante, não apresenta um “projeto de respiro para o futuro da Igreja”. O que se verifica é uma dinâmica marcada pelo traço defensivo, de reação ao mundo contemporâneo, frágil para anunciar a alegria de um Deus misericordioso e atento aos sussurros do plural. Para muitos das novas gerações, como indica Politi, é um papa que “não transmite esperança”, que não suscita atração. Fala nele mais o homem das palavras, o teólogo racional, distante da possibilidade de mostrar uma “Igreja de misericórdia”.
Com respeito às religiões, os desencontros são inúmeros. A tensão com o mundo protestante vem acirrada desde a década de 1990, com a minoração eclesial das Igrejas protestantes, reduzidas a partilharem apenas “elementos da Igreja de Cristo”. Nesse período, estava na direção da Congregação para a Doutrina da Fé o cardeal Ratzinger, que defendia firmemente tal posição, que depois veio reiterada na Declaração Dominus Iesus, de 2000. Em sua obra "Igreja: carisma e poder" (na edição revista de 2005), Leonardo Boff relata com detalhes a tensão que marcou seu colóquio com o cardeal Ratzinger em torno da interpretação da passagem da Lumen Gentium 8, que trata da questão do subsistit in, ou seja, da forma de subsistência da Igreja de Cristo na Igreja Católica.
Para Boff, a Igreja de Cristo ganha sua forma na Igreja Católica, embora se concretize igualmente, de um modo particular, nas demais Igrejas, portadoras da herança de Jesus. Para Ratzinger, diversamente, a Igreja romano-católica é a “única Igreja de Cristo”, enquanto as demais têm apenas “elementos eclesiais”. Essa posição veio confirmada na Dominus Iesus. A relação com os judeus vem também tensionada nos últimos anos e isso se deve a certas atitudes como a liberação do rito tridentino e o motu proprio, summorum pontificum (de julho de 2007), que resgata a oração da sexta-feira santa, que fala dos “pérfidos judeus”; a reabilitação de quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, criada por Marcel Lefebvre, sendo que um deles, o bispo Richard Williamson, chegou a colocar em dúvida a existência do Holocausto. Acrescentam-se os percalços da viagem papal à Polônia, em maio de 2006. Mais recentemente, reacende-se a polêmica quando o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, publica um artigo no L'Osservatore Romano (07-07-2011) assinalando que a cruz de Jesus é para os cristãos o permanente e universal Yom Kippur. O artigo provocou duras reações do rabino de Roma, Di Segni.
Com respeito ao islã, há uma certa “desconfiança de fundo” que acompanha boa parte do pontificado de Bento XVI. O ponto culminante foi o discurso na universidade de Regensburg, em setembro de 2006. Marco Politi fala na “catástrofe de Regensburg”, que joga ao chão 20 anos da política wojtyaliana nos confrontos do islã. Como sempre ocorre nesse pontificado, depois do desfeito sucedem-se as tentativas de reparo, e isso ocorreu com as declarações reparadoras do secretário de estado, cardeal Bertone, e também do próprio papa. Em suas viagens à Turquia e Terra Santa a tonalidade já foi outra, embora saliente com razão Politi, não se abriu em seguida novas páginas na relação com islã.
Um estranho episódio que diz respeito ao diálogo com o islã foi a destituição do antigo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Michael Fitzgerald, e seu encaminhamento para o “exílio” no Cairo. O seu dicastério funde-se com o Pontifício Conselho para a Cultura em março de 2006. A decisão mostra-se problemática já no ano seguinte, dada a importância estratégica da relação com o islã. E o processo vem refeito, em junho de 2007, com a nomeação do cardeal Jean-Louis Tauran para presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Como ex-ministro do exterior do Vaticano era um homem de diálogo e bom conhecedor do mundo árabe, como Fitzgerald.
Com respeito às outras religiões, fica ainda registrado na memória aquela infeliz expressão da Dominus Iesus, que indica que elas encontram-se numa “situação gravemente deficitária, se comparada com a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos meios de salvação” (DI 22). Não houve nenhum documento ou gesto concreto nesse atual pontificado que modificasse essa nítida perspectiva teológica, que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana. O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos.
Assis também tem um imenso legado religioso por ser a terra de Clara e Francisco. Como esse legado pode inspirar, hoje, o diálogo inter-religioso, especialmente por parte de seus herdeiros “diretos”, ou seja, os cristãos católicos?
Não foi sem razão que João Paulo II escolheu Assis para a realização da primeira Jornada Mundial de Oração pela Paz. É, antes de tudo, um símbolo fundamental para o diálogo e entendimento entre as religiões. E dois nomes, como bem lembrou Wojtyla, estão intimamente ligados na lembrança dessa cidade: Francisco e Clara – “Dois nomes, duas vocações, que recordam os valores evangélicos da caridade, da pobreza, da pureza, da amizade espiritual, da oração e da paz”.
A imagem de Francisco, em particular, traz a singular marca do amor cortês, de um amor intenso e generoso para com os outros, de delicadeza única para com toda a criação. Como bem assinala Chiara Frugoni em sua bela biografia sobre Francisco ("Vida de um homem: Francisco de Assis", 2011), ele “está muito distante daqueles rostos tristes da espiritualidade monástica tradicional”. É dessa alegria e dessa esperança que tanto necessitamos hoje em dia, de uma alegria que possa reaquecer nossas energias vitais para fazer frente ao desencanto crescente.
E aqui me vem também à mente o lindo livro de [José Antonio] Pagola sobre Jesus. Não é fortuito o fato desse livro estar em sua quarta edição no Brasil. É um livro que traduz uma linda imagem de Jesus, como alguém que transmite alegria, saúde e vida. E um amor apaixonado à vida que se soma à sua impressionante capacidade de acolhida do outro. Acredito que é esse “espírito” que deve animar o encontro de Assis, que agora se inicia. Antes de tudo, a possibilidade de transmitir essa essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo.
(Por Moisés Sbardelotto) Tweet
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
A irrealidade do medo
Foto: Sarah
À medida em que lemos o Evangelho vemos que há uma escolha diante de nós. A alternativa está entre o amor e o medo. O medo é destrutivo e corrosivo, seja ele medo de doença, guerra ou fome, seja medo do sobrenatural, ou de deuses raivosos e vingativos que precisam ser aplacados com rituais compulsivos. A diferença entre o mundo da barbárie e o mundo civilizado é que a barbárie prospera no medo. A civilização prospera no amor que impulsiona o vigor, a energia, a vitalidade e a criatividade. A energia bárbara é negativa; seu principal impulso é destrutivo, e sua principal arte é a da guerra. A principal arte da vida cristã é a da paz.
Nosso compromisso com a meditação é nossa abertura para a paz do amor redentor de Deus, nossa total aceitação dele, nossa renúncia à fixação em si mesmo e nosso compromisso com a auto-entrega. Enquanto estamos repetindo nosso mantra, não podemos ficar pensando em nós - e é precisamente a obsessão por nós mesmos que nos reconduz à fantasia. Assim, quando percebemos que paramos de repetir o mantra, que nossa mente está divagando, devemos simplesmente retornar a ele e, com ele, para a realidade. Isto é, retornar para Deus, presente em nossos corações. Em outras palavras, retornamos para uma fé que nos impulsiona para além de nós mesmos, para Deus. Todos nós sabemos que esta auto-transcendência é nossa salvação. Fundamentalmente, todos nós sabemos que precisamos encontrá-la no silêncio de nossos corações. As alternativas são: realidade ou ilusão.
A função fundamental da fantasia é tentar nos afastar dos medos e ansiedades que sentimos, criando uma realidade alternativa. Mas o que acontece é que apenas enterramos o medo mais fundo... A função fundamental do Evangelho, que é na verdade seu único fundamento, é a de expulsar o medo, de arrancá-lo com suas raízes, para que possamos ir cada vez mais fundo dentro de um coração sem medo, para lá encontrarmos o amor mais profundo. O grande dom que precisamos compartilhar com o mundo, então, é o de nossa experiência da realidade.
Medite por Trinta Minutos
Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha" (em aramaico, "Vem, Senhor"). Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.
- John Main, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos
In THE HEART OF CREATION (New York: Continuum. 1998), pgs. 24-25.
Tradução de Roldano Giuntoli Tweet
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
O Silêncio do Amor
Foto: i can read
A linguagem é muito fraca para explicar a plenitude do mistério. É por isso que o silêncio absoluto da meditação é de tão suma importância. Não tentamos pensar em Deus, falar com Deus ou, imaginar Deus. Permanecemos naquele silêncio reverente, abertos ao silêncio eterno de Deus. Através da prática e do aprendizado diários, descobrimos, na meditação, que essa é a ambientação natural para todos nós. Fomos criados para isso e, nesse silêncio eterno, nosso ser floresce e se expande.
O “silêncio”, como palavra, entretanto, já falsifica a experiência e, talvez afaste muitas pessoas, por sugerir alguma experiência negativa, a privação do som ou da linguagem. As pessoas temem que o silêncio da meditação possa ser regressivo. Porém, a experiência e a tradição, nos ensinam que o silêncio da prece não é um estado pré-linguístico, mas, pós-linguístico, aquele no qual a linguagem já completou sua tarefa de nos indicar o caminho, através e além dela, e de todo o reino da consciência mental. O silêncio eterno não está privado de nada, nem nos priva de qualquer coisa. Trata-se do silêncio do amor, da aceitação indistinta e incondicional. Ali repousamos com nosso Pai, que nos convida a ali estar, que nos ama por ali estar, e que nos criou para ali estar. [...]
Sabemo-nos amados e, assim, amamos. A meditação se ocupa da complementação desse ciclo de amor. Por meio de nossa abertura para o Espírito, que habita em nossos corações, e que, no silêncio, é amor por todos, damos início à jornada da fé. Chegamos à fé, porque existe sempre um novo começo na dança eterna do estar amando.
- John Main, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos
In WORD MADE FLESH (London: Darton, Longman, 1993), pgs. 29-30.
Tradução de Roldano Giuntoli Tweet
sábado, 29 de outubro de 2011
Jesus convida à sua mesa os cristãos divididos
Projeto paisagístico: Visiondivision
A 'hospitalidade eucarística' é abordada por Paolo Ricca. teólogo italiano, em artigo publicado na revista semanal italiana Riforma, 16-09-2011. Riforma é o semanário das Igrejas Evangélicas Batistas, Metodistas e Valdenses da Itália. O teólogo responde à demanda feita pelo movimento ecumênico de Turim, denominado "Instrumentos da Paz", através de pergunta enviada pela leitora Eugenia Ferreri.
A tradução é de Benno Dischinger, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.
Eis o artigo.
"Pertenço à Igreja valdense de Turim e há alguns anos me ocupo com o ecumenismo, sobre o qual, em âmbito valdense, as opiniões são diversas; há quem seja contrário, quem seja indiferente, quem seja cético, quem gostaria de interromper o diálogo considerado inútil, enquanto outros, afortunadamente compartilham objetivos e razões. No quadro do trabalho ecumênico que se desenvolve em Turim, eu gostaria de falar de uma iniciativa levada em frente pelo grupo ecumênico “Instrumentos de paz”, nascido em 1966 e composto por católicos, evangélicos batistas, valdenses, adventistas e esporadicamente por ortodoxos. A iniciativa consiste num caminho empreendido pelo compartilhamento da eucaristia ou ceia do Senhor.
Para fazer este objetivo chegar aos pastores das várias igrejas evangélicas, a alguns padres e correspondentes paróquias, bem como à comissão diocesana e à evangélica para o ecumenismo, foram enviadas cartas solicitando expressamente que com encontros mensais itinerantes, se possa compartilhar também em igrejas católicas a eucaristia, precisamente como já é possível compartilhar a ceia do Senhor nas igrejas evangélicas. A motivação dada é esta: “Gostaríamos, com este gesto, de responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Quereríamos, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”.
A iniciativa terá início em outubro. Agora está claro que permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor. E então a pergunta é: é correto compartilhar um gesto tão importante na divisão das confissões de fé? O que se quer fazer é, por ora, um pequeno passo: o que poderemos ou deveremos fazer para que o pequeno passo possa levar a uma mudança bem mais importante? Como ninguém querer dar um passo para trás no referente à própria teologia, talvez fosse melhor realizar um gesto diferente, para manifestar a comunhão ecumênica já existente. Se sim, qual?"
(Eugenia Ferreri – Turim)
Não é por acaso que a iniciativa do Grupo ecumênico turinense “Instrumentos de paz” de promover, como cristãos de diversas confissões, uma ação comum para chegar a compartilhar a eucaristia (como costumeiramente a chamam os católicos) ou Santa Ceia ou Ceia do Senhor (como costumeiramente a chamam os evangélicos) em cultos públicos, celebrados em paróquias católicas e comunidades evangélicas da cidade – não é por acaso, dizia, que esta iniciativa nasceu neste ano de 2011.
Por que não por acaso? Porque o texto bíblico proposto neste ano às comunidades cristãs de todo o mundo por ocasião da Semana de oração pela unidade dos cristãos, realizada, como a cada ano, de 18 a 25 de janeiro passado, era Atos 2,42, onde se diz que os primeiros cristãos “eram perseverantes na escuta do ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações”.
Partir o pão juntos era, pois, um dos distintivos da primeiríssima comunidade cristã – a que nasceu em Jerusalém no dia de Pentecostes. Como sabemos, esta expressão indica duas coisas distintas, mas na origem estreitamente ligadas entre si.
A primeira é a refeição comum dos cristãos, consumida juntos e chamada ágape; a segunda é a ceia do Senhor, que habitualmente ocorre no quadro do ágape, como sua conclusão e coroamento. Compartilhando o pão e o vinho da ceia do Senhor, os primeiros cristãos manifestavam sua comum pertença a Cristo e sua recíproca fraternidade. Reconhecerem-se como cristãos implicava, entre outras coisas, partirem juntos o pão da Ceia.
Agora, em janeiro deste ano, tocamos com a mão a grande contradição na qual nos encontramos: mesmo pertencendo a igrejas diversas, nos reconhecemos todos como cristãos, mas, não obstante isso, não partimos juntos o pão da Ceia. Este verdadeiro e próprio “apartheid eucarístico” era compreensível quando não nos reconhecíamos como cristãos, mas cada um considerava o outro como herege. Hoje não é mais assim. A própria Igreja católica, que, como sabemos, a seu tempo excomungou a Reforma, os reformadores e seus seguidores, com o Concílio Vaticano II abandonou este juízo, declarando que protestantes e ortodoxos “justificados no batismo da fé, são incorporados a Cristo, e por isso são, com razão, assinalados com o nome de cristãos, e pelos filhos da igreja católica são justamente reconhecidos como irmãos no Senhor” (Concílio Vaticano II, Decreto sobre o ecumenismo, n. 3).
Ora, de duas uma: ou isto não é verdade, isto é, não é verdade que sejamos “irmãos”, embora “separados”, não obstante “assinalados com o nome de cristãos”, se isto, dizia, não é verdade e consequentemente não nos reconhecemos reciprocamente como cristãos, então, sim, é lógico que não partamos juntos o pão da Ceia. Se, ao invés, é verdade que somos “irmãos”, embora “separados”, reconhecendo-nos, pois, reciprocamente como cristãos, mesmo nas diversas pertenças confessionais, então não só podemos, mas devemos partir conjuntamente o pão, porque isto faziam os cristãos quando se encontravam para escutar juntos a Palavra de Deus, para praticar a comunhão fraterna e para orar. Quem faz conjuntamente estas coisas, pode e deve também partir conjuntamente o pão da Ceia.
É esta a proposta do Grupo ecumênico “Instrumentos de paz”. Nossa leitora nos comunica também a motivação: “Queremos com este gesto responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Querer-se-ia, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”. Esta motivação é mais que suficiente. Jesus celebrou a Ceia até mesmo com Judas, não excluiu nem sequer a ele. Quem tem a coragem e a autoridade de excluir quem quer que seja? O pão e o vinho da Ceia são o dom que Jesus nos concedeu, dando-se a si mesmo: quem tem a coragem e a autoridade de retirar este dom do senhor da mão de um irmão reconhecido como cristão? A proposta, portanto, é boa, evangélica, cristã; é um ato de obediência ao convite de Jesus e de coerência ecumênica, com o qual, por certo – não seria honesto silenciá-lo – se transgride uma lei eclesiástica, mas isto é inevitável caso se queria viver verdadeiramente, neste campo, a liberdade cristã. A lei jamais consegue conter a graça, que transborda de todo lado; por isso Jesus tantas vezes transgrediu a lei do sábado.
Vai por si que, como justamente observa nossa leitura, “permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor”. Por exemplo, os evangélicos não compartilham a doutrina da transubstanciação, e os católicos (caso sigam a doutrina oficial de sua Igreja) pensam que somente um sacerdote ordenado por um bispo (católico ou ortodoxo) tenha a assim dita potestas consecrandi, isto é, o poder de “consagrar o pão e o vinho de modo a transformá-lo no corpo e sangue de Cristo. Mas, se as diferenças de doutrina entre católicos e evangélicos sobre a Ceia permanecem aquelas anteriores, que sentido tem que eles a celebrem juntos, dado que a compreendem de modo diverso? Celebram verdadeiramente a mesma Ceia, ou não celebram talvez duas Ceias diversas, embora chegando juntos à mesma mesa e compartilhando o mesmo pão e o mesmo vinho?
Mas, se devesse ser assim (duas Ceias diversas celebradas conjuntamente por católicos e evangélicos em torno à mesma mesa), a comunhão realizada em torno àquela mesa seria real ou somente aparente? São estes os interrogativos – muito sérios – que nossa leitora levanta e às quais respondo assim: o que conta na ceia do Senhor são suas palavras (“Tomai, este é o meu corpo”; “Este é o meu sangue, o sangue da aliança...” e os seus dons – o pão e o vinho: Marcos 14, 22-25). Nem o próprio Jesus, que por primeiro celebrou a Ceia, nem o apóstolo Paulo, que narra sua “instituição” (Coríntios 11, 23-25), sentiram a necessidade de explicar, isto é, de interpretar as palavras da Ceia.
Isto, no mínimo, significa duas coisas: a primeira é que a interpretação é livre, isto é, são possíveis diversas interpretações, nenhuma das quais pode, no entanto, pretender ser canônica, porque na Escritura, que é o cânone (isto é, a regra de nossa fé cristã), as palavras de Jesus são aduzidas, mas não interpretadas. A segunda é que, embora a interpretação seja necessária (no sentido que cada um deve saber o que está fazendo quando participa da Ceia), todavia, esta interpretação não é constitutiva da própria Ceia, a qual é a Ceia do Senhor, independentemente das interpretações que nós lhe damos. O que une aqueles que participam da Ceia do Senhor são o pão, o vinho, as palavras de Jesus e a ação invisível do Espírito, e não as nossas explicações das palavras de Jesus e as nossas interpretações dos seus dons.
Embora, quando celebramos a Ceia entre cristãos de diversas confissões, estivéssemos de acordo e déssemos a mesma explicação daquilo que na Ceia acontece (esta unanimidade, entre outros aspectos, não existe sequer quando a celebram cristãos da mesma Igreja; também ali, secretamente, as opiniões divergem!), não seria aquele acordo o vínculo real de nossa comunhão, e sim o seriam as palavras, o pão, o vinho de Jesus e o testemunho interior do Espírito Santo. Eis porque tem sentido que cristãos de diversas igrejas celebrem juntos a Ceia do Senhor, porque é aí que Jesus os convoca, e aí eles se reúnem, aceitando, com alegria e gratidão (“eucaristia” significa em grego “reconhecimento”, “agradecimento”), o seu convite para receberem juntos as suas palavras e os seus dons, independentemente das diversas interpretações que eles possam dar da Ceia. O que nos une a Jesus quando celebramos a Ceia não é esta ou aquela doutrina, mas a fé.
Na linguagem ecumênica, este tipo de celebração se chama “hospitalidade eucarística”: somos todos hóspedes (indignos) do Senhor em sua mesa, e ali, recebendo o pão e o vinho com sua palavra, celebramos conjuntamente a “comunhão com o corpo e o sangue de Cristo”, como diz a Escritura (1 Co 10, 16). Como ocorra esta comunhão a Escritura não o diz, e não temos necessidade de dizê-lo nós. A Escritura diz somente que ela acontece, entende-se na fé, e isto nos deve bastar.
As doutrinas entre si diversas permanecem, e podem continuar a confrontar-se, mas o convite de Jesus deve ter o primado. Nem se pode pensar em cerimônias substitutivas, às quais Jesus não nos convida: ele nos convida à sua mesa, que é única, e não a outras. A iniciativa de ”Instrumentos de paz”, como eu já disse, é boa precisamente porque afirma o primado do dom de Deus acima de nossas interpretações, e este dom é único e o mesmo para todos. Jesus não divide e sequer aceita as nossas divisões, pelo menos à sua mesa. A única condição é a fé nele e a clareza nas relações entre nós. As nossas diferenças na interpretação da Ceia não devem ser caladas ou espezinhadas – aqui se requer total transparência -, mas também não devem ser dogmatizadas a ponto de se tornarem mais importantes do que o convite de Jesus. O Senhor é Ele, e não nós. Tweet
Religiões: o diálogo passa pelo bem
"Lendo as entrelinhas": projeto arquitetônico Gijs Van Vaerenbergh
A peregrinação a Assis (entenda do que se trata aqui) não foi desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". A única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação.
A afirmação é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, em sua lectio magistralis proferida nesta quarta-feira, 26, em Assis, na vigília de oração pela paz com o papa. A reflexão foi publicada no jornal La Stampa, 26-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.
Eis o texto.
Na Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo convocada pelo Papa Bento XVI, pode-se entrever, ao lado de uma substancial continuidade com a iniciativa de João Paulo II em 1986, alguns acentos de novidade. Para esta jornada, de fato, também foram convocadas personalidades do mundo da cultura que não se professam religiosas. Além disso, o encontro está intitulado "Peregrinos da verdade, peregrinos da paz", colocando em relevo, assim, como a busca da verdade é essencial para que possa haver uma busca da paz.
Aqueles que presumem conhecer Bento XVI e, muitas vezes, o apontam como "corretor" dos seus antecessores gritaram a traição, e alguns deles até se dirigiram a ele com cartas que o convidavam a cancelar essa iniciativa. Os tradicionalistas cismáticos expressam a sua condenação, e o mesmo fazem alguns católicos que temem o evento porque o julgam como um encorajamento ao sincretismo ou ao relativismo, segundo o qual todas as religiões se equivalem.
Assim, mais uma vez na nossa Igreja, cada vez mais dividida e conflitual, perfilam-se acusações e contraposições que marcam com desconfiança toda iniciativa e a tornam ocasião para uma negação de quem, longe de ter uma outra fé, simplesmente aparece com diversidade de estilo, de tons, de atitudes pastorais, de modos de se colocar na história e em meio aos homens.
Além das reações também descompostas, a vontade de Bento XVI de assumir o espírito de Assis confirma o caminho de diálogo desejado pelo Vaticano II e mostra como a Igreja Católica tem a consciência de uma missão verdadeiramente universal: isto é, uma missão que se refere a todos no respeito do caminho e das vias religiosas de cada um, na convicção de que todos os homens são irmãos porque são filhos de um único Pai e Criador, e que nenhum deles jamais poderá ser alheio ao mistério pascal de Jesus.
Também deve-se dizer que muitos temores repousam sobre um mal-entendido fundamental: presume-se que o diálogo requer deixar de lado a própria fé e esquecer a verdade. Na realidade, o diálogo implica uma autêntica reciprocidade, pede que se ouça o outro e a sua fé com respeito, mas, ao mesmo tempo, que se fale com parrésia sobre a própria fé. O diálogo inter-religioso exige que cada um dos dois parceiros conheça a sua própria tradição e permaneça fiel a ela, que seja um testemunho da sua própria fé sem a pretensão de impô-la ao outro. O diálogo, se bem compreendido, até faz parte da evangelização, porque só dialogando de modo autêntico é que se assume o estilo de Jesus, o estilo do Evangelho, o dos discípulos enviados entre os povos.
O caminho do diálogo é um percurso coerente com a grande tradição da Igreja. Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja, interrogando-se sobre as diversas tradições religiosas em meio às quais os cristãos eram uma realidade nova e minoritária, discerniam as semina Verbi, ou seja, a presença de "sementes da palavra de Deus", de traços do Espírito Santo, de raios de verdade.
Em todas as realidades, em toda a história, a palavra de Deus sempre trabalhou e, junto com ela, jamais dissociado dele, o Espírito de Deus. Com a Encarnação, depois, é o próprio Deus que se fez homem, carne, e habitou em meio a nós. A Palavra espalhou as suas sementes de vida nas culturas de todos os povos, sementes que inicialmente estão escondidas, mas que depois se desenvolvem e aparecem na história, nas diversas culturas.
Em outras palavras, Cristo é a única verdade, mas raios da sua luz se encontram em cada ser humano, criado por Deus à sua imagem e semelhança. Verdades, estas, jamais desmentidas, que levaram Paulo VI a constatar que "as religiões (...) ensinaram gerações inteiras a rezar", enquanto João Paulo II atestava: "Nós podemos considerar que toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo que está misteriosamente presente no coração de todos os homens".
Mas sob quais condições é possível convocar crentes de fé e religião diferentes para rezar pela paz? Quando foi organizado o encontro de 1986, em resposta às diversas contestações levantadas contra a iniciativa papal, afirmou-se insistentemente que a peregrinação a Assis não era desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". Desse modo, insistiu-se sobre a impossibilidade de uma oração comum, porque está só é possível entre cristãos de diferentes confissões, que reconhecem o Deus trinitário e confessam Jesus Cristo como único salvador. Os cristãos não podem assumir as formulações de oração de outras religiões e, reciprocamente, os outros certamente não gostariam de adotar as orações cristãs.
A oração, eloquência da própria fé, nos pede que rezemos juntos como cristãos que confessam a fé expressa no Credo Apostólico. Pede-nos também que rezemos juntos entre judeus e cristãos (pelo menos através dos Salmos), filhos gêmeos do Antigo Testamento que confessam o mesmo Deus e esperam dele a plena redenção.
Porém, somos impedidos de fazer uma oração comum e pública com crentes de outras religiões: a única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação. Deus conhece quem busca o seu rosto: ele certamente vê e cria uma comunhão que nós não podemos nem medir nem reconhecer. No entanto, como lembrava João Paulo II no discurso à Cúria Romana em 1986, consciência e fé nos dizem que "há um só plano divino para todo ser humano que vem a este mundo, um único princípio e fim", porque "as diferenças são um elemento menos importante do que a unidade que, ao contrário, é radical e determinante".
Nós, cristãos, acreditamos que Jesus Cristo é o único salvador, o único mediador e o único Senhor dos homens, e é justamente essa fé nele que nos leva ao encontro dos homens do mundo, das diversas culturas e religiões, com grande simpatia, com o desejo de ouvir o que arde em seus corações, com o desejo de aprender com eles também, no diálogo e no debate franco, livre, capaz de acolhida recíproca.
Nós não somos ingênuos otimistas, mas, ao contrário, é com esforço que buscamos assumir os sentimentos, as atitudes e os pensamentos de Jesus, ele que quis se encontrar com todos: sãos e doentes, justos e pecadores, ricos e pobres, judeus e pertencentes aos povos, pessoas com a fé em Deus ou que não conheciam Deus. Jesus nunca julgou nem condenou ninguém. Até se sentou à mesa dos impuros, dos pecadores e dos malditos: e como poderíamos nós, seus discípulos, nos recusar a aceitar qualquer um dos nossos irmãos e irmãs em humanidade?
Sim, nós, homens e mulheres, somos todos cegos em busca de sermos curados, coxos que se esforçam para seguir em frente, gagos ao falar de Deus, muitas vezes surdos ao ouvi-lo. Somos peregrinos em busca da verdade, da justiça e da paz: todos invocamos e esperamos a salvação, aquela "salvação [que] não está nas religiões enquanto tais, mas está ligada a eles, na medida em que levam o homem ao Bem único, à busca de Deus, à verdade e ao amor". Tweet
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O mal existe, mas o bem é maior
Foto: Sarah
Um amigo querido do blog compartilhou conosco, em particular, seu desânimo diante de tanta violência, tanto preconceito e tanta exclusão. É verdade, quem acompanha os veículos LGBT cada vez mais é bombardeado por coisas muito feias e trágicas. Por um lado, isso é efeito direto da nossa maior visibilidade - que provoca uma reação violenta - e, ao mesmo tempo, da nossa maior organização - que faz com que denunciemos com mais vigor a violência. E, nesse contexto, é preciso lembrar duas coisas.
Primeiro, como disse nosso amigo Tony Goes recentemente, num post que reproduzimos aqui, "é super-válido reagirmos aos ataques de Bolsonazis, Malafaias e similares; não podemos deixar barato a mais leve ofensa. Mas é preciso termos um pouco de perspectiva histórica e percebermos que, a médio e longo prazo, os homofóbicos já perderam".
Segundo, acho (opinião inteiramente pessoal) que tem horas que é preciso desligar um pouco. Tem horas que a atrocidade vai tão alem dos limites que, se a gente não fechar os olhos e os ouvidos e se afastar um pouco, a gente surta. Porque é demais, mesmo. E ninguém precisa ser super-homem e ter que dar conta de absorver todas as informações o tempo todo. Senão, acaba acontecendo que a gente fica morando num mundo medonho, violento, hostil, brutal, bárbaro. E o mundo não é só isso. Se a gente esquece que tem também o sol, a praia, os amigos, o amor, o carinho, o prazer, as atrocidades ganham um tamanho muito maior do que já têm. A gente fica impotente diante delas. E não tem nada mais devastador do que a impotência diante do mal.
De vez em quando, é necessário alimentar a nossa fé, a nossa confiança na vida, a nossa certeza de que o mal existe mas o bem é maior. De que a violência acontece e é preciso combatê-la e preveni-la, mas a amizade, o amor, a solidariedade, o afeto, estão aí. Alguns dos maiores presentes que já ganhei vieram em momentos difíceis, sob a forma do apoio, do carinho e da partilha com pessoas que fizeram com que eu me sentisse amada e cuidada quando mais precisava. O amor que nos dão é expressão do amor de Deus por cada um de nós. Mas é preciso que a gente esteja de coração aberto para receber - e receber o amor dado é responsabilidade nossa. Só eu posso fazer isso por mim, mais ninguém.
Isso é mais importante que todo o mal do mundo. A gente não pode se esquecer disso nunca. Senão, se a gente deixa o medo e a dor se instalarem no nosso coração, o mal já ganhou.
Cuidem-se bem, queridos. Respirem um pouco, alimentem seus corações com beleza e amor. Peçam ajuda a quem ama vocês, e se deixem cuidar um pouco. A gente precisa de nutrição pra continuar andando. E, se tem uma coisa de que ninguém precisa agora, é de mártires caídos e almas imoladas.
Beijos e bom fim de semana.
Cris
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Entendendo a fé (2)
Foto: i can read
Continuação do post de ontem...
Uma nova compreensão da fé destrói a prisão da crença. Ela liberta as pessoas religiosas para um mundo de ações compassivas, expressadas na parábola do Bom Samaritano. Ninguém está excluído dessa extensão da experiência de unidade, que surge das profundezas da alma, nas quais as crenças não podem adentrar, porque "conhecemos a Deus não por meio do pensamento, mas por meio do amor". Nos horizontes que a luz da experiência contemplativa revela, não mais identificamos a fé com a crença, ou condenamos as crenças de outras pessoas como sendo deficientes. O contemplativo deveria ser possuidor de uma cortesia mais parecida com a do Cristo, do que isso. E, dentro do risco, sim isso envolve um risco, do encontro com o outro, de encontrar outros crentes nos reinos desconhecidos da diferença, descobrimos a própria natureza da fé. Também seremos reconfortados porque, de fato, nossa própria identidade, que acreditávamos ameaçada, se afirma. [...]
A mera afirmação e defesa de nossas convicções não pode conduzir a uma verdadeira comunidade de fé. Isso faz com que nos tornemos membros de uma seita, uma cabala fundamentalista. Fecha a mente, como um órgão de percepção e da verdade. Caso confundamos a fé com a crença, dessa maneira, e passemos a pensar na fé como doadora de um senso de sermos diferentes ou superiores aos outros, terminaremos como o fariseu que agradecia a Deus por fazê-lo diferente dos outros e ficava satisfeito por ser superiormente diferente. A mente religiosa, nesse estado, pode até se persuadir a si mesma de que isso é humildade. Ao nos identificarmos inteiramente com a crença (o lado esquerdo do cérebro), negando a fé (o lado direito do cérebro), ocupamos um mundo privado só nosso, em lugar do reino de Deus, ou do reino de Cristo, no qual "não há nem judeus, nem gregos, homens ou mulheres, escravos ou libertos". Os religiosos frequentemente têm receio do poder da fé, precisamente porque ela tende a nos dirigir para esse reino indiferenciado do Espírito, no qual desmantelam-se todas as diferenças, que as crenças que colocamos em nosso altar podem controlar minuciosamente, religiosas, sociais e até mesmo de gênero.
A fé é a pista de alta velocidade para o espírito. Todo ato de fé que fazemos é uma descoberta do labirinto do espírito. A crença, quando rompida pela fé, conduz a um labirinto de espelhos, uma série de infinitas regressões, o labirinto do ego. Labirintos levam a becos sem saída e, quanto mais nos perdemos, mais entramos em pânico. Porém, os labirintos só nos pedem para seguirmos fielmente seus volteios e curvas, estranhos, mas afinal simétricos, de modo a sermos conduzidos para casa, ao centro.
- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos
In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Entendendo a fé (1)
Foto: i can read
Em lugar de dedos que apontam para a lua, a doutrina ou o dogma viram-se para trás apontando para si mesmos. Tudo aquilo que questiona a crença, é então percebido como ameaçador, e aquilo que ameaça pode exalar um tipo de estranheza ou ameaça que incita o medo.
“Eu sou aquilo que eu acredito” é um princípio tão perigoso quanto “existo porque eu penso”. Então, aquilo que quero, ou tento, acreditar constitui minha identidade, meu eu, e assim, porque acredito nessas doutrinas, eu sou um cristão. Outras pessoas que não acreditam nessas declarações específicas são “não-crentes”. A crença, na verdade, pode ser forte e verdadeira. Podemos ser leais a nossas convicções, e morrer defendendo o sistema do qual elas fazem parte. Todavia, esse tipo de convicção, aquela pela qual poderíamos morrer, deveria surgir a partir da experiência da fé, e não do medo de uma identidade ameaçada e insegura. Por que morrer, ou atacar outras pessoas, apenas com respeito a fórmulas verbais? Enquanto pensamos na fé como sendo constituída por convicção, falta-nos a dimensão completa da mente de Cristo.
Esta é a mente “católica” que, intrinsecamente, busca incluir e integrar, em lugar de excluir e condenar, sempre que se encontra com diferentes expressões de crenças que trazem à tona a incerteza natural em nosso próprio sistema. Percebemos que existem crenças em diferentes caminhos, e que outras pessoas sustentam as suas, tão sinceramente quanto sustentamos as nossas. Sem a fé, isso nos fará sentir dolorosamente ameaçados. Quando reagimos a partir de nossa própria insegurança, nós cristãos frequentemente descrevemos os devotos seguidores de outras religiões como não-crentes, apenas porque eles possuem diferentes crenças.
As diferenças, assim como os opostos, em última análise, resolvem-se apenas em Deus, que é infinitamente simples, o suficiente para contê-las todas. Apenas em Deus podemos encontrar os outros, e é no nível da fé, e não no da crença, que esse encontro ocorre.
- D. Laurence Freeman, OSB
In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli
* * *
Continua amanhã... :-) Tweet
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A boa alma carnavalesca da Parada
Foto via Gay1
Carnavalizaram a Parada. E que bom! Depois que Mikhail Bakhtin me explicou alguns conceitos, vejo a carnavalização com muito bons olhos e um grande sorriso de contentamento. Explicou-me Bakhtin que a carnavalização é essencialmente transgressora, subversiva e me mostrou a força de transformação política, social e cultural que há nisso. Com ele aprendi que o carnaval abarca todos, sem discriminação, sem limites, sem rótulos, que o carnaval horizontaliza, inclui. Descobri que o carnaval não pode ser confinado nem controlado: ele toma de assalto os espaços públicos, não segue regras nem respeita manuais de comportamento. Não cerceia, não cala, não amarra. O contrário disso: liberta, iguala, dá voz. Não há marginalização no carnaval, todos são trazidos para o centro da cena, inclusive quem no dia a dia vive à margem. O que fica calado, sufocado e castrado pela censura da cultura oficial, que dita o que é permitido e aceitável, toma conta do cenário. O bizarro, o diferente, o que não é tolerado frente à normatividade se torna o senhor do espetáculo, tem elevada sua auto-estima e adquire outra perspectiva de mundo. E é por tudo isso que não cabe a acusação de alienação no carnaval, pois ele não é pensado, ele é vivido. Não se reflete sobre novos modos de ver ou de viver, a experiência é concreta, é sensorial. A vida é vista e vivida de outra forma, uma forma radicalmente nova e revolucionária, pois não é apenas o modo de ver e viver que é novo, a própria inserção social adquire novos contornos e nada é mais revolucionário que isso, que essa transgressão: a vivência, na prática, da superação do cotidiano opressor.
A carnavalização promove metamorfoses, transexualidades, excentricidades, superação de limites. Masculino e feminino se misturam e se reinventam. Masculino e feminino não são suficientes. Enquadramentos não dão conta da tamanha diversidade, pluralidade e transgressão. Travestis, transexuais, lésbicas, gays e bissexuais ultrapassam o que se espera dos gêneros – nas roupas, nas vozes, nos modos de ser e agir. A tudo subvertemos. O mundo fica às avessas, caem as fronteiras entre o sagrado e o profano, entre o sublime e o vulgar. Não há mais obediência à ordem pré-estabelecida. Desejos são permitidos e liberados. Recorrendo à fantasia, à máscara ou ao desnudamento de modos, de roupas e de mascaramentos, todos podem revelar sua identidade mais legítima. A Parada é uma grande catarse coletiva. E isso, claro, é uma afronta aos moralistas, aos conservadores. E daí a importância do caráter carnavalesco da Parada: a livre expressão, o não-controle, o organismo vivo que cresce e se movimenta por si mesmo. Multifacetado, polifônico, polissêmico - liberto.
No carnaval, nenhum excesso é demais. Nenhuma transgressão ultrapassa os limites. A carnavalização reinventa modos de ser e estar no mundo. E aí é que o aspecto carnavalesco da parada é redentor. Nada é erro, nada é desvirtuante. Somos todos apenas seres humanos em busca da felicidade. Por isso mesmo é que apavoramos, assustamos, inibimos e agredimos os moralistas, os conservadores, os homofóbicos. Quanto mais nos mostramos, dançamos, gritamos, festejamos e não nos enquadramos em seus paradigmas, mais desafiamos a sociedade hipócrita e homofóbica que nos quer cercear o espaço, nos controlar o movimento, nos privar a sexualidade e nos tornar invisíveis. Nós quebramos tabus. Nosso carnaval viola o que é socialmente aceito, o que é comum, desloca significados, faz a vida adquirir outra configuração. Vamos às ruas e subvertemos a ordem imposta, vivenciando livremente sentimentos considerados pecaminosos e passíveis de punição.
Estando em grupo e à luz a do dia, imagine o inferno que vive aquele conservador tacanho, aquele moralista atrofiado, ao ver tanta gente na rua, à luz do dia, cantando e dançando, feliz, celebrando a vida e o amor que eles tanto querem e se esforçam para sufocar. Deve ser muito penoso. Por isso usam de toda artimanha para internalizarmos o moralismo que apregoam. Portanto, reflita bem sobre isso, reflita mesmo, preste atenção para não fazer o jogo do inimigo, não carregue o opressor dentro de si, não reproduza o seu discurso, deixe que os outros vivam o que desejam e precisam viver. Muitos não sabem o quanto podem ser felizes, o quanto podem ser livres, nem o quanto podem ter de apoio, muito menos quantos somos. Muitos se sentem absolutamente solitários e oprimidos e outros tantos terminam por achar que não há saída. A Parada mostra que ninguém está só, que há lugar para todos e que a vida é possível. Quantos se lembram da sensação de descobrir que não estava só e do que isso significou? Então, relaxe e deixe que a Parada tenha suas funções política, cultural e social. Ou faça muito melhor: não relaxe! Corra e participe da maior quantidade de Paradas e manifestações que você puder e participe ativamente de grandes transformações: subverta, transgrida, revolucione!
- Ivone Pita
Reproduzido via Gay1 Tweet
Por que ''o teu próximo'' revolucionou a fé
Foto daqui
Publicamos aqui um trecho do livro de Enzo Bianchi e Massimo Cacciari, Ama Il prossimo tuo (144 páginas), décimo primeiro e último livro da série "Os Mandamentos", publicado pela editora Mulino.
O texto foi publicado no jornal Corriere della Sera, 22-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.
Eis o texto.
É preciso começar pelos textos decisivos em que ressoa o mandatum novum: "Amarás o Senhor teu Deus com todo O teu coração e toda a tua alma e com todas as tuas forças e toda a tua mente, e amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lucas 10, 27). O verbo agapán é usado para indicar tanto o amor que se deve ao Theós, quanto aquele ao próximo, plesios. A tradução latina, proximus, também mostra bem a importância do termo: proximus é de fato um superlativo. Não pode se tratar de um simples "vizinho". O plesios enquanto proximus se refere a nós com uma intensidade que nenhuma proximidade, nenhuma contingente contiguidade poderia alcançar. Nem se trata, certamente, de uma voz inexplicavelmente nova, vinda de algum outro lugar misterioso.
Esse mandatum também é um pleroma, não katalysis da Lei, salvação do próprio nomos em sua renovação radical. O preceito do pleno respeito dos direitos do hóspede, assim como do companheiro, do aliado, do amigo havia sido afirmado, de fato, com pleno vigor pelos profetas – porém, o rea' da Primeira Aliança, que a Septuaginta traduz no máximo como plesios, mesmo quando designa o estrangeiro, o concebe sempre como ligado a nós, ou pelo símbolo da hospitalidade, ou das relações de confiança recíproca, garantidos por pactos e arautos de acordos "úteis" às partes.
O timbre do mandatum evangélico "excede" completamente essa dimensão. O fato de combinar imediatamente o amor pelo Senhor ao pelo próximo constituiria verdadeira novitas, mesmo que plesios aqui traduzisse exatamente rea'. O que era mandado, juntamente com outros deveres, aqui completa até a Primeira Palavra! O Logos que serve de fundamento para toda a vida de Israel não se expressaria plenamente, permaneceria imperfeito, se não significasse em si mesmo amor pelo próximo.
É evidente que plesios é chamado, então, neste contexto, a assumir uma pregnância inaudita – mas, ainda mais, é evidente que a própria visão de Deus muda por essa sua extraordinária proximidade ao “plesios”.
Só em um ponto, talvez, na Primeira Aliança, se chega a uma intuição análoga – e é do maior significado isso ocorra em Jó. Todo o drama de Jó poderia ser interpretado da seguinte forma: é isto que ele pede: não que lhe sejam poupados os suplícios (no máximo as fofocas dos “advocati Dei”), mas que Deus se mostre a ele como rea', plesios, proximus (16, 21): "como um mortal faz com o seu rea' (plesion autoú)", ele quer encontrá-lo “face a face” e defender o homem diante dEle. Moisés também falava com o Senhor como um homem fala com o seu rea' (Êxodo 3, 11), mas a cena em Jó está radicalmente mudada: no Êxodo, parece evidente a forma do acordo, ou melhor: da aliança eterna; “rea'” expressa aqui uma proximidade atual e incontestável. Para Jó, ao contrário, o Senhor deveria se fazer “rea'”; ele exige que a relação entre o mortal e o seu Deus se torne uma relação entre “próximos”.
Poder-se-ia argumentar que Jó exige a companhia, a amizade, a proximidade de Deus no sentido daquela reciprocidade confiante, que o termo “rea'" expressa substancialmente. Ele quer amar o seu Senhor como o próximo, no aspecto do próximo, mas isso não equivale de fato a amar o próximo como ao Senhor. E se isso ocorre, é evidente que o significado que atribuíamos a rea' e ao plesios dos LXX, é revolucionado.
Foi dito: "Amarás o teu próximo (agapeseis ton plesion soú)" – mas também foi dito: odiarás o inimigo, odiarás quem não está contigo no vínculo das leis da hospitalidade, no sentido mais amplo do termo. Mas talvez os gentios também não sabem disso? "Mas eu porém vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem".
Em Lucas o paradoxo da extrema proximidade entre amor por Deus e amor pelo próximo; em Mateus, o da relação que vem se estabelecer entre plesios e echthrós, entre proximus e inimicus. O inimigo não pode ser amado sob o fundamento de um pacto, nem em vista de qualquer ganho, nem esperando reciprocidade. No entanto, deve ser amado como plesios. Isto é, no termo, deve ser compreendido o máximo afastamento. Próximo, "superlativamente" próximo, é o próprio inimigo (o hospes que não só se declara abertamente hostis, mas até inimicus, echthrós). Tweet
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O que é o essencial para viver como seguidores de Jesus?
Si no puedo bailar, no es mi revolución ;-)
Em certa ocasião os fariseus reuniram-se em grupo e fizeram a Jesus uma pergunta que era motivo de discussão e debate entre os setores mais preocupados em cumprir escrupulosamente os 613 preceitos mais importantes sobre o Sábado, a pureza ritual, os dízimos e outras questões: “Mestre, qual é o mandamento principal da Lei?”.A resposta de Jesus é muito conhecida entre os cristãos: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser”. Esse é o mais importante. Logo acrescentou: “O segundo é semelhante a ele: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E concluiu com esta afirmação: “Estes dois mandamentos sustentam a Lei e os profetas”.
Interessa-nos muito escutar bem as palavras de Jesus, pois também na Igreja, como no antigo Israel, foram crescendo ao longo dos séculos o número de preceitos, normas e proibições para regular os diversos aspetos da vida cristã. Qual é o primeiro e mais importante? O que é o essencial para viver como seguidores de Jesus?
Jesus deixa claro que nem tudo é igualmente importante. É um erro dar muita importância a questões secundárias de carácter litúrgico ou disciplinar, descuidando o essencial. Não devemos esquecer nunca que só o amor sincero a Deus e ao próximo é o critério principal e primeiro do nosso seguir a Jesus.
Segundo Ele, esse amor é a atitude de fundo, a força-chave e insubstituível que põe verdade e sentido à nossa relação religiosa com Deus e ao nosso comportamento com as pessoas. O que é a religião cristã sem amor? A que fica reduzida a nossa vida no interior da Igreja e no meio da sociedade sem amor?
O amor liberta o nosso coração do risco de viver empobrecidos, empequenecidos ou paralisados pela atenção insana a todo o tipo de normas e ritos. O que é a vida de um praticante sem amor vivo a Deus? Que verdade há na nossa vida cristã sem amor prático ao próximo necessitado?
O amor opõe-se a duas atitudes bastante difundidas. Em primeiro lugar, a indiferença entendida como insensibilidade, rigidez de mente, falta de coração. Em segundo lugar, o egocentrismo e desinteresse pelos demais.
Nesses tempos tão críticos nada há mais importante que cuidar humildemente do essencial: o amor sincero a Deus alimentado em celebrações sentidas e vividas desde dentro; o amor ao próximo fortalecendo o tratamento amistoso entre os crentes e impulsionando o compromisso com os necessitados. Contamos com o alento de Jesus.
- José Antonio Pagola
Reproduzido via IHU. Grifos do autor.
Leitura do Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum – Ano A (23 de outubro): Mt 22, 34-40 Tweet
domingo, 23 de outubro de 2011
O Amor!
Foto daqui
“Depende da nossa fidelidade a Cristo para que o Amor seja essencial, não somente na nossa relação com Deus, mas especialmente nas nossas relações com os outros; caso contrário, o próprio amor de Deus é impossível.”
A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote do Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras deste domingo, 30º Domingo do Tempo Comum – Ano A (23 de outubro). A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.
Eis o texto.
Referências Bíblicas:
Primeira leitura: Ex 22, 20-26
Evangelho: Mt 22, 34-40.
Depois de uma controvérsia inicial com os fariseus sobre o imposto cobrado pelo Imperador, do último domingo, aqui está uma outra controvérsia com um dos fariseus, um legista, sobre o maior mandamento da Lei, não um mandamento qualquer entre os 613 – 248 prescrições e 365 proibições –, mas qual seria o mais importante de todos, um mandamento que resume todos os outros. Não há 36 mandamentos, responde Jesus ao legista; há apenas um, o do Amor, mas que tem dois destinatários: Deus e o próximo. Não um sem o outro, mas os dois juntos... O que isso dizer?
1. O Amor: uma fonte e dois rios. O teólogo francês Patrick Jacquemont escreveu: "A Palavra de Deus toma todo o seu sentido: Amarás o Senhor teu Deus... Amarás o teu próximo. O segundo mandamento é semelhante ao primeiro, mas não há apenas um amor. Há uma única fonte, mas dois rios diferentes". Pelo fato de nos sabermos amados por Deus é que podemos amá-lo... mas não podemos amá-lo senão amando o outro, os outros. É próprio do amor que amemos. Não é motivo de escárnio o fato de que São João, em sua primeira carta, tenha dito: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, e no entanto odeia seu irmão, esse tal é um mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4, 20). Basicamente, o que João está dizendo é que amar a Deus é participar do seu amor, amando os outros. Portanto, amando os outros, amamos a Deus.
Quando perguntado pelo doutor da lei: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (Mt 22, 36), isto é, o mandamento sob o qual poderíamos reunir todos os outros? Jesus, que é ele próprio o princípio da unidade, dá a resposta. Ele reúne as duas partes da Lei, os mandamentos que dizem respeito ao amor a Deus e aqueles que dizem respeito ao amor ao próximo; ele reúne e unifica sua expressão, que ele formula em termos idênticos, recolhidos das Escrituras: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5), e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18b). É um amor sem restrição, que envolve a pessoa inteira, coração, alma, espírito.
2. O amor cristão: dois princípios de unidade. Ao unificar o amor a Deus e ao próximo, o Cristo do Evangelho nos dá dois princípios de unidade:
1) A parábola do Juízo Final (Mt 25, 31-46). O Cristo se identifica com o próximo: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25, 40). E mais do que isso: ele se identifica com seus irmãos, com os cristãos que são pobres, despossuídos, marginalizados, porque suas situações de pobreza oferecem oportunidades para outros, para os não-cristãos encontrarem Cristo e reconhecê-lo.
Já no Antigo Testamento, o Deus da Aliança tinha uma queda pelos pobres. No trecho do livro do Êxodo de hoje, os pobres são o imigrante, em hebraico ger, isto é, o estrangeiro residente, este grupo de pessoas que tinha um status social intermediário entre os cidadãos israelenses e os escravos. Estas pessoas não podiam ter terras; apenas oferecer seu serviço aos outros. Eles eram, portanto, economicamente desfavorecidos: "Não explore o imigrante nem o oprimido, porque vocês foram imigrantes no Egito" (Ex 22, 20). A viúva e o órfão são outra classe de desfavorecidos na sociedade judaica da época; sem recursos, eles viviam muitas vezes na miséria: "Não maltrate a viúva nem o órfão" (Ex 22, 21). E o que fazer para não explorar os pobres? Emprestar-lhes dinheiro sem juros e dar-lhes sua dignidade: "Se você tomar como penhor o manto do seu próximo, deverá devolvê-lo antes do pôr do sol" (Ex 22, 25).
2) "Sigam-me" (Mt 4, 19). A lei do amor de Cristo não pode ser reduzida a um código ou a um registro; é o próprio Jesus que é a nossa lei, uma lei viva, uma pessoa com quem nós estamos em comunhão, cujo Espírito nos habita e cujo corpo nós somos. O que São Paulo traduz da seguinte maneira: "Sejam meus imitadores, como também eu o sou de Cristo" (1 Cor 11, 1). Como cristãos, nós somos cristos vivos, e é por esta razão que devemos amar como ele amou.
Então, se eu atualizo a Palavra de hoje, as leis, os preceitos da religião não podem ser aplicados senão em relação à Lei do Amor proposta por Cristo no Evangelho. Depende da nossa fidelidade a Cristo para que o Amor seja essencial, não somente na nossa relação com Deus, mas especialmente nas nossas relações com os outros; caso contrário, o próprio amor de Deus é impossível. E o próximo não é apenas aqueles que pensam como nós e que nos são próximos; é também e sobretudo aqueles que são diferentes de nós e às vezes mesmo difíceis de amar.
Concluindo, gostaria apenas de compartilhar esta pequena reflexão do francês Éric Julien: “Por que é tão difícil amar a Deus? Porque significa amar o próximo. E por que é tão difícil amar o próximo? Porque é preciso amá-lo como a si mesmo, e bem poucos sabem se amar no seu justo valor. E como se amar a si mesmo? Tentando olhar como Cristo nos vê. Com infinito respeito, ternura e... paciência”. Tweet
sábado, 22 de outubro de 2011
Vida fraterna, antídoto a uma Igreja deprimida
Foto: Hale Çokyürüyen
O prior de Bose reflete sobre a vida da sua comunidade: "Ela se tornou uma realidade maior do que eu pensava". Sobre a vida religiosa: "Hoje, é mais difícil a perseverança do que a vocação". E sobre a Igreja: "Vivi a falsidade na minha pele". Mas continua sereno: "O Senhor me enviou muitas pessoas de valor. Posso voltar à minha solidão".
A reportagem é de Vittoria Prisciandaro, publicada na revista italiana Jesus, setembro de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.
O prior chega a pé por entre os caminhos entre as árvores. Ou de carro, se tem algo para trazer consigo. Reza com os irmãos, encontra-se com alguns hóspedes que subiram até aqui para lhe encontrar, cumprimenta os congressistas da vez, retira o correio e, depois, assim que pode, escapa e retorna ao seu jardim e à sua cela entre as árvores, um pouco mais escondida do que os outros edifícios da Comunidade, "refúgio e possibilidade de quietude" para um homem que, com seus 68 anos, atravessou as mais entusiasmantes e, ao mesmo tempo, as mais tempestuosas estações da história recente da Igreja: Concílio, pós-Concílio, refluxo.
Enzo Bianchi, o monge que muitos não-crentes consideram com respeito, que padres e leigos estimam, que alguns monsenhores ainda olham com desconfiança, que os editores cortejam e os amigos apreciam pela sua simpatia e pelo refino da arte culinária ("a cozinha é uma forma de dar algo de si mesmo aos outros"), tornou-se nas últimas décadas uma das raras vozes católicas "significativas" no panorama italiano. Os talk-shows fazem de tudo para recebê-lo em seus estúdios, os pedidos de entrevistas e conferências se estragam.
Mas Enzo tenta saborear a sua presença: "Há alguns anos, decidi fazer um máximo de duas aparições na televisão por ano. Mas gostaria de estar ainda mais escondido. Na rua, já me pararam dizendo: 'Eu já lhe vi, o senhor é o padre Bose'. Enfim, tenho medo de que, na televisão, o meu rosto conte mais do que o aquilo que eu digo. Eu prefiro o rádio e a mídia impressa".
"Além de alguns compromissos aos quais eu sou fiel – continua –, como Jesus, alguma intervenção no La Stampa, e, na França, no Panorama, eu tento não estar muito presente. Tenho medo do 'personagem'. Se eu quisesse ter 'sucesso', bastaria que eu aceitasse ser ordenado sacerdote e poderia ter feito carreira eclesiástica. Quando eu decidi ser um simples monge, eu escolhi não fazer carreira...".
Ele saiu sozinho, há pouco mais de 40 anos. Hoje, ele se encontra com uma comunidade de 80 monges, à que deu vida a outras fundações e é considerada, sem dúvida, como um ponto de referência na Igreja italiana e no exterior. Como ele vive essa situação? "A reação inicial, quando eu penso nisso, é de estupor, quase de surpresa. Mas também devo dizer que me sinto afortunado, porque se realizou o que eu já entrevia claramente na minha mente há mais do que 40 anos: uma comunidade monástica que tivesse no coração a Palavra de Deus em tudo, na liturgia, na nossa vida com a 'lectio divina', na proposta para os hóspedes. Assim como ela é hoje, efetivamente".
E continua: "A surpresa vem, entretanto, do fato de que Bose se tornou uma realidade muito maior do que eu pensava. Eu rezava frequentemente, sobretudo entre 1966 e 1968, para que o Senhor me concedesse algum irmão: 'Seis-sete são mais do que o suficiente', eu pensava. Eu usava uma fórmula emprestada do Pe. Colombàs, um monge que tinha escrito um pequeno panfleto intitulado Por um mosteiro simples e atual. Na minha ingenuidade, eu pensava em um mosteiro simples, que fosse fiel à tradição nos conteúdos e que respondesse à novidade do Concílio Vaticano II. Era a nossa vida como nós a fazíamos então, mas eu não supunha a sua dimensão, hoje muito maior do que aquela que eu pensava e queria. De um lado, há, assim, uma confirmação da intuição inicial; de outro lado, a surpresa, mas também o medo. Às vezes, no meu íntimo, quase não reconheço a Comunidade e me pergunto se, no futuro, conseguiremos permanecer fiéis a algumas coisas que escolhemos e que até agora se confirmaram: a vida simples entre nós, a acolhido simples aos hóspedes, uma vida de trabalho que ainda o fazemos... Conhece bastante a história do monaquismo para alimentar esses medos".
Eis a entrevista.
Bose é uma experiência monástica nova, mas profundamente ligada à história da Igreja. Em quais fontes ela se inspirou?
Aos sinais dos tempos e à tradição: com essa vontade, seguimos em frente e, às vezes, também pagamos um preço alto. Poucos se lembram, mas, entre 1965 e os anos 1980, houve uma forte contestação do celibato: "Vocês que podem, por que fazem uma escolha desse tipo?", alguns presbíteros nos diziam. E havia aqueles que queriam jogar fora a oração dos Salmos e que criticavam a nossa fidelidade à Liturgia das Horas. Resistimos, também porque eu tive algumas graças na vida. A primeira delas é a minha formação "tridentina doc", amadurecida na Igreja de antes do Concílio. Ensinaram-me latim aos 7 anos, fiz um percurso clássico: coroinha, paróquia, Ação Católica, das Fiamme Bianche [Chamas Brancas, grupo voluntário de crianças e jovens recrutas] até a FUCI [Federação Universitária Católica Italiana].
O meu pároco era um refinado liturgista: por exemplo, me fazia ler o Evangelho em italiano, quando a missa era em latim, e as pessoas não entendiam nada. Uma outra graça que eu tive durante os anos da universidade foi a proximidade do cardeal Pellegrino, que eu pude conhecer ainda antes de se tornar bispo, como estimado professor universitário de Patrística, o que também me permitiu aprofundar a minha afinidade com os Padres da Igreja e com o monaquismo antigo.
Aos 14 anos, comecei a ler as Regras de São Basílio, um livro que marcou a minha juventude, juntamente com a Imitação de Cristo. Eu não conhecia mosteiros reais quando vim para Bose.
O primeiro ao qual eu fui quando ainda estava sozinho, em 1967, foi o mosteiro trapista de Tamié, onde fiquei por três meses. Depois, vivi uma forte proximidade com Pierre-qui-Vire, um grande mosteiro beneditino francês. Senti a necessidade de que a vida da nossa Comunidade fosse enxertada na grande tradição monástica. Não posso esquecer, por exemplo, que o abade do mosteiro de Bellefontaine um dia me deu o hábito trapista, que vestimos ainda hoje no coro. Em suma, eu tive essa gerança, recebi o "manto de Elias" dos monges. É significativo que Bose seja um dos poucos mosteiros do Ocidente onde os monges ortodoxos do Athos vão com prazer. Os reformados se sentem em casa aqui.
Os beneditinos e os trapistas nos veem, a nós de Bose, quase como uma comunidade sua. Mesmo com os monges mais tradicionalistas temos bons contatos. Temos uma grande dívida para com os beneditinos e os trapistas franceses: foram próximos a nós e nos entenderam até quando havia alguma desconfiança contra nós por parte de outros. Tudo isso nos permitiu ser enxertados na tradição monástica com uma grande liberdade: uma vez que você tem os conteúdos, você entende que pode mudar as formas de acordo com os tempos e as exigências das pessoas. Não pode haver apenas uma escuta do passado. Um monge francês, que é um grande teólogo e amigo nosso, Ghislain Lafont, nos disse: "Vocês são o primeiro monaquismo da sociedade secular". Ele repetiu várias vezes: "É como se vocês tivessem aprendido a lição de Bonhoeffer". Eu acho que isso é verdade.
Mas o senhor, em seu último livro intitulado Una lotta per la vita (Ed. San Paolo), escreve que Bose e tudo o resto, talvez, não teriam existido se o senhor tivesse conhecido antes aquela falsidade que, nos últimos anos, lhe feriu muito. Uma afirmação forte...
Sim, isso também foi uma graça: conhecer a falsidade muito tarde. Se eu a tivesse provado antes, não sei se eu teria tido a possibilidade de ter tanta confiança nos outros. Desde pequeno, eu aprendi, graças à minha professora da escola primária, como é importante que alguém tenha confiança em nós. Ao contrário, nos últimos anos, tive a experiência da falsidade, principalmente na Igreja. Para que fique claro: desde o início, eu também tive inimizades e vivi incompreensões, sabe-se que não fomos muito aceitos. Mas, mais recentemente, aconteceu que alguém me sorria e depois espalhava calúnias sobre mim. Isso me fez um mal terrível. Foi um personagem da Igreja que me fez conhecer uma falsidade que eu não esperava.
Depois, também houve falsidade aqui entre nós, não para mim em particular, mas para toda a Comunidade. Eu não pensava que eu poderia viver, passados os 60 anos, uma tal desestabilização interior a ponto de ficar, em alguns momentos, profundamente confuso. Eu nunca tinha provado essa experiência: a maldade sim, é possível entendê-la. Mas a falsidade não está no meu horizonte. Foi a prova mais dura que eu sofri na minha vida na Igreja e na vida monástica.
O que requer a fidelidade do "para sempre" em uma comunidade monástica?
É realmente difícil. E eu me admiro, por enquanto, do percentual de perseverança que ainda há em nossa Comunidade, onde atualmente, de quatro pessoas que iniciam o caminho monástico, perde-se um pouco mais de um, com um percentual de 35-36%. Hoje somos 79 e, no noviciado, passamos para 112-115 pessoas.
A fidelidade tornou-se mais difícil do que as vocações. No passado, o problema era a falta de vocações; agora é a perseverança: ou seja, são muitos mais aqueles que vão embora do que aqueles que entram normalmente em toda a vida religiosa. É uma mudança antropológica e cultural: nessa situação de precariedade, a vida se prolongou, e, ao longo dos anos, com as mudanças, a fidelidade é difícil, no casamento assim como na vida monástica.
Além disso, a nossa Comunidade é aberta, não há clausura, ela faz parte da sociedade, sem isenções. Vejo o esforço também sobre mim. A nossa Comunidade começou com 3-4 pessoas, depois, por um longo tempo, éramos poucos mais que do que uma dezena. De lá para cá, a nossa vida mudou, não nos conteúdos, mas na forma: de uma unidade sociológica primária, 12 pessoas, para 80; de mil hóspedes por ano para mais de 17 mil; de ser praticamente quase desconhecida à notoriedade.
Quanto à minha própria experiência pessoal, tempos atrás eu tinha muitas hostilidades, eu era incompreendido. Agora há alguns que não falam bem de mim, mas muitos outros me dão sinais de reconhecimento. Nessa mudança, a perseverança se torna difícil, a tal ponto que, às vezes, eu seria quase tentado não a retroceder, mas a buscar uma vida mais apropriada para o que eu sentia por dentro. Mas, aqui também, trata-se de prestar obediência à realidade: crescemos, nos tornamos uma família, se começa com dois, depois, em certo ponto, há filhos e a família não é mais aquela de antes. Na vida, você muda de trabalho, de situações de vida... É preciso fazer um verdadeiro exercício e uma disciplina para a perserverança. E, nos momentos de crise – isso eu digo a mim mesmo e também para muitos casais que me encontram em momentos difíceis – é preciso permanecer firmes, não se mover e manter os pés firmes, esperar que o nevoeiro passe. Porque, se nos movemos nesse momento de escuridão interior, ocorrem desastres, são dados passos dos quais não se pode voltar para trás.
Hoje, a lealdade tem um preço alto. A ideologia reinante do efêmero, da mudança, da soma de experiências influencia a todos, não só a sociedade: nós, Igreja, nós também, monges, estamos dentro da sociedade. Não podemos ser aqueles que olham para a cidade como Abraão olhava para Sodoma, do alto. Nós habitamos Sodoma e Gomorra, estamos dentro delas, compartilhamos as fadigas de todos os homens e as mulheres do nosso tempo.
Como é a Igreja vista de Bose?
A Igreja toda vive em um estado de depressão, em que as convicções fortes aparecem só quando são contra os outros, em uma guerra de facções contínua. Por outro lado, parece que ninguém está convencido de nada. O mais grave é que o coração de todo esse conflito é a Eucaristia: os servos da comunhão fazem dela um lugar de divisão. Quanto à Igreja italiana, em particular, vejo dois males. O primeiro é a afonia do laicato: os cristãos na política é como se não existissem mais; frequentemente, houve uma forma de ultrapassamento, pela qual a voz que lhes cabia foi assumida por alguns bispos.
Tudo isso provocou nos últimos 20 anos uma situação um pouco desoladora, não há mais subjetividade laical. Talvez hoje se entreveja um renascimento. Espero que haja um novo começo depois de um tempo de depressão. Outra coisa é que eu gostaria que se entendesse que há urgências muito fortes. É significativo que se tenha escolhido falar sobre a educação nas Orientações Pastorais da década. A meu ver, porém, é inútil pensar em transmitir uma fé às futuras gerações sem lhes fornecer uma gramática humana: elas precisam saber o que a fé lhes diz no cotidiano, na vida, nos afetos, nas histórias de amor, no trabalho, no encontro com os outros.
Dessas duas urgências depende o futuro. Devemos parar de pensar que temos um catolicismo popular que sustenta. A Igreja na Bélgica tinha essa situação 20 anos atrás e é agora é o país mais descristianizado da Europa. Devemos ser menos seguros, menos autogarantidos, menos autorreferenciais.
A comunidade de Bose sempre jogou na aposta evangélica da unidade dos cristãos. Há alguns anos, porém, o ecumenismo está em crise. Mas essa continua sendo a aposta do futuro. Como o senhor vê essa questão neste momento?
Desde o início, eu entendi uma coisa: eu não queria, como alguns sugeriram, que o ecumenismo fosse uma espécie de quarto voto da Comunidade. Nós não celebramos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, porque sempre dissemos que ou ela é vivida todos os dias, ou não vale a pena. Jesus pediu a unidade: portanto, ou o cristão vive o ecumenismo, ou contradiz Jesus Cristo.
Hoje não há coragem. Todas as igrejas não acreditam muito no ecumenismo. E, na Igreja Católica, há quem trabalhe contra o ecumenismo, atacando o Concílio, propondo o retorno a uma identidade católica fechada, dura, autorreferencial. Quer-se o "retorno dos irmãos separados", como se dizia antes do Concílio. Na Igreja, não se quer a unidade. Quando se continua dizendo que ela vai acontecer "quando o Espírito quiser", então isso significa que não se quer assumir a responsabilidade aqui e agora, e não se quer dar passos de comunhão.
Mudando de assunto: às vezes, parece que o risco de identificação entre Enzo Bianchi e Bose é forte. Hoje, quanto a Comunidade é "sua" e quanto, ao contrário, ela é fruto daquilo que "trouxeram" os outros irmãos e irmãs que vieram depois do senhor?
A Comunidade, na realidade, é muito autônoma de mim. Eu comecei toda a história, mas hoje faço realmente muito pouco. Nos últimos anos, tenho estado sempre fora. Quero que a Comunidade ande por conta própria. Temos um capítulo pela manhã, quando se decidem as coisas, e eu, há cinco ou seis anos, não vou, justamente para que se acostumem a decidir por eles, a medir o seu cotidiano.
O Senhor me mandou tantas pessoas de valor, de grande qualidade intelectual, humano, organizativa. Enquanto a Comunidade estava nas minhas mãos, até 1992-1993, eu nunca organizei um congresso. Eles foram possíveis desde que há um irmão, especialmente, que sabe fazer isso muito bem. E, em nível intelectual, há pessoas mais refinadas do que eu. Muitas coisas vão em frente como se eu não existisse. Eu não determino mais muitas coisas. Nos capítulos, as decisões são tomadas com a votação da maioria, e há pessoas que podem me substituir no priorado. Assim que eu apresentar a renúncia, o vice-prior reunirá o capítulo. Em 40 dias, haverá a eleição do novo prior que guiará a Comunidade por dois anos. Depois disso, se exigirá uma outra votação: se for positiva, o prior continua por 12 anos, caso contrário será escolhido um outro. Enfim, quando eu me for, a Comunidade continuará muito bem. Eu não tenho temores com relação a isso.
Das suas palavras parece transparecer quase uma vontade de ermo...
Não, eu não tenho vocação eremítica. Mas a vontade de voltar para uma certa solidão, isso sim. Além disso, eu já vivo sozinho agora, no meio da floresta. Tweet
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