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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

“O que seria um ‘Sínodo da Família’ sem incluir aqueles que vivem em família?”


"Em nossa opinião, seria muito positivo se o estudo, que está em processo inicial, pudesse ampliar-se mediante a expressão do Espírito Santo, através das vozes dos fiéis que participarão ao longo de todo o processo previsto”, escreve em carta a Rede mundial de católicos e organizações católicas, publicada por Religión Digital, 05-02-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a carta.

Querido Papa Francisco:

Esperamos que tenham sido úteis nossas propostas incluídas nas cartas de 19 de setembro e de 27 de novembro de 2013, assinadas tanto por organizações católicas como por pessoas, de maneira individual, de todo o mundo. Antes de se reunir pela terceira vez com o Conselho Assessor, te enviamos agora esta carta sobre o Sínodo Extraordinário dos Bispos, previsto para outubro de 2014. [Leia a carta que os grupos de LGBTs católicos brasileiros enviamos aos bispos aqui, e assine a petição online que a apoia aqui]

Alegramo-nos com tua decisão de convocar este Sínodo e com o compromisso para os desafios pastorais urgentes em relação à família no contexto do Evangelho. Em uma homilia recente fizeste a seguinte pergunta: “Como manter nossa fé no âmbito da família?”. Confrontamo-nos com essa questão precisamente por nos parecer como um aspecto crucial para nossa própria vida, assim como para a de tantas pessoas em nossas próprias comunidades eclesiais. Vemos hoje a nossa Igreja em uma encruzilhada de caminhos, em que você oferece uma esperança, numa renovação misericordiosa.

Alegramo-nos especialmente também com sua convocação, sem precedentes, para obter “contribuições das fontes locais”, mediante a distribuição dos questionários pelo Arcebispo Baldisseri, reconhecendo assim a importância do sensus fidelium para a autoridade magisterial da Igreja universal. Esta iniciativa é um início para o enfrentamento da necessidade, identificada na exortação Evangelii Gaudium, da promoção do crescimento da responsabilidade dos leigos, recorrentemente excluídos “das tomadas de decisões”, por um “clericalismo excessivo”. Em nossa opinião, seria muito positivo se o estudo, que está em processo inicial, pudesse ampliar-se mediante a expressão do Espírito Santo, através das vozes dos fiéis que participarão ao longo de todo o processo previsto.

Sem dúvidas, és consciente de que há muitas reações distintas por parte dos bispos e suas conferências episcopais, em relação ao requerimento de repostas das Igrejas locais mediante as 39 perguntas do questionário sobre a temática do Sínodo. Enquanto algumas conferências têm facilitado à participação dos fiéis neste estudo, que representa tantos desafios, a maioria têm feito mínimas tentativas para compreender as comunidades das paróquias neste diálogo tão importante.

Mantemos nossa convicção profunda de que, além da informação que possa ser obtida mediante os questionários, um Sínodo eficaz sobre a Família requer a participação de mulheres e homens católicos comprometidos, de diferentes regiões da igreja universal, em todas as etapas do Sínodo. Por exemplo, para que seja possível investigar, intercambiar opiniões, debater e fazer recomendações, sugerimos que peça a cada diocese do mundo que organize um sínodo diocesano em 2014, para discutir o tema, e que incite a cada bispo diocesano a animar a todos os católicos de sua diocese para que deem suas contribuições.

Nestes sínodos os debates devem ser abertos e respeitosos. As conclusões e recomendações de cada sínodo diocesano seriam então enviadas, ou diretamente para a comissão preparatória do Sínodo dos Bispos, ou, preferivelmente, a um Sínodo Nacional ou Plenário, especialmente convocado, com uma participação leiga de, ao menos, metade de todos os membros sinodais, com uma alta proporção de mulheres para compensar a sua carência no governo da Igreja.

Antecipamos que este processo levaria, de uma maneira natural, a uma representação significativa dos leigos no Sínodo da Família. Afinal de contas, o que seria um “Sínodo da Família” sem incluir aqueles que vivem em uma família?

Papa Francisco, respeitosamente oferecemos nosso assessoramento e experiência, obtidos ao viver nossas vidas cristãs em famílias de todos os tipos.

Esperamos ansiosos a confirmação de que tenhas recebido esta carta e, em seu devido tempo, sua resposta a nossas propostas, que envolve católicos e católicas comprometidos com o Sínodo Extraordinário e em seus preparativos formais. Mais uma vez, asseguramos-lhe que você está em nossas orações e temos um profundo desejo de fazer visível a missão de Cristo, de amor e justiça nas famílias de todo mundo.

Contigo em Cristo.

Rede mundial de católicos e organizações católicas.

Carta com cópia para:

Cardeal Giuseppe Bertello, Presidente da administração do estado da Cidade do Vaticano
Cardeal Francisco Javier Errázuriz Ossa, Arcebispo Emérito de Santiago do Chile
Cardeal Reinhard Marx, Arcebispo de Monique e Frisinga , Alemanha.
Cardeal Laurent Monsengwo Pasinya, Arcebispo de Kinshasa, Congo
Cardeal Sean Patrick O Malley, Arcebispo de Boston, EUA.
Cardeal George Pell, Arcebispo de Sydney, Austrália
Cardeal Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, Arcebispo de Tegucigalpa, Honduras

Fonte

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus"


Na nossa reunião deste sábado discutimos a Exortação do papa sobre a evangelização. Foram selecionados e destacados em negrito (abaixo) os conteúdos que mais nos ajudam em nosso apostolado, seja para refutar posições legalistas e intransigentes, seja encorajar um cristianismo aberto e inclusivo.

Estamos convencidos de que ventos muito favoráveis estão soprando a nosso favor. Podem conferir.

Equipe Diversidade Católica

Papa Francisco - Exortação Apostólica Evangelii gaudium
sobre o Anúncio do Evangelho no mundo atual

1. A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria.

[...] 10. um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral. Recuperemos e aumentemos o fervor de espírito, «a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! (...) E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e desalentados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo» (Paulo VI).

[...] 34. No mundo atual, com a velocidade das comunicações e a selecção interessada dos conteúdos feita pelos meios de comunicação, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários. Consequentemente, algumas questões que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora do contexto que lhes dá sentido. O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos parece então identificada com tais aspectos secundários, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos não manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, convém ser realistas e não supor que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos, ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fascínio.

35. Uma pastoral em chave missionária não está obsecada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa.

36. Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimir mais diretamente o coração do Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que «existe uma ordem ou ‘hierarquia’ das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente». Isto é válido tanto para os dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral.

37. São Tomás de Aquino ensinava que, também na mensagem moral da Igreja, há uma hierarquia nas virtudes e ações que delas procedem. Aqui o que conta é, antes de mais nada, «a fé que atua pelo amor» (Gal 5, 6). As obras de amor ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do Espírito: «O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se manifesta através da fé que opera pelo amor». Por isso afirma que, relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes: «Em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes; na realidade, compete-lhe debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta – remediar as misérias alheias. Ora, isto é tarefa especialmente de quem é superior; é por isso que se diz que é próprio de Deus usar de misericórdia e é, sobretudo nisto, que se manifesta a sua omnipotência».

38. É importante tirar as consequências pastorais desta doutrina conciliar, que recolhe uma antiga convicção da Igreja. Antes de mais nada, deve-se dizer que, no anúncio do Evangelho, é necessário que haja uma proporção adequada. Esta reconhece-se na frequência com que se mencionam alguns temas e nas acentuações postas na pregação. Por exemplo, se um pároco, durante um ano litúrgico, fala dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na pregação e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei que da graça, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra de Deus.

39. Tal como existe uma unidade orgânica entre as virtudes que impede de excluir qualquer uma delas do ideal cristão, assim também nenhuma verdade é negada. Não é preciso mutilar a integridade da mensagem do Evangelho. Além disso, cada verdade entende-se melhor se a colocarmos em relação com a totalidade harmoniosa da mensagem cristã: e, neste contexto, todas as verdades têm a sua própria importância e iluminam-se reciprocamente. Quando a pregação é fiel ao Evangelho, manifesta-se com clareza a centralidade de algumas verdades e fica claro que a pregação moral cristã não é uma ética estóica, é mais do que uma ascese, não é uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros. O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos. Este convite não há de ser obscurecido em nenhuma circunstância! Todas as virtudes estão ao serviço desta resposta de amor. Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter «o perfume do Evangelho».

40. A Igreja, que é discípula missionária, tem necessidade de crescer na sua interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade. A tarefa dos exegetas e teólogos ajuda a «amadurecer o juízo da Igreja». Embora de modo diferente, fazem-no também as outras ciências. Referindo-se às ciências sociais, por exemplo, João Paulo II disse que a Igreja presta atenção às suas contribuições «para obter indicações concretas que a ajudem no cumprimento da sua missão de Magistério». Além disso, dentro da Igreja, há inúmeras questões à volta das quais se indaga e reflete com grande liberdade. As diversas linhas de pensamento filosófico, teológico e pastoral, se se deixam harmonizar pelo Espírito no respeito e no amor, podem fazer crescer a Igreja, enquanto ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho (nota nº44:...temos necessidade de ouvir-nos uns aos outros e completar-nos na nossa recepção parcial da realidade e do Evangelho).

[...] 43. No seu constante discernimento, a Igreja pode chegar também a reconhecer costumes próprios não directamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns muito radicados no curso da história, que hoje já não são interpretados da mesma maneira e cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo adequado. Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. São Tomás de Aquino sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus «são pouquíssimos». E, citando Santo Agostinho, observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com moderação, «para não tornar pesada a vida aos fiéis» nem transformar a nossa religião numa escravidão, quando «a misericórdia de Deus quis que fosse livre». Esta advertência, feita há vários séculos, tem uma actualidade tremenda. Deveria ser um dos critérios a considerar, quando se pensa numa reforma da Igreja e da sua pregação que permita realmente chegar a todos.

44. Aliás, tanto os Pastores como todos os fiéis que acompanham os seus irmãos na fé ou num caminho de abertura a Deus não podem esquecer aquilo que ensina, com muita clareza, o Catecismo da Igreja Católica: «A imputabilidade e responsabilidade dum ato podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e outros fatores psíquicos ou sociais» (nº1735). Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas.

45. [...] Um coração missionário está consciente destas limitações, fazendo-se «fraco com os fracos (...) e tudo para todos» (1 Cor 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A Igreja caminhando no meio da noite com o seu povo


As 38 perguntas recebidas pelos episcopados do mundo (saiba mais aqui e aqui) foram colocadas repentinamente em rede por intermédio de uma pesquisa anônima e aberta a todos. Leia na reportagem de Piero Schavazzi, publicada no jornal L’Huffington Post, 05-11-2013, com tradução de Anete Amorim Pezzini, aqui reproduzida via IHU.

Atualização em 9-12-13: você já leu a carta de alguns grupos católicos LGBT brasileiros para os bispos? O texto, com o link para a petição (pra quem quiser assinar e apoiar), está aqui.
:-)

Projetada com a intenção de filtro para bispos e para paróquias, a sondagem promovida por Francisco tornou-se, assim, patrimônio de todos, “regulares” e especialmente “irregulares”, a começar pelos interessados diretos, ou seja, os casais protagonistas das novas realidades, ou “Rerum Novarum”, com alusão à mais famosa das encíclicas, a respeito da qual as palavras do documento apresentado mostra uma afinidade sugestiva.

“Delineiam-se hoje problemáticas inéditas até a alguns anos”, começa o texto que introduz o questionário, “a propagação dos casais de fato, que não procuram o matrimônio, e, às vezes, não excluem a ideia da união entre pessoas do mesmo sexo, a quem, não raro, é consentida a adoção de filhos”.

"Nós não podemos mais fazer o papel de avestruz”, sintetizou com cuidado explícitou o bispo Bruno Forte, teólogo progressista de renome mundial, que Francisco tirou de sua década de exílio na província como arcebispo de Chieti e nomeado Secretário Especial da Assembleia Extraordinária, programada para 5 a 19 de outubro de 2014, sobre “Desafios Pastorais da Família”, reunindo, em Roma, os presidentes de todas as conferências episcopais.

O seu convite para não enterrar a cabeça na areia e para não virar o olhar encontra nítido eco no preâmbulo: “Se, por exemplo, pensa-se no simples fato de que, no atual contexto, muitas crianças e jovens, nascidos de matrimônios irregulares, possam não ver jamais os seus genitores aproximarem-se dos sacramentos, compreende-se o quanto urgente são os desafios para a evangelização na situação atual, no entanto, espalhou-se para todas as partes da aldeia global”.

É o próprio Papa que presidirá as reuniões preparatórias de 7 e 8 de outubro, contribuindo com a individuação e redação das perguntas, incluindo a mais espinhosa: “No caso das uniões de pessoas do mesmo sexo, como comportar-se pastoralmente em vista da transmissão da fé?”.

Bergoglio não inovou somente o método, mas a estrutura do Sínodo, que, até agora, contradizendo a própria etimologia e natureza, parecia estático, não dinâmico, condescendente a priori, e independência plebiscitária contra os Pontífices.

Ao contrário, para a sua Igreja, Francisco tem em mente um “sistema bicameral” verdadeiro que se distinga pela vivacidade do debate e pela capacidade de mobilização.

Os jornalistas tiveram a prova na conferência de imprensa do bispo Lorenzo Baldisseri, toscano de Garfagnana e embaixador versátil, habituado aos países continentes do Brasil à Índia, hoje secretário da assembleia sinodal ou, se quisermos, em analogia com a linguagem parlamentar, porta-voz da “câmara baixa”, por definição, a mais próxima das pessoas.

De resto, Bergoglio não tinha deixado dúvidas acerca de seu entendimento na entrevista de setembro para a Civiltà Cattolica: “Os consistórios, os sínodos são lugares importantes para tornar a consulta verdadeira e ativa. Necessita, no entanto, torná-los menos rígidos na forma. Quero consultas reais, não formais”.

Provando que está falando sério sobre a experiência de partida, o Papa que, na juventude diplomou-se em química, escolheu o reagente mais explosivo – a moral familiar –, e a fórmula mais arriscada – um questionário de trinta e oito perguntas sobre os problemas em aberto e temas que queimam, suscetíveis de provocar uma reação em cadeia com consequências imprevistas: “Pode acontecer o que pode acontecer a todos aqueles que saem de casa e vão às ruas: um incidente”, tinha dito há seis meses durante a vigília de Pentecostes. “Mas eu lhes digo: prefiro mil vezes uma Igreja machucada, por causa de um acidente a uma Igreja doente porque fechada em si mesma!”.

Se Bergoglio dispõe do diploma em Química, Baldisseri possui um de piano: papa Ratzinger executava Mozart, Baldisseri, ao contrário, o genial compositor carioca Villa-Lobos, que inseriu no classicismo europeu os ritmos populares da América do Sul.

Para ler atentamente a partitura e escutar o papel de relator geral, bem como o primeiro tenor do Sínodo, o arcebispo de Budapeste, Peter Erdö, adverte que, de fato, a configuração que permanece por enquanto é a tradicional, mas mudou a interpretação, menos rigorosa e mais generosa, empreendedora e com traços aparentemente inacabados, com acentos suspensos e liberdade de expressão, e claramente estendeu firmemente a mão para conquistar um público diferente e mais amplo.

O documento confirma a mensagem das Sagradas Escrituras e o magistério do Concílio sobre os valores da família e sobre a lei natural, reiterando-o com as palavras do catecismo: “A aliança matrimonial, mediante a qual um homem e uma mulher constituem entre si uma comunhão íntima de vida e de amor foi fundada e dotada de suas próprias leis pelo Criador”.

Ao mesmo tempo, no entanto, perguntou desde a primeira indagação do questionário, se e até que ponto esse ensinamento é “conhecido e integralmente aceito” pelos fiéis: “O conceito de lei natural na relação da união entre homem e mulher é comumente aceito enquanto tal por parte dos batizados em geral?”.

Como na tradição dos verdadeiros parlamentos, a “câmara” reunir-se-á em duas sessões, com uma distância de um ano entre elas: uma assembleia extraordinária em outubro de 2014, para obter respostas e testemunhos, definindo o “status quaestionis” e medindo a extensão dos “desafios” que afetam e ameaçam perturbar a pastoral da família. Uma outra assembleia, ordinária, ocorrerá no outono de 2015, para assimilar os novos conceitos e desenvolver uma sensibilidade coletiva, ao longo de um caminho que envolve um bilhão de católicos, e desenvolve-se sob os olhos do mundo, confiando em Deus e confiando no instinto das pessoas.

“Os bispos, particularmente, devem ser homens capazes não somente de acompanhar com paciência o seu povo, de modo que nenhum fique para trás, mas também acompanhar o rebanho que tem um instinto para encontrar novos caminhos”, explicou Francisco no colóquio com Padre Spadaro.

Na ânsia de reformar o executivo com a incorporação dos ministérios, em que o concílio “constituinte” dos oito cardeais está trabalhando, Bergoglio transmitiu, portanto, um choque de adrenalina nas duas assembleias “legislativas”: a câmera alta dos cardeais e a baixa do Sínodo dos Bispos.

No papel, tratam-se dos órgãos consultivos, que não legislam, visto que o Pontífice Romano é ainda um monarca absoluto, mesmo na era de Francisco: ambos, porém, tornam-se legais, se o soberano reinante ratifica suas deliberações, no sentido de um exercício colegial do ministério de Pedro, que, sem afetar a constituição formal da Igreja, inova-a, todavia, a material.

A câmara alta de imediato virá reequilibrada geograficamente, já no consistório de fevereiro, redimensionando o componente italiano e europeu, para dar espaço aos países excluídos do último conclave. Mas, mais tarde, poderia ser modificada geneticamente, com o ingresso de uma mulher cardeal ou, pelo menos, uma reavaliação e reorganização do colégio que elege o Papa, integrando a linhagem divina dos purpurados com os representantes laicos do povo de Deus.

Há dois domingos, enquanto caía o pano na festa das famílias, a última quermesse no tema do Ano da fé, escrevemos que, no Vaticano, tinha aparecido o sinal “trabalho em curso”.

Francisco de manhã, nos seus discursos tinha voado alto, como os balões que alçam no céu de São Pedro, metáfora colorida de uma realidade mais variada, e “irregular”, dos preceitos que a retratam em preto e branco.

Um dia depois, no entanto, com os dias que se encurtavam, voltou celeremente ao hospital de campanha e aos corredores de emergência, que conduzem o caminho do Sínodo em direção à zona de sombra, em que a tarefa da Igreja e de seu questionário, em primeiro lugar, não é a clareza da doutrina, mas sentir a carícia divina sobre as feridas da vida: “Os ministros do Evangelho devem ser pessoas capazes de reaquecer o coração das pessoas, de caminhar no meio da noite com elas, de saber dialogar, e também de descer na noite delas, na sua escuridão sem perder-se”.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

''É preciso revalorizar certas ênfases do Vaticano II''

Ilustração: Mattias Adolfsson

Há ênfases, perfeitamente fiéis à tradição cristã mais antiga, que, na obra do Vaticano II, apareceram como inovadoras. São aquelas mesmas ênfases que hoje não só se atenuam, mas também desaparecem muito frequentemente das palavras e das práticas de algumas de nossas comunidades.

Para expressar a condição comum dos crentes em Cristo, a Constituição Lumen Gentium coloca a igualdade em primeiro plano: "Reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo" (n. 32). Fora dessa igualdade, haveria, de outra forma, cristãos de série A e cristãos de série B?

O Concílio não deixa de notar, no mesmo texto, a diferença das funções, e, entre essas funções, a do pastor. Por que falar tão pouco da igualdade e ter tão pouca audácia para vivê-la de maneira mais visível? Sem dúvida, por medo de "fazer desaparecer" os pastores na comunidade. Por uma insuficiente compreensão da verdadeira natureza das diferenças. E, definitivamente, por uma deplorável desvalorização daquele nome comum de "cristão" que os discípulos receberam um dia em Antioquia (Atos 11,26).

Mas o que haveria para nós, acima da honra de ser cristãos, isto é, de Cristo? Já foi dito, mas é preciso repetir: não há "supercristãos". Às vezes, ouvimos dizer: "Os cristãos e os pastores". Enunciar a distinção desse modo não faz nenhum sentido na lógica do cristianismo.

No decreto sobre o ministério e sobre a vida dos presbíteros, o Vaticano II nos lembra como o ministério dos padres é insubstituível: "Juntamente com os fiéis, são discípulos do Senhor (…) Regenerados com todos na fonte do Batismo, os presbíteros são irmãos entre os irmãos, membros de um só e mesmo corpo de Cristo cuja edificação a todos pertence" (n. 9). A relação de fraternidade é a mais fundamental, e, se não fosse visível na vida cotidiana, o aspecto de "paternidade espiritual" que o ministério pastoral comporta se desnaturalizaria perdendo o seu sentido evangélico: "Vocês têm um único Pai, e todos vocês são irmãos".

Durante o Ano Sacerdotal, na abundância das publicações, custamos muito a descobrir traços claros e insistentes desse importante lembrete conciliar. Do que temos medo? Precisamos de vocações para o ministério presbiteral. Acreditamos, talvez, que a valorização urgente dessa vocação pode ser fecunda e principalmente bem compreendida, se não levar seriamente em consideração o "retorno" do ministério do padre ao interior do povo de Deus, como a dinâmica Lumen Gentium lá o inclui?

No decreto sobre o ecumenismo, o Concílio recomenda uma apresentação da fé cristã que coloque no lugar certo, isto é, no centro, o que não está diretamente "em relação com os fundamentos da nossa fé" (n. 11). A esse respeito, fala de uma "hierarquia das verdades". As devoções têm a sua razão de ser. Ilustram às vezes de maneira oportuna um aspecto ou outro do Mistério cristão. Mas, em outros momentos, a excessiva e persistente atenção a certos aspectos acaba ocultando o que está no coração da Revelação de Deus em Jesus Cristo e, consequentemente, o que é comum entre confissões cristãs. A identidade católica manifestada por essas devoções nascidas ao longo dos séculos deve ser subordinada à especificidade cristã no que ela tem de essencial. É ela, acima de tudo, que é preciso fazer com que seja vista.

A Constituição Gaudium et Spes examina a originalidade da Igreja, que não pode ser reduzida a nenhum modelo político. Mas faz isso situando essa particularidade na sociedade em que a Igreja é solidária com todos os protagonistas da vida comum. O Concílio não hesita em apresentar a Igreja e a sociedade em situação de reciprocidade. O que a Igreja dá ao mundo não está desvinculado do que a Igreja recebe do mundo (nn. 41 a 44). É de Cristo mesmo que nós recebemos incessantemente o Evangelho da salvação para propô-lo ao mundo. É "da história e do gênero humano" que a Igreja recebe novas indicações para a sua presença efetiva entre os homens deste tempo. Não podemos usar como pretexto erros individuais e coletivos dos nossos contemporâneos para pôr a Igreja acima de uma sociedade que não teria nada a nos dizer.

A ideia democrática, por exemplo, não se aplica à Igreja do mesmo modo que na sociedade política. Ela pode e deve, no entanto, inspirar os modos de relação dentro da comunidade cristã. Não basta repetir abusivamente que "a Igreja não é uma democracia". Seria melhor mostrar o que um sadio espírito democrático pode oferecer de vivificante na atuação daquele "momento comum" que é a expressão do povo de Deus. Realmente acreditamos nesse "momento comum" em que o próprio Espírito "fala à Igreja"?

Essas ênfases certamente não esgotam a obra do Vaticano II. No entanto, é necessário revivificá-los se a Igreja quer que não se diluam aqueles elementos importantes da renovação desejada pelo Concílio. A verdadeira Tradição eclesial perderia, assim, em parte, o sopro que se manifestou há 50 anos e do qual a comunidade cristã, mais do que nunca, precisa para ser testemunha fiel do Espírito "renova a face da terra".

- Gaston Piétri, padre em Ajaccio, na França.
Artigo publicado no jornal La Croix, 25-08-2012.
Tradução: Moisés Sbardelotto.
Via IHU.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Comunidade: quando a correção é fraterna


Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal
Avvenire, dos bispos italianos, 20-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


Estamos no tempo pascal, no qual a Igreja nos convida a proclamar a boa notícia por excelência: "Cristo ressuscitou, ressuscitou verdadeiramente". Imersos nessa alegria, podemos olhar para trás, para o caminho quaresmal recém-percorrido, para verificar se foi um caminho de conversão e de crescimento espiritual, ou se não demos um passo para voltar ao Senhor, ou mesmo se acabamos cedendo ainda mais aos ídolos mundanos que sempre nos tentam.

Ao fazer esse exame de consciência, não podemos esquecer que, no início da Quaresma, Bento XVI endereçou à Igreja uma mensagem voltada a fazê-la refletir sobre o fim do seguimento: o amor, a caridade. Por isso, o papa de Roma nos forneceu o rastro de uma busca, de uma reflexão, de um compromisso cotidiano a ser assumido, o que se refere à correção fraterna.

Contaminados como estamos por uma verdadeira doença que é a indiferença uns pelos outros, a falta de proximidade, já não sabemos mais que a correção fraterna é uma das atitudes cristãs mais decisivas para a salvação do indivíduo e para a própria comunidade cristã, a Igreja. Se não nos sentimos protetores, responsáveis pelo irmão, pela irmã, pelo outro (cf. Gn 4, 9: "Por acaso eu sou o guarda do meu irmão?"), então vivemos no próprio autismo, sem olhar para os outros, sem nos aproximarmos do outro, sem praticar o face a face.

Desse modo, nunca nasce a ocasião para a correção recíproca, e, de fato, encoraja-se o crescimento do mal, que sempre será mais disseminado enquanto nunca for julgado. Entre as obras de misericórdia que aprendemos na catequese, havia também "advertir os pecadores", expressão talvez pouco feliz, porque parece pressupor que o cristão não pecador deve advertir quem o seja. Também por isso, provavelmente, essa obra foi esquecida, e assim se perdeu a memória do fato de que a instância subentendida a essa expressão é, na verdade, a da correção fraterna, uma correção sempre recíproca.

A mensagem de Bento XVI para esta Quaresma não me parece ter recebido uma recepção igual à que foi reservada às anteriores, e isso também diz muito sobre as dificuldades que os cristãos já têm com relação à prática da correção fraterna. Assumindo um estilo mundano, às vezes, alguns cristãos oscilam entre a indiferença e uma intervenção imediata violenta, caracterizada por insultos e por palavras que visam a deslegitimar a outra parte.

Com relação a isso, o Papa Bento XVI chegou até a escrever que, infelizmente, hoje, na Igreja, existe um "morder-se e um devorar-se uns aos outros" (cf. Gal 5, 15) que é escandaloso e contradiz gravemente a comunhão eclesial (Carta aos Bispos da Igreja Católica do dia 10 de março de 2009).

Sim, no tecido da vida eclesial, isso parece ser gravemente contraditório com relação ao Evangelho, ao estilo de Jesus, a uma vontade de comunhão que não perde a ocasião de declarar publicamente em palavras, mas que na realidade se desmente de modo persistente com o comportamento cotidiano, com acusações infundadas, com palavras caluniosas.

Porém, a correção fraterna está no coração da vida eclesial, é até indicada como necessária e normalizada pelas palavras de Jesus contidas nos Evangelhos. Como, portanto, ela pode ser praticada?

Acima de tudo, "prestando atenção uns aos outros" (cf. Hb 10, 24, versículo que intitula a mensagem de Bento XVI). O cristão é, por natureza, um vigilante, alguém que presta atenção, que mantém o seu olhar fixo no Senhor (cf. Hb 12, 2). A partir desse exercício de olhar com atenção para o Senhor, tornamo-nos capazes de olhar para os irmãos, para as irmãs e para os eventos da história cotidiana fazendo um discernimento sobre eles, isto é, lendo-os na sua verdade profunda e tentando olhar o outro com um olhar que o próprio Cristo teria voltado para ele.

Só quem assumiu o olhar, os sentimentos, o pensamento de Jesus também pode ver o outro na verdade, pode descobrir o seu mal, a sua culpa que jamais coincide com o outro – e, portanto, pode julgá-la na sua objetiva gravidade. Mas eu o repito – isso deve ser feito olhando para quem cometeu o mal, um homem ou uma mulher que é muito mais do que o pecado cometido: o outro sempre continua sendo uma pessoa, e nenhuma ação malvada por ele cometida pode nos fazer esquecer isso!

Normalmente olhamos o outro e logo vemos um ladrão, um mentiroso, um delinquente, uma prostituta... acabando por identificá-lo com a ação cometida: mas o ser humano é sempre muito mais do que o seu agir eventualmente julgado como negativo.

Portanto, para corrigir o outro é preciso se despojar do preconceito, daquele pensamento que nos habita e nos induz a julgar uma pessoa sobretudo pelo fato de que ele repetiu algumas vezes o seu pecado. Não, precisamos nos esforçar para ver o outro como Jesus o veria. Então, diante de uma mulher adúltera, não teríamos pedras nas mãos para apedrejá-la, mas, como Jesus ensinou, nos perguntaríamos se temos o direito de condenar quem cometeu o pecado, nós que somos pecadores como ela: "Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra" (Jo 8, 7).

Se somos exercitados a "ter em nós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo" (cf. Fl 2, 5), a "ter o pensamento de Cristo" (cf. 1 Cor 2, 16), então devemos e podemos praticar a exortação e a correção fraterna com sinceridade e parrésia, franqueza, sem dureza, sem nos colocarmos em posição de superioridade com relação ao outro. Cada um de nós é tentado, em seu próprio subjetivismo, a perder o sentido objetivo das coisas, a não saber mais avaliá-las a justa distância.

Precisamos, portanto, de outros que nos ajudem a voltar novamente à objetividade, que nos inspirem reservas, perguntas as quais devamos responder, se quisermos ser autênticos e permanecer na verdade. Sozinhos, isolados, sem a ajuda de outros e o confronto com eles, fazemos poucos avanços e caímos facilmente.

Corrigir – lembra o papa – "dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal". O próprio Jesus praticou muitas vezes a correção para aqueles que o escutavam ou o seguiam: desse modo, queria justamente exercitar a correção do pecador, e não dar-lhe a condenação ou a morte (cf. Ez 18, 23.32; 33, 11). Jesus usou palavras de reprovação, mas sempre finalizadas a dar a salvação. Ele o fez às vezes também com palavras fortes, de cólera, que relatam o seu pathos, isto é, comportando-se como verdadeiro herdeiro do pathos dos profetas, da sua paixão pelo ser humano e pela sua salvação, pela vida.

Não é por acaso que, no discurso de Jesus sobre a Igreja relatado no capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, se dê tanto espaço à correção fraterna. Nesse texto, registra-se uma indicação de tipo quase processual sobre o desenvolvimento da correção fraterna: "Se o seu irmão pecar, vá e mostre o erro dele, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele der ouvidos, você terá ganho o seu irmão. Se ele não lhe der ouvidos, tome com você mais uma ou duas pessoas, para que 'toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas' (Dt 19, 15). Caso ele não dê ouvidos, comunique à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos" (Mt 18, 15-17).

A correção deve, portanto, ocorrer em três etapas: a correção pessoal, discreta "só entre vocês dois", para que o irmão se reveja e o seu pecado não seja conhecido por outros. Depois, se necessário, a correção feita em dois ou três, de modo que quem cometeu uma culpa seja induzido a se rever na presença de mais irmãos. Se nem isso for suficiente, como medida extrema, que se faça uso da correção no meio da assembleia, diante de todos. Mas, se essa forma de correção também não tiver sucesso, Jesus pede que se adote contra quem errou a atitude que ele mesmo viveu com relação aos pagãos e aos pecadores. Nos lábios de Jesus, isso equivale a dizer: "Vá encontrá-lo, hospede-se com ele, coma com ele e converta-o com o seu amor e a sua atenção, como eu fiz com Levi, o publicano (cf. Mc 2, 13-17 e par.) e com tantos pecadores que estão no meu seguimento".

Corrigir, advertir é necessário, mas está habilitado a fazê-lo quem nutre o amor pelo irmão: cada um de nós também é responsável pelo outro, quem quer que seja, mas sobretudo de quem é irmão na fé e vive "o mandamento novo" do amor recíproco (cf. Jo 13, 24).

Certamente, "na hora, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza" (Hb 12, 11), porque quem é repreendido se sente humilhado e conhecido no seu próprio pecado. Mas, depois, torna-se verdade que, da correção, podem nascer "frutos de paz e de justiça" (cf. ibid.), e, portanto, podemos nos sentir amados por quem nos corrige.

Na parênese apostólica do Novo Testamento, pede-se mais de uma vez que se pratique a correção fraterna (cf. (cf. Rm 15, 14; 2Cor 2, 6-8; Gal 6, 1; Ef 5, 11; Col 3, 16; 1Ts 5, 12.14; 2Ts 3, 15; Tt 3, 10-11), mas esses ensinamentos já manifestam como a correção é difícil e cansativa, mesmo para quem a faz; indicam que, para corrigir, é preciso humildade e amor sincero; que nunca devemos nos sentir estranhos ao pecado do outro, nunca julgá-lo ou se considerar superior a ele. Enfim, nunca devemos praticar a correção como um inspetor que realiza a sua tarefa friamente: a correção cristã, de fato, não uma vigilância de tipo empresarial!

Na história – sabemo-lo bem –, a correção fraterna foi atestada principalmente nos primeiros séculos cristãos, depois quase desapareceu; ou, melhor, foi relegada aos mosteiros ou delegada à práxis do sacramento da penitência administrado individualmente. Nos mosteiros, que levam uma vida cenobítica, a correção ocorre todas as manhãs durante o capítulo, ou seja, a assembleia diária dos irmãos. Aqui, aquele que preside corrige os erros e os pecados comunitários, mas às vezes também corrige um irmão individual. Mas quem preside, o abade ou o prior, também pode ser corrigido e advertido pelos outros irmãos.

A respeito disso, escrevia Basílio de Cesareia: "Quem preside a comunidade não deve ser o único a não se beneficiar do apoio fraterno da correção recíproca, ele que exerce a função mais pesada" (Regras difusas 27). E o autor da Didaqué não perguntava talvez: "Corrigi-vos reciprocamente, não na ira, mas na paz" (15, 3)?

Na sua mensagem, Bento XVI pede com força o exercício da caridade fraterna na Igreja, na vida eclesial. Aqui, a correção fraterna se torna ainda mais difícil; demonstra-o o fato de que ela é muito pouco realizada, como fica aparece na prevalência da desobediência, da revolta, da divisão dentro da Igreja. Também nesse caso, a história é mestra. No primeiro milênio, a práxis da correção fraterna era bem atestada: há inúmeros exemplos de correção fraterna eclesial entre as Igrejas orientais e a Igreja latina romana (pense-se apenas na de Basílio de Cesareia com relação ao Papa Dâmaso I), e muitas tensões foram resolvidas graças ao diálogo, à escuta recíproca e à correção. No segundo milênio, ao contrário, raros são os casos de correção fraterna praticada pelo simples fiel com relação à autoridade, mesmo a suprema.

Perguntemo-nos com franqueza: se a escuta fosse mais praticada, se fosse aceita a correção recíproca, teríamos sofrido o grande cisma do Ocidente, aquele em que Lutero, de fato, levou trouxe a divisão à Igreja? O grande rabino Tarfon, depois do Holocausto de 70 d.C., defendeu que o povo de Deus havia sofrido a humilhante catástrofe porque não tinha sabido praticar humildemente a correção fraterna...

Mas há algumas exceções, que vale a pena elencar brevemente. Clássica, conhecidíssima e de perene atualidade é a correção praticada pela abade de Claraval, Bernardo, com relação ao Papa Eugênio III, no seu De consideratione (1150 ca.). Bernardo chega até a lembrar ao papa audaciosamente que ele é o sucessor de Pedro, e não de Constantino, e se dirige a ele dizendo: "Mesmo que estejas vestido de púrpura e caminhes coberto de ouro, não há nenhuma razão para que tu, que és o herdeiro do Pastor, tenhas tédio do ministério pastoral e sintas vergonha do Evangelho (cf. Rom 1, 16). Mas, se te dedicares com decidida vontade à evangelização, terás um lugar glorioso entre os apóstolos. Evangelizar significa pastorear. Portanto, faze a evangelização e serás pastor" (IV, 3.6).

Cerca de um século antes, deve ser lembrado Pedro Damião; depois de Bernardo, é a vez de Mechthild de Magdeburgo, depois Catarina de Siena, mulher de fogo, que, ao redor do fim do século XIV, durante o cativeiro de Avignon, criticava o Papa Gregório XI por não estar na sua cátedra de Roma. Mais tarde, viriam Vincenzo Quirini e Paolo Giustiniani; no século XIX, não podemos nos esquecer do Pe. Antonio Rosmini, e, no século passado, Pe. Primo Mazzolari.

No exercício da correção da Igreja por parte das autoridades da própria Igreja, devem ser lembrados ao menos Guillaume Durand, o bispo francês dos inícios do século XIV, que parece ter sido o primeiro a ter utilizado a expressão "reforma (da Igreja) na cabeça e nos membros"; o Papa Adriano VI, que, nos inícios do século XVI, reconheceu corajosamente a decadência da Igreja romana, identificando a sua causa principal nos comportamentos e nas escolhas da corte romana; e, sobretudo, o Papa João Paulo II, que, por ocasião do Jubileu do ano 2000, confessou os pecados dos cristãos na história pedindo perdão a Deus mediante uma solene liturgia pública.

Finalmente, gostaria de salientar que, a propósito da correção, dois conceitos são inseparáveis, embora em uma tensão recíproca nada fácil de resolver: correção fraterna, justamente, e obediência. Para exercer a correção fraterna precisamos ser guiados e iluminados por alguém, por alguma coisa, e, para o cristão, essa luz que dá orientação pode ser apenas o Evangelho que é Jesus Cristo e Jesus Cristo que é o Evangelho. E assim surge o valor da obediência. Sem obediência ao Evangelho e sem escuta a quem recebeu do Senhor a tarefa de ser testemunha do Evangelho, o apóstolo e portanto os seus sucessores, reinam a anarquia e a anomia – diz ainda Basílio – e não pode haver nem reciprocidade (allélon) nem comunhão (koinonia).

Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

Bento XVI lembrou recentemente na homilia pronunciada durante a Missa Crismal: "Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? (…) Pode-se intuir na desobediência algo da configuração a Cristo?" (5 de abril de 2012).

Não é verdade que a obediência nada mais é do uma virtude: ao contrário, é a virtude cristã por excelência, porque "Cristo Jesus se tornou obediente até à morte, e morte de cruz" (Fl 2, 5.8).


terça-feira, 12 de junho de 2012

A graça da dúvida de si

Foto: Takeshi Suga


O papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros.

A opinião é do teólogo norte-americano Charles E. Curran, professor da cátedra Elizabeth Scurlock de Ética Cristã daSouthern Methodist University. O artigo foi publicado no sítio do jornal National Catholic Reporter, 06-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A condenação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé ao premiado livro da Ir. Margaret Farley, das Irmãs da Misericórdia, Just Love: A Framework for Christian Sexual Ethics, não é nenhuma surpresa. A Congregação insiste que o livro "não pode ser usado como uma expressão válida da doutrina católica" porque discorda do magistério hierárquico sobre masturbação, atos homossexuais, uniões homossexuais, indissolubilidade do casamento, divórcio e segundo casamento.

Há uma longa lista de teólogos morais católicos cujas obras sobre ética sexual, em um veio semelhante, foram condenados ou censurados pela Congregação para a Doutrina da Fé ao longo dos últimos 40 anos. O Papa João Paulo II escreveu a sua encíclica Veritatis splendor, em 1993, por causa da discrepância entre o ensino oficial da Igreja sobre questões morais e o ensino de alguns teólogos morais, até mesmo nos seminários. Segundo o papa, a Igreja está "enfrentando o que certamente é uma crise genuína, que não se trata já de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática do patrimônio moral".

Todos têm que reconhecer que há uma crise real como essa na Igreja hoje. Mas a crise não é apenas uma crise na teologia moral: ela envolve uma crise na Igreja como um todo e na nossa própria compreensão da Igreja Católica. De acordo com o respeitado Pew Forum on Religion & Public Life, uma em cada três pessoas que foram educadas como católicas romanas nos Estados Unidos já não é mais católica. A segunda maior "denominação" nos EUA é de ex-católicos. Uma em cada 10 pessoas nos EUA é ex-católica. Todos nós temos experiência pessoal daqueles que deixaram a Igreja por causa do ensino sobre questões sexuais. Questões relacionadas, incluindo o papel das mulheres na Igreja, o celibato para o clero e o fracasso das lideranças eclesiais em lidar com o escândalo dos abusos infantis e o seu encobrimento, também foram reconhecidas como razões pelas quais muitas pessoas abandonaram a Igreja Católica.

A reação de papas e bispos até teólogos morais revisionistas é apenas uma parte de uma realidade crescente em nossa Igreja hoje. Há uma ladainha de outras ações similares tomadas pelo Vaticano – as restrições impostas à Leadership Conference of Women Religious (LCWR); o controle sobre as atividades da Caritas Internationalis, a agência da Igreja dedicada à ajuda aos pobres; a reação muito negativa das associações de padres na Áustria e na Irlanda; a remoção de Dom William Morris, bispo de Toowoomba, na Austrália, por ter meramente incentivado a discussão sobre o celibato e o papel das mulheres; a nomeação apenas de clérigos muito seguros como bispos etc. E a lista continua.

O que está acontecendo aqui é que o papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros. Mas a Igreja remanescente se vê como uma Igreja forte de fiéis verdadeiros e, portanto, não está preocupada com essas partidas.

Esse conceito de Igreja opõe-se à melhor compreensão da Igreja Católica. A palavra "católico", em sua própria definição, significa grande e universal. A Igreja abraça tanto santos e pecadores, ricos e pobres, homens e mulheres, e conservadores e liberais políticos. Sim, há limites para o que significa ser católico, mas a compreensão de "católico" com "c" minúsculo insiste na necessidade de ser o mais inclusivo possível. Muitos de nós ficaram profundamente impressionados com os gestos do Papa Bento XVI no início do seu papado, ao ir ao encontro em diálogo com Hans Küng e de Dom Bernard Fellay, chefe do grupo originalmente fundado pelo arcebispo Marcel Lefebvre. Infelizmente, hoje, o diálogo ainda está em andamento com Dom Fellay, mas não com Hans Küng.

O problema básico de tudo isso é a compreensão e o papel da autoridade na Igreja Católica. Essa questão é muito vasta e complicada para ser discutida aqui com detalhes, mas três pontos deveriam orientar qualquer consideração sobre a autoridade na Igreja.

Primeiro, a principal autoridade na Igreja é o Espírito Santo, que fala de diversas maneiras; e todos os outros na Igreja, incluindo os detentores de cargos, devem se esforçar para ouvir e discernir o chamado do Espírito.

Segundo, a Igreja precisa dar corpo à compreensão de Tomás de Aquino de que algo é mandado e ordenado porque é bom, e não o contrário. A autoridade não faz algo certo ou errado. A autoridade deve se conformar ao que é verdadeiro e bom.

Terceiro, o perigo para a autoridade na Igreja é alegar uma certeza muito grande para o seu ensino e propostas.Margaret Farley desenvolveu esse ponto em um ensaio muito significativo, Ethics, Ecclesiology, and the Grace of Self-Doubt [Ética, Eclesiologia, e a Graça da Dúvida de Si]. A pressão por certeza fecha muito facilmente a mente e às vezes também o coração. A graça da dúvida de si permite a humildade epistêmica, condição básica para o discernimento moral comunitário e individual.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

“Maturidade eclesial”, característica de uma Igreja em diálogo com a sociedade contemporânea

Imagem daqui

Em seu artigo intitulado "Maturidade eclesial", [o teólogo e sacerdote jesuíta Mario de França] Miranda faz referência à atual crise da Igreja, com as seguinte palavras: “nenhum de nós ignora que hoje a Igreja Católica atravessa uma crise, como, aliás, também outras instituições da sociedade. Embora sua história apresente outros momentos difíceis por ela vencidos, parece-nos que a atual crise se diferencia das anteriores, mesmo da crise do século XVI, pelos desafios inéditos que traz em seu bojo”.

Entretanto, para o teólogo, essa crise deve ser entendida a partir da própria missão da Igreja que deve se desenrolar no seio da sociedade. Em outras palavras, a Igreja não se constitui numa realidade fora da sociedade, mas numa perspectiva relacional. Segundo o autor, as “rápidas e sucessivas mudanças socioculturais, a sociedade pluralista e secularizada, a hegemonia do fator econômico na vida social e familiar, a emergência da subjetividade, a desilusão e a desconfiança diante da capacidade da razão humana, a proximidade das outras religiões, são alguns fatores que transformaram a nossa sociedade e nossas vidas e que inevitavelmente incidem na vida da própria Igreja, visto que sua existência só se justifica enquanto esteja voltada para a sociedade levando-lhe a mensagem e a realidade do Reino de Deus”.

Para que a missão evangelizadora e transformadora frutifique na sociedade, a Igreja deve conhecer bem os interlocutores, levando em conta “suas linguagens, suas deficiências, seus valores, suas preocupações, seus sonhos, seus sofrimentos e suas realizações”. Caso contrário, alerta Miranda, a Igreja “não conseguirá ser uma realidade pertinente e significativa para seus contemporâneos”.

Os desafios contemporâneos não impactam apenas na linguagem da proclamação da fé, mas envolvem também a realidade da Igreja enquanto instituição. Por isso a Igreja deve “mudar para poder ser Igreja, a saber, sinal salvífico que seja, de fato, captado como tal pela sociedade”. Trata-se de uma tarefa exigente, na medida em que as “transformações de mentalidades, de práticas, de hábitos que nos são familiares só se realizam lentamente, mesmo quando pressionadas pelo contexto vital em que nos encontramos”.

Diante do novo contexto de mundo e de Igreja, abrir-se para uma perspectiva de mudança demanda uma maturidade inédita. Isto é, a “atual realidade eclesial pede de nós uma maturidade inédita, uma atitude nova, um posicionamento original, condizentes com a hora presente, já que a história jamais se repete como bem sabemos”. Trata-se, em outras palavras, de uma maturidade que implica a Igreja como um todo. Daí o sentido da maturidade eclesial mencionada por Miranda.

[Leia o artigo "Maturidade Eclesial" na íntegra aqui]

- Luís Carlos Dalla Rosa, para o IHU

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Fé cristã e diversidade sexual: algumas reflexões

Foto: Hugo Nogueira


Transcrevemos abaixo a fala de uma integrante do Diversidade Católica e uma das moderadoras do blog, Cristiana Serra, no nosso evento de ontem. A quem esteve com a gente, nossa mais profunda gratidão pela presença e pelo tempo que partilhamos juntos. A quem não pôde estar, vamos postar, ao longo dos próximos dias, alguns conteúdos relacionados ao evento, para poder dividir com todo mundo um pouco do que aconteceu.

Ao contrário dos meus colegas de mesa, não sou teóloga nem religiosa. Sou uma católica leiga, e é desse ponto de vista que gostaria de compartilhar algumas reflexões com vocês aqui, hoje.

Hoje é dia da Santíssima Trindade. A crença cristã na Trindade fala muito sobre a forma como nós, na longa tradição judaico-cristã, chegamos a expressar nossa intuição mais profunda a respeito de Deus. Nós acreditamos em um Deus que é Pai, que ama o Filho, que é amado pelo Pai, e o Espírito Santo é o veículo desse amor. Por isso a gente fala que Deus é Amor; mas, quando dizemos que Deus é amor, que Ele não poderia fazer outra coisas senão amar, isso quer dizer que o mais importante na nossa relação com Ele não é o que a gente pensa sobre Ele.

Jesus não veio fazer tratados ou teorias sobre Deus. Ele encarnou esse amor. Ele se aproximava das pessoas com espírito de total entrega, total abertura, a serviço das pessoas. E isso é um pouco chocante pra gente, pensar num Deus que se ajoelha na nossa frente e nos lava os pés.

Porque a gente tem uma tentação constante que é o desejo de poder Para Mim. Eu ganho, eu fico com isso pra mim, e você fica sem, azar o seu. Tem que ter sempre um que ganha e outro que perde. O efeito disso pras sociedades é que a gente cria, coletivamente, estruturas de poder baseadas na exclusão: cria normas e, se não se enquadrar, fora. É um mecanismo de controle muito eficiente, baseado sempre na ameaça de exclusão.

A mensagem revolucionária de Cristo foi derrubar esses muros de dentro e fora. Quando ele fala que nós somos irmãos que têm de ser amar e servir uns aos outros, ele nos torna todos iguais, sem ninguém em cima e outro embaixo, sem gente dentro e gente fora. As estruturas humanas são verticais. A proposta de Jesus é horizontal: todo mundo junto. Quando derruba muros, isso se torna muito perigoso, porque poe abaixo as estruturas de poder humanas. Isso é insuportável, e a gente escolhe: isso a gente não quer. E manda Cristo pra cruz. Porque ele ousou nos colocar todos como iguais, como irmãos. E a palavra-chave aqui é fraternidade. Guardem essa palavra, que é importante, e vamos voltar a ela já, já.

Daí a gente passa 2 mil anos divididos entre o quase entendimento que a gente tem dessa lógica nova do serviço, de lavar os pés do outro, de um Deus que diz SIM pra gente a ponto de respeitar a nossa escolha quando a gente diz pra ele Não, e coloca ele pra fora; ou tentar enquadrar essa história na lógica do nosso poder humano: então, Deus mandou seu Filho inocente pra morrer por nós. Então, temos uma dívida impagável com ele. E, se ele se sacrificou a esse ponto por nós, a gente tem um Deus que tem o direito de cobrar também da gente um sacrifício. E aí a gente deixa de ter um Deus que se entrega inteiro para nós tal como somos, de graça, sem a gente ter feito nada para merecer isso, e que quer acima de tudo ver a gente feliz AGORA, pra ter um Deus que nos fiscaliza e promete a nossa felicidade pra depois, SE a gente se comportar direitinho.

Então a gente tem, de um lado, a vivência de um Deus que ama a gente de graça, inteiro - e isso é inebriante, é arrebatador, é uma alegria imensa se saber amado assim, do jeito que a gente é. E do outro a gente tem um Deus que impõe uma lista de condições, e uma receita: se você fizer isso você está no bom caminho, tá salvo, tá dentro. Se não fizer, está fora.

A história da Igreja – e quando falo Igreja falo todo o povo de Deus, todos os batizados, todo o corpo de Cristo, do qual todos nós somos membros – é a história dessa divisão. Você vê nomes como Francisco de Assis, como Inácio de Loyola, como Hélder Camara, como Zilda Arns, como Dorothy Stang, como James Alison, como Marcio Retamero, que estão na rua, que estão diante dos seus irmãos e olham para eles não com um monte de afirmações e preconcepções de certo e errado, tentando enquadrar as pessoas nos seus próprios conceitos de bom e mau, mas sim como pessoas que antes de mais nada olham para o outro e perguntam: em que eu posso te ajudar? Como eu posso te servir? E você tem o contrário, o olhar de quem julga e condena de acordo com padrões preconcebidos e quando olha o outro, em vez de ver um irmão amado, mede a pessoa com os seus preconceitos de bom e mau, de certo e errado.

Agora vejam só: quando eu falo isso, parece que eu estou fazendo o que? Dividindo as pessoas em dois grupos: a galera que entendeu, e os que não entenderam. Os que estão no caminho certo, e os que estão no caminho errado. Naturalmente, eu estou do lado que entendeu, o lado certo, claro. Eu, que estou pensando nisso tudo, também faço isso, também caio na mesma esparrela. Por quê? Porque a lógica do nosso pensamento é a comparação, é a criação de dicotomias bom x mau, a divisão em dois lados. Dentro e fora. Incluídos e excluídos. É um aprendizado individual superar essa lógica e simplesmente se abrir para o encontro com o outro. Eu sou eu, você é você e vamos nos conhecer, sem julgamentos, sem categorizações, como pessoas diferentes uma da outra e únicas que somos.

E essas duas lógicas vão sempre conviver dentro da gente, o que cria uma tensão. E a gente vive nessa tensão, entre a abertura para o encontro e para o novo e o fechamento nas preconcepções que a gente usa para organizar o nosso mundo.

Coletivamente também é assim: nas sociedades e nas instituições. Na Igreja é assim. E é preciso entender isso porque hoje em dia existe uma tendência a dizer que gays e religiosos são incompatíveis. Assim como muitos fundamentalistas julgam e condenam os gays, muitos gays julgam e condenam os religiosos.

Ou não, a gente pode dizer simplesmente que a Igreja condena os gays e ponto, mas isso cria alguns problemas. Primeiro: a Igreja não é só a hierarquia. Somos todos nós. Então, qual Igreja condena os gays? O padre que destitui um rapaz das suas atribuições pastorais na paróquia porque ele contou que é gay? Ou o padre que sabe que um cara é gay e mesmo assim o indica para ser Ministro da Eucaristia e lidera da Pastoral da Liturgia da paróquia? Que Igreja condena os gays? O catecismo? Qual parte? A parte que diz que os gays devem ser respeitados como pessoas que são e acolhidos sem discriminação? A parte que diz que a gente tem que ser casto? Mas tem uma parte que diz que "ser casto" é viver a sua vida sexual e afetiva de maneira ordenada, de abertura e encontro com o outro. Ou a parte que, dentro daquela lógica do sacrifício, fala para a gente pegar a nossa cruz, e isso quer dizer entender AQUI, especificamente no caso dos gays, "castidade" como "celibato"? A parte que diz “ame o pecador, mas odeie o pecado” (que é uma coisa meio difícil de entender, porque como é que você separa a pessoa daquilo que ela faz? Cristo é amor. Cristo é ato, é aquilo que ele faz. Deus é Verbo, é ação. Como é que a gente separa quem a gente é, abstratamente, daquilo que a gente faz? Mas isso é outra história)? Qual Igreja condena os gays? O fundamentalista que berra "eu te amo, mas, demônio, sai desse corpo que não te pertence"? Ou a comunidade da minha paróquia, que me recebe junto com a minha mulher de braços abertos, e não dá a mínima se a gente é um casal?

Que Igreja condena os gays? O gay que sabe quem é e se aceita como é, porque se sabe amado e aceito por Deus, ou o que vive um sofrimento dilacerante, porque se sente julgado e excluído pelo próprio Pai?

O que eu quero dizer é que existe um jogo muito complexo de forças em ação nesse corpo coletivo que é a Igreja. Existem pessoas, grupos, religiosos, comunidades, iniciativas, de inclusão de gays. E existem pessoas, grupos, religiosos, leigos, que excluem os gays. E isso está muito além do que a gente escolhe ouvir dos pronunciamentos e dos documentos oficiais. Porque a gente escolhe o que vai escutar dos pronunciamentos e documentos oficiais, também, viu, gente? Tem um enorme recorte aí, a serviço das nossas próprias preconcepções do que é a Igreja e de como ela funciona. Mas a verdade é que, mesmo no que é oficial, com chancela do Vaticano e tal, existem as falas de exclusão e as de inclusão.

Este ano está fazendo 50 anos da convocação do Concílio Vaticano II, que aconteceu entre 1962 e 1965. Esse Concílio representou uma tentativa de transformação da Igreja. Você tinha uma Igreja cheia de vícios de 1950 anos de história, ao longo da qual ela se misturou muito com os poderes mundanos. Houve um longo momento da história em que o Estado, no Ocidente, desapareceu, ficou todo fragmentado, e a Igreja virou a fonte de organização da sociedade. Ela passou a ser o Estado. Mas aí, o tempo passou, as mudanças vieram, o Estado surgiu de novo, quer dizer, voltou a haver uma estrutura pública e, curiosamente, passou a se entender que essa estrutura pública tinha que cuidar e zelar pelo bem-estar dos cidadãos, prestar serviços. Onde antes você tinha os poderosos explorando o povo, e se você era poderoso, muito bem; se você era povo, dane-se – você passou a ter aos poucos, cada vez mais, a noção de cidadania, de direitos para todos. Antes quem tinha direitos era um grupinho, uma elite; aos poucos cada vez mais gente passou a ter direitos: primeiro, os de determinadas linhagens (os nobres); depois, os que tinham dinheiro; depois, os direitos foram estendidos a todos os homens brancos acima de determinada idade; depois, às mulheres, aos negros, e também as crianças e jovens e velhos começaram também a ter seus direitos assegurados e protegidos. Mas isso é uma novidade muito recente na história, coisa de 2-3 séculos para cá. A gente hoje vive num país que diz que todo mundo é igual perante a lei, todo mundo é cidadão, e esquece que nem sempre foi assim.

Então, o Concílio Vaticano II foi uma tentativa da Igreja de entender e se adaptar a esse mundo. De se perguntar: tá, então neste novo mundo, a gente entra onde? Pra que a gente serve? E daí saíram duas conclusões muito importantes: primeiro, a noção de que, para além da imposição de uma lista de certos e errados, o que cada pessoa tem de mais importante, o que torna todo mundo igual, igualmente digno, o que cria uma dignidade humana que é inerente a todas as pessoas e faz com que todas as pessoas sejam portadoras dos mesmos direitos, é a liberdade de consciência.

“A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes. Isso significa que qualquer norma deve ser colocada diante da consciência de cada um. E cada um de nós é responsável por estar atento à própria consciência, e não ir contra ela.

Os documentos do Concílio dizem que a liberdade de consciência, a liberdade de crença, é a mais importante de todas porque é a base de todas as outras e de todos os direitos. E daí veio a segunda conclusão muito importante do Concílio: se existe liberdade de consciência, a gente não tem uma única maneira de perceber a verdade, então não existe só um certo ou só um errado. Porque a verdade, ou o sagrado, não tem como ser inteiramente apreendida por um ser humano ou um grupo. Não existe mais o dono da verdade, e ou você está com ele, ou está contra ele. Ou está do lado certo ou do lado errado, ou dentro, ou fora. Existe um monte de gente e grupos, cada um dentro da sua percepção inevitavelmente limitada da realidade contando pros outros o que está podendo ver dali de onde está.

Como os cegos apalpando o elefante, vocês conhecem essa história? Um pegava no rabo e dizia “ah, o elefante é um animal curto e roliço como um graveto fino”. O outro pegava na tromba e dizia: “Você está louco, o elefante é um animal cilíndrico e flexível, e grosso como um grande galho de árvore”. E um terceiro, apalpando o pé do elefante, exclamava “Vocês estão errados, o elefante é rígido e ereto como um tronco de árvore”.

Então, o Concílio vem falar no pluralismo da sociedade em que a gente vive, e em como é imprescindível a Igreja respeitar as diferenças e se colocar aberta para o diálogo com a diversidade. Vale a pena ler documentos como a Gaudium et Spes ou a Dignitatis Humanae. São lindas.

Aliás, está justamente aí a fundamentação do necessário laicismo do Estado, pois só um Estado Laico pode assegurar essas liberdades individuais mais fundamentais e o direito à diferença. E a própria Igreja, em documentos como esses dois que acabo de citar, reconhece a necessidade imperiosa do Estado Laico.

E aí a gente lê esses documentos de 50 anos atrás e pergunta: onde está essa Igreja? Por que salta muito aos olhos a dificuldade da instituição em colocar essa postura de diálogo aberto em prática, essa maneira de perceber o mundo e as pessoas de uma maneira verdadeiramente fraterna. E olha aí a palavra fraternidade de novo: porque, se você tem um mundo de pessoas igualmente livres nas suas consciências, você tem um mundo de irmãos, que vivem as suas histórias e procuram se ajudar na busca honesta da verdade, cada um com a contribuição única do seu próprio olhar.

E onde está essa Igreja que dialoga? Ela está mudando. Porque é muita gente, é uma estrutura muito pesada, e todas as mudanças ao longo de 2 mil anos de história vieram assim: da mudança das bases, da mentalidade dessa multidão, para o alto. O alto, onde está o poder, resiste, claro, então muda devagar.  Por isso é responsabilidade de cada um de nós estar atento à própria consciência, porque é nesse conjunto da base, de todas as nossas consciências juntas, que sopra o Espírito da Verdade. Porque só juntos a gente enxerga o elefante, e quanto mais forem as pessoas de olhos abertos, melhor visão a gente tem desse elefante. E isso é diálogo. O diálogo está acontecendo aqui, agora. O diálogo acontece quando as pessoas se encontram. Se a gente divide o mundo em estereótipos, seja o estereótipo do gay, seja o estereótipo do religioso, do fundamentalista, não tem pessoas, não tem encontro, não tem diálogo. O encontro e o diálogo acontecem entre pessoas.

Coletivamente, nós, gays, temos uma grande contribuição para dar à Igreja e ao mundo: quando, indo contra todas as normas e preconceitos, a gente está tão em contato com a nossa consciência e com quem a gente é que sabe que não pode se esconder da gente mesmo e tem que ser quem a gente é, a gente está em contato com a nossa verdade. E a nossa verdade mais profunda é um pedacinho da verdade maior. É o nosso pedacinho do elefante.

O Evangelho diz “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E isso, essa honestidade profunda com a verdade da nossa consciência, é uma dádiva. Essa é a nossa contribuição, é dizer “olha, mesmo contra todas as dificuldades, você tem que ser verdadeiro com você mesmo, porque isso é libertador. Eu estou conseguindo, viu? Experimenta. Isso derruba muros. Incomoda, porque a emancipação exige responsabilidade e maturidade, e é difícil, mas também é tão profundamente libertador”. Essa é a dádiva que os gays oferecem para o mundo.

Domingo passado foi Pentecostes, a festa do Espírito Santo. Que o Espírito da Verdade e do Amor nos inspire para o encontro e a abertura com os irmãos. E que nós possamos, gay e não-gays, religiosos e não religiosos, cada vez mais assumir as nossas responsabilidades perante nós mesmos e nossas consciências, e trabalhar por um mundo melhor, em que a gente possa ser mais irmãos.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 20 de maio de 2012

"'A videira é Cristo"


Tem-se medo "do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico", da "liberdade de expressão que isso implica". Consequentemente, também existe o medo de permitir que "as vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas delas poderiam legitimamente levar à mudança". Uma mudança que gera o temor de perder "poder e controle".

A entrevista é de Ludovica Eugenio, publicada na revista
Adista, nº. 19, 14-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa chave de leitura, as irmãs norte-americanas, postas na mira pelo Vaticano com o comissariamento do seu órgão de coordenação mais importante, a
Leadership Conference of Women Religious (LCWR), tornam-se perigosas "porque, talvez, sejam o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja". (Saiba mais sobre o caso aqui)

A Ir. Jeannine Gramick é muito decidida: desde 2001, membro da congregação das Irmãs de Loretto, desde sempre dedicada ao ministério voltado às minorias sexuais e, nesse âmbito, cofundadora, juntamente com o Pe. Robert Nugent, da associação New Ways Ministry, empenhada com a busca da justiça social para gays e lésbicas.

A Ir. Gramick aceitou compartilhar com Adista as suas opiniões e o seu ponto de vista sobre a medida tomada recentemente pelo Vaticano e sobre o futuro da LCWR.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


Com o Vaticano II, a Igreja, povo de Deus, foi chamada a estar mais perto do mundo. As religiosas norte-americanas encarnaram esse apelo em uma ampla variedade de ministérios, vivendo profundamente no mundo e ouvindo as pessoas que, de diversos modos, se encontram em dificuldades. Pode nos dizer que tipos de ministérios vocês têm desenvolvido?
Antes do início dos anos 1960, as religiosas desenvolviam o seu papel principalmente como professoras nas escolas, ou como enfermeiras ou administradoras nos hospitais. Depois do Concílio Vaticano II, se comprometeram com inúmeras novas formas de ministério. Por exemplo, em atividades relacionadas à justiça e à paz, para mudar as políticas e as estruturas da sociedade e da Igreja, em benefício dos pobres e dos marginalizados. Esse papel foi levado adiante em um ministério de tipo político, que visava à educação e à pressão política, trabalhando com a mídia, com a rádio, com a TV e através de um ministério que se ocupa da ecologia e do cuidado com a terra. Muitas religiosas começaram a defender as pessoas gays e lésbicas e uma participação mais plena das mulheres em todas as formas de ministério eclesial, incluindo a ordenação. Além do tradicional ministério de serviço social, as irmãs foram ao encontro dos divorciados em segunda união, das prostitutas, dos presos, dos sem-teto e das mulheres maltratadas.

O Vaticano aceitou positivamente essa proximidade com o mundo e com as pessoas?
O Vaticano não objetou ao fato de que as irmãs se fizessem mais próximas do mundo e das pessoas, mas contestou as implicações dessa proximidade nos ministérios não tradicionais que se ocupam de política, de sexualidade, ou de ambos. Por exemplo, em 1983, o Vaticano obrigou a Ir. Agnes Mary Mansour a renunciar à congregação das Irmãs da Misericórdia por causa do seu cargo como diretora do Departamento de Serviço Social do Estado de Michigan, que financiava o aborto a mulheres pobres. No meu caso, em 1999, o Vaticano me ordenou a interromper o meu ministério pastoral voltado aos católicos gays e lésbicas, porque eu optara por afirmar que eu não compartilhava a posição tradicional sobre a moralidade da homossexualidade.

Houve inúmeros casos menos conhecidos em que bispos diocesanos puseram em prática as posições vaticanas. Por exemplo, as religiosas receberam a ordem de renunciar à direção de órgãos que tivessem relação com o HIV-Aids, porque promoviam o uso dos preservativos. Algumas religiosas foram demitidas dos seus cargos paroquiais ou diocesanos porque apoiavam a ordenação sacerdotal feminina.

A atual avaliação doutrinal da LCWR pela Congregação para a Doutrina da Fé constitui mais um exemplo disso. As duas objeções concretas citadas pela Congregação foram a posição da LCWR sobre a homossexualidade e sobre a ordenação feminina.

O seu ministério levou a sua congregação, a das Irmãs Escolares de Notre Dame, a excluí-la porque a senhora tinha optado por não obedecer ao silêncio imposto e, em 2001, entrou na Congregação das Irmãs de Loretto que, ao contrário, a apoiaram em seu ministério. Desde então, não teve mais problemas com o Vaticano?
Entre 2001 e 2009, o Vaticano enviou nove cartas à presidente das Irmãs de Loretto referentes ao meu ministério. Em cada uma delas, substancialmente, se afirmava que eu tinha que interromper o meu ministério em favor das pessoas LGBTQ ou seria afastada da vida religiosa. As minhas coirmãs optaram por não me afastar e, neste momento, nem o Vaticano o fez.

Desde 1956, a LCWR representa a maioria das congregações religiosas femininas dos EUA. Quais foram as suas maiores conquistas, atividades e interesses?
A LCWR oferece uma vasta gama de atividades e de programas que são de apoio às superioras e visam a reforçar as relações entre os componentes da LCWR com os outros grupos importantes. Entre essas atividades, há uma oficina anual, que inclui um retiro, para as novas líderes e um manual que ajuda a desenvolver as competências importantes para a Leadership. Ela também produz regularmente materiais escritos, como uma publicação trimestral sobre justiça social, um livrinho de oração e reflexão, um jornal chamado Occasional Papers e e informações sobre justiça e paz.

Acredito que a conquista mais importante da LCWR foi a de ter conscientizado todas as religiosas que a ela aderem, mas também a um público mais amplo, de todos os tipo de temas que envolvem a justiça. Ela oferece reflexões teológicas, análises sociais e sugestões para a ação sobre muitas questões, como a justiça econômica, a defensa dos pobres, o diálogo com o Islã e inter-religioso, a pena de morte, a reforma das políticas de imigração, as mudanças climáticas e as questões ambientais, a reforma da saúde, as armas nucleares, o testemunho contra a tortura, o cancelamento da dívida para os países empobrecidos, o tráfico de órgãos e a militarização do espaço, e muitos outros assuntos ligados à justiça. A lista é praticamente inesgotável.

Nos últimos anos, as religiosas estiveram no alvo do Vaticano. Além de casos individuais, as congregações religiosas femininas sofreram uma visitação apostólica. O mesmo aconteceu com a LCWR. Há uma relação entre as duas visitas apostólicas? Do que Roma tem medo?
Eu não fui demitida porque a Congregação para a Doutrina da Fé não é a minha chefe e nunca me apoiou financeiramente nesse ministério. A Congregação, em 1999, afirmou que eu não deveria me envolver nesse ministério, mas, depois de um discernimento aprofundado, eu concluí que Deus continuava me chamando a ele, e então decidi não cooperar com a opressão do silêncio. Eu continuo me ocupando das pessoas gays e lésbicas.

Quanto ao resto, sim, acredito que haja uma ligação entre as visitas às congregações religiosas individuais e a avaliação doutrinal (ou inquisição doutrinal) da LCWR, ambas iniciadas no início de 2009. Muitas pessoas consideram que ambos os projetos de investigação foram iniciados para eliminar a discordância e varrer os últimos vestígios da renovação trazida pelo Vaticano II. No documento que apresenta o processo da visitação, uma das perguntas feitas às líderes das comunidades era: "Qual é o processo posto em prática para responder às coirmãs que expressam pública ou privadamente a sua discordância com relação ao ensino de autoridade da Igreja?".

A meu ver, a Cúria vaticana e o Papa Bento XVI têm medo do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico. Eles têm medo da liberdade de expressão que isso implica. Eles tem medo de permitir que vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas dessas vozes poderiam legitimamente levar à mudança. As personalidades autoritárias têm medo da mudança e de perder poder e controle.

Ken Briggs, autor de Double Crossed: Uncovering the Catholic Church’s Betrayal of American Nuns [Traídas: Revelando a traição das irmãs norte-americanas pela Igreja Católica], considera que as irmãs conservaram, mais do que qualquer outro grupo da Igreja, a ética e o espírito conciliar, apesar da vigorosa oposição dos últimos dois papas. As irmãs norte-americanas são perigosas porque são, talvez, o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja.

Como a senhora vê o futuro da LCWR à luz da nomeação de um comissário que irá rever seus estatutos e programas?
Penso que a LCWR tem duas opções: submeter-se ao controle do Vaticano ou dissolver a LCWR e reconstituí-la como órgão sem vínculos com o Vaticano. Acredito que a primeira escolha seria um repúdio dos mais de 40 anos de renovação nos quais as comunidades religiosas se comprometeram. Precisamos lembrar que foi pedido que as religiosas reavaliassem e atualizassem as suas comunidades para atender às exigências dos tempos. As religiosas levaram a sério esse pedido, e agora os resultados não agradam ao Vaticano. O Vaticano quer que as irmãs voltem à vida religiosa do passado.

A história tem demonstrado que a política de apaziguamento de Neville Chamberlain [primeiro-ministro do Reino Unido de 1937 a 1940] não satisfez os desejos de um ditador como Hitler. A Igreja Católica institucional, da forma como é atualmente, é um Estado totalitário religioso que, desde a época do papado de Pio IX, viveu uma centralização sempre crescente. O Concílio Vaticano II tentou trazer a Igreja de volta aos trilhos de uma comunidade de fiéis no caminho de Cristo, mas as forças curiais tentaram desviar a renovação nos últimos 30 anos ou mais.

A segunda opção, acredito eu, respeitaria a honra e a integridade das congregações religiosas que tentaram, com a sua fidelidade, manter vivos os valores de uma Igreja como comunidade de discípulos fiéis de Cristo. A reconstituição da LCWR como órgão que respeita o Vaticano, mas não abandona nada da sua autonomia, representaria uma aplicação do valor conciliar da subsidiariedade. Essa reconstituição seria uma vantagem para as religiosas, mas também para a Igreja como um todo. Isso afirmaria a necessidade de abandonar uma atitude de obediência cega em favor de uma capacidade de decisão moral moral.

Desde o Papa Pio IX, a Igreja deu provas de uma atmosfera de infalibilidade crescente, por força da qual se partia do pressuposto de que toda decisão, por parte de qualquer líder, aceita muitas vezes como infalível, devia ser obedecida sem discussão. O Vaticano II tentou mudar essa atitude, enfatizando a liberdade de consciência. Uma reconstituição mostraria que a Igreja consiste em muitos ramos enxertados em Cristo, a videira. O Vaticano é um dos ramos. As dioceses, congregações religiosas apostólicas, ordens monásticas e contemplativas, e movimentos leigos individuais são outros ramos. Devemos sempre nos lembrar de que Cristo, e não o Vaticano, é a videira.

Não sei por qual escolha a LCWR vai optar. Ela já cooperou com a Congregação para a Doutrina da Fé na sua investigação doutrinal, portanto não sei se a organização vai continuar colaborando na sua opressão, ao invés de resistir à tomada de posse por parte do Vaticano. Eu continuo alimentando a esperança de que as novas lideranças da LCWR sejam mais realista ao constatar que tudo isso tem a ver com o totalitarismo religioso e que rejeitarão a medida como invasão indevida e como afronta à natureza profética da vida religiosa.

Em que medida esse passo do Vaticano vai tocar na vida, no ministério e no papel das religiosas na Igreja dos EUA no futuro?
A intervenção vaticana terá efeitos enormes sobre a vida, o ministério e o papel das religiosas dos EUA e da Igreja mundial. Os efeitos irão depender do curso que a LCWR irá optar por tomar. Eu gostaria de ser otimista e acreditar que a decisão da LCWR irá fortalecer não só as religiosas, mas também a Igreja inteira. Rejeitar gentilmente o fato de serem dominadas por um sistema patriarcal que não compreende a natureza comunitária da Igreja será demonstrar que um cristão maduro não obedecem cegamente aos homens, mas segue o chamado de Deus na oração.

Essa escolha significará que não há necessidade de pessoas controladoras da ortodoxia ou de inquisições. Essa escolha significará que Cristo, e não o Vaticano, é a videira, e nós somos os ramos. Essa escolha significará que o Espírito de Deus guia a Igreja e que, com esse guia, não temos medo. Com esse guia, temos fé e confiança.
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