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segunda-feira, 26 de março de 2012

Cale-se! O silêncio machuca, o diálogo é música

Foto: Paul Spielvogel / CATERS NEWS, aqui

Discordo visceralmente de muita coisa que leio e escuto, mas nem por isso acho que elas não tenham o direito de vir a público. Pelo contrário, repetindo Voltaire, discordo, mas defendo o direito de que seja dito. Afinal de contas, a saída para contrapor uma voz não é forçar o silêncio, mas sim outra voz. O silêncio dói, machuca. O diálogo é música.

Por isso, sinto um amargo na boca quando vejo pessoas que, sob o risco de verem seus argumentos naufragarem em sua própria arrogância, tentam calar o outro. Não percebem elas que muitas vozes dissonantes não vêm da cabeça ou do coração, mas sim do fígado. Por isso, regeneram-se. E, se cortadas ao meio, geram duas. Multiplicam-se. Uma idéia forte é algo poderoso. Difícil de ser contido com a força física. Tomo a liberdade de retomar um debate que travei aqui, tempos atrás, e que cai como uma luva com fatos que aconteceram recentemente.

Acredito que meu ponto de vista está correto, mas isso não faz dele uma Verdade Absoluta – até porque verdades absolutas – do meu ponto de vista – não existem. Não mais. Morreram. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por outro caminho. Ou que a paz de espírito ocorra obrigatoriamente através de grandes concessões pessoais ou obediência a regras ditadas por profetas. Desse enfrentamento de idéias e de propostas sairá um vetor resultante que apontará para uma direção, dependendo da correlação de forças envolvidas, dos atores dedicados a isso, da aceitação dessas idéias pelo restante de uma sociedade.

Por exemplo, não acredito que o livre mercado seja a panacéia para tudo, mas há quem diga que sim. Ótimo, vamos discutir os argumentos que embasam as diferentes posições e não chamar o outro de canalha ou burro, esquerdista idiota ou direita fascista, e travar por aí a discussão. Ou pior, defender o fechamento de um veículo de comunicação, a demissão de uma profissional, o fechamento de uma igreja.

Muitos simplesmente repetem mantras que lêem na internet, ouvem em bares ou vêem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando esse outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais bisonhos. Afinal de contas, não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a companheira como uma serva em casa.

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

Sugiro que busquem a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e se perguntem se acham que estão certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza não é de certezas, mas de dúvidas e falhas que só conseguem ser melhor percebidas no tempo histórico.

- Leonardo Sakamoto
Publicado originalmente no blog do autor

domingo, 4 de março de 2012

Moqueca à Crivella

Charge: Benett

Histórias de pescador são geralmente fantasiosas, mas ao afirmar que sequer sabe enganchar a minhoca no anzol o novo ministro da Pesca, senador Marcelo Crivela (PRB-RJ), não apenas fez uma rara opção pela verdade como escancarou a enganação embutida na criação e manutenção deste Monumento ao Desperdício chamado Secretaria Especial da Pesca.

O herdeiro da Igreja Universal do Reino de Deus, líder da bancada evangélica do Legislativo, completou seu breve convívio com a transparência ao negar que a nova carreira piscatória tenha algo a ver com o esforço do governo federal em reforçar a candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Com isso só confirmou o real objetivo da manobra. No que foi ajudado pelo devoto ministro Gilberto de Carvalho ao declarar que a nomeação do Pescador-Mor “vai facilitar a relação com as igrejas.”

Esta pueril e herética moqueca à Crivella tem o mérito de trazer para a agenda nacional a escamoteada questão do secularismo. O Brasil está retornando rapidamente ao estágio teocrático que vigeu sem interrupções do descobrimento ate a votação da primeira Carta Magna republicana em 1891.

Embora seja pacífico que o nosso atraso em matéria de educação, ciência, cultura e imprensa decorra da prolongada sujeição do Estado à Igreja nada se fez para reverter tão grave deficiência institucional. O Estado de Direito no Brasil é capenga, todos sabem disso. Ninguém tenta reabilitá-lo, tanto na esfera simbólica como administrativa.

Antes do velocíssimo crescimento das seitas evangélicas no Brasil quem ousava contrapor-se à hegemonia da Igreja eram as diferentes confissões luteranas. O general-ditador Ernesto Geisel, único chefe de Estado ostensivamente anticatólico, em 1976, numa das freadas da sua Distensão, aproveitou-se do arsenal autoritário para emplacar de forma solerte o divórcio, o que abalou a Igreja, enfraqueceu sua formidável cruzada em defesa dos direitos humanos e deu à ditadura um amplo apoio popular.

De lá para cá, ditadores e presidentes enfrentaram o poderoso vetor teocrático com a mesma esperteza: contentando de forma equitativa a católicos e protestantes, facilitando seus imensos privilégios, concedendo-lhes o ilegítimo acesso aos meios de comunicação eletrônicos e sepultando nas gavetas qualquer debate que possa nos aproximar do Estado de Direito democrático, secular e isonômico.

Mesmo o Poder Judiciário – teoricamente comprometido com suas prerrogativas e independência – convive no plenário da Suprema Corte com a discrepante exibição da cruz acima das armas da República. Na Espanha, muito mais católica, isto seria um acinte, aqui não chama a atenção dos eleitores, políticos, nem confronta os meritíssimos.

Esta incapacidade de defender o secularismo e a ideia do estado laico manifesta-se com igual intensidade nas hostes do governo e da oposição. PT e PSDB, geneticamente de esquerda, deram um jeito de driblar os respectivos DNAs e não resistem à tentação de comungar e persignar-se em atos oficiais mesmo sabidamente ateus, agnósticos ou céticos. Os confessores de hoje não se importam com ave-marias erradas e padre-nossos incompletos, diferentemente do que acontecia nos tempos da Inquisição.

O vale-tudo infiltrou-se no terreno da fé. Crivella, suas minhocas e peixes é o símbolo de um sincretismo que parece coisa do Diabo.

- Alberto Dines
Publicado originalmente no Jornal do Commercio de hoje. Reproduzido via Conteúdo Livre

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vídeo com lamentável retrospectiva de 2011

Cenas de homofobia noticiadas por emissoras, falas da presidenta Dilma, da coordenadora da ONU e muito mais em um "Manifesto aos LGBTs".





:(

Não há muito o que falar, né...

Rodolfo Viana

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Marta defende criminalização da homofobia

Pronunciamento da senadora Marta Suplicy (PT-SP) no encerramento da sessão da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) que discutiu o projeto de lei da Câmara 122, de 2006, no dia 8/12/2011. O PLC 122, que criminaliza a homofobia, é relatado na CDH pela senadora.



A defesa de Marta é bastante elucidativa.
Destaque no vídeo para o esclarecimento que ela faz com relação a CNBB.


Rodolfo Viana

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Campanha de enfrentamento à homofobia

Campanha de esclarecimento da população sobre homofobia e incentivo
à denúncia através do Disque Direitos Humanos - Disque 100.

A mobilização é uma iniciativa da Secretaria de Direitos Humanos
da Presidência da República, do PNUD, da Unesco e da TV Globo.

A peça é protagonizada pelos atores Marcos Damigo e Rodrigo Andrade, que interpretaram um casal gay na novela Insensato Coração.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Preconceito e Comentário de Arnaldo Jabor

No passado as campanhas de HIV/Aids tinham sempre um tom pesado, acusatório onde parecia que pela estética do medo e do cruel seria possível conter uma ideia de comportamento e educar o público. Medieval o argumento. Um dos filmes foi uma campanha do governo Francês que me assustou pensar como se sentirá uma pessoa que seja soropositiva diante dele. O vídeo abaixo, só contribui pra fazer enxerto de asneira no imaginário coletivo, veja:




No entanto, na semana passada duas coisas me chamaram muita atenção. O que me parece ser uma mudança na postura social moral. O tom do vídeo abaixo com certeza fica visível esta mudança e um tom mais responsável. Assista agora o filme da campanha deste ano do Dia Mundial de Combate à Aids:





Pra encerrar, mas principalmente enfatizar esta mudança de postura social, deixo o leitor com o comentário do Arnaldo Jabor na CBN dando uma bronca em seus ouvintes retrógrados:




#FicaAdica
#FicaAanálise
#FicaAreflexão


Rodolfo Viana

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A ostensiva onipresença da homofobia

Foto daqui

A violência homofóbica está em todos os lugares. Em nossas próprias casas, em nossas famílias, na escola, no trabalho, na rua, pode estar em um ônibus, no cinema, no teatro, na praia ou em uma caminhada pelo calçadão. A violência homofóbica tem muitas formas e graus de expressão e não tem alvo certo. Como toda violência, torna-se descontrolada e, incontrolável, atinge qualquer um, em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. A homofobia é um monstro cruel e de muitas faces - uma criatura implacável, de muitos braços, muitas pernas e muitas cabeças – vazias ou cheias de questões mal resolvidas, de ordem sexual, psicológica e social, perpassa todas as classes, todas as instâncias, tem muitas habilidades e acha até que pode ficar invisível, passar despercebida. Não, não fica. Ela passa despercebida apenas aos mais desavisados. Para nós, seus alvos preferidos, mas não exclusivos, ela é bem chamativa, feia e assustadora.

E, sim, temos medo. Muito medo. Não um medo infundado, paranóico, inventado ou apenas suposto. Nosso medo é muito concreto e nos chega através de palavras violentas, cerceamentos, sangue, dentes arrancados, carne rasgada, órgãos esmagados e ossos quebrados, quando não com a cara da morte. Mas depois tudo se transforma em estatística. E eu quero rostos, quero vozes, quero histórias. Eu quero ver a gente que só quer amar. Quero ver as pessoas que por ousarem ser quem são, foram agredidas, apanharam e sobreviveram. Quero ver como carregam suas dores. Quero ver como andam pelo mundo, como caminham entre as gentes. Como olham para o mundo, o que pensam. Quero que nos digam por quais transformações passaram. Quero que venham a público falarem de seu enfrentamento cotidiano do medo, do rancor, do constrangimento, da vergonha, da raiva, da sensação de impotência. Todas essas coisas que ninguém quer ver, das quais ninguém quer saber.

A violência que sofremos nos chega sob tantas formas e por tanto tempo. Quando cada caso de agressão, de desrespeito, de morte, de ofensa de negação de direitos termina em apenas um apanhado de números. Quando anúncios espalhados em outdoors dizem que não deveríamos existir. Quando todos nos dizem quem podemos ou não amar. Quando por toda nossa infância, adolescência e juventude nos cobram a respeito de quem namoramos. Quando não podemos ser quem somos no trabalho. Quando temos de esconder quem somos na escola. Quando somos perseguidos na vizinhança, na família, no colégio, na faculdade. Quando procuram e propõem nossa cura. Quando não podemos beijar livremente quem amamos nas ruas. Quando andar de mãos dadas se torna uma temeridade. Quando mesmo um falar ao telefone precisa ser cercado de cuidados e disfarces. Quando nos apontam por nossas roupas, quando somos as personagens principais de piadas caricaturais, ofensivas, que ridicularizam e estigmatizam.

Em todos os modelos de vida e janelas para o mundo, seja na TV, em filmes, revistas ou qualquer outro meio, se não somos estigmatizados ou esmagados pela heteronormatividade, sofremos, no mínimo, omissão. Desde muito cedo, de lembranças imemoriais, nos ensinam que somos um erro, um pecado, uma doença, uma abominação, uma aberração, uma perversão ou quaisquer outros dos tantos nomes com os quais se esmeram em nos rotular. Por tudo isso, é surpreendente que resistamos tanto a tantas intimidações, sem nos tornarmos pessoas absolutamente inseguras, vulneráveis e de baixíssima auto-estima. É incrível superarmos tanta estigmatização e não aceitarmos viver segregados. É de uma força admirável que consigamos construir relações afetivas saudáveis, vidas profissionais de sucesso, carreiras sólidas, amizades duradouras e constituir família. É fantástico não enlouquecermos, não sucumbirmos à opressão que nos é imposta desde nossa mais tenra idade, sem data para término e por todos os dias de nossas vidas. É absolutamente admirável nosso enfrentamento diário e mais ainda por se dar entre risos, danças, amores, alegria e uma inabalável crença em um futuro melhor. Sim, termine de ler este texto, corra para o espelho, se olhe bem nos olhos, olhe bem mesmo, fixamente, e vá lá, você tem todo o direito de dizer: eu sou foda!

- Ivone Pita
Reproduzido via Politicativa, no Gay1

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

3x sexo

HQ: Laerte

Como um sinal inequívoco de que, apesar dos infelizes Bolsonaros, o mundo avança na obra, moderna por definição, de desmontar preconceitos, numa mesma semana tive encontros com três representações de questões fundamentais da sexualidade. Representações que nos ajudam a compreender melhor essa dimensão central d...o sujeito que é a sexualidade, contribuindo politicamente para livrá-la do obscurantismo e de suas consequências: neuroses intensas, vidas desperdiçadas, explosões de violência. A presente edição da revista Trip, o filme "Céu sobre os ombros" e a série televisiva "Oscar Freire 279" tematizam questões como homofobia, prostituição, travestismo e monogamia - sempre com desassombro e inteligência.

A excelente edição da Trip traz uma entrevista de Zé Celso (que se define, gloriosamente, num lance de anti-identidade, como homem sexual); uma matéria com pessoas que mantêm relações grupais amorosas e sexuais; e um retrato passado-presente da dupla Luhli e Lucina, que nos anos 70 viveu um casamento a três, um "trisal", como elas chamam. São formas de vida que não se deixaram intimidar pela monogamia compulsória, fonte de tantos sofrimentos. Sim, pois a monogamia ocupa um lugar simbólico análogo ao das drogas na nossa sociedade: uma mistura de tabu e hipocrisia. As drogas, quase todo mundo nega, mas muita gente usa; a monogamia, muita gente exige, mas quase todo mundo descumpre. Assim como acontece com a política fracassada das drogas, o obscurantismo na tematização da monogamia leva a uma política potencialmente fracassada das relações amorosas.

Um único exemplo dá a dimensão do tabu que envolve a monogamia hoje. Num episódio da série "House", uma mulher jovem e bonita, casada com um homem idem, adoece subitamente. Após diversas especulações, o dr. House chega a um diagnóstico: ela contraiu um vírus africano (sic), cuja transmissão é genital. Ou seja, ou ela ou seu marido fizeram sexo com outra pessoa. A mulher está em estado grave e não admite o que fez. Só à beira da morte, aos 45 do segundo tempo, ela confessa. O marido, por sua vez, abandona-a, alegando que "não se pode amar alguém assim". Eis aí um brado retumbante: monogamia ou morte! Entre nós não é diferente. A capa da revista "Veja" desta semana traz uma associação entre corrupção (uma questão pública) e adultério (uma questão privada), implicitamente conferindo um valor moral positivo à monogamia.

Não se trata de recusar ou defender a monogamia, a priori e universalmente, mas de compreender os problemas que ela envolve, de modo que as pessoas possam ter maior autonomia para criar formas de vida em maior concordância com as suas próprias e inalienáveis fantasias. Há aqui um princípio: é preciso, inicialmente, des-moralizar as questões, para depois fundar, sobre essa compreensão, uma moral (individual). É exatamente isso o que faz a Trip. Recomendo fortemente sua leitura.

Outro tema igualmente submetido em geral a um tratamento hipócrita ou moralista é o da prostituição. Gabeira teve que ter coragem (virtude que não lhe falta) para defender a legalização da profissão quando estava em campanha (proposta que conta com meu apoio). Se é certo que a literatura já tratou do tema com profundidade e complexidade, o mesmo não costuma acontecer em programas televisivos. Pois é o que acontece na série "Oscar Freire 279" (Multishow). Sua protagonista é uma jovem, de classe média, linda, que se torna garota de programa por razões afirmativas (o prazer, a riqueza, a aventura existencial mais interessante que o roteiro previsível do casamento-emprego-família etc.). A série não idealiza a prostituição e ilumina também suas dimensões de sofrimento físico e moral. O decisivo é que ela não adere à perspectiva moralista (adotada pelo pai da "moça de família" que passa a se prostituir): dispõe, sobre a mesa, as diversas variáveis da questão, as alegrias e as angústias - e deixa que o espectador julgue por si próprio (eis o princípio de des-moralização inicial que mencionei acima).

O preconceito é sempre o efeito de uma distância; a proximidade humaniza e desmonta os estereótipos em que ele se funda. Talvez não haja uma figura social tão submetida a preconceitos quanto as travestis (já que o português me obriga a escolher um artigo de gênero). A recusa ao lugar social das travestis é tão forte que quase nunca se as vê em lugares públicos, à luz do dia. É absolutamente inaceitável que uma decisão sobre o próprio corpo (passar do masculino ao ambivalente masculino/feminino) implique uma condenação a um estatuto de pária social, de existência reconhecida apenas como objeto sexual a ser comprado (e renegado, como demonstrou um conhecido episódio envolvendo um jogador de futebol). Daí a importância de representações que mostrem travestis desempenhando funções sociais normais, como a travesti-professora do delicado filme "Céu sobre os ombros", de Sérgio Borges (que vi na edição presente da Semana dos Realizadores). Como prova do preconceito brutal, é mais obscena a imagem em que a travesti cita, fluentemente, a teórica americana Judith Butler, do que a cena em que ela faz sexo oral com um cliente, no carro.

Um mundo em que homossexuais tomam porrada e travestis têm que viver sorrateiramente é um mundo que deve ser transformado. E já está sendo, cada vez mais, felizmente.

- Francisco Bosco
Publicado originalmente no Jornal O Globo, em 26-10-11
Reproduzido via Conteúdo Livre, com grifos nossos.

sábado, 22 de outubro de 2011

Igual a você ;-)


Um dos vídeos da campanha "Igual a você", realizada pela [X]Brasil Comunicação em Causas Públicas em parceria com a ONU em setembro de 2009. Outros vídeos incluem lésbicas, negros, transexuais, refugiados e pessoas que vivem com Aids.

* * *

Conheça nosso canal no You Tube e veja os vídeos que selecionamos para você ver. :-)

domingo, 16 de outubro de 2011

Partido Social Cristão (PSC) exclui demais formas de família

Foto: Alex Beker

“UM HOMEM + UMA MULHER = AMOR. ISTO É FAMÍLIA”. Será só isso?

Toni Reis*

Assisti indignado e entristecido a esta propaganda, desatualizada e preconceituosa do Partido Social Cristão (PSC), cuja definição de “família” é um homem, uma mulher e seus filhos, somente.

Entendo que esta é uma forma de família, a mais tradicional, que não deve ser desmerecida. No entanto, a propaganda exclui e é ofensiva às demais formas de família que sabida e comprovadamente existem. A propaganda está em compasso com uma ideologia excludente e discriminatória.

Segundo afirmação feita pela Organização Mundial da Saúde já em 1994, “o conceito de família não pode ser limitado a laços de sangue, casamento, parceria sexual ou adoção. Família é o grupo cujas relações sejam baseadas na confiança, suporte mútuo e um destino comum”.

A propaganda ignora os dados do último censo populacional que, entre outras estatísticas, aponta que 51% das pessoas de referência das famílias são mulheres, 17,1% das famílias são compostas por casais sem filhos e 17,4% por mulheres sem cônjuges mas com filhos. Inclusive até a família da presidenta Dilma foi excluída pela propaganda, visto que ela vive somente com a mãe e uma tia.

A propaganda, com seu raciocínio reducionista e binária, deixou de lado todas as outras composições familiares, que incluem as famílias recompostas, monoparentais, ampliadas, comunitárias... Ignorou a decisão do Supremo Tribunal Federal, de 05 de maio de 2011, que reconheceu unanimemente que os casais homoafetivos também formam entidades familiares.

Todas as pessoas têm o direito de liberdade de convicções pessoais, mas um partido político veicular este tipo de propaganda é atentatório aos princípios democráticos da igualdade, da dignidade humana e da não discriminação, entre outros.

Família, pode-se realmente afirmar, significa laços de amor, afetos e responsabilidades, sem exclusão e sem discriminação. Será que o PSC não deveria respeitar a Constituição Federal?

*Toni Reis
Presidente da ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
Reproduzido via Jornal do Brasil

sábado, 15 de outubro de 2011

Respeito à dignidade humana: um elo para a liberdade nas relações afetivas


O jesuíta Juan Masiá é professor de Ética na Universidade Sofia (Tóquio) desde 1970. Foi diretor da Cátedra de Bioética da Universidade Pontifícia Comillas, assessor da Associação de Médicos Católicos do Japão, conselheiro da Associação de Bioética do Japão, pesquisador do Centro de Estudos sobre a Paz da seção japonesa da Conferência Mundial das Religiões pela Paz (WCRP), além de colaborador do Centro Social “Pedro Claver” da Companhia de Jesus em Tóquio. Seu site pessoal, intitulado Vivir y Pensar en la Frontera é um rica fonte de consulta para os temas latentes em nossa sociedade.

Na entrevista que segue, feita por e-mail pela IHU On-Line e aqui reproduzida com grifos nossos, Juan Masiá fala sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo e afirma: “temos de reconhecer que a reflexão antropológica sobre este tema tem chegado com atraso em relação às situações de fato”. Para ele, “o critério ético das relações humanas é o respeito mútuo à dignidade humana por parte de pessoas que se querem e se ajudam a crescer mutuamente. E este critério vale para avaliar uma relação de um casal, tanto heterossexual como homossexual”.

Eis a entrevista.


Considerando a possibilidade de união civil entre pessoas do mesmo sexo, o senhor acredita que ainda estejamos longe de uma celebração religiosa entre homossexuais, que também podem sonhar com a bênção de Deus para seu relacionamento?

Conhecendo a lentidão das mudanças na Igreja, assim como os medos e tabus que existem em torno desta questão, não só entre a hierarquia eclesiástica, como também entre o povo crente em diversas partes do mundo, receio estarmos longe de um reconhecimento oficial de tal celebração. Isso não impede, no entanto, que ante a situação de diversas pessoas em circunstâncias muito variadas se atue com flexibilidade pastoral, bendizendo tal união no foro da consciência e no seio de comunidades que a compreendem. Conheço, de fato, um caso em que isso foi realizado de modo muito apropriado e discreto.

Como é, hoje, o comportamento por parte da Igreja em relação a um casal de orientação homossexual que é católico e a freqüenta?

Conheço comunidades, sacerdotes e agentes de pastoral que acolhem esta situação com naturalidade e normalidade, mas lamento o fato de que sejam exceções.

Em que sentido a Santa Sé deveria avançar nessa questão da homossexualidade no intuito de caminhar com as mudanças da sociedade? O que o senhor pensa sobre a postura do Vaticano em relação a esse assunto?

Mais do que se pôr a caminhar no ritmo das mudanças na sociedade, creio que a razão fundamental para mudar de atitude ante estas pessoas e para modificar as restrições atuais na prática pastoral se baseia em levar a sério o ensino sobre não discriminar injustamente, tal como aprendemos nas palavras de Paulo: “Já não há em vossa comunidade distinção de judeus e gregos, escravos ou livres, homens ou mulheres, pois todos e todas se fazem um, mediante Jesus, o Cristo” (Gal 3, 28). Assim tentei expor brevemente no capítulo 13 de “Tertulias de Bioética” (Sal Terrae, 2005: Trotta, 2006; traduzido no Brasil pelas Edições Loyola, de São Paulo, em 2007).

Qual é o papel dos políticos católicos em relação à lei que aprova a união civil homossexual?

Pode haver, entre as pessoas católicas que desempenham um papel na política, diversidade de opiniões sobre a lei, assim como há o debate sobre se a referida união deve ser chamada ou não de matrimônio. Se têm motivos para lutarem contra, deveriam fazê-lo alegando razões para serem discutidas no debate plural e democrático. Mas não deveriam sentir-se obrigados a se opor a todo custo somente pela razão de seguir cegamente a postura expressada oficialmente pela Igreja. Se decidem se opor, deveriam dar razões compartilhadas por diferentes pessoas, independentemente de suas crenças religiosas. Uma vez que a lei foi aprovada pela maioria parlamentar, deveriam aceitar as regras do jogo democrático e não violá-las em nome de posturas religiosas convertidas em ideologia.

Para o senhor, quais são as diferenças entre a sociedade latino-americana e a sociedade japonesa em relação à união civil entre pessoas do mesmo sexo?

Não estou em condições de opinar sobre a sociedade em diversos países latino-americanos. No Japão, percebo demasiados tabus e falta de capacidade para dialogar abertamente, não só no tema das relações homossexuais, como também em outros temas de direitos humanos como, por exemplo, a igualdade de tratamento à mulher, o respeito à intimidade ou o tratamento desumano nas prisões, sobretudo no caso de pessoas condenadas à pena capital.

E o que o senhor pensa sobre a união civil entre homossexuais? Acredita mesmo que, como diz a Igreja, essas pessoas devam manter a castidade?

Temos de reconhecer que a reflexão antropológica sobre este tema tem chegado com atraso em relação às situações de fato. Por outro lado, as mudanças legais têm acontecido em diversos países com ritmo e velocidade diversa. Seria desejável que, antes de polarizar-se politicamente o debate nos parlamentos, se tivesse podido debater serenamente, no âmbito da cidadania, levando em consideração os aspectos jurídicos, psicológicos ou sociológicos. Quanto à referência ao tema da castidade, penso que se sugere desfocar por tratá-lo desde a perspectiva da chamada “moral ou ética da sexualidade”. Parece-me preferível não polarizar-se no tema das relações sexuais exclusivamente. Haveria que enfocá-lo partindo de uma “ética das relações humanas”. O critério ético das relações humanas é o respeito mútuo à dignidade humana por parte de pessoas que se querem e se ajudam a crescer mutuamente. Este critério vale para avaliar uma relação de um casal, tanto heterossexual como homossexual, ou também as relações de amizade e companheirismo entre pessoas que vivem em comunidade por terem feito uma opção de celibato por motivação religiosa. Se esse critério for observado, a relação é boa. Do contrário, não é. Não se deve definir a moralidade polarizando-se exclusivamente na relação sexual no sentido estrito da palavra. Mas isto supõe que tenhamos uma ética de critérios e não de fórmulas prontas.

Que tipo de dilema e dificuldades um homossexual católico (homem ou mulher) costuma enfrentar? Que tipo de conflito interno e de fé aparece aí?

Tenho tratado em consultas pastorais com pessoas que, em vez de sentirem-se ajudadas por sua fé, tinham maiores dificuldades na hora de resolver conflitos internos, em razão da culpabilidade proveniente da maneira como haviam sido educadas em suas crenças e por sentirem-se excluídas da comunidade eclesial. Nesses casos, antes do problema dos conflitos que podem surgir pela orientação sexual, é preciso desmontar culpabilidades patológicas e corrigir a imagem que têm (ou na qual foram educadas) sobre Deus, sobre culpa e perdão ou sobre o enfoque evangélico da moralidade.

Qual é a sua opinião sobre a questão da homossexualidade dentro da Igreja? Podemos vislumbrar a possibilidade de termos sacerdotes com orientação homossexual?

Tanto com uma orientação sexual homossexual, heterossexual ou inclusive assexuado, o problema não é a orientação, mas a opção pela vocação, se tem aptidão para ela e se há condições de seguir esse caminho. Lembro que, quando anunciei que iria para o noviciado, alguém comentou, com ironia: “É por que você não gosta de meninas?”. A brincadeira me incomodou e protestei dizendo que não é condição para escolher este caminho ser insensível, frígido, desumano ou assexuado. Hoje, expressaria isso de forma mais suave e serenamente dizendo: “Tanto uma pessoa de orientação heterossexual ou uma pessoa de orientação homossexual, ou inclusive assexuada, o que deve se sugerir, antes de optar por este caminho, é se está decidido a crescer na integração de sua sexualidade em sua personalidade, com o objetivo de capacitar-se para tratar com maturidade com homens e mulheres diferentes, sem inibir-se”.

- Graziela Wolfart

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Reverendo lança crônicas gays no Rio de Janeiro

Já tivemos o orgulhos de partilhar boas experiências com nossos amigos da Comunidade Betel ICM do Rio de Janeiro.

Repassamos a divulgação do livro de um excelente pastor que sem dúvida tem muito a nós dizer também.









Crônicas de um pastor gay é o novo livro de Márcio Retamero, com lançamento dia 13


Depois de lançar o bem recebido "Pode a Bíblia Incluir? Por um olhar inclusivo das Sagradas Escrituras" (Editora Metanoia), o pastor Márcio Retamero volta às prateleiras das livrarias brasileiras com “Crônicas de um pastor gay” (Editora Metanoia). A obra ganha lançamento no próximo dia 13, a partir das 19h, no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa de Ipanema.

Autor ainda de “Banquete dos Excluídos”, o reverendo da Comunidade Betel ICM do Rio de Janeiro e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo faz nessas novas 160 páginas uma reunião de crônicas publicadas sobre assuntos como teologia política, combate ao fundamentalismo religioso e os diversos tipos de homofobia – inclusive a religiosa.

Ainda teólogo e historiador, Márcio Retamero estará recebendo os leitores no dia 13, a partir das 19h para quem quiser conhecer mais da obra. A Livraria da Travessa de Ipanema fica na Rua Visconde de Pirajá, 572, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. A entrada é gratuita.

Fonte:
Mix Brasil

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

"Somos todos iguais perante a paz, toda forma de violência deve ser crime"

Foto daqui

Ontem foi dia de pedir paz e igualdade na Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, cujo tema este ano deu título a este post. Aproveitamos a ocasião para reproduzir este belo artigo de Peter Fry, originalmente publicado no Estado de S. Paulo (ontem mesmo) - e lembramos também de dois artigos que publicamos semana passada sobre o tema da paz: um, sobre a prioridade que deve ter o compromisso das religiões com a paz (aqui), e outro, a propósito da celebração do Yom Kippur, sobre o paradoxo inerente aos fanatismos religiosos como geradores de atos de violência, injustiça e desamor, aqui. Boa leitura! :-)

Em junho, a parada gay encheu a Avenida Paulista com 4 milhões de pessoas, entre lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e muitos, mas muitos, simpatizantes. O lema foi "Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia".

Pouco mais de três meses depois, na madrugada de 1º de outubro, o analista fiscal Marcos Paulo Villa, de 32 anos, e seu namorado há mais de quatro anos, um coordenador financeiro de 30 anos que preferiu não se identificar, foram brutalmente espancados ao sair de um bar na região da Avenida Paulista por dois homens que os xingaram de viados. Após ser socorrido, o casal registrou a ocorrência no 78º DP (Jardins). O crime foi registrado como lesão corporal consumada e comunicado à Delegacia de Crimes Raciais e Crimes de Intolerância (Decradi).

Há uma certa sugestão no ar de que essas agressões são novidade e estão aumentando em frequência e gravidade; os jornais noticiam que esse ataque foi o décimo caso de agressão contra homens gays na região da Paulista desde novembro de 2010. E o Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais de 2010 do Grupo Gay de Bahia registrou 260 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no Brasil em 2010, 62 a mais que em 2009 (198 mortes), um aumento de 113% nos últimos cinco anos (122 em 2007).
Mas estatísticas só podem ser interpretadas quando se sabe o que medem. No caso em questão, pode ser que meçam também a crescente disposição das vítimas de agressões desse tipo a se queixar na polícia e a nomear a homofobia como fator da violência. Se Marcos Paulo Villa não tivesse feito queixa (o namorado, por exemplo, não quis se identificar), talvez o caso não tivesse passado de mais uma briga na saída de um bar. Sem querer negar um aumento real, fica evidente que há, de fato, um aumento da visibilidade das agressões homofóbicas, que, sugiro, está relacionado à visibilidade positiva da homossexualidade promovida pelo movimento LGBTT, acatada cada vez mais por segmentos significativos da sociedade.

A estratégia dos movimentos LGBTT de incrementar as paradas gay - sempre abertas para cada vez mais "simpatizantes" - tem sensibilizado muita gente, inclusive a administração pública e a Justiça. O governo federal promoveu o projeto Brasil sem Homofobia. Vários juízes têm dado ganho de causa a casais do mesmo sexo em situações diversas (herança, adoção, pensão) ao longo dos últimos anos, e em maio deste ano o STF aprovou por unanimidade o reconhecimento da união estável para casais do mesmo sexo. Até o voraz Leão se sensibilizou. Quando preenchi o formulário do imposto de renda neste ano vi que poderia declarar um companheiro do mesmo sexo como dependente, se ele tivesse morado comigo por cinco anos ou mais.

Esse processo de normalização da homossexualidade (sobretudo quando se trata de relações ditas estáveis) tem feito com que Marcos Paulo Villa, entre outros, tenham tido mais confiança para se queixar à Justiça, assim tornando mais visível a violência homofóbica.

Mas a batalha está longe de ser vencida. Em 17 de maio, o juiz e pastor da Assembleia de Deus Jeronymo Pedro Villas Boas, de Goiânia, anulou o contrato de união estável celebrado pelo casal Liorcino Mendes e Odílio Torres num cartório da cidade. Também no em maio, depois de se reunir com deputados da chamada bancada religiosa, o governo suspendeu todos os livros e vídeos que estavam sendo editados pelos Ministérios da Saúde e da Educação sobre a questão da homofobia. Além disso, até hoje, o Congresso Nacional não votou a Lei da Homofobia. Tampouco votou a lei que disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo, que jaz entre teias de aranha dos processos esquecidos desde que foi proposta por Marta Suplicy, em 1995.

Assim, a homofobia e a homofilia coexistem em constante tensão em toda a sociedade, de tal forma que nunca se sabe qual vai prevalecer em cada uma das situações que se apresentam. Até no concerto das nações o Brasil ocupa uma posição totalmente contraditória. Em 2009 O Rio de Janeiro foi eleito o melhor destino gay do mundo durante a 10ª Conferência Internacional de Turismo LGBT, concorrendo com Barcelona, Buenos Aires, Londres, Montreal e Sydney. Mas em termos de direitos civis o Brasil fica anos-luz atrás da sua vizinha Argentina e de seu antigo colonizador, Portugal, pois ambos legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Creio que esse alto grau de incerteza apenas contribui para a homofobia e a insegurança das pessoas LGBTT. Os ativistas apostam muito na Lei de Homofobia, que assemelharia a homofobia ao racismo, impondo punições draconianas para quem manifestasse sua homofobia, seguindo o princípio cada vez mais popular, parece, de que a solução para eliminar preconceitos seja incrementar cada vez mais as punições.

Eles também apostam em estender todos os direitos existentes em relação aos heterossexuais para os (as) que amam pessoas do mesmo sexo. Essa é uma demanda republicana apoiada por um movimento que, ao contrário de tantos outros, se tornou inclusivo, mobilizando milhões de cidadãos de todas as persuasões eróticas e afetivas, de todas as cores, idades e classes sociais.

- Peter Fry
Antropólogo e autor, com Edward MacRae, de "O que é homossexualidade" (Ed. Brasiliense)
Reproduzido via Conteúdo Livre

sábado, 8 de outubro de 2011

O Vaticano II, 50 anos depois


O Concílio Vaticano II permanecerá na história como uma tentativa de reformar a Igreja no final de uma época história de 15 séculos. Seu único defeito foi que chegou demasiado tarde. Três anos após sua conclusão, tinha início a maior revolução cultural do Ocidente.

A análise é do teólogo José Comblin, falecido em março deste ano, em artigo publicado na revista Adista Documenti, nº. 68, 24-09-2011. A tradução é de Benno Dischinger, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


1. Antes do Concílio

A maioria dos bispos que chegou ao Concílio Vaticano II não entendia porque tinha sido convocada. Os bispos, como os funcionários da Cúria, pensavam que o papa sozinho pudesse decidir tudo e que não fosse necessário convocar um Concílio. Mas havia uma minoria profundamente consciente dos problemas existentes no povo católico, sobretudo nos países intelectual e pastoralmente mais desenvolvidos, onde se havia vivenciado episódios dramáticos de contraposição entre as preocupações dos sacerdotes mais abertos ao mundo contemporâneo e a administração vaticana. Todos aqueles que procuravam uma presença da Igreja no mundo contemporâneo, marcado pelo desenvolvimento das ciências, da tecnologia e da nova economia, como também pelo espírito democrático, eram reprimidos. Havia, no entanto, uma elite de bispos e cardeais cônscios das reformas necessárias e decididos a acolher a ocasião oferecida por João XXIII.

As comissões preparatórias eram claramente conservadoras e é por isso que, na abertura do Concílio, as perspectivas dos teólogos e dos peritos trazidos pelos bispos mais conscientes eram antes pessimistas. Mas, houve o discurso de abertura de João XXIII, que rompia decididamente com a tradição dos papas anteriores. João XXIII anunciou que o Concílio não se reunira para pronunciar novas condenações de heresias, como de costume. Tratava-se de apresentar ao mundo outra imagem de Igreja que a tornasse mais compreensível aos contemporâneos. A maior parte dos bispos não compreendeu nada e pensou que o papa não tivesse dito nada, porque não havia mencionado nenhuma heresia. Para o papa não se tratava de aumentar o número dos dogmas, mas de falar a mundo moderno numa linguagem que este pudesse compreender. Uma minoria iluminada entendeu a mensagem e sentiu ter obtido o apoio do papa na luta contra a Cúria.

Mas a Cúria romana tinha uma estratégia. Existia um modo de anular o Concílio. As comissões preparatórias haviam preparado documentos sobre todas as questões anunciadas: Todos estes documentos eram conservadores e não permitiam nenhuma mudança real na pastoral. Teriam sido consignados às comissões conciliares que os teriam aprovado e o Concílio teria terminado em poucas semanas com documentos inofensivos que não teriam modificado nada. O importante era traçar listas de comissões com bispos conservadores e explicar ao Concílio que a coisa mais prática era aceitar as listas já preparadas pela Cúria.

O primeiro a descobrir tal estratégia foi dom Manuel Larrain, bispo de Talca, no Chile, e presidente da Celam. Junto com dom Helder Câmara – eram amigos íntimos, habituados a trabalhar juntos – foram avisar os líderes do episcopado reformador. (...) Tratava-se de rejeitar as listas preparadas pela Cúria e solicitar que as comissões fossem eleitas pelo próprio Concílio. O cardeal Döpfner de Munique, Liénart de Lille, Sünens de Malinas, Montini de Milão e alguns outros tomaram a palavra e solicitaram que fosse o próprio Concílio que nomeasse os membros das comissões, proposta que foi aprovada por aclamação.

A conclusão foi que as novas comissões rejeitaram todos os documentos elaborados pelas comissões preparatórias: uma afirmação do episcopado referente à Cúria romana. O papa ficou satisfeito. (...).

A maioria conciliar que o grupo líder conseguiu garantir não queria uma ruptura e por isso sempre deu importância à minoria conservadora, embora pequena, que representava os interesses da Cúria e se identificava com ela. Portanto, muitos textos resultaram ambíguos, porque a um parágrafo reformista seguia um conservador que dizia o contrário. De um lado se anunciavam novos temas e do outro se dava espaço àqueles velhos da tradição dos papas Pio. Tal ambiguidade prejudicou muito a aplicação do Concílio.

A minoria conciliar e a Cúria não se converteram. Ainda hoje se opõem ao Vaticano II, encontrando argumentos nos próprios textos conciliares conservadores. Quando João Paulo II citava os textos do Vaticano II, eram aqueles mais conservadores, como se os outros não existissem. Por exemplo, na Constituição Lumen Gentium, é claro que o acento é posto sobre o papel dado ao povo de Deus. Todavia, quando se trata da hierarquia, o povo de Deus desaparece e tudo continua como sempre. Em 1985, por solicitação do cardeal Ratzinger, o termo povo de Deus foi eliminado do vocabulário do Vaticano. Desde então, nenhum documento romano faz referência ao povo de Deus, que era o tema central da Constituição conciliar. (...)

Tal situação teve muita importância na evolução subsequente do Vaticano II na Igreja. Desde o início, houve um partido ao qual sempre se deu importância e poder e que lutou contra todas as novidades. Nas eleições pontifícias que, como sempre, são manipuladas por alguns grupos, o problema do Vaticano II tem sido decisivo e tem sido eleitos papas dos quais se conheciam as reservas sobre os documentos conciliares em tudo o que tinham de novo. O atual papa ainda pode viver dez anos e mais. Depois dele podemos prever que seja novamente eleito um papa pouco empenhado com o Concílio, para usar um eufemismo, porque os grupos que sustentam esta posição são muito fortes na Cúria e no colégio dos cardeais, e não há sinais que as futuras nomeações possam produzir uma mudança de direção. As últimas nomeações na Cúria são eloquentes.

2. De 1965 a 1968

A história da recepção do Vaticano II foi determinada por um acontecimento totalmente imprevisto. 1968 é a data símbolo da maior revolução cultural na história do Ocidente, mais do que a revolução francesa ou a russa, porque atinge a totalidade dos valores da vida e todas as estruturas sociais. A partir de 1968 houve muito mais do que um protesto estudantil. Houve o início de um novo sistema de valores e de uma nova interpretação da vida humana.

O Vaticano II respondera às interrogações e aos desafios da sociedade ocidental em 1962. (...). A sociedade européia destruída pela guerra tinha sido reconstruída e a Igreja ocupava um lugar relevante na sociedade. (...). Na realidade, perdera contato com a classe operária, mas esta já estava se reduzindo numericamente por via da evolução da economia para os serviços. O número dos católicos praticantes estava diminuindo, mas não de modo a chamar a atenção. (...). Os problemas eram estruturais e não tocavam os dogmas nem a moral tradicional.

Em 1968 entrava improvisamente em andamento uma revolução total que abraçava todos os dogmas e toda a moral tradicional, bem como todas as estruturas institucionais da Igreja e de toda a sociedade. (...). O Vaticano II respondera aos problemas de 1962, mas nada tinha a responder aos desafios de 1968. Em 1968 teria sido um Concílio conservador apavorado pelas radicais transformações culturais que tinham início.

(...). 1968 significa uma mudança de toda a política, da educação, dos valores morais, da organização da vida e da economia. (...).

a) 1968 significou uma crítica radical perante todas as instituições estáveis e de todos os sistemas de autoridade. Era a contestação global de toda a sociedade organizada tradicional. (...). A Igreja católica era o modelo típico de um sistema institucional radicalmente autoritário. Por isso, foi imediata e vigorosamente atacada e denunciada. As mudanças conciliares, tão tímidas, não podiam convencer a nova geração. O Vaticano II era totalmente inofensivo se confrontado com a revolução cultural iniciada em 1968.

b) Em 1968 teve início uma luta contra todos os sistemas de pensamento, as assim ditas “grandes narrações”. (...) Não se aceita nenhum sistema que tenha a pretensão de ser “a verdade”. E isso investe contra os dogmas e o código moral da Igreja católica, e toda a sua pretensão de “magistério”. O Vaticano II não podia sequer imaginar tal situação. Não houvera nenhuma crítica de nenhum dogma e jamais fora posto em discussão seu inteiro sistema de pensamento. Ora, a nova geração contestava todo o sistema doutrinal da Igreja católica, porque tal sistema não permitia o livre exercício do pensamento. (...).

c) Simultaneamente, ocorreu a explosão da revolução feminista. A descoberta da pílula que permitia evitar a fecundação e, portanto, facilitava a limitação da natalidade provocou um entusiasmo universal entre as mulheres. (...) Os episcopados dos países socialmente desenvolvidos e os teólogos consultados pelo papa entendiam que não houvesse nada na moral cristã que pudesse condenar o uso da pílula. Mas, o papa se deixou impressionar pelo setor mais conservador, embora minoritário, e publicou a encíclica Humanae vitae. Foi como uma bomba. Houve imensa revolta entre as mulheres católicas, as quais não aplicaram a proibição papal e aprenderam a desobedecer. (...). Muitos bispos ficaram abalados, mas não podiam fazer nada porque o Concílio absolutamente não havia tocado a questão do exercício do primado do papa. O papa decide por si, também contra todos. Era este o caso: o papa havia decidido contra os bispos, os teólogos, o clero, os leigos informados. Desafortunadamente, isso foi obra de Paulo VI que, pelos muitos méritos havidos na história do Concílio, aparecia como homem de abertura. (...). Para muitos, a Humanae vitae era como um desmentido do Vaticano II: nada mudara!

d) Até então, o consumo tinha sido orientado pelos costumes. Havia um consumo moderado e limitado. O consumo dependia da regularidade da vida: refeições regulares e tradicionais, festas tradicionais com despesas tradicionais, segundo um ritmo de vida no qual o trabalho ocupava o lugar central. A partir dos anos 60, o trabalho deixa de ser o centro da vida. A partir de então, no centro está a procura do dinheiro para poder pagar as férias, os fins de semana, as festas que se multiplicam indefinidamente e o consumo festivo. O trabalho é o que permite o consumo. (...). As próprias estruturas sociais estimulam o consumo e todos os que não podem consumir se sentem rejeitados pela sociedade. (...)

e) (...) Uma nova moral avalia as pessoas com base no dinheiro acumulado e na ostentação de riqueza. A partir disso, os donos do capital fazem o que querem e como querem. Até a queda do comunismo na URSS, o magistério estava empenhado contra isso e dava pouca atenção ao crescimento rápido de uma nova forma de capitalismo. (...). Na prática, a Igreja se esquece da Gaudium et Spes e aceita a evolução incontrolada do capitalismo. A doutrina social da Igreja perde todo o significado profético porque não se aplica em nada a casos concretos. Na prática o magistério aceita o novo capitalismo. (...).

3. A reação da Igreja foi aquela que se podia temer

Os papas e muitos bispos aceitaram o argumento dos conservadores de que os problemas da Igreja derivavam do Vaticano II. Vários teólogos que haviam defendido e promovido os documentos conciliares mudaram de idéia e adotaram a tese dos conservadores, como o próprio papa atual. Diziam que o Concílio fora “mal interpretado”. Por isso, João Paulo II convocou um sínodo extraordinário em 1985, por ocasião dos 20 anos da conclusão do Concílio, para lutar contra as falsas interpretações e dar uma interpretação correta. Na prática, a nova interpretação, a “correta”, consistia em suprimir tudo aquilo que de novo havia nos documentos do Vaticano II. Um sinal fortemente simbólico foi a condenação da expressão “povo de Deus”. (...). Praticamente, aconteceu como após a Revolução francesa: fechar as portas e as janelas para cortar a comunicação com o mundo exterior e reforçar a disciplina para evitar fugas. Mas, em vão. O problema é que a Igreja já não tem mais uma imensa reserva de camponeses pobres. Na América Latina os pobres vão com os evangélicos.

Desde então, na linguagem oficial se faz referência ao Concílio, mas sua mensagem é ignorada. O Concílio permanece na memória e nos princípios das minorias sensíveis à evolução do mundo, que extrai dele argumentos para solicitar mudanças e respostas aos desafios do mundo atual. Os jovens, incluindo os novos sacerdotes, não sabem o que foi o Concílio, que não reveste para eles nenhum interesse. Estão mais interessados no catolicismo anterior ao Vaticano II, com suas seguranças, sua beleza litúrgica e a justificação de um autoritarismo clerical que os protege dos problemas.

A reação da Igreja tem sido aquela do retorno à disciplina precedente, cujo símbolo é dado pelo novo Código de direito canônico (...). O novo Código fecha as portas a todas as mudanças que poderiam inspirar-se no Vaticano II. Torna o Vaticano II historicamente inoperante.

No mundo, a prioridade dada à luta contra o comunismo – um comunismo já em plena decadência – induziu a Igreja a aceitar silenciosamente (os silêncios da Doutrina social da Igreja, dizia padre Calvez) o capitalismo desenfreado que emergiu nos anos 70. Na América Latina o Vaticano apoiou as ditaduras militares e condenou todos os movimentos de transformação social em nome da luta contra o comunismo. Desde a época do governo de Reagan, a aliança com os Estados Unidos permaneceu firme até a guerra contra o Iraque, que abriu por um momento os olhos do papa. De tal modo, a Igreja se aliava com os poderosos do mundo e se condenava a ignorar o mundo dos pobres em sua pastoral real.

Na América Latina a reação a Igreja à revolução cultural ocorrida no mundo desenvolvido foi muito dolorosa. Destruiu algo de novo que estava nascendo. Na América Latina, o Vaticano II significou uma mudança real. (...). O Celam, com a aprovação de Paulo VI, convocou a Assembléia de Medellín, a qual mudou a orientação da Igreja para que tirasse do Concílio conclusões práticas. Decidiu optar pelos pobres e empenhar-se por uma mudança social radical, legitimou as comunidades eclesiais de base e a formação dos leigos com base na Bíblia e na ação política. (...). Em várias regiões, Medellín não foi aceita nem aplicada. Mas houve regiões importantes nas quais Medellín modificou a Igreja e se tornou a aplicação real do Vaticano II.

Tudo isso foi sistematicamente atacado em Roma com argumentos oferecidos por setores reacionários da América Latina. Desde 1972, a campanha contra a Conferência de Medellín foi dirigida por Alfonso López Trujillo. Malgrado isso, em Puebla, em 1979, Medellín se salvou. Mas, sob o pontificado de João Paulo II, a pressão cresceu. Os argumentos romanos, as nomeações episcopais, a repressão contra os bispos mais empenhados na linha de Medellín tiveram efeito. A condenação da teologia da libertação em 1984 acabaria dando o golpe final. A carta do papa à Conferência episcopal brasileira do ano subsequente limitou um pouco o alcance da condenação, mas a teologia da libertação ainda representa hoje algo de suspeito.

4. O que resta do Vaticano II

Hoje, as reformas realizadas pelo Vaticano II nos parecem muito tímidas, totalmente inadequadas e insuficientes. Será preciso andar muito além, porque o mundo mudou mais nos últimos 50 anos do que nos 2.000 anos precedentes. Do Vaticano II devem permanecer, como base para as reformas futuras:

  • O retorno à Bíblia como referência permanente da vida eclesial acima de todas as elaborações doutrinais ulteriores, dos dogmas e da teologia.
  • A afirmação do povo de Deus como participante ativo na vida da Igreja, tanto no testemunho da fé como na organização da comunidade, com total definição jurídica dos direitos e dos instrumentos necessários no caso de opressão da parte da autoridade.
  • A afirmação da Igreja dos pobres.
  • A afirmação da Igreja como serviço ao mundo, fora de toda busca de poder.
  • A afirmação de um ecumenismo de participação mais íntima entre as Igrejas cristãs.
  • A afirmação do encontro entre todas as religiões e pensamentos não religiosos.
  • Uma reforma litúrgica que use símbolos e palavras compreensíveis pelos homens e pelas mulheres contemporâneas. (...).

5. As condições da humanidade atual em estado de radical transformação.

a). Como entender a fé? A partir da modernidade, muitos cristãos perderam a fé ou pensaram tê-la perdido porque têm uma idéia errônea da fé. (...).

O objeto da fé é Jesus Cristo, a vida de Jesus Cristo. É dar a própria adesão a esta vida e adotá-la como norma, porque tem um valor absoluto, porque esta vida é a verdade, porque é assim que devemos ser homem ou mulher. Não é uma evidência que não permita dúvidas. É uma percepção de verdade que jamais suprime uma franja de dúvida, porque é sempre um ato voluntário e porque esta verdade não se vê. O crente não se sente obrigado a crer. É um ato de dom da própria vida, a escolha de um caminho. Não há evidência do fato de que Jesus vive e está conosco, porém sente-se sua presença como um apelo repetido, malgrado todas as dúvidas. (...).

Hoje o papa condena como relativismo fenômenos próprios do ser humano, que hoje não pode mais entender o modo tradicional de conhecer os objetos da religião. Estes não fazem parte de sua experiência de vida. (...). Tal condição do ser humano de hoje pressupõe uma profunda revisão da teologia da fé, a qual já está ocorrendo, mas não se divulga, com a conseqüência que milhões de adolescentes perdem sempre mais a fé, por não lhes ser explicado o que ela é.

b) A religião. Os nossos contemporâneos abandonam os atos litúrgicos oficiais da Igreja porque os consideram enfadonhos. A missa habitual é enfadonha, salvo em algumas circunstâncias especiais nas quais comparecem milhares de pessoas. (...) Quando a liturgia era em latim, era melhor porque não se entendia. Uma vez que se compreende, se capta seu estilo insuportável. É usada uma linguagem pomposa, formal, do tipo “humildemente pedimos”: ninguém fala assim. “Unimos as nossas vozes às dos anjos”: fórmula convencional que não responde a nada na vida. Há centenas de fórmulas semelhantes. (...).

c) A moral. Nossos contemporâneos não aceitam códigos morais, o fato que se lhes imponham ou se proíbam condutas porque estão no código. Eles querem entender o valor dos preceitos ou das proibições. Ou seja, estão descobrindo a consciência moral que permite captar o valor dos atos. (...). Antes a base da moral cristã era a obediência à autoridade. Era preciso fazê-lo ou não fazê-lo, porque a Igreja o ordenava ou proibia. Por isso tantas vezes os leigos perguntavam: isto se pode fazer? Se o sacerdote dizia que sim, o problema moral estava resolvido. Pois bem, isso pertence ao passado.

d) A comunidade. O cristianismo é comunitário. Mas, as formas tradicionais de comunidade tendem a debilitar-se. A própria família perdeu muito de sua importância porque os seus membros se encontram mais raramente. A paróquia atual perdeu o sentido de comunidade. Mas, estão aparecendo muitas novas formas de pequenas comunidades baseadas na livre escolha. Tais comunidades terão a capacidade de celebrar a eucaristia, o que pressupõe uma pessoa adaptada a presidi-la em cada grupo de umas cinqüenta pessoas. Não existe nenhuma dificuldade doutrinal para isso, porque nos primeiros séculos a situação era esta e não havia problemas. Isso é fundamental, porque uma comunidade que não se reúne na eucaristia não é realmente uma comunidade cristã. Os sacerdotes de tempo integral estarão em torno ao bispo de cada cidade importante para evangelizar todos os setores da sociedade urbana.

É claro que não sabemos quando e como se chegará a isso. É pouco provável que um Concílio que reúna unicamente bispos possa encontrar as respostas aos desafios da época. As respostas não virão da hierarquia, nem do clero, mas dos leigos que vivem o evangelho em meio a um mundo que compreendem. Por isso, devemos estimular a formação de grupos de leigos empenhados ao mesmo tempo com o evangelho e com a sociedade humana na qual atuam.

O Vaticano II permanecerá na história como uma tentativa de reformar a Igreja no final de uma época história de 15 séculos. Seu único defeito foi que chegou demasiado tarde. Três anos após sua conclusão, tinha início a maior revolução cultural do Ocidente. Os seus detratores o acusaram de todos os problemas que emergiram desta revolução cultural, e, com isso, o mataram. Mas o Vaticano II permanece como um sinal profético. Em meio a uma Igreja prisioneira de um passado que não sabe superar, representa uma voz profética. Não conseguiu reformar a Igreja como teria desejado, mas foi um convite a olhar em frente. Ainda há potentes movimentos que pregam o retorno ao passado. Devemos protestar. Quando pessoas que nada entendem da evolução do mundo contemporâneo querem refugiar-se num passado sem abertura ao futuro, devemos denunciar. Para nós, o Vaticano II é Medellín. Também quiseram matar Medellín. Mas Medellín permanece como a luz que nos mostra o caminho.

Uma última reflexão: O futuro da Igreja católica está nascendo na Ásia e na África. Será muito diverso. Aos jovens será preciso dizer: aprendei o chinês!

domingo, 2 de outubro de 2011

Na rica Alemanha, a Igreja se faz pobre

Foto via eu, complexo

Nunca antes de sua terceira viagem à sua pátria, Bento XVI havia dado uma preeminência tão forte ao ideal de uma Igreja pobre de estruturas, de riquezas e de poder. Mas ao mesmo tempo insistiu também no dever de uma vigorosa “presença pública” desta mesma Igreja. As duas coisas juntas são possíveis?

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio Chiesa, 28-09-2011. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O impacto da terceira viagem de Bento XVI à Alemanha, como aconteceu anteriormente com outras viagens suas, dissipou também desta vez as nuvens que haviam obscurecido os dias prévios à visita.

As críticas, inclusive as mais hostis, foram compensadas por numerosas manifestações favoráveis, e isso numa atmosfera de simpatia generalizado.

O discurso no Parlamento, na quinta-feira, 22 de setembro, tornou possível que se preste imediatamente uma respeitosa atenção ao pensamento do papa Joseph Ratzinger sobre os fundamentos naturais e racionais do Estado liberal: uma natureza e uma razão animadas pelo Espírito criador de Deus.

Com a aula de Regensburg, em 2006, e com aquela pronunciada no Colégio dos Bernardinos, de Paris, em 2008, esta de 2011 em Berlim confirmou uma trilogia que coloca de manifesto todo o pontificado de Bento XVI, centrado no vínculo fecundo entre a Jerusalém da revelação divina, a Atenas da razão filosófica e a Roma do pensamento jurídico, e centrado também em uma releitura original e positiva dos valores do Iluminismo.

Outro momento forte da viagem de Bento XVI à Alemanha foi seu encontro em Erfurt com as Igrejas nascidas da reforma luterana.

Quanto a Martinho Lutero, o Papa não recordou as ações de ruptura com a Igreja de Roma, mas sua dramática e incessante busca de um Deus capaz de misericórdia para com uma humanidade profundamente marcada pelo mal e pelo pecado.

“A candente pergunta de Lutero deve converter-se novamente na nossa pergunta”, disse Bento XVI. Deste modo, traçou um caminho ecumênico que não é uma tática de negociação a curto prazo, nem enfraquecimento da fé para aproximá-la do mundo, mas recuperação das questões essenciais do cristianismo, as únicas pelas quais as Igrejas têm razão de ser e de falar juntos aos homens.

* * *

Mas os discursos de Bento XVI que mais discussão provocarão são, talvez, aqueles que ele dirigiu aos católicos da Alemanha e, através deles, ao conjunto do catolicismo do Ocidente.

Na Alemanha marcada, não apenas entre os protestantes, mas também entre os católicos, por persistentes sentimentos antirromanos e por pressões recorrentes para efetuar reformas disciplinares e práticas, como a abolição do celibato do clero, o sacerdócio para as mulheres, a comunhão para os casais de segunda união, a eleição “democrática” dos bispos, Bento XVI não fez concessões, nem sequer as citou, mas obrigou a todos, inclusive seus defensores, a considerar a gravidade do que está em jogo.

A Igreja católica alemã – fez notar o Papa – é uma potência “organizada de forma ótima”. Também as reformas continuamente solicitadas pertencem a este âmbito estrutural. “Mas, por trás das estruturas – perguntou o Papa – há uma força espiritual correspondente, a força da fé no Deus vivo?”.

Para Bento XVI “há um desnível entre as estruturas e o Espírito”. Porque “a verdadeira crise da Igreja no mundo ocidental é uma crise de fé”. Consequentemente, “se não chegarmos a uma verdadeira renovação na fé, qualquer reforma estrutural será ineficaz”.

Aqui o Papa está falando aos dirigentes do Comitê Central dos Católicos Alemães, mas disse coisas afins também na homilia da Missa celebrada em Friburgo, no domingo 25 de setembro, e no encontro posterior com os católicos “engajados na Igreja e na sociedade”.

Em vez de reformas de instituições e de estruturas, que para ele seria um estéril acomodamento da Igreja ao mundo, Bento XVI pregou uma reforma interior, espiritual, centrada no supremo “escândalo” da Cruz, escândalo “que não pode ser suprimido se não se quiser anular o cristianismo”: escândalo, infelizmente, “ensombrecido recentemente pelos dolorosos escândalos dos anunciadores da fé” e que se tornaram culpados pelos abusos sexuais perpetrados contra menores.

O Papa precaveu contra uma fé exclusivamente individual, fechada sobre si mesma. Insistiu sobre o vínculo indissolúvel que une todo cristão ao outro na Igreja universal.

Mas também anunciou um futuro, na Alemanha e no Ocidente, feito não por grandes massas de fiéis, mas por “pequenas comunidades de crentes”, daqueles que em outras ocasiões ele chamou de “minorias criativas”, capazes, em uma sociedade pluralista, de “despertar em outros o desejo de buscar a luz”.

Na homilia da Missa celebrada em Friburgo, o Papa confiou inclusive a precedência “no Reino de Deus” a estes inquietos buscadores da luz, em vez dos fiéis rotineiros:

“Os agnósticos que, por conta da questão de Deus, não encontram a paz; aqueles que sofrem por causa de seus pecados e têm desejo de um coração puro, estão mais próximos do Reino de Deus do que os fiéis rotineiros, que veem na Igreja somente o que aparece [o sistema], sem que seu coração seja tocado pela fé”.

Isso não é tudo. No discurso dirigido aos católicos engajados na Igreja e na sociedade, Bento XVI invocou para a Igreja uma purificação não apenas dos “excessos” de suas estruturas organizativas, mas das riquezas e do poder em geral, de “seu fardo material e político”. Recordou que isso já valia no Antigo Testamento para a tribo sacerdotal de Levi, que não possuía um patrimônio terreno, mas “exclusivamente a palavra de Deus e seus sinais”.

Estas são afirmações que Joseph Ratzinger sempre harmonizou com outras afirmações complementares. Também o fez desta vez.

Por exemplo, a propósito dos “fiéis rotineiros” precedidos no Reino dos Céus pelos agnósticos que estão na busca de Deus, notou-se que em outro momento de sua viagem – na vigília com os jovens – o Papa confirmou que todos os batizados, inclusive os mais tíbios e rotineiros, são de todos os modos definidos justamente como “santos” pelo apóstolo Paulo, e não por serem bons e perfeitos, mas porque são amados por Deus e chamados todos por ele a ser santificados.

E a propósito de uma Igreja despojada de bens e de poderes terrenos, devemos notar que Bento XVI também insistiu muitas vezes na Alemanha sobre o dever de uma vigorosa “presença pública” desta mesma Igreja, impensável sem seu “corpo” material que faça realidade a fé com as obras.

Mas fica claro que nunca antes desta viagem Bento XVI havia insistido tão acentuadamente no registro espiritual. Jamais havia dado uma preeminência tão forte ao ideal de uma Igreja pobre em estruturas, em riquezas e em poder.

Mas, ao mesmo tempo, nunca antes do discurso que pronunciou no Parlamento, o Papa Bento XVI havia reivindicado tão incisivamente ao cristianismo o fato de ser o fundamento da cultura jurídica ocidental e de toda a humanidade. E à Igreja, de ser hoje a grande defensora dessa civilização, em uma época em que está perdendo seus fundamentos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O garoto de rosa-shocking*

Ilustração: Kareena Zerefos

Meu filho se chama Marina. Ou pelo menos, é assim que ele gosta de ser chamado na maior parte do tempo. Ninguém sabe o motivo da escolha do nome, ou a razão da rejeição pelo nome que seu pai e eu lhe demos, o fato é que se um estranho lhe pergunta “Qual é o seu nome?”, a resposta é invariavelmente “Marina”.

Antes de ser Marina, ele fora Yellow, Blue Meanie, leãozinho, Pato Fu, e uma infinidade de nomes que não me recordo no momento. Depois de Marina, ele eventualmente se transforma em Sonequita, Denguinho, Pocoyo… Certa vez, entre sorrisos amarelos, justifiquei que a escolha do nome Marina viria de uma personagem de desenho animado, quando ele me olhou, inquisitivo. Não, não era esse o motivo. Marina era ele, não era uma personagem. Mas liderado pelo desconforto causado pela resposta, vez ou outra ele completa “É Marina por causa do Peixonauta.”

Pergunto-lhe se não gosta de seu nome – Benjamin. Nome bonito, que papai e eu escolhemos. Não gosta, quer bater no Benjamin. Benjamin foi embora, jogou-se no mar. Benjamin atravessou a rua sem a mamãe. Em outra palavra, a qual ele ainda não consegue captar o significado, Benjamin morreu. E ele, quem é? É Marina.

Se eu disser que nunca me preocupei com isso, estarei mentindo. Quando a fase do nome Marina passou da primeira semana, uma luz se acendeu eu minha cabeça. Yellow durara bastante, mas havia um motivo explicável para isso, ao contrário de Marina, que surgira do nada. Mas o bicho pegou quando ele respondeu para outra pessoa que seu nome era Marina, Yellow nunca havia respondido isso. A questão é que nos importamos sempre com o que os outros pensam, pois o julgamento alheio é fermento para quaisquer conflitos internos que possamos ter.

Perguntei a duas psicólogas de correntes diferentes, e ambas responderam que era natural. Perguntei à coordenadora pedagógica da escola, que não viu nenhum problema. Tentei relaxar, mas sempre sinto uma contração involuntária de vergonha quando ele fala em vídeo para milhares de leitoras que seu nome é Marina. Certa vez, em um centro de compras, Marina pediu que lhe alugasse um carrinho especial. Estávamos de férias, sem nada para fazer ali, cedi. Marina queria o carro verde do Palmeiras? Não, Marina pediu o carro cor-de-rosa. A funcionária me olhou chocada: eu deixaria tal transgressão ocorrer? Mas rosa é de menina, ela ainda arriscou. Nem foi ouvida por ele, embora tenha sido por mim. Então Marina passeou no shopping no carrinho cor-de-rosa.

É curioso que eu tenha ficado extremamente revoltada com o comentário da moça do shopping de que rosa era para meninas. Não, respondi, não é para meninas. Você pode usar a cor que quiser. No entanto, me contorço com a escolha de nome. Mas Marina é nome de menina, arrisco eu. Marina é o nome da sua coleguinha da escola, é o nome da nossa vizinha. A Marina do Peixonauta é menina também. E o Benjamin, é menino ou menina? É Marina.

Meu filho tem 2 anos e 4 meses. Ele não tem distinção de sexo, e nunca foi ensinado a diferenciar brinquedos de meninos ou meninas. Brinca de bonecas, brinca de cozinha, mas troca tudo por um carrinho. Com sua familinha de pano, ainda não se identifica com o menininho, ou a menininha. Ele permanece sendo o bebê, de sexo neutro. Meu filho gosta de colocar colares e pulseiras cor-de-rosa, e gosta também do relógio do papai. Meu filho é uma criança normal, e refrear qualquer impulso natural dele é transformar isso em um bloqueio que ricocheteará daqui a alguns anos em forma de frustração e negação do que ele possa vir a ser: hetero, homo, trans. Chamar-se de Marina não vai causar isso, e certamente não mudará sua orientação.

Então, meu filho se chama Marina.

- Nanda, no blog Mamíferas

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*O título do post é uma cópia descarada de um artigo da revista Mothering, que pode ser ouvido em áudio (inglês) aqui. Esse artigo, juntamente com outros da revista Mothering, foi um dos que me fez perceber que não há problema algum em meu filho se chamar Marina às vezes, e até quando ele quiser.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como a homofobia atinge todos

Escultura: Richard Howie

Nas várias formas de opressão, membros do grupo alvo (às vezes denominado "minoria") são oprimidos, enquanto, nalguns níveis, membros do grupo dominante ou agente são prejudicados. Embora os efeitos da opressão sejam qualitativamente diferentes para o grupo alvo e para o grupo agente, no fim todos acabam perdendo.

1. A homofobia encerra todas as pessoas dentro de papéis sociais rígidos com base no gênero e inibe a criatividade e expressão pessoal e individual.

2. Um contexto homofóbico põe em questão a integridade dos heterossexuais ao pressioná-los para tratar os outros mal, ação contrária à sua humanidade intrínseca.

3. A homofobia inibe a capacidade de cada um para criar relações próximas ou íntimas com membros do mesmo sexo.

4. Geralmente, a homofobia restringe a comunicação com uma porção significativa da população e, mais especificamente, limita relações familiares.

5. Uma sociedade homofóbica, para além de impedir o desenvolvimento autêntico da identidade própria de algumas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBTs), coloca também sobre eles uma grande pressão para se casarem, situação que gera, tanto em si próprios, como nos seus cônjuges heterossexuais e filhos, estresse e, por vezes, traumas.

6. A homofobia é uma das causas para a iniciação sexual prematura, aumentando assim o risco de gravidez na adolescência e da propagação de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Jovens de todas as identidades sexuais são frequentemente pressionados a se tornarem heterossexualmente ativos para provar a si próprios e aos outros que são "normais".

7. A homofobia, combinada com sexofobia (medo e repulsa em relação ao sexo), resulta na eliminação de qualquer discussão sobre as vidas e a sexualidade das pessoas LGBT como parte integrante da Educação Sexual nas escolas, impedindo os estudantes de terem acesso a informações vitais. Esta falta de informação pode matar pessoas nestes tempos da Aids.

8. A homofobia pode ser usada para estigmatizar, silenciar e atingir pessoas que sejam vistas como ou definidas pelos outros como gays, lésbicas ou bissexuais, mas que são na realidade heterossexuais.

9. A homofobia impede os heterossexuais de receber os benefícios e contribuições que os LGBTs têm para oferecer: ideias teóricas, perspectivas e opções sociais e espirituais, contribuições na arte e na cultura, na religião, na vida familiar, em suma, em todas as áreas da sociedade.

10. A homofobia (juntamente com o racismo, o sexismo, o classismo, a sexofobia, etc) inibe uma resposta governamental e social unida e eficaz à Aids.

11. A homofobia consome e desvia energias que poderiam ser usada para esforços mais construtivos.

12. A homofobia inibe a apreciação e aceitação de outros tipos de diversidade, tornando o ambiente inseguro para todos, já que todas as pessoas têm características únicas que não são consideradas mainstream ou dominantes. Por isso, todos ficamos diminuídos quando qualquer um de nós é discriminado.

Fonte: X1 Tantas Notícias

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A Igreja ante os desafios do presente

Arte: Olaf Heine, no site da Polaroid

A Igreja Católica tem ocupado insistentemente o noticiário nos últimos tempos e lamentavelmente para nós, que somos parte dela no mesmo sentir e na mesma pertença, não muito positivamente. Os escândalos da pedofilia entre membros do clero e mesmo do episcopado parecem ter destapado uma grande panela de pressão, obrigando a instituição mais antiga do mundo a rever-se em profundidade em vários pontos.

Acreditamos que isso não deixa de ser positivo. No contexto da grande e radical mudança de época que vivemos, ser levada a olhar-se a si mesma com olhar crítico e procurar trazer à luz pontos problemáticos que apontam para uma necessidade de conversão é uma graça que Deus nos dá neste momento da história. E, como tal, necessita ser muito bem vivida, não pode nem deve deixar de ser aproveitada.

Ressaltamos a seguir alguns desafios do presente que nos parecem importantes no atual momento que a Igreja atravessa:

1. Nos últimos decênios, a Igreja Católica tem assistido à dramática diminuição de seus efetivos mais importantes. É inegável a queda das vocações sacerdotais e religiosas, a evasão dos clérigos que pedem redução ao estado laical, seja porque descobrem que o estado de vida celibatário não é algo a que se sentem chamados, seja porque não encontram mais sentido na vocação que um dia abraçaram com fervor e entusiasmo ou por outros motivos.

Isso coloca a Igreja inapelavelmente frente à crise de seu modelo. Mostra-lhe que não pode mais configurar-se e erigir-se apoiada fundamentalmente sobre o clero e os religiosos como dirigentes e líderes, deixando o laicato em posição secundária, de subordinação e sem acesso às decisões. Se persistir neste modelo, corre o risco de ver-se obrigada a desfazer-se de muitas de suas obras - como escolas, hospitais, universidades - que tanto bem fizeram à humanidade ao longo de 2000 anos que nos fazem a nós, católicos, sentir-nos humildemente orgulhosos do que somos e do que a graça de Deus ajudou-nos a construir durante este tempo.

A teologia pós-conciliar vem chamando insistentemente a atenção para o fato de que a Igreja não deve mais configurar-se como uma instituição baseada sobre um eixo de contraposição clero X laicato; religiosos X não religiosos. Este eixo dá margem a concebê-la como uma instituição elitista, onde haveria os especialistas do espírito e a gente comum e corrente, que estaria sujeita às pobres e menores contingências da condição humana. O modelo eclesiológico da Igreja como Povo de Deus que a Lumen Gentium, documento central no Concílio Vaticano II propõe para a auto-concepção da Igreja, pode ajudar-nos muitíssimo a todos os batizados neste momento de revisão. Trata-se de um modelo que concebe a comunidade eclesial a partir daquilo que é mais fundamental para todos os seus membros: o Batismo que os configura a todos e a cada um a Jesus Cristo, Senhor e Mestre a quem todos desejam seguir e servir. A partir desta dignidade que a todos iguala é que surgem os ministérios como serviços e não como privilégios.

2. A Igreja Católica, além disso, juntamente com as outras Igrejas cristãs históricas, tem visto diminuir e desaparecer consideravelmente sua hegemonia e sua força de configuração do comportamento da sociedade civil. De matriz cultural e civilizatória principal e central do Ocidente, passa a ser uma entre outras propostas religiosas, dividindo com estas o espaço e o imaginário da população, e sendo chamada fortemente a dialogar com essas diferentes visões, na abertura e na fraternidade, sem disputas ou combates estéreis. O mundo é plural, não mais teocêntrico. Nem mesmo moderno antropocêntrico de corte cartesiano. Outras cosmovisões, outras experiências religiosas, outras dimensões vitais e salvíficas foram trazidas para perto pela tecnologia, pela globalização e por muitos outros fatores. Há que olhá-las de frente e com elas dialogar. Mais: há que a elas dar as mãos para construir juntos os grandes desafios da humanidade: a justiça e a paz. O Papa Benedito XVI fala belamente sobre isso em sua última Encíclica Caritas in Veritate. Integrar as alteridades e as diferenças, delas aprender humildemente, contribuir com aquilo que nos é próprio e com o que constitui nossa identidade, eis o que enriquece e que pode nos fazer todos mais fraternos, mais irmãos, mais humanos.

3. A Igreja Católica neste primeiro quartel de século XXI vê-se convidada a voltar seus olhos para outros hemisférios: o hemisfério oriental e o hemisfério sul. Sempre identificada com o Ocidente europeu, considerado a matriz da civilização ocidental e cristã, agora resulta que a maioria dos cristãos e católicos se encontra na Ásia, na África e na América Latina. O superior geral dos jesuítas, Pe. Adolfo Nicolás, em recente discurso no México, chamou a atenção para o fato de que a grande maioria das vocações para a importante ordem religiosa pela qual é responsável se encontra na India, no Vietnam, na Coréia. Ou ainda na África e na América Latina. Reconheceu publicamente que o próximo superior geral da ordem poderá ser asiático ou africano ou latino-americano. Isto significa que a Igreja está sendo convidada a redirecionar seu olhar para essas partes do mundo onde estão os deserdados do progresso e de suas benesses. Aí estão as culturas dominadas, exploradas secularmente pelo norte vitorioso que escreveu a história oficial. Sem desconhecer todo o bem e a maravilha que muitos missionários presentes nestas regiões fizeram ao longo destes mais de vinte séculos de história, é o momento, parece, de descentrar a Igreja, de mudar seu epicentro do norte para o Sul e do oeste para o leste, procurando ouvir e captar o que Deus está dizendo à comunidade eclesial como um todo desde estas margens da história que sempre foram esquecidas e desvalorizadas por uma visão muito marcada por certo modo de ver e sentir e certo estilo de viver. Pode ser uma excelente oportunidade de abertura e conversão para toda a Igreja em todos os seus segmentos e um saudável momento de um recomeço no seguimento de Jesus em novas bases e novos paradigmas.

No entanto, nenhum destes desafios pode ou deve ser respondido apenas com a adoção de estratégias ou táticas inovadoras e sofisticadas. Os estudos sociológicos e a lucidez histórica podem ajudar-nos mas não nos porão no caminho certo se não vierem acompanhadas de uma profunda atitude espiritual. Nesse sentido, as últimas alocuções do Papa sobre a necessidade da penitência para toda a Igreja, desde o sucessor de Pedro até o mais humilde dos fiéis, reconhecendo um pecado e uma insuficiência que é de todos nós, apontam numa direção que é a única onde podemos estar seguros de ser guiados pelo Evangelho de Jesus. Não é com arrogância ou dureza, apontando o dedo acusatório contra pessoas ou grupos, que poderemos, enquanto Igreja, sair da crise em que estamos mergulhados. Mas sim com a atitude humilde do publicano que bate no peito e se reconhece pecador entre todos os outros, pede misericórdia e luz por parte do Senhor, para ver por onde caminhar. A transparência e a verdade que devem caracterizar a Igreja neste momento doloroso pelo qual passa, se não vierem acompanhadas da humildade e do arrependimento, da penitência e da conversão, não poderão levá-la muito longe no único caminho que deve ser o seu: o de refletir no meio do mundo a face do Senhor Jesus, que sendo rico se fez pobre, obediente até a morte de Cruz.

- Maria Clara Bingemer
Teóloga, professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio
Reproduzido via Dom Total

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Três links e um brinde

Instalação: Elise Morin

Rapidinho, três links para baixar trabalhos acadêmicos de qualidade sobre a relação entre homoafetividade e cristianismo:

Via(da)gens teológicas: itinerários para uma Teologia Queer no Brasil (tese de doutorado de André S. Musskopf, Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia). Aqui

Homossexualidade, religião e gênero: a influência do catolicismo na construção da auto-imagem de gays e lésbicas (tese de mestrado em teologia de Valéria Melki Busin), aqui

A fé e os afetos: Diversidade Sexual, Catolicismo e Protestantismo em sites de grupos cristãos inclusivos, por Murilo Silva de Araújo e Maurício Caleiro. Trabalho apresentado no Intercom Júnior – IJ 07 – Comunicação, Espaço e Cidadania, do XVI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, realizado de 12 a 14 de maio de 2011. (O Diversidade Católica está aqui! ;-)) Aqui

E um brinde:
"A Igreja do Diabo", conto de Machado de Assis. Uma análise atemporal (e deliciosa) sobre ética, vícios, virtudes e humanidade... aqui (RT @Wedge_issue) #ficadica

Com amor,

Cris
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