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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus"


Na nossa reunião deste sábado discutimos a Exortação do papa sobre a evangelização. Foram selecionados e destacados em negrito (abaixo) os conteúdos que mais nos ajudam em nosso apostolado, seja para refutar posições legalistas e intransigentes, seja encorajar um cristianismo aberto e inclusivo.

Estamos convencidos de que ventos muito favoráveis estão soprando a nosso favor. Podem conferir.

Equipe Diversidade Católica

Papa Francisco - Exortação Apostólica Evangelii gaudium
sobre o Anúncio do Evangelho no mundo atual

1. A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria.

[...] 10. um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral. Recuperemos e aumentemos o fervor de espírito, «a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! (...) E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e desalentados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo» (Paulo VI).

[...] 34. No mundo atual, com a velocidade das comunicações e a selecção interessada dos conteúdos feita pelos meios de comunicação, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários. Consequentemente, algumas questões que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora do contexto que lhes dá sentido. O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos parece então identificada com tais aspectos secundários, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos não manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, convém ser realistas e não supor que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos, ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fascínio.

35. Uma pastoral em chave missionária não está obsecada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa.

36. Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimir mais diretamente o coração do Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que «existe uma ordem ou ‘hierarquia’ das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente». Isto é válido tanto para os dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral.

37. São Tomás de Aquino ensinava que, também na mensagem moral da Igreja, há uma hierarquia nas virtudes e ações que delas procedem. Aqui o que conta é, antes de mais nada, «a fé que atua pelo amor» (Gal 5, 6). As obras de amor ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do Espírito: «O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se manifesta através da fé que opera pelo amor». Por isso afirma que, relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes: «Em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes; na realidade, compete-lhe debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta – remediar as misérias alheias. Ora, isto é tarefa especialmente de quem é superior; é por isso que se diz que é próprio de Deus usar de misericórdia e é, sobretudo nisto, que se manifesta a sua omnipotência».

38. É importante tirar as consequências pastorais desta doutrina conciliar, que recolhe uma antiga convicção da Igreja. Antes de mais nada, deve-se dizer que, no anúncio do Evangelho, é necessário que haja uma proporção adequada. Esta reconhece-se na frequência com que se mencionam alguns temas e nas acentuações postas na pregação. Por exemplo, se um pároco, durante um ano litúrgico, fala dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na pregação e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei que da graça, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra de Deus.

39. Tal como existe uma unidade orgânica entre as virtudes que impede de excluir qualquer uma delas do ideal cristão, assim também nenhuma verdade é negada. Não é preciso mutilar a integridade da mensagem do Evangelho. Além disso, cada verdade entende-se melhor se a colocarmos em relação com a totalidade harmoniosa da mensagem cristã: e, neste contexto, todas as verdades têm a sua própria importância e iluminam-se reciprocamente. Quando a pregação é fiel ao Evangelho, manifesta-se com clareza a centralidade de algumas verdades e fica claro que a pregação moral cristã não é uma ética estóica, é mais do que uma ascese, não é uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros. O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos. Este convite não há de ser obscurecido em nenhuma circunstância! Todas as virtudes estão ao serviço desta resposta de amor. Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter «o perfume do Evangelho».

40. A Igreja, que é discípula missionária, tem necessidade de crescer na sua interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade. A tarefa dos exegetas e teólogos ajuda a «amadurecer o juízo da Igreja». Embora de modo diferente, fazem-no também as outras ciências. Referindo-se às ciências sociais, por exemplo, João Paulo II disse que a Igreja presta atenção às suas contribuições «para obter indicações concretas que a ajudem no cumprimento da sua missão de Magistério». Além disso, dentro da Igreja, há inúmeras questões à volta das quais se indaga e reflete com grande liberdade. As diversas linhas de pensamento filosófico, teológico e pastoral, se se deixam harmonizar pelo Espírito no respeito e no amor, podem fazer crescer a Igreja, enquanto ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho (nota nº44:...temos necessidade de ouvir-nos uns aos outros e completar-nos na nossa recepção parcial da realidade e do Evangelho).

[...] 43. No seu constante discernimento, a Igreja pode chegar também a reconhecer costumes próprios não directamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns muito radicados no curso da história, que hoje já não são interpretados da mesma maneira e cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo adequado. Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. São Tomás de Aquino sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus «são pouquíssimos». E, citando Santo Agostinho, observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com moderação, «para não tornar pesada a vida aos fiéis» nem transformar a nossa religião numa escravidão, quando «a misericórdia de Deus quis que fosse livre». Esta advertência, feita há vários séculos, tem uma actualidade tremenda. Deveria ser um dos critérios a considerar, quando se pensa numa reforma da Igreja e da sua pregação que permita realmente chegar a todos.

44. Aliás, tanto os Pastores como todos os fiéis que acompanham os seus irmãos na fé ou num caminho de abertura a Deus não podem esquecer aquilo que ensina, com muita clareza, o Catecismo da Igreja Católica: «A imputabilidade e responsabilidade dum ato podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e outros fatores psíquicos ou sociais» (nº1735). Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas.

45. [...] Um coração missionário está consciente destas limitações, fazendo-se «fraco com os fracos (...) e tudo para todos» (1 Cor 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um grande mestre e aliado se vai


Faleceu no dia 30 de janeiro o padre João Batista Libânio, SJ, mestre e doutor em Teologia e teólogo da libertação. Sua obra lhe rendeu uma legião de admiradores dentro de fora da Companhia de Jesus, dos quais alguns criaram o site http://jblibanio.com.br, reunindo importantes materiais do teólogo, conforme nota publicada no jornal O Globo. Sua morte foi lamentada pelo Papa Francisco, segundo quem "Libânio fez muito bem à Igreja e à Vida Consagrada” (aqui) Leonardo Boff referiu-se a ele como seu "amigo-irmão", que "morreu de pé, vela acesa" (aqui).
 
Professor de Teologia no Instituto Santo Inácio de Belo Horizonte, o Pe. Libânio teve entre seus alunos alguns importantes aliados nossos aqui no Brasil, como, por exemplo, James Alison. Embora durante um bom tempo tivesse mantido as concepções dominantes da doutrina católica em relação aos homossexuais, com a convivência ele se abriu a novas perspectivas, a ponto de ter escrito o prefácio do livro do Pe. Alison sobre a relação entre LGBTs e Igreja, "Fé além do ressentimento", que reproduzimos na íntegra aqui e da qual selecionamos alguns trechos a seguir.

Um grande teólogo, sem dúvida. Fará imensa falta. Que possa seguir intercedendo por nós junto ao Pai, e que sirva de inspiração a outros para seguirem seus passos pelos caminhos que abriu.



(...) Evita gerar no leitor extremos do sentimento de rejeição da condição gay ou de compaixão pela vítima ou de revolta contra o sistema social ou contra a máquina eclesiástica. Atravessam-lhe a obra transparência e honestidade do relato. Em qualquer situação existencial, gay ou não, o leitor se toca. A pessoa gay certamente encontra uma palavra de libertação, não pela via barata da contestação, mas por honesto processo reestruturante interno, baseado fundamentalmente na ação criativa e bondosa de Deus e apoiado por inúmeras passagens da Escritura feita em voz gay.

(...) Não se trata de fazer das pessoas gays vítimas e cerrar fileiras ao seu lado contra o aparato eclesiástico, nem também de posicionar-se como defensor deste em nome da lei e da norma, sem alcançar o espírito íntimo do cristianismo.

(...) Ressentimento não se supera com luta, com batalhas contra ou em defesa de alguma posição julgada errada tanto pelos que rejeitam o mundo homossexual quanto pelos que o defendem. Não vai por aí. Mesmo o mais intransigente inquisidor se sente tocado e questionado pelo livro. Solapa-lhe a base inquisitorial.

(...) A libertação vem da dupla experiência de sentir-se filho amado de Deus e de poder dizer “nós” numa comunidade de irmãos em Igreja, sinal de um Reino apenas imaginável.

O discurso eclesiástico, que considera algum grupo de pessoa como “os outros”, separando-os do corpo eclesial, gera vítimas. Deus criador de todos, a quem ama incondicionalmente e que nos fala como a irmãos em seu Filho Jesus, refuga os mecanismos geradores da exclusão em nome da inclusão querida por ele.

(...) A verdadeira natureza de Deus se descobre não por meio da verticalidade de uma paternidade que se impõe, mas pela horizontalidade de uma fraternidade que se vive. Essa ideia volta sob muitos aspectos como fundamental da leitura cristã de Deus.

(...) No decorrer do livro, o leitor detecta como muitas atitudes e escritos eclesiásticos não respondem a gestos, palavras e atitudes de Jesus. Alison o mostra por fidelidade à mensagem evangélica e não em nome de algum confronto. Um dos pontos fundamentais dessa obra consistiu em pensar teologicamente em voz gay, sem ressentimento nem proselitismo, mas de maneira serena, fina e profunda. Se há algo duro, não vem do discurso, mas da própria objetividade da realidade.

(...) A todo o texto preside a convicção vivida de que o amor de Deus excede a todo desenho humano e não há diferença que esteja fora do longo e amoroso olhar de Deus.


Leia o prefácio do Pe. Libânio para o livro "Fé além do ressentimento" na íntegra aqui.

(Com as preciosas colaborações de Lula Ramires e Cristiana Coimbra, da Pastoral da Diversidade/SP)





quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O Brasil depois daquele beijo


Nunca um beijo teve tanta repercussão nacional no Brasil como o do casal gay da novela Amor à Vida da TV Globo. O importante é que a repercussão foi notoriamente positiva, quase uma festa. Isso significa que a sociedade brasileira está amadurecendo sua aceitação dos diferentes? O Brasil é outro, depois da sexta-feira, 31 de janeiro de 2014 quando, às 23h08, dois homossexuais se beijaram diante de milhões de pessoas sem que ninguém se escandalizasse?

Li na internet, críticas feitas na Argentina de pessoas que criticam o Brasil pela “absurda repercussão” gerada por um simples beijo gay. E criticam este país de ser um país “socialmente atrasado”.

Equivocam-se esses nossos irmãos argentinos. Talvez o Brasil proceda mais lentamente que os outros em sua conquista das igualdades sociais, da defesa dos direitos humanos e da aceitação dos diferentes, mas tem uma qualidade: quando o faz, não volta atrás. Nos últimos 20 anos, apesar dos graves atrasos em alguns temas de direitos sociais, o Brasil avançou de maneira significativa.

Hoje, a maioria (54%) dos brasileiros aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e subiu de 40% para 54% o percentual dos que vêem com bons olhos que um casal de gays ou lésbicas adotem filhos, algo impensável há alguns anos.

Costuma-se dizer que a sociedade brasileira é mais atrasada, mais conservadora e mais de direita que o Congresso. O beijo da TV Globo e a simpatia gerada em todo o país por aquela cena revela que não é sempre assim. Hoje por exemplo, está parada no Congresso uma lei que considera crime a homofobia. Os ilustres progressistas congressistas não são capazes da aprovar, apesar de ter tido em 2012 a cifra horrível de 338 assassinatos homofóbicos, 27% a mais que em 2011, como lembrou neste diário Talita Bedinelli em sua preciosa matéria. Tudo isso porque o grupo de deputados evangélicos impede sua aprovação. Um grupo que é mais conservador e intransigente que o público religioso, já que não há dúvida que entre os milhões de telespectadores que viram com simpatia o tabu do beijo gay cair, uma boa parte (talvez uma maioria) era de evangélicos. E não parece que tenham se escandalizado. Nestes tempos de manifestações de rua, não teve nenhum pequeno grupo que tenha saído para protestar contra aquele beijo.

No Brasil -como de modo geral nos países latino-americanos- a aceitação dos diferentes e o respeito em relação a que cada um use com liberdade seu próprio corpo e possa viver sem ser discriminado por sua sexualidade avançou nos últimos tempos.

Todos os verdadeiramente democratas gostariam que esse processo fosse mais rápido, mas na realidade, hoje as coisas avançam em poucos anos mais que antes em séculos. Faz só 70 anos (não séculos) que, na hoje moderna e secularizada Espanha, os sacerdotes e bispos lançavam dos púlpitos das Igrejas maldições contra os católicos que frequentavam as praias e contra as mulheres que ousassem aparecer nelas em biquíni, uma peça que se dizia que era “objeto de pecado” e “inventada pelo demônio”.

As autoridades franquistas, obedientes à Igreja, proibiram o uso do biquíni, o que provocou cenas grotescas como a dos policias civis vigiando as praias para levar à delegacia as mulheres “indecentes” que seguiam o usando a peça. Conta-se que em uma manhã, um guarda se encontrou com uma turista em uma praia do sul e lhe perguntou se não sabia que estava proibido estar ali com um traje de banho de “duas peças”, isto é, em biquíni. A turista- devia ser britânica por seu humor- respondeu-lhe: “Então, senhor guarda, diga-me qual das duas peças eu devo tirar”. E isso foi praticamente ontem.

E os gays? Eles eram chamados depreciativamente de maricas, um apelativo que constituía a maior afronta, o maior insulto capaz de se fazer a um homem, que devia ser “quanto mais macho melhor”. Os diferentes eram mariquinhas e o ditador Franco odiava-os e os perseguia.

Que as coisas mudaram é inegável; que o Brasil após o beijo gay será mais aberto às diferenças também é muito possível. Ninguém, é verdade, vai pensar que a partir de hoje se acabarão as agressões e assassinatos de homossexuais, mas é muito possível que esse número, que envergonhava a esta sociedade, de 338 assassinatos homofóbicos possa diminuir a partir de agora. Se apenas um homossexual deixasse de ser assassinado, já valeria a pena aquele beijo da televisão.

Os analistas sociais estão convencidos de que o avanço que o Brasil fez nestes anos na batalha a favor do respeito às diferenças se deveu em boa parte a uma sociedade mais consciente e aberta que, junto dos grandes meios de comunicação e das redes sociais, tem criticando duramente as tentativas das forças mais reacionárias contra os homossexuais.

Alguns gays até choraram de alegria e emoção vendo cair aquele tabu na TV Globo. Entendo-os. Esses milhões de diferentes sofreram já demasiadas humilhações e até o papa Francisco teve que sair em sua defesa. Chegou a hora de que possam viver em paz como os demais cidadãos.

O que seria positivo é que, já que a sociedade está se aproximando deles para compreendê-los e defendê-los, que eles também fizessem um esforço para reconhecer. Existe, por exemplo, uma expressão usada pelos gays que talvez devesse desaparecer de seu dicionário já que, ao ter mudado a sociedade, isso poderia carecer de interesse. Refiro-me ao orgulho gay. É verdade que isso era uma provocação aos que se achavam superiores por não ser gays. Hoje, que começamos a nos aceitar todos como iguais, esses orgulhos deveriam desaparecer para estendermos juntos, gays e não gays, a mesma bandeira da liberdade para viver a própria sexualidade.

Deveríamos nos sentir felizes e orgulhosos, todos, de ter avançado na aceitação dos que até ontem considerávamos diferentes de forma negativa. Sentir-se todos iguais respeitando nossas diferenças é a melhor conquista civilizatória. O Brasil está no caminho. E com um beijo. Na filosofia gnóstica, que esteve a ponto de se converter na primeira teologia do cristianismo, o beijo significava além de um símbolo de afeto sexual, a “transmissão de sabedoria”, algo que a Igreja não entendeu quando se escandalizou com os evangelhos gnósticos onde se lê que Jesús “beijava na boca” Maria Madalena. E isso faz mais de dois mil anos.

- Juan Arias

Fonte

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A reação conservadora


Impressionante como desde o beijo na novela os ataques homofóbicos aqui no blog e na página do Diversidade Católica no Facebook se multiplicaram. É a rebordosa conservadora... :-(

Como disse meu amigo Hugo Nogueira, um dos moderadores do nosso blog: "É o preço que se paga pela visibilidade, mas os benefícios são muito maiores, vejo cada vez mais demonstrações de afeto em público sem reações adversas. A internet acoberta os covardes."

Por outro lado, o Rodolfo Viana, também da equipe do blog, lembrou (e muito bem lembrado) que é o movimento típico de resistência que ocorre durante um processo de mudança de mentalidade, sobretudo quando a transformação começa a ganhar corpo e a se fazer sentir. O sistema resiste à mudança, e a reação é violenta. Como neste caso.

Acredito que a mudança da nossa sociedade e a gradual substituição não só da homofobia, mas de toda misoginia e da nossa dificuldade de lidar com tudo o que difere do padrão patriarcal hegemônico, são inevitáveis. Mas o processo que atravessamos não é linear, nem homogêneo; ao contrário, é intermitente e sinuoso, cheio de idas e vindas - e é aí que mora o perigo maior, para o qual precisamos nos manter atentos, mais do que nunca.

Nosso amigo Teleny comentou muito bem em seu blog (aqui):
As redes sociais têm a sua dinâmica própria que em parte demonstra a evolução da mentalidade humana. Tirando uma margem que a tela de um computador proporciona, isto é, aquela diferença entre as coisas que se tem a coragem de escrever, mas nunca se diria na cara do outro, em sua grande parte, a discussão tão acalorada como essa, mostrou o crescimento vertiginoso de posicionamentos radicais. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de observar isso principalmente entre os jovens. Eu sei que a juventude é radical (OK, digamos: idealista) por natureza e que a moderação (no bom e no mau sentido) ocorre com o tempo, através de choques com a realidade, de decepções, de cansaço e de comodismo, bem como através de estudo e de um amadurecimento em geral. 
A humanidade apresenta a mesma dinâmica de forma ainda mais clara. É uma interminável conquista, é a descoberta, é o avanço constante. Sem dúvida, como em cada caminhada, houve tropeços, capazes até de travar por algum tempo o natural progresso da civilização. Tais tropeços tornaram-se, no entanto, uma fonte de sabedoria e enriqueceram a consciência coletiva do gênero humano, passando de uma geração para outra. E é, justamente, neste fluxo de gerações que a gente deposita a expectativa dos tempos melhores. Repete-se, de certa forma, a experiência do povo de Israel que, no final de sua longa peregrinação rumo à terra prometida, constatou que era preciso que morresse aquela geração e surgisse a outra, para obter a vitória definitiva (cf. Jos 5, 6-7). É tão natural a suposição - quase automática - de que cada nova geração supere em suas qualidades a geração anterior.
A impressão que tenho, após a leitura das berrantes declarações homofóbicas daqueles que representam a Igreja Católica Apostólica Furiosa, é que as coisas irão piorar. Essas pessoas, ainda que confusas em sua argumentação e apresentando as falhas graves na compreensão e no uso da língua portuguesa, estão profundamente convencidas quanto à razão exclusiva e absoluta daqueles princípios que nós tão bem conhecemos e que tanto mal já nos fizeram. (...) É como a "Juventude Hitlerista" (Hitlerjugend). Esta analogia pode parecer drástica demais, porém, trata-se de uma lógica semelhante (...). A crueldade das declarações verbais anuncia uma nova, maior onda da homofobia, com a base no cego fundamentalismo cristão. Lamentavelmente...

Um exemplo é a notícia da gangue de jovens de classe média que se lançaram às ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro - não nos rincões longínquos de uma "periferia" qualquer, mas no coração da sociedade dita "civilizada" - com o propósito declarado de caçar "gays, 'cracudos' e assaltantes" e fazer justiça com as próprias mãos. "Limpar" a sociedade do que eles entendem ser a "escória" que a polui - e, nisso, seguem a lógica que legitima que se agridam gays, surrem e acorrentem ladrões a postes (este caso aqui, aliás, se deu no mesmo bairro e é possível que esteja ligado à ação da mesma gangue), assassinem travestis. No relato (assustador) de um rapaz que foi atacado pelo bando, compartilhado pelo amigo Sergio Viula em seu blog (leia aqui), podemos detectar as contradições inerentes a qualquer transformação da sociedade quando a vítima critica os garotos negros que fazem parte do grupo por perseguirem outra minoria, mas parece dar a entender que se fosse mesmo pra perseguir "assaltantes e cracudos", tudo bem. A lógica da violência e da agressão ao Outro, àquele que percebo como diferente de Mim e, por isso mesmo, potencial ameaça à minha integridade, se insinua e contamina TODOS nós. (Daí ser inaceitável, em qualquer circunstância, partir para o linchamento e o fazer justiça com as próprias mãos - inclusive dos nossos agressores homofóbicos. A propósito, leia isto aqui.)

Outro exemplo dos paradoxos do processo, voltando à novela: o beijo gay ressuscitou o auê em torno da suposta ameaça que os LGBTs representamos à "família tradicional" - levando um pastor/deputado estadual baiano a anunciar que vai entrar com uma ação na Justiça contra a Globo. O problema dos que defendem a família tradicional é que, ao se fixar em um modelo único, eles têm de atacar todas as outras, e acabam sendo muito mais nocivos à dignidade da família em todas as suas formas e da pessoa humana em geral, pois deslegitimam os demais formatos familiares - que nem minoria mais são, aliás. Será que todo esse rigor é mesmo coerente com os valores do Evangelho?

Toda transformação, por mais inexorável que seja, é processo - e, no seu decorrer, retrocessos a curto e médio prazos acontecem. É o dragão ferido de morte que estrebucha e, em suas convulsões, tem um enorme potencial de destruição. Esta é justamente a hora que requer mais atenção - porque, à medida que ganhamos espaço e abertura, tendemos a relaxar, e é aí que os ataques mais covardes e mais virulentos podem nos pegar desprevenidos. Façamos a nossa parte, amigos, e zelemos uns pelos outros - sempre com amor e atenção para não cedermos à tentação da mesma lógica da exclusão e da violência contra o Outro que tanto nos empenhamos em extirpar. 

Com amor, 


domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Amor à vida": um beijo pelo sonho

O beijo de Félix e Niko na novela da Globo (veja aqui; bastidores da cena aqui) e a cena final de reconciliação do pai homofóbico e seu filho gay, são uma grande vitória. Como mostrou o Jornal Nacional sábado à noite (assista aqui), e como postou nosso querido amigo Murilo Araújo no Facebook, esse beijo foi pedido, aguardado e comemorado pelas pessoas de norte a sul no Brasil. É um grande passo. Demos graças a Deus.

"Estou muito, muito feliz. Alguém comentou no twitter agora há pouco, e acho pertinente a reflexão: há 16 anos, um casal de lésbicas estava sendo explodido em Torre de Babel, por rejeição do público. Hoje, tivemos um beijo entre dois homens, na cena final... e um beijo desejado, esperado, comemorado com gritos aqui em casa e em toda a vizinhança. Para além do beijo em si, acho que Amor à Vida conseguiu prestar um bom serviço com a história que foi contada durante estas últimas semanas, cheia de doçura, carinho e sinceridade - com direito até à presença de um pai homofóbico, que se mostrou um grande babaca derrotado (mas que, no fim, conseguiu entender e acolher os gestos de amor do filho). Félix e Niko eram mais um casal, como todos os outros da novela (e até mais legal do que os outros da novela). Uma afetividade possível, mostrada de um jeito que nunca vimos antes na teledramaturgia brasileira.

Ainda há muito, muito a conquistar. Ainda precisamos conquistar o direito de beijar nas ruas, nas praças, andar de mãos dadas... Ainda precisamos conquistar o direito a ser quem quiser, o que quiser, e o direito de não ser nada se não quiser também... mas digo sempre que toda violência começa na invisibilidade, e se a gente conseguir dar um passo em direção à mudança disso, já é motivo pra comemorar. Ainda que numa emissora conservadora como a Globo, que não vai assumir uma luta real pelo direito das pessoas LGBT - essa parte, fica por nossa conta." (Murilo Araújo, no Facebook)


"Ainda vivemos num país homofóbico, infelizmente. Mas eu seria injusto em não afirmar que muita coisa mudou. Há oito anos, quando eu me assumi pra minha mãe, eu nunca imaginaria ver na novela das nove o que eu vi em “Amor à Vida”. O afeto, o carinho, os dramas de um casal gay de uma forma tão nua, tão crua. Um contato físico mais próximo, não aquela coisa fria e forçada como em “América” ou “Paraíso Tropical”, por exemplo. Pela primeira vez, nós fomos os protagonistas. Eu vi Félix e Niko como todo casal é, com os seus altos e baixos, com os seus sonhos anotados na porta da geladeira. O beijo foi só um pedaço disso tudo.

A cena final [assista aqui], quando Félix, apesar de todas as bengaladas, xingamentos e patadas, ainda demonstrava vontade em fazer parte da vida do pai, é o que merece a minha ovação. Enfim, foi aceito. Não porque o orgulho de César estava ferido, mas porque ele percebeu que, independente da orientação afetiva do filho, ele estava lá por ele. Assim como nós, gays, estamos aqui pelo Brasil, mesmo com todo o desprezo que ainda somos tratados." (André Pacheco, no Vestiário, publicou aqui)

"Quem fez esse beijo existir não foram os gays, lésbicas, mas, sim, o povo brasileiro, que manifestou torcida, mandou cartas para a Globo. Isso é uma emoção." (Carlos Tufvesson, militante dos direitos humanos e responsável pela Coordenador Especial de Diversidade Sexual do Rio, aqui)

"É um pequeno passo na dramaturgia, mas um grande passo na sociedade." (Mateus Solano, intérprete de Félix, aqui)


E, para assinalar a importância desse beijo com um dos muitos relatos de casos reais que já vimos desde ontem, reproduzimos abaixo esse relato emocionante, publicado no Facebook pela página Cartazes & Tirinhas LGBT, a partir da coluna da Majú Giorgi no iG (vale a leitura, aqui):

(Clique na imagem para ampliar)

Porque tornar-se visível, amigos, é o princípio da libertação.

(Leia mais sobre a repercussão do beijo e a nota divulgada pela Globo aqui)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Da periferia ao centro



DOMINGO III COMUM Ano A

"Para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou”.
Mt 4, 16


Jesus começou pela periferia. Foi na Galileia, território distante da “santa” Jerusalém, terra de fronteira e de misturas várias, culturais e religiosas, objecto de menosprezo dos habitantes da Judeia, que começou a sua missão. Lugar de passagem de muitas caravanas pela “estrada do mar”, dominados no passado pelos Assírios, considerava-se que “viviam nas trevas e na morte” porque, como em todas as fronteiras, a vida é feita de compromissos e mútuas influências. É na periferia da terra prometida, nos distantes e esquecidos territórios de Zabulão e Neftali que a luz das palavras e dos gestos de Jesus vai começar a brilhar. Como algo bom e novo. Bom porque salva, enche de sentido a dolorosa vida, renova a esperança e compromete todos na mudança: “Convertei-vos” (assim se entende melhor o texto em grego: “metanoêite”, “mudai de vida”). E novo porque liberta, cura, recria e levanta das “mortes” que o ritualismo vazio e a religião legalista acabam por gerar. Foi pelos pobres, pelos improváveis, pelos que contavam pouco, que Jesus começou.

E começou pelo princípio. Pelo anúncio de que é possível mudar, que o peso do passado não é maior do que a esperança do futuro, e só fica agarrado ao mal quem não gosta de si, nem dos outros, nem de Deus. Por isso a mudança é em função do “reino”, essa palavra que abarca toda a Boa Nova (“euangellion”), que toma corpo na pessoa de Jesus e que apetece seguir para toda a parte. E aí começam as surpresas! Apetece lembrar mais um dito do Papa Francisco: “O nosso Deus não é um Deus de hábitos: é um Deus das surpresas!(21.01.2014)”. Porque Jesus não só aceita que O sigam, mas Ele próprio chama alguns para andarem com Ele. Como nos esquecemos tão facilmente dessa condição de caminhantes, de amigos a caminho, que vamos ao encontro de conhecidos e desconhecidos e nos alegramos porque uma boa notícia enche as nossas vidas?

No fundo, a periferia é sempre o que está mais próximo. Nas relações humanas também caminhamos da periferia para o centro no conhecimento e na amizade. É a estratégia da raposa e do principezinho (Saint-Exupéry), de cada dia sentar-se mais perto, e começar a antecipar a felicidade do encontro. É um caminho de construção de laços e afectos, e se os discípulos foram convidados a andar com Jesus não foi para fazer turismo, mas para que no caminho por dentro de cada um, o conhecimento gerasse amor e compromisso. Nas relações, na evangelização, na construção da paz ou da unidade, se não aceitamos a humildade de caminhar da periferia para o centro, e tentamos impôr rapidamente o que julgamos certo e inquestionável, podemos fazer revoluções, mas o crescimento e a vida boa e nova de Deus não acontecem. Como podemos aprender com Jesus?

- P. Vítor Gonçalves

Fonte: Voz da Verdade (26/01/2014), via Rumos Novos

sábado, 11 de janeiro de 2014

A verdadeira abertura do Papa Francisco


O Papa Francisco, na realidade, mais do que ver diante de si “problemas” para a fé, vê questões a disputar e desafios a enfrentar: janelas e não muros. Anunciando sua renúncia ao ministério petrino, Bento XVI havia retratado o mundo de hoje como “sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé”. E as questões abrem debates", escreve Antonio Spadaro, diretor da revista Civiltà Cattolica, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 07-01-2014.

Eis o artigo.


O desafio educativo é um dos grandes desafios do mundo contemporâneo. O Papa Francisco e reafirmou recentemente em sua conversação com os Superiores Gerais, publicada em La Civiltà Cattolica. Infelizmente alguns títulos jornalísticos que falaram de “abertura aos casais gay” se anteciparam na compreensão daquilo que o Papaefetivamente disse e do grande desafio que ele delineou. A instrumentalização de suas palavras acabou sendo funcional tanto aos seus detratores de “direita”, como a quem o exalta para usá-lo à “esquerda”.

O que disse exatamente o Papa? Que o educador “deve interrogar-se sobre como anunciar Jesus Cristo a uma geração que muda”. Este é o ponto: “a tarefa educativa é hoje uma missão-chave, chave, chave!”. Para ser mais claro, deu alguns exemplos, citando algumas experiências suas em Buenos Aires sobre a preparação que se requer para acolher incontestes crianças a educar, rapazes e jovens que vivem em situação de mal-estar com a família: “Recordo o caso de uma criança muito triste que enfim confiou à professora o motivo do seu estado de ânimo: “a namorada de minha mãe não gosta de mim”.“Os percentuais de rapazes que estudam nas escolas e que têm os pais separados são elevadíssimos” São duas situações diferentes, mas que, com clareza, colocam desafios complexos: a dos filhos de pais divorciados e a dos filhos que se encontram a viver tendo como referência doméstica duas pessoas do mesmo sexo.

O Papa Francisco, na realidade, mais do que ver diante de si “problemas” para a fé, vê questões a disputar e desafios a enfrentar: janelas e não muros. Anunciando sua renúncia ao ministério petrino, Bento XVI havia retratado o mundo de hoje como “sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé”. E as questões abrem debates.

Francisco acolheu o testemunho de Bento: se os problemas não se transformam em desafios, acabam por bloquear a ação e a reflexão, ou então acabam por enrijecer a consciência atormentada pelos temores e pela desolação espiritual. Bergoglio enfrenta, portanto, a realidade com coragem e confiança em Deus, como homem de fé que é. OPapa tem sempre os olhos bem abertos sobre a realidade, e sabe perfeitamente que os desafios de hoje são maiores do que os de outrora. Sabe que – palavras suas – “as situações que vivemos hoje colocam novos desafios que às vezes são até difíceis de compreender”.

Não se podem fechar os olhos. Por quê? Por um motivo claro e preciso: porque é preciso anunciar o Evangelho a uma geração sujeita a rápidas mudanças. O Papa, portanto, não “abriu aos casais gays”, como intitularam algumas agências, ligando suas palavras a um recentíssimo debate nacional. O Papa, ao invés, abriu os olhos aos desafios que esta mudança em ato na nossa sociedade coloca ao anúncio do Evangelho. Neste sentido, portanto, é ao invés correto dizer que o Papa iniciou um debate sobre a educação.

Eis então, de fato, as suas perguntas: “Como anunciar Cristo a estes garotos e garotas? Como anunciar Cristo a uma geração que muda?” E, enfim, o seu apelo: “É preciso estarmos atentos para não subministrar aos mesmos uma vacina contra a fé”. Bergoglio supera todo enrijecimento à direita e à esquerda, e afirma uma coisa que realmente poucos notaram: o desafio educativo se conecta ao desafio antropológico. Aqui está um ponto calidíssimo que o Papa colocou com sua costumeira simplicidade, admoestando assim o educador cristão: há situações que até nos fatigamos para compreender, mas que somos chamados a enfrentar se quisermos que o Evangelho ainda seja anunciado a toda criatura.

A nosso ver, como tinha comentado a Cristiana há alguns dias aqui no blog, chamando a atenção justamente para essa deturpação das palavras do papa pela imprensa ("O que o Papa disse, e o que ele NÃO disse, sobre o casamento gay"), mais fundamental ainda do que essa ênfase na necessidade da educação é a insistência do Papa na necessidade de abertura para o diálogo, para o qual todos na Igreja precisamos nos educar. Todos precisamos nos educar para nos aproximarmos do outro de olhos, corações e mãos abertos. :-)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mãe de Lance Bass, do N'Sync, faz discurso sobre o amor aos gays em igreja


Compartilhamos com vocês este relato de Lance Bass, do N'Sync, em post publicado no Huffington Post e traduzido para o português por Marcio Caparica para o Lado Bi

Crescer sendo uma criança gay no sul dos Estados Unidos não foi fácil. O medo constante de que as pessoas descobrissem quem você é de verdade e a vergonha inevitável que cairia sobre mim e minha família ditavam como eu levava minha vida todos os dias. Para a minha sorte, eu morei em lugares em que não me lembravam o tempo inteiro que eu era uma abominação. Meus familiares, no entanto, ainda vivem numa das regiões mais intolerantes contra a comunidade LGBT e são constrangidos por terem um gay famoso na família. Quando eu saí do armário, eles tiveram que sair também.

Por anos eles tiveram que lidar com os olhares acusadores e as lamentações constantes de amigos e estranhos, como se eu tivesse morrido. “Eu sinto muito, vocês estão em nossas orações.”

Meus pais não gostam de criar caso e evitam todo tipo de atenção. Por anos eles procuraram educar a si mesmos discretamente sobre seu filho e a comunidade LGBT, como adultos responsáveis. Minha mãe (...) decidiu ir contra sua personalidade pacífica e fazer com que sua comunidade soubesse exatamente o que eles estavam fazendo com ela.

Numa carta aberta e honesta para sua igreja, ela sugeriu como que os verdadeiros cristãos deveriam agir com relação à comunidade LGBT. Essa carta foi tão bem recebida que uma outra igreja local a convidou para discursar em sua congregação, já que acreditavam que era hora de dar início a um diálogo sobre isso dentro da igreja. A transcrição desse discurso segue abaixo. Eu estou muito orgulhoso de minha família, principalmente minha mãe, por causa da maneira como ela agiu nesse período tão confuso de sua vida. Para mim, ela representa os cristãos verdadeiros, e a crença da maioria dos cristãos do país hoje em dia.
(...) Eu vim aqui compartilhar meu testemunho. Por favor entendam que eu NÃO estou aqui para discutir a questão da homossexualidade. Eu nunca faria isso porque eu não tenho todas as respostas e provavelmente jamais as terei nessa vida. A Bíblia alerta contra os ensinamentos falsos, e eu jamais diria qualquer coisa que poderia possivelmente se passar por um ensinamento enganoso. No entanto, há coisas que eu sinto que devo compartilhar, que eu sei sem sombra de dúvida serem verdadeiras, e eu as dividirei com vocês hoje a noite.

Em primeiro lugar, vocês precisam saber que eu sou batista desde que nasci. (...) Nós somos uma família cristã com raízes enterradas profundamente na igreja e nos ensinamentos da Bíblia.

Há sete anos nós descobrimos que Lance é gay. Nós fomos totalmente pegos de surpresa e ficamos arrasados, porque nunca jamais suspeitamos disso. E, também, como foi um ato tão público, a situação foi muito mais difícil para nossa família. Eu não quero me debruçar sobre os detalhes íntimos dessa revelação, mas eu vou lhes dizer que a primeira coisa que eu fiz ao saber foi cair de joelhos e me perguntar: “O que Jesus faria?”. Eu soube a resposta quase que imediatamente… Amar meu filho. E é isso que eu tenho feito. Em nenhum momento eu pensei em virar minhas costas para ele. Nem por um instante eu senti vergonha ou constrangimento. Meus sentimentos eram mais de tristeza e pura decepção com a vida.

Se você acredita que ser gay é uma opção, então tudo mais que eu vou dizer aqui não vai fazer diferença para você. Não sei porque, mas mesmo sendo uma cristã fervorosa, eu pessoalmente nunca acreditei que ser gay era uma opção. Eu nunca conheci muitos gays, mas eu sentia compaixão por aqueles que conhecia, porque podia reconhecer a dor que sentiam, e meu coração ficava muito tocado por eles. Mesmo nunca acreditando que Lance decidiu ser gay, eu não aceitei isso com a mesma facilidade que meu marido. “As coisas são como são”, foi sua atitude. A minha foi “Sim, as coisas são como são, mas Deus é capaz de operar milagres, então eu vou implorar por um milagre que fulmine Lance e faça com que ele se torne heterossexual!”. E eu fiz isso mesmo. Eu continuava amando meu filho, eu o apoiava, e o defendia, mas por muitos anos eu continuei a orar incessantemente por um milagre.

Bem, o Lance continua sendo gay. No entanto, um milagre realmente aconteceu. Só não foi o milagre pelo qual eu tanto orei. Você está presenciando este milagre nesse momento, nessa noite. O milagre foi que eu aprendi a ter um amor e compaixão incondicionais por meu filho e outros indivíduos da comunidade gay. Eu não participo de paradas ou faço discursos em convenções, mas eu sinto sim que Deus me guiou para que eu discutisse o papel da igreja nessa questão. Meu filho é cristão e deseja participar do culto, mas não sente que a igreja se importa com ele, e acredita que foi praticamente descartado como crente. Há algo muito errado nessa atitude, e eu tenho que levantar a voz em prol do meu filho e de outros que se encontram na mesma situação. (...) meu coração me diz agora que o jeito que a igreja trata aqueles que são gays também não está certo.

Eu poderia relatar para vocês inúmeras histórias que os jovens gays me contaram sobre como que os ditos cristão tratam eles, mas vou apresentar apenas uma. Um desses jovens me disse que estava em busca de Deus e visitou uma grande igreja num domingo de Páscoa. Ele estava usufruindo de uma cerimônia belíssima e sentia-se muito envolvido na experiência.

Todos estavam de pé cantando um hino, e quando ele se sentou havia um bilhete sobre sua cadeira. Nele estava escrito “Você sabe que você vai para o inferno”. Ele me disse que nunca mais foi à igreja. (...)
A pessoa que escreveu esse bilhete deveria levar em conta essas advertências. Jesus diz em Lucas 6:37 “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados”. Jesus está nos mostrando que não há como levar alguém até Ele se nós os estamos julgando e condenando.

(...) Eu acredito com todo o coração que Jesus diria a todos os cristãos gays que eles pertencem a Ele e que Ele os ama incondicionalmente. Jesus diz em João 10:27-28 “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de minha mão”.
(...) Minha passagem predileta sempre foi “Deus é nosso refúgio e nossa força, mostrou-se nosso amparo nas tribulações” (Salmos 46:1). Eu verdadeiramente encontrei refúgio no Senhor, mas infelizmente devo dizer que não encontrei refúgio na minha igreja. Nem eu, nem Lance, nem tantos outros cristãos como ele que querem ser amados e aceitados num mundo que pode ser tão cruel e cheio de ódio. Eu ainda frequento a igreja, mas admito que faço isso com o coração pesaroso, e cheia de ansiedade. Se eu me sinto assim por ser a mãe de um filho gay, vocês conseguem imaginar a ansiedade que sente um gay quando se senta numa igreja? Repito, há algo muito errado nisso.

(...) Eu rogo para que possamos todos tentar ter uma atitude como a de Cristo enquanto estamos nessa terra. Nós, como cristãos, devemos deixar o Espírito Santo nos guiar para que encontremos maneiras de alcançar a todos, não importando nossas diferenças, porque eu realmente acredito que essa é a coisa certa a se fazer. Estou convencida de que é o que Jesus faria.

Obrigada a todos por permitirem que eu compartilhasse isso com vocês, e que Deus os abençoe.

Diane Bass
 Para ler o texto na íntegra, confira o post no Lado Bi.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O mundo do domínio e da posse em crise por causa de um Menino


Um cordeiro é posto sobre os ombros do Papa Francisco
por ocasião da festa da Epifania, na Igreja Santo Afonso Maria Ligório,
na periferia de Roma. | Foto: Osservatore Romano, via

Os Reis Magos “ensinam a não nos contentarmos com uma vida medíocre, mas sim a querermos nos fascinar pelo que é bom, verdadeiro, bonito”. Foi o que disse o Papa Francisco na homilia da missa da Epifania. Tomando o exemplo dos Reis Magos, convidou “a não nos deixarmos enganar pelas aparências do que, para o mundo, é grande, sábio, potente”, mas a irmos além.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 06-01-2014. A tradução é do Cepat, via IHU.

O Papa, que celebrou a missa com os cardeais e bispos da Cúria romana, explicou que o caminho dos Magos do Oriente, que seguiam “uma luz em busca da Luz”, “simboliza o destino de cada homem: nossa vida é um caminhar, iluminados pelas luzes que iluminam o caminho, para encontrar a plenitude da verdade e do amor, que nós, cristão, reconhecemos em Jesus, a Luz do mundo”. Cada homem, assim como os Reis Magos – acrescentou Bergoglio – tem a sua disposição dois grandes “livros” dos quais se pode extrair “os sinais para se orientar na peregrinação: o livro da criação e o livro das Sagradas Escrituras. O importante é estar atento, vigiar e escutar o Deusque nos fala”.

Francisco recordou que os Reis, quando chegaram a Jerusalém perderam de vista, por um momento, a estrela, cuja luz não era vista no palácio do Rei Herodes: “Aquela demora era tenebrosa, reinava a obscuridade, a desconfiança, o medo.Herodes, de fato, mostrou-se desconfiado e preocupado pelo nascimento do frágil Menino, sentido como um rival. Na realidade – explicou o Papa – Jesus não veio para derrubá-lo, fantoche miserável, mas para ser o príncipe deste mundo! No entanto, o rei e seus conselheiros ouviram o ranger dos andaimes de seu poder, temendo que, uma vez desmascaradas as aparências, as regras do jogo mudassem”.

Assim todo um mundo “construído sobre o domínio, o sucesso e o poder, entraria em crise por um Menino! E Herodes chegou, inclusive, a mandar matar os meninos. Um padre da Igreja dizia: ‘Matas aos meninos de carne, porque o medo o mata em seu coração’. E tinha medo”. Os Reis Magos souberam superar – acrescentou Francisco – “aquele perigoso momento de escuridão de Herodes, porque acreditaram nas Escrituras, na palavra dos profetas que indicavam Belém como o lugar do nascimento do Messias”.

O Papa também lembrou outro aspecto desta luz que guia o caminho da fé: a “santa astúcia, que também é uma virtude”. Trata-se, explicou, da “sutileza espiritual que nos permite reconhecer os perigos e evitá-los. Os Reis Magossouberam utilizar esta luz da “astúcia” quando, no caminho de volta, decidiram não passar pelo tenebroso palácio deHerodes e percorrer outro caminho. Estes sábios vindos do Oriente nos ensinam a não cair nas armadilhas da escuridão e a nos defender da escuridão que tenta envolver nossas vidas. Com esta santa astúcia, mantiveram a fé. Assim como nós também devemos mantê-la. Às vezes o demônio, como disse São Paulo, se veste de luz, e nós, frente às sereias do mundo, devemos manter a fé. É necessário acolher a luz de Deus em nosso coração e, ao mesmo tempo, cultivar a astúcia espiritual que sabe conjugar simplicidade e astúcia”.

O exemplo dos Reis Magos “nos ajuda – concluiu Bergoglio – a olhar para a estrela e seguir os grandes desejos do nosso coração. Ensinam a não nos contentarmos com uma vida medíocre, sem “grandes voos”, mas deixar-nos atrair sempre pelo que é bom, verdadeiro e belo... por Deus, e para que tudo isso seja cada vez maior! E nos ensinam a não nos deixarmos enganar pelas aparências, por aquilo que, para o mundo, é grande, sapiente, poderoso. Não deve se deter aí. Não se deve se contentar com a aparência, a fachada. Em nosso tempo é necessário e muito importante que se mantenha a fé. É preciso ir além da escuridão, além do canto das sereias, da mundano, das tantas modernidades de hoje. É necessário ir até Belém onde, na simplicidade de uma casa de periferia, entre uma mãe e um pai repletos de amor e de fé, resplandece o Sol nascido do alto, o Rei do universo”.

A chegada dos Magos do Oriente a Belém, para homenagear o Rei dos judeus, é um tema que o Papa voltou a tratar durante a Angelus. “É um episódio que o papa Bento comentou magnificamente em seu livro sobre a infância de Jesus. Esta – disse o Papa Francisco durante o Angelus – foi a primeira ‘manifestação’ de Cristo às pessoas, por isto a Epifania evidencia a abertura universal trazida por Jesus”. “Jesus – destacou o Papa – veio para todos os povos, para todos nós”.

O Papa insistiu sobre o “duplo movimento” desta festa, de Deus até os homens e dos homens até Deus, junto às “religiões, na busca da verdade, do caminho dos povos até a paz, a justiça, a liberdade”. Neste movimento, o Pontíficesublinhou, “a iniciativa é de Deus. O amor de Deus vem antes do nosso”. “A Igreja – observou – está toda dentro deste movimento”. E concluiu rezando para que a Igreja tenha sempre “a alegria de se evangelizar”.

“O profeta Isaías – explicou o Papa – dizia que ‘Deus é como a flor da amêndoa, porque naquela terra a amêndoa é a primeira a florescer e Deus sempre precede, Ele dá o primeiro passo’”.

“Gostaria de dizer a todos aqueles que se sentem distantes da Igreja – disse o Papa – que ‘os respeito’ e, àqueles temerosos, indiferentes, que ‘o Senhor também chama a ti, e o faz com grande respeito, o Senhor te espera, te procura, o Senhor não faz proselitismo, te espera, te procura, inclusive se, neste momento, estás longe”.

Depois do Angelus, recitado da janela do estúdio papal na Praça de São Pedro, o Papa dirigiu uma “cordial felicitação aos irmãos e irmãs das Igrejas orientais que – como ele lembrou – amanhã celebram o Santo Natal. A paz de Deus – acrescentou – foi dada à humanidade com o nascimento de Jesus, Verbo encarnado, reforço a todos a fé, a esperança e a caridade, assim como o apoio as comunidades cristãs que estão sofrendo”.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ibope: maioria dos brasileiros defende educação para diversidade e punição para pregação contra homossexuais


Do nosso amigo Markos Oliveira esta madrugada no Facebook:
Sabe aquele discurso dos parlamentares homofóbicos para barrar a garantia de direitos para LGBTs usando a falácia anti-democrática de que "a maioria da sociedade brasileira" é contra? Então... 
Pesquisa do IBOPE Inteligência/CNT (Confederação Nacional dos Transportes) para a revista Época (confira aqui) "perguntou se um líder religioso deve ser acusado pelo crime de homofobia se pregar contra homossexuais: grande parte (60%) declara que sim e 55% também acham que o tema homossexualidade deve ser incluído no currículo das aulas de educação sexual."

Dos 2.002 entrevistados entre os dias 5 e 9 de dezembro de 2013, em 141 municípios, 61% são católicos, 24% evangélicos e 4% de outras religiões. Mais da metade (59%) declara ser praticante. Os que não tem religião somam 10%.

Dos 2.002 entrevistados entre os dias 5 e 9 de dezembro de 2013, em 141 municípios, 61% são católicos, 24% evangélicos e 4% de outras religiões. Mais da metade (59%) declara ser praticante. Os que não tem religião somam 10%.
Além desses dados destacados pelo Markos, gostaria de salientar outro detalhe: 60% dos entrevistados declara que um líder religioso deve ser acusado pelo crime de homofobia se pregar contra homossexuais muito embora 45% acreditem que "ser homossexual é ferir os preceitos de uma religião". O interessante dessas duas informações é que mesmo aqueles para os quais a homossexualidade fere os preceitos de sua religião entendem também que, mesmo assim, fazer pregações contra homossexuais deve ser considerado crime de homofobia.

Deduzo daí que mesmo quando a pessoa considera a homossexualidade pecado, não considera aceitável usar o púlpito para atacar os homossexuais; ou seja, a população em geral tem uma percepção bem mais clara do que a de uma considerável parcela dos nossos parlamentares de que não se pode legislar com base em princípios religiosos. Afinal, o Estado é laico e governo e religião não se misturam.

Com carinho,

Cris

Confira mais dados colhidos pela pesquisa do Ibope aqui

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Carta de um pai gay a um bispo homofóbico


Nos últimos dias, lemos na imprensa as palavras insistentes do Papa Francisco de que "o Evangelho se anuncia com doçura e amor, não com porretadas inquisitoriais" (aqui) e na necessidade de manter o coração aberto e em busca, movido pelo desejo profundo de mudar o mundo (ainda aqui); lemos suas reflexões sobre a importância de formar o coração dos sacerdotes, para que "despertem o mundo" (aqui) e não se transformem em "pequenos monstros" (aqui, aqui e aqui); e recordamos, ainda, como fato-síntese do diálogo entre LGBTs e Igreja em 2013, a resposta e a benção dada pelo Papa a um grupo de LGBTs católicos italiano (aqui). Ontem, lemos também esta carta de um espanhol, gay, casado e pai de um menino de três anos, que defende seu casamento e seu filho dos ataques de um bispo homofóbico.

Achei de fundamental importância traduzir e compartilhar essa carta não só por sua clareza e pertinência, mas também porque coincide em muitos pontos com a carta que enviamos aos Bispos da Igreja Católica (saiba mais aqui. Ainda não assinou a petição on-line? Clique aqui!). Suas palavras sobre a família, especialmente, encontram eco em nosso pedido:
Todos nós, como pessoas LGBT, filhas e filhos de Deus, nascemos no seio de famílias, das mais diversificadas, e todos nós buscamos viver em família, seja ela eletiva ou biológica. Como Católicos, sabemos que Nosso Senhor Jesus Cristo sempre promoveu e promove mais a família eletiva que a biológica. Ou seja, consideramos que o discurso Católico sobre a família nos toca profundamente, sobretudo porque estas palavras de Jesus nos ressoam: "A minha mãe e os meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lucas 8, 21). Temos as mais variadas experiências de vida familiar (...). Por isto, não podemos deixar de notar que, até agora, o discurso eclesiástico sobre a família nos trata como se fôssemos os inimigos da família, hostis de alguma forma à sobrevivência da mesma. Porém, nenhuma dinâmica familiar pode ser considerada saudável se alguém nela é tratado como ovelha negra (ou rosa). E isto nos leva a pedir que os Senhores não insistam em “defender” a família contrapondo-a aos direitos e à estabilidade psíquica e espiritual das pessoas LGBT. Estas “defesas” soam como forma de se imiscuir de maneira pouco evangélica em vivências familiares complexas em que todos sairiam ganhando se o assunto fosse tratado com honestidade, escuta, paciência e carinho. [Leia na íntegra aqui.]
Que a defesa veemente que este marido e pai faz de sua família nos inspire a buscar um coração sempre mais aberto, como pede o Papa Francisco, e um olhar sempre mais evangélico e acolhedor em relação às realidades vividas pelos nossos irmãos, por mais distintas ou distantes que possam parecer das nossas próprias vivências; e a orar por nossos sacerdotes, para que cada vez mais tenham o coração e os olhos abertos em amoroso serviço aos irmãos e possam ser, assim, sinais da Boa Nova de Cristo na terra.

Com carinho,


Casimiro Lopez Llorente, bispo de Segorbe Castellón [Espanha], começou 2014 não só atacando o casamento gay, mas também criticando os filhos de famílias homoparentais. Ao mesmo tempo em que responsabiliza o primeiro pela destruição da família, descreve os segundos como crianças com graves perturbações de personalidade, propensas a desenvolver comportamentos violentos.

Pedro Fuentes, casado com um homem e pai de um filho de três anos, responde ao bispo:

"Monsenhor, na minha cidade, quando uma pessoa é de classe social baixa ou baixa em termos de sua conduta, usamos uma expressão simples: 'pobre' — embora seja muito diferente ser pobre de dinheiro ou pobre de espírito. Digo isso por causa de uma carta em que o senhor denigre certas crianças, ainda que a palavra amor permeie cada uma das homilias que se ouve nas igrejas e catedrais.

Suas palavras, senhor bispo, soam como um tapa na cara. São palavras inaceitáveis, por mais que, ao revesti-las de assertividade, o senhor pretenda conferir-lhes um brilho de que carecem.

O senhor alega que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é a base "para a destruição da família" e tem entre seus efeitos "o aumento significativo de crianças com grave distúrbio de personalidade".

Só me ocorrem três possíveis razões para tais afirmações.

A primeira é que o senhor se baseie em evidências. Mas isso não é possível, não existem evidências disso. Eu poderia lhe apresentar uma infinidade de referências a artigos publicados em revistas médicas, de bioética, psicológicas ou psiquiátricas (estas, talvez as mais significativas, se é nesses dados que o senhor tem maior interesse) mostrando que não há nenhuma diferença entre os filhos de homossexuais e os de heterossexuais, entre crianças de famílias tradicionais e de famílias não tradicionais, como o senhor diria. Não só não existem, como os estudos indicam uma tendência (não significativa, é verdade, mas tendência ainda assim) a um maior compromisso dessas crianças com os Direitos Humanos e a defesa dos mais fracos, com relação aos quais elas mostram mais empatia. Os pesquisadores concluem que isso se deve à sua criação em um ambiente familiar que lhes inculca esses valores, já que seus pais ainda precisam defender os próprios direitos, Direitos Humanos, quase todos os dias, como estou fazendo aqui. Pena que o senhor mesmo não foi educado nesses valores e nessa defesa.

A segunda razão possível para que o senhor faça tais afirmações é que esteja falando por experiência. Espero que não seja essa a razão; caso seja, lamento muito. Viver em uma família que destroce uma criança deve ser horrível; e se, mais de 60 anos depois, as feridas ainda estão sangrando, só pode ser por terem sido muito profundas. A violência na família é algo medonho. Ainda assim, suas dores não podem ser uma desculpa para infligir dor aos outros. Ao contrário, devem constituir razão para defender o ser humano, não para criminalizá-lo injustamente.

A terceira razão seria a impudência da palavra: falar por falar, para causar danos e dor, para criar uma base ideológica a partir da qual atacar o outro só por ser diferente, por não viver como eu desejo. Aí há que reconhecer a existência de uma grande tradição. Basta lembrar a facilidade com que passamos do "não julgueis e não sereis julgados" para a Santa Inquisição — que, além de julgar, foi responsável pelo saque, tortura e morte de milhares de pessoas. Contudo, senhor bispo, por mais que o senhor queira a Idade de Ferro do papado não voltará mais, nem o esplendor do Poder Temporal, nem o senhor poderá ostentar seu ouropel em passeio por suas terras, recebendo as homenagens do povo.

Respeito se conquista, não é concedido por um anel ou uma mitra. A Igreja vem se esquecendo das bases que a formaram e o episcopado se distorceu de uma tal maeira que ninguém mais se lembra das palavras da Primeira Epístola de S. Paulo a Timóteo: 'quem aspira ao episcopado, saiba que está desejando uma função sublime. Porque o bispo tem o dever de ser irrepreensível, casado uma só vez, sóbrio, prudente, regrado no seu proceder, hospitaleiro, capaz de ensinar. Não deve ser dado a bebidas, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; deve saber governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Pois quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?' [1 Timoteo 3:1-5] Marido... prudente... condescendente... filhos... são belas palavras. O senhor, que não formou uma família (viver em família não é o mesmo que formá-la), em vez de vivê-las, não só se permite opinar como tem o atrevimento de condenar.

Defenda seu modelo de família ou sociedade, mas respeite, como quer ser respeitado, os outros modelos. E, se quiser falar de crianças em situação de risco, volte seu olhar para as centenas delas que, aqui na Espanha, passam fome todos os dias — FOME, senhor bispo, enquanto milhões de euros chegam às mãos dos ricos sem que ressoe, nos palácios episcopais, o chicote com que Jesus açoitou os vendilhões do templo. Não admito que ninguém falte ao respeito com meu filho, nem pelo modo como ele nasceu, nem por ser filho de quem é. Com suas palavras, o senhor desrespeitou não só a ele, mas a milhares de crianças que não conhece e, obviamente, nem pretende conhecer. Desrespeitou milhares de famílias sobre as quais nada sabe, porque nem as entende nem tem a alma limpa para delas se aproximar. A concupiscência, a lascívia na palavra, é um pecado grave, especialmente quando fere inocentes.

'Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.' (Mt, 25, 40)

Esta é a minha esperança: saber, que mais cedo ou mais tarde, o senhor comparecerá perante Ele. Saber que Ele o olhará no rosto. Saber que Ele lhe lançará Seu desprezo. Porque ser bispo não pode jamais significar ferir qualquer um destes meus irmãos pequeninos.

A meu marido e a mim, Deus nos deu um filho. O fato de o senhor não ter compreendido isso só mostra o quanto está longe d’Ele.

Pedro Fuentes"

domingo, 5 de janeiro de 2014

Faleceu o Pe. Robert Nugent, sacerdote fundador do grupo católico LGBT “New Ways Ministry”


É com pesar, mas gratos por ter-lhe sido dado repousar e confiantes na promessa da Ressurreição, que compartilhamos a nota de falecimento do Pe. Robert Nugent, inspirado pioneiro da luta pela inclusão dos LGBTs a Igreja Católica. Que sua alma descanse em paz e ele siga intercedendo por nós junto ao Pai Amoroso.

Faleceu o Pe. Robert Nugent, SDS, fervoroso defensor dos gays e lésbicas católicos. Nugent ficou conhecido como um dos fundadores do New Ways Ministry, organização que trabalha com gays e lésbicas católicos.

O blog do New Ways Ministry divulgou a notícia de seu falecimento, ocorrido em 1º de janeiro de 2014 em Milwaukee, Wisconsin. Havia três meses, ele sofria de câncer no cérebro.

Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, assim refletiu sobre o impacto da vida do Pe. Nugent:

"Enquanto alguns poucos sacerdotes limitam-se a falar aos sussurros sobre a homossexualidade, o Pe. Nugent se reunia com lésbicas e gays e os incentivava a reivindicar seu lugar de direito na Igreja Católica. Em um tempo de intensa homofobia na Igreja e na sociedade, manifestou uma rara coragem e presciência de ao acolher e afirmar a bondade de Deus para com seus filhos gays e lésbicas."

O trabalho de Nugent nem sempre foi apreciado pelo Vaticano, que, em 1999, proibiu-o de continuar escrevendo e falando sobre a homossexualidade. Ele obedeceu a determinação por lealdade a seu voto de obediência, e permaneceu sacerdote.

O Rev. James Martin, SJ, diretor da revista católica América, comentou:

"Sempre admirei o trabalho pioneiro de Padre Nugent junto aos gays e lésbicas católicos; em parceria com a irmã Jeannine Gramick, Pe. Nugent ajudou muitos milhares de pessoas a se sentirem mais bem-vindas em sua igreja. Mas eu admirava também sua fidelidade ao seu voto de obediência. Em um momento difícil, o Padre Nugent soube equilibrar-se entre a justiça e a fidelidade com enorme graça e confiança em Deus. Todos os católicos - não apenas gays e lésbicas - têm para com ele uma dívida de gratidão. Que ele descanse em paz.

Fonte

O que o Papa disse, e o que ele NÃO disse, sobre o casamento gay


A imprensa começou a repercutir ontem uma palestra dada pelo Papa Francisco em novembro no colóquio com os membros da União dos Superiores Gerais - USG - dos institutos religiosos masculinos, publicada em reportagem da revista Civiltà Cattolica no dia 03-01-2014, que pode ser lida na íntegra, em espanhol, aqui, e, em português, aqui. Temos visto manchetes como a do Globo, "Papa afirma que casamento gay é desafio educativo para a Igreja", ao do G1, "Papa Francisco pede nova atitude da Igreja com os filhos de homossexuais", e a do UOL, "Papa Francisco pede nova atitude da igreja com os filhos de homossexuais". Desde ontem, vi essas matérias despertarem reações positivas e negativas dentro da comunidade LGBT. Contudo, me parece que há um esclarecimento importante a fazer, que coloca o caso sob uma nova perspectiva.

Um exame do documento revela que o papa não se referiu ao casamento gay em sua palestra em nenhum momento, ao contrário do que essas manchetes podem dar a entender. Provavelmente o mal entendido se deve ao fato de que o papa citou o caso de uma menina que estava triste porque "a namorada da minha mãe não gosta de mim". Esse é o único momento em que ele fala em gays. Acontece que o trecho completo é o seguinte:
"Para o Papa, os pilares da educação são: 'transmitir conhecimentos, transmitir modos de fazer, transmitir valores. Através deles se transmite a fé. O educador deve estar à altura das pessoas que educa, de interrogar-se quanto a como anunciar a Jesus Cristo a uma geração em transformação'. Para tanto, insistiu: 'a tarefa da educação hoje é uma missão chave, chave, chave!', e citou algumas de suas experiências em Buenos Aires sobre a preparação necessária para que se receba, em contextos educativos, crianças, adolescentes e jovens que vivem em situação complexa, especialmente em família: 'lembro-me do caso de uma menina muito triste que acabou confidenciando à professora o motivo de sua tristeza: 'a namorada da minha mãe não gosta de mim'. A porcentagem de crianças que estudam nas escolas e têm pais separados é altíssima. As situações que hoje vivem criam, portanto, novos desafios que, para nós, às vezes são até difíceis de entender. Como anunciar Cristo a esses meninos e meninas? Como anunciar Cristo a uma geração em transformação? É preciso que estejamos atentos, para que não lhes ministremos uma vacina contra a fé." (p. 14, aqui; ou no último parágrafo antes dos ***, aqui)
O curioso, portanto, é que essa frase da menina não é citada para falar sobre casais gays. Não é uma crítica aos gays, como a matéria do G1, por exemplo, pode fazer parecer. Pelo contrário: ele está falando sobre os desafios da educação da nova geração, fala que há situações complexas, dá esse exemplo, da menina que estava triste porque "a namorada da minha mãe não gosta de mim", e segue falando sobre a alta porcentagem de filhos da pais separados nas escolas, que as situações requerem novas estratégias, etc. Quer dizer: ele se refere, no contexto de um colóquio para religiosos, falando sobre a formação de religiosos, a um casal de mulheres com uma filha como um casal separado qualquer.

Vou repetir: o papa se refere a um casal de mulheres como um casal separado qualquer e que usa esse exemplo para refletir sobre como as fórmulas antigas para se lidar com as novas situações familiares não servem mais, estão alienando e afastando as pessoas ("ministrando uma vacina contra a fé"), e, em vez de assumir alguma postura rígida e preestabelecida, pergunta e convida os demais a pensar com ele: "Como anunciar Cristo a esses meninos e meninas?". Pode parecer sutil, mas o impacto disso, no contexto de uma instituição milenar que não pode mudar por meio de grandes rupturas, é imenso, e vai muito, mas muito além do que a maneira apressada e até equivocada como a imprensa vem repercutindo essas suas palavras.

Que a abertura do papa Francisco para a dúvida, o questionamento das certezas preestabelecidas, o encontro e o diálogo com o outro nos sirvam de exemplo e inspirem, também nós, a partir ao encontro do nosso irmão.

Com amor,

Cris

Atualização em 8/1/14: Este texto do nosso blog foi reproduzido pelo IHU, aqui. A mensagem se espalha... :-)
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