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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Papa Francisco, "personalidade do ano" para a revista LGBT americana 'The Advocate'


Assim como a revista Time, a publicação LGBT americana The Advocate elegeu o Papa Francisco "Personalidade do Ano" de 2013. Nosso amigo Lula Ramires, da Pastoral da Diversidade, de São Paulo, traduziu a matéria (leia a original aqui) para nós:


Na hora de decidir quem foi a pessoa que mais afetou as vidas das pessoas LGBT em 2013, havia escolhas óbvias. Pelo menos, era o que parecia inicialmente.

Se, por um lado, Edie Windsor, por exemplo, está na lista dos finalistas, não foi a ela que escolhemos para ser a Personalidade do Ano. Windsor é uma heroína para os norte-americanos LGBT por dar o golpe final na luta contra a discriminatória Lei de Defesa do Casamento (DOMA), sendo que a seção 3 deixou de existir. Quando ela saiu da audiência na Suprema Corte, houve uma chuva de aplausos. Na premiação dos Out 100, em que ela recebeu um prêmio por Realizações ao Longo da Vida, gritos de "Edie! Edie!" a saudaram no palco. Na capa de novembro da revista, sorria radiante enquanto segurava uma pomba branca — um símbolo.

De fato, a própria Windsor é um poderoso símbolo representando muitos outros que atuam nos bastidores. Também na Suprema Corte naquele dia, por exemplo, havia quatro demandantes no caso da Proposição 8, vindos da Califórnia, e estas pessoas merecem ser louvadas. Ou qualquer dos seus advogados. Há a equipe hétero de David Boies e Ted Olson, cujo componentes frequentemente se tornam heróis públicos em defesa do avanço do casamento igualitário através do sistema judiciário por meio de entrevistas na TV e nos noticiários. E tem também a promotora Roberta Kaplan, uma de nós, que com eloquência refutou o Presidente da Suprema Corte John Roberts quando este sugeriu que os tempos haviam mudado e que as pessoas LGBT não eram mais uma minoria oprimida.

Não para por aqui. Um punhado de outros casos poderia ter ido para a Suprema Corte este ano, mas não foram escolhidos. Há demandantes e advogados em todos eles. São provenientes de estados que vão de Michigan a Massachusetts. Frequentemente, o apoio para estes casos é dado por pessoas que atuam em organizações de defesa dos direitos LGBT, tais como o Gay and Lesbian Advocates and Defenders (Defensores Gays e Lésbicas) ou o Lambda Legal, ou aliados sem interesse pessoal na causa — caso da União Americana pelas Liberdades Civis. Centenas trabalham nessas organizações e há anos contestam a Lei de Defesa do Casamento nos tribunais. Tome-se, por exemplo, o caso de Gill contra a Secretaria de Administração de Pessoal, ação iniciada em 2009 e que, originalmente, envolvia 19 pessoas.

Edie Windsor é uma heroína, que bem merece ter seu nome registrado nos livros de História que narram os meandros da derrota da DOMA. Mas não é a Personalidade do Ano. Não poderia ser, não para a The Advocate, onde celebramos o trabalho de tantas e tantos que contribuíram para esta vitória na Suprema Corte que é um verdadeiro marco.

Quando Windsor apareceu em terceiro lugar na lista anual de personalidades do ano da revista Time , ela aceitou a comenda de forma digna, como sempre. “É uma honra para mim ter sido escolhida pela Time ," escreveu ela num pronunciamento, "mas sou apenas uma pessoa que tomou parte na extraordinária e ainda inacabada luta pela igualdade no casamento para todas as nossas famílias. Há milhares de pessoas que nos ajudaram a chegar até aqui e ainda temos muito trabalho a fazer."

A pessoa mais influente em 2013 não vem do nosso embate permanente no campo jurídico mas, ao contrário, do mundo espiritual — onde as conquistas são de definição mais difícil. Não foi por causa de nenhum voto ou decisão tomada, e ainda assim uma mudança significativa e sem precedentes aconteceu este ano em termos de como as pessoas LGBT são vistas por uma das maiores comunidades de fé do mundo.

O Papa Francisco é o líder de 1,2 bilhão de católicos romanos em todo o mundo. Existem três vezes mais católicos no mundo do que cidadãos nos Estados Unidos. Goste-se ou não, o que ele diz faz diferença. Claro, todos sabemos que os católicos dão “um jeitinho” quando se trata de cumprir as regras da religião que envolvem questões de moral. Há muito desacordo quanto ao papel das mulheres, a contracepção e outras questões. Mas nenhuma delas deveria nos levar a subestimar a capacidade do papa de convencer corações e mentes a se abrirem para as pessoas LGBT — e não somente nos EUA, mas no mundo inteiro.

É mais provável que os redutos contrários à aceitação dos LGBT na religião ainda existentes, aqueles que impedem o avanço no trabalho que resta ser feito, se deixem convencer por uma figura que conheçam. Assim como o Presidente Obama transformou a política ao expor a evolução de seu entendimento dos direitos civis dos LGBT, uma mudança partindo do papa pode ter um efeito duradouro sobre a religião.

A notória diferença na retórica do Papa Francisco [leia nosso comentário aqui] em relação à de seus dois predecessores —ambos os quais já estiveram presentes entre os agraciados com o Prêmio Fobia que a The Advocate distribui todos os anos — aumenta ainda mais a ousadia de seus gestos em 2013. Primeiro, temos o Papa João Paulo II, contra quem os militantes pelos direitos LGBT protestaram durante sua visita aos Estados Unidos em 1987, que ganhou muito destaque em função daquela que viria a ficar conhecida como a “Carta do Rat(o)” — uma condenação sem precedentes da homossexualidade como “intrinsecamente má”. Foi escrita por um dos seus cardeais, Joseph Ratzinger, que viria a se tornar o Papa Bento XVI. Desde 1978, o Vaticano esteve sob o comando de um dos dois — até este ano.

Quando a revista Time indicou o Papa Francisco como Personalidade do Ano, na semana passada, corretamente assinalou a dificuldade da Igreja Católica para realizar mudanças com rapidez, chamando-a de "um lugar onde a mudança é medida em séculos". O Papa Francisco ainda não é a favor dos gays segundo os padrões atuais. Após assumiu o cargo, em julho ele lançou uma encíclica conjunta com Bento, na qual reiteram que o casamento deve ser uma “união estável entre homem e mulher”. O texto continua: “essa união nasce do seu amor mútuo, como sinal e presença do próprio amor de Deus, e do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferenciação sexual”.

Enquanto arcebispo na Argentina, o Cardeal Jorge Bergoglio se opôs à aprovação do casamento igualitário naquele país, afirmando em 2010 que se trata de um “atraque destrutivo ao plano de Deus”. Quando Bergoglio se tornou papa, a GLAAD logo assinalou que ele certa vez havia dito que a adoção por casais do mesmo sexo era uma forma de discriminação contra as crianças.

Mas foi, de fato, durante o tempo do Papa Francisco como cardeal que sua diferença em relação a Bento e prelados de linha dura da Igreja se evidenciou. À medida que o casamento entre pessoas do mesmo sexo parecia mais próximo da legalização na Argentina, Bergoglio argumentava privadamente que a Igreja deveria assumir a defesa das uniões civis, pois seria "o menor de dois males" — isso, segundo o biógrafo autorizado do Papa Francisco, Sergio Rubin. O militante gay argentino Marcelo Márquez confirmou essa versão, declarando ao The New York Times, em março, que Bergoglio "ouviu os meus pontos de vista com muito respeito. Disse que os homossexuais precisavam ter seus direitos reconhecidos e que ele apoiava as uniões civis, mas não o casamento entre pessoas do mesmo sexo".

Como papa, ele ainda não disse que a Igreja Católica apoia as uniões civis. Mas o que Francisco de fato tem dito sobre as pessoas LGBT vem causando reflexão e consternação no interior de sua igreja. O momento que chegou às manchetes foi durante um voo do Brasil para Roma. Quando indagado acerca de padres gays, o Papa Francisco disse aos repórteres, de acordo com a tradução do italiano, "Se alguém é gay e busca o Senhor com boa vontade, quem sou eu para julgar?".

A concisão dessa declaração e a enorme atenção que obteve de imediato são evidências da influência do papa. A pergunta simples, com fortes raízes cristãs, proposta nesse contexto por esse homem — "Quem sou eu para julgar?" — foi encarada por católicos e pelo mundo como um sinal de que o novo papa não é como o anterior.

A visão de Francisco sobre o modo como a Igreja Católica deve abordar as pessoas LGBT foi bem explicada por ele mesmo em uma entrevista detalhada para a revista America, em setembro, quando ele recordou: “uma pessoa uma vez me perguntou, de forma provocativa, se eu aprovava a homossexualidade. Respondi com outra pergunta: ‘Diga-me: quando Deus olha para um gay, ele endossa a existência dessa pessoa com amor ou será que Ele rejeita ou condena esta pessoa?’ Devemos sempre levar a pessoa em consideração”.

Quando ainda era cardeal, disse, “eu costumava receber cartas de pessoas homossexuais que estavam ‘socialmente feridas’ porque me diziam que tinham a sensação de que a Igreja sempre as condenava. Mas a Igreja não tem essa intenção. Durante um [recente] voo de volta, vindo do Rio de Janeiro, eu disse que se uma pessoa homossexual tem boa vontade e busca a Deus, não sou ninguém para julgá-la. Ao dizer isso, repeti o que diz o catecismo. A religião tem o direito de expressar sua opinião a serviço do povo, mas Deus em sua criação nos fez livres: não é possível interferir espiritualmente na vida de uma pessoa.”

Ele continua, afirmando que “não podemos insistir somente nas questões relacionadas ao aborto, ao casamento gay e aos uso de métodos anticoncepcionais. Não é possível. Não tenho falado muito sobre estas coisas e fui repreendido por esse motivo. Mas, quando falamos dessas questões, temos de abordá-las num contexto. O ensinamento da Igreja, neste aspecto, é claro, e eu sou um filho da Igreja; mas não é necessário ficar repetindo estes pontos o tempo todo”.

Autêntico em suas palavras, o Papa Francisco não se valeu de seus grandes momentos quando esteve sob os holofotes do mundo para condenar as pessoas LGBT, como Bento costumava fazer. Nesta mesma época, no ano passado, o Papa Bento tinha acabado de lançar sua mensagem pelo Dia Mundial da Paz, celebrado pela Igreja Católica em 1º de janeiro, advertindo que os esforços em prol do casamento de gays e lésbicas "na verdade prejudicam e ajudam a desestabilizar o matrimônio, obscurecendo sua natureza especifica e seu papel indispensável na sociedade". Bento descreveu o casamento igualitário como "uma ofensa contra a verdade da pessoa humana". Em contrapartida, o Papa Francisco lançou sua primeira mensagem pelo Dia Mundial da Paz na semana passada [leia aqui].

A fraternidade, diz ele, "é o fundamento e o caminho para a paz". Ele retoma a história de Caim e Abel como exemplo da incapacidade da humanidade de reconhecer seus irmãos e, pelo contrário, fazer inimigos. "Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como um irmão ou irmã, não como um estranho, e muito menos como um rival ou mesmo um inimigo. Na família de Deus, todos são filhos e filhas do mesmo Pai". E prossegue: "Todo homem e toda mulher desfrutam de uma mesma e inviolável dignidade. Somos todas e todos amados por Deus".

O Papa Francisco dedica seu tempo a discorrer contra os malefícios da cobiça e a falta de foco na justiça e no enfrentamento da pobreza. Por isso, conservadores como Rush Limbaugh o atacam, chamado-o de marxista. Mas Francisco prega a igualdade quanto ao direito de cada um à auto-realização. "Os seres humanos necessitam e são capazes de algo maior do que maximizar seus interesses individuais", diz o Papa em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz.

Poderíamos nos indagar como a aceitação das pessoas LGBT se adéqua à atitude do Papa com relação ao amor que se deve dar a cada ser humano e à valorização da contribuição de cada um à sociedade. Em menos de um ano como papa, Francisco ainda precisa mostrar se suas aspirações se limitam a simplesmente não ser nosso inimigo. Será ele um agente ativo na luta contra a discriminação dos LGBTs no mundo inteiro?

A revista Time assinala que um incomum grupo de oito bispos foi selecionado pelo Papa Francisco para aconselhá-lo periodicamente. Entre eles está o Cardeal Oswald Gracias, da Índia, que neste mês condenou publicamente a criminalização da homossexualidade em seu país. A Suprema Corte da Índia acaba de emitir uma decisão escandalosa, restabelecendo a pena de até 10 anos de prisão para o sexo entre gays. “A Igreja Católica nunca se opôs à descriminalização da homossexualidade, pois nunca consideramos que os gays fossem criminosos," sublinhou o cardeal, segundo o Asia News. "A Igreja Católica se opõe à legalização do casamento gay, mas ensina que os homossexuais têm a mesma dignidade de todos os demais seres humanos e condena todas as formas de discriminação injusta, de assédio ou abuso." Mais cedo em 2013, ele havia declarado a um grupo LGBT da Índia, segundo a revista Time, que “é equivocado afirmar que os que têm outra orientação sexual sejam pecadores” e que “devemos buscar uma maior sensibilidade em nossas homilias e nossa maneira de falar em público, e é essa a recomendação que farei aos nossos padres”.
O jornal italiano La Repubblica relatou que um grupo LGBT católico daquele país, o Kairós, de Florença, escreveu uma carta ao papa em junho, pedindo "abertura e diálogo" e observando que a falta desses dois elementos "sempre alimenta a homofobia". Os católicos LGBT haviam escrito para os papas anteriores, mas Francisco é o primeiro a dar uma resposta. Os dois lados mantêm privado o conteúdo da conversa, exceto pela indicação de certo assombro por o Papa ter dado sua benção ao grupo LGBT.

Uma coisa que aprendemos em 2013 foi que, por mais que nossos militantes se dediquem, no fim somos sempre confrontados com algum hétero que decide o nosso destino. Será que as nove pessoas que têm assento na Suprema Corte americana — seis das quais são católicas romanas — algum dia emitirão uma decisão abrangente que torne o casamento igualitário legal em todos os 50 estados dos EUA? Será que os deputados americanos — cerca de um terço dos quais professa o catolicismo, a religião com maior número de representantes — aprovará a Lei de Não Discriminação no Emprego? Será que algum deles levará em conta a recomendação do papa no sentido de não se julgar os homossexuais?

Nada disso vai afetar o possível retorno dos americanos LGBT que abandonaram a Igreja Católica. O impacto do gesto do papa nada tem a ver com nossa decisão quanto a voltarmos ou não às igrejas, mas afeta as pessoas que já estão sentadas em seus bancos. Afeta também aqueles e aquelas que vão às igrejas todo domingo, e também durante a semana, bem como aqueles que se dedicam ao trabalho voluntário em obras filantrópicas — que são, muitas vezes, nossos mais ardorosos opositores.

Ainda assim, os católicos LGBT que permanecem na Igreja de fato têm mais motivos para ter esperança de que uma mudança se aproxima. Basta ouvir as reações ao "Quem sou eu para julgar?" do papa.

"O Papa Francisco expressou hoje algumas das palavras mais encorajadoras já usadas por um pontífice a respeito das pessoas gays e lésbicas", diz uma declaração [leia a nota original aqui] da organização LGBT católica Equally Blessed ("Igualmente Abençoados") [Eles participaram do evento que realizamos durante a JMJ, como contamos aqui]. "Ao fazê-lo, deu um grande exemplo para os católicos de todo o mundo". A nota prossegue, com expectativa crescente: "os líderes católicos que insistem em depreciar gays e lésbicas não podem mais afirmar que seus comentários inflamados representam os sentimentos do papa. Os bispos que se opõem à ampliação de direitos civis básicos — tal como pôr fim à discriminação no ambiente de trabalho — não podem mais alegar que o papa aprova seu discurso discriminatório. O Papa Francisco não expressa nenhuma mudança na doutrina da Igreja, mas fala com compaixão — e, ao fazê-lo, incentiva um diálogo já animado, que talvez um dia possibilite à Igreja acolher integralmente os católicos que são gays e lésbicas".

(Tradução livre de Lula Ramires e revisão de Cristiana Serra)

O mantra do amor igual


A jornalista Helena Celestino, que assina a coluna "Volta ao Mundo" do jornal O Globo, publicou esta semana um balanço das mudanças ocorridas pelo mundo para os gays, neste ano de 2013. Ela faz referência à carta que enviamos aos bispos em resposta à consulta pública do Vaticano em preparação para o Sínodo sobre a Família, em 2014 (clique aqui para ler) - e transformamos também em abaixo-assinado online (aqui) - e à nossa participação no documentário "Rio de Fé", o filme oficial da JMJ 2013.


O ano foi dos gays. Ao redor do mundo o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado, a bandeira do arco-íris tremula nos quiosques do Rio ou em bairros de Taiwan e até o Papa faz pesquisa para saber como tratar filhos criados por dois homens ou duas mulheres [saiba mais aqui]. Casais do mesmo sexo na publicidade viraram banalidade, a lei passou a punir a homofobia, não a homossexualidade. A batalha cultural está ganha, mesmo se a pena de morte ainda ameaça o amor entre iguais em países islâmicos. A vitória não foi só para os gays: em 2013, a igualdade nas relações amorosas virou o novo pensamento único no mundo ocidental, consolidando uma revolução sexual iniciada nos anos 60.

Os ingleses, com sua visão imperial e irônica do mundo, dizem que o sexo foi inventado em 1963, ano em que os Beatles lançaram o primeiro LP cantando “love, love me do", foi derrubada a lei de Chatterley — aquela que permitiu levar Oscar Wilde à cadeia por gostar de sexo com homens — e o escândalo Profumo acabou com a inocência na vida pública. O ano não sei, mas foi nos 60 que o poder jovem passou a movimentar o mundo, a pílula mudou para sempre os casamentos e as relações amorosas, as mulheres foram à luta e a maioria não mais depende de marido para sustentar a casa, o mundo à la “Mad Men” desmoronou.

O resto é uma história de altos e baixos na vida das nações e de cada um de nós. Vamos combinar, poucos têm uma relação amorosa/sexual de igualdade, mas agora este é um mantra na intimidade de homens e mulheres ocidentais. “É por isso que o casamento gay passou a ser socialmente aceito, é a última fronteira legal a ser transposta em busca do ideal de relações de igualdade”, diz a historiadora da homossexualidade da Universidade de Amsterdam, Gert Hekma, ao “Financial Times”.

De perto, a gente sabe, nenhuma relação é normal, mas só os sem-noção se vangloriam de usar o poder da grana para dominar o parceiro e até aquela tradicional história do velho rico que se casa com a bela(o) jovenzita(o) já anda deixando constrangidos os amigos próximos. Sintomático da defesa de relações de igualdade foi a indignação com o estupro de mulheres que levou multidões às ruas da Índia, provocou uma batalha legal no Senado dos EUA para tirar dos militares o poder de julgamento do crime e obrigou autoridades brasileiras a, pelo menos, prometer medidas contra a violência sexual.

“Estamos terminando um ano momentoso em relação ao sexo no ocidente”, diz o colunista Simon Kuper, citando também a cruzada contra a pedofilia e as leis contra a prostituição como sinais de algo revolucionário ocorrendo na civilização ocidental.

Este ano, do Papa aos escoteiros, dos juízes da Suprema Corte dos EUA aos comissários do partido na China e aos legisladores de Inglaterra, França e México, todos tiveram de repensar suas convicções sobre as uniões gays.

Um exemplo contundente está no filme de Cacá Diegues sobre a Jornada da Juventude [saiba mais aqui]. A mesma Cúria Metropolitana do Rio que colocou alguns padres e leigos num silêncio forçado por pregarem a aceitação dos homossexuais na Igreja, aprovou sem restrições casais do mesmo sexo expondo detalhes do seu cotidiano como gays católicos [na verdade, não são casais que aparecem, são quatro integrantes do Diversidade Católica do RJ: Marcelo, Pyter, Ed e Cris, que já deram seus depoimentos aqui e aqui]. Os grupos da Diversidade Católica no Brasil, formados por LGBTs religiosos, estão vivendo em clima de “primavera no Vaticano”, especialmente depois de o Papa incluir quatro questões sobre “a vida gay” na consulta pública às paróquias, uma preparação para o Sínodo de 2014. Num abaixo-assinado postado no Avaaz, a turma LGBT pede aos bispos deixarem de tratá-los como “ovelha negra ou rosa” — a piada é deles — e desrespeitar os direitos à estabilidade psíquica e espiritual da comunidade em nome da defesa da família [para ler, assinar se concordar e divulgar se achar importante, clique aqui].

Claro que no mundo real, a foto é menos colorida e bonita, especialmente ao ultrapassar as fronteiras ocidentais. A Suprema Corte da Índia ressuscitou a lei que pune relações entre iguais, Uganda criou lei para obrigar pessoas a denunciar vizinhos homossexuais e prever prisão perpétua para gays, retrocedendo dois séculos na história. Dos 169 países da ONU, só 18 permitem o casamento gay, outros autorizam em parte do território, mas ao menos 68 votaram pela descriminalização dessa relação. Permaneceram contra 59 outras nações que lançaram um documento separado reafirmando a proibição.
O megafone ocidental a favor das igualdade nas relações criou semana passada a palavra “sexextorsão” para denunciar o sexo em troca de favores, em que as armas de coerção são o abuso de poder e o medo. Um exemplo é o da jovem imigrante que pediu asilo no Canadá e foi convidada pelo “homem da caneta” para um café, onde ficou clara a troca: a aprovação do status de asilada estava condicionada ao sim para o sexo com ele. Ou os cibercrimes, em que cenas de sexo explícito são postadas para chantagear ex-parceiros. A associação internacional de juízes já apresentou um dossiê de 48 páginas para enquadrar estes crimes. A brigada da defesa pela igualdade nas relações amorosas e sexuais só não pode cair na armadilha conservadora de criminalizar e regulamentar o desejo porque aí tudo perde a graça.

Fonte: O Globo (aqui)

"Não se podem pular etapas"

Nosso querido Arnaldo, um dos fundadores do Diversidade Católica, foi entrevistado para a matéria de capa da revista Época desta semana - que faz um balanço deste início de pontificado do Papa Francisco - e contou um pouco da sua história. Se quiser saber mais, você pode ler seu depoimento aqui - e, para depoimentos de outros membros e amigos do grupo, é só clicar na tag "gay e cristão", aqui. :-)

domingo, 10 de novembro de 2013

O Papa Francisco e o Diversidade Católica nas Revistas Veja e IstoÉ desta semana

Matéria "O Papa quer ouvir seu rebanho".
Revista IstoÉ (nº 2295, 13/nov 2013)
Clique nas imagens para ampliar.

Chegaram ontem às bancas as revistas Veja (ed. 2347) e IstoÉ (nº 2295) com matérias sobre a consulta pública às paróquias solicitada pelo Vaticano em preparação para o Sínodo dos bispos em 2014, que noticiamos aqui. Duas integrantes do Diversidade Católica e colaboradoras do blog, Cristiana e Juliana, foram entrevistadas para ambas as reportagens. Para nós, é motivo de alegria e gratidão ver a mensagem de inclusão do nosso grupo ganhar essa oportunidade de multiplicação.

Atualização em 9-12-13: você já leu a carta de alguns grupos católicos LGBT brasileiros para os bispos? O texto, com o link para a petição (pra quem quiser assinar e apoiar), está aqui. :-)

Matéria "O Pastor vai ao rebanho".
Revista Veja (nº 2347, 13/nov 2013)
Clique nas imagens para ampliar.

Ontem, na reunião do nosso grupo, refletimos sobre um trecho da entrevista do Papa Francisco à revista jesuíta Civiltà Católica (leia na íntegra aqui), em que ele afirma:
«Neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem que ser assim. Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e não aflora uma margem de incerteza, então não está bem. Para mim, esta é uma chave importante. Se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas. É necessário ser humilde. (...) 
«O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas é, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrogância: “Deus está aqui”. [Assim,] encontraremos somente um deus à nossa medida. (...) A nossa vida não nos é dada como um libreto de ópera onde está tudo escrito, mas é ir, caminhar, fazer, procurar, ver… Deve-se entrar na aventura da procura do encontro e do deixar-se procurar e deixar-se encontrar por Deus. (...) 
«Portanto, encontra-se Deus caminhando, no caminho. E neste ponto alguém poderia dizer que isto é relativismo. É relativismo? Sim, se é mal interpretado, como espécie de panteísmo indistinto. Não, se é interpretado em sentido bíblico, onde Deus é sempre uma surpresa e, portanto, não sabes nunca onde e como O encontras, não és tu a fixar os tempos e os lugares do encontro com Ele. É necessário, portanto, discernir o encontro. Por isso, o discernimento é fundamental. 
«Se o cristão é restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à “segurança” doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas. Tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destruída pelos vícios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e deve-se procurar na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço onde a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus».
Nesse sentido, nestes tempos que correm é com fé e esperança renovadas que nós, do Diversidade Católica, persistimos em nosso trabalho de testemunho dentro da Igreja Católica Romana. Buscamos ser, uns para os outros, a Igreja que queremos ver no mundo: uma Igreja, como diz o Papa Francisco, de braços abertos para acolher a todos e cuidar das feridas, e colocar-se a serviço. Acreditamos firmemente na força inspiradora do Espírito Santo, que sopra como a brisa suave nos ouvidos do Povo de Deus. E rogamos ao Pai que, em seu amor irrestrito e incondicional por cada um de seus filhos, faça de nós instrumentos para a construção de um mundo em que sejamos todos irmãos, um mundo que seja verdadeiramente o Reino de Deus aqui e agora, para todos.

Que assim seja!

Equipe Diversidade Católica

PS: Você encontra os depoimentos da Cris e da Ju sobre a história de cada uma como gay e católica aqui no nosso blog, junto com depoimentos de outros membros e amigos do Diversidade Católica, sob a tag gay e cristão.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Integrantes do Movimento Gay de Maringá se reúnem com líderes religiosos

Imagem daqui

É hoje, e o Diversidade Católica estará presente! :-)

Integrantes do Movimento Gay de Maringá realizarão um encontro com líderes religiosos, entre eles o arcebispo Dom Anuar Battisti, a partir das 16h desta sexta-feira (18), na Cúria Metropolitana da Igreja Católica.

O encontro faz parte das manifestações da Semana Municipal de Combate à Homofobia, que culminará com a Parada Gay de Maringá, no próximo domingo (20). Participarão da reunião representantes da Pastoral da Diversidade da Igreja Anglicana, Igreja Comunidade Metropolitana e Igreja Metodista.

"Também estará presente o líder um dos fundadores do Grupo Diversidade Católica, do Rio de Janeiro, que reúne gays e lésbicas católicos. Nossa intenção é mostrar as dificuldades que os homossexuais enfrentam em seu dia a dia por conta de sua opção sexual, e expor como eles se sentem mal em não poder seguir a religião que escolheram", fala o integrante do movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (LGBT) de Maringá , Luiz Modesto.

Conforme Modesto, o encontro é ecumênico, por isso o convite é estendido também a todos os líderes religiosos que desejarem participar da reunião.

(Fonte: odiario.com. Enviado pelo querido @MarkosOliveira)

Leia também:
Uma questão de justiça: os LGBTs de Maringá e a Catedral

terça-feira, 15 de maio de 2012

Filha de Raúl Castro diz que pai é a favor da união gay

Foto daqui

HAVANA - Filha do presidente cubano Raúl Castro, a sexóloga Mariela Castro disse neste sábado (12/05/12) que seu pai é a favor da união civil entre homossexuais e orientou que toda a forma de descriminação contra minorias seja banida da ilha.

A diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), que se destacou como um defensora da diversidade sexual, liderou uma marcha contra a homofobia, que reuniu cerca de 400 cubanos, entre homossexuais, travestis e transexuais.

— Tenho entendido que o presidente cubano se manifestou em várias ocasiões sobre o tema) — disse Mariela Castro. — Mas não fez isso em público. Certamente é parte de suas tática e estratégia. É seu estilo. Eu não vou pressioná-lo (Raúl Castro) a fazê-lo publicamente, porque me importa mais que se trabalhe em ações específicas que em palavras — disse ela.

Os gays têm sido depreciados e por vezes reprimidos desde os primeiros anos da revolução de 1959, que levou o ex-ditador Fidel Castro ao poder. Homossexuais e transexuais foram enviados em 1960 a campos de trabalhos forçados, em uma sociedade com fortes doses de machismo.

As declarações de Mariela Castro, que dançou na passeata ao ritmo de conga pelas ruas de Havana, veio logo após o presidente Barack Obama apoiar o casamento gay nos Estados Unidos.

— Saúdo o presidente Obama por sua mensagem humana de entendimento (...) a favor do casamento, da união livre de pessoas do mesmo sexo — reiterou. — Ele (Raul) tem falado sobre a necessidade de avançar nas questões dos direitos de orientação sexual e identidade de gênero e de superar todos os preconceitos — disse a sexóloga ao responder a uma pergunta da Reuters sobre se seu pai apoiava uniões civis de cubanos do mesmo sexo.

A diretora do Cenesex, cujos avanços em direitos incluem cerca de 15 cirurgias gratuitas de mudança de sexo desde 2008, apresenta desde 2006 ao Parlamento uma emenda que procura formas de alterar o Código da Família, em vigor desde 1975, sobre assuntos relacionados à transexualidade e à homossexualidade no país. A Primeira Conferência Nacional do Partido Comunista em janeiro decidiu rejeitar todas as formas de discriminação, incluindo a orientação sexual.

(Fonte: O Globo. Colaboração do amigo @Lucas_Vazzz)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Integrante do ministério de louvor, travesti diz que igreja inclusiva lhe dá "liberdade"


Assim como muitos dos atuais membros da 'Igreja Cristã Metropolitana' (ICM), ela costumava frequentar uma igreja evangélica, onde cantava no coral.

Lá, segundo ela, o pastor queria que se tornasse "um cantor de sucesso, gravasse cd e até participasse de um reality show" tamanha era sua popularidade.

Tudo mudou, entretanto, quando Josiane, que nasceu homem, revelou que sentia atração por pessoas do mesmo sexo. "Sempre me senti diferente do restante dos meninos", diz.

Expulsa da igreja, Josiane diz ter prometido a si mesma que nunca mais entraria em um templo religioso novamente. Resolveu, a partir daí, assumir integralmente sua identidade feminina. Hoje, omite seu nome de batismo.

Mas levada por um namorado à ICM, uma igreja inclusiva, Josiane mudou de ideia. "Aqui posso demonstrar o talento que Deus me deu sem sofrer qualquer preconceito", afirma.

Fonte: BBC Brasil

Leia também:
Desafiando preconceito, cresce número de igrejas inclusivas no Brasil

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Posicionamento do CFP: tratamento da mídia sobre homossexualidade


A esta altura do campeonato já não é nenhuma novidade esta nota emitida dia 11/04/12 pelo Conselho Federal de Psicologia a respeito da questão da "cura homossexual". Mas, como a gente não tem mesmo como ser mais rápido no gatilho que o Sérgio Viula em seu excelente blog Fora do Armário, que está sempre dando as notícias mais relevantes em primeiríssima mão, reproduzimos, mesmo com atraso, porque vale o registro e nunca é demais divulgar. ;-)

Diante das recorrentes discussões por parte da mídia sobre a questão da orientação sexual e a possibilidade de “cura” dos homossexuais pelas psicólogas e psicólogos, tendo como exemplo o programa "VEJAM SÓ" da Rede Internacional de Televisão (RIT TV), transmitido dia 19/03/2012 e que levantou o tema “você concorda que os psicólogos sejam proibidos de ajudar os gays que desejem mudar sua orientação sexual?”, o CFP tem o seguinte posicionamento:

Primeiramente, já foi esclarecido anteriormente em nota publicada dia 28/03 que a Resolução do CFP nº 001/99 referenda a posição internacional frente ao tema, pois em 1993, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade do rol de doenças e patologias da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID 10).

Da leitura da Resolução nº 001/99, constata-se que, bem ao contrário do que sustenta o autor do PDC 234/2011, o CFP em momento algum veda a prestação de orientação psicológica profissional aos que pretendam voluntariamente alterar sua orientação sexual. O que se veda é que a psicóloga (o) preste os seus serviços de modo a tratar ou a prometer a cura da homossexualidade, pois a homossexualidade não é uma doença.

A (o) psicóloga (o) deve acolher o sujeito em sofrimento psíquico, seja ele proveniente de sua orientação sexual ou qualquer outro, entendendo que cabe ao indivíduo expressar-se livremente em suas demandas para a construção de um projeto terapêutico singular.

Deverá a (o) psicóloga (o) ter como princípio o respeito à livre orientação sexual dos indivíduos, e conforme o artigo 2º item b de nosso Código de Ética, é vedado à/ao Psicóloga(o) induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito quando no exercício de suas funções profissionais.

A questão da orientação sexual como expressão do direito humano, distancia-se radicalmente de conceitos de cura e doença. O objetivo terapêutico não será a reversão da homossexualidade porque esta não é uma demanda passível de tratamento, já que não se configura como distúrbio ou transtorno. O projeto terapêutico proposto estará direcionado para o bem-estar daqueles que procuram auxílio psicológico, contribuindo para a universalização do acesso da população as informações, ao conhecimento da ciência psicológica e aos padrões éticos da profissão.

Mas uma segunda questão vem à tona, relativa ao papel da mídia brasileira na discussão de tais questões, que têm sido muitas vezes debatidas de forma rasa e tendenciosa, sem entrar no mérito de um assunto tão sério, que acaba guiado por paradigmas religiosos.

Muitas das discussões desencadeadas pelos referidos meios ferem a Democracia e substituem o necessário embate de ideias políticas por denúncias unilaterais e, de modo geral, sem comprovação informativa, e sem o livre exercício do direito ao contraditório.

Acreditamos que fatos como estes mostram, mais uma vez, que a ausência de mecanismos de regulação democrática capazes de apurar e providenciar ações imediatas para lidar com as infrações cometidas pelas emissoras demandam uma das políticas públicas que necessitam ser construídas no Brasil como um Conselho Nacional de Comunicação, com participação dos diversos segmentos da sociedade, assim como já ocorre nos países democráticos.

Esta é uma das políticas em que o CFP atua no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), onde o Conselho ocupa a Secretaria-Geral da coordenação executiva no biênio 2012-2013. A coordenação executiva do FNDC é composta atualmente por nove entidades que trabalham juntas na luta por uma Comunicação Democrática no Brasil.

É fundamental que o Ministério das Comunicações coloque em discussão, imediatamente, propostas para um novo marco regulatório das comunicações, com mecanismos que contemplem órgãos reguladores democráticos capazes de atuar sobre estas questões.

Acesse: http://www.comunicacaodemocratica.org.br/

Assista a seguir debate transmitido no dia 22/01 no programa Ver TV, da TV Brasil, com a participação da conselheira do CFP Roseli Goffman. O programa organizou debate sobre os excessos na programação da TV brasileira. Veja a seguir os blocos do Programa:

Parte 1:
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Parte 2:
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Parte 3:
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Preconceito aumenta risco de depressão, diz estudo

Mães de gays se recusam a permanecer no armário e afirmam o orgulho que têm dos filhos
na Parada do Orgulho Gay de Nova York em 1974. Vimos no blog da Amelia, aqui.

O preconceito pode estar levando jovens homossexuais a casos de depressão e suicídio. Pesquisa realizada pelo Instituto de Ciências Médicas da Unicamp constatou que homossexuais têm tendência maior a desenvolver transtornos mentais em relação a jovens heterossexuais da mesma faixa etária. A discriminação, sobretudo por parte da família, é um fator de risco para o aumento desses casos.

Isso porque o adolescente ainda necessita da proteção do ambiente familiar e mimetiza seus valores. Assim, quando rejeitado, acaba internalizando o preconceito sofrido e se auto-discrimina por sua orientação sexual.

“Nos adolescentes, isso funciona de forma mais grave porque ainda está num momento crítico de construção da individualidade”, afirma Daniela Ghorayeb, autora do estudo e PhD em saúde mental pela Unicamp. A pesquisa faz parte de sua tese de doutorado, que deu sequência a um estudo anterior sobre a saúde mental dos adultos homossexuais.

Cerca de 67% dos entrevistados afirmaram sentir vergonha de sua orientação sexual. E, enquanto nos adultos a religião e pressões da sociedade são os fatores que induzem a esse tipo de sentimento, sobretudo entre as mulheres, nos adolescentes entre 16 e 21 anos é o medo de frustar a família o que mais pesa. “Acho que até já tive raiva de mim, mas não era só ser gay, era muita coisa junto”, diz um entrevistado.

Além disso, 35% dos pesquisados apresentaram depressão e 10%, risco de suicídio. Já entre os heterossexuais, apenas 15% sinalizaram quadro depressivo e nenhum caso de tentativa ou intenção de se matar. Por sua vez, quando a homossexualidade do jovem é bem recebida pela família, e a proteção aumenta, diminuem os riscos de transtornos mentais. “Pior porque passei por muita coisa e melhor porque enfrentei, mesmo com a depressão, eu só me trancava, chorava, não queria nada, foi horrível, aí sou melhor porque tá passando”, declara um dos participantes, em trecho da pesquisa.

Segundo Ghorayeb, muitos adolsecentes afirmaram terem sido impedidos de exercer afetividade e terem medo de serem agredidos fisicamente e verbalmente. “Alguns adolescentes, a partir de um certo horário, não andam na rua. Não anda porque sabe que existe iminência de violência física”, explica a pesquisadora. Tanto a falta de liberdade para expressar sentimentos quanto o risco de agressão tem efeito negativo na saúde mental e qualidade de vida das pessoas. No último mês, uma criança de 12 anos cometeu suicídio depois de sofrer “bulling” na escola por conta de sua orientação sexual, em Vitória (ES).

Ghorayeb comenta que no exterior existem cada vez mais pesquisas para mensurar o quanto o preconceito pode interferir na saúde mental de jovens. Há também um cuidado, em alguns lugares, de se proporcionar tratamento na rede de saúde tanto para os adolescentes quanto para a família, que recebe parte desse impacto. No Reino Unido, nos centros de saúde públicos, há profissionais especializados no tema para auxiliar na orientação familiar. Aqui no Brasil, este é o segundo estudo que cruza homossexualidade e saúde mental, sendo o primeiro a sua tese de mestrado.

Na rede de saúde, não existe nenhum tipo de auxílio especializado para estes casos. “É necessário divulgar para a comunidade acadêmica melhorar a formação dos profissionais de saúde nesse sentido”, afirma Ghorayeb.

A pesquisa considerou apenas os homossexuais que assim se definiram. Além disso, por conta da dificuldade de se conseguir voluntários com esse perfil, por conta da discriminação, a pesquisadora utilizou a técnica de recrutamento denominada “snowball sampling”. Cada entrevistado indicava outros cinco que correspondiam ao perfil.

Por conta disso, o público foi bastante homogêneo e não teve abrangência de diversas classes sociais. A média de renda familiar foi entre cinco mil e sete mil reais. A maioria tinha planos de ingressar no ensino superior. “Se pesquisar outra faixa de renda, vai se chegar a resultados bem diferentes”, afirma Ghorayeb.

- Clara Roman, em sua coluna na Carta Capital em 06/04/12
Colaboração do amigo @wrighini

terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma questão de justiça: os LGBTs de Maringá e a Catedral


Desde a divulgação dos cartazes da Parada do Orgulho LGBT de Maringá, no Paraná, começou a polêmica. Como a arte de um deles (imagem acima) mostra a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Glória, construção-símbolo da cidade, atingida por um raio de luz e "explodindo" em um arco-íris, a assessoria de imprensa da Arquidiocese de Maringá informou, no final da manhã desta segunda-feira (16), que o departamento jurídico da cúria arquidiocesana foi acionado e tomaria providências jurídicas sobre o caso. Em nota a respeito do caso, a arquidiocese reiterou que "a Igreja Católica não tem a pretensão de Domesticar a sociedade, impondo-lhe seus princípios e valores", mas que o cartaz "confrontou opinião religiosa da parcela maior da comunidade maringaense".

"A ideia de fazer esse convite veio justamente, como se pode reparar na imagem, do conceito da catedral como um prisma em que, ao ser injetado um foco de luz solar de um lado, do outro desponta em todas as cores possíveis", disse Luiz Modesto, representante do movimento gay da cidade e editor do site Maringay. "Como a catedral é o primeiro símbolo de Maringá, é um convite a chamar para o diálogo todas as pessoas, para maior aceitação e respeito. Nós aprovamos e gostamos do conceito".

A inspiração veio da capa do álbum "The Dark Side of the Moon", da banda de rock britânica Pink Floyd. A autora dos cartazes polêmicos (há também uma segunda versão, mais próxima da referência original do disco), Elisa Riemer, justificou sua escolha: "Nada melhor que esse símbolo para usar como se fosse o prisma. O prisma tem vários lados e jogando uma luz conseguimos ver todos os caminhos. As sete cores. Imagine que para cada problema você tem sete respostas ou caminhos a tomar e se um estiver bloqueado... Procure a outra cor que lhe indicará outra coisa".

"Não estou ofendendo a religião de ninguém e jamais foi essa a intenção", continuou ela. "Que símbolo usar para definir Maringá? Poderia ter sido usado pra qualquer outra coisa, poderia ter sido usado pra uma campanha de alguma rádio, de alguma banda, de qualquer outro segmento. Mas o que pegou foi justamente isso, foi porque foi usada pra uma campanha LGBT. Não vejo problema algum, e muito menos falta de respeito".

Segundo Elisa, o uso da catedral se deu exclusivamente pela similaridade com o prisma: "Se as pessoas observassem bem, veriam o quanto escureci a catedral e retirei a cruz - para nada, exatamente nada, estar ligado à religião. Não tive a intenção de polemizar e sim de fazer as pessoas pensarem, refletirem". De todo modo, porém, ressaltou Modesto, "este nunca foi o cartaz de divulgação da Parada Gay. O oficial, que usaremos para publicação, é bem mais simples e pode ser visto na Fan Page do evento, no Facebook".

Ainda assim, o arcebispo de Maringá, Dom Anuar Battisti, ontem, no seu blog, lamentou “o uso dado ao cartaz, que confronta com o pensamento e a opinião religiosa da parcela maior da comunidade maringaense”. Diante da polêmica, Luiz Modesto contou ter recebido um convite para tomar café com o arcebispo nesta terça-feira (17). A reunião, segundo ele, foi amigável; o arcebispo teria entendido que o cartaz visava a ampliar o diálogo sobre a homofobia. Levantamentos feitos pelo movimento gay de Maringá registram 38 agressões contra GLBTs nos últimos 12 meses, sendo duas delas assassinatos de travestis.

“Levei alguns dados de suicídio entre adolescentes gays, de violência contra LGBT e assassinato de travestis nos municípios da arquidiocese. O arcebispo comoveu-se. Concordamos que direcionar as atenções para os casos de violência contra o ser humano é muito mais relevante que a polêmica causada pelo cartaz. O foco agora é outro, a criação da Pastoral da Diversidade em Maringá e o indicativo de uma Pastoral Nacional da Diversidade pela CNBB”, relatou Modesto. A proposta, segundo ele, seria de uma pastoral que congregasse os católicos homossexuais: “É necessário divulgar a ideia de que Deus não é ódio e punição, mas amor e acolhimento. Embora a posição da Igreja seja contrária à homossexualidade, deve existir um braço dentro dela que nos proteja da violência e nos acolha da forma como somos, sem deixar-nos desamparados espiritualmente”.

“Estamos abertos à discussão e dispostos a falar dos problemas enfrentados por eles”, disse Dom Anuar, que segundo Modesto teria afirmado também que a preocupação maior deve ser contra a violência, e não contra o movimento.

Caso a pastoral seja criada, será a primeira iniciativa oficial da Igreja Católica para trabalhar diretamente no combate à homofobia. “Para as pessoas que entenderam o cartaz como provocação, eu peço desculpas sinceras. O objetivo maior era criar um diálogo sobre o assunto. E conseguimos”, concluiu Modesto.

O que pode ter contribuído para a má recepção do cartaz - que, para os segmentos mais conservadores de Maringá, provavelmente já seria impactante pela mera associação entre LGBTs e Igreja - foi a saída das sete cores do arco-íris cercada de estilhaços, uma imagem que talvez tenha parecido agressiva. Porém, pode-se entender também a sugestão de explosão como uma referência à urgentíssima necessidade de uma mudança, na sociedade brasileira hoje, com relação à violência sofrida pelos LGBTs. E à importância e responsabilidade da Igreja como foco de transformação da atual situação - afinal, ela é o prisma que transforma a luz. Ou, como tão bem comentou nosso amigo Murilo Araújo em seu editorial brilhante para o Vestiário (leia na íntegra aqui):
De certo modo, [o cartaz] representa a igreja com que eu sonho cotidianamente. Trata-se de um sonho muito particular, porque quem tem outra fé (ou não tem nenhuma) tem todo o direito de discordar desse meu pensamento, ou de apenas não se preocupar com isso. Mas, se substituíssemos a Catedral de Nossa Senhora da Glória por uma escola, ou por um prédio do governo, o cartaz continuaria representando a minha utopia: uma instituição que transforma uma só cor em várias, e que gera a diversidade, em vez de anulá-la.
Mais tarde, ainda na terça-feira, a assessoria de imprensa da Arquidiocese veio a público informar, segundo O Diário, que as palavras de Dom Anuar sobre a Pastoral da Diversidade foram: “Acolho a proposta no coração e a respeito. Vamos encaminhá-la na medida do possível, mas não há indicativo momentâneo de sua criação”. A assessoria informou ainda que Dom Anuar participaria nesta quarta-feira (18) da 50ª Assembleia Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Aparecida (SP), e a criação da Pastoral da Diversidade provavelmente seria discutida, por conta da repercussão nacional do caso de Maringá, embora não estivesse na pauta oficial do evento.

É bom saber da própria assessoria de imprensa da Arquidiocese, oficialmente, o que foi dito pelo Arcebispo. Mesmo não havendo "indicativo momentâneo de sua criação", a postura de diálogo e abertura sinalizada foi um primeiro passo; a CNBB estar ciente e discutir a repercussão do ocorrido é outro. O terceiro... bem, o que nós, católicos, gays e não-gays, faremos agora?

De fato, antes mesmo de qualquer discussão sobre a doutrina vigente da Igreja Católica a respeito da homossexualidade, uma coisa é certa: a Igreja - e, como sempre, por "Igreja" referimo-nos não só ao Magistério, mas a todos os batizados - precisa assumir seu papel histórico de mediadora e pacificadora, que tantas vezes desempenhou com mérito, e, também na questão da homofobia, atuar como a defensora da justiça social, contrária a toda forma de violência, que é.

Parafraseando o Fórum Europeu de Grupos Cristãos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros em sua carta aberta ao papa Bento XVI ano passado, a Igreja Católica no Brasil precisa, como aconteceu no Chile, posicionar-se explicitamente contra os atos de violência contra a população LGBT. “O silêncio, neste contexto, pode ser perigosamente interpretado pelos perpetradores de atos de violência, tortura e assassinato como um parecer favorável às suas ações”, como bem sublinhou o referido Fórum.

Trata-se, aqui, de uma questão de justiça: justiça perante o direito dos LGBTs de serem respeitados e acolhidos no seio não só da Igreja, mas da sociedade mais ampla; e justiça com o papel histórico da Igreja Católica de defensora da vida e da dignidade da pessoa humana.

Portanto, urge que os católicos, gays ou não, comuniquemos à CNBB que a postura que esperamos da nossa Igreja é de abertura, acolhimento, inclusão e respeito à vida, às diferenças e à dignidade dos LGBTs. Os católicos americanos já se organizaram para transmitir ao respectivo Magistério seu desejo nesse sentido. Os europeus, também. E nós, leigos católicos aqui no Brasil?

Fica a pergunta para a nossa reflexão. De todos nós.

(Com informações do UOL, Folha de S. Paulo, O Diário [aqui e aqui], Maringay, Vestiário e Arquidiocese de Maringá e a colaboração dos amigos @MarkosOliveira, @realfpalhano, @wrighini e @murilo17)


* * *

Atualização em 18/04/12:
Veja aqui a repercussão da notícia no Jornal Hoje, da Rede Globo, que não chega a falar no desfecho da reunião e traz a informação errônea de que a imagem que foi pivô do conflito seria o cartaz oficial da Parada; e, no SBT, já trazendo a referência a uma possível Pastoral da Diversidade. Colaboração do sempre atento @MarkosOliveira. :-)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Igreja de Seattle diz "não" à homofobia


Temos sublinhado aqui a importância de não perder de vista o "magistério silencioso dos cristãos cotidianos" e lembrar que "Igreja" somos todos nós, e cada um de nós é responsável por ser a Igreja que queremos ver no mundo.

Como aconteceu no caso de Barbara Johnson e no caso dos padres suíços que se recusaram a ler uma carta pastoral de seu bispo, soubemos hoje de mais um exemplo de cristãos que deixaram a voz de suas consciências falar mais alto. A arquidiocese de Seattle, EUA, decidiu transformar suas paróquias em centros de coleta de assinaturas para uma campanha contra a aprovação da lei do casamento igualitário no estado de Washington. Porém, a catedral de St. James não vai participar, conforme anunciou seu pároco aos fiéis.

Para o Padre Michael Ryan, seria "doloroso e gravemente segregacionista" colaborar com a estratégia do Arcebispo de Seattle, Peter Sartain. "Embora o Arcebispo tenha decidido apoiar a campanha, ele sabiamente deixou a critério de cada sacerdote decidir se haveria ou não coleta de assinaturas em sua paróquia", explicou. "Após discutir o assunto com os membros da equipe ministerial da catedral, optei pela nossa não-participação. Acredito que isso poderia ferir as pessoas e causaria uma grave ruptura em nossa comunidade".

O Pe. Ryan não foi o único católico a torcer o nariz para a ideia. A governadora de Washington, Christine Gregoire, católica, foi quem aprovou o projeto de lei. O senador do estado, Ed Murray, gay e católico, grande defensor da lei, classificou a decisão do arcebispo de "repreensível".

Esse caso mostra bem por que, quando se fala em Igreja, não se pode pensar apenas no Papa, nos bispos e no clero: Igreja é uma realidade múltipla, plural, que abarca desde a criança que acaba de receber o sacramento do batismo até Bento 16 ou o bispo de sua cidade. É todo o povo de Deus que acredita em Jesus, o Cristo, e procura viver de acordo com a vida dele. Saiba mais sobre a doutrina da Igreja a respeito da prerrogativa da consciência aqui: "Como é possível uma pessoa gay ser católica?".

(Fonte: Advocate.com. Colaboração do sempre atento Hugo Nogueira)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Professores têm preconceitos contra gays

Clique na imagem para ampliar. Fonte: Facebook

Quem deveria ensinar o respeito à diversidade também demonstra preconceito contra os homossexuais ou, no mínimo, total desconhecimento do tema. É o que indica um relatório sobre homofobia nas escolas que a ONG Reprolatina acaba de divulgar em seu site (aqui) [na verdade, o relatório é datado de 2011]. Para o estudo, que tem apoio do Ministério da Educação (MEC), foram entrevistados professores, diretores, funcionários e alunos do 6º ao 9º ano do fundamental de 44 escolas estaduais e municipais de 11 capitais do País, entre elas São Paulo.

Os depoimentos, colhidos entre 2009 e 2010, falam de educação sexual, homossexualidade e preconceito. Na maioria das escolas, casos de bullying contra gays são encarados como brincadeiras naturais, o que torna a homofobia um problema invisível. Alguns relatos presentes no relatório expressam, ainda, profundo desconhecimento sobre a sexualidade.

Um educador de São Paulo diz, por exemplo, que sente “pena” dos gays e afirma não saber se a homossexualidade “é uma doença” ou se o jovem “fica assim” por ser criado no meio de mulheres. Outro, também da capital, diz que a homossexualidade pode ser detectada pela anatomia, já que as lésbicas não teriam “cintura afinada.”

Cada cidade recebeu seis pesquisadores, que criaram grupos de discussão e observaram o cotidiano das escolas. Coordenadora do estudo, a ginecologista Magda Chinaglia participou das entrevistas em São Paulo. E diz que uma das principais constatações é a de que a educação sexual é deixada de lado. “Ela não existe, embora seja uma política bem antiga. Quando existe, está focada no lado biológico. A sexualidade não é discutida e os professores não se sentem preparados.”

Magda conta que casos de homofobia foram presenciados até mesmo pelos pesquisadores. Uma garota da capital contou o que ouviu dos colegas: “Eles vieram pra mim e disseram: ‘Você não é bem-vinda aqui, nós não te aceitamos. Além de ser baiana, você ainda é sapatona?’ Falaram um monte de coisas”. Um outro estudante disse que seu amigo teve de sair da escola por causa do preconceito.

Apesar dos relatos dos jovens, as autoridades escolares afirmaram, quando questionadas, não terem conhecimento dos casos. “Diretores e professores não veem as situações mais graves”, diz Magda. Segundo ela, a homofobia não é enxergada porque está naturalizada e foi incorporada ao cotidiano escolar. No documento, os próprios professores reconhecem que não sabem lidar com o problema e um deles diz que a “escola reza” para que “essas coisas” não aconteçam, “para não ter de resolver”. Outro admite: “Não estamos ainda aptos para falar disso. O que a gente fala é o superficial”. Eles também apontam os pais, que desaprovam aulas de educação sexual, como empecilho.

“Cada situação dessas mexe comigo. São coisas que vivi na escola, senti na pele. Surpreende a professora falar que, se você é homossexual, é democracia a outra pessoa o xingar”, diz o educador Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). Ele se refere ao jovem gaúcho de 15 anos que, no mês passado, foi agredido na saída da aula após assumir ser gay. Ao perguntar para a professora por que não interferia, ouviu que “os outros tinham direito de se expressar daquela forma.”

Reis estudou a homofobia nas escolas em seu doutorado. “Temos várias políticas públicas estabelecidas no âmbito nacional e estadual, mas não estão chegando às escolas”, diz. A conclusão de seu estudo é semelhante àquela indicada pela Reprolatina: até existem professores sensibilizados para o tema, mas falta capacitação para que aprendam a lidar com o problema.

(Publicado originalmente no Jornal da Tarde)

Leia também:
Diversidade Sexual e Educação: Problematizações sobre a Homofobia nas Escolas (pdf para download, 2009)
Estudo qualitativo sobre a homofobia na comunidade escolar em 11 capitais brasileiras: Relatório técnico Final (pdf para download, 2011)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cardeal de Viena desautoriza pároco e confirma homossexual como membro de conselho paroquial [Atualizado em 04/04]

Foto: AFP

Postamos esta notícia originalmente em 02/04/12 mas, tendo encontrado uma versão bem mais completa da história aqui, estamos atualizando seu conteúdo em 04/04/12.

O jovem de vinte e sete anos, Florian Stangl, foi o mais votado, entre os paroquianos, durante as eleições do novo conselho pastoral de Stützenhofen, ao norte de Viena. O pároco, porém, não quis admitir sua designação. E, aí, interveio o arcebispo, que assumindo a responsabilidade, decidiu convalidar a eleição. A intervenção do cardeal Cristoph Schönborn, agora, está sendo motivo de polêmica (Die Presse, em alemão). Nos últimos dias, depois de expressar reservas, num primeiro momento, decidiu admitir no conselho pastoral, da paróquia da pequena cidade austríaca, um jovem homossexual que convive com seu parceiro, com quem contraiu união civil.

Na votação, ocorrida há três semanas, Stangl obteve 96 votos a favor, dos 142. O pároco Gerhard Swierzek pediu para que ele renunciasse e, inclusive, o convidou para não se apresentar para receber a eucaristia. Uma decisão contestada pelo vigário forâneo, responsável pelo decanato, o padre George Von Horick: “Se existe a permissão aos divorciados, que voltam a se casar, para se colocarem como candidatos – disse – tampouco as inclinações, nem a vida homossexual” devem impedir a eleição.

Num primeiro momento, a diocese de Viena havia declarado que o registro numa união civil não permite a participação no conselho pastoral. Stangl declarou numa entrevista: “Sinto-me unido aos ensinamentos da Igreja, porém o pedido de viver em castidade me parece pouco realista. Quantas pessoas vivem na castidade?” E pediu para falar com o cardeal Schönborn, que convidou, ele e seu parceiro, para almoçar. No dia 30 de março, o arcebispo de Viena fez publicar uma segunda declaração, mais articulada (Arquidiocese de Viena, em alemão). Schönborn agradeceu aos “muitos candidatos às eleições do conselho pastoral”, porque com suas candidaturas “demonstraram interesse pela Igreja e pela fé”. “Assim – continua o cardeal – deram testemunho da vitalidade da Igreja. Em sua diversidade, refletem a diversidade atual dos caminhos de vida e de fé”.

“Existem muitos membros dos conselhos pastorais paroquiais – acrescentou o arcebispo de Viena – cujo estilo de vida não cumpre, em sua totalidade, com os ideais da Igreja. Em vista do testemunho de vida que cada um deles nos dá, em conjunto, e do esforço em viver uma vida de fé, a Igreja aprecia seu compromisso”.

Schönborn, então, elogiou a viva participação das jovens gerações na vida paroquial da pequena comunidade de Stützenhofen, e a grande participação nas eleições do conselho pastoral. “Os erros formais que vieram à luz, durante a eleição, não colocam em discussão os resultados da eleição, em que o candidato mais jovem, Florian Stangl, recebeu a maioria dos votos”.

O cardeal conta que se reuniu com Stangl e que ficou “profundamente impressionado por sua fé, por sua humildade, e pelo modo em que concebe seu serviço. Ele pôde compreender por que os paroquianos votaram, de forma tão decidida, na sua participação no conselho pastoral”. Por último, o cardeal assinalou a decisão do conselho episcopal, que por unanimidade estabeleceu que as autoridades diocesanas não pretendem invalidar a eleição, nem os resultados, e que revisarão as regras para os conselhos pastorais, para esclarecer os requisitos necessários para os candidatos.

A que “erros” Schönborn se referia? Ao fato de que os candidatos para os conselhos pastorais, na diocese de Viena, devem assinar uma declaração na qual garantem cumprir com todos os requisitos necessários, entre os quais está o de adesão da fé e disciplina da Igreja católica, que, como se sabe, condena a prática homossexual e as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Porém, na eleição em Stützenhofen, os candidatos não quiseram assinar a declaração, afirmando verbalmente cumprir com os requisitos.

Nos últimos dias, na Itália, foi o cardeal Carlo Maria Martini, arcebispo emérito de Milão, que se pronunciou sobre a possibilidade do reconhecimento das uniões civis de pessoas do mesmo sexo. No livro-entrevista “Credere e conoscere” [Crer e conhecer] (Einaudi), escrito em diálogo com Ignacio Marino, Martini afirmava: “(...) não seria ruim que no lugar de relações homossexuais ocasionais, as pessoas tivessem certa estabilidade e, então, neste sentido, o Estado poderia favorecê-las também”.

Fonte: Vatican Insider, 03-04-2012. A tradução do Cepat, aqui reproduzida via Dom Total e IHU.


* * *

Nossa postagem original, de 02/04:

Vão permitir que um homossexual, que vive abertamente com outro homem, seja membro de um conselho paroquial (leigos que assessoram o pároco)? Esta foi a pergunta que despertou acalorados debates na Áustria nos últimos dias, como informa o diário vienense Die Presse.

Florian Stangl foi eleito para o conselho paroquial de Stützenhofen, um povoado da Baixa Áustria na região de Weinviertel, mas a notícia não foi recebida com grande entusiasmo por parte do párroco, Gerhard Swierzek.

Para surpresa de alguns fiéis, Stangl e seu marido conseguiram marcar uma entrevista com o cardeal Christoph Schönborn, que ao que parece os convidou para comer, ou, pelo menos, teve com o casal uma longa conversa. Segundo o Die Presse, o cardeal Schönborn foi a favor de que Stangl não deixasse o conselho paroquial, mas a decisão ainda não fora comunicada oficialmente... Até ontem à tarde. De fato, Schönborn confirmou Stangl em seu cargo, segundo informa a agência católica austríaca Kathpress.

A notícia poderia ter acabado aqui, mas tem mais.

Enquanto isso, o sacerdote de Stützenhofen recebeu ameaças, jogaram gasolina por uma janela de sua casa e um jornal local teria divulgado a falsa notícia de que o padre teria "saído de férias". (É assim que pretendemos construir um mundo melhor? Isso é defender a paz? Indo à guerra? Apelando para a mesma violência e difamação de que somos alvo há tanto tempo? A refletir...)

Fonte: ABC.es via nosso "colaborador honorário" @wrighini ;-)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tuítes de sexta

Nossa imagem do dia, daqui

RT@cynaramenezes: 40% da população da América Latina são governados por mulheres. Se Josefina Vazquez ganhar no méxico, serão 60%. Ao mesmo tempo, a América Latina tem as mais altas taxas de morte por violência de gênero. Somos desiguais em tudo.

RT@MarkosOliveira: "É fundamental q o trabalho doméstico tenham os direitos garantidos e deixe de ser escravocrata", Ministra Menicucci glo.bo/AuefGA

RT@JoaoWNery1: Ninguém tb nasce homem, torna-se. fb.me/1cN1HTcDa

8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher
"Testemunha ocular de como movimentos sociais, altamente ideologizados, são capazes de forjar datas de celebração e eventos 'históricos', fiquei obviamente com dois pés atrás no que se refere a todas as datas de comemoração, entre outros, do movimento feminista ou de mulheres. Quem me garante que outras datas não foram também fabricadas como uma que eu vi 'nascer'?"

Batalha legal inédita em Israel: criança com duas mães biológicas
"Um casal de lésbicas israelitas foram reconhecidas em tribunal como mães de um menino, numa decisão sem precedentes nesse país."

A amiga islâmica disse: “Vocês, mulheres ocidentais, escravizam-se a partir da imagem”
"Ela carinhosamente me explicou: 'Vocês, mulheres ocidentais, acham que são livres, feministas e independentes. Mas veja bem. Dificilmente vocês saem de casa sem se preocupar com a aparência. Escravizam se a partir da imagem. E produzem a autoestima como reflexo da opinião dos outros. Eu, ao me cobrir, revelo qualidades, como capacidade, sensibilidade e inteligência.'"

Precisamos queimar cuecas em praça pública
"O homem precisa começar a entender que tem direito ao afeto, às emoções, a sentir. Passar a ser homem e não macho."

Leia também: O preço da masculinidade
"Estamos sempre sendo chamados para provar que nos tornamos suficientemente masculinos ou femininos."


Gays nas Forças Armadas: 63% dos brasileiros aprovam, diz pesquisa
"É muita 'viadagem' – para colocar essa expressão pejorativa em embate com seu próprio significado – o problema das Forças Armadas com os homossexuais, como se eles fossem menos capazes de defender o país ou ter menos bravura em combate que um hétero."

Video: UN Secretary-General message on violence and discrimination based on sexual orientation or gender identity

Leia também: "Vocês não estão sozinhos": a ONU discute a violência homofóbica
"Àqueles que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros, eu digo: vocês não estão sozinhos. Sua luta pelo fim da violência e discriminação é compartilhada por muitos. Qualquer ataque a vocês é também um ataque aos valores universais que as Nações Unidas e eu juramos defender e resguardar. Hoje, estou com vocês (...) e convoco todos os países e povos a colocarem-se comigo ao seu lado."


RT@RafaZveiter: Chega de mortes a gays e trans. Video da #maespelaigualdade Marlene: 10 anos sem justiça. #LGBT #HomofobiaNAO

Grupo da BA elege Dilma maior inimiga dos gays em 2012
"O Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou nesta quinta-feira os 'ganhadores' do Troféu Pau de Sebo, que elege os maiores inimigos dos homossexuais brasileiros no ano em diversos quesitos. Em 2012, a vencedora foi a presidente Dilma Rousseff (PT), que puxou uma série de políticos listados na premiação, realizada há 22 anos."

Padres no divã
"É preciso renovar o trabalho dos padres (...). Está em jogo a responsabilidade do contato com as pessoas. A formação não é mais apenas a do seminário. Há a necessidade de um monitoramento contínuo, de um apoio. Existem problemas relacionados ao excesso de trabalho, à afetividade, ao estresse. Se não foram enfrentados devidamente, há o risco de que as pessoas não confiem mais na Igreja e que as próprias igrejas se esvaziem".

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