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terça-feira, 6 de agosto de 2013

O papa e os gays: o que muda?


Que bom ver a entrevista do papa Francisco repercutindo no mundo: “se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?” - foi a frase estampada em muitos jornais e noticiários. Houve muitos comentários entusiastas, algumas reticências e até quem afirmasse que nada mudou. Cabe avaliar o que mudou e em que medida.

A principal mudança é um papa utilizar o termo ‘gay’. Por muitos séculos no ocidente, o termo usado para se referir àquele tipo de pessoa era ‘sodomita’. É uma referência ao relato bíblico do pecado de Sodoma: a tentativa de estupro que os habitantes desta cidade fizeram aos hóspedes do patriarca Ló. Esta atitude nada tem a ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo, ou mesmo com relações sexuais livremente consentidas entre pessoas adultas. Mas, por razões outras, Sodoma se tornou o símbolo do homoerotismo pecaminoso que atrai o castigo divino, sob a forma de catástrofes naturais. No século 19, surgiu o termo ‘homossexual’ para tratar desta questão fora da perspectiva religiosa ou moral. Porém, a homossexualidade foi logo considerada doença. E, no ensinamento atual da Igreja, é uma inclinação desordenada que pode conduzir a atos igualmente desordenados e contrários à lei natural.

A medicina hoje não considera mais a homossexualidade como doença. Os movimentos sociais, porém, empregam o termo gay (originalmente alegre), para evocar a autoestima das pessoas com esta condição, bem como para reivindicar liberdade e igualdade de direitos. Na doutrina católica, por sua vez, este termo tem um sentido negativo. Um candidato ao sacerdócio que apóia a ‘cultura gay’ não pode ser ordenado. Portanto, um papa se referir publicamente à pessoa ‘gay’, indica uma mudança no horizonte de compreensão desta realidade. 

Francisco também cita o Catecismo da Igreja Católica para dizer que não deve haver marginalização destas pessoas na sociedade, mas integração, pois todos são irmãos. Ao ser perguntado por que não havia falado no Brasil sobre o casamento gay e o aborto, o papa justificou que a posição da Igreja nestes assuntos já é conhecida, e não havia necessidade de insistir. Ele preferiu falar de “coisas positivas que abrem caminho aos jovens”. Portanto, a ênfase está na dimensão positiva da mensagem cristã e não na reiteração de proibições. Aliás, o papa Bento XVI já havia dito que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. No entanto, ele não avançou neste caminho. O seu sucessor agora o faz.

Entre as objeções à entrevista de Francisco, está a menção ao Catecismo. Isto engessaria a questão, pois só há lugar na Igreja para o gay celibatário. Não é assim. A castidade, entendida como a correta integração da sexualidade na pessoa, é um caminho gradual, um crescimento pessoal em etapas (nº2343). Não é o reino do tudo ou nada. São reconhecidos casos em que a tendência homossexual não é opção da pessoa, e circunstâncias em que ela é compelida a agir de modo homossexual, sem culpa alguma (Homosexualitatis problema, nº11). Daí a importância do que diz o papa Francisco: a pessoa gay que busca a Deus e tem reta intenção não deve ser julgada por ninguém, nem mesmo pelo papa. Ninguém tem o direito de oprimi-la com assédio moral ou com terrorismo espiritual. E esta pessoa pode ser muito encorajada por uma afirmação do Catecismo: o primeiro de todos os representantes de Cristo é a consciência de cada um (nº1778).

Outra objeção é a defesa que o papa faz da família formada pela união heterossexual. Este modelo de família seria o único legítimo. Convém notar o elogio de Francisco à mulher paraguaia: “a mais gloriosa da América Latina”. Após a Guerra do Paraguai (1864-1870), sobraram oito mulheres para cada homem, e essas mulheres fizeram a escolha difícil e arriscada de ter filhos para salvar a pátria, a cultura e a fé. O papa elogia nada menos do que uma produção independente feita em escala nacional, ainda que em circunstâncias extremas. Estas mulheres são mais gloriosas do que todas as outras, incluindo as que vivem no modelo tradicional de família. Francisco não está contrariando a moral católica, mas está mostrando corajosamente o amplo alcance do caminho gradual na aplicação da lei moral. Isto o leva a não absolutizar um modelo familiar. Eis um exemplo muito bom para a Igreja e para a sociedade.  

A doutrina da Igreja é o seu modo de compreender o Evangelho, sempre mediado pela cultura, em uma tradição consolidada ao longo de muitos séculos. Esta doutrina já mudou em vários aspectos, e pode mudar mais. Mas isto passa pelo consenso dos bispos, interagindo com os fieis e com a sociedade. O papa é o ministro da unidade da Igreja Católica. Ele não muda as coisas com uma canetada. É ingenuidade esperar o contrário. A escolha de Francisco é um novo enfoque pastoral, explorando suas ricas possibilidades.

O que favorece este processo é a “cultura do encontro”, preconizada pelo próprio papa, onde através do diálogo todos têm algo de bom a dar, e todos podem receber em troca algo de bom. Isto requer uma Igreja que não seja ensimesmada, autorreferencial - como ele diz - mas capaz de testemunhar ao mundo um Deus que só quer o nosso bem. O que prejudica este processo são os preconceitos. E um deles, mencionado acima, é muito sutil: afirmar que só há lugar na Igreja para o gay celibatário. Esta é uma leitura rasa da doutrina, que conduz a uma simplificação perversa. Infelizmente, esta simplificação cruel tem unido religiosos ultraconservadores, de um lado; e críticos implacáveis, de outro lado. Ambos acabam alimentando um radicalismo estéril.

Convém torcer por estes bons propósitos do papa Francisco. E os que têm fé podem e devem rezar, pois não faltam resistências ferozes. Os bons ventos franciscanos hão de prevalecer.



Equipe Diversidade Católica

O significado do silêncio


A atenção aos pobres e as desigualdades sociais protagonizaram as declarações do papa Francisco durante sua visita ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, prevalecendo sobre temáticas de moral sexual mobilizadas com mais freqüência e veemência no papado anterior de Bento XVI. Em uma semana, o papa conclamou os jovens a serem revolucionários (no sentido de não aceitarem a ideia do casamento sacramentado como algo fora de moda), falou em “humanismo na economia”, fez uma autocrítica em relação ao distanciamento da Igreja para com os fiéis – para ele, motivo da notória perda de seguidores em todo o mundo – e chegou a louvar a importância da laicidade do Estado para o convívio pacífico entre diferentes religiões.

Ao contrário do que se esperava, Francisco não aproveitou a oportunidade de passar aos jovens lições da moral católica, preferindo calar-se sobre temas como casamento gay, aborto e uso de métodos contraceptivos. Apenas em sua viagem de volta à Roma, em entrevista a jornalistas presentes no mesmo vôo, o papa tocou em assuntos como a homossexualidade e o papel da mulher na Igreja. Sobre este último disse que as mulheres têm um papel essencial na Igreja, embora o pontífice tenha se mantido contrário à ordenação. Sobre a homossexualidade, disse: "Se uma pessoa é gay e busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?"

Foi o bastante para que Francisco ganhasse a simpatia de representantes de movimentos LGBT brasileiros, que viram com bons olhos as declarações do papa e entenderam o posicionamento como um sinal de abertura e diálogo.Muitos deles afirmaram-se esperançosos, acreditando que a mensagem do papa possa vir a contribuir para o combate à discriminação. Mas até que ponto as declarações do papa sobre alguns temas e o seu silêncio sobre outros representam realmente alterações significativas no rumo e na doutrina da Igreja Católica? Que efeitos a visita de Francisco pode trazer na maneira como algumas questões serão tratadas no cotidiano pastoral da Igreja daqui para frente?

Para Sérgio Carrara, antropólogo e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, não é possível afirmar que haja uma mudança doutrinária em termos de moral sexual. “A fala do Papa sobre os gays não significa uma alteração no sentido que a homossexualidade possui na doutrina. Não foi uma declaração que negasse a ideia de pecado que define a relação entre pessoas do mesmo sexo. Pela declaração, não fica claro a opinião do papa sobre o tema”.

Opinião semelhante à da co-coordenadora do Sexuality Policy Watch (SPW) Sonia Corrêa. “A rigor, não houve alterações do ponto de vista doutrinário. A ideia de pecado permanece. O que se pode apontar como diferencial é a ênfase na compaixão e na misericórdia. Ainda assim, uma compaixão que aparece atrelada à fé, possibilitada por aquele que busca a Deus, nas palavras do papa”, observa.

Para um membro do grupo Diversidade Católica, que prefere não se identificar, a fala do Papa Francisco sobre homossexualidade representa uma grande mudança. “Francisco usa o termo ‘gay’ e não ‘homossexual’, que aparece na doutrina oficial como um termo hostilizado. Há, nesse sentido, a incorporação de um vocabulário da militância pelo líder da Igreja Católica. Também acredito que não há avanço em termos doutrinários, mas não se pode descartar o tom positivo de acolhida que se vê na fala do papa. Há uma mudança no tom que propicia condições para potencializar mudanças”, acredita o integrante da Diversidade Católica.

A mensagem do Papa para os gays não pode ser analisada separadamente da observação subseqüente do pontífice. Francisco afirmou que o problema não é ter essa tendência [a homossexualidade], mas sim o lobby [gay], comparando ao lobby de pessoas avaras, da maçonaria e dos políticos. Não fica claro, porém, se a referência é ao lobby dentro do Vaticano ou a grupos de advocacy dos direitos LGBT. “O Papa parece sugerir um contraste entre a politica "negativa" que segundo ele é praticada por lobbies elitistas - os avaros, os políticos, os maçons e os gays - e a conexão não elitista da igreja com as classes subalternas. Essa retórica, entre outras coisas, oculta as práticas de pressão política da Igreja e do próprio Vaticano sobre e por dentro dos estados. A aprovação da Concordata Brasil Vaticano em 2009 é uma ilustração cabal que a Igreja também faz lobby", afirma Sonia Corrêa.

A despeito da histórica oposição do Vaticano às perspectivas dos direitos sexuais e reprodutivos – como o uso da camisinha e da pílula, por exemplo –, na prática, a vida dos católicos nem sempre está em acordo com as recomendações morais da Igreja. Pesquisa divulgada pelas Católicas pelo Direito de Decidir durante a JMJ mostrou que o uso de pílula anticoncepcional é aceito por 82% dos jovens católicos. Além disso, 56% dos jovens mostraram-se favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

(...) O papa, durante a JMJ, falou em laicidade, no sentido de uma convivência pacífica entre as diversas religiões, e não como o princípio de separação entre o poder político e administrativo do Estado e o poder religioso. Sobre essa abordagem, Sérgio Carrara avalia que é uma posição interessante pelas implicações que isso pode trazer. “A declaração traz a questão da laicidade para a convivência entre doutrinas diferentes. No entanto, quando isso se volta para a laicidade enquanto princípio jurídico, é possível refletir sobre determinadas implicações. A separação entre Estado e Igreja tem sido um argumento mobilizado por movimentos sociais para promover e garantir direitos sexuais e reprodutivos. Portanto, é possível deduzir que o comentário pode trazer contribuições para o diálogo com minorias”, argumenta Sérgio Carrara.

A não tematização de determinados assuntos deve ser olhada também com atenção. Seria uma sinalização que enseja o debate sobre assuntos sensíveis? Não se viu declarações sobre aborto ou contracepção, por exemplo. De acordo com Sérgio Carrara, o foco do papa tem sido a desigualdade social e a pobreza, cujo destaque tem deixado de lado questões ligadas à moral sexual. “As falas do Papa apontam para alterações sutis. Embora nada novo em termos de doutrina tenha sido proposto, é possível avaliar que exista um deslocamento na hierarquia das questões, como se ele apontasse que aquilo que diz respeito à sexualidade fosse uma questão de foro íntimo. A Igreja, nesse sentido, estaria sinalizando um deslocamento de ênfases”, analisa Sérgio Carrara.

O silêncio de Francisco, avalia o integrante da Diversidade Católica que prefere o anonimato, é muito emblemático. “O papa tem demonstrado, desde que assumiu, que as posições da Igreja sobre moralidade sexual já são suficientemente conhecidas. Assim, ele parece se abster de retomar as proibições morais. Ao fazer isso, deixa aberto um caminho de diálogo”, observa.

Talvez o silêncio do papa signifique que ele – Francisco – não esteja querendo reiterar as velhas posições da Igreja. Não que ele esteja se afastando da doutrina tradicional, apenas está evitando insistir nela.

Publicada em 01/08/2013 pelo CLAM, aqui

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Nos tempos das catacumbas


Por várias partes, começa-se a falar abertamente sobre grupos como o nosso. O mundo gira e a história caminha...

Francisco abre aos gays um horizonte pastoral totalmente novo. Um ato corajoso, inesperado, considerando-se o púlpito de onde vem. Lucetta Scaraffia, no L'Osservatore Romano, observa que Bergoglio, embora não tenha mudado nada das regras morais em vigor, com essas simples palavras pronunciadas no avião voltando do Brasil, "apaga um moralismo rígido e fofoqueiro, e com poucas palavras afasta da Igreja Católica aquela acusação caluniosa de homofobia que a perseguiu nos últimos tempos".

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 31-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

Sim, porque o caminho espiritual dos fiéis homossexuais, um arquipélago variado que age subterraneamente como nos tempos das catacumbas, continua sendo um percurso acidentado, fatigante, tingido por incompreensões recíprocas. Dos catecismos de Pedro Canísio, santo e jesuíta que participou do Concílio de Trento, que estigmatizava com dureza inusitada "que os gays gritam vingança contra Deus", rolou muita água.

Com o último Catecismo, a Igreja colocou preto no branco que Deus certamente não gosta das discriminações e, melhor, deu disposições para que os párocos e os fiéis incluam os gays e façam-lhes chegar toda a grandeza da misericórdia do Senhor.

No entanto, algo ainda não deu certo se os poucos sacerdotes que se ocupam ativamente nessa pastoral de fronteira se movem com extrema cautela para não dar origem a escândalos, para não irritar ou, pior ainda, para não criar problemas para os bispos.

Graças às redes sociais digitais e à internet, os grupos de católicos gays se movem em contato entre si, dando origem a iniciativas espirituais, retiros para meditar a Palavra, acender debates. Sobretudo para fazer entender a quem está em busca de uma luz que o amor de Cristo não tem limites. Em nível italiano, é famoso o Projeto Gionata, enquanto em Roma são ativas duas realidades nascidas há 20 anos, Nuova Proposta e La Sorgente.

O padre José é um dos padres que há muito tempo concretiza o método Bergoglio, que consiste em ir pescar as ovelhas perdidas, neste caso fiéis homossexuais que se afastaram da Igreja justamente porque se sentem fortemente discriminados. Duas vezes por mês, eles se encontram em uma igreja do centro histórico de modo informal.

"Eu prefiro não ser mais específico para não pôr em risco a continuidade da acolhida. Sim, é verdade, até agora, por parte da Igreja, com relação a essa pastoral, houve uma certa desconfiança, uma tendência a não incluir, a ignorar mais do que a discriminar em sentido estrito". Esse sacerdote (que trabalha em uma Congregação do Vaticano) prefere falar por trás do anonimato.

Os tempos das catacumbas retornam. Voltas e reviravoltas da história. "A novidade das palavras do pontífice consiste no fato de que ele abordou livremente esse assunto. Ele o fez com autenticidade, para fazer com que se entenda que a Igreja é uma mãe inclusiva, e não exclusiva. No Brasil, Bergoglio, durante um encontro, acrescentou que é preciso dar cidadania àqueles que, em meio aos sofrimentos, se sentiram excluídos até agora. Isso também vale para as pessoas homossexuais".

Quem frequenta essas comunidades estabelece um contato, se fala, se sente a necessidade de se reconciliar com Deus. "Você não imaginar quantas pessoas participam". A pastoral das fronteiras complicadas, fé e homossexualidade, binômio muitas vezes combatido pela esferas vaticanas. Mas os caminhos do Senhor continuam sendo infinitos.

“Não julguem, e vocês não serão julgados” (Mt 7,1)




Francisco “leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem”, escreve o teólogo José María Castillo, em artigo publicado em seu blog Teología Sin Censura, 30-07-2013. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU.

Se algo está ficando evidente em relação ao papa Francisco, cada dia mais evidente, é que se trata de um papa que acredita mais no Evangelho do que no papado, que leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem. Não pretendo discutir agora, nem sequer insinuar que haja, ou possa haver, contradições entre o Evangelho e o Vaticano. Refiro-me ao que é a “convicção determinante” na vida.

Essa convicção pode ser a bondade ou pode ser o poder. Existiram papas cuja convicção determinante foi a bondade, assim como papas cuja convicção determinante foi o poder. Pois bem, o mecanismo que faz funcionar a bondade é o respeito a todos, ao passo que o mecanismo que faz funcionar o poder é o julgamento. Isto ficou claro no princípio satânico que a serpente pronunciou, no mito do paraíso, quando disse para Eva: “Vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3, 5).

O que define Deus, segundo o demônio, é o poder que delimita o que está bem e o que está mal. E para isto, muitas vezes, os chamados “representantes de Deus” na terra se dedicaram. Por isso, sem dúvida, o papa Francisco se dedicou, em seu ainda curto pontificado, a atiçar fortemente os clérigos, começando por ele mesmo, pelos papas, os cardeais, os bispos, os padres, os freis... Os clérigos, disse Francisco, tem distanciado os jovens da Igreja. Uma Igreja que se dedicou em julgar a bons e maus. Uma Igreja que se dedicou a se “fazer de Deus”, a produzir a impressão de que tem a última palavra, como se fosse Deus.

Por isso, em poucos minutos, a resposta que Francisco deu a um jornalista no avião, em seu retorno do Rio de Janeiro para Roma, circulou o mundo: “Se uma pessoa gay busca ao Senhor, quem sou eu para julgá-la?”. Francisco tem consciência de sua responsabilidade. Contudo, também sabe que esta responsabilidade está limitada por sua condição humana. Uma condição e sua conseguinte limitação, que o Papa sempre leva consigo, por mais papa que seja. Jesus proibiu seus operários de arrancar a cizânia do mundo porque – tenham a tarefa que tiverem – podem se equivocar. E pode muito bem acontecer que ao invés de arrancarem a erva daninha, passem a vida por este mundo arrancando o trigo de Deus (Mt 13, 24-30. 36-43). Apenas os anjos de Deus, em definitivo, somente Deus pode saber e pode decidir o que está bom e o que está ruim.

E para terminar, um critério que o papa Francisco deixou muito claro: “Os pecados se perdoam, os crimes não”. O problema é que abundam os clérigos (com seus coroinhas) que, caso seja preciso, atiram-se na rua para pedir que, enquanto for possível, algumas coisas que o Catecismo diz sejam copiadas no Código Penal. Já é ruim pecar e ter que se confessar, entretanto, se acima disto, você precisa passar pelo juizado para acabar na prisão... não é isso pretender que o nacional-catolicismo retorne?

Santo Deus! Não nos cansemos de ser boas pessoas. Porque apenas a bondade – e sempre a bondade – tem força para mudar o mundo. E até para dar uma nova virada na história.

domingo, 4 de agosto de 2013

Cidadania e Estado Laico: reflexões em torno do momento atual brasileiro


Excelente e profunda a análise de Ivone Gebara no Adital sobre a liberdade de consciência numa sociedade pluralista e num Estado laico. Selecionamos apenas o trecho final, mas vale ler o texto inteiro aqui.

"As crenças religiosas nos espaços políticos públicos são um fenômeno crescente em nossa época e em nosso meio. Elas invadem os espaços públicos mesmo num Estado que constitucionalmente se afirma como laico. Deputados, senadores, vereadores, juízes eleitos ou escolhidos para servir o bem comum não conseguem estar isentos de suas crenças religiosas. Suas crenças passam a ser bandeiras políticas de forma que estamos continuamente sendo vítimas de um Estado religioso constitucionalmente afirmado e reconhecido como laico. Este paradoxo pode ser observado nas muitas manifestações religiosas que temos assistido nos últimos anos para interferir em políticas públicas, sobretudo as que tocam a sexualidade humana. Vale notar, nesse particular, o uso indevido de textos religiosos para fundamentar posturas políticas através de uma retórica impressionista usada para convencer o público. Creio que isto é um delito que atenta contra a Constituição Nacional e merece ser enfrentado pelo conjunto de cidadãs e cidadãos das mais diferentes formas.

A questão é de saber como se pode colocar entre parêntesis sua crença religiosa em favor do bem comum. Ou, como crescer em consciência em relação à diversidade de situações num mundo tão complexo quanto o nosso? Como se educar para uma sociedade pluralista onde minha crença religiosa e política não é verdade para toda a sociedade? Além disso, trata-se de educar-se para discernir entre a necessidade de leis e minha escolha pessoal. Não é porque existe a legalização do aborto ou casamento homossexual que tenho que vivê-los e nem acreditar que as pessoas serão menos morais ou menos responsáveis se uma lei se efetivar. Em outros termos, não é porque o casamento homossexual ou heterossexual existe que vou me casar e nem porque o aborto é permitido por lei que vou abortar. As muitas polêmicas de nosso tempo não chegarão a lugar nenhum se não assumirmos a realidade do pluralismo de nossa nação e de nosso mundo. Pluralismo significa diversidade e diversidade significa que algumas leis devem ter validade para todos os cidadãos/ãs e outras podem ser escolhas de cada um e cada uma diante de sua própria consciência e da contingência em que está vivendo. Significa igualmente não bloquear o caminho e as escolhas de outras pessoas que vivem e pensam diferentemente de mim.

Nesse contexto as muitas soluções devem ser relativizadas, isto é, entendidas a partir da diversidade e particularidade das situações. Por exemplo, algumas soluções afirmam a necessidade de leis proibitivas em torno da sexualidade e apostam numa legislação rígida que tenha efeito punitivo das /os infratores. Outras optam por uma legislação permissiva que chame a atenção da responsabilidade individual e coletiva frente aos problemas da sexualidade. Outras ainda propõem medidas educativas com diferentes propostas. E nesse universo de observações há igualmente uma grande maioria da população que está fora do debate e da busca de soluções. Estão numa postura de desinformação política e social aguardando que um problema individual irrompa e venha motivar a sua procura imediata de soluções.

Nessa conjuntura somos chamadas/os ao discernimento e a uma reflexão que busque ver os muitos matizes de uma mesma situação. Não há mais lugar para posições absolutas, para princípios imutáveis fundados numa imagem de Deus que é facilmente manipulada pelos diferentes grupos. O desinteresse pelo pensamento é algo que nos choca. Reduz-se o pensamento crítico aos interesses individuais ou partidários sem que se reflita na humanidade plural que constitui a nação brasileira e todas as outras nações do mundo. Estamos necessitadas de uma compreensão não sectária de nossos problemas e da busca de soluções viáveis. Essa compreensão deve ser ampla para ser compatível com as diferentes visões do que se considera vida justa e bem viver. Mas, onde vamos encontrá-la? Creio que o único caminho é o diálogo incessantemente recomeçado pelos diferentes grupos, um diálogo onde desde o início, embora com nossas convicções, estejamos dispostos a ouvir os outros. Ouvir é a grande questão, pois na realidade desaprendemos a ouvir numa sociedade onde predomina o barulho das máquinas, dos muitos sons, dos muitos gritos humanos que de tão fortes não conseguem ser distinguidos pelos ouvidos de uns e de outros. Baixar a nossa voz, talvez até silenciar para ouvir a melodia da música alheia, para aprender outros sons que também constituem as notas da musicalidade humana e da sinfonia do universo. Baixar a voz para aprender a pensar, para escutar a nossa voz interior. E só então, dar alguns passos em conjunto sabendo que estamos todas/os a caminho, com possibilidades inevitáveis de tropeçar e de perder o rumo, mas estamos juntas/os na extraordinária aventura humana."

sábado, 3 de agosto de 2013

Carta de um gay católico ao papa Francisco


Esta semana vários amigos compartilharam no Facebook a notícia de que um ex-padre gay havia escrito uma carta aberta ao papa Francisco. Embora as matérias divulgadas descrevessem a carta e contivessem trechos traduzidos do original espanhol, não encontramos nenhuma tradução na íntegra. Ao ler o original, ficamos muito impressionados com a clareza e qualidade de seu conteúdo, e achamos que valia muito a pena traduzir e compartilhar com vocês o texto completo. Fica para a reflexão de todos nós, Igreja.

Admirado e estimado Francisco:

Paz e bem! Tomo a ousadia de escrever, com todo o respeito e admiração marecidos.

Como milhões de pessoas, venho observando, ouvindo e acompanhando de perto sua nomeação, seus primeiros atos como papa, sua viagem à América Latina, suas belas palavras para os jovens. E, mesmo em meu atual agnosticismo, vi renovar-se minha esperança de que dentro da Igreja se torne realidade o tão esperado "aggiornamento" ["atualização"], como dito e reivindicado pelo Concílio Vaticano II. Estou feliz e comemoro o fato de que o ar fresco segue entrando no Vaticano, e de que há um longo caminho a percorrer.

Pessoalmente, faço eco às suas palavras: quero "criar problemas", "não me excluo", eu pertenço. Quero fazer valer os meus direitos e de muitos outros que estão em situação semelhante, não vou ficar de braços cruzados. Já fui padre, pastor, partilhei desse zelo missionário católico e da necessidade de reivindicar abertura da parte da Igreja - até que decidi me afastar, quando descobri minha própria tendência homossexual e admiti minha incapacidade de exercer o ministério pastoral em celibato. Hoje, meus caminhos seguiram em outras direções, e minha vocação foi tingida com outros tons.

Mas suas palavras e seu exemplo me fizeram reunir forças e tomar esta iniciativa. Atrevo-me a colocar-me como porta-voz de uma grande parcela de pessoas que pertencem à comunidade gay. E simplesmente, humildemente, peço-lhe encarecidamente que encoraje, estimule, promova e acompanhe um maior aprofundamento na teologia moral sexual sobre o lugar e a experiência das pessoas homossexuais.

Não peço que de um dia para outro a Igreja mude sua catequese em relação a este assunto. Pedimos apenas para não estigmatizar os teólogos e pastores que aportam elementos de dissensão a uma resposta pastoral insatisfatória para muitos de nós.

Não pedimos que se oponha à extensa tradição que fala de pecados contra a natureza, mas peço-lhe que reveja e amplie a concepção de "natureza".

Não lhe peço que deixemos de ler e interpretar as Escrituras, mas que nos aprofundemos e façamos leituras menos carregadas de preconceitos. Que não se usem mais como "armas" passagens bíblicas que a Teologia já provou e determinou que não se relacionam com o assunto. Quanto mais água deve correr debaixo dessa ponte para que se dissocie a palavra "sodomia" de um pecado que nada tem a ver com o que a passagem bíblica quer denunciar? Você sabe muito mais do que eu que, como esta, somos assolados por erros de interpretação que fizeram com que a Verdade - essa que nos torna tão livres - tenha sido relegada e escondida por muito tempo. Apenas para ilustrar com um exemplo: quantos anos levou para que João Paulo II pedisse desculpas pelos erros da Igreja em relação a Galileu Galilei - por interpretar mal uma passagem da Escritura (Josué 10,12-14)? É surpreendente que também nessa disputa o conceito de "natureza" esteja na base.

Não lhe peço que deixemos de manter uma doutrina. Peço-lhe que a ajude a continuar crescendo e adaptando-se aos novos paradigmas do mundo contemporâneo que nos desafiam a encontrar novas respostas. Lembra que, não muitos anos atrás, a Moral Sexual afirmava que o único objetivo primário do casamento era a procriação? Quantos casamentos tiveram renovada sua aliança quando foi reconhecido também o aspecto do amor e da ajuda mútua, o bem dos cônjuges? Essas atualizações são ar fresco que renova o coração das pessoas e as ajuda a viver com dignidade.

Não peço para diluir a Cristo; peço-lhe que, olhando para ele, se atreva a procurar todas as ovelhas espalhadas como um Bom Pastor.

Muitos governos e estados estão adotando uma forma mais aberta, uma nova visão de casais. O momento é propício. Há vários anos, o mundo clama por uma mudança de abordagem. Depois de anos de análise científica, em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade de "Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais". Mas só em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais.

A Igreja precisa dar um passo mais contundente e significativo. Para que atrasar ainda mais esse processo? Não seria bom ser pioneira, com respostas de adequação em uma sociedade em constante busca? Até não muito tempo atrás, pensava-se que esta tendência poderia ser curada com várias terapias e tratamentos. E você deve estar ciente de que são muitas as comunidades católicas que insistem nessas técnicas e causam prejuízos à vida de muitas pessoas submetidas a este tipo de prática.

Por experiência no confessionário, sei que há muitas pessoas que abraçam a fé católica e continuam recebendo uma resposta diluída, incompleta, que não cabe em seu estilo de vida. As pessoas de fé que têm essa tendência não tem muitas opções para viver sua sexualidade livremente. Ficam limitadas, na prática, a duas opções: ser casto ou celibatário (mas, de acordo com a doutrina católica, o celibato é um dom dado a poucos, que não pode ser abraçado compulsoriamente, por voluntarismo) ou agir de maneira distinta daquela proposta pelo catecismo e, portanto, viver em pecado, que seria a consequência de agir de acordo com a sua realidade homossexual.

Por outro lado, quando vejo na minha cidade, e em muitas outras do mundo, manifestações e passeatas do orgulho gay, reconheço que não me identifico plenamente com as formas pelas quais as reivindicações são apresentadas. Mesmo quando seu conteúdo seja verdadeiro sob muitos aspectos, me dói ver as duras críticas à Igreja (aquela que com tanto entusiasmo integrei no passado) e outras instituições, e me pergunto se a solução é mesmo o confronto agressivo, em um mundo tão dividido por visões díspares.

Gostaria de ser ponte e elo entre posições tão desencontradas, para que as experiências possam se aproximar e as expressões afetivas da humanidade possam se enriquecer. Aproveitar para transmitir algumas das dúvidas ocultas nestas reivindicações:

Será mesmo que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo não demonstra nem reflete de modo algum o amor de Deus? Será que não desvela algum traço ainda por descobrir de sua criação sem limites?

A Igreja realmente insiste na visão maniqueísta de que o sexo homossexual é apenas um ato de prazer carnal, destituída de qualquer real envolvimento espíritual, capaz de enobrecer o diálogo copular e corporal?

A Igreja vai mesmo, com seus silêncios, continuar permitindo que tantos jovens sejam estigmatizados em tantos países onde os gays ainda são mortos apenas por sua tendência? Não está na hora, como você mesmo disse, de sair e defender a integridade do ser humano com uma mensagem conciliadora e inclusiva?

Permita-me, finalmente, remontar-me à minha experiência pessoal. Especialmente quando me descobri homossexual, fiquei apavorado, com medo do novo e desconhecido que teria de enfrentar. Fiquei aterrorizado com a possibilidade de estar desafiando a vontade de Deus e estar à beira dos abismos do inferno. Minha saída do sacerdócio foi caótica, escandalosa, dolorosa. Mas justamente essa cicatriz, essa marca, essa ferida, hoje, me fazem questionar e desafiar esse paradigma, que continua sem nenhuma resposta sensata. Com humildade saudável, eu diria que hoje, depois de quase dez anos de vida monogâmica com outra pessoa do mesmo sexo, sinto-me feliz, realizado e ansioso para compartilhar essa experiência, de modo que muitos outros podem experimentá-la e vivê-la.

Ajude-me, e ajude muitos outros, a descobrir como mover-nos na fé, sem abrir mão da experiência de amor, que, em plena consciência, sentimos ser essencial em nossas vidas.

Com admiração e elevando uma oração por seu ministério.

Gioeni Andrew*, outro filho de Deus.

*Ex-padre católico que se reconheceu homossexual e renunciou ao hábito. Escritor e ator. Fonte

"Quem sou eu para julgar?"


Artigo do New York Times lança uma luz sobre a declaração que o papa Francisco deu na entrevista realizada no avião quando do seu retorno a Roma. Segue a nossa tradução de um trecho e um link para a íntegra do artigo em inglês:

Em primeiro lugar, parece que o papa estava falando especificamente sobre padres gays [...] suas declarações seguiram uma pergunta sobre o caso do Monsenhor Battista Ricca, uma indicação recente do papa que supostamente teve um relacionamento gay no passado, o que inspirou Francisco a uma longa digressão sobre a importância de perdoar pecados passados. Levando em consideração que o Vaticano de Bento XVI reafirmou especificamente a regra de que homens com uma profunda atração pelo mesmo sexo não devem ser ordenados, o tom dos comentários de Francisco – o perdoar e esquecer em relação a um caso específico, e o amplo “quem sou eu para julgar?” – é realmente extraordinário e digno de menção.

Especialmente porque um comentário tolerante em relação a esse tópico condiz com o tom do pontificado de Francisco como um todo. Papas não mudam a doutrina, mas eles escolhem o que enfatizar e o que minimizar, que assuntos destacar e quais descartar, quando julgar e quando perdoar e assim por diante. E nós já vimos o suficiente desse pontificado para saber que o foco de Francisco é: ele quer ser visto como um papa da justiça social e da renovação espiritual, ele não tem muita paciência para problemas que possam divergir dessa perspectiva Cristã. Por isso a retórica que desperta manchetes e os gestos simbólicos que enfatizam a pobreza e a simplicidade acima de tudo, por isso as menções frequentes de que o “clericarismo” é o pior problema que a igreja enfrenta e por isso sua atitude casual (pelo menos nos seus comentários improvisados) em relação à disciplina da doutrina, seus chamados à experimentação e sua aparente hostilidade à liturgia tradicional – e por isso, também, sua aparente determinação de distanciar-se e a sua mensagem dos debates culturais sobre a revolução pós-sexual do Ocidente.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Padre jesuíta fala sobre homossexualidade e Igreja


O vídeo é de uns 2-3 anos atrás, mas vale aproveitar toda essa discussão a respeito das recentes declarações do papa para lembrar um pouco da história da relação da Igreja com a homossexualidade. Porque contextualizar nunca é demais. :-)

A primeira vez que uma autoridade da Igreja usa a palavra "gay"


(...) Na mesma calorenta Roma, o cenário em torno do Vaticano é radicalmente diferente. Se nos primeiros 100 dias o Papa Francisco mudou a cultura do Vaticano apenas através de gestos simbólicos, na semana que passou no Brasil definiu as grandes linhas do seu papado, com o chamamento para recuperar a ética, a compaixão e a solidariedade. Entre o Rio e Roma, complementou a sua narrativa modernizadora da Igreja, ao abri-la aos gays, defender um novo papel para a mulher e um tratamento diferenciado para os divorciados. Em uma hora de entrevista, consolidou a sua conquista da ala progressista dos católicos.

“Isto tudo sem mudar a doutrina, mudou apenas o tom”, analisou o vaticanólogo John Allen Jr na CNN.

Ontem foi dia de olhar os detalhes da conversa com os jornalistas. Descobriu-se que nunca antes um documento da Igreja ou uma alta autoridade eclesiástica usara a palavra “gay”, sempre preterida pelo mais circunspecto “homossexual” ou pelo horroroso “sodomita”. “Ao recuperar o termo ‘gay’ da militância, reforça a autoestima dos homossexuais”, diz um dos membros do grupo Diversidade Católica. As feministas também foram procurar novos significados no elogio do Papa à mulher paraguaia e descobriram que ele se referia à decisão delas de partir para a produção independente de filhos depois da guerra contra Brasil e Argentina, já que só sobrara um homem para cada oito mulheres e esta seria uma maneira de garantir a descendência no país. “Ele é a favor da família tradicional, mas elogiou um comportamento nada convencional”, disse o padre Luiz Lima.

Ficou faltando modernizar a posição para lá de conservadora da Igreja em relação à contracepção. Alguns dizem que poucos ainda seguem a recomendação de não usar camisinha ou pílula, mas isso ajuda em nada na prevenção da Aids, restringe a liberdade de escolha da mulher e cria mais tensão na discussão sobre a legalização do aborto.

Fonte

O casamento gay no ano 100 d.C.

SS. Sérgio e Baco, uma união homoafetiva. Via

O casamento gay parece ser uma ideia ultra contemporânea. Mas, há quase vinte anos, um estudioso católico de Yale chocou o mundo ao publicar um livro repleto de evidências de que os casamentos homossexuais eram sancionados pela Igreja Cristã durante uma era comumente chamada de Idade das Trevas, a Alta Idade Média.

John Boswell foi um historiador e religioso católico que dedicou grande parte de sua vida acadêmica ao estudo do tempo entre o final do Império Romano e início da Igreja cristã. Analisando os documentos legais e da igreja a partir desta época, ele descobriu algo incrível. Havia dezenas de registros de cerimônias da igreja, onde dois homens se juntaram em associações que usaram os mesmos rituais de casamentos heterossexuais. Em compensação, não conseguiu quase nenhum registro de uniões lésbicas, o que demostra que a cultura é muito mais masculina.

Amparado por esta evidência, Boswell publicou um livro em 1994, um ano antes de sua morte por AIDS, chamado de Same-Sex Unions in Pre-Modern Europe (“Uniões do mesmo sexo na Europa pré-moderna”). O livro será lançado no próximo mês pela primeira vez em edição digital. Foi um pára-raios instantâneo de controvérsia, atraindo críticas da Igreja Católica e da especialista em sexo e gênero Camille Paglia. Sabendo da visão atual da Igreja sobre o casamento gay, esses detratores argumentaram que a história de Boswell parecia uma ilusão.

Mas não era. Boswell na verdade começou sua pesquisa na década de 1970, e publicou um trabalho igualmente controverso em 1980 chamado Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality: Gay People in Western Europe from the Beginning of the Christian Era to the Fourteenth Century ("Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade: Pessoas gays na Europa Ocidental a partir do início da era cristã até o século XIV"). Seu livro revela muito do que ele havia descoberto ao longo de uma vida de pesquisa em fontes primárias nas mais diversas bibliotecas e arquivos.

Como esses casamentos foram esquecidos pela história? Uma resposta fácil é que – como Boswell argumenta – a Igreja reformulou a ideia do casamento no século 13 para fins de procriação. Eruditos e autoridades da igreja trabalharam duro para suprimir a história desses casamentos, a fim de justificar sua nova definição.

Naturalmente, a história é mais complicada do que isso. Boswell afirma que parte do problema é que a definição de casamento hoje é tão diferente que é quase impossível para os historiadores reconhecer documentos de casamentos gays de 1800 anos atrás. Muitas vezes, esses documentos referem-se à união entre “irmãos”, que na época teria sido uma maneira de descrever parceiros do mesmo sexo, cujos estilos de vida eram tolerados em Roma. Além disso, os casamentos mais de um milênio atrás não eram baseados na procriação, mas na partilha da riqueza. Assim, o “casamento” às vezes significava uma união não-sexual de duas pessoas ou famílias. Boswell admite que alguns dos documentos que encontrou poderiam referir-se simplesmente ao fato da união não-sexual enrre dois homens – mas muitos também se referiam ao que hoje chamaríamos de casamento gay.

O jurista Richard Ante escreveu um artigo explicando que o livro de Boswell poderia até ser usado como evidência para a legalidade do casamento gay, uma vez que mostra a evidência de que as definições de casamento mudaram ao longo do tempo. Ele descreve algumas das evidências de Boswell desses ritos do mesmo sexo, no início do primeiro milênio: “O rito do enterro dado a Aquiles e Pátroclo, dois homens, foi o rito do enterro de um homem e sua esposa. As relações de Adriano e Antínomo, de Polyeucte e Nearco, de Perpétua e Felicidade e dos Santos Sérgio e Baco, são semelhantes aos casamentos heterossexuais de suas épocas. A iconografia de Sérgio e Baco era a mesma usada em cerimônias nupciais do mesmo sexo pela Igreja cristã primitiva”.

A principal evidência de que essas uniões do mesmo sexo eram casamentos é que eram muito parecidas com cerimônias heterossexuais. O especialista em literatura Bruce Holsinger descreve os minuciosos relatos de Boswell sobre cerimônias do mesmo sexo: “[Boswell] inteligentemente descreve o desenvolvimento de ofícios nupciais heterossexuais e homoafetivos como um mesmo fenômeno, acompanhando o desenvolvimento deste último de ‘um mero conjunto de orações’ na Idade Média até seu florescimento no século XII, quando já envolvia ‘a queima de velas, a colocação das mãos dos dois noivos sobre o Evangelho, a união de suas mãos direitas, a ligação de suas mãos (…) com a estola do sacerdote, uma ladainha introdutória, a Oração do Senhor, a comunhão, um beijo, e às vezes a circulação ao redor do altar’. Boswell dedica um capítulo inteiro à comparação desses rituais com seus homólogos heterossexuais, revelando uma série de semelhanças extraordinárias entre os dois; em vários apêndices, que totalizam quase 100 páginas, ele compilou inúmeros exemplos diretamente dos documentos (incluindo cerimônias de matrimônio heterossexual e rituais de adoção, para fins de comparação) a fim de permitir que ‘os leitores julguem por si mesmos’, como ele diz”.

Eram estas uniões do mesmo sexo na Idade Média a mesma coisa que os casamentos gays de hoje? Provavelmente não. Pessoas da época talvez não vissem nada de extraordinário em dois homens formando uma união. O próprio casamento significava algo diferente há milhares de anos, e os tabus sociais em relação à homossexualidade ainda não tinham se consolidado. Ainda assim, na obra de Boswell, encontramos registros de instituições em que os casais do mesmo sexo eram celebrados com as mesmas cerimônias dos casais de sexo oposto. Dois homens podiam viver como irmãos, partilhando riqueza, casa e família. E, sim, podiam amar uns aos outros, também.

Embora Boswell tenha morrido antes de seu país começar a permitir essas uniões, ele poderia se vangloriar por saber algo que a maioria das pessoas não conhecia. Mesmo os tipos mais fundamentais de relações humanas mudam com o tempo. Aqueles que foram banidos hoje podem ser abençoados amanhã – assim como foram, mais de mil anos atrás.

Fonte (e também aqui)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"A Igreja precisa estar atenta aos sinais dos tempos"


E o Diversidade Católica, representado por Arnaldo e Cristiana, esteve mais uma vez no CBN Mix Brasil desta semana, conversando com os apresentadores André Fischer e Petria Chaves sobre a visita do papa Francisco ao Brasil e as perspectivas de transformação da Igreja e diálogo com os LGBTs. No player acima, a partir de 12:30.

Papa Francisco não é juiz dos gays

 Missa de envio da JMJ2013 na praia de Copacabana. (Foto: Cristiana Serra)

O que o Papa disse na entrevista aos jornalistas a bordo do avião que o transportava a Roma, a respeito dos gays, parece ser uma continuação da sua mensagem durante uma semana aos jovens da JMJ-Rio.

O carinho com que ele foi cercado por todos não se deve unicamente ao seu charme, mas ao farto de que ele manifestou a todos a misericórdia de Deus em Jesus Cristo. Sua mensagem foi sempre a do Evangelho, uma mensagem libertadora, que requer justiça, solidariedade, amor, alegria e paz.

Assim como Jesus Cristo, o Papa não veio para julgar nem condenar. Mas ele sabe que o Evangelho não é uma superestrutura, ele supõe um lastro humano sobre o qual ele trabalha, para levar o ser humano à perfeição. Se quiséssemos usar uma expressão provocativa poderíamos – inspirados no Concílio do Vaticano II – dizer que “Jesus Cristo veio revelar o homem ao homem” (Cf. Gaudium et Spes, 22). Sob este aspecto, o importante não é ser cristão, é ser homem, pois na visão antropológica da Igreja, cristão é o verdadeiro homem, disposto a crescer até alcançar “a estatura de Cristo” (Ef 4,13).

Houve um tempo, na verdade ele ainda não acabou, em que os gays foram estigmatizados, e para isso até mesmo a Igreja colaborou. A sociedade os enquadrava num catálogo de doenças. Há religiões que tratam os gays como criminosos. Ainda hoje tomamos conhecimento de países onde a legislação civil e religiosa é tão retrógrada que leva gays à prisão e à morte, tal como fazem com mulheres consideradas adúlteras. Ora, nem a sociedade civil, nem a religiosa podem admitir tais situações.

O que o Papa disse é a doutrina da Igreja. Todos os seres humanos têm uma dignidade que lhes vem do Criador. Cabe a cada ser humano reconhecer e aceitar a sua identidade, inclusive sexual. A diferença e a complementaridade físicas, morais e espirituais estão orientadas para os bens do casamento e para o desabrochar da vida familiar. Esse é o caminho dado a todos, razão pela qual o casamento, na visão da Igreja, sempre será a união estável entre um homem e uma mulher para seu mútuo enriquecimento humano e santificação, mediante a doação de seus corpos, abertos para a geração e educação de filhos. Se a história nos revelar outras modalidades de união, desde que mantida a qualidade verdadeiramente humana – isto é, livres e respeitando as consciências – entre seres humanos, quem poderá se arvorar com o direito de desrespeitá-las ou julgá-las?

Ora, tudo na vida deve estar aberto ao aperfeiçoamento, razão pela qual não é desejável que se façam lobbies para impor visões e pragmáticas que ferem a sensibilidade dos simples, ou dos que ainda não se desvincularam de uma leitura fundamentalista de textos bíblicos (que fomenta a culpabilidade e discriminação de qualquer tipo de diferença existencial). A solução está (e o papa insistiu bastante sobre este aspecto) no diálogo. O universo da afetividade, com suas expressões na sexualidade, é fenômeno demasiadamente complexo e polivalente, que envolve enraizamentos biológicos, culturais e psíquicos das pessoas, com desdobramentos em outras forças nem sempre conhecidas pelas nossas pretensas sabedorias. OPapa nos falou da cultura do encontro, mas ainda estamos longe de sequer nos aproximarmos, quanto mais compreendermos o mundo dos gays e de tantos outros que a nossa sociedade se compraz em ofender e humilhar.

Respeitar os homossexuais, achar que eles também podem aspirar à perfeição moral, renunciando às práticas que contrariam a exigente ética do Sermão da Montanha, é ser revolucionário, é ir contra a corrente. Assim como muitos não esperavam que “algo de bom pudesse vir de Nazaré” (Jo 1,46), assim também nos surpreenderíamos se Deus comunicasse a sua Palavra, através de quem nós menos esperaríamos?

- Domingos Zamagna, no G1 de 29/07/2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

Lobby Gay X Lobby Anti-gays


Comentário de Frei Betto sobre a declaração do papa Francisco.

"Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados, mas integrados à sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby."

São palavras do papa Francisco ao deixar o Brasil, no voo entre Rio e Roma. A mensagem é esperançosa, mas, ao contrário do que o papa diz, o problema no Brasil é o lobby antigay, liderado pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Deputados que consideram a homossexualidade uma doença propõem a "cura gay". Querem alterar a resolução do Conselho Federal de Psicologia que impede seus profissionais de tratar homossexuais como doentes. O que é um gay? Como diz a palavra inglesa, é uma pessoa alegre. Se os homossexuais são felizes, por que submetê-los à terapia?

Terapia é própria para obsessivos, como é o caso de quem odeia constatar que homossexual é uma pessoa feliz. Isto sim é doença: a homofobia, aliás, como toda fobia. E há inúmeras: desde a eleuterofobia, o medo da liberdade que, com certeza, caracteriza os fundamentalistas, até a malaxofobia, o medo de amar sobretudo quem de nós difere.

Sugiro aos deputados cortar o mal pela raiz: proibir a promíscua narrativa de "Branca de Neve e os Sete Anões", a relação pedófila entre o lobo mau e a Chapeuzinho Vermelho e, na Bíblia, o relato da íntima ligação entre Jônatas e Davi, aquele que "ele amava como a sua própria alma". (1 Livro de Samuel, 18).

Segundo censo do IBGE, há no Brasil 60 mil casais assumidamente gays. São pelo menos 120 mil pessoas que, em princípio, deveriam ser "submetidas a tratamento". Considerando que a Parada de Orgulho LGBT reúne, em São Paulo, cerca de 4 milhões de pessoas, haveria que construir uma clínica do tamanho de 50 Maracanãs para abrigar toda essa gente.

O processo terapêutico certamente teria início com uma sessão de exorcismo, já que, no fundo, a obsessão fundamentalista considera a homossexualidade muito mais coisa do demônio do que doença.

Outra sugestão é comprar um armário para cada gay e obrigá-lo a ficar lá dentro. Dizem os moralistas que qualquer um tem direito de ser gay, não deve é sair do armário.

Imagino que, terminado o processo de "cura gay", haverá uma grande Parada de Ex-Gays subindo a rampa da Câmara em Brasília para agradecer aos deputados que, iluminados, aprovaram a medida.

Ainda que todos os gays sejam confinados na clínica dos deputados, de uma coisa não poderão se queixar: será divertido contar ali com shows de Daniela Mercury e sir Elton Hercules John.

Saiba Feliciano que Alan Chambers, ex-presidente da associação Exodus International, destinada a curar gays, declarou em junho deste ano que também é gay, pediu perdão pelos sofrimentos causados a homossexuais e fechou a entidade.

À luz do Evangelho, o melhor é seguir o conselho de santo Agostinho: "Ama e faz o que quiseres." Ou, como diz Francisco, sejamos todos irmãos.

- Frei Betto, ontem na Folha de S. Paulo

segunda-feira, 29 de julho de 2013

'Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-lo?', diz papa



Na mais ousada declaração de um pontífice sobre homossexualismo homossexualidade, o papa Francisco disse que os gays "não devem ser marginalizados, mas integrados à sociedade" e que não se sente em condição de julgá-los.

"Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo?", afirmou Francisco aos cerca de 70 jornalistas que embarcaram a Roma com ele. "O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas integrados à sociedade."

As declarações foram em resposta a recentes revelações de que um assessor próximo seria homossexual e a uma frase atribuída a ele no início de junho, de que havia um "lobby gay" no Vaticano. Segundo ele explicou ontem, o problema não é ser gay, mas o lobby em geral.

"Vocês vêm muita coisa escrita sobre o "lobby gay". Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com um cartão de identidade dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que, quando alguém se encontra com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay de formar um lobby gay, porque nem todos os lobbies são bons. Isso é o que é ruim."

"O problema não é ter essa tendência [gay]. Devemos ser como irmãos. O problema é o lobby dessa tendência, da tendência de pessoas gananciosas: lobby político, de maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema."

Questionado sobre o movimento carismático no Brasil, Francisco disse que, no início, chegou a compará-los com uma "escola de samba", mas que se arrependeu: diz que os movimentos "bem assessorados" são parte da "igreja que se renova".

Antes de aceitar perguntas, Francisco disse que "foi uma bela viagem" e elogiou o "povo brasileiro". "Espiritualmente me fez bem, estou cansado, mas me fez bem", afirmou.

"A bondade e o coração do povo brasileiro são muito grandes. É um povo tão amável, que é uma festa, que no sofrimento sempre vai achar um caminho para fazer o bem em alguma parte.

Um povo alegre, um povo que sofreu tanto. É corajosa a vida dos brasileiros. Tem um grande coração, este povo."

O papa elogiou os organizadores "tanto da nossa parte quanto dos brasileiros", com menções à parte artística e religiosa. "Era tudo cronometrado, mas muito bonito."

Sobre a segurança, uma grande preocupação principalmente no início, o papa lembrou que "não teve um incidente com esses jovens, foi super espontâneo".

Fonte: Folha de S. Paulo hoje

sábado, 27 de julho de 2013

O que o Papa Francisco trouxe até agora de novo



Para encerrar esta JMJ, escolhemos as palavras otimistas de Leonardo Boff sobre o papa Francisco e seus reflexos na Igreja. Que sejam proféticas...

É arriscado fazer um balanço do pontificado de Francisco pois o tempo decorrido não é suficiente para termos uma visão de conjunto. Numa espécie de leitura de cego que capta apenas os pontos relevantes, poderíamos elencar alguns pontos.

1.Do inverno eclesial à primavera: saímos de dois pontificados que se caracterizaram pela volta à grande disciplina e pelo controle das doutrinas. Tal estratégia criou uma espécie de inverno que congelou muitas iniciativas. Com o Papa Francisco, vindo de fora da velha cristandade europeia, do Terceiro Mundo, trouxe esperança, alívio, alegria de viver e pensar a fé crista. A Igreja voltou a ser um lar espiritual.

2.De uma fortaleza à uma casa aberta: Os dois Papas anteriores passaram a impressão de que a Igreja era uma fortaleza, cercada de inimigos contra os quais devíamos nos defender, especialmente o relativismo, a modernidade e a pós-modernidade. O Papa Francisco disse claramente: “quem se aproxima da Igreja deve encontrar as portas abertas e não fiscais da afândega da fé; “é melhor uma Igreja acidentada porque foi à rua do que uma Igreja doente e asfixiada porque ficou dentro do templo”. Portanto mais confiança que medo.

3.De Papa a bispo de Roma: Todos os Pontífices anteriores se entendiam como Papas da Igreja universal, portadores do supremo poder sobre todos as demais igrejas e fiéis. Francisco prefrere se chamar bispo de Roma, resgatando a memória mais antiga da Igreja. Quer presidir na caridade e não pelo direito canônico, sendo apenas o primeiro entre iguais. Recusa o título de Sua Santidade, pois diz que “somos todos irmãos e irmãs”. Despojou-se de todos os títulos de poder e honra. O novo Anuário Pontifício que acaba de sair cuja página inicial deveria trazer o nome do Papa com todos os títulos, agora aparece apenas assim: Francesco, bispo de Roma.

4.Do palácio à hospedaria: O nome Francisco é mais que nome; sinaliza um outro projeto de Igreja na linha de São Francisco de Assis: “uma Igreja pobre para os pobres” como disse, humilde, simples, com “cheiro de ovelhas” e não de flores de altar. Por isso deixou o palácio papal e foi morar numa hospedaria, num quarto simples e comendo junto com os demais hóspedes.

5.Da doutrina à prática: Não se apresenta como doutor mas como pastor. Fala a partir da prática, do sofrimento humano, da fome do mundo, dos imigrados da África, chegados à ilha de Lampedusa. Denuncia o fetichismo do dinheiro e o sistema financeiro mundial que martiriza inteiros países. Desta postura resgata as principais intuições da teologia da libertação, sem precisar citar o nome. Diz:”atualmente, se um cristão não é revolucionário, não é cristão; deve ser revolucionário da graça”. E continua:”é uma obrigação para o cristão envolver-se na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade”. E disse à Presidenta Cristina Kirchner:”é a primeira vez que temos um Papa peronista” pois nunca escondeu sua predileção pelo peronismo. Os Papas anteriores colocavam a política sob suspeita, alegando a eventual ideologização da fé.

6.Da exclusividade à inclusão: Os Papas anteriores enfatizaram, especialmento Bento XVI a exclusividade da Igreja Católica, a única herdeira de Cristo fora da qual corre-se risco de perdição. O Francisco, bispo de Roma, prefere o diálogo entre as Igrejas numa perspectiva de inclusão, também com as demais religiões no sentido de reforçar a paz mundial.

7. Da Igreja ao mundo: Os Papas anteriores davam centralidade à Igreja reforçando suas instituições e doutrinas. O Papa Francisco coloca o mundo, os pobres, a proteção da Terra e o cuidado pela vida como as questões axiais. A questão é: como as Igrejas ajudam a salvaguardar a vitalidade da Terra e o futuro da vida?

Como se depreende, são novos ares, nova música, novas palavras para velhos problemas que nos permitem pensar numa nova primavera da Igreja.

Leonardo Boff é teólogo e autor de Francisco de Assis e Francisco de Roma, Editora Mar de Ideias, Rio 2013.
Fonte: Blog do autor

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Comunidade: quando a correção é fraterna


Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal
Avvenire, dos bispos italianos, 20-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


Estamos no tempo pascal, no qual a Igreja nos convida a proclamar a boa notícia por excelência: "Cristo ressuscitou, ressuscitou verdadeiramente". Imersos nessa alegria, podemos olhar para trás, para o caminho quaresmal recém-percorrido, para verificar se foi um caminho de conversão e de crescimento espiritual, ou se não demos um passo para voltar ao Senhor, ou mesmo se acabamos cedendo ainda mais aos ídolos mundanos que sempre nos tentam.

Ao fazer esse exame de consciência, não podemos esquecer que, no início da Quaresma, Bento XVI endereçou à Igreja uma mensagem voltada a fazê-la refletir sobre o fim do seguimento: o amor, a caridade. Por isso, o papa de Roma nos forneceu o rastro de uma busca, de uma reflexão, de um compromisso cotidiano a ser assumido, o que se refere à correção fraterna.

Contaminados como estamos por uma verdadeira doença que é a indiferença uns pelos outros, a falta de proximidade, já não sabemos mais que a correção fraterna é uma das atitudes cristãs mais decisivas para a salvação do indivíduo e para a própria comunidade cristã, a Igreja. Se não nos sentimos protetores, responsáveis pelo irmão, pela irmã, pelo outro (cf. Gn 4, 9: "Por acaso eu sou o guarda do meu irmão?"), então vivemos no próprio autismo, sem olhar para os outros, sem nos aproximarmos do outro, sem praticar o face a face.

Desse modo, nunca nasce a ocasião para a correção recíproca, e, de fato, encoraja-se o crescimento do mal, que sempre será mais disseminado enquanto nunca for julgado. Entre as obras de misericórdia que aprendemos na catequese, havia também "advertir os pecadores", expressão talvez pouco feliz, porque parece pressupor que o cristão não pecador deve advertir quem o seja. Também por isso, provavelmente, essa obra foi esquecida, e assim se perdeu a memória do fato de que a instância subentendida a essa expressão é, na verdade, a da correção fraterna, uma correção sempre recíproca.

A mensagem de Bento XVI para esta Quaresma não me parece ter recebido uma recepção igual à que foi reservada às anteriores, e isso também diz muito sobre as dificuldades que os cristãos já têm com relação à prática da correção fraterna. Assumindo um estilo mundano, às vezes, alguns cristãos oscilam entre a indiferença e uma intervenção imediata violenta, caracterizada por insultos e por palavras que visam a deslegitimar a outra parte.

Com relação a isso, o Papa Bento XVI chegou até a escrever que, infelizmente, hoje, na Igreja, existe um "morder-se e um devorar-se uns aos outros" (cf. Gal 5, 15) que é escandaloso e contradiz gravemente a comunhão eclesial (Carta aos Bispos da Igreja Católica do dia 10 de março de 2009).

Sim, no tecido da vida eclesial, isso parece ser gravemente contraditório com relação ao Evangelho, ao estilo de Jesus, a uma vontade de comunhão que não perde a ocasião de declarar publicamente em palavras, mas que na realidade se desmente de modo persistente com o comportamento cotidiano, com acusações infundadas, com palavras caluniosas.

Porém, a correção fraterna está no coração da vida eclesial, é até indicada como necessária e normalizada pelas palavras de Jesus contidas nos Evangelhos. Como, portanto, ela pode ser praticada?

Acima de tudo, "prestando atenção uns aos outros" (cf. Hb 10, 24, versículo que intitula a mensagem de Bento XVI). O cristão é, por natureza, um vigilante, alguém que presta atenção, que mantém o seu olhar fixo no Senhor (cf. Hb 12, 2). A partir desse exercício de olhar com atenção para o Senhor, tornamo-nos capazes de olhar para os irmãos, para as irmãs e para os eventos da história cotidiana fazendo um discernimento sobre eles, isto é, lendo-os na sua verdade profunda e tentando olhar o outro com um olhar que o próprio Cristo teria voltado para ele.

Só quem assumiu o olhar, os sentimentos, o pensamento de Jesus também pode ver o outro na verdade, pode descobrir o seu mal, a sua culpa que jamais coincide com o outro – e, portanto, pode julgá-la na sua objetiva gravidade. Mas eu o repito – isso deve ser feito olhando para quem cometeu o mal, um homem ou uma mulher que é muito mais do que o pecado cometido: o outro sempre continua sendo uma pessoa, e nenhuma ação malvada por ele cometida pode nos fazer esquecer isso!

Normalmente olhamos o outro e logo vemos um ladrão, um mentiroso, um delinquente, uma prostituta... acabando por identificá-lo com a ação cometida: mas o ser humano é sempre muito mais do que o seu agir eventualmente julgado como negativo.

Portanto, para corrigir o outro é preciso se despojar do preconceito, daquele pensamento que nos habita e nos induz a julgar uma pessoa sobretudo pelo fato de que ele repetiu algumas vezes o seu pecado. Não, precisamos nos esforçar para ver o outro como Jesus o veria. Então, diante de uma mulher adúltera, não teríamos pedras nas mãos para apedrejá-la, mas, como Jesus ensinou, nos perguntaríamos se temos o direito de condenar quem cometeu o pecado, nós que somos pecadores como ela: "Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra" (Jo 8, 7).

Se somos exercitados a "ter em nós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo" (cf. Fl 2, 5), a "ter o pensamento de Cristo" (cf. 1 Cor 2, 16), então devemos e podemos praticar a exortação e a correção fraterna com sinceridade e parrésia, franqueza, sem dureza, sem nos colocarmos em posição de superioridade com relação ao outro. Cada um de nós é tentado, em seu próprio subjetivismo, a perder o sentido objetivo das coisas, a não saber mais avaliá-las a justa distância.

Precisamos, portanto, de outros que nos ajudem a voltar novamente à objetividade, que nos inspirem reservas, perguntas as quais devamos responder, se quisermos ser autênticos e permanecer na verdade. Sozinhos, isolados, sem a ajuda de outros e o confronto com eles, fazemos poucos avanços e caímos facilmente.

Corrigir – lembra o papa – "dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal". O próprio Jesus praticou muitas vezes a correção para aqueles que o escutavam ou o seguiam: desse modo, queria justamente exercitar a correção do pecador, e não dar-lhe a condenação ou a morte (cf. Ez 18, 23.32; 33, 11). Jesus usou palavras de reprovação, mas sempre finalizadas a dar a salvação. Ele o fez às vezes também com palavras fortes, de cólera, que relatam o seu pathos, isto é, comportando-se como verdadeiro herdeiro do pathos dos profetas, da sua paixão pelo ser humano e pela sua salvação, pela vida.

Não é por acaso que, no discurso de Jesus sobre a Igreja relatado no capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, se dê tanto espaço à correção fraterna. Nesse texto, registra-se uma indicação de tipo quase processual sobre o desenvolvimento da correção fraterna: "Se o seu irmão pecar, vá e mostre o erro dele, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele der ouvidos, você terá ganho o seu irmão. Se ele não lhe der ouvidos, tome com você mais uma ou duas pessoas, para que 'toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas' (Dt 19, 15). Caso ele não dê ouvidos, comunique à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos" (Mt 18, 15-17).

A correção deve, portanto, ocorrer em três etapas: a correção pessoal, discreta "só entre vocês dois", para que o irmão se reveja e o seu pecado não seja conhecido por outros. Depois, se necessário, a correção feita em dois ou três, de modo que quem cometeu uma culpa seja induzido a se rever na presença de mais irmãos. Se nem isso for suficiente, como medida extrema, que se faça uso da correção no meio da assembleia, diante de todos. Mas, se essa forma de correção também não tiver sucesso, Jesus pede que se adote contra quem errou a atitude que ele mesmo viveu com relação aos pagãos e aos pecadores. Nos lábios de Jesus, isso equivale a dizer: "Vá encontrá-lo, hospede-se com ele, coma com ele e converta-o com o seu amor e a sua atenção, como eu fiz com Levi, o publicano (cf. Mc 2, 13-17 e par.) e com tantos pecadores que estão no meu seguimento".

Corrigir, advertir é necessário, mas está habilitado a fazê-lo quem nutre o amor pelo irmão: cada um de nós também é responsável pelo outro, quem quer que seja, mas sobretudo de quem é irmão na fé e vive "o mandamento novo" do amor recíproco (cf. Jo 13, 24).

Certamente, "na hora, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza" (Hb 12, 11), porque quem é repreendido se sente humilhado e conhecido no seu próprio pecado. Mas, depois, torna-se verdade que, da correção, podem nascer "frutos de paz e de justiça" (cf. ibid.), e, portanto, podemos nos sentir amados por quem nos corrige.

Na parênese apostólica do Novo Testamento, pede-se mais de uma vez que se pratique a correção fraterna (cf. (cf. Rm 15, 14; 2Cor 2, 6-8; Gal 6, 1; Ef 5, 11; Col 3, 16; 1Ts 5, 12.14; 2Ts 3, 15; Tt 3, 10-11), mas esses ensinamentos já manifestam como a correção é difícil e cansativa, mesmo para quem a faz; indicam que, para corrigir, é preciso humildade e amor sincero; que nunca devemos nos sentir estranhos ao pecado do outro, nunca julgá-lo ou se considerar superior a ele. Enfim, nunca devemos praticar a correção como um inspetor que realiza a sua tarefa friamente: a correção cristã, de fato, não uma vigilância de tipo empresarial!

Na história – sabemo-lo bem –, a correção fraterna foi atestada principalmente nos primeiros séculos cristãos, depois quase desapareceu; ou, melhor, foi relegada aos mosteiros ou delegada à práxis do sacramento da penitência administrado individualmente. Nos mosteiros, que levam uma vida cenobítica, a correção ocorre todas as manhãs durante o capítulo, ou seja, a assembleia diária dos irmãos. Aqui, aquele que preside corrige os erros e os pecados comunitários, mas às vezes também corrige um irmão individual. Mas quem preside, o abade ou o prior, também pode ser corrigido e advertido pelos outros irmãos.

A respeito disso, escrevia Basílio de Cesareia: "Quem preside a comunidade não deve ser o único a não se beneficiar do apoio fraterno da correção recíproca, ele que exerce a função mais pesada" (Regras difusas 27). E o autor da Didaqué não perguntava talvez: "Corrigi-vos reciprocamente, não na ira, mas na paz" (15, 3)?

Na sua mensagem, Bento XVI pede com força o exercício da caridade fraterna na Igreja, na vida eclesial. Aqui, a correção fraterna se torna ainda mais difícil; demonstra-o o fato de que ela é muito pouco realizada, como fica aparece na prevalência da desobediência, da revolta, da divisão dentro da Igreja. Também nesse caso, a história é mestra. No primeiro milênio, a práxis da correção fraterna era bem atestada: há inúmeros exemplos de correção fraterna eclesial entre as Igrejas orientais e a Igreja latina romana (pense-se apenas na de Basílio de Cesareia com relação ao Papa Dâmaso I), e muitas tensões foram resolvidas graças ao diálogo, à escuta recíproca e à correção. No segundo milênio, ao contrário, raros são os casos de correção fraterna praticada pelo simples fiel com relação à autoridade, mesmo a suprema.

Perguntemo-nos com franqueza: se a escuta fosse mais praticada, se fosse aceita a correção recíproca, teríamos sofrido o grande cisma do Ocidente, aquele em que Lutero, de fato, levou trouxe a divisão à Igreja? O grande rabino Tarfon, depois do Holocausto de 70 d.C., defendeu que o povo de Deus havia sofrido a humilhante catástrofe porque não tinha sabido praticar humildemente a correção fraterna...

Mas há algumas exceções, que vale a pena elencar brevemente. Clássica, conhecidíssima e de perene atualidade é a correção praticada pela abade de Claraval, Bernardo, com relação ao Papa Eugênio III, no seu De consideratione (1150 ca.). Bernardo chega até a lembrar ao papa audaciosamente que ele é o sucessor de Pedro, e não de Constantino, e se dirige a ele dizendo: "Mesmo que estejas vestido de púrpura e caminhes coberto de ouro, não há nenhuma razão para que tu, que és o herdeiro do Pastor, tenhas tédio do ministério pastoral e sintas vergonha do Evangelho (cf. Rom 1, 16). Mas, se te dedicares com decidida vontade à evangelização, terás um lugar glorioso entre os apóstolos. Evangelizar significa pastorear. Portanto, faze a evangelização e serás pastor" (IV, 3.6).

Cerca de um século antes, deve ser lembrado Pedro Damião; depois de Bernardo, é a vez de Mechthild de Magdeburgo, depois Catarina de Siena, mulher de fogo, que, ao redor do fim do século XIV, durante o cativeiro de Avignon, criticava o Papa Gregório XI por não estar na sua cátedra de Roma. Mais tarde, viriam Vincenzo Quirini e Paolo Giustiniani; no século XIX, não podemos nos esquecer do Pe. Antonio Rosmini, e, no século passado, Pe. Primo Mazzolari.

No exercício da correção da Igreja por parte das autoridades da própria Igreja, devem ser lembrados ao menos Guillaume Durand, o bispo francês dos inícios do século XIV, que parece ter sido o primeiro a ter utilizado a expressão "reforma (da Igreja) na cabeça e nos membros"; o Papa Adriano VI, que, nos inícios do século XVI, reconheceu corajosamente a decadência da Igreja romana, identificando a sua causa principal nos comportamentos e nas escolhas da corte romana; e, sobretudo, o Papa João Paulo II, que, por ocasião do Jubileu do ano 2000, confessou os pecados dos cristãos na história pedindo perdão a Deus mediante uma solene liturgia pública.

Finalmente, gostaria de salientar que, a propósito da correção, dois conceitos são inseparáveis, embora em uma tensão recíproca nada fácil de resolver: correção fraterna, justamente, e obediência. Para exercer a correção fraterna precisamos ser guiados e iluminados por alguém, por alguma coisa, e, para o cristão, essa luz que dá orientação pode ser apenas o Evangelho que é Jesus Cristo e Jesus Cristo que é o Evangelho. E assim surge o valor da obediência. Sem obediência ao Evangelho e sem escuta a quem recebeu do Senhor a tarefa de ser testemunha do Evangelho, o apóstolo e portanto os seus sucessores, reinam a anarquia e a anomia – diz ainda Basílio – e não pode haver nem reciprocidade (allélon) nem comunhão (koinonia).

Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

Bento XVI lembrou recentemente na homilia pronunciada durante a Missa Crismal: "Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? (…) Pode-se intuir na desobediência algo da configuração a Cristo?" (5 de abril de 2012).

Não é verdade que a obediência nada mais é do uma virtude: ao contrário, é a virtude cristã por excelência, porque "Cristo Jesus se tornou obediente até à morte, e morte de cruz" (Fl 2, 5.8).


terça-feira, 12 de junho de 2012

A igualdade gay se confirma: apoio de Obama dá empurrão na causa do casamento

Foto daqui

"Os parceiros do mesmo sexo deveriam poder se casar."

As palavras de Barack Obama em uma entrevista no último dia 9 reavivaram o debate sobre o casamento homossexual. Apenas um dia antes, os cidadãos do Estado da Carolina do Norte votaram contra as uniões civis entre homossexuais. O confronto de ideias é evidente. O líder do Partido Republicano, Mitt Romney, deu sua resposta três dias depois: "O casamento é a relação entre um homem e uma mulher."

As palavras do presidente americano não mudam a lei, já que as leis matrimoniais dependem dos Estados. Mas a questão transcendeu as fronteiras dos EUA e suas implicações na campanha eleitoral desse país. As organizações de defesa dos direitos dos homossexuais empunharam a bandeira para voltar a reivindicar --em muitos países do mundo, inclusive em democracias avançadas como França ou Itália, a união entre pessoas do mesmo sexo continua ilegal.

Na última década houve um aumento dos países que reconheceram o direito ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Na Europa, sete Estados (Países Baixos, Bélgica, Espanha, Suécia, Noruega, Portugal e Islândia) o legalizaram. Fora das fronteiras europeias, Canadá, África do Sul, Argentina, México e Brasil.

Mas, de forma paralela, alguns governos legislam em sentido contrário. É o caso dos EUA, onde 30 Estados proíbem expressamente as uniões homossexuais, enquanto só nove o permitem. Hungria, Grécia e Nigéria o consideram ilegal.

Nesse contexto internacional, a Espanha se encontra em uma situação peculiar. O Tribunal Constitucional, sete anos depois da legalização do casamento gay, ainda não resolveu o recurso de inconstitucionalidade interposto pelo Partido Popular (PP) poucos dias após sua aprovação.

Mas a vida seguiu seu curso. As organizações e as famílias gays sentem sua situação tão normalizada que não acreditam que seja possível um retorno. "Isso não pode ser parado tão facilmente, passou muito tempo de consolidação social", opina Elizabet Vendrell, presidente da Associação de Famílias de Lésbicas e Gays (FLG). "Uma volta atrás seria kafkiana", acrescenta.

Desde junho de 2005, quando foi aprovada a mudança no Código Civil espanhol que permite o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, até junho de 2011, mais de 20 mil casais homossexuais formalizaram sua situação, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. Nesse tempo, algumas tiveram filhos, como Patricia e Pilar, casadas desde 2007. Elas têm uma filha de 9 meses, de olhos grandes e cabelos louros, que se chama Zoe. "Nunca tivemos qualquer problema em nível social, nem com os parentes nem com amigos ou na escola", salienta Patricia.

Apesar da consolidação e normalização social, os temores devidos à incerteza jurídica não desaparecem. José María Núñez, da Fundação Triângulo, indica que com o PP no governo muitos homossexuais estão se apressando a se casar diante da perspectiva de que em curto prazo não poderão mais, apesar de não haver cifras que corroborem essa tendência. Fredy, cabeleireiro de 42 anos de Madri, continua com seus planos de se casar com seu namorado, Peter, no próximo verão. Esse empresário não acredita que terá problemas para contrair matrimônio na Espanha. "Não vão se atrever a proibir", diz, mas reconhece que não está muito a par de questões políticas. Mesmo assim, também se casará no Brasil, país de origem de seu parceiro. Seu maior sonho é adotar e formar uma família. "Se for menina, a chamaremos de Manuela", conta para as clientes.

A Anistia Internacional aproveitou a comemoração nesta terça-feira (15) do Dia Internacional da Família, promovido pela ONU, para lembrar que o direito a se casar e fundar uma família é reconhecido no artigo 16 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. "Independentemente do gênero de seu parceiro", salientou nesta segunda-feira a organização em uma nota. "Os Estados devem se abster de discriminar qualquer pessoa por sua orientação sexual", acrescentou.

Na Espanha, a Federação Estatal de Gays, Lésbicas e Transexuais (FELGTB) pediu reiteradamente ao PP a retirada do recurso de inconstitucionalidade. Ontem voltou a fazê-lo. Pede ao Constitucional uma "interpretação inclusiva e respeitosa com a realidade social". Exatamente porque "a situação se normalizou", Pilar acredita que não há retorno. "Não é mais possível."

As associações querem destacar que os filhos de casais do mesmo sexo não terão os mesmos direitos que as demais crianças se seus pais ou mães não puderem se casar. Só um deles seria considerado como tal diante da lei, seja como progenitor ou como adotante solteiro. Pilar e Patricia afirmam que não se casaram para ter filhos. "Mas a verdade é que dessa maneira Zoe está mais protegida se acontecer algo com uma das duas", comenta Pilar.

Jesús é engenheiro naval. Há oito anos adotou sozinho seu filho, embora fosse um "projeto comum" com seu então namorado, com o qual mantém uma relação há 15 anos. Quando foi aprovado o casamento homossexual, eles se casaram e seu marido, um arquiteto, iniciou os trâmites para adotar o menino, que hoje tem dez anos. Agora eles estão temerosos. "No pior dos casos, poderiam anular nosso casamento e inclusive nossa paternidade", afirma Jesús.

Marta e Etel, de 33 e 34 anos, casadas há seis meses, compartilham essa preocupação. Perguntam se deixariam de ser um casal. Mas sobretudo se preocupam com o que aconteceria com o bebê que esperam ter: "Seria só de uma de nós?", questiona Marta. Esse casal reconhece que nunca sentiu rejeição, mas agora se sente ameaçado.

Uma das possibilidades que os críticos levantam é uma mudança de nome, que o casamento deixe de se chamar assim para os homossexuais. Eduardo Zaplana já anunciou em 2008 - antes das eleições daquele ano - sua intenção de uma volta às "uniões de fato". Mas essa opção não satisfaz os envolvidos. Patricia e Pilar afirmam que sairão à rua se mudarem a denominação do que são. "Não se deve chamar de outra maneira especial para os gays, como também não falamos de Homoimposto de Renda ou homoaluguel", opina Patricia.

Antonio Poveda, ex-presidente da FELGTB, acredita que a proposta de uma diferenciação nominal esconde intenções mais profundas: "Quando no PP dizem que se trata de uma questão de nomes, estão mentindo, também querem questionar nossa idoneidade para ser pais." Entretanto, o PP não tomou qualquer decisão nesse sentido desde que governa (novembro de 2011) e, quando perguntado sobre a questão, o ministro Ruiz Gallardón se remeteu "ao que o Constitucional disser".

Por enquanto, o coletivo só pode esperar - "angustiados", diz Poveda - que o tribunal decida, e assim estão há mais de seis anos. Mas a presidente do FLG na Catalunha considera que não é o momento de ter medo: "Ele nos paralisa e nos põe no armário, que é o que muitos desejam".

Obama... primeiro presidente gay?
Nunca um presidente em funções nos EUA havia manifestado seu apoio declarado aos casamentos homossexuais. Seu apoio oficial à normalização dos casais gays se refletiu na mídia do país, a ponto de a revista "Newsweek" desta semana colocar Obama na capa, sob o título "O primeiro presidente gay", informa David Alandete, de Washington.

Em 1998, a escritora afro-americana Toni Morrison chamou Bill Clinton de "o primeiro presidente negro" dos EUA. Agora, para Andrew Sullivan, da "Newsweek", Obama é "o primeiro presidente gay" porque teve de descobrir sua identidade negra e conciliá-la com a de sua família branca, do mesmo modo que os gays descobrem sua identidade homossexual e a conciliam com a de sua família heterossexual".

A capa foi criticada nos EUA por seu reducionismo e por insinuar que os que apoiam a igualdade dos gays também devem ser homossexuais, de algum modo. Na terça-feira, o presidente se aproximou novamente do coletivo gay ao afirmar, em uma formatura na universidade feminina de Barnard: "Não importa quem você ame, deve poder perseguir sua felicidade." Depois frequentou um ato de apoio à sua campanha, organizado pelo coletivo de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, no qual o cantor Ricky Martin foi o anfitrião.

(Reproduzido via Conteúdo Livre; tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves para o UOL)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (4)



Foto: Tony Park

Começamos a publicar há três semanas (primeira parte aqui; segunda parte, aqui; terceira, aqui), em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Castidade e lei natural
Convém tratar da castidade, contida nos Dez Mandamentos, e que constitui um importante conceito da moral. Originalmente o preceito é ‘não cometerás adultério’. Jesus, ao responder sobre o que se deve fazer para herdar a vida eterna, menciona não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, não prejudicar ninguém, e honrar pai e mãe (Mc 10, 17-22). Os quatro primeiros preceitos estão no Decálogo. O preceito seguinte (não prejudicar ninguém) não está, mas ele resume os anteriores e lhes dá o verdadeiro sentido. São Paulo aprofunda e sintetiza esta questão: quem ama o próximo está cumprindo a lei, pois os mandamentos se resumem no amor ao próximo (Rm 13,8-10). Este é o espírito dos mandamentos e a sua chave de compreensão.

A castidade é definida hoje como a integração da sexualidade na pessoa, na sua unidade de corpo e alma (Catecismo da Igreja Católica, §2337). Esta integração é um caminho gradual, um crescimento pessoal em etapas, quepassa por fases marcadas pela imperfeição, e até pelo pecado (ibidem, §2343). Por isso, é preciso levar em conta a situação em que a pessoa se encontra, e os passos que ela pode e deve dar. Só pode haver integração bem sucedida neste campo se a pessoa viver em paz com a sua sexualidade, e amar o seu semelhante.

O teólogo Joseph Ratzinger tem uma importante contribuição para a reflexão sobre a castidade. Ela não é uma virtude fisiológica, mas social. Trata-se de humanizar a sexualidade, não de ‘naturalizá-la’. A sua humanização consiste em considerá-la não como um meio de satisfação privada, uma espécie de entorpecente ao alcance de todos, mas como um convite ao homem para que saia de si mesmo. A realização da sexualidade não adquire um valor ético quando se faz ‘conforme a natureza’, mas quando ocorre de acordo com a responsabilidade que tem o homem diante do homem, diante da comunidade humana e diante do futuro humano. Para avaliar a sexualidade, prossegue Ratzinger, pode-se dizer que ela reflete e concretiza o dilema fundamental do homem. Ela pode representar a total libertação do eu no tu, ou também a total alienação e fechamento no eu [“Hacia una teología del matrimonio”. Selecciones de teologia, nº35, 1970, p. 243].

Sobre a conformidade à natureza, é importante refletir sobre um outro conceito da moral que é a lei natural. O mundo é criação divina, feito segundo a razão do Criador (Logos), de modo a manifestar a Sua sabedoria. Há na criação uma racionalidade que pode ser conhecida pelo ser humano, e orientar a sua ação. Há uma lei inscrita no coração humano que orienta os seus juízos éticos (Rm 2, 12-16). Um recente documento da Igreja, da Comissão Teológica Interncional, trata deste assunto de maneira muito oportuna [Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural. Paulinas, 2009].

A expressão ‘lei natural’, segundo a Comissão, atualmente é fonte de numerosos mal-entendidos. Por vezes, ela evoca simplesmente uma submissão resignada e passiva às leis físicas da natureza, quando o ser humano busca, e com razão, dominar e orientar estes determinismos para o seu bem. Por vezes, ela é apresentada com um dom objetivo que se impõe de fora da consciência pessoal, independentemente do que elabora a razão e a subjetividade. Ela é suspeita de introduzir uma forma de heteronomia insuportável à dignidade da pessoa humana livre. Outras vezes também, ao longo de sua história, a teologia cristã justificou muito facilmente com a lei natural posições antropológicas que, em seguida, mostraram-se condicionadas pelo contexto histórico e cultural. Hoje, é importante propor a doutrina da lei natural em termos que manifestem melhor a dimensão pessoal e existencial da vida moral (Em busca..., nº10). Certamente aquela oposição de Ratzinger à ‘naturalização’ da sexualidade se refere a estes mal-entendidos sobre a lei natural.

Considerando uma sociedade pluralista como a nossa, prossegue o documento, a ciência moral não pode fornecer ao sujeito uma norma que se aplique de forma adequada e automática às situações concretas. Só a consciência do sujeito, o juízo de sua razão prática, pode formular a norma imediata da ação. Mas, ao mesmo tempo, não se deve deixar a consciência entregue à pura subjetividade. É preciso fazê-la adquirir as disposições intelectuais e afetivas que lhe abrem à verdade moral, para que seu juízo seja adequado. A lei natural não deve ser apresentada como um uma lista de preceitos definitivos e imutáveis, ou como conjunto de regras já constituído que se impõe previamente ao sujeito. Ela é uma fonte de inspiração objetiva para o seu processo de tomada de decisão, que é eminentemente pessoal. Esta fonte jorra sempre que se busca um fundamento objetivo para uma ética universal (Em busca..., nos59 e 113).

A Comissão reconhece também que a aplicação concreta de preceitos da lei natural adquire diferentes formas nas diversas culturas, ou mesmo em diferentes épocas dentro de uma mesma cultura. A reflexão moral evoluiu em questões como a escravatura, o empréstimo a juros, o duelo e a pena de morte. Coisas que eram permitas passaram a ser proibidas, e vice-versa. Há uma compreensão melhor da interpelação moral. A mudança da situação política ou econômica traz uma reavaliação das normas particulares que foram estabelecidas anteriormente (Em busca..., nº53).

A consciência do sujeito tem um peso decisivo, sobretudo em questões complexas. Este papel não deve ser esquecido ou subestimado. O Concílio Vaticano II afirmou o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência, e o dever de não agir contra ela. Nela está o ‘sacrário da pessoa’, onde Deus está presente e se manifesta. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos outros homens no dever de buscar a verdade, e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (Gaudium et spes, nº16). Nenhuma palavra externa substitui o juízo e a reflexão da própria consciência.
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