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terça-feira, 24 de maio de 2011

Um mundo com 6 bilhões de sexos

Ilustração: Sergio Membrillas

Texto publicado no jornal O Globo (coluna LOGO - a página móvel), em 18.05.11:

"A caravana da comunidade arco-íris e dos simpatizantes da liberdade sexual comemoram a institucionalização da união civil gay. Enquanto isso, o mundo real já deu voltas que lei nenhuma vai alcançar tão cedo. Nos círculos mais avançados, a sigla LGBT já é passado: classificações enormes (!) como LGBTTTS (acrônimo de “lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais, transgêneros e simpatizantes” já estão em uso. A letra H aparece eventualmente — para que não se excluam... os heteros, quem diria! E o P, de panssexual, já reivindica seu lugar ao sol prismatizado. Mas as letras não bastam: como classificar, por exemplo, um homem que corta o membro para virar lésbica e usar bigode e cinta peniana para satisfazer sua amada? E os executivos engravatados que pegam travestis e fazem papel de passivos? Qual a letra? Por isso, começa-se a falar de um mundo sem gêneros, em que cada indivíduo tenha sua própria identidade sexual. Ou seja, um mundo com 6 bilhões de habitantes seria um mundo com 6 bilhões de sexos. Nesta edição da página Logo, o jornalista do GLOBO Ronald Villardo traz as últimas novidades." (Arnaldo Bloch)

Enquanto união civil gay é comemorada, novas letras somam-se ao alfabeto arco-íris, apontando para um mundo sem gêneros

Com quantos sexos se faz uma sociedade? A pergunta tem sido objeto de estudo para os que tentam entender (catalogar?) as diversas cores do arco-íris do desejo. Nas últimas semanas, a discussão esquenta ainda mais com os debates nos corredores do Congresso, mais uma vez às voltas com as reivindicações das representações LGBT, sigla que agrega cada vez mais letras, escancarando o que especialistas nas psique humana afirmam há tempos: a sexualidade é bem mais complexa do que imaginam até os ministros do STF.

Recentemente, um amigo de adolescência cujo casamento testemunhei no Mosteiro de São Bento há quase vinte anos me informou que havia se separado de sua mulher e estava namorando “sério” seu sócio na empresa de eventos. Apesar de trafegar há mais de dez anos na reportagem da mundanidade das pistas, música e moda, me vi totalmente surpreso com a novidade, já que sequer suspeitava de qualquer tendência homossexual no meu amigo. Peraí… homossexual? Quem disse? O engenheiro não gosta de ser classificado desta maneira. Rejeita veementemente o rótulo e faz questão de me confirmar que jamais viveu um casamento de fachada, reafirmando com todas as letras a paixão por sua ex-mulher, com quem tem uma bela filha, atualmente uma jovem adulta a cursar a universidade em Londres. E agora?

Segundo o psiquiatra Reinaldo Pamplona da Costa, o desejo sexual vai bem além do quadro homem (homo ou heterossexual) e mulher (homo ou heterossexual). No livro “Os onze sexos — As múltiplas faces da sexualidade humana” (Editora Gente) ele adiciona à lista os possíveis bissexuais (homem e mulher), transsexuais (homem e mulher) e os hermafroditas. Levante a mão quem ficou de fora: não vão faltar mãos levantadas... Buck Angel é um famoso ator pornô norte-americano. Nasceu menina, uma graça. Cresceu tão bela que chegou a trabalhar como modelo já na adolescência, atormentada por um único problema: Buck se sentia um rapaz. Tal desconforto, na maior parte dos casos, recebe o diagnóstico de transsexualidade, definida por psicólogos como o caso em que a identidade sexual de um indivíduo não coincide com o gênero da certidão de nascimento. Pensou em Roberta Close? É por aí. E como é comum em situações deste tipo, Buck começou a sua via crúcis para se tornar um rapaz na jovem idade adulta. Cirurgias, administração de hormônios masculinos e tudo mais o que envolve a mudança de sexo. Só que, diferentemente de Chastity Bono, a filha do ícone gay Cher que agora atende por Jack e adicionou o “plus” à sua anatomia, Buck preferiu preservar sua única parte “feminina”, por assim dizer. Tudo porque depois de se enxergar um homem, como se apresenta socialmente, Buck descobriu que se tornou… “um homem gay”. Ou seja, a satisfação sexual de Buck é com outros homens, desafiando até mesmo o conhecimento da ciência sobre o assunto. E você que não ouse a chamá-la de mulher. Enquanto você talvez tenha a necessidade de voltar ao parágrafo acima para entender melhor por que Buck Angel carrega como mote a frase “a identidade sexual não está no órgão genital”, vamos adicionando mais algumas histórias para perturbar o seu café da manhã. Lu e Gabi vêm formando um casal famoso no underground paulistano, na década de 2000. Lu, lésbica, ex-guitarrista da banda de rock Mercenárias, era completamente apaixonada por Gabi, uma travesti loura. E lá vai você de novo voltar ao início do parágrafo para entender (catalogar?) o formato deste casal. Talvez a principal questão que atravessa a sua mente seja o suposto paradoxo do namoro: se lésbicas são mulheres que gostam de mulheres, por que raios essa tal de Lu vai se apaixonar por um travesti, que nada mais é do que um homem vestido de mulher? O vice-versa, neste caso, também vale. Já que Lu veio sem o “plus”, dá para imaginar que Gabi tenha na imagem masculina mais do que apenas a genitália. Bom, mas aí já e outro assunto. Recentemente Lu virou, biblicamente falando, Luciano. Pode procurá-lo no Facebook. Gabi deixou a indústria do entretenimento noturno para se tornar taróloga. Atende por Mãe Gabi. Ambos seguem casados e felizes. História parecida é contada no filme “Elvis e Madona”, de Marcelo Lafitte, de 2009. É baseado na história real de um travesti que se apaixona pela namorada do seu filho. OK, leia de novo, eu espero. Leu? Então... é isso mesmo. D.B. é uma jovem, bela e charmosa menina que gosta de meninas. Frequentadora do high ao low do Rio de Janeiro, é amiga de muitos personagens da chamada alta sociedade carioca (isso ainda existe?). Pode ser vista tanto em um jantar no Chopin quanto na pista da The Week, o megaclube gay do Centro do Rio. E foi justamente lá que, dia desses, uma das lésbicas mais populares de quase todos os círculos da cidade foi vista aos agarros com um belo e louro heterossexual, motivo de olhares desejosos de vários meninos e meninas naquela noite. O moço estava na boate para celebrar o aniversário de um amigo em comum. Quando D. foi ao banheiro, tendo alguns minutos longe do rapaz, uma amiga não se conteve e perguntou: “O que aconteceu? Virou hétero?”. D. não pensou duas vezes: “Ah, amiga, sou sapatão mas não tô morta”.

Muito confuso esse negócio de desejo, não é mesmo, leitor amigo? Então, para descomplicar um pouco, vamos encerrar com um caso simples: um jovem rapaz gay. Filho do jogador de futebol Edmundo e da ex-modelo Cristina Mortágua, Alexandre Mortágua tem 16 anos. Ganhou as páginas dos jornais e sites por denunciar a própria mãe por maus-tratos. Ele agora vive com a avó, diz que contou para os pais sobre sua orientação sexual aos 14 anos e, como todo adolescente, já teve o seu primeiro namorado. Sonha com a profissão de estilista e já se prepara para o exame de seleção da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, referência nacional no curso de Moda. Como você pode ver, Alexandre é um rapaz como outro qualquer e tem a vantagem de poder se casar, opa, de concretizar sua “união civil” quando encontrar sua cara-metade. Como diz a ícone pop favorita dos jovens gays no momento, Lady Gaga, ele está “no caminho certo”. Afinal de contas, ele “nasceu assim”. OK, deputados?


- Ronald Villardo

sábado, 19 de março de 2011

Só um sorriso


O que dizer? Só um sorriso comovido diante da coragem e da integridade de uma transexual que faz um dueto consigo mesma num programa de TV da Tailândia :-)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Masculino e feminino não existem? Um questionamento sobre os estereótipos de gênero


Alguma coisa está fora da ordem. A maioria de nós cresceu sob o signo de determinadas expectativas acerca dos papéis do homem e da mulher na sociedade, apesar da eclosão do feminismo e da luta pela igualdade de direitos das mulheres desde pelo menos o final do século XIX. A maioria de nós cresceu sob o signo da família nuclear composta por pai, mãe e filhos de um casamento monogâmico e vitalício, ainda que o divórcio tenha se disseminado a partir dos anos 60 e sejam cada vez mais raros os nascidos depois de 1980 que ainda tenham os pais vivendo o mesmo relacionamento estável e satisfatório após décadas de união. A maioria de nós anseia pelo encontro da sua cara metade, o/a parceiro/a ideal que nos completará e acompanhará pelo resto da vida - embora as estatísticas apontem para relacionamentos cada vez mais curtos e voláteis. Por que tamanho descompasso entre os fatos concretos e nossos conceitos sobre família, sexualidade e relacionamento amoroso, idealizações cada vez mais distantes da realidade?

A psicanalista Regina Navarro Lins, pesquisadora e autora de livros sobre sexualidade e relacionamento amoroso, vem procurando demonstrar que nossas ideias acerca de sexualidade, família, relações de casal, papéis sociais do homem e da mulher e dos próprios conceitos de masculino e feminino pertencem a um determinado contexto histórico, social e cultural; e, sendo conceitos histórica, social e culturalmente localizados, é natural que se transformem acompanhando a mudança permanente dessas três instâncias.

Natural, mas não fácil, e muito menos tranquilo. Todo sistema resiste à mudança. As crenças de que apenas o homem e a mulher exclusivamente heterossexuais obedecem à ordem ou Lei natural e de que qualquer outra variante do espectro da diversidade sexual é aberrante; de que as mudanças são decorrentes de um afrouxamento da moral ou uma crise dos bons costumes - talvez não passem de uma reação conservadora natural, e violenta, de uma sociedade sacudida pela transformação.

O medo e a raiva naturais diante da mudança exigem a identificação de um culpado e o sacrifício de um bode expiatório. E, nesse sentido, um dos alvos centrais têm sido os gays - os gays, que, por sua própria existência, crescente visibilidade e aceitação que se vai gradualmente disseminando nos diferentes extratos sociais, representam para muitos a grande ameaça aos ideais de casamento e família que parecem hoje ruir.

Em meio à convulsão da mudança e à brutalidade das oposições, exacerbações e radicalismos florescem de parte a parte. Porém, toda defesa extremada de qualquer posição é aprisionante. Converter conceitos próprios de um dado meio, lugar ou época em verdades universais e categorizá-los em certo ou errado, bom ou mau, dificilmente não vai implicar em restringir a liberdade fundamental do ser humano e aviltar sua dignidade. E isso vale para os dois lados de qualquer disputa.

Mudar não é fácil, porque crescer dói.

* * *

Reproduzimos a seguir um interessante texto em que Regina Navarro Lins debate justamente os estereótipos de gênero e aponta para seu atual processo de transformação. Os grifos são nossos.

Masculino e feminino não existem

“A mulher pode ser feminina e ao mesmo tempo ser autônoma?” Fiz essa pergunta para mais de cem pessoas, homens e mulheres com idades variando de 20 a 55 anos. As respostas foram instantâneas e veementes: claro, lógico, óbvio. Em seguida coloquei a segunda questão: O que é uma mulher feminina? O comportamento de todos foi semelhante. Silêncio por algum tempo, como se tivessem sido pegos de surpresa. Hesitantes e confusas, as pessoas tentavam explicar.

Reunindo todas as respostas, surgiu o perfil da mulher feminina: delicada, frágil, sensível, cheirosa, dependente, pouco competitiva, se emociona à toa, chora com facilidade, indecisa, pouco ousada, recatada. Concluí, então, que a mulher considerada feminina é uma mulher estereotipada. Por isso, uma mulher não pode ser autônoma e feminina ao mesmo tempo. Autonomia implica ser você mesma, sem negar ou repudiar aspectos de sua personalidade para se submeter às exigências sociais.

É incrível, mas Vinicius de Moraes, considerado o poeta que amava as mulheres, em Samba da benção mostra a expectativa que se tem delas: “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade; um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e ser só perdão.”

Sem dúvida, na nossa cultura patriarcal, a mulher feminina renuncia a parte de si mesma, na tentativa de corresponder ao que dela se espera. O mesmo ocorre com o homem masculino. Suas características são, certamente, a força, o sucesso, a coragem, a ousadia, e tantas outras do gênero, sem esquecer, claro, aquela cobrança que atormenta todo menino: “Homem não chora.” São todas metas inatingíveis para a maioria e os homens estão esgotados.

Mas de onde surgiu essa diferença tão profunda entre os sexos? É uma antiga e longa história. Quando o sistema patriarcal se estabeleceu entre nós, há 5 mil anos, dividiu a humanidade em duas partes— homens e mulheres— e colocou uma contra a outra. Determinou com clareza o que era masculino e feminino, subordinando ambos os sexos a esses conceitos. E ao fazer isso, dividiu cada indivíduo contra si próprio, porque para corresponder ao ideal masculino ou feminino da nossa cultura, cada um tem que rejeitar uma parte de si, de alguma forma, se mutilando.

Tanto é assim, que a primeira coisa que se quer saber quando um casal vai ter um filho é o sexo da criança. Mesmo antes do nascimento o papel social que ela deverá desempenhar está claramente definido: masculino ou feminino. Os padrões de comportamento são distintos e determinados para cada um dos sexos. Os meninos são presenteados com carrinhos, revólveres e bolas, enquanto as meninas recebem bonecas, panelinhas e mamadeiras. E isso é só o início. A expectativa da sociedade é de que as pessoas cumpram seu papel sexual, que sofre variações de acordo com a época e o lugar. Até algumas décadas atrás, não se admitia que um homem usasse cabelo comprido e muito menos brinco. Eram coisas femininas. As mulheres, por sua vez, não sonhavam usar calças, nem dirigir automóveis. Era masculino.

Na realidade, a diferença entre os sexos é anatômica e fisiológica, o resto é produto de cada cultura ou grupo social. Tanto o homem como a mulher podem ser fortes e fracos, corajosos e medrosos, agressivos e dóceis, passivos e ativos, dependendo do momento e das características que predominam em cada um, independente do sexo. Insistir em manter os conceitos de feminino e masculino é prejudicial a ambos os sexos por limitar as pessoas, aprisionando-as a estereótipos.

E você, o que acha de tudo isso? Deixe suas opiniões nos comentários! :-)
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Reproduzido com autorização da autora. Publicado originalmente via twitter @reginanavarro
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