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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Clara e Marina, entre normas e absurdos

 
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A propósito do casal "Clarina" na novela das nove da Gobo e sua repercussão por aí.

Uma mulher trocar marido e filho por outra mulher é "absurdo", como diz uma das imagens acima, porque que mulher pode se dar a liberdade de trocar o lugar que lhe cabe na sociedade por qualquer outro de sua escolha, e diferente do que dela se espera? Pior, que mulher pode se dar a liberdade de não gravitar em torno do modelo androcêntrico que ainda rege, em grande parte, nossas escolhas e relações?

Imagens como estas denunciam o quanto nossa cultura ainda é normativa, o quanto ainda é difícil sair dos padrões, a carga de recriminações e segregações que tantos ainda têm de suportar como preço a pagar por sua "emancipação". Porque, para aqueles que temos normas a seguir, "autonomia" e "autodeterminação" se confundem com "subversão" e "transgressão". O "prazer", quando escapa aos limites devidamente estabelecidos, se transforma em "devassidão". Mesmo os prazeres clandestinos, para serem tolerados, têm de obedecer às leis que regem o domínio das sombras.

O perigo é que, se trevas e luz não se misturam, a lógica da exclusão de tudo o que escapa às normas condena seus cumpridores a uma paranoia perpétua. Afinal, quanto mais populosa a terra das sombras, mais cercados e acuados estarão os habitantes da luz - ou "cidadãos de bem", ou "defensores da moral e dos bons costumes" (ou, como chamam jocosamente as fãs do casal Clarina, "a família brasileira"). E, no entanto, é por suas sombras que a sociedade normativa respira. São os marginais e clandestinos que insuflam ar novo nos quartos fechados e lubrificam as engrenagens enferrujadas, mesmo pagando caro por isso.

A visão de mundo por trás das imagens acima, muito mais do que "apenas" lesbofóbica e machista, é heteronômica, opressora e sufocante. Mas essas imagens só existem porque expressam a tensão da mudança. Na relação entre a Marina de Manoel Carlos e Clara (esse exemplo de mulher-mãe-e-dona-de-casa da "família tradicional"), dois mundos se chocam e tentam se encontrar. A paixão meio platônica que coloca as duas em algum lugar entre a sedução e essa estranha "amizade" que não ousa dizer seu nome evoca todas as hostes de amantes anônimos que, durante gerações, tiveram de se contentar com migalhas de afeto e fragmentos de ternura - por não terem o direito, como disse Marina um dia desses, de "competir com o amor dele no seu coração"; "ele", o cônjuge legítimo e devidamente nomeado, ao passo que tantos de nós tivemos, e temos ainda, de relegar a expressão e vivência do nosso desejo e do nosso afeto à invisibilidade e ao silêncio da culpa e dos inferninhos. Mas não é só isso. Na dança de encontros e desencontros entre as duas, como nos debates e embates entre correntes antagônicas nas “redes sociais”, vejo as tentativas de mundos antes mutuamente excludentes de negociar e encontrar uma saída da antinomia inclusão/exclusão.

Claro, a Rede Globo, em si, não está fazendo nenhum favor a ninguém. Mas tampouco está discriminando ninguém. O que a emissora de televisão revela é a carga de contradições, a ebulição da mudança no corpo social, a busca de superação da polarização. A história de Clara, Marina, Vanessa e Cadu é a história de todos nós, LGBTs ou não, em busca da terceira margem do rio onde nos libertaremos. Onde não teremos de ser nem anjos nem demônios, mas apenas humanos - cada qual um ser singular, com seu modo único de experimentar e expressar, da maneira mais autêntica possível, seu desejo e seu amor.

- Cristiana Serra, psicóloga e membro do Diversidade Católica

* * *
E o valor da discussão suscitada pelo casal da novela se confirma em vídeos como este:




quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Papa Francisco e a teologia da mulher: algumas inquietações


Diante da aclamação geral e da apreciação positiva da primeira visita do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), qualquer ensaio crítico pode não ser bem-vindo. Mas, depois de tantos anos de luta, "ai de mim se eu me calar!”. Por isso, vão aqui algumas poucas linhas e breves reflexões, só para partilhar algumas percepções a partir do lugar das mulheres.

Não quero comentar os discursos do papa Francisco e nem a alegria que muitos de nós tivemos ao sentir a simpatia, o carinho e a proximidade de Francisco. Não quero falar de algumas posições coerentes anunciadas em relação às estruturas da Cúria Romana. Quero apenas tecer dois breves comentários. O primeiro é em relação à entrevista do papa no avião de volta a Roma, quando perguntado sobre a ordenação das mulheres e respondeu que a questão estava fechada, portanto NÃO. E acrescentou que uma "teologia da mulher” precisava ser feita e que a Virgem Maria era superior aos apóstolos, portanto nada de almejar um lugar diferente para as mulheres.

O segundo comentário tem a ver com a identificação do novo catolicismo juvenil com certa tendência carismática muito em voga na Igreja Católica hoje. Isto deveria nos levar a perguntas bastante sérias para além de nossa sede de ter líderes inspirados que falem ao nosso coração e dispensem os discursos teológicos racionalistas e dogmáticos do passado.

Como pode o papa Francisco simplesmente ignorar a força do movimento feminista e sua expressão na teologia feminista católica há mais de trinta e/ou quarenta décadas dependendo dos lugares? Espantou-me também o fato que tenha afirmado que poderíamos até ter mais espaços na pastoral, quando, na realidade, em todas as paróquias católicas, são as mulheres em sua maioria que levam adiante os muitos projetos missionários. Tenho consciência que essas palavras em relação às mulheres, poucas palavras sem dúvida, limitadas a uma viagem de volta a casa, não possam e não devam criar sombras a uma visita tão exitosa. Entretanto, são os tropeços que fazemos, os nossos atos falhos que revelam a face escondida, a face sombria que também está em nós. São esses pequenos atos que abrem as portas da reflexão para tentarmos ir um pouco mais adiante em relação às primeiras impressões.

A teologia feminista tem uma longa história em muitos países do mundo e uma longa e marginalizada história nas instituições católicas, sobretudo, latino-americanas. Publicações em Bíblia, Teologia, Liturgia, Ética, História da Igreja têm povoado as bibliotecas de muitas escolas de Teologia em diferentes países. Têm circulado igualmente em muitos ambientes leigos interessados pela novidade tão cheia de novos sentidos. E estes textos não são estudados nas principais faculdades de teologia, sobretudo, pelo futuro clero em formação e nos institutos de vida consagrada. A oficialidade da Igreja não lhes deu direito de cidadania porque a produção intelectual das mulheres continua sendo considerada inadequada para a racionalidade teológica masculina. E, além disso, se constitui em uma ameaça ao poder masculino vigente nas igrejas. A maioria não sabe o que existe como publicação e como formação alternativa organizada, assim como desconhece os paradigmas novos propostos por essas teologias plurais e contextuais. Desconhece sua força inclusiva e o apelo à responsabilidade histórica por nossos atos. A maioria dos homens de Igreja e dos fiéis continua vivendo como se a teologia fosse uma ciência eterna baseada em verdades eternas e ensinada prioritariamente por homens e, secundariamente, por mulheres segundo a ciência masculina estabelecida. Negam a historicidade dos textos, a contextualidade de posições e de razões. Desconhecem as novas filosofias que informam o pensamento teológico feminista, as hermenêuticas bíblicas e as novas aproximações éticas.

Papa Francisco, por favor, informe-se no Google sobre alguns aspectos da teologia feminista, pelo menos no mundo católico. Talvez seu possível interesse possa abrir a outros caminhos para perceberem o pluralismo de gênero na produção teológica!

Quanto a dizer, talvez em forma de consolo, que a Virgem Maria é maior do que os apóstolos é, mais uma vez, uma expressão da teologia masculina do consolo abstrato. Ama-se a Virgem distante e próxima da intimidade pessoal, mas não se escutam os clamores de mulheres de carne e osso. É mais fácil fazer poemas à Virgem e ajoelhar-se diante de sua imagem do que estar atentos ao que se passa com as mulheres nos muitos rincões de nosso mundo. Entretanto, se os homens querem afirmar a excelência da Virgem Maria terão que lutar para que os direitos das mulheres sejam respeitados através da extirpação das muitas formas de violência contra elas. Terão, inclusive, que estar atentos às instituições religiosas e aos conteúdos teológicos e morais veiculados que podem não apenas reforçar, mas gerar outras formas de violência contra as mulheres.

Temo que muitos fiéis e pastoralistas necessitados da figura do bom papa, do pai espiritual, do papa que ama a todos se rendam à simpática e amorosa figura de Francisco e reforcem um novo clericalismo masculino e uma nova forma de adulação do papado. O papa Ratzinger nos levou a uma crítica do clericalismo e da instituição papado através de suas posturas rígidas. Mas, agora com Francisco, parece que voltam nossos fantasmas do passado, agora adocicados com a singela e forte figura de um papa capaz de renunciar ao luxo dos palácios e aos privilégios de sua condição. Um papa que parece introduzir um novo rosto público a essa instituição que fez história e nem sempre uma bela história no passado. O momento exige prudência e uma crítica alerta, não para desautorizar o papa, mas para ajudá-lo a ser cada vez mais conosco, Igreja, uma Igreja plural e respeitosa de seus muitos rostos.

Meu segundo breve comentário é em relação à necessidade de identificar a maioria dos grupos de jovens presentes na Jornada e aclamando calorosamente o papa. Em que Evangelho e em que teologia estão sendo formados? De onde vêm eles? O que buscam? Não tenho respostas claras. Apenas suspeitas e intuições em relação à presença marcante de uma tendência mais carismática conservadora e mais celebrativa na linha Gospel. Manifestações de paixão pelo papa, de intenso e repentino amor que leva às lágrimas, a querer tocá-lo, a viver milagres repentinos, a dançar e agitar o corpo têm sido comuns também nos movimentos neopentecostais nas suas muitas manifestações. Sem querer fazer sociologia da religião, creio que sabemos que esses movimentos buscam uma estabilidade social para além das transformações políticas em vista do direito e da justiça para todos os cidadãos e cidadãs. Creio que correspondem, sem dúvida, ao momento atual que estamos vivendo e respondem a algumas necessidades imediatas do povo. Entretanto, há outro rosto do cristianismo que quase não pode se manifestar na Jornada. O cristianismo que ainda inspira a luta dos movimentos sociais por moradia, pela terra, pelos direitos LGBT, pelos direitos das mulheres, das crianças, dos idosos etc. O cristianismo das comunidades de base (CEBs), das iniciativas inspiradas pela Teologia da Libertação e pela teologia feminista da libertação. Estes, embora presentes, foram quase sufocados pela força daquilo que a imprensa queria fortalecer e, por conseguinte, era de seu interesse. Isso tudo nos convida ao pensamento.

Não faz uma semana que o papa viajou e já os jornais e as redes de televisão pouco falam dele. E o que acontece nas comunidades católicas depois dessa apoteose? Como vamos continuar nossas jornadas cotidianas?

Para além da visita do Papa e de uma possível nova forma do papado de Francisco, estamos sendo convidadas/os a pensar a vida, a pensar os rumos atuais de nossa história e a resgatar o que há de mais forte e precioso na tradição ética libertária dos Evangelhos. Não basta dizer que Jesus nos ama. É preciso que descubramos como nós nos amamos e o que estamos fazendo para crescer na construção de relações mais justas e solidárias.

- Ivone Gerbara é escritora, filósofa e teóloga.
Fonte

sexta-feira, 25 de maio de 2012

As vadias vão às ruas

Mais informações aqui

“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.”

- Paulo Freire
(Citado pela Vivi, que explica direitinho Por que ir à marcha das vadias. Não deixe de ler, aqui)

"Há anos mulheres são ensinadas a não serem estupradas, mas nossa sociedade não parece preocupada em ensinar os homens a não estuprarem. Mulheres que sofreram algum tipo de violência sexual não são vadias. Nenhuma mulher é estuprável. Nenhuma roupa é um convite para o estupro. (...)

Para as mulheres, a palavra 'vadia' não tem o mesmo significado que para os homens. Vadias e vagabundas são todas as mulheres que ousam ir contra as regras do moralismo vigente. Apropriar-se do termo 'vadia' e ressignificá-lo é uma das principais estratégias do movimento. Se não posso usar a roupa que quero sem ser julgada por isso, se a liberdade das mulheres não é plena, então somos todas vadias.

Muitas pessoas acham ofensivo participar de uma marcha com esse nome. Não querem associar-se ao termo. Tomar para si a palavra 'vadia', tantas vezes usada para machucar, é uma forma de empoderamento, por meio de uma reação questionadora. Porém, é preciso ter em mente que há diferentes tipos de desigualdades e violências. Por isso é interessante ver que várias marchas têm buscado a inclusão e a coletividade, além do debate em relação a gênero, raça e sexualidade."

- Bia Cardoso, no Amálgama. Não deixe de ler MESMO, aqui.

sábado, 19 de maio de 2012

História da homossexualidade




Como derrubar preconceitos históricos? Ao longo dos séculos, a homossexualidade já foi entendida de várias formas e, mesmo com a evolução em tantos campos, o assunto ainda gera polêmica, e até violência. Uma entrevista com Luis Correia Lima, padre jesuíta e historiador, concedida ao Canal Saúde, da Fiocruz, em 28/06/11 (postagem original aqui).

Leia também: 
Diversidade sexual e Igreja, um diálogo possível
Homossexualidade e Contra-hegemonia no Catolicismo

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Respeito à diversidade se aprende na infância


No dia 15 de maio, será realizado o 9º Seminário LGBT do Congresso Nacional. Este ano, o tema em discussão será “Sexualidade, Papéis de Gênero e Educação na Infância e na Adolescência”, com o lema: “Respeito à diversidade se aprende na infância”.

O evento será realizado pela Comissão de Legislação Participativa, a Comissão de Educação e Cultura e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, em parceria com a Frente Parlamentar LGBT e a Frente em Defesa dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente, e trará especialistas em direito, psicologia, cultura, educação, sexualidade para debater a infância e adolescência de meninos e meninas que sofrem bullying por não se enquadrarem nos papeis de gênero definidos pela sociedade. O 9º Seminário LGBT do Congresso Nacional acontecerá nos plenários da Câmara dos Deputados, das 9h às 17h30.

(Fonte: Dep. Jean Wyllys, no Facebook)

terça-feira, 8 de maio de 2012

Perua ou o Esquadrão do siga as regras


Rebeca Duarte, no Minoria é a Mãe:

Um dos piores tipos de sexismo é aquele disfarçado. É o pior porque normalmente quem vê não percebe, acaba achando que aquilo ali é o correto, e que todas as pessoas devem agir assim. Recentemente um programa de TV tem atraído minha atenção de uma forma negativa. Não vou falar o nome dele para não dar mais audiência (haha), porém, percebo que ele não é o primeiro, e definitivamente não será o último, programa disposto a ajudar as pessoas a mudarem de vida. Essa mudança de vida é estética, é a mudança daquilo que os outros vêem e os incomodam naquela pessoa que está sob os cuidados dos profissionais da atração.

Vi um episódio em que uma garota teve que renovar o guarda-roupa porque ela usava roupas masculinas e prezava demais pelo conforto. A garota era hétero, tinha um noivo há anos, tinha amigos, PORÉM, alguns amigos achavam necessário que ela mudasse sua forma de vestir para uma mais feminina. Outro episódio era estrelado por uma garota que algumas pessoas chamam de pirigótica. A mudança dela era de estilo de vida. Ela tinha que ser menos exagerada para poder manter um namorado, pois seu estilo extravagante assustava os garotos.

Devo assumir que não consegui ver até o final nenhum desses programas, pois assim que anunciavam nas chamadas a mudança e elogiavam a menina por ter se submetido aos desejos dos amigos nascia uma revolta amarga em minha garganta. E quando apareciam os amigos dizendo "Agora sim!" dava vontade de dar uns tabefes pra ver se esse povo acorda pra vida.

Esse programa quer mudar a vida das pessoas (pois também tem garotos, apenas nunca vi) para que elas sejam aceitas pelos seus amigos, ou arrumem um namoro. A mensagem subliminar é: você não está certo desse jeito que você é, você deve se encaixar nesses padrões senão você não satisfará as pessoas - e você precisa satisfazer as pessoas. É mais uma mostra de quão rasa é nossa sociedade, que por um lado prega a igualdade das diferenças e pelo mesmo lado prega que você pode ser diferente, mas não muito. Só se pode ter algo para te fazer uma pessoa diferenciada, não fora dos padrões, pois estar fora dos padrões é caminho certo para a solidão. E ninguém quer estar só.

Tenho pena dessas meninas que submetem a esse tipo de programa, se sujeitam a mudar quem são para satisfazer outras pessoas. Nós sempre estamos mudando, evoluindo ou regredindo, mas em constante mudança, porém, qualquer mudança forçada por um fator exterior tende a ser desprezada assim que esse fator exterior não existe mais. Amigos podem deixar de ser amigos, namorados podem deixar de ser namorados, mas você não deveria deixar de ser você. Principalmente para satisfazer os outros.

O Renato Russo fez uns versos que gosto muito, são esses: "Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá". Ensinam que você deve mudar para ser aceito, quando deveriam era ensinar aos outros para te aceitarem do jeito que você é. E maquiam tudo de uma forma tão moderna que parece que eles estão te ensinando a ser descolado, a ser a última bolacha do pacote, quando estão te fazendo ser mais uma bolacha numa fábrica de biscoito.

Pena.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Hildegard de Bingen e a igualdade entre homens e mulheres na história da Igreja

Imagem daqui

A transposição da imagem de Hildegard de Bingen, que viveu entre os séculos XI e XII, para a mulher de hoje não pode se limitar a algumas observações exaltantes sobre os seus dons excepcionais como abadessa, compositora, filósofa, farmacêutica, "conselheira" dos grandes do seu tempo e ecologista. Busquemos descobrir um rosto de Hildegard mais próximo da realidade histórica.

A opinião é da teóloga italiana Karin Heller, doutora em História das Religiões e Antropologia Religiosa pela Sorbonne, Paris IV, e professora de Teologia na Whitworth University, em Spokane, Estados Unidos. O artigo foi publicado no sítio
Comité de la Jupe, 19-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU (aqui e aqui).

O anúncio romano da próxima canonização e proclamação como "Doutora da Igreja", de Hildegard de Bingen (1098-1179) repercutiu na mídia em torno do Natal do ano passado. Podemos nos alegrar com esse reconhecimento das autoridades romanas oito séculos depois da morte da "Sibila do Reno".

Quanto ao significado dessa promoção tardia, é preciso, acima de tudo, ir buscá-lo nas duas audiências públicas feitas por Bento XVI nos dias 1º e 8 de setembro de 2010, consagradas à pessoa e à vida de Hildegard. Nelas, o papa delineia um retrato da "santa", bem enquadrado pela Mulieris dignitatem e dedicado à exaltação do "gênio feminino", segundo o ponto de vista vaticano.

As mulheres do século XXI, cristãs e católicas favoráveis a um diálogo com o mundo do espírito das aberturas teológicas criadas pelo Vaticano II, não se deixarão enganar. A transposição da imagem de uma mulher que viveu entre os séculos XI e XII para a mulher de hoje não pode se limitar a algumas observações exaltantes sobre os dons excepcionais de Hildegard como abadessa, compositora, filósofa, farmacêutica, "conselheira" dos grandes do seu tempo e ecologista antes do tempo. À espera dos discursos oficiais dessa promoção tardia, busquemos descobrir um rosto de Hildegard mais próximo da realidade histórica.

Hildegard viveu no fim de uma era em que os "mosteiros duplos" ofereciam um acesso aos estudos superiores indistintamente aos homens e às mulheres que viviam sob a regra de São Bento. Essa igualdade de oportunidades se enraizava na profunda convicção de uma igualdade entre os sexos, praticada pelo cristianismo do primeiro milênio. Depois de Hildegard, ao contrário, abre-se uma época que exclui todas as mulheres das universidades nascentes, das quais a Universidade de Paris foi uma das mais renomadas.

A exclusão das mulheres da vida universitária se deveu essencialmente à lei do celibato eclesiástico promovida pelas reformas gregorianas (séculos XI-XIII). Era preciso, a todo custo, separar o clero das mulheres para garantir a castidade do clero, condição incontornável para celebrar a missa e tocar no corpo e no sangue consagrados de Cristo. O destino de Abelardo e de Heloísa é uma ilustração perfeita da incompatibilidade de uma vida de estudo no quadro aberto de uma escola catedral ou de uma universidade que acolhia homens e mulheres. Enquanto os mosteiros garantiam um ambiente relativamente seguro para manter uma conduta casta para os homens e para as mulheres, não era mais assim com o estabelecimento de escolas ligadas a uma catedral.

Hildegard ainda é uma testemunha do que um intercâmbio intelectual praticado entre homens e mulheres pode produzir para o progresso da vida humana à luz do Evangelho de Cristo. Pela sua decisão de excluir as mulheres do debate intelectual público, as autoridades eclesiásticas causaram uma interrupção brutal de um desenvolvimento muito promissor. Privaram a Igreja e a humanidade de um progresso nas ciências humanas, teológicas e espirituais para o milênio seguinte.

Heloísa é um exemplo perfeito dessa evolução que culminará na redução de todas as abadessas ao estado laical. Ela será testemunha e protagonista da batalha que oporia a Escola de Laon a Abelardo, apoiado por outros teólogos da sua época. Essa escola havia produzido os Glossalia ordinaria, que estipulavam a exclusão das mulheres da ordenação diaconal. Essa ordenação ainda conferida às abadessas fazia delas membros do clero. Abelardo e Heloísa perderam essa batalha.

Em seguida, todo traço escrito que fizesse referência a mulheres ordenadas no primeiro milênio foi erradicado, minimizado, degradado. Assim, prevaleceu a convicção de que uma ordenação de mulheres jamais havia ocorrido na Igreja depois de Jesus Cristo. Assim que tal constatação entrou nos documentos compilados pelas reformas gregorianas, não restava nada mais a fazer do que um "copia e cola" de um século ao outro. Ao mesmo tempo, o sacerdócio masculino estava a tal ponto exaltado que se fazia dele um estado metafísico especial, que elevava o indivíduo masculino ordenado acima de todas as outras categorias humanas, e dotado de um selo indelével.

Além disso, até o tempo de Hildegard, a clausura monástica era considerada como um espaço proibido ao que vinha de fora, e não como um lugar do qual não se devesse sair. Depois de Hildegard, ela se tornou uma prisão voluntária para mulheres, ou um refúgio proibido para os homens, onde as mulheres ainda podiam dar livre curso, de algum modo, às suas aspirações de criatividade intelectual e social.

Hildegard ainda se concebia em um mundo em que se podia falar olhos nos olhos com o papa, com o imperador da Alemanha, com o bispo de Mainz, de Colônia, de Würzburg, de Trier ou de Bamberg. Ela pregava do alto da cátedra nas suas catedrais, porque, sendo abadessa, também era diaconisa. Em suas pregações, isentas de toda unção eclesiástica e de todo temor de ser "politicamente correta", ela desenvolvia uma sólida teologia da Encarnação, frente aos erros dualistas do catarismo, e fustigava o clero ávido de riquezas e de honrarias.

Para Hildegard, a visão da relação homem-mulher estava ancorada em uma complementaridade, baseada em uma igualdade entre os sexos. Ela expressa o seu pensamento utilizando uma linguagem emprestada de Aristóteles e de Platão, mas, ao mesmo tempo, distanciando-se deles. Ela explica o ser humano com a ajuda dos quatro elementos da natureza (fogo, água, ar, terra).

Aristóteles opõe os homens às mulheres, torna o homem superior à mulher e associa o homem ao fogo e ao vento, e a mulher à água e à terra. Hildegard, ao contrário, associa o homem ao fogo e à terra, e a mulher ao ar e à água. Assim, ela estabelece um equilíbrio entre elementos leves e pesados, inferiores e superiores, que funciona em favor dos dois sexos.

Apoiada em sua leitura dos relatos do Gênesis 1 e 2, ela se opõe novamente a Aristóteles, que exige a submissão da mulher ao homem, por causa do fato de a mulher não controlar as suas emoções. Novamente, Hildegard rompe com essa visão bipolar, opondo-lhe o argumento seguinte: a mulher, tendo sido criada a partir da carne do homem e não da terra, goza de uma maior estabilidade do que o homem. Portanto, ela não só é capaz de controlar as suas emoções, mas o faz a partir de uma posição que a favorece com relação ao homem. Enfim, à convicção bipolar aristotélica do respeito imposto à mulher por parte do homem, ela opõe o respeito que a própria mulher inspira graças à prática das virtudes no seguimento de Cristo.

Hildegard desenvolveu uma surpreendente análise da interação entre fatores psicológicos e biológicos nos homens e nas mulheres. Ela via em um homem cuja sexualidade era feita de fogo e de vento o caráter equilibrado e a fertilidade moderada, um homem que não buscava a posse de uma mulher, mas sim a união com uma mulher enquanto pessoa integral. Esse tipo de homem seria um bom marido, assim como um bom servo de Deus, engajado no celibato.

Igualmente, ela via em uma mulher cujos músculos tinham uma estrutura de terra e cujo sangue era misturado com o ar uma pessoa que gosta da companhia de um homem sem precisar dele. Hildegard reconhecia nesse tipo de mulher uma pessoa "muito fértil", feita para o matrimônio e apta para suportar uma vida de castidade.

Para Hildegard, o homem de grande perfeição devia estar em relação com uma mulher, ou no matrimônio ou em uma relação de amizade espiritual. Sem nenhuma dúvida, Hildegard teria expressado reservas com relação a um celibato eclesiástico imposto a todos os tipos de homem ou uma vida religiosa para todos os tipos de mulheres. Ela sabia muito bem que os homens e as mulheres não eram iguais perante a "mãe natureza".

No campo das virtudes, Hildegard, ao invés, adota uma atitude platônica, que reconhece aos dois sexos a capacidade de exercer as mesmas virtudes. Tanto Platão quanto Hildegard não consideravam o silêncio ou a obediência como virtudes particularmente femininas, e o tomar a palavra em público ou o comando como reservados apenas para os homens.

Em duas ocasiões, Hildegard se recusou a se curvar às injunções do seu Padre Abade e do seu bispo. Ela rompeu com a tradição dos mosteiros duplos e estabeleceu mosteiros onde só as mulheres estavam no comando. A virtude da mulher está em construir e em falar no mesmo nível do homem. Essas atividades não são um sinal de uma abolição da diferença homem-mulher. Hildegard não adotaria a teoria da indiferença dos sexos, já que, no rastro de São Paulo, ela sabe que "o que é fraco no mundo, Deus escolheu para confundir os sábios" (1Cor 1, 27).

Entre os historiadores, o debate está aberto para saber se a própria Hildegard foi para Paris em 1174 ou se o seu legatário literário, Bruno de Estrasburgo, se encarregou disso. Em ambos os casos, o propósito dessa viagem era a inclusão das obras de Hildegard no currículo dos estudos teológicos. Infelizmente, não foram as obras de Hildegard que foram escolhidas pelas autoridades eclesiásticas para enriquecer o currículo acadêmico, mas sim as de Aristóteles, cuja leitura foi tornada obrigatória em 1255.

A busca da verdade como obra comum dos homens e das mulheres havia acabado definitivamente, e a vitória da bipolaridade sexual aristotélica estava garantida pelos próximos mil anos. Hildegard e as suas obras caíram no esquecimento, o que provavelmente as salvou de uma destruição completa ou parcial por parte de um clero que se pensava "definitivamente" acima das mulheres!

Certamente, nos alegramos com a promoção tardia de Hildegard ao posto de "Doutora da Igreja" pelas mesmas autoridades que a condenaram ao silêncio por tantos séculos. Ao longo das próximas festividades, qual imagem de Hildegard será apresentada aos católicos? De minha parte, acreditarei na sinceridade dessa promoção somente se uma mulher do temperamento de Hildegard for convidada pelo Vaticano para pregar um retiro de Quaresma!

Leia também:
Hildegard de Bingen, uma “artista” mística e profética
Hildegard de Bingen: futura Doutora da Igreja

Breve bibliografia que inspirou este artigo:
Ir. Prudence Allen, The Concept of Woman. The Aristotelian Revolution, 750 a.C.-1250 d.C.. Grand Rapids: Eerdmans, 1985.
Barbara Newman, Sister of Wisdom. St. Hildegard’s Theology of the Feminine. Berkeley-Los Angeles: University of California Press, 1987.
Gary Macy, The Hidden History of Women’s Ordination. Female Clergy in the Medieval West. Oxford University Press, 2008.
Régine Pernoud, Hildegarde von Bingen. Conscience inspirée du XIIe siècle. Editions du Rocher, 1994.
DVD Visão: Sobre a vida de Hildegard von Bingen, dirigido por Margarethe von Trotta, estrelando Barbara Sukowa, 2010.

As religiosas dos EUA e as tensões desde o Vaticano II

"As freiras católicas me ensinam o que significa perseverar no ministério 
sem o benefício do poder institucional. #OQueAsFreirasSignificamParaMim" (Tweet daqui)

É quase instintivamente que se chega, ao tentar explicar o que está acontecendo hoje na Igreja Católica, a metáforas do mundo natural – tempestades, terremotos, mudanças sísmicas – para chegar à magnitude dos eventos.

A análise é do jornalista norte-americano Tom Roberts, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 24-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Procuramos os termos que explicam o que estamos experimentando: fenômenos além dos distúrbios comuns aos quais aprendemos a resistir de uma época para a outra. Assim como os sismólogos ou os climatologistas começam a unir os padrões ao longo do tempo, a construir uma megaimagem do que está acontecendo, nós também o fazemos.

Outra peça do quebra-cabeça acabou de se encaixar para nós com a divulgação pelo Vaticano, na semana passada, da "Avaliação Doutrinal da Leadership Conference of Women Religious (LCWR)".

O terremoto de 5,8 graus que atingiu a Costa Leste em agosto foi insignificante para os padrões da Costa Oeste, mas foi sentido a centenas de quilômetros do seu epicentro na Virgínia. Os geólogos explicaram que a crosta da Terra nessa parte do mundo é mais densa e menos perturbada e fraturada do que nas zonas sísmicas habituais, permitindo que as ondas sísmicas viajem mais longe do que viajariam, digamos, em Los Angeles ou em San Francisco.

De forma semelhante, as ondas de choque que emanam desde o Concílio Vaticano II (1962-1965), um encontro diferente de todos os precedentes em termos de tom, propósito e linguagem, reverberaram por toda a crosta relativamente imperturbável das presunções e da cultura de liderança da Igreja institucional. A avaliação das religiosas é o mais recente dos tremores secundários. Esse Concílio, popularmente conhecido como Vaticano II, não anunciou anátemas; não condenou heresias, como ocorreu em outros; não discorreu sobre o dogma nem estabeleceu novas linhas para quem está dentro e quem está fora da comunidade.

Ao invés disso, dizendo a questão amplamente, ele pediu que todos nós fôssemos às raízes de quem nós somos como povo de Deus e descubramos o que isso significa no mundo contemporâneo. E, embora essa seja uma história muito mais complexa – na verdade, um universo de histórias – para que possamos fazer justiça no espaço deste ensaio, podemos saber algumas coisas sobre o que aconteceu desde que começamos a sentir os rumores por baixo da crosta eclesiástica.

Uma das realidades que moldam a notícia dessa semana é que os bispos e as religiosas tomaram caminhos muito diferentes na sequência do Concílio, e isso estabeleceu uma dinâmica infeliz. Kenneth Briggs explica a crescente tensão entre bispos e religiosas no livro Double Crossed: Uncovering the Catholic Church's Betrayal of American Nuns.

As irmãs dos Estados Unidos, afirma ele, foram amplamente ignoradas nos relatos históricos do desenvolvimento da Igreja e da nação por causa de sua "exclusão das posições de poder dentro da Igreja. Sua subjugação a uma ordem clerical masculina não apenas as manteve fora dos olhos do público, mas também, em última análise, esmagaram seus esforços para se remodelarem ousada e criativamente".

Muitos dos problemas experimentados pelas religiosas no último meio século, argumenta, derivam da "recusa da hierarquia de cumprir a promessa de renovação" implícita nos documentos conciliares.

Rearranjo da paisagem
Os rumores que começaram a perturbar a crosta da Igreja em meados dos anos 1960 elevaram-se até um gigante deslocamento no fim da década com o debate sobre a Humanae Vitae. Pode parecer impactantemente inadequado retomar essa velha disputa de novo e neste contexto. Mas ela foi importante e continua sendo relevante. A paisagem católica foi rearranjada de uma forma grande e única.

Os leigos, nesse caso, liderados pela sua própria experiência e por teólogos proeminentes, disseram "não". Eles disseram que não aceitavam a proibição da Igreja sobre o uso da contracepção artificial. E assim foi. Pouco mudou desde então. Essa decisão, informal mas generalizada, criou bons tremores. A Igreja se manteve firme, menos, talvez, do que uma gárgula, aqui e ali. Deus permaneceu nos céus, e a vida continuou, mas uma nova intuição-chave permeava as pessoas nos bancos das igrejas. O temor da danação eterna por desconsiderar um ensinamento que não fazia sentido começou a evaporar como razão para obedecer.

A estudiosa da religião Phyllis Tickle diz que o cristianismo mundial está passando por uma de suas turbulências a cada 500 anos, quando antigas "carapaças" se racham e incrustações de hábito, de prática e de crença se desprendem. Em cada um desses ciclos, diz ela, ficamos nos perguntando: "Onde está a autoridade?".

A controvérsia sobre o controle de natalidade forçou essa questão de uma forma abrupta e nova no mundo católico. Percebe-se que, assim como os EUA estão tentando descobrir, no pós-11 de setembro, como o poder funciona em um mundo mais encolhido, interconectado e rompido pela tecnologia do que nunca, assim também os bispos estão tentando descobrir como funciona a sua autoridade em uma Igreja cada vez mais fraturada, onde as armadilhas e as presunções de uma monarquia totalmente masculina têm pouca influência sobre o imaginário católico contemporâneo. Poder e autoridade não funcionam mais como antes.

* * *

Na Igreja, não existe desafio maior para o poder hierárquico e para a forma tradicional de fazer as coisas do que as religiosas. Seguindo o Concílio, as mulheres fizeram o que elas pensavam que o encontro havia mandado: elas cavaram profundamente em suas próprias histórias, reviram seus documentos fundadores, refletiram longamente sobre as vidas e os exemplos de seus fundadores e fundadoras. Muitas saíram desse período de intensa oração e exame com conclusões surpreendentes. Uma delas era que a sua missão devia ser mais do que uma mão de obra barata para a hierarquia.

Outra delas foi que, tendo redescoberto os seus "carismas" originais, elas viram o seu trabalho levá-las para além dos muros dos claustros e dos conventos, rumo ao mundo mais amplo, particularmente para as suas margens e entre os pobres.

Um resultado inevitável de toda a introspecção e meditação sobre suas vidas, suas histórias e suas missões foi uma nova descoberta de si mesmas como mulheres. De fato, Briggs fala delas como uma espécie de pré-movimento feminista. As religiosas estavam realizando tarefas normalmente reservadas aos homens muito antes que muitas outras mulheres na sociedade. Elas dirigiam escolas e hospitais e outras instituições. Elas eram, escreve ele, "líderes destacadas a cargo de grandes e complexas estruturas. Elas eram, em suma, os CEOs de instituições antes que as mulheres [em geral] fossem CEOs de instituições".

Milhares delas obtiveram graus acadêmicos nos anos 1950 e levaram os seus novos conhecimentos e habilidades para uma ampla gama de novas profissões, diz Briggs, que escreve que o "total de doutorados conferidos às irmãs mais do que dobrou" entre os anos 1950 e 1970.

Durante o longo arco de sua história nos EUA, é fato que as religiosas construíram a Igreja. Nós não teríamos o sistema escolar católico sem elas. Nós não teríamos um sistema hospitalar sem elas. Nós não teríamos hoje uma presença católica em muitos das piores partes das nossas cidades sem elas. Nós não teríamos uma pastoral para os desalojados, indesejados e feridos sem elas. Em muitos casos, nós não teríamos quaisquer ministérios ou programas de educação em nossas paróquias e dioceses sem elas. E, em algumas das regiões do país pobres em padres, não teríamos paróquias sem elas.

"O chão está se movendo"
Nós somos, ao mesmo tempo, católicos, e os bispos são uma parte importante da nossa história. Por isso, devemos questionar: quem gostaria de ser bispo na Igreja de hoje? O chão está se movendo abaixo de nós de uma forma sem precedentes. Os antigos símbolos do poder estão desaparecendo. A residência baronial do bispo em Boston foi vendida para pagar o escândalo dos abusos sexuais. A da Filadélfia está à venda. A autoridade dos bispos em todas as partes está comprometida, sua estatura moral diminuiu, enquanto o mundo continua ouvindo, através de depoimentos em julgamentos e de documentação publicada, como a cultura da liderança da Igreja Católica ignorou o horror que estava sendo cometido contra as crianças, a fim de proteger seus padres e a reputação da cultura clerical.

Para a maioria dos homens ordenados vivos hoje, às vezes deve parecer como se nada é como era, como se aquilo ao qual eles se inscreveram décadas atrás desapareceu.

E isso inclui a forma como as religiosas atuam hoje. Isso inclui a forma como as religiosas pensam hoje, o fato de que elas se engajariam na reimaginação de Deus nas múltiplas manifestações humanas que refletem a sua imagem. De que elas responderiam a perguntas sobre o lugar das mulheres na Igreja, a ordenação de mulheres, como a Igreja trata os homossexuais – na direção contrária de toda a boa ordem e a comunidade que os homens haviam construído.

* * *

A avaliação doutrinal de oito páginas – uma acusação formal, na verdade – põe em causa as vidas, as motivações, a espiritualidade, a fidelidade, a teologia e as formas de abordar a Igreja e o mundo dos membros da Leadership Conference of Women Religious, uma organização que representa mais de 80% das religiosas dos EUA.

O documento está apropriadamente ancorado em citações papais sobre a necessidade de que "pessoas consagradas" tenham a total "adesão da mente e do coração ao magistério dos bispos", assim como fizeram seus fundadores e fundadoras. Como é o caso frequentemente, aqueles que possuem um maior risco de colapso nas presunções e de surgimento de questões pintam a história da Igreja em linhas nítidas e claras. Mas a realidade de alguns desses fundadores e fundadoras é muito mais irregular e envolta por muito mais lutas com a instituição e com os que detinham o poder do que referem as admoestações papais contemporâneas à obediência e à lealdade.

Há uma consequência para o fato de as religiosas terem sido as construtoras da Igreja, aqueles que estavam em campo, as representantes da Igreja onde a dor está, onde as pessoas estão realmente vivendo, sendo cuidadas e morrendo. Elas são conhecidas, recebem confiança e inspiram uma admiração e uma lealdade que não serão abandonadas nesta época de provações.

Essa não deveria ser uma competição entre homens e mulheres. Não deveria ser um teste de quem é mais importante para a Igreja. Não deveria ser uma questão de ganhar ou perder. Mas os homens forçaram isso até esse ponto.

Apoios
Nos últimos dias, as religiosas foram abordadas por católicos nas liturgias dominicais em todo o país com uma simples pergunta: o que podemos fazer para ajudar? Uma irmã me disse que as religiosas de outros países enviaram mensagens de solidariedade, perguntando se não há nada que elas possam fazer.

Em uma paróquia na Costa Leste, uma simpática mensagem de apoio às irmãs, vinda do púlpito, provocou aplausos altos e demorados. Certamente, não foi uma experiência singular. Leigos em todas as partes estão buscando quaisquer formas para apoiar as religiosas. Abaixo-assinados estão circulando no éter e atraindo milhares de assinaturas.

Eu aposto que a maioria dos bispos realmente não querem essa disputa neste momento. Com tudo aquilo que precisa de conserto na Igreja hoje – e com a quantidade de "coisas quebradas" pelas qual as lideranças são responsáveis –, agora não é o momento para ficar lançando farpas sobre quaisquer outros grupos, e certamente não sobre as irmãs.

As perguntas que as religiosas estão fazendo, os temas que elas discutem, as opiniões que elas se atrevem a expressar publicamente poderiam estar em desacordo com o que os bispos emanam a partir de sua experiência vivida, assim como de sua formação. Se os bispos querem reconhecer os fatos, essas são as mesmas questões e preocupações que ocupam a comunidade em geral, e não vão desaparecer magicamente.

Evolução em revoluções
Xavier Le Pichon, geofísico francês, é conhecido por ter construído um modelo abrangente de tectônica de placas, mas também por ter extraído do seu conhecimento da atividade das placas terrestres profundas intuições sobre o comportamento humano e a dinâmica da comunidade humana. Em um artigo, ele escreve: "Como eu sabia da minha própria experiência científica, as fraquezas, as imperfeições, as falhas facilitam a evolução de um sistema. Um sistema que é muito perfeito também é muito rígido, porque não precisa evoluir. Isso é verdade na política, é verdade dentro de uma sociedade, dentro das famílias, dentro da natureza". Eu acho que pode-se inferir, sem esticar o ponto indevidamente, que isso também vale para a Igreja Católica e para a sua eclesiologia.

Um sistema perfeito, escreve ele, "é um sistema fechado que só pode evoluir mediante uma grande comoção. A evolução ocorre através de revoluções". Em um caso, é a quebra de rochas rígidas; em outro, se poderia extrapolar, é a lenta desintegração dos sistemas eclesiais que se tornaram muito rígidos ou que descobrem que a sua utilidade foi transposta pelo tempo, pelas circunstâncias e pelas novas intuições.

A avaliação vaticana, de fato, deu início a uma "grande comoção". De uma forma que nenhuma campanha de nova evangelização jamais poderia, a crítica contra as irmãs unificou os católicos para se reagruparem por uma boa causa como católicos, porque eles são católicos. Eles farão tudo o que puderem para proteger as religiosas. Os bispos devem estar prontos para o contra-ataque violento de cartas e abaixo-assinados.

A hierarquia dos EUA está mirando a sua raiva contra as irmãs, mas os tremores que estão movendo a terra debaixo de seus pés têm pouco a ver com as mulheres que servem os pobres e se atrevem a fazer perguntas inquietantes.

Leia também:
"Estou do lado das irmãs dos EUA": a defesa do jesuíta James Martin
Sobre o "magistério silencioso" dos cristãos cotidianos em ação, aqui
Do Oregon a Ohio, um apoio crescente às irmãs católicas dos EUA
Católicos dos EUA se mobilizam por suas religiosas

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Luteranas criam rede de justiça e gênero

Imagem daqui

Líderes e teólogas representando igrejas luteranas de dez países da América Latina e do Caribe criaram a rede “Mulheres e Justiça de Gênero”, com o propósito de incentivar o acolhimento e a inclusividade em todas as esferas da Igreja.

A informação é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 29-04-2012, aqui reproduzida via IHU.


“Essa rede nos motiva a compartilhar a nossa caminhada. Ela leva à reflexão sobre o nosso papel na América Latina, reforça a nossa identidade e cria mecanismos mais sólidos para refletirmos teologicamente sobre o papel da mulher na Igreja. Não estamos sozinhas, somos um corpo que tem vários membros”, disse a pastora brasileira Márcia Blasi ao repórter Tobias Mathies.

Há mais de 40 anos mulheres luteranas lutam por mais espaço e justiça de gênero na sociedade, na vida comunitária, na expectativa de chegar aos cargos de comando na igreja. Mapeamento mostra que todas as igrejas luteranas da região ordenam mulheres ao sacerdócio e cresce o número de mulheres que se dedicam ao estudo da Teologia.

“O trabalho com mulheres sempre foi uma fortaleza na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e agora queremos dividir a nossa experiência para somar os nossos trabalhos”, disse a secretária geral da denominação brasileira, diácona Ingrit Vogt.

As 25 mulheres representantes das igrejas da América Latina e do Caribe estiveram reunidas na capital catarinense, concomitante à Conferência de Bispos, Presidentes e Lideranças das Igrejas filiadas à Federação Luterana Mundial, que realizou encontro em Florianópolis dias 23 a 27 de abril.

terça-feira, 24 de abril de 2012

As crianças e os gêneros

Foto via Facebook

Causou furor na rede há umas duas semanas a divulgação de um catálogo de brinquedos sueco que inverteu os papéis tradicionais de gênero, mostrando um Homem-Aranha (um menino ou uma menina?) empurrando um carrinho de bebê e cercado de outros brinquedos cor-de-rosa, enquanto uma menina de calça comprida e tênis pedalava um carrinho. A esse propósito, reproduzimos aqui o belo texto da Debora Regina, publicado no Blog Mamíferas na semana passada.

Entro em casa e, na sala, vejo a seguinte cena: Naná vestida de princesa, com os pés descalços e encardidos, jogando futebol de botão com Pedrinho, o irmão mais velho.

Essas situações são comuns aqui em casa. Outro dia, João Felipe brincava de casinha com as meninas, ajudava a carregar o bebê e cuidar da casa. Vantagens de quem tem meninos e meninas em casa: eles têm oportunidade de brincar com todos os tipos de brinquedos. Fico feliz em ver que, pelo menos nas brincadeiras, para meus filhos, a questão de gênero não faz diferença, pelo menos para eles homens e mulheres são iguais e fazem o que lhes der na veneta.

Eu nunca disse para eles que tal atitude/roupa/brinquedo eram para menino ou menina, eles podem brincar com tudo, vestir o que quiserem. Lembro que quando o João era pequeno, me pediu uma pia e panelinhas pois ele queria brincar de cozinheiro, eu comprei uma roxa e amarela. Fico muito brava ao ver que, hoje em dia, não fazem mais geladeira ou fogão brancos, tudo, absolutamente tudo, é rosa, ou seja, além de reforçar que o serviço doméstico só pertencem às mulheres, ainda por cima temos que aceitar o rosa como a única cor possível.

Por outro lado, não há como fugir de alguns estereótipos: Ana Cecília adora rosa, fru-frus, coroas, vestidos, enquanto os meninos curtem brincar de luta, futebol, além de algumas “ogrices” típicas de meninos como arrotar e soltar pum. Isso me faz refletir onde está sendo repetido um padrão social e onde esses gostos e atitudes pertencem às naturezas feminina e masculina. Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva, mas, algo me diz que há sim maior influência social.

Para mim, o problema maior quando o assunto é gênero, são as informações vindas de fora, porque as crianças sempre trazem os preconceitos proferidos pelos próprios coleguinhas. Ultimamente, a grande dúvida deles é sobre o que é ser gay, visto que alguns coleguinhas já tacharam que meninos não podem ter algumas atitudes porque são considerados gays. Eu, muito calmamente, explico para eles que o amor pode acontecer com pessoas de todos os sexos: homens que amam mulheres, homens que amam homens e mulheres que amam mulheres. Explico também que isso é algo que só acontece com pessoas mais velhas, então eles não precisam se preocupar com isso. Ponto final.

De minha parte, faço o possível para não reforçar esses estereótipos. Desejo sinceramente que meus filhos sintam-se, acima de tudo, indivíduos livres e sem preconceitos.

- Debora Regina, para o Blog Mamíferas

A Lola publicou ontem no seu blog um texto excelente sobre o assunto. E tudo isso nos lembrou, aliás, este post aqui... e o vídeo aí embaixo. ;-)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Religião: a fronteira final do feminismo?

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Há igrejas em que as mulheres não estão autorizadas a falar em voz alta, a menos que primeiro obtenham a permissão de um homem. Há igrejas (muitas delas) em que as mulheres não têm a permissão de pregar no púlpito. Há igrejas em que um menino de 13 anos tem mais autoridade do que a sua mãe.

A batalha dos sexos, travada nesta temporada de eleições com uma fúria excessiva no espaço público, está sendo combatida em uma esfera muito mais dolorosa e privada também. Nas igrejas (e sinagogas e mesquitas) em toda a terra, as mulheres ainda são tratadas como cidadãs de segunda classe. E, como as mulheres de fé são cada vez mais chefes de família e mães solteiras, esse status diminuído está começando a se inflamar.

Há igrejas nos EUA em que as mulheres não estão autorizadas a falar em voz alta, a menos que primeiro obtenham a permissão de um homem.

Há igrejas (muitas delas) em que as mulheres não têm a permissão de pregar no púlpito.

Há igrejas nos EUA em que um menino de 13 anos tem mais autoridade do que a sua mãe.

"Na igreja, eu tinha que esconder os meus pensamentos, questões e escolhas de vida", diz Susan, uma mulher que trabalha como terapeuta em Seattle e que, depois uma vida inteira seguindo Jesus, abandonou o cristianismo. "Eu achava que eu não podia fazer nada por mim mesma, porque, como uma mulher cristã, eu aprendera que eu precisava de um homem para chegar a algum lugar".

A história de Susan foi publicada em janeiro por uma pequena editora cristã no livro "The Resignation of Eve" [A resignação de Eva]. Em suas páginas, o autor, um pastor evangélico chamado Jim Henderson afirma que, a menos que as lideranças masculinas das igrejas cristãs conservadores façam um sério exame de consciência – e logo –, as mulheres que sempre sustentaram essas igrejas com o seu tempo, seu suor e seu dinheiro irão embora. Em massa. E não vão mais voltar. Seus filhos, tradicionalmente levados à igreja por suas mães, assim, vão se juntar ao crescente número de norte-americanos que se chamam de un-churched [sem igreja].

Não interessa que a Bíblia fale sobre mulheres que se submetem a homens e se sentam silenciosamente na igreja, declama Henderson. Isso é história antiga. "Até que aqueles que têm poder (homens) decidam dá-lo àquelas que não o têm (mulheres), eu acredito que continuaremos deturpando o coração de Jesus e desfigurando a beleza do seu Reino", escreve Henderson.

Henderson reforça seu argumento com dados do Grupo de Pesquisa Barna. Entre 1991 e 2011, o número de mulheres adultas que frequentavam a igreja semanalmente diminuiu 20%. O número de mulheres que iam à escola dominical caiu cerca de um terço, assim como o número de mulheres que faziam trabalhos voluntários na Igreja.

E, embora os dados do Barna tenham sido contestados por outros pesquisadores, Henderson vai mais longe. Mesmo as mulheres que vão à igreja regularmente, diz ele, são realmente apenas a metade: seu descontentamento as impede de se engajar totalmente no projeto de ser cristão. Ele chama esse mal-estar entre as mulheres de "uma fuga de capital espiritual".

Eu penso nessas fiéis conservadoras nesta temporada política, lutando para sobreviver e manter seus olhos em Deus, enquanto os homens de direita, também conhecidos como "o patriarcado", as desrespeitam e as insultam.

Não é apenas Rush Limbaugh [comentarista político conhecido por suas posições republicanas] que avilta todas as mulheres ao chamar uma delas de "vagabunda" e de "prostituta". Também é Rick Santorum [candidato católico republicano à presidência dos EUA] – aquele homem de fé – que chegou quase a chamar as mães trabalhadoras de egoístas e que trata todas as mães solteiras como a sua "oposição", como ele fez em uma entrevista com Tony Perkins do Family Research Council no ano passado. "Elas olham para o governo pedindo ajuda e vão votar", disse Santorum. "Por isso, se quisermos reduzir a vantagem democrata, o que precisamos fazer é construir famílias biparentais".

Também é cada medida política que coloca o chamado "pequeno governo" à frente da saúde, do bem-estar e da educação das crianças.

Penso nas blogueiras do Feminist Mormon Housewives que insistem sobre a sua devoção à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, embora sensivelmente rebelando-se contra os ensinamentos que tornam as mulheres inferiores aos homens.

Penso nas mulheres da Aliança Feminista Judaica Ortodoxa, que, barradas dos papéis de liderança na sinagoga, estão começando pequenos grupos de oração por conta própria, onde podem celebrar rituais do ciclo de vida judaico em conjunto.

Penso em Kelly, uma personagem do livro de Henderson que, depois de defender as mulheres no ministério de sua igreja, recebeu o tratamento de silêncio do seu pastor durante meses. Kelly saiu dessa igreja e começou um grupo que se reúne nas salas de estar das pessoas. Lá, ela é um líder. "Essa é minha igreja, e eu a amo", diz ela. "É uma comunidade que eu cultivo e pastoreio".

As analogias políticas são claras. De acordo com uma nova pesquisa NBC/Wall Street Journal, o presidente Obama ganha em qualquer disputa contra Mitt Romney, Santorum ou Newt Gingrich. Entre as mulheres, porém, seus ganhos são enormes: 18, 24 e 27 pontos, respectivamente.

A menos que os estridentes e autoritários conservadores sociais afrouxem seu domínio repressor sobre as mulheres norte-americanas, as mulheres norte-americanas irão abandonar o Partido Republicano (assim como estão abandonando a Igreja) e irão procurar seus candidatos em outro lugar.

- Lisa Miller, editora de religião da revista Newsweek
Artigo publicado no jornal Washington Post, 08-03-2012.
Tradução: Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

sábado, 17 de março de 2012

A era dos novos narcisos: músculos e máscaras

Imagem daqui

Lágrimas, emoções exibidas em público, unhas pintadas, sobrancelhas retocadas: dos políticos aos atores, passando pelos esportistas, o cânone básico do comportamento viril parece completamente mudado. Porque mostrar os sentimentos tem o seu valor, e porque a estética é um fator cada vez mais importante. Que também condiciona os novos homens.

Não é uma prova de sensibilidade e de impulso artística como quando Diderot saía do teatro chorando e soluçando: aquele era o século das Luzes, os homens descobriam inesperadas paisagens interiores, recém começava a redefinição dos arcaicos cânones de virilidade.

Hoje, o choro masculino se ostenta, se torna uma prova inédita de força física, como demonstra a imagem de Vladimir Putin, que não segura as lágrimas, deixa cair uma, duas, três gotas, única surpresa de mais uma vitória anunciada. O presidente macho-alfa, que pescava com o torso nu e agora se finge de choramingão, é o símbolo de uma identidade sexual mutante, até a fronteira dos metrossexuais, narcisos contemporâneos que revisitam códigos de sedução, revelam ao olhar corpos musculosos e depilados, brilhantes e perfumados. Quase mais até do que os femininos.

E, no fundo, entre os pioneiros do gênero, havia um outro protótipo de "homem de verdade": o jogador de basquete da NBA Dennis Rodman, que exibia músculos, cestas, uma história de amor com Madonna e esmalte sobre as unhas.

É uma invasão do campo à qual estamos rapidamente nos acostumando. Na política, aquele instante de suposta sinceridade, a perigosa invasão no irracional, parecia ser concedido até agora apenas às mulheres. Há exemplos ilustres. Hillary Clinton derrotada na corrida à Casa Branca. A ministra Elsa Fornero que não consegue pronunciar a palavra "sacrifício", apresentando a reforma das pensões do governo Monti. Ségolène Royal humilhada pelo seu ex-marido François Hollande nas eleições primárias socialistas.

Talvez, no dia 6 de maio próximo, o vencedor das eleições presidenciais francesas também se entregará às lágrimas fáceis. Não haveria nada para se admirar. Nicolas Sarkozy, outro exemplar da estirpe dura e pura, já é obrigado a mostrar o seu lado mais frágil para subir o topo das pesquisas. Na campanha, ele busca comover os eleitores com fórmulas do tipo "Eu mudei", "Eu errei", "Ajudem-me". É uma inversão de papéis, algo impensável há algum tempo.

"As eleições são vencidas com programas, mas também com emoções", explica a semióloga Giovanna Cosenza, que acaba de publicar Spot Politik, o livro publicado pela editora Laterza sobre como a comunicação política está mudando. O exemplo de Silvio Berlusconi que se gabava de falar às "entranhas" do país criou reações contrárias nem sempre positivas. "Penso na escassa capacidade dos líderes de esquerda de saber sorrir", lembra Cosenza, citando alguns exemplos.

Para um Piero Fassino comovido depois da eleição a prefeito de Turim e a renúncia como deputado, há um Pierluigi Bersani terrivelmente sério depois da vitória da centro-esquerda nas eleições administrativas de 2011. Como se o território das emoções, que também foi aberto pelo choro de Achille Occhetto no Congresso de Bolonha, quando mudou o nome do Partido Comunista Italiano, estivesse hoje ocupado mais pelas direitas.

"Muitos estudos demonstram que, até o advento de Barack Obama, foi justamente nisso que os republicanos norte-americanos historicamente tiveram uma superioridade comunicativa sobre os democratas". A emoção pode trair, é a admissão de uma perda de controle que mal se concilia com o poder. Mas também provoca uma empatia imediata, que chega ao coração dos eleitores. É dosando força e fragilidade que se cela o segredo da comunicação política moderna.

Muita coisa mudou desde que, em 1939, durante as filmagens de E o vento levou, Clark Gable se recusou a chorar diante das câmeras. E, se podíamos considerar como uma extravagância de rebelde punk quando Robert Smith, do The Cure, usava batom e sombra, o sinal da reviravolta global chegou ao campo mais conformista. O esportivo.

Os atletas, de fato, já abandonaram os seus freios inibidores. As lágrimas de Franco Baresi na Copa do Mundo dos EUA de 1994, as de Ronaldo em 2001, quando a Inter de Milão perdeu o escudo para a Lazio, e depois as da sua despedida do futebol.

E ainda: David Beckham, quando rompeu o tendão e não participou da Copa de 2010. O jogador inglês é o ícone do metrossexual que fez do corpo um instrumento de trabalho e um espelho estético. Ele também usa esmalte sobre as unhas e retoca as sobrancelhas, moda cada vez mais difundida entre os seus colegas (de Miccoli a Buffon). Esportistas, atores e príncipes (Harry, ele também com unhas pintadas) não são casos extremos, mas sim símbolos de uma tendência.

É o triunfo daquela bissexualidade psicológica já teorizada por Freud, há mais de um século. Nunca como hoje a virilidade perdeu as sua conotações teorizadas desde a Antiguidade: força física, coragem militar e potência sexual. É verdade que essa construção social foi oscilante, dependendo das épocas e dos países, como explicaram os estudiosos Alain Corbin, Georges Vigarello, Jean-Jacques Courtine no seu História da virilidade, editado recentemente na França. Os robustos cavaleiros da Idade Média se transformaram em certo ponto em cortesãos do rei às lidas com danças, rendas e mesuras.

Hoje, porém, a sociedade está projetada sobre uma nova fronteira. Os lugares onde tradicionalmente se construía a virilidade – quartéis, fábricas, vestiários – desapareceram, estão em declínio ou até já são compartilhados com as mulheres. Nas ruas das cidades, desfilam corpos masculinos atrativos. Jogadores de futebol e de rúgbi se transformaram em brinquedos eróticos nas revistas femininas. As meninas reservam seu lugar nos shows de strip tease Chippendales.

Na moda, há o "Single Man" de Tom Ford e as saias de Marc Jacobs. O ator Johnny Depp usa maquiagem para fazer os Piratas do Caribe, antecipando, involuntariamente, o lançamento de um novo produto, o manscara só para homens. E, antes, o rock já misturava os gêneros, basta pensar em Keith Richards e no ícone bissexual David Bowie.

"Até recentemente, para os homens, a dimensão estética e corporal não devia existir", lembra o sociólogo do consumo Vanni Codeluppi, professor da Universidade de Modena e Reggio Emilia. O papel social era o traje exterior de cada homem, uma divisa simbólica. Na última feira Cosmoprof [feira da indústria cosmética] de Bolonha, muitos visitantes eram do sexo masculino, assim como aumentam os pacientes da cirurgia plástica para esculpir corpos novos, segundo cânones estéticos ainda confusos, híbridos.

"É uma transformação longa, da qual não há volta atrás e que segue de mãos dadas a emancipação feminina", continua Codeluppi. "Existem hoje muitas e diversas características masculinas que arquivaram velhas classificações". A relação com a intimidade mudou com as novas tecnologias. A esfera privada tornou-se pública. A suposta potência sexual, de Berlusconi a Dominique Strauss-Kahn, se transformou em caricatura, desvio patológico. O sexo forte deve se adequar a valores tradicionalmente femininos como a empatia. Descobre o império dos sentidos. E, fazendo isso, não chora a sua morte, mas sim a alegria de uma ressurreição.

- Anais Ginori, para o jornal La Repubblica, 13-02-2012.
Tradução: Moisés Sbardelotto. Reproduzido via IHU.

sexta-feira, 16 de março de 2012

E quem é a mulher?

Foto daqui

Em um dos últimos posts [aqui], explicávamos porque não existe a escolha ou a “opção” sexual. Trata-se de um, entre tantos, mitos sobre a sexualidade dos quais nos ocuparemos de vez em quando neste blog.

Hoje queremos falar de outros que tem a ver com uma mesma confusão: algumas pessoas não entendem que nós, gays, gostamos de homens e que as lésbicas gostam de mulheres.

Parece óbvio. Apesar disso, já escutei muitas vezes esta pergunta, dirigida a um casal gay: “Quem é o homem e quem é a mulher?”. Eu, às vezes, respondo da maneira mais séria que possa: “E com você e a sua namorada, como funciona? Ela se finge de homem ou você de mulher?”.

É que, pensando com a mesma lógica, eu deveria supor – já que eu gosto de homens – que a única explicação para que outro homem forme um casal com uma mulher é que ela se finja de homem.

Se não, como é possível?

Mas não é assim, porque existem homens que gostam de mulheres.

Sim, ainda que você não acredite.

E se fingindo de mulheres, seja lá o que isso signifique para cada um.

Perguntar sobre quem é a mulher em um casal gay é querer interpretá-lo partindo da impossibilidade do desejo homoerótico, como se, parar que um homem goste de outro homem, um dos dois deva ser, de algum modo, feminino. O mesmo vale para quem pensa que, em um casal de lésbicas, uma das duas “seja o homem”.

Tem mais: uma olhada rápida por páginas de paquera gay surpreenderia a mais de um: estão repletas de avisos que põem o destaque, às vezes bastante estereotipado e machista, na masculinidade. “Macho busca Macho”.

Em um casal gay, os dois “são os homens”, seja lá o que isso signifique para cada um. “Masculino” e “feminino” são duas categorias da linguagem, como “hétero”, “homo” e “bi”, com as quais tratamos de aprisionar um universo muito mais complexo, cheio de tons de cinza e, sobretudo, de cores. Mas deixemos essa parte da história para outro dia. O que queremos deixar claro hoje é que, em uma relação entre dois homens, não existe um que “é a mulher”, a não ser que se trate de um jogo ou fantasia sexual, o que também pode ocorrer em uma cama hétero.

É claro.

E já que falamos da cama, esclarecemos que tudo o que foi dito anteriormente não tem nada a ver com ser “ativo” ou “passivo”. Acreditar que o que penetra é mais homem que o que é penetrado é, novamente, querer entender uma relação homossexual como se fosse heterossexual, ou seja, com só um pênis – e sem imaginação. Os papéis na cama no têm nada a ver com a identidade de gênero nem fazem com que ninguém ganhe ou perca masculinidade.

Um amigo meu diz, às vezes, “Eu não sou bicha. Eu como as bichas”. Mas diz isso de brincadeira, claro.

Além do mais, quem disse que os papéis na cama devem ser fixos, estáveis e excludentes? Outra vez, algo básico e simples: quando dois homens vão para a cama, existem dois pênis. E os dois podem ser usados, de diferentes maneiras. Supor que um dos homens deve anular automaticamente o seu pênis para ir para a cama outro é querer, outra vez, heterossexualizar uma relação que não é heterossexual.

E, convenhamos, que entre um homem e uma mulher também podem acontecer muitas outras coisas. Para isso inventaram os brinquedos que se vendem nas sex shops e a natureza, sábia, nos colocou cinco dedos em cada mão. Isso sem levar em conta as travestis, que tem um pênis e identidade de gênero feminina.

O mundo da sexualidade é mais complexo que nossos dicionários.

Por último, a versão mais radical da confusão que queremos tratar com este post é a de quem acredita que os gays, no fundo, querem ser mulheres. Outra vez: não podem deixar de nos ver com lentes heterossexuais. Como se a única explicação para que nós gostemos de homens fosse que, em algum lugar do nosso ser, nos imaginamos no sexo oposto.

Sempre tratando de reconstruir, de uma ou outra forma, o modelo menino + menina.

Lamento decepcioná-los. Eu gosto de homens e gosto de ser homem. Nem sequer posso me imaginar como mulher. E o que me atrai em outros homens é a sua masculinidade, ainda que, claro, isso é uma questão de gosto.

Já foram ao cinema ver A pele que habito, última joia do mestre Pedro Almodóvar?

Os homens que a tenham visto vão me entender. Quando Antonio Banderas disse “vaginoplastia”, tive a mesma impressão que vocês. Quase lhes diria que me doeu.

E entre Vera e Vicente, escolho Vicente, que, por que não dizer, está incrível.

- Bruno Bimbi
Traduzido do blog Tod@s pelo amigo Fernando Palhano, com grifos do autor.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um futuro para Laerte Coutinho

Cartum: Laerte

imagino Laerte
aos 96 anos
se maquiando
para ir ao cinema

diante do espelho
ele lamenta
velhas amigas
travestis
que deixaram de usar
roupas femininas
por se sentirem feias
depois de certa idade

a mão treme um pouco
mas ainda consegue
passar a sombra
sem sujar os óculos
equilibrados
na ponta do nariz

sua casa cheira
a gato doente
mas que casa não cheira
a gato doente?

-

na fila
não sabem quem é
aquela velhota
de saia laranja
curta e old fashioned

Laerte não se importa
a batalha está ganha
e suas pernas doem -

entre garotas de falos enormes
meninos de três mamilos
mastodontes de cílios escarlates
e alguns exóticos heterossexuais

- Fabrício Corsaletti
Publicado originalmente na Revista SP, da Folha de S. Paulo, em 04/03/12
Reproduzido via Conteúdo Livre

Visibilidade pro seu privilégio

Imagem daqui

A Comissão de Direitos Humanos de São Francisco fez uma pesquisa que revelou que quase 50% dos transgêneros já sofreu algum tipo de agressão física ou verbal em banheiros públicos e, consequentemente, grande parte dessas pessoas evita ir ao banheiro fora de casa, o que pode ocasionar problemas de saúde. Foi por isso que o projeto Out for Health desenvolveu um aplicativo para iPhone que mostra os banheiros "seguros" para pessoas trans - de gênero neutro ou que possuem apenas uma cabine - na cidade de Ithaca, em New York.

Eu não sei se vocês conseguem imaginar como é precisar de um aplicativo de celular que te diga onde mijar em paz (tradução literal do nome do programa). Pensando nos comentários que li sobre o que aconteceu com Laerte, tenho certeza que a maioria não consegue. Eu não sei como é a situação no exterior e muito menos especificamente na cidade de Ithaca, mas sei que os únicos banheiros de gênero neutro que já vi (e usei) foram um numa clínica especializada em transexualidade e outro no meu antigo trabalho, que só era neutro por ser adaptado para deficientes físicos, mas ainda assim ajudava.

Uma das coisas que mais me incomodou na repercussão sobre Laerte ter sido impedida de usar o banheiro feminino foi que a maioria das notícias que eu vi sobre tratava o fato como "Laerte vai à justiça para poder entrar em banheiro feminino", algo que eu não vejo ocorrer com crimes de outra natureza (exceto estupro): culpam a vítima por ir à justiça atrás de algo que é seu direito. Não vejo nas manchetes "fulano entra na justiça após ter seu carro roubado", é sempre "fulano teve seu carro roubado e polícia está à procura" ou coisas do tipo. É a clássica diferença de conotação entre "ofendeu" e "se sentiu ofendido": ao usar o primeiro, fala-se do ofensor e sua ação: ofender; ao usar o segundo, fala-se da vítima e sua ação: se sentir ofendido, deixando em dúvida se de fato ocorreu a ação do ofensor. Quando a vítima é alguém que difere do que a sociedade considera padrão, fica óbvio qual a construção frasal utilizada.

Como uma sociedade e uma mídia tão homem-branca-cisgênera-heterossexual-cristã poderia se ver no lugar de uma pessoa transgênera? Então, toma-se que o diferente é culpado até que se prove o contrário, e isso se reflete nas notícias. A opinião coletiva decide que Laerte não deveria estar indo à justiça, e que o fato dela estar fazendo-o é que é digno de nota. Discriminação aos transgêneros, transexuais e travestis, por sua vez, não é.

Eu já vi muitas pessoas repudiarem o termo “cisgênero”, que é, numa interpretação dentro da binária de gênero, como se chama uma pessoa cuja identidade de gênero está em conformidade com o que se espera do sexo biológico que lhe foi atribuído ao nascimento – ou seja, alguém que não é trans. Acredito que o motivo para esse repúdio é a sensação de desnecessidade desse termo. Por ser a regra e não a exceção, não achamos que precisamos especificar quando alguém possui essa característica, tornando a palavra, portanto, dispensável. Quantas vezes lemos, na descrição de um personagem, “era um garoto branco e magro”, por exemplo? A menos que especificados o contrário, logo imaginamos os personagens como brancos e magros. E assim, quando vemos pessoas usando códigos de vestimenta e comportamentos entendidos como de determinado gênero, os pressupomos como possuidores de determinada genitália (e, se for conhecido que assim não são, merecem ser agredidos). Os transgêneros são invisibilizados e, quando aparecem, é para ser vexados. E é por isso que precisamos de um dia de visibilidade trans.

Pois, mesmo dentro da comunidade LGBT+, o T é ignorado e por muitas vezes não compreendido. Já ouvi de lésbicas “eu gosto de mulher, não de homem, pra ficar com butches (lésbicas com características "masculinas")” e de gays “não gosto dessas bichas que viram mulher”, “não gosto de homens efeminados”. Identidade de gênero é confundida com orientação sexual: uma mulher trans não é um homem gay muito efeminado; um homem trans não é uma lésbica muito butch. E assim por diante.

Gênero não é preto e branco. A sociedade espera um tipo de comportamento de quem tem determinada genitália, e é difícil de acreditar que ainda hoje, 2012, compramos por certa essa ideia. Como bem dito nesse post do blog Feminerds: “gênero não é preto no branco, não é certo e errado, não foi enviado por fax de deus pra nós pra gente se virar com os conceitos. A gente cria e constrói, individualmente e em sociedade. E nós só temos direito de expressar nosso gênero se ele condisser com o que os outros esperam”.

E, me arrisco a dizer, essa binária de gênero é ainda mais cruel para quem é trans. Se você, trans, possui comportamentos ou gosta de vestimentas associadas pela sociedade ao gênero oposto, você não tem sua orientação sexual questionada – como acontece com os cisgêneros – : você tem a sua identidade de gênero questionada, ao ouvir comentários como “se gosta disso/faz isso por que mudou de sexo?”. Ainda mais se o tal comportamento associado pela sociedade ao sexo que lhe foi atribuído ao nascer é gostar do sexo oposto – seu mesmo gênero –, quando terá que ouvir que “iria conseguir muito mais mulher se tivesse ficado como homem mesmo”, no caso de uma mulher trans lésbica, como se a transição fosse uma estratégia de conquista (e ignorando totalmente a existência de bissexuais). Se você não nasceu com a identidade de gênero dentro do que é esperado de alguém com sua genitália, além de se preocupar com a disforia, terá que se enfiar numa caixa apertada que é o estereótipo de gênero.

Esses são apenas alguns dos privilégios que a maioria das pessoas cisgêneras possui – excluindo aquelas que se arriscam a assumir ter alguma característica culturalmente atribuída ao sexo oposto –, e a lista continua: se refererirem a você sempre com os pronomes adequados, não ouvir perguntas como “então você tem piroca ou buceta?”, não estar acostumado a confusões envolvendo o gênero que você apresenta e o sexo marcado em seus documentos. Esses são, é claro, alguns dos menores. Sequer falei ainda da grande improbabilidade de que você, cisgênero, seja expulso de casa ou demitido do emprego apenas por mostrar ao mundo seu gênero com os códigos a ele atribuídos por nossa cultura. E é por isso tudo que eu peço que não peguemos o nosso privilégio e enfiemos no rabo. Que não ignoremos a quantidade de direitos que temos e que algumas pessoas não têm, seja judicialmente ou não. Que não digam que Laerte está exagerando ao exigir um direito que todos deveríamos ter assegurado (e temos: “Segundo a Lei 10.948, é considerado ato discriminatório proibir o ingresso ou permanência de homossexuais, bissexuais e transgêneros em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado”).

Nesse dia da visibilidade trans, eu espero que você não só não me ignore, como se lembre dos seus privilégios. Afinal, alguém já te disse que você não pode usar o banheiro que você entende como do seu gênero?

- Jack Dantas
Publicado originalmente no Minoria é a Mãe
Post escrito para a Blogagem Coletiva do Dia da Visibilidade Trans

quinta-feira, 8 de março de 2012

História do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher


Sugestão de Telia Negrão, jornalista e cientista social que integra o Coletivo Feminino Plural, a Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos e a Rede de Saúde das Mulheres Latinoamericanas e do Caribe (RSMLAC), ao Vi o Mundo.

Veja também:
Entrevista especial com Telia Negrão sobre os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, aqui.

E um belo levantamento histórico sobre as origens da data e o movimento feminista, em "8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher", por Miriam Martinho, que começa questionando:
"Testemunha ocular de como movimentos sociais, altamente ideologizados, são capazes de forjar datas de celebração e eventos 'históricos', fiquei obviamente com dois pés atrás no que se refere a todas as datas de comemoração, entre outros, do movimento feminista ou de mulheres. Quem me garante que outras datas não foram também fabricadas como uma que eu vi 'nascer'?"
Continua aqui.

A oração das mulheres

Imagem daqui

A dimensão feminina na oração ecumênica: na última sexta-feira, 2 de março, celebra-se em todo o mundo a jornada de meditação que une cristãos de diversas tradições.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 01-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Em antecipação ao tradicional Dia da Mulher, celebrou-se neste ano, no dia 2 de março, o "Dia Mundial de Oração das Mulheres", uma iniciativa que tem suas origens no século XIX, quando grupos de mulheres de fé protestante dos Estados Unidos e do Canadá haviam iniciado atividades comuns em prol de muitas mulheres em dificuldade, tanto em sua pátria quanto no exterior. Logo, seguiu-se a ideia de um dia unitário dedicado à oração "das" e "pelas" mulheres, depois fixado para a primeira sexta-feira do mês de março.

Embora em diferentes partes do mundo a ideia já havia sido acolhida até por grupos no âmbito católico, foi apenas em 1969, depois da abertura ecumênica do Concílio, que a União Mundial das Organizações Femininas Católicas encorajou abertamente as mulheres católicas de todo o mundo a participar.

No dia 2 de março, pelo menos três milhões de mulheres de todo o mundo tomaram parte de uma oração coral, desta vez inspirada pelos habitantes da Malásia sobre o tema Let justice prevail ("Que a justiça prevaleça"). Quase 180 países contaram com grupos de mulheres pondo-se em ação para uma sensibilização que não conhece barreiras de idade nem de condição social.

É único o objetivo plasticamente representado no logotipo de 2012, idealizado pela malasiana Hanna Cheriyan Varghese, esposa, mãe e avó, além de professora de artes plásticas e artista de grande valor, falecida há três anos: um grupo de mulheres que ajuda uma outra a se levantar e pôr-se de volta em pé.

Porque era exatamente esse o propósito da jornada de oração: contribuir para que as muitas situações – muitas vezes dramáticas e ainda mais escondidas ou esquecidas – de injustiça, marginalização e degradação às quais são forçadas as mulheres de muitos países do mundo possam finalmente ter fim ou pelo menos tomar o caminho de uma resolução.

"É uma liturgia mundial que só pode provocar o desejo de participar", escreve o dominicano Alberto Simoni, no sítio Koinonia, citando amplas passagens da celebração proposta e das motivações.

As mulheres malaias escreveram: "No dia 2 de março, buscaremos trabalhar com Deus e entre nós para criar um mundo em que sejam honrados o sexo, a raça, a cultura, a religião e o Estado".

Se as neurociências nos revelam que o cuidado pelos semelhantes é uma característica da outra metade do céu, as mulheres do movimento nos dão um exemplo de como pode se alargar o coração que bate para ajudar o próximo, quem quer que seja. Não se reza apenas pelas mulheres, mas por todos, pelo mundo inteiro. Surge claramente a mensagem de que é preciso coragem, empatia, compaixão para que a justiça possa despontar no mundo de hoje.

"Senhor, viemos diante de vós para pedir misericórdia e para vos pedir que cuide dos nossos sofrimentos. Ao nosso redor, vemos injustiça e maldade. Vimos surgir a violência para sedar as diferenças, tanto no âmbito político quanto religioso. As vozes em favor da verdade e da justiça foram silenciadas; a corrupção e a ganância ameaçam o caminho da verdade. Confessamos a falta de consciência e de interesse por essas injustiças. Perdoai-nos porque muitas vezes somos relutantes a denunciar situações difíceis da sociedade, sabendo que essa atitude traz indiferença às vítimas de leis injustas, àqueles que estão sujeitos aos opressores, àqueles que são privados de direitos e de dignidade, àqueles que são destruídos no corpo, na mente e no espírito": essa é a confissão das mulheres que se faz oração de invocação a um Deus que é acima de tudo justiça.

Não falta nem uma invocação pelos governantes de todas as nações: "Dai-lhes sabedoria para reconhecer o que é certo. Dai-lhes compaixão e força de vontade para fazer a tua vontade. Dai-lhes amor pela verdade e pela justiça. Dai-lhes o temor de Deus e fazei com que trabalhem pela justiça de todo o povo".

Mas as mulheres – especialmente aquelas que vivem em países em desenvolvimento, muitas vezes carregadas de trabalhos extenuantes a nós desconhecidos – certamente não estão sem fazer nada, e declaram todos o seu compromisso para alcançar o objetivo. Agradecidas ao Senhor que as criou, querem se tornar instrumentos de paz e reafirmar com coragem que irão contribuir, de todos os modos, para melhorar as condições da sociedade em que vivem, começando pelas suas famílias, pelos locais de trabalho e também pelas comunidades cristãs de origem, que deverão vê-las na primeira linha, ativas para denunciar a injustiça e promover a paz, a tolerância e a dignidade. Quase como um círculo destinado a se expandir e do qual é quase impossível ficar de fora, sem excluir ninguém.

Mais subsídios, em inglês, estão disponíveis aqui.
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