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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Jovens brasileiros conciliam bem ciência e religião

Imagem daqui

A maioria dos jovens brasileiros vive em paz com suas crenças religiosas e a ciência da teoria evolutiva. Tem fé em Deus e, ao mesmo tempo, concorda com as premissas estabelecidas por Charles Darwin mais de 150 anos atrás, de que todas as espécies da Terra - incluindo o homem - evoluíram de um ancestral comum por meio da seleção natural. É o que sugere uma pesquisa realizada com mais de 2,3 mil alunos do ensino médio no País, coordenada pelo professor Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

A conclusão flui de um questionário sobre religião e ciência respondido por estudantes de escolas públicas e privadas de todas as regiões do País, com média de 15 anos de idade. A base de dados e a metodologia usadas na pesquisa foram as mesmas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), segundo Bizzo, para garantir que os resultados fossem estatisticamente representativos da população estudantil brasileira. "É o primeiro dado com representatividade nacional sobre esse assunto para esta faixa etária", diz o educador, que apresentou os dados pela primeira vez neste mês, em uma conferência na Itália.

"Ainda vamos fracionar e analisar mais profundamente as estatísticas, mas já dá para perceber que os alunos religiosos brasileiros são bem menos fundamentalistas do que se esperava", avalia Bizzo, que também é formado em Biologia e tem livros e trabalhos publicados sobre a história da teoria evolutiva. "É surpreendente. Algo que sugere que no futuro teremos uma população com uma interpretação mais elástica das doutrinas religiosas e mais sensível à ciência."

Aos 15 anos, diz Bizzo, os jovens estão passando por uma fase de definição moral, em que consolidam suas opiniões sobre temas fundamentais relacionados à ética e à moralidade. "É um período crucial. Dificilmente os conceitos de certo e errado mudam depois disso."

O questionário apresentava aos alunos 23 perguntas ou afirmações com as quais eles podiam concordar ou discordar em diferentes níveis. Mais de 70% disseram que se consideram pessoas religiosas e acreditam nas doutrinas de sua religião (52% católicos e 29% evangélicos, principalmente, além de 7,5% sem religião). Ao mesmo tempo, mais de 70% disseram que a religião não os impede de aceitar a evolução biológica; e 58%, que sua fé não contradiz as teorias científicas atuais. Cerca de 64% concordaram que "as espécies atuais de animais e plantas se originaram de outras espécies do passado".

Só quando a evolução se aplica ao homem e à origem da vida, as respostas ficam divididas. Há um empate técnico, em 43%, entre aqueles que concordam e discordam que a vida surgiu naturalmente na Terra por meio de "reações químicas que transformaram compostos inorgânicos em orgânicos". E também entre os que concordam (44%) e discordam (45%) que "o ser humano se originou da mesma forma como as demais espécies biológicas".

Sensibilidade
Os pesquisadores chamam atenção para o fato de que nenhuma das respostas que seriam consideradas fundamentalistas, do ponto de vista religioso, ultrapassam a casa dos 29%, porcentagem de entrevistados que se declararam evangélicos (denominação em que a rejeição à teoria evolutiva costuma ser mais forte). Apenas em dois casos elas ultrapassam 20%: entre os alunos que "discordam totalmente" que o ser humano se originou da mesma forma que as outras espécies (24%) e que os primeiros seres humanos viveram no ambiente africano (26%).

"A porcentagem dos que rejeitam completamente a origem biológica do homem é menor que a de evangélicos da amostra, o que é uma surpresa, já que os evangélicos no Brasil costumam ser os mais fundamentalistas na interpretação do relato bíblico", avalia Bizzo. "A teoria evolutiva é talvez a coisa mais difícil de ser aceita do ponto de vista moral pelos religiosos. Mesmo assim, os dados mostram que a juventude brasileira é sensível aos produtos da ciência."

Divulgada em 1859, com a publicação de A Origem das Espécies, a teoria evolutiva de Charles Darwin propõe que todos os seres vivos têm uma ancestralidade comum, e que as espécies evoluem e se diversificam por meio de processos de seleção natural puramente biológicos, sem a necessidade de intervenção divina ou de forças sobrenaturais - um conceito amplamente confirmado pela ciência desde então.

Apesar de ser frequentemente (e erroneamente) resumida como "a lei do mais forte", a teoria evolutiva é muito mais complexa que isso. A Origem das Espécies tinha 500 páginas, e Darwin ainda considerava isso muito pouco para explicá-la. Desde então, com o surgimento da genética e o desenvolvimento de várias outras linhas de pesquisa evolutiva, a complexidade da teoria só aumentou, dificultando ainda mais sua compreensão - e, possivelmente, sua aceitação - pelo público leigo.

"O problema é que a maioria dos estudantes - ainda mais com 15 anos - não tem muita clareza sobre o que está envolvido na teoria darwiniana. Com isso há o potencial de surgirem respostas contraditórias", avalia o físico e teólogo Eduardo Cruz, professor do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "Isso não tem a ver com a qualidade da pesquisa, mas com a pouca compreensão de temas tanto científicos quanto teológicos. Além do que, quando se trata de perguntas que envolvem a intimidade das pessoas, as respostas nem sempre são confiáveis. É como perguntar a rapazes de 15 anos se ainda são virgens."

Aceitação
Uma pesquisa nacional realizada pelo Datafolha em 2010, com 4.158 pessoas acima de 16 anos, indicou que 59% dos brasileiros acreditam que o homem é fruto de um processo evolutivo que levou milhões de anos, porém guiado por uma divindade inteligente. Só 8% acreditam que o homem evoluiu sem interferência divina. Os dados também mostram que a aceitação da teoria evolutiva cresce de acordo com a renda e a escolaridade das pessoas - o que pode ou não estar relacionado a uma melhor compreensão da teoria.

"Há uma discussão se a aceitação depende do entendimento, e uma análise mais precisa será realizada, mas uma análise superficial dos dados não encontrou essa correlação", afirma Bizzo sobre sua pesquisa, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Faculdade de Educação da USP. "Há indícios de que a compreensão básica seja acessível a todos e que a decisão de concordar que a espécie humana surgiu como todas as demais não depende de estudos aprofundados na escola."

Para a filósofa e educadora Roseli Fischmann, os resultados da pesquisa são "compatíveis com a capacidade dos jovens de viver o mundo de descoberta da ciência sem abalar sua fé".

"A fé, se bem sustentada, não é ameaçada pelo conhecimento científico", diz Roseli, coordenadora da Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista e professora da USP. "Sozinhas, nem a ciência nem a religião garantem que o ser humano seja bom e que o bem comum seja alcançado. É preciso a presença da ética, do respeito a todo ser humano, da consciência da responsabilidade individual na construção do bem comum."

(Reportagem: Herton Escobar. Publicado n'O Estado de S. Paulo, 29-04-2012. Reproduzido aqui via IHU.)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A igualdade de direitos civis fortalece o Estado de direito e faz bem a todos

Foto: I Parada do Orgulho Gay do Reino Unido | Hall-Carpenter Archives

Reproduzimos o manifesto divulgado esta semana por Sergio Viula em seu blog.

Felizmente, um número cada vez maior de líderes religiosos desperta para o fato de que o avanço dos direitos da população LGBTI [1] é uma questão de direitos humanos e de preservação e amadurecimento da democracia. Isso é alentador, especialmente quando se leva em consideração o arrefecimento da homofobia [2] em alguns círculos dominados por fundamentalismos reacionários, baseados em projetos mesquinhos de segregação e dominação.

O uso dos meios de comunicação para reforçar o preconceito e promover a discriminação, seja ela qual for, especialmente contra uma minoria que se encontra socialmente vulnerável em muitos ambientes do território nacional, contraria os preceitos constitucionais expressos nos artigos 3º e 19 da Carta Magna:
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (...):IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. 
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.
Com isso em mente, e levando em consideração o uso difamatório das concessões públicas de mídia por parte de religiosos fundamentalistas, consideramos absolutamente apropriado que a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais – no uso de suas prerrogativas estatutárias – solicite às autoridades competentes a tomada de medidas juridicamente cabíveis quando a organizações midiáticas que veiculem conteúdo de ódio, seja por meio de produção própria ou de horário/espaço vendido a terceiros, desde que frustradas quaisquer tentativas de diálogo com os responsáveis.

Ateus e agnósticos, bem como religiosos de todas as possíveis denominações, devem primar pela manutenção da liberdade de expressão e da liberdade de crer ou não crer. Estes são princípios essenciais à manutenção da democracia porque constituem direitos fundamentais. Todavia, tais princípios estão subordinados a outro: o da dignidade humana. Por isso, não podemos aceitar manifestações notadamente discriminatórias contra indivíduos ou grupos auto-determinados, sejam eles sexuais, identitários, culturais, étnicos, ou outros quaisquer. Pronunciamentos que induzem ou legitimam o ódio, ou que igualam a homossexualidade à doença não estão sintonizados com os pensamentos ou sentimentos mais nobres de líderes civis ou religiosos que se prezem. Uma frase atribuída a Jesus Cristo – modelo máximo de virtude para os cristãos – diz: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.” (Mateus 7:12). Portanto, se os cristãos querem ter liberdade e respeito, precisam fazer o mesmo, para início de conversa.

Ademais, levando em consideração que o Brasil é signatário da Declaração Universal de Direitos Humanos (DDH), promulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU), após a 2ª Guerra Mundial, e que nossa Constituição está em consonância com a mesma em seus princípios, vale relembrar que DDH claramente estabelece que:
Artigo I Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
Este artigo, por si só, já ordena o fim de qualquer tipo de discriminação. Ele também apresenta um dever do qual ninguém está isento: agir com espírito de fraternidade para com todos. Isso vale para todo e qualquer grupo ou indivíduo e, obviamente, inclui tanto as igrejas como os homossexuais, seja no direito de serem respeitados como no dever de respeitarem. Os homossexuais, de per si, geralmente respeitam os heterossexuais como tais. Nenhum heterossexual jamais foi morto por discriminação sexual. Enquanto isso, 250 pessoas das minorias homoafetivas foram assassinadas em 2010, segundo informou o Grupo Gay da Bahia (GGB) em seu relatório anual. Portanto, uma lei que tipifique o crime de homofobia faz-se absolutamente necessária no Brasil, assim como já foi promulgada em vários outros países, inclusive no Chile recentemente (abril/2012), depois que um jovem gay foi assassinado por neonazistas. Enquanto isso, no Brasil, uma bancada evangélica viciada em preconceito por orientação sexual e identidade de gênero continua tentando impedir o avanço de legislação que demonstre, na prática, que o Brasil é um Estado de direito realmente e que, por isso mesmo, não compactua com essa crueldade.
Artigo II Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Este artigo deixa muito claro que os direitos humanos são aplicáveis a todos os seres humanos, independe de qualquer condição. Uma pessoa não pode ser privada de nenhum direito por qualquer característica aparentemente distintiva – o que inclui a sua orientação sexual e identidade de gênero. Todavia, para que isso se efetive na prática, é necessário que haja legislação específica que efetive juridicamente os direitos desses seres humanos, indesculpavelmente ignorados pelo Estado. Isso não é privilégio; é justiça.
Artigo III Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
De acordo com as mais recentes estatísticas, os casos de homossexuais assassinados no Brasil são quase seis vezes mais numerosos que no México e quase oito vezes mais que nos EUA. No mês de outubro de 2011, um cidadão homoafetivo foi morto a cada dia no Brasil, pura e simplesmente por homofobia. Logicamente, não estão computados aqui crimes com outras motivações.

Não há dúvida de que as pessoas LGBTI – como quaisquer outras – têm direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Portanto, não há razão justificável para se tolerar a promoção de ódio, uma vez que este gera a violência que vemos computada em estatísticas. É necessário lembrar que a biografia de cada LGBTI que é vítima de violência é afetada permanentemente, mesmo quando não resulta em morte. Violência verbal fere profundamente o indivíduo LGBTI, especialmente quando é muito jovem ou muito idoso, e estimula outros tipos de agressão por parte de pessoas que já carregam algum preconceito e pouca racionalidade. O Estado precisa proteger o cidadão quando este se encontra em situação de vulnerabilidade. É isso o que diz o Artigo VII:
"Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, à igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação."
Ou seja, o governo e a sociedade precisam coibir qualquer cidadão ou instituição de incitar outras pessoas a discriminar ou agredir, física ou verbalmente, quem quer que seja, inclusive os cidadãos homoafetivos.
Artigo XII Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Desnecessário dizer que quando alguém calunia o amor entre pessoas iguais, está interferindo na vida privada de milhões de brasileiros. A difamação da homoafetividade, especialmente por motivação religiosa fundamentalista, afeta casais homossexuais, famílias homoparentais, e constitui uma violação clara e gratuita contra o artigo XII, citado acima. Ninguém – mesmo que sob o pretexto da liberdade religiosa – tem o direito de interferir na vida privada das pessoas e de suas famílias e nem de transtornar suas interações públicas.

Vale relembrar que a Constituição Brasileira em seu artigo 3º diz o seguinte:
Art. 3º: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (...):IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Infelizmente, depois de centenas de anos de propaganda anti-gay promovida por igrejas preconceituosas, por políticos apenas interessados em manter o status quo, e por famílias viciadas em preconceitos perpetuados por tradições mantidas sem o menor questionamento, os cidadãos LGBTI têm despertado para a luta democrática pela garantia de seus direitos civis.

Esforços corajosos de pessoas que não suportam mais a privação de seus direitos e liberdades, porque simplesmente amam alguém do mesmo sexo, têm conquistado avanços nos campos político e jurídico, desenvolvendo políticas de inclusão e de reparação de injustiças.

Além disso, uma parcela cada vez maior da sociedade tem visto que não existem “fantasmas atrás do armário” e tem apoiado os homossexuais em sua luta pelo reconhecimento de seus direitos civis, a despeito das estratégias de manipulação de alguns reacionários políticos e religiosos.

Uma sociedade justa é uma sociedade comprometida com a garantia de direitos básicos iguais para todos. Por isso, entendemos que o Estado democrático de direito nunca poderá ser considerado como uma coisa acabada, pronta, finalizada. Ele estará sempre em processo.

É inaceitável que se admita qualquer tipo de ação ou pregação que ameace os cidadãos ou o próprio Estado de Direito – o que não impede de modo algum o funcionamento de qualquer agremiação religiosa. Pelo contrário, inúmeras igrejas e associações religiosas já se abriram para a isonomia dos cidadãos LGBTI, sem qualquer prejuízo para seu bom funcionamento e para o bem-estar de suas comunidades. Seria estranho se ocorresse o contrário, uma vez que isso só deporia contra o próprio cristianismo, ficando estabelecida uma relação entre preconceito e subsistência. Entretanto, se o cristianismo realmente tem no amor sua essência, ele naturalmente se alinhará a todas as formas de combate à injustiça, inclusive aquelas praticadas contra os cidadãos homoafetivos.

Por isso, outras formas de injustiça supostamente baseadas na fé foram abolidas (ou tem sido) na sociedade, apesar de não se ter mudado um til das escrituras cristãs, e sem que isso impedisse o funcionamento das igrejas. Vale lembrar que práticas como a escravidão, a xenofobia, e a dominação da mulher foram abolidas, graças a ideais humanistas, mesmo sob protestos por parte de alguns setores do cristianismo. O mesmo ocorre atualmente com relação aos direitos civis dos indivíduos LGBTI.

Felizmente, muitas denominações e outras organizações cristãs têm revisto os conteúdos homofóbicos de suas prédicas e práticas. Entre elas, citamos os seguites:

Episcopais Americanos
Em março de 2010, a igreja Episcopal aprovou a eleição de uma bispa-assistente lésbica na Diocese de Los Angeles. Ela é, portanto, o segundo bispo homossexual assumido na comunhão anglicana global. O primeiro foi o bispo Gene Robinson, episcopal americano.

Anglicanos Ingleses
Em fevereiro de 2010, a Igreja da Inglaterra tomou uma atitude progressista: votou por estender os mesmos direitos previdenciários aos parceiros gays do clero assim como são garantidos a esposas e maridos heterossexuais.

Essa atitude da Igreja da Inglaterra deve inspirar outras da mesma comunhão em diversos países do mundo.

Presbiterianos Americanos
Em outubro de 2010, a Igreja Presbiteriana dos EUA ordenou ao pastorado Scott Anderson, primeiro ministro abertamente gay daquela denominação. Ele havia servido como ministro em Sacramento, na Califórnia, de 1983 a 1990, quando teve de se afastar da igreja por causa de chantagem de um casal da congregação que ameaçou revelar sua orientação sexual. Ele, porém, reuniu a igreja e falou abertamente sobre sua orientação sexual, renunciando o ministério, porque a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos não permitia que homossexuais servissem como pastores. Isso mudou em outubro desse ano, e o pastor que pregou na cerimônia de ordenação dele foi, em outros tempos, um dos mais ferrenhos perseguidores dos homossexuais. Tudo isso só foi possível, porque em 2009, uma assembleia nacional da igreja votou pela revogação da regra, permitindo da ordenação de Anderson.

Santos dos Últimos Dias
A Igreja dos Santos dos Últimos Dias (ISUD) ou igreja dos mórmons, como alguns a conhecem, é considerada ultraconservadora, no que diz respeito às suas doutrinas e práticas, mas em 2010, pela primeira vez em sua história, mostrou apoio à causa gay ao defender uma série de textos contra a discriminação aos homossexuais que tramitaram no conselho municipal de Salt Lake City, no estado de Utah, nos Estados Unidos.

A ISUD considerou a lei "justa, razoável e não violenta a instituição do matrimônio", conforme disse seu porta-voz. Utah é onde fica a sede da Igreja Mórmon, que possui cerca de 14 milhões de fiéis em todo o mundo.

Igrejas no Brasil
Além das diversas igrejas chamadas inclusivas (um movimento recente no país que abraça e celebra a diversidade sexual), um fato chamou a atenção. A Aliança de Batistas do Brasil aplaudiu a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que concede direitos civis a pessoas do mesmo sexo vivendo em união estável.

No entanto, o casamento gay não é uma questão religiosa, diga-se de passagem. É um direito civil, efetivado em cartório, envolvendo o sistema jurídico do país. As cerimônias nesta ou naquela comunidade de fé dependem da crença dos nubentes e da abertura de seus sacerdotes e/ou associações religiosas. O propósito da citação das igrejas acima é apenas o de demonstrar que celebrar a diversidade sexual não depõe em nada contra a espiritualidade dessas comunidades religiosas.

É necessário que os reacionários a esses avanços no campo do direito e contra seus desdobramentos políticos, sociais e econômicos abandonem palavras e expressões que incitem o ódio e o medo. Basta de violência física e verbal.

Neste mês (abril/04), a Igreja Anglicana do Brasil, na pessoa de seu Arcebispo Primaz Dom Ricardo Loritte de Lima, manifestou seu apoio à ABGLT quanto ao processo em andamento no judiciário, por causa da insistente difamação contra as pessoas homoafetivas em programa de TV mantido por um pastor evangélico do Rio de Janeiro. Ele diz literalmente o seguinte: “Querido Toni, receba o apoio integral da Igreja Anglicana do Brasil, que fiel ao ensinamento do Mestre Jesus, ama e acolhe a todos, sem distinção nenhuma! (...) Os líderes religiosos devem estar a serviço dos direitos humanos e não da discriminação e ódio.” O pensamento e o sentimento de Dom Loritte estão em perfeita consonância com qualquer humanismo mínimo.

Desejamos ver outros líderes e comunidades fazendo o mesmo, pois já existe muita violência em andamento. Tudo o que mais precisamos no momento é de paz e esta não pode ser promovida por meio de pregações acachapantes contra os homossexuais. Não temos dúvida de que o ofício pastoral ou sacerdotal pode ter sua utilidade quando seus representantes usam seu poder de comunicação e mobilização para combater o que mina o progresso do nosso país: questões como as drogas, a violência urbana e doméstica, a corrupção, a desigualdade social, o tráfico de mulheres e crianças, enfim, temas que prejudicam a população brasileira como um todo, porque também violam os direitos individuais e colocam em risco o bem-estar social. Por outro lado, prestam um desserviço quando promovem injustiças e acentuam discriminações. Para realizar seu trabalho, nenhuma igreja ou sacerdote/pastor precisa falar dos homossexuais, nem para bem nem para mal. Basta deixar essas pessoas em paz. Certamente, o ofício pastoral vai muito além dessa estranha e obstinada preocupação com “quem ama quem”.

Sergio Viula
Presidente do Conselho LGBT da LiHS
Publicado originalmente no site da Liga Humanista Secular do Brasil

Notas:
1 - A sigla LGBTI designa lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e intersexuais.


2 - Homofobia:
“Um conjunto de emoções negativas (tais como aversão, desprezo, ódio, desconfiança, desconforto ou medo), que costumam produzir ou vincular-se a preconceitos e mecanismos de discriminação e violência contra pessoas homossexuais, bissexuais e transgêneros (em especial, travestis e transexuais) e, mais genericamente, contra pessoas cuja expressão de gênero não se enquadra nos modelos hegemônicos de masculinidade e feminilidade. A homofobia, portanto, transcende a hostilidade e a violência contra LGBT e associa-se a pensamentos e estruturas hierarquizantes relativas a padrões relacionais e identitários de gênero, a um só tempo sexistas e heteronormativos” (JUNQUEIRA, Roberto Diniz. O Reconhecimento da Diversidade Sexual e a Problematização da Homofobia no Contexto Escolar. Rio Grande do Sul. Editora da FURG, 2007, p. 60-61.)

Dom Geoffrey Robinson e a redenção de Eros

Foto: Herb Ritts

Dom Geoffrey Robinson quer que a Igreja, segundo a frase da época de Pentecostes, "fale uma linguagem inteiramente nova" sobre os atos sexuais, mas entende que deve pronunciar o seu convite em um vocabulário de distinções e regulações legais à moda antiga, que se tornou a língua nativa e às vezes bifurcada da instituição.

A opinião é de Eugene Cullen Kennedy, professor emérito de psicologia da Loyola University, Chicago, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 20-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


O abençoado bispo da Austrália que fala com tão bom senso sobre a sexualidade humana é um Robinson por nome e por mito. Porque ele é um Robinson Crusoé, construindo um barco com a ajuda de Sexta-Feira, avatar de todos nós, que permitirá que a Igreja zarpe até as profundezas da experiência sexual humana.

O bispo quer que a Igreja, segundo a frase da época de Pentecostes, "fale uma linguagem inteiramente nova" sobre os atos sexuais, mas entende que deve pronunciar o seu convite em um vocabulário de distinções e regulações legais à moda antiga, que se tornou a língua nativa e às vezes bifurcada da instituição.

Ele faz isso graciosamente, fazendo uma proposta radical para se reexaminar e renovar os ensinamentos da Igreja sobre os atos heterossexuais, condição necessária para que ela possa olhar de novo para os atos homossexuais. Ele compreende que os saudáveis Sextas-Feiras, os homens e mulheres comuns do catolicismo, ultrapassaram há muito tempo a Igreja institucional em seus esforços para compreender e integrar a sua sexualidade em suas vidas.

O propósito de Dom [Geoffrey] Robinson é, de fato, aquele definido pelo Papa João XXIII como a sua razão para a convocação do Vaticano II: "Tornar a caminhada humana sobre a Terra menos triste".

De fato, ao urgir uma revisão muito necessária do que e de como a Igreja ensina sobre sexualidade humana, Dom Robinson se baseia sobre temas centrais do Vaticano II. O primeiro deles se encontra no fato de colocar a realidade da pessoa humana, em vez da abstração da lei natural, como o ponto de referência central nos ensinamentos da Igreja e nos pronunciamentos papais sobre matrimônio e atividade sexual.

O segundo se encontra na mudança de uma ênfase em atos objetivos para intenções e disposições subjetivas ao fazer julgamentos sobre a maldade ou a bondade de como as pessoas se comportam. Isso enfatiza justamente o impacto que nossas ações ou omissões têm sobre outras pessoas, em vez da ira que se estagnou dentro de tantos líderes da Igreja que têm se preocupado tanto com o pecado.

O bravo bispo também aponta para o trabalho acadêmico, em grande parte com o pioneirismo, nos EUA, do corajoso padre Charles Curran, para modificar o antigo ensino de que, devido à sua natureza especial, todo ato, pensamento, desejo ou mesmo distração sexual permitidos a iluminar por muito tempo na alma sempre foram um pecado grave e mortal.

As convicções de Robinson sobre a necessidade de uma análise aprofundada do ensino da Igreja sobre a sexualidade são importantes em si mesmas, mas também porque ele encontrou uma forma de falar sobre essa questão essencial a partir de dentro da Igreja, mesmo que de uma forma tradicional e afetada, em que o diálogo se move, embora lentamente, em direção a um círculo mais amplo de prelados.

Ele está buscando, por assim dizer, redimir Eros, isto é, reconhecer a natureza fundamentalmente saudável e criativa de Eros, em vez de rotulá-la, como os Padres da Igreja primitiva fizeram em sua incompreensão do mito do Jardim do Éden, como a consequência carregada de concupiscência do Pecado Original.

As apostas são altas nesse esforço de entender Eros como um impulso humano basicamente saudável que assume seu caráter moral de energia positiva em todas as atividades que dão vida e melhoram a vida, da arte verdadeira ao amor verdadeiro. O Papa Bento XVI falou sobre Eros de uma forma positiva em sua primeira encíclica sobre o amor.

Os Padres do Vaticano II, convidados a votar sobre uma proposta para condenar uma ampla variedade de "ismos", do comunismo ao erotismo, se recusaram a incluir este último depois que um bispo se levantou para objetar a esse mal-entendido do Eros que, como ele disse, tem "algo de bom".

Geoffrey Robinson é um bispo apenas também, levantando-se sozinho como seus antecessores do Vaticano II fizeram, para se dirigir aos outros bispos amontoados sobre ele ao falar da sua necessidade de compreender e afirmar novamente o que é bom e criativo, ao invés do que é mau e destrutivo, em toda expressão de amor sexual verdadeiramente humana.

Eu aposto que, contra todas as possibilidades, Dom Robinson irá falar e, finalmente, será ouvido pelo que há de saudável em seus irmãos bispos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Fundamentalismo: que a lei de meu Deus valha para todos


Da coluna de Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo em 05/04/12, comentando a escolha do candidato republicano à presidência dos EUA nas próximas eleições:

"(...) Mas o sucesso da campanha do maior concorrente de Romney, o senador Rick Santorum, mostra que a tentação extremista republicana é forte. De que se trata?

Santorum, por exemplo, declarou que ele teve vontade de vomitar quando ouviu o presidente Kennedy defender a separação da igreja e do Estado. É óbvio que a união de Estado e igreja leva qualquer governo a atropelar a liberdade privada de seus cidadãos, ou seja, é óbvio que a frase de Santorum é oposta aos ideais libertários do centro americano.

Por que ele se engajou neste caminho? De onde lhe veio essa ideia? Costuma-se pensar (e dizer) que o sonho americano começa com os puritanos, que saíram da Inglaterra a procura de liberdade religiosa. Mas os puritanos estavam interessados só na sua própria liberdade religiosa, não na dos outros.
 
Como projetava John Winthrop em 1630, ainda no barco que o levava para a nova terra, eles construiriam "uma cidade que brilharia nas alturas", exemplo para mundo, mas uma cidade fechada (na qual quem não concordasse seria enforcado como as bruxas de Salem e a mulher que pecasse por adultério seria marcada com uma letra escarlate).

Por sorte, em 1631, Roger Williams começou a pregar a separação de Estado e igreja e o direito de qualquer um de venerar o deus que bem entendesse.

Williams foi expulso e fundou Providence, outra cidade "nas alturas", mas aberta, onde ele inventou a liberdade de professar sua fé sem impô-la aos outros -ao contrário, com a ideia de que defender a liberdade dos outros é a melhor maneira de proteger a nossa própria liberdade.

Pois bem, o centro moderado norte-americano acredita em Roger Williams. Mas é preciso constatar que Rick Santorum e os republicanos extremistas não são uma invenção recente: como John Winthrop, eles sonham com a paz simplória de um vilarejo onde não se leia nada além da Bíblia e onde sempre seja possível dizer o que é certo e errado - e, claro, proibir o que seria 'errado'.

É curioso que ninguém repare no óbvio: os sonhos deles não são diferentes dos sonhos do Talibã de qualquer vilarejo do Afeganistão.

Os fundamentalistas são todos iguais: 'apenas' querem que a lei de seu deus seja mandatória para todos os demais.

Por sorte nossa, não é esse o sonho daquele centro moderado norte-americano que, em geral, escolhe os presidentes."

(Reproduzido via Conteúdo Livre)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Liberdade de culto e secularismo exigem reciprocidade

Lego room: Valentino Fiadini

Toda vez que se busca a supressão de privilégios, a correção de rotas desviadas, há sempre muita grita. Foi assim em relação ao nepotismo; está sendo assim em relação aos privilégios que religiões vem gozando em relação ao estado republicano.

Raros são os que aceitam abrir mão com serenidade de seus privilégios, ilegalidades, reconhecendo sua ilegalidade e ilegitimidade. Nem mesmo padres, pastores, bispos. Eles são simplesmente humanos. Se esquecem, nessas horas, as palavras daquele que pregam, - os princípios do "cada um com o seu cada um", ou o do "a César o que é de César, a Deus o que é de Deus".

O princípio da laicidade (ou secularismo) significa que existe liberdade de culto; que todas as religiões são igualmente válidas e merecem ser respeitadas. TODAS, sem exceção. Nenhuma é melhor ou “mais verdadeira” que a outra. Nenhum deus é o único: todas as concepções de divindades são legítimas e todas DEVEM ser respeitadas igualmente. Até a religião de não ter religião! Também chamada ateísmo. Sim, porque crer que não existem deuses não deixa de ser uma... Crença! Ainda que pautada pela ciência, é uma forma de conceber o mundo e suas manifestações.

Outro aspecto da laicidade é a garantia de que o Estado não se intrometerá nos assuntos religiosos; cada credo sendo livre para estabelecer os seus valores e postulados.

Ocorre, porém, que, como explicado pelo constitucionalista Daniel Sarmento, a laicidade (ou respeito à diversidade de credos) é uma via de mão dupla (SARMENTO, 2007): - O Estado não faz ingerências nas doutrinas religiosas, nas formas de realização do seu culto, nos intrumentos ritualísticos e as religiões não se introduz nos assuntos da República.

Esse porém é o aspecto mais esquecido do secularismo! As igrejas estão muito de acordo que o Estado não exerça qualquer influência sobre, por exemplo, a organização interna de sua religião, os modos de suas liturgias...

Também está muito de acordo que o Estado que não cobre tributos sobre a propriedade dos imóveis que são seu; que cobre impostos, taxas e emolumentos (IPTU, Imposto sobre a Transmissão de Bens, Imposto de Renda, Imposto sobre Operações Financeiras, taxas para concessão de Alvarás etc.).

No entanto, não admitem a mão dupla para essa via. E, assim, vivem a querer se arrogar no direito de se imiscuir nos assuntos civis; nas legislações civis!

Vivem a querer impor por todos os meios - possíveis e impossíveis - os seus valores peculiares a toda a sociedade CIVIL.

Querem Bíblias em todas as bibliotecas de escolas públicas; querem o ensino religioso nas escolas públicas; querem Bíblia na mesa diretora da Câmara e do Senado; querem poder usar o dinheiro do trabalhador, o seu Fundo de Garantia, para a construção de templos; querem que os tribunais do trabalho não reconheçam o vínculo empregatício entre padres e igrejas; querem poder realizar cultos e missas nos espaços públicos, inclusive no Palácio do Planalto, na Câmara dos Deputados, nas Assembléias Legislativas; querem exibir crucifixos em todas as repartições públicas; querem escrever trechos bíblicos em paredes de presídios; transformar espaços que deferiam ser ecumênicos no interior de presídios em igrejas devocionais; querem, ademais de terem suas próprias concessões de canais de televisão, poder transmitir seus cultos nas emissoras públicas; que o dinheiro traga o nome de uma divindade; que a lei maior do país traga o nome de uma divindade, que os juramentos civis realizados durante a posse de servidores públicos sejam realizados em nome de uma divindade...

Mais do que isso, querem ainda, ter o poder de decidir sobre qual deve ser o conteúdo da lei vigente e obrigatória a todos, mesmo àqueles que não professam o seu credo.

E nossos parlamentos, em total violação da Constituição Republicana, acatam esses interesses, em detrimento dos valores republicanos e submete o exame do conteúdo de projetos de lei às opiniões de representantes religiosos. Mas, curioso, de apenas determinados credos religiosos.

Ora, o Estado não tem (nem deve ter) assento nas instâncias hierárquicas de qualquer religião; não interfere sobre os mitos da criação de nenhum credo; não combate nem discute sobre o conteúdo dos seus dogmas.

Então, por que insistem em manter o estado republicano sob o seu controle? Leis que autorizem a interrupção de gravidez não obriga a que todas as mulheres o façam! - Fará quem tiver necessidade e quiser. É uma faculdade. Não uma obrigação. Ninguém propõe uma lei que OBRIGUE a realização do aborto! Mas, sim, se luta para que a mulheres tenham o direito de DECIDIR elas mesmas, por si, e não por imposição de religião alguma.

Os homossexuais e travestis que buscam o reconhecimento de sua cidadania em igualdade de condições com a população heterossexual não estão a obrigar ninguém que gostem de duas práticas e forma de amar. Exigem porém respeito, isso sim. Da mesma forma que evangélicos, católicos e candomblecistas, budistas, muçulmanos.

Querer impedir que a sociedade civil possa decidir livremente sobre as suas questões por conta de crenças religiosas - seja de qual religião seja - é pretender a instauração de um regime totalitário. É pretender manter toda a sociedade civil subordinada às crenças pessoais e íntimas de parte da sociedade, ainda que essa parcela seja majoritária. Nenhuma dessas denominações aceitaria que o Estado tomasse parte em suas discussões internas!

Não é absolutamente direito de nenhuma religião o exercício do poder temporal. E, lamentavelmente, é isso que estamos a assistir, dia após dia em nosso país.

- Rita Colaço
Publicado originalmente no Boteco Comer de Matula

Referências:
SARMENTO, Daniel. O crucifixo nos tribunais e a laicidade do estado. Revista eletrônica PRPE, maio de 2007. Disponível aqui.

domingo, 22 de abril de 2012

"Somos todos feitos à imagem de Deus e, portanto, somos todos iguais"

Foto daqui

As discussões acaloradas sobre as três principais correntes do judaísmo — reformista, conservadora e ortodoxa — ganharam novas faíscas nesta sexta-feira quando o chamado Movimento Conservador de Israel decidiu aprovar a ordenação de rabinos homossexuais, endossando a posição desse movimento nos Estados Unidos, onde gays e lésbicas já podem participar de estudos visando ao rabinato há alguns anos.

— Vejo isso como um avanço muito importante da lei judaica. Foi a coisa certa a fazer. Somos todos feitos à imagem de Deus e, portanto, somos todos iguais. Para mim, trata-se de valores de muita importância — comemorou o rabino Mauricio Balter, presidente da Assembleia Rabínica do Movimento Conservador.

Ao contrário dos setores reformistas e liberais, nos quais homossexuais já podem ser ordenados rabinos, a decisão foi mais polêmica entre os conservadores — cumpridores da lei judaica, adotando costumes e práticas comuns à ortodoxia.

Na própria sexta-feira, o conceituado seminário rabínico Schechter, em Jerusalém, informou que vai admitir estudantes gays e lésbicas já no próximo ano letivo. Foi lá que ocorreu a votação sobre a ação de rabinos homossexuais, autorizados com uma quase unanimidade: 17 autoridades religiosas votaram a favor, e apenas um rabino se absteve.

A instituição — que tem filiais no exterior — acabou protagonizando nos últimos anos debates e embates sobre o tema. Em 2006, a entidade rachou. Duas escolas rabínicas afiliadas nos EUA aprovaram a ordenação homossexual, na contramão da postura adotada em Jerusalém e Buenos Aires. O debate ganhou contornos tão radicais que duas estudantes, rabinas, decidiram abandonar os estudos de dois anos no Instituto Shechter: uma a favor e outra contra a medida.

— Estou contente que tenha havido uma votação e que tenha terminado assim. Foi uma decisão democrática e correta, como mostra o resultado, ninguém foi contra — resumiu o rabino Balter.

O programa rabínico do Instituto Shechter é composto por dois anos equivalentes a um mestrado em estudos judaicos. Ao término do curso, os estudantes são testados por um conselho de rabinos que autoriza a ordenação.

A medida, porém, promete provocar a ira da ortodoxia, que, em Israel, monopoliza os serviços públicos ligados à religião, como casamentos (não existe união civil no país) e funerais. Para esse grupo, aliás, além da rejeição ao homossexualismo, existe ainda a total rejeição de mulheres no papel de líderes religiosas.

(Reproduzido do site do jornal O Globo. Dica do querido @wrighini)

O que nos lembrou os depoimentos pungentes deste vídeo, gravado para o It Gets Better Project (infelizmente, não encontramos com legenda em português):

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Evolução e pecado original: releituras do Gênesis

Ilustração: Ashley Percival

Como nos sentimos quando ouvimos a história do Gênesis? Por um lado, ela é tão familiar que se tornou caseira, e não conseguimos perceber a sua recorrente alteridade. Por outro lado, ela passou a exemplificar a batalha entre ciência e religião. Para os fundamentalistas cristãos, ela constitui a Palavra de Deus absoluta que refuta a teoria da evolução pela seleção natural. Para os ateus evolucionistas, a ciência oferece provas quase irrefutáveis de que Deus não existe, tornando obsoletos nossos antigos mitos de origem.

Isso se torna ainda mais problemático se levarmos em consideração o que Paulo diz em Romanos 5, 12-19, repassando a história da salvação até o pecado de Adão. Em um mundo em que nos conhecemos como macacos altamente evoluídos – embora sendo macacos cujos cérebros pularam as faixas da evolução até adquirir consciência –, como devemos interpretar essas histórias de pecado, de morte e de salvação de uma forma que não nos torne ridículos ou infantis?

O teólogo jesuíta Jack Mahoney recentemente tentou dar uma resposta por meio do que ele chama de "uma teologia cristã do altruísmo". Em seu livro Christianity in Evolution: an Exploration [Cristianismo em evolução: Uma exploração] ele argumenta que a teoria da evolução tornou a doutrina do pecado original redundante. Cristo não morreu por nossos pecados para satisfazer a Deus. Ao contrário, ele é a entrada de Deus na espécie humana em evolução, a fim de nos ensinar a imitar o altruísmo trinitário. Nós somos "propensos ao interesse próprio e até mesmo à obsessão própria", mas isso não é atribuível a "algum desastre moral primordial".

Cristo, por exemplo nos mostra como superar essas características evolutivas naturais, para que o seu testemunho "possa ser visto como um passo evolutivo maior no avanço moral da humanidade e como uma indicação de que o altruísmo universal é o convite moral e o destino evolutivo das espécies humanas". Mais importante ainda é que, morrendo, Cristo enfrentou a universalidade da morte e, ressuscitando, ele "salvou seus companheiros seres humanos da extinção, seu destino evolutivo, para compartilhar com eles a vida divina da Trindade".

No entanto, tenho dúvidas sobre a a viabilidade ou conveniência do ponto de vista de Mahoney, e gostaria de dizer por quê.

O mito do Gênesis não é factual, mas é veraz. Os mitos são portadores de sentido para além do que as nossas mentes racionais podem suportar. Eles não explicam nem discutem. Por um processo paradoxal de ocultação e revelação simultâneos, eles evocam ressonâncias sutis e evasivas.

A história do Gênesis toca em muitos enigmas sobre o que significa ser humano. Há, por exemplo, a intuição de que desejo e proibição parecem presos em uma relação parasitária mútua. Há também o enigma da sexualidade humana – a dolorosa história de amor e violência, liberdade e dominação, deleite e desastre, que constitui o romance e a tragédia em curso das nossas uniões sexuais. E depois há a relação entre nós e o restante da criação como um paraíso que se torna um deserto de conflito e discórdia, e a harmonia original entre Deus, a humanidade e a natureza que se rompe ao longo de linhas de culpa e alienação, vergonha e expulsão.

Nascemos em um mundo que nunca foi diferente do que é, e demitologizar é em si apenas mais um mito – o mito do progresso impulsionado pela razão e pela ciência. Esse mito moderno está rapidamente se tornando um pesadelo acordado, enquanto vemos o colapso das nossas instituições econômicas e democráticas, e a devastação do ambiente natural.

Como o filósofo Paul Ricoeur sugere, assim como Adão e Eva, nós descobrimos que a serpente sempre esteve no paraíso, que as suas origens são inexplicáveis, que a sua presença é um obscuro mistério dentro da história humana. Não importa como a chamemos – pecado original, alienação, angústia existencial, uma predisposição genética –, não estamos em paz com nós mesmos e com o nosso mundo, e mesmo que, com grande sabedoria e paciência, adquiramos algum nível de paz, é um dom frágil e efêmero.

Entre o início e o fim das Escrituras, descobrimos a história redentora do nosso próprio vir a ser – macacos vindo a ser humanos vindo a ser deuses mediante a nossa divinização em Cristo. Mas nós também precisamos mudar o foco de nossas lentes antropocêntricas. Esse não é um projeto moral, como Mahoney parece sugerir, e também não é um projeto puramente humano. Cristo é um redentor cósmico, e a Carta aos Romanos nos diz que toda a criação geme em dores de parto enquanto espera a glória da redenção.

Uma teologia que procura se explicar perante o tribunal da ciência sempre abrirá mão de muito, e uma ciência que tranca as suas portas contra a teologia sempre saberá muito pouco.

- Tina Beattie
Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos.

domingo, 15 de abril de 2012

Quando a ética deixa de ser ética e vira instrumento para julgar


"Havia pessoas ruins no mundo e pessoas boas no mundo. Fomos criados acreditando nisso. Se as pessoas eram más, nós as tratávamos como se fossem o próprio mal ou alvo de caridade: se elas eram más e ricas, eram o mal. Se eram más e pobres, eram caridade. O Cristianismo esteve sempre certo; estávamos sempre acima de todos os outros. E eu odiava isso, odiava com toda força. Tudo em minha alma me dizia que isso era errado. A mim parecia tão errado quanto um pecado.

"Eu queria era amar todo mundo, eu queria que tudo fosse legal. Sei que isso soa como tolerância, mas é exatamente o que queria. Eu queria tolerância. Eu queria que todo mundo deixasse os outros em paz, independente de suas crenças religiosas, independente de suas afiliações políticas. Eu queria que as pessoas gostassem das outras. A mim o ódio parecia fruto da ignorância. Eu estava cansado de ver a ética religiosa ser utilizada como ferramenta para julgar as pessoas.

"Eu estava cansado de líderes cristãos se valerem de princípios bíblicos para preservar seu poder, para separar uma linha na areia separando o exército bom do ruim. A verdade é que eu tinha encontrado o inimigo na floresta e descoberto que ele não era o inimigo."


(Trecho do livro "Como os pinguins me ensinaram a entender Deus", reproduzido do blog Acasos Afortunados, via Diário de Luísa Stern. Fica para reflexão.)

domingo, 8 de abril de 2012

Uma palavra de amor e libertação




Só para lembrar: a leitura literal da Bíblia está longe de ser um enfoque cristão clássico. Na verdade, é bem moderno: teve início na primeira metade do século XX. Portanto, são quase 2 mil anos de cristianismo sem uma leitura literal da Bíblia. O literalismo é uma invenção moderna. E, sob a aparência de "fidelidade", não passa de uma leitura seletiva do texto sagrado; afinal, quantas pessoas você conhece que seguem à risca o preceito de que devemos dar tudo o que temos aos pobres? ;-)

O mais importante disso tudo para nós, hoje, e o interesse de postarmos aqui esses trechos do documentário "Assim me diz a Bíblia" (de que já falamos aqui, com link para o filme completo aqui - se você ainda não viu, não deixe de ver :-)), é reiterar algo que não nos cansamos de enfatizar: a Bíblia, ou a igreja, ou qualquer religião baseada nela, não são intrinsecamente más per se. Toda religião existe em um contexto cultural, social, histórico, e é por ele moldada. A homofobia da nossa época usa mais a Bíblia, as igrejas e as religiões para se impor do que o contrário. As Escrituras não são inerentemente homofóbicas, ou sexistas, ou escravagistas. Elas foram produzidas, ao longo do tempo, em contextos culturais e momentos históricos específicos, e a leitura que delas fazemos também é localizada em termos culturais e históricos, conforme os interesses de cada tempo.

* * *

Um aspecto de grande interesse nos cristianismos é que o texto sagrado não é uma mensagem enviada diretamente por Deus para nós. Não foi escrita pelas mãos divinas, ou por um anjo. Foi escrita por seres humanos, pessoas, ao longo do tempo. É, portanto, a história de como, com o tempo, fomos sendo capazes de compreender a mensagem de Deus para nós. Porque o Deus aí retratado é um Deus que dialoga, que fala conosco, para que entendamos conforme os nossos parcos recursos e nossa escassa capacidade.

Abominação, na verdade, é deturpar a mensagem de amor e misericórdia do Criador e colocá-la a serviço do ódio, da opressão, da exclusão e da desumanização - quando ela é, em essência, eminentemente libertadora e humanizadora. E esse sempre foi o grande drama das relações entre Deus e o homem: Ele tentando nos transmitir sua mensagem de amor e libertação, e nós a distorcendo a serviço dos nossos ídolos e miragens mundanas. E Ele insistindo. Por isso, a história contada nas Escrituras é, na verdade, a história da nossa contínua conversão.

Cristo foi um revolucionário, cuja mensagem veio subverter toda a lógica dos poderes humanos. A história do povo de Deus é a história de uma caminhada rumo à liberdade, pela construção de relações verdadeiramente fraternas, em que, colocando-nos como irmãos, colocamo-nos como iguais. O grande escândalo de Cristo foi virar de ponta-cabeça as estruturas humanas de poder ao arrogar-se o direito de entender a Lei com o seu coração, lendo-a sob a luz do amor e da misericórdia, pondo-a a serviço do ser humano, em vez de usá-la para subjugá-lo. Por isso ele foi morto.

E o grande escândalo de um Deus infinito que se reduz ao nosso tamanho para falar-nos e, como homem, leva sua missão de serviço até o final, respeitando as nossas escolhas e submetendo-se ao fim que decidimos lhe dar, é que esse não é o Deus glorioso e coberto de ouro que interessa aos poderosos - mas um Deus humilde dos pequeninos, que nos convida a, com ele, em tudo amar e servir. O perigo de se dar demasiada ênfase à Cruz e à morte de Cristo é acabar caindo na tentação de ver sua morte como um sacrifício que cria uma dívida que temos de saldar: se Ele se sacrificou por nós, cabe a nós nos sacrificarmos por Ele. Só que a história não pára aí. Ao ressuscitar, ele vence a morte. Fizemos o pior que podíamos fazer-lhe, dentro do alcance de todo o poder que temos: nós o matamos de uma maneira horrível. Mas essa não é a palavra final. Ele volta para nós, e recria a vida na Terra. Para que, a cada queda, possamos nos levantar. Para que, a cada tropeço, possamos recomeçar. Para que, a cada erro, tenhamos a certeza de seu perdão amoroso e gratuito. Para que, a cada morte, possamos renascer e continuar.

É loucura, mas é um Deus louco. Louco de amor por nós, e todo, inteiro gratuidade e doação - Ele que se entrega e desabrocha em beleza e amor por cada um de nós a cada instante. Basta termos olhos para ver, e um coração disposto a receber.

Que esta Páscoa seja mais um passo em nossa contínua caminhada de conversão e reconciliação com o Pai amoroso que vive e fala em nosso coração. Feliz Páscoa! :-)

quarta-feira, 28 de março de 2012

E o Concílio descobriu a liberdade de consciência

Foto: Chris Engman

Um novo passo para expor as autênticas novidades “reformadoras”, não “revolucionárias”, de acordo com a contraposição, que também já foi usada mais de uma vez por Joseph Ratzinger, justamente a propósito da sua atitude em relação à historicidade da Igreja católica e, portanto, também do Concílio. Nos artigos anteriores, vimos a recuperação da centralidade da Palavra de Deus, da Escritura, na vida da comunidade de fé e a difusão da Bíblia em língua moderna, acessível a todo o povo de Deus. Na mesma linha – a segunda novidade – a forte afirmação da necessidade do ecumenismo, com a busca da unidade, perdida há séculos – nove, quase dez para as Igrejas ortodoxas, e quase cinco para os evangélicos. Depois, passando para uma relação decididamente nova com a realidade do judaísmo, religião e cultura, com o pedido de perdão pelo anti-semitismo religioso, muito cultivado em séculos e originando, ainda que indiretamente, trágicas realidades como a Shoah. Esta é a importância do ponto quatro da declaração Nostra Aetate, com a recomendação de se superar as hostilidades do passado, e a condenação de atitudes diferentes, com a reprovação de “ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo para com os Judeus em todos os tempos, não importando quem cometeu tais atitudes”.

Outra grande e inegável novidade do Vaticano II – a quarta nesta lista – constitui o tema do que hoje se chama “liberdade religiosa”, o que costumamos considerar no âmbito da “liberdade de consciência”. É o tema presente no documento intitulado “Dignitatis Humanae”, que foi aprovado na véspera da conclusão do Concílio, no dia 7 de dezembro de 1965, após as animadíssimas discussões e dos muitos embates, sobretudo dos tradicionalistas pertinentemente conservadores, que viam em alguns desses passos uma concessão contrária à afirmação da verdade da fé e do Evangelho de salvação.

Na declaração “Dignitatis Humanae”, ressoam fortes palavras no ponto sete: “Todos devem ser isentos da coerção individual, de grupos sociais, de qualquer tipo de poder humano... Que ninguém seja obrigado a atuar contra a sua consciência... Ninguém pode ser obrigado a abraçar a fé contra a sua vontade... todos devem buscar a verdade, porém tal verdade não deve ser imposta pela força, mas difundida docilmente e fortemente”.

O tema da liberdade religiosa, no Concílio, teve precisas consequências também para os traços da atividade missionária. Sobre este ponto, é suficiente observar o ponto treze da Ad Gentes. “Onde quer que Deus abra a porta da palavra, para anunciar o mistério de Cristo a todos os homens, deve ser anunciada com franqueza e perseverança (o Deus vivente é aquele que Ele enviou para a salvação de todos, Jesus Cristo).

“Somente deste modo, os não cristãos, que o Espírito Santo abrirá os corações, crerão e livremente se converterão ao Senhor, e sinceramente aderirão Àquele que, sendo “o caminho, a verdade e a vida” (Jo, 14,6), responde a todas as aspirações do espírito e, mais, as superam infinitamente”.

Isto é a confirmação da obrigação, para todos os crentes, do anúncio da fé, mas depois, com inegável clareza, o texto segue dizendo como se deve agir, mencionando os documentos “Dignitatis Humanae” e Lumen Gentium, explicitando o modo pelo qual o necessário anúncio deve se encarnar para ser autenticamente cristão e eclesial: “A Igreja proíbe severamente obrigar ou induzir e atrair as pessoas com inoportunos enganos, a abraçar a fé, da mesma forma que energicamente reivindica o direito de que ninguém, com injustas vexações, seja separado da sua fé. De acordo com um costume muito antigo da Igreja, os motivos de conversão devem ser examinados detalhadamente, e, se necessário, purificados”.

Um tema candente, durante séculos, e que recebeu pouca atenção da parte de muitos no conjunto da história, inclusive, “pessoas santas”, às vezes, mais tarde canonizadas, certamente não por esse motivo... Mesmo considerando que a cultura do tempo conduzia a essas consequências, é necessário recordar que Gregório XVI, na primeira metade do século XIX, definia como “deliramientum” (uma loucura) a tese que sustentava o respeito à liberdade de consciência e de religião... Porém, é necessário certificar que essa mesma liberdade, que pode parecer uma “novidade” em relação ao costume eclesiástico durante séculos, não é uma negação do passado da fé, ao contrário, pois possui sua origem nos textos de fé, como nos Evangelhos e nas cartas de Paulo. E por esse propósito, grandes teólogos como São Tomás, já no século XIII e John Henry Newman, no século XIX, exaltaram o primado da boa consciência, portanto, da “boa fé”. Além disso, a maneira de anunciar, do “render contas da esperança que há dentro de nós” já estava explícita nas palavras de São Pedro, que serenamente indicava: “Porém tudo isto tem que se fazer com mansidão, respeito e em boa consciência” (I Pe, 3,15).

É certo que durante séculos não foram ideias evidentes. Além disso, uma longa série de eventos as contradiziam. Por enquanto, a última consequência: só neste contexto de liberdade de consciência é que se deve interpretar a forte advertência de São Paulo: “Tudo o que não vem da fé é pecado” (Rom, 14,23). O que Paulo quer dizer com esta palavra “fé”?

Como se pensou que a “fé” tem que ser forçosa e explicitamente sempre fé cristã, conhecimento e reconhecimento da divindade de Cristo e da realidade da Igreja como tal, teve como consequência que todos os atos de virtude de um não cristão na realidade eram pecado. Sabemos que, durante séculos, esta ideia foi o fundamento teórico para difundir e impor a fé, com os instrumentos da violência e do poder político e colonial. O Concílio claramente indica outro caminho, importante também por suas imediatas consequências. Esta será a novidade sucessiva destas reflexões: a atitude do Vaticano II para com as outras religiões e, ao final de contas, também para as consciências dos homens que podem não pertencer a nenhuma religião...

- Gianni Gennari, teólogo italiano,
Publicado no sítio Vatican Insider, 09-03-2012.
Tradução: Cepat, aqui reproduzida via IHU.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Cale-se! O silêncio machuca, o diálogo é música

Foto: Paul Spielvogel / CATERS NEWS, aqui

Discordo visceralmente de muita coisa que leio e escuto, mas nem por isso acho que elas não tenham o direito de vir a público. Pelo contrário, repetindo Voltaire, discordo, mas defendo o direito de que seja dito. Afinal de contas, a saída para contrapor uma voz não é forçar o silêncio, mas sim outra voz. O silêncio dói, machuca. O diálogo é música.

Por isso, sinto um amargo na boca quando vejo pessoas que, sob o risco de verem seus argumentos naufragarem em sua própria arrogância, tentam calar o outro. Não percebem elas que muitas vozes dissonantes não vêm da cabeça ou do coração, mas sim do fígado. Por isso, regeneram-se. E, se cortadas ao meio, geram duas. Multiplicam-se. Uma idéia forte é algo poderoso. Difícil de ser contido com a força física. Tomo a liberdade de retomar um debate que travei aqui, tempos atrás, e que cai como uma luva com fatos que aconteceram recentemente.

Acredito que meu ponto de vista está correto, mas isso não faz dele uma Verdade Absoluta – até porque verdades absolutas – do meu ponto de vista – não existem. Não mais. Morreram. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por outro caminho. Ou que a paz de espírito ocorra obrigatoriamente através de grandes concessões pessoais ou obediência a regras ditadas por profetas. Desse enfrentamento de idéias e de propostas sairá um vetor resultante que apontará para uma direção, dependendo da correlação de forças envolvidas, dos atores dedicados a isso, da aceitação dessas idéias pelo restante de uma sociedade.

Por exemplo, não acredito que o livre mercado seja a panacéia para tudo, mas há quem diga que sim. Ótimo, vamos discutir os argumentos que embasam as diferentes posições e não chamar o outro de canalha ou burro, esquerdista idiota ou direita fascista, e travar por aí a discussão. Ou pior, defender o fechamento de um veículo de comunicação, a demissão de uma profissional, o fechamento de uma igreja.

Muitos simplesmente repetem mantras que lêem na internet, ouvem em bares ou vêem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando esse outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais bisonhos. Afinal de contas, não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a companheira como uma serva em casa.

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

Sugiro que busquem a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e se perguntem se acham que estão certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza não é de certezas, mas de dúvidas e falhas que só conseguem ser melhor percebidas no tempo histórico.

- Leonardo Sakamoto
Publicado originalmente no blog do autor

sexta-feira, 16 de março de 2012

A Igreja e o poder

"A crucificação de S. Pedro", Michelangelo Merisi da Caravaggio

Pedro, autoridade reconhecida, não é como os poderosos deste mundo. Ele não está sozinho, fora do rebanho dos comuns mortais. Ele está "no meio dos irmãos": eles, com dignidade igual à sua responsabilidade, e ele, com responsabilidade de irmão mais velho. Seu único poder é um dever.

A opinião é do jesuíta, biblista e escritor italiano Silvano Fausti, em artigo publicado na revista Popoli, dos jesuítas italianos, 01-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


"Pedro levantou-se no meio dos irmãos e falou: 'Era preciso que se cumprisse a Escritura a respeito de Judas" (Atos 1, 15-26)

O modo de agir da Igreja primitiva é fundamental e normativo. Com o tempo, a tradição sofreu traições. Volta-se à origem para re-formar o que foi de-formado. A reforma nunca ocorre por um decreto de cima, mas sim por um humilde movimento de baixo, inspirado pela Palavra transmitida nos Evangelhos. Estes últimos – norma da tradição e não o contrário – sempre nos abrem a uma dupla conversão: ao passado e ao presente, à história de Jesus e a como vivê-la hoje.

Depois da ascensão, a comunidade permanece unida. Os primeiros 120 membros (ou seja, as 12 tribos x 10 = a comunidade) são agregados não pela "diferença" de um líder que domina, mas sim pela adesão ao Filho que lhes torna todos irmãos. Reunidos no Cenáculo, preparam o coração perseverando na oração. Mas também preparam o corpo. Judas traiu: falta um apóstolo. É preciso integrar o número dos patriarcas, as 12 colunas do novo templo, que serão "testemunhas da ressurreição". E isso será feito democraticamente por todos, por sugestão de Pedro. O texto toca em dois pontos fundamentais, sempre atuais: o exercício da autoridade e a compreensão do mistério do mal.

Pedro, autoridade reconhecida, não é como os poderosos deste mundo. Ele não está sozinho, fora do rebanho dos comuns mortais. Ele está "no meio dos irmãos": eles, com dignidade igual à sua responsabilidade, e ele, com responsabilidade de irmão mais velho. Seu único poder é um dever. O do seu Mestre e Senhor, cujo mandato é: "Lavem os pés uns dos outros como eu lavei os seus pés". É uma tradução "pedestre" da nova lei: "Amem-se uns aos outros como eu amei vocês" (Jo 13, 14.34). "Quem quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos", como o Filho do Homem (Mc 10, 44), que está no nosso meio como aquele que serve (Lc 22, 27).

Outra autoridade na Igreja é causa de idolatrias, defecções e divisões. Nada de vestes pomposas ou de lugares de honra. Que ninguém se chame de Pai, de Mestre ou de Guia. Nós somos todos irmãos, discípulos do Filho. Discípulo é quem dele "aprende" (discere) a ser o filho e irmão de todos. A proliferação de títulos coloridos e de respectivos ornamentos são deturpações cômicas. Pode-se objetar que são símbolos. Mas o homem vive dos símbolos que tem na cabeça. Que a fábula do Rei nu nos ajude a rir das nossas extravagâncias com um pouco de bom senso.

O incenso do poder dá vertigens e confunde fantasia com realidade. Até aqui, pouco mal: é só um pouco de carnaval. O ruim é que o poder violenta a realidade para se impor como verdade. Se contemplamos o nosso Rei coroado de espinhos, talvez acaba nosso jogo estúpido, do qual Ele e os pobres cristos pagam a salgada conta. O homem não age mal por maldade, mas por inconsciência (Lc 23, 34). Ele acredita que a sua obsessão por poder o tornam como Deus. A falsa imagem dele, de si e dos outros – aquela sugerida por Satanás em Gênesis 3, 1ss. – faz com que se use todos os meios para dominar, ao invés de servir. Essa é a raiz dos nossos males!

E aqui chegamos ao segundo tema: o mal. O traidor não é "o" monstro. Judas é "um dos 12", "um de vocês", diz Jesus. Ele representa a nós que, como ele, queremos – obviamente, por amor a Ele... – um Cristo rico e poderoso, que ponha todos sob seus pés. Graças a Judas, o Filho do homem acaba na cruz. E ali nos cura da falsa imagem de Deus e de homem, carregando sobre si o mal dos nossos delírios de ter, de dominar e de aparecer. Por isso, através de Judas, cumprem-se as Escrituras. E o seu lugar é tomado por outro. É o lugar que é tomado por qualquer outro – incluindo eu – para que eu me converta olhando e tocando as feridas do "meu Senhor e meu Deus" (Jo 20, 27s).

segunda-feira, 12 de março de 2012

A inumanidade do fundamentalismo


O que pode ser mais complexo do que o homem e suas relações? Não é uma resposta simples, muito menos imediata, não são físicas ou biológicas somente, nem ao menos se submete às questões estritamente químicas. O homem é capaz de se encantar, de se apaixonar pelo universo que o envolve; vislumbra o belo e interpreta o mesmo.

Desta evidência empírica o homem produz o humano: MOZART, BEETHOVEN, EINSTEIN, FREUD, mas produz também o seu contrário: HITLER, BUSH, BIN LADEN. Obviamente, que todos têm a capacidade de gestos grandiosos e mesquinhos, sem uma classificação de quem seja bom, plenamente bom, e mau, plenamente mau. Até mesmo, por se tratar de variantes que dependem das circunstâncias, e dos momentos: eis a persona[1]· Por este dado, muitos teóricos não definiram com precisão a humanidade devido a sua complexidade, e se limitaram a expô-la de forma genérica, como Heidegger: O homem é humano porque fala[2].

Destarte, a fala é a própria interpretação do sujeito da realidade, seu caráter é individual, pertence ao falante, que nela imprime sua cosmovisão: social, cultural e ideológica, no sentido de carregar cada pensamento particularizado de cada enunciador. Ao mesmo tempo em que, para dela se fazer uso, há que necessariamente relacioná-la a linguagem, ou um universo maior, mais abrangente do que língua e fala. Um conjunto de signos, podendo estes serem visual, gestual, comportamental, sonoro que mexe com a faculdade intelectual do falante para captar a mensagem. Portanto, a linguagem está associada ao pensamento, como diria Saussure.

E tal pensamento é a própria capacidade da irrupção do símbolo, da ressignificação da realidade imediata, de transformar a ausência em presença, representando essa ausência em todas as suas formas e gerando o objeto de pensamento, dando lugar à fala, na linguagem significante, à significada, criando às regras, as instituições, o social, a religião. Assim, o pensamento humano constrói o que não está, torna atual a consciência, e faz o presente, operando, desta feita sob signos mediadores.

Assim, a diversidade é condição humana, pois cada qual apropria do símbolo de maneira diferente do outro, sendo esta a qualidade do humano. É no inesperado que o homem constrói, na contingência é que se faz a necessidade das respostas, naquilo que já está estabelecido não há formulação, não há movimento, pois já foi pensando e já está predito. A única coisa capaz de surpreender é o diferente, o inesperado, e é nesta surpresa que o encantamento se estabelece, assim dizia o poeta Nazim Hikmet: “... A mais bela criatura ainda não nasceu; o mais belo dos mares é aquele que ainda não vimos.” O humano é a constante mudança, contudo há um paradoxo.

A mente humana se satisfaz no ideal do ego, o auto-referencial, que conduz o próprio como bom e o diferente como inferior. É o desejo do olhar materno, que contempla a criança- o menino rei- no espelho idêntico e necessário do homólogo, da identidade do perfeito e protegido, mas que torna sufocante o abraço e o mesmo olhar, se estes se perduram no tempo em demasia. O “Narciso” tem que ser superado o amor a igualdade, ao idêntico tem que se desabilitar para que o desejo de explorar venha ser integrado como movimento do ser, atração irresistível do inédito e desconhecido, da transgressão como propulsora.

Não é objetificar os desejos, ou aniquilar a identidade, muito menos o outro, mas é ter compreensão plena da identidade pessoal e das necessidades relacionais, e através da mesma compreensão se abrir ou se permitir o diferente, sem nele estigmatizar a ameaça do aniquilamento.

O individualismo exacerbado, essa postura de um olhar posseiro, e a satisfação pessoal dos desejos, sem o enfrentamento, ou o confronto da identidade pessoal construída, refletida e consciente faz do espaço em que o homem se estabelece em pleno espaço objeto, e não espaço integração, espaço-ambiente, essencial à própria condição do ente. O medo de se perder na multidão, pelo isolamento da própria personalidade (a solidão desolada), e o eclipse entre o ser a objetificação do ser dilaceram a construção da identidade plural. O indivíduo se ilha na multidão, não é nada para ninguém, e ninguém significa nada para si mesmo.

Um novo código é criado, a angustia se descarrega no corpo e na conduta, há a fragmentação do animus[3], o estado de anomia, o inumano, onde devido a falta da condição que humanize o ente surgem formas artificiais e substitutivas de sociabilidade: os fanatismos baseados em um particularismo identitário, as seitas e religiões, as tribos urbanas, as gangues, as quadrilhas sociopatas e delinquentes. Não é uma ligação horizontal, homem-humanidade, mas uma ligação vertical, homem-objeto onde as qualidades das hordas primitivas estabelecem o funcionamento da ‘tribo’.

Toda ação fundamentalista é ação inumana inscrita em lógicas e lealdades diferentes da pluralidade democrática, mas onde os membros conseguem um espaço de reconhecimento – a invencível necessidade narcisista de serem amados e reconhecidos. Neste aspecto, quando a inumanidade se apresenta com ar de bondade e inocência mais perverso é o seu mal, defendo critérios de ‘valores’, família, e salvação e moral não postulam outra coisa, senão a própria exclusão e aniquilamento do diferente; é como se uma frase estivesse inscrita, tatuada em suas testas: “primeiro, nós!”.

Tudo que o fundamentalismo postula, postula como se fosse humano, mas tudo que o fundamentalismo pratica, pratica em sua inumanidade hipócrita e eclipsada da própria condição demente em que se encontra. E desta forma a pergunta do teólogo Leonardo Boff é bem esclarecedora: Como pensar o ser humano depois de Auschwitz?

- Renato Hoffmann
Reproduzido do blog do autor

Notas:
[1] Persona é um termo dado para descrever as versões de si mesmo que todos os indivíduos possuem, é dado à função psíquica relacional voltada ao mundo externo, na busca de adaptação social. Comportamentos são selecionados de acordo com a impressão desejada que um indivíduo deseja criar quando interage com outra pessoa. Portanto, a persona apresentada por outras pessoas variam de acordo com o ambiente social que a pessoa estiver inserida, em particular a persona mostrada perante os outros se diferenciarão da persona que um indivíduo irá apresentar quando ele/ela estiver sozinho.
[2] HEIDEGGER. Martin (1889 – 1976); Stein, Ernildo. - O existencialista, Fenomologia. Filosofia. Porto Alegre. Ética 1967.
[3] Nesta acepção(animus/anima), responsável pela adaptação ao mundo interno

quarta-feira, 7 de março de 2012

Guest post: "O Padre quer conversar"

Cartum: Angeli

Há algumas semanas recebemos um e-mail de um leitor do blog, o Daniel, contando que seu pároco o havia chamado para uma conversa por haver postado em seu Facebook a tirinha acima - da qual também gostamos muito.

É importante que nós, individualmente e também como Igreja, sejamos capazes de rir de nós mesmos, das nossas próprias limitações e dificuldades. Temos sempre a impressão de que, quando alguém se leva a sério demais e tudo fica muito grave e rigoroso, a pessoa vira um pouco prisioneira de tanta seriedade.

O papa Bento XVI disse uma vez que o cristianismo nao deveria ser visto como um conjunto de proibições, mas como uma opção positiva; entendemos essa fala dele como um convite a viver a mensagem do Evangelho como um grande sim à vida, como uma Boa Nova de amor, abertura, acolhimento, inclusão. Infelizmente, vemos muita gente vivendo o cristianismo como um monte de fórmulas e regras de certo e errado, que acabam sendo usadas para julgar as pessoas e separar o mundo em bons e maus, justos e injustos, santos e pecadores. O que acaba sendo muito cruel - pois somos todos bons E maus, fortes E fracos, santos E pecadores, e o que deveria acolher e incluir acaba separando e excluindo. Ninguém é só uma coisa, ninguém está só de um lado. Mas aí a gente divide o mundo em dois lados, julga os outros e a gente mesmo, e fica todo mundo aprisionado nisso. E assim se perde a liberdade para cada um ser e se amar tal como é, na certeza de que também o Pai nos olha e abraça com total e irrestrito amor, a cada um de nós, exatamente como somos.

Oramos muito para que o olhar amoroso de Cristo e seu Sagrado Coração acompanhassem nosso leitor e ao seu pároco nessa conversa, e que eles pudessem se ver, se ouvir e se sentir com os olhos, os ouvidos e o Coração dEle.

Alguns dias depois, recebemos do Daniel nova mensagem e o link para o relato abaixo, que reproduzimos com sua autorização. Ficamos muito felizes por saber que correu tudo bem e que o pároco se mostrou humano e humilde ao reconhecer que não tem todas as respostas - e o Daniel também. Diálogo é por aí mesmo. 



Temos muito a te agradecer, Daniel. Que bom saber que você está sendo coerente consigo mesmo e fiel aos valores em que acredita. O mundo precisa muito de pessoas assim. 

"Veja aquele rapaz despudorado ferindo nossa moral cristã" disse um dos freis da tirinha.

"Você desrespeitou a igreja e o papa" disse-me o pároco da minha comunidade, por telefone.

Se houver comparações, pode-se afirmar que eu me passei por aquele jovem que feriu a fé por meio de uma tirinha que une crítica e humor ácido à igreja e aos pudores da religião.

Sol tapado com a peneira se formos tentar amenizar os escândalos que acontecem nas sacristias e confessionários ao redor do mundo. Escândalos quando comparados à cegueira de alguns pais da igreja que preferem não ver a que resolver. Em Levítico 22, no livro dos livros, a palavra usada é "abominação" e isso me faz lembrar o Abominável Homem das Neves. Será que essa lenda na verdade não fala de um homem das montanhas de Aspen, que oferecia comida e abrigo aos turistas masculinos em troca de satisfação sexual?

Há duas semanas o padre da comunidade onde participo me chamou para uma conversa. 'Tem que ser pessoalmente' disse enfadonho do outro lado da linha.

Adiantou-me que queria satisfações de uma tirinha (anexa acima) que eu postei em minha página pessoal na rede social do momento. Uma tira(da) do cartunista Angeli, que mostra dois freis assistindo de suas cúpulas a Parada Gay acontecer nas avenidas defronte à capelinha.

A tirinha é sutil, chega até ser bonitinha, mas em suas últimas falas, aflora a hipocrisia que a igreja tenta esconder e vez ou outra estoura em noticiários jornalísticos. Dá para tirar várias conclusões do quadrinho: desde a pedofilia, homossexualidade enrustida ou as duas vertentes juntas, fruto de repressão e celibato forçado.

Aceitei conversar com o padre, embora eu entenda que não tinha de dar satisfações ao pároco que celebra as missas onde minha banda toca aos domingos. Senti-me pressionado no início, lembrei da palavra "Ditadura" várias vezes e de alguns dos personagens que sofreram represálias na época, mas logo lembrei que no ano de meu nascimento, em 85, era o fim da ditadura. Nasci livre desde então.

Com palpitadas fortes, aceitei a conversa corretiva e sem delongas comecei a digestão dessa intimada santa, que ficou marcada para o domingo antes das dez da manhã.

Não aguentei. No mesmo dia, ao passar em frente a igreja do Cristo Operário e notar que estava acesa, num salto dentro do ônibus, toquei o sinal e desci para tirar aquela história a limpo de uma vez por todas. Chamei o padre que veio me atender com um sorriso e um aperto franco de mão.

- Não aguentei padre, eu disse. Vim logo porque estou curioso interessado no que o senhor tem para me dizer.

- Sem grilo, ele disse. Só queria conversar, as pessoas estão falando, comentando sabe!?

Confesso que a pressão dessa conversa das dez me deixara armado, com pedras e foices na mão, mas após o padre esfriar minha espinha, senti que pude raciocinar melhor sobre quais palavras usar quando fosse defender minha livre opinião sobre isso ou aquilo no domingo próximo. Naquele dia, não pode me atender e conversar a panos frios. Ficou para domingo mesmo.

No dia, minha banda estava escalada para tocar na missa das dez e exatamente às nove e vinte da manhã, enquanto arrumávamos os equipamentos da banda, em sua batina branca, o padre passou e me chamou para a sacristia. Deu ordem aos ministros para que ninguém entrasse ou atrapalhasse nossa conversa. A porta do céu estaria fechada, pois os anjos estariam trabalhando. Olhos arregalados dos outros serventes de branco.

A conversa foi sutil. Há mais de dez anos nós nos conhecemos e temos profundo respeito um pelo outro. Cada um em suas condições. Ele começou falando, dizendo que um terceiro mostrou a tirinha para ele, visto que ele não tem perfil na rede. Disse que como padre, ele tinha o direito de me alertar sobre esse comportamento fora da igreja, pois querendo ou não eu era um agente de pastoral em sua paróquia, ou seja, trabalhava cantando, atuando e editando o jornal paroquial.

Após minutos em defesa da igreja, de cuidados nas atitudes e formalidades, foi minha vez. Entendi sua posição e entendi que se preocupava com a publicação daquela tirinha por alguém que serve em sua paróquia. Porém, usei o argumento da individualidade. Publiquei isso em minha página pessoal, somente. Não foi uma opinião profissional, em nada que fosse da igreja. Sempre publico textos, vídeos, fotos interessantes e nunca levaram isso a ele, até encontrarem uma brecha para atacar. Este terceiro, oculto, está entre meus 'amigos', um contato que me adicionou e denunciou-me como 'o despudorado'. Usei o termo mesquinho para definir essa tal pessoa que teve o trabalho de printar a página, entrar em contato com o padre e mostrar o que eu publiquei.

- Não vamos julgar a pessoa, ele disse.

Concordei, mas julguei sim, a atitude. Mesquinha. Atitude de quem precisa de um tanque cheio de roupa para lavar ou um mato para carpir. Porém, apesar de tudo, percebi que sobre essas pessoas é que nos fazemos mais fortes e nos entendemos mais humanos. Sem querer, esse abominável-mesquinho-denunciador-de-homossexuais-on-line propiciou uma conversa com o padre que se fosse por mim, nunca iria acontecer.

Um tema desse não é falado pela igreja, não é discutido. É abafado. (Abafa!)

Esse foi um dos pontos altos da conversa. Quando eu citei que a igreja não se pronuncia sobre a homossexualidade, quando não fala qual o caminho que gays, lésbicas e trans devem seguir quando se propõe a seguir determinada religião, também não se pode definir regras apenas baseando-se na Bíblia para atacar, queimar em praça pública ou apedrejar. Porém, o padre me mostrou toda sua sabedoria quando, ao ver esses argumentos, respondeu por si: 'Eu não sei'.

Deu um suspiro e assumiu que tal tema não é apenas tabu, mas sim ignorância, no melhor sentido da palavra, de não saber mesmo, não ter argumentos para explicar (se é que tem explicação) a homossexualidade e suas vertentes. Ele podia usar de argumentos do Catecismo, dizer que é um afronte ao Criador e que há um inferno esperando pelos homem que deitam com homens e vice-versa (rs). Mas, não. Ele admitiu que a igreja é ausente nesse sentido. Percebi que estava conversando com um Homem e não com um padre fanático.

Argumentei que, enquanto a comunidade eclesiástica está nessa dúvida, muitos homossexuais estão se suicidando, impedidos de serem aceitos por um Deus, ou pela igreja propriamente dita. Lembrei de uma entrevista que fiz com Marcelo Gil, da ONG ABCD'S, que luta pelos direitos homossexuais na região do ABC Paulista, no qual ele me contou um caso que me chocou: 'Pai e mãe quebraram as pernas da filha de 16 anos, quando descobriram que ela era lésbica.' Com as pernas quebradas, a adolescente não poderia sair de casa.

...

Sugeri que sem pré-conceitos, para que ele se informasse, para poder falar, ajudar mais e notar que há ministros, padres, bispos, agentes de pastoral homossexuais e que acreditam ser a fuga o melhor dos caminhos para essa doença sexual, que nada tem em patologia.

Lembrei de uma homilia feita por ele, logo após a liberação da União Homoafetiva do Supremo Tribunal de Justiça, no qual ele leu uma carta do Bispo de nossa diocese, direcionada mais aos héteros como um manual para o tratamento de pessoas homossexuais.

A carta era cheia de dedos, assim como ele, o padre, estava em seu discurso no altar. Minha avaliação, sem julgamentos, era de que ele estava perdido, escolhendo palavras e sem desfecho concreto para encerrar a conversa.

- Não queria ofender ninguém, argumentou.

Sei que não, mas mais uma vez é provado que, a igreja não sabe o que dizer.

A conversa chegou num ponto (já faltavam dez minutos para começar a missa) que, as opiniões eram claramente diversas e jamais iríamos chegar num consenso. Ele como padre, eu como eu.

- Não concordo, porém respeito.

Foi o que sugeri como encerramento do papo santo.

O padre não desmitificou sua opinião. Era aquilo e pronto. Eu também.

Com algumas palavras, ele definiu que o tempo cura e responde tudo.

Terminamos a conversa. Saímos da sacristia sob olhos atentos e famintos por informações. Arrumei meu microfone e no decorrer da missa, cantei o Glória e o Entoemos, enquanto ele consagrou a hóstia e proferiu o perdão dos pecados. Na homilia desse domingo, proferiu as seguintes palavras:

- Conversando com um amigo eu disse que o tempo cura e responde perguntas que só Deus tem as respostas.

Meu amigo me cutucou com a perna e notou que ele falava de mim. Identificou-me como 'amigo' e isso já pode ser um grande começo.

Fonte: O Textículo
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