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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sem exceções


Reproduzimos aqui, com orgulho e alegria, esta bela reflexão dos nossos amigos do Movimento Episcopaz. Como costumamos dizer em nossas reuniões, "sejamos, uns para os outros, a Igreja que queremos ver no mundo"! :-)

No dia que passarmos a usar o expediente fundamentalista, que fala de amor através de conjunções adversativas (mas, porém, contudo, etc), então, deixaremos de lado o Evangelho e teremos preferido abraçar as leis (de toda ordem) e as convenções humanas (cultura, moral, costume, tradição, etc) como base de nossa fé. A palavra “base” aqui é proposital, tem a ver com o sentido e a essência do que nos põe de pé.

Algumas pessoas, ao falar sobre o amor de Deus, asseguram que Ele é também “justiça e fogo consumidor”. Esquecem (na melhor das hipóteses; algumas vezes é por espírito faccioso ou por maldade mesmo) que a “justiça” de Deus não tem como parâmetro a nossa justiça nem aquilo que nós, homens, entendemos ou consideramos “justo”. Nossa justiça, definitivamente, não é a de Deus.

A nossa justiça considera a “parábola dos trabalhadores na vinha” (ou a parábola dos trabalhadores da última hora) uma provocação, um acinte, um caso extravagante de injustiça da parte de Deus. Afinal, ele “nivela” todos, quer tenham trabalho, tenham sido bonzinhos, tenham se esforçado, enfim, com os demais que chegaram no final do dia. A recompensa foi a mesma!

Dito de outra forma, a nossa justiça consideraria tal parábola um caso de “B.O.” na delegacia celestial, impondo a Jesus uma pena duríssima por ter ousado ser tão “imoral”, “leviano” e “injusto”!

Aliás, os “da religião”, impuseram uma dura pena a Jesus: levaram-no à morte e, pasmem, acreditavam estar dando glórias a Deus!

É diferente em nossos dias? Podemos provar que não. Já fomos alvos de muitos ataques dos “da religião”, incapazes de compreender o absurdo da Graça de Deus. Muitos poderão testemunhar com suas próprias experiências.

Eis por que parabenizamos as paróquias acima por terem ousado incluir em seus respectivos ministérios não apenas pastorais mas um “ethos” que inclui, sem exceções.

Parabenizamos muitas outras que tomaram a mesma medida durante o mês de junho, reconhecido pelas lutas em prol da dignidade dos cidadãos LGBTs, como a Catedral Nacional de Washington, a Saint Elizabeth Episcopal Church (Glencoe, Illinois), a Church of the Ascension (diocese episcopal anglicana de Nova York), a sede da Diocese Episcopal da Califórnia (em São Francisco), entre outras.

A própsito, se tivéssemos imagens de paróquias anglicanas pelo Brasil com cenas semelhantemente ousadas, pelo bem do Evangelho e em prol da dignidade de todas as pessoas, teríamos colocado. Que fique como inspiração para o próximo ano no mês de junho!

Em anexo a legenda e o link de uma bela pastoral escrita pelo Rev. Peter Faass, reitor na Christ Church (Shaker Heights, Ohio).


R. P.
EPISCOPAZ
Anglicanos pró-diversidade & pela paz
Fonte


NOTAS:
(1) LEGENDA:
1 – Christ Church, de Shaker Heights, paróquia episcopal anglicana em Ohio (EUA).
2- Saint Christopher Anglican Church, paróquia da Diocese Anglicana de Niagara (Canadá).
3 – Cartaz da Diocese Anglicana de New Westminster (Canadá) convidando todos os anglicanos a participarem da parada pela diversidade.
4 – Saint Paul Episcopal Church, paróquia espicopal anglicana em Oakland (EUA).

(2) Pastoral escrita pelo Rev. Peter Faass:
http://www.cometochristchurch.org/Sermons-Musings/Musings/Musings-Rainbow-Flag-6-4-10.php

domingo, 4 de agosto de 2013

Cidadania e Estado Laico: reflexões em torno do momento atual brasileiro


Excelente e profunda a análise de Ivone Gebara no Adital sobre a liberdade de consciência numa sociedade pluralista e num Estado laico. Selecionamos apenas o trecho final, mas vale ler o texto inteiro aqui.

"As crenças religiosas nos espaços políticos públicos são um fenômeno crescente em nossa época e em nosso meio. Elas invadem os espaços públicos mesmo num Estado que constitucionalmente se afirma como laico. Deputados, senadores, vereadores, juízes eleitos ou escolhidos para servir o bem comum não conseguem estar isentos de suas crenças religiosas. Suas crenças passam a ser bandeiras políticas de forma que estamos continuamente sendo vítimas de um Estado religioso constitucionalmente afirmado e reconhecido como laico. Este paradoxo pode ser observado nas muitas manifestações religiosas que temos assistido nos últimos anos para interferir em políticas públicas, sobretudo as que tocam a sexualidade humana. Vale notar, nesse particular, o uso indevido de textos religiosos para fundamentar posturas políticas através de uma retórica impressionista usada para convencer o público. Creio que isto é um delito que atenta contra a Constituição Nacional e merece ser enfrentado pelo conjunto de cidadãs e cidadãos das mais diferentes formas.

A questão é de saber como se pode colocar entre parêntesis sua crença religiosa em favor do bem comum. Ou, como crescer em consciência em relação à diversidade de situações num mundo tão complexo quanto o nosso? Como se educar para uma sociedade pluralista onde minha crença religiosa e política não é verdade para toda a sociedade? Além disso, trata-se de educar-se para discernir entre a necessidade de leis e minha escolha pessoal. Não é porque existe a legalização do aborto ou casamento homossexual que tenho que vivê-los e nem acreditar que as pessoas serão menos morais ou menos responsáveis se uma lei se efetivar. Em outros termos, não é porque o casamento homossexual ou heterossexual existe que vou me casar e nem porque o aborto é permitido por lei que vou abortar. As muitas polêmicas de nosso tempo não chegarão a lugar nenhum se não assumirmos a realidade do pluralismo de nossa nação e de nosso mundo. Pluralismo significa diversidade e diversidade significa que algumas leis devem ter validade para todos os cidadãos/ãs e outras podem ser escolhas de cada um e cada uma diante de sua própria consciência e da contingência em que está vivendo. Significa igualmente não bloquear o caminho e as escolhas de outras pessoas que vivem e pensam diferentemente de mim.

Nesse contexto as muitas soluções devem ser relativizadas, isto é, entendidas a partir da diversidade e particularidade das situações. Por exemplo, algumas soluções afirmam a necessidade de leis proibitivas em torno da sexualidade e apostam numa legislação rígida que tenha efeito punitivo das /os infratores. Outras optam por uma legislação permissiva que chame a atenção da responsabilidade individual e coletiva frente aos problemas da sexualidade. Outras ainda propõem medidas educativas com diferentes propostas. E nesse universo de observações há igualmente uma grande maioria da população que está fora do debate e da busca de soluções. Estão numa postura de desinformação política e social aguardando que um problema individual irrompa e venha motivar a sua procura imediata de soluções.

Nessa conjuntura somos chamadas/os ao discernimento e a uma reflexão que busque ver os muitos matizes de uma mesma situação. Não há mais lugar para posições absolutas, para princípios imutáveis fundados numa imagem de Deus que é facilmente manipulada pelos diferentes grupos. O desinteresse pelo pensamento é algo que nos choca. Reduz-se o pensamento crítico aos interesses individuais ou partidários sem que se reflita na humanidade plural que constitui a nação brasileira e todas as outras nações do mundo. Estamos necessitadas de uma compreensão não sectária de nossos problemas e da busca de soluções viáveis. Essa compreensão deve ser ampla para ser compatível com as diferentes visões do que se considera vida justa e bem viver. Mas, onde vamos encontrá-la? Creio que o único caminho é o diálogo incessantemente recomeçado pelos diferentes grupos, um diálogo onde desde o início, embora com nossas convicções, estejamos dispostos a ouvir os outros. Ouvir é a grande questão, pois na realidade desaprendemos a ouvir numa sociedade onde predomina o barulho das máquinas, dos muitos sons, dos muitos gritos humanos que de tão fortes não conseguem ser distinguidos pelos ouvidos de uns e de outros. Baixar a nossa voz, talvez até silenciar para ouvir a melodia da música alheia, para aprender outros sons que também constituem as notas da musicalidade humana e da sinfonia do universo. Baixar a voz para aprender a pensar, para escutar a nossa voz interior. E só então, dar alguns passos em conjunto sabendo que estamos todas/os a caminho, com possibilidades inevitáveis de tropeçar e de perder o rumo, mas estamos juntas/os na extraordinária aventura humana."

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

10 argumentos a respeito da homossexualidade

O reverendo Jim Rigby é pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André em Austin, Texas, e um ativista de longa data dos movimentos sociais e de uma maior justiça econômica. Ele defende os direitos dos negros, gays e de diversas minorias.

Abaixo ele escreveu dez argumentos que gostaria que os cristãos entendessem sobre a homossexualidade:


Fonte: Blogay

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (4)



Foto: Tony Park

Começamos a publicar há três semanas (primeira parte aqui; segunda parte, aqui; terceira, aqui), em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Castidade e lei natural
Convém tratar da castidade, contida nos Dez Mandamentos, e que constitui um importante conceito da moral. Originalmente o preceito é ‘não cometerás adultério’. Jesus, ao responder sobre o que se deve fazer para herdar a vida eterna, menciona não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, não prejudicar ninguém, e honrar pai e mãe (Mc 10, 17-22). Os quatro primeiros preceitos estão no Decálogo. O preceito seguinte (não prejudicar ninguém) não está, mas ele resume os anteriores e lhes dá o verdadeiro sentido. São Paulo aprofunda e sintetiza esta questão: quem ama o próximo está cumprindo a lei, pois os mandamentos se resumem no amor ao próximo (Rm 13,8-10). Este é o espírito dos mandamentos e a sua chave de compreensão.

A castidade é definida hoje como a integração da sexualidade na pessoa, na sua unidade de corpo e alma (Catecismo da Igreja Católica, §2337). Esta integração é um caminho gradual, um crescimento pessoal em etapas, quepassa por fases marcadas pela imperfeição, e até pelo pecado (ibidem, §2343). Por isso, é preciso levar em conta a situação em que a pessoa se encontra, e os passos que ela pode e deve dar. Só pode haver integração bem sucedida neste campo se a pessoa viver em paz com a sua sexualidade, e amar o seu semelhante.

O teólogo Joseph Ratzinger tem uma importante contribuição para a reflexão sobre a castidade. Ela não é uma virtude fisiológica, mas social. Trata-se de humanizar a sexualidade, não de ‘naturalizá-la’. A sua humanização consiste em considerá-la não como um meio de satisfação privada, uma espécie de entorpecente ao alcance de todos, mas como um convite ao homem para que saia de si mesmo. A realização da sexualidade não adquire um valor ético quando se faz ‘conforme a natureza’, mas quando ocorre de acordo com a responsabilidade que tem o homem diante do homem, diante da comunidade humana e diante do futuro humano. Para avaliar a sexualidade, prossegue Ratzinger, pode-se dizer que ela reflete e concretiza o dilema fundamental do homem. Ela pode representar a total libertação do eu no tu, ou também a total alienação e fechamento no eu [“Hacia una teología del matrimonio”. Selecciones de teologia, nº35, 1970, p. 243].

Sobre a conformidade à natureza, é importante refletir sobre um outro conceito da moral que é a lei natural. O mundo é criação divina, feito segundo a razão do Criador (Logos), de modo a manifestar a Sua sabedoria. Há na criação uma racionalidade que pode ser conhecida pelo ser humano, e orientar a sua ação. Há uma lei inscrita no coração humano que orienta os seus juízos éticos (Rm 2, 12-16). Um recente documento da Igreja, da Comissão Teológica Interncional, trata deste assunto de maneira muito oportuna [Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural. Paulinas, 2009].

A expressão ‘lei natural’, segundo a Comissão, atualmente é fonte de numerosos mal-entendidos. Por vezes, ela evoca simplesmente uma submissão resignada e passiva às leis físicas da natureza, quando o ser humano busca, e com razão, dominar e orientar estes determinismos para o seu bem. Por vezes, ela é apresentada com um dom objetivo que se impõe de fora da consciência pessoal, independentemente do que elabora a razão e a subjetividade. Ela é suspeita de introduzir uma forma de heteronomia insuportável à dignidade da pessoa humana livre. Outras vezes também, ao longo de sua história, a teologia cristã justificou muito facilmente com a lei natural posições antropológicas que, em seguida, mostraram-se condicionadas pelo contexto histórico e cultural. Hoje, é importante propor a doutrina da lei natural em termos que manifestem melhor a dimensão pessoal e existencial da vida moral (Em busca..., nº10). Certamente aquela oposição de Ratzinger à ‘naturalização’ da sexualidade se refere a estes mal-entendidos sobre a lei natural.

Considerando uma sociedade pluralista como a nossa, prossegue o documento, a ciência moral não pode fornecer ao sujeito uma norma que se aplique de forma adequada e automática às situações concretas. Só a consciência do sujeito, o juízo de sua razão prática, pode formular a norma imediata da ação. Mas, ao mesmo tempo, não se deve deixar a consciência entregue à pura subjetividade. É preciso fazê-la adquirir as disposições intelectuais e afetivas que lhe abrem à verdade moral, para que seu juízo seja adequado. A lei natural não deve ser apresentada como um uma lista de preceitos definitivos e imutáveis, ou como conjunto de regras já constituído que se impõe previamente ao sujeito. Ela é uma fonte de inspiração objetiva para o seu processo de tomada de decisão, que é eminentemente pessoal. Esta fonte jorra sempre que se busca um fundamento objetivo para uma ética universal (Em busca..., nos59 e 113).

A Comissão reconhece também que a aplicação concreta de preceitos da lei natural adquire diferentes formas nas diversas culturas, ou mesmo em diferentes épocas dentro de uma mesma cultura. A reflexão moral evoluiu em questões como a escravatura, o empréstimo a juros, o duelo e a pena de morte. Coisas que eram permitas passaram a ser proibidas, e vice-versa. Há uma compreensão melhor da interpelação moral. A mudança da situação política ou econômica traz uma reavaliação das normas particulares que foram estabelecidas anteriormente (Em busca..., nº53).

A consciência do sujeito tem um peso decisivo, sobretudo em questões complexas. Este papel não deve ser esquecido ou subestimado. O Concílio Vaticano II afirmou o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência, e o dever de não agir contra ela. Nela está o ‘sacrário da pessoa’, onde Deus está presente e se manifesta. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos outros homens no dever de buscar a verdade, e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (Gaudium et spes, nº16). Nenhuma palavra externa substitui o juízo e a reflexão da própria consciência.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Somos todos iguais. Ou não?"


Safo foi uma pensadora, considerada por Platão a décima musa. Mas então por que ela não foi reconhecida como tal na Grécia Antiga? Mulher não tinha vez. Seu único papel social era de reprodutora e “cuidadora” do lar. Trocando em miúdos, um bibelô dos homens. Ela se rebela, cria uma escola só para mulheres, em Mitilene, capital da Ilha de Lesbos, com ensinamentos de poesia, dança e música. Tal foi o preconceito quanto ao talento e às atitudes vanguardistas de Safo que precisaram lhe incutir algum “defeito”. Claro, corruptora de mulheres! Já que vivia cercada delas. A força dessa “medalha” foi tamanha que até hoje se define como “lésbica” a mulher que se relaciona sexualmente com outra. E se, em 1476, Leonardo da Vinci tivesse sido condenado à fogueira no Tribunal de Florença por crimes sodomitas (nome dado a homens que mantinham relações com outros homens)? O que a Humanidade teria perdido de obras artísticas, científicas e culturais?

Apenas dois exemplos, aparentemente distantes no tempo, para ilustrar esta caminhada. Por que permanece acesa essa fogueira da inquisição até o século XXI? Obama reconheceu. Que se apague esse fogo! O fogo do preconceito, que fique claro, mas que a chama da liberdade, do amor e da pluralidade arda incessantemente! Por falar em pluralidade, ela tem duas outras companheiras também regidas pela Constituição Federal: a dignidade e a igualdade. Se somos iguais perante a lei, por que a união de pessoas do mesmo sexo deve ser diferente?

Não estamos tratando de religião, como a palavra casamento pode soar aos nossos ouvidos. Tratamos aqui de um contrato especial de direito de família. Simples assim: vamos nos casar? Vamos ao cartório selar esta comunhão. Mas, até hoje, mesmo com alguns avanços jurídicos, não é bem assim. A união estável tem profundas diferenças do casamento civil. Neste, existe mudança do estado civil para casado, a intenção primordial da formação de família e direitos de proteção do cônjuge em caso de morte ou separação. Na união estável, trata-se de uma decisão judicial com exigência de que o casal recorra à justiça para tal reconhecimento.

Fundamentalistas se baseiam na ideia da existência exclusiva da formação de casal somente entre homem e mulher para condenar a aprovação do casamento igualitário. Só para lembrar, o casamento homossexual foi proibido pela primeira vez apenas no ano de 342 d.C. por um decreto romano. Até então era permitido. Ora, a escravidão era permitida legalmente até que a Lei Áurea foi assinada. Ora, as mulheres não tinham direito a voto até 1932. Hoje, elas chegam ao topo do poder de grandes nações. E imaginar que a gente nem votava há exatos 80 anos parece um completo absurdo! O mundo muda, as famílias mudaram, e as leis têm obrigação social de acompanhar essa evolução.

Até os contos de fadas sofreram mudanças e atualizações. Chapeuzinho Vermelho se transformou em “A Garota da Capa Vermelha”, uma versão noir da clássica neta e mocinha. Rapunzel virou animação bem-humorada em “Enrolados”, e “A Bela e a Fera” passou por uma profunda repaginada para se atualizar aos desejos deste público moderno.

Fiz a minha parte. Compus um conto de fadas com direito a castelo, dragão, duelos e cavaleiros, permeados por um amor capaz de vencer todos os obstáculos. É a história de “A Imperatriz e a Princesa”. Canção que encerra “Eu Raio X”, meu último álbum, e que, espero, traga a todos a inclusão que questiono aqui: dignidade, pluralidade e igualdade para que sejamos TODOS “tão felizes para sempre”!

- Isabella Taviani é cantora
Publicado originalmente no jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Fé cristã e diversidade sexual: algumas reflexões

Foto: Hugo Nogueira


Transcrevemos abaixo a fala de uma integrante do Diversidade Católica e uma das moderadoras do blog, Cristiana Serra, no nosso evento de ontem. A quem esteve com a gente, nossa mais profunda gratidão pela presença e pelo tempo que partilhamos juntos. A quem não pôde estar, vamos postar, ao longo dos próximos dias, alguns conteúdos relacionados ao evento, para poder dividir com todo mundo um pouco do que aconteceu.

Ao contrário dos meus colegas de mesa, não sou teóloga nem religiosa. Sou uma católica leiga, e é desse ponto de vista que gostaria de compartilhar algumas reflexões com vocês aqui, hoje.

Hoje é dia da Santíssima Trindade. A crença cristã na Trindade fala muito sobre a forma como nós, na longa tradição judaico-cristã, chegamos a expressar nossa intuição mais profunda a respeito de Deus. Nós acreditamos em um Deus que é Pai, que ama o Filho, que é amado pelo Pai, e o Espírito Santo é o veículo desse amor. Por isso a gente fala que Deus é Amor; mas, quando dizemos que Deus é amor, que Ele não poderia fazer outra coisas senão amar, isso quer dizer que o mais importante na nossa relação com Ele não é o que a gente pensa sobre Ele.

Jesus não veio fazer tratados ou teorias sobre Deus. Ele encarnou esse amor. Ele se aproximava das pessoas com espírito de total entrega, total abertura, a serviço das pessoas. E isso é um pouco chocante pra gente, pensar num Deus que se ajoelha na nossa frente e nos lava os pés.

Porque a gente tem uma tentação constante que é o desejo de poder Para Mim. Eu ganho, eu fico com isso pra mim, e você fica sem, azar o seu. Tem que ter sempre um que ganha e outro que perde. O efeito disso pras sociedades é que a gente cria, coletivamente, estruturas de poder baseadas na exclusão: cria normas e, se não se enquadrar, fora. É um mecanismo de controle muito eficiente, baseado sempre na ameaça de exclusão.

A mensagem revolucionária de Cristo foi derrubar esses muros de dentro e fora. Quando ele fala que nós somos irmãos que têm de ser amar e servir uns aos outros, ele nos torna todos iguais, sem ninguém em cima e outro embaixo, sem gente dentro e gente fora. As estruturas humanas são verticais. A proposta de Jesus é horizontal: todo mundo junto. Quando derruba muros, isso se torna muito perigoso, porque poe abaixo as estruturas de poder humanas. Isso é insuportável, e a gente escolhe: isso a gente não quer. E manda Cristo pra cruz. Porque ele ousou nos colocar todos como iguais, como irmãos. E a palavra-chave aqui é fraternidade. Guardem essa palavra, que é importante, e vamos voltar a ela já, já.

Daí a gente passa 2 mil anos divididos entre o quase entendimento que a gente tem dessa lógica nova do serviço, de lavar os pés do outro, de um Deus que diz SIM pra gente a ponto de respeitar a nossa escolha quando a gente diz pra ele Não, e coloca ele pra fora; ou tentar enquadrar essa história na lógica do nosso poder humano: então, Deus mandou seu Filho inocente pra morrer por nós. Então, temos uma dívida impagável com ele. E, se ele se sacrificou a esse ponto por nós, a gente tem um Deus que tem o direito de cobrar também da gente um sacrifício. E aí a gente deixa de ter um Deus que se entrega inteiro para nós tal como somos, de graça, sem a gente ter feito nada para merecer isso, e que quer acima de tudo ver a gente feliz AGORA, pra ter um Deus que nos fiscaliza e promete a nossa felicidade pra depois, SE a gente se comportar direitinho.

Então a gente tem, de um lado, a vivência de um Deus que ama a gente de graça, inteiro - e isso é inebriante, é arrebatador, é uma alegria imensa se saber amado assim, do jeito que a gente é. E do outro a gente tem um Deus que impõe uma lista de condições, e uma receita: se você fizer isso você está no bom caminho, tá salvo, tá dentro. Se não fizer, está fora.

A história da Igreja – e quando falo Igreja falo todo o povo de Deus, todos os batizados, todo o corpo de Cristo, do qual todos nós somos membros – é a história dessa divisão. Você vê nomes como Francisco de Assis, como Inácio de Loyola, como Hélder Camara, como Zilda Arns, como Dorothy Stang, como James Alison, como Marcio Retamero, que estão na rua, que estão diante dos seus irmãos e olham para eles não com um monte de afirmações e preconcepções de certo e errado, tentando enquadrar as pessoas nos seus próprios conceitos de bom e mau, mas sim como pessoas que antes de mais nada olham para o outro e perguntam: em que eu posso te ajudar? Como eu posso te servir? E você tem o contrário, o olhar de quem julga e condena de acordo com padrões preconcebidos e quando olha o outro, em vez de ver um irmão amado, mede a pessoa com os seus preconceitos de bom e mau, de certo e errado.

Agora vejam só: quando eu falo isso, parece que eu estou fazendo o que? Dividindo as pessoas em dois grupos: a galera que entendeu, e os que não entenderam. Os que estão no caminho certo, e os que estão no caminho errado. Naturalmente, eu estou do lado que entendeu, o lado certo, claro. Eu, que estou pensando nisso tudo, também faço isso, também caio na mesma esparrela. Por quê? Porque a lógica do nosso pensamento é a comparação, é a criação de dicotomias bom x mau, a divisão em dois lados. Dentro e fora. Incluídos e excluídos. É um aprendizado individual superar essa lógica e simplesmente se abrir para o encontro com o outro. Eu sou eu, você é você e vamos nos conhecer, sem julgamentos, sem categorizações, como pessoas diferentes uma da outra e únicas que somos.

E essas duas lógicas vão sempre conviver dentro da gente, o que cria uma tensão. E a gente vive nessa tensão, entre a abertura para o encontro e para o novo e o fechamento nas preconcepções que a gente usa para organizar o nosso mundo.

Coletivamente também é assim: nas sociedades e nas instituições. Na Igreja é assim. E é preciso entender isso porque hoje em dia existe uma tendência a dizer que gays e religiosos são incompatíveis. Assim como muitos fundamentalistas julgam e condenam os gays, muitos gays julgam e condenam os religiosos.

Ou não, a gente pode dizer simplesmente que a Igreja condena os gays e ponto, mas isso cria alguns problemas. Primeiro: a Igreja não é só a hierarquia. Somos todos nós. Então, qual Igreja condena os gays? O padre que destitui um rapaz das suas atribuições pastorais na paróquia porque ele contou que é gay? Ou o padre que sabe que um cara é gay e mesmo assim o indica para ser Ministro da Eucaristia e lidera da Pastoral da Liturgia da paróquia? Que Igreja condena os gays? O catecismo? Qual parte? A parte que diz que os gays devem ser respeitados como pessoas que são e acolhidos sem discriminação? A parte que diz que a gente tem que ser casto? Mas tem uma parte que diz que "ser casto" é viver a sua vida sexual e afetiva de maneira ordenada, de abertura e encontro com o outro. Ou a parte que, dentro daquela lógica do sacrifício, fala para a gente pegar a nossa cruz, e isso quer dizer entender AQUI, especificamente no caso dos gays, "castidade" como "celibato"? A parte que diz “ame o pecador, mas odeie o pecado” (que é uma coisa meio difícil de entender, porque como é que você separa a pessoa daquilo que ela faz? Cristo é amor. Cristo é ato, é aquilo que ele faz. Deus é Verbo, é ação. Como é que a gente separa quem a gente é, abstratamente, daquilo que a gente faz? Mas isso é outra história)? Qual Igreja condena os gays? O fundamentalista que berra "eu te amo, mas, demônio, sai desse corpo que não te pertence"? Ou a comunidade da minha paróquia, que me recebe junto com a minha mulher de braços abertos, e não dá a mínima se a gente é um casal?

Que Igreja condena os gays? O gay que sabe quem é e se aceita como é, porque se sabe amado e aceito por Deus, ou o que vive um sofrimento dilacerante, porque se sente julgado e excluído pelo próprio Pai?

O que eu quero dizer é que existe um jogo muito complexo de forças em ação nesse corpo coletivo que é a Igreja. Existem pessoas, grupos, religiosos, comunidades, iniciativas, de inclusão de gays. E existem pessoas, grupos, religiosos, leigos, que excluem os gays. E isso está muito além do que a gente escolhe ouvir dos pronunciamentos e dos documentos oficiais. Porque a gente escolhe o que vai escutar dos pronunciamentos e documentos oficiais, também, viu, gente? Tem um enorme recorte aí, a serviço das nossas próprias preconcepções do que é a Igreja e de como ela funciona. Mas a verdade é que, mesmo no que é oficial, com chancela do Vaticano e tal, existem as falas de exclusão e as de inclusão.

Este ano está fazendo 50 anos da convocação do Concílio Vaticano II, que aconteceu entre 1962 e 1965. Esse Concílio representou uma tentativa de transformação da Igreja. Você tinha uma Igreja cheia de vícios de 1950 anos de história, ao longo da qual ela se misturou muito com os poderes mundanos. Houve um longo momento da história em que o Estado, no Ocidente, desapareceu, ficou todo fragmentado, e a Igreja virou a fonte de organização da sociedade. Ela passou a ser o Estado. Mas aí, o tempo passou, as mudanças vieram, o Estado surgiu de novo, quer dizer, voltou a haver uma estrutura pública e, curiosamente, passou a se entender que essa estrutura pública tinha que cuidar e zelar pelo bem-estar dos cidadãos, prestar serviços. Onde antes você tinha os poderosos explorando o povo, e se você era poderoso, muito bem; se você era povo, dane-se – você passou a ter aos poucos, cada vez mais, a noção de cidadania, de direitos para todos. Antes quem tinha direitos era um grupinho, uma elite; aos poucos cada vez mais gente passou a ter direitos: primeiro, os de determinadas linhagens (os nobres); depois, os que tinham dinheiro; depois, os direitos foram estendidos a todos os homens brancos acima de determinada idade; depois, às mulheres, aos negros, e também as crianças e jovens e velhos começaram também a ter seus direitos assegurados e protegidos. Mas isso é uma novidade muito recente na história, coisa de 2-3 séculos para cá. A gente hoje vive num país que diz que todo mundo é igual perante a lei, todo mundo é cidadão, e esquece que nem sempre foi assim.

Então, o Concílio Vaticano II foi uma tentativa da Igreja de entender e se adaptar a esse mundo. De se perguntar: tá, então neste novo mundo, a gente entra onde? Pra que a gente serve? E daí saíram duas conclusões muito importantes: primeiro, a noção de que, para além da imposição de uma lista de certos e errados, o que cada pessoa tem de mais importante, o que torna todo mundo igual, igualmente digno, o que cria uma dignidade humana que é inerente a todas as pessoas e faz com que todas as pessoas sejam portadoras dos mesmos direitos, é a liberdade de consciência.

“A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes. Isso significa que qualquer norma deve ser colocada diante da consciência de cada um. E cada um de nós é responsável por estar atento à própria consciência, e não ir contra ela.

Os documentos do Concílio dizem que a liberdade de consciência, a liberdade de crença, é a mais importante de todas porque é a base de todas as outras e de todos os direitos. E daí veio a segunda conclusão muito importante do Concílio: se existe liberdade de consciência, a gente não tem uma única maneira de perceber a verdade, então não existe só um certo ou só um errado. Porque a verdade, ou o sagrado, não tem como ser inteiramente apreendida por um ser humano ou um grupo. Não existe mais o dono da verdade, e ou você está com ele, ou está contra ele. Ou está do lado certo ou do lado errado, ou dentro, ou fora. Existe um monte de gente e grupos, cada um dentro da sua percepção inevitavelmente limitada da realidade contando pros outros o que está podendo ver dali de onde está.

Como os cegos apalpando o elefante, vocês conhecem essa história? Um pegava no rabo e dizia “ah, o elefante é um animal curto e roliço como um graveto fino”. O outro pegava na tromba e dizia: “Você está louco, o elefante é um animal cilíndrico e flexível, e grosso como um grande galho de árvore”. E um terceiro, apalpando o pé do elefante, exclamava “Vocês estão errados, o elefante é rígido e ereto como um tronco de árvore”.

Então, o Concílio vem falar no pluralismo da sociedade em que a gente vive, e em como é imprescindível a Igreja respeitar as diferenças e se colocar aberta para o diálogo com a diversidade. Vale a pena ler documentos como a Gaudium et Spes ou a Dignitatis Humanae. São lindas.

Aliás, está justamente aí a fundamentação do necessário laicismo do Estado, pois só um Estado Laico pode assegurar essas liberdades individuais mais fundamentais e o direito à diferença. E a própria Igreja, em documentos como esses dois que acabo de citar, reconhece a necessidade imperiosa do Estado Laico.

E aí a gente lê esses documentos de 50 anos atrás e pergunta: onde está essa Igreja? Por que salta muito aos olhos a dificuldade da instituição em colocar essa postura de diálogo aberto em prática, essa maneira de perceber o mundo e as pessoas de uma maneira verdadeiramente fraterna. E olha aí a palavra fraternidade de novo: porque, se você tem um mundo de pessoas igualmente livres nas suas consciências, você tem um mundo de irmãos, que vivem as suas histórias e procuram se ajudar na busca honesta da verdade, cada um com a contribuição única do seu próprio olhar.

E onde está essa Igreja que dialoga? Ela está mudando. Porque é muita gente, é uma estrutura muito pesada, e todas as mudanças ao longo de 2 mil anos de história vieram assim: da mudança das bases, da mentalidade dessa multidão, para o alto. O alto, onde está o poder, resiste, claro, então muda devagar.  Por isso é responsabilidade de cada um de nós estar atento à própria consciência, porque é nesse conjunto da base, de todas as nossas consciências juntas, que sopra o Espírito da Verdade. Porque só juntos a gente enxerga o elefante, e quanto mais forem as pessoas de olhos abertos, melhor visão a gente tem desse elefante. E isso é diálogo. O diálogo está acontecendo aqui, agora. O diálogo acontece quando as pessoas se encontram. Se a gente divide o mundo em estereótipos, seja o estereótipo do gay, seja o estereótipo do religioso, do fundamentalista, não tem pessoas, não tem encontro, não tem diálogo. O encontro e o diálogo acontecem entre pessoas.

Coletivamente, nós, gays, temos uma grande contribuição para dar à Igreja e ao mundo: quando, indo contra todas as normas e preconceitos, a gente está tão em contato com a nossa consciência e com quem a gente é que sabe que não pode se esconder da gente mesmo e tem que ser quem a gente é, a gente está em contato com a nossa verdade. E a nossa verdade mais profunda é um pedacinho da verdade maior. É o nosso pedacinho do elefante.

O Evangelho diz “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E isso, essa honestidade profunda com a verdade da nossa consciência, é uma dádiva. Essa é a nossa contribuição, é dizer “olha, mesmo contra todas as dificuldades, você tem que ser verdadeiro com você mesmo, porque isso é libertador. Eu estou conseguindo, viu? Experimenta. Isso derruba muros. Incomoda, porque a emancipação exige responsabilidade e maturidade, e é difícil, mas também é tão profundamente libertador”. Essa é a dádiva que os gays oferecem para o mundo.

Domingo passado foi Pentecostes, a festa do Espírito Santo. Que o Espírito da Verdade e do Amor nos inspire para o encontro e a abertura com os irmãos. E que nós possamos, gay e não-gays, religiosos e não religiosos, cada vez mais assumir as nossas responsabilidades perante nós mesmos e nossas consciências, e trabalhar por um mundo melhor, em que a gente possa ser mais irmãos.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

sábado, 2 de junho de 2012

Pastor gay critica fundamentalistas e defende teologia inclusiva


Nosso amigo Marcio Retamero é teólogo, historiador e pastor presbiteriano, e participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", amanhã, dia 03/06 (saiba mais aqui), falando sobre "Homossexualidade e Bíblia".

(Fonte: Bule Voador)

A Igreja Católica está se reduzindo a uma seita?

Intervenção: Jim Lambie

Se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

A análise é de Jamie L. Manson, teóloga católica e mestre em teologia pela Yale Divinity School. Suas colunas no jornal National Catholic Reporter - NCR - renderam-lhe um prêmio da Catholic Press Association por melhor coluna/comentário regular em 2010. O artigo foi publicado no sítio do jornal NCR, 24-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Muito tem se falado nos últimos meses sobre um anúncio publicado no The New York Times (imagem abaixo) encorajando católicos liberais e nominais a "sair da Igreja", porque ela nunca poderá ser mudada a partir de dentro e porque participar dela é colaborar com o seu sistema opressivo.

O anúncio foi pago por uma organização chamada Freedom from Religion Foundation. Mas, quanto mais eu reflito sobre o anúncio e sobre o comportamento da nossa hierarquia ultimamente, há uma parte de mim que não ficaria surpresa se ficássemos sabendo que o próprio Vaticano secretamente pagou pelo anúncio.

Com os seus ataques contra o casamento homossexual, a batalha contra a prestação de cuidados de saúde adequados às mulheres, o golpe hostil contra a LCWR [Leadership Conference of Women Religious] e a inquisição contra as meninas escoteiras, a hierarquia continua se apresentando como um embaraçoso espetáculo midiático em uma sociedade que há muito tempo se recusa a aceitar o ensino sobre o controle de natalidade, que acredita na igualdade das mulheres e que, cada vez mais, apoia o casamento homossexual.

Mesmo aqueles que não são afetados diretamente por essas batalhas ideológicas acham odioso o fato de que a hierarquia prefere gastar uma quantidade preciosa de dinheiro e de recursos em ações judiciais contra o governo Obama e em bizarras novas campanhas como a Fortnight for Freedom [período de oração e reflexão sobre a liberdade religiosa proposto pela Conferência dos Bispos dos EUA para os dias 21 de junho a 4 de julho].

Os líderes da Igreja parecem obcecados por privar de seus direitos o maior número de leigos possível.

A pergunta é: por quê? Por que a hierarquia está agindo como a nova chefe que, para se livrar da equipe que herdou, torna tudo o mais desconfortável possível para que não permaneçam na organização? As lideranças da Igreja tomaram uma decisão por reduzir seu tamanho? Será que ele perceberam que os 2,2 bilhões de dólares em acordos em torno dos abusos sexuais e o número rapidamente decrescente de padres nos Estados Unidos tornou a Igreja incapaz de prover as necessidades dos 72 milhões de católicos?

Talvez, todas essas batalhas ideológicas – que, dizem, estão fundamentadas no desejo do Papa Bento XVI de uma Igreja menor e mais fiel – tenham realmente tudo a ver com dinheiro, ou com a falta dele. Mais de um comentarista sugeriu que o fim da repressão contra a LCWR poderia estar na recaptura de propriedades, bens e reservas de pensão das comunidades religiosas.

Infelizmente, se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

Em seu livro The Sacred Quest, os estudiosos Lawrence Cunningham e John Kelsay descrevem as características de uma Igreja e de uma seita. Eles contam com o trabalho pioneiro do estudioso alemão Ernst Troeltsch - o primeiro a fazer essa distinção com base em suas observações na Europa -, do início do século XX, quando comunidades religiosas como a Igreja da Inglaterra estavam em contraste com grupos dissidentes, como os quakers, cujas crenças religiosas os excluíram da cultura dominante de seu país.

Cunningham e Kelsay definem uma igreja como "uma comunidade religiosa de alguma posição social que convida todos os membros de uma sociedade a participar de suas atividades, tem uma participação no bem-estar da comunidade social, e afirma ser o guardião da verdade religiosa".

Uma seita, por outro lado, "tende a exigir mais da conformidade em seus membros, é exclusiva, distancia-se das preocupações da sociedade em geral e também afirma ser a portadora da verdade religiosa." Seitas são "exclusivistas, introspectivas e têm algumas tensões com a cultura dominante". Exemplos atuais de seitas seriam os Amish ou os judeus hassídicos.

Enquanto a hierarquia e seus devotos gastam todo o seu tempo e energia exilando os "dissidentes" na Igreja, são eles que estão se tornando dissidentes na sociedade. O chamado de Bento XVI para a obediência radical e a recusa de questionamentos soa mais como a demanda absoluta de uma seita para o conformismo do que o chamado para uma igreja universal.

A recusa da hierarquia em reconhecer a necessidade crucial de contracepção global, bem como um sacerdócio que inclua mulheres e pessoas casadas, é um sinal claro de seu isolamento contínuo com relação às preocupações da sociedade.

Alguns na hierarquia e muitos dos que estão no movimento neoconservador até já se voltaram para a noção pré-Vaticano II de que a salvação só pode vir através da Igreja Católica Romana.

Até mesmo os trajes a Igreja Católica estão se tornando sectaristas. Jovens seminaristas e recém-ordenados tornaram-se notórios por arrastar para fora dos armários da Igreja túnicas amarradas como saias, pluviais e manípulos repletos de traças. E qual leitor do NCR pode se esquecer do galero do cardeal Raymond Burke, ou da exibição da capa magna de 20 metros de comprimento do bispo Edward Slattery James na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição [veja as fotos no post original, aqui]?

Quem pode ficar feliz e em paz na Igreja institucional, exceto aqueles que possuem pontos de vista extremistas e contraculturais? Claro, alguém pode argumentar que o próprio Jesus foi considerado extremista e contracultural em seu tempo. Mas aqui está a diferença: Jesus não tinha medo do mundo.

Jesus nunca permitiu obediência absoluta à lei para trunfar as necessidades pastorais da das pessoas diante dele. Ele desafiou o ritual religioso em prol da cura do sofrimento. Ele chamou todos - coletores de impostos, homens ricos, mulheres, bêbados, prostitutas - para a sua mesa, sem exigir nenhum teste de fidelidade ou confissões.

A Igreja Católica Romana está se tornando rapidamente um refúgio para aqueles que têm medo do mundo. A Igreja que, há 50 anos, chamou a si mesma para imergir no mundo moderno está, em vez de encolhendo, recusando-se a se envolver de uma forma significativa e pastoral com as lutas e necessidades humanas de hoje.

A hierarquia está tão arraigada em ideologias que esqueceu que existem complexas histórias humanas por trás de questões como a contracepção, a ordenação de mulheres e o casamento homossexual. Não é à toa que eles têm tanto medo de mulheres religiosas - que construíram uma Igreja de integridade e credibilidade moral por imersão na realidade da vida humana e pela coragem de se comprometer com um mundo cheio de sofrimento, fissura, imprevisibilidade e paradoxo.

Ao invés de permitir que o ministério da Igreja cresça e evolua com a comunidade humana, a hierarquia parece estar escolhendo o caminho de um grupo religioso dissidente. Ao fazer isso, eles estão abandonando, de bom grado, aqueles que esforçaram-se por décadas para permanecer fiéis à Igreja, mesmo através da desgraça dos abusos sexuais e da rescisão gradual das promessas do Concílio Vaticano II.

E quando essa geração de fiéis morrer, quem entre as novas gerações irá achar vida e sentido nesta Igreja-seita? Aqueles que querem fugir de um mundo em fluxo, com sofrimento, incerteza e luta pela igualdade? Aqueles que querem se recolher em um enclave fundamentalista onde homens europeus e patriarcais afirmam ter a verdade absoluta e inquestionável sobre Deus e sobre o nosso mundo?

Talvez seja uma Igreja mais fraca do que a hierarquia e seus devotos acham que querem. Talvez isso é tudo o que as lideranças sê veem realisticamente capazes de pagar. Quaisquer que sejam as motivações, se eles continuarem nesse caminho, terão que aceitar que deixarão de ser uma Igreja no mundo moderno e, ao contrário, se transformarão em uma seita exclusivista e isolada.

Foi Deus quem mandou?

Do querido Murilo Araújo (em mais um editorial brilhante para o Vestiario.org), que já chegou no Rio de Janeiro e nos dará a alegria de participar do nosso evento amanhã (saiba mais aqui), partilhando conosco seu testemunho de gay cristão:
(...) me deparei com a seguinte notícia, hoje mais cedo: “Pastor diz em sermão que governo deveria matar homossexuais”. Minha primeira reação foi pensar: “como assim? Que ano é hoje? Inquisição, é você? Não, pera… Inquisição era coisa dos católicos, e o cara aí não é padre, é pastor.” Depois de me dar conta de que a história parecia verdadeira mesmo, de que estamos mesmo em 2012, minha segunda reação foi uma mistura de nojo e revolta. A terceira foi vir escrever. 
Sei que a crítica que essa figura precisa receber pode até parecer óbvia, sei que um cara desses merece nada mais que desprezo pela sua suprema imbecilidade, sei até que muita gente deve estar começando a encher o saco de me ver falar sempre dessa questão de religião no debate sobre homofobia. Mas desculpa, eu não consegui ficar na minha. Se me revolto só de pensar que ainda existe gente encarando a homossexualidade dessa maneira, imaginem o tamanho da indignação que me bate quando vejo uma suposta autoridade propagar esse tipo de discurso de ódio, com a mesma tranquilidade (e uma pitada a mais da veemência) com que mandaria as pessoas rezarem antes de dormir. 
E não é o primeiro caso: na semana passada, após Barack Obama ter defendido abertamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o pastor Charles Worley, da Carolina do Norte, sugeriu que gays e lésbicas fossem trancados em campos de concentração, rodeados por cercas eletrificadas, como uma forma de se ver livre deles e delas – afinal de contas, isolados do resto do mundo, “eles não podem se reproduzir”. 
Desta vez, no mesmo estado (onde um referendo popular proibiu casamento e união civil entre homossexuais um dia antes da declaração de Obama), foi a vez do pastor Curtis Knapp ir ainda mais longe e defender morte. Assim, direto. Pelo menos teve a decência de esclarecer que a ideia não era dele, e mencionar o suposto autor original, ninguém mais ninguém menos que Ele, o “Todo-Poderoso”: “Você dirá: Oh, eu não posso acreditar, você é horrível. Você é um neanderthal. É disso que você está chamando Deus? Ele é um neanderthal? As Escrituras são a sua palavra ou não? Se é a sua palavra, ele ordenou. É sua ideia, não a minha. E eu não me envergonho disso. Ele disse que os colocará à morte. (…) Você tem uma ideia melhor? Uma ideia melhor do que a de Deus?”. 
E o que me deixa mais curioso nessa história é a apropriação indevida das tais boas ideias de Deus, usadas apenas na hora em que interessa. Duvido muito que estes mesmos pastores que invocaram a citação bíblica de Levítico para destilar sua homofobia deixem de comer moluscos quando queiram (Levítico 11, 10), ou de fazer a barba quando incomodar (Levítico 19, 27; Levítico 21, 5) ou ainda que ordenem que as mulheres de suas igrejas raspem as cabeças se não desejarem usar véus dentro dos templos (Carta de Paulo aos Coríntios 11, 6). Não é estranho ser fundamentalista para algumas coisas, relativizando outras com tanta tranquilidade
Penso na quantidade de fieis presentes dentro destas igrejas, ou até mesmo fora delas, que certamente sairão pelas ruas repetindo este tipo de discurso de ódio, e promovendo todo tipo de violência. Acho que todo mundo tem memórias de algum homofóbico (por menos religioso que seja) afirmando que Deus fez o homem para a mulher, como justificativa para não apoiar a igualdade de direitos. Isso para não falar dos muitos casos de espancamentos a chute, pedra e lâmpada. Ou dos constantes assassinatos – que é exatamente o que o tal pastor está querendo que o governo faça. 
E quem calará a boca destas figuras? Quem, se a sociedade também homofóbica dá a eles o direito de dizer as babaquices que quiserem, sob o suposto princípio da liberdade de expressão? É por essas e outras que ainda escrevo sobre este assunto. Se eles podem dizer aquilo que quiserem, ao menos precisamos nos preocupar em escancarar o preconceito e a intolerância. (...)


Leia também:
Porque nada justifica a homofobia. Nem a Bíblia
Leia o texto do Murilo na íntegra aqui

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Evangélicos e católicos pedem defesa da liberdade religiosa

Arte: Jose Romussi

O movimento Evangélicos e Católicos Juntos (Evangelicals and Catholics Together) alude, em manifestação pública, à urgente necessidade de defender a verdadeira liberdade religiosa e admite que os cristãos fracassaram, com frequência, “em querer viver essa liberdade, perseguindo outras religiões ou fazendo uso de métodos coercitivos de proselitismo”.

A informação é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 10-05-2012, aqui reproduzida via IHU.


O documento insta católicos e evangélicos a trabalharem juntos na busca do respeito às crenças, pela liberdade religiosa, também na América do Norte e na Europa, como parte dos direitos democráticos. A história mostra que as sociedades religiosamente livres são melhores para o povo e mais segurar para o mundo, aponta o texto.

Expressa, ainda, a necessidade de manter a separação real entre Igreja e Estado, garantia legal para a liberdade religiosa. Católicos e evangélicos propõem que o papel dos cidadãos, tanto crente como não crentes, esteja no mesmo plano público, a fim de trabalhar pela construção de um espaço real de liberdade e de debate.

Evangélicos e Católicos Juntos reporta-se também à perseguição que cristãos sofrem nos Estados Unidos por defenderem a religião islâmica e o radicalismo do uso de símbolos religiosos. “Mas a liberdade religiosa também está em perigo em alguns países onde o idioma dos direitos humanos é parte do vocabulário moral público”, mencionando casos de problemas com a legislação norte-americana em relação à objeção de consciência para os médicos que se negam a realizar abortos ou aos ministros religiosos que se opõem aos casais gays.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (3)

Foto: Tony Park

Começamos a publicar há duas semanas (veja a primeira parte aqui e a segunda, aqui), em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

A Sagrada Escritura
Com relação à Sagrada Escritura e a homossexualidade, convém ir além da leitura ao pé da letra. Há novas maneiras de se compreender os textos bíblicos, utilizando o método histórico-crítico que os situa em seus respectivos ambientes sócio-culturais, com seus modos de expressão próprios. A Igreja reconhece esta abordagem desde o tempo do papa Pio XII, e a aprofundou com o Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que busca harmonizá-la com os conteúdos da fé.

A Revelação divina testemunhada na Bíblia é proposta e expressa de modos diversos, através de ‘gêneros literários’ históricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa que o intérprete busque o sentido que os autores sagrados em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos gêneros literários então usados. Para se entender corretamente o que os autores sagrados quiseram afirmar, devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre os homens daquela época (Dei verbum, nº12).

No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Há uma espécie de heterossexualidade universal que está suposta, expressa no imperativo ‘crescei-vos e multiplicai-vos’. O livro que contem este preceito, o Gênesis (1,28), foi escrito no tempo do exílio judaico na Babilônia. Para o povo de Israel, expulso de sua terra e submetido a uma potência estrangeira, crescer era fundamental para a sobrevivência da nação e da religião. O sêmen do homem supostamente continha o ser humano inteiro em miniatura, e deveria ser colocado no ventre da mulher assim como a semente é depositada na terra. Não se conhecia o óvulo. O sêmen jamais deveria ser desperdiçado, como mostra a história de Onã, fulminado por Deus por causa deste tipo de transgressão (Gên 38,1-10).

É neste contexto que a relação sexual entre dois homens era considerada uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, pelo seu culto e por uma série de usos e costumes, segundo o código de santidade do livro do Levítico. Aí se inclui a proibição do homoerotismo (Lv 18,22). Proíbe-se também, e com rigor: trabalhar no sábado, comer carne de porco ou frutos do mar (ou qualquer animal marítimo ou fluvial que não tenha barbatanas e escamas), aparar o cabelo e a barba, tocar em mulher mestruada durante sete dias, usar roupa tecida com duas espécies de fio, semear no campo duas espécies de semente e acasalar animais de espécies diferentes. Quando o cristianismo se expandiu entre os povos não judeus, este código deixou de ser normativo, mas a proibição do homoerotismo permaneceu. A Igreja herdou a visão antropológica da heterossexualidade universal, com suas interdições.

O pecado de Sodoma foi recusar hospitalidade, levando à tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. Com freqüência, o estupro era uma forma de humilhação imposta por exércitos vencedores aos vencidos. Originalmente, o delito de Sodoma era visto como “orgulho, alimentação excessiva, tranqüilidade ociosa e desamparo do pobre e do indigente”. Através do Profeta, o Senhor diz: “Tornaram-se arrogantes e cometeram abominações em minha presença” (Ez 16, 49-50). Posteriormente tal pecado foi identificado com o homoerotismo, mas na origem ele nada tem a ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo, ou mesmo com as relações sexuais livremente consentidas entre pessoas do mesmo sexo.

Há um relato semelhante ao de Sodoma no livro dos Juízes (cap. 19 e 20). Um levita e sua concubina se hospedaram na cidade de Gabaá, da tribo de Benjamin. Os habitantes da cidade hostilizaram os visitantes e estupraram até a morte a concubina do levita. O Senhor suscitou os israelitas contra aquela cidade, e ela foi completamente destruída. Não se deve, a partir deste relato, condenar a heterossexualidade. O que se condena, tanto em Sodoma quanto em Gabaá, é a falta de hospitalidade e a hostilidade violenta para com a pessoa que vem de fora.

No Novo Testamento, a carta de São Paulo aos Romanos contém uma refutação do politeísmo (1,18-32). Os pagãos não adoravam o Deus único, mas as criaturas. E ainda permitiam o homoerotismo, que era abominação para os judeus. Este comportamento era visto como castigo divino pela prática religiosa errada: “Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas”. Outros escritos paulinos têm a mesma posição, associando o homoerotismo à idolatria e à irreligião (1 Cor 6, 9-11; 1 Tm 1, 8-11). No contexto judaicocristão da antiguidade, este argumento era compreensível. Não havia o que atualmente se entende por orientação sexual: uma característica constitutiva dos indivíduos que os faz gays ou héteros. É algo que nada a ver com a crença em um ou em vários deuses, ou com qualquer prática religiosa.

Muitas vezes estes textos bíblicos são usados sem a devida contextualização de sua época, sociedade e cultura; e sem a devida compreensão da situação presente, em um forte assédio moral contra pessoas homossexuais. Os norte-americanos chamam isto bible bullets, balas bíblicas. Elas são impiedosamente disparadas e ferem a autoestima das pessoas de modo devastador. A Palavra de Deus, fonte de vida em plenitude, acaba por gerar uma chaga profunda de sofrimento intenso, depressão e morte. É um terrorismo espiritual, face perversa do fundamentalismo religioso.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Parlamento Brasileiro, o PLC 122 e a Diversidade nas Escolas Públicas


Artigo do Rev. Marcio Retamero (que participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06, falando sobre "Homossexualidade e Bíblia") para o Bule Voador:

No último dia 15 de maio, estive em Brasília participando no Senado Federal e na Câmara dos Deputados de dois eventos comuns à agenda LGBT no Brasil. No primeiro, participei do Congresso LGBT sobre o PLC 122, convocado pela Senadora Marta Suplicy; no segundo, do IX Seminário LGBT, que debatia o ensino sobre a diversidade sexual nas escolas públicas brasileiras.

No Senado, pela manhã, meu objetivo não era defender o governo ou TODOS os artigos do PLC 122, mas falar desde o lugar em que me encontro enquanto teólogo e pastor cristão progressista e inclusivo; cidadão gay e pastor de pessoas que amam pessoas do mesmo sexo, bem como pessoas que amam pessoas do sexo oposto. Fui pontuar as questões urgentes em torno da homofobia e a urgência de uma lei que contemple e tipifique a homofobia como crime de ódio, dentre outras coisas que o PLC 122 advoga.

Muito estardalhaço foi feito no Brasil desde que em 2006, a deputada Iara Bernardes do PT de SP deu início ao Projeto de Lei nº 122/2006. Assim que os setores conservadores e fundamentalistas da religião cristã evangélica no Brasil tomou conhecimento do texto, o Pastor Silas Malafaia se auto-elegeu o maior inimigo da causa gay no Brasil, o paladino contra o PLC 122 e tem vencido com sua verborragia insana e argumentos frágeis de desconstruir. Contudo, tem encontrado eco e a anuência da sociedade brasileira, não apenas entre os evangélicos, diga-se de passagem. Basta ler os comentários que são postados nos sites onde o dito pastor aparece falando sobre o PLC 122, que verificamos ser verdade o que aqui coloco.

Tenho meus “senões” com o PLC 122, eu confesso. Desde que este Projeto nasceu, tenho dito aos líderes do Movimento Homossexual no Brasil que este é um projeto natimorto, infelizmente. O PLC 122 quis, na verdade, como dizemos no popular, “abraçar o mundo com as pernas” e deu no que está dando, ou seja, em nada. No próximo ano, ele será arquivado, certamente, sem ter sido tocado pelos senadores e senadoras, pois é neste estágio que ele está parado, no Senado Federal.

A senadora Marta Suplicy tentou dar uma nova roupagem ao PLC 122, principalmente no que diz respeito à tal “liberdade de expressão” que o tal do maior inimigo da causa gay no Brasil tanto gosta de apontar no tal Projeto. O Movimento Homossexual não gostou da nova roupagem da Marta e retornamos à segunda versão do Projeto, cuja redação é da senadora Fátima Cleide, que acabou não se reelegendo ao Senado por conta, talvez, da sua defesa e trabalho contra a homofobia no Brasil.

O texto do PLC 122 criminaliza alguns atos preconceituosos ou difamatórios contra as pessoas LGBT como p.ex. a agressão verbal ou física em caso de demonstração pública de afeto, o discurso injurioso contra pessoas LGBT, a demissão trabalhista por orientação sexual e o discurso homofóbico, ou seja, o pensamento filosófico contra a homossexualidade. Talvez este seja o ponto mais fraco do PLC 122 que fez com que a sociedade brasileira, em sua maioria, não ficasse ao lado do PLC 122.

No site da ABGLT, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais do Brasil, podemos consultar no link legislação, todas as leis que já temos em vigor nos municípios e estados da nossa Federação em relação à homofobia, identidade de gênero etc.

O site nos informa, por exemplo, que em mais de uma dezena de municípios e estados da Federação, já existem leis que protegem as pessoas LGBT do preconceito e da agressão verbal ou física em estabelecimentos públicos por demonstrações de afetos publicamente; uma grande parte dessa legislação não tem caráter criminalizador, mas pedagógico, multando o estabelecimento ou a pessoa que agride pessoas LGBT. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, temos a Lei 3406 de 15 de maio de 2000 [http://www.abglt.org.br/port/leiest3406.htm], sancionada pelo então governador evangélico, hoje deputado federal, Anthony Garotinho, a redação da Lei foi do então deputado estadual Carlos Minc.

Pela lei carioca, o cidadão ou a cidadã LGBT tem o direito de, assim como os heterossexuais, exprimirem seus afetos publicamente e as sanções são pesadas contra os lesionados pelos estabelecimentos comerciais, associações etc. A penalidade pode ser a multa, perda de função no caso do funcionalismo público e fechamento ao público no caso de estabelecimento comercial. Portanto, a lei carioca não dá cadeia, mas ensina; não criminaliza, mas adota uma função pedagógica.

O PLC 122, para artigo similar, penaliza o réu. Dá cadeia. Assim como demitir alguém por orientação sexual. Está ai, meu desacordo com o PLC 122, ele deveria ser pedagógico e não criminalizador.

Fui para o Senado Federal com os argumentos afiados em relação aos detratores do PLC 122, principalmente a Frente Parlamentar Evangélica. Tentando ser sucinto, me coloquei dizendo:

1 – É preciso diferenciar, cada vez mais e melhor, liberdade de expressão de discurso injurioso. Qual é o limite da liberdade de expressão? Podemos usá-la para ofender e injuriar pessoas? Agredi-las verbalmente com palavras chulas, comparando-as aos párias sociais e toda sorte de gente de má conduta social como fazem os pastores evangélicos em suas pregações?

2 – Tipologizar o crime como homofóbico quando há assassinato e lesão corporal e verbal. Crimes homofóbicos são crimes “assinados”. Nunca são poucas facadas, mas muitas facadas. Nunca são poucos tiros, mas muitos tiros. Os requintes de crueldade são característicos deste tipo de crime, basta compará-los conforme nos informa os jornais, de como a polícia encontra a vítima. Não dá pra comparar um crime homofóbico, assinado como tal, com o assassinato por dívidas com o tráfico ou um assassinato circunstancial de um cidadão no calor da hora de um assalto, por exemplo. A lesão corporal bem como a agressão verbal, também devem ser tipificados como crime, pois ambas lesam e muito, as vítimas. Palavras também ferem e trazem prejuízos à psique humana.

3 – Questões trabalhistas. Não deveria “dar cadeia”, mas multa e uma multa grande aos patrões que demitirem uma babá por ela ser lésbica ou um vendedor de loja por ele ser gay. Não podemos, com base na orientação sexual das pessoas, medir seu caráter, se assim fosse, os heterossexuais, que são a maioria da população estariam em maus lençóis. Demitir alguém por que esse alguém é LGBT ou não admitir no emprego, por questão de orientação sexual e gênero deve ser tipificado na lei como homofobia, mas não criminalizar, na minha opinião, o empregador, antes, fazê-lo entender, onde o ser humano é mais sensível, no bolso, que assim não pode ser.

4 – No caso do discurso injurioso, a mesma coisa. Não deveria “dar cadeia”, mas mexer no bolso daquele que ofende com seu discurso o cidadão ou cidadã homossexual. Aqui entram os pastores que elegeram os LGBT como a “última Geni”, em referência à música de Chico Buarque. Não sei porque, mas os pastores gostam de proferirem em seus púlpitos discursos injuriosos contra homossexuais. Os comparam com toda sorte de coisas ruins e de exemplos ruins na sociedade. Sempre dão um jeito de comparar homossexuais com pedófilos, por exemplo, contrariando as estatísticas, pois sabemos, já que a pedofilia é crime tipificado (o que nos dá dados concretos sobre este tipo de crime), ao contrário da homofobia, que a maioria dos pedófilos são heterossexuais do sexo masculino, cerca de 70%, próximos ao menor de idade alvo, como pais, tios, avós, pastores e padres e que é mínimo a participação de pessoas LGBT neste tipo de crime.

A Bíblia diz muito sobre vários assuntos desde o Velho ao Novo Testamento e ninguém, nenhuma vertente cristã pode se considerar cumpridora do que realmente a Bíblia ordena, uma vez que ela ordena coisas impensáveis hoje como vender a filha para pagar dívidas ou não semear dois tipos de semente na mesma terra ou comer camarão ou matar o filho mentiroso porque ele mentiu.

Usar a Bíblia hoje contra as pessoas LGBT como no passado ela foi usada contra negros, índios e mulheres e toda sorte de pessoas que a Igreja considerava hereges não cabe mais numa sociedade cujo estado é de direito, democrático e laico, ou seja, secular.

Assim como a Bíblia diz que os homossexuais não herdarão o Reino dos Céus (numa leitura “literal” de uma das cartas de Paulo), também diz, numa das Cartas de Paulo, que os judeus mataram Jesus e que a mulher deve ser submissa ao homem, usando véu na Igreja e nada nela falar, somente perguntando em casa, ao macho, o que não entendeu na Igreja.

Assim como a Bíblia diz que os filhos de Cã, identificados com os africanos não são pessoas de boa índole e que são afeitos à toda sorte de males e idolatrias.

A Bíblia diz, em certa altura, no Novo Testamento, que os judeus mataram Jesus e que por isso “o seu sangue deve ser sobre eles”, ou sejam, devem ser mortos.

Muita coisa a Bíblia diz… Contudo, porque hoje os pastores não pregam mais que negros não têm alma, que a mulher deve ser submissa (embora alguns mais radicais ainda acreditem nisso) e que os judeus são dignos de pena de morte porque “mataram o Senhor Jesus?” Porque tais pessoas são protegidas pela Lei.

Então, as pessoas LGBT são a última “Geni” dos religiosos, não sobrara para eles nenhuma outra categoria de pessoas para sentarem a língua com todo tipo de discurso injurioso, que está bem longe da tão advogada liberdade de expressão como querem os evangélicos fundamentalistas.

O Pastor Malafaia gastou dezenas de milhares de reais para espalhar pelo Rio de Janeiro outdoors dizendo: “Por que Deus criou macho e fêmea”. Escreveu nos outdoors o óbvio do óbvio, uma vez que um homossexual masculino não deixa de ser macho, tampouco uma homossexual feminina deixa de ser fêmea, nem mesmo as travestis deixam de ser machos, com exceção das transexuais, que mudam de sexo por uma questão de saúde psíquica e física.

Acredito que a “cruzada” que Malafaia tomou para si, arregimentando quase por completo a parcela evangélica da sociedade e ganhando adeptos entre nem os que crentes são por conta do caráter criminalizador do PLC 122. Caso as questões de injúria e não de liberdade de expressão (os religiosos podem continuar tratando a homossexualidade como pecado, caso assim acreditam, embora haja controvérsias) fosse tratada pelo PLC não como crime, que “dá cadeia”, mas mexendo no bolso deles, ainda que gritassem alto contra o PLC 122, porque eles sabem que seriam atingidos, seu discurso perderia muita força.

Basicamente é isso o que fui dizer ao Senado Federal. Não sei se me ouviram ou se me ouvirão. A participação no 9º Seminário LGBT da Câmara dos Deputados e questão que envolve a diversidade sexual nas escolas, tratarei em outro texto, posto que este já está de bom tamanho.

- Marcio Retamero, teólogo, historiador e pastor presbiteriano, participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06 (saiba mais aqui), falando sobre "Homossexualidade e Bíblia".

domingo, 27 de maio de 2012

Uma fé para além do ressentimento


“Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele”, reflete James Alison [que participará da mesa-redonda em nosso evento no dia 3/6, aqui no Rio de Janeiro - mais informações aqui] na entrevista exclusiva que concedeu por telefone à IHU On-Line. Ele analisa a possibilidade de uma fé para além do ressentimento. Em sua opinião, isso é possível “quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém”. E frisa: “Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem”.

Outro tema da conversa com Alison foi a questão do desejo rivalístico. James explica que o desejo não nasce em nós, mas nos outros. “Assim, nossos desejos são ‘emprestados’”. E pondera: “Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico”.

James Alison (Londres, 1959) é teólogo católico, sacerdote e escritor. Com estudos em Oxford, é doutor pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte. É considerado um dos principais expositores da vertente teológica do pensamento de René Girard. Atualmente é Fellow da Fundação Imitatio, instituição que apoia a divulgação da teoria mimética. Há mais de 15 anos é um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays. Seu trabalho é respeitado em todo o mundo pelo caminho rigoroso e matizado que tem aberto nesse campo minado da vida eclesiástica. Seus sete livros já foram traduzidos para o espanhol, italiano, francês, holandês e russo. Em português podem ser lidos Uma fé além do ressentimento: fragmentos católicos numa chave gay (São Paulo: É Realizações, 2010 com introdução de João Batista Libânio, SJ [leia aqui]) e O pecado original à luz da ressurreição (São Paulo: É Realizações, 2011). Seu trabalho mais recente é A vítima que perdoa – uma introdução para a fe cristá para adultos em doze sessões. A versão em língua inglesa será lançada em texto e vídeo ainda em 2012 com a possibilidade de versões em outros idiomas em andamento. James Alison reside em São Paulo, onde está iniciando uma pastoral católica gay e viaja pelo mundo inteiro dando conferências, palestras e retiros. Textos seus podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk. Mais detalhes sobre a Fundação Imitatio encontram-se disponíveis aqui.

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


IHU On-Line – Por que o dogma do pecado original sempre foi alvo de críticas?
James Alison – O pecado original tem sido alvo de dois tipos de críticas. A primeira delas é porque vem sendo associado, há muito tempo, com uma visão muito primitiva da antropologia ou das origens humanas em termos de paleontologia, ou seja, aquilo que já se sabe sobre as origens. À medida que as pessoas imaginam que a doutrina do pecado original tem a ver com Adão e Eva no Jardim do Éden (e tudo fica em torno dessa questão) parece que, na mente popular, a doutrina está vinculada a uma visão ultrapassada das origens humanas. Acrescento que, na verdade, trata-se de uma falsa caracterização da doutrina essa associação de Adão e Eva no Jardim. O segundo motivo é porque desde o Iluminismo o pensamento ocidental não tem gostado muito da ideia de que a nossa razão seria, digamos, viciada. O mundo da ilustração gosta de pensar que somos “inocentes”, e que o mal está nos outros, que nascemos inocentes e estruturas sociais ruins fazem com que a vida seja difícil. Procuram, assim, salvar a suposta inocência da humanidade e acham que a doutrina do pecado original é uma acusação provinda de um deus cruel e vingativo. Essa segunda crítica é muito menos ouvida ultimamente. Nos últimos 50 anos ouve-se falar no colapso da mente ilustrada como um crescente entendimento de como somos violentos desde os nossos começos. É muito menos difícil agora pensar os seres humanos como não inocentes do que era há umas cinco décadas atrás.

IHU On-Line – Em que aspectos o pecado original é a base indispensável de toda a doutrina da salvação?
James Alison – Não é a base indispensável, porque a base é de onde começa. O pecado original é uma das conclusões de toda a doutrina da salvação. A doutrina do pecado original é uma visão retrospectiva, ou seja, no centro da fé cristã está a vivência entre nós, da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. A partir da ressurreição como dom do Espírito Santo é que o grupo apostólico começa a poder olhar para trás, pensando que imaginávamos como era a vida e agora podemos encará-la de outra forma. Jesus abriu nossos olhos sobre que tipo de pessoa o ser humano é capaz de ser: um ser humano não fadado à morte, não necessariamente movido pelas violências que estão na base de toda a comunidade humana. A partir desse momento em que se olha retrospectivamente, percebe-se que desde o início da humanidade (e a palavra Adão é uma espécie de atalho para se refletir os começos de toda humanidade) a cultura humana tem sido, de alguma maneira, desenvolvida na morte. Agora estamos entendendo essa cultura como contingente, e não necessária. Não fomos feitos para isso, mas para outra coisa. A doutrina não é a base, mas a visão retrospectiva a partir da ressurreição, e algo necessário. É o sinal de quanta diferença fez Jesus.

IHU On-Line – Em que sentido a salvação conseguida por Cristo é a superação de toda religião sacrificial?
James Alison – Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro, e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.

IHU On-Line – Como a hipótese mimética de René Girard ajuda a compreender esse dogma?
James Alison – Quero enfatizar a importância do que é uma visão retrospectiva no sentido daquilo que o pensamento de Girard nos permite fazer, e entender melhor essa visão restrospectiva. A partir da ressurreição, quando se percebe como os humanos podem ser, olhamos para trás e nos damos conta de que pensávamos algo como normal, e depois nos espantamos com isso. O que parecia destino era, na verdade, contingência. Não somos seres fadados à morte, mas à vida. Isso altera todas as relações entre nós.

IHU On-Line – A partir do pensamento de Girard, como é possível distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico e o desejo pacífico/criador?
James Alison – O centro do pensamento de Girard é que desejamos segundo o desejo do outro. O desejo não nasce em nós, mas no outro. Isso nos incita a desejar. Assim, nossos desejos são “emprestados”. Isso significa que tipicamente nos achamos dentro de rivalidades antes mesmo de nos darmos conta de que isso está acontecendo. Para que haja um desejo, em primeiro lugar, este precisa ser pacífico. É o caso da criança desejante. Muito do que ela quer é incitado pelos próprios pais. É interessante notar o quanto o desejo tende a ser rivalístico inclusive nas crianças pequenas. Desde cedo, os pequenos podem ficar com raiva se percebem que outras crianças ao seu lado estão sendo atendidas primeiro. Não pensemos que somos inocentes durante muito tempo e que depois não o somos mais. Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico. Ninguém de nós consegue viver sem rivalidade, inclusive para construir nossa identidade por contraste com os outros. Em nosso caso, esse desejo possessivo ou rivalístico é o normal, tal como se apresenta em nossa vida. É o que mais há, e aquilo que todas agências de publicidade conhecem muito bem. Se você quer vender algo, você tem que dar a impressão à pessoa de que ela precisa daquilo. Quando uma modelo aparece vendendo alguma coisa, tem-se a impressão de que, se adquirirmos aquilo, seremos como ela. O difícil em todos os casos é voltarmos a descobrir aquilo que é possível dentro do nosso desejo, que é a possibilidade de uma emulação, uma imitação não rivalística. Quando recebemos o que vem do outro sem a necessidade de “agarrar” esse desejo. É o sentido saudável, e o que chamo de desejo pacífico. Girard fala em desejo mimético sobretudo para a versão mais negativa do desejo. Em princípio, existe o desejo apropriativo, que aparece “agarrando”. E há o desejo pacífico, aquele que é de imitação sem essa necessidade de “agarrar”.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para pensarmos uma fé para além do ressentimento?
James Alison – O que é interessante no pensamento de Girard é que ele aceita o desafio de Nietzsche, o pensador que acusou o cristianismo de ser ressentido e dependente desse sentimento. Alguns dos textos mais bonitos de Girard são, justamente, textos em que ele discute Nietzsche. Descobri que Girard, ao desmascarar o mecanismo do bode expiatório, da vitimização que há na base da sociedade, também nos oferece a possibilidade de pensar de forma não vitimária. Essa é a grande novidade para mim. Em vez de se pensar o herói ou vítima, que na verdade são a mesma pessoa, trata-se de reconhecer a cumplicidade dentro daqueles mecanismos sem ser levado por eles. Isso é a possibilidade da fé além do ressentimento. É dar-se conta de que se é partícipe de um mundo no qual a vitimização está por todas as partes. Mas estou disposto a aprender a amar mesmo dentro de toda essa confusão. Isso Nietzsche não entendeu no cristianismo, mesmo que chegou muito próximo disso, segundo Girard. Mesmo que Nietzsche tenha optado por Dionísio em lugar do Crucificado.
Uma fé além do ressentimento é quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém. Em termos de vivência pessoal, isso é o mais fundamental: como deixar de se considerar vítima ou herói. Como perder o ressentimento e chegar a desenvolver o papel de irmão, ou irmã em vez de vítima ou herói, um processo de humanização. É o que busco elaborar.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para uma melhor compreensão da questão gay em nossa sociedade?
James Alison – Sim, oferece, mesmo que a questão gay não seja um dos interesses principais de sua obra. É possível vermos como Girard entende os mecanismos violentos de exclusão que os diferentes grupos humanos fazem com uma série de grupos considerados perigosos, contaminantes, diferentes. A partir disso, chegam a ser bem compreensíveis os mecanismos irracionais que levam à exclusão e tratamento indigno das pessoas gays e lésbicas em nossa sociedade precisamente porque chegam a ser portadores de acusações estereotipadas, como se estivessem causando o colapso da sociedade, da família e da moral.

Essas acusações são feitas contra alguém que é “dispensável”, que você quer convenientemente jogar fora, sem ter que olhar para as causas reais do que está acontecendo. Dizer que os gays estão provocando o colapso da família é uma declaração que só pode partir de uma pessoa que não quer prestar atenção nas dinâmicas reais das famílias modernas. Atribuem esse poder maléfico aos gays, que são um grupo muito pequeno para uma realidade social grande, que são as mudanças na maneira de ser família. Isso é ridículo, especialmente em se considerando que os próprios gays são membros de famílias. Chega-se a dizer que deixar os gays casarem irá provocar o colapso do matrimônio.

O que, na verdade, provoca o colapso do matrimônio é o comportamento dos heterossexuais em seus relacionamentos matrimoniais. Já é muito para nós, pessoas gays ou pessoas heterossexuais, arcar com os fracassos de nossos próprios relacionamentos! Para a mentalidade sacra, contudo, esses argumentos não importam. O que importa é poder desenhar o mal, e, uma vez que este fique desenhado, torna-se possível construir uma falsa bondade às costas da vítima. Esse é o mecanismo que Girard desvela. Nossas sociedades são, sim, sacrificiais, seguindo padrões arcaicos, nos pensando modernos e ilustrados.

IHU On-Line – Quais são as maiores contribuições de Girard para a filosofia e a teologia no século XXI?
James Alison – Suas maiores contribuições são um desafio de uma antropologia nova, entendendo a maneira como os “bichos” humanos, que se comportam de maneira imitativa, se comportam e como constroem suas sociedades, sem recorrer para ideias muito idealistas. Precisamos nos fixar num entendimento de mecanismos muito humanos na construção da sociedade. Isso é a insistência girardiana.

Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele.

Sabe-se que grande parte do discurso sobre Deus tem sido viciado pela atribuição de violência para poder entender a morte de Jesus de maneira salvífica. Várias teorias da salvação, expiação e redenção pensam assim. Então, pela primeira vez em muitos séculos, Girard nos permite entender de uma nova forma a maneira pela qual a morte de Jesus é salvífica sem que isso atribua qualquer tipo de violência a Deus. Essa é uma questão fundamental.

Outra área na qual Girard faz muita diferença na Teologia é na questão da leitura bíblica. Isso porque Girard é um leitor de textos a partir de sua intuição mimética. E é como leitor de textos que nos ajuda a ler o Antigo e Novo Testamento e mostrar, pela primeira vez em séculos, uma maneira de perceber como o Novo Testamento se aninha dentro do Antigo. Isso nos permite avançar além daquelas tendências do cristianismo que não prestam atenção ao Antigo Testamento porque é demasiado violento, ou aquela posição fundamentalista de deixar que o Novo Testamento seja totalmente dominado pelo Antigo.

IHU On-Line – Em que medida suas ideias podem ajudar a “arejar” a Igreja Católica?
James Alison – Na verdade, só o Espírito Santo poderia arejar a Igreja Católica, uma vez que ela ainda é muito resistente... Girard nos permite elaborar um novo paradigma da fé, entender de novo a fé cristã. Em vez da explicação da fé que recebíamos nos catecismos antigos, muito moralistas, chega a ser possível agora entender a fé de maneira orgânica, como boa nova, com o pensamento de Girard como catalizador. Esse é o dom fundamental que esse autor nos oferece.

É a possibilidade de uma nova evangelização que seja autenticamente boa nova, e não o moralismo antiquado disfarçado de alta tecnologia moderna, muito chique e atual, mas que ao ter seu véu retirado, mostra a mesma incapacidade de tratar com questões como a relativa aos gays, por exemplo. Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem.

Em segundo lugar, destaco que ao nos desvelar o mecanismo do bode expiatório, Girard nos oferece a possibilidade de fazer uma autocrítica institucional constante. Isso em termos eclesiásticos talvez seja a contribuição mais interessante, se é que estamos dispostos a fazê-lo. A partir do Cristo ressuscitado, da vítima que está no nosso meio, começarmos a ser autocríticos com os posicionamentos vitimários de nossos mecanismos eclesiásticos. Mesmo fora do âmbito da igreja isso é algo de fundamental importância.

Na sociedade moderna nos damos conta do quanto pesam as instituições sobre nós. Como seres humanos dependemos fatalmente das instituições. Ao mesmo tempo, nos damos conta de que elas nos movem fora do nosso controle. É difícil tomarmos responsabilidade por nossa vida institucional. As vozes dissonantes são as de pessoas “jogadas fora”, que passam a protestar e se colocar contra essas instituições. Por isso a possibilidade de uma vivência autocrítica, que não tem necessidade de recorrer a estes jogos vitimários, seria um dom muito, muito grande para nós todos.

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