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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A reação conservadora


Impressionante como desde o beijo na novela os ataques homofóbicos aqui no blog e na página do Diversidade Católica no Facebook se multiplicaram. É a rebordosa conservadora... :-(

Como disse meu amigo Hugo Nogueira, um dos moderadores do nosso blog: "É o preço que se paga pela visibilidade, mas os benefícios são muito maiores, vejo cada vez mais demonstrações de afeto em público sem reações adversas. A internet acoberta os covardes."

Por outro lado, o Rodolfo Viana, também da equipe do blog, lembrou (e muito bem lembrado) que é o movimento típico de resistência que ocorre durante um processo de mudança de mentalidade, sobretudo quando a transformação começa a ganhar corpo e a se fazer sentir. O sistema resiste à mudança, e a reação é violenta. Como neste caso.

Acredito que a mudança da nossa sociedade e a gradual substituição não só da homofobia, mas de toda misoginia e da nossa dificuldade de lidar com tudo o que difere do padrão patriarcal hegemônico, são inevitáveis. Mas o processo que atravessamos não é linear, nem homogêneo; ao contrário, é intermitente e sinuoso, cheio de idas e vindas - e é aí que mora o perigo maior, para o qual precisamos nos manter atentos, mais do que nunca.

Nosso amigo Teleny comentou muito bem em seu blog (aqui):
As redes sociais têm a sua dinâmica própria que em parte demonstra a evolução da mentalidade humana. Tirando uma margem que a tela de um computador proporciona, isto é, aquela diferença entre as coisas que se tem a coragem de escrever, mas nunca se diria na cara do outro, em sua grande parte, a discussão tão acalorada como essa, mostrou o crescimento vertiginoso de posicionamentos radicais. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de observar isso principalmente entre os jovens. Eu sei que a juventude é radical (OK, digamos: idealista) por natureza e que a moderação (no bom e no mau sentido) ocorre com o tempo, através de choques com a realidade, de decepções, de cansaço e de comodismo, bem como através de estudo e de um amadurecimento em geral. 
A humanidade apresenta a mesma dinâmica de forma ainda mais clara. É uma interminável conquista, é a descoberta, é o avanço constante. Sem dúvida, como em cada caminhada, houve tropeços, capazes até de travar por algum tempo o natural progresso da civilização. Tais tropeços tornaram-se, no entanto, uma fonte de sabedoria e enriqueceram a consciência coletiva do gênero humano, passando de uma geração para outra. E é, justamente, neste fluxo de gerações que a gente deposita a expectativa dos tempos melhores. Repete-se, de certa forma, a experiência do povo de Israel que, no final de sua longa peregrinação rumo à terra prometida, constatou que era preciso que morresse aquela geração e surgisse a outra, para obter a vitória definitiva (cf. Jos 5, 6-7). É tão natural a suposição - quase automática - de que cada nova geração supere em suas qualidades a geração anterior.
A impressão que tenho, após a leitura das berrantes declarações homofóbicas daqueles que representam a Igreja Católica Apostólica Furiosa, é que as coisas irão piorar. Essas pessoas, ainda que confusas em sua argumentação e apresentando as falhas graves na compreensão e no uso da língua portuguesa, estão profundamente convencidas quanto à razão exclusiva e absoluta daqueles princípios que nós tão bem conhecemos e que tanto mal já nos fizeram. (...) É como a "Juventude Hitlerista" (Hitlerjugend). Esta analogia pode parecer drástica demais, porém, trata-se de uma lógica semelhante (...). A crueldade das declarações verbais anuncia uma nova, maior onda da homofobia, com a base no cego fundamentalismo cristão. Lamentavelmente...

Um exemplo é a notícia da gangue de jovens de classe média que se lançaram às ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro - não nos rincões longínquos de uma "periferia" qualquer, mas no coração da sociedade dita "civilizada" - com o propósito declarado de caçar "gays, 'cracudos' e assaltantes" e fazer justiça com as próprias mãos. "Limpar" a sociedade do que eles entendem ser a "escória" que a polui - e, nisso, seguem a lógica que legitima que se agridam gays, surrem e acorrentem ladrões a postes (este caso aqui, aliás, se deu no mesmo bairro e é possível que esteja ligado à ação da mesma gangue), assassinem travestis. No relato (assustador) de um rapaz que foi atacado pelo bando, compartilhado pelo amigo Sergio Viula em seu blog (leia aqui), podemos detectar as contradições inerentes a qualquer transformação da sociedade quando a vítima critica os garotos negros que fazem parte do grupo por perseguirem outra minoria, mas parece dar a entender que se fosse mesmo pra perseguir "assaltantes e cracudos", tudo bem. A lógica da violência e da agressão ao Outro, àquele que percebo como diferente de Mim e, por isso mesmo, potencial ameaça à minha integridade, se insinua e contamina TODOS nós. (Daí ser inaceitável, em qualquer circunstância, partir para o linchamento e o fazer justiça com as próprias mãos - inclusive dos nossos agressores homofóbicos. A propósito, leia isto aqui.)

Outro exemplo dos paradoxos do processo, voltando à novela: o beijo gay ressuscitou o auê em torno da suposta ameaça que os LGBTs representamos à "família tradicional" - levando um pastor/deputado estadual baiano a anunciar que vai entrar com uma ação na Justiça contra a Globo. O problema dos que defendem a família tradicional é que, ao se fixar em um modelo único, eles têm de atacar todas as outras, e acabam sendo muito mais nocivos à dignidade da família em todas as suas formas e da pessoa humana em geral, pois deslegitimam os demais formatos familiares - que nem minoria mais são, aliás. Será que todo esse rigor é mesmo coerente com os valores do Evangelho?

Toda transformação, por mais inexorável que seja, é processo - e, no seu decorrer, retrocessos a curto e médio prazos acontecem. É o dragão ferido de morte que estrebucha e, em suas convulsões, tem um enorme potencial de destruição. Esta é justamente a hora que requer mais atenção - porque, à medida que ganhamos espaço e abertura, tendemos a relaxar, e é aí que os ataques mais covardes e mais virulentos podem nos pegar desprevenidos. Façamos a nossa parte, amigos, e zelemos uns pelos outros - sempre com amor e atenção para não cedermos à tentação da mesma lógica da exclusão e da violência contra o Outro que tanto nos empenhamos em extirpar. 

Com amor, 


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fraternidade, fundamento e caminho para a paz

"Pomba da paz", Pablo Picasso


Começamos o ano compartilhando a mensagem do Papa Francisco para este Dia Mundial da Paz:

1. Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular a todos, indivíduos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperança. Com efeito, no coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar.

Na realidade, a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor.

O número sempre crescente de ligações e comunicações que envolvem o nosso planeta torna mais palpável a consciência da unidade e partilha dum destino comum entre as nações da terra. Assim, nos dinamismos da história – independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas –, vemos semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta vocação é muitas vezes contrastada e negada nos factos, num mundo caracterizado pela «globalização da indiferença» que lentamente nos faz «habituar» ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos.

Em muitas partes do mundo, parece não conhecer tréguas a grave lesão dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos à vida e à liberdade de religião. Exemplo preocupante disso mesmo é o dramático fenómeno do tráfico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escrúpulos. Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas.

A globalização, como afirmou Bento XVI, torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos.[1] As inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do «descartável» que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados «inúteis». Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero do ut des pragmático e egoísta.

Ao mesmo tempo, resulta claramente que as próprias éticas contemporâneas se mostram incapazes de produzir autênticos vínculos de fraternidade, porque uma fraternidade privada da referência a um Pai comum como seu fundamento último não consegue subsistir.[2] Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.

«Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9)
2. Para compreender melhor esta vocação do homem à fraternidade e para reconhecer de forma mais adequada os obstáculos que se interpõem à sua realização e identificar as vias para a superação dos mesmos, é fundamental deixar-se guiar pelo conhecimento do desígnio de Deus, tal como se apresenta de forma egrégia na Sagrada Escritura.

Segundo a narração das origens, todos os homens provêm dos mesmos pais, de Adão e Eva, casal criado por Deus à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26), do qual nascem Caim e Abel. Na história desta família primigénia, lemos a origem da sociedade, a evolução das relações entre as pessoas e os povos.
Abel é pastor, Caim agricultor. A sua identidade profunda e, conjuntamente, a sua vocação é ser irmãos, embora na diversidade da sua actividade e cultura, da sua maneira de se relacionarem com Deus e com a criação. Mas o assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua história (cf. Gn 4, 1-16) põe em evidência o difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros. Caim, não aceitando a predilecção de Deus por Abel, que Lhe oferecia o melhor do seu rebanho – «o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta» (Gn 4, 4-5) –, mata Abel por inveja. Desta forma, recusa reconhecer-se irmão, relacionar-se positivamente com ele, viver diante de Deus, assumindo as suas responsabilidades de cuidar e proteger o outro. À pergunta com que Deus interpela Caim – «onde está o teu irmão?» –, pedindo-lhe contas da sua acção, responde: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Depois – diz-nos o livro do Génesis –, «Caim afastou-se da presença do Senhor» (4, 16).

É preciso interrogar-se sobre os motivos profundos que induziram Caim a ignorar o vínculo de fraternidade e, simultaneamente, o vínculo de reciprocidade e comunhão que o ligavam ao seu irmão Abel. O próprio Deus denuncia e censura a Caim a sua contiguidade com o mal: «o pecado deitar-se-á à tua porta» (Gn 4, 7). Mas Caim recusa opor-se ao mal, e decide igualmente «lançar-se sobre o irmão» (Gn 4, 8), desprezando o projecto de Deus. Deste modo, frustra a sua vocação original para ser filho de Deus e viver a fraternidade.

A narração de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição. Disso mesmo dá testemunho o egoísmo diário, que está na base de muitas guerras e injustiças: na realidade, muitos homens e mulheres morrem pela mão de irmãos e irmãs que não sabem reconhecer-se como tais, isto é, como seres feitos para a reciprocidade, a comunhão e a doação.

«E vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8)
3. Surge espontaneamente a pergunta: poderão um dia os homens e as mulheres deste mundo corresponder plenamente ao anseio de fraternidade, gravado neles por Deus Pai? Conseguirão, meramente com as suas forças, vencer a indiferença, o egoísmo e o ódio, aceitar as legítimas diferenças que caracterizam os irmãos e as irmãs?

Parafraseando as palavras do Senhor Jesus, poderemos sintetizar assim a resposta que Ele nos dá: dado que há um só Pai, que é Deus, vós sois todos irmãos (cf. Mt 23, 8-9). A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha activa.

Em particular, a fraternidade humana foi regenerada em e por Jesus Cristo, com a sua morte e ressurreição. A cruz é o «lugar» definitivo de fundação da fraternidade que os homens, por si sós, não são capazes de gerar. Jesus Cristo, que assumiu a natureza humana para a redimir, amando o Pai até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8), por meio da sua ressurreição constitui-nos como humanidade nova, em plena comunhão com a vontade de Deus, com o seu projecto, que inclui a realização plena da vocação à fraternidade.
Jesus retoma o projecto inicial do Pai, reconhecendo-Lhe a primazia sobre todas as coisas. Mas Cristo, com o seu abandono até à morte por amor do Pai, torna-Se princípio novo e definitivo de todos nós, chamados a reconhecer-nos n’Ele como irmãos, porque filhos do mesmo Pai. Ele é a própria Aliança, o espaço pessoal da reconciliação do homem com Deus e dos irmãos entre si. Na morte de Jesus na cruz, ficou superada também a separação entre os povos, entre o povo da Aliança e o povo dos Gentios, privado de esperança porque permanecera até então alheio aos pactos da Promessa. Como se lê na Carta aos Efésios, Jesus Cristo é Aquele que reconcilia em Si todos os homens. Ele é a paz, porque, dos dois povos, fez um só, derrubando o muro de separação que os dividia, ou seja, a inimizade. Criou em Si mesmo um só povo, um só homem novo, uma só humanidade nova (cf. 2,14-16).

Quem aceita a vida de Cristo e vive n’Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado vê, em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, é solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente perante a sorte dos irmãos.

A fraternidade, fundamento e caminho para a paz
4. Suposto isto, é fácil compreender que a fraternidade é fundamento e caminho para a paz. As Encíclicas sociais dos meus Predecessores oferecem uma ajuda valiosa neste sentido. Basta ver as definições de paz da Populorum progressio, de Paulo VI, ou da Sollicitudo rei socialis, de João Paulo II. Da primeira, apreendemos que o desenvolvimento integral dos povos é o novo nome da paz[3] e, da segunda, que a paz é opus solidaritatis, fruto da solidariedade.[4]

Paulo VI afirma que tanto as pessoas como as nações se devem encontrar num espírito de fraternidade. E explica: «Nesta compreensão e amizade mútuas, nesta comunhão sagrada, devemos (...) trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade».[5] Este dever recai primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obrigações radicam-se na fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tríplice aspecto: o dever de solidariedade, que exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas; o dever de justiça social, que requer a reformulação em termos mais correctos das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros.[6]

Ora, da mesma forma que se considera a paz como opus solidarietatis, é impossível não pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma João Paulo II, é um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não o é de ninguém. Na realidade, a paz só pode ser conquistada e usufruída como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustentável, se estiver viva, em todos, «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum».[7] Isto implica não deixar-se guiar pela «avidez do lucro» e pela «sede do poder». É preciso estar pronto a «“perder-se” em benefício do próximo em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio (...). O “outro” – pessoa, povo ou nação – [não deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalhar e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim como um nosso “semelhante”, um “auxílio”».[8]
 
A solidariedade cristã pressupõe que o próximo seja amado não só como «um ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos os demais, mas [como] a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da acção permanente do Espírito Santo»,[9] como um irmão. «Então a consciência da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, “filhos no Filho”, e da presença e da acção vivificante do Espírito Santo conferirá – lembra João Paulo II – ao nosso olhar sobre o mundo como que um novo critério para o interpretar»,[10] para o transformar.

A fraternidade, premissa para vencer a pobreza
5. Na Caritas in veritate, o meu Predecessor lembrava ao mundo que uma causa importante da pobreza é a falta de fraternidade entre os povos e entre os homens.[11] Em muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional, devido à carência de sólidas relações familiares e comunitárias; assistimos, preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de carências, marginalização, solidão e de várias formas de dependência patológica. Uma tal pobreza só pode ser superada através da redescoberta e valorização de relações fraternas no seio das famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.

Além disso, se por um lado se verifica uma redução da pobreza absoluta, por outro não podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza relativa, isto é, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa região específica ou num determinado contexto histórico-cultural. Neste sentido, servem políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade, garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais – acesso aos «capitais», aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projecto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa.

Reconhece-se haver necessidade também de políticas que sirvam para atenuar a excessiva desigualdade de rendimento. Não devemos esquecer o ensinamento da Igreja sobre a chamada hipoteca social, segundo a qual, se é lícito – como diz São Tomás de Aquino – e mesmo necessário que «o homem tenha a propriedade dos bens»,[12] quanto ao uso, porém, «não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros».[13]

Por último, há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza – que deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão. É o caso não só das pessoas consagradas que professam voto de pobreza, mas também de muitas famílias e tantos cidadãos responsáveis que acreditam firmemente que a relação fraterna com o próximo constitua o bem mais precioso.

A redescoberta da fraternidade na economia
6. As graves crises financeiras e económicas dos nossos dias – que têm a sua origem no progressivo afastamento do homem de Deus e do próximo, com a ambição desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das relações interpessoais e comunitárias, por outro – impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável. Já, em 1979, o Papa João Paulo II alertava para a existência de «um real e perceptível perigo de que, enquanto progride enormemente o domínio do homem sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu domínio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele próprio se torne objecto de multiforme manipulação, se bem que muitas vezes não directamente perceptível; manipulação através de toda a organização da vida comunitária, mediante o sistema de produção e por meio de pressões dos meios de comunicação social».[14]

As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise actual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual. As referidas virtudes são necessárias sobretudo para construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana.

A fraternidade extingue a guerra
7. Ao longo do ano que termina, muitos irmãos e irmãs nossos continuaram a viver a experiência dilacerante da guerra, que constitui uma grave e profunda ferida infligida à fraternidade.

Há muitos conflitos que se consumam na indiferença geral. A todos aqueles que vivem em terras onde as armas impõem terror e destruição, asseguro a minha solidariedade pessoal e a de toda a Igreja. Esta última tem por missão levar o amor de Cristo também às vítimas indefesas das guerras esquecidas, através da oração pela paz, do serviço aos feridos, aos famintos, aos refugiados, aos deslocados e a quantos vivem no terror. De igual modo a Igreja levanta a sua voz para fazer chegar aos responsáveis o grito de dor desta humanidade atribulada e fazer cessar, juntamente com as hostilidades, todo o abuso e violação dos direitos fundamentais do homem.[15]

Por este motivo, desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide ao encontro do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor! «Nesta óptica, torna-se claro que, na vida dos povos, os conflitos armados constituem sempre a deliberada negação de qualquer concórdia internacional possível, originando divisões profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejeição prática de se comprometer para alcançar aquelas grandes metas económicas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu».[16]

Mas, enquanto houver em circulação uma quantidade tão grande como a actual de armamentos, poder-se-á sempre encontrar novos pretextos para iniciar as hostilidades. Por isso, faço meu o apelo lançado pelos meus Predecessores a favor da não-proliferação das armas e do desarmamento por parte de todos, a começar pelo desarmamento nuclear e químico.

Não podemos, porém, deixar de constatar que os acordos internacionais e as leis nacionais, embora sendo necessários e altamente desejáveis, por si sós não bastam para preservar a humanidade do risco de conflitos armados. É precisa uma conversão do coração que permita a cada um reconhecer no outro um irmão do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, construírem uma vida em plenitude para todos. Este é o espírito que anima muitas das iniciativas da sociedade civil, incluindo as organizações religiosas, a favor da paz. Espero que o compromisso diário de todos continue a dar fruto e que se possa chegar também à efectiva aplicação, no direito internacional, do direito à paz como direito humano fundamental, pressuposto necessário para o exercício de todos os outros direitos.

A corrupção e o crime organizado contrastam a fraternidade
8. O horizonte da fraternidade apela ao crescimento em plenitude de todo o homem e mulher. As justas ambições duma pessoa, sobretudo se jovem, não devem ser frustradas nem lesadas; não se lhe deve roubar a esperança de podê-las realizar. A ambição, porém, não deve ser confundida com prevaricação; pelo contrário, é necessário competir na mútua estima (cf. Rm 12, 10). Mesmo nas disputas, que constituem um aspecto inevitável da vida, é preciso recordar-se sempre de que somos irmãos; por isso, é necessário educar e educar-se para não considerar o próximo como um inimigo nem um adversário a eliminar.
A fraternidade gera paz social, porque cria um equilíbrio entre liberdade e justiça, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indivíduos e bem comum. Uma comunidade política deve, portanto, agir de forma transparente e responsável para favorecer tudo isto. Os cidadãos devem sentir-se representados pelos poderes públicos, no respeito da sua liberdade. Em vez disso, muitas vezes, entre cidadão e instituições, interpõem-se interesses partidários que deformam essa relação, favorecendo a criação dum clima perene de conflito.

Um autêntico espírito de fraternidade vence o egoísmo individual, que contrasta a possibilidade das pessoas viverem em liberdade e harmonia entre si. Tal egoísmo desenvolve-se, socialmente, quer nas muitas formas de corrupção que hoje se difunde de maneira capilar, quer na formação de organizações criminosas – desde os pequenos grupos até àqueles organizados à escala global – que, minando profundamente a legalidade e a justiça, ferem no coração a dignidade da pessoa. Estas organizações ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irmãos e lesam a criação, revestindo-se duma gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.

Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho; penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas económicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres; penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no abomínio do tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade. A este respeito escreveu João XXIII: «Uma convivência baseada unicamente em relações de força nada tem de humano: nela vêem as pessoas coarctada a própria liberdade, quando, pelo contrário, deveriam ser postas em condição tal que se sentissem estimuladas a procurar o próprio desenvolvimento e aperfeiçoamento».[17] Mas o homem pode converter-se, e não se deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de vida. Gostaria que isto fosse uma mensagem de confiança para todos, mesmo para aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23).

No contexto alargado da sociabilidade humana, considerando o delito e a pena, penso também nas condições desumanas de muitos estabelecimentos prisionais, onde frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na sua dignidade de homem e sufocado também em toda a vontade e expressão de resgate. A Igreja faz muito em todas estas áreas, a maior parte das vezes sem rumor. Exorto e encorajo a fazer ainda mais, na esperança de que tais acções desencadeadas por tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser sustentadas, leal e honestamente, também pelos poderes civis.

A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza
9. A família humana recebeu, do Criador, um dom em comum: a natureza. A visão cristã da criação apresenta um juízo positivo sobre a licitude das intervenções na natureza para dela tirar benefício, contanto que se actue responsavelmente, isto é, reconhecendo aquela «gramática» que está inscrita nela e utilizando, com sabedoria, os recursos para proveito de todos, respeitando a beleza, a finalidade e a utilidade dos diferentes seres vivos e a sua função no ecossistema. Em suma, a natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela ganância, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não guardamos a natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras.

De modo particular o sector produtivo primário, o sector agrícola, tem a vocação vital de cultivar e guardar os recursos naturais para alimentar a humanidade. A propósito, a persistente vergonha da fome no mundo leva-me a partilhar convosco esta pergunta: De que modo usamos os recursos da terra? As sociedades actuais devem reflectir sobre a hierarquia das prioridades no destino da produção. De facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as soluções possíveis são muitas, e não se limitam ao aumento da produção. É mais que sabido que a produção actual é suficiente, e todavia há milhões de pessoas que sofrem e morrem de fome, o que constitui um verdadeiro escândalo. Por isso, é necessário encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da terra, não só para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que têm mais e os que devem contentar-se com as migalhas, mas também e sobretudo por uma exigência de justiça e equidade e de respeito por cada ser humano. Neste sentido, gostaria de lembrar a todos o necessário destino universal dos bens, que é um dos princípios fulcrais da doutrina social da Igreja. O respeito deste princípio é a condição essencial para permitir um acesso real e equitativo aos bens essenciais e primários de que todo o homem precisa e tem direito.

Conclusão
10. Há necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada; mas só o amor dado por Deus é que nos permite acolher e viver plenamente a fraternidade.

O necessário realismo da política e da economia não pode reduzir-se a um tecnicismo sem ideal, que ignora a dimensão transcendente do homem. Quando falta esta abertura a Deus, toda a actividade humana se torna mais pobre, e as pessoas são reduzidas a objecto passível de exploração. Somente se a política e a economia aceitarem mover-se no amplo espaço assegurado por esta abertura Àquele que ama todo o homem e mulher, é que conseguirão estruturar-se com base num verdadeiro espírito de caridade fraterna e poderão ser instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz.

Nós, cristãos, acreditamos que, na Igreja, somos membros uns dos outros e todos mutuamente necessários, porque a cada um de nós foi dada uma graça, segundo a medida do dom de Cristo, para utilidade comum (cf. Ef 4, 7.25; 1 Cor 12, 7). Cristo veio ao mundo para nos trazer a graça divina, isto é, a possibilidade de participar na sua vida. Isto implica tecer um relacionamento fraterno, caracterizado pela reciprocidade, o perdão, o dom total de si mesmo, segundo a grandeza e a profundidade do amor de Deus, oferecido à humanidade por Aquele que, crucificado e ressuscitado, atrai todos a Si: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). Esta é a boa nova que requer, de cada um, um passo mais, um exercício perene de empatia, de escuta do sofrimento e da esperança do outro, mesmo do que está mais distante de mim, encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que sabe doar-se e gastar-se gratuitamente pelo bem de cada irmão e irmã.

Cristo abraça todo o ser humano e deseja que ninguém se perca. «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17). Fá-lo sem oprimir, sem forçar ninguém a abrir-Lhe as portas do coração e da mente. «O que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve – diz Jesus Cristo –. Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 26-27). Deste modo, cada actividade deve ser caracterizada por uma atitude de serviço às pessoas, incluindo as mais distantes e desconhecidas. O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.

Que Maria, a Mãe de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que jorra do coração do seu Filho, para levar a paz a todo o homem que vive nesta nossa amada terra.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2013.

Franciscus

(Fonte)



[1]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.
[2]Cf. Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de Junho de 2013), 54: AAS 105 (2013), 591-592.
[3]Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 87: AAS 59 (1967), 299.
[4]Cf. João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 39: AAS 80 (1988), 566-568.
[5]Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 43: AAS 59 (1967), 278-279.
[6]Cf. ibid., 44: o. c., 279.
[7]Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 566.
[8] Ibid., 38-39: o. c., 566-567.
[9] Ibid., 40: o. c., 569.
[10] Ibid., 40: o. c., 569.
[11]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.
[12] Summa theologiae, II-II, q. 66, a. 2.
[13] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69; cf. Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de Maio de 1891), 19: ASS 23 (1890-1891), 651; João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 573-574; Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 178.
[14] Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 16: AAS 61 (1979), 290.
[15]Cf. Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 159.
[16] Francisco, Carta ao Presidente Vladimir Putin (4 de Setembro de 2013): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 8/IX/2013), 5.
[17] Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963), 17: AAS 55 (1963), 265.

domingo, 18 de agosto de 2013

Vocês são da Igreja Católica


Querid@s Amig@s,

É difícil descrever e resumir a emoção e alegria que foi o primeiro dia da campanha de doação de cobertores, agasalhos, meias, biscoitos, água, escovas-de-dente do Diversidade Católica.

Inspirados em Francisco e suas belas palavras na Videomensagem pela festa de São Caetano na Argentina, 7 de agosto de 2013, partimos para o encontro com os mais necessitados, "encontro com as pessoas que têm mais necessidade, daqueles que têm necessidade que nós demos uma mão a eles, que os olhemos com amor, que partilhemos a sua dor e as suas ansiedades, os seus problemas. Porém, a coisa importante não é olhá-los de longe ou ajudá-los de longe. Não, não! É ir ao encontro deles. Isto é cristão! Isto é aquilo que Jesus ensina: ir ao encontro dos mais necessitados. Como Jesus que ia sempre ao encontro do povo. Ele ia para encontrá-lo. Ir ao encontro dos mais necessitados.
Às vezes, eu pergunto a alguém:
“Você dá esmola?”.
Dizem pra mim: “Sim, padre”.
“E quando você dá a esmola, olha nos olhos da pessoa a quem dá a esmola?”
“Ah, não sei, não me dou conta disso”.
“Então você não encontrou a pessoa. Você jogou a esmola e foi embora. Quando você dá a esmola, toca a mão ou joga a moeda?”
“Não, jogo a moeda”.
“E então não o tocou. E se não o tocou, não o encontrou”.
Aquilo que Jesus nos ensina, antes de tudo, é encontrar-se e, encontrando, ajudar. Devemos saber encontrar. Devemos edificar, criar, construir uma cultura do encontro. Quantas divergências, problemas na família, sempre! Problemas no bairro, problemas no trabalho, problemas em todo lugar. E as divergências não ajudam. A cultura do encontro. Sair para encontrar-nos. E o tema diz: “Encontrar-nos com os mais necessitados”, com aqueles mais necessitados que eu. Com aqueles que estão passando por um momento difícil, pior que aquele que eu estou passando. Tem sempre alguém passando por algo pior, né? Sempre! Tem sempre alguém. Então, eu penso: “Estou passando por um momento difícil, estou na fila para encontrar-me com São Caetano e com Jesus e depois vou encontrar os outros, porque tem sempre alguém que passa por algo pior que eu”. Com estas pessoas, é com estas pessoas que nós devemos nos encontrar."
E foi assim que hoje se ainda havia alguma dúvida de que por sermos gays não fazemos parte da igreja católica, essa dúvida foi resolvida de uma vez por todas. Quando entregamos um cobertor, ouvimos de um irmão mais necessitado, uma pergunta que na realidade era uma afirmação: "Vocês são da Igreja Católica?". 
Sim, somos, com muito orgulho!

Hugo Nogueira
Equipe Diversidade Católica





domingo, 11 de agosto de 2013

Viver em minoria


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 12,32-48 que corresponde ao 19 Domingo do Tempo Comum, ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Lucas copilou no seu evangelho palavras cheias de afeto e carinho dirigidas por Jesus a seus seguidores e seguidoras. Muitas vezes elas não são percebidas. Porém lidas atentamente desde nossas paroquias e comunidades cristãs aparecem hoje com uma surpreendente atualidade. É o que se necessita para escutar Jesus nestes tempos que não são fácies para viver a fé.

“Meu pequeno rebanho”. Jesus olha com grande ternura para seu pequeno grupo de seguidores. Eles são poucos. É uma vocação de minoria. Não podem pensar em grandezas. Jesus imagina-os sempre assim: como um pouco de fermento escondido na massa, uma pequena “luz” no meio da obscuridade, um pouco de sal para dar sabor na vida.

Depois de séculos de “imperialismos cristãos”, os discípulos de Jesus aprenderam a viver em minoria. É um erro ter saudades de uma igreja forte e poderosa. É um engano procurar o poder do mundo ou tentar dominar a sociedade. O Evangelho não se impõe pela força. É contagiado por aqueles que vivem ao estilo de Jesus fazendo a vida mais humana.

“Não tenham medo”. Essa é uma grande preocupação de Jesus. Não quer que seus seguidores fiquem paralisados pelo medo ou afogados pelo desalento. Eles não devem nunca perder a confiança e a paz. Hoje, eles também são um pequeno rebanho, mas permanecendo unidos a Jesus, seu Pastor que os guia e os defende, podem viver com paz o tempo atual.

“O Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino”. Jesus lembra-lhes isso ainda uma vez mais. Eles não devem sentir-se órfãos. Tem a Deus como Pai. Ele confiou-lhes o seu projeto do Reino. Trata-se de um grande presente. O melhor que temos em nossas comunidades é a tarefa de que a vida seja mais humana e a esperança de conduzir a historia à sua salvação definitiva.

“Vendam os seus bens e deem o dinheiro em esmola”. Os seguidores de Jesus são um pequeno rebanho, mas nunca devem ser uma seita fechada em seus próprios interesses. Não podem viver de costas às necessidades de ninguém. Devem ser comunidades de portas abertas. Compartilham seus bens com todos os que precisam de ajuda e solidariedade.

“Deem esmola, isto é, “misericórdia”. Este é o significado original do termo grego. Os cristãos precisam mais tempo para aprender a viver em minoria no meio de uma sociedade secular e plural. Mas há algo que podem e devem fazer sem esperar nada em troca: transformar o clima que se vive nas comunidades, tornando-o mais evangélico. O papa Francisco nos está assinalando esse caminho com seus gestos e seu estilo de vida.

Fonte

sábado, 10 de agosto de 2013

Servos responsáveis!


Nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (11 de agosto de 2013). A tradução é de André Langer.


Referências bíblicas:
Segunda leitura: Hb 11, 1-2.8-19
Evangelho: Lc 12, 32-48

Nós continuamos no caminho que leva para Jerusalém, com Cristo e, no caminho, somos interpelados pela Palavra de Deus que nos questiona sobre a qualidade da nossa fé. Onde estamos como cristãos e cristãs? Como crentes? Como lideranças na Igreja? A carta aos Hebreus, da segunda leitura de hoje, nos recorda que: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hb 11, 1). Estamos convencidos disso? Na carta aos Romanos, Paulo chega inclusive a nos convidar a “esperar contra toda a esperança” (Rm 4, 18). E, portanto, quando olhamos para a Igreja de hoje, a Igreja que somos e que formamos, podemos nos perguntar se não estamos em pane, em falta de fé, porque a nossa Igreja não se arrisca mais; ela se assenta sobre seus dogmas e não avança mais nos caminhos do Evangelho, cujos caminhos ainda não estão demarcados ou previamente traçados. Felizmente, o Papa Francisco traz um pouco de frescor à nossa Igreja. Ele nos ensina que o medo, a certeza da fé e o autoritarismo abusivo são freios no caminho da vida cristã.

1. O medo

O Cristo do evangelho de Lucas diz aos seus discípulos: “Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino” (Lc 12, 32). Infelizmente, esse versículo foi, muitas vezes, mal interpretado: uma certa direita religiosa que acredita ter a verdade, porque faz parte do pequeno rebanho, do pequeno resto de Israel, e que impõe sua verdade mesmo quando permanece sozinha para crer nisso. Eu retorno ao Evangelho: o que Lucas nos diz é uma promessa que nos é feita. Prometer é dizer que será dado. É dar sua palavra, retardando o momento do dom efetivo. É confiar no outro, e convidá-lo para a confiança recíproca.

É isso que nos recorda o autor da carta aos Hebreus, quando escreve: “Pela fé, Abraão, chamado por Deus, obedeceu e partiu para um lugar que deveria receber como herança. E partiu sem saber para onde” (Hb 11, 8). Mas mais do que isso, diz a carta aos Hebreus, falando de Abraão, de Sara, de Isaac e de Jacó: “Todos eles morreram na fé. Não conseguiram a realização das promessas, mas só as viram e saudaram de longe: e confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11, 13). Isso quer dizer que os nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?

2. A certeza da fé

A fé nunca pode ser uma certeza. A única certeza que temos é não ter nunca certeza de nada. Doris Lussier dizia: “Eu não disse: eu sei; eu disse: eu creio. Crer não é saber. Eu saberei quando verei, como vocês outros. Se eu tenho que saber... E então, depois de tudo, como eu disse um dia a um amigo que é descrente: tu sabes, as nossas respectivas opiniões sobre os mistérios do além não tem grande importância. O que nós cremos ou o que nós não cremos, isso não muda absolutamente nada a verdade da realidade: o que é, é... e o que não é, não é, um ponto, é tudo. E temos de conviver com isso”. Doris Lussier descrevia sua fé da seguinte maneira: “Eu só tenho uma pequeníssima fé natural, frágil, vacilante, resmungona e sempre inquieta. Uma fé que se parece bem mais a uma esperança que a uma certeza”. E a esperança é a fé no seu melhor, dizia Charles Péguy, porque a esperança nos faz crer que amanhã será melhor, quando hoje tudo está mal. Eis a maravilha da esperança!

É a esperança que nos permite “estar com os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12, 35). Porque, para esperar o senhor voltar das núpcias (Lc 12, 36), é preciso saber esperar. Se estivermos certos de seu retorno, da data e da hora em que chegará, não precisamos mais esperar; saberemos exatamente como será seu retorno. É por isso que o evangelista Lucas formula esta bem-aventurança: “Felizes dos empregados que o senhor encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá” (Lc 12, 37). Para vigiar, basta esperar; caso contrário, para que serve vigiar? A certeza é o que há de mais prejudicial à fé, porque a certeza acaba por ter razão da esperança.

3. O autoritarismo abusivo

Lucas escreve: “Então Pedro disse a Jesus: ‘Senhor, estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?” (Lc 12, 41). Por meio de outra parábola, o evangelho parece dizer que os primeiros envolvidos são justamente aqueles que exercem uma responsabilidade dentro da Igreja; com a questão de Pedro, o Senhor ressuscitado, mestre da Igreja, interpela todos aqueles que têm por missão dar o grão da Palavra ao pequeno rebanho. Sobre o administrador fiel e sensato, que o senhor, na sua chegada, encontrará em seu trabalho, diz: “Em verdade, eu digo a vocês: o senhor lhes confiará a administração de todos os seus bens” (Lc 12, 44). Mas se os responsáveis pela Igreja sofrem do autoritarismo abusivo e se metem a rejeitar, condenar, marginalizar e excluir as mulheres e os homens que lhes são confiados, o mestre lhes tirará todas as responsabilidades: “Por isso eu lhes afirmo: o Reino de Deus será tirado de vocês, e será entregue a uma nação que produzirá seus frutos” (Mt 21, 43). Quanto mais se é responsável na Igreja, mais se deve produzir e dar os frutos: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12, 48b).

Para finalizar, gostaria de compartilhar com vocês a bela reflexão do exegeta francês Jean Debruynne sobre o evangelho de hoje: Um coração em desejo! “Sejam como pessoas que esperam... Mas, quem ainda pode ter tempo para esperar? Por acaso, o tempo não é dinheiro, e, atualmente, não é o tempo o item mais caro? Não são os prazos os mais ruinosos? Está na hora de não mais confundir espera com impaciência. A espera do Reino de Deus não é aquela de esperar o trem ou o avião partir. A espera do Reino de Deus é um coração em desejo e não o medo de se atrasar. Aquele que espera é aquele que ainda encontra no fundo de si um pouquinho de esperança acesa”.

Fonte

Estai preparados!


A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum (11 de agosto de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Sabedoria 18,6-9
2ª leitura: Hebreus 11,1-2,8-19
Evangelho: Lucas 12,32-48

Neste domingo, somos lembrados da importância da espera. E da alegria da espera: o Senhor voltará, mas nós já o possuímos. E Ele nos enche de felicidade: «O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem!»

Possuir desde já o que se espera
Trazemos todos no fundo de nós mesmos uma insatisfação escondida: uma certeza confusa de que tudo poderia ser melhor, de que poderíamos ser diferentes, de que as coisas que determinam a nossa situação atual poderiam e deveriam ser outras. As leituras de hoje estão cheias de referências a esta espera por uma "pátria melhor" (Hebreus 11,16). E o que esperamos exatamente? Não sabemos. No âmbito da fé, chamamos isto de «vida eterna» que consiste, diz Jesus, em conhecer -em sentido forte- o Pai e Aquele que Ele enviou; o Cristo (João 17,3). Conhecer, nascer com, para viver de sua vida. Esta é a Terra prometida para onde nos dirigimos sem que jamais, nesta vida, cheguemos a atingi-la. Como os Hebreus (11,13), nós a saudamos de longe, considerando-nos estrangeiros e viajantes nesta terra. Somos locatários provisórios dos lugares em que moramos. Mas isto não deveria nos instalar na tristeza e insatisfação? Não, uma vez que "a fé é a garantia dos bens que se esperam e a prova das realidades que não se veem" (Hebreus 11,1). A fé as antecipa. Quando a prostituta de Lucas 7 manifesta seu amor de reconhecimento antes mesmo de ter ouvido a palavra de perdão, ela copia a atitude dos Hebreus que celebraram a Páscoa antes mesmo de terem deixado o Egito: entoaram o hino de louvor, de ação de graças, antes mesmo de serem libertados, "como se isto já tivesse sido feito" (1a leitura). Alegremo-nos desde agora por aquilo em que nos tornaremos, pela vida para a qual somos chamados.

Conservai vossas lâmpadas acesas
Nosso evangelho inscreve-se perfeitamente no contexto que acaba de ser evocado. No versículo 32, Jesus nos recomenda não ter medo; a renunciar, portanto, à inquietação com respeito ao futuro. A insatisfação quanto ao nosso presente, moral, físico, espiritual, certamente tem fundamento. Corresponde ao que somos e vivemos; projeta-nos para o futuro. Mas insatisfação não quer dizer inquietude e nem mesmo medo; estas duas atitudes sinalizam a ausência da fé. E por que podemos de fato não ter medo? É Jesus quem o diz: porque «foi do agrado do Pai dar a vós o Reino». Reino significa realização, paz alegria. Mas leiamos de novo a frase que acabamos de citar: o Reino não é apresentado simplesmente como promessa, mas como um dom já realizado. Acrescente-se a isto outra palavra de Jesus: «O Reino de Deus está no meio de vós.» Ou «entre vós», ou «em vós». O futuro está já aí, portanto, presente já. Um pouco como o adulto está presente na criança. Digamos que a promessa de Deus já foi realizada na medida em que cremos nela. A nossa maneira de possuí-la é esperá-la. Espera simbolizada pelas lâmpadas que é preciso conservar acesas. Finalmente, o que esperamos não é alguma coisa, mas Alguém. E sua presença nos irá saciar porque é presença do amor. Este Amor que é «o Outro», capaz de nos penetrar e de nos transformar.

Vigiar sem descanso
Nenhum repouso nesta espera; as lâmpadas não devem se apagar jamais. É este exatamente o sentido dos versículos 35-40. Na seqüência, introduz-se, no entanto, um novo tema. De fato, o que pode exatamente significar vigiar sem descanso? Será que iremos nos tornar obcecados por esta espera, tendo apenas isto na cabeça, como um pensamento único? É claro que não. Seria um esforço em vão e logo nos descobriríamos incapazes de uma constância deste tipo. Já não é difícil para nós perseverarmos em oração, em nossa participação na missa, por exemplo, sem a menor distração? Felizmente, a partir do versículo 42, Jesus nos explica em que consiste a espera perfeita. Não se trata de manter os olhos fixos na porta para observar o momento da entrada do mestre, mas de fazer o nosso trabalho conscienciosamente. Num certo sentido, a espera do Cristo passa pelo trabalho que se nos impõe. Mas não importa como: o desejo e a espera da vinda de Deus são como uma bem leve coloração que afeta tudo o que vemos, sofremos e fazemos. Uma atmosfera em que tudo está imerso. Uma espécie de distância que nos permite dominar todas as coisas e não nos deixa afundar nas águas que não nos são favoráveis, a não ser que permaneçamos na superfície. Se esta espera se esvanece, somos entregues a todos os demônios. O chefe da casa (o responsável, conforme o v. 42 do nosso texto) não se preocupa mais com o pão dos seus empregados, mas pensa apenas em dominá-los e explorá-los (v. 45). Ao contrário, esperar é amar.

Fonte

domingo, 4 de agosto de 2013

Contra a insensatez

Depois do Reino de Deus, o tema mais abordado por Cristo
era o dinheiro e nossa relação com a riqueza. (Via)

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 12,13-21 que corresponde ao 18º Domingo do Tempo Ordinário, ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Cada vez sabemos mais da situação social e econômica que Jesus conheceu na Galileia dos anos trinta. Enquanto nas cidades de Séforis e Tiberíades crescia a riqueza, nas aldeias aumentava a fome e a miséria. Os camponeses ficavam sem terras e os proprietários construíam silos e armazéns cada vez maiores.

Num pequeno relato, conservado por Lucas, Jesus revela o que pensa daquela situação tão contrária ao projeto querido por Deus, de um mundo mais humano para todos. Não narra esta parábola para denunciar os abusos e os atropelos que cometem os proprietários, mas para desmascarar a insensatez em que vivem instalados.

Um rico proprietário vê-se surpreendido por uma grande colheita. Não sabe como gerir tanta abundância. “Que farei?”. O seu monólogo mostra-nos a lógica insensata dos poderosos que só vivem para acumular riqueza e bem-estar, excluindo do seu horizonte os necessitados.

O rico da parábola planifica a sua vida e toma decisões. Destruirá os velhos armazéns e construirá outros maiores Armazenará ali toda a sua colheita. Pode acumular bens para muitos anos. De futuro, só viverá para desfrutar: ”deita-te, come, bebe e leva uma boa vida”. De forma inesperada, Deus interrompe os seus projetos: “Imbecil, esta mesma noite, vão exigir-te a tua vida. O que acumulaste, de quem será?”.

Este homem reduz a sua existência a disfrutar da abundância dos seus bens. No centro da sua vida está apenas ele e o seu bem-estar. Deus está ausente. Os jornaleiros que trabalham as suas terras não existem. As famílias das aldeias que lutam contra a fome não contam. O juízo de Deus é determinante: esta vida só é estupidez e insensatez.

Nestes momentos, praticamente em todo o mundo está a aumentar de forma alarmante a desigualdade. Este é o facto mais sombrio e inumano: ”os ricos, tendem a se tornar ainda mais ricos enquanto os pobres afundam na miséria” (Zygmunt Bauman).

Este facto não é algo normal. É, simplesmente, a última consequência da insensatez mais grave que os humanos estamos a cometer: substituir a cooperação amistosa, a solidariedade e a busca do bem comum da Humanidade pela competição, a rivalidade e o açambarcamento de bens em mãos dos mais poderosos do Planeta.

Desde a Igreja de Jesus, presente em toda a Terra, deveria escutar-se o clamor dos seus seguidores contra tanta insensatez, e a reação contra o modelo que guia hoje a história humana.

sábado, 3 de agosto de 2013

A Igreja da empatia


O teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão, publicou o artigo abaixo no jornal La Repubblica, 30-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto, para o IHU.

É muito provável que os comentários sobre as declarações do papa sobre as pessoas homossexuais se dividam em duas correntes contrapostas entre si.

De um lado, aqueles que desejam uma decisiva reforma das posições da Igreja Católica entenderão as palavras do papa como revolucionárias, diferentes, anunciadoras de mudanças. De outro lado, aqueles que pretendem conservar o status quo lerão as mesmas palavras do papa como totalmente coerentes com as posições de sempre, aquelas reiteradas várias vezes por João Paulo II e Bento XVI.

E é preciso dizer, na verdade, que, na ausência de atos efetivos de governo do Papa Francisco voltados a modificar a legislação canônica vigente, ambas as posições têm a sua legitimidade própria. De fato, o papa não disse nada que Bento XVI também não teria assinado embaixo, dizendo que: 1) as pessoas homossexuais como tais devem ser acolhidas e em nada discriminadas, enquanto os atos sexuais delas não podem encontrar acolhida dentro da ética católica; 2) para os divorciados em segunda união, o primado deve ser atribuído à misericórdia; 3) a mulher deve ter mais espaço no governo da Igreja, mesmo que a Igreja não poderá chegar a lhe conceder a admissão ao sacerdócio, excluído das mulheres católicas definitivamente.

Por que, então, por parte de todos no mundo se sente nas palavras do papa uma sensação de novidade e de esperança, de inovações? Por que esse entusiasmo por palavras que, nos conteúdos, não modificam em nada a tradicional abordagem ética e dogmática católica? Eu penso que seja pelo clima de empatia que circunda a pessoa do pontífice e pela necessidade de mudança e de reforma que os católicos de todo o mundo sentem. Mas especialmente pela frase, esta sim totalmente inovadora para um papa, "quem sou eu para julgar?". Uma frase que, a meu ver, nem Bento XVI nem João Paulo II jamais poderiam ou quereriam pronunciar.

Essas palavras colocam o papa não mais entre os chefes de Estado e os poderosos deste mundo, que, por definição, julgam, mas sim entre os discípulos de Jesus atentos a pôr em prática as palavras do Mestre: "Não julguem e não serão julgados; não condenem e não serão condenados, perdoem e serão perdoados" (Lucas 6, 37). De tudo isso, porém, deve brotar uma consequente ação de governo, finalmente sob a insígnia da novidade evangélica (assim como são os gestos extraordinariamente simples e poderosíssimos desse papa).

Eu falei antes de empatia e gostaria de salientar que a empatia é muito importante, não só, como é óbvio, em nível psicológico, mas também em nível teológico. O termo, de fato, remete à palavra grega pathos, que significa paixão, e que constitui um dos conceitos centrais do cristianismo, a partir da paixão de Cristo e do amor que define a essência de Deus, amor que, por sua vez, é paixão e gera paixão.

O fato de que o Papa Francisco seja cercado por um abraço de empatia em nível mundial não se explica apenas em nível humano pela sua carga pessoal e pela espontaneidade e a simplicidade dos seus gestos; explica-se também em nível teológico e espiritual pelo seu ser capaz de representar a paixão de Deus pelo mundo.

Portanto, a empatia que circunda o papa (e que nos leva a ver em cada palavra sua algo de novo mesmo quando, por si só, não haja nenhuma novidade) é extremamente preciosa, é um sinal do Espírito, diríamos na linguagem teológica. E o papa não a deve decepcionar, deve estar à sua altura até o fim, indo ao encontro da necessidade de mudança que a maioria dos católicos no mundo sente com relação à Igreja.

De fato, é insustentável a posição católica tradicional com relação tanto às pessoas homossexuais, quanto às pessoas divorciadas, quanto ao papel atualmente ocupado pelas mulheres dentro do governo da Igreja. E é preciso coerência: não se pode proclamar em palavras o respeito pelas pessoas homossexuais e a sua igual dignidade de filhos de Deus e, depois, julgar a sua condição como condenada pela lei natural e pela Bíblia.

Ao contrário, se verdadeiramente se quer mostrar de modo concreto o respeito de que se fala com relação a eles, é preciso pôr em ação hermenêuticas consequentes tanto da lei natural (a ser entendida em sentido formal como harmonia das relações, e não como definições de papéis e de comportamentos), quanto das passagens bíblicas que condenam as pessoas homossexuais relegando tais páginas ao lado daquelas que favorecem a guerra ou a inimizade com relação às outras religiões (e que não merecem ser levadas em consideração). Ou seja, é preciso chegar ao evangélico "não julgar" e "não condenar".

Do mesmo modo, se verdadeiramente se quer que a misericórdia tenha o primado para os divorciados em segunda união, é preciso pôr em ação uma disciplina canônica dos sacramentos que lhes conceda que eles se aproximem sem nenhuma discriminação (assinalo, a esse respeito, o recente livro de Oliviero Arzuffi, Caro papa Francesco. Lettera di un divorziato, Ed. Oltre).

Da mesma forma, enfim, se verdadeiramente se quer que a mulher tenha maior poder dentro da Igreja, deve-se proceder em conformidade e, mesmo sem chegar à ordenação sacerdotal, deve-se permitir que as mulheres se tornem cardeais e ministros com plenos poderes de governo da Igreja (hoje, para se acessar ao cardinalato, é preciso ser diácono ou sacerdote, e as mulheres podem ter acesso ao diaconato, como testemunha o Novo Testamento, basta lê-lo e aplicá-lo).

"Quem sou eu para julgar?", disse o papa, e nisso se fez discípulo de Jesus. Mas Jorge Mario Bergoglio, como pontífice reinante, pode fazer com que essa mentalidade não julgante se torne a prática corrente da Igreja com relação às pessoas homossexuais e aos divorciados em segunda união. Diante dele, está a tarefa de não decepcionar a empatia que o circunda e as esperanças de renovação evangélica de muitos crentes e "pessoas de boa vontade".

Carta de um gay católico ao papa Francisco


Esta semana vários amigos compartilharam no Facebook a notícia de que um ex-padre gay havia escrito uma carta aberta ao papa Francisco. Embora as matérias divulgadas descrevessem a carta e contivessem trechos traduzidos do original espanhol, não encontramos nenhuma tradução na íntegra. Ao ler o original, ficamos muito impressionados com a clareza e qualidade de seu conteúdo, e achamos que valia muito a pena traduzir e compartilhar com vocês o texto completo. Fica para a reflexão de todos nós, Igreja.

Admirado e estimado Francisco:

Paz e bem! Tomo a ousadia de escrever, com todo o respeito e admiração marecidos.

Como milhões de pessoas, venho observando, ouvindo e acompanhando de perto sua nomeação, seus primeiros atos como papa, sua viagem à América Latina, suas belas palavras para os jovens. E, mesmo em meu atual agnosticismo, vi renovar-se minha esperança de que dentro da Igreja se torne realidade o tão esperado "aggiornamento" ["atualização"], como dito e reivindicado pelo Concílio Vaticano II. Estou feliz e comemoro o fato de que o ar fresco segue entrando no Vaticano, e de que há um longo caminho a percorrer.

Pessoalmente, faço eco às suas palavras: quero "criar problemas", "não me excluo", eu pertenço. Quero fazer valer os meus direitos e de muitos outros que estão em situação semelhante, não vou ficar de braços cruzados. Já fui padre, pastor, partilhei desse zelo missionário católico e da necessidade de reivindicar abertura da parte da Igreja - até que decidi me afastar, quando descobri minha própria tendência homossexual e admiti minha incapacidade de exercer o ministério pastoral em celibato. Hoje, meus caminhos seguiram em outras direções, e minha vocação foi tingida com outros tons.

Mas suas palavras e seu exemplo me fizeram reunir forças e tomar esta iniciativa. Atrevo-me a colocar-me como porta-voz de uma grande parcela de pessoas que pertencem à comunidade gay. E simplesmente, humildemente, peço-lhe encarecidamente que encoraje, estimule, promova e acompanhe um maior aprofundamento na teologia moral sexual sobre o lugar e a experiência das pessoas homossexuais.

Não peço que de um dia para outro a Igreja mude sua catequese em relação a este assunto. Pedimos apenas para não estigmatizar os teólogos e pastores que aportam elementos de dissensão a uma resposta pastoral insatisfatória para muitos de nós.

Não pedimos que se oponha à extensa tradição que fala de pecados contra a natureza, mas peço-lhe que reveja e amplie a concepção de "natureza".

Não lhe peço que deixemos de ler e interpretar as Escrituras, mas que nos aprofundemos e façamos leituras menos carregadas de preconceitos. Que não se usem mais como "armas" passagens bíblicas que a Teologia já provou e determinou que não se relacionam com o assunto. Quanto mais água deve correr debaixo dessa ponte para que se dissocie a palavra "sodomia" de um pecado que nada tem a ver com o que a passagem bíblica quer denunciar? Você sabe muito mais do que eu que, como esta, somos assolados por erros de interpretação que fizeram com que a Verdade - essa que nos torna tão livres - tenha sido relegada e escondida por muito tempo. Apenas para ilustrar com um exemplo: quantos anos levou para que João Paulo II pedisse desculpas pelos erros da Igreja em relação a Galileu Galilei - por interpretar mal uma passagem da Escritura (Josué 10,12-14)? É surpreendente que também nessa disputa o conceito de "natureza" esteja na base.

Não lhe peço que deixemos de manter uma doutrina. Peço-lhe que a ajude a continuar crescendo e adaptando-se aos novos paradigmas do mundo contemporâneo que nos desafiam a encontrar novas respostas. Lembra que, não muitos anos atrás, a Moral Sexual afirmava que o único objetivo primário do casamento era a procriação? Quantos casamentos tiveram renovada sua aliança quando foi reconhecido também o aspecto do amor e da ajuda mútua, o bem dos cônjuges? Essas atualizações são ar fresco que renova o coração das pessoas e as ajuda a viver com dignidade.

Não peço para diluir a Cristo; peço-lhe que, olhando para ele, se atreva a procurar todas as ovelhas espalhadas como um Bom Pastor.

Muitos governos e estados estão adotando uma forma mais aberta, uma nova visão de casais. O momento é propício. Há vários anos, o mundo clama por uma mudança de abordagem. Depois de anos de análise científica, em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade de "Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais". Mas só em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais.

A Igreja precisa dar um passo mais contundente e significativo. Para que atrasar ainda mais esse processo? Não seria bom ser pioneira, com respostas de adequação em uma sociedade em constante busca? Até não muito tempo atrás, pensava-se que esta tendência poderia ser curada com várias terapias e tratamentos. E você deve estar ciente de que são muitas as comunidades católicas que insistem nessas técnicas e causam prejuízos à vida de muitas pessoas submetidas a este tipo de prática.

Por experiência no confessionário, sei que há muitas pessoas que abraçam a fé católica e continuam recebendo uma resposta diluída, incompleta, que não cabe em seu estilo de vida. As pessoas de fé que têm essa tendência não tem muitas opções para viver sua sexualidade livremente. Ficam limitadas, na prática, a duas opções: ser casto ou celibatário (mas, de acordo com a doutrina católica, o celibato é um dom dado a poucos, que não pode ser abraçado compulsoriamente, por voluntarismo) ou agir de maneira distinta daquela proposta pelo catecismo e, portanto, viver em pecado, que seria a consequência de agir de acordo com a sua realidade homossexual.

Por outro lado, quando vejo na minha cidade, e em muitas outras do mundo, manifestações e passeatas do orgulho gay, reconheço que não me identifico plenamente com as formas pelas quais as reivindicações são apresentadas. Mesmo quando seu conteúdo seja verdadeiro sob muitos aspectos, me dói ver as duras críticas à Igreja (aquela que com tanto entusiasmo integrei no passado) e outras instituições, e me pergunto se a solução é mesmo o confronto agressivo, em um mundo tão dividido por visões díspares.

Gostaria de ser ponte e elo entre posições tão desencontradas, para que as experiências possam se aproximar e as expressões afetivas da humanidade possam se enriquecer. Aproveitar para transmitir algumas das dúvidas ocultas nestas reivindicações:

Será mesmo que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo não demonstra nem reflete de modo algum o amor de Deus? Será que não desvela algum traço ainda por descobrir de sua criação sem limites?

A Igreja realmente insiste na visão maniqueísta de que o sexo homossexual é apenas um ato de prazer carnal, destituída de qualquer real envolvimento espíritual, capaz de enobrecer o diálogo copular e corporal?

A Igreja vai mesmo, com seus silêncios, continuar permitindo que tantos jovens sejam estigmatizados em tantos países onde os gays ainda são mortos apenas por sua tendência? Não está na hora, como você mesmo disse, de sair e defender a integridade do ser humano com uma mensagem conciliadora e inclusiva?

Permita-me, finalmente, remontar-me à minha experiência pessoal. Especialmente quando me descobri homossexual, fiquei apavorado, com medo do novo e desconhecido que teria de enfrentar. Fiquei aterrorizado com a possibilidade de estar desafiando a vontade de Deus e estar à beira dos abismos do inferno. Minha saída do sacerdócio foi caótica, escandalosa, dolorosa. Mas justamente essa cicatriz, essa marca, essa ferida, hoje, me fazem questionar e desafiar esse paradigma, que continua sem nenhuma resposta sensata. Com humildade saudável, eu diria que hoje, depois de quase dez anos de vida monogâmica com outra pessoa do mesmo sexo, sinto-me feliz, realizado e ansioso para compartilhar essa experiência, de modo que muitos outros podem experimentá-la e vivê-la.

Ajude-me, e ajude muitos outros, a descobrir como mover-nos na fé, sem abrir mão da experiência de amor, que, em plena consciência, sentimos ser essencial em nossas vidas.

Com admiração e elevando uma oração por seu ministério.

Gioeni Andrew*, outro filho de Deus.

*Ex-padre católico que se reconheceu homossexual e renunciou ao hábito. Escritor e ator. Fonte

quarta-feira, 24 de julho de 2013

"Onde estás? Onde está o sangue do teu irmão?"


No início de julho, o Papa Francisco visitou a cidade de Lampedusa, no sul da Itália, "uma das principais rotas de entrada de refugiados do Norte da África em direção à Europa. A costa do Mediterrâneo naquela região é digna de uma versão contemporânea do inferno de Dante. Nos poucos mais de 100 quilômetros de mar que dividem a Europa do Norte da África já morreram milhares de pessoas. A maioria delas em função dos naufrágios das precárias embarcações, mas parte faleciam por falta de água e comida, enquanto ficavam à deriva no mar" (saiba mais aqui).

"Em Lampedusa começa o pontificado de Francisco. Não em ordem cronológica, mas de importância e significação de seu ato (
kairós). Lampedusa é a primeira “encíclica” de Francisco. Não é uma encíclica escrita, mas uma encíclica em ato, em gestos. Nesta encíclica, “o ministério petrino se despe das suas vestes monárquicas para se tornar encontro com a pessoa humana”, como diz Christian Albini.

Esta encíclica é diferente da outra, a
Lumen Fidei, escrita por Ratzinger, mas, na caridade, assumida por Francisco, para, de acordo com Marco Politi ser “enviada para ser impressa e enterrá-la”. A de Lampedusa, ao contrário, tem a sua cara. Nela palpita seu coração. Nela transparece e reluz o seu programa" (leia uma análise aprofundada da viagem de Francisco a Lampedusa e suas implicações para o atual momento da Igreja aqui).

A missa, presidida pelo papa, foi celebrada depois de Francisco, acompanhado por barcos de pescadores de Lampedusa, ter jogado no mar uma coroa de crisântemos seguido de uma profunda e emociante oração silenciosa, em memória dos emigrantes que morreram no Mediterrâneo, na entrada da Europa.

Na missa, o altar, o cálice e o báculo do Papa foram feitos com restos de madeira que sobraram dos barcos naufragados. Sim, o Papa, no meio dos emigrantes, usou um báculo de madeira. Algo raro na história.

Eis a homilia, que reproduzimos aqui via IHU.


Emigrantes mortos no mar; barcos que em vez de ser uma rota de esperança, foram uma rota de morte. Assim recitava o título dos jornais. Desde há algumas semanas, quando tive conhecimento desta notícia (que infelizmente se vai repetindo tantas vezes), o caso volta-me continuamente ao pensamento como um espinho no coração que faz doer. E então senti o dever de vir aqui hoje para rezar, para cumprir um gesto de solidariedade, mas também para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu. Que não se repita, por favor.

Antes, porém, quero dizer uma palavra de sincera gratidão e encorajamento a vós, habitantes de Lampedusa e Linosa, às associações, aos voluntários e às forças de segurança, que tendes demonstrado – e continuais a demonstrar – atenção por pessoas em viagem rumo a qualquer coisa de melhor. Sois uma realidade pequena, mas ofereceis um exemplo de solidariedade! Obrigado! Obrigado também ao Arcebispo Dom Francesco Montenegro pela sua ajuda, o seu trabalho e a sua solidariedade pastoral. Saúdo cordialmente a Presidente da Câmara Senhora Giusi Nicolini, muito obrigado por aquilo que fez e faz. Desejo saudar os queridos emigrantes muçulmanos que hoje, à noite, começam o jejum do Ramadã, desejando-lhes abundantes frutos espirituais. A Igreja está ao vosso lado na busca de uma vida mais digna para vós e vossas famílias. A vós digo: oshià!

Nesta manhã quero, à luz da Palavra de Deus que escutamos, propor algumas palavras que sejam sobretudo uma provocação à consciência de todos, que a todos incitem a reflectir e mudar concretamente certas atitudes.

"Adão, onde estás?": é a primeira pergunta que Deus faz ao homem depois do pecado. "Onde estás, Adão?". E Adão é um homem desorientado, que perdeu o seu lugar na criação, porque presume que vai tornar-se poderoso, poder dominar tudo, ser Deus. E quebra-se a harmonia, o homem erra; e o mesmo se passa na relação com o outro, que já não é o irmão a amar, mas simplesmente o outro que perturba a minha vida, o meu bem-estar. E Deus coloca a segunda pergunta: "Caim, onde está o teu irmão?" O sonho de ser poderoso, ser grande como Deus ou, melhor, ser Deus, leva a uma cadeia de erros que é cadeia de morte: leva a derramar o sangue do irmão!

Estas duas perguntas de Deus ressoam, também hoje, com toda a sua força! Muitos de nós – e neste número me incluo também eu – estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como aquela a que assistimos.

"Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim", diz o Senhor Deus. Esta não é uma pergunta posta a outrem; é uma pergunta posta a mim, a ti, a cada um de nós. Estes nossos irmãos e irmãs procuravam sair de situações difíceis, para encontrarem um pouco de serenidade e de paz; procuravam um lugar melhor para si e suas famílias, mas encontraram a morte. Quantas vezes outros que procuram o mesmo não encontram compreensão, não encontram acolhimento, não encontram solidariedade! E as suas vozes sobem até Deus! Uma vez mais vos agradeço, habitantes de Lampedusa, pela solidariedade. Recentemente falei com um destes irmãos. Antes de chegar aqui, passaram pelas mãos dos traficantes, daqueles que exploram a pobreza dos outros, daquelas pessoas para quem a pobreza dos outros é uma fonte de lucro. Quanto sofreram! E alguns não conseguiram chegar.

"Onde está o teu irmão?" Quem é o responsável por este sangue? Na literatura espanhola, há uma comédia de Félix Lope de Vega, que conta como os habitantes da cidade de Fuente Ovejuna matam o Governador, porque é um tirano, mas fazem-no de modo que não se saiba quem realizou a execução. E, quando o juiz do rei pergunta "quem matou o Governador", todos respondem: "Fuente Ovejuna, senhor". Todos e ninguém! Também hoje assoma intensamente esta pergunta: Quem é o responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs? Ninguém! Todos nós respondemos assim: não sou eu, não tenho nada a ver com isso; serão outros, eu não certamente. Mas Deus pergunta a cada um de nós: "Onde está o sangue do teu irmão que clama até Mim?"

Hoje ninguém no mundo se sente responsável por isso; perdemos o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do levita de que falava Jesus na parábola do Bom Samaritano: ao vermos o irmão quase morto na beira da estrada, talvez pensemos "coitado" e prosseguimos o nosso caminho, não é dever nosso; e isto basta para nos tranquilizarmos, para sentirmos a consciência em ordem.

A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolhas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!

Reaparece a figura do "Inominado" de Alexandre Manzoni. A globalização da indiferença torna-nos a todos "inominados", responsáveis sem nome nem rosto.

"Adão, onde estás?" e "onde está o teu irmão?" são as duas perguntas que Deus coloca no início da história da humanidade e dirige também a todos os homens do nosso tempo, incluindo nós próprios. Mas eu queria que nos puséssemos uma terceira pergunta: "Quem de nós chorou por este facto e por factos como este?"

Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por estas pessoas que vinham no barco? Pelas mães jovens que traziam os seus filhos? Por estes homens cujo desejo era conseguir qualquer coisa para sustentar as próprias famílias? Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de "padecer com": a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar!

No Evangelho, ouvimos o brado, o choro, o grande lamento: "Raquel chora os seus filhos (...), porque já não existem". Herodes semeou morte para defender o seu bem-estar, a sua própria bolha de sabão. E isto continua a repetir-se... Peçamos ao Senhor que apague também o que resta de Herodes no nosso coração; peçamos ao Senhor a graça de chorar pela nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada aos dramas como este. "Quem chorou?" Quem chorou hoje no mundo?

Senhor, nesta Liturgia, que é uma liturgia de penitência, pedimos perdão pela indiferença por tantos irmãos e irmãs; pedimo-Vos perdão, Pai, por quem se acomodou e se fechou no seu próprio bem-estar que leva à anestesia do coração; pedimo-Vos perdão por aqueles que, com as suas decisões a nível mundial, criaram situações que conduzem a estes dramas. Perdão, Senhor!

Senhor, fazei que hoje ouçamos também as tuas perguntas: "Adão, onde estás? Onde está o sangue do teu irmão?"

Que o papa que nos convida a não ter medo de renovar as estruturas da Igreja nos inspire, a cada um de nós e a todos os nossos irmãos, a assumir a responsabilidade cristã perante a dor do outro. E que nossa Igreja se inspire, assim, a assumir sua responsabilidade cristã de ir ao encontro de cada irmão LGBT que sofre, que se vê excluído e marginalizado, e abra os braços para acolhê-lo, como o Pai amoroso, no calor do seu coração.

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