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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ninguém nasce homofóbico


Recentemente, um vídeo com a reação de crianças ao verem dois pedidos de casamento entre pessoas do mesmo sexo tornou-se viral e comoveu vári@s usuári@s nas redes:


O programa 'Encontro Com Fátima Bernardes' desta quinta, 14, debateu a diversidade sexual no ambiente familiar e exibiu para um grupo de crianças de uma escola e seus pais/mães/responsáveis um flashmob realizado em Maringá com um pedido de  entre um casal gay. Confiram suas reações aqui.

"O legal foi que eles se casaram, ficaram felizes e pronto!", disse uma das crianças. Simples assim!

Ninguém nasce preconceituoso, ninguém nasce odiando o diferente. Se, infelizmente, ensina-se crianças a serem preconceituosas, também podemos ensinar o respeito e a igualdade para que tenhamos uma geração de adultos que respeite a diversidade.

A Educação é o melhor caminho para desconstruirmos o preconceito sócio-cultural contra pessoas LGBTs.

Assista na íntegra o debate sobre diversidade sexual no ambiente familiar no programa Encontro aqui.

Fonte: Eu sou a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um encontro transformador


No último dia 19/10/2013, o grupo Diversidade Católica, um grupo de fiéis leigos que promove a inclusão e conciliação das identidades homoafetiva e católica, promoveu seu 2º Encontro de Relatos e Experiências.
Desta vez este evento foi realizado em Niterói (RJ), com o intuito de conversar e partilhar relatos sobre os novos formatos familiares e a relação dos gays com suas famílias, abrindo espaço para a troca de experiências entre pais e mães de gays e gays que são pais, mães, tios, etc.
Foi a primeira vez que participei de um evento público. Até então só tinha participado das reuniões do grupo, que possuem outra dinâmica.
Apesar do pouco tempo de preparação e de divulgação, só posso render elogios a todos que "vestiram a camisa" e puderam juntos realizar este evento. Contratempos e correrias que, ao final, foram recompensados com os rostos que viram, nos relatos ao longo do dia, uma esperança contra o preconceito que ainda sofre a comunidade LGBT.
O pequeno espaço físico não foi em nenhum momento motivo de desconforto, pelo contrário, foi bem providencial! Permitiu uma postura acolhedora entre todos reunidos, sem lacunas de locais vazios.
Estar reunido com aproximadamente outras 50 pessoas, a grande maioria delas presentes ali com o grupo pela primeira vez, me fez notar o quanto esse assunto, apesar de "polêmico", é de grande (e urgente) importância neste século.
A questão gay vs. católico sempre foi questionável dentro da Igreja. Porém o assunto despertou uma nova esperança quando, após os dias festivos cheios de espiritualidade e de fé vividos durante a JMJ 2013 no Rio de Janeiro, vimos a postura acolhedora do Papa Francisco ao ser indagado sobre gays na Igreja.
E foi com esse sentimento, renovado pelas palavras do Sumo Pontífice, que algumas pessoas presentes relataram suas vivências. Foi muito bom ver um grupo de pessoas ali receptivas ao que todos tinham a dizer, desarmados de preconceitos ou convicções religiosas. Os presentes estavam ali para fazer o que pouco se faz hoje em dia: apenas ouvir.
Gays que têm filhos, gays que abandonaram casamentos convencionais para assumir um amor homossexual, tio que reconhece felicidade no casamento gay da sobrinha, gays que sofreram em assumir sua natureza por serem católicos... Enfim, relatos dos mais variados tipos foram partilhados neste dia. Todos eles de grande e valiosa importância, não somente para quem estava ali ouvindo, mas acredito, também importante para quem teve a sensibilidade e disponibilidade de expor um pouco de sua vida ao grupo.
Gostaria de destacar dois relatos que me tocaram profundamente: o dos pais de gays. Um casal, presente com seu filho, demonstrou seu amor incondicional ao filho. Não importa se ele é gay, canhoto, careca, gordo, negro... O amor sem limites dos progenitores demonstrou o que realmente o amor é: AMOR! Simples assim.
O outro relato, de uma mãe, encantou a todos pela simplicidade, pelas suas palavras, pelo seu testemunho de vida... Enfim, resumindo, as expressões de amor e afeto se faziam presentes e reais enquanto ela falava, podia-se sentir o seu amor pelo filho com sua narrativa. O filho presente se mostrava muito orgulhoso da sua mãe. E quem não ficaria?
A tarde agradável teve seu encerramento com um lanche onde a confraternização permitiu diálogo entre todos. A conversa com quem conhecia a proposta do grupo rendia elogios, dúvidas e agradecimentos. Muito bom ver aquele espírito de fraternidade entre "novos" e "antigos".
Para o Diversidade Católica fica a missão que esses tipos de encontro são importantes e transformadores.
Como rezamos, fica cada vez mais nítido que o Espírito Santo, que invocamos no início do encontro, tem renovado a face da terra e que o Pai Nosso, oração realizada ao final, traz cada vez mais o Seu Reino para o nosso meio. Amém!

Cristiano Pinto
Membro do Diversidade Católica

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

As novas famílias


Programa Justiça Seja Feita - As novas famílias, exibido pela TV Justiça em 06 de agosto de 2012.

(Fonte aqui)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Qual o Valor da Vida de Nossos Filhos e Filhas?

Junte-se às "Mães pela Igualdade" no Brasil, aqui

"A sociedade tratou dois meninos assassinados de modo desigual, mas a morte violenta os igualou."


Em 2006, no auge da comoção pública ocorrida em razão da morte do menino João Hélio, publiquei artigo de opinião no Congresso em Foco [aqui: "Há várias formas de matar uma criança"] em que questionava não apenas a exploração da dor pela mídia convencional, como também os discursos inflamados pela diminuição da maioridade penal, que mais uma vez surgiam ante um fato exaustivamente exposto nas TVs, jornais e rádios brasileiras.

Na mesma semana, um adolescente de 17 anos fora torturado, violado e morto, com requintes de crueldade na vizinha cidade de Anápolis, a segunda mais importante no estado de Goiás. Não foi publicada sequer uma linha nos jornais do Distrito Federal ou do país, e, mesmo em Goiás, apenas um pequeno jornal semanário (Jornal Opção) deu a notícia com pouco mais de 200 caracteres, quase num pé de página.

Qual a diferença entre João Hélio, o menino de seis anos, morto em razão de um assalto mal sucedido e o garoto sem nome, de 17 anos, torturado, violado e assassinado em Goiás? Por que os defensores da diminuição da maioridade penal, os paladinos da pena de morte, do movimento lei e ordem, nada falaram sobre o caso? O que motivou os editores de telejornais, jornais e rádios do país a sequer se preocuparem em dar a notícia? Por que não houve clamor popular, comoção pública, debates em torno da crescente violência que assola o país?
Tantas perguntas, uma única resposta. O que diferencia o garoto sem nome de João Hélio é que aquele causara rebuliço na família seis meses antes, por que revelara que era homossexual. E por que era homossexual, foi torturado, violado e friamente assassinado.
Retrato de uma sociedade adoecida em que a vida, a integridade física e emocional são valores relativos. Uma cultura que pune cruelmente todo aquele que não reza pela cartilha da maioria, que não realiza as expectativas identitárias, em especial e principalmente, que ousa desobedecer o código da heteronormatividade e das identidades de gênero binárias.
O que têm em comum João Hélio e o garoto sem nome? Eles têm mãe. Mas poderiam ter tantas outras coisas em comum, qualidades que jamais saberemos por que ambos foram vítimas da violência.
Ainda assim, para João Hélio, cuja identidade sexual e de gênero ainda não estava plenamente expressa, a sociedade bradou por justiça, os meios de comunicação inflaram o debate em torno da segurança pública, os políticos de plantão levantaram suas bandeiras de tolerância zero. Enquanto repousa anônimo o garoto torturado, violado e assassinado em Anápolis, e ninguém, exceto a própria mãe, clamou por justiça. A sociedade os tratou de modo desigual, mas a morte violenta os igualou.
É preciso que nossos filhos e filhas tenham direitos iguais. É necessário que a vida, a integridade física e emocional sejam valores absolutos em nossa sociedade. Respeitar e garantir os direitos civis de brasileiros e brasileiras sem qualquer distinção, inclusive a de orientação sexual, é garantir o estado democrático de direito.
- Maria Cláudia Cabral é advogada, blogueira e faz parte do movimento Mães pela Igualdade.
Publicado originalmente no site Congresso em Foco. Reproduzido via blog das Mães pela Igualdade.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Família, teatro do mundo

Imagem daqui

A libertação do ser humano – o sentido do cristianismo – não pode não libertar também a família; até mesmo de si mesma, se for preciso. E, então, a família pode realmente se tornar um Teatro do Mundo e do universal humano.

A opinião é do escritor italiano Claudio Magris, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004. O artigo foi publicado no jornal
Corriere della Sera, 03-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


As grandes religiões universais, e especialmente o cristianismo, não são coisa de family day. Cristo veio mudar a vida dos seres humanos e proclamar valores mais altos do que o imediato círculo dos afetos, ou, melhor, a chicotear duramente estes últimos quando regressivamente se opõem a um amor maior. Até mesmo o laço mais forte, o entre o filho e a mãe, é tratado bruscamente quando Maria quer interferir: "Mulher, que há entre mim e ti?", ele lhe diz.

Enquanto está falando para uma multidão, quando lhe vêm dizer que a sua mãe e os seus irmãos o estão procurando, Cristo responde: "Quem é minha mãe? E quem são os meus irmãos?", acrescentando que só é seu irmão quem faz a vontade do Pai.

Se há conflito entre a relação de parentesco e o mandamento, a escolha é clara: ele afirma que veio para separar, onde seja necessário, "o filho do pai, a filha da mãe". O seu próprio nascimento, além disso, escandaloso com relação às regras, certamente não se encaixa no modelo da ordem familiar.

Naturalmente, Cristo não pretende negar o amor entre e pelos esposos, os filhos, os irmãos, os pais. Ele quer potencializá-lo, libertá-lo da sua tão frequente degeneração egoísta, conservadora e redutora que empobrece aqueles laços universais humanos em um fechamento pávido e árido, barrando a porta para a vida e para os outros, entrincheirando-se em um pequeno mundo limpo e decente, mas indiferente à miséria e ao sofrimento, que talvez começam fora da porta barrada.

Há uma colorida expressão vêneta que retrata essa falsa e mesquinha harmonia familiar baseada na rejeição dos outros: "far casetta"."Eu tenho família" é a melhor desculpa para se esquivar perante um dever que nos chama a nos pôr em risco. A esse propósito, Noventa – grande poeta católico, um dos grandes poetas do século XX – respondia no seu dialeto vêneto a quem curva vilmente a cabeça ("son vigliaco" [sou velhaco]), alegando ter os pais idosos, a esposa ainda jovem e os filhos para manter: "Copé la mare, / Copé el pare, /La mugier zóvene / e i fioi — (…) No' saré più vigliachi" [matem o mar, matem o pai, a mulher jovem e os filhos (…) Não serão mais velhacos].

A família certamente é uma realidade histórica, embora de uma duração particular, e como tal está sujeita a transformações e a mutações, nunca tão intensa e confusamente como hoje, em um emaranhado de libertações ora justas, ora grosseiramente ideológicas e estúpidas, conformismos travestidos de transgressão ou de sagrados princípios, exibicionismos arrogantes, em um tumulto de tradições seculares, costumes, valores, formas de agregação familiar.

A família foi e dificilmente poderá deixar de ser uma célula primária do universal humano; o Teatro Mundial em que o indivíduo vem ao mundo, cujas vozes lhe chegaram desde quando ele ainda estava na primeira estação da sua viagem, no ventre da mãe; em que o indivíduo descobre o mundo, faz a experiência fundante do amor ou devastadora do desamor, aprende com os irmãos o jogo, a aventura, a luta, a ambivalência de afeto e rivalidade; em que o pai e a mãe lhe transmitem não só a vida, mas também o seu sentido. Não se equivocava Francesco Ferdinando, o herdeiro do trono de Habsburgo morto em Sarajevo, quando quis que, em seu túmulo, fossem inscritas apenas três datas: do nascimento, do casamento e da morte.

A família pode ser o encantador cenário da descoberta do mundo, como em Guerra e Paz, de Tolstoi, e pode ser tragédia e abjeção, ódio e violência, Caim e Abel, os Átridas e a estirpe de Édipo. Pode ser um lugar de opaca estranheza, de mesquinhos ressentimentos, de violência e de opressão; violência de pais ou de maridos chefes sobre filhos e sobre esposas, sórdida vingança feminina de sufocantes tiranias domésticas, incumbentes clãs parentais que transplantaram a tribo para a civitas e reabsorvem o indivíduo, como escrevia Kafka, na papa informe das origens.

A palavra família já é um Jano bifronte: indica o mundo que nos é mais caro e pode indicar o bestial laço mafioso. Gide podia dizer: "Famílias, quanto vos odeio". As novas formas de família radicalmente diferentes da tradicional, que se anunciam até se acenando com ênfase, podem trazer valores ou desvalores, mas certamente não estão protegidas das degenerações da convivência.

A libertação do ser humano – o sentido do cristianismo – não pode não libertar também a família; até mesmo de si mesma, se for preciso. E, então, a família pode realmente se tornar um Teatro do Mundo e do universal humano: quando, brincando com nossos próprios irmãos e amando-os, damos o primeiro e fundamental passo em direção a uma maior fraternidade, que sem a família não teríamos aprendido a sentir tão fortemente; quando os pais nos fazem entender concretamente o que significa sermos levados pela mão na selva do mundo, por uma mão que continua soerguendo mesmo quando não a aperta mais fisicamente.

Em uma família livre e aberta, o Eros também encontra a sua maior aventura, misteriosa e conturbadora; comer em paz o próprio pão com a mulher amada na juventude, como diz uma passagem bíblica muitas vezes citada por Saba, é uma experiência de grandes amantes. E os filhos, em um universo de relações libertadas do familismo (ansioso, autoritário, fraco, obsessivo, de acordo com os casos), tornam-se realmente a maior paixão que a vida nos faz conhecer.

A civilização grega nos deu Édipo e os Átridas, mas também Heitor, que, sem se preocupar com a própria morte, sobre os muros da Troia sitiada, brinca com o seu filho Astianax, e o seu maior desejo é que este cresça melhor e mais forte do que ele.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

"Deus sabe como o amo, e Ele a mim"

Foto: i can read

Nossa amiga Rosilene foi uma das pessoas que compartilharam conosco, no evento que realizamos domingo, um pouco de sua história e vivência como gay e católica. Aproveitamos esta oportunidade para dividir suas reflexões também com vocês.

Tenho 48 anos, sou cristã católica praticante e gay (talvez seja o contrário), mas nem sempre pude me afirmar assim. Desde bem pequena aprendi com meu pai a rezar. Me ensinou o Pai Nosso (que ensinava, naquela época, a rezar “Padre nosso que estais no céu...”), Ave Maria, Oração do Anjo da Guarda... Foi ele quem iniciou a minha formação católica. Aos três anos, como eu já sabia ler e escrever iniciei meus estudos na escola São José, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, uma escola católica. Era um ambiente afetuoso e de muita compreensão. As irmãs incentivavam a minha precocidade estudantil e fertilizavam a minha relação com Deus. Foi um tempo excelente! Aos seis anos, com ardente desejo de comungar (mesmo ainda não tendo iniciado o catecismo), aproveitei a distração do meu pai, na missa, na hora da comunhão, e corri como um raio para frente do padre, que gentilmente me deu a comunhão. Nossa! Sinceramente eu senti um estado de céu que nunca mais na vida esquecerei.

Tudo transcorria muito bem. Cresci, e as mudanças comuns ocorriam com naturalidade. Mudei de escola, de paróquia, fiz novos amigos... Participava das diversas atividades da igreja juntamente com minha família. Tios, tias, e primos, todos participávamos na mesma paróquia. Então veio a adolescência e a descoberta da sexualidade que me causava a maior confusão na cabeça. Um dia perguntei a minha mãe “porque é que eu gosto muito das meninas?”. Na maior tranquilidade ela me respondeu “é a sua preferência”. Fiquei satisfeita com a resposta, e minha vida seguia. Não demorou muito até eu me dar conta da minha homossexualidade, e foi aí que começaram os meus problemas. Era um dilema pra mim, pois em casa tudo bem, mas no círculo religioso uma pessoa gay não poderia participar das atividades pastorais comuns, porque seria um mau exemplo de pecado. Que terrível era conviver com aquelas pessoas, sendo considerada pecaminosa e desajustada. Então, plenamente consciente que a minha condição sexual era diferente das demais pessoas de minha família, da escola e da igreja, decidi reprimir minha sexualidade (o que foi uma situação de caos em minha vida). Mas os questionamentos não me abandonavam. Foi então, que passando férias em outra localidade, procurei o pároco e numa confissão, contei-lhe tudo o que se passava comigo. Ele me recomendou muita penitência e que eu me entregasse a contínuas orações e levasse uma vida de castidade. Procurei seguir fielmente as orientações daquele pároco, durante algum tempo. Foi um período sombrio em minha vida, eu tinha 18 anos. Então passei a frequentar as missas de maneira discreta e a me afastar das ações pastorais.

Foi então que conheci uma religiosa que me apresentou ao Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Fiquei amiga de um monge que me atendia às vezes em que eu ia ao mosteiro. Então um dia, abri meu coração a ele e contei-lhe tudo o que se passava comigo. Falei-lhe quanto me sentia triste, sobretudo que parecia que Deus vivia a me perguntar “Tu me amas?”, e que Ele não me dava nenhuma esperança a minha resposta “Senhor, Tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. Ele me olhou bem profundamente e me perguntou onde é que eu enxergava o Amor de Deus na minha vida. Com toda a convicção respondi “Na Encarnação de Jesus Cristo! ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus... O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens...’ “. “Então,” disse-me ele, “como você ainda não consegue enxergar esperança de que Deus te ama como você é?!”. Foi a minha libertação! Nada mais me aprisionou. Descobri que minha condição de ser homossexual não impede o amor de Deus, não me impede de praticar este amor, e nem me impede de praticar a religião cristã católica. Acolhi esta libertação como uma graça do Amor de Deus por mim. Retornei a igreja nos trabalhos pastorais com mais ardor, e é claro tive de superar obstáculos. Hoje com fé e confiança declaro como o Apóstolo “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos”.

Deus, que sabe de tudo, sabe como o amo e Ele a mim. Paz e Bem!

- Rosilene Luiza

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Somos todos iguais. Ou não?"


Safo foi uma pensadora, considerada por Platão a décima musa. Mas então por que ela não foi reconhecida como tal na Grécia Antiga? Mulher não tinha vez. Seu único papel social era de reprodutora e “cuidadora” do lar. Trocando em miúdos, um bibelô dos homens. Ela se rebela, cria uma escola só para mulheres, em Mitilene, capital da Ilha de Lesbos, com ensinamentos de poesia, dança e música. Tal foi o preconceito quanto ao talento e às atitudes vanguardistas de Safo que precisaram lhe incutir algum “defeito”. Claro, corruptora de mulheres! Já que vivia cercada delas. A força dessa “medalha” foi tamanha que até hoje se define como “lésbica” a mulher que se relaciona sexualmente com outra. E se, em 1476, Leonardo da Vinci tivesse sido condenado à fogueira no Tribunal de Florença por crimes sodomitas (nome dado a homens que mantinham relações com outros homens)? O que a Humanidade teria perdido de obras artísticas, científicas e culturais?

Apenas dois exemplos, aparentemente distantes no tempo, para ilustrar esta caminhada. Por que permanece acesa essa fogueira da inquisição até o século XXI? Obama reconheceu. Que se apague esse fogo! O fogo do preconceito, que fique claro, mas que a chama da liberdade, do amor e da pluralidade arda incessantemente! Por falar em pluralidade, ela tem duas outras companheiras também regidas pela Constituição Federal: a dignidade e a igualdade. Se somos iguais perante a lei, por que a união de pessoas do mesmo sexo deve ser diferente?

Não estamos tratando de religião, como a palavra casamento pode soar aos nossos ouvidos. Tratamos aqui de um contrato especial de direito de família. Simples assim: vamos nos casar? Vamos ao cartório selar esta comunhão. Mas, até hoje, mesmo com alguns avanços jurídicos, não é bem assim. A união estável tem profundas diferenças do casamento civil. Neste, existe mudança do estado civil para casado, a intenção primordial da formação de família e direitos de proteção do cônjuge em caso de morte ou separação. Na união estável, trata-se de uma decisão judicial com exigência de que o casal recorra à justiça para tal reconhecimento.

Fundamentalistas se baseiam na ideia da existência exclusiva da formação de casal somente entre homem e mulher para condenar a aprovação do casamento igualitário. Só para lembrar, o casamento homossexual foi proibido pela primeira vez apenas no ano de 342 d.C. por um decreto romano. Até então era permitido. Ora, a escravidão era permitida legalmente até que a Lei Áurea foi assinada. Ora, as mulheres não tinham direito a voto até 1932. Hoje, elas chegam ao topo do poder de grandes nações. E imaginar que a gente nem votava há exatos 80 anos parece um completo absurdo! O mundo muda, as famílias mudaram, e as leis têm obrigação social de acompanhar essa evolução.

Até os contos de fadas sofreram mudanças e atualizações. Chapeuzinho Vermelho se transformou em “A Garota da Capa Vermelha”, uma versão noir da clássica neta e mocinha. Rapunzel virou animação bem-humorada em “Enrolados”, e “A Bela e a Fera” passou por uma profunda repaginada para se atualizar aos desejos deste público moderno.

Fiz a minha parte. Compus um conto de fadas com direito a castelo, dragão, duelos e cavaleiros, permeados por um amor capaz de vencer todos os obstáculos. É a história de “A Imperatriz e a Princesa”. Canção que encerra “Eu Raio X”, meu último álbum, e que, espero, traga a todos a inclusão que questiono aqui: dignidade, pluralidade e igualdade para que sejamos TODOS “tão felizes para sempre”!

- Isabella Taviani é cantora
Publicado originalmente no jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 5 de junho de 2012

Novos jeitos de amar

RETRATOS DA DIVERSIDADE: As três gerações da família Laborne, com enteados e filhos; Soraya Tofani, Ageeo Simões e os filhos dos casamentos anteriores; os recém-casados Rodrigo e Wanderson e Iracema, mãe de Wanderson; Paulo Barcala e o filho do segundo casamento, que tem a mesma idade do primeiro neto do publicitário; e Luiz Guilherme e Doralice, que optaram por não ter filhos

Modelo antigo da estrutura familiar divide cada vez mais espaço com situações diferentes: pais solteiros, casais unidos de maneira informal e casamentos entre pessoas do mesmo sexo. É a família mosaico, que dá um basta aos preconceitos.

Durante a festa de aniversário de 10 anos de Pedro Henrique, os amigos do Colégio Santo Antônio se reuniram para cantar o Parabéns pra você. Depois da música, veio o complemento constrangedor: “Com quem será que o Pedro vai casar/Vai depender se o Pedro vai quereeer…” E a canção não parou aí. Os colegas do menino insistiram na continuação da melodia: “ Eles vão casar e ter um monte de filhos/E daí então o Pedro vai se separaaar!” Na época, a brincadeira soou interminável para a mãe do garoto, a publicitária Soraya Malheiros. Ela sim, estava se separando do marido, com dois filhos para criar. Além de Pedro Henrique, havia João Paulo, de 7 anos.

Esse episódio ocorreu há cerca de 10 anos, quando as separações eram menos aceitas em Minas Gerais. De lá para cá, o termo desquite deixou de existir, sendo substituído por divórcio. Entre 2000 e 2010, o número de divórcios mais que dobrou no estado: passou de 1,6% da população para 3,3%, segundo dados do Censo 2010, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o fim dos casamentos, entram em cena os segundos relacionamentos e, consequentemente, os frutos dessa nova união e a convivência com os enteados, filhos das relações anteriores. É preciso criar um glossário para ajudar a entender os novos arranjos familiares, que incluem irmãos emprestados, “namorido” (namorado que vive uma relação conjugal com a mãe) e “boadrasta” (nova mulher do pai).

Os novos arranjos familiares em Minas são muitos: pais solteiros, casais sem filhos por opção, uniões estáveis e até o primeiro casamento gay de papel passado, que ocorreu este ano em Manhuaçu, a 278 quilômetros de Belo Horizonte, na Zona da Mata. Wanderson Carlos de Moura, de 34 anos, e Rodrigo Diniz Rebonato, de 18, se casaram e um adotou o sobrenome do outro.

Ufa, é tanta confusão que parece mais simples permanecer amando à moda antiga. “Há uma tendência a idealizar a família perfeita e a atribuir as dificuldades naturais da vida à separação dos pais. Se o modelo antigo, autoritário e patriarcal, era mais fácil de seguir, o novo modelo permite fazer escolhas”, compara Giselle Groeninga, psicanalista, doutora em direito civil pela Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Sociedade Internacional de Direito de Família (ISFL). Segundo ela, nos moldes antigos as questões homoafetivas, escapadas fora do casamento e o adultério costumavam ser tratadas com hipocrisia, repressão e sentimento de culpa. “Nos casais de hoje, instituições como a família, o Estado e a Igreja passam a ser separadas entre si e cada uma delas se fortalece”, completa.

FAMÍLIA MARGARINA Não quer dizer que a tradicional família mineira deixou de ser a “família-margarina”, formada por mãe e pai, filho e filha, que, pelo menos nas propagandas, parecem felizes para sempre. Segundo o Censo, porém, o número de casados caiu 5% em Minas e o grupo de pessoas que se unem informalmente cresceu quase 40% entre 2000 e 2010. De acordo com IBGE, elas já são quase um quarto da população. “As mudanças têm sido aceitas sem alarde, dentro do espírito da mineiridade. Mas elas têm acontecido”, lembra o advogado João Batista de Oliveira Cândido, especialista em direito de família.

Numa ampla casa do Bairro Cidade Jardim formou-se uma perfeita “família mosaico”, termo usado por especialistas ao se referirem às configurações familiares do século 21. No mesmo ambiente convivem “os meus, os seus e os nossos filhos”, como se costuma dizer. “Por mim, não teria me separado nunca. Para o homem, é difícil tomar a iniciativa”, declara o oftalmologista Luiz Alberto Laborne Tavares, de 51 anos, que terminou o primeiro relacionamento em 1999, depois de nove anos de união e dos filhos Pedro Henrique, hoje com 20 anos, e Lucas, de 19. O “namorido” calcula que sejam necessários quatro anos para administrar a situação. Ele passou a morar com a então namorada, a “boadrasta” Carina Ferreira, de 32, que já era mãe de Caio, de 14. Juntos, os dois tiveram Isabel, de 4 anos, que ajudou a unir os três “irmãos emprestados”.

De início, a situação gerou conflitos com os pais de Luiz Alberto, o oftalmologista Ângelo Laborne Tavares, de 90, e a professora de ioga Maria Tereza, juntos há 64 anos. Os ajustes, porém, foram feitos. “O tempo faz o seu curso e nós com ele vamos”, filosofa o patriarca, que diz escrever poemas até hoje para sua “menina”. Ela sorri e dá as mãos ao “filhinho”: “Cheguei a ter preconceito em relação às separações, mas entendo que eles queiram renovar a vida. Eu tive a sorte de encontrar a pessoa certa de primeira. Nós nunca brigamos.”

Filhos se adaptam à diversidade
As múltiplas configurações da nova família – homoafetivas, mosaico, de mães ou pais solteiros – provocam alterações que vão além da legislação e da nomeclatura. Os novos papéis e lugares que seus membros ocupam nesse emaranhado de combinações afetivas acabam por transformar a identidade das gerações futuras. Na maioria das vezes, para melhor. É o que afirma a psicanalista Giselle Groeninga. Segundo ela, a identidade é formada pelo conjunto de exemplos que temos de pessoas afetivamente importantes, em geral mãe e pai, e pela aprovação que se tem dessas pessoas. São os pais, ou as pessoas que exercem essa função, que passam para a criança os valores sociais. Se eles estão inseridos numa relação familiar que tem como característica a diversidade, a tendência é termos crianças mais “flexíveis”.

“Se essas pessoas estão agindo de forma mais livre, por exemplo em relação ao papel e função de pai e de mãe, de homem e de mulher, a consequência será a formação de pessoas mais flexíveis e, espera-se, com maior capacidade de empatia e com menos preconceitos”, diz, ponderando que não se pode desconsiderar que há também um movimento de retrocesso, com famílias mais rígidas, inclusive pelo grau de confusão e angústia que a mudança nos valores tem trazido.

No caso de famílias reconstituídas, isso é, com irmãos vindos do primeiro casamento da madrasta ou padrasto, a formação da personalidade dos filhos também apresenta um padrão diferente. Para Giselle, essas famílias requerem das crianças um “trabalho mental” maior, já que a identidade e a afetividade não estão diretamente ligadas ao parentesco. “A identidade é formada pela genética, pela inserção em linhagens familiares e pelo que se denomina de aspecto socioafetivo, ou parentalidade socioafetiva. Fica mais fácil quando esses três aspectos se concentram nas mesmas pessoas. O importante é que se mantenham os vínculos com os pais e se agreguem novas possibilidades. Em família, a ideia é somar, respeitando-se as funções exercidas de cada um”, analisa.

Giselle diz que, apesar de se afirmar que ninguém é insubstituível, quando se fala de pessoas com alto grau de envolvimento afetivo, nas relações familiares todos são insubstituíveis. “As funções paterna, materna e filial podem ser exercidas por outros. É importante, no caso de outros exercerem tais funções, que se reconheça a contribuição dos originais e se valorize a possibilidade atual.”

Para Maria Berenice Dias, vice-presidente do IBDFam, é preciso admitir que os filhos podem ter mais de um pai e uma mãe. “Será que o padrasto que o acompanhou uma criança a vida toda, não é também pai? Tenho visto muito essa situação: “Eu gosto do meu pai e do meu padrasto e tenho que escolher quem vai ao meu casamento. Vou me sentir muito mal porque ele me deu tudo”, completa.

Sem carinhos em público
Em casa, Rodrigo, de 18 anos, até ajuda na faxina, mas Wanderson, de 34, acha injusta a divisão de tarefas. “Eu cozinho, lavo e passo a roupa, arrumo a cama. Mas fazer o quê?”, resigna-se o mais velho, sorridente. Dois meses depois do primeiro casamento civil entre homens em Minas Gerais, Wanderson Carlos de Moura Rebonato e Rodrigo Diniz Rebonato Moura vivem dificuldades e alegrias típicas de qualquer casal, mas ainda não trocam afagos em público — sequer andam de mãos dadas. “Ele tem vergonha, mas eu não. Abraço no meio da rua”, diz Rodrigo, que está trabalhando como apanhador de café. “Aí, eu tiro a mão dele. Prefiro não nos expor”, justifica Wanderson, bordador. Os pais de Wanderson tratam Rodrigo com carinho, mas, católicos, nunca esconderam a insatisfação com o casamento, ao qual não compareceram. “Nunca tive coragem de tocar nesse assunto com eles. diz Wanderson.

Livres para as aventuras
Mochileiros desde a juventude, Luiz Guilherme de Moura Mendes, de 52 anos, e Doralice, de 51, vão comemorar Bodas de Prata este ano com uma travessia da Serra do Caraça, em dezembro. A nova aventura do casal ficaria mais complicada se os dois não tivessem optado, desde o início do relacionamento, por não ter filhos. Eles investiram em viagens os gastos com mensalidades escolares, fraldas e cursos extras, que seriam inevitáveis caso tivessem tido bebês. “Acho bacana ter filhos, mas não é a minha praia”, explica Dora. O casl optou por alternativas mais radicais, como subir o vulcão Tungurahua, no Equador e percorrer de jipe a Ilha de Páscoa. Segundo o marido, os dois baixaram a guarda por volta da idade limite de Dora para engravidar, aos 34 anos, e pararam de evitar filhos. Como nada aconteceu naturalmente durante um ano, desligaram-se da questão.

Namoro com pai solteiro
Depois da separação, a publicitária Soraya Malheiros decidiu investir na carreira e nos filhos. Ela se tornou barista e abriu uma cafeteria na Savassi. O ex-marido tornou a entrar em um relacionamento no ano seguinte. Soraya, por sua vez, levou 13 anos para apresentar um namorado firme aos filhos. Pedro Henrique, de 20 anos e João Paulo, de 17. Soraya conheceu ao vivo Aggeo Simões, cantor, locutor e ator, com quem já havia conversado pela internet. “A Sosô estava tão bonita de vermelho da primeira vez, e na vez seguinte a gente ficou e agradou um do outro”, explica Aggeo, que cuida da filha Ava, de 8 anos, em regime de guarda compartilhada com a mãe. Ele alimenta o blog Manual do Pai Solteiro, que deve virar livro. “Já conhecia o trabalho dele no blog e percebia o quanto ele era fofinho ao compartilhar as experiências de ser pai sozinho, de fazer comidinhas para a filha”, derrete-se Soraya, com 8 meses de namoro.

Os meus filhos, o seu filho e a minha filha
“Na época, a separação foi sofrida, mas a relação com a ex-esposa transformou-se em amizade e respeito”, afirma o médico Luiz Alberto Laborne Tavares, casado pela segunda vez. Os filhos do primeiro casamento continuam morando com a mãe, mas Pedro Henrique, guitarrista e estudante de publicidade, montou um estúdio de música na clínica do pai. “No começo foi difícil, pois a gente se acostuma a morar junto com os pais. Mas vejo meu pai sempre”, diz o vestibulando Lucas, que se tornou amigo de Caio, filho emprestado do pai com a madrasta Carina, que é bancária. Com ela, o médico teve Isabel, de 4 anos, que se dá bem com os três irmãos mais velhos e com a coelhinha Jojô. Há 12 anos, Carina mantém união estável com o médico, em contrato registrado no papel, deixando claras as intenções de cada um. “É natural que existam diferenças de amor quando Luiz trata da nossa filha ou do meu filho, mas isso é o que menos pesa hoje”, compara Carina. Segundo ela, na hora de decidir as viagens, as escolas onde matricular e as compras de roupas o tratamento é igual para todos.

Laços cada vez mais fortalecidos
Para especialistas do setor, os laços da família nunca estiveram tão fortes, apesar de terem sido amarrados de um jeito diferente. Segundo dados do Censo, os mineiros não vivem sós. Quase a metade da população (48,3%) está envolvida em algum tipo de união, formal ou informal. “As pessoas se perguntam se as crianças filhas de casamentos gays ou de segundos ou terceiros casamentos vão sofrer preconceitos. É claro que vão, assim como sofriam antes os filhos de pais separados”, alerta o advogado Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFam), com sede em Belo Horizonte.

A partir da experiência de Minas, estão surgindo decisões importantes no cenário nacional do direito de família, como a noção dos relacionamentos ligados pelo afeto e não pelas questões econômicas, como ocorria no passado com as famílias patriarcais. Da nova definição de família, defendida pelo IBDfam, deriva o conceito de uniões estáveis homoafetivas que, sem trocadilhos, acabou “pegando” para definir os casais gays.

“Novas estruturas de família estão em curso. O que não quer dizer que a família está em decadência. Pelo contrário. Ela nunca teve tanta importância quanto agora”, alerta o advogado, autor da primeira ação de abandono afetivo com decisão favorável em primeira instância no país a um filho que se sentiu desprezado pelo pai biológico na infância. Infelizmente, o cliente de Cunha teve o pedido negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2004. Só em 2012, um pai, do interior de São Paulo, foi condenado a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais por ter deixado de prestar cuidados e assistência à filha, segundo decisão do STJ.

Pai de Ava, de 9 anos, o locutor e cantor Aggeo Simões tem pouca chance de vir a ser processado pela filha. Autor do blog Manual do Pai Solteiro, ele faz parte do grupo de um homem em cada 10 mulheres brasileiras capazes de cuidar sozinhas das crianças, sem a necessidade da ajuda do cônjuge. Na realidade, desde que Ava tinha 18 meses, ele e a mulher, a artista plástica Júnia Melillo, concordaram em compartilhar a guarda da filha. Em relação a viver em duas casas ao mesmo tempo, Ava interrompe a entrevista para protestar: “Eu já implorei para os dois ficarem juntos, como namorados. É que, na maior parte das vezes, minha mochila está na casa do outro e eu não consigo fazer o para casa. A professora já avisou que, da próxima vez, quem não fizer os deveres vai perder o recreio”, desabafa a garota, revirando os olhos e antevendo um futuro sem folgas. “Fora isso, está tudo bem!”, completa.

(Publicado originalmente no Estado de Minas, em 03/06/12. Reproduzido via Conteúdo Livre)

domingo, 3 de junho de 2012

Casar homossexuais

- Sou contra o casamento gay.  - Por quê?
- Porque o casamento tradicional é entre um homem e uma mulher. É o que diz a Bíblia.
- Na verdade, o Rei Salomão tinha 700 esposas. E o casamento tradicional, de acordo com o Deuteronômio,
significa que o homem que estuprar uma mulher terá de casar com ela,
então é melhor você repensar seu argumento.
- Tenho nojo dos gays.   - Ah, agora sim.

A cada ano, mais e mais países têm aprovado o casamento entre homossexuais. No Brasil, o casamento civil ainda é sistematicamente confundido com o sacramento católico do matrimônio. Mas se para muitas religiões a homossexualidade ainda é pecado, para o Estado laico é o exercício do direito à livre orientação sexual e não pode ser pretexto para qualquer discriminação.

Por Túlio Vianna, para a Revista Fórum.


O divórcio só foi legalizado no Brasil em 1977. A depender de alguns religiosos da época, o casamento até hoje seria “até que a morte os separe”, pois “o que Deus uniu o homem não separa”. Os moralistas de plantão alegavam que o divórcio seria a degeneração da família e que, por costume, o casamento seria a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”. Os filhos de casais separados eram invocados como as grandes vítimas da então nova lei mas, paradoxalmente, eram estigmatizados justamente por quem era contrário ao divórcio.

Passados 33 anos, o mundo não acabou, o Brasil não foi devastado pela ira divina e a emenda constitucional nº66 de julho de 2010 tornou possível o divórcio direto, sem a necessidade de uma prévia separação judicial. Ao contrário do que pregaram alguns profetas, o divórcio foi incorporado à legislação e ao cotidiano dos brasileiros sem maiores traumas.

A celeuma em relação ao casamento agora é outra: podem os homossexuais se casar? Os argumentos do debate continuam os mesmos: “a Bíblia não permite! Está lá no Levítico: 18-22!”, bradam os contrários; mas “o Estado é laico! Está lá na Constituição: 19-1!”, retrucam os defensores.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o casamento civil é um contrato entre duas pessoas que deve ser firmado com base no princípio da autonomia da vontade. Se as partes são maiores e capazes, e há um efetivo consenso entre elas, o Direito deveria simplesmente respeitar suas vontades, sem impor qualquer tipo de limitação. Assim, não haveria qualquer óbice ao casamento de pessoas do mesmo sexo.

O casamento civil brasileiro, porém, desde sua criação, vem sendo reiteradamente confundido com o sacramento católico do matrimônio que lhe deu origem. Com a proclamação da República e o advento do Estado laico, uma das consequências imediatas foi a criação do casamento civil, pelo decreto 181/1890. Na prática, porém, o casamento civil emulava o matrimônio religioso e mantinha suas principais características: patriarcal, indissolúvel, monogâmico e heterossexual.

O Código Civil de 1916 manteve estas características, que só começaram a ser alteradas com o advento do Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/62), quando a esposa deixou de ser relativamente incapaz, e da Lei do Divórcio (Lei 6.515/77), que pôs fim à indissolubilidade do casamento. A Constituição da República de 1988 deu feição bem mais moderna ao Direito de Família, assegurando a igualdade entre homens e mulheres (art.5º, I) e reconhecendo a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar (art.226, §3º). A discriminação por orientação sexual não foi expressamente mencionada no seu art.3º, IV, que proíbe o preconceito, mas foi abarcada pela vedação genérica a “quaisquer outras formas de discriminação”.

Os dogmas católicos da monogamia (art.1566, I) e da heterossexualidade (art.1514) foram mantidos pelo Código Civil de 2002 como características intrínsecas ao contrato de casamento civil, vedando assim os casamentos abertos e entre homossexuais. Estas restrições, na prática, não impedem os casamentos abertos, bastando aos interessados a aceitação do dever de fidelidade recíproca na cerimônia, para logo em seguida o descumprirem de comum acordo na vigência do casamento. O mesmo, porém, não se pode dizer dos casamentos homossexuais, que permanecem inviabilizados por uma inaceitável interferência religiosa no Estado laico.

Na impossibilidade de formalizarem sua união, os casais homossexuais passam a morar juntos, constituem famílias e seguem suas vidas, quase à revelia do Direito. Como em toda família, porém, separações ocorrem, pessoas morrem e questões jurídicas sobre este patrimônio constituído na vida em comum são levadas ao Judiciário.

A jurisprudência dos tribunais estaduais inicialmente solucionava estas questões, tratando a união como “sociedade de fato”, ou seja, como se os companheiros fossem sócios da micro-empresa “Lar Doce Lar”. Se um dos “sócios” morresse, o sobrevivente recebia a cota parte que lhe cabia na sociedade e a cota do falecido era deixada aos seus herdeiros. Atualmente, porém, muitos tribunais já dão sinais da aceitação da união estável homossexual, até para evitar situações absurdas como o companheiro falecido deixar sua herança aos seus irmãos, tios, sobrinhos ou primos que, em muitos casos, o hostilizavam por sua orientação sexual, em detrimento do companheiro sobrevivente que com ele trabalhou para acumular tal patrimônio e muitas vezes acabava por ficar na miséria.

A necessidade do reconhecimento jurídico das relações homossexuais, porém, vai muito além da questão da herança. Uma série de direitos exercidos quase que inconscientemente pelos casais heterossexuais é cotidianamente negada aos homossexuais: direito de adotar o sobrenome do companheiro, de somar renda para aprovar um financiamento ou alugar um imóvel, de inscrever-se como dependente do companheiro na Previdência, no imposto de renda e no plano de saúde, de gozar de licença na morte do companheiro ou quando este tiver filho, de realizar visita íntima ao companheiro preso, dentre muitos outros. Em suma, dá-se um tratamento jurídico de solteiro a um casal, cerceando-lhe direitos por mero preconceito moral e religioso.

Para tentar minimizar esta excrescência jurídica, tramita no STF, desde 2009, sob relatoria da ministra Ellen Gracie, a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4.277-7 que busca o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo, como entidade familiar. Se provida, o poder judiciário, na prática estará suprindo em parte a omissão do legislativo em legislar sobre a união civil de homossexuais, reduzindo consideravelmente a discriminação jurídica hoje existente.

União estável, porém, não é casamento. Há diferenças jurídicas significativas que vão do uso do sobrenome, somente autorizado aos casados, até o tratamento dado à herança. Para além do direito, falta principalmente à união estável o simbolismo de uma cerimônia perante familiares e amigos reconhecendo a união do casal. Assim, mesmo que o STF admita a união estável homossexual, faz-se necessário que o legislativo aprove uma lei autorizando o casamento ou, ao menos, a união civil de homossexuais.

Em 1995, a então deputada federal Marta Suplicy (PT-SP) apresentou à Câmara dos Deputados o projeto de lei 1.151 propondo a regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. O projeto original foi modificado em 2001 por um substitutivo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e, desde então, aguarda a boa vontade dos deputados para votá-lo. Mais recentemente um novo projeto de lei (nº 4.914/2009) em sentido semelhante foi proposto pelo deputado federal José Genoino (PT-SP), e atualmente está sendo discutido nas comissões da Câmara.

No Brasil, até o momento, optou-se por projetos de leis que buscam regular a questão como união civil, e não como casamento. Esta união civil, que não deve ser confundida com a mera união estável, seria registrada em cartório e, na prática, geraria efeitos praticamente idênticos ao de um casamento civil. Foi a estratégia política encontrada pelo legislador para tentar minimizar a oposição à lei por parte dos setores conservadores da sociedade.

Este modelo da união civil de homossexuais foi adotado em alguns países europeus (Reino Unido, França, Alemanha etc), mas vem sendo bastante criticado por dar um tratamento jurídico desigual em função da orientação sexual. Muito mais democrático tem sido o reconhecimento por inúmeros países da igualdade jurídica entre uma união heterossexual e uma homossexual. Desde que a Holanda aprovou em 2001 o casamento homossexual, muitos outros países também sancionaram leis no mesmo sentido como Bélgica (2004), Espanha e Canadá (2005), África do Sul (2006), Noruega e Suécia (2009), Portugal e Argentina (2010).

Aqui, não raras vezes ainda se vê políticos de todos os espectros partidários valendo-se de um discurso escancaradamente religioso para rechaçar a aprovação do casamento civil de homossexuais, com base nas restrições do sacramento católico do matrimônio. Os mais cuidadosos procuram disfarçar sua fundamentação religiosa, recorrendo a argumentos do quilate da “tradição” e do “costume”, utilizados no passado para justificar a escravidão, a virgindade e o casamento indissolúvel por toda a vida.

Enquanto o exercício de direitos for negado por questões exclusivamente religiosas não seremos uma sociedade efetivamente democrática. Impressiona a quantidade de pessoas que lutam acirradamente para impedir que casais possam viver uma vida feliz juntos, porque esta relação contraria os dogmas da sua fé. Lutam para que o Direito impeça as pessoas de expressarem seu afeto, seu carinho, seu amor.

Já é hora de aprovar uma lei que permita o casamento dos homossexuais no Brasil. O Direito não pode servir de cão-de-guarda da intolerância religiosa alheia. Que os casais homossexuais também possam se casar e ser felizes para sempre, até que a morte – ou o divórcio – os separe.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Todos os homens podem se casar


“Homecoming” é o título do curta-metragem produzido a fim de apoiar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Inglaterra e no País de Gales.

De autoria do premiado cineasta Mike Buonaiuto, "Homecoming" retrata um soldado inglês que transforma o seu regresso ao país num pedido de casamento ao seu parceiro. Desde o seu lançamento, em abril último, já teve mais de 750 mil visualizações.

Em 2005 foi concedido aos casais constituídos por pessoas do mesmo sexo acesso à figura jurídica da união civil, mas ainda continua a ser negado o acesso ao casamento civil.

(Fonte: dezanove.pt)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

As vadias vão às ruas

Mais informações aqui

“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.”

- Paulo Freire
(Citado pela Vivi, que explica direitinho Por que ir à marcha das vadias. Não deixe de ler, aqui)

"Há anos mulheres são ensinadas a não serem estupradas, mas nossa sociedade não parece preocupada em ensinar os homens a não estuprarem. Mulheres que sofreram algum tipo de violência sexual não são vadias. Nenhuma mulher é estuprável. Nenhuma roupa é um convite para o estupro. (...)

Para as mulheres, a palavra 'vadia' não tem o mesmo significado que para os homens. Vadias e vagabundas são todas as mulheres que ousam ir contra as regras do moralismo vigente. Apropriar-se do termo 'vadia' e ressignificá-lo é uma das principais estratégias do movimento. Se não posso usar a roupa que quero sem ser julgada por isso, se a liberdade das mulheres não é plena, então somos todas vadias.

Muitas pessoas acham ofensivo participar de uma marcha com esse nome. Não querem associar-se ao termo. Tomar para si a palavra 'vadia', tantas vezes usada para machucar, é uma forma de empoderamento, por meio de uma reação questionadora. Porém, é preciso ter em mente que há diferentes tipos de desigualdades e violências. Por isso é interessante ver que várias marchas têm buscado a inclusão e a coletividade, além do debate em relação a gênero, raça e sexualidade."

- Bia Cardoso, no Amálgama. Não deixe de ler MESMO, aqui.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Gays, raça, classe e religião

Charge: Kevin Siers (dica do amigo Alexandre Melo Franco Bahia, via Facebook)

Na quarta-feira passada [retrasada (09/05)], quando Barack Obama garantiu mais uma vaga na história ao defender o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Cory Booker, o popular prefeito negro de Newark, disparou pelo Twitter: vou dar entrevista, assim "que eu parar de dançar".

A importância do anúncio feito por Obama ainda é muito recente para ser compreendida, mas, que tal mandarmos o cinismo dar uma volta ali na esquina? Podemos, por um momento, deixar de lado o escrutínio do cálculo político que fez com que o presidente assumisse o risco de alienar eleitores-chave em novembro?

Imagine se um político racista conseguisse introduzir um plebiscito na Carolina do Sul, onde a bandeira confederada, símbolo da luta contra a abolição da escravatura, continua desfraldada na capital. O dito plebiscito perguntaria aos eleitores se a proibição das práticas eleitorais que impediam negros de votar e o fim da segregação em escolas públicas, conquistas do Ato de Direitos Civis de 1964, devem ser revogadas. Não tenho dúvidas de que ficaríamos chocados com o número de votos a favor da volta da segregação racial.

Esse plebiscito, felizmente, não vai acontecer e sugiro o exercício da imaginação apenas para argumentar que direitos civis não devem ser submetidos ao varejo nas urnas, especialmente num mês em que um partido nazista conquistou 20 assentos no parlamento do berço da democracia ocidental.

E, numa semana em que a Carolina do Norte aprovou uma emenda constitucional para impedir que o casamento gay seja legalizado entre suas fronteiras, tenho um recado para quem acha que os homossexuais americanos são elitistas brancos e antidemocráticos, refestelados em privilégio na Califórnia e em Nova York. Somente 34% dos eleitores compareceram às urnas para votar a odiosa emenda. A mobilização conservadora é muito mais intensa, o que, de acordo com o respeitado Pew Research Center, fez com que a maioria dos Estados americanos que lançaram plebiscitos locais tenha banido o casamento gay. Ou seja, quem não se opõe ao casamento gay tende a ficar em casa, revelam os números do Pew.

A "evolução de opinião" sobre o assunto, que Barack Obama alega, é refletida numa das mais incomuns evoluções estatísticas nos Estados Unidos. Em 1996, 65% da população geral se manifestava contra o casamento gay, 27% a favor. Uma nova pesquisa do Pew revela 47% a favor, 43% contra. O anúncio de quarta-feira acendeu os púlpitos das igrejas protestantes americanas. Sabemos que a Proposition 8, passada há quatro anos para banir o casamento gay na Califórnia, contou com quase 60% de apoio dos negros, mobilizados por seus pastores.

Mais de 95% dos negros americanos votaram em Obama em 2008 e continuaram a apoiar o presidente, apesar de constituir a minoria mais punida pelo crash de 2008. A mídia americana, predominantemente branca, voltou a sugerir que os negros são homofóbicos e vão ficar em casa em novembro. Aposto minha coleção de CDs do Paulinho da Viola que eles vão votar em massa em Barack Obama.

Sim, a cara da militância gay americana ainda é um homem branco de meia-idade e de classe média alta. Os líderes religiosos que demonizam a estabilidade de famílias lideradas por pessoas do mesmo sexo fariam por bem observar que 66% das crianças negras americanas são criadas por mães ou pais solteiros. Entre os brancos, esse número cai para 24%. Sim, são principalmente os brancos afluentes que insistem no burguês direito de se casar. Um negro que vive abaixo da linha da pobreza terá mais dificuldade de apresentar um companheiro à família e esta é uma fonte de distorção estatística. Mas, em vez de contemplar o fato com escárnio, podemos lembrar que Obama mudou de opinião sob pressão de Michelle e das filhas Sasha e Malia. As meninas frequentam colegas de escola que são criadas por gays e lésbicas e aproximaram o pai do absurdo da intolerância. Quanto mais as pessoas convivem com gays assumidos e ajustados, maior a tolerância.

Graças a um gesto simbólico do primeiro presidente negro americano, um gesto que não implica burocracia ou imposição legal, quantas famílias estarão, hoje à noite, fazendo as pazes?

- Lucia Guimarães
Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 14/05/12
Reproduzido via Conteúdo Livre

Leia também:
Obama no rastro de Lincoln:
"Os defensores do casamento homossexual como o último dos direitos civis acertam ao lembrar que a Carolina do Norte alterou a sua própria constituição em 1875, a fim de 'proibir os casamentos entre um branco e um negro, e entre um branco e um pessoa com descendentes de cor, até a terceira geração'. (...) Nos EUA, uma nação-igreja inclusiva como nenhuma outra, os presidentes têm uma função religiosa. Lincoln foi ferido no dia da Sexta-Feira Santa de 1865 e morreu na madrugada do dia de Páscoa, e logo tornou-se o alter Christus, morto para tirar o pecado da escravidão. Obama é um norte-americano filho da era de Martin Luther King, e não menos do que Lincoln."
Religiosos negros e latinos nos EUA apoiam o Presidente Obama em sua declaração sobre o casamento igualitário (em inglês, aqui)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cardeal alemão pede igualdade para relacionamentos hetero e homossexuais


O cardeal de Berlim, Rainer Maria Woelki, disse numa importante conferência católica na Alemanha, o Katholikentag que os relacionamentos de pessoas do mesmo sexo devem ser tratados de forma igual aos dos casais heterossexuais.

A análise é de Francis DeBernardo, publicada no sítio da New Ways Ministry, 20-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Um artigo publicado no sítio The Local, uma agência de notícias em inglês da Alemanha, noticia:

"Ele disse a uma multidão na quinta-feira, 17, que a Igreja deveria ver, a longo prazo, as relações homossexuais fiéis assim como fazem com as heterossexuais. 'Quando dois homossexuais assumem a responsabilidade um pelo outro, se eles se relacionam uns com os outros de uma forma fiel e a longo prazo, então você tem que ver isso da mesma forma como as relações heterossexuais', disse Woelki a uma multidão estupefata, de acordo com uma notícia do jornal Tagesspiegel.

"Woekli reconheceu que a Igreja vê o relacionamento entre um homem e uma mulher como base para a criação, mas acrescentou que é hora de pensar mais sobre a atitude da Igreja com respeito às relações do mesmo sexo".

Falando na 98º Katholikentag, uma conferência que reuniu 60 mil católicos em Mannheim, Woelki se juntou a um crescente coro de vozes episcopais que estão clamando por uma mudança na recusa tradicionalmente absolutista da hierarquia a reconhecer a bondade moral das relações lésbicas e gays.

Em dezembro passado, o arcebispo Vincent Nichols, de Londres, ganhou as manchetes ao apoiar as uniões civis para casais de lésbicas e gays no Reino Unido. Naquele mesmo mês, o padre Frank Brennan, jesuíta estudioso de Direito na Austrália, também pediu o reconhecimento similar para os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em janeiro, Dom Paolo Urso, bispo de Ragusa, Itália, também pediu o reconhecimento das uniões civis em seu país.

O mês de março de 2012 assistiu a uma explosão de questionamentos de prelados à proibição da hierarquia acerca da igualdade do casamento. No 7º Simpósio Nacional da New Ways Ministry, Dom Geoffrey Robinson, bispo australiano, pediu um total re-exame da ética sexual católica para permitir, dentre outras coisas, a aprovação moral dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. A diocese de Manchester, em New Hampshire, apoiou um projeto de lei que legaliza as uniões civis (embora como uma medida paliativa para evitar a igualdade do casamento).

Dom Richard Malone, bispo de Portland, Maine, anunciou que a diocese não assumiria um papel ativo na oposição do próximo referendo do Estado sobre a igualdade do casamento, como havia feito em 2009. Na Itália, o cardeal Carlo Maria Martini, de Milão, afirmou em seu livro Credere e Conoscere (Crer e conhecer), que "eu não compartilho as posições daqueles que, na Igreja, criticam as uniões civis".

Embora a oposição à igualdade do casamento por parte da hierarquia, especialmente nos EUA, ainda seja grande e forte, é significativo que essas recentes declarações estejam todas desenvolvendo um tema similar de ao menos algum reconhecimento do valor intrínseco das relações lésbicas e gays, assim como da necessidade de proteção civil a elas. Que essa tendência continue e cresça.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Meus pais e eu

Foto daqui

Comentário do Tony Goes em seu blog:

"Como é bom começar o dia lendo boas notícias no jornal, né não? A de hoje foi saber que Ana Karolina Lannes - que faz a Ágata, filha da Carminha, na novela 'Avenida Brasil' - tem dois pais e está muito feliz com isto. A nota na coluna da Mônica Bergamo (aqui) me levou à matéria no site da revista 'Contigo!' (aqui). Se não me engano, Ana Karolina é a primeira mini-celebridade a assumir em público que é criada por um casal gay, e está obviamente tão bem ajustada que serve de contra-exemplo para (...) [as bobagens que] proferem por aí. Aliás, já estava mais do que na hora de uma novela dessas retratar uma situação parecida: não a luta pela guarda da criança nem os problemas clichês, mas a atmosfera sadia que muitos pais do mesmo sexo conseguem criar para seus filhos. Isto sim é o que vai quebrar com tudo."

Leia também:
4 mitos sobre filhos de pais gays
Por que casais homossexuais podem ser excelentes pais
Feliz dia das mães! :-)

domingo, 13 de maio de 2012

Feliz dia das mães! :-)


"Vídeo da campanha em homenagem aos Dia das Mães do Hospital Israelita Albert Einsten.

Que mais empresas tenham a iniciativa de reconhecer nossas famílias, fico muito feliz quando um trabalho sério reafirma a realidade: somos uma família como qualquer outra.

Obrigada Caroline Naumann, responsável pela presença do hospital na redes sociais, por auxiliar na realização deste projeto.

(...) Mais histórias da campanha podem ser assistidas no link do Especial Dia das Mães, famílias lindas e cada uma delas com suas particularidades e muito amor!"

(Fonte: Maternidade Lésbica)

"Eu tenho orgulho do meu filho gay"

Imagem via Facebook

Há pouco menos de dois meses a professora aposentada Luci de Carvalho se submeteu a uma cirurgia para implantar uma prótese no joelho. Durante o período pré e pós cirúrgico foi assistida por sua nora, Aline, que é enfermeira e chegou a integrar a equipe cirúrgica. As duas ficaram amigas desde que a enfermeira começou a namorar a filha mais velha de Luci, a promoter de eventos Aline Carvalho.

Quando o bailarino Wesley Batista separou-se de seu primeiro companheiro, Moisés, depois de quatro anos e meio morando juntos, sua mãe, a manicure Eliane Batista, foi quem mais sentiu o baque. “Eu chorei mais que Wesley (risos). Era muito apegada ao Moisés e via ele sofrendo daquele jeito... Ele foi uma pessoa muito importante na vida do Wesley, o primeiro namorado, era um porto seguro. Fiz de tudo para que o casamento deles voltasse, mas não deu certo”, lembra Eliane.

Já a gerente de loja Rocélia Melo foi mais prática. Ao ver o DJ Victor Wesley, seu primogênito, insône pela casa, deprimido por conta do fim do namoro com Rafael, ela se dispôs a levar o então adolescente de 17 anos à casa do ex-namorado para tentar uma reconciliação. “Comprei uma caixa de bombons e um cartão para o Victor escrever e fui bater na casa do Rafael com ele. Não dava mais para ver meu filho sofrendo tanto e não fazer nada. Como ele não dirigia, peguei o carro e eu mesma fui”, conta Rocélia.

Aceitação
A comerciária, a professora e a manicure não se conhecem, mas as três partilham de uma mesma atitude. Todas elas lidam tranquilamente com a homossexualidade de seus filhos.

Por causa destas mulheres, nestas três famílias, a diversidade sexual não é razão para distanciamento. “Não tem porque ser diferente. Ser homossexual não é desvio de caráter. Meu filho é gay, não é drogado nem marginal. Amo meu filho agora mais que nunca”, declara Eliane.

Luci não fica atrás. Segundo ela, a família ficou muito mais unida depois que passou a conviver harmoniosamente com a homossexualidade de Aline. “Ela é minha filha, não faz diferença se é hétero ou não”, pontua.

Rocélia aponta vantagens no jogo aberto em sua casa. “Somos uma família feliz. A gente sabe onde ele anda, o que está fazendo, sem a preocupação de antes”.

Reação materna inicial foi de resistência
Hoje, pode até parecer fácil. Mas não foi sempre assim na relação de Wesley e Eliane e Luci e Aline. Quando os filhos saíram do armário (expressão comumente usada para definir o ato de assumir a homossexualidade), enfrentaram a resistência inicial das mães.

Recém-chegada do Rio de Janeiro, onde Aline nasceu e cresceu, Luci mandou a filha estudar em Manaus (AM), Natal (RN), João Pessoa (PB) e até de volta à capital fluminense na ilusão que a distância de Fortaleza iria “reverter sua homossexualidade”.

“Eu namorava com homens no Rio, vim me entender (como homossexual) aqui. Quando falei para minha mãe, ela me mandou estudar fora para ver se ‘passava a vontade’. Claro que não adiantou”, ri-se Aline, que, quando voltou para Fortaleza, ainda foi encaminhada a um psicólogo - que tinha a mesma missão (impossível) dos estudos distantes.

Já Eliane Batista caiu em depressão quando seu filho Wesley se assumiu gay, apesar de já ter suas desconfianças sobre a sexualidade do rapaz. “Mãe já sabe, né? Só não quer acreditar. Nenhuma mãe se engana a respeito disso”, garante. “Mas ele tinha namoradas, era muito bonito... Na verdade, eu fiquei apavorada. Sofri pelo preconceito que ele iria enfrentar“.

Passado o choque inicial, ambas asseguram que as dores do processo de aceitação da homossexualidade dos filhos (que chega a levar anos) é recompensada pela qualidade de relacionamento que eles ganham com o correr do tempo.

Histórias da hora de "sair do armário"
No dia seguinte à primeira vez que beijou um rapaz na boca, Victor Wesley, então com 16 anos, chegou para a mãe e sem rodeios disparou: “Mãe, eu sou gay”. Rocélia olhou para o filho, sorriu e respondeu: “Eu já sabia”. Minutos antes, o adolescente tinha dito a mesma frase para a avó, com quem era mais apegado. “Minha avó disse que tinha mulher demais no mundo para eu virar gay (risos). Mas, recentemente teve um primo que saiu do armário e a mãe dele não aceitou. Quando a avó soube foi lá conversar com ela”, conta o DJ.

Aline Carvalho contou primeiro para o pai, que ganhou a incumbência de “amaciar” a mãe. “Até então eu tinha muito mais intimidade com ele, depois que ele falou com ela foi que eu cheguei junto e me assumi para a mamãe”,a firma.

Quando Wesley, aos 17 anos, mostrou a foto de Moisés para Eliane e disse que era seu namorado, a manicure caiu na gargalhada, achando ser uma brincadeira. “Demorou um pouco para ela entender que eu estava falando sério”, conta o bailarino.

A seguir, os vídeos com os depoimentos das três mães:






Fonte: Jornal O Povo (aqui, aqui, aqui e aqui)

Leia também:
Mães de gays saem em marcha hoje contra a homofobia

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Declaração de vice-presidente americano a favor do casamento gay leva movimentos LGBT a pressionar Obama

Foto daqui

Seja fruto de uma gafe ou de um cálculo político, a declaração do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em favor do casamento gay, botou o presidente Barack Obama na berlinda. Movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais voltaram a cobrar de Obama uma definição, e seu porta-voz, Jay Carney, escorregou com a afirmação de que a opinião do presidente sobre o tema “está em evolução”.

Em entrevista no domingo ao programa “Meet the press”, da NBC, Biden, que é católico, disse que se sente “absolutamente confortável” com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em declaração que surpreendeu os jornalistas que cobrem a Casa Branca.

Quase imediatamente após a divulgação da declaração do vice-presidente, David Axelrod, um dos principais estrategistas da campanha de Obama, usou o Twitter para reiterar a posição de que, para o presidente, “todas as pessoas casadas (e casais) devem ter os mesmos direitos”.

Mas os militantes da igualdade de direitos não compraram a versão de que não havia divergência entre as duas posições, e agora cobram mais clareza de Obama.

— Não sei se era um balão de ensaio. Não sei se o vice-presidente estava apenas falando livremente sobre como se sente. Mas não é possível voltar atrás — disse Winnie Stachelberg, vice-presidente da ONG Center for American Progress.

Joe Solmonese, presidente do grupo Human Rights Campaign, disse que as palavras de Biden correspondem a um apoio ao casamento gay, e pediu a Obama um compromisso mais claro com a causa.

— Agora é a hora de o presidente Obama falar claramente a favor da igualdade absoluta para os casais do mesmo sexo — disse Solmonese.

Diversos apresentadores e comentaristas de TV criticaram Obama por ficar em cima do muro, evitando assumir uma posição clara em um ano eleitoral. Pesquisas recentes mostram que tem oscilado o nível de apoio dos americanos ao casamento gay. Uma sondagem divulgada ontem pelo Instituto Gallup mostrou que 50% dos entrevistados nos EUA apoiam a proposta, enquanto 48% se opõem à união entre homossexuais. Mesmo a marca de 50% representa uma queda no índice de apoio, que havia chegado a 53% no ano passado.

O tema voltou aos destaques do noticiário também por causa do referendo realizado ontem na Carolina do Norte, que se tornou o 30º estado americano a aprovar uma emenda à Constituição estadual definindo o casamento exclusivamente como uma união de pessoas de sexos opostos.

Fonte: O Globo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Eu vos declaro": famílias LGBT unidas por laços de amor


Caiu esta semana na rede o trailer do documentário "Eu Vos Declaro", de Alberto Pereira Jr., sobre quatro casais gays de São Paulo. Alberto está inscrevendo este filme de 40 minutos em festivais e negociando a exibição com alguns canais de TV; também deve acontecer em breve uma sessão numa sala de cinema. Dá para saber mais detalhes aqui, no blog "Eu Vos Declaro".

(Fonte: Tony Goes, em seu blog)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Exposição fotográfica “Mães pela Igualdade”


Nos últimos meses, mães de todo o Brasil vêm unindo forças contra a discriminação, a violência e a homofobia crescentes no país. E um dos resultados desta união é a exposição fotográfica itinerante “Mães pela Igualdade”, que será inaugurada ao público no dia 3 de maio (quarta-feira), na Praça XV, a partir de 10:00h. Durante todo o mês as fotos passarão por outras zonas da cidade. No dia anterior, 2 de maio, haverá coquetel para convidados de 17:00h às 21:00h.

A exposição retrata a dor e a alegria de 22 mulheres que têm ou tiveram filhos vítimas de preconceito e exclusão. As fotos expressam as histórias de amor e luta dessas mães pela igualdade e respeito. A responsável pela organização do grupo Mães pela Igualdade e pela mostra é a All Out – movimento global pela luta de direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais - em parceria com a Ceds (Coordenadoria da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro).

“O Brasil precisa das Mães da Igualdade. Elas nos mostram o poder da compaixão humana. Suas trajetórias de vida nos mostram que o amor incondicional é uma das coisas mais importantes”, diz Andre Banks, Diretor Executivo da AllOut. “Estamos orgulhosos de ver essas mulheres no centro de uma das cidades mais importantes do país e no mundo. As Mães da Igualdade são uma inspiração e esperamos espalhar o exemplo do Brasil para todas as regiões do mundo. A igualdade é um valor da família”.

A All Out preparou ainda uma “Árvore da Igualdade”, uma escultura onde as pessoas poderão colocar as suas mensagens de apoio e respeito a gays, lésbicas, bissexuais e trans no Brasil. Por meio de uma campanha mundial, a All Out conectará os membros em todo o mundo e também no Brasil por meio do envio destas mensagens, que irão ser postadas nas folhas nesta árvore, fazendo-a florescer recados durante o mês dedicado às mães e ao combate contra a homofobia. Ao término da exposição a Árvore segue pra Brasília, diretamente para a presidente Dilma Rousseff.

Serviço:
Exposição fotográfica “Mães pela Igualdade”, ao ao livre, no Rio de Janeiro:
1a semana : 03/05 ao dia 08/05 : Praça XV (ao lado do Paço Imperial – Av. 1º de março, Centro)
2a semana : 09/05 ao 15/05 : Praça Antero de Quental, Leblon
3a semana : 16/05 a 22/05 : Praça Saens Peña, Tijuca
4a semana: 23 a 29/05 : Vigário Geral
Horário: Sempre de 10 às 18h - GRÁTIS

Fonte: Imprença

terça-feira, 1 de maio de 2012

“O que faz uma família é o amor”

Imagem daqui

Estão já disponíveis posters da campanha “Como é a tua família?”, produzida pelo grupo Famílias Arco-Íris da Associação ILGA Portugal.

Esta campanha tem como objetivo chamar a atenção para o facto da diversidade familiar ser a regra: as famílias são de diferentes tipos e tamanhos e as crianças portuguesas estão a ser criadas por uma mãe e um pai, por duas mães ou dois pais, por um pai ou uma mãe, por madrastas ou padrastos, em co-parentalidade, por famílias alargadas, por avós e avôs, por tios e tias, por irmãos e irmãs e por famílias reconstituídas, reagrupadas, adotivas e de acolhimento.

A investigação científica mundial demonstra que o bem-estar das crianças é determinado pela qualidade das relações parentais e não pela estrutura das suas famílias.

E o que faz uma família é o amor.

Adaptada de materiais do Australian Rainbow Families Council, uma organização australiana com muito trabalho (bem) feito na área das famílias, esta campanha contou em Portugal com a parceria da Amplos, da APF, da rede ex aequo e da UMAR.

O pdf (download aqui) pode ser impresso diretamente, claro, ou em alternativa podem contactar-nos para familias@ilga-portugal.pt e solicitar exemplares impressos (para Portugal). Agradecemos especialmente contactos que venham de escolas de 1º ciclo e de creches e jardins de infância.

Fonte: ILGA-Portugal (Dica do precioso @wrighini, como sempre ;-))
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