Mostrando postagens com marcador experiências. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador experiências. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Carta aos jovens gays da minha igreja
Nosso querido amigo Murilo Araújo publicou ontem, no Vestiário, este belo testemunho, que com grande alegria compartilhamos com vocês. Como ele diz, em tempos de consulta pública do Vaticano às paróquias sobre casamento gay, divórcio e contracepção [saiba mais aqui], está na hora de transformarmos em realidade nosso desejo de construir mudanças.
Viçosa, Minas Gerais, 03 de novembro de 2013.
Caros jovens gays da minha igreja, gays como eu, e católicos como eu:
Hoje me senti orgulhoso de mim. Bastante. Viajei para uma cidade próxima à minha, para participar de um encontro celebrado anualmente pela pastoral de que participo em nossa Igreja, e fui carregando na bolsa uma bandeira do arco-íris e um pouco de ousadia. Meu objetivo era fazer uma “intervenção”: exibir comigo a bandeira durante as atividades, tentando provocar alguma reflexão sobre a nossa existência, sobre a nossa identidade de gays e cristãos, que as pessoas costumam ver como ambígua.
Não foi uma tentativa de alfinetar ou desrespeitar o espaço, como alguém pode vir acusar. Estar lá, com a minha bandeira, não agredia a fé de ninguém. Fiz o que fiz por ver que ainda temos muitos silêncios a serem quebrados. A maior violência que nos atinge é uma invisibilidade que toma proporções muito significativas em uma instituição que só fala do sexo quando é para proibi-lo. A consequência disso é que muitos de nós, se em algum momento achamos que Deus nos odeia, ainda precisamos enfrentar tudo com a sensação dura de que estamos sozinhos – ainda que existam outras pessoas entre nós vivendo os mesmos dramas, ou pessoas que já tenham passado por eles e possam nos ajudar a superá-los.
Romper esse silêncio sempre foi uma questão importante pra mim, e por isso quis carregar a minha bandeira para o lugar onde estava indo viver a minha fé. Lá, esperei todas as reações possíveis. Até que as pessoas, timidamente, começaram a se aproximar. E, graças a Deus, foi bonito. Tão bonito que me fez vir aqui escrever essa carta pra você.
As primeiras pessoas a vir falar comigo eram como nós: católicos e gays. Primeiro, um casal de meninas lésbicas, participantes de um grupo de jovens, que elogiaram a bandeira com um sorriso, e pediram uma foto. Bastou que elas chegassem para os outros pedidos começarem a acontecer. Um garoto gay com a amiga lésbica, depois outro grupo de amigas, sempre com o mesmo pedido de uma fotografia com a bandeira, às vezes me chamando para aparecer na foto. Pouco depois, começaram a vir me cumprimentar também meninos e meninas heterossexuais, que eventualmente contavam o caso de um ou outro amigo gay, que estava passando por dramas ou dificuldades em casa, na Igreja...
E nessas conversas breves, duas coisas me chamavam atenção. A primeira, nos héteros: era perceptível a vontade de falar daquilo que não se fala nas nossas igrejas. Vinha dali um desejo empolgado de conversar sobre aquilo, falar, discutir, debater com franqueza e praticar o exercício da escuta... um desejo que parecia ter encontrado espaço pela primeira vez naquela bandeira que ousava se exibir. A segunda coisa curiosa vinha dos nossos iguais, gays e lésbicas: ainda que estivessem ali, no espaço religioso, vivendo a sua fé sem conflito aparente, pareciam se espantar um pouco diante da minha fé sem armário, como se aquela visibilidade incomum assustasse, ainda que positivamente. Não à toa, foram muitos os olhares admirados quando, durante a missa, recebi a comunhão com a bandeira amarrada às costas.
Mas o que foi ainda mais bonito de ver foi que havia ali, em todo mundo, um sorriso de esperança e um sonho compartilhado. A vontade de conversar dos héteros parecia se transformar em um desejo de construir mudanças, ampliando os limites daquela discussão curta. O espanto aparente dos gays e das lésbicas rapidamente se convertia em uma espécie de cumplicidade de iguais, que se compreendem e querem buscar o mesmo espaço. No fim, eu, que estava tentando dizer a eles que não precisavam viver os seus processos sozinhos ou escondidos, recebia através de um abraço afetuoso uma resposta que me enchia de alegria e esperança: eu também não precisava travar sozinho a minha luta por uma Igreja mais livre, acolhedora e transformadora. Aqueles jovens se dispuseram a ser essa Igreja junto comigo.
Queria partilhar contigo essa história, caro jovem gay cristão, porque penso que só caminharemos para uma Igreja e uma sociedade melhores no dia em que aprendermos a valorizar essa troca, essa conversa sobre as histórias, os conflitos e os amores, que leva a gente a perceber que temos sonhos parecidos e que conseguimos mais quando estamos juntos. Ou a gente toma as rédeas e fala da própria vida, ou alguém falará por nós, muitas vezes perpetuando os eternos discursos que geram a homofobia, a negação de direitos, e até uma suposta condenação ao inferno...
Continue lendo no site do Vestiário, aqui :-)
Tweet
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Um encontro transformador
Desta vez este evento foi realizado em Niterói (RJ), com o intuito de conversar e partilhar relatos sobre os novos formatos familiares e a relação dos gays com suas famílias, abrindo espaço para a troca de experiências entre pais e mães de gays e gays que são pais, mães, tios, etc.
Foi a primeira vez que participei de um evento público. Até então só tinha participado das reuniões do grupo, que possuem outra dinâmica.
Apesar do pouco tempo de preparação e de divulgação, só posso render elogios a todos que "vestiram a camisa" e puderam juntos realizar este evento. Contratempos e correrias que, ao final, foram recompensados com os rostos que viram, nos relatos ao longo do dia, uma esperança contra o preconceito que ainda sofre a comunidade LGBT.
O pequeno espaço físico não foi em nenhum momento motivo de desconforto, pelo contrário, foi bem providencial! Permitiu uma postura acolhedora entre todos reunidos, sem lacunas de locais vazios.
Estar reunido com aproximadamente outras 50 pessoas, a grande maioria delas presentes ali com o grupo pela primeira vez, me fez notar o quanto esse assunto, apesar de "polêmico", é de grande (e urgente) importância neste século.
A questão gay vs. católico sempre foi questionável dentro da Igreja. Porém o assunto despertou uma nova esperança quando, após os dias festivos cheios de espiritualidade e de fé vividos durante a JMJ 2013 no Rio de Janeiro, vimos a postura acolhedora do Papa Francisco ao ser indagado sobre gays na Igreja.
E foi com esse sentimento, renovado pelas palavras do Sumo Pontífice, que algumas pessoas presentes relataram suas vivências. Foi muito bom ver um grupo de pessoas ali receptivas ao que todos tinham a dizer, desarmados de preconceitos ou convicções religiosas. Os presentes estavam ali para fazer o que pouco se faz hoje em dia: apenas ouvir.
Gays que têm filhos, gays que abandonaram casamentos convencionais para assumir um amor homossexual, tio que reconhece felicidade no casamento gay da sobrinha, gays que sofreram em assumir sua natureza por serem católicos... Enfim, relatos dos mais variados tipos foram partilhados neste dia. Todos eles de grande e valiosa importância, não somente para quem estava ali ouvindo, mas acredito, também importante para quem teve a sensibilidade e disponibilidade de expor um pouco de sua vida ao grupo.
Gostaria de destacar dois relatos que me tocaram profundamente: o dos pais de gays. Um casal, presente com seu filho, demonstrou seu amor incondicional ao filho. Não importa se ele é gay, canhoto, careca, gordo, negro... O amor sem limites dos progenitores demonstrou o que realmente o amor é: AMOR! Simples assim.
O outro relato, de uma mãe, encantou a todos pela simplicidade, pelas suas palavras, pelo seu testemunho de vida... Enfim, resumindo, as expressões de amor e afeto se faziam presentes e reais enquanto ela falava, podia-se sentir o seu amor pelo filho com sua narrativa. O filho presente se mostrava muito orgulhoso da sua mãe. E quem não ficaria?
A tarde agradável teve seu encerramento com um lanche onde a confraternização permitiu diálogo entre todos. A conversa com quem conhecia a proposta do grupo rendia elogios, dúvidas e agradecimentos. Muito bom ver aquele espírito de fraternidade entre "novos" e "antigos".
Para o Diversidade Católica fica a missão que esses tipos de encontro são importantes e transformadores.
Como rezamos, fica cada vez mais nítido que o Espírito Santo, que invocamos no início do encontro, tem renovado a face da terra e que o Pai Nosso, oração realizada ao final, traz cada vez mais o Seu Reino para o nosso meio. Amém!
Cristiano Pinto
Membro do Diversidade Católica Tweet
domingo, 28 de julho de 2013
"Grande inspiração: Diversidade Católica"
Um dos mais gratos encontros que tivemos no evento que realizamos na quinta-feira foi a presença dos seis peregrinos do Equally Blessed, uma coligação de grupos de católicos LGBTs americanos. Uma delas, Lauren, postou no blog deles uma nota contando como foi para eles estar conosco.
Na quinta-feira tivemos uma grande dose de inspiração, ao participar de um evento organizado por um grupo católico LGBT local chamado Diversidade Católica. Tínhamos entrado em contato com o grupo durante o planejamento da nossa peregrinação e participar do evento acabou sendo uma experiência extremamente rica.
Fiquei impressionada com a semelhança entre o Diversidade Católica e o DignityUSA. Eles se reúnem
O evento foi voltado para os peregrinos da a Jornada Mundial da Juventude e teve um bom número de participantes [apesar das dificuldades para chegar, devido aos engarrafamentos na cidade]. Durante o evento, três membros do grupo compartilharam suas histórias de gays e católicos. Depois dessa partilha, o microfone foi aberto, e qualquer um poderia apresentar seu depoimento. Foram mais de 10 pessoas contando suas experiências. Felizmente, um dos membros do grupo falava inglês fluentemente e foi capaz de traduzir para nós. Ficamos muito gratos por isso, porque as histórias foram tão fortes, especialmente pela semelhança com as nossas próprias histórias e as histórias de outros católicos LGBT nos EUA. Ainda que nossa língua e cultura sejam tão diferentes, pude facilmente me identificar com muitas das histórias compartilhadas, e não parava de pensar em todos os meus amigos católicos LGBT.
Todos no evento mostraram-se muito interessados em ouvir sobre o nosso grupo e o que estávamos fazendo na Jornada Mundial da Juventude. Todos vieram nos agradecer, tirar fotos e fazer grandes perguntas. Eu me senti inspirada pelo evento, por me mostrar que o movimento LGBT pela justiça na igreja não é apenas um movimento americano, é mundial. Às vezes o DignityUSA pode se sentir tão pequeno quando comparado com a enormidade da Igreja Católica, mas saber que há outros movimentos assim em outras partes do mundo me dá a esperança de que um dia a igreja pode realmente mudar.
As fotos acima mostram nosso grupo no encontro organizado pelo Diversidade Católica, cuja missão é semelhante à do DignityUSA, no sentido de proporcionar apoio e uma comunidade para os católicos LGBTQ. O fórum foi uma oportunidade para as pessoas compartilharem suas histórias e saber que não estão sozinhas na luta para viver a reconciliação de fé e sexualidade. O evento foi em português, mas um dos participantes, Arnaldo, gentilmente nos serviu de tradutor (inesperadamente veio até nós e começou a traduzir do português para o inglês). Tweet
Impressões do evento "O Jovem Homossexual na Igreja"
Queridos amigos, é com grande alegria que encerramos este ciclo da JMJ 2013 com um saldo extremamente positivo para nós, especialmente, do Diversidade Católica. Nosso evento foi, para nós, um grande sucesso, ocasião de encontros e reencontros, de fortalecimento de laços, de troca e partilha, de diálogo e crescimento conjunto, de aprendizado e de muitas razões para esperança (fotos aqui). E, sobretudo, como bem assinalou a Lauren, do Equally Blessed, é sempre bom saber que não estamos sozinhos e que, por mais discretas que às vezes possam parecer, as vozes da mudança estão aí, agindo e transformando. E isso é sempre motivo para enorme emoção.
Depois do relato detalhado do amigo Sergio Viula, que já compartilhamos aqui, aproveitamos este espaço para partilhar as impressões de alguns dos membros do grupo.
"Amei exercitar meu dom e relembrar meus tempos de Ministério de Música no evento. Agradeço ao Pedro Borges pelo convite e a todos que, apesar de eu andar sumida, SEMPRE me recebem com tanto carinho, o que me faz sentir mesmo muita dó de não poder estar presente sempre nas reuniões quinzenais.
Mas, voltando ao encontro: foi a minha participação mais efetiva na JMJ, se é que posso dizer isso, pq não topo muito com multidão e tals. Então, fiquei muito feliz de poder estar lá, desfrutando da companhia de nossos amigos de fora, reencontrando os amigos antigos.
Muito maneiro, também, foi encontrar pessoas da minha paróquia do coração, N. Sra. de Loreto, em Jacarepaguá, que também passaram pelo Encontro de Adolescentes com Cristo (EAC), que eu fiz em 1990. Foi lá que me encontrei no catolicismo, fiz minha primeira comunhão aos 18 anos e me crismei aos 19. O Diversidade Católica e tudo o que ele me proporcionou e proporciona, em termos de entendimento do fato de que Deus não comete erros e eu, portanto, sou amada como sou e tenho meu lugar no mundo, é uma porta aberta pros jovens da minha paróquia, gays como eu, e isso me emociona profundamente." (Simone)
* * *
"Agradeço a todos pela participação. A doação dos que trabalharam para o evento acontecer, a partilha das dores, alegrias e esperanças, a acolhida dos que chegaram, mesmo à última hora, e o reencontro dos amigos queridos. Foi comovente, forte, lindo! Tão forte que ecoa e vai ecoar por muito tempo no meu coração, no meu ordinário-extraórdinário quotidiano em que Deus se revela. Um forte abraço." (Rosilene)
* * *
Parabéns a todos que organizaram e participaram do Encontro dia 25. Fiquei muito feliz por estar com vocês ouvindo Cristiana, Juliana, Bruno, Pedro e muitos outros. Este encontro trouxe reflexão a todos, encorajamento a muitos para enfrentar as dificuldades nas relações sociais, pois sabem que não estão sozinhos. Parabéns também a todos que participaram da JMJ mostrando a sua fé. Acredito que um caminhar diferenciado iniciou. (Ana)
* * *
"Estes dias de Jornada Mundial da Juventude está sendo inesquecível e abençoado. Desde a minha participação na pré-Jornada inaciana MAG+S, no evento aberto organizado pelo Diversidade Católica e mais recentemente na Via Sacra e em breve na peregrinação e missa, um sentimento comum é gerado por um misto de coisas (tenho consciência de quem sou, confesso um amor apaixonado por Deus, professo minha experiência divina com a Igreja e para tod+s): ALEGRIA.
Todos ouvimos que "Deus é bom" e podemos acrescentar consolador com a experiência de reunirmos tantos amigos no Senhor e partilhar nossas dores, dificuldades e, ao meu ver, principalmente graças no evento aberto do Diversidade. Reunir a Igreja tem dessas maravilhas. Você se percebe membro de um corpo muito amplo e diversificado. Reunido por interesse? Não. Reunido pelo amor de Deus. E assim gays, lésbicas, simpatizantes e todas outras orientações nos fazemos presentes na Igreja, igualmente abençoados. Sim, muito feliz e pertinente o nome do grupo americano que participou: Equally Blessed." (Fábio) Tweet
sexta-feira, 26 de julho de 2013
O Diversidade Católica na JMJ: o relato de quem esteve lá :-)
Queridos, nosso evento ontem foi um sucesso e nos trouxe muita alegria, principalmente pela beleza dos depoimentos que ouvimos e pelas novas amizades que fizemos. Infelizmente, em função do trânsito da cidade por causa da JMJ, muita gente não conseguiu chegar, mas, ao longo dos próximos dias, vamos compartilhar um pouco do que aconteceu na nossa página no Facebook e aqui no nosso blog. Fiquem ligados!
Por enquanto, nosso querido amigo Sergio Viula, militante LGBT e ateu, postou em seu blog Fora do Armário (veja o post completo aqui) o vídeo abaixo, contando o que ele viu. Muito obrigado, Sergio, pelo carinho e pela generosidade das suas palavras. É uma honra para a gente compartilhar aqui com vocês o seu relato.
Uma observação: a moça loira falando é a Juliana Luvizaro, colaboradora do nosso blog que inclusive já deu um depoimento aqui; e o Arnaldo, que o Sergio diz não saber se é padre (não é, rs), é um dos fundadores do Diversidade Católica e conta um pouco da sua história aqui. :-)
Para já dar uma palhinha dos depoimentos de ontem, lembramos a série de depoimentos de membros do DC que já postamos aqui. Tweet
terça-feira, 23 de julho de 2013
Católicos gays promovem encontro durante a JMJ
Em meio à profissão de fé que mobiliza o Rio para a Jornada Mundial da Juventude, um grupo age fundamentado no acolhimento e no carinho para atenuar o sofrimento das vítimas de discriminação sexual. Formado por jovens gays, lésbicas e bissexuais atuantes na igreja, o movimento Diversidade Católica realizará um encontro paralelo à jornada para que membros e convidados troquem experiências sobre suas histórias de vida e os desafios encarados no dia a dia de cada igreja.
O objetivo é aproveitar a estada de católicos de diversas partes do Brasil e do mundo na cidade para que se conheçam as ações desenvolvidas em cada localidade. Um intercâmbio de conhecimento e práticas que busca tornar a igreja um espaço mais plural com base no amor ao próximo e na superação de quem venceu o preconceito e, hoje, luta para combatê-lo.
Ao contrário do que pode fazer crer, a Diversidade Católica não age politicamente para reivindicar o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o direito à adoção e outras bandeiras do movimento LGBT. Essas manifestações ficam por conta de cada integrante fora dos muros da igreja. O principal objetivo do grupo é oferecer conforto para os jovens que se descobrirem homossexuais durante qualquer período de atividade religiosa, mas também há trabalhos destinados ao conforto dos familiares que não receberem a descoberta com naturalidade.
Com o propósito de jogar luz sobre a necessidade de se debater a atuação de seus membros e a ação destes jovens, o encontro acontece dia 25, quarta-feira, no campus Urca da UniRio, às 14h, e será aberto a todos os interessados. O horário permitirá que, após o evento, os participantes se dirijam para o Leme, onde acontecerá a cerimônia de acolhida ao Papa Francisco. Tweet
sábado, 20 de julho de 2013
O bom travesti
E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?“
E ele lhes contou a seguinte parábola:
”Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram:
“Vá passando a carteira“.
O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.
Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o carro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas:
“Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.“ Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo...“
Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.
Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho:
“Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!“
O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!“ e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.
Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse:
“Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.“
Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.
O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.”
Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou:
“Quem foi o próximo do homem ferido?“
Rubem Alves
* * *
Atualização em 7 de maio de 2014:
Essa fábula nada tem de irreal. Tantas vezes a vida imita mesmo a arte... Veja isto aqui. Tweet
sexta-feira, 19 de julho de 2013
"Grupo gay católico prepara a sua contribuição para a Jornada Mundial da Juventude"
"As pessoas nos acham masoquistas. Não é isso. Somos católicos e gays. Uma é a expressão da espiritualidade. A outra, da sexualidade". Assim a psicóloga Cristiana Serra, de 39 anos, explica o porquê da criação, há sete anos, do Diversidade Católica.
O grupo se prepara para receber jovens com o mesmo perfil, que virão de todo o mundo, para a Jornada Mundial da Juventude, em julho.
- Não é para fazer piquete ou pedir aceitação do Papa. Vamos conversar com jovens sobre como é ser gay dentro da Igreja - diz o professor Hugo Nogueira, de 42 anos, um dos organizadores do evento, que acontece na Unirio, no auditório Vera Janacopulos, 25 de julho, de 14h a 18h.
São pessoas com histórias parecidas com a do músico Pedro Borges, de 28 anos.
- Sempre fui católico, até que descobri minha sexualidade. Não foi tranquilo, mas tudo muda quando se vê que o padre não é um mágico, mas uma pessoa que deve orientar a fé - diz Pedro, que é voluntário da Jornada.
Não faltam relatos de jovens "feridos na alma" por um ambiente conservador.
- Um menino cortou os pulsos. Alguns documentos oficiais são de um assédio moral devastador. Como padre, vejo que a Igreja deve receber todos - diz um dos raros sacerdotes, que prefere não se identificar, a ouvir confissões de gays no Rio.
Os que fazem parte do grupo confessam seus pecados, não vêem a sexualidade como pecado, mas condição natural, e comungam.
- Hóstia não é medalha de comportamento. É símbolo da fé - defende Hugo.
O posicionamento não é consenso. Apesar de o arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, ter se manifestado a favor da acolhida das pessoas de qualquer orientação sexual, conferir sacramentos a elas é tabu.
- Cito Bento 16: o cristianismo não é um conjunto de proibições - pensa o padre.
Outro padre que estuda a sexualidade é o jesuíta Luís Corrêa Lima. Em artigos, ele aponta brechas que garantem aos gays acesso à Igreja.
"Uma carta da Cúria Romana, de 1986, afirma que nenhum ser humano é mero homo ou hétero. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de Sua Graça".
Saiba mais sobre nosso evento aqui. Tweet
quinta-feira, 18 de julho de 2013
IBGE: 47% dos casais homossexuais se declaram católicos
A notícia é do ano passado; mas, em tempos de Jornada Mundial da Juventude, quando a questão da inclusão dos jovens - e, no nosso caso, especialmente dos jovens LGBT - na Igreja vem à pauta com mais força, vale lembrar este dado revelado pelo Censo 2010.
Pela primeira vez na história, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pesquisou o número de casais homossexuais que dividem uma residência. O número já havia sido revelado: são cerca de 60 mil no País. O que o Censo 2010 ainda não havia mostrado e o instituto divulgou nesta quarta-feira é que quase metade destes casais têm uma religião. E logo uma que condena este tipo de comportamento.
Quarenta e sete por cento dos casais homossexuais que dividem o mesmo teto se declaram católicos - 20,4% não tem religião. "É um dado bastante surpreendente, quando a gente percebe que a maioria dos casais em união consensual declara não ter religião. Entre os homossexuais esta taxa é maior", declarou o pesquisador Leonardo Queiroz Athias, do IBGE.
É uma estatística que vai de encontro ao que costuma ocorrer nas uniões consensuais - quando o casal opta por "não oficializar" o casamento nem no civil nem no religioso -, que é como 99,6% dos homossexuais declaram a relação. Entre os casais em geral que mantêm este tipo de união, 59,9% afirmam não ter religião. Dos casais que optam pela união consensual, 37,5% são católicos.
O Censo 2010 percebeu que as uniões consensuais são mais frequentes entre pessoas até 39 anos de idade e têm crescido, enquanto os matrimônios têm diminuído. No Censo de 2000, 28,6% das uniões eram consensuais. Em 2010, este número passou para 36,4%. Já o casamento civil e religioso passou de 49,4% dos casos há 12 anos atrás para 42,9% no último levantamento do IBGE.
"Esses números têm a ver com os modos atuais. Hoje em dia a união consensual é mais aceita pela sociedade. Por outro lado, as pessoas também podem esperar mais tempo para casar. Primeiro estão procurando viver novas experiências, fazer uma série de coisas, viajar e trabalhar, por exemplo, e depois pensa em casar", destacou Athias.
Perfil das uniões entre pessoas do mesmo sexo
A distribuição por sexo das pessoas em uniões homossexuais mostrou que 53,8% delas são entre mulheres e 46,2% entre homens. Cerca de 25% das pessoas neste tipo de união declararam possuir curso superior completo. O Sudeste concentra 52,6% das uniões homoafetivas, e o Nordeste 20,1%. O Sul concentra 13% dos casais homossexuais, enquanto o Centro-Oeste tem 8,4% e o Norte, 5,9%.
Essa notícia foi publicada no Terra, aqui, e nos lembrou o excelente artigo "Homossexualidade e Contra-hegemonia no Catolicismo", do Pe. Luís Correa Lima, SJ (que já publicamos aqui), que faz uma reflexão importante sobre a autonomia com que uma significativa parte dos católicos tende a viver a sua fé e que leva a uma certa disparidade entre o discurso do Vaticano e as convicções dos fiéis:
"A opinião pública católica é crescentemente favorável às bandeiras LGBT. No Canadá, onde há dez províncias, a maior adesão ao casamento gay é na Província de Quebec, coincidentemente a que tem a maior população católica. Na Espanha, onde a população é majoritariamente católica, mais de dois terços é a favor desta união. No Brasil, uma pesquisa revelou que 42% da população é a favor do casamento gay. Entre os católicos brasileiros, a proporção sobe para 46%. Ou seja, quase metade deste segmento religioso (Religião, 2007, p. 4)." [Continue lendo aqui] Tweet
segunda-feira, 15 de julho de 2013
O Diversidade Católica e "a nova juventude católica brasileira" na revista IstoÉ
"O carioca Rodolfo Viana, 28 anos, crismado na catedral metropolitana do Rio de Janeiro, afastou-se do catolicismo por dois anos depois de ser praticamente expulso da Renovação Carismática, um dos 61 movimentos de evangelização da juventude computados pela CNBB. Motivo: um de seus coordenadores descobriu que Viana tinha um namorado. “Como não conseguia ser ex-gay, me tornei ex-católico”, diz. Ele só retornou à religião ao conhecer o Diversidade Católica, um grupo de gays católicos que se reúne a cada 15 dias – e que conta com a colaboração de padres e teólogos – para conciliar as identidades religiosa e sexual, numa demonstração de que tabus, como a homossexualidade, agora encontram espaço para discussão entre os fiéis. “Hoje, não sou mais vítima da Igreja, que faz parte da minha cultura e formação moral. Bater o pé e não sair do banco do catolicismo é fazer política. Do contrário, estaria me amputando”, diz Viana.
(...) Durante a Jornada, o Diversidade Católica irá promover, na UNIRio, um encontro para que jovens católicos homossexuais contem como vivem a sua identidade religiosa."
Confirme sua presença na página do evento no Facebook, aqui. :-) Tweet
sábado, 13 de julho de 2013
"O Jovem Homossexual na Igreja": programação
Clique na imagem para ampliar.
Divulgue para quem você achar que pode se interessar, compartilhe à vontade! Queremos fazer um encontro rico e bonito, uma festa verdadeiramente fraterna e cristã. Mais informações aqui mesmo no blog ou na página do evento no Facebook, aqui.
Tweet
terça-feira, 9 de julho de 2013
Evento aberto: "O Jovem Homossexual na Igreja - I Encontro de Relatos e Experiências"
Data: 25 de julho de 2013 – das 14hs às 16hs
Local: Auditório Vera Janacópulos – UNIRio – Av Pasteur, 296, Urca
Página do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/176204389218409/
Queridos amigos,
Já comentamos aqui, mas à medida que a data se aproxima vamos reforçando as informações. :-)
Estamos organizando uma tarde de encontro e partilha, a fim de atender ao chamado da Jornada Mundial da Juventude 2013, abrindo espaço para histórias de jovens homossexuais dentro da Igreja: quem são, como vivem sua identidade religiosa e como sentem a comunidade da qual fazem parte.
Esse nosso encontro de relatos e experiências, de caráter ecumênico como a própria Jornada, acontecerá no dia 25 de julho, de 14h às 16h, no Auditório Vera Janacópulos, na UNIRIO (Av Pasteur, 296, entre Botafogo e Urca, perto do Shopping Rio Sul). Veja como chegar nos mapas no fim deste post. A programação do evento será a seguinte:
14h: Abertura
Ser homossexual na Igreja hoje
14h15: Relatos e testemunhos
Momento para membros do grupo compartilharem suas experiências religiosas, contando suas vivências nas respectivas paróquias, comunidades e famílias
15h: Partilha
O microfone será aberto para que o público possa partilhar, perguntar, comentar, esclarecer.
15h45: Encerramento e confraternização
O evento será encerrado com um lanche de confraternização. Ao fim do encontro, a ideia é seguirmos dali para Copacabana, onde, a partir de 18h, se realizará a cerimônia de acolhida ao Papa Francisco. Como a distância é curta, os que quiserem ir poderão se deslocar tranquilamente a pé.
A entrada é franca e o evento será aberto ao público, sujeito apenas à lotação do auditório.
Venha passar esta tarde conosco. Será um prazer encontrar você!
* * *
Como chegar (clique nos mapas para ampliar):
Mapa da região mais ampla, entre Botafogo e Urca
(o auditório fica no caminho para o Pão de Açúcar)...
(o auditório fica no caminho para o Pão de Açúcar)...
...mais detalhado
(com alguns pontos de referência)...
(com alguns pontos de referência)...
...e tendo o Shopping Rio Sul como referência
(é perto, dá para ir a pé)
Tweet
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Desejo: privilégio humano
Escultura: Alyson Shotz
O desejo se distingue da necessidade fisiológica ou psicológica que o acompanha por estar plantado no centro da afetividade humana. Ele nos diz que somos incompletos, carentes, limitados e finitos. Um ser que de nada carecesse não desejaria nada. Seria um ser perfeito, um deus. Por isso a filosofia grega antiga tomava o desejo como característica de seres finitos e imperfeitos, que não são o Bem, mas podem desejá-lo; que não possuem a Beleza, mas podem desejá-la e procurá-la. Como diz Santo Agostinho: “O que é o desejo, senão o apetite de possuir o que ainda falta?“
Mas não se trata de possuir coisas, e sim de deixar-se atingir e convocar pela interpelação do outro. Esse apelo fora dos padrões da normalidade medíocre chega ao fundo do ego fechado em sua autocomplacência e abre-o ao reconhecimento da diferença.
Segundo o filósofo judeu Emmanuel Levinas, o desejo fere e fragmenta a interioridade humana, descobrindo-lhe o vazio de sua suficiência. E dali jorra no Eu uma fome que nada poderá satisfazer e nutrir, uma fome insaciável. Isso é o “desejo”.
É algo que transcende a satisfação e a insatisfação. Significa uma distância maior, uma não posse mais precisa que a posse, uma fome que se nutre não de pão, mas sim da fome mesma. Como diz Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo. Quero a fome”.
O desejo metafísico, que vai além da physis (ou seja, do nível sensorial, puramente natural), situa-se nas antípodas da posse e da satisfação total. Ao invés, está sempre conectado à decepção da satisfação ou ainda à exasperação da não satisfação. É um desejo que quanto mais deseja, mais vê crescer em si sua capacidade de desejar. Seu dinamismo fundamental não é a necessidade que deve ser satisfeita, mas a abertura ao outro. Sob a força desse desejo, o eu contém então mais do que poderia normalmente conter, rompe o cárcere de sua subjetividade ego centrada e da palidez de uma identidade voltada para a repetição infindável e monótona do já conhecido.
O desejo que impulsiona para o outro não encontra sua fonte em necessidades insatisfeitas que o mesmo sujeito se encontra ávido por preencher, mas em um “mais”, em um “excesso” que só a infinitude pode atender. Anterior a todo conhecimento e a toda questão, o desejo é cavado no mais profundo do ser humano pela alteridade do outro humano e do totalmente Outro misterioso, que nós chamamos Deus. Porque somente o desejo, com sua sede nunca saciada, está apto a abrir-se ao Infinito que nada pode conter.
O desejo sussurra ao ouvido da pessoa humana, incessantemente, qual é sua condição: ser criado, humano, finito e limitado. Mas capaz de desejar o Ilimitado, o Infinito. O espaço aberto na subjetividade humana pelo desejo da transcendência e a abertura para a interioridade, para o Mistério, pode ser a força capaz de romper a materialidade do consumismo, a alienação que se nega a ver os conflitos que dividem o tecido social. Neste sentido, o desejo é condição de possibilidade para uma atitude crítica diante da sociedade de consumo e da exterioridade de sensações.
O consentimento ao desejo contradiz a lógica do mercado, altera as relações mercantilistas do consumo e permite sonhar em construir outro tipo de sociedade e cultura. A restauração da capacidade desejante do indivíduo e da sociedade vai na direção contrária à corrente da excitação constante das sensações; contra o predomínio de uma emocionalidade “líquida”, sem discernimento; contra a redução da pessoa humana a um mero consumidor passivo de produtos que lhe são impostos por tal tipo de sociedade.
Desejar é tomar posse dos próprios sentidos para aquilo que realmente foram feitos: ver, escutar, sentir, saborear, tocar. Escutar a beleza da música composta sob inspiração do artista. Mas também escutar os clamores que brotam da própria interioridade, assim como os clamores do próximo por justiça e eqüidade.
- Maria Clara Bingemer
Reproduzido via Amai-vos
Tweet
terça-feira, 12 de junho de 2012
A graça da dúvida de si
Foto: Takeshi Suga
O papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros.
A opinião é do teólogo norte-americano Charles E. Curran, professor da cátedra Elizabeth Scurlock de Ética Cristã daSouthern Methodist University. O artigo foi publicado no sítio do jornal National Catholic Reporter, 06-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
A condenação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé ao premiado livro da Ir. Margaret Farley, das Irmãs da Misericórdia, Just Love: A Framework for Christian Sexual Ethics, não é nenhuma surpresa. A Congregação insiste que o livro "não pode ser usado como uma expressão válida da doutrina católica" porque discorda do magistério hierárquico sobre masturbação, atos homossexuais, uniões homossexuais, indissolubilidade do casamento, divórcio e segundo casamento.
Há uma longa lista de teólogos morais católicos cujas obras sobre ética sexual, em um veio semelhante, foram condenados ou censurados pela Congregação para a Doutrina da Fé ao longo dos últimos 40 anos. O Papa João Paulo II escreveu a sua encíclica Veritatis splendor, em 1993, por causa da discrepância entre o ensino oficial da Igreja sobre questões morais e o ensino de alguns teólogos morais, até mesmo nos seminários. Segundo o papa, a Igreja está "enfrentando o que certamente é uma crise genuína, que não se trata já de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática do patrimônio moral".
Todos têm que reconhecer que há uma crise real como essa na Igreja hoje. Mas a crise não é apenas uma crise na teologia moral: ela envolve uma crise na Igreja como um todo e na nossa própria compreensão da Igreja Católica. De acordo com o respeitado Pew Forum on Religion & Public Life, uma em cada três pessoas que foram educadas como católicas romanas nos Estados Unidos já não é mais católica. A segunda maior "denominação" nos EUA é de ex-católicos. Uma em cada 10 pessoas nos EUA é ex-católica. Todos nós temos experiência pessoal daqueles que deixaram a Igreja por causa do ensino sobre questões sexuais. Questões relacionadas, incluindo o papel das mulheres na Igreja, o celibato para o clero e o fracasso das lideranças eclesiais em lidar com o escândalo dos abusos infantis e o seu encobrimento, também foram reconhecidas como razões pelas quais muitas pessoas abandonaram a Igreja Católica.
A reação de papas e bispos até teólogos morais revisionistas é apenas uma parte de uma realidade crescente em nossa Igreja hoje. Há uma ladainha de outras ações similares tomadas pelo Vaticano – as restrições impostas à Leadership Conference of Women Religious (LCWR); o controle sobre as atividades da Caritas Internationalis, a agência da Igreja dedicada à ajuda aos pobres; a reação muito negativa das associações de padres na Áustria e na Irlanda; a remoção de Dom William Morris, bispo de Toowoomba, na Austrália, por ter meramente incentivado a discussão sobre o celibato e o papel das mulheres; a nomeação apenas de clérigos muito seguros como bispos etc. E a lista continua.
O que está acontecendo aqui é que o papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros. Mas a Igreja remanescente se vê como uma Igreja forte de fiéis verdadeiros e, portanto, não está preocupada com essas partidas.
Esse conceito de Igreja opõe-se à melhor compreensão da Igreja Católica. A palavra "católico", em sua própria definição, significa grande e universal. A Igreja abraça tanto santos e pecadores, ricos e pobres, homens e mulheres, e conservadores e liberais políticos. Sim, há limites para o que significa ser católico, mas a compreensão de "católico" com "c" minúsculo insiste na necessidade de ser o mais inclusivo possível. Muitos de nós ficaram profundamente impressionados com os gestos do Papa Bento XVI no início do seu papado, ao ir ao encontro em diálogo com Hans Küng e de Dom Bernard Fellay, chefe do grupo originalmente fundado pelo arcebispo Marcel Lefebvre. Infelizmente, hoje, o diálogo ainda está em andamento com Dom Fellay, mas não com Hans Küng.
O problema básico de tudo isso é a compreensão e o papel da autoridade na Igreja Católica. Essa questão é muito vasta e complicada para ser discutida aqui com detalhes, mas três pontos deveriam orientar qualquer consideração sobre a autoridade na Igreja.
Primeiro, a principal autoridade na Igreja é o Espírito Santo, que fala de diversas maneiras; e todos os outros na Igreja, incluindo os detentores de cargos, devem se esforçar para ouvir e discernir o chamado do Espírito.
Segundo, a Igreja precisa dar corpo à compreensão de Tomás de Aquino de que algo é mandado e ordenado porque é bom, e não o contrário. A autoridade não faz algo certo ou errado. A autoridade deve se conformar ao que é verdadeiro e bom.
Terceiro, o perigo para a autoridade na Igreja é alegar uma certeza muito grande para o seu ensino e propostas.Margaret Farley desenvolveu esse ponto em um ensaio muito significativo, Ethics, Ecclesiology, and the Grace of Self-Doubt [Ética, Eclesiologia, e a Graça da Dúvida de Si]. A pressão por certeza fecha muito facilmente a mente e às vezes também o coração. A graça da dúvida de si permite a humildade epistêmica, condição básica para o discernimento moral comunitário e individual. Tweet
domingo, 10 de junho de 2012
O mundo não é preto e branco, e sim colorido. Vamos falar de sexo?
Foto: Takeshi Suga
Do blog do Leonardo Sakamoto:
Na época da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo sempre aumenta a minha percepção do quanto nós somos desinformados sobre a nossa própria sexualidade. E terreno sem informação é fértil para o brotar o preconceito e a discriminação, principalmente entre aqueles que acham que a vida é um preto e branco maniqueísta, homem e mulher, macho e fêmea e o resto é doença. Ignoram que há outras cores no meio do caminho que, por sua vez, podem ser tão específicas que apresentem tonalidades únicas e individuais. Sim, na prática, cada um tem sua própria cor. Assustador e maravilhoso isso, não?
Por isso, pedi para Claudio Picazio, psicólogo especialista em sexualidade, um texto que fosse didático para ajudar aos leitores deste blog a entenderem a questão. Ele não encerra o tema, claro. Muito pelo contrário, é um bom ponto de partida.
Para entendermos a sexualidade e por uma questão didática, vamos analisá-la sob quatro aspectos diferentes e interligados: Sexo Biológico, Identidade Sexual, Papeis Sexuais e Orientação Sexual do Desejo. Repito essa divisão é didática, pois todos os aspectos se entremeiam, formando dentro de nós aquilo que chamamos identidade de gênero.
Sexo Biológico: Biologicamente falando quantos sexos existem? Dois, masculino ou feminino. Quando nascemos pelas características que nosso corpo possui, somos registrados como macho ou fêmea. Essa afirmação parece simplista e óbvia, mas não é bem assim, quando falamos de sexo masculino ou feminino estamos nos referindo às características dos órgãos sexuais e a predominância que este tem no nosso corpo.
Muitas pessoas nos anos 70, por uma questão de distinção ou até modismo, começou a chamar a homossexualidade de terceiro sexo. Isto não é verdade, só confundiu. Biologicamente falando, homens hetero, bi e homossexuais não têm a menor diferença, assim como as mulheres hetero, bi e homossexuais. Portanto, quando uma pessoa fala popularmente que um gay não é homem, esta incorreto, o gay é tão homem quanto qualquer outro, a única variação é por quem o seu desejo sexual se orienta. Há exceções, é claro. Por exemplo, uma pessoa hermafrodita nasce com uma dupla formação de características dos seus órgãos sexuais masculinos e femininos.
Identidade Sexual: Vamos definir como sendo o aspecto de onde guardamos a nossa certeza do que somos. Quando nascemos, somos registrados como menino ou menina. A partir daí somos tratados como tal e incoporamos a sensação de pertencemos a um gênero. Acreditamos que somos menina ou menino: a forma de como somos tratados é tão importante como o nosso sexo biológico para a formação da nossa identidade sexual. Mas a nossa identidade sexual não depende tanto do nosso corpo para se manter. Ele é importante para seu desenvolvimento, mas a sensação de quem somos é muito maior, e muito mais profunda do que o nosso corpo pode dizer.
Papeis Sexuais: Vamos entender como papeis sexuais, todos os comportamentos definidos como maneirismos, atitudes e expressões daquilo que chamamos de masculino e feminino. Papeis sexuais são variados de cultura para cultura de sociedade para sociedade e estão em constante transformação. Aquilo que era considerado há 20 anos como exclusivamente ao papel feminino, hoje também pode ser considerado do masculino. As mudanças sociais e econômicas, o movimento feminista permitiu uma flexibilidade e mudança das posturas rígidas de ser masculino ou feminino. Um exemplo: o uso de brincos por homens.
Ainda temos muito enraizado em nós os papeis sexuais e a análise que fazemos destes para julgar o outro. Uma mulher que não se identifique muito com os papeis femininos típicos, tenderá a ser “diagnosticada” pelos outros como lésbica. Mas papeis sexuais não determinam desejo erótico e sim ações e atitudes que incorporamos. Um garoto que não goste de futebol e de nenhum esporte violento, será interpretado como “mulherzinha, gay”. Pensando nesse exemplo, estamos dizendo que um homem heterossexual de verdade tem que ser violento assim como uma mulher heterossexual de verdade tem que ser passiva e meiga. Já estamos estabelecendo uma divisão entre os gêneros complicada, porque incentivamos um comportamento na criança que mais tarde brigaremos muito para retirar. Na verdade encontramos homens heterossexuais e gays violentos, assim como encontramos homens heterossexuais e homossexuais que não são violentos e nem se adaptam a essa postura.
Orientação Sexual do Desejo: Muita gente utiliza “opção sexual”, o que não é nada correto quando falamos da sexualidade. Quando falo em “opção” estamos falando em escolha e para ser considerada uma escolha teríamos que ter duas ou mais coisas de igual significado ou valor para quem escolhe. Se desejo erótico fosse opção teríamos que sentir desejos tanto por homens quanto por mulheres da mesma forma. Isso não acontece por ninguém. Nenhum de nós parou um certo dia, para pensar quem desejaria. Acredito que muitos gostariam que assim o fosse, por que isso o permitiria flexibilizar, variar, e não sofrer julgamentos e preconceitos tão doídos de serem combatidos. Dizemos Orientação Sexual do Desejo pois nosso desejo se orienta para um determinado objeto amoroso. Não optamos e sim percebemos o nosso desejo erótico, descobrimos algo que já parece instalado em nós.
O desejo erótico não é influenciável como se imagina ser. Se o fosse não existiram gays e lésbicas. A nossa sociedade é heteronormativa. Tudo que existe nela é feito pensando na heterossexualidade. Pais e mães educam seus filhos para a heterossexualidade. O preconceito social, a homofobia e as religiões ainda são muitos fortes na sua postura contra a homossexualidade. E mesmo com tudo isso os homossexuais não se influenciam pela heterossexualidade.
“Desejo sexual” é parte fundamental da orientação afetivo sexual, ao passo que uma “atitude sexual” pode existir interdependentemente da orientação do desejo. Por exemplo, na época da Segunda Grande Guerra muitas mulheres tinham relações sexuais entre si, assim como muitos homens, no campo de batalha. Estas mulheres sentiam falta de seus companheiros, a orientação de seu desejo era claramente voltada para homens, mas relacionavam-se sexualmente com outras mulheres. As mulheres motivadas por um desejo de descarregar a sua energia sexual. Com a volta de seus companheiros, essa atitude automaticamente deixava de existir.
Em muitos casos, homossexuais que não querem viver a sua orientação, vão à procura de igrejas, e/ou profissionais que estimulam atitude sexual desses homossexuais. Esses gays tentam viver anulando o seu desejo erótico e tendo somente atitudes sexuais heterossexuais. A dor psíquica é muito grande.
Muitos meninos têm uma relação que se chama “troca-troca” que está longe de ser considerada homossexualidade. Um dos motivos é porque para a maioria o objeto desejado internamente é uma pessoa do outro sexo. O que há é um exercício de sexualidade, um descarrego de energia que está vibrando nos corpos com toda a sua força e é vivido com um(a) colega. Em suma, todo ser humano pode ter uma atitude sexual com qualquer dos sexos, mas seu desejo interno, a libido, é o determinante de uma conduta homo, hetero ou bissexual.
O que seria então a bissexualidade? A bissexualidade não é termos uma atitude sexual por uma pessoa e um desejo erótico por outra. A bissexualidade é um fenômeno que algumas pessoas têm de desejar afetiva e sexualmente tanto homens como mulheres. Não podemos falar que um bissexual optou por homens ou por mulheres. Não escolhemos, conscientemente, por quem nos apaixonamos, assim como não escolhemos por que vamos desejar eroticamente.
Concluindo: podemos dizer que o desejo erótico, ou ele é homo, por uma pessoa do mesmo sexo que o nosso, hetero por uma pessoa do sexo diferente do nosso, ou bissexual que é o desejo erótico pela pessoa do mesmo sexo ou do sexo oposto.
E a Travestilidade e a Transexualidade, como se comportam? Uma pessoa hetero ou homossexual tem a sua identidade sexual correspondente ao seu sexo biológico. Uma travesti tem a sua identidade dupla, ou seja, ela se sente homem e mulher ao mesmo tempo. O leitor deve se lembrar quando falamos de identidade sexual? A sensação de pertencimento à identidade sexual feminina e masculina da travesti é o que lhe garante mais do que o desejo, a necessidade de adequar o seu corpo aos dois sexos que sente pertencer.
A Travestilidade também não é opção, muitas pessoas crêem erroneamente que a travesti é um gay muito afeminado que resolveu virar mulher. Além de simplista esta afirmação esta recheada de equívocos. Uma travesti diferente do gay tem uma identidade dupla: masculina e feminina. Uma travesti pode ter papeis sexuais tanto masculino como feminino, pois como já dissemos anteriormente esse é um processo de identificação com valores e costumes da sociedade. Quanto ao desejo erótico, uma travesti pode ser homo, hetero, ou bissexual.
A maioria delas se intitula homossexuais, mas não é bem assim. Quase a unanimidade dessas travestis sente-se mulher. Na grande maioria do tempo, elas não desejam eroticamente o seu amigo gay, elas desejam um homem típico heterossexual. Portanto se uma pessoa se identifica, sente-se mulher e sente atração por um homem, o seu desejo é heterossexual. Portanto a maioria das travestis tem o desejo heterossexual. Uma relação homossexual de uma travesti seria com uma outra travesti.
A Transexualidade, caracteriza se pela identidade sexual ser oposta ao sexo biológico é como se a sua “alma” fosse do sexo oposto do que o seu corpo a condena. A necessidade de correção do corpo para a identidade sentida se faz urgente. Muitos Transexuais se mutilam para poder fazer a cirurgia de adaptação genital. A força da identidade sexual é a tônica na construção da nossa identidade de gênero. Uma transexual também pode ser homo, hetero ou bissexual.
Para quiser se aprofundar, sugiro o livro “Uma outra verdade – Perguntas e respostas para pais e educadores sobre homossexualidade na adolescência”, de Claudio Picazio pela Editora Summus. A leitura é fundamental. Talvez com informação possamos inverter uma lógica perversa. Quando alguns pais “descobrem” que o filho é gay ou a filha lésbica, recebem suporte emocional de parentes e amigos. Mas deixam sozinhos seus filhos, que têm que passar sozinhos pela fase de sua própria descoberta. Isso é justo? Tweet
sábado, 9 de junho de 2012
Deus entra pelos nossos sentidos...
Imagem daqui
Basta que me toques, Senhor!
Dizer que Deus entra pelos sentidos parece estranho e paradoxal. O Pe. Teilhard de Chardin (1881-1955) encontrava Deus no coração da matéria e acreditava que esta se orientava ontologicamente para o Espírito. Nosso melhor aprendizado e nossas melhores convicções entram experiencialmente e assim se consolidam.
O mesmo acontece com a fé em Jesus Cristo. Jesus não é uma teoria ou ideologia; Ele, como Ressuscitado, está vivo e pode ser cotidianamente experimentado. Deus entra pelos sentidos e O encontramos na vida!
O sinal decisivo de que alguém crê em Jesus está na vida que leva. Se somos sensíveis à dor do mundo é porque Deus entrou pelos nossos sentidos. O apóstolo João começa sua primeira carta dizendo: “... O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o quecontemplamos e o nossas mãos tocaram do Verbo da vida”... João repassa os sentidos, pois sabe que chegamos a Deus por eles. O que experimentamos nunca esquecemos!
Os discípulos amaram o Senhor e por isso aceitaram sua doutrina. Só acreditamos se amamos! O amor coloca em outro patamar os relacionamentos: quando fixamos o nosso olhar, vemos mais e escutamos melhor. Tenho pavor dos sentidos atrofiados: ver distraído, ouvir sem prestar atenção, falar sem nada revelar, tocar sem se comprometer!...
O “saborear internamente as coisas...” é já experiência do Ressuscitado!
Uma pergunta: Deus entra realmente pelos seus sentidos?...
A escola deve ser um lugar seguro para todas as crianças, sem exceção
Maio é um mês bastante movimentado na agenda do movimento LGBT nacional. Em meados do mês, ocorrerão em Brasília a 3ª edição da Marcha Nacional Contra a Homofobia, o 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional e uma Audiência Pública para tratar da criminalização da homofobia e da violência homofóbica. Esses eventos, nos dias 15 e 16, marcam a passagem do Dia Internacional Contra a Homofobia (17 de maio).
A Marcha Nacional chega à terceira edição e consolida-se como a manifestação política mais proeminente do movimento em âmbito nacional se considerarmos as Paradas do Orgulho LGBT como eventos não exclusivamente políticos, como avaliam alguns. O tom da Marcha é, até mesmo por sua realização no centro político do país, mais característico da ideia clássica de uma manifestação política. Os eventos desse ano, entretanto, trazem algumas singularidades interessantes, e vou apenas mencionar uma delas para tratar mais detidamente de uma outra.
A Audiência Pública será mais uma das várias que já foram feitas para discutir a criminalização da homofobia. O fato é que o PLC 122 está emperrado no Senado Federal, e de audiência em audiência, não se votou o projeto em plenário ainda. Esta edição tem um grande mérito, entretanto, ao dar cara e voz mais explícitas ao objeto deste projeto e desta demanda histórica do movimento. A meu ver, as histórias de vítimas da homo/les/transfobia são o elemento central neste momento, porque as discussões de legalidades e tecnicalidades já foram exaustivamente feitas. É preciso compartilhar estas histórias de violências físicas, psicológicas e morais que atingiram jovens e adultos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais; que atingiram as mães e os pais destes LGBTs, bem como seus amigos e colegas.
A terceira mesa prevista para a Audiência trará testemunhos de homofobia. Se eu vejo esta mesa como o ponto central, creio, infelizmente, que a mesa seguinte (e final) é que terá maior destaque: a recente e intensa polarização entre Toni Reis, presidente da ABGLT, e Silas Malafaia, pastor televangelista, tem atraído a atenção não só do movimento como também da mídia. Por alguma razão de outra ordem que não a competência, a mesa “A criminalização da homofobia: aspectos constitucionais e legais” terá a presença do pastor Silas Malafaia junto de três advogados. Os três têm competência para tratar de aspectos legais e constitucionais sobre a criminalização da homofobia. Vários outros juristas que não querem o PLC 122 aprovado poderiam estar na mesa para contrapor os argumentos jurídicos dos três primeiros. Aparentemente, eles não têm interesse em ir na Audiência ou nem estão sabendo do debate. Só Silas Malafaia, cuja formação é em Psicologia e a “especialização” é em retórica, adquirida em décadas de televisão. Enfim, não vou me alongar sobre o pastor Malafaia.
A singularidade que mais me interessou este ano é a temática do 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional (“Infância e Sexualidade”), sob organização da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT. Considero bastante corajoso endereçar o tema da sexualidade na infância. Isso implica mover certa parede moral que joga a sexualidade para “algum momento da adolescência” e ignora a sexualidade das crianças. Este tema claramente dialoga com a problemática da homofobia nas escolas, afinal, ambiente essencialmente infantil e juvenil. É corajosa a discussão também porque este assunto está num espécie de limbo político desde o veto que Dilma deu ao material pedagógico que trataria da diversidade sexual na escola. Aliás, só lá no Ensino Médio, período em que a maioria dos jovens já iniciou ou está iniciando a vida sexual; que a maioria das crianças que fogem aos padrões de gênero e performance viril/feminina já sofreram bullying e, por fim, em que muitas das concepções machistas, homo, les e transfóbicas já estão primariamente enraizadas.
Ao focalizar a infância, o Seminário só reverbera uma espécie de consenso acadêmico - refletido não só em posições teóricas, mas também em relatos colidos in loco sobre bullying homofóbico, bem como estatísticas de violência e mesmo suicídio - sobre a necessidade de abordar a diversidade sexual com as crianças. Eu creio que uma leitura mais calma de diversos desdobramentos desta questão ajude a clarificar ainda mais a urgência pela mudança do modo como tratamos (ou ignoramos) a questão nas escolas. Um exemplo sobre o qual tentei discorrer em A Propaganda Heterossexual é justamente o mecanismo perverso que oculta a onipresença da heterossexualidade na vida das crianças, em todas as suas “ambiências”, ao passo em que aponta uma “doutrinação” (sic) na mera tentativa de falar sobre diversidade sexual.
Mas, mais uma vez, penso que compartilhar histórias seja fundamental para trazer a realidade que as pesquisas, estatísticas e teorias retratam. Em março deste ano, o caso de agressão a um adolescente de 15 anos do interior do Rio Grande do Sul ganhou destaque na imprensa. No dia 23 de março, o jovem deu seu depoimento no programa Mais Você, da Rede Globo. Você pode ouvir os 5min em que ele fala sobre o que está passando neste link (entre 4’55’’ e 9’45’’).
Já o jovem Iago não chegou a contar sua história. Só sabemos da homofobia que ele sofria na escola pelos relatos tristes de seus familiares. Na edição de 19 de maio de 2009 do Profissão Repórter, também da Rede Globo, o tema era escola de periferia, e o caso do Iago, de 14 anos, surge por acaso [já havíamos visto este vídeo aqui, mas vale repetir]:
A violência que estes dois adolescentes sofreram por causa de sua real ou suposta homossexualidade não é exceção ou acidente no cotidiano escolar. Nem mesmo na sociedade. Nem mesmo no Brasil. Na edição de 24 de março do New York Times, o marroquino Abdellah Taïa contou sobre sua infância como um garoto afeminado em Salé, no noroeste do Marrocos. O ano era 1973. Em 1988, quando tinha 25 anos, Taïa exilou-se na França.
No Marrocos dos anos 80, onde a homossexualidade não existia, é claro, eu era um pequeno garoto afeminado, um garoto a ser sacrificado, um corpo humilhado sobre o qual recaia toda a hipocrisia, todos os não ditos. Quando tinha 10 anos, embora ninguém falasse sobre isso, eu sabia o que acontecia aos meninos como eu em nossa sociedade empobrecida; éramos vítimas designadas para sermos usadas, com a benção de todos, como simples objetos sexuais de homens frustrados. E eu sabia que ninguém me salvaria - nem mesmo meus pais, que certamente me amavam. Para eles também, eu era vergonha, sujeira. Um “gay”. [...] Como é para uma criança que ama seus pais, seus muitos irmãos, sua cultura operária, sua religião - o Islã - como é que ela pode sobreviver a este trauma? Ser ferido e molestado por causa de algo que outros viram em mim - alguma coisa no modo como movo minhas mãos, as minhas inflexões. Um jeito de andar, o meu comportamento. [...] Não me recordo mais da criança, do adolescente que fui. Sei que era afeminado e tinha consciência de que ser tão explicitamente “daquele jeito” era errado.
[...] Nunca mais fui o mesmo Abdellah Taïa depois daquela noite [em que vários homens da vizinhança queriam fazer sexo com ele]. Para me salvar, eu me matei. Foi isso que fiz. Comecei a manter minha cabeça baixa todo o tempo. Eu cortei todas as relações com as crianças da vizinhança. Mudei meu comportamento. Eu me mantinha vigilante: nada mais de gestos femininos, nada mais de andar com as mulheres. Nada de mais nada. Eu tive que inventar um Abdellah inteiramente novo. Eu me empenhei nisso com grande determinação, e com a compreensão de que aquele mundo não era mais meu mundo. Cedo ou tarde, eu deixaria aquilo para trás. Eu crescercia e encontraria a liberdade em algum outro lugar. Mas até lá, eu me tornaria alguém forte. Muito forte.A história de Abdellah ilustra bem o quanto crianças, na mais tenra idade, podem sofrer terríveis violências por não se comportarem como é esperado delas. Por não serem como se espera. Uma violência brutal que atinge jovens travestis, transexuais, gays e lésbicas. É urgente que a sexualidade - enquanto conjunto de manifestações de gênero, identidade e desejos - e a infância sejam harmonizadas. Não seria nem mesmo preciso recorrer a isso se nos recordarmos duma premissa essencial da educação: a escola deve ser um ambiente seguro e saudável para todas as crianças. Para todas elas, sem exceção.
- Luiz Henrique Coletto, Membro do Conselho LGBT da LiHS
Publicado nas Notas Públicas da LiHS
Tweet
quinta-feira, 7 de junho de 2012
"Deus sabe como o amo, e Ele a mim"
Foto: i can read
Nossa amiga Rosilene foi uma das pessoas que compartilharam conosco, no evento que realizamos domingo, um pouco de sua história e vivência como gay e católica. Aproveitamos esta oportunidade para dividir suas reflexões também com vocês.
Tenho 48 anos, sou cristã católica praticante e gay (talvez seja o contrário), mas nem sempre pude me afirmar assim. Desde bem pequena aprendi com meu pai a rezar. Me ensinou o Pai Nosso (que ensinava, naquela época, a rezar “Padre nosso que estais no céu...”), Ave Maria, Oração do Anjo da Guarda... Foi ele quem iniciou a minha formação católica. Aos três anos, como eu já sabia ler e escrever iniciei meus estudos na escola São José, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, uma escola católica. Era um ambiente afetuoso e de muita compreensão. As irmãs incentivavam a minha precocidade estudantil e fertilizavam a minha relação com Deus. Foi um tempo excelente! Aos seis anos, com ardente desejo de comungar (mesmo ainda não tendo iniciado o catecismo), aproveitei a distração do meu pai, na missa, na hora da comunhão, e corri como um raio para frente do padre, que gentilmente me deu a comunhão. Nossa! Sinceramente eu senti um estado de céu que nunca mais na vida esquecerei.
Tudo transcorria muito bem. Cresci, e as mudanças comuns ocorriam com naturalidade. Mudei de escola, de paróquia, fiz novos amigos... Participava das diversas atividades da igreja juntamente com minha família. Tios, tias, e primos, todos participávamos na mesma paróquia. Então veio a adolescência e a descoberta da sexualidade que me causava a maior confusão na cabeça. Um dia perguntei a minha mãe “porque é que eu gosto muito das meninas?”. Na maior tranquilidade ela me respondeu “é a sua preferência”. Fiquei satisfeita com a resposta, e minha vida seguia. Não demorou muito até eu me dar conta da minha homossexualidade, e foi aí que começaram os meus problemas. Era um dilema pra mim, pois em casa tudo bem, mas no círculo religioso uma pessoa gay não poderia participar das atividades pastorais comuns, porque seria um mau exemplo de pecado. Que terrível era conviver com aquelas pessoas, sendo considerada pecaminosa e desajustada. Então, plenamente consciente que a minha condição sexual era diferente das demais pessoas de minha família, da escola e da igreja, decidi reprimir minha sexualidade (o que foi uma situação de caos em minha vida). Mas os questionamentos não me abandonavam. Foi então, que passando férias em outra localidade, procurei o pároco e numa confissão, contei-lhe tudo o que se passava comigo. Ele me recomendou muita penitência e que eu me entregasse a contínuas orações e levasse uma vida de castidade. Procurei seguir fielmente as orientações daquele pároco, durante algum tempo. Foi um período sombrio em minha vida, eu tinha 18 anos. Então passei a frequentar as missas de maneira discreta e a me afastar das ações pastorais.
Foi então que conheci uma religiosa que me apresentou ao Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Fiquei amiga de um monge que me atendia às vezes em que eu ia ao mosteiro. Então um dia, abri meu coração a ele e contei-lhe tudo o que se passava comigo. Falei-lhe quanto me sentia triste, sobretudo que parecia que Deus vivia a me perguntar “Tu me amas?”, e que Ele não me dava nenhuma esperança a minha resposta “Senhor, Tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. Ele me olhou bem profundamente e me perguntou onde é que eu enxergava o Amor de Deus na minha vida. Com toda a convicção respondi “Na Encarnação de Jesus Cristo! ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus... O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens...’ “. “Então,” disse-me ele, “como você ainda não consegue enxergar esperança de que Deus te ama como você é?!”. Foi a minha libertação! Nada mais me aprisionou. Descobri que minha condição de ser homossexual não impede o amor de Deus, não me impede de praticar este amor, e nem me impede de praticar a religião cristã católica. Acolhi esta libertação como uma graça do Amor de Deus por mim. Retornei a igreja nos trabalhos pastorais com mais ardor, e é claro tive de superar obstáculos. Hoje com fé e confiança declaro como o Apóstolo “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos”.
Deus, que sabe de tudo, sabe como o amo e Ele a mim. Paz e Bem!
- Rosilene Luiza Tweet
Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (4)
Começamos a publicar há três semanas (primeira parte aqui; segunda parte, aqui; terceira, aqui), em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.
Castidade e lei natural
Convém tratar da castidade, contida nos Dez Mandamentos, e que constitui um importante conceito da moral. Originalmente o preceito é ‘não cometerás adultério’. Jesus, ao responder sobre o que se deve fazer para herdar a vida eterna, menciona não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, não prejudicar ninguém, e honrar pai e mãe (Mc 10, 17-22). Os quatro primeiros preceitos estão no Decálogo. O preceito seguinte (não prejudicar ninguém) não está, mas ele resume os anteriores e lhes dá o verdadeiro sentido. São Paulo aprofunda e sintetiza esta questão: quem ama o próximo está cumprindo a lei, pois os mandamentos se resumem no amor ao próximo (Rm 13,8-10). Este é o espírito dos mandamentos e a sua chave de compreensão.
A castidade é definida hoje como a integração da sexualidade na pessoa, na sua unidade de corpo e alma (Catecismo da Igreja Católica, §2337). Esta integração é um caminho gradual, um crescimento pessoal em etapas, quepassa por fases marcadas pela imperfeição, e até pelo pecado (ibidem, §2343). Por isso, é preciso levar em conta a situação em que a pessoa se encontra, e os passos que ela pode e deve dar. Só pode haver integração bem sucedida neste campo se a pessoa viver em paz com a sua sexualidade, e amar o seu semelhante.
O teólogo Joseph Ratzinger tem uma importante contribuição para a reflexão sobre a castidade. Ela não é uma virtude fisiológica, mas social. Trata-se de humanizar a sexualidade, não de ‘naturalizá-la’. A sua humanização consiste em considerá-la não como um meio de satisfação privada, uma espécie de entorpecente ao alcance de todos, mas como um convite ao homem para que saia de si mesmo. A realização da sexualidade não adquire um valor ético quando se faz ‘conforme a natureza’, mas quando ocorre de acordo com a responsabilidade que tem o homem diante do homem, diante da comunidade humana e diante do futuro humano. Para avaliar a sexualidade, prossegue Ratzinger, pode-se dizer que ela reflete e concretiza o dilema fundamental do homem. Ela pode representar a total libertação do eu no tu, ou também a total alienação e fechamento no eu [“Hacia una teología del matrimonio”. Selecciones de teologia, nº35, 1970, p. 243].
Sobre a conformidade à natureza, é importante refletir sobre um outro conceito da moral que é a lei natural. O mundo é criação divina, feito segundo a razão do Criador (Logos), de modo a manifestar a Sua sabedoria. Há na criação uma racionalidade que pode ser conhecida pelo ser humano, e orientar a sua ação. Há uma lei inscrita no coração humano que orienta os seus juízos éticos (Rm 2, 12-16). Um recente documento da Igreja, da Comissão Teológica Interncional, trata deste assunto de maneira muito oportuna [Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural. Paulinas, 2009].
A expressão ‘lei natural’, segundo a Comissão, atualmente é fonte de numerosos mal-entendidos. Por vezes, ela evoca simplesmente uma submissão resignada e passiva às leis físicas da natureza, quando o ser humano busca, e com razão, dominar e orientar estes determinismos para o seu bem. Por vezes, ela é apresentada com um dom objetivo que se impõe de fora da consciência pessoal, independentemente do que elabora a razão e a subjetividade. Ela é suspeita de introduzir uma forma de heteronomia insuportável à dignidade da pessoa humana livre. Outras vezes também, ao longo de sua história, a teologia cristã justificou muito facilmente com a lei natural posições antropológicas que, em seguida, mostraram-se condicionadas pelo contexto histórico e cultural. Hoje, é importante propor a doutrina da lei natural em termos que manifestem melhor a dimensão pessoal e existencial da vida moral (Em busca..., nº10). Certamente aquela oposição de Ratzinger à ‘naturalização’ da sexualidade se refere a estes mal-entendidos sobre a lei natural.
Considerando uma sociedade pluralista como a nossa, prossegue o documento, a ciência moral não pode fornecer ao sujeito uma norma que se aplique de forma adequada e automática às situações concretas. Só a consciência do sujeito, o juízo de sua razão prática, pode formular a norma imediata da ação. Mas, ao mesmo tempo, não se deve deixar a consciência entregue à pura subjetividade. É preciso fazê-la adquirir as disposições intelectuais e afetivas que lhe abrem à verdade moral, para que seu juízo seja adequado. A lei natural não deve ser apresentada como um uma lista de preceitos definitivos e imutáveis, ou como conjunto de regras já constituído que se impõe previamente ao sujeito. Ela é uma fonte de inspiração objetiva para o seu processo de tomada de decisão, que é eminentemente pessoal. Esta fonte jorra sempre que se busca um fundamento objetivo para uma ética universal (Em busca..., nos59 e 113).
A Comissão reconhece também que a aplicação concreta de preceitos da lei natural adquire diferentes formas nas diversas culturas, ou mesmo em diferentes épocas dentro de uma mesma cultura. A reflexão moral evoluiu em questões como a escravatura, o empréstimo a juros, o duelo e a pena de morte. Coisas que eram permitas passaram a ser proibidas, e vice-versa. Há uma compreensão melhor da interpelação moral. A mudança da situação política ou econômica traz uma reavaliação das normas particulares que foram estabelecidas anteriormente (Em busca..., nº53).
A consciência do sujeito tem um peso decisivo, sobretudo em questões complexas. Este papel não deve ser esquecido ou subestimado. O Concílio Vaticano II afirmou o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência, e o dever de não agir contra ela. Nela está o ‘sacrário da pessoa’, onde Deus está presente e se manifesta. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos outros homens no dever de buscar a verdade, e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (Gaudium et spes, nº16). Nenhuma palavra externa substitui o juízo e a reflexão da própria consciência. Tweet
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Um Deus de muitas faces
Aquarela: Benjamin Phillips
Isaac Palma, de novo, no Ide por toda a Web - vimos no Pensando cá com nossos botões
Deus está e sempre estará para além de nós, para além de nossa linguagem e de nossa compreensão. Enquanto continuarmos achando que poderemos conter Deus em nossas ideias, estaremos sempre impedindo que Deus seja encontrado na pluralidade das ideias e na diversidade da vida. As nossas ideias de Deus sempre são construções históricas e culturais, Deus pode ser absoluto, mas justamente por Ele ser absoluto, nossas ideias jamais serão absolutas, como dizia Richard Shaull : “Se Deus é Absoluto, tudo o mais é questionável” incluindo nossas idéias sobre Deus. Precisamos entender a nossa limitação em compreendê-lo para então encontra-lo nos outros.
Toda ideia de Deus deve ser questionada, toda ideia de Deus deve ser considerada. Deus tem muitas faces e nenhuma delas é dEle. Deus tem muitos nomes mas se seu verdadeiro nome não pode ser pronunciado. E nisso está seu mistério, a sua beleza. Deus é um constante refazer da história, que cria a partir da palavra um novo mundo.
A radicalidade do monoteísmo foi mal compreendida durante os séculos, o monoteísmo supera a lógica da disputa entre as religiões, já não há espaço para as disputas dos deuses, se Deus é um só todo o esforço para encontra-lo faz parte de um só movimento. Se Deus é um só Ele é Deus de toda a humanidade.
A Face de Deus é a face de toda a humanidade é a face de cada um. Mas principalmente a face de Deus é a face dos que sofrem. Deus não é só Europeu ou Americano, ele não é somente branco, e heterossexual Deus não é só Cristão. Deus é indio, Deus está na floresta na tristeza de um povo que perde seu espaço para o “Desenvolvimento”. Deus é Afro-descendente, Ele está no tambor na alegria da canção, no suor do trabalho incansável daqueles que são explorados com a legitimidade da religião. Deus é um menino pobre nas margens da sociedade que sua unica opção é roubar daqueles que roubaram antes dele. Deus é Palestino, lutando pela libertação do seu povo. Deus é Deusa, é uma mulher oprimida por uma sociedade machista. Deus é um homossexual, que foi expulso de casa e pensa em dar fim a sua própria vida. Deus é um travesti que vende seu próprio corpo para se manter vivo. Deus é um homem sonhador que andou nas periferias do mundo amando aqueles que ninguém quer amar e por isso foi crucificado na Cruz da história na esquina de qualquer lugar, e pede para aqueles que querem encontra-lo procurarem nos crucificados da história naqueles que sofrem a dor sobre-humana, e soam o sangue que pulsa do Seu coração, é com esses que Deus partilha Seu Pão.
Que assim possamos entender, e viver o mistério comum, que nos oprimidos e nas oprimidas possamos encontrar o Servo Sofredor de Isaias. E se Ele é vento que sopra onde quer, que possamos senti-lo ao invés de tentar conte-lo, que possamos vive-lo e experimenta-lo no centro da vida, e nas margens do mundo junto dos excluídos que é lá onde ele preferiu ficar junto dos pequeninos daqueles que não podem dar nada em troca, e entenderam o verdadeiro sentido da Sua Graça que abraça o mundo inteiro a cada manhã. Tweet
Assinar:
Postagens (Atom)




















