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quinta-feira, 24 de maio de 2012

“O Amor de Cristo nos uniu”: Gays cristãos na Igreja Católica


É com grande alegria que convidamos a todos para o evento que vamos realizar no dia 3 de junho próximo aqui no Rio de Janeiro, para refletirmos juntos sobre como viver a fé cristã e ser gay. A programação inclui uma mesa-redonda e alguns depoimentos de gays cristãos, que compartilharão suas histórias pessoais. A entrada é franca e receberemos com prazer todos - gays e não-gays, cristãos e não-cristãos - para conversarmos sobre as possibilidades de encontro e diálogo, para que nos enriqueçamos e cresçamos juntos.

A programação é a seguinte:

14h     Abertura: A história do Diversidade Católica, desde 2007 (Arnaldo Adnet e Valéria Wilke)
14h30  Mesa-redonda: Fé cristã e diversidade sexual
1. “A verdade que emerge” (James Alison, padre católico, teólogo e escritor)
2. “Panorama bíblico sobre a homossexualidade” (Marcio Retamero, mestre em História Moderna/UFF e pastor da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo e da Igreja da Comunidade Metropolitana Betel do RJ)
3. “Diversidade sexual e fé católica dentro de um Estado Laico” (Cristiana Serra, psicóloga e católica leiga)
16h30  Coffee break
16h45  Gay e cristão: depoimentos pessoais
17h45  Encerramento

O evento acontecerá no Auditório do CCET da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/UNIRIO - Av. Pasteur, 456 - Botafogo/Praia Vermelha (veja o mapa para chegar a partir da rodoviária aqui e a partir do Aeroporto Santos Dumont, aqui). 

Atenção para dois detalhes: Há na região duas universidades vizinhas, a UFRJ e a UNIRIO. Nosso evento  será na UNIRIO. Além disso, o prédio da UNIRIO em que será realizado o encontro fica depois do Instituto Benjamin Constant. Portanto, NÃO é o prédio da reitoria colado à UFRJ, e sim o do campus do final da av. Pasteur, mais próximo ao bondinho do Pão de Açúcar. Para quem for de ônibus, peça ao motorista pra descer no ponto mais próximo ao Pão de Açúcar, que é exatamente ao lado da entrada do estacionamento do campus da UNIRIO onde ocorrerá o evento. As linhas que circulam na Urca são 107 (Central), 511, 512 e 513 (circulares da Zona Sul). Além disso, há um micro-ônibus que faz integração na estação de metrô Botafogo. Para quem for de carro, o estacionamento do campus estará liberado no dia.

Clique na imagem para ampliar

O portão do campus, bem ao lado do último ponto de ônibus da Av. Pasteur, 
antes do bondinho do Pão de Açúcar

Do portão até o auditório, é só atravessar o estacionamento

Aproveitem para acompanhar a página do evento no Facebook, aqui, onde vocês também podem aproveitar para tirar qualquer dúvida que tenham (bem como pelo e-mail contato@diversidadecatolica.com.br)

Para quem quiser nos ajudar a divulgar, segue abaixo um panfleto com a programação e demais informações.

Clique na imagem para vê-la e fazer download em tamanho maior



Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (2)

Foto: Tony Park

Começamos a publicar na quinta-feira passada, em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Evangelizar neste contexto
Para a Igreja, a lei de toda a evangelização é pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada à realidade dos povos, como lembra o Concílio Vaticano II. Deve haver um intercâmbio vivo e permanente entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos. Para viabilizar este intercâmbio – sobretudo hoje, em que tudo muda tão rapidamente, e os modos de pensar variam tanto – ela necessita da ajuda dos que conhecem bem a realidade atual, sejam eles crentes ou não. O laicato, a hierarquia e os teólogos precisam saber ouvir e interpretar as várias linguagens ou sinais do nosso tempo, para avaliá-los adequadamente à luz da Palavra de Deus, de modo que a Revelação divina seja melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente (Gaudium et spes, nº44).

A correta evangelização, portanto, é uma estrada de duas mãos, do intercâmbio entre a Igreja e as culturas contemporâneas. Só se pode saber o que a Palavra de Deus significa hoje, e que implicações ela tem, com um suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilização da população LGBT e os seus direitos humanos.

Certa vez o papa Bento XVI afirmou que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente [Entrevista, Agência Zenit, 16 ago. 2006]. É muito bom que um Papa tenha reconhecido isto. Há no cristianismo uma tradição multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na condenação e no medo. O historiador Jean Delumeau fala de uma ‘pastoral do medo’, que com veemência culpabiliza e ameaça de condenação eterna para obter a conversão. Isto não se deu somente no passado. Também hoje, em diversas igrejas e ambientes cristãos, muitos interpretam a doutrina de maneira extremamente restritiva e condenatória, com obsessão pelo pecado, sobretudo ligado a sexo.

Sem obsessão pelo pecado, o caminho do diálogo se abre. É preciso também respeitar a autonomia das ciências e da sociedade, como determina o Concílio (Gaudium et spes, nº36). Não cabe hoje encaminhar os gays a terapias de reversão ou a ‘orações de cura e libertação’, que frequentemente são formas escamoteadas de exorcismo. No diálogo ecumênico e inter-religioso da Igreja, recomenda-se conhecer o outro como ele quer ser conhecido, e estimá-lo como ele quer ser estimado. O conhecimento e a estima recíprocos são também o melhor caminho para o diálogo entre a Igreja e o mundo gay.

Neste diálogo, os ensinamentos da Igreja devem ser vistos não a partir da proibição, mas a partir da opção positiva contida na mensagem cristã, como sublinhou o papa. Uma carta da Cúria Romana aos bispos, de 1986, afirma: nenhum ser humano é um mero homossexual ou heterossexual. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o torna filho Seu e herdeiro da vida eterna. E acrescenta que toda violência física ou verbal contra pessoas homossexuais é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifiquem (Homosexualitatis problema, nos16 e 10). A oposição doutrinária às práticas homoeróticas não elimina esta dignidade fundamental do ser humano. Deus criou a todos. O Cristo veio para todos, e oferece o seu jugo leve e o seu fardo suave. Cabe a nós, com fidelidade criativa, conhecermos e darmos a conhecer estes dons divinos.

A posição da moral católica, segundo a carta, baseia-se na razão humana iluminada pela fé, e guiada conscientemente pela intenção de fazer a vontade de Deus, nosso Pai. Esta posição encontra apoio também nos resultados seguros das ciências humanas, que possuem objeto e método próprios e gozam de legítima autonomia. São dignas de admiração a particular solicitude e a boa vontade demonstradas por muitos sacerdotes e religiosos, no atendimento espiritual às pessoas homossexuais. A Congregação para a Doutrina da Fé deseja que tal solicitude e boa vontade não diminuam. Um programa espiritual amplo ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida de fé, mediante os sacramentos, incluindo o da penitência, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando que se produza neles tanto a desilusão como o isolamento (Homosexualitatis problema, nos2, 13 e 15).

Sobre a condição e as relações homossexuais, um documento anterior da Igreja (Persona humana, de 1975) é frequentemente reiterado. Algumas pessoas são homossexuais por uma espécie de instinto inato ou uma constituição própria incurável, de modo que a sua condição é definitiva. As relações homossexuais, porém, contrariam a ordem moral objetiva [são contrárias à lei natural, como dirá depois o Catecismo da Igreja Católica (§2357)]. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações, e apresentadas como uma triste conseqüência da rejeição de Deus. Os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e não podem receber qualquer aprovação. Porém, na atividade pastoral as pessoas homossexuais hão de ser acolhidas com compreensão e apoiadas na esperança de superar as suas próprias dificuldades. A sua culpabilidade deve ser julgada com prudência (Persona humana, nº8).

Sobre a culpabilidade, reconhecem-se certos casos em que a tendência homossexual não é fruto de opção deliberada da pessoa, e que esta não tem outra alternativa, mas é compelida a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, em tal situação ela agiria sem culpa. Sobre isto, a tradição moral da Igreja alerta para o risco de generalizações a partir do julgamento de casos individuais. Mas, de fato, em uma determinada situação podem existir circunstâncias que reduzem ou até mesmo eliminam a culpa da pessoa (Homosexualitatis problema, nº11). Portanto, não se pode afirmar que todos os que praticam atos homossexuais estão em pecado mortal, e devem se afastar dos sacramentos.

Além dos ensinamentos do papa e da Cúria Romana, há interessantes iniciativas e proposições feitas pelos bispos em suas igrejas locais, ou mesmo através de conferências episcopais. Nos Estados Unidos, por exemplo, os bispos escreveram em 1997 uma bela carta aos pais de pessoas homossexuais. O título dela é oportuno e profético: Sempre Nossos Filhos [Always our children, USCCB, 10 set. 1997]. Eles afirmam que Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A aids pode não ser castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual de seus filhos, nem por suas escolhas. Os pais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los héteros. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário.

Há muitas famílias que têm filhos gays e sofrem imensamente com isto. Os pais frequentemente culpam a si mesmos e não sabem o que fazer. Esta mensagem é muito oportuna também em nossa realidade social e eclesial. Um novo pronunciamento dos bispos norte-americanos foi feito em 2006, sobre o ministério junto a pessoas com inclinação homossexual. Neste trabalho, os ministros religiosos são convidados a ouvir as experiências, as necessidades e as esperanças das pessoas homossexuais. Assim se manifesta o respeito à dignidade inata e à consciência do outro. Gays e lésbicas podem, dependendo das circunstâncias, revelar a sua condição a familiares e amigos e crescer na vida cristã [Ministry to persons with a homosexual inclination: guidelines for pastoral care. Washington, DC, 2006].

A atitude de humildade e de escuta do ministro religioso é muito importante. Gays e lésbicas são filhos de Deus, e o Espírito divino também age neles. Não se deve jamais desqualificar previamente suas vivências, necessidades e esperanças simplesmente por causa de sua orientação sexual. O fiel homossexual pode ‘sair do armário' sem sair da Igreja. Isto só é possível fomentando nas comunidades cristãs um ambiente que não seja homofóbico e nem hostil.

Continua na próxima quinta-feira, 31/5/12

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Deus não odeia ninguém

Foto daqui

Ao ver um protesto de membros da Igreja Batista de Westboro (igreja ultrafundamentalista e radicalmente antigay), com faixas com os dizeres: “Deus odeia as bichas”, um menino pediu à sua mãe para fazer uma intervenção na cena.

Josef Akrouche, de nove anos, pegou um caderno e escreveu: “Deus não odeia ninguém”.

“Ele está crescendo para ser um bom rapaz”, disse sua mãe, Patty Akrouche, no Facebook, ao recordar a história. “Ganhei meu presente de Dia das Mães mais cedo”, lembra.

É isso aí, Jeff. Nos lembrou até isto aqui.

(Fonte: Blogay)

"O Bom Samaritano" ou "O Bom Travesti"

Escultura: Nic Joly

E perguntaram a Jesus: "Quem é o meu próximo?" E ele lhes contou a seguinte parábola:

Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: "Vá passando a carteira". O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.

Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: "Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você." Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: "Ego te absolvo..." Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: "Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!" O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.

Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram.

Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir." Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.

O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.

Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: "Quem foi o próximo do homem ferido?"

- Rubem Alves
Fonte: A fé absurda

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos


Entre os dias 20 e 27 de maio, semana que antecede Pentecostes, cristãos de todo o hemisfério Sul estaremos unidos celebrando a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; pessoas das mais variadas raças, etnias e culturas nos dedicaremos à reflexão sobre a importância da unidade na diversidade e à oração para que ela aconteça.

Mas o que é estar unido na diversidade?

A junção dessas duas palavras, unidade e diversidade, ou unidade na diversidade, dá a impressão de que é impossível construir um ambiente assim, pois, em tese, diversidade geraria separação. Mas no mundo cristão esse raciocínio dribla a lógica, pois o diálogo aberto e fraterno permite, mesmo na diversidade, a abertura ao outro, àquilo que eu não tenho, mas admiro e respeito no meu irmão de fé. Afinal, existe uma máxima que gere todos os cristãos: “maior é aquilo que nos une do que o que nos separa!...” Todos estamos sob um só Cristo, Pastor, fazendo parte do seu Rebanho. Os caminhos podem ser variados, mas a meta é sempre a mesma: “amar o próximo como a si mesmo...” (Gl 5,14).

A unidade dos diferentes nem sempre é fácil de conseguir, mas os esforços de muitas igrejas no Brasil, membros do CONIC ou não, têm sido cada dia maiores. Nesse sentido, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que este ano tem como tema “Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 15, 51-58), pretende contribuir para que irmãos de diferentes denominações se juntem em momentos de partilha fraterna, comunhão eclesial e integração amiga.

Uma proposta: sem perder sua identidade, vá ao encontro do diferente! Participe e sejamos sempre irmãos de todos no Senhor!

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña SJ, no Terra Boa

Terra


Morreram com sete anos e um dia de diferença: Dorothy Stang, missionária norte-americana na região amazônica, que adotou o Brasil como sua própria terra, foi assassinada por seis disparos em 12 de fevereiro de 2005; Dom Ladislao Biernaski, Bispo de San José dos Pinhais e presidente da Comissão Pastoral da Terra ou CPT, organização da Igreja brasileira, morreu de câncer em 13 de fevereiro de 2012.

Dorothy Stang, conhecida localmente como Irmã Dorothy, tornou-se famosa depois de seu trágico final. Vivia em Anapu (uma cidade do Pará), onde promovia um projeto de desenvolvimento sustentável que fomentava a produção familiar cuidando do meio ambiente. Foi assassinada porque seu projeto entorpecia os interesses de proprietários de terras locais. Embora tanto os assassinos como os instigadores do assassinato tenham sido condenados, a irmã Dorothy não estaria contente hoje: O Código Florestal, em caminho de ser aprovado em Brasília, e as controvérsias ao redor da barragem de Belo Monte (terceiro maior complexo hidrelétrico do mundo) abrirá ainda mais as feridas na Amazônia e de seus habitantes indígenas, sem mencionar os danos causados por monocultivos de plantação de agronegócios.

Ladislau Biernaski era uma pessoa apaixonada pela terra, como Jelson Oliveira, membro da CPT escreveu na página web da Comissão: “Com as mãos cheias de calos e as unhas escuras desfrutava orgulhoso mostrando aos visitantes o jardim que ele pessoalmente se encarregara de cuidar, ao lado da singela casa onde vivia. Esta paixão pela terra, herdada de sua família de imigrantes polacos, levou-o a transformar a ‘terra’ numa causa evangélica e política. Com esta motivação, passou anos visitando os acampamentos e assentamentos da comunidade. Com frequência deixava de lado a mitra e outros símbolos episcopais para unir-se solidariamente ao povo, comemorando este compromisso profético pela justiça. Dom Ladislau tinha aprendido a compreender e a explicar a missão pastoral da Igreja aos pobres. Inspirado por essa clareza, participou de inúmeras manifestações dos pobres no Paraná, tanto no campo como na cidade”.

Estas duas testemunhas nos recordam duas coisas. A primeira é que a terra não é uma simples mercadoria ou um ativo financeiro —em contraste com o que os abutres que “açambarcam a propriedade das terras” fazem-nos crer: as multinacionais e os estados que numa década açambarcaram uma superfície que cobre oito vezes o Reino Unido—.

A terra, pelo contrário, é um valor de proteção especial, uma condição essencial para a afirmação da dignidade humana, e também é o “primeiro elemento” da cultura de uma comunidade e sua identidade. Inclusive quando a economia global atual é em grande parte subcontratada, a agricultura se transformou em objeto da lógica da bolsa de valores, e nossa vida cotidiana é cada vez mais mediada pela tecnologia. No entanto, a terra continua sendo especificamente o fator que constitui a base da universalidade dos direitos, já que nos chamamos seres humanos, e nascemos numa só terra (humus).

A segunda mensagem de Irmã Dorothy e Dom Ladislau é principalmente para aqueles que ainda repetem o estribilho de que a Igreja deve abster-se da política para dedicar-se às coisas do céu: O verdadeiro cristão é aquele que se esforça com todas suas forças para tornar o mundo, e de fato a terra, mais habitável.

- Stefano Femminis
Fonte: Mirada Global. Reproduzido via Amai-vos.

domingo, 20 de maio de 2012

Pensar em Deus

Foto via Blue Pueblo

PENSAR em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Comos os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

- Alberto Caeiro
(Fonte: A fé absurda)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Metafísica

Foto: Amy Hildebrand 

HÁ METAFÍSICA bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

- Fernando Pessoa
(Fonte: A fé absurda)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dividindo o mundo em caixinhas

Foto daqui

Da querida Kamila Oliveira, do Minoria é a Mãe (o blog que volta e meia diz tudo o que a gente queria dizer, mas não sabia como). Perfeito para, no dia internacional de combate à homofobia, nos lembrarmos de combater os preconceitos embutidos nos rótulos que nós mesmos construímos para classificar o mundo, as coisas e as pessoas:

Rótulos são facas de dois gumes. Quando precisamos falar de um movimento, de um grupo de pessoas, ou coisas do tipo, rotular é útil. Definir para as pessoas que existem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros ajuda, porque o ser humano têm essa necessidade de dividir tudo em coisas muito específicas para poder simplesmente começar a pensar sobre o assunto. O problema é que, como talvez você já tenha percebido na frase acima, existem muitos outros conceitos entre esses poucos que eu citei, mas são esses poucos que formam a sigla do movimento LGBT+.

Há alguns anos, a única sigla que eu conhecia era GLS - gays, lésbicas e simpatizantes. Depois eu vi GLBS - agora incluindo bissexuais. Um tempo depois o S saiu e entrou o T, e uma decisão recente da ABLGBT colocou o L na frente pra chamar mais atenção para a causa lésbica. Esse é só um exemplo de como definir pessoas pode ajudar outras a entender do que se trata um movimento.

Eu gosto de fazer uma analogia com caixas pra tentar explicar o que é um rótulo. É como se dentro da cabeça de todo mundo houvesse várias caixinhas, geralmente em pares. Em cima de cada caixinha dessas existe um rótulo: homossexual (essa se desdobra pra outras duas: gay e lésbica), heterossexual, gordo, magro, negro, branco, bonito, feio, rico, pobre, etc. A divisão é quase sempre binária. Dentro de cada uma dessas caixinhas está um pensamento pré-definido - um julgamento. O que acontece é que, quando uma pessoa te acha feio, por exemplo, ela automaticamente pega o pensamento que tá dentro da caixinha “feio” e aplica a você. São como primeiras impressões enlatadas - o problema é que não são primeiras impressões de verdade, pois já estavam lá bem antes de você.

Se você diz que é bissexual, você confunde as caixinhas. Porque é como se você fosse hetero e homo “ao mesmo tempo”, e não pode, só dá pra usar uma caixinha por vez. Se você é transgênero, as pessoas não sabem se te colocam na caixinha “homem” ou “mulher”, não sabem se te colocam em “homossexual” ou “heterossexual”, porque acham que é alguma coisa no meio, e nos pré-julgamentos não existe meio termo. Ou é isso ou é aquilo, e toda característica acaba caindo nessa armadilha; algumas, como as que eu citei, mais do que outras.

Todos os dias novos termos e conceitos aparecem. No mundo ideal eles provavelmente não seriam necessários, mas hoje em dia são. Isso acontece porque em determinados grupos as pessoas não precisam explicar e definir para as outras se gostam disso, daquilo, se são assim ou assado. Mas, de modo geral, é fácil perceber que isso é muito pontual e fora desse grupo de repente a necessidade de definição se torna tão necessária que você praticamente não existe em sociedade se não puder ser colocado em alguma caixa.

Talvez um dia seja tão desnecessário explicar a sexualidade queer quanto hoje é desnecessário explicar a heterossexualidade - a grande maioria das pessoas nunca realmente pára pra pensar por que é hetero, ou se escolheu ser hetero, ou em que momento da vida percebeu ser hetero. Talvez um dia a identidade de gênero não seja mais confundida com a sexualidade. Apesar de tudo que se vê por aí e apesar de muitas vezes pensar que está piorando, eu costumo ser otimista e pensar que, mais dia menos dia, as mudanças acontecem.

- Kamila Oliveira

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (1)

Foto: Tony Park

Publicamos a partir de hoje, em 6 partes, sempre às quintas-feiras pela manhã, o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Um novo quadro e sua história
Um importante sinal dos tempos atuais é a visibilização da população homossexual. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Escondiam-se em casamentos tradicionais e, quando muito, formavam guetos, que são espaços de convivência bem isolados. Hoje, fazem imensas paradas, junto com travestis e transexuais, estão presentes nas telenovelas, exigem respeito e reconhecimento, e reivindicam direitos. Esta população está em toda parte. Quem não é gay, tem parentes próximos ou distantes que são, bem como vizinhos ou colegas de trabalho que também são, velada ou manifestamente. Eles compõem a sociedade, visibilizam-se cada vez mais, e querem ser cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

A visibilização desta população também manifesta os problemas que a afligem. Há uma aversão a pessoas homossexuais, chamada homofobia, que produz diversas formas de violência física, verbal e simbólica contra estas pessoas. No Brasil são freqüentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há também o suicídio de muitos adolescentes que se descobrem gays, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por pressentirem a rejeição hostil da própria família e da sociedade. Há pais que já disseram: ‘prefiro um filho morto que um filho gay’. Esta hostilidade gera inúmeras formas de discriminação, e, mesmo que não leve à morte, traz freqüentemente tristeza profunda ou depressão.

Tamanha repulsa tem raízes históricas. Por muitos séculos, as relações entre pessoas do mesmo sexo foram consideradas como o pecado de Sodoma, que resultou no castigo divino destruidor (Gên 19). Este pecado foi a tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. No Brasil do século 18, por exemplo, então colônia de Portugal, as leis eclesiásticas consideravam a sodomia ‘tão péssimo e horrendo crime’ que “provoca tanto a ira de Deus, que por ele vêm tempestades, terremotos, pestes e fomes, e se abrasaram e subverteram cinco cidades, duas delas somente por serem vizinhas de outras onde ele se cometia”. Era um pecado indigno de ser nomeado, por isso chamava-se ‘pecado nefando’, do qual não se pode falar, muito menos se cometer [VIDE, D. Sebastião Monteiro. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Brasília: Senado Federal, 2007, p. 331-332]. Tribunais eclesiásticos, como a inquisição, julgavam os acusados de sodomia e entregavam os culpados ao poder civil para serem punidos, até mesmo com a morte.

Esta aversão ao homoerotismo é mantida no Brasil independente. O seu primeiro Código Penal, de 1823, determinava que “toda pessoa, de qualquer qualidade que seja, que pecado de sodomia por qualquer maneira cometer, seja queimado, e feito por fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa de nosso Reino, posto que tenha descendentes; pelo mesmo caso seus filhos e netos ficarão inábeis e infames, assim como os daqueles que cometeram crime de Lesa Majestade (traição) [TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.164].

O advento do Iluminismo trouxe importantes mudanças. A razão autônoma, independente da Revelação e do ensinamento da Igreja, deve governar a sociedade e conduzir seus dirigentes. Para os iluministas a prática sexual, se exercida sem violência ou indecência pública, não devia absolutamente cair sob o domínio da lei. Por isso julgavam uma atrocidade punir a sodomia com a morte. O código napoleônico em 1810 retirou o delito de sodomia da legislação penal. Por sua influência, muitos países latinos fizeram o mesmo décadas depois, inclusive o Brasil.

A secularização impulsionada pelo Iluminismo vai modificar a própria compreensão do homoerotismo. Em 1869, o escritor austro-húngaro Karol Maria Benkert criou o termo ‘homossexualidade’, um neologismo greco-latino que formou um conceito de diversidade psicofísica para substituir a sodomia. Este termo teve ampla difusão, e o homoerotismo se deslocou do âmbito religioso e moral para o âmbito biológico. Não era mais uma abominação, mas se tornou uma doença. Houve uma patologização, que permaneceu por muitas décadas. Na primeira metade do século 20, foram feitas no Brasil internações de pessoas por homossexualidade. Alguns médicos chegaram até a sugerir o tratamento com choque elétrico.

A partir do anos 1970, houve uma crescente despatologização da homossexualidade. O movimento político-social da população LGBT [Sigla que significa: lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Também se usa o termo gay de modo genérico, para as diversas formas de homossexualidade] trouxe uma sensilibidade maior à sua realidade. A Associação Psiquiátrica Americana retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. Na década seguinte, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina retirou a homossexualidade da lista de desvios e transtornos sexuais. Em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia afirmou que a homossexualidade não é doença, nem distúrbio, nem perversão; e proibiu os psicólogos de colaborarem em serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Isto significa que, definitivamente, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda a vida. De maneira alguma se trata opção, mas de condição ou orientação.

A homossexualidade também se encontra entre os animais. Desde o início do século 20, ela é descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. O comportamento homoerótico foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo coelhos, cães, gatos, antílopes, carneiros e leões. A homossexualidade entre primatas não humanos já está amplamente documentada na literatura científica, incluindo macacos bonobos e chimpanzés, os parentes mais próximos do homem na cadeia evolutiva [VARELLA, Dráuzio. “Violência contra homossexuais”, 4 dez. 2010]. Não se pode de modo algum atribuir a sua causa ao pecado original.

Continua na próxima quinta-feira, 24/5/12

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O sândalo e o machado

Imagem daqui

Do Pastor Ricardo Gondim, via PavaBlog:

Doces lembranças me ligam à casa da vovó. Mergulho nos porões mais remotos da infância e lá, na pequena casa de vila, encontro meu natal colorido, minhas inquietações adolescentes, minhas viagens juvenis. Numa estreita moradia de Fortaleza, meia parede, experimentei o carinho de tios e tias. No bairro de nome doce, Gentilândia, acordei para a vida. Estranho, sempre chamei casa da vovó, nunca casa do vovô.

Amei minha avó materna. Ela me embalava na rede para dormir, contava histórias de fadas; por suas mãos, fui levado ao mundo corajoso dos cangaceiros. Vovó me encantou; conhecia os seres que povoam o mundo mágico do matuto cearense. Sem exagero: Vovó Maria Cristina Sales Gondim foi a mulher mais doce e, ao mesmo tempo, mais determinada e firme que já conheci.

Sua casa era pequena, mínima: sala de visita e jantar juntas; dois quartos para o lado esquerdo de quem entra; no fundo, cozinha e banheiro diminutos. Quando a ditadura militar prendeu papai, nos vimos obrigados a morar nesse aperto.

Só havia duas camas na casa – e somávamos 13 almas. Eu dormia de rede. Depois que todos se acomodavam, pendurava os punhos nos ganchos que atravessavam a sala, e procurava apagar.

Sempre que alguém se mexia, ouvia o ranger doloroso das outras redes. As caladas da madrugada me metiam medo. Aquele barulho, que mais parecia um choro, amedrontaria qualquer insônia. Repousávamos amontoados – as redes se entrelaçavam, umas por cima das outras. Com o tempo, aprendi a reconhecer o fôlego de todos. De portas fechadas, com uma janela apenas, a casa esquentava. Eu ressentia, naquele calor, o forje do amor. A sala era forno e nos fundiamos uns nos outros. Viramos uma grande família.

Depois de vários anos, visitei vovó. Ela já não morava na mesma vila. Idosa e cansada, vivia com uma tia. Vovó gostava de conversar comigo. Por vezes implorava por minha companhia. E eu, absurdamente idiotizado pelo idealismo religioso, esquecia; varava semanas sem aparecer.

Numa tarde, fui ver-lhe. Péssimo dia para visitar uma pessoa querida; eu estava com raiva. Fora traído por pessoas mesquinhas há pouco. Sem me dar conta, comecei a despejar um rancor bolorento na vovó.

Como eu estava amargo! Havia esquecido que ódio guardado apodrece, vira amargura. Falei para ela do quanto desejava uma vingança divina. Enquanto debulhava ira, me desfigurava. Rancor deforma. Eu esquecera de escalar um sentinela para os lábios; e vomitei toda a ira que trouxe comigo.

Sem me repreender, ela perguntou:

–Você se lembra do quadro que ficava pendurado no quarto lá de casa?
– Claro – respondi. Ele é uma das boas recordações daqueles dias.

Um quadro tridimensional bem pequeno ficava pendurado no primeiro cômodo da casa. Nele, havia a miniatura de uma tora de árvore. Um machado cravado, feria o caule. Por cima, a frase: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

Vovó não disse mais nada. Eu me calei. Dei-lhe um beijo na testa e parti. Nunca mais fui o mesmo.

Passados tantos anos, ganhei uma talha de madeira que virou sacramento de uma verdade, que espero reproduzir na vida dos meus netos. A talha se parece com o quadro, e tem a mesma inscrição: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem… Não retribuam a ninguém mal por mal”. – [Romanos 12.14 e 17]

Soli Deo Gloria

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O resgate dos direitos humanos

Escultura: Paige Bradley

"Engravidei duas vezes, e os dois bebês tinham o mesmo problema: anencefalia. Na primeira vez, era uma gravidez programada, desejada. Soube aos 3 meses de gestação que o bebê era anencéfalo. Foi muito triste. Optei pelo aborto legal, mas enfrentei muita burocracia. Se você não tem condições financeiras de contratar um advogado para acompanhar o processo, não consegue. (...), eu só tive a autorização judicial para interromper a gravidez com 7 meses e meio de gestação. (...) Fiz aborto numa época já de risco. (...) Só os pais sabem a dor que é viver este processo. Interromper a gravidez aos 3 meses poderia evitar tanto sofrimento." (Depoimento de Vanessa Oliveira no jornal O Estado de S. Paulo, em 11 de abril de 2012)

Se não houvesse obtido autorização judicial para interromper a gravidez, Vanessa Oliveira, em tese, estaria a responder criminalmente pela prática de aborto, sujeita a pena de detenção de 1 a 3 anos (artigo 124 do Código Penal). No Brasil, o aborto só não é punido se não houver outro meio de salvar a vida da gestante ou se a gravidez resultar de estupro. O aborto constitui um grave problema de saúde pública, sendo a 4ª causa de morte materna no Brasil. A ilegalidade do aborto leva à sua clandestinidade, que, por sua vez, leva à sua realização em condições inseguras, gerando um evitável e desnecessário desperdício de vidas de mulheres, sobretudo das mais vulneráveis.

Após 8 anos de polêmica, este foi o cerne do histórico julgamento do STF, ao autorizar a interrupção da gravidez em caso de anencefalia fetal, em 12 de abril último. A partir da decisão - que tem efeitos gerais, imediatos e vinculantes relativamente a todo Poder Judiciário e à administração pública -, a rede pública de saúde terá que assegurar à mulher que decidir pela interrupção o abortamento legal. Para a ciência, a anencefalia é uma anomalia fetal grave e incurável, incompatível com a vida, amparada por um diagnóstico 100% seguro.

Três são os principais impactos do mais importante julgamento do STF. O primeiro deles atém-se à afirmação dos direitos humanos das mulheres, ao assegurar-lhes a liberdade de prosseguir ou não na gravidez de fetos anencefálicos, à luz de suas convicções morais. Louva a autonomia das mulheres, sua dignidade e seu direito à saúde física e psíquica. Para o STF, obrigar a mulher a manter a gravidez em hipótese de patologia que torna absolutamente inviável a vida extrauterina significa submetê-la a um tratamento cruel, desumano e degradante, equiparável à tortura. Seria desproporcional proteger o feto que não sobreviverá em detrimento da saúde mental da mulher. Na luta pelos direitos das mulheres, a este caso emblemático se soma a relevante decisão do STF pela constitucionalidade da Lei Maria da Penha (em fevereiro de 2012).

O segundo impacto corresponde à observância da laicidade estatal. Defendeu o STF a separação entre os dogmas religiosos de domínio privado e a razão pública e secular, que há de guiar o Estado. Para o STF, a ordem jurídica em um Estado Democrático de Direito não pode se converter na voz exclusiva da moral de qualquer religião. A interpretação constitucional deve primar pelo respeito à principiologia e racionalidade constitucional, conferindo força normativa à Constituição. Uma vez mais, o STF se lançou como veículo da razão pública, reforçando o princípio da laicidade estatal já destacado nos casos concernentes ao uso de células-tronco embrionárias para fins de pesquisa científica (em maio de 2008) e à proteção constitucional às uniões homoafetivas (em maio de 2011).

Finalmente, o terceiro impacto relaciona-se à consolidação do STF como órgão guardião da Constituição, com a especial vocação de proteger direitos fundamentais. As Cortes Constitucionais têm assumido a especial missão de fomentar a cultura e a consciência de direitos e a supremacia constitucional, tendo seus julgados o impacto de transformar legislação e políticas públicas, contribuindo para o avanço na proteção de direitos. Como lembra o ministro Celso de Mello: "O Poder Judiciário constitui o instrumento concretizador das liberdades constitucionais e dos direitos fundamentais. (...) É dever dos órgãos do Poder Público - e notadamente dos juízes e dos Tribunais - respeitar e promover a efetivação dos direitos humanos."

A emblemática decisão do STF simboliza, assim, o triunfo dos direitos humanos, sob a perspectiva da saúde e da justiça social.

- Flavia Piovesan, procuradora do Estado de São Paulo
Publicado originalmente no site do jornal O Globo, 03/05/2012, e reproduzido via Conteúdo Livre

domingo, 13 de maio de 2012

Maria, mãe de Jesus

Imagem daqui

A primeira comunidade de Jerusalém era formada por judeus que aceitaram Jesus como Messias. Como bons judeus, eles cumpriam a Lei de Moisés, guardavam o sábado e participavam do Templo, mas também se reuniam no sábado à noite para a fração do Pão e cantar a Cristo como Senhor e Salvador. Isso trouxe perseguições dos mais fanáticos e, logo os de língua grega tiveram que fugir para outros lugares.

No início, os primeiros cristãos foram considerados uma seita do povo judeu, como eram também os fariseus e os saduceus. Quando a pequena comunidade de Jerusalém, Igreja mãe, se abre em Pentecostes aos pagãos, surge um novo estilo de viver a fé em Jesus.

O Evangelho de Mateus expressa a experiência cristã dos que eram de origem judaica: a fé se expressa na Torá, na caridade e no culto. Esta comunidade de Jerusalém manifesta uma cultura e costumes judaicos, com a supremacia do varão sobre a mulher. Com a revolta judaica (70 DC), muito judeus cristãos tiveram que sair de Jerusalém. É o caso da comunidade de Mateus, rejeitada pelos judeus ortodoxos e desprezada pelos pagãos.

Entendemos, agora, a presença calada e silenciosa de Maria em Mateus. Ela não pronuncia uma palavra, como é próprio das mulheres judias, mas está sempre próxima e ativa. Entendemos, também, porque é José quem recebe o anuncio do anjo, forma própria do Deus do AT oferecer uma missão a alguém.

Maria aparece em dois momentos no Evangelho de Mateus: nos relatos de infância e no ministério público de Jesus. Lembra quando a mãe de Jesus pergunta por ele, desejando lhe falar? Os que estão sentados, ouvindo o Senhor, são seus discípulos e Ele os assiná-la com a mão. Ser discípulo é cumprir a vontade do Pai. Mateus suprime a referência à pouca monta que Jesus recebe dos seus próprios parentes! Contuso, Maria está sempre unida ao seu Filho nos momentos fundamentais da sua vida e ministério.

(...) Maria, como a primeira discípula, está com seu filho desde a concepção até a Cruz.

Não há Jesus sem Maria nem Maria sem Jesus! (...)

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña, no blog Terra Boa

sexta-feira, 11 de maio de 2012

"Por uma nova linguagem: teológica e erótica"

Foto: Herb Ritts

Compartilhamos aqui, há alguns dias, um belo texto publicado por Isaac Palma em seu blog, Ide por toda a Web. Nele, Isaac conclamava os cristãos a uma "espiritualidade cheia de Tesão". Seu apelo era dirigido aos evangélicos, meio a que pertence, mas aplica-se perfeitamente aos católicos, por que não? :-) O autor conseguiu expressar em palavras simples e diretas um anseio ardente e sincero por encontrar a Deus no seu tempo, no seu mundo, no seu coração – não em algum lugar distante e imaterial que pouco tem a ver com a realidade dos homens e mulheres de hoje. E, no entanto, foi aqui que Ele nos mandou buscá-lo, não foi? No pobre, no faminto, no sedento, no ferido, no exilado que estão do nosso lado, aqui e agora – é aí que Ele está. E não só no pobre de dinheiro, no faminto de comida, no sedento de água, no exilado de sua pátria, mas no pobre de alma, no faminto e no sedento de Deus, no exilado do Amor. Concordamos com Isaac: para tocar esse próximo é preciso que falemos palavras de hoje.

Em vista disso, reproduzimos hoje a continuação daquele primeiro texto, escrito a partir do debate por ele suscitado. De novo, embora ele dirija suas observações e comentários à realidade das Igrejas Evangélicas, em muitos (ainda que não em todos) segmentos católicos, em meios tanto religiosos quanto leigos, não encontramos situação muito diferente com relação à sexualidade humana e à expressão e vivência do desejo. Está mais que na hora de redimir Eros, como vimos recentemente no apelo do Bispo G. Robinson



Segue o texto, com grifos nossos.

A moral evangélica é casta, e seu objetivo é manter o “cabaço” alheio. E isso não apenas sexualmente, mas o status evangélico nos deixa bem longe de sermos fecundos na prática do Reino de Deus. Meu último texto, Por uma espiritualidade cheia de Tesão, pipocou na internet não pela profundidade daquilo que falei, mas principalmente pelas palavras que usei, ao fazer um paralelo entre a sexualidade e a vida cristã. Utilizei uma linguagem “profana” que não é sacralizada e nem muito comum nos corredores das igrejas. O mais interessante é o espanto que isso causa, porque toca na ferida. A igreja é mal resolvida sexualmente, prova disso é o medo de falar sobre sexo; só se fala disso quando sob o controle dos lideres. Somos levados a acreditar em qualquer baboseira “espiritual” para justificar uma opressão com desculpa de (pseudo)Santidade. Negamos o sexo porque negamos o corpo, na dicotomia grega que não conseguimos largar, porque se o corpo é mau, os seus desejos são ruins; portanto, o sexo, expressão máxima do corpo, só pode ser ruim. Se falar de sexo fora desses moldes é ruim, imagine falar de Deus a partir dessa linguagem.

Deus está para além do que os nossos discursos possam captar ou expressar; tudo o que conseguimos é, a partir de nossas experiências, dar significado a elas e interpretá-las à luz daquilo que chamamos de Deus. As nossas linguagens partem, ou deveriam partir, da nossa experiência humana; soa no mínimo estranho expressarmos Deus a partir de uma linguagem que não seja nossa. E é isso que fazemos pegamos emprestado de outras culturas e tradições uma determinada linguagem de espiritualidade, de determinado período histórico, que fazia sentido para aquele povo específico, e tornamos universal e eterno algo que é local e passageiro.

O mais estranho é que santificamos aquela cultura e forma de falar de Deus, e impedimos as novas linguagens e novas formas de falar de Deus. Assim, negamos o corpo, o sexo e as novas linguagens. Alguns devem se perguntar : “Mas por que a linguagem erótica?” e eu devolvo a pergunta : “Mas por que não a linguagem erótica?”. Já que é uma linguagem legítima e humana, por que não usá-la?

É muito comum vermos nas igrejas referências à vida cristã a partir do imaginário da guerra; usamos palavras como ‘batalha, guerra, vitória, inimigo, General etc”, fazemos diversas referências na nossa linguagem à experiência da guerra. Dentro disso, duas coisas me chamam a atenção: primeiro, nós não vivemos a experiência da guerra, o imaginário construído em torno dessa linguagem não faz parte do nosso cotidiano, falamos dessa experiência mas a mesma está distante de nós, copiamos isso das páginas da Bíblia, que é um texto cultural e temporal. Segundo, a mensagem de Jesus é uma mensagem de paz, e não de guerra. Na verdade Cristo vai contra a violência e a guerra, basta ler o sermão da montanha pra perceber isso. A ética da não-violência, que depois foi propagada por homens como Gandhi, Martin Luther King e Tolstoi, é uma proposta que nasceu em Jesus. Tal ética é totalmente anti-guerra; como então é mais cristão usar a linguagem de guerra do que a erótica? Já que, além de não fazer parte do nosso cotidiano, remete a um imaginário contrario à mensagem do Mestre a quem dizemos seguir? Ou Cristo era contra o sexo? Ou o prazer é algo “mundano”?

É preciso repensar e recriar as maneiras de falar; por isso proponho novas linguagens, mas que sejam nossas, que falem dos nossos anseios, que sejam humanas e por isso divinas. É preciso ainda ir além e ler as entrelinhas. É preciso sentir na carne antes de sistematizar, e que nossa sistematizações sejam, assim como nós, frágeis e passageiras, só assim poderemos anunciar o que é Eterno.

Que nossa expectativa pelo inaudito, pelo inédito e por tudo aquilo que ainda não foi feito esteja sempre direcionada pelo Espirito de Deus, que é Aquele que faz o que quer e onde quer, em detrimento das nossas vãs expectativas religiosas; afinal, sopra como vento, e quem saberá de onde vem ou para onde vai? Que nossa linguagem denuncie e renuncie aos males da religião, nos excite, e nos encha de Tesão. Que nossa virgindade espiritual e existencial fique pra trás. Que possamos entrar de cabeça em tudo aquilo que acreditamos. Que tudo o que falarmos seja sentido na carne; esse é o apelo de Jesus - e que seja o nosso, constantemente.

- Isaac Palma, no Ide por toda a Web (via PavaBlog)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A crise do cristão

Foto: Iain Blake

... [P]ara que nos espiritualizemos, precisamos aprender a deixar para trás nossa própria identidade religiosa oficial, ou seja, deixar para trás o fariseu que se esconde em todos nós, porque, como Jesus nos disse, temos que deixar para trás toda a nossa identidade. Para que possamos nos tornar um com nós mesmos, com Deus, precisamos renunciar e transcender a todas as imagens de nós mesmos, todas elas originadas na mente febril do ego, para que nos tornemos verdadeiramente humanos, verdadeiramente reais, verdadeiramente humildes.

Nossas imagens de Deus, da mesma forma, deverão cair. Nós não podemos ser idólatras. Curiosamente, o que descobrimos é que elas caem, assim como caem as imagens de nossa identidade, o que sugere aquilo que nós já havíamos adivinhado, que nossas imagens de Deus são na verdade imagens de nós mesmos. Neste maravilhoso processo de entrada para toda a luz da Realidade, de afastamento da ilusão, um enorme silêncio emerge a partir do centro. Nos sentimos engolfados pelo eterno silêncio de Deus. Não estamos mais falando com Deus, ou pior, falando com nós mesmos. Nós estamos aprendendo a ser, a ser com Deus, a ser em Deus. [...]

Na jornada spiritual, aquietar-se consome mais energia do que correr... A maioria das pessoas gasta tantas das suas horas de vigília correndo de uma coisa para outra, que acaba por temer a quietude e o silêncio. Podemos ser acometidos por um certo pânico existencial, quando encaramos a quietude pela primeira vez, quando pela primeira vez entramos nesse estado de puro ser. Todavia, uma vez que possamos reunir a coragem para encarar este silêncio, adentramos a paz que está além de toda compreensão.

Sem dúvida, será mais fácil aprender isso em uma sociedade equilibrada e estável. Em um mundo turbulento e confuso, há muito mais vozes mais enganadoras, tantos apelos à nossa atenção. No entanto, a visão cristã é intransigente em sua sanidade, sua rejeição ao extremismo, no convite que faz a cada um de nós no sentido de termos a coragem para nos tornarmos nós mesmos, e não apenas reagirmos a alguma imagem de nós mesmos que nos seja imposta de fora. [...]

Em nossa experiência da meditação, o que cada um de nós deve aprender é que a energia para a peregrinação, de fato, está presente de modo inexaurível. Precisamos apenas de um passo de fé, para que possamos aprender isso a partir de nossa própria experiência. [E] aquilo que é importante lembrar, é que um passo real, ainda que vacilante, tem mais valor do que qualquer número de viagens vividas na imaginação.

- John Main, OSB
John Main OSB, THE PRESENT CHRIST (New York: Crossroad, 1991), pgs. 74-76.
Fonte: Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

terça-feira, 8 de maio de 2012

Perua ou o Esquadrão do siga as regras


Rebeca Duarte, no Minoria é a Mãe:

Um dos piores tipos de sexismo é aquele disfarçado. É o pior porque normalmente quem vê não percebe, acaba achando que aquilo ali é o correto, e que todas as pessoas devem agir assim. Recentemente um programa de TV tem atraído minha atenção de uma forma negativa. Não vou falar o nome dele para não dar mais audiência (haha), porém, percebo que ele não é o primeiro, e definitivamente não será o último, programa disposto a ajudar as pessoas a mudarem de vida. Essa mudança de vida é estética, é a mudança daquilo que os outros vêem e os incomodam naquela pessoa que está sob os cuidados dos profissionais da atração.

Vi um episódio em que uma garota teve que renovar o guarda-roupa porque ela usava roupas masculinas e prezava demais pelo conforto. A garota era hétero, tinha um noivo há anos, tinha amigos, PORÉM, alguns amigos achavam necessário que ela mudasse sua forma de vestir para uma mais feminina. Outro episódio era estrelado por uma garota que algumas pessoas chamam de pirigótica. A mudança dela era de estilo de vida. Ela tinha que ser menos exagerada para poder manter um namorado, pois seu estilo extravagante assustava os garotos.

Devo assumir que não consegui ver até o final nenhum desses programas, pois assim que anunciavam nas chamadas a mudança e elogiavam a menina por ter se submetido aos desejos dos amigos nascia uma revolta amarga em minha garganta. E quando apareciam os amigos dizendo "Agora sim!" dava vontade de dar uns tabefes pra ver se esse povo acorda pra vida.

Esse programa quer mudar a vida das pessoas (pois também tem garotos, apenas nunca vi) para que elas sejam aceitas pelos seus amigos, ou arrumem um namoro. A mensagem subliminar é: você não está certo desse jeito que você é, você deve se encaixar nesses padrões senão você não satisfará as pessoas - e você precisa satisfazer as pessoas. É mais uma mostra de quão rasa é nossa sociedade, que por um lado prega a igualdade das diferenças e pelo mesmo lado prega que você pode ser diferente, mas não muito. Só se pode ter algo para te fazer uma pessoa diferenciada, não fora dos padrões, pois estar fora dos padrões é caminho certo para a solidão. E ninguém quer estar só.

Tenho pena dessas meninas que submetem a esse tipo de programa, se sujeitam a mudar quem são para satisfazer outras pessoas. Nós sempre estamos mudando, evoluindo ou regredindo, mas em constante mudança, porém, qualquer mudança forçada por um fator exterior tende a ser desprezada assim que esse fator exterior não existe mais. Amigos podem deixar de ser amigos, namorados podem deixar de ser namorados, mas você não deveria deixar de ser você. Principalmente para satisfazer os outros.

O Renato Russo fez uns versos que gosto muito, são esses: "Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá". Ensinam que você deve mudar para ser aceito, quando deveriam era ensinar aos outros para te aceitarem do jeito que você é. E maquiam tudo de uma forma tão moderna que parece que eles estão te ensinando a ser descolado, a ser a última bolacha do pacote, quando estão te fazendo ser mais uma bolacha numa fábrica de biscoito.

Pena.

Discordar em nome da fé

Instalação: Lee Eunyeol

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante.

A opinião é do cientista político e leigo católico italiano Christian Albini, em nota publicada no blog Sperare per Tutti, 02-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Há espaço na Igreja Católica para a discordância, ou ela é uma realidade a ser condenada e rejeitada por ser incompatível com a autêntica fé?

Esse é um assunto que foi reproposto por Bento XVI na sua homilia da Missa Crismal da Quinta-Feira Santa, no rastro da qual muitos se puseram, incluindo Andrea Tornielli, em um artigo publicado no sítio Vatican Insider [disponível aqui em italiano].

O motivo dessa atenção à discordância católica é a duradoura ressonância, até mesmo internacional, que está tendo o Apelo à desobediência assinado por centenas de padres austríacos que pedem mudanças substanciais na pastoral da Igreja e pretendem implementá-los. Entre as suas reivindicações: a Eucaristia aos divorciados em segunda união, o direito de pregação dos leigos, a presença de moderadores nas paróquias sem clero...

A modalidade de manifestar opiniões e necessidades à hierarquia eclesial através de posicionamentos públicos não é nova. Há vários exemplos, muitos dos quais documentados pelo sítio Viandanti na seção Lettere alle chiese. Vale a pena conhecê-las para descobrir uma Igreja Católica muito mais plural.

Voltando agora ao artigo de Tornielli, o jornalista reconhece a existência de desconfortos profundos que não correspondem à imagem de uma Igreja sempre triunfante, que muitos querem propor a todo custo, beirando a formas de propaganda. É uma realidade que, em muitos ambientes católicos, não se quer admitir.

Encontro-me, no entanto, menos em sintonia quando o jornalista recorre a outras afirmações de Joseph Ratzinger, que remontam a quando ele ainda era arcebispo de Munique.

"O magistério eclesial protege a fé dos simples, daqueles que não escrevem livros, que não falam na televisão e não podem escrever editoriais nos jornais: essa é a sua tarefa democrática. Ele deve dar voz àqueles que não têm voz".

"Não são os doutos – dizia ele em uma homilia pronunciada em dezembro de 1979 – que determinam o que é verdade na fé batismal, mas sim a fé batismal que determina o que é válido nas interpretações doutas. Não são os intelectuais que medem os simples, mas sim os simples que medem os intelectuais. Não são as explicações intelectuais a medida da profissão de fé batismal, mas sim a profissão de fé batismal, na sua ingênua literalidade, que é a medida de toda a teologia. O batizado, aquele que está na fé do batismo, não precisa ser ensinado. Ele recebeu a verdade decisiva e a traz consigo com a própria fé...".

Tornielli retira daí, como conclusão, que o anúncio da Igreja Católica deve se concentrar no essencial da fé, ao qual foi dedicado justamente um ano pastoral, deixando que os leigos intervenham nas questões políticas e econômicas.

É uma posição que eu compartilho, mas, apresentada dessa forma, desvia a atenção daquilo que importa na questão da discordância. As palavras de Ratzinger põem uma dicotomia: de um lado, há os intelectuais, que se baseiam nos livros e nos seus raciocínios, e, de outro, há os simples, que contam apenas com a própria fé. O magistério garante estes últimos.

Trata-se de um raciocínio simples, mas também simplista, porque generaliza e estabelece a priori que toda discordância vem dos intelectuais e dos seus livros. Mas com base em que se diz isso? Por princípio? Seria preciso, ao contrário, entrar no mérito dos casos individuais e das questões individuais.

Concordo que há um risco de intelectualismo ao se lidar com problemas religiosos, mas isso não significa negar o exercício da razão crítica, que é um serviço à fé. Ele ajuda, por exemplo, a identificar superstições e preconceitos. Também estou convicto de que o novo pelo novo não é um valor, razão pela qual a posição mais correta não está necessariamente sempre do lado da mudança. Mas isso não significa enrijecer-se no imobilismo.

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante. Assim, discorda-se em nome da fé, e não contra a fé ou fora dela. É uma discordância que não tem nada a ver com ser intelectual. Não é uma discordância fácil, barata. Ela provém de um amadurecimento interior sofrido, mas sincero.

Tornam-se, então, indispensável a escuta e o diálogo como normalidade da vida eclesial. Quem são os simples? Aqueles que vivem o peso da condição do divórcio, por exemplo, não pertencem a essa categoria? Olhar para o essencial da fé não significa também ver as situações com um olhar de misericórdia, que é a primeira verdade, e discernir quando é o momento de não absolutizar práticas e situações que parecem consolidadas?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Eu vos declaro": famílias LGBT unidas por laços de amor


Caiu esta semana na rede o trailer do documentário "Eu Vos Declaro", de Alberto Pereira Jr., sobre quatro casais gays de São Paulo. Alberto está inscrevendo este filme de 40 minutos em festivais e negociando a exibição com alguns canais de TV; também deve acontecer em breve uma sessão numa sala de cinema. Dá para saber mais detalhes aqui, no blog "Eu Vos Declaro".

(Fonte: Tony Goes, em seu blog)

domingo, 6 de maio de 2012

“Santíssimo deus”

Foto via Blue Pueblo

...E não foi exatamente atendendo ao convite abaixo e na intenção expressa por seu autor que Cristo encarnou entre nós? :-)

Não posso generalizar, mas nos meus trinta e um anos de vida pus o pé em uma grande quantidade de templos. Lembro-me, inclusive, que quando tinha nove anos fui “um menino pregador” e isso me permitiu colocar o pé “nos altares” de uma grande quantidade de templos. Mas eu não posso generalizar: eu fui em alguns nos quais se permite pensar, onde a pessoa pode se expressar, nos quais a interação é real e não conveniente. No entanto, segue sendo maior a quantidade de templos nos quais a liberdade é só um conceito conveniente que escraviza.

Não só a liberdade é um conceito conveniente; em muitos lugares e pelos lábios de muitas pessoas, “deus” continua sendo uma ideia, um instrumento, um método e até uma credencial que dá crédito a seus portadores para validar as doutrinas mais retorcidas que fomentam desigualdades e conflitos sociais…

Se hoje eu tivesse que começar minha oração com uma frase como “santíssimo deus”, como condicionam em alguns templos, seria para dizer ao deus desses templos:

“Santíssimo deus, deixe as tuas vestes santas no teu céu e vem aqui. Venha disposto a se sujar enquanto jogamos futebol em alguma cancha abandonada com os adolescentes do meu bairro ou em algum terreno coberto de ervas. Venha jogar com eles que, desesperados e em silêncio, anelam por um futuro melhor…

Venha e experimente nossa versão do céu. Experimenta o que há de melhor e fique aqui conosco. Sai dos templos um pouquinho, veja-os de fora, contempla a majestade desses santuários e compara-os com as malocas improvisadas nesses lugares que, com desprezo, muitos dos que entram nos templos chamam de “invasões”. Se te enches de ira ao comparar o luxo desses templos e a pobre condição de muitos habitantes das invasões, prometo não julgar-te. Não poderia porque conheço a ira e também a impotência. Mas se desceres dos céus e saíres dos limites dos templos, passa aqui uns dias e passeia pelas ruas da América Latina. Assim poderás ver como o mundo está girando; talvez escutes os gritos dos que dizem estar ofendidos, mas não te confundas: ofende-os o fato de que já não poderão continuar abusando das terras que não são suas, da liberdade que não pode continuar sendo administrada…

Desça dos céus, e talvez consigamos seduzi-lo com o futuro que vemos. Venha e converte-te conosco em prisioneiro de esperanças…

Por um pouco veste-te de identidade latina e fica em nossas terras escutando a chuva debaixo dos telhados de zinco. Fica escutando nossos idosos falando “daqueles tempos”. Fica e observa como o mundo vai girando e nossas terras latinas vão libertando-se dos grilhões e rastros do colonialismo… A propósito, observa como vamos silenciando a voz daqueles que dizem falar em teu nome e que em teu nome estão saqueando os bairros, as famílias. Venha conosco silenciar a estes que estão roubando com palavras santas o sustento das famílias, o salário que com tanto trabalho alguns ganham…

Venha e vê quão absurdas se tornam essas escatologias que proferem em teu nome… Talvez termines brindando conosco enquanto rimos de quão cruéis foram aqueles que desenharam teu rosto… Conheço lugares onde se pode ficar tranquilo, onde não importa se és um deus ou um mortal. Não importa a tua cor de pele. Não são templos, mas podes sorrir e conversar até o amanhecer… Senta-te um pouco em uma das nossas praças e admira quão grandioso é o ser humano, embora muitos persistam em desconhecer tal grandeza.

Venha e denunciemos juntos. Acompanha-nos na sabotagem do jogo daqueles que deveriam fomentar o bem-estar comum e, em vez disso, se aproveitam de suas posições para explorar e colonizar…”

Essa seria a minha oração e definitivamente não a pronunciaria dentro de um templo, porque às vezes penso que neles deus está obrigado a ficar em silêncio ou a responder de forma conveniente.

- Gusmar Sosa, em La Vida no es Corta
Tradução de Gustavo K-fé Frederico para o PavaBlog

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Por uma espiritualidade cheia de Tesão

Foto daqui

Contra o que se sente
toda a filosofia é mesmo vã
O Livro é sagrado
quando o que apregoa
é revelado na Carne.

– Adélia Prado

Isaac Palma, no Ide por toda Web (reproduzido aqui via PavaBlog):

A espiritualidade que se prega na maioria das igrejas é brochante. É morta, apática, sem vida. Os discursos teológicos são extremamente racionais, nós conseguimos o impensável, racionalizamos Deus e colocamos ele em uma caixinha minúscula chamada cristianismo. Algo tem me incomodado, em conversas com amigos e diante de tudo o que tenho visto, no cristianismo evangélico brasileiro [Parece-nos que também no católico, ao menos em certos setores, por que não?], falta “sangue no zoio”, falta Tesão.

Onde está o brilho nos olhos? Onde está aquele sentimento que nos invade de tal forma que parece nos possuir?

Chega da espiritualidade da letra, que nos paralisa em certezas, eu quero uma que sinta dor, que sangre a dor do mundo. Precisamos de uma espiritualidade que nos arrebate os sentidos. Falta tesão e sobra razão. Bem mais do que a mente pode conceber precisamos de algo que ressuscite nossos corpos, nossos sentidos. Temos que sensualizar nossa espiritualidade. Na nossa fala tem que transparecer a volúpia, o desejo. É preciso encarnar mais do que proclamar.

Que possamos dar espaço para o Espírito Santo nos encher de indignação, dessa inspiração, que no Espírito Santo possamos constantemente sermos incompletos, porque é só na incompletude que podemos avançar. Ai daqueles que graças às suas certezas paralisam o seu caminhar.

Que o Espírito Santo nos encha do Tesão de Deus. Precisamos de uma espiritualidade que penetre nas injustiças desse mundo, goze esperança e fecunde vida.

A mensagem de Deus deve ser escrita com Sangue.

Muito além da nossa apatia, é preciso gritar por justiça. Que as noites de sono perdidas sejam pra lembrar dos que não tem onde dormir, que as vezes que perdemos a fome seja para lembrar dos que não tem o que comer.

Que não fiquemos na caridade, mas que possamos gritar: JUSTIÇA.

Que busquemos bem mais do que apaziguar nossas consciências, que possamos de fato dar a luz a um mundo novo.

Estamos grávidos de uma nova humanidade. Deus ressuscite nossos corpos para sentirmos as dores de parto!

Não me conforte Deus, eu não preciso de segurança. Preciso dessa inquietude do seu Espirito, que me impele a agir com Amor, a abraçar aqueles que ninguém quer abraçar.

Deus me dê esse Tesão, não deixe formular teorias filosóficas que não me levarão a lugar algum, que eu possa agonizar as dores do mundo e delas ver nascer o novo.

Que assim sejamos, que não nos confortemos nem nos conformemos nesse mundo. Que possamos parir esse novo mundo por ai. Cheios desse tesão que possamos fazer nascer em todos o Reino de Deus.
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