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domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Se queres, tu tens o poder de me purificar”


"O leproso, como o doente de AIDS dos nossos dias, é um ser rejeitado pela sociedade. Jesus o reintegra... Fica evidente que a misericórdia de Jesus não é uma cura, mas um nascimento”.

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 6º Domingo do Tempo Comum (12 de fevereiro de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências Bíblicas:
1ª leitura: Lv 13, 1-2. 45-46
2ª leitura: 1 Co 10, 31-11, 1
Evangelho: Mc 1, 40-45

É triste contatar que todas as sociedades humanas tiveram e têm ainda seus excluídos, seus párias, seus intocáveis. Será que nós não temos os nossos também hoje? No antigo Israel, como em outras épocas e embaixo de outros céus, eram simplesmente os leprosos os que representavam essa categoria de malditos. É evidente que eles confundiam todas as doenças da pele com a lepra, o que a medicina atual saberia bem diferenciar... Além do mais, como a doença era considerada um castigo divino e a lepra representava um aspecto repugnante, existia uma punição dupla para os leprosos: eles sofriam de uma impureza moral e religiosa, mas também social. Porém, atualmente, não é porque a lepra seja mais estudada e melhor cuidada, que não temos os nossos pesteados, nossos marginais e excluídos, na nossa sociedade e na nossa Igreja. O teólogo francês, Jean Perron escreve: “Os hipócritas, os hipócritas que somos nós mesmos, sempre tiveram necessidade de poder catalogar alguém de impuro, para convencer-se que eles mesmos não o são”. Ainda hoje, nós temos nossos leprosos, e isso reconforta sempre os hipócritas da religião e da política. A partir dos textos da Palavra de hoje, que ensinamentos podemos tirar?

1. Transgredir a Lei: No livro do Levítico, que temos hoje na primeira leitura, apresenta-se o homem atingido pela lepra como um intocável, um morto-vivo. Esse homem perdia toda a sua dignidade humana. Chamavam-no pelo nome da sua doença: o leproso. No evangelho de hoje, São Marcos começa dizendo: “Um leproso chegou perto de Jesus“ (Mc 1, 40). O enfermo de lepra perdia todos os seus bens, sua casa, as suas pertenças... Devia morar fora da cidade ou do povoado: “Viverá separado e morará fora do acampamento” (Lv 13, 46). Além do mais, ele não podia mais entrar em contato com os outros: a sua esposa, seus filhos, seus pais, seus amigos... Quando uma pessoa não tem mais contato com ninguém, é um morto-vivo. E, para ter certeza de que ninguém se aproximaria de um leproso, ele devia andar “com as roupas rasgadas e despenteado, com a barba coberta e gritando: «Impuro! Impuro!” (Lv 13, 35). E, para evitar todo contato com um leproso, ele devia levar uma campainha no pescoço para advertir que ele estava no entorno. A lei proibia severamente o leproso de abordar alguém e, se ele se aproximava de alguma pessoa deixava-a impura.

Então, vejam que no evangelho, há uma infração: um leproso enfrenta a lei aproximando-se de Jesus: “pediu de joelhos: ‘Se queres, tu tens o poder de me purificar’” (Mc 1, 40). É todo um ato de fé; ele se confiou à vontade de Jesus: “Se queres”. Além do mais, ele não pede a cura, mas somente a purificação, isto é, a reinserção, a inclusão na comunidade. O leproso quer recobrar a sua dignidade humana. Mas, há outra coisa: o evangelho de Marcos nos diz que Jesus também transgride a lei: “tocou nele e disse: ‘Eu quero, fique purificado’” (Mc 1, 41). É a purificação instantânea, e assim, a inclusão na comunidade. “No mesmo instante a lepra desapareceu e o homem ficou purificado” (Mc 1, 42). Transgredindo a lei da exclusão social e religiosa, aquele que era identificado pelo seu mal: o leproso, se tornou alguém: o homem. Isso significa que a exclusão desumaniza. O excluído se torna objeto a jogar ou a evitar. O contato com outro ser humano lhe fez reencontrar a sua dignidade; se tornou um homem.

Segundo a regra da época, Jesus envia-o para lhe mostrar ao sacerdote, pois são os sacerdotes os que podem reintegrar às pessoas excluídas da comunidade (Mc 1, 44). E mesmo se Jesus lhe adverte severamente (Mc 1, 43), o homem não se preocupa da recomendação e se torna missionário do evangelho, da Boa Notícia da Salvação trazida pelo Cristo ressuscitado (Mc 1, 45)... De maneira que, agora, é Jesus que se torna leproso, isto é, impuro, rejeitado e excluído. São Marcos escreve: “Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ele ficava fora, em lugares desertos” (Mc 1, 45). Por outro lado, o evangelista acrescenta: “E de toda parte as pessoas iam procurá-lo” (Mc 1, 45).

2. Entrar no coração de Deus: O episódio do evangelho de hoje nos diz algo do coração de Deus. Jesus se moveu pela compaixão, isto é, ele ficou emocionado até as entranhas. Ele quer purificar o leproso. Ele estende a mão e o toca. O amor vira as leis. Jesus recria a relação que a Lei tinha rompido. Ele demonstra a sua misericórdia. Toma sobre si o sofrimento do outro. É a única maneira de curar. E para demonstrar que há, de fato, inclusão e reinserção na comunidade, Jesus pede para o leproso cumprir as prescrições de lei: “Não conte nada para ninguém! Vá pedir ao sacerdote para examinar você, e depois ofereça pela sua purificação o sacrifício que Moisés ordenou” (Mc 1, 44). E o evangelista acrescenta: “para que seja um testemunho para eles” (Mc 1, 44).

Em poucas palavras, o evangelista Marcos demonstra o que pode fazer o amor em toda a sua gratuidade. Quando se exprime como compaixão e misericórdia, a cura é, não somente possível, mas automática, e ele se torna testemunho para os outros; de maneira que o homem curado se torna discípulo, missionário: “Mas o homem foi embora e começou a pregar muito e a espalhar a notícia” (Mc 1, 45). Será que não é o São Paulo que nos pede para fazer como ele na segunda leitura, hoje, quando ele nos diz: “Façam como eu, que me esforço para agradar a todos em todas as coisas, não procurando os meus interesses pessoais, mas o interesse do maior número de pessoas, a fim de que sejam salvas” (1 Co 10, 33). E por que tomar Paulo como modelo? Simplesmente porque seu modelo próprio é Cristo, e o Cristo que nos salvou e nos curou de todas as nossas feridas e as nossas exclusões.

Cristo acolheu todas as enfermidades e todos os excluídos sem exceção. Ele nos convida a fazer a mesma coisa. Para chegar a isso, precisa simplesmente de Amor. O exegeta francês Jean Debruynne escreve:“Para Jesus, o Amor que ama é sempre capaz de transgredir todas as proibições. O Amor será sempre mais forte que a regra, Sempre mais urgente que a regra. Quando ele encontra esse leproso em São Marcos, é um excluído que Jesus encontra. Mais do que uma doença médica, a lepra era vivenciada na época como uma enfermidade social. O leproso, como o doente de AIDS dos nossos dias, é um ser rejeitado pela sociedade. Jesus o reintegra e lhe recomenda claramente de não esquecer os passos a fazer para que seja reintegrado com a assinatura dos sacerdotes. Fica evidente que a misericórdia de Jesus não é uma cura, mas um nascimento”. No fundo, incluir, reintegrar, liberar, despertar a esperança de alguém por Amor, é dar-lhe de novo a vida, é fazê-lo renascer.

3. Aceitar pagar o preço do Amor: O preço do Amor é, infelizmente com bastante freqüência, a cruz, e ela se manifesta necessariamente. No evangelho, pelo fato de que Jesus deixa o leproso se aproximar dele, e mais ainda, que o toque e o purifique, Jesus se torna leproso por sua vez, isto é, rejeitado pelos outros. O que significa que Cristo, nos curando, carrega sobre si as nossas doenças, as nossas enfermidades, as nossas feridas, os nossos pecados. Como cristãos, discípulos de Cristo, nós somos convidados a fazer como ele, a liberar as pessoas feridas e a lhes devolver a dignidade, sob o risco de perder a nossa. Mas o Amor deve ir até lá. Por outro lado, não há que ter medo, pois o evangelista conclui dizendo: “E de toda parte as pessoas iam procurá-lo” (Mc 1, 45).

Para concluir, eu gostaria simplesmente de citar um comentário do francês Michel Viot, sobre este tempo litúrgico que chamamos comum, mas que não tem nada de comum: “A força de deixar de lado os leprosos de todos os gêneros, fizemos deles pessoas marginais... Os leprosos são proibidos de serem acolhidos assim como de serem saudados. Mas o próprio Jesus tem a audácia hoje de tocar o intocável. Isso acontece no sexto domingo que chamamos comum. Comum, vocês falam? Será que é comum tocar os reclusos? É comum tornar novo esse homem em sursis? Vamos lá, então! Todo é extraordinário neste domingo. Nada é como sempre. Nada é feito segundo as regras. Jesus o toca e está proibido. Jesus o envia para voltar à comunidade dos vivos e está proibido. É o sinal evidente de um mundo novo que nasce. É dar novamente um rosto humano a todas as proibições do coração, aos recalcados de toda parte, aos desocupados, aos aidéticos, às pessoas com necessidades especiais, aos divorciados, aos homossexuais, aos imigrantes... O Amor faz essas coisas!”.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Amigo dos excluídos


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 1, 40-45, que corresponde ao 6º Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos do autor.


Jesus era muito sensível ao sofrimento de quem encontrava no Seu caminho, marginalizados pela sociedade, desprezados pela religião ou rejeitados pelos setores que se consideravam superiores moral ou religiosamente.

É algo que Lhe sai de dentro. Sabe que Deus não discrimina ninguém. Não rejeita nem excomunga. Não é só dos bons. A todos acolhe e bendiz. Jesus tinha o hábito de levantar-se de madrugada para orar. Em certa ocasião revela como contempla o amanhecer: "Deus faz sair o Seu sol sobre bons e maus". Assim é Ele.

Por isso, por vezes, reclama com força que cessem todas as condenações: "Não julgueis e não sereis julgados". Outras, narra pequenas parábolas para pedir que ninguém se dedique a "separar o trigo e o joio" como se fosse o juiz supremo de todos.

Mas o mais admirável é a Sua atuação. O rasgo mais original e provocativo de Jesus foi o Seu hábito de comer com pecadores, prostitutas e gente indesejável. O fato é insólito. Nunca se tinha visto, em Israel, alguém com fama de "homem de Deus" comendo e bebendo animadamente com pecadores.

Os dirigentes religiosos mais respeitáveis não o puderam suportar. A sua reação foi agressiva: "Aí tendes a um comilão e bêbado, amigo de pecadores". Jesus não se defendeu. Era certo. No mais íntimo do Seu ser sentia um respeito grande e uma amizade comovedora para com os rejeitados da sociedade ou da religião.

Marcos recolhe no seu relato a cura de um leproso para destacar essa predileção de Jesus pelos excluídos. Jesus atravessa uma região solitária. De repente aproxima-se um leproso. Não vem acompanhado por ninguém. Vive na solidão. Leva na sua pele a marca da sua exclusão. As leis condenam-no a viver afastado de todos. É um ser impuro.

De joelhos, o leproso faz a Jesus uma súplica humilde. Sente-se sujo. Não lhe fala de doenças. Só quer ver-se limpo de todo estigma: «Se queres, podes limpar-me». Jesus comove-se ao ver a Seus pés aquele ser humano desfigurado pela doença e o abandono de todos. Aquele homem representa a solidão e o desespero de tantos estigmatizados. Jesus «estende a Sua mão» procurando o contato com a sua pele, «toca-lhe» e diz-lhe: «Quero. Ficar limpo».

Sempre que discriminamos a partir da nossa suposta superioridade moral a diferentes grupos humanos (vagabundos, prostitutas, toxicómanos, HIV positivos, imigrantes, homossexuais...), ou os excluímos da convivência negando-lhes o nosso acolhimento, estamos a afastar-nos gravemente de Jesus.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Por que devemos voltar para Jesus

Ilustração: Vinicius Kram (daqui), 
concurso #jesussorriamais

"Só seguindo o Messias, pode-se agir, sofrer e morrer de modo humano".

A opinião é do teólogo suíço-alemão Hans Küng, em artigo para o jornal "Corriere della Sera", 20-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Mediante o livro "Ser cristão" (Ed. Imago, 1976), inúmeras pessoas encontraram a coragem para serem cristãs. O autor sabe isso por causa das inúmeras resenhas, cartas e colóquios. Muitas pessoas, de fato, afastadas da prática e da pregação de alguma grande Igreja cristã, buscam caminhos para continuarem sendo cristãos confiáveis, buscam uma teologia que não seja abstrata para eles e alheia ao mundo, mas explique de modo concreto e próximo da vida em que consiste ser cristão.

"Ser cristão" não pretendia "seduzir" as pessoas com a retórica ou agredi-las com um tom de pregação. Nem queria simplesmente fazer proclamações, declamações ou declarações em sentido teológico. Pretendia motivar, explicando que, por que e como uma pessoa crítica também pode ser responsavelmente cristã perante a sua razão e o seu ambiente social.

Não se tratava de uma simples adaptação ao espírito do tempo. Certamente, sobre questão discutíveis como os milagres, o nascimento virginal e o túmulo vazio, a ascensão ao céu e a descida aos infernos, sobre a práxis eclesial e o papado também era preciso assumir posições críticas. Isso, porém, não para seguir uma fácil tendência inclinada à hostilidade contra a Igreja ou ao pancriticismo, mas sim para purificar, a partir do próprio Novo Testamento como critério, a causa do ser cristão de todas as ideologias religiosas e para apresentá-la de maneira credível.

A originalidade do livro não está, portanto, nas passagens críticas; está em outro lugar, no fato de ter fixado critérios que, para muitos, representam desafios em teologia. Em "Ser cristão", de fato, eu tentei: apresentar toda a mensagem cristã no horizonte das ideologias e religiões contemporâneas; dizer a verdade sem resguardos de natureza político-eclesiástica e sem me preocupar com inclinações teológicas e tendências da moda; não partir, por isso, de problemáticas teológicas do passado, mas sim das questões do ser humano de hoje e, a partir daí, apontar para o centro da fé cristã; falar na língua do ser humano de hoje, sem arcaísmos bíblicos, mas também sem recorrer ao jargão teológico da moda; destacar o que é comum às confissões cristãs, como o renovado apelo ao entendimento no plano prático-organizativo; dar expressão à unidade da teologia de modo que não possa mais ser negligenciado o nexo inabalável entre teoria confiável e práxis vivível, entre religiosidade pessoal e reforma das instituições.

A esse livro não faltaram reconhecimentos públicos. Além disso, também foi uma oportunidade para as Igrejas e, nesse nível, ele encontrou um amplo consenso igualmente. No entanto, não pode ser silenciado o fato de que os membros da hierarquia alemã e romana fizeram de tudo para esvaziar essa oportunidade. Não se envergonharam – diante do sucesso do livro até mesmo entre o clero – de pôr publicamente em dúvida ou, melhor, de difamar a ortodoxia do autor. De nada serviu ao autor o fato de ter declarado amplamente, mais uma vez, a sua fé em Cristo no livro "Deus existe?" (1978), que apareceu quatro anos depois de "Ser cristão". A hierarquia romana e alemã tomaram a cristologia aqui exposta como pretexto para retirar do autor a “missio canonica” para o ensino da teologia, pouco antes do Natal de 1979, embora jamais tenha sido realizado um processo magisterial contra "Ser cristão" e "Deus existe?". Dessa forma, buscou-se desviar a discussão da embaraçosa questão da infalibilidade à questão cristológica, não por último para envolver os cristãos evangélicos. Além disso, para os expoentes da hierarquia contrários às reformas eram indigestas as exigências de reforma na Igreja que eram propostas nesse livro.

Assim, a hierarquia alemã apoiou o percurso de restauração do papa polonês que estava então se impondo e teve que pagar um alto preço por isso: a perda de credibilidade e uma difundida hostilidade contra a Igreja na opinião pública.

Com toda a modéstia: algumas coisas na pregação e na pastoral cristã seguramente teriam sido diferentes e não tivesse sido recusada a oferta de "Ser cristão". Mas, como sempre acontece: para mim, "Ser cristão" tornou-se ponto de partida para um novo desenvolvimento teológico e para uma espiritualidade à qual, apesar de todas as dificuldades do presente, o futuro devia pertencer.

Como inúmeros outros católicos antes do Concílio Vaticano II, eu também cresci com a imagem tradicional de Cristo da profissão da fé, dos concílios helênicos e dos mosaicos bizantinos: Jesus Cristo, "Filho de Deus", sentado em um trono, um "Salvador" amigo dos seres humanos e, ainda antes, para a juventude, o "Cristo Rei". Sobre isso, eu depois acompanhei, em Roma, um curso de um semestre inteiro sobre "cristologia". Certamente, eu passei sem problemas por todos os exames em latim, não exatamente simples – mas a minha espiritualidade? Isso era outra coisa totalmente diferente, permanecia insatisfeita. A figura de Cristo só se tornou decisivamente interessante para mim quando eu pude conhecê-la, com base na moderna ciência bíblica, como real figura da história.

A essência do cristianismo, de fato, não é nada de abstratamente dogmático, não é uma doutrina geral, mas sim, desde sempre, é uma figura histórica viva: Jesus de Nazaré. Ao longo dos anos, elaborei o perfil singular do Nazareno com base na riquíssima pesquisa bíblica dos últimos dois séculos, refleti sobre tudo com apaixonada participação.

De "Ser cristão" em diante, sei do que estou falando quando, de modo totalmente elementar, eu digo: o “modelo de vida cristã” é simplesmente esse Jesus de Nazaré enquanto messias, christós, ungido e enviado. Jesus Cristo é o fundamento da autêntica espiritualidade cristã. Um exigente modelo de vida para a nossa relação com o próximo, assim como com o próprio Deus, que, para milhões de seres humanos em todo o mundo, tornou-se critério de orientação e de vida.

Quem é, portanto, um cristão? Não é aquele que diz apenas "Senhor, Senhor" e apoia um "fundamentalismo" – seja ele de tipo bíblico-protestante, ou autoritário-romano-católico ou tradicionalista oriental-ortodoxo. Ao contrário, cristão é aquele que, em todo o caminho pessoal de vida, se esforça para se orientar praticamente para esse Cristo Jesus. Não se exige nada mais.

A minha vida pessoal e, assim, qualquer outra vida, com seus altos e baixos, e também a minha lealdade à Igreja e a minha crítica à Igreja só podem ser compreendidas a partir dessa referência. A minha crítica à Igreja, assim como a de muitos cristãos, brota justamente do sofrimento pela discrepância entre o que esse Jesus histórico foi, pregou, viveu, lutou, sofreu, e o que hoje a Igreja institucional, com a sua hierarquia, representa. Essa discrepância tornou-se muitas vezes insuportavelmente grande. Jesus, nas cerimônias pontifícias da basílica papal de São Pedro? Ou na oração com o presidente George W. Bush e o papa na Casa Branca? Inconcebível!

O mais urgente e mais libertador para a nossa espiritualidade cristã, consequentemente, é nos orientar pelo nosso ser cristão, tanto em nível teológico quanto prático, não tanto segundo as formulações dogmáticas tradicionais e os regulamentos eclesiásticos, mas sim de novo e cada vez mais segundo a singular figura que deu nome ao cristianismo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

''Nos Evangelhos, não se aprende doutrina, mas sim uma forma de estar no mundo''

Foto: Laina Briedi

"É preciso descobrir o caminho aberto por Jesus e ser seus seguidores". A afirmação é de José Antonio Pagola, teólogo e ex-vigário geral da diocese de San Sebastián, na Espanha, que apresentou nesta quarta-feira, 25 de janeiro, em Donostia, seu livro "El camino abierto por Jesús: Marcos" (Ed. Desclée de Brouwer). Ele nota isso em sua própria carne e na forma de polêmica. Apesar dos inúmeros obstáculos por parte da hierarquia eclesiástica, sua obra "Jesus. Aproximação histórica" (Ed. Vozes) tornou-se um best-seller que está sendo publicado nestes dias em croata, francês e russo. "Os números de vendas não me interessam", diz.

A reportagem é de Cristina Turrau, publicada no sítio Diario Vasco, 26-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


A relação do senhor com as livrarias e com os leitores está se tornando uma relação de amor.
Este livro que se apresenta hoje é a segunda parte de um projeto editorial que tem por título geral "O caminho aberto por Jesus" e será composto por quatro pequenos volumes. Cada um deles é dedicada a um dos evangelistas. Há um ano, foi publicado o livro de Mateus. Antes do Natal, apareceu o de Marcos. Para a Semana Santa, será publicado o de Lucas. E no outono [europeu] sairá o de João, além de um box com os quatro livros.

Seu projeto é ambicioso...
Estes livros nascem por causa do meu desejo de aproximar os homens e as mulheres de hoje ao caminho aberto por Jesus. E essa ideia do caminho tem muito importância.

A saber...
Os primeiros seguidores de Jesus não se sentiam membros de uma nova religião. Eles não se sentiam membros de uma instituição, mas sim homens e mulheres que descobriram um novo caminho para viver. Na Carta aos Hebreus, um escrito que circula em torno do ano 60 e que foi recolhido no Novo Testamento, fala-se de um caminho novo e vivo, inaugurado por Jesus, que é preciso percorrer com os olhos fixos nele.

É o que o senhor vem propondo.
Eu vejo a necessidade de que, na Igreja, se dê uma transformação para os homens e as mulheres de hoje. Não basta se sentir adepto de uma religião chamada de cristã, mas é preciso descobrir o caminho aberto por Jesus e ser seus seguidores. Hoje, muitos de nós vivem dentro da Igreja e se sentem cristãos sem ter tomado a decisão de ser discípulos. Fazemos o percurso sem sermos guiados pelas suas atitudes fundamentais e pelo estilo de vida. Jesus pode ser hoje uma figura humanizadora, que ensina a viver tanto as pessoas que se sentem cristãs como aquelas que não se sentem assim. E isso ocorre em um momento de crise, não só religiosa. Vivemos uma "omnicrise", e parece que não estamos acertando em alguma coisa.

Embora tenha havido problemas, não faltarão editores para os seus livros...
Este segundo livro foi publicado pela Desclée de Brower devido a alguns problemas, mas a coleção sairá pela PPC. Desde que deixei a responsabilidade como vigário geral da diocese, fiz todo um projeto.

Sim?
A primeira coisa que fiz foi dedicar oito ou nove anos para pesquisar melhor a figura de Jesus. Na realidade, esse foi o tema de toda a minha vida. Em "Jesus. Aproximação histórica", comuniquei e ofereci o que hoje pode se dizer de maneira razoável e confiável sobre a trajetória humana e histórica de Jesus.

Chegaram mais livros.
Com o meu segundo projeto, tento apresentar de maneira simples e com uma linguagem acessível e próxima, mas que "toque" as pessoas, o estilo de vida de Jesus. Quando nos aproximamos dos Evangelhos, não aprendemos doutrina; descobrimos uma maneira de habitar o mundo e de interpretar a vida e a história de grande força humanizadora.

A mensagem de Jesus é de plena atualidade, o senhor defende.
Eu me dou conta de que as pessoas, nesta sociedade que parece superficial, sentem a necessidade de viver de uma maneira diferente, sem saber exatamente como. Buscamos uma vida mais digna, saudável e feliz, algo que não é fácil. E o que eu tento demonstrar é que Jesus oferece um horizonte mais humano e uma esperança. Assim perceberam os primeiros cristãos.

Com seus livros, o senhor busca ser um mediador?
Trabalho com grupos distintos, falo com as pessoas e observo que não se busca mais técnica, nem mais ciência, nem mais doutrina religiosa. Buscamos algo, mas não sabemos como formular essas questões que levamos dentro.

Quais são as diferenças entre os quatro Evangelhos?
Os Evangelhos são quatro pequenos escritos. O primeiro é o de Marcos, que aparece em torno do ano 70, provavelmente depois da destruição de Jerusalém. Depois vêm os de Mateus e de Lucas, entre os anos 70 a 90. E, por último, já passado o ano 100, aparece o de João. Mas podemos dizer que os autores não são apóstolos. A elaboração dos textos é muito complexa. Eu analiso a vida de Jesus a partir de quatro relatos que nasceram da sua recordação. E cada um deles tem sua própria maneira de ressaltar, sublinhar e ordenar essas recordações.

Dê-nos uma pincelada de especialista: Marcos.
É o Evangelho mais breve. Pode ser lido em uma hora. Ocupou um lugar muito discreto ao longo da história. E, no entanto, há um interesse crescente nele, porque nos oferece a figura de Jesus com mais frescor. Ele remonta a tradições antigas, e Mateus e Lucas o utilizaram para os seus evangelhos.

Mateus.
É o evangelho mais longo e, em boa parte, segue Marcos, mas acima de tudo se caracteriza por seus grandes discursos. É o do Sermão da Montanha, das Bem-aventuranças ou das parábolas de Jesus, inesquecíveis. É o mais rabínico, provavelmente obra de um judeu que se tornou cristão.

Lucas.
Eu o recomendo para quem queira ler um evangelho inteiro e de uma vez só para ter uma ideia de como Jesus foi lembrado. Tem o evangelho da infância, muito poético. E é onde se destaca a bondade de Deus, sua compaixão e misericórdia, por exemplo, na parábola do filho pródigo.

João.
É um evangelho mais complexo, com uma cristologia muito elaborada. É mais teológico do que os demais.

Por que o lado humano de Jesus assusta?
Jesus atrai, mas é perigoso, porque é muito radical. Se você se aprofundar na ideia de que os últimos serão os primeiros, ou que você não pode servir a Deus e ao dinheiro, a vida muda. Jesus é muito sedutor, mas arriscado. Como disse algum agnóstico, é difícil dizer que ele não tem razão.

Como o senhor analisa os vetos à sua obra por parte da hierarquia?
Vão unidos à mensagem. Isso aconteceu com ele e acontece com os seus seguidores. Não é possível falar de Jesus com certa força e frescor e ficar impune.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Metáforas desconcertantes do divino


Nietzsche disse que só acreditaria no Deus que soubesse dançar. As implicações filosóficas e existenciais dessa afirmação são enormes. Entre algumas: contingência, liberdade humana, o uso da sabedoria no improviso, desmonte da existência engrenada. Dizer que Deus dança significa que a vida pulsa com liberdade. Começo, meio e fim não jazem nos grilhões da necessidade.

Em desagravo à espiritualidade nietzscheniana, atrevo-me dizer que o Deus que dança não é estranho ao relato bíblico.

Sofonias (3.17) descreve Deus se regozijando com júbilo, cheio de brados de alegria. Deus se deleita tal qual o pai que se surpreende com a pergunta criativa do seu guri, igual ao professor que aceita ser ultrapassado pelo aluno, parecido com a mãe que se encanta com a bailarina que nasceu de suas entranhas. A alegria divina ou humana vem da percepção gostosa de um momento que, mesmo esperado, podia nunca acontecer. Isso desengrena o futuro e cria o insólito. Só o imprevisto tem força de gerar alegria ou decepção.

Os profetas não economizavam predicados portentosos para o Divino: Senhor dos Exércitos, Todo Poderoso, Rei, Santo Juiz. Mas, diferentemente das divindades gregas que, posteriormente, seriam descritas a partir dos absolutos da metafísica, os judeus se valeram de histórias, contos e parábolas para descrever Elohim Javé. Sem a aura de sacralidade das antigas divindades, eles não tiveram medo de dizer que Deus assobia – Isaías 5.26, 7.18. “Assobiarei para eles e os ajuntarei, pois eu já os resgatei…” (Zacarias 10.8). Nietzsche, estou certo, não teria muito problema em crer num Deus que assobia.

Um dos mais celebrados atributos dos deuses foi a constância. Contudo, Javé não se sente constrangido a comportamentos padrões. Os escritores o descrevem como um Criador arrependido, depois que constata o aumento da perversidade entre os filhos dos homens: “Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra, e isso cortou-lhe o coração” (Gênesis 6.8). Javé também se arrependeu de extrapolar sua severidade ao anunciar a destruição de uma cidade: “Tendo em vista o que eles fizeram e como abandonaram seus maus caminhos, Deus se arrependeu e não os destruiu como tinha ameaçado” (Jonas 3.10).


Com o fluir da história, certos mandamentos caducam, perdem a razão de ser, e merecem ser descartados. No período pós-exílio babilônico, foi necessário acabar com a lógica sacrificial de imolar animais inocentes. Os holocaustos se mostraram inúteis na transformação de pessoas. Jeremias teve peito de desdizer o que se considerava mandamento. Para ele, Javé nunca havia ordenado derramamento de sangue (quando, de fato, o Senhor exigira que se imolassem animais).

“ Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: ‘Juntem os seus holocaustos aos outros sacrifícios e comam a carne vocês mesmos! Quando tirei do Egito os seus antepassados, nada lhes falei nem lhes ordenei quanto a holocaustos e sacrifícios. Dei-lhes, entretanto, esta ordem: Obedeçam-me, e eu serei o seu Deus e vocês serão o meu povo. Vocês andarão em todo o caminho que eu lhes ordenar, para que tudo lhes vá bem’” (Jeremias 7.21)

Numa expressão chula, no Brasil chamam o homem traído de corno. Embora o termo esteja completamente desconectado do hebraico, o profeta não teve vergonha de comparar a sua sorte à do Senhor. E de usar a própria história para fazer paralelo entre deslealdade conjugal e espiritual. Para escancarar a dor da infidelidade, Oseias, corneado por sua mulher, Gômer, disse que Israel fazia o mesmo com Deus. “Vá, trate novamente com amor sua mulher, apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o Senhor ama os Israelitas, apesar de eles se voltarem para outros deuses e de amarem os bolos sagrados de uvas passas” (Oseias 3.1).

O mosaico de metáforas atribuídas ao Divino é minimizado na teologia pelo termo técnico de antropomorfismo. Mas, os exegetas que procuram construir uma imagem de Deus sem essas inúmeras metáforas, acabam com um Deus apático, distante, indiferente, inacessível. Ao anularem as múltiplas descrições bíblicas, ficam com o Motor Imóvel aristotélico.

Jesus de Nazaré ousou desmontar todos os devaneios que antigos nutriam sobre Deus. O Evangelho de João diz que “ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (Jo 1.18). Quando Felipe pediu para ver o Pai, Jesus não hesitou: “Quem me vê, vê o Pai”. Portanto, a metáfora mais verdadeira de Deus encarnou e foi reconhecida em Jesus, o Cristo.

Em Jesus, Deus bate à porta e espera ser recebido para um jantar. Em Jesus, Deus relativiza as exigências cerimoniais de dias e espaços sagrados para preservar vidas. Em Jesus, Deus ama sem se impor – ainda ressoam de seus lábios a escandalosa condicional: “Se alguém quiser me seguir…”.

Creio que Nietzsche era ateu da Causa Primária, do Relojoeiro, do Supremo Arquiteto, do Superintendente da Meticulosa Providência. Ele desprezou meras caricaturas distorcidas do Pai que mandou preparar churrasco para um grande baile. Não consigo imaginar Deus sentado, observando a festança do dia da volta do Filho Pródigo. Naquele dia, Ele dançou.

Soli Deo Gloria

- Ricardo Gondim
Publicado originalmente no blog do autor

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Jesus sempre começa a curar libertando de um Deus opressor

Imagem daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 1, 21-28, que corresponde ao 4º Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico). O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Segundo Marcos, a primeira aparição pública de Jesus foi a cura de um homem possuído por um espírito maligno na sinagoga de Cafarnaum. É uma cena impressionante, narrada para que, desde o início, os leitores descubram a força de Jesus que cura e que liberta.

É sábado e o povo encontra-se reunido na sinagoga para escutar o comentário da Lei explicada pelos escribas. Pela primeira vez Jesus vai proclamar a Boa Nova de Deus precisamente no lugar onde se ensina oficialmente ao povo as tradições religiosas de Israel.

As pessoas ficam surpreendidas ao escutá-lo. Têm a impressão de que até agora estiveram a escutar notícias velhas, ditas sem autoridade. Jesus é diferente. Não repete o que ouviu a outros. Fala com autoridade. Anuncia com liberdade e sem medos de um Deus Bom.

De repente um homem «põe-se a gritar: Vieste acabar conosco?». Ao escutar a mensagem de Jesus, sentiu-se ameaçado. O seu mundo religioso derruba-se. Diz-nos que está possesso por um «espírito imundo», hostil a Deus. Que forças estranhas o impedem de continuar a escutar Jesus? Que experiências más e perversas lhe bloqueiam o caminho até o Deus Bom que lhe anunciam?

Jesus não se acovarda. Vê o pobre homem oprimido pelo mal, e grita: «Cala-te e sai dele». Ordena que se calem essas vozes malignas que não o deixam encontrar-se com Deus nem consigo mesmo. Que recupere o silêncio que cura o mais profundo do ser humano.

O narrador descreve a cura de forma dramática. Num último esforço para destruí-lo, o espírito «retorceu-o e, dando um grito muito forte, saiu». Jesus conseguiu libertar o homem da sua violência interior. Pôs fim às trevas e ao medo a Deus. Daí em diante poderá escutar a Boa Nova de Jesus.

Não são poucas pessoas que vivem o seu interior com imagens falsas de Deus que lhes fazem viver sem dignidade e sem verdade. Sentem-No não como uma presença amistosa que convida a viver de forma criativa, mas como uma sombra ameaçadora que controla a sua existência. Jesus sempre começa a curar libertando de um Deus opressor.

As Suas palavras despertam a confiança e fazem desaparecer os medos. As Suas parábolas atraem para o amor à Deus, e não para a sustentação cega da lei. A Sua presença faz crescer a liberdade, não os servilismos; suscita o amor à vida, não o ressentimento. Jesus cura, porque ensina a viver apenas da bondade, do perdão e do amor que não exclui ninguém. Cura porque liberta do poder das coisas, do autoengano e da egolatria.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Jesus Cristo, um profeta que incomoda


Sabemos ouvir a Palavra dos nossos profetas que nos falam, certamente, de outra maneira, mas que nos trazem a novidade do nosso Deus?

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 4º Domingo do Tempo Comum (29 de janeiro de 2012). A tradução é de Susana Rocca, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


Eis o texto.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Dt 18,15-20
2ª leitura : 1 Co 7, 32-35
Evangelho: Mc 1,21-28

A primeira leitura e o Evangelho de hoje nos falam de profetismo. Um profeta com nome misterioso para aquele ou aquela que é profeta e que tem bonita missão para a pessoa que a exerce. E, no entanto, todos e todas nós deveríamos ser profetas. O Concílio Vaticano II afirmou que todos os batizados participam na função profética de Cristo. Mas o que é exatamente? O que é um profeta?

1. O profeta: Segundo o dicionário, profeta é aquele ou aquela que prediz o futuro. É completamente falso, porque a pessoa que prediz o futuro, é um astrólogo ou um cartomante ou um vidente. Isso não tem nada a ver com o profetismo. Basicamente, o profeta não é a pessoa que adivinha o futuro, mas aquele ou aquela que fala em nome de alguém… como cristão em nome de Cristo, em nome de Deus. O profeta não prediz o futuro; lê o presente. E, se acontece de ele ter que falar do futuro é porque ele utilizou o tempo para analisar o presente, ler os sinais dos tempos e poder alertar sobre o futuro. Um profeta deve ter discernimento e muito bom senso.

Na primeira leitura, hoje, o livro do Deuteronômio recorda ao povo de Israel que, doravante, Deus não falará mais diretamente; ele utilizará um intermediário, um profeta para falar ao povo: “Javé seu Deus fará surgir, dentre seus irmãos, um profeta como eu em seu meio, e vocês o ouvirão. Foi o que você pediu a Javé seu Deus, no Horeb, no dia da assembléia: ‘Não quero continuar ouvindo a voz de Javé meu Deus, nem quero ver mais este fogo terrível, para não morrer’.” (Dt 18,15-16). Além disso, foi difícil reconhecer Moisés como profeta, assim como foi difícil reconhecer Cristo como profeta.

No Evangelho de hoje, o evangelista Marcos faz uma bonita declaração: “As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei” (Mc 1,22), isso não impediu que alguém contestasse às suas palavras: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!” (Mc 1,24). É curioso, porque mesmo sabendo quem é, igualmente o homem contesta e recusa a novidade da Palavra que ele traz. Mas quem é, por conseguinte, este homem apresentado por Marcos como um possuído, que reconhece a identidade do Cristo do Evangelho e que se opõe ao seu ensinamento? É necessário que seja alguém com autoridade: um líder da comunidade, um padre, um escriba, o pároco da época… que recusa a novidade do Evangelho, como acontece tantas vezes ainda hoje. E lá, Jesus o manda calar (Mc 1,25). E o evangelista acrescenta: “Todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade... Ele manda até nos espíritos maus e eles obedecem!” (Mc 1,27).

Sem querer fazer um paralelo com a atualidade, parece-me que se Marcos precisa tratar de um ensinamento novo, diferente daquele dos padres e dos escribas do tempo, esse ensinamento deve ter chocado, mobilizado, agitado mesmo aos responsáveis religiosos da época. Mas o Cristo do Evangelho não aponta ao homem mesmo, mas ao seu encerramento, à sua recusa de acolher a novidade de Deus que se manifesta através dele, das suas leis, dos seus preceitos e dos seus regulamentos que asfixiam e que trancam as pessoas numa culpabilidade que é contrária ao Espírito de Liberdade do Cristo do Evangelho. Um exegeta francês anônimo escreve: “E exatamente o sentido da ordem de Jesus ao espírito do mau: Silêncio! Sai deste homem! Jesus veio para que os seres humanos tenham vida e a tenham em abundância. A sua autoridade é unicamente um poder de vida e não de morte. Os escribas acabavam esterilizando a Lei. Jesus a libera de qualquer constrangimento para oferecer uma Palavra criadora de vida. E nós, em Igreja, que fazemos desta Palavra? Bastante frequentemente transformamos as palavras do Evangelho em demasiados preceitos morais, jurídicos, que encerram na consciência na culpa, em vez de fazer chamadas do Espírito de Liberdade que quer nos colocar de pé, fazer de nós pessoas acordadas, vivas”.

2. O profeta hoje: Quem são os profetas de hoje? O cardeal belga Godfried Danneels escreve: “O nome de Deus é Jesus de Nazaré. Porque é pelo Filho que eu conheço o Pai. É a via de acesso. Posso, evidentemente, falar do Pai mas sempre está escondido, por trás, o nome do seu Filho. É um homem concreto que viveu conosco e entre nós, que deixa vestígios na história. É um Deus histórico”. Se eu acompanho a reflexão do Cardeal Danneels, devo dizer que esse Deus histórico encarnado em Jesus de Nazaré continua sempre vivo, hoje, através de nós, a sua Igreja. O que significa que o nome de Deus, hoje, é Cristo Ressuscitado e o Cristo Ressuscitado somos nós. É por isso que, todas e todos nós somos profetas pelo nosso batismo e pelo nosso compromisso como discípulos do Ressuscitado, visto que somos o seu Corpo. Então a pergunta que nos fazemos é a seguinte: Que rostos de Deus, de Cristo, nós damos a conhecer ao mundo no qual vivemos? O rosto de um Deus vingativo? Guerreiro? Juiz? Mesquinho? Hipócrita? Ou um rosto de um Deus de Amor? De tolerância? De perdão? De divisão? De paz? De esperança?

Diz-se, com frequência, que atualmente os homens e as mulheres não querem mais ouvir falar de Deus. Será que é realmente de Deus que as pessoas não querem mais ouvir falar? Não será exatamente de determinados rostos de Deus que são apresentados a elas? Ouvir certos líderes de hoje, que encarnam um Deus perverso: que julga, que condena e que exclui, posso compreender que há crentes que não querem mais ouvir falar. Mas, se lhes apresentam um Deus de Amor que acolhe o outro, qualquer outro, no respeito e na dignidade, parece-me que os cristãos de hoje como os de ontem, seriam menos reticentes a esse Deus da história, que é um Deus de Liberdade e de Amor.

Concluindo, podemos pedir a Deus, nas nossas orações, que nos envie profetas para falar em seu nome. Ousaria dizer: Parem de lhe pedir e comecem a reconhecer aqueles que já estão aqui e que nos falam Dele, porque como bem fala um exegeta do Quebec, Jean-Pierre Prévost: “O problema não está do lado de Deus, que nos envia sempre os profetas que necessitamos, mas sim da nossa parte e da acolhida que lhes damos”. Sabemos ouvir a Palavra dos nossos profetas que nos falam de outra maneira, certamente, mas que nos trazem a novidade do nosso Deus?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Podemos mudar o curso da História


A leitura que a Igreja propôs neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 1, 14-29, que corresponde ao 3º Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU. Os grifos são do autor.


Não sabemos com certeza como reagiram os discípulos de João Batista quando Herodes Antipas o encarcerou na fortaleza de Maqueronte. Conhecemos a reação de Jesus. Não se ocultou no deserto. Tampouco se refugiou entre os Seus familiares de Nazaré. Começou a percorrer as aldeias da Galileia predicando uma mensagem original e surpreendente.

O evangelista Marcos resume dizendo que «partiu para a Galileia proclamando a Boa Nova de Deus». Jesus não repete a predicação de João Batista, nem fala do Seu batismo no Jordão. Anuncia Deus como algo novo e bom. Esta é a Sua mensagem.

«Cumpriu-se o período». O tempo de espera que se vive em Israel acabou. Terminou também o tempo de João Batista. Com Jesus começa uma era nova. Deus não quer deixar-nos sós ante os nossos problemas, sofrimentos e desafios. Quer construir junto conosco um mundo mais humano.

«Está próximo o reino de Deus». Com uma audácia desconhecida, Jesus surpreende a todos anunciando algo que nenhum profeta tinha se atrevido a declarar: "Já está aqui Deus, com a Sua força criadora de justiça, tratando de reinar entre nós". Jesus experimenta Deus como uma Presença boa e amistosa que procura abrir caminho entre nós para humanizar a nossa vida.

Por isso, toda a vida de Jesus é uma chamada à esperança. Há alternativa. Não é verdade que a história tenha que discorrer pelos caminhos de injustiça que lhe traçam os poderosos da terra. É possível um mundo mais justo e fraterno. Podemos modificar a trajetória da história.

«Convertei-vos». Já não é possível viver como se nada estivesse a acontecer. Deus pede aos Seus filhos e filhas colaboração. Por isso grita Jesus: "Mudai a forma de pensar e de atuar". Somos as pessoas, as que primeiro temos de mudar. Deus não impõe nada pela força, mas está sempre a atrair as nossas consciências para uma vida mais humana.

«Acreditai nesta Boa Nova». Tomai-a a sério. Despertai da indiferença. Mobilizai as vossas energias. Acreditai que é possível humanizar o mundo. Acreditai na força libertadora do Evangelho. Acreditai que é possível a transformação. Introduza-se no mundo a confiança.

Que fizemos com esta mensagem apaixonante de Jesus? Como pudemos esquecer? Pelo que o substituímos? No que nos entretemos se o importante é "procurar o reino de Deus e a Sua justiça"? Como podemos viver tranquilos observando que o projeto criador de Deus de uma terra cheia de paz e de justiça está sendo aniquilado pelos homens?

domingo, 22 de janeiro de 2012

A fé cristã exige liberdade e sinceridade


"João Batista é detido, mas nunca nada pode deter a Palavra de Deus e, o primeiro ato da missão de Jesus é chamar um Povo, chamando os seus discípulos. Jesus os chama para segui-lo como discípulos, mas também para segui-lo como sucessores".

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 3º Domingo do Tempo Comum (22 de janeiro de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Jo 3,1-5.10
2ª leitura : 1 Co 7,29-31
Evangelho: Mc 1,14-20

Após o chamado dos primeiros discípulos, segundo São João, eis o chamado dos quatro primeiros discípulos, que é narrada diferentemente na versão de São Marcos, o evangelista do ano B. O Jesus discreto e despercebido de São João é substituído por um Jesus cheio de autoridade, de acordo com São Marcos, que, mesmo antes de ensinar, de pregar e de agir, escolhe os discípulos. Ele tem tanta autoridade e carisma, que ninguém ousa contestá-lo. E no entanto, ele não obriga ninguém a crer nele e a segui-lo. Apenas convida: “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15). E, contrariamente a João Batista, que anunciava um julgamento severo da história, Jesus proclama uma Boa Notícia que convida à conversão e à fé: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1,15b). Mas qual é esta Boa Notícia? O que fazer para vivê-la?

1. A Boa Notícia ou o Evangelho: Se lemos bem no Evangelho de Marcos, o primeiro evangelista, e nos outros depois, a Boa Notícia é Jesus Cristo, o Filho de Deus (Mc 1,1). Mas por que ele se tornou uma Boa Notícia? Jesus tornou-se Boa Notícia pelo acontecimento morte-ressurreição, que nos demonstrou que a morte não tem a última palavra sobre a vida e que a pessoa humana, marcada pelos seus limites e suas fragilidades, pode realizar coisas muito grandes: mais justiça para todos, o respeito do outro, de todo outro, o reconhecimento da dignidade de qualquer pessoa, da capacidade ilimitada de perdoar e de reconciliar-se, o amor incondicional, a partilha das nossas riquezas, a igualdade entre os humanos, a esperança de um mundo melhor. Se isso não é uma Boa Notícia, eu me pergunto o que é…

A Boa Notícia de Jesus Cristo é, também, anunciar a salvação para todos sem exceção. Não são as nossas obras que nos salvam; é a nossa fé no Cristo da Páscoa, no Cristo ressuscitado. As obras vêm depois: “Pois se você confessa com a sua boca que Jesus é o Senhor, e acredita com seu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, você será salvo” (Rm 10,9). A fé é a resposta à Boa Notícia e tem por objeto Jesus que foi ressuscitado por Deus e transformado no Cristo, Senhor e Salvador de toda a humanidade. A verdadeira justiça é aquela que vem de fé (Rm 10,6) que é dada pela fé (Rm 3,25), e a justiça recebida pela fé é perdão (Ga 5,24), reconciliação com Deus (Ef 3,12), união com Jesus Cristo (Ef 3,17), e ela inaugura a vida do Espírito (Ef 1,13-14).

O convite de Jesus Cristo à conversão e à fé na Boa Notícia nos chama à nossa liberdade humana. Não é obrigatório; é uma opção livre e sem constrangimento. E a resposta ao convite que nos é feito, deve ser também um chamado a nossa liberdade e a nossa responsabilidade. Não é por nada que São Paulo, na segunda leitura de hoje, convida aos Coríntios a não seguir alguns iluminados da comunidade que, em Corinto, pretendiam proibir a todos o casamento, porque queriam impor a todos o celibato consagrado. Querendo sublinhar o caráter provisório, mas real das realidades deste mundo, do qual o casamento faz parte, São Paulo escreve: “Uma coisa eu digo a vocês, irmãos: o tempo se tornou breve. De agora em diante, aqueles que têm esposa, comportem-se como se não a tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; os que tiram partido deste mundo, como se não desfrutassem. Porque a aparência deste mundo é passageira” (1 Co 7,29-31).

Infelizmente, nestes propósitos de São Paulo, há um perigo de interpretação que a Igreja não soube evitar: o desprezo do mundo, a falta de engajamento e a evasão fora das tarefas terrestres, como se não fossem necessárias. E no entanto, o pensamento de Paulo e a lógica do Evangelho são todo o contrário. O mundo que vemos requer as nossas energias, a nossa vigilância e a nossa imaginação ao serviço da justiça e a paz. Mesmo sendo essenciais, no entanto, estas realidades são provisórias em relação à nossa pertença ao Cristo da Páscoa. O exegeta Charles Wackenheim escreve: “O cristão não despreza nem os desafios nem as preocupações daqui em baixo; ele deve cuidar para não fechar o seu coração à Palavra de Deus que contesta todas essas visões fechadas”.

E temos o belo exemplo de atitude fechada na primeira leitura de hoje, onde o profeta Jonas fecha no medo os ninivitas para que eles não se convertam: “Jonas entrou na cidade e começou a percorrê-la, caminhando um dia inteiro. Ele dizia: 'Dentro de quarenta dias, Nínive será destruída!'" (Jn 3,4). Durante muito tempo temos funcionado desta maneira, provocando medo nas pessoas: o inferno, os demônios, a morte e a perdição… etc.… Felizmente, hoje, saímos disso. Essa conversa não pega mais. Porque Deus, que é misericórdia, perdão e amor, como poderia ameaçar as mulheres e os homens que são a obra da sua criação? Não são criados à imagem e à semelhança de Deus? Pierre Domergue escreveu: “Certamente, Jonas pronuncia um oráculo de condenação: Nínive será destruída. Certamente, os ninivitas se converteram, e Deus repensou a sua decisão. O leitor desta história profética fica sabendo que não tem mais condenação incondicional: Deus não está obrigado a dar razão aos seus enviados. Ele está somente obrigado a manter a sua própria palavra, que é ternura e misericórdia”.

2. Tornar-se discípulos: Perante a pergunta: o que fazer para viver a Boa Notícia? Eu respondo isto: para viver a Boa Notícia devemos nos tornar discípulos de Cristo, ou seja, deixar-nos ver por Cristo: “Ao passar pela beirado mar da Galiléia, Jesus viu Simão e seu irmão André; estavam jogando a rede ao mar, pois eram pescadores” (Mc 1,16), entender o seu convite: “Jesus disse para eles: «Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens” (Mc 1,17), haver livremente: “Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram a Jesus.” (Mc 1,18).

Eis aqui dois símbolos importantes a definir:

1) A rede: Símbolo de sedução. Cair nas redes de alguém é deixar-se seduzir por ele. O Cristo do Evangelho de Marcos é um sedutor; ele seduz tanto que não dá para se escapar dele, daí o ardor dos quatro primeiros discípulos chamados a segui-lo. Fazem-no espontaneamente, com total liberdade.

2) Pescadores de homens: É verdade que a pesca consiste em pegar ou capturar peixes. Mas o sentido da pesca humana utilizado por São Marcos é bem outro. É necessário lembrar que, na Bíblia, o mar é símbolo das forças do mal, e pescar homens é liberar o homem da influência do mar, das forças do mal. Por conseguinte, a missão dos discípulos não consiste em tomar ou capturar homens, mas antes consiste em libertá-los. Essa é a missão da Igreja ainda hoje.

Para concluir, gostaria simplesmente de citar o exegeta francês Jean Debruynne, no seu comentário do Evangelho de hoje: “É a detenção de João Batista que serve de sinal. João Batista é jogado na prisão e isso liberta a palavra do Evangelho como se a prisão de João fosse o encontro marcado para que Jesus saísse do silêncio. Como se uma retransmissão se passasse de João a Jesus. Como se a história mudasse e se passasse do antigo ao novo testamento. João Batista é detido, mas nunca nada pode deter a Palavra de Deus e, o primeiro ato da missão de Jesus é chamar um Povo, chamando os seus discípulos. Jesus os chama para segui-lo como discípulos, mas também para segui-lo como sucessores”. Eu acrescentaria que é em plena liberdade que os quatro discípulos aceitam seguir Cristo, e é com total liberdade, ainda hoje, que nós aceitamos nos tornar discípulos do Ressuscitado, seguir o Cristo Páscoa. Somos, por conseguinte, os sucessores dos primeiros discípulos, que foram também os sucessores de Jesus Ressuscitado.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O sentido da vida nas palavras de Jesus


Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, e o cardeal emérito de Milão, Carlo Maria Martini, refletem sobre os pontos que unem fé e existência terrena. Dois pontos de vista que partem de premissas diferentes buscam na justiça, na caridade e no perdão uma perspectiva comum.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 24-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


No fundo de um longo corredor, uma porta de vidro se abre para uma pequena sala onde escorre o tempo de Carlo Maria Martini, ex-arcebispo de Milão, biblista, pastor de almas e de consciências, cardeal da Santa Igreja Romana. Ele se senta em uma cadeira ao lado de uma janela da qual se veem um pedaço de céu e um cipreste.

Ao seu lado, está o seu assistente, Pe. Damiano, que é quase a sua sombra, o ajuda a se mover, administra-lhe os medicamentos nos horários estabelecidos, o acompanha nos seus deslocamentos quase raros. Não é frequente que um jesuíta se torne cardeal e é ainda menos frequente que tenha estado à frente da diocese mais importante da Europa, mas Martini é uma exceção por muitas coisas e também pela sua carreira eclesiástica.

Eu vi os jesuítas muito de perto em uma fase particular da minha vida: eu tinha 20 anos, era 1944, Roma estava ocupada pelos nazistas. Os jovens recrutas e os judeus eram procurados pelas SS, a polícia militar do Reich, e eu encontrei refúgio junto a uma centena de outros jovens na Casa del Sacro Cuore, onde os jesuítas promoviam os chamados "exercícios espirituais". Duravam no máximo uma semana, mas, no nosso caso, duraram mais de um mês. A casa era um território extra, com bandeira do Vaticano na janela e guardas paladinos no portão.

Como os jesuítas não dizem mentiras, como nos disse o padre reitor, tivemos que fazer os exercícios espirituais de verdade, embora entre nós houvesse muitos judeus e alguns não crentes.

Para mim, foi uma experiência valiosa, até porque o reitor era o padre Lombardi, um sacerdote de notável personalidade e de grande fineza intelectual, ao qual, mais tarde, foi dado o apelido de "microfone de Deus" por causa de suas atividades que, na bem da verdade, eram mais políticas do que pastorais.

Os jesuítas que eu conheci naquela ocasião, que guiavam as "meditações" e celebravam a missa e outras funções religiosas que pontilhavam os nossos dias, eu observei com muita atenção. O reitor, quando nos despedimos, me propôs até que eu me inscrevesse na Universidade Gregoriana, tínhamos entrado em confidências e também em polêmicas durante uma série de debates sobre Santo Agostinho e sobre São Tomás.

Lembro esses episódios pessoais para dizer que os jesuítas que eu conheci naquela época não se assemelhavam em nada a Carlo Maria Martini. Eram muito acolhedores e amigáveis, mas também muito arcaicos no seu modo de considerar a religião. Martini, ao contrário, está totalmente envolvido na modernidade do pensamento.

Quanto à intensidade da fé, não cabe a mim medi-la. Digo apenas que a fé de Martini nos faz pensar, porque emerge do seu profundo. Aquela que se respirava no Sacro Cuore, ao contrário, tinha um cheiro de sacristia bastante desagradável para quem, como eu, não tem a fé e nem sente a necessidade de buscá-la.

Pergunto-lhes, então, qual é a razão pela qual eu visite Martini frequentemente e ele aceite de bom grado essas visitas. A minha resposta é que estamos no mesmo comprimento de onda, nos sentimos em sintonia um com o outro, e o motivo provavelmente é este: nós dois nos fazemos as mesmas perguntas: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Essas perguntas parecem ter se tornado um lugar comum, talvez o sejam, mas continuam constituindo a base de toda filosofia e de todo conhecimento. As nossas respostas muitas vezes diferem, mas às vezes coincidem e, quando isso acontece, para mim é uma festa, e espero que para ele também.

O nosso encontro de hoje é o quarto que eu tive com ele. É o dia 6 de novembro, chove lá fora, estamos na casa de repouso da Companhia de Jesus em Gallarate, em um prédio que foi doado à Companhia há cerca de 50 anos pela família Bassetti. Os encontros anteriores ocorreram em 2009 e em 2010, mas o primeiro foi um debate que ocorreu em Roma no fim dos anos 1980 no Palácio da Chancelaria, organizado pelo Pe. Vincenzo Paglia, da comunidade de Santo Egídio.

O cardeal está com Parkinson, está muito lúcido, mas caminha com dificuldade. Há algum tempo, o mal lhe enfraqueceu muito a voz, que se tornou quase um sussurro, mas o Pe. Damiano aprendeu a ler do movimento dos seus lábios as palavras sem voz e as traduz para torná-las compreensíveis.

A nossa conversa aqui transcrita foi revisto pelo cardeal: as dificuldades da comunicação tornavam necessário o seu imprimatur.

Eis a entrevista.

Eugenio Scalfari – Gostaria de começar o nosso diálogo por um nome e pela pessoa que o portava: Jesus. Para mim, essa pessoa é um homem nascido em Belém, onde seus pais, José e Maria, que viviam em Nazaré, se encontravam ocasionalmente no dia e na noite do parto. Para o senhor, eminência, esse menino é o filho de Deus. Parece que a diferença entre nós, sobre esse ponto, portanto, é insuperável. Mas é precisamente esse nome que nos une. O senhor o chama de Jesus Cristo, eu o chamo de Jesus de Nazaré. Para o senhor, é Deus que se encarnou no Filho, para mim é um homem que se acredita ser o Filho, e nessa convicção ele viveu os últimos três anos da sua vida, os anos de pregação e depois da "paixão" e do sacrifício. Mas a pregação é justamente aquela parte da sua vida que nos une. Eu pensei muito no encontro de duas pessoas já avançadas em anos que vêm de educações, culturas e trajetos de vida tão diferentes que estão ansiosos por se conhecer cada vez mais e cada vez melhor. Tudo isso tem um sentido? Às vezes, penso que o senhor espera me converter, me fazer encontrar a fé. Isto recairia nas suas tarefas de pai de almas. É a isso que o senhor se propõe?

Carlo Maria Martini – Não, não penso em lhe converter, embora não possamos excluir, nem eu, nem você, que, em um certo ponto da sua vida, a luz da fé possa lhe iluminar. Mas essa é uma eventualidade que se refere apenas a você. Você busca o sentido da vida. Eu também o busco. A fé me dá esse sentido, mas não elimina a dúvida. A dúvida muitas vezes atormenta a minha fé. É um dom, a fé, mas também é uma conquista que pode se perder a cada dia, e a cada dia pode ser reconquistada. A dúvida faz parte de nossa condição humana. Seríamos anjos e não homens se tivéssemos afugentado a dúvida para sempre. Aqueles que não se põem à prova com esse tormento têm uma fé pouco intensa, muitas vezes a deixam de lado e não vivem a sua essência. A fé intensa não deixa esse espaço cinza e vazio. A fé intensa é uma paixão, é alegria, é amor pelos outros e também por si mesmo, pela sua própria individualidade ao serviço do Senhor. O Evangelho diz: ama o teu próximo como amas a ti mesmo. Não há nessa mensagem a negação do amor também por si mesmo. O amor – se é verdadeira paixão – atua em todas as direções, é transversal, é ao mesmo tempo vertical para Deus e horizontal para os outros. O amor pelos outros já contém o amor por Deus. Você ama os outros?

Eugenio Scalfari – Nem sempre, não totalmente. Eu estaria mentindo se dissesse que amo os outros com paixão assim como eu amo pessoas próximas de mim, e eu estaria mentindo se dissesse que o ódio é um sentimento desconhecido para mim. Detesto a injustiça e odeio os injustos. Tolero os diferentes de mim e, em alguns casos, os amo, pensando que a sua diversidade é uma riqueza. Mas os injustos, não.

Carlo Maria Martini – Talvez você se lembrará que, sobre o tema da injustiça, discutimos muito no nosso encontro anterior.

Eugenio Scalfari – Lembro muito bem. Eu lhe perguntei quais eram os pecados mais graves, e o senhor me respondeu que os preceitos da Igreja enumeram uma série de pecados numerosa. Na realidade – você me disse e eu transcrevi fielmente no artigo que eu fiz depois daquele nosso encontro –, o verdadeiro pecado do mundo é a injustiça, do qual os outros derivam.

Carlo Maria Martini – Sim, o senhor se lembra muito bem, eu disse assim. Mas talvez não aprofundamos o suficiente o que eu entendia pela palavra injustiça.

Eugenio Scalfari – Pode explicar agora.

Carlo Maria Martini – Pois bem, a injustiça é a falta de amor, a falta de perdão, a falta de caridade e o sentimento de vingança.

Eugenio Scalfari – O senhor também me disse que o sacramento da confissão e da penitência, fundamental para os cristãos, não é mais vivido e praticado como deveria ser.

Carlo Maria Martini – A penitência não é recitar dez "pai-nossos", mas sim descobrir a beleza da caridade e colocá-la em prática.

Eugenio Scalfari – Isso me lembra o arrependimento do Inominado de Manzoni em Os noivos...

Carlo Maria Martini – A luta contra o egoísmo é muito longa.

Eugenio Scalfari – Deduzo que o Criador criou um mundo injusto.

Carlo Maria Martini – O Criador deu aos seres humanos a liberdade. Ela pode gerar a solidariedade para com os outros, mas também o egoísmo, a opressão, o amor pelo poder. Eu li o seu último livro, você fala dessas coisas.

Eugenio Scalfari – Sim, eu também penso que o instinto de amor permeia a vida das pessoas, mas têm dimensões e direções diferentes. O senhor chama isso de amor, eu chamo de eros, o senhor chama o bem de caridade, e eu o chamo de sobrevivência da espécie, isto é, humanismo. Parece-me que, com palavras diferentes, dizemos a mesma coisa. Jesus, pelo que eu entendo, tentou o milagre de anular o amor por si mesmo, mas esse milagre não teve êxito.

Carlo Maria Martini – Jesus não tentou anular o amor por si mesmo, ao contrário, colocou-o como medida para o amor pelos outros.

Eugenio Scalfari – Eu penso que a vida começou a partir de um ser monocelular e depois seguiu em frente vertiginosamente segundo a evolução natural. Nós temos uma mente reflexiva que nos permite pensar a nós mesmos e ver as nossas ações, mas na economia do Universo somos um pequeno evento: assim nasceu o mundo e todos nós, e assim desaparecerá. Nesse ponto, nenhuma outra espécie será capaz de pensar Deus, e Deus morrerá se nenhum ser vivo for capaz de pensá-lo. Nós não somos uma regra, nós somos um acaso, uma espécie criada pela natureza, como eu acredito, ou por um deus transcendente, como o senhor crê. Spinoza diz: Deus sive Natura, ou Natura sive Deus. O senhor sabe que essa concepção da divindade, tão intensa como a do senhor, desemboca na imanência? Uma centelha de Divindade está, portanto, em todas as criaturas vivas e é justamente a vida.

Carlo Maria Martini – Você me perguntou no nosso encontro anterior o que eu pensava da afirmação do teólogo Hans Küng que defende a fé na vida como a condição preliminar e necessária para se chegar à fé em Deus. Lembra-se?

Eugenio Scalfari – Sim, lembro também que o senhor estava de acordo com essa afirmação.

Carlo Maria Martini – É verdade, e vê-se isso observando um bebê recém-nascido, que se confia totalmente nas mãos dos pais. Você também veio aqui na confiança que não encontraria ninguém com um fuzil apontado contra você. Essa é uma forma primária de fé.

Eugenio Scalfari – Claro. O senhor disse, em um escrito seu, que é um erro afirmar que Deus é católico.

Carlo Maria Martini – Sim, eu disse isso. Deus é o Pai de todos os povos, portanto, dar-lhe o adjetivo de católico é limitante.

Eugenio Scalfari – O senhor terá que admitir, no entanto, que o monoteísmo cristão é muito diferente do judaico e também do Islã. Nessas religiões, a Trindade seria considerada heresia inconciliável com o Deus único. Nessas religiões, o Deus único é inominável e não representável. Para os cristãos, ao contrário, ele tem o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e foi pintado e esculpido ao longo de milênios. A história da arte ocidental é em grande parte a história de Deus, do Filho, da mãe do Filho, dos Santos. Pode-se dizer que o cristianismo é uma religião monoteísta? Ou historicamente é uma religião helenista?

Carlo Maria Martini – A Trindade é Deus-comunhão. O Filho é a Pessoa com quem o Pai se manifesta aos homens. Talvez o modelo "ontológico" com o qual se pensou a Trindade até hoje deveria dar lugar ao modelo "relacional" que ajudaria mais até o diálogo horizontal. Quanto ao Santos, não são só intermediários entre nós e Deus, mas também testemunhas do bem, e talvez a Igreja canonizou muitos deles.

Eugenio Scalfari – Portanto, quando a nossa espécie desaparecer, e quando o juízo universal ocorrer, o Filho não terá mais razão de ser, nem o Espírito Santo.

Carlo Maria Martini – Não exatamente, o Filho será a bem-aventurança das almas que viverão na luz.

Eugenio Scalfari – Sem memória do eu terrestre que abandonaram?

Carlo Maria Martini – Nós, homens, não somos capazes de saber essas coisas, de conhecer o além. Mas sabemos que Paulo diz que a Caridade jamais terá fim. Portanto, supomos que reconheceremos o que vivemos no amor.

Eugenio Scalfari – Deus é o pai de todos os povos, mas a Igreja também fez do Deus católico uma bandeira de identidade, de guerra e de massacres.

Carlo Maria Martini – Quando fez isso, estava equivocada. A Igreja, assim como todas as instituições terrenas, contém o bem e o mal, mas é depositária de uma fé e de uma caridade muito grandes. Até Pedro renegou.

Eugenio Scalfari – Talvez seja muita instituição.

Carlo Maria Martini – Talvez seja muita instituição.

Eugenio Scalfari – Talvez seja muita dogmática.

Carlo Maria Martini – Eu diria de outra forma: o aspecto colegial da Igreja foi muito negligenciado. A meu ver, esse ponto deveria ser profundamente revisto.

* * *

A conversa já dura mais de uma hora. Eu olho para o Pe. Damiano de modo interrogativo, e ele diz que sim com a cabeça. Digo ao cardeal que chegou a hora de me despedir. "Mas eu lhe faço uma última pergunta: o que o senhor pensa dos fatos políticos italiano destes últimos meses? A Igreja, depois de um silêncio muito longo, misturado com alianças altamente questionáveis, finalmente pediu, com o cardeal Bagnasco, que fosse limpada a lama que manchou a ética pública. O senhor concorda com essa posição?".

Carlo Maria Martini – Eu concordo. Na Itália, existe uma catolicidade informada e consciente, e há anticorpos preciosos que, no fim, se manifestarão, contribuindo para recuperar o bem também na esfera onde se administra o poder.

Eu me levanto. Ele também se levanta, ajudado pelo Pe. Damiano. Nos abraçamos. Ele murmura algo, e o Pe. Damiano traduz: "Ele disse que reza frequentemente pelo senhor". Dirigindo-me a ele, lhe digo: "Eu penso frequentemente no senhor. É o meu modo de rezar".

Ele se aproxima do meu ouvido e, com um fio de voz, diz: "Rezo por você e também penso em você frequentemente", ele sorri e aperta a minha mão. Talvez ele quisesse dizer que pensar no outro é mais do que rezar. Pelo menos eu entendi assim.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

''Paulo também viu situações de separação de casais''

Escultura: Kyle Kirkpatrick

O livro "Parejas y sexualidad en la comunidad de Corinto", do pastor metodista argentino Pablo Manuel Ferrer, foi recentemente censurado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Nesta entrevista, concedida ainda em 2010, é possível compreender um pouco mais de seu pensamento.

A reportagem é de Adrian Hernandez, publicada no sítio da editora argentina San Pablo, 04-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O pastor da Igreja Argentina Metodista, Pablo Manuel Ferrer, 38 anos, apresentou seu livro Parejas y sexualidad en la comunidad de Corinto no espaço de reflexão criado por ocasião do Mês da Bíblia [setembro de 2010], na sede da editora San Pablo, em Buenos Aires. Na apresentação, o pastor metodista desenvolveu o tema da diversidade no amor, como introdução à sua obra, acompanhado pelo padre Aldo Ranieri, que dará continuidade aos encontros de formação bíblica.

Pablo Ferrer é professor de Novo Testamento no Instituto Universitário ISEDET, onde doutorou-se em teologia. Além disso, leciona em institutos católicos, na Escola Bíblica Nuestra Señora de Sión e na Congregação do Divino Mestre de San Isidro.

Ferrer concordou em responder por telefone a esta entrevista do seu escritório da Paróquia Evangélica Emanuel, no bairro La Paternal. Ao ser consultado sobre a importância do fato de seu livro ser publicado em uma editora católica, ele explicou que "o conhecimento e a busca bíblica podem transcender fronteiras denominacionais, tanto de um lado, quanto de outro. Eu me nutro com irmãos e irmãs católicos também. Não é conhecimento católico ou conhecimento metodista. Faz parte do ecumenismo que ajuda a crescer no conhecimento bíblico".

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


Esse conhecimento da Bíblia apaga a fronteira implícita que propõe a divisão entre "um lado" e "o outro"?

Não acredito que haja a ideia de apagar, mas sim de respeitar. É bom saber que há pessoas que têm outra tradição, outra forma de compreender, de celebrar e de entender a divindade. É bom compartilhar e que o outro continue vivendo a sua crença e que isso lhe permita viver a sua própria religião.

Na comunidade de Corinto, qual é o fim do matrimônio?

Na realidade, não há um fim. O matrimônio não tem um fim. Eu proponho que Deus nos chama para a vida em paz e para uma vida em sociedade. Para algumas posições, essa é uma decisão que será tomada através do matrimônio. Para outras, não será assim. Essa é a grandeza de Paulo. Enquanto algumas posições descartam todo contato de casal, e outras insistem que é determinante o fato de se estar casado, Paulo relativiza o matrimônio, a viuvez, o fato de estar solteiro, o fato de estar separado ou junto com outra pessoa de comum acordo.

Em seu livro, você defende que "se o projeto de casal unido por mútuo acordo não tiver resultado, então não se deve perder de vista o chamado à paz". O que isso significa?

Em Corinto, há pessoas que não estão unidas pelo casamento formal, mas sim por uniões de fato, por mútuo acordo, que Paulo considerada válidas também. Ele lhes outorga um valor salvífico para a pessoa não crente (e integrante do casal). Evidentemente, Paulo vê situações de separação. O mandamento é "não se separem", e imediatamente depois diz: "Mas, se se separarem"... Isto é, ele começa a relativizar os mandamentos que são muito duros e leva em conta as situações que se vivem por lá. Esse é o valor para o nosso tempo: pôr mandatos estritos acaba, às vezes, destruindo as pessoas. Paulo anuncia que Deus não nos chamou para cumprir mandamentos, mas sim para a paz.

Qual é a diferença entre um mandato e um conselho de Paulo?

Para algumas coisas, Paulo impõe um mandamento que ele compreende como um mandamento de Jesus. Em outros casos, anima-se a dar um conselho: "Isto sou eu que digo, não o Senhor". O que acontece? Com o tempo, com a tradição – para nós –, o conselho de Paulo, assim como o mandamento de Jesus, ficou como um novo mandamento. Eu estou em uma corrente de interpretação bíblica em que entendemos os conselhos de Paulo como conselhos para esse momento e que ele entende que é o melhor para essa situação. O problema é quando nós o transformamos em um mandamento. É um assunto para se refletir nestes tempos.

Como você chega à ideia de corrupção sexual?

Eu proponho repensar a ideia de porneia [devassidão, libertinagem]. A minha ideia é traduzir, como corrupção, algo que corrompe a natureza humana em seu aspecto individual e social, e tirar da porneia a ideia de imoralidade que envolve um cumprimento de normas. Em contrapartida, a corrupção tem a ver com a relação entre os seres humanos. A corrupção sexual é o desejo desenfreado que governa os demais desejos. Em nosso tempo, isso é evidente nos meios de comunicação de massa, que propõem que o desejo sexual soluciona toda uma outra série de desejos. É como o desejo por excelência a ser alcançado.

E a resposta de Paulo?

Ele se opõe ao grupo que defende que "não se deve tocar em mulher", desejo zero. Paulo contesta que isso é impossível, a menos que se trate de um carisma de Deus. Ele sugere que cada homem tenha sua mulher, e que cada mulher, seu homem; que o desejo sexual não deve ser reprimido suprimir nem tentar controlá-lo, mas sim canalizá-lo. Paulo não coloca os filhos como o produto que deve ser obtido do desejo. Ele mantém o desejo como um fim em si mesmo. Na nossa tradição, pietista ou ocidental e cristã, proibimo-nos o desfrute do desejo em si mesmo. Consequentemente, deve haver uma utilidade: os filhos.

Por que você defende que Paulo dá uma resposta inclusiva sobre a mulher considerada "impura"?

Na comunidade de Corinto, um grupo encontra na mulher o perigo de cair em pecado. Em 1 Coríntios, Paulo envolve tanto o homem quanto a mulher na decisão. Ele reconhece que há desejo em ambos os sexos, em oposição ao mandamento que Paulo recebe de "não tocar em mulher", que significa que a mulher não tem decisão: desejo para tocar o homem.

Paulo recolhe o debate de Corinto entre o poder e o desejo. Qual é a resposta?

Paulo democratiza o poder, um poder compartilhado. Deve se produzido de mútuo acordo: "Que não se neguem entre si". A negação não leva a lugar algum. Em um matrimônio, isso acontece muito. Uma das partes tira o seu corpo ou obriga o outro quando não sente vontade ou não quer. Na realidade, há uma posse compartilhada, e ambos devem estar de mútuo acordo.

Outro assunto do seu livro é o desejo e o carisma de Deus. Como você o interpreta?

O desejo existe, afirma Paulo. Lutar com isso não faz sentido. É preciso desfrutá-lo. Paulo admite que, em si mesmo, há um carisma (nos perguntaríamos: ele apagou o desejo ou colocou o desejo sexual em outra coisa?). Não é uma decisão de Paulo não tocar em uma mulher para melhorar certa coisa. O carisma é algo concedido por Deus a uma pessoa, não para benefício próprio, mas sim para o benefício da comunidade. Se o carisma de abstinência sexual é o mais importante, aqueles que gozam dele podem governar a comunidade; os demais, não. O capítulo 13 expressa que o único carisma e o mais importante é o amor. Ali, havia uma guerra de carismas. Paulo está fendendo a ideia de hierarquia de carismas e, portanto, a hierarquia daqueles que possuem esses carismas. Atualmente, acredito que podemos perceber isso também.

O carisma é importante em uma comunidade?

Paulo trabalha isso em 1 Coríntios, capítulo 14. Ele escreve que prefere o carisma profético. Uma pessoa fala, e isso para a edificação da comunidade. Esse é um critério que Paulo usa para determinar quando há um carisma e quando há uma característica de uma pessoa. Deus não deu um carisma a Moisés para que ele se convertesse em um super-herói, mas sim para libertar o seu povo. Eu me permito perguntar a uma pessoa: "Se isto é um carisma seu, como você beneficia o seu próximo?".

No livro, você atribui ao autor bíblico um conhecimento sobre o matrimônio ideal e o possível. Como é o casamento possível?

Paulo dirá que o ideal é que todos sejam como eu; se não for assim, há outros que estão vivendo outras realidades possíveis, não a ideal, mas sim a que foi possível viver. Entendo que Paulo enfatiza que a minha realidade – que eu entendo como ideal –, assim como a outra – que eu entendo como possível – são iguais frente aos olhos de Deus. O carisma de abstinência sexual, o casado, o separado, o juntado são diferentes possibilidades que têm o mesmo valor perante os olhos de Deus. Isso não dá nem tira uma maior aproximação a Deus.

Quais são os desafios a partir do olhar de Paulo e que, hoje, estão ocultos na comunidade?

Quanto ao âmbito sexual, certas situações ficam solapadas. Uma delas é a homossexualidade. Por exemplo, pessoas que eu conheço, que integram a comunidade e que têm tendência homossexual que não é declarada, não são eleitas como presidente ou membro de um conselho paroquial. Todos sabemos disso, no entanto, não o trazemos à tona. Na nossa Igreja [metodista], uma pessoa separada não é algo que deve ser oculto; concebemo-lo como algo que pode acontecer.

Na sua Igreja, como vocês trabalham pastoralmente a situação de pessoas separados e que voltaram a se casar?

É válido voltar a formar uma família, um casal, ou decidir ficar sozinho. Quando se rompe um projeto matrimonial, realiza-se uma revisão. Pastoralmente, eu acompanho cada um desses projetos, tentando que sejam o mais possível saudáveis, verdadeiros, tentando que não se repitam algumas experiências.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Na Igreja e fora dela, são muitos os que vivem hoje perdidos no labirinto da vida

Imagem daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 1, 35-42, que corresponde ao 2º Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico.

O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto, aqui reproduzido via IHU.


O evangelista João narra os humildes inícios do pequeno grupo de seguidores de Jesus. O seu relato começa de forma misteriosa. Diz-nos que Jesus “passava”. Não sabemos de donde vem nem para onde se dirige. Não se detém junto de João Batista. Vai mais longe do que o seu mundo religioso do deserto. Por isso indica aos Seus discípulos que se fixem Nele: “Este é o Cordeiro de Deus”.

Jesus vem de Deus, não com poder e glória, mas como um cordeiro indefenso e indefeso. Nunca se irá impor pela força; a ninguém forçará que acredite nEle. Um dia será sacrificado numa cruz. Os que queiram segui-lo terão que o acolher livremente.

Os dois discípulos que escutaram João Batista começam a seguir Jesus sem dizer qualquer palavra. Há algo nEle que os atrai apesar de não saberem quem nem para onde os leva. No entanto, para seguir Jesus não basta escutar o que outros dizem Dele. É necessária uma experiência pessoal.

Por isso Jesus volta-se e faz-lhes uma pregunta muito importante: “Que procurais?”. Essas são as primeiras palavras de Jesus a quem o segue. Não se pode caminhar atrás dos Seus passos de qualquer forma. Que esperamos dele? Por que o seguimos? Que procuramos?

Aqueles homens não sabem aonde os pode levar a aventura de seguir Jesus, mas intuem que pode ensiná-los algo que ainda não conhecem: “Mestre, onde vives?”. Não procuram nEle grandes doutrinas. Querem que lhes mostre onde vive, como vive e para quê. Desejam que lhes ensine a viver. Jesus diz-lhes: “Vinde e vereis”.

Na Igreja e fora dela, são bastantes os que vivem hoje perdidos no labirinto da vida, sem caminhos e sem orientação. Alguns começam a sentir com força a necessidade de aprender a viver de forma diferente, mais humana, mais sã e mais digna. Encontrar-se com Jesus pode ser para eles a grande notícia.

É difícil aproximar-se desse Jesus narrado pelos evangelistas sem nos sentirmos atraídos pela Sua pessoa. Jesus abre um horizonte novo para a nossa vida. Ensina a viver desde um Deus que quer para nós o melhor. Pouco a pouco vai-nos libertando de enganos, medos e egoísmos que nos bloqueiam.

Quem se coloca a caminho atrás dele começa a recuperar a alegria e a sensibilidade para com os que sofrem. Começa a viver com mais verdade e generosidade, com mais sentido e esperança. Quando alguém se encontra com Jesus tem a sensação de começa por fim a viver a vida desde a sua raiz, pois começa a viver desde um Deus Bom, mais humano, mais amigo e salvador que todas as nossas teorias. Tudo começa a ser diferente.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Seguir, procurar, ficar e encontrar


“Diz-se às vezes que as vocações são raras hoje. Isso não pode significar que Deus chama menos que anteriormente. Talvez com isso quer-se dizer que os modelos e os percursos herdados da Idade Média e do Concílio de Trento correspondem cada vez menos às chamadas do Deus vivo, cujo Espírito sopra onde ele quer e quando ele quer. Mais fundamentalmente devemos nos questionar se a Igreja e os cristãos de hoje motivam realmente o desejo de procurar Deus e de seguir Jesus”.

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 2º Domingo do Tempo Comum (15 de janeiro de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:

1a leitura: 1S 3,3b-10.19
Evangelho: Jo 1,35-42

É com o Evangelho de São João que começamos o tempo comum do ano B, o ano de São Marcos. E, contrariamente aos sinópticos (Marcos, Mateus, Lucas), São João nos diz que os primeiros discípulos de Jesus foram primeiramente discípulos de João Batista, e é este último que serviu de intermediário para que os seus discípulos se tornassem discípulos de Jesus. Mais uma vez, trata-se de um texto teológico… Por conseguinte, é depois da Páscoa que o acontecimento é contado e a história desse acontecimento já é transformada pela luz da Páscoa. O que quer dizer que, na comunidade cristã de São João, o conflito entre os batistas e os cristãos era real; de modo que foi necessário o evangelista João compor essa narrativa para reconciliar os dois movimentos: os batistas e os cristãos.

Também, no Evangelho de São João, Simão Pedro não é o primeiro chamado por Jesus. Foi o discípulo que Jesus amava, junto de André, o irmão de Simão Pedro, os quais se tornaram seus primeiros discípulos. Além disso, a chamada de Pedro, através do seu irmão André, toma uma grande importância em São João, dado que “Jesus olhou bem para Simão e disse: “Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra)” (Jo 1,42b). Para o evangelista João e sua comunidade, sem dúvida trata-se de fazer a unidade com as comunidades cristãs de Marcos, de Mateus e de Lucas, onde Pedro era considerado como o primeiro discípulo, o chefe da Igreja nascente, sem nada tirar do discípulo que Jesus amava.

De qualquer modo, trata-se de um relato da vocação e do chamado; então, quais são, hoje, as mensagens para nós que relemos este relato?

1. Um novo começo. O Evangelho de São João inicia pela palavra começo: “No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus” (Jo 1,1). Com o extrato de hoje, temos lá o início ou o nascimento da primeira comunidade cristã. E, contrariamente a outros evangelistas, o Jesus de João não aparece como alguém cheio de autoridade. Ele vai e vem (v. 36) como se estivesse indeciso, sem atadura, livre dessa liberdade que dará às suas ovelhas: “Eu sou a porta. Quem entra por mim, será salvo. Entrará, e sairá, e encontrará pastagem” (Jo 10,9).

Ainda mais, não é Jesus o primeiro que chama: é João Batista que envia. E é por uma pergunta que Jesus recebe os que lhe são enviados: “O que é que vocês estão procurando?” (Jo 1,38b). É também por uma pergunta que os enviados respondem: “Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?” (Jo 1,38c). E daí podem ser pronunciados o convite: “Venham” e a promessa: “e vocês verão” (Jo 1,39a). É o início de uma longa caminhada daqueles que não veem e que querem ver… e, quando eles virem, saberão onde Cristo reside: “Se vocês obedecem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como eu obedeci aos mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15,10).

2. O olhar. Pôr o olhar sobre alguém, o que quer dizer? Em primeiro lugar, é João Batista que põe o seu olhar sobre Jesus e o chama pelo seu nome: “o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36). Seguidamente, Jesus dirige seu olhar sobre Simão, chama-o pelo seu nome: “Você é Simão, o filho de João” e lhe confia uma tarefa, uma responsabilidade: “Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra)” (Jo 1,42). O exegeta francês Jean Debruynne escreveu: “João Batista põe o seu olhar sobre Jesus que vai e vem e quando, algumas linhas depois, André conduz o seu irmão Pedro a Jesus, é Jesus que pôs o seu olhar sobre ele. Certamente este olhar é uma escolha. Certamente este olhar designa. É certo que este olhar é uma chamada… mas, primeiro, este olhar que se toma o tempo para se pousar, tem algo que mobiliza a humanidade. O olhar de Jesus, assim como o de João Baptista, não se contentam de olhar por cima uma vítima, eles olham e veem. Eles se pousam com a mão sobre o ombro. Posam-se como um beijo de Amor”.

3. A vocação. A chamada ou a vocação cristã pode se fazer de múltiplas maneiras: diretamente como na 1a leitura, hoje, em que o jovem Samuel escuta pela primeira vez o Senhor, crendo que era o Pe. Elias que o chamava. Por três vezes Samuel levantou-se e disse a Elias: “Estou aqui”. Aconselhado pelo Pe. Elias, na quarta vez que o Senhor chamou o jovem Samuel, ele respondeu: “Fala, que o teu servo escuta” (1S 3,10). Pela sua escuta e pela sua disponibilidade, o texto acrescenta: “Samuel crescia, e Javé estava com ele. Nenhuma das palavras que Javé lhe disse deixou de se cumprir” (1S 3,19), ou o chamado pode se fazer através de alguém, como no Evangelho de são João. Na sequência do testemunho de João Batista, dois dos seus discípulos se dispuseram a seguir Jesus. Temos lá o modelo de qualquer vocação cristã: é pelo testemunho de alguém que se pode encontrar o Cristo e segui-lo quando ele se apresenta a nós; estamos, então, em condições de encontrá-lo e ficar com ele. Esses quatro verbos são o caminho a seguir para se tornar discípulos do Ressuscitado. É assim que é possível dar testemunho e interpelar mais alguém. É exatamente isso o que faz André com seu irmão Simão: “Ele encontrou primeiro o seu próprio irmão Simão, e lhe disse: ‘Nós encontramos o Messias (que quer dizer Cristo)’” (Jo 1,41).

Então, a questão que precisa ser colocada, hoje, é a seguinte: Como um discípulo que seguiu, procurou, ficou e encontrou o Cristo pode filtrar as chamadas do mestre que ele mesmo escutou e que outros, os intermediários, permitiram-lhe compreender pelo seu próprio testemunho? Não compete ao discípulo decidir quem pode tornar-se discípulo; cabe-lhe contudo testemunhar sobre aquele que encontrou. Na Revista Sinais de hoje 2003 (Signes d’aujourd’hui 2003), na página 98 está escrito: “Diz-se às vezes que as vocações são raras hoje. Isso não pode significar que Deus chama menos que anteriormente. Talvez com isso quer-se dizer que os modelos e os percursos herdados da Idade Média e do Concílio de Trento correspondem cada vez menos às chamadas do Deus vivo, cujo Espírito sopra onde ele quer e quando ele quer. Mais fundamentalmente devemos nos questionar se a Igreja e os cristãos de hoje motivam realmente o desejo de procurar Deus e de seguir Jesus”.

Por fim, como cristãos chamados a testemunhar nosso encontro com o Ressuscitado, devemos propor aos demais procurarem Cristo, segui-lo, encontrá-lo e ficar com ele. Assim, eles mesmos se tornarão também seus discípulos. Para conhecer realmente o Senhor, é necessário primeiro procurá-lo dentro de nós mesmos. Nas Confissões, Santo Agostinho escreve: “Onde, então, encontrar-te para conhecer-te? Tu não estavas ainda na minha memória, antes que eu te conhecesse… Teu melhor servidor é aquele que não pensa receber de ti a resposta que ele quer, mas, antes, a querer o que lhe dizes. Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo e eu não estava Convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me, com uma voz tão forte que rompestes a minha Surdez! Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o, a plenos pulmões, suspirando por Vós. Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi, no desejo da Vossa Paz”.
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