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sábado, 17 de março de 2012

Próxima missa da Pastoral da Diversidade, em São Paulo: 18/03


Próxima missa da Pastoral da Diversidade em São Paulo: dia 18 de março, às 17h. Divulguem e compareçam!

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eu sou a filha da Chiquita Bacana


Resiliência – Capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas (Wikipédia)

É isto de que boa parte das minorias são feitas. Para existir, o que por si só já é resistir, num mundo com padrões rígidos de ser aos quais você não satisfaz, por um motivo ou outro, ou por quase todos, é preciso resiliência.

E isto fica absolutamente claro através da celebração das “filhas da chiquita”. A festa surgiu em 1975 no bojo da maior manifestação religiosa do norte do Brasil, o Círio de Nazaré que atrai cerca de 2.000.000 de pessoas em Outubro.

Este contexto é interessantíssimo. O mais importante evento gay de Belém do Pará nasce em simbiose total com a festa católica mais tradicional da região. Espera-se a imagem da santa ser transladada até a Igreja da Sé e depois no meio deste percurso acontece a festa. Há shows de drag, música e muito, muito fervo.

Eu conhecia esta história por alto, mas ontem vi o ótimo documentário “As filhas da Chiquita” (Direção: Priscilla Brasil. 2006). O filme retrata muito bem esta interseção entra as duas festas e a maneira como cada um dos respectivos organizadores lida com esta confluência de motivos, pessoas e rituais tão díspares.

O discurso da Igreja é o óbvio ululante e não poderia ser outro a partir dos personagens escolhidos para representá-la: um padre com cara de infeliz que repete todos os bordões de uma teologia rasa contra a homossexualidade e uma senhorinha fofa de cabelos quase azuis que diz que um assassino merece mais perdão do que um homossexual.

A fala das “chiquitas” é bem mais interessante. Mostra como cada um, e muitos se afirmavam devotos, ressignificou a pertença religiosa para além da questão da culpa pela homossexualidade. Mais do que isso, desde que esta é entendida como algo intrínseco, vivê-la é de algum modo respeitar a sua natureza e, assim sendo, ser autêntico, verdadeiro, valores morais positivos diante de Deus.

O documentário, rapidamente, conversa com gente simples sentado num bar. Um diz que a homossexualidade é algo estranho à cultura cabocla, indígena da região, uma espécie de contágio que viria do “sul”, das novelas a que os companheiros de mesa logo desdizem; um senhor faz mesmo um discurso bastante libertário sobre o que, nós “do sul”, chamamos de “direitos individuais”. O que mais me chamou atenção nesta sequência, no entanto foi o uso tranqüilo, plenamente incorporado ao discurso, do termo “gay”. Não deixou de me causar certo fascínio pensar que tal termo foi incorporado à homossexualidade nos E.U.A. como uma forma de positivar a experiência de ser homossexual e foi se propagando por meio da militância e setores mais engajados com esta mesma finalidade, chegando até uma mesa de bar bem simples em Belém do Pará.

É o “mestre de cerimônias” da festa das filhas da Chuiquita, no entanto, que nos dá a forma mais feliz de entender a relação entre estas duas festas. Uma imagem que sai cheia de flores, com um manto todo trabalhado na pedraria tinha mesmo que inspirar uma festa gay. E eu acrescentaria: que é conduzida num carro puxado por um bando de homens se roçando uns aos outros para segurar a corda. Ok, talvez a melhor frase mesmo seja a da Miss “Chiquita 2006”, uma drag pobre e descabelada que no seu agradecimento disse cinco frases incompreensíveis, no meio das quais soltou esta: “Nasci feia. Porque quando eu nasci, a beleza tava de férias”.

Fiquei pensando também se apesar de ser um grande fervo a festa das chiquitas não é por si só a manifestação gay política mais significativa do Norte. Existir e se mostrar em praça pública, no evento sagrado e sério do Círio, talvez seja maior do que qualquer manifestação sisuda e cheia de cartazes.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Próxima missa da Pastoral da Diversidade, em São Paulo: 29/1


Próxima missa da Pastoral da Diversidade em São Paulo: dia 29 de janeiro, às 17h. Divulguem e compareçam!

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sábado, 14 de janeiro de 2012

Próxima missa da Pastoral da Diversidade, em São Paulo


Próxima missa da Pastoral da Diversidade em São Paulo: dia 15 de janeiro, às 17h. Divulguem e compareçam!

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sábado, 12 de novembro de 2011

Encontro de Assis: uma ''viagem fraterna'' rumo a um horizonte maior

Foto daqui

Uma peregrinação "pela verdade e pela paz". Foi com esse propósito que Bento XVI e diversos outros líderes religiosos de todo o mundo estiveram reunidos em Assis, na Itália, entre 27 e 28 de outubro. Uma data e um encontro histórico, a 25 anos da primeira Jornada de Oração pela Paz, convocada por João Paulo II em 1986, para uma oração comum pela paz em um período histórico marcado pela Guerra Fria.

Na opinião do teólogo Faustino Teixeira, a iniciativa de João Paulo II “deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um ‘espírito’ novidadeiro de respeito e abertura aos outros”. Por isso superou as críticas – inclusive as do atual papa, naquela época cardeal e presidente da Congregação para a Doutrina da fé – e recebeu uma nova edição, em 2002, após os atentados do 11 de setembro.

Nesta terceira edição, relembra Teixeira, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, retorna a “linda imagem” utilizada por João Paulo II para expressar aquele momento inaugural: “uma ‘viagem fraterna’ em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos”.

Nos últimos anos, no papado de Bento XVI, “não houve nenhum documento ou gesto concreto que modificasse a nítida perspectiva teológica que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana”, pondera Teixeira.

Mas revela: “O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos”. Ou seja, uma “possibilidade de transmitir a essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo”.

Faustino Teixeira é professor do programa de pós-graduação em ciência da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, pesquisador do CNPQ e consultor do ISER-Assessoria. É pós-doutor em teologia pela Pontificia Universidade Gregoriana. Entre suas últimas publicações, encontram-se Catolicismo Plural: Dinâmicas contemporâneas (Ed. Vozes, 2009) e Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso (Ed. Santuário, 2008).

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O que significou o gesto de João Paulo II, há 25 anos, ao convocar uma Jornada Mundial de Oração pela Paz junto aos grandes líderes religiosos mundiais?

Foi um dos mais significativos gestos de João Paulo II em seu pontificado. Foi um encontro paradigmático, na medida em que facultou uma profunda ruptura no posicionamento tradicional da Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR no campo do diálogo inter-religioso. O próprio Papa João Paulo II se expressou a propósito em seu discurso natalício aos membros da cúria romana, em 22 de dezembro de 1986: “O acontecimento de Assis pode ser considerado uma demonstração visível (…) daquilo que pressupõe e significa o esforço ecumênico e o esforço pelo diálogo inter-religioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II”.

Foi um evento grandioso e deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um “espírito” novidadeiro de respeito e abertura aos outros. E também a convicção firmada de que a oração de todos, no respeito às suas diferenças, é fundamental para a paz entre as nações. E, quando é autêntica, traduz um significativo fruto do Espírito.

Houve resistências a essa iniciativa?

Foi um evento que suscitou muitas reservas, sobretudo entre os tradicionalistas lefebvrianos, mas também entre cardeais da cúria romana, que manifestavam temor pelo risco de sincretismo. Marcel Lefebvre identificou o evento como um escândalo e uma “blasfêmia pública”. Mesmo o cardeal Ratzinger, na ocasião, não manifestou grande entusiasmo pela iniciativa, preferindo manter uma “reserva mais que morna”, para utilizar a expressão do historiador Alberto Melloni.

Apesar das resistências, prevaleceu a ousadia dialogal de João Paulo II, que soube reconhecer que o desafio da paz é mais amplo e urgente do que as diferenças religiosas. E dizia: “Ou aprendemos a caminhar juntos em paz e harmonia, ou nos desconhecemos mutuamente e nos destruímos a nós mesmos e aos outros”. E linda foi a imagem que utilizou para expressar aquele momento: uma “viagem fraterna” em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos.

Na preparação ao primeiro encontro, na década de 1980, grupos mais tradicionais da Igreja criticaram as tendências relativistas ou sincretistas do encontro, como os lefebvrianos. E as críticas retornam nessa nova edição. Que desafios o diálogo inter-religioso apresenta à Igreja?

De fato, os lefebvrianos continuam em sua rígida oposição. O superior atual do grupo lefebvriano, D. Bernard Fellay, reagiu de forma dura ao saber das intenções de Bento XVI em retomar o curso dos eventos de Assis. Ele comenta: “Todos os deuses pagãos são demônios e Assis estará cheia de demônios”. Sem comentários…

As maiores dificuldades, já no primeiro evento, estavam relacionadas ao tema da “oração comum”. Houve então uma preocupação permanente dos idealizadores de evitar o risco de sincretismo religioso, e isso se manifestava na fórmula escolhida para o encontro: “juntos para rezar” e não “rezar juntos”. Evitou-se fazer qualquer tipo de oração comum, mas as orações foram realizadas com muita liberdade, expressando assim os caminhos diversos, mas nobres, de relação amorosa com o Mistério Absoluto. E elas aconteceram no interior da Basílica inferior de São Francisco, em sucessão contínua, com a assistência reverencial de todos. Isso será modificado nos eventos sucessivos. Não se pode, porém, descartar a plausibilidade de eventos pontuados pela presença de uma oração comum, e isso não significa necessariamente recair no sincretismo. É o que expressou tão bem, Marcello Zago, em texto publicado no L'Osservatore Romano de outubro de 1986: “Estar junto para rezar, e às vezes rezar junto, é reconhecer este fato essencial da relação de todos os homens com Deus”.

O rico documento do então Secretariado para os não Cristãos, Diálogo e Missão (1984) – assinado também pelo então secretário, Marcello Zago – ressaltava como o nível mais profundo do diálogo a “partilha das experiências de oração, contemplação e fé” (DM 35). Infelizmente a dinâmica dos eventos sofreu mudanças substantivas nesse campo.

Desde 1986, houve algumas mudanças a partir do título: de “Jornada Mundial de Oração pela Paz” passou-se a “Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo”. Como podemos entender essas novas ênfases?

A nova jornada de Assis, em comemoração ao 25º aniversário do primeiro evento, realizado em 1986, muda de fato o seu tom. De uma jornada de oração passa a ser, sobretudo, uma jornada de reflexão. Isso não significa a inexistência de um momento específico de oração silenciosa individual, que também ocorrerá. Mas o traço substantivo será de índole reflexiva, em favor da paz mundial. Como expressou o cardeal [Jean-Louis Pierre] Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, “no mundo tão precário e cheio de muros de separação físicas e morais, me parece mais do que nunca oportuno que as religiões, apesar de suas diferenças, promovam juntas a paz. O diálogo entre as religiões é sempre um chamado de Deus a redescobrir suas próprias raízes espirituais”.

De forma bem curiosa, o Papa Bento XVI, antes resistente aos eventos desta natureza, se vê agora diante de sua urgência e inevitabilidade. Redescobre, assim, o valor da intuição de João Paulo II. Mas a perspectiva agora é diferente, marcada por um controle doutrinal mais decisivo e com a ênfase voltada mais para a dimensão cultural do diálogo. A ausência premeditada de momentos públicos de oração comum é uma forma precisa de evitar o risco de um binômio que acompanha as lides desse pontificado: relativismo/sincretismo.

Quanto à novidade de estender o convite aos não crentes, julgo a ideia bem pertinente. O diálogo inter-religioso deve envolver, igualmente, as distintas opções espirituais, religiosas ou não. É uma ideia que vem corroborar o projeto ratzingeriano de transformar o diálogo inter-religioso num diálogo mais cultural.

Qual o significado e o valor da oração inter-religiosa? Ou, em outros termos, qual o medo da Igreja de rezar junto com as demais religiões?

Num belo livro em que recolhe seus sermões, "Passion de l’homme passion de Dieu" (1991), o teólogo Claude Geffré trabalha de forma magnífica a ideia da oração como “mistério de gratuidade”. Ele sinaliza que a oração é a “atitude fundamental do homem religioso, mais universal do que a fé explícita num Deus pessoal”. Há uma dimensão universal da oração que ultrapassa a dinâmica particular e restrita das religiões.

Na visão de Geffré, com a qual concordo plenamente, o primeiro encontro de Assis fez eclodir um “ecumenismo planetário”, pontuado pelo alcance universal da oração. A oração suscita, antes de tudo, um descentramento de si e um recentramento no outro, um grande aprendizado de gratuidade, de abertura e conversão do coração. Grandes momentos dialogais foram e são vividos pontuados pela oração em comum: veja os importantes exemplos dos monges de Tibhirine (Argélia) e dos religiosos da Comunidade de Mar Musa (Síria), no diálogo com os muçulmanos e outros tantos exemplos nessa linha.

Não sem razão, sublinha Jacques Dupuis: “A oração comum se apresenta como a alma do diálogo inter-religioso, mas também como a expressão mais profunda do diálogo e, ao mesmo tempo, como a garantia de uma conversão comum mais profunda a Deus e aos outros”.

O tema deste ano é Peregrinos da verdade. Peregrinos da paz. E a peregrinação dos líderes religiosos será também um ponto forte do encontro, seja de trem (do Vaticano até Assis) ou a pé (para a entrada na Basílica de São Francisco). Como essa imagem do “caminhar juntos” pode inspirar o diálogo inter-religioso?

Em editorial da revista Concilium, cujo tema versava sobre as peregrinações (1996/4), Christian Duquoc e Vigil Elizondo sublinhavam que o senso da peregrinação parece responder a uma profunda necessidade que o ser humano tem de ir além dos limites da experiência ordinária e entrar no misterioso reino do além”. De fato, há algo de ousado na experiência das peregrinações, sobretudo a disposição de “expor-se a novas paisagens” e arriscar-se a ampliar as possibilidades. E as religiões, como fragmentos, estão desafiadas a fazer essa travessia. Volto aqui à bela imagem de João Paulo II, de uma “viagem fraternal” pontuada pelo mútuo aprendizado e pela troca de dons, rumo a um horizonte maior, ainda inominado.

A inclusão de não crentes no debate inter-religioso por parte do Vaticano também remete à proposta do “Átrio dos Gentios”, impulsionado pelo cardeal Gianfranco Ravasi. Qual a contribuição dos ateus e dos não crentes para o diálogo entre os que creem?

A proposta é interessante, mas a imagem ainda é precária. Falar em “Átrio dos Gentios”, tomando a metáfora de Bento XVI, é ainda realçar a disparidade entre aqueles que detêm a verdade e os “outros” que se encontram no pórtico exterior. É uma imagem que pressupõe, ainda que não intencionalmente, a apropriação da verdade por parte de alguns em detrimento de outros. Sobre isso chamou a atenção o sociólogo Peter Berger, sendo retomado por Marco Politi em sua recente obra sobre o papado de Joseph Ratzinger ("Joseph Ratzinger. Crisi di un papato" – 2011).

Não há dúvida, porém, da importância dessas novas presenças no evento de Assis, entre as quais [a filósofa e psicanalista búlgara-francesa] Julia Kristeva e [o filósofo italiano] Remo Bodei. Esse último autor, filósofo e professor na Universidade da Califórnia, acolheu prontamente o convite feito pelo cardeal Ravasi e sublinhou o significado dessa florescente consciência: “Se os dogmas religiosos entram em contato com as ideias do mundo e saem de sua clausura, isso se torna um fato positivo também para os ‘laicos’, isto é, aqueles não crentes que não querem viver na banalidade”. Também a Igreja vem enriquecida por essa pars paganorum, essa parte de paganidade, esse “lugar fora de sua residência”, capaz de favorecer a ampliação do olhar e a abertura atenta para as coisas deste mundo. Como indicou o teólogo belga Adolphe Gesché, “o Evangelho não é suficiente para tudo, não diz tudo sobre o ser humano”.

No livro "Joseph Ratzinger, Crisi di un papato" (Ed. Laterza), o vaticanista Marco Politi, como aponta o título, delineia uma forte crítica ao pontificado de Bento XVI em seus seis anos de pontificado. Como o evento de Assis se encaixa nessa análise? Que continuidades ou rupturas se apresentam nesse fato?

Vou aqui me fixar nos traços específicos do livro que tratam da questão das religiões, e em particular ao evento de Assis. Trata-se de um livro precioso, recheado de uma “impecável documentação” sobre o percurso do pontificado de Bento XVI. O diagnóstico feito por Politi é sombrio, apontando “sinais de incerteza” na condução estratégica do pontificado em vários âmbitos. Um deles é justamente o do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

Com precisão certeira, Politi sinaliza que a lógica que marca o itinerário do pontificado é tecida por uma “mecânica de passos em falso”. Atuações problemáticas são depois corrigidas por “intervenções de socorro”, que buscam amenizar o impacto das controvérsias. E são tantas as que podem ser nomeadas, como o fez brilhantemente Marco Politi em seu livro e não vem ao caso aqui retomá-las. O autor fala na presença de uma “mão invisível” a suscitar novas e previsíveis polêmicas.

Nesses seis anos de pontificado, seguindo a argumentação de Politi, o “lobby pró-Ratzinger”, que o impulsiona adiante, não apresenta um “projeto de respiro para o futuro da Igreja”. O que se verifica é uma dinâmica marcada pelo traço defensivo, de reação ao mundo contemporâneo, frágil para anunciar a alegria de um Deus misericordioso e atento aos sussurros do plural. Para muitos das novas gerações, como indica Politi, é um papa que “não transmite esperança”, que não suscita atração. Fala nele mais o homem das palavras, o teólogo racional, distante da possibilidade de mostrar uma “Igreja de misericórdia”.

Com respeito às religiões, os desencontros são inúmeros. A tensão com o mundo protestante vem acirrada desde a década de 1990, com a minoração eclesial das Igrejas protestantes, reduzidas a partilharem apenas “elementos da Igreja de Cristo”. Nesse período, estava na direção da Congregação para a Doutrina da Fé o cardeal Ratzinger, que defendia firmemente tal posição, que depois veio reiterada na Declaração Dominus Iesus, de 2000. Em sua obra "Igreja: carisma e poder" (na edição revista de 2005), Leonardo Boff relata com detalhes a tensão que marcou seu colóquio com o cardeal Ratzinger em torno da interpretação da passagem da Lumen Gentium 8, que trata da questão do subsistit in, ou seja, da forma de subsistência da Igreja de Cristo na Igreja Católica.

Para Boff, a Igreja de Cristo ganha sua forma na Igreja Católica, embora se concretize igualmente, de um modo particular, nas demais Igrejas, portadoras da herança de Jesus. Para Ratzinger, diversamente, a Igreja romano-católica é a “única Igreja de Cristo”, enquanto as demais têm apenas “elementos eclesiais”. Essa posição veio confirmada na Dominus Iesus. A relação com os judeus vem também tensionada nos últimos anos e isso se deve a certas atitudes como a liberação do rito tridentino e o motu proprio, summorum pontificum (de julho de 2007), que resgata a oração da sexta-feira santa, que fala dos “pérfidos judeus”; a reabilitação de quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, criada por Marcel Lefebvre, sendo que um deles, o bispo Richard Williamson, chegou a colocar em dúvida a existência do Holocausto. Acrescentam-se os percalços da viagem papal à Polônia, em maio de 2006. Mais recentemente, reacende-se a polêmica quando o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, publica um artigo no L'Osservatore Romano (07-07-2011) assinalando que a cruz de Jesus é para os cristãos o permanente e universal Yom Kippur. O artigo provocou duras reações do rabino de Roma, Di Segni.

Com respeito ao islã, há uma certa “desconfiança de fundo” que acompanha boa parte do pontificado de Bento XVI. O ponto culminante foi o discurso na universidade de Regensburg, em setembro de 2006. Marco Politi fala na “catástrofe de Regensburg”, que joga ao chão 20 anos da política wojtyaliana nos confrontos do islã. Como sempre ocorre nesse pontificado, depois do desfeito sucedem-se as tentativas de reparo, e isso ocorreu com as declarações reparadoras do secretário de estado, cardeal Bertone, e também do próprio papa. Em suas viagens à Turquia e Terra Santa a tonalidade já foi outra, embora saliente com razão Politi, não se abriu em seguida novas páginas na relação com islã.

Um estranho episódio que diz respeito ao diálogo com o islã foi a destituição do antigo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Michael Fitzgerald, e seu encaminhamento para o “exílio” no Cairo. O seu dicastério funde-se com o Pontifício Conselho para a Cultura em março de 2006. A decisão mostra-se problemática já no ano seguinte, dada a importância estratégica da relação com o islã. E o processo vem refeito, em junho de 2007, com a nomeação do cardeal Jean-Louis Tauran para presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Como ex-ministro do exterior do Vaticano era um homem de diálogo e bom conhecedor do mundo árabe, como Fitzgerald.

Com respeito às outras religiões, fica ainda registrado na memória aquela infeliz expressão da Dominus Iesus, que indica que elas encontram-se numa “situação gravemente deficitária, se comparada com a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos meios de salvação” (DI 22). Não houve nenhum documento ou gesto concreto nesse atual pontificado que modificasse essa nítida perspectiva teológica, que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana. O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos.

Assis também tem um imenso legado religioso por ser a terra de Clara e Francisco. Como esse legado pode inspirar, hoje, o diálogo inter-religioso, especialmente por parte de seus herdeiros “diretos”, ou seja, os cristãos católicos?

Não foi sem razão que João Paulo II escolheu Assis para a realização da primeira Jornada Mundial de Oração pela Paz. É, antes de tudo, um símbolo fundamental para o diálogo e entendimento entre as religiões. E dois nomes, como bem lembrou Wojtyla, estão intimamente ligados na lembrança dessa cidade: Francisco e Clara – “Dois nomes, duas vocações, que recordam os valores evangélicos da caridade, da pobreza, da pureza, da amizade espiritual, da oração e da paz”.

A imagem de Francisco, em particular, traz a singular marca do amor cortês, de um amor intenso e generoso para com os outros, de delicadeza única para com toda a criação. Como bem assinala Chiara Frugoni em sua bela biografia sobre Francisco ("Vida de um homem: Francisco de Assis", 2011), ele “está muito distante daqueles rostos tristes da espiritualidade monástica tradicional”. É dessa alegria e dessa esperança que tanto necessitamos hoje em dia, de uma alegria que possa reaquecer nossas energias vitais para fazer frente ao desencanto crescente.

E aqui me vem também à mente o lindo livro de [José Antonio] Pagola sobre Jesus. Não é fortuito o fato desse livro estar em sua quarta edição no Brasil. É um livro que traduz uma linda imagem de Jesus, como alguém que transmite alegria, saúde e vida. E um amor apaixonado à vida que se soma à sua impressionante capacidade de acolhida do outro. Acredito que é esse “espírito” que deve animar o encontro de Assis, que agora se inicia. Antes de tudo, a possibilidade de transmitir essa essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo.

(Por Moisés Sbardelotto)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Rosh Hashaná e Yom Kippur / Ano Novo e Dia do Perdão


Hoje é véspera de Rosh Hashaná, o ano novo judaico. Para que possamos nos unir em oração a nossos irmãos judeus nesse momento de renovação, compartilho com vocês esta bela reflexão. :-)

Porque Rosh Hashaná marca a passagem do tempo e Yom Kippur nos interroga sobre o sentido de nossa vida, lembramos que há:

1. Tempo de olhar para o futuro e tempo de lembrar nosso passado.
2. Tempo de nos pensar como indivíduos e tempo de nos pensar como comunidade.
3. Tempo de realizar e tempo de refletir.
4. Tempo de ficar sós e tempo de ficarmos juntos.
5. Tempo de lembrar e tempo de esquecer.
6. Tempo de ensinar e tempo de aprender
7. Tempo de dar e tempo de receber.
8. Tempo de falar e tempo de calar.
9. Tempo de acreditar e tempo de duvidar.
10. Tempo de se sentir culpado e tempo de se perdoar.
11. Tempo de julgar e tempo de suspender o julgamento.
12. Tempo de se entregar e tempo de se dissociar.
13. Tempo de viver e tempo de morrer.
14. Tempo de rir e tempo de chorar.
15. Tempo de ser prudente e tempo de arriscar.
16. Tempo de trabalhar e tempo de descansar.
17. Tempo de semear e tempo de colher.
18. Tempo de ser orgulhoso e tempo de ser humilde.
19. Tempo de estar alegre e tempo de estar triste.
20. Tempo de ter ilusões e tempo de perdê-las.
21. Tempo de esperar e tempo de agir.
22. Tempo de amar sem ser amado e tempo de ser amado sem amar.
23. Tempos sem sentido e tempos com sentido.


E que a sabedoria se encontra em compreender que o tempo é sempre um, no qual:

1. Nosso passado esta sempre presente no nosso futuro.
2. A comunidade é formada por indivíduos livres e os indivíduos não esquecem que são parte de comunidades.
3. Quem faz deve refletir e quem reflete deve agir.
4. Os mortos continuam vivos em nos e a vida não pode desconhecer a morte.
5. Paramos de falar para ouvir e ouvimos para entender o que estamos falando.
6. A prudência não deve eliminar nossa coragem para ariscar e o risco deve ser responsável.
7. Quem recebeu já retribuiu e quem deu já recebeu.
8. Só aprendemos desaprendendo e só se ensina aprendendo.
9. Quem semeia já recolheu e quem recolhe não deixa de semear.
10. Não podemos ter dignidade se não somos humildes e somos humildes porque temos dignidade.
11. Estamos sós quando estamos juntos e estamos juntos quando estamos sós.
12. Acreditamos sem dogmatismo e duvidamos sem deixar de lutar pelo que acreditamos.
13. Choramos de alegria e rimos para não chorar.
14. No há culpa sem perdão, nem julgamentos que não sejam questionáveis.

Porque o tempo nos permite amar e aprender, e ambos são o maior dom da vida, agradecemos:

Shehechyanu, ve´quimanau ve’higuianu lazman haze.
Que vivemos, que existimos, que chegamos a este momento.

- Bernardo Sorj
Reproduzido via Amai-vos

domingo, 18 de setembro de 2011

O pluralismo religioso como um dom de Deus


Em dia de 4ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa (atualização em 19/09: saiba como foi a caminhada aqui), deixamos para reflexão o texto abaixo. Bom domingo a todos!

1. O pluralismo religioso é um dom de Deus e revela as riquezas singulares de sua sabedoria infinita e multiforme.

2. Antes de expressarem uma busca tateante de Deus, as religiões já foram acolhidas por Deus na dinâmica de sua infinita abertura e misericórdia. Não são os sedentos que buscam a água, mas a água que busca os sedentos.

3. As religiões são “fragmentos” que participam de uma sinfonia cujo horizonte é marcado pela tônica do inacabamento. Não há possibilidade de uma única tradição pretender-se detentora da posse da verdade.

4. A verdade que anima a caminhada das religiões não é algo que se apropria como uma garantia assegurada, mas um mistério sempre aberto pelo qual as religiões devem deixar-se possuir.

5. As religiões são marcadas por limites e ambigüidades, mas estão igualmente envolvidas pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados.

6. Cada religião é portadora de um enigma que é irredutível e irrevogável, não podendo ser entendida como um marco de espera que encontra o seu acabamento ou remate numa outra tradição religiosa. A riqueza das religiões não é algo que se encontra fora delas, como se o seu valor estivesse na sua capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram.

7. Desconhecer esse enigma ou mistério que envolve cada tradição religiosa é deixar de honrar a sua especificidade única e macular a riqueza intransponível da alteridade.

8. A defesa de uma assimetria de princípio entre as religiões compromete a dinâmica misteriosa dos dons de um Deus que abraça a diversidade.

9. A experiência de fé num Deus criador, que está presente e vivo em cada domínio do planeta, implica em reconhecer sua presença viva e acolhedora entre as diversas tradições religiosas.

10. Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. Não há razão plausível para concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância ou “porta”, mas há que perceber outras formas dessa mediação, que podem ser uma pessoa, mas também um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis.
11. A acolhida do pluralismo de princípio é uma condição essencial para o verdadeiro diálogo interreligioso. Não há como dialogar verdadeiramente com o outro desconhecendo a riqueza e o valor irredutível de sua dignidade religiosa.

12. Fixar-se numa única tradição religiosa, excluindo-se da provocação criadora da interlocução da alteridade, é deixar escapar bens preciosos que irradiam na dinâmica reveladora de Deus, sempre em ação na história.

13. O reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva à identidade, facultando a abertura para novas e enriquecedoras dimensões da própria fé.

14. Longe de enfraquecer a fé, o diálogo verdadeiro abre horizontes novos e fundamentais para a sua afirmação num mundo plural.

15. A acolhida do pluralismo de princípio requer não apenas o diálogo entre as religiões, mas também a abertura e aprendizado com outras formas de opções espirituais, sejam religiosas, a-religiosas ou pós-religiosas.

Contribuição para o Fórum Mundial de Teologia e Libertação – Dakar, fevereiro de 2011: aqui

- Faustino Teixeira
Fonte: Amai-vos

domingo, 14 de agosto de 2011

Hoje tem missa da Pastoral da Diversidade em SP!

Clique na imagem para ampliar

Próxima missa da Pastoral da Diversidade, em São Paulo: 14/8, 17h
Mais informações: www.pastoraldadiversidade.com.br

sábado, 6 de agosto de 2011

Culto de aniversário da Comunidade Betel


Convidamos todos os nossos amigos a celebrar junto aos nossos irmãos da Betel seus 5 anos de aniversário!

sábado, 30 de julho de 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Nova York diz "sim" para o casamento gay

484 casais do mesmo sexo casaram ontem em Nova York - como, por exemplo, Phyllis Siegel, 76, e Connie Kopelov, 84, juntas há 23 anos. Não é uma bela imagem para começar a semana?


Outras fotos aqui.

Uma semana abençoada a todos! :-)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Católicos gays que amam a Igreja, em São Paulo

Foto: Sarah

É com imensa alegria que compartilhamos aqui esta novidade: nossos amigos paulistas estão se organizando e estruturando cada vez mais e acabam de lançar seu site, www.pastoraldadiversidade.com.br. É motivo de felicidade para nós reproduzir aqui, com grifos nossos, o texto que apresenta a proposta do grupo:

Somos um grupo de gays católicos de São Paulo, que sentiu a necessidade da criação de uma pastoral católica em nossa cidade, voltada à população gay (LGBT), seus familiares, e amigos.

Ao invés de nos queixarmos do fato de nossos pastores nos terem abandonado, resolvemos seguir o Evangelho e ser, uns para os outros, os pastores que nós queríamos que houvesse.

Temos uma dupla meta: criar um grupo, ou grupos, de estudo, partilha, oração, e reflexão, que nos amparem e fortaleçam como testemunhas católicas que nós, gays, também somos. Simultaneamente, queremos propor e executar alguns projetos pastorais naquele campo fértil que são as necessidades desatendidas dos nossos irmãos e irmãs.

Para dar alguns exemplos oferecidos pelos nossos membros:
- atenção às pessoas gays que estão vivendo a terceira idade;
- promoção humana e formação profissional dos garotos de programa, que são uma parte tão onipresente do nosso meio;
- prevenção às DST/AIDS, e acolhimento das pessoas vivendo e convivendo com HIV/AIDS em espaços religiosos;
- capacitação do clero, e agentes de pastorais sociais, em DST/AIDS, gênero e sexualidade;
- oferecer espaço e ânimo para pessoas dentro do clero e das lideranças leigas que buscam integrar a Fe Cristã, e a própria transparência como gays, mas que ainda temem viver à luz do dia;
- desenvolver, com a ajuda dos nossos irmãos que já tem experiência amadurecida, recursos para a preparação, celebração, e fortalecimento da vida conjugal dos casais do mesmo sexo.

Partimos do pressuposto de que ser gay é uma variante minoritária na condição humana, que não é patológica, e que ocorre regularmente. Esta constatação é demonstrada e confirmada pela imensa maioria dos estudos científicos das últimas décadas, e é aceita cada vez mais tranquilamente pela população em geral. Com isto, deixamos de lado a premissa, que prevalecia até pouco tempo atrás, de que o ser gay seria uma desordem objetiva, já que o ser humano seria intrinsecamente heterossexual. Reconhecemos, porém, que ainda é esta a premissa que marca as posições oficiais da nossa Igreja, e que isto torna difícil ao nosso clero falar publicamente e de maneira construtiva neste campo.

É evidente que as conseqüências morais, espirituais, e psicológicas, que fluem de cada uma destas premissas são bem diferentes. Para quem se deixa guiar pela segunda premissa, ser gay é doença, defeito ou vício, a ser suportado ou superado, e a resposta pastoral tenta oferecer os meios para facilitar esta vivência. Para quem se reconhece na primeira premissa, como é o nosso caso, o ser gay forma parte daquilo que é dado para levar a pessoa ao florescimento humano mais completo, e a resposta pastoral busca entender e facilitar este florescimento.

Acreditamos que não devemos temer a verdade sobre o ser humano, que está no processo de se revelar, produzindo neste campo mudanças rápidas na compreensão daquilo que somos. Por isto, não estamos buscando aprovação ou apoio de nossas autoridades eclesiásticas para nossa pastoral, por enquanto. Esperamos que, eventualmente, elas nos reconheçam como sendo da família, mas percebemos dois grandes desafios antes que isto aconteça:

- que nosso grupo produza frutos que sejam reconhecidamente do Evangelho;
- que pelo menos alguns elementos eclesiásticos se sintam com liberdade para poder conversar honestamente, e em público, sobre as realidades em questão.

Confiamos ao Espírito Santo, força motora da verdade que libera, o empenho construtivo nestes campos.

Não temos nenhum desejo de “aparecer”, nem de formar um grupo que protesta, ou reivindica direitos, ainda que muitos dos nossos membros, a título pessoal, ou por motivos profissionais, atuem em diversos campos políticos e culturais. A nossa meta enquanto membros da Pastoral da Diversidade é deixar que Jesus, de cujo amor sem ambivalências para conosco não duvidamos, enriqueça e transforme a nossa vida enquanto pessoas gays, por meio do Evangelho e dos sacramentos. E mais: que Ele nos anime, começando a partir do jeito que somos, a estender a mão para construir mais alguns sinais do Reino dentro de nossa cidade.

São Paulo, junho de 2011

* * *

Que as bênçãos de Deus os iluminem em seu caminho. Aleluia! 


Quem tiver interesse, pode entrar em contato com o grupo pelo e-mail diversidadecatolicasp@yahoo.com.br

domingo, 26 de junho de 2011

"Não é preciso ser diferente para ser gay"

Foto: LUMAS

Reproduzimos a seguir artigo publicado hoje na Folha de S. Paulo, reproduzido aqui via Conteúdo Livre. E você, o que acha?

Os homossexuais podem se tornar invisíveis. É só saberem dissimular ou mentir. Quando a primeira Parada Gay de São Paulo surgiu, um de seus objetivos era, justamente, dar visibilidade à parcela da comunidade LGBT que queria afirmar sua existência e entabular um diálogo com a sociedade.

O viés era político. O slogan da parada, "Somos muitos e estamos em todas as profissões", equivalia a uma apresentação. Os manifestantes queriam mostrar quem eram e o que faziam. Reclamavam participação no processo jurídico-social e pediam proteção contra o preconceito e a discriminação. Eram 2.000 pessoas, e o ano era 1997.

Desde sua primeira edição, no entanto, o aspecto político do evento foi cedendo espaço ao carnavalesco. A Parada Gay de São Paulo transformou-se em uma grande festa. A maior de seu gênero no mundo. Atrai número de pessoas equivalente à população do Uruguai.
Movimenta centenas de milhões de reais. A expectativa é de que traga mais de 400 mil turistas à cidade.

Explica-se o fenômeno da carnavalização da Parada com o argumento de que os gays são "divertidos". A utilização desse estereótipo, contudo, contribui para mascarar a irresponsabilidade cívica e a alienação política de parte da comunidade LGBT.
Carnavalizar é fácil e agradável, mas é contraproducente.

O estilo exagerado que alguns participantes preferem adotar é legítimo e respeitável. Mas presta um desserviço para o avanço dos direitos à igualdade. O caráter festivo e a irreverência tiveram valor simbólico em um tempo em que a rejeição social contra a homossexualidade era incontornável. Acontece que as coisas mudaram.

Os milhões de pessoas que comparecerão ao evento na avenida Paulista deveriam ter presente a responsabilidade cívica de conquistar corações e mentes para a sua causa. O aspecto político da Parada exige certa sobriedade, ao menos em respeito às vítimas cotidianas da homofobia, no Brasil e no mundo. Hoje, o peso do discurso político tem de ser maior que a vontade de dançar.

A aceitação da homossexualidade pela opinião pública está vinculada à convivência com pessoas abertamente gays. Mostrar-se é importante. Nessa batalha, é mais estratégico exibir a semelhança. É mais difícil para o mundo identificar-se com o ultrajante.

Não se trata de exibir a orientação sexual, mas de garantir o direito pleno à liberdade de exercê-la. Associar o conceito da homossexualidade à transgressão e ao excesso pode ter valor estético, mas tem efeito negativo sobre o ritmo do processo político.

Para gente que cresceu com uma escala de valores antagônica aos direitos humanos dos LGBT, o comportamento escandaloso exibido tradicionalmente nas paradas equivale à retórica raivosa de um Jair Bolsonaro. O papel da Parada é mostrar que os homossexuais são serem humanos comuns, que têm direito a proteção e respeito, como qualquer outro cidadão.

Ninguém precisa ser diferente para ser gay. Não é necessário transformar-se na caricatura de si mesmo.

- Alexandre Vidal Porto, mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA), é diplomata de carreira e escritor.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Parada Gay de SP comemora 15 anos e convoca todos os participantes para dançar a valsa de debutante



Foi divulgado nesta segunda-feira (20) um convite através de vídeo, convocando os participantes da Parada do Orgulho LGBT a dançarem a tradicional valsa de debutantes ao som de Danúbio Azul em comemoração aos 15 anos do evento.

A idéia é dançar com quem estiver ao lado quando a música tocar, no que pode ser o maior flash mob do gênero. A música será reproduzida pelos 17 trios elétricos da festa, mas em uma versão remixada assinada pela DJ Ana John.

“Não queremos nada muito longo, só registrar esse momento importante”, fala Ideraldo Luiz Beltrame, presidente da APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo).

O filme Valsa pela Diversidade, gravado no cruzamento da Avenida Paulista com a Rua Augusta, mostra os atores Ricardo Ramory e Rodrigo Feldman se encontrando no meio da faixa de pedestres e valsando solenemente.

“Queríamos um vídeo que não agredisse ninguém, mas que tivesse o espírito da parada, de lutar contra a homofobia”, explica Regina Campos, sócia da Na Laje Filmes, responsável pelo filme encomendado pela Artheventos.

Os produtores esperam entrar para o Guinness com o maior número de casais dançando valsa em público.

A valsa acontece neste domingo, dia 26, a partir das 13h30. Confira o vídeo e participe.

- Fonte: Do lado

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Semana da Diversidade na PUC-Rio


O Pe. Luís Correa Lima, que participará da mesa-redonda sobre diversidade sexual, tem um consistente trabalho pastoral e acadêmico sobre esse tema. Sobre o filme Assim me diz a Bíblia, que será exibido na oficina de combate à homofobia, já falamos aqui. Para quem puder, vale a pena conferir. Para quem não puder, vale divulgar!

domingo, 29 de maio de 2011

Uma caminhada pelo respeito e pela diversidade

Foto: Diversidade Católica


Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

- Geraldo Vandré, "Pra não dizer que não falei das flores"

Que estes tenham sido os primeiros passos de uma longa e prolífica caminhada pelo respeito às diferenças e a valorização da diversidade... :-)

Dezenas de pessoas caminharam pela orla da Praia de Ipanema, na zona sul do Rio, na manhã deste domingo, em uma manifestação contra a decisão da presidente Dilma Rousseff de suspender a distribuição do kit anti-homofobia nas escolas públicas do país, anunciada na quarta-feira (25).

A caminhada foi organizada por grupos gays das igrejas católica e evangélica, que carregavam faixas e cartazes pedindo uma educação mais inclusiva.

Membro do grupo Diversidade Católica, formado por gays católicos, Juliana Luvizaro disse que a passeata tinha a proposta de chamar a sociedade para discutir a questão do homossexualidade nas escolas, que não é tratado de maneira responsável e cidadã.

"Ninguém transforma ninguém em gay. Assim como não se pode transformar um gay em heterossexual. Pedimos uma educação inclusiva dentro de casa e na escola, porque a violência contra alunos que se descobrem homossexuais ou transexuais é grande e o número de evasão escolar dessas crianças é enorme."

Juliana afirmou ainda esperar que Dilma Rousseff reformule o kit para que atenda a todas as camadas da sociedade, mas que o material não deixe de ser oferecido nas escolas.

"O kit foi feito com a ajuda de diferentes grupos da sociedade e foi aprovado pela Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação]. Trata-se de um material para ajudar o educador e os alunos a praticarem o respeito à pluralidade e às diferenças.

O consultor financeiro Renato Roizenblit, que passeava no calçadão da Praia de Ipanema com a esposa Daniele e a filha Raíssa, de um ano, comemorou a iniciativa. "Essa passeata deveria ter acontecido há muito tempo, mas antes tarde do que nunca, né? A gente tem que educar as pessoas para aceitarem as diferenças", disse.

O kit anti-homofobia suspenso inclui um caderno com orientações para professores, uma carta para o diretor da escola, cartazes de divulgação nos murais do colégio, boletins para os alunos e gravações em vídeos.


Fonte: Folha de S. Paulo

* * *

Atualização em 30-05-11:
Vale conferir o depoimento de nosso amigo André Sena, da Comunidade Betel: "Quando os números não contam".

sábado, 28 de maio de 2011

EuroPride 2011


Uma graça essa animação, que venceu o concurso de vinhetas para a EuroPride 2011, mega evento gay que este ano acontecerá entre 1º e 12 de junho em Roma, com uma grande parada do orgulho gay no dia 11.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Igreja de peito aberto para as minorias


Dia 13 de maio de 2011, o jornal O Globo publicou a entrevista com frei Gilvander Moreira sobre a decisão do STF que reconheceu juridicamente a União Civil Homoafetiva.

A entrevista enviada, via e-mail, para o jornal não foi publicada na íntegra. Vários cortes foram feitos.

Eis, abaixo, a íntegra da entrevista enviada por Frei Gilvander Moreira, reproduzida via IHU com grifos nossos.

Frei Gilvander Luís Moreira é padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis a entrevista.

Como o senhor recebeu a decisão do STF?

Com alegria, pois é uma vitória dos Movimentos e Grupos que historicamente vêm lutando pelo direito à liberdade sexual homossexual. Nesse caso, o STF posicionou-se com justiça e equidade. A sociedade está em constante transformação, e esse grupo em questão existe e está no dia a dia vivendo e construindo suas relações à margem da sociedade. Devido a isso o Direito não podia mais se esconder ou pôr uma venda e continuar negando esse direito para as relações homoafetivas. Nesse caso, o STF deu exemplo de coragem e cidadania. Tornou-se visível o invisível. Declara-se assim o início do fim da hegemonia da moral heterossexual. Abre caminho para a afirmação à luz do dia das mais de 60 mil uniões estáveis entre homossexuais no Brasil (Cf. último Censo do IBGE) que até aqui pagavam um altíssimo preço pela sua orientação sexual.

Dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal, ao decidir por unanimidade reconhecer, juridicamente, a união civil homoafetiva, reconheceu como legítimas e constitucionais decisões que já acontecem em dez estados brasileiros em 1ª e 2ª instâncias e em mais de vinte países. Nessa decisão, o STF está de parabéns. Esperamos que assim prossigam as decisões do Supremo, pois em muitas outras decisões, o STF não tem seguido os princípios constitucionais do respeito à dignidade humana, do republicanismo, da função social da propriedade... deixando campear pelo Brasil uma série de injustiças estruturais, tais como a falta de reformas agrária e urbana.

Como o senhor vê hoje a situação dos homossexuais no Brasil?

Segundo o pesquisador Luiz Mott (prof. emérito da UFBA), o mais preocupante é que o registro de violência contra a população LGBT vem aumentando ao longo dos anos. “Nunca se matou tanto homossexual no Brasil quanto agora”, afirmou.

De janeiro a novembro de 2010, Luiz Mott contabilizou 205 assassinatos entre a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) no País.

Mott, que faz o levantamento desse tipo de crime desde 1960, relatou que, entre 1960 e 1969, foram 30 ocorrências; na década seguinte, chegaram a 41. De 1980 a 1989, o número de registros chegou a 369; saltou para 1.256 nos anos 90 e atingiu 1.429 casos na primeira década deste século. Estima-se que o número de casos de discriminação da população LGBT atinge entre 10 mil e 12 mil por ano no País.

O senhor considera a sociedade brasileira preconceituosa e intolerante?

Infelizmente estamos sim numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica. Ainda há muito moralismo, fundamentalismos e sectarismos em segmentos conservadores de igrejas e da sociedade que ficaram irritados e questionam o acerto da decisão do STF. No último censo do IBGE foi declarado que há mais de 60 mil uniões estáveis homoafetivas no Brasil. O movimento que defende os direitos dos homossexuais está crescendo, o que é muito bom. Na decisão do STF - que reconheceu a união civil entre as pessoas do mesmo sexo - não se pode deixar de destacar e parabenizar a luta do Movimento pelos direitos dos homossexuais, que incansavelmente, no Brasil e no mundo, vem marchando pelas ruas, erguendo suas bandeiras, gritando de diferentes formas o direito que agora é reconhecido. Os ministros do STF não criaram uma novidade, mas em cada voto ecoaram os clamores das pessoas homossexuais que lutam pela afirmação de seus direitos há tanto tempo.

O senhor já ouviu confissões de pessoas que se declararam homossexuais? Que conselhos costuma dar para as que reclamam de preconceito?

Eu já ouvi sim confissões de pessoas homossexuais. Uma, por exemplo, chegou e me disse: “Gostei muito da sua homilia na missa de ontem. Por isso resolvi vir confessar. Frei Gilvander, ser homossexual é pecado?” Diante de uma pergunta tão direta assim ainda no início da confissão, percebi que tinha que conversar antes de responder sim ou não. A pessoa acabou me dizendo que após refletir muito tinha resolvido contar para a família que estava assumindo a orientação sexual homossexual. Disse que estava sofrendo muito, sendo discriminado pela família, por colegas na escola, nas ruas, por onde ia. Disse que resolveu me perguntar se era ou não pecado, porque tinha lido em um livro da Renovação Carismática onde se dizia que não era pecado ser homossexual, desde que não colocasse em prática o sentimento. Ele me disse que não tinha como não colocar em prática. Por isso queria saber se é ou não pecado, pois se for pecado, preferia suicidar a ter que viver sendo discriminado e humilhado.

Ouvi e conversei com essa pessoa mais de uma hora. Eu disse a ela que se o elo mais forte de uma corrente é o elo mais fraco, só poderá ser mais justo e aplaudido por Deus, um mistério de amor que nos envolve, o que for tratado a partir do elo enfraquecido e discriminado. Numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica, os homossexuais são um dos elos discriminados. Feliz do povo que houve os clamores dos que fazem outra opção sexual senão a hegemônica. Quanta dor! Quanta lágrima derramada! Quanta cruz carregada! Deus ouve os clamores de todas as pessoas que são oprimidas. Deus é amor e não discrimina ninguém e nem pune ninguém por opção ou orientação sexual. Deus não faz acepção de Deus. Deus acolhe a todos sem distinção.

Eu disse ainda que devemos respeitar todos, mas não podemos respeitar todos da mesma forma. Devemos respeitar as minorias - sem terra, mulheres, negros, deficientes, idosos, indígenas, homossexuais, sem casa etc – nos colocando na e da perspectiva deles para a partir deles nos posicionar sobre o que deve ser considerado justo e ético. E devemos respeitar os diferentes que estão na classe dominante – latifundiário, machistas, racistas, “normais”, fortes, brancos, heterossexuais, especuladores etc – fazendo de tudo para retirar das mãos deles as armas de opressão com as quais discriminam, muitas vezes, inconsciente e involuntariamente.

Sentindo-se compreendida e acolhida, a pessoa desistiu do suicídio. Ergueu a cabeça, levantou-se e foi embora.

A união civil entre pessoas do mesmo sexo ameaça a instituição familiar?

Penso que não por vários motivos. São minorias e há uma grande pluralidade de famílias hoje. Há familias tradicionais; famílias só com mãe e filhos (monoparental); 80 mil famílias sobrevivendo debaixo da lona preta em acampamentos clamando por reforma agrária; milhares de famílias que sobrevivem apertadas em um único quarto de cortiço; milhões de famílias arrochadas em barracos nas favelas; famílias só “marido e mulher” sem filhos etc. Por que não pode haver também famílias homossexuais? Por moralismo? Mais: concordo com Gerson Henrique, que, em monografia sobre Famílias Reconstituídas, pondera: “Sendo o Brasil um estado laico, que consagra o pluralismo, o respeito à diversidade e a autonomia da pessoa, não é coerente que a ordem infraconstitucional estabeleça modelos ideais de família, excluindo outros já existentes no cenário social. Uma vez reconhecida a autonomia da pessoa na formação da sua família e a natureza sócio-cultural desta, o ordenamento jurídico terá de reconhecer-lhes os efeitos apesar dos matizes com as quais se apresentar. Importa destacar o vínculo afetivo e o reconhecimento de pertença dos membros ao grupo por eles designado como família.” No Direito de Família contemporâneo existe uma crescente abertura às distintas modalidades de constituição familiar e a dimensão do afeto é muito considerada na hora de reconhecer direitos, o que considero pertinente eticamente.

Como o senhor entende as referências diretas ou indiretas da Bíblia sobre o tema? Ser homossexual é ser impuro, como sustentam os mais conservadores?

Na Bíblia, o primeiro relato da Criação (Gênesis 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado e interconectado a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Nas ondas da evolução, Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O livro de Atos dos Apóstolos resgata, nas primeiras comunidades cristãs, essa mística ao dizer que não há nada impuro. Tudo é puro, é sagrado. Deus não faz acepção de pessoas, não discrimina. O apóstolo Pedro ressalta a ordem divina de não chamar de profano ou de impuro nenhuma pessoa (Atos dos Apóstolos 10, 28). Pedro muda de atitude e passa a perceber que Deus não faz discriminação de pessoas. O importante é a prática da Justiça (Atos dos Apóstolos 10,34-35). O autor da Carta de Tiago nos alerta que Deus não faz distinção de pessoas, mas faz opção pelos pobres. Não é tolerável rico discriminar pobre. (cf. Carta de Tiago 2, 1-9). Numa sociedade hegemonicamente heterossexual, os homossexuais são pobres. Por isso, devem ser respeitados e compreendidos.

Como o senhor avalia o desempenho do movimento gay no Brasil?

Já evoluiu bastante, mas não pode ficar só nas reivindicações corporativistas, ou seja, defendendo só os direitos deles. É preciso se aliar aos outros movimentos populares que lutam pela construção de uma sociedade justa, solidária e sustentável ecologicamente. Fará um bem enorme ao povo quando os vários movimentos populares, que lutam pelos direitos das minorias - que numericamente são maiorias -, atuarem em unidade e solidariamente: os movimentos dos Sem Terra, dos negros, dos indígenas, dos sem casa, dos deficientes, dos homossexuais, dos desempregados etc, enfim, toda a classe trabalhadora unida e lutando pelos direitos de todos, defendendo toda a biodiversidade e construindo uma sociedade em que caibam todos.

A postura da Igreja em determinadas questões atrapalha a conversão de novos fiéis?

igrejas e não apenas igreja. Por exemplo, na Igreja católica há Igreja instituição - diáconos, padres, bispos e papa – e há a igreja que é povo de Deus. É óbvio que quando membros da Igreja instituição se posicionam de forma moralista, proselitista e autoritária afugentam muitas pessoas. Mas quando membros da igreja ouvem, dialogam e, inspirados no evangelho de Jesus Cristo, testemunham um projeto de vida que busca realizar o grande sonho do Deus da vida, que é vida e liberdade em abundância para todos e para toda a biodiversidade, aí, sim, cativam muitas pessoas para se engajarem em projetos humanizadores.

O que o senhor tem a dizer sobre o uso da camisinha?

É claro que devemos preservar a vida nossa, do próximo e de toda a biodiversidade. Para isso é necessário várias coisas. É necessário sim usar camisinha nas relações sexuais, por questão de saúde pública e por respeito à sacralidade de cada pessoa. Não podemos correr o risco de contrair HIV e/ou doenças sexuais transmissíveis que matarão o outro aos poucos. Isso não tem o apoio do Deus da vida. Mas camisinha não é panacéia para todos os males. Além do uso da camisinha, é necessário, para preservar a vida das pessoas, realizar reformas agrária, urbana e educacional. É preciso mudar o modelo de programação televisiva e dos meios de comunicação. Enquanto houver o sexismo, imoralidades e erotismo sendo trombeteados aos quatro ventos através de novelas e filmes, reduzindo a mulher a objeto, infelizmente só usar camisinha será um paliativo. É preciso educação de qualidade e elevar o nível cultural da sociedade. Estrangular o narcotráfico e mudar a política econômica destinando a maior fatia do orçamento do país, não para pagar dívida pública e investir em infraestrutura que viabilize crescimento das grandes empresas, a fina flor do capitalismo, mas investir pesadamente nas áreas sociais. Isso tudo junto com os uso da camisinha poderá nos levar a vida com mais dignidade.

Sua posição a respeito de tais temas é solitária na Igreja?

Não. Há muitos teólogos e teólogas, cristãos e cristãs, que partilham conosco essas posições. Todo o povo da igreja que participa da Teologia da Libertação. Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, pastorais sociais e muitos movimentos eclesiais. Na Igreja Instituição há membros que comungam conosco dessa visão mais compreensiva com os direitos das minorias e há também outros profissionais do sagrado que ficam indignados com essas posturas mais ecumênicas e proféticas.

O que ainda há a ser feito pelo direito das minorias no país?

A luta continua. Luta contra a homofobia, o preconceito e o conservadorismo que só excluem e negam a liberdade e a dignidade constitucionalmente garantidas e biblicamente amparadas. Faz-se imprescindível, como ensinou Paulo Freire, educar para a indignação. Indignação diante das injustiças sociais e das violações aos direitos humanos e planetários. Enfim, é ético seguir o seguinte princípio: No necessário, a unidade; no discutível, a liberdade; em tudo, o amor.

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Para quem quiser entrar em contato com Frei Gilvander:

E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Twitter: @gilvanderluis
Facebook: gilvander.moreira
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