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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Metafísica

Foto: Amy Hildebrand 

HÁ METAFÍSICA bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

- Fernando Pessoa
(Fonte: A fé absurda)

Minha fé não é aquilo em que acredito


Texto de Paulo Brabo, publicado simultaneamente no blog Bacia das Almas e na versão online da Revista Ultimato, em 21/09/2007:

A distinção mais útil que encontrei nesta caminhada foi a que estabeleceu Jacques Ellul entre fé e crença. Crença é aquilo que professamos acreditar; é o contéudo doutrinário peculiar à nossa facção religiosa, expresso com palavras muito bem escolhidas em nossas declarações de fé. Não há, por outro lado, conjunto de palavras suficiente para definir adequadamente a fé. Nossas crenças são passíveis de exposição, mas nossa fé é questão pessoal – seu conteúdo é o mistério tremendo, a tensão superficial entre eu e o universo, entre eu e o desconhecido, entre eu e o futuro, entre eu e a morte, entre eu e o outro, entre eu e Deus.

Os religiosos de todas as estirpes vivem em geral muito mais preocupados com as filigranas da crença do que com a vivência da fé – e posso dizê-lo por experiência própria. As divisões que fazemos questão de estabelecer entre a nossa e as demais facções da cristandade, e entre a cristandade e as outras heranças religiosas, estão fundamentados, naturalmente, em diferenças de crença. Às vezes dizemos que diante de Deus o desafio da fé é o mesmo para todos, mas agimos claramente como se nossa identidade de cristãos e de seres humanos fosse adequadamente definida pelo teor de nossas crenças. Sentimo-nos devidamente legitimados, devidamente representados, pela felicidade de pertencermos ao grupo ou denominação que professa (ao contrário, naturalmente, de todas os outros grupos ou denominações) a crença mais pura, destilada e correta. Fingimos que nos dobramos diante de Deus e de seu Cristo, mas nosso cristianismo é ortodoxolatria.

“A fé”, explica Ellul, “isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, falando o mesmo dialeto.”

Diante disso, sinto-me cada vez menos inclinado a responder aos que perguntam em que acredito, ou aos que levantam-se em indignação quando ouvem a temerária confissão de alguma crença minha (“O quê? O Brabo acredita na evolução?” “O quê? O Brabo não condena a fé dos católicos?” “O quê? O Brabo crê que igreja bem-sucedida é a que fecha as portas?” “O quê? O Brabo acredita em [inserir crença arbitrária aqui]“). Sinto-me cada vez menos motivado a responder aos que perguntam sobre minha tradição religiosa, a qual denominação pertenço, se faço parte de alguma igreja, se endosso determinado autor ou se fico devidamente escandalizado diante de determinada barbárie doutrinária.

Não devo iludir a mim mesmo ou a quem quer que seja dando a impressão de que resta algo de importância na vida espiritual (ou na vida) que não seja a fé, e – minha gente – minha fé não é aquilo em que acredito. Minha fé não está naquilo em que acredito, e nem poderia estar. Minha fé não é adequadamente expressa por aquilo em que acredito, e nem poderia ser.

Em primeiro lugar, porque minhas crenças mudam, mesclam-se e transformam-se constantemente. Minhas crenças nascem, reproduzem-se e morrem num plano totalmente independente do desafio que está na fé. Em segundo lugar porque, como lembra Ellul, “toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião”. Quem pergunta aquilo em que acredito está tentando estabelecer comigo a mais rasteira das conexões; está querendo legitimar a sua crença a partir da minha, e isso não tem como ser saudável para ninguém.

Quem se abraça dessa forma à crença está buscando, evidentemente, o conforto do terreno conhecido e palmilhado. “A crença é confortadora”, observa Ellul. “A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura”. A fé, por outro lado, é coisa terrível, a que ninguém em são juízo deveria aspirar. A fé deixa-me sozinho com um Deus que pode não estar lá. A fé convida-me a um grau de liberdade que posso não ter o desejo de experimentar. A fé quer tirar-me da zona de conforto da crença e levar-me para regiões de mim mesmo e dos outros aonde não quero ir. A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A crença explica sensatamente aquilo em que acredito, a fé exige loucamente que eu prove.

Nossas crenças são âncoras de legitimação, que nos mantém seguros no lugar mas nos impedem de seguir adiante – o que, convenhamos, é muito conveniente. Quem iria em sã consciência escolher abandonar o abraço confirmatório da crença comum e dar um passo em direção à vertigem da fé, ao desafio de tornar-se um indivíduo separado, distinto e singular (numa palavra, santo) diante de Deus? Queremos voltar para o Egito, onde havia cebolas; não suportamos o desafio constante, sempre iminente, sempre exigente, do deserto.

Não tenho como recomendar a crença; sua única façanha é nos reunir em agremiações, cada uma crendo-se mais notável do que a outra e chamando o seu próprio ambiente corporativo de espiritualidade. Não tenho como endossar a crença; não devo dar a entender que a espiritualidade pode ser adequadamente transmitida através de argumentos e explicações. Não devo buscar o conforto da crença; o Mestre tremeu de pavor e não tinha onde reclinar a cabeça. Não devo ouvir quem pede a tabulação da minha crença; minha fé não é aquilo em que acredito.

Nunca deixa de me surpreender que para o cristianismo Deus não enviou para nos salvar um apanhado de recomendações ou uma lista suficiente de crenças, mas uma pessoa. Minha espiritualidade não deve ser vivida ou expressa de forma menos revolucionária. Não pergunte em que acredito. Mande um email, pegue uma condução, venha até minha casa, tome um café na minha mesa e aceite o meu abraço. Não devo esperar ato maior de fé, e não tenho fé maior para oferecer.

Leia também:
"Fé e crença", Jacques Ellul

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O sândalo e o machado

Imagem daqui

Do Pastor Ricardo Gondim, via PavaBlog:

Doces lembranças me ligam à casa da vovó. Mergulho nos porões mais remotos da infância e lá, na pequena casa de vila, encontro meu natal colorido, minhas inquietações adolescentes, minhas viagens juvenis. Numa estreita moradia de Fortaleza, meia parede, experimentei o carinho de tios e tias. No bairro de nome doce, Gentilândia, acordei para a vida. Estranho, sempre chamei casa da vovó, nunca casa do vovô.

Amei minha avó materna. Ela me embalava na rede para dormir, contava histórias de fadas; por suas mãos, fui levado ao mundo corajoso dos cangaceiros. Vovó me encantou; conhecia os seres que povoam o mundo mágico do matuto cearense. Sem exagero: Vovó Maria Cristina Sales Gondim foi a mulher mais doce e, ao mesmo tempo, mais determinada e firme que já conheci.

Sua casa era pequena, mínima: sala de visita e jantar juntas; dois quartos para o lado esquerdo de quem entra; no fundo, cozinha e banheiro diminutos. Quando a ditadura militar prendeu papai, nos vimos obrigados a morar nesse aperto.

Só havia duas camas na casa – e somávamos 13 almas. Eu dormia de rede. Depois que todos se acomodavam, pendurava os punhos nos ganchos que atravessavam a sala, e procurava apagar.

Sempre que alguém se mexia, ouvia o ranger doloroso das outras redes. As caladas da madrugada me metiam medo. Aquele barulho, que mais parecia um choro, amedrontaria qualquer insônia. Repousávamos amontoados – as redes se entrelaçavam, umas por cima das outras. Com o tempo, aprendi a reconhecer o fôlego de todos. De portas fechadas, com uma janela apenas, a casa esquentava. Eu ressentia, naquele calor, o forje do amor. A sala era forno e nos fundiamos uns nos outros. Viramos uma grande família.

Depois de vários anos, visitei vovó. Ela já não morava na mesma vila. Idosa e cansada, vivia com uma tia. Vovó gostava de conversar comigo. Por vezes implorava por minha companhia. E eu, absurdamente idiotizado pelo idealismo religioso, esquecia; varava semanas sem aparecer.

Numa tarde, fui ver-lhe. Péssimo dia para visitar uma pessoa querida; eu estava com raiva. Fora traído por pessoas mesquinhas há pouco. Sem me dar conta, comecei a despejar um rancor bolorento na vovó.

Como eu estava amargo! Havia esquecido que ódio guardado apodrece, vira amargura. Falei para ela do quanto desejava uma vingança divina. Enquanto debulhava ira, me desfigurava. Rancor deforma. Eu esquecera de escalar um sentinela para os lábios; e vomitei toda a ira que trouxe comigo.

Sem me repreender, ela perguntou:

–Você se lembra do quadro que ficava pendurado no quarto lá de casa?
– Claro – respondi. Ele é uma das boas recordações daqueles dias.

Um quadro tridimensional bem pequeno ficava pendurado no primeiro cômodo da casa. Nele, havia a miniatura de uma tora de árvore. Um machado cravado, feria o caule. Por cima, a frase: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

Vovó não disse mais nada. Eu me calei. Dei-lhe um beijo na testa e parti. Nunca mais fui o mesmo.

Passados tantos anos, ganhei uma talha de madeira que virou sacramento de uma verdade, que espero reproduzir na vida dos meus netos. A talha se parece com o quadro, e tem a mesma inscrição: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem… Não retribuam a ninguém mal por mal”. – [Romanos 12.14 e 17]

Soli Deo Gloria

Uma carta do papa em 2020

Foto daqui

No livro The content of faith, do teólogo jesuíta Karl Rahner (1904-1984), organizado a partir de seus escritos, consta o trecho abaixo, intitulado "Uma carta do papa em 2020". Expressa-se nele a profecia do pensamento de Rahner, em um artigo que oferece um vislumbre de esperança de que, um dia, algum papa será suficientemente corajoso para enviar tal carta à Igreja e ao mundo.

Este breve ensaio parece ser particularmente relevante neste momento na história, em que as rodas parecem estar caindo do carro institucional mais seriamente do que em qualquer momento anterior. O que Karl Rahner escreve aqui se encaixa muito bem com os muitos pensamentos já publicados nos últimos tempos, incluindo os de Dom Geoffrey Robinson.

O artigo foi publicado no sítio australiano
Catholica, 03-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Embora eu não atribua a nenhum dos meus antecessores, ou ao menos aos meus predecessores imediatos, uma falta de humildade e de modéstia, parece-me que hoje um papa [no ano 2020] pode, até mesmo publicamente, fazer esta autoavaliação crítica mais claramente do que costumava ser feita. Pessoas importantes na história do mundo e da Igreja costumaram ter a ideia de que a sua autoridade legítima se colocaria em risco se deixassem seus "súditos" ver que eles também eram apenas seres humanos que cometiam erros. Era somente após a sua morte que os historiadores da Igreja eram autorizados a descobrir falhas, erros ou hesitações em um papa.

Mas, se eu estou convencido de que, mesmo como papa, eu continuo sendo um ser humano que irá cometer falhas, talvez até mesmo graves, por que não me seria permitido reconhecer isso mesmo durante a minha vida? Será que a mentalidade de pessoas que realmente não importam tanto hoje é a de que a autoridade não sofre danos, mas ao contrário lucra quando o seu portador admite abertamente as limitações de um pobre e pecador ser humano, e não tem medo de reconhecê-los? Por enquanto, ao menos, estou disposto a ouvir discussões públicas em minha presença, eventualmente para aprender com os outros e para reconhecer que eu aprendi.

Mesmo como papa, eu gostaria de continuar aprendendo. Deixe que as pessoas percebam que um papa pode errar, cometer equívocos, estar mal informado e escolher o tipo errado de assistentes. Tudo isso é evidente, e eu acredito que nenhum papa recente duvidou seriamente disso. Mas por que tal evidência deve permanecer oculta e encoberta? Pedro permitiu que Paulo o confrontasse frente a frente, e eu suponho que Pedro reconheceu que Paulo estava certo. Mesmo hoje, um papa pode se permitir algo desse tipo. Eu, pessoalmente, reivindico esse direito e estou disposto, se necessário, a permitir que a minha autoridade sofra uma perda, o que seria meu dever aceitar.

Eu não deverei ser um grande papa. Eu não tenho os meios para isso. Portanto, não vou ter um complexo de inferioridade se eu parecer bastante modesto em comparação com os grandes papas do século XX. Para mim, isso parece ser providencial. Tenho a sensação de que, através da sua grandeza, esses papas tiveram uma influência na Igreja que provavelmente nunca pretenderam ter e que teve seu lado questionável, uma influência que eu vou tentar compensar com o meu pontificado mais modesto.

Não é verdade? Esses papas não fomentaram involuntariamente uma mentalidade na Igreja que superestima a função apropriada do papa, de acordo com o dogma e de como ela foi na maior parte da história dos papas? Essa mentalidade não implica que um papa deva ser, em todos os aspectos, o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais pernate o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens ?

Eu não vou me tornar um papa desses e não considero necessário isso a todos. O papa tem uma tarefa na Igreja que é estritamente limitada, apesar da jurisdição universal e da plenitude da autoridade de ensino mencionada pelo Concílio Vaticano Primeiro. Vou exercer essa plenitude de poder, mas dentro dos limites impostos sobre mim pelas limitações da minha própria natureza. Isso e nada mais.

Eu não vou ser o mais santo da Igreja. Perante Deus, eu sou menos do que os santos que vivem hoje na Igreja, aqueles que rezam em silêncio, aqueles que são misticamente arrebatados, aqueles que perecem por causa de sua fé nas prisões dos inimigos de Cristo e da Igreja, aqueles que amam altruisticamente, como Teresa de Calcutá, todos os heróis desconhecidos e não recompensados do dever e da abnegação cotidianos.

Ninguém pode negar que até mesmo um Inocêncio III empalidece diante de Francisco de Assis, e que os papas Pio dos dois últimos séculos são menos importantes do que um Cura d'Ars ou do que uma Santa Teresinha de Lisieux. Você podem dizer, é claro, que eu estou comparando realidades que não podem ser comparadas. No entanto, na vida da Igreja e diante do tribunal eterno de Deus, santos e grandes teólogos como um Tomás de Aquino ou um John Henry Newman são mais importantes do que a maioria dos papas, e sobretudo mais importante do que jamais vou ser.

Há muitos carismas na Igreja, e o papa não tem todos em si mesmo. Se é verdade que podemos realmente compreender apenas os nossos próprios carismas, então até mesmo um papa deve dizer a si mesmo que ele não pode avaliar tudo o que vive na Igreja, e que só Deus, e não o papa, se encontra onde tudo o que é bom e santo na Igreja se funde em uma sinfonia perfeita.

É por isso que nenhum dano será feito se o meu pontificado corrigir, em certa medida, a mentalidade dos cristãos piedosos que equivocadamente esperam dos papas aquilo que eles podem receber apenas dos santos e das grandes mentes da Igreja e, possivelmente, de si mesmos.

Será que há cristãos, e talvez papas, que se lembram de que, ao rezar o Pai Nosso com esperança impaciente pela vinda do reino eterno de Deus, eles estão rezando também pelo fim do papado?

terça-feira, 15 de maio de 2012

Não temos medo de pensar. Temos medo de não amar.

Foto: David Talley

Texto escrito a quatro mãos por Lucas Lujan e Suênio Alves e publicado no extraordinário blog Fora da Zona de Conforto em 4 de agosto de 2009. Fica para reflexão... :-)

Não temos medo de (re)pensar conceitos sobre Deus. Temos medo de não (re)amar como Cristo, quem na realidade não amamos: os mendigos, os pobres, os excluídos, os marginalizados, as crianças africanas, os homens e mulheres de Darfur.

Não temos medo de incertezas. Temos medo que nosso Amor deixe de ser nossa bandeira do Reino de Deus.

Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema.

Não temos medo de questionar dogmas. Temos medo de que os dogmas impeçam a transformação de vidas.

Não temos medo do inferno. Temos medo de que nossas mãos se fechem, e não possam ajudar o nosso próximo a sair de sua existência-inferno. Ou pior, que as nossas próprias mãos sejam as quais o empurra para esta existência-inferno.

Não temos medo de devanear teorias loucas. Temos medo que a loucura desse mundo violento cegue nossos olhos a ponto de sempre que pararmos num farol, nesta cidade-sombria, fechemos nossos vidros para a sinceridade dos filhos da injustiça.

Não entendemos como problema sair do molde da teologia sistemática. Temos medo de sistematizar Deus e modela-lo a algum padrão.

Nós não temos medo de chorar por nós mesmos. Nós temos medo de que não mais choremos o choro dos outros.

Não sentimos culpas pelas nossas dúvidas. Mas pedimos que nos lembre sempre de amar como Cristo.

Não temos medo ter uma fé cheia de espelhos em enigmas e despedaçada, que não tem a precisão de uma fé “face a face”. Temos medo de perder o que existe de mais precioso: Amar.

Não temos medo de balançar alicerces religiosos construídos por pensamentos humanos. Temos medo de perder a doçura e a simplicidade de Jesus.

Não temos medo de sermos rejeitados pela instituição. Temos medo da hipocrisia religiosa.

Não temos medo de sermos chamados de hereges. Temos medo de compactuar com o sistema religioso e seus interesses, e esquecermos de amar pessoas.

Não temos a pretensão que nossos argumentos tenham todos os versículos a favor, e assim entrarmos numa guerra de versículos. Temos medo que nós não cumpramos aquilo que Cristo chamou de o resumo da lei e dos profetas: Amar a Deus e ao próximo.

Não temos medo de nos manifestar a favor de alguém. Desde que esse alguém não se esqueça que o conceito central do cristianismo é o amor.

Aprendemos que não podemos ficar presos às amarras da religião e da instituição.

Aprendemos que Deus está acima da religião.

Aprendemos que no Reino não importa o que se pensa, importa o que se ama.

Aprendemos a olhar pessoas como “filhos de Deus”, e amá-las incondicionalmente.

Aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.

Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cardeal apela por uma Igreja aberta à diversidade e ao amor ao próximo

Imagem daqui

O cardeal D. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, propôs esta noite [ontem] no Santuário de Fátima um modelo de Igreja assente na abertura à diferença e no amor ao próximo.

Na homilia da missa, enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o prelado italiano recordou o excerto da Bíblia onde se narra a primeira conversão de um pagão ao cristianismo.


O especialista em estudos bíblicos apelou à superação de «distâncias e diversidades» e convidou as dezenas de milhares de fiéis a abraçarem o amor que penetra «nos caminhos obscuros da história, no subsolo do mal e do vício, no espaço do desespero e do ódio».

«Com ele [amor], entremos no horizonte gélido e sombrio do sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs, para aí acender a luz e o calor do amor que conforta e salva», disse.

D. Gianfranco Ravasi referiu-se também à Virgem Maria: «É ela que nos convida a acender a pequena vela do amor, em vez de pararmos a maldizer a noite do mal e do ódio que invade o mundo».

Segue a homilia na íntegra, aqui reproduzida via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal).


Caros irmãos e irmãs,

Através da Palavra de Deus, que ressoou nesta noite de oração e neste recinto sagrado, faremos agora uma outra viagem espiritual, mais longa do que a procissão que realizámos guiados por Maria. Três são as cidades do espírito onde juntos vamos parar: ali escutaremos três diferentes vozes, todas porém assinaladas pela mesma mensagem.

A primeira cidade debruça-se sobre o Mediterrâneo ao longo da costa da Terra Santa: é Cesareia Marítima, a sede do governador imperial da Palestina no tempo de Jesus. Entramos num dos palácios, na residência de um oficial romano, o centurião Cornélio. Ele é o primeiro pagão que entrará na nova fé cristã. Diante dele apresenta-se são Pedro que está para batizar aquele soldado de bom coração e justo bem como a sua família. As palavras do apóstolo são simples e essenciais mas abrem um horizonte que hoje se alarga até nós, vindos de povos e nações diferentes: "Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável" (Atos 10, 34-35).

O olhar amoroso de Deus estende-se sobre todas as criaturas porque, como se lê no livro da Sabedoria, "Tu, Senhor, amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste ... Tu és indulgente com todos, porque todos são teus, ó Senhor, amante da vida!" (11,24.26). Então, na casa daquele centurião, numa cidade elegante e mundana, sopra o vento do Espírito Santo: de facto, "o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a Palavra" (Atos 10,44). É o "Pentecostes dos pagãos" que abate "o muro de separação que os dividia" dos hebreus, como acontecia no templo de Jerusalém e como recordava o apóstolo Paulo escrevendo aos cristãos de Éfeso (2,14). Com Cristo, portanto, "não há mais Grego ou Judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou cita, escravo ou livre, o que há é Cristo, que é tudo e está em todos" (Co/. 4,11).
A nossa viagem conduz-nos, agora, à segunda cidade: talvez seja mesmo a esplêndida Éfeso onde Paulo tinha vivido momentos árduos da sua missão apostólica. A voz que agora ressoa é a de um outro apóstolo, João, no fragmento da sua admirável Primeira Carta proposto pela liturgia deste domingo pascal. Em Efeso e nas outras fascinantes cidades, que constelavam a costa mediterrânica da atual Turquia, tinha feito resplandecer o verdadeiro rosto de Deus naquela inesquecível definição que acabou de ser proclamada: " Deus é ágape, amor".

É um amor que irradia penetrando também nos caminhos obscuros da história, no subsolo do mal e do vicio, no espaço do desespero e do ódio. É um amor que se manifestou em Cristo, o Filho, que atravessou aquele mundo tenebroso de morte " para que tivéssemos a vida por meio dele", como diz são João. E porque Deus é amor, também nós "amemo-nos uns aos outros", superando distâncias e diversidades, como faremos daqui a pouco quando nos saudarmos no abraço da paz. Como ele, entremos no horizonte gélido e sombrio do sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs, para aí acender a luz e o calor do amor que conforta e salva.

E eis-nos chegados à última etapa, à cidade santa, Jerusalém. Subamos ao "andar superior" de uma casa, entremos numa "grande sala, preparada, já pronta" (Marcos 14,15). Estamos no Cenáculo. E a última noite da vida terrena de Jesus. Ele está a falar longamente com os discípulos durante a sua última ceia, a primeira da eucaristia. Também nos seus lábios ressoa repetidamente a palavra "amor" que nos acompanhou já em Cesareia e em Éfeso, mas agora brilha de uma forma total e absoluta.

Deixemo-la ecoar no nosso coração, enquanto somos envolvidos no silêncio desta noite. Connosco a escutar estas palavras está Maria, a estrela que preanuncia a aurora depois das horas noturnas do mal, do medo e da dor. Como recordava Lúcia nas suas Memórias, a Senhora de Fátima "difunde luz mais clara e intensa do que um copo de cristal, pleno de água cristalina, através dos raios do sol mais ardente". É ela que nos convida a acender a pequena vela do amor, em vez de pararmos a maldizer a noite do mal e do ódio que invade o mundo. Jesus fala-nos agora e repete: "Como o Pai me amou, também eu vos amei. Permanecei no meu amor... é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos... O que vos mando é que vos ameis uns aos outros" (João 15, 9. 12-12.17).

- D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura

domingo, 13 de maio de 2012

Amar!

Imagem daqui

Amar o outro, todo outro, gratuitamente. Como poderíamos excluir alguém por Amor? Isso seria uma contradição nos termos e uma incompreensão da missão que nos foi confiada. O Amor não é reciprocidade; ele é continuidade, fecundidade e gratuidade.

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 6º Domingo de Páscoa (13 de maio de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências Bíblicas:
1ª leitura: At 10,25-26.34-35.44-48
2ª leitura: 1 Jo 4,7-10
Evangelho: Jo 15,9-17

A uma semana da Ascensão, a segunda face da Páscoa, São João na segunda leitura e no evangelho de hoje nos lembra da essência do que nós nos tornamos por causa de Cristo: amor, e o essencial da fé cristã que é amar. O Pai ama o Filho, o Filho nos ama comunicando a nós o amor do Pai. Esse amor nos impulsiona a nos amarmos uns aos outros. Existe um vínculo tão íntimo entre Deus, Cristo e nós, que nós somos todos da mesma família.

1. Deus é Amor – Deus se define com uma só palavra: amor. Que bela definição de Deus dada por São João. Tudo começa aí... Deus primeiramente ama; ele é o fundamento de todo o Amor. O nosso se origina nele. Nós não existimos por nada... mas, por causa de Deus, nós somos capazes de nos tornar, nós também, todo Amor: “E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou” (1 Jo 4,10). O Amor de Deus se manifesta por Cristo: “Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo, para dar-nos a vida por meio dele” (1 Jo 4,9). São João nos faz ver também quem nós somos e quem é Deus: “Todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4,7)

2. Permanecer no Amor – No evangelho de São João, o verbo permanecer (demeurer) é muito importante. Ele significa: viver, ficar, partilhar, estar na intimidade daquele que ama. São João fala a todos os crentes de ontem e de hoje da fidelidade a um nome que é um lugar: uma moradia (demeure), e um rosto: o Amor. No fundo, nós cristãos, devemos ser moradias de Amor, e é o que Cristo veio nos ensinar na sua passagem, isto é, na sua Páscoa: a festa da passagem. O exegeta francês Jean Debruynne escreveu: “Jesus passa todos os dias deste mundo ao seu Pai e, porém, ao mesmo tempo Jesus fica (demeure). Trata-se, ao mesmo tempo, de ficar na passagem e de uma passagem que fica. Jesus não tem outra moradia (demeure) senão a passagem. Jesus fica passando porque, doravante, o único mandamento e a única fidelidade é amar. Deus não procura servidores ou empregados que não sejam importantes para ele. Deus procura amigos. Se Deus se faz homem, não é nem por interesse nem por benefício, mas é por paixão, é por Amor”.

3. Um Amor fecundidade – O Amor de Deus manifestado em Cristo não é primeiramente reciprocidade. Jesus não diz: Amem-me como eu amei vocês. Ele diz:
“Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12). O que quer dizer que nós devemos amar ao outro não para que ele nos ame, mas para que, por sua vez, ele possa amar mais alguém. Assim, o Amor não se merece, não se compra, não se ganha. O Amor se recebe para ser dado gratuitamente: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês. Eu os destinei para ir e dar fruto, e para que o fruto de vocês permaneça” (Jo 15,16). Não é um amor recíproco, interessado, mas sim um Amor gratuito, fecundo, que não cessa de crescer e de aumentar.
Santo Agostinho, no século IV, tinha compreendido isso. Ele distinguia três graus no ato de amor. Primeiro grau: “Amar ser amado”. É o grau mais baixo. Quem não gosta disso? Precisaríamos ser marionetes para pretender o contrário. Estamos todos incluídos nisso. É o amor narcisista. Segundo grau: “Amar amar”. É gostar de amar os outros. Nós esquecemos um pouco de nós mesmos; tornamo-nos generosos, altruístas. Fazemos a nossa boa ação, nos preocupamos com os outros, mas isso é gratificante, de maneira que um excesso nessa forma de amar pode se converter, às vezes, em uma forma megalômana de amor de si próprio. Terceiro grau: “Amar!”. Só isso. Amar simplesmente, amar o outro por ele mesmo, não para lhe fazer bem nem para fazer crescer as nossas virtudes... Não! Amar sem esperar nenhum retorno. Não amamos para... alguém ou algo. Amamos e ponto, só isso. É o topo da gratuidade. É o fruto que devemos dar como cristãos e que permanece.

4. Um Amor liberdade – Na primeira leitura de hoje, nós temos um belo exemplo do Amor do nosso Deus que se expressa com total liberdade. A Igreja do século I o experimentou com Pedro como cabeça. Anunciando a Palavra, a Boa Nova da Ressurreição de Cristo aos pagãos, Pedro teve que reconhecer a igualdade entre os humanos: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as pessoas” (At 10,34). Até mais, seu Espírito está sempre antes. De maneira que Pedro rapidamente compreendeu que Deus era livre de agir sem que ele ou a Igreja tivesse que decidir: “Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra” (At 10,44). Todo o mundo ficou admirado de que os pagãos não batizados recebessem o dom do Espírito de Pentecostes (At 10,45). Pedro deve, então, render-se perante a evidência de que Deus não pertence à Igreja. É um Deus de liberdade: “Será que podemos negar a água do batismo a estas pessoas que receberam o Espírito Santo, da mesma forma que nós recebemos?” (At 10,47).

Se eu atualizo, hoje, a mensagem que se tira do livro dos Atos dos Apóstolos, me parece que há ali um convite e uma interpelação que se dirige a todo cristão, mas mais ainda aos dirigentes, de demonstrar humildade no exercício das suas funções. Cada vez que uma pessoa é rejeitada, condenada ou excluída da Igreja, deveríamos nos perguntar se nós somos fiéis ao Amor de Deus que se manifesta em Cristo e que nos convida a amar ao outro, a todo mundo, gratuitamente. Como poderíamos excluir alguém por Amor? Lá há uma contradição nos termos e uma incompreensão da missão que nos foi confiada. O Amor não é reciprocidade; ele é continuidade, fecundidade e gratuidade. O Espírito Santo age ainda hoje com toda liberdade. O resultado não nos pertence. É preciso que nós nos digamos e redigamos isso seguidamente...

sábado, 12 de maio de 2012

Quem ama como Jesus aprende a olhar os rostos das pessoas com compaixão

Imagem daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 15, 9-17 que corresponde ao Domingo 6º da Páscoa, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Jesus despede-se dos seus discípulos. Amou-os com o mesmo amor com que o amou o Pai. Agora tem de deixá-los. Conhece o seu egoísmo. Não sabe querer-se. Ve-os discutindo entre si para obter os primeiros lugares. Que será deles?
As palavras de Jesus adquirem um tom solene. Precisam ficar bem gravadas em todos: "Este é o meu mandato: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei". Jesus não quer que o seu estilo de amar se perda. Se um dia o esquecem, ninguém os poderá reconhecer como discípulos.

De Jesus ficou uma recordação inesquecível. As primeiras gerações resumiam assim a sua vida: "Passou por toda a parte fazendo o bem". Era bom encontrar-se com ele. Procurava sempre o bem das pessoas. Ajudava a viver. Sua vida foi uma Boa Nova. Podia-se descobrir nele a proximidade boa de Deus.

Jesus tem um estilo de amar inconfundível. É muito sensível ao sofrimento das pessoas. Não pode passar ao lado de quem está a sofrer. Ao entrar um dia na pequena aldeia de Naín, encontra-se com um enterro: uma viúva vai a enterrar o seu filho único. Sai de dentro de Jesus o seu amor para com aquela desconhecida: "Mulher, não chores". Quem ama como Jesus vive aliviando o sofrimento e secando lágrimas.

Os evangelhos recordam em diversas ocasiões como Jesus captava com o seu olhar o sofrimento das pessoas. Olhava-as e comovia-se: via-as sofrendo, ou abatidas ou como ovelhas sem pastor. Rapidamente punha-se a curar aos mais doentes ou a alimentá-las com as suas palavras. Quem ama como Jesus aprende a olhar os rostos das pessoas com compaixão.

É admirável a disponibilidade de Jesus para fazer o bem. Não pensa em si mesmo. Está atento a qualquer chamada, disposto sempre a fazer o que possa. A um mendigo cego que lhe pede compaixão quando passa, acolhe-o com estas palavras: "Que queres que faça por ti?".

Jesus sabe estar junto aos mais desvalidos. Ele faz o que pode para curar as suas doenças, libertar as suas consciências ou contagiar confiança em Deus. Mas não pode resolver todos os problemas daquelas pessoas.

Então, dedica-se a fazer gestos de bondade: abraça as crianças da rua; não quer que ninguém se sinta órfão; abençoa os doentes: não quer que se sintam esquecidos por Deus; acaricia a pele dos leprosos: não quer que se vejam excluídos. Assim são os gestos de quem ama como Jesus.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

"Por uma nova linguagem: teológica e erótica"

Foto: Herb Ritts

Compartilhamos aqui, há alguns dias, um belo texto publicado por Isaac Palma em seu blog, Ide por toda a Web. Nele, Isaac conclamava os cristãos a uma "espiritualidade cheia de Tesão". Seu apelo era dirigido aos evangélicos, meio a que pertence, mas aplica-se perfeitamente aos católicos, por que não? :-) O autor conseguiu expressar em palavras simples e diretas um anseio ardente e sincero por encontrar a Deus no seu tempo, no seu mundo, no seu coração – não em algum lugar distante e imaterial que pouco tem a ver com a realidade dos homens e mulheres de hoje. E, no entanto, foi aqui que Ele nos mandou buscá-lo, não foi? No pobre, no faminto, no sedento, no ferido, no exilado que estão do nosso lado, aqui e agora – é aí que Ele está. E não só no pobre de dinheiro, no faminto de comida, no sedento de água, no exilado de sua pátria, mas no pobre de alma, no faminto e no sedento de Deus, no exilado do Amor. Concordamos com Isaac: para tocar esse próximo é preciso que falemos palavras de hoje.

Em vista disso, reproduzimos hoje a continuação daquele primeiro texto, escrito a partir do debate por ele suscitado. De novo, embora ele dirija suas observações e comentários à realidade das Igrejas Evangélicas, em muitos (ainda que não em todos) segmentos católicos, em meios tanto religiosos quanto leigos, não encontramos situação muito diferente com relação à sexualidade humana e à expressão e vivência do desejo. Está mais que na hora de redimir Eros, como vimos recentemente no apelo do Bispo G. Robinson



Segue o texto, com grifos nossos.

A moral evangélica é casta, e seu objetivo é manter o “cabaço” alheio. E isso não apenas sexualmente, mas o status evangélico nos deixa bem longe de sermos fecundos na prática do Reino de Deus. Meu último texto, Por uma espiritualidade cheia de Tesão, pipocou na internet não pela profundidade daquilo que falei, mas principalmente pelas palavras que usei, ao fazer um paralelo entre a sexualidade e a vida cristã. Utilizei uma linguagem “profana” que não é sacralizada e nem muito comum nos corredores das igrejas. O mais interessante é o espanto que isso causa, porque toca na ferida. A igreja é mal resolvida sexualmente, prova disso é o medo de falar sobre sexo; só se fala disso quando sob o controle dos lideres. Somos levados a acreditar em qualquer baboseira “espiritual” para justificar uma opressão com desculpa de (pseudo)Santidade. Negamos o sexo porque negamos o corpo, na dicotomia grega que não conseguimos largar, porque se o corpo é mau, os seus desejos são ruins; portanto, o sexo, expressão máxima do corpo, só pode ser ruim. Se falar de sexo fora desses moldes é ruim, imagine falar de Deus a partir dessa linguagem.

Deus está para além do que os nossos discursos possam captar ou expressar; tudo o que conseguimos é, a partir de nossas experiências, dar significado a elas e interpretá-las à luz daquilo que chamamos de Deus. As nossas linguagens partem, ou deveriam partir, da nossa experiência humana; soa no mínimo estranho expressarmos Deus a partir de uma linguagem que não seja nossa. E é isso que fazemos pegamos emprestado de outras culturas e tradições uma determinada linguagem de espiritualidade, de determinado período histórico, que fazia sentido para aquele povo específico, e tornamos universal e eterno algo que é local e passageiro.

O mais estranho é que santificamos aquela cultura e forma de falar de Deus, e impedimos as novas linguagens e novas formas de falar de Deus. Assim, negamos o corpo, o sexo e as novas linguagens. Alguns devem se perguntar : “Mas por que a linguagem erótica?” e eu devolvo a pergunta : “Mas por que não a linguagem erótica?”. Já que é uma linguagem legítima e humana, por que não usá-la?

É muito comum vermos nas igrejas referências à vida cristã a partir do imaginário da guerra; usamos palavras como ‘batalha, guerra, vitória, inimigo, General etc”, fazemos diversas referências na nossa linguagem à experiência da guerra. Dentro disso, duas coisas me chamam a atenção: primeiro, nós não vivemos a experiência da guerra, o imaginário construído em torno dessa linguagem não faz parte do nosso cotidiano, falamos dessa experiência mas a mesma está distante de nós, copiamos isso das páginas da Bíblia, que é um texto cultural e temporal. Segundo, a mensagem de Jesus é uma mensagem de paz, e não de guerra. Na verdade Cristo vai contra a violência e a guerra, basta ler o sermão da montanha pra perceber isso. A ética da não-violência, que depois foi propagada por homens como Gandhi, Martin Luther King e Tolstoi, é uma proposta que nasceu em Jesus. Tal ética é totalmente anti-guerra; como então é mais cristão usar a linguagem de guerra do que a erótica? Já que, além de não fazer parte do nosso cotidiano, remete a um imaginário contrario à mensagem do Mestre a quem dizemos seguir? Ou Cristo era contra o sexo? Ou o prazer é algo “mundano”?

É preciso repensar e recriar as maneiras de falar; por isso proponho novas linguagens, mas que sejam nossas, que falem dos nossos anseios, que sejam humanas e por isso divinas. É preciso ainda ir além e ler as entrelinhas. É preciso sentir na carne antes de sistematizar, e que nossa sistematizações sejam, assim como nós, frágeis e passageiras, só assim poderemos anunciar o que é Eterno.

Que nossa expectativa pelo inaudito, pelo inédito e por tudo aquilo que ainda não foi feito esteja sempre direcionada pelo Espirito de Deus, que é Aquele que faz o que quer e onde quer, em detrimento das nossas vãs expectativas religiosas; afinal, sopra como vento, e quem saberá de onde vem ou para onde vai? Que nossa linguagem denuncie e renuncie aos males da religião, nos excite, e nos encha de Tesão. Que nossa virgindade espiritual e existencial fique pra trás. Que possamos entrar de cabeça em tudo aquilo que acreditamos. Que tudo o que falarmos seja sentido na carne; esse é o apelo de Jesus - e que seja o nosso, constantemente.

- Isaac Palma, no Ide por toda a Web (via PavaBlog)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Juventudes da Democracia Cristã do Chile a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo

"É importante para mim a questão do casamento gay, 
ou como gosto de dizer, 'casamento'. 
Porque, sabe, quando eu almocei hoje não foi um almoço gay. 
E, quando estacionei o carro, não foi um estacionamento gay."

As Juventudes da Democracia Cristã chilena (JDC) decidiram apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em seu 5º Congresso Ideológico e Programático. Militantes LGBT do Movimento de Integração e Liberação Homossexual (MOVILH) qualificaram de "histórica" a decisão, e parabenizaram a organização jovem.

“Essa iniciativa marca um antes e um depois na abordagem dada pelos setores democratas cristãos aos direitos humanos das minorias sexuais, que não só vai ao encontro da justiça como reafirma o princípio da igualdade garantido pela Constituição, sem discriminações de nenhum tipo”, declarou o MOVILH após a decisão das JDC. “Esperamos que o diretório nacional da Democracia Cristã e o partido como um todo acolham bem essa decisão da ala jovem e aproveitem a oportunidade para dar início a um debate amplo e renovado acerca dos direitos humanos das minorias sexuais, a não  discriminação e a importância de se contar com um Estado laico”. E o MOVILH aproveitou ainda para convocar "todas as juventudes políticas a tomar iniciativas similares, em que lancem o debate não só a respeito do casamento igualitário, mas também da adoção por casais do mesmo sexo”.

A Democracia Cristã do Chile é uma organização de inspiração cristã situada no centro do espectro político, que desde o final da ditadura de Pinochet faz parte da chamada Concertación, aliança de partidos de centro e esquerda que governou o Chile de 1990 a 2010.

Inserimos a seguir uma entrevista (sem legendas em português) realizada pela CNN Chile com Jorge Andrés Cash, presidente da JDC, que explica a decisão e revela que muitos membros da organização aproveitaram o intenso debate ocorrido para sair do armário e visibilizar-se:


Sem dúvida, uma decisão muito positiva, que acontece no calor da significativa reação social desencadeada no Chile após o brutal assassinato homofóbico do jovem Daniel Zamudio, manifesta também nas iniciativas de aprimoramento do projeto de lei contra a discriminação.

Nesse contexto, o MOVILH iniciou uma campanha em que atores, atrizes, jornalistas e celebridades famosos contam em vídeo casos reais de discriminação. Mais informações aqui.

(Fonte: Cristianos Gays)

A crise do cristão

Foto: Iain Blake

... [P]ara que nos espiritualizemos, precisamos aprender a deixar para trás nossa própria identidade religiosa oficial, ou seja, deixar para trás o fariseu que se esconde em todos nós, porque, como Jesus nos disse, temos que deixar para trás toda a nossa identidade. Para que possamos nos tornar um com nós mesmos, com Deus, precisamos renunciar e transcender a todas as imagens de nós mesmos, todas elas originadas na mente febril do ego, para que nos tornemos verdadeiramente humanos, verdadeiramente reais, verdadeiramente humildes.

Nossas imagens de Deus, da mesma forma, deverão cair. Nós não podemos ser idólatras. Curiosamente, o que descobrimos é que elas caem, assim como caem as imagens de nossa identidade, o que sugere aquilo que nós já havíamos adivinhado, que nossas imagens de Deus são na verdade imagens de nós mesmos. Neste maravilhoso processo de entrada para toda a luz da Realidade, de afastamento da ilusão, um enorme silêncio emerge a partir do centro. Nos sentimos engolfados pelo eterno silêncio de Deus. Não estamos mais falando com Deus, ou pior, falando com nós mesmos. Nós estamos aprendendo a ser, a ser com Deus, a ser em Deus. [...]

Na jornada spiritual, aquietar-se consome mais energia do que correr... A maioria das pessoas gasta tantas das suas horas de vigília correndo de uma coisa para outra, que acaba por temer a quietude e o silêncio. Podemos ser acometidos por um certo pânico existencial, quando encaramos a quietude pela primeira vez, quando pela primeira vez entramos nesse estado de puro ser. Todavia, uma vez que possamos reunir a coragem para encarar este silêncio, adentramos a paz que está além de toda compreensão.

Sem dúvida, será mais fácil aprender isso em uma sociedade equilibrada e estável. Em um mundo turbulento e confuso, há muito mais vozes mais enganadoras, tantos apelos à nossa atenção. No entanto, a visão cristã é intransigente em sua sanidade, sua rejeição ao extremismo, no convite que faz a cada um de nós no sentido de termos a coragem para nos tornarmos nós mesmos, e não apenas reagirmos a alguma imagem de nós mesmos que nos seja imposta de fora. [...]

Em nossa experiência da meditação, o que cada um de nós deve aprender é que a energia para a peregrinação, de fato, está presente de modo inexaurível. Precisamos apenas de um passo de fé, para que possamos aprender isso a partir de nossa própria experiência. [E] aquilo que é importante lembrar, é que um passo real, ainda que vacilante, tem mais valor do que qualquer número de viagens vividas na imaginação.

- John Main, OSB
John Main OSB, THE PRESENT CHRIST (New York: Crossroad, 1991), pgs. 74-76.
Fonte: Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Carne e ossos

Foto: Eva Patikian

O homem moderno acredita mais nas coisas que nas ideias. A gente é concreta, empírica e carnal. Nós gostamos mais da solidez do dado científico que das noções ilusórias da filosofia, da poesia e do sentimento. Assim, se tem forjado o império deste mundo. Qualquer pode constatar as glórias arquitetônicas das nossas cidades, o milagre das comunicações eletrônicas e a maravilha da medicina moderna.

Mas, assim com tudo, se vive carente. Falta um elemento. Todos o sabem, mas muitos optam por ignorá-lo. Trata-se da essência mesma, da faísca da vida, da energia do amor difundida no planeta, como pequenas gotas dum licor concentrado, animando nossa aridez com seu alento de sentido.

O problema, no entanto, não é que sejamos concretos, mas que, ao distanciar a essência espiritual do discurso cotidiano, transforma-se aquela num refúgio alienante para quem não se atrever enfrentar a vida de carne e ossos que a gente tem que vivenciar aqui e agora. A transcendência mística, quando é tratada como coisa de cada um, deixa de ser o mistério partilhado que une com laços profundos. Os fantasmas pessoais, ademais, muitas vezes, são falsos, efêmeros e vingativos.

O Ressuscitado não é um sentimento. Não é um espírito. Não é uma fantasia. Quem acreditar nisso, vai morar nas nuvens. Decola-se do mundo real, e termina mais amigo dos passarinhos na sua própria cabeça que do próximo que está ao seu lado. Sua religião é de muita superstição e pouca fé. Pretende manipular o destino com ritos e encantamentos, mas sem se envolver no amor nem na vida.

O Senhor vem aos seus discípulos na carne e no osso. Ele é. Está ai para que eles o toquem, para que o vejam. O seguimento de Cristo é um compromisso com a substância concreta da vida eterna. Não é uma formalidade para fantasmas. É plenitude à qual aspira toda a criação. É de abraços e suor, trabalho e pão, águas frescas e vinho concentrado. A ressurreição é o matrimônio entre a realidade material e a transcendência poética, porque o amor se põe mais nas obras que nas palavras; porque se disser amar a Deus, e não amar ao seu irmão, a gente mente.

Aqueles que ficarem somente com suas fórmulas catequéticas traíram ao Senhor de carne e osso. Seu amor não é uma finura da metafísica, mas uma obra testemunhal, um gesto compassivo, a palavra precisa que transforma o entorno decaído num anúncio dos céus novos e das terras novas.

A religião espiritualista do além-mundo, aquela que flutuar arriba das nuvens, não tem muito a ver com Jesus. A vida no espírito não deve se confundir com a alienação. A santidade em nada parece à frialdade esotérica. A superstição pagã fantasiada de devoção é uma piedade vazia que faz mais dano ao Reino de Deus que a inocente ignorância de quem não tem conhecido a Boa Notícia. Atrevamos-nos a vivenciar a ressurreição na carne e no osso, como fez Jesus.

- Nathan Stone
Fonte: Mirada Global, via Amai-vos

terça-feira, 8 de maio de 2012

Viver a verdade


Recebemos ontem por e-mail este vídeo-depoimento, com um pedido do autor para que fosse compartilhado com os demais leitores do blog. É um belo depoimento e um testemunho da força da consciência. Realmente, não dá para negar aquilo que a gente sente, no mais íntimo do nosso ser e com a convicção que só a verdade dá, sobre quem a gente realmente é. Sentimos muito por ele ter se optado por afastar-se das suas tarefas na sua paróquia, mas claro que cada um sabe quais são os seus limites, o que é e o que não é possível para cada um - e sabemos bem como a pressão pode ser grande... Por outro lado, que bom que ele chegou a conversar com duas pessoas e que o diálogo foi possível; que bom que, mesmo não mudando sua maneira de ver, elas puderam mudar sua maneira de agir, respeitá-lo e acolhê-lo - mesmo sem compreender, e que grande mérito há aí! Esse é o primeiro passo.

Torcemos para que essa experiência de troca lhe dê forças para continuar buscando o diálogo, que é um processo muito trabalhoso e árduo, mas necessário - tanto para cada um de nós, em nossa busca de viver com honestidade, quanto para a comunidade, a sociedade, a Igreja, o Corpo de Cristo, que precisa da verdade de que os gays existimos e não, não somos monstros: somos pessoas com fragilidades, virtudes, forças, fraquezas como quaisquer outras.

Muito obrigado ao leitor, mais uma vez, pela confiança e pela partilha generosa conosco e com os demais leitores do blog.

E, sim: palavras inspiradas pela verdade e pelo amor serão sempre cristãs. ;-)

* * *

Leia também:
Perguntas frequentes: "Se a Igreja condena a homossexualidade, como é possível uma pessoa gay ser católica?"

Discordar em nome da fé

Instalação: Lee Eunyeol

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante.

A opinião é do cientista político e leigo católico italiano Christian Albini, em nota publicada no blog Sperare per Tutti, 02-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Há espaço na Igreja Católica para a discordância, ou ela é uma realidade a ser condenada e rejeitada por ser incompatível com a autêntica fé?

Esse é um assunto que foi reproposto por Bento XVI na sua homilia da Missa Crismal da Quinta-Feira Santa, no rastro da qual muitos se puseram, incluindo Andrea Tornielli, em um artigo publicado no sítio Vatican Insider [disponível aqui em italiano].

O motivo dessa atenção à discordância católica é a duradoura ressonância, até mesmo internacional, que está tendo o Apelo à desobediência assinado por centenas de padres austríacos que pedem mudanças substanciais na pastoral da Igreja e pretendem implementá-los. Entre as suas reivindicações: a Eucaristia aos divorciados em segunda união, o direito de pregação dos leigos, a presença de moderadores nas paróquias sem clero...

A modalidade de manifestar opiniões e necessidades à hierarquia eclesial através de posicionamentos públicos não é nova. Há vários exemplos, muitos dos quais documentados pelo sítio Viandanti na seção Lettere alle chiese. Vale a pena conhecê-las para descobrir uma Igreja Católica muito mais plural.

Voltando agora ao artigo de Tornielli, o jornalista reconhece a existência de desconfortos profundos que não correspondem à imagem de uma Igreja sempre triunfante, que muitos querem propor a todo custo, beirando a formas de propaganda. É uma realidade que, em muitos ambientes católicos, não se quer admitir.

Encontro-me, no entanto, menos em sintonia quando o jornalista recorre a outras afirmações de Joseph Ratzinger, que remontam a quando ele ainda era arcebispo de Munique.

"O magistério eclesial protege a fé dos simples, daqueles que não escrevem livros, que não falam na televisão e não podem escrever editoriais nos jornais: essa é a sua tarefa democrática. Ele deve dar voz àqueles que não têm voz".

"Não são os doutos – dizia ele em uma homilia pronunciada em dezembro de 1979 – que determinam o que é verdade na fé batismal, mas sim a fé batismal que determina o que é válido nas interpretações doutas. Não são os intelectuais que medem os simples, mas sim os simples que medem os intelectuais. Não são as explicações intelectuais a medida da profissão de fé batismal, mas sim a profissão de fé batismal, na sua ingênua literalidade, que é a medida de toda a teologia. O batizado, aquele que está na fé do batismo, não precisa ser ensinado. Ele recebeu a verdade decisiva e a traz consigo com a própria fé...".

Tornielli retira daí, como conclusão, que o anúncio da Igreja Católica deve se concentrar no essencial da fé, ao qual foi dedicado justamente um ano pastoral, deixando que os leigos intervenham nas questões políticas e econômicas.

É uma posição que eu compartilho, mas, apresentada dessa forma, desvia a atenção daquilo que importa na questão da discordância. As palavras de Ratzinger põem uma dicotomia: de um lado, há os intelectuais, que se baseiam nos livros e nos seus raciocínios, e, de outro, há os simples, que contam apenas com a própria fé. O magistério garante estes últimos.

Trata-se de um raciocínio simples, mas também simplista, porque generaliza e estabelece a priori que toda discordância vem dos intelectuais e dos seus livros. Mas com base em que se diz isso? Por princípio? Seria preciso, ao contrário, entrar no mérito dos casos individuais e das questões individuais.

Concordo que há um risco de intelectualismo ao se lidar com problemas religiosos, mas isso não significa negar o exercício da razão crítica, que é um serviço à fé. Ele ajuda, por exemplo, a identificar superstições e preconceitos. Também estou convicto de que o novo pelo novo não é um valor, razão pela qual a posição mais correta não está necessariamente sempre do lado da mudança. Mas isso não significa enrijecer-se no imobilismo.

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante. Assim, discorda-se em nome da fé, e não contra a fé ou fora dela. É uma discordância que não tem nada a ver com ser intelectual. Não é uma discordância fácil, barata. Ela provém de um amadurecimento interior sofrido, mas sincero.

Tornam-se, então, indispensável a escuta e o diálogo como normalidade da vida eclesial. Quem são os simples? Aqueles que vivem o peso da condição do divórcio, por exemplo, não pertencem a essa categoria? Olhar para o essencial da fé não significa também ver as situações com um olhar de misericórdia, que é a primeira verdade, e discernir quando é o momento de não absolutizar práticas e situações que parecem consolidadas?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O bom pastor não faz distinção entre as pessoas

Ainda no ciclo de comentários ao texto do Bom Pastor, de semana passada, não podíamos deixar passar a oportunidade de publicar ainda este último texto, que tanto enfatiza que o Pastor veio para todos. Sem exceção, sem distinções. :-)

Texto sugerido para oração: Jo 10, 27-30

Jesus Cristo se apresenta à humanidade como o Bom Pastor, aquele que conhece seu rebanho e dá a vida por ele. As atitudes do Bom Pastor revelam um conhecimento e amor profundos por seu rebanho: eu os conheço e eles conhecem a minha voz – dirá Jesus.

Viver essa relação de intimidade é a proposta de Jesus Cristo para a humanidade: no meio dela Ele veio fazer morada, instalar-se para, fazendo-se homem, fazer com que este creia que é possível viver a dimensão de semelhança à Deus.

O bom pastor zela por suas ovelhas – propõem-lhes o cuidado, promete-lhes não perdê-las e não deixá-las ser roubadas por invasores estranhos. E em sendo dóceis as ovelhas, confiantes no seguimento de seu pastor poderão, assim, alcançar Sua promessa maior – a vida eterna.

Ao se colocar como o bom pastor, Jesus rememora o cuidado que o Pai tem com seus filhos. Mais: traz para próximo dos filhos o Pai, fazendo-lhes ver com os olhos do mundo, naquilo que é para cada um uma situação cotidiana (era bastante comum a atividade do pastoreio no tempo de Jesus) a forma como o Pai age. Jesus e o Pai são um e em Jesus podemos ver como o Pai pastoreia cuidadosamente seu rebanho – não deixando que nenhuma ovelha se perca, cuidando individualmente de cada uma, conhecendo-a pelo nome, pelo modo de ser, pelo que é.

Assim, o Mestre afirma: “conheço minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10, 14) em uma alusão à relação que deseja ter com cada um de nós – a intimidade daqueles que se (re)conhecem e se entendem mutuamente.

O pastor sabe quais são as suas ovelhas, ainda que seja chamado a também cuidar de outras, como Ele próprio afirmará no mesmo texto (“Tenho outras ovelhas que não são desse redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor” – Jo 10, 16). Jesus vem para todos, sem distinção. E, de todos se dispõe a cuidar, a dar a vida, a se entregar.

Esforcemo-nos, também por nos tornarmos pastores, bons cuidadores e condutores das vidas que o Senhor coloca em nossos caminhos. Esforcemo-nos para, como Jesus, não fazermos distinção entre as pessoas: a mensagem de Deus é para todos! Assim, estaremos testemunhando o Pai diante da humanidade, como o Filho um dia o fez.

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

Leia também:
O amor de Jesus às pessoas não tem limites
A vocação: um chamado à dignidade
O Bom Pastor
“Ele chama as ovelhas pelo nome” (Jo 10, 1-10)
Eu dou vida em abundância para TODOS

domingo, 6 de maio de 2012

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 2)

Imagem daqui

Publicamos aqui a segunda e última parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose (leia a primeira parte, publicada ontem à tarde, aqui), sobre a passagem da missa tridentina para a nova forma da missa, após o Concílio Vaticano II. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A missa tridentina – As primeiras reformas
Além da missa dos dias de semana e da missa dominical, gostaria também de lembrar uma outra missa muito solene, que era celebrada por ocasião de funerais ou missas de sufrágio, mas somente para pessoas ricas ou nobres. Sim, os ricos podiam pagar não só a missa "dita" pelo pároco, a ordinária, ao alcance das pessoas comuns, mas também a chamada "missa grande levítica".

Nessa ocasião, vinham de fora outros dois padres, que revestiam o papel levítico do diácono e do subdiácono: estes últimos vestiam a dalmática e assistiam o pároco durante a missa. Era uma missa que admirava pela solenidade (devida sobretudo à presença simultânea de três padres), pelo canto (executado pelo coro), pela presença de um catafalco altíssimo e ornado com inúmeras velas, diferente do dos pobres, montado especialmente para acolher o caixão, ou, no caso de missas em memória do falecido, para fingir que ali estava o caixão (até se incensava o catafalco vazio...).

Mas então, ninguém pensava que este era uma farsa ou que na liturgia era necessária a verdade, não a simulação. Nas cidades pequenas como a minha, a "missa grande levítica" era um evento raro de se ver, e o sentimento predominante era a maravilha pelo seu caráter solene, grandioso, espetacular.

Para mim, a missa de então era a única missa, e eu não tinha nenhum problema com relação à forma da sua celebração. Eu entendia o latim, tinha o messalino [pequeno missal popular] e era um cristão muito convicto. Não por acaso, aos 11 anos, contra a vontade do meu pai (a minha mãe havia morrido há três anos), eu quis ir para o seminário para me tornar padre, principalmente – dizia eu – para poder celebrar a missa.

Além do serviço cotidiano como coroinha no altar, era um exercício à liturgia e dava uma subjetividade cristã certamente nada fraca, mas convicta. Eu confesso que, de toda a celebração da missa, para além da consagração, para mim era importantíssima a meditação sobre a [oração da] coleta da missa do dia, em particular o domingo. A coleta da tradição latina, de fato, muitas vezes é uma "pérola", uma verdadeira síntese da oração cristã, um esboço para quem quer rezar segundo o coração da Igreja. Por isso, eu conhecia de cor muitas coletas, de modo que eu podia rezá-las em ocasiões diversas, sem recorrer à leitura do messalino.

Um evento muito significativo foi, depois, a reforma da Semana Santa desejada por por Pio XII no início dos anos 1950. Para mim que tinha dez anos se tratava de aprender novos ritos junto com o pároco: a introdução do lava-pés na Quinta-Feira Santa, a vigília pascal na noite entre sábado e o domingo apareciam como novidades que requeriam empenho e dedicação. Sim, porque até 1954 – perdoe-se e compreenda-se a expressão popular de então – "Jesus Cristo ressuscitava no sábado de manhã".

A liturgia pascal, de fato, ocorria por volta das 9h da manhã, em uma igreja obscurecida por cortinas, de modo a poder celebrar a luz da ressurreição. Na igreja, éramos muito poucos, menos do que em uma missa de semana em que participavam os parentes do falecido pelo qual se celebrava o sufrágio.

Por volta das 10h30, ouvia-se o som dos sinos, soltos na leitura do Gloria in excelsis Deo, depois de terem sido amarrados na Quinta-Feira Santa à noite, e as pessoas que ficavam em casa corriam para os córregos para se lavar o rosto.

Essa era, na época, a celebração da ressurreição de Jesus. Não foi fácil, portanto, aceitar essa primeira reforma litúrgica. Eu, o pároco, as freiras e alguns dos cristãos mais instruídos aprendíamos a compreender a grandeza do mistério das ressurreições. Para outros, ao invés, o comentário era: "Mudam até a nossa Páscoa!".

Uma reação não muito diferente daquela suscitada pela reforma litúrgica posterior, do Vaticano II, quando a exclamação era: "Mudam até a nossa missa!".

A missa pós-conciliar
Com Pio XII, a dinâmica da mudança já havia entrado na liturgia, e João XXIII, ele também, simplificaria alguns ritos e mudaria algumas fórmulas. Certamente, teria sido necessário explicar mais às pessoas o porquê da reforma, despertar nas pessoas um interesse pela "nova missa", iniciá-las à escuta das Sagradas Escrituras.

Foi feito muito pouco, mas posso dizer que, na minha cidadezinha, o pároco fez muito, todo o possível, eu acredito. Mas já haviam chegado os anos do boom econômico, as pessoas haviam mudado: o sábado e o domingo haviam se tornado ocasiões para ir ao mar ou – se dizia – para "dar uma volta". Era a televisão que dava lições no lugar dos padres. Os jovens andavam por aí para dançar...

Quanto a mim, tendo chegado a Turim para a universidade, ia sempre todos os dias à missa, mas não mais como coroinha. Aqui, lembro-me de missas ditas às pressas, tantas missas em diversos altares simultaneamente, ao menos na igreja mais perto do meu alojamento, o Santuário della Consolata.

Mas o Concílio já havia começado e estávamos cada vez mais convencidos de que, para chegar a uma reforma da vida do cristão e de toda a Igreja, era preciso dar vida a um caminho de reforma acima de tudo do ponto de vista litúrgico. Sentia-se a necessidade dela e ela também era esperada, nesse sentido, por parte das pessoas comuns.

Assim, pouco a pouco, chegavam "novidades". As novidades realmente existiam, mas – infelizmente – eram introduzidas aos trancos e barrancos, porque os presbíteros acabavam anunciando antes da missa: "A partir de hoje, na missa, muda-se isto... Esta parte da missa não é mais em latim, mas sim em italiano... Não se faz mais como se fazia, mas se faz de forma diferente...".

Essa modalidade, talvez, não era a mais adequada para fazer com que os cristãos comuns entendessem a intenção da reforma, e poucos presbíteros explicavam com paciência e competência as mudanças. Não houve revolta por parte das pessoas, mas, ao contrário, uma acolhida passiva. E a exclamação "Mudam até a nossa missa!" não tinha amargura, era quase uma piada, naquela hora em que a Itália do boom econômico estava mudando tudo. Porém, precisamente porque mudava a vida dos cristãos, também devia mudar a forma da liturgia.

Pouco a pouco, a reforma litúrgica mudou profundamente o modo de ir à missa. Podemos sintetizar essa mudança através de uma eloquente mudança de linguagem: "do tomar missa (ou assistir à missa)" para "participar da missa". Em primeiro lugar, todos ficaram agradecidos pela introdução da língua italiana, porque, finalmente, podiam compreender palavras que, até aquele momento, pareciam monopólio do presbítero e do coroinha.

O que o presbítero fazia ao altar não era mais obscuro, secreto, mágico para alguns, mas era algo compreensível e cada vez mais referido ao que Jesus fizera e dissera. Pense-se, depois, na maior riqueza de leituras na missa. Para dar só um exemplo, se, antes, no conjunto das missas dominicais e festivas, ouviam-se (ou, melhor, eram lidos em latim) cinco trechos do Antigo Testamento e dez do evangelho segundo Marcos, com o novo lecionário, os trechos do Antigo Testamento proclamados eram cerca de 240, e os de Marcos, quase 40.

As pessoas ouviam pela primeira vez páginas jamais ouvidas, das quais a pregação podia se tornar uma explicação e um comentário. Depois de um longo exílio, a palavra de Deus voltava ao coração do povo de Deus, e, acima de tudo, os evangelhos eram conhecidos quase na sua inteireza.

Além disso, começou-se a responder às palavras do padre. Teve-se verdadeiramente aquela "missa dialogada", como se dizia na hora do Concílio, tão desejada pelos párocos e pelos fiéis. Desapareceu o uso de conjugar a missa de semana com a missa "de morto": nessas liturgias, as leituras escriturísticas também eram variadas e abundantes.

Em suma, deve-se confessar – e por isso também é preciso agradecer ao Senhor – que se voltava verdadeiramente a uma comunidade, a uma assembleia celebrante, mesmo que as pessoas não tinham plena consciência disso.

Além disso, o presbítero, ao presidir a liturgia, aparecia mais claramente como sinal de Cristo para a assembleia e como sinal da assembleia para com Deus.

Não digo que não foi cansativo aceitar todas as mudanças introduzidas, mas a consciência de uma renovação necessária da liturgia me fez participar a partir de dentro dessa reforma, até por causa da minha amizade e assiduidade com os especialistas liturgistas que, em Turim, no centro litúrgico da Elle Di Ci de Leumann, trabalhavam para fazer uma contribuição de qualidade para toda a Igreja italiana.

A convicção e a determinação do cardeal Michele Pellegrino e a frequentação dos mosteiros beneditinos e trapistas franceses me ajudaram muito a acolher a reforma dentro da minha comunidade, que, desde 1968, já tinha feito da liturgia a “opus Dei” sobre a qual se podia construir a sua vida monástica.

A única tristeza, diante da qual eu senti toda a minha e a nossa impotência, foi a introdução de cantos e músicas cuja feiúra e banalidade, e cujo caráter ideológico muitas vezes deturpavam a liturgia. Compreendi que, nas paróquias, não se podia cantar o gregoriano (de fato, desapareciam os coros e eram introduzidas as bandas juvenis), mas se podia buscar, esperar e não ceder às novas modas musicais.

De nossa parte, enraizando-nos na liturgia monástica, fomos preservados dessa contaminação, e o nosso canto permaneceu em continuidade com a grande tradição latina, embora em língua italiana. Nenhuma alteração, mas sim um progresso, um crescimento da liturgia em si mesma.

Conclusão
Então, a missa mudou? Sim, mudou na sua forma, como sempre mudou nas diversas épocas da história da Igreja. Ao mesmo tempo, porém, a missa é a mesma em uma continuidade bem mais profunda do que a língua ou os gestos com os quais é executada.

Na verdade, para quem vive uma fé autenticamente cristã e eclesial, a liturgia da Palavra não mudou desde a da assembleia presidida por Esdras no retorno do exílio (cf. Ne 8), e a liturgia eucarística é sempre a mesma, desde o partir do pão da comunidade de Jerusalém na hora da Páscoa até hoje.

No meu coração, há, portanto, uma enorme gratidão ao Vaticano II e a Paulo VI, que atuaram pela reforma em fidelidade à tradição, à grande tradição cristã, mas não tenho sentimentos depressivos, muito menos negativos, lembrando a missa como era celebrada antes da reforma conciliar.

Há 40 anos, eu recolhia na reforma litúrgica principalmente as novidades. Hoje, reconheço sobretudo a continuidade, a tradição que se acresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a mesma missa, a mesma celebração da aliança entre Deus e o seu povo.

Ha 40 anos, a missa era, para mim, o sacrifício da cruz: hoje, ainda é o sacrifício da cruz, que tem como êxito a ressurreição, a vitória de Cristo sobre o mal e sobre a morte. Hoje, na missa, eu vivo com mais consciência o mistério pascal, renovo a aliança com o Senhor, ofereço a minha vida, o meu corpo em sacrifício (cf. Rm 12,1), oferece toda a criação com uma epiclese, invocação ao Espírito Santo, para que transfigure essa criação em reino dos céus.

E continuo convencido de que haverá outros desenvolvimentos, outros acréscimos e mudanças na liturgia, porque a liturgia, assim como a Igreja, é semper reformanda. Tudo isso, porém, em uma continuidade que tem como referência a grande tradição do Oriente e do Ocidente, e que completará o que faltar, corrigirá o que for necessário, enriquecerá o que parecer mísero.

“Não é porque eu seja um velho pomar que eu dou velhas maçãs”


Quem fica em Cristo e em quem fica Cristo? A resposta é simples: aquele e aquela que produz frutos em abundância... Não esqueçamos, sobretudo, que o Amor nunca condena, não rejeita nunca e não nega o perdão a ninguém. O Amor de Cristo é incondicional; ele dá a vida e produz frutos em abundância.

A reflexão a seguir de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 5º Domingo de Páscoa (6 de maio de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: At 9,26-31
2ª leitura: 1Jo 3,18-24
Evangelho: Jo 15,1-8

Justo antes da Ascensão, estamos agora por dois domingos com o evangelista João, no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos. Na noite da Quinta-Feira Santa, na Ceia, Jesus dá recomendações a eles. É uma forma de testamento espiritual dado por aquele que, no dia seguinte, seria preso, julgado, condenado e crucificado. Mas, de fato, será verdadeiramente um discurso pronunciado por Jesus de Nazaré, nas vésperas de sua morte? A resposta é evidentemente que não! Este discurso foi escrito vários anos depois da morte de Jesus, no seio de uma comunidade para a ele nunca foi um grande desaparecido. É por isso que esse discurso de despedida que o evangelista João coloca na boca do Nazareno, antes da sua morte, é, de fato, a Palavra que o Cristo sempre vivo dirige aos discípulos da primeira hora e àqueles dos dias de hoje. É um discurso que se dirige aos cristãos de todos os tempos. Hoje, o que podemos resgatar de tudo isso?

1. A Igreja que nós somos: Escrutando os textos bíblicos deste domingo, lendo os comentários dos últimos anos, a pergunta que eu me faço é a seguinte: Onde está a Igreja em tudo isso? A Igreja que nós conhecemos e a qual nós pertencemos, a Igreja que nós somos se terá tornado estéril como a vinha do Antigo Testamento, que correspondia ao povo de Israel? Quando olhamos para a Igreja de hoje que, nos seus dirigentes, se distancia cada vez mais do verdadeiro mundo e se distancia frequentemente da mensagem de amor dos evangelhos (o amor que é feito de abertura, acolhida incondicional, de tolerância, de misericórdia, de perdão e de esperança), impondo regras e doutrinas que não estão mais vinculadas às realidades do mundo atual, nós temos o direito de perguntar se a nossa Igreja pode estar ainda podada ou se ela está completamente desmembrada do tronco, isto é, desconectada do Cristo da Páscoa... este Cristo sempre vivo através dos homens e das mulheres de hoje. Os ramos da nossa Igreja estão todos secos? Será que a Igreja permite ainda a seus membros, a seus ramos, dar frutos?

Às vezes, tenho a impressão que a Igreja atual se considera, ao mesmo tempo, a videira e o agricultor... E, portanto, o evangelho nos lembra, e é Cristo Ressuscitado que fala: “Eu sou a verdadeira videira, e meu Pai é o agricultor” (Jo 15,1). Isso significa que todos os que estão unidos à videira, a Cristo, dão frutos, e esses frutos provêm de lugares diferentes, de ambientes diversos e múltiplos. Até existem alguns que não possuem nenhuma pertença religiosa. O teólogo Charles Wackenheim escreveu em 1994: “Todos nós conhecemos homens e mulheres que não se valem de Cristo e que se dedicam de corpo e de alma aos mais pobres, aos oprimidos e aos abandonados. Até acontece que essas pessoas recusam toda referência religiosa que lhes aparece com álibi tão inútil quanto suspeito. Mas o evangelho de João não mede os comportamentos de uns e de outros. Ele se dirige aos crentes que o foram enxertados em Cristo pelo batismo. Tanto melhor se os não cristãos dão frutos comparáveis!

2. “Fiquem unidos a mim, e eu ficarei unido a vocês” (Jo 15,4): O verbo ficar aparece sete vezes no texto do evangelho que nós temos hoje. Que dizer? O verbo ficar no evangelho de João tem um sentido teológico forte: ele serve para descrever não somente a permanência divina em relação à precariedade humana, mas também a intimidade de Deus e do homem que se expressa através da intimidade do Pai e do Filho. Jesus disse a Felipe: “Você não acredita que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?” (Jo 14,10). Da mesma forma, nós devemos crer que Cristo fica em nós se nós somos enxertados nele, se nós ficamos com ele: “Fiquem unidos a mim, e eu ficarei unido a vocês. O ramo que não fica unido à videira não pode dar fruto. Vocês também não poderão dar fruto, se não ficarem unidos a mim” (Jo 15,4).

A pergunta totalmente legítima que podemos nos fazer: Quem fica em Cristo e em quem fica Cristo? A resposta é simples: aquele e aquela que produz frutos em abundância: “Eu sou a videira, e vocês são os ramos. Quem fica unido a mim, e eu a ele, dará muito fruto, porque sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15,5). E para ficarmos em Cristo, precisamos amar como ele. O trecho da primeira carta de São João, que nós temos na segunda leitura de hoje, nos diz o seguinte: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade” (1Jo 3,18). É por nossa fidelidade aos seus mandamentos que nós permanecemos em Deus e Deus em nós (1Jo 3,24). Por outro lado, esses mandamentos se resumem em um só: “E o seu mandamento é este: que tenhamos fé no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, conforme ele nos mandou” (1Jo 3,23). Não esqueçamos, sobretudo, que o Amor nunca condena, não rejeita nunca e não nega o perdão a ninguém. O Amor de Cristo é incondicional; ele dá a vida e produz frutos em abundância.

Concluindo, na primeira leitura de hoje, nesse trecho do livro dos Atos dos Apóstolos, o autor nos narra a dificuldade que São Paulo teve para integrar-se na comunidade de Jerusalém após sua conversão. Esse trecho nos faz tomar consciência de que não é fácil mudar a opinião das pessoas sobre nós, principalmente quando éramos o contrário do que nós nos tornamos agora. Os preconceitos se mantêm, mas a fé – que é também confiança – deveria ter mais força. Para São Paulo, deveria ter existido um Barnabé para introduzi-lo junto dos apóstolos, mas ele teve que fugir para Tarso, sua cidade natal, para se salvar da morte. Um pouco mais tarde, o mesmo Barnabé vai julgar as opções apostólicas de Paulo muito aventureiras. Ele vai preferir seguir a Pedro, e Paulo vai escolher outros companheiros de grupo. Isso significa que sempre é preciso a coragem de um Barnabé (filho da consolação) para lançar um Paulo assim como a sabedoria desse mesmo Barnabé de se saber ultrapassado por aquele que ele fez conhecer. Se foi verdadeiro no século I da Igreja, deve também sê-lo no século XXI de nossa Igreja. Quando haverá um Barnabé corajoso e sábio que saiba impulsionar um novo Paulo e retirar-se logo, reconhecendo-o mais importante do que ele?

sábado, 5 de maio de 2012

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 1)

Imagem daqui

Com uma forte marca autobiográfica, o prior de Bose relata como viveu a missa nos anos anteriores à reforma litúrgica. Palavras densas de memória e ricas de sugestões, que transparecem todo o afeto para com uma forma litúrgica que foi alimento espiritual imprescindível na primeira parte da sua vida. E, na passagem para a nova forma da missa, posterior ao Vaticano II, os seus inegáveis enriquecimentos – em particular a língua e o lecionário – e alguns defeitos – no canto litúrgico. Na reforma, enfim, reside "a continuidade, a tradição que cresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a si mesma, a mesma aliança entre Deus e seu povo".

Publicamos aqui a primeira parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Introdução
Há muito tempo, eu sentia o dever de contar como eu vivi a missa por 20 anos, antes da reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II. Eu sinto esse dever por diversas razões. Acima de tudo, porque em mim a recordação dessa missa permanece muito viva: dos meus seis aos 24 anos, ela foi, para mim, a missa cotidiana, uma missa em que eu "servia" como coroinha.

Essa missa era a principal fonte da minha vida espiritual, era a missa que me moldava todos os dias, era a liturgia de comunhão com o Senhor, na qual eu crescia e fazia discernimento sobre a minha vida e sobre a minha vocação.

Mas também há uma outra razão pela qual eu sinto esse dever de memória. Muitos dos que têm a minha idade ou são ainda mais velhos e, portanto, viveram como eu ou mais do que eu essa forma litúrgica, parecem não lembrar, não sabem mais falar a respeito, nem sabem lê-la: eu constatei isso mais de uma vez, ficando perturbado muitas vezes com tanto desmemoriamento...

Não se trata, porém, da transcrição de recordações pessoais, como se fossem minhas memórias, nem de nostalgia por parte de um senescente: é uma comparação entre duas formas de celebração, entre dois ritos capazes de celebrar o mistério de Cristo, mas um derivado do outro e gerado pelo mais antigo, na continuidade do crescimento da fé e da eloquência da fé que é a liturgia católica.

Ao escrever este testemunho, eu espero apenas ser verídico, honesto comigo mesmo dentro do possível, porque é verdade que a experiência da missa reformada pelo Concílio Vaticano II também me moldou, ou, melhor, muito mais, já que é a "minha" missa há mais de 40 anos, é a missa que eu vivo na minha comunidade, como monge que tenta ser cristão.

Espero não ferir ninguém e prestar um serviço àqueles que querem um testemunho sobre essa missa que hoje pode ser celebrada como rito extraordinário, concedido por Bento XVI àqueles que se sentem ligados e afeiçoados a essa forma pré-conciliar.

O leitor poderá, portanto, fazer uma comparação, poderá compreender ainda mais a continuidade entre os dois ritos e, ao mesmo tempo, discernir a "graça" que a reforma litúrgica contribuiu para a vida de toda a Igreja.

A missa tridentina
Comecemos dizendo alguma coisa sobre o tempo e sobre o espaço dessa liturgia. Nas cidades do interior, como a minha, a missa dos dias de semana era celebrada às 6h da manhã: um horário que ia ao encontro das necessidades das pessoas, em particular das mulheres, que, mais tarde, deviam trabalhar em casa.

Às 6h, eu estava na sacristia e ajudava o pároco a se vestir: ele, depois de tê-lo beijado, vestia o amito sobre as costas e ao redor do pescoço, depois vestia a alva, tomava o cíngulo e a estola que eu lhe estendia, depois vestia a casula, e eu lhe amarrava o manípulo.

Nesse ponto, o padre estava pronto e, depois de fazer uma reverência para a cruz colocada sobre a credência, nos aproximávamos à igreja, enquanto eu, na frente dele, portava o missal apoiado no peito, com a abertura junto ao coração. Quando passávamos pela porta, o sacristão dava um toque de sineta: e, então, estávamos na igreja.

Nos primeiros bancos, havia duas ou três irmãs, a governanta do padre, algumas senhoras idosas. Nos bancos do outro lado da igreja, estava uma família mais ou menos numerosa, aquela que havia "ordenado", ou seja, feito celebrar a missa para o seu querido falecido no aniversário ou no 30º dia da sua morte. No fundo da igreja, havia algumas mulheres e alguns homens que gostavam daquele lugar distante, fora dos bancos: com uma certa ironia, eram chamados de "aqueles da soleira".

No total, eram entre 10 e 15 pessoas, não mais. Porém, principalmente naquele hora, muitas vezes ainda no escuro, pelo menos eu e o meu pároco tínhamos a consciência de estar coram Domino por todos os cristãos da cidade e em comunhão com toda a Igreja.

Tendo chegado ao altar, depois da genuflexão, se subia até ele para levar até lá o cálice e a patena, cobertos pelo véu, e para colocar o missal sobre o suporte. Depois, se descia, e a missa tinha início. "Introibo ad altare Dei", dizia o padre em voz baixa, e eu respondia: "Ad Deum quilaetificat iuventutem meam".

Então, eu e o padre rezávamos o Salmo 41 (42). Era um salmo com o qual eu me identificava de modo particular, porque a minha vida era dura e marcada também pelo sofrimento. "Quare tristis incedo?" (Sl 41 [42], 2), eu dizia a Deus e esperava nele apenas para que alegrasse a minha juventude.

Seguia-se a confissão dos pecados. O padre a fazia primeiro: "Confiteor Deo omnipotenti", e eu o absolvia: "Misereatur tui omnipotens Deus et, dimissis peccatistuis, perducat te ad vitam aeternam. Amen". Depois, eu me confessava, e ele me absolvia ou, melhor, absolvia todos os presentes: mas eles não podiam ouvir, porque esse diálogo ocorria em voz baixa e parecia se referir apenas a nós dois, o padre e eu. Nós dois éramos os protagonistas.

Nesse sentido, também é preciso dizer que, quando um padre vinha de fora para dizer missa na minha cidade, ele chamava a mim, que morava na frente da igreja e, assim, podia satisfazer a obrigação, porque era proibido de celebrar a missa sozinho (segundo a norma do cânone 813 § 1 do Código de Direito Canônico de 1917: "Sacerdos missam ne celebretsine ministro qui eidem inserviat et respondeat").

O padre me explicava: "As pessoas não sabem o latim, portanto não podem entender. Às pessoas basta 'assistir à missa' e rezar como sabem, com o rosário ou com outras orações". Na verdade, nem sequer se ousaria pensar no conceito de "assembleia", muito menos considerar que as pessoas ("povo de Deus" era uma expressão inconveniente) entendida como assembleia era sujeito da celebração.

Os fiéis, de fato, eram pensados e tratados como "presentes ausentes". Nem mesmo as fidelíssimas freiras tinham um messalino [pequeno missal] para seguir a celebração, enquanto eu tinha orgulho de possuir e de poder usar o do Caronti [referência ao monge beneditino Emanuele Caronti (1882-1966)], que me foi presenteado no dia da primeira comunhão.

Para a minha geração, o pequeno missal ainda era um livro decisivo para a formação cristã. Aprendia-se a missa, as vésperas, o ano litúrgico com esse precioso livro que sempre estava sempre em cima do criado-mudo, também como fonte das orações da manhã e da noite, além das várias orações para as diversas necessidades e devoções dos fiéis.

Havia um pequeno missal para todas as idades: depois do Caronti, aos 12 anos me foi presentado o Lefebvre [referência ao monge beneditino Gaspar Lefebvre (1880-1966)] e depois, aos 15, o Feder [referência ao padre jesuíta G. Feder]. Ainda hoje, ao lado da minha cama, à espera de um pequeno missal latim-italiano posterior à reforma litúrgica, conservo o do Feder para a oração pessoal.

A missa tridentina - Consagração e comunhão
Naqueles anos, estava presente um movimento litúrgico muito reconhecido pelo meu pároco. Principalmente depois que Pio XII, na encíclica Mediator Dei (1947), falara das crianças como ministrantes, coroinhas, estas haviam se tornado uma presença e um serviço ao qual se prestava muita atenção.

Todas as semanas, havia duas horas de ensino litúrgico e de provas para aprender a como servir a missa e as outras liturgias: o pároco era muito exigente, e devia-se aprender a postura, o modo de caminhar, de manter as mãos, de fazer a genuflexão, de se inclinar...

Esse ensinamento e o exercício cotidiano me davam uma consciência profunda e uma forte convicção do serviço ao altar, quase como se a missa fosse coisa do padre e minha: nós dois éramos os protagonistas, porque, como coroinha, eu era, de fato, um concelebrante. Ainda mais que o que podia ser cantado pelas pessoas era irrelevante para a validade da missa: só o padre era celebrante, e o que importava era que ele e o coroinha seguissem o rito segundo as rubricas e validamente (riteet valide). Os cantos ou as eventuais respostas do povo eram decorativos, mas não necessários.

O coroinha de então tinha que ser um rubricista especialista, um atento conhecedor das regras e das normas litúrgicas, um rapaz consciente e valoroso do seu serviço ao altar. A sua presença e as suas respostas ao padre eram essenciais para a celebração: era uma espécie de clérigo virtual.

Também não devemos esquecer que esse serviço estava consentido apenas aos homens, enquanto as mulheres absolutamente não podiam entrar no presbitério, muito menos colaborar com o desenvolvimento da celebração. O coroinha era, portanto, educado no espírito litúrgico e à execução ordenada, elegante, séria das funções litúrgicas das quais era investido.

Quando o padre subia ao altar, ele o beijava e, depois, invocava a piedade do Senhor: "Kyrie eleison", dizia ele, e eu respondia. Cruzavam-se assim, entre mim e ele, as invocações de piedade. Depois, havia a oração da coleta do dia, sempre em latim, seguida pela leitura da epístola. Todas as manhãs, sendo a missa "de morto", a leitura da epístola era a mesma, 1Ts 4, 13-18, que iniciava com as palavras: "Fratres, nolumus vosignorare de dormientibus…", assim como a leitura posterior retirada do evangelho segundo João (Jo 11, 21-27).

Eu estudei e aprendi muito cedo o latim, ainda aos oito anos, graças a quem me educou de modo tão refinado, especialmente depois da morte da minha mãe, e assim pude seguir todas as palavras sussurradas pelo padre. Eu também ouvia, porém, por trás das costas, o burburinho das pessoas que recitavam o rosário. De vez em quando, o padre se virava para as pessoas dizendo: "Dominus vobiscum", mas eu só eu que respondia: "Et cum spiritu tuo".

No entanto, em um certo ponto, quando, depois do prefácio às vezes cantado, eu proclamava o Sanctus e tocava três toques de sineta, eis que o burburinho da oração das pessoas cessava, e todos, ajoelhados, olhavam para o padre que, no altar, inclinado sobre a hóstia e sobre o cálice, pronunciava em voz baixíssima as palavras da consagração. Todos sabiam, em uma total obediência à "disciplina do arcano", que aquele era o momento culminante da missa, um momento que infundia temor: era o "santíssimo" da missa, em que absolutamente era preciso calar e prestar atenção. Era o fascinosum et tremendum, que se impunha também para o povo rude do interior!

Todos os olhares estavam fixos na coluna inclinada do padre, à espera de que aparecessem, por cima da sua cabeça, elevados ao alto pelas suas mãos, a hóstia e depois o cálice. Aqui também a sineta ritmava os movimentos do padre que se ajoelhava depois das elevações. Um toque contínuo da sineta que eu fazia girar com arte indicava o fim da consagração, do momento mais alto, do ápice da missa.

Ver a hóstia e o cálice, para muitos, era o elemento decisivo da missa, a máxima comunhão possível com o Senhor, porque quase ninguém, depois, acedia à comunhão do corpo do Senhor. A comunhão sacramental, de fato, era praticada por pouquíssimos. Era necessário comungar ao menos uma vez por ano – recitava o preceito da Igreja –, e ninguém, à parte das freiras e eu, sentiam a necessidade de comungar cotidianamente.

Também devemos dizer que a comunhão não era feita durante a missa: no momento da comunhão, só o padre comungava, depois a missa acabava. Depois de entrar novamente na sacristia e de ter deposto a casula, o padre, em alva e estola, voltava ao sacrário do altar, o abria, e nós comungávamos, ajoelhados no parapeito. Depois, fechava-se o tabernáculo sussurrando: "O sacrumconvivium…".

Essa era a missa dos dias de semana e cotidiana, que durava entre 20 e 25 minutos, no centro da qual havia "o silêncio canônico", o santíssimo momento da consagração e da elevação, um tempo em que o celebrante se imergia, mais ou menos de acordo com a sua devoção, em uma ação temorosa, adorante, mistérica. E com ele eu também, que, de perto, apenas três degraus mais abaixo, escutava e, assim, podia acompanhar as suas palavras sussurradas.

A missa tridentina – A pregação
É verdade que as pessoas "assistiam" e que essa era a sua participação: o que importava era a devoção, o exercício dos afetos, a atenção à presença de Deus, o temor pelo que acontecia sobre o altar. Não era dada a palavra do Senhor: o Antigo Testamento, durante a semana, era lido pouquíssimas vezes, as leituras da epístola e do evangelho eram – como se disse – sempre as mesmas, em ainda em latim (mais em geral, nas missas não "de morto", as leituras bíblicas eram muito escassas: textos quase que unicamente do evangelho segundo Mateus e admoestações tiradas do apóstolo Paulo).

Eu também me lembro que o meu pároco, considerado um inovador na liturgia e às vezes por isso criticado pelo bispo, a partir de 1951, me fazia ler em italiano, do parapeito, as leituras que ele, simultaneamente, lia em voz baixa em latim no altar. Então, as pessoas faziam silêncio, ouviam, como na elevação: eram os únicos momentos em que se suspendiam as devoções realizadas paralelamente com o desdobramento da missa.

No domingo, ao invés, as missas eram três: às 6h para as mulheres, que depois tinham que ir para casa para preparar o almoço; às 8h para os meninos, à qual se seguia a hora de catecismo; às 11h, a "missa grande", principalmente para os homens e os jovens.

Nessa última missa, em particular, havia os cantos: o coro da cidade executava em gregoriano a Missa de angelis. No início e no fim, cantavam-se hinos que eu recordo com verdadeira tristeza, por serem composições feias, com palavras carregadas de sentimentalismo, às vezes contendo elementos dramáticos.

Mas as pessoas – deve-se reconhecer – consideravam-nos como seus e os cantavam com paixão. Na "missa grande", não faltava a pregação, adaptada para o auditório: no primeiro pós-guerra, vinha um "josefino" de Asti ou um frei passionista do santuário das Rocche e, para não tornar a missa muito longa, ele pregava durante o desdobramento do rito.

Ele só parava no momento do Sanctus, ele também se ajoelhava na direção do altar e retomava o sermão depois do toque de sineta que se seguia à consagração. Tratava-se de pregações, não de homilias: era a ocasião para lembrar e repassar durante o ano a ética cristã, os mandamentos de Deus, os preceitos da Igreja.

Nos anos 1950 e 1960 do século passado, a pregação era uma oportunidade para a defesa da Igreja, para a luta contra o ateísmo, o comunismo e o desaparecimento da rigorosa moral sexual, em uma sociedade que perdia os seus parâmetros e conhecia uma nova cultura, cada vez menos tradicional e cada vez mais embebida de individualismo e de liberdade.

Muitos homens, durante a pregação, ficavam do lado de fora, formando pequenos grupos, e eu tinha que sair para forçá-los a entrar antes do ofertório, advertindo-os que, caso contrário, para eles, a missa não seria válida. O pároco me disse: "Vamos, força! Compelle intrare, faça-os entrar (Lc 14, 23)". Aqueles que entravam, saíam de novo para o pátio da igreja depois do Pai Nosso, dizendo com alívio: "Acabou!", e se queixavam da pregação resmungando.

(Continua amanhã à tarde)
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