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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O garoto de rosa-shocking*

Ilustração: Kareena Zerefos

Meu filho se chama Marina. Ou pelo menos, é assim que ele gosta de ser chamado na maior parte do tempo. Ninguém sabe o motivo da escolha do nome, ou a razão da rejeição pelo nome que seu pai e eu lhe demos, o fato é que se um estranho lhe pergunta “Qual é o seu nome?”, a resposta é invariavelmente “Marina”.

Antes de ser Marina, ele fora Yellow, Blue Meanie, leãozinho, Pato Fu, e uma infinidade de nomes que não me recordo no momento. Depois de Marina, ele eventualmente se transforma em Sonequita, Denguinho, Pocoyo… Certa vez, entre sorrisos amarelos, justifiquei que a escolha do nome Marina viria de uma personagem de desenho animado, quando ele me olhou, inquisitivo. Não, não era esse o motivo. Marina era ele, não era uma personagem. Mas liderado pelo desconforto causado pela resposta, vez ou outra ele completa “É Marina por causa do Peixonauta.”

Pergunto-lhe se não gosta de seu nome – Benjamin. Nome bonito, que papai e eu escolhemos. Não gosta, quer bater no Benjamin. Benjamin foi embora, jogou-se no mar. Benjamin atravessou a rua sem a mamãe. Em outra palavra, a qual ele ainda não consegue captar o significado, Benjamin morreu. E ele, quem é? É Marina.

Se eu disser que nunca me preocupei com isso, estarei mentindo. Quando a fase do nome Marina passou da primeira semana, uma luz se acendeu eu minha cabeça. Yellow durara bastante, mas havia um motivo explicável para isso, ao contrário de Marina, que surgira do nada. Mas o bicho pegou quando ele respondeu para outra pessoa que seu nome era Marina, Yellow nunca havia respondido isso. A questão é que nos importamos sempre com o que os outros pensam, pois o julgamento alheio é fermento para quaisquer conflitos internos que possamos ter.

Perguntei a duas psicólogas de correntes diferentes, e ambas responderam que era natural. Perguntei à coordenadora pedagógica da escola, que não viu nenhum problema. Tentei relaxar, mas sempre sinto uma contração involuntária de vergonha quando ele fala em vídeo para milhares de leitoras que seu nome é Marina. Certa vez, em um centro de compras, Marina pediu que lhe alugasse um carrinho especial. Estávamos de férias, sem nada para fazer ali, cedi. Marina queria o carro verde do Palmeiras? Não, Marina pediu o carro cor-de-rosa. A funcionária me olhou chocada: eu deixaria tal transgressão ocorrer? Mas rosa é de menina, ela ainda arriscou. Nem foi ouvida por ele, embora tenha sido por mim. Então Marina passeou no shopping no carrinho cor-de-rosa.

É curioso que eu tenha ficado extremamente revoltada com o comentário da moça do shopping de que rosa era para meninas. Não, respondi, não é para meninas. Você pode usar a cor que quiser. No entanto, me contorço com a escolha de nome. Mas Marina é nome de menina, arrisco eu. Marina é o nome da sua coleguinha da escola, é o nome da nossa vizinha. A Marina do Peixonauta é menina também. E o Benjamin, é menino ou menina? É Marina.

Meu filho tem 2 anos e 4 meses. Ele não tem distinção de sexo, e nunca foi ensinado a diferenciar brinquedos de meninos ou meninas. Brinca de bonecas, brinca de cozinha, mas troca tudo por um carrinho. Com sua familinha de pano, ainda não se identifica com o menininho, ou a menininha. Ele permanece sendo o bebê, de sexo neutro. Meu filho gosta de colocar colares e pulseiras cor-de-rosa, e gosta também do relógio do papai. Meu filho é uma criança normal, e refrear qualquer impulso natural dele é transformar isso em um bloqueio que ricocheteará daqui a alguns anos em forma de frustração e negação do que ele possa vir a ser: hetero, homo, trans. Chamar-se de Marina não vai causar isso, e certamente não mudará sua orientação.

Então, meu filho se chama Marina.

- Nanda, no blog Mamíferas

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*O título do post é uma cópia descarada de um artigo da revista Mothering, que pode ser ouvido em áudio (inglês) aqui. Esse artigo, juntamente com outros da revista Mothering, foi um dos que me fez perceber que não há problema algum em meu filho se chamar Marina às vezes, e até quando ele quiser.

domingo, 18 de setembro de 2011

O pluralismo religioso como um dom de Deus


Em dia de 4ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa (atualização em 19/09: saiba como foi a caminhada aqui), deixamos para reflexão o texto abaixo. Bom domingo a todos!

1. O pluralismo religioso é um dom de Deus e revela as riquezas singulares de sua sabedoria infinita e multiforme.

2. Antes de expressarem uma busca tateante de Deus, as religiões já foram acolhidas por Deus na dinâmica de sua infinita abertura e misericórdia. Não são os sedentos que buscam a água, mas a água que busca os sedentos.

3. As religiões são “fragmentos” que participam de uma sinfonia cujo horizonte é marcado pela tônica do inacabamento. Não há possibilidade de uma única tradição pretender-se detentora da posse da verdade.

4. A verdade que anima a caminhada das religiões não é algo que se apropria como uma garantia assegurada, mas um mistério sempre aberto pelo qual as religiões devem deixar-se possuir.

5. As religiões são marcadas por limites e ambigüidades, mas estão igualmente envolvidas pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados.

6. Cada religião é portadora de um enigma que é irredutível e irrevogável, não podendo ser entendida como um marco de espera que encontra o seu acabamento ou remate numa outra tradição religiosa. A riqueza das religiões não é algo que se encontra fora delas, como se o seu valor estivesse na sua capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram.

7. Desconhecer esse enigma ou mistério que envolve cada tradição religiosa é deixar de honrar a sua especificidade única e macular a riqueza intransponível da alteridade.

8. A defesa de uma assimetria de princípio entre as religiões compromete a dinâmica misteriosa dos dons de um Deus que abraça a diversidade.

9. A experiência de fé num Deus criador, que está presente e vivo em cada domínio do planeta, implica em reconhecer sua presença viva e acolhedora entre as diversas tradições religiosas.

10. Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. Não há razão plausível para concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância ou “porta”, mas há que perceber outras formas dessa mediação, que podem ser uma pessoa, mas também um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis.
11. A acolhida do pluralismo de princípio é uma condição essencial para o verdadeiro diálogo interreligioso. Não há como dialogar verdadeiramente com o outro desconhecendo a riqueza e o valor irredutível de sua dignidade religiosa.

12. Fixar-se numa única tradição religiosa, excluindo-se da provocação criadora da interlocução da alteridade, é deixar escapar bens preciosos que irradiam na dinâmica reveladora de Deus, sempre em ação na história.

13. O reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva à identidade, facultando a abertura para novas e enriquecedoras dimensões da própria fé.

14. Longe de enfraquecer a fé, o diálogo verdadeiro abre horizontes novos e fundamentais para a sua afirmação num mundo plural.

15. A acolhida do pluralismo de princípio requer não apenas o diálogo entre as religiões, mas também a abertura e aprendizado com outras formas de opções espirituais, sejam religiosas, a-religiosas ou pós-religiosas.

Contribuição para o Fórum Mundial de Teologia e Libertação – Dakar, fevereiro de 2011: aqui

- Faustino Teixeira
Fonte: Amai-vos

sábado, 17 de setembro de 2011

Espiritualidade, diversidade religiosa e diálogo interreligioso


Entrevista com Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - PPCIR-UFJF.

Quais são as principais questões que estão motivando o debate religioso na América Latina, hoje?

Creio que podemos indicar três questões importantes no cenário desse debate na América Latina, e em particular no Brasil. Situaria em primeiro lugar, a questão dos fundamentalismos religiosos. Trata-se de um tema que merece um cuidado particular nessas próximas décadas. Temos verificado aqui no Brasil o crescimento de afirmações religiosas identitárias que podem ser problemáticas, pois envolvem uma consciência de exclusividade salvífica que acaba excluindo o outro de uma saudável cidadania plural. Cresce de forma preocupante a intolerância religiosa por parte de certos núcleos neo-pentecostais, sobretudo com respeito às religiões afro-brasileiras. Essa temática foi abordada no livro organizado por Vagner Gonçalves: "Intolerância religiosa. Impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro." São Paulo: Edusp, 2007. É preocupante esse acirramento dos ataques de igrejas neopentecostais contra as religiões afro-brasileiras, e esse processo estende-se para outros países latino-americanos, como Argentina e Uruguai. Traços de intolerância verificam-se igualmente em segmentos do catolicismo romano no Brasil, como no caso de práticas da Comunidade Canção Nova, fundado pelo padre Jonas Abib. Tanto em programas de televisão como em publicações específicas verificam-se posturas beligerantes contra as outras tradições religiosas. Um exemplo vivo dessa postura encontramos no livro de Jonas Abib, "Sim, sim! Não, não!" (Editora Canção Nova). Em segundo lugar, situaria o desafio do pluralismo religioso. É como reação de insegurança a ele que se firmam perspectivas religiosas mais ensimesmadas e reativas. Ao convocar atitudes de abertura e dialogação, o pluralismo provoca temor, e com ele, atitudes de diabolização do outro ou de cruzada intolerante. Mas não há como driblar essa questão que tende a se firmar como dado incontornável nesse século XXI. Há que lidar com o pluralismo não como se fosse apenas uma questão de fato, a ser tolerada, mas entendê-lo como um pluralismo de princípio, expressão viva das riquezas da diversidade. Essa acolhida leva tempo, mas é imprescindível. Junto com o pluralismo religioso, em terceiro lugar, situa-se o desafio do do diálogo interreligioso. Se, de um lado, firmam-se experiências religiosas exclusivistas, de outro, irradia-se uma nova sensibilidade dialogal, que abre outras possibilidades de convivência harmoniosa entre as diversas tradições religiosas. Isso se percebe com alegria nos espaços de igrejas e universidades: uma sensibilidade nova em favor da plausibilidade de um pluralismo de princípio, pontuado pelo respeito da diversidade e o reconhecimento da dignidade do outro e do valor de sua convicção religiosa.

Quais os limites e possibilidades do diálogo inter-religioso hoje na América Latina?

O diálogo interreligioso emerge hoje como um dos mais fundamentais desafios para a América Latina e para a humanidade em geral. Já se tornou clássica a expressão cunhada por Hans Küng que sinaliza a impossibilidade de paz no mundo sem paz entre as religiões, bem como a impossibilidade de paz entre as religiões sem um diálogo entre as mesmas. As religiões têm um papel importante no tempo atual, não no sentido de serem as responsáveis pela resolução dos graves problemas que acometem o planeta, como a crise ecológica ou os demais problemas de ordem política, econômica e social. Mas elas podem exercer um papel importante no âmbito da renovação espiritual, no sentido de contribuir para a afirmação de um senso para a vida, conformando o universo motivacional. Podem ainda possibilitar a esperança num horizonte de fidelidade, fundamental para a manutenção do mundo sujetivo e comunitário. Isso se torna possível sobretudo quando elas atuam numa linha de comunhão, no respeito às diversidades específicas. As possibilidades para o diálogo estão dadas e são muitas, envolvendo os campos do diálogo da vida, das ações em comum, do diálogo doutrinal e o espiritual, que é o âmbito mais profundo de sua realização. Temos exemplos muito bonitos e significantes de práticas dialogais em nosso tempo, como no belo exemplo da comunidade dos monges de Tibhirine, na Argélia, tão bem ilustrada no premiado filme de Xavier Beauvois: Homens e Deuses. Há, porém, obstáculos que se interpõem ao exercício dialogal, como a auto-suficiência, a arrogância identitária, a incapacidade de abertura e a vontade de poder. Infelizmente são disposições muito presentes em nosso tempo, obstaculizando qualquer movimento de abertura ao plural.

Quais os principais desafios para as políticas de Estado no que tange à diversidade religiosa?

Creio que em primeiro lugar há que reafirmar com toda a energia possível o valor da diversidade e o respeito fundamental à legítima diversidade de caminhos religiosos e espirituais que traduzem a dinâmica vital em nosso tempo. Por isso, talvez melhor do que falar em diversidade religiosa, seria falar de diversidade de opções espirituais, que podem ser religiosas ou não. É uma importante pista lançada pelo teórico francês, Henri Pena-Ruiz, ainda pouco conhecido em nosso país. Ele trata com pertinência o tema da laicidade e de seus direitos na sociedade democrática. Em sua obra, "La laïcité" (1998), indica que a laicidade requer a exclusão “de toda discriminação na interpretação das doutrinas e crenças”. O aluno deve ter acesso às grandes referências espirituais da humanidade, sem necessariamente ser por elas condicionado. Pena-Ruiz alerta sobre o risco da confusão entre compreensão e adesão. É perfeitamente plausível o direito à compreensão, na escola pública, do sentido dos testemunhos espirituais que envolvem as diversas religiões, como seus ideias éticos, humanos e politicos, mas sem uma ênfase na adesão de crença. Não se pode igualmente privilegiar, no campo da atividade educacional, uma dada religião. Faz-se necessário um esforço coletivo para facultar o conhecimento respeitoso da diversidade religiosa, e de outras opções espirituais também substantivas para a afirmação do sentido.

E quais os principais desafios para a Educação Pública no que se refere à diversidade religiosa?

Não sou um especialista do tema, mas um leitor interessado. Enquanto defensor de um pluralismo de princípio, acredito que a Educação Pública tem um papel fundamental de resguardar os direitos da diversidade religiosa e espiritual. E também de defender permanentemente a liberdade de opções espirituais. Isso se reflete igualmente na complexa questão do “ensino religioso”. O tratamento dessa questão não pode manter-se inalterado, sobretudo depois das mudanças vislumbradas no campo religioso brasileiro, com a crescente diversidade religiosa. Vejo com dificuldade as formas vigentes de ensino religioso confessional em nosso país. Há que ampliar a discussão e percorrer novos caminhos, em sintonia mais fina com os desdobramentos teóricos em curso sobre a pluralidade religiosa. Identifico-me, em parte, com a perspectiva defendida na França por Regis Debray, de defesa do ensino do “fato” religioso na escola laica (L´enseignement du fait religieux dans l´école laïque, 2002). É necessário criar condições de aperfeiçoamento docente para a apresentação séria e fundamentada do “estudo do religioso” na escola pública, facultando uma abordagem honesta e digna sobre esse fenômeno. Isso pressupõe a formação de um quadro docente especializado, numa linha multifacetada, e com “ouvido musical para a religião”. Há que possibilitar uma maior aproximação “descritiva, factual e nocional” das religiões em sua pluralidade, sem privilégios e exclusividades. E isso deve ser realizado de forma sensível e delicada, com o devido respeito que o fenômeno religioso merece, com a atenção sempre acesa para a perspectiva interdisciplinar. É o caminho de acesso para superar uma “laicidade de incompetência” (o religioso, por construção, não nos interessa), em favor de uma “laicidade de inteligência” (é nosso dever compreendê-lo).

O que o senhor pensa sobre o papel do professor de ensino religioso na escola pública?

Num breve artigo que escrevi para um livro em torno do tema do Ensino religioso e formação docente (Paulinas, 2006 ), levantei algumas pistas sugestivas para esse papel do professor de “ensino do religioso”. Sugeri que o docente dessa área deve ter uma sensibilidade particular, pois trata de um tema delicado e complexo, que merece atenção, cuidado e respeito. Temos que nos dar conta que nesse campo das religiões estamos sempre caminhando “sobre um solo sagrado”, para utilizar uma expressão cara a Raimon Panikkar. O docente deve ser alguém que busca permanentemente aperfeiçoar o seu olhar e sua escuta para poder captar e transmitir com honestidade e fineza o mundo da alteridade. Há que reconhecer que o outro é sempre um enigma extremamente complexo, que resiste a qualquer apreensão simplificadora. O docente dessa área deve evitar, por princípio, atitudes e reflexões preconceituosas, apriorísticas e simplificadas. Daí a importância de seu constante aperfeiçoamento. Ele deve não só aprimorar seus conhecimentos teóricos sobre as religiões, mas também ampliar sua sensibilidade face ao enigma das religiões. O trabalho do docente deve ainda facultar o reconhecimento da alteridade e o respeito à sua dignidade. O estudo do fenômeno religioso deve possibilitar o exercício de uma dinâmica que seja marcada por um profundo respeito às diversas convicções religiosas. E, finalmente, favorecer a percepção da riqueza e do valor de um mundo plural e diversificado. As religiões não são apenas genuinamente diferentes, mas também autenticamente preciosas. Há que honrar essa alteridade, em sua especificidade peculiar, reconhecendo o valor e a plausibilidade de um pluralismo religioso de direito ou de princípio.

Gostaríamos que o senhor fizesse comentários sobre a transcendência como uma dimensão humana e as suas distintas manifestações culturais.

O meu grande mestre nessa reflexão foi sempre Karl Rahner, que trata com argúcia essa questão da experiência transcendental do humano. Trata-se, para ele, de uma experiência que “faz parte das estruturas necessárias e insuprimíveis do próprio sujeito que conhece”. Todo ser humano, enquanto ser de transcendência, está orientado a um mistério sempre maior, que pode ser por ele nomeado como Deus, como Todo, como Vazio ou como Real. Esse Mistério está íntimamente relacionado com o humano, embora sempre escape de sua compreensão. Há sempre uma “reserva escatológica” que preserva a qualidade de supresa e dom desse Mistério. Como assinala Rahner, “o mistério com sua incompreensibilidade é o que existe de mais evidente”. Esse mistério está no tempo, na vida cotidiana, em todo lugar. Não há como furtar-se de sua Presença envolvente. Ele pode ser captado de forma a-temática ou mesmo irreligiosa. Pode-se experimentar sua acolhida mesmo fora das religiões, em opções espirituais marcadas pela profundidade: temos, por exemplo, a experiência da “imanensidade”, com sublinha Comte-Sponville. O importante é sempre estarmos atentos à nossa dimensão de profundidade e voltados com particular sensibilidade ao “canto das coisas”. Na bela visão de Raimon Panikkar, a mística é sobretudo a experiência do Real, vivido em profundidade, e a espiritualidade o caminho para atingir essa meta. A mística verdadeira nos leva ao coração do Real, ou seja, ao “sentimento do Universo”.

Qual a é a relação entre espiritualidade e transcendência? Se relacionam sim ou não?

Como assinalava antes, a mística é a “experiência suprema da realidade” e a espiritualidade o caminho para alcançar tal experiência. Não há dúvida que a espiritualidade relaciona-se com a transcendência, mas diria que ela relaciona-se igualmente com a imanência. Aliás, o Mistério mais profundo é sempre transcendente/imanente. A espiritualidade não pode ser reduzida ao fenômeno da religiosidade, a não ser que a nossa compreensão de religiosidade seja bem ampla. Assim a definiu, por exemplo, Paul Tillich, distinguindo-a de seu conceito estrito. Num sentido lato, seguindo a pista aberta por Tillich, a religiosidade toca o âmbito do profundo e se traduz como “a dimensão da realidade suprema nos diferentes campos do encontro do ser humano com a realidade” (P.Tillich, "My Search for Absolutes"). Gosto da definição de espiritualidade apresentada por Dalai Lama. Ele a distingue da religião. Para Dalai Lama, a espiritualidade está relacionada com “qualidades do espírito humano”, como o amor, a compaixão, o respeito ao outro, a cortesia e a hospitalidade. E tais qualidades podem ser desenvolvidas mesmo em alto grau entre aqueles que não partilham um determinado sistema religioso. Por isso minha simpatia pela idéia de “opção espiritual”. Como indica Dalai Lama, as pessoas podem até dispensar a religião como projeto de vida, mas jamais essas qualidades espirituais essenciais para a afirmação do humano.

O que mais o senhor gostaria de acrescentar?

Gostaria ao fim dessa entrevista indicar uma pista lançada por um importante filósofo da Escola de Kyoto, Keiji Nishitani (1900-1990). É um autor ainda pouco conhecido entre nós, mas sugere reflexões muito preciosas sobre a espiritualidade do cotidiano. Numa de suas obras mais ricas, "A religião e o nada" (Religion and Nohingness, 1982), ele nos sinaliza que as coisas mais simples podem tornar-se um essencial ponto de concentração, a ponto de facultar o sentimento profundo do real e despertar uma sensibilidade nova. São experiências que nos fazem perceber a delicada presença do Mistério em tudo, nos detalhes mais simples da vida cotidiana. Mas há que saber maravilhar-se para poder perceber isso. Nishitani, com sua sensibilidade zen, indica-nos a presença de uma ordem mística que envolve todas as coisas. Somos assim convidados a captar esse “profundo sentimento da realidade das coisas cotidianas”. Não sem razão, o grande trapista Thomas Merton, ensinava aos seus noviços em Gethsêmani que a experiência contemplativa nada mais era do que viver a vida, como o peixe na água. E viver em profundidade. Nada mais falso do que isolar a vida espiritual dos mais profundos interesses humanos.

Fonte: Amai-vos, com grifos nossos

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como a homofobia atinge todos

Escultura: Richard Howie

Nas várias formas de opressão, membros do grupo alvo (às vezes denominado "minoria") são oprimidos, enquanto, nalguns níveis, membros do grupo dominante ou agente são prejudicados. Embora os efeitos da opressão sejam qualitativamente diferentes para o grupo alvo e para o grupo agente, no fim todos acabam perdendo.

1. A homofobia encerra todas as pessoas dentro de papéis sociais rígidos com base no gênero e inibe a criatividade e expressão pessoal e individual.

2. Um contexto homofóbico põe em questão a integridade dos heterossexuais ao pressioná-los para tratar os outros mal, ação contrária à sua humanidade intrínseca.

3. A homofobia inibe a capacidade de cada um para criar relações próximas ou íntimas com membros do mesmo sexo.

4. Geralmente, a homofobia restringe a comunicação com uma porção significativa da população e, mais especificamente, limita relações familiares.

5. Uma sociedade homofóbica, para além de impedir o desenvolvimento autêntico da identidade própria de algumas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBTs), coloca também sobre eles uma grande pressão para se casarem, situação que gera, tanto em si próprios, como nos seus cônjuges heterossexuais e filhos, estresse e, por vezes, traumas.

6. A homofobia é uma das causas para a iniciação sexual prematura, aumentando assim o risco de gravidez na adolescência e da propagação de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Jovens de todas as identidades sexuais são frequentemente pressionados a se tornarem heterossexualmente ativos para provar a si próprios e aos outros que são "normais".

7. A homofobia, combinada com sexofobia (medo e repulsa em relação ao sexo), resulta na eliminação de qualquer discussão sobre as vidas e a sexualidade das pessoas LGBT como parte integrante da Educação Sexual nas escolas, impedindo os estudantes de terem acesso a informações vitais. Esta falta de informação pode matar pessoas nestes tempos da Aids.

8. A homofobia pode ser usada para estigmatizar, silenciar e atingir pessoas que sejam vistas como ou definidas pelos outros como gays, lésbicas ou bissexuais, mas que são na realidade heterossexuais.

9. A homofobia impede os heterossexuais de receber os benefícios e contribuições que os LGBTs têm para oferecer: ideias teóricas, perspectivas e opções sociais e espirituais, contribuições na arte e na cultura, na religião, na vida familiar, em suma, em todas as áreas da sociedade.

10. A homofobia (juntamente com o racismo, o sexismo, o classismo, a sexofobia, etc) inibe uma resposta governamental e social unida e eficaz à Aids.

11. A homofobia consome e desvia energias que poderiam ser usada para esforços mais construtivos.

12. A homofobia inibe a apreciação e aceitação de outros tipos de diversidade, tornando o ambiente inseguro para todos, já que todas as pessoas têm características únicas que não são consideradas mainstream ou dominantes. Por isso, todos ficamos diminuídos quando qualquer um de nós é discriminado.

Fonte: X1 Tantas Notícias

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Lésbicas: orgulho e visibilidade

Foto: Andy Barter


Com atraso, reproduzimos aqui o texto escrito por nossa amiga Ivone Pita sobre a questão da visibilidade lésbica, a propósito do dia 29/8, que celebra justamente esse tema. Fica a reflexão sobre a violência da invisibilidade...

Somos lésbicas. Somos mulheres que vivem sem homens em um mundo machista e de mentalidade patriarcal.

Somos mulheres que subvertem a ordem do sexo frágil, da dependência e da subserviência. Somos mulheres que não seguem o “manual de boas práticas femininas”, que dita modos de vestir, de agir, de falar, de ser e estar no mundo. Somos revolucionárias na acepção própria da palavra: fazemos uma transformação radical na estrutura da sociedade.

Estamos onde supostamente mulheres não deveriam estar. É ainda espantoso para muitos, por exemplo, aceitar que duas mulheres possam viver sem um homem. Como vão resolver tarefas cotidianas tidas como masculinas? Não irá lhes faltar força? Jeito? Tino? Há ainda as tentativas de ridicularizar, diminuir e não reconhecer nossa sexualidade. Há
uma desqualificação fálica de nosso sexo. Para machistas de carteirinha - e uniforme completo! - lésbicas não trepam de verdade, apenas brincam de se esfregar. Sim, meninas, como se fosse pouco e somente o que fizéssemos. Mas a despeito das agressões e desqualificações, seguimos subvertendo a ordem, desconstruindo certezas e quebrando o que estaria estratificado.

Entretanto, sem orgulho, nada disso é possível. Sem orgulho, nos encolhemos, nos escondemos, deixamos a vida passar. Sem orgulho, não nos fazemos visíveis e sem visibilidade é como se não existíssemos. E, assim, nenhuma revolução acontece, nenhuma revolução é possível. Por outro lado, sem visibilidade não promovemos o orgulho. Somente a partir do momento em que nos tornamos visíveis por sermos nós mesmas, é que somos plenamente orgulhosas de sermos quem somos. E para isso é preciso coragem.

Vivemos em uma sociedade que insiste em dizer qual é o lugar da mulher, como deve ser sua inserção social e como deve se comportar. Sendo lésbica, melhor nem existir, pois não cabemos nos papéis destinados à mulher. E é assim que cotidianamente a sociedade nos diz que deveríamos nos envergonhar de ser quem somos e esconder nosso amor. É assim que a sociedade insiste em nossa invisibilidade, pois o que não se vê, não existe, não incomoda, não subverte.

Quando permanecemos invisíveis, contribuímos com a manutenção da discriminação e da violência, motivos pelos quais muitas mulheres optam por uma vida de anulação e silêncio. Contribuímos com a lesbofobia, pois não dizemos ao mundo que estamos em todos os lugares, em todas as profissões, em todas as famílias, em todos os cargos. Não dizemos que somos mães, filhas, avós, tias, irmãs, empregadas domésticas, médicas, advogadas, professoras e toda sorte de representação e inserção social. Não ajudamos outras mulheres a se revelarem, a se assumirem, a serem plenas. Assinalando nossa existência, derrotamos o medo do desconhecido, a discriminação e o ódio alimentado pela perversidade delirante – e nada inocente - de lésbicas destruidoras de família. Existindo publicamente, abordamos questões que nos são específicas e combatemos o sexismo.

A invisibilidade é uma grande violência contra nós lésbicas. Na mídia, por exemplo, o foco são os homossexuais masculinos. A violência homofóbica é tratada como um fenômeno que atinge somente homens.

Mas nós mulheres, se não estamos nos jornais como vítimas de violência física especificamente por nossa sexualidade, isso ocorre apenas pela violência do silenciamento: seja pela invisibilidade auto-imposta, por medo, seja pela falta de estatística específica. Aliás, não temos dados específicos de coisa alguma e raros registros de nossa história. E daí a imensa importância do coletivo. Para enfrentar os desafios que nos são apresentados e superar tanta opressão, não há como avançar individualmente, a única forma de alterarmos o ciclo perverso de invisibilidade e descaso é pela união de nossas vozes, de nossa força. A única saída possível é nos organizarmos e lutarmos. E isso depende de cada uma de nós, não de agentes externos. Nós temos direito à existência, a uma vida completa, à cidadania plena, à visibilidade. Podemos e devemos ser felizes. Plenamente felizes.

A visibilidade lésbica cotidiana é que derrubará a censura que nos é imposta e o cerceamento de nossos afetos e desejos, portanto, realize algo grandioso: torne-se visível, desafie a opressão e o autoritarismo da normatividade, pois é assim que escreveremos nossa história, uma nova história, e construiremos uma sociedade mais justa, mais solidária, democrática e plural.

- Ivone Pita

 Publicado originalmente no Gay1 (PolíticAtiva)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Antes de leis contra homofobia, educação contra a ignorância


Os gays e outras letras que compõe o espectro LGBT conquistaram muito nos últimos anos. Sem esquecer na escalada absurda do número de crimes de motivação homofóbica, o Brasil aprovou uma série de medidas que garante mais cidadania e dignidade a uma fatia expressiva da população brasileira, normalmente deixada a margem da sociedade.

Vitórias como a aprovação da união civil homoafetiva, convertida em casamento em alguns lugares do país, trouxe uma esperança nova aos homossexuais, que conquistaram uma gama de direitos que lhes era negado até então. A vitória também fez com que a luta pela aprovação da PLC122 (ou outro projeto futuro), que criminaliza condutas homofóbicas, voltasse a tona, acirrando ainda mais o embate ideológico com fundamentalistas religiosos fantasiados de deputados e senadores.

O problema é que nós (como movimento gay) temos construído um castelo gigante sem uma base sólida. Eu exemplifico minha afirmação com o argumento dos próprios deputados e senadores que defendem a aprovação das leis de combate a homofobia. Parte do discurso destes que defendem nossos direitos inclui o uso de expressões como “opção sexual”, “homossexualismo” e “liberdade sexual”, o que acaba disseminando velhos conceitos que deveriam estar enterrados neste debate.

Mesmo sem dados estatísticos, sei que boa parte das pessoas ainda acredita que ser homossexual é uma escolha, uma “opção sexual”, enquanto todos sabem, de uma forma ou de outra, que não há nenhuma escolha envolvida no processo de formação da orientação afetiva de alguém. A única opção possível é não viver a sexualidade em sua plenitude, vivendo de forma reprimida, seja por conta de pressão religiosa, ideológica ou social. Assim como o termo “homossexualismo”, que carrega uma carga semântica que remete a doença. Não podemos chamar de homofóbicos aqueles que nunca tiveram a oportunidade de se informar, de se educar. Não seria justo.

Enquanto nós não educarmos as pessoas, e não apenas nas escolas com programas de combate a homofobia, mas nas ruas, nas igrejas, nas empresas, sobre o que é a diversidade e como a convivência com ela é benéfica pra sociedade, não teremos avanços significativos. Precisamos ter, antes de leis, a sociedade do lado da diversidade. E isto depende de cada um dos homossexuais deste país, que podem servir de multiplicadores de informação sobre a naturalidade e simplicidade do que é ser gay: exatamente a mesma coisa do que ser hetero.

- William @delucca
Reproduzido via blog do autor

domingo, 7 de agosto de 2011

Bolsonaro e as calcinhas


O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi convidado para ser garoto-propaganda da Duloren, empresa especializada em roupas íntimas. Bolsonaro não é nenhum deus grego que inspire mulheres a comprar calcinhas. Não é seu corpo que importa à Duloren, mas suas opiniões sobre sexo, gays e mulheres. A atual campanha da Duloren de moda para homens no site da empresa traz a imagem de um desses modelos perfeitos sendo admirado por um pit bull. O slogan da campanha é "perigoso, viril e arrebatador". Minha dúvida foi se a chamada era para o cachorro ou para o modelo. O cachorro e o modelo estão de cueca, a diferença é que o cachorro a usa entre os dentes. Imaginei a atualização da campanha com Bolsonaro como modelo para a venda de calcinhas. Com o slogan "machão, conservador, homofóbico", Bolsonaro ocuparia bem o lugar do pit bull.

O comércio de roupas íntimas transita entre símbolos contraditórios sobre o corpo e a sexualidade: o proibido e o desejado, o vulgar e o íntimo. Bolsonaro e as calcinhas representarão a força do vulgar, mas com alta dose de desrespeito às mulheres e aos gays. Não consigo imaginá-lo vestindo calcinha na campanha, o que seria um contrassenso ainda maior, considerando sua posição de parlamentar.

Portanto, sua aparição deve ser como a de quem admira ou aprova mulheres vestindo calcinhas. Exatamente o lugar de censor moral no qual hoje ele vocifera como deputado ou, na iconografia da Duloren, o lugar do pit bull que admira os homens: o senhor da heterossexualidade, a favor de que as mulheres retornem à casa e ao cuidado dos filhos, e contra a igualdade sexual. Há outras cores de conservadorismo na voz do quase modelo da Duloren: revisionismo da ditadura como opressão, defesa da pena de morte, além das recentes controvérsias sobre racismo.

O que fez a Duloren imaginar que Bolsonaro inspiraria as mulheres a comprar calcinhas? Apostar na ironia seria o caminho confortável e menos controverso, mas também pouco provável para uma empresa que se rege pelo lucro. Bolsonaro não seria um modelo, mas um contramodelo para a intimidade feminina. Ao comprar uma calcinha aprovada por ele, as mulheres negariam os valores subliminares da campanha. Bolsonaro não seria o censor que se imagina ser, mas uma paródia de seu colega Tiririca no campo da sexualidade feminina: o humor sexual moveria o comércio das calcinhas.

Acho pouco provável uma aposta de risco como essa. Uma campanha de sucesso é aquela cuja mensagem não deixa dúvida sobre sua eficácia, semelhante à promovida pela Duloren que envolvia um padre e uma modelo com roupas íntimas, ambientada na Praça de São Pedro. A modelo segurava uma cruz em direção ao padre, sugerindo que a lingerie provocaria o espírito libidinoso dos padres. Não havia dúvidas quanta à mensagem dessa campanha, o que deixou a Igreja Católica justamente indignada.

Minha aposta sobre o sentido da campanha é outra. Não há subliminaridades em Bolsonaro como garoto-propaganda, assim como no uso da cruz e do padre na campanha anterior. A Duloren aposta no símbolo do machão como o de um bom vendedor de calcinhas, assim como apostou no modelo perfeito e no pit bull para vender cuecas para homens. É o sentido do machão na cultura brasileira que será negociado pela campanha. Gostar de mulheres e, mais ainda, de mulheres lindas vestindo calcinhas sedutoras, seria um ato de masculinidade. Para admirar mulheres na intimidade, somente homens machões. Mas machão aqui não se resume à ordem heterossexual do desejo - confunde-se com a homofobia, a opressão de gênero e a redução das mulheres a objeto de posse dos homens. O machão censor da sexualidade e do corpo das mulheres está em baixa e a Lei Maria da Penha é um sinal vigoroso da sociedade brasileira sobre essa mudança de mentalidade e práticas de gênero.

Não sei se Bolsonaro ajudará a Duloren a vender calcinhas, mas a Duloren o ajudará a se manter como o deputado federal censor da sexualidade. Afirmar-se como machão e defensor da heteronormatividade faz os parlamentares se projetarem, nem que seja pelo espanto medieval. O sinal mais recente dessa atualização do machão foi a aprovação da lei para a criação do Dia do Orgulho Heterossexual pela Câmara Municipal de São Paulo. Foram 31 votos pela aprovação contra 19, com forte hegemonia dos partidos conservadores na defesa da lei. Assim como na campanha da Duloren, há várias incongruências na lei, sendo a mais importante a inversão da ordem moral - quem é discriminado é o gay, e não o heterossexual. Não se mata um casal heterossexual na rua, mas se violentam pai e filho que expressam carinho em público. A homofobia mata, mas é a heteronormatividade que define as leis e, como gorjeta, pode ajudar o capitalismo a vender calcinhas.

- Debora Diniz
Antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da ANIS - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero
Reproduzido via Conteúdo Livre

sábado, 6 de agosto de 2011

Censura


Dois fatos da semana passada nos fazem lembrar que a censura está sempre à espreita, aguardando uma brecha para se insinuar.

Primeiro: a TV Globo decidiu eliminar da trama da novela "Insensato Coração" todas as referências ao relacionamento de um casal gay.

O namoro entre os personagens Hugo e Eduardo vinha sendo conduzido pelos autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares de forma a discutir a questão da homofobia sem cenas apelativas.

Em tempos nos quais pai e filho são agredidos por se abraçarem em público, sob suspeita de serem homossexuais, como aconteceu no interior de São Paulo, o relacionamento equilibrado, amoroso, de um casal gay é censurado.

Os personagens gays estereotipados, aqueles das piadas, estes são mantidos.

Segundo: uma liminar concedida na sexta pela Justiça do Rio, a pedido do DEM do Rio, proibiu uma sessão de "A Serbian Film - Terror sem Limites" que seria exibido sábado em um festival de cinema.

O filme é polêmico. Tem cenas de violência sexual e pedofilia e foi proibido em vários países europeus. Em outros, foi liberado após o corte de vários trechos.

O DEM argumenta que o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe a exibição de cenas de exploração sexual de menores.

Mas o artigo 220 da Constituição Federal estabelece que "é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística".

É um bom imbróglio jurídico. O que deve prevalecer?

Sem dúvida, temos que proteger crianças e adolescentes. Mas compensa proibir a sessão única de um filme, que tinha ingressos sobrando e que já havia sido exibido em Porto Alegre e São Luís, ou isso só aumentará o interesse por seu teor?

Ou incentivará o apetite por brechas nas quais a censura poderá se insinuar?

- Cristina Grillo
Reproduzido via Conteúdo Livre

* * *

Quem quiser pode assinar o manifesto contra a censura, aqui.

* * *

Atualização em 09/08/2011:
Com relação ao caso do A Serbian Film, um posicionamento contrário à ideia de censura e bem fundamentado pode ser lido no Observatório da Imprensa: "Falsa polêmica sobre a censura", de Luciano Trigo.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Os bispos estão com medo. É preciso que os leigos assumam a liderança"


Painelistas de um recente fórum em Woodstock, na Filadélfia, EUA, convocaram os leigos católicos a agarrar as rédeas e definir o rumo do futuro da Igreja.

A reportagem é de Jerry Filteau, publicada no sítio National Catholic Reporter, 04-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


"Estamos nos tornando uma Igreja faça-você-mesmo" para os leigos, disse o padre jesuíta Thomas J. Reese, um dos três membros seniores do Woodstock Theological Center, em Washington, que falou no fórum "O Futuro da Igreja", organizado pelo Woodstock sobre as "fontes de esperança", realizado na St. Joseph's University, na Filadélfia, no dia 5 de dezembro.

A hierarquia católica dos EUA, hoje, está medrosa e defensiva, muito distante da hierarquia colaborativa e pastoralmente transformada que surgiu durante e após o Concílio Vaticano II, disse Dolores R. Leckey, ex-chefe do Secretariado para os Leigos, Família, Mulheres e Juventude da Conferência dos Bispos dos EUA, e uma notável escritora sobre espiritualidade.

Cabe aos leigos assumir a responsabilidade para onde a Igreja vai nos próximos anos, disseram Leckey, Reese, e o Pe. Raymond Kemp, sacerdote diocesano de Washington e diretor do programa Pregando a Palavra Justa de Woodstock. Os pronunciamentos foram feitos durante a sessão de duas horas com cerca de 300 católicos da região da Filadélfia.

Reese, cientista político, consultor de mídia nacionalmente conhecido e ex-editor da revista jesuíta America, disse: "Pessoalmente, como cientista social, eu tendo a ser pessimista quando olho para a Igreja. Mas, como cristão, acho que tenho que ser otimista. Isso faz parte do nosso DNA como cristãos. Afinal, a nossa religião é baseada em alguém que morreu e ressuscitou dentre os mortos".

Um recente estudo do Pew Forum mostrou que cerca de um terço dos adultos norte-americanos que foram criados como católicos já não são mais católicos, disse ele, e o número de sacerdotes e religiosos na Igreja dos EUA diminuiu drasticamente, com poucas e dispersas novas vocações.

"Aos 65 anos, sou considerado um padre jovem", disse ele, acrescentando que o sacerdócio católico pode ser a única profissão do país hoje em que alguém que morre de velhice ainda é considerado "jovem". Por causa da teologia sacramental da Igreja relacionada à ordenação, a falta de padres significa uma falta de acesso à Eucaristia e a outros sacramentos, enfraquecendo toda a estrutura institucional, disse Reese.

Ele afirmou que, para ele, o achado mais deprimente do estudo do Pew Forum foi que 71% dos ex-católicos disseram que haviam deixado a Igreja porque "'minhas necessidades espirituais que não foram correspondidas pela Igreja' – em outras palavras, nosso produto fundamental fracassou".

Outro importante fator negativo nas tendências de adesão dos católicos dos EUA, disse Reese, é que hoje, nos EUA, muitos dos que saem são mulheres.

"No século XIX, nós perdíamos homens na Europa. Nós não perdíamos mulheres", disse. "Hoje, nós estamos perdendo as mulheres também. As mães são mais importantes para a Igreja Católica do que os padres, porque elas são as que passam a fé para a próxima geração. São elas que ensinam as crianças a rezar, que respondem às suas perguntas sobre Deus etc. As mulheres são absolutamente essenciais. Se perdermos as mulheres, podemos muito bem fechar a loja. E, por isso, o pior disso tudo é que, quanto mais uma mulheres se educa, mais alienada ela tende a se tornar da Igreja Católica".

Reese disse que os líderes da Igreja, ao culpar a pecaminosidade, o dissenso, a falta de compromisso ou outros fatores pelo êxodo dos católicos da Igreja, estão ignorando um grande problema. "Se fôssemos uma loja, diríamos que estamos culpando os clientes – e essa não é uma boa forma para fechar as contas", disse ele.

Ele disse que uma atitude acolhedora, implementada em práticas de boas-vindas concretas, está faltando na maioria das paróquias católicas, e essa é uma das grandes fraquezas da prática católica dos EUA hoje.

"Quando foi a última vez que você entrou em uma igreja católica e foi realmente acolhido?", perguntou. "Nossas igrejas e nossas liturgias são chatas. Isso, penso eu, mais do que a teologia, é o que está afastando o nosso povo da nossa Igreja".

"O que você precisa é de boa música, boa pregação, programas para crianças e uma comunidade acolhedora", disse. "Se você tiver isso, você vai ter uma igreja cheia".

Ele chamou a Igreja Católica hoje de "um monopólio preguiçoso", em torno do qual as Igrejas evangélicas "estão correndo em círculos".

Como sinais de esperança, disse ele, a Igreja "é muito melhor hoje do que era" na década de 1950 e é uma Igreja "que sempre muda".

Ele citou o retorno ao conhecimento bíblico e à espiritualidade entre as principais causas de esperança da Igreja Católica hoje.

O foco católico na justiça social atrai os jovens católicos, "especialmente quando esse trabalho não é visto apenas como uma espécie de apêndice ao Cristianismo, como ser católico, mas está integrado na nossa espiritualidade, como parte do que somos, por isso torna-se parte de quem nós somos como cristãos – para muitos jovens católicos, isso se torna atrativo", explicou.

Sobre as perspectivas imediatas da Igreja para o futuro, "talvez Deus sabe o que está fazendo", disse. "Se você não tem clero, talvez o trabalho seja seu".

Leckey e Kemp tocaram notas similares sobre a responsabilidade dos leigos pelo futuro da Igreja.

Leckey, que recentemente terminou um livro, "The Laity and Christian Education", da série "Redescobrindo o Vaticano II", da editora Paulus dos EUA, disse que o Concílio Vaticano II da década de 1960 é uma das principais razões para a sua esperança para o futuro da Igreja.

"O que aconteceu ali foi uma monumental conversão da consciência" entre os 2.500 bispos católicos do mundo, disse ela, e uma área-chave disso foi o reconhecimento do papel dos leigos, em virtude do seu batismo, na missão da Igreja e na propagação do Evangelho no mundo.

Ela contrastou a visão conciliar dos leigos com a visão pré-conciliar predominante, melhor expressa pelo Papa Pio X no início do século XX, quando disse: "Quanto aos fiéis leigos, eles não têm nenhuma outra obrigação senão deixar-se conduzir e, qual dócil rebanho, seguir os Pastores".

Além de rever a Igreja como Povo de Deus peregrino, o Concílio sublinhou a vocação universal à santidade e mudou o curso da narrativa da vida da Igreja, tornando-a mais bíblica e centrada na liturgia, afirmou.

Hoje, observou ela, 85% dos ministros das paróquias dos EUA são leigos, sendo que a maioria são mulheres.

Kemp disse que a chave para um futuro de esperança para a Igreja é uma paróquia viva – uma paróquia que acolha as pessoas e convide-as a contribuir com seu tempo e seus talentos. Ele citou a paróquia de St. Patrick, em Chicago, como um bom exemplo, que tem cerca de 120 membros nos grupos de pastoral e atrai jovens de toda a cidade.

Outro sinal de esperança para o futuro da Igreja nos Estados Unidos, disse, é o seu envolvimento em obras de caridade e de justiça.

"Nós temos uma história para contar, que atrai as pessoas que não são católicas", disse. "Onde estamos? Estamos nas fronteiras. Onde estamos? Estamos no hospital de Aids na África. Onde estamos? Somos aqueles que estão acompanhando os ilegais ao longo do processo. Onde estamos? Somos aqueles que estão nas prisões. Somos aqueles que estão construindo casas fora dos centros de detenção, para que as famílias possam se reunir com seus parentes antes de serem deportados. Onde estamos? Como Igreja, educamos, alimentamos, abrigamos, vestimos, reassentamos aqueles que encontram seu caminho aqui do que qualquer outra ONG deste país".

Esse é o tipo de instituição que atrai os jovens que querem fazer a diferença no mundo, disse.

Durante uma sessão de perguntas e respostas depois da apresentação, os três painelistas salientaram a necessidade de que os leigos tomem a iniciativa, se quiserem ver as coisas acontecer na Igreja.

Quando foi questionada sobre como os leigos podem estabelecer um diálogo com seus bispos sobre temas que lhes interessam, Leckey sugeriu que a crescente colaboração de religiosos e leigos – muitas comunidades religiosas estabeleceram programas associados aos leigos – poderia servir como um modelo e uma forma de desenvolver esse diálogo.

É difícil fazer com que os bispos de hoje entrem nesse diálogo, porque eles não confiam nos leigos como fizeram depois do Concílio, disse ela.

"Nossos bispos estão com medo", disse. "Você não age defensivamente assim a menos que esteja morrendo de medo. Suas defesas estão levantadas. Elas não estavam levantadas nos dias logo depois do Concílio".

terça-feira, 26 de julho de 2011

Heteroinquisidores


Se pai e filho agredidos por homófobos tivessem se 'confessado' gays, em vez de uma orelha decepada poderia haver dois cadáveres

Minhas visitas à Índia são recheadas de descobertas culturais. Uma das que mais me fascina é a cena de homens de mãos dadas nas ruas. Ao contrário de nós, a expressão pública de afeto entre amigos é socialmente autorizada. Assim como meninas escolares no Brasil, os indianos de qualquer idade andam abraçados com seus colegas. A mesma intimidade entre homens, vi em vários países de tradição árabe. Aos homens, é permitido o toque como sinal de amizade. O curioso é que esse traço cultural não elimina a homofobia. Ao contrário, a homofobia é uma prática de ódio que convive com essas redescrições culturais sobre o corpo e o encontro entre os sexos. Entre nós, a novidade parece ser a de que nem mesmo o afeto entre pais e filhos será permitido pela patrulha homofóbica.

Um pai de 42 anos e um filho de 18 se abraçaram. De madrugada, cantavam juntos em uma festa ao ar livre no interior de São Paulo. Consigo imaginá-los felizes, razão para demonstrarem afeto mútuo. Foi o sinal para que dois homens desconhecidos perguntassem se eram gays. Insatisfeitos com a resposta negativa, saíram em busca de outros homens para iniciar a agressão. O pai teve parte da orelha decepada e o filho teve ferimentos leves. Pai e filho têm medo de represálias, pois os agressores estão pelo mundo, talvez orgulhosos da façanha ou, quem sabe, ainda sem entender por que não se pode agredir gays. Se tiverem algum senso de vergonha pelo ato, talvez seja o de ter confundido homens heterossexuais com gays.

A violência foi praticada com um ritual de confissão em dois atos: no primeiro, pai e filho deveriam declarar suas práticas sexuais para homens desconhecidos. Os homens homofóbicos são os inquisidores da heteronormatividade. Pai e filho negaram ser gays. Por alguma razão, a performance de gênero do pai e do filho não convenceu o grupo de homófobos. Eles buscaram reforço e retornaram com mais homens para silenciar aqueles que imaginavam ser representantes dos fora da lei heterossexual. No segundo ato, foram exigidas demonstrações de práticas homossexuais: pai e filho deveriam se beijar na boca para que os agressores vivenciassem a fantasia gay.

O primeiro ato do ritual homofóbico me leva a imaginar quais teriam sido as consequências de um "sim, somos gays" - uma autoafirmação entranhada em dois homens que não suportassem mais o tribunal homofóbico. Com essa resposta, talvez não estivéssemos diante de uma imagem de uma orelha parcialmente decepada, mas de dois cadáveres. Pai e filho foram vítimas da violência homofóbica. O curioso é que os dois não se apresentam como gays, mas como representantes da ordem heterossexual. Para os vigias homofóbicos, não importavam as práticas sexuais dos dois homens, mas a manutenção da ordem pública em que homens não devem se tocar. O interdito homossexual é tão poderoso que deveria impedir, inclusive, o contato físico entre pais e filhos.

Há outro ponto intrigante nessa história que é sobre como os homófobos se formam. Essa é uma inquietação a que qualquer aspirante a sociólogo responderia com uma tautologia: os fenômenos sociais não têm causa única. Mas aqui quero arriscar um caminho de compreensão. Os homófobos deste caso foram incapazes de diferenciar uma expressão de carinho paterno de uma prática erótica entre dois homens. Como hipótese, especularia que os agressores pouco receberam afeto de homens, seja de seus pais ou de outros homens de suas redes afetivas. Uma hipótese alternativa é a de que, se houve afeto paterno, esse foi mediado pelo temor homofóbico. Essa ausência levou os agressores a desconfiar do corpo de outros homens. Ao primeiro sinal de aproximação física, a defesa é a repulsa homofóbica.
Sei que essa explicação pode parecer reducionista para um fenômeno tão complexo e dependente da cultura patriarcal como é a homofobia. Mas é intrigante o erro do radar homofóbico dos agressores, o que sugere haver um equívoco de ponto de partida: eles parecem não ter sido capazes de identificar sinais corporais de algo tão fundamental quanto o amor paterno. Mesmo que não sejam ainda pais, não conseguiram se deslocar para o lugar de filhos que já foram ou ainda são. Aos guardiões da moral heterossexual, esse é um erro de diagnóstico que denuncia uma perturbação simbólica ainda mais fundamental.

Se minha hipótese for razoável, a mediação homofóbica na relação entre pais e filhos ou entre homens que se relacionam por vínculos de amizade ou convivência perpassa a socialização de gênero dos meninos. Os homens seriam treinados para evitar expressões de afeto e carinho por outros homens. Aqui volto à imagem da Índia para lembrar que o desejo de aproximação física entre homens não está inscrito nos corpos sexuados, mas é compartilhado pela cultura em que os homens vivem. Os homófobos se formam em casa, na rua, na escola. Em todos os espaços em que a fantasia homofóbica mediar a relação entre os corpos e afetos dos homens, a violência e a injúria contra os fora da lei heterossexual irão crescer.

- Debora Diniz
Antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da ANIS - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero
Reproduzido via Conteúdo Livre

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ler a Palavra pode ser perigoso


Nunca se sabe com antecedência onde a aventura da leitura nos levará, pelo menos se aceitamos nos abrir à viagem, ao desconhecido, à descoberta, em vez de ler agarrando-nos covardemente a um monte de certezas adquiridas sempre. Ler não é dispor de um livro. O leitor se expõe ao texto e, de certo modo, é ele que está à disposição do texto e da sua palavra.

A análise é do teólogo e biblista suíço Daniel Marguerat. Foi pastor da Igreja Evangélica Reformada de 1984 a 2008 e lecionou Novo Testamento na Faculdade Teológica da Universidade de Lausanne, na Suíça.

O artigo que segue é um trecho do seu livro "Le Dieu des premiers chrétiens" (Ed. Labor et Fides, 2011, p. 249-252), publicado no sítio Garrigues et Sentiers, 14-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU com grifos nossos.

Eis o texto.


Martinho Lutero, convocado pelo imperador Carlos V para se explicar, compareceu diante da Dieta de Worms no dia 14 de abril de 1521. Tendo-lhe sido exigido que se retratasse de seus escritos que haviam sido depostos diante dele, ele respondeu com um discurso em latim, que lhe foi pedido para repetir em alemão. Ele o fez dele, em pé, no meio da assembleia, perante o imperador:

"Estou dominado pelas Sagradas Escrituras que eu citei, e a minha consciência está prisioneira da Palavra de Deus. Não posso nem quero me retratar de nada, porque não é nem sábio nem prudente agir contra a própria consciência". E ao oficial que lhe respondeu: "Abandona a tua consciência, frei Martinho. A única atitude sem perigo consiste em te submeteres à autoridade", Lutero rebateu e persistiu: "Aqui estou, não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude".

Curiosamente, Martinho Lutero reivindica a sua liberdade usando uma linguagem de cativeiro: estou dominado, a minha consciência está prisioneira, não posso fazer outra coisa. Não vejo nisso uma astúcia para se inocentar, porque o monge de Wittenberg não recorre a tais estratégias lamentáveis de defesa. Vejo a confissão de que ele havia embarcado em uma aventura que o arrastou inteiramente: a leitura da Palavra. E, nessa aventura, o leitor não é o mestre, mas sim a Escritura que dele se apossa. Depois de Worms, Lutero se encerrará em Wartburg: cativeiro desejado, deliberado, sinal do cativeiro da leitura.

Ler, portanto, não é sem perigo. Nunca se sabe com antecedência onde a aventura da leitura nos levará, pelo menos se aceitamos nos abrir à viagem, ao desconhecido, à descoberta, em vez de ler agarrando-nos covardemente a um monte de certezas adquiridas desde sempre. Ler não é dispor de um livro. O leitor se expõe ao texto e, de certo modo, é ele que está à disposição do texto e da sua palavra. Ler pode ser perigoso.

Parece que dos relatos de milagre à linguagem do julgamento, de Lucas a Paulo, dos Atos dos Apóstolos ao Apocalipse, as imagens de Deus são infinitamente mais diferentes do que se pensava. O Novo Testamento não abriga uma doutrina, mas expõe diversas abordagens de Deus, ou mais exatamente reúne diversas tentativas de dizer o mistério de Deus. Ler é arriscado. O risco aqui é de volatizar a unidade do Novo Testamento. Ainda é possível falar de “um” Deus dos primitivos cristãos?

Avaliemos a extensão dessa constatação. Essas diversas imagens de Deus, exumadas pela leitura, não são simplesmente adicionáveis umas às outras, como se, acumulando os autores do Novo Testamento, sobrepondo suas percepções de Deus, se obtivesse assim um retrato completo do Deus dos primeiros cristãos.

Constatou-se que os seus discursos não podem ser colocados simplesmente um depois do outro de ponta a ponta. O apóstolo Paulo tem um modo de significar a graça, com a sua convicção poderosa de que a barreira da Lei caiu, que não concorda imediatamente com a teologia de Mateus, para a qual o Reino é uma fenda, uma porta estreita através da qual devemos passar. Lucas se obstina em perceber Deus na espessura da história social e política do seu tempo, enquanto que o Apocalipse vive da convicção de que Deus se ausentou do mundo.

Gálatas 3, 28, perpetuando o gesto libertador de Jesus, abole toda prerrogativa do homem sobre a mulher, mas, na outra ponta do Novo Testamento, as epístolas pastorais delineiam o retrato de uma mulher destinada ao silêncio, convocada a se submeter ao homem e responsabilizada pela queda (1 Timóteo 2, 9-15; 5, 3-16). A unidade do Novo Testamento não se fará por adição.

É preciso, então, se resignar à constatação de uma Escritura dividida em posições teológicas irreconciliáveis? O Deus dos primeiros cristãos seria o emblema de teologias disparatadas? Eu diria que devemos admitir a irredutível diversidade das imagens de Deus no Novo Testamento, e que esse consentimento passa por um luto: o luto da uniformidade. Só a renúncia à utopia da identidade nos faz acolher a pluralidade como um fato positivo, e não como uma ameaça. A unidade do Novo Testamento não é suspensa pelas semelhanças que se encontrariam nos seus autores inspirados. Ela está na “sua comum vontade de dar conta do evento do Cristo”. Jesus de Nazaré, pelo fato de todos os relatos e os discursos tenderem a ele, cimenta a unidade do Novo Testamento.

Mas atenção. Essa unidade está em tensão. Os primeiros cristãos, cada um à sua maneira, acolheram e atualizaram na sua situação a memória de Jesus. A sua diversidade indicaria que alguns preservaram fielmente a mensagem do Nazareno, enquanto outros a teriam distorcido?

Desconfiemos desses termos, porque a "fidelidade à tradição de Jesus" que consiste em fixá-la para transmiti-la palavra por palavra é, na realidade, uma infidelidade fundamental. Ela faz da palavra de Jesus um objeto de museu, uma palavra a ser incensada assim como incensamos os mortos. Os primeiros cristãos não tinham essa visão fixa da tradição. A palavra de Jesus, por ser a palavra do Senhor presente na Igreja, devia ser atualizada. Para eles, “ser fiel a uma tradição impõe que ela evolua e se desenvolva”. Prova disso é que a escritura dos Evangelhos não esgotou o fluxo das tradições orais, sinal de que até essa imponente cristalização literária não havia esgotado a memória de Jesus. A Igreja antiga, além disso, manteve só uma parte dos escritos cristãos para fazer a sua seleção normativa da sua fé. Muitos outros, que nós conhecemos em parte, foram descartados e ainda amplificam consideravelmente a diversidade da qual falamos. Mas essa é uma outra história.

Os primeiros cristãos engajaram a sua fidelidade a Cristo por vias teológicas diferentes, e o Novo Testamento vive da reunião dessas fidelidades. Paulo é fiel à memória de Jesus quando afirma que a dignidade do homem lhe vem apenas de Deus e que a salvação não é uma performance religiosa. Mateus é fiel à memória de Jesus quando repete obstinadamente que a fé se concretiza por meio do gesto e da palavra, senão não existe. Lucas é fiel à memória de Jesus quando vê o Espírito de Deus em ação nas peripécias da missão. O autor do Apocalipse também é fiel quando defende que os poderes opressivos já foram vencidos na cruz, e que o seu julgamento é apenas uma questão de tempo.

O Novo Testamento vive da acolhida dessas fidelidades, cuja diversidade chega até o desacordo, e as mantém unidas. Ele pode fazer isso, porque os testemunhos e os sistemas teológicos que ele reúne não convidam a adotar um princípio, uma norma, uma doutrina, mas sim a seguir alguém, Jesus de Nazaré, o Cristo, Parábola de Deus. A fidelidade a uma pessoa não se satisfaz com uma uniformidade, e o Espírito se encarregou de fazer com que os primeiros cristãos compreendessem isso.

Gerir a sua herança hoje é resistir ao fantasma totalitário do discurso único e arriscar, ao mesmo tempo, uma palavra. Uma palavra que deverá se submeter humildemente ao testemunho das Escrituras, para saber se elas têm lugar, e como, no espaço das fidelidades a Cristo. Mas uma palavra que – e justamente se se afastar do discurso majoritário – talvez poderá não ser totalmente a nossa, porque nela fala uma Outra Palavra, que faz dizer: não posso fazer outra coisa...

domingo, 24 de julho de 2011

Emissoras no armário

Escultura: Vhils

Globo e SBT afirmam ter cortado cenas de beijo e de afeto entre homossexuais a pedido do público e para evitar 'exaltação'

Depois de ter tramas elogiadas por criticar a homofobia e tratar os relacionamentos homossexuais com naturalidade, as novelas da TV aberta recuaram na abordagem de personagens gays.

"Amor e Revolução" (SBT) mostrou um beijo lésbico entre Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Giselle Tigre). Mas a mesma cena entre Jeová (Lui Mendes) e Chico (Carlos Artur Thiré) foi vetada.

Em nota, a emissora explica ter tomado a decisão após uma pesquisa mostrar insatisfação "em relação às cenas de violência demasiada e beijo gay explícito, que incomodaram a maioria das famílias brasileiras".

A Globo não citou pesquisas para esfriar a história de "Insensato Coração", cortando cenas gravadas (veja quadro), como noticiado pela coluna "Outro Canal" nesta semana. "Nossa tramas registram a afetividade e o preconceito, mas não cabe exaltação", informou em nota.

As decisões das emissoras causaram surpresa e decepção entre defensores dos direitos dos homossexuais, especialmente no caso de "Insensato Coração", que foi considerada um marco pela denúncia da homofobia.

O próprio Ministério da Justiça, órgão responsável pela classificação indicativa, decidiu mantê-la como "não recomendada para menores de 12 anos" (ao invés de 14 anos).

A decisão, publicada no "Diário Oficial" nesta semana, cita que a novela tem "conteúdos de natureza educativa e relevância social, com reflexos positivos e respeito à diversidade".

Beijo proibido
A cautela na exibição de afeto entre homossexuais é antiga na Globo. Em 20 de dezembro de 1998, o cinegrafista Hugo Sá Peixoto e seu chefe, Amaury Trolize, foram demitidos após a exibição de um beijo entre homens em imagens que entraram ao vivo no "Fantástico".

A emissora explicou, em nota, que as demissões ocorreram na época porque eles desrespeitaram "uma recomendação". Ambos, porém, dizem que "foi um acidente".

"O proibido de ontem não é mais o de hoje", ressente-se Peixoto, que trabalhou por 26 anos na Globo. Quase 13 anos após sua saída, a mesma emissora exibiu, no "Jornal Nacional", em horário nobre, um selinho entre dois homens em reportagem sobre a última Parada Gay de São Paulo.

Especialistas ouvidos pela Folha destacaram a importância de dar visibilidade a cenas de afeto entre gays.

Deixando o politicamente correto de lado, no entanto, o que parece consensual adquire contornos controversos quando o assunto é a veiculação de imagens de beijos e carinhos entre dois homens ou duas mulheres.

Para o ator Daniel Barcelos, que beijou Raí Alves na minissérie "Mãe de Santo" (1990) da extinta TV Manchete, a polêmica é um retrocesso. "Não entendo por que dar esse passo atrás."

Questão gay evoluiu na TV, dizem estudiosos
"Será que eles vão explodir os dois, como já aconteceu com outros casais?"

A questão do antropólogo Sérgio Carrara, coordenador do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), é retórica.

Ele mesmo diz que dificilmente a Globo usará em "Insensato Coração" uma solução extravagante para eliminar o par Eduardo e Hugo, como aconteceu com o casal lésbico de "Torre de Babel", de 1998.

"Acho que é impossível, não é mais o momento. É quase inacreditável."

A Folha ouviu estudiosos -da sexualidade, da televisão, das telenovelas- sobre a representação dos homossexuais nos folhetins da TV.

Eles foram unânimes em apontar uma evolução, que acompanha e estimula mudanças na própria audiência.

"A telenovela é um espaço de debate. De um modo geral, ela puxa a sociedade", diz a professora Maria Immacolata, coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da Universidade de São Paulo.

Para o psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Transtorno de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas de São Paulo, Alexandre Saadeh, a censura às cenas de afeto gay nas novelas é um desserviço.

"Mostrar um beijo não é valorizar simplesmente os homossexuais mas promover a aceitação de uma diferença que é normal", diz.
"Ver um casal de homens ou mulheres vivendo juntos e expressando afeto não transforma ninguém em homossexual", explica Saadeh.

Por outro lado, ainda há claros sinais de conservadorismo do grande público, sinais a que as emissoras aludem -indiretamente e de forma velada- na hora de justificar as mudanças recentes nas tramas gays.

"Ao mesmo tempo em que há o reconhecimento de direitos, é uma sociedade ainda muito conservadora e que tem forças que usam a questão da homossexualidade como marco de diferença no campo político", diz Carrara.

Gays afetados e lésbicas
Dois tipos de personagem passam imunes aos vetos das TVs: gays afetados, do humor, e lésbicas.

"A relação sexual entre mulheres faz parte do repertório erótico heterossexual", diz Carrara; isso explicaria o fato de o SBT ter mostrado um beijo lésbico em "Amor e Revolução", mas censurado cena idêntica com homens.

Quanto aos gays afetados, típicos do núcleo humorístico, os especialistas afirmam que fazem parte da diversidade homossexual, mas que frequentemente são apenas veículos para a expressão de preconceitos.

"É mais fácil debochar desse tipo de personagem porque ele tem a marca da diferença", explica Saadeh.

"Incomoda mais um homossexual que não é afetado, ou tem trejeitos, porque fica mais difícil excluí-lo."

Doutor em comunicação pela Universidade do Texas e autor de livros como "A Televisão no Brasil - 50 Anos de História", Sergio Mattos diz que a sociedade está "deixando a hipocrisia de lado" e que a aceitação "é questão de tempo".

- Elisangela Roxo e Marco Aurélio Canônico
Matéria publicada na Folha de S. Paulo de hoje, reproduzida via Conteúdo Livre


Opinião 1
Novelistas exageram na temática e perdem a mão
Ricardo Feltrin, editor de entretenimento da Folha de S. Paulo

Até o final da década de 90, os gays quase sempre eram retratados de forma jocosa em novelas, seriados e minisséries. São lendários personagens em tramas de todos os horários na Globo. No SBT, a descoberta é mais recente.

Parece que foi só neste novo século que as TVs descobriram o politicamente correto e passaram a retratar minorias com mais fidelidade.

A despeito dos vários beijos gays prometidos por autores da Globo e do SBT, e que não foram exibidos por ingerência das direções das TVs, não há dúvida de que os novelistas escrevem hoje um texto mais honesto, sério e justo para personagens gays, negros e também deficientes físicos, doentes terminais etc.

O problema é que, assim como todo ano as organizações LGBT "inflam" e chutam para cima o número de pessoas presentes à passeata na Paulista, talvez os autores agora estejam "inflando" o espaço à temática e a seus personagens. O mundo real parece bem menos gay do que o que os novelistas querem.

Opinião 2
Os gays não conquistaram sua cidadania nas telenovelas
Vitor Angelo, colaboração para a Folha de S. Paulo

Falar num crescimento exagerado de personagens gays nas novelas merece cautela. Na recente reprise de "Vale Tudo", dos anos 80, havia o mordomo culto e afetado, o filho que o pai desconfiava ser homossexual e o michê que virou amante de um príncipe. Tudo muito enrustido, mas já presente.

Nos humorísticos, a chamada "bicha caricata" existe há décadas -um elemento importante para a chamada visibilidade gay.

Está desfocada a ideia de que os vetos das emissoras para baixar a bola da bandeira colorida foram provocados por uma overdose gay na TV. Eles não são nem maioria nem protagonistas das novelas. O que está em "close" não é supremacia, mas igualdade.

Diminuir a presença gay na TV torna o debate da homofobia desigual se comparado ao de questões como o racismo ou a opressão à mulher, amplamente discutidas nas tramas de novelas. A conclusão é uma só: os gays ainda não conquistaram sua cidadania plena nas telenovelas.

domingo, 12 de junho de 2011

Ou o sal não salga ou...

"Light blubs": Pieke Bergmans

Frente a pânicos morais todo cuidado é pouco. Qualquer movimento para sair deles pode nos empurrar mais ao fundo. Para escapar, é crucial agarrar-se aos fatos e à razão, colocando questões diferentes das que são formuladas pelos interessados em produzi-lo ou pelos que, nele, permanecem presos.

Frente ao pânico moral que cercou o kit anti-homofobia do Ministério da Educação, a ação do governo foi errática e confusa. Intempestivamente, Dilma mandou "suspendê-lo", em vez de dizer simplesmente que confiava no discernimento da equipe do ministério quanto ao seu teor e à sua utilização. Baseada no que viu na tevê, afirmou que o material "fazia propaganda de opções sexuais" e que isso seria inaceitável. Parece que se referia a uma frase em que um adolescente chegava à conclusão de que teria maiores chances de envolver-se com alguém, pois se sentia atraído igualmente por rapazes e moças. Colocando bissexuais em posição privilegiada em relação a homossexuais e a heterossexuais, mais limitados em suas "opções" (para usar a expressão da presidente), a ideia pode até ser considerada infeliz. Mas o que haveria de tão escandaloso nessa quase risível fabulação de um adolescente?

Se "ou o sal não salga ou a terra não se deixa salgar...", podemos dizer que ou todo esse imbróglio esconde "tenebrosas transações" (como muitos acreditam), ou revela certa concepção sobre os considerados sexualmente diferentes que urge submeter à crítica. O kit que o ministério desenvolveu aborda a homofobia sem vitimizar pessoas LGBT, apresentando sua diferença como algo positivo. Quando afirma que o governo "combate a homofobia, mas não propagandeia opções sexuais", a presidente parece dizer que, ao não tratar a homossexualidade como um "problema", o material a incentiva. Não estaríamos frente à tradução laica do mantra esquizofrenizante repetido ad nauseam por pastores e padres, segundo o qual se deve "amar o pecador, mas não o pecado"? Ou "acolher homossexuais, mas não a homossexualidade"?

Caso não seja isso, seria aconselhável Dilma vir a público dizer que os que afirmam ser a homossexualidade pecado e negam os direitos de cidadania a homens e mulheres homossexuais estão "propagandeando" a heterossexualidade e que isso é também inaceitável. Deve esclarecer que seu governo não combate apenas a barbárie homofóbica, mas defende a completa igualdade de direitos, fazendo suas as palavras dos juízes do STF sobre o estatuto das uniões homoafetivas. Sob pena de se misturar aos que consideram a homossexualidade inferior e deram início a toda essa confusão, deve deixar claro que os motivos que a fazem condenar o material produzido pelo ministério não são iguais aos de bolsonaros e garotinhos.

- Sergio Carrara, antropólogo
Publicado no jornal O Globo, na seção Opinião, em 07/06/2011.
Reproduzido via X1

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O professor: recurso mais importante no combate à homofobia na escola


Lembra que eu disse aqui como fiquei feliz com um trabalho sobre transexualidade no estágio? Pois é, alegria de gay dura pouco. Esta semana o tema da aula eram as políticas de reparação e reconhecimento de grupos minoritários. O professor fez um paralelo entre a lei contra o racismo de 1989 e o Projeto de Lei Complementar 122 que, entre outras discriminações, confere o mesmo status de crime às manifestações homofóbicas de que gozam as racistas.

Disse que gostaria de um debate sobre as semelhanças e diferenças a respeito destas duas formas de discrimanção. Mas o que fez, de fato, ao longo de toda a aula foi defender que o projeto contra a homofobia era contrário à liberdade de expressão. A lei contra o racismo teria consagrado uma postura unânime da sociedade sobre o tema, enquanto a questão da homofobia é bastante controversa. Pra coroar, citou apenas uma parte do texto do projeto de lei e pôs no quadro o manifesto inteiro da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, sublinhando a parte em que se afirma que nem toda manifestação contrária aos homossexuais é homofóbica. Citou ainda Bolsonaro e Marcelo Crivella. Ele chegou ao ponto de apelar para a questão do humor, quase dizendo que fazer piada das minorias era algo absolutamente inocente. Lembrei de um professor meu da faculdade que, em sua dissertação de mestrado sobre as travestis, afirma que as piadas e os risinhos vão criando o ambiente que ajuda a apertar o gatilho.

Desde quando a liberdade de expressão é um valor absoluto ao ponto de se permitir a degradação da dignidade humana de outros cidadãos que gozam do direito não só à vida e integridade física, mas também à sua imagem? Dizer que o repúdio ao racismo era já consenso na sociedade brasileira e por isso a lei consagrou uma atitude social já consolidada? Para que a lei então? Eu cresci vendo na televisão piadas sobre negros, pegando elevadores sociais nos quais as empregadas domésticas e porteiros, muitos deles negros, eram impedidos de entrar. Tudo isto foi mudando graças à maior consciência sim, mas muito por causa do instrumento coercitivo que a lei proporcionou a quem era discriminado.

Fiquei com pena dos alunos, alguns visivelmente gays. Mais do que material didático contra a homofobia, é urgente que se invista na sensibilização dos professores em relação à questão.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

"Lavagem cerebral": modo de usar


Nosso amigo Teleny mais uma vez nos surpreendeu com uma de suas análises precisas e oportunas - desta vez, acerca de toda a manipulação da opinião pública que se vem promovendo acerca do Programa Escola sem Homofobia. Por uma questão de esclarecimento, reproduzimos aqui seu post de ontem:

As tentativas de obter a definição do termo “lavagem cerebral” (conhecida também como reforma de pensamento, estupro da mente ou reeducação ideológica), remetem-nos ao passado sombrio do nazismo de Hitler, da União Soviética de Stalin e da “revolução cultural” de Mao Tsé-tung, entre outros, tristes marcos da história. Em seguida, aparece o assustador fenômeno (ainda atual!) das seitas religiosas, capazes de destruir a vida de seus adeptos. A respeito disso, vale à pena ler a matéria publicada no portal “Universo Católico” (aqui). O artigo menciona vários métodos de lavagem cerebral, entre os quais chamam minha atenção, especialmente:

1. Uso de estereótipos: O doutrinador utiliza estereótipos para criar impressões fixas sobre determinado grupo de pessoas ou povos. A propaganda incentiva o estereótipo, seja com conotações positivas ou negativas, para angariar simpatia à mensagem propagada e criar ou aprofundar a hostilidade a outras ideias. É a mais poderosa arma psicológica usada pelas seitas para incrementar o preconceito é criar estereótipos tanto para si mesma, e seus adeptos, quanto para seus rivais.

2. Seleção e indução: o doutrinador seleciona cuidadosamente a informação para que os pontos destacados estimulem os leitores ou ouvintes para as conclusões que, espera-se, eles atinjam. Informações são cuidadosamente omitidas quando são inúteis para influenciar a conclusão final. Indução é uma forma de argumentação onde toda a evidência (verdadeira ou falsa) é simbolicamente empilhada, em ordem, de modo que sejam lidas ou ditas uma a uma, em seqüência, fazendo com que no final a única conclusão, possível, seja aquela que o doutrinador quer ver aceita.

3. Distorções e falsidade: A falsidade é um método comumente usado pelos doutrinadores que fabricam, torcem, esticam ou omitem evidências utilizadas na doutrinação, obtendo resultados eficazes. É necessário para esse fim, dramatizar situações, ressaltar ou inventar fatos tendo em vista a despertar a ira e o desprezo de seus adeptos pelos oponentes. Não há limite ético ou moral nesse recurso, deseja-se apenas que o membro da seita acredite na mentira que lhe é passada, afinal, não dispondo de informações que contradigam os argumentos da seita, fatalmente o adepto não discutirá as fontes e nem a procedência da informação, principalmente quando vê citadas tantas fontes aparentemente fidedignas.

4. Repetição: o doutrinador usa a repetição para gravar a mensagem nas mentes da audiência. Joseph Goebbles, ministro da propaganda de Adolf Hitler, sustentava: "Se uma mentira for repetida mil vezes, sempre com convicção, tornar-se-á uma verdade". Portanto, se uma palavra ou frase for usada repetidas vezes, depois de algum tempo será aceita, tendo significado verdadeiro ou não.

5. A doutrina do medo: o mais terrível estágio da doutrinação que tem graves desdobramentos e, não raro, conduz a graves danos psicológicos e morais. O adepto é conduzido a ter medo da própria seita, não de forma direta, mas através de vários conceitos que lhe são impostos. A seita, a todo o tempo, se ocupa de manter sob seu controle os membros já conquistados.

Depois desta introdução, transcrevo alguns trechos do texto assinado pelo Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, Arcebispo de Sorocaba – SP. O seu artigo, sob o sugestivo título “Alerta aos Educadores”, encontra-se no site da CNBB (aqui):

Acabo de ler o seguinte conteúdo em Biblioteca Virtual Católica da Espanha: “As autoridades educacionais levam a pornografia e a masturbação à escola. Os professores obrigam meninos de 12 anos a examinar detidamente revistas pornográficas na classe. Isso está acontecendo na Espanha. Os professores obrigam os meninos em classe a falar de masturbar-se. A pornografia chegou à escola onde levamos nossos filhos..." (...) Sabemos que no Brasil há um grupo no Ministério da Educação que pretende impor às nossas escolas coisas muito semelhantes. (...) A propósito de medidas educativas para proteção das pessoas de condição homossexual, a presidente teria afirmado que o assunto deve ser mais debatido pela sociedade. Fica, pois, claro, que o que se propunha foi elaborado por um grupo restrito que não representa nem de longe o pensamento da maioria dos educadores de nosso país. (...) Na verdade a proposta do referido grupo tinha o objetivo de inculturar o homossexualismo - as práticas homossexuais - e não comprender a homossexualidade e como trabalhar a questão do ponto de vista pedagógico.
Gostaria de dizer ao autor do texto acima que a manipulação, irmã gêmea da mentira, é um dos métodos de lavagem cerebral. Com o seu artigo, o Arcebispo equiparou (de novo esta palavra!) a Igreja Católica às mais perigosas seitas (sem falar de Hitler, Stalin, Mao Tsé-tung e outros). Jesus disse: "A verdade vos libertará" (Jo 8, 32). E, também: "(O diabo) não se manteve na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele fala mentira, fala o que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8, 44).

Quem quiser conhecer o propósito do kit anti-homofobia, ouça a entrevista com Juliana Luvizaro, emitida pela Rádio CBN:


Mais amor, por favor


Nestes tempos tão necessitados de amor...

Ygor Marotta tem apenas 24 anos e todo o sentimento do mundo. E é com suas duas mãos que ele escreve pelos muros de São Paulo a frase “Mais amor, por favor”. “É uma frase feita para que as pessoas passem para frente. Uso o picho como suporte, mas também cartazes e vídeos”, diz o garoto, que trabalha com criatividade em artes visuais, música e vídeo. O projeto surgiu despretensiosamente do nada, em 2009.

“Nunca veio uma ideia na sua cabeça e você a anotou em algum lugar?”, pergunta. “A frase veio da necessidade de ter mais amor, ver mais amor nesta sociedade em que vivemos, na qual os valores são outros, muito ligados a dinheiro”, diz Marotta. “É um pedido, uma imploração (mas com educação) em meio a toda agressividade, indiferença e velocidade de uma metrópole como São Paulo. É uma proposta que tenta fazer com que o observador se surpreenda com o conteúdo da frase inserida no âmbito urbano e reflita por um tempo, ou pelo menos abra um sorriso no momento da leitura.” Como o amor pede delicadeza, Marotta escolheu fazer grafite com letra cursiva, menos caótica e agressiva do que as que costumamos ver pelas ruas.

A resposta que Ygor recebe dos habitantes da cidade é constante, tanto nas ruas quanto na internet. Pesquisando a frase no Google, a gente encontra centenas de fotos, desenhos, etc., tanto do grafite quanto de pessoas tirando fotos em frente a elas, fazendo releituras em outros suportes. “Parece que o amor é uma necessidade coletiva; 90% das pessoas aprovam a frase, e é bom que tenha os outros 10% para abrir a discussão. Meu dia a dia ganhou mais amor e mais “por favor”. Já presenciei estranhos abrindo um sorriso no rosto ao parar o carro ao lado de um muro. Conheci pessoas que colecionam fotos da frase, que se tatuaram. Algumas me ligam contentes ao presenciar um novo muro e outras agradecem por lembrá-las de algo tão simples, mas tão fundamental.” Ygor acredita que “Mais amor, por favor” não é apenas uma frase vazia. “Creio no poder transformador do amor. E tento seguir esse conceito à risca, passando para as pessoas com que convivo e para outras que sequer conheço.”


- Daniela Arrais em "O amor nos dias de hoje", para a Revista Conhecer
Grifos meus.

Bullying, tolerância e diversidade


Não cansamos de repetir aqui como é variada e diversa a multidão de vozes na Igreja Católica hoje. E é sempre um alento constatar isso. O vídeo acima, por exemplo, foi feito pelo Padre Paulo Dalla Dea (twitter: @pepaulodea), de São Carlos, SP, para ser usado na catequese de jovens.

É admirável o empenho do Pe. Paulo em superar as barreiras de comunicação e transmitir sua mensagem à garotada. E são tocantes a honestidade e abertura com que ele se coloca a favor da tolerância e do respeito à diversidade. É de exemplos assim que nos alimentamos para seguir em nossa caminhada... :-)

* * *

Por falar em bullying: A Casa do Saber, aqui no Rio de Janeiro, começa em 01/06 um mini-curso de 2 aulas sobre o tema. Desconhecemos como será a abordagem, mas não deixa de ser interessante observar que o assunto está na pauta do dia. É mesmo uma discussão urgente.

Mais informações aqui: "Bullying: nova conduta social ou um moderno termo para um antigo comportamento juvenil?"
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