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sábado, 11 de janeiro de 2014

A verdadeira abertura do Papa Francisco


O Papa Francisco, na realidade, mais do que ver diante de si “problemas” para a fé, vê questões a disputar e desafios a enfrentar: janelas e não muros. Anunciando sua renúncia ao ministério petrino, Bento XVI havia retratado o mundo de hoje como “sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé”. E as questões abrem debates", escreve Antonio Spadaro, diretor da revista Civiltà Cattolica, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 07-01-2014.

Eis o artigo.


O desafio educativo é um dos grandes desafios do mundo contemporâneo. O Papa Francisco e reafirmou recentemente em sua conversação com os Superiores Gerais, publicada em La Civiltà Cattolica. Infelizmente alguns títulos jornalísticos que falaram de “abertura aos casais gay” se anteciparam na compreensão daquilo que o Papaefetivamente disse e do grande desafio que ele delineou. A instrumentalização de suas palavras acabou sendo funcional tanto aos seus detratores de “direita”, como a quem o exalta para usá-lo à “esquerda”.

O que disse exatamente o Papa? Que o educador “deve interrogar-se sobre como anunciar Jesus Cristo a uma geração que muda”. Este é o ponto: “a tarefa educativa é hoje uma missão-chave, chave, chave!”. Para ser mais claro, deu alguns exemplos, citando algumas experiências suas em Buenos Aires sobre a preparação que se requer para acolher incontestes crianças a educar, rapazes e jovens que vivem em situação de mal-estar com a família: “Recordo o caso de uma criança muito triste que enfim confiou à professora o motivo do seu estado de ânimo: “a namorada de minha mãe não gosta de mim”.“Os percentuais de rapazes que estudam nas escolas e que têm os pais separados são elevadíssimos” São duas situações diferentes, mas que, com clareza, colocam desafios complexos: a dos filhos de pais divorciados e a dos filhos que se encontram a viver tendo como referência doméstica duas pessoas do mesmo sexo.

O Papa Francisco, na realidade, mais do que ver diante de si “problemas” para a fé, vê questões a disputar e desafios a enfrentar: janelas e não muros. Anunciando sua renúncia ao ministério petrino, Bento XVI havia retratado o mundo de hoje como “sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé”. E as questões abrem debates.

Francisco acolheu o testemunho de Bento: se os problemas não se transformam em desafios, acabam por bloquear a ação e a reflexão, ou então acabam por enrijecer a consciência atormentada pelos temores e pela desolação espiritual. Bergoglio enfrenta, portanto, a realidade com coragem e confiança em Deus, como homem de fé que é. OPapa tem sempre os olhos bem abertos sobre a realidade, e sabe perfeitamente que os desafios de hoje são maiores do que os de outrora. Sabe que – palavras suas – “as situações que vivemos hoje colocam novos desafios que às vezes são até difíceis de compreender”.

Não se podem fechar os olhos. Por quê? Por um motivo claro e preciso: porque é preciso anunciar o Evangelho a uma geração sujeita a rápidas mudanças. O Papa, portanto, não “abriu aos casais gays”, como intitularam algumas agências, ligando suas palavras a um recentíssimo debate nacional. O Papa, ao invés, abriu os olhos aos desafios que esta mudança em ato na nossa sociedade coloca ao anúncio do Evangelho. Neste sentido, portanto, é ao invés correto dizer que o Papa iniciou um debate sobre a educação.

Eis então, de fato, as suas perguntas: “Como anunciar Cristo a estes garotos e garotas? Como anunciar Cristo a uma geração que muda?” E, enfim, o seu apelo: “É preciso estarmos atentos para não subministrar aos mesmos uma vacina contra a fé”. Bergoglio supera todo enrijecimento à direita e à esquerda, e afirma uma coisa que realmente poucos notaram: o desafio educativo se conecta ao desafio antropológico. Aqui está um ponto calidíssimo que o Papa colocou com sua costumeira simplicidade, admoestando assim o educador cristão: há situações que até nos fatigamos para compreender, mas que somos chamados a enfrentar se quisermos que o Evangelho ainda seja anunciado a toda criatura.

A nosso ver, como tinha comentado a Cristiana há alguns dias aqui no blog, chamando a atenção justamente para essa deturpação das palavras do papa pela imprensa ("O que o Papa disse, e o que ele NÃO disse, sobre o casamento gay"), mais fundamental ainda do que essa ênfase na necessidade da educação é a insistência do Papa na necessidade de abertura para o diálogo, para o qual todos na Igreja precisamos nos educar. Todos precisamos nos educar para nos aproximarmos do outro de olhos, corações e mãos abertos. :-)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ninguém nasce homofóbico


Recentemente, um vídeo com a reação de crianças ao verem dois pedidos de casamento entre pessoas do mesmo sexo tornou-se viral e comoveu vári@s usuári@s nas redes:


O programa 'Encontro Com Fátima Bernardes' desta quinta, 14, debateu a diversidade sexual no ambiente familiar e exibiu para um grupo de crianças de uma escola e seus pais/mães/responsáveis um flashmob realizado em Maringá com um pedido de  entre um casal gay. Confiram suas reações aqui.

"O legal foi que eles se casaram, ficaram felizes e pronto!", disse uma das crianças. Simples assim!

Ninguém nasce preconceituoso, ninguém nasce odiando o diferente. Se, infelizmente, ensina-se crianças a serem preconceituosas, também podemos ensinar o respeito e a igualdade para que tenhamos uma geração de adultos que respeite a diversidade.

A Educação é o melhor caminho para desconstruirmos o preconceito sócio-cultural contra pessoas LGBTs.

Assista na íntegra o debate sobre diversidade sexual no ambiente familiar no programa Encontro aqui.

Fonte: Eu sou a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Qual o Valor da Vida de Nossos Filhos e Filhas?

Junte-se às "Mães pela Igualdade" no Brasil, aqui

"A sociedade tratou dois meninos assassinados de modo desigual, mas a morte violenta os igualou."


Em 2006, no auge da comoção pública ocorrida em razão da morte do menino João Hélio, publiquei artigo de opinião no Congresso em Foco [aqui: "Há várias formas de matar uma criança"] em que questionava não apenas a exploração da dor pela mídia convencional, como também os discursos inflamados pela diminuição da maioridade penal, que mais uma vez surgiam ante um fato exaustivamente exposto nas TVs, jornais e rádios brasileiras.

Na mesma semana, um adolescente de 17 anos fora torturado, violado e morto, com requintes de crueldade na vizinha cidade de Anápolis, a segunda mais importante no estado de Goiás. Não foi publicada sequer uma linha nos jornais do Distrito Federal ou do país, e, mesmo em Goiás, apenas um pequeno jornal semanário (Jornal Opção) deu a notícia com pouco mais de 200 caracteres, quase num pé de página.

Qual a diferença entre João Hélio, o menino de seis anos, morto em razão de um assalto mal sucedido e o garoto sem nome, de 17 anos, torturado, violado e assassinado em Goiás? Por que os defensores da diminuição da maioridade penal, os paladinos da pena de morte, do movimento lei e ordem, nada falaram sobre o caso? O que motivou os editores de telejornais, jornais e rádios do país a sequer se preocuparem em dar a notícia? Por que não houve clamor popular, comoção pública, debates em torno da crescente violência que assola o país?
Tantas perguntas, uma única resposta. O que diferencia o garoto sem nome de João Hélio é que aquele causara rebuliço na família seis meses antes, por que revelara que era homossexual. E por que era homossexual, foi torturado, violado e friamente assassinado.
Retrato de uma sociedade adoecida em que a vida, a integridade física e emocional são valores relativos. Uma cultura que pune cruelmente todo aquele que não reza pela cartilha da maioria, que não realiza as expectativas identitárias, em especial e principalmente, que ousa desobedecer o código da heteronormatividade e das identidades de gênero binárias.
O que têm em comum João Hélio e o garoto sem nome? Eles têm mãe. Mas poderiam ter tantas outras coisas em comum, qualidades que jamais saberemos por que ambos foram vítimas da violência.
Ainda assim, para João Hélio, cuja identidade sexual e de gênero ainda não estava plenamente expressa, a sociedade bradou por justiça, os meios de comunicação inflaram o debate em torno da segurança pública, os políticos de plantão levantaram suas bandeiras de tolerância zero. Enquanto repousa anônimo o garoto torturado, violado e assassinado em Anápolis, e ninguém, exceto a própria mãe, clamou por justiça. A sociedade os tratou de modo desigual, mas a morte violenta os igualou.
É preciso que nossos filhos e filhas tenham direitos iguais. É necessário que a vida, a integridade física e emocional sejam valores absolutos em nossa sociedade. Respeitar e garantir os direitos civis de brasileiros e brasileiras sem qualquer distinção, inclusive a de orientação sexual, é garantir o estado democrático de direito.
- Maria Cláudia Cabral é advogada, blogueira e faz parte do movimento Mães pela Igualdade.
Publicado originalmente no site Congresso em Foco. Reproduzido via blog das Mães pela Igualdade.

sábado, 9 de junho de 2012

A escola deve ser um lugar seguro para todas as crianças, sem exceção


Extensa e excelente análise publicada por Luiz Henrique Coletto  nas Notas Públicas da LiHS  no início de maio. Apesar do atraso, reproduzimos em vista da relevância da discussão em pauta, aproveitando o ensejo da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, amanhã.

Maio é um mês bastante movimentado na agenda do movimento LGBT nacional. Em meados do mês, ocorrerão em Brasília a 3ª edição da Marcha Nacional Contra a Homofobia, o 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional e uma Audiência Pública para tratar da criminalização da homofobia e da violência homofóbica. Esses eventos, nos dias 15 e 16, marcam a passagem do Dia Internacional Contra a Homofobia (17 de maio).

A Marcha Nacional chega à terceira edição e consolida-se como a manifestação política mais proeminente do movimento em âmbito nacional se considerarmos as Paradas do Orgulho LGBT como eventos não exclusivamente políticos, como avaliam alguns. O tom da Marcha é, até mesmo por sua realização no centro político do país, mais característico da ideia clássica de uma manifestação política. Os eventos desse ano, entretanto, trazem algumas singularidades interessantes, e vou apenas mencionar uma delas para tratar mais detidamente de uma outra.

A Audiência Pública será mais uma das várias que já foram feitas para discutir a criminalização da homofobia. O fato é que o PLC 122 está emperrado no Senado Federal, e de audiência em audiência, não se votou o projeto em plenário ainda. Esta edição tem um grande mérito, entretanto, ao dar cara e voz mais explícitas ao objeto deste projeto e desta demanda histórica do movimento. A meu ver, as histórias de vítimas da homo/les/transfobia são o elemento central neste momento, porque as discussões de legalidades e tecnicalidades já foram exaustivamente feitas. É preciso compartilhar estas histórias de violências físicas, psicológicas e morais que atingiram jovens e adultos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais; que atingiram as mães e os pais destes LGBTs, bem como seus amigos e colegas.

A terceira mesa prevista para a Audiência trará testemunhos de homofobia. Se eu vejo esta mesa como o ponto central, creio, infelizmente, que a mesa seguinte (e final) é que terá maior destaque: a recente e intensa polarização entre Toni Reis, presidente da ABGLT, e Silas Malafaia, pastor televangelista, tem atraído a atenção não só do movimento como também da mídia. Por alguma razão de outra ordem que não a competência, a mesa “A criminalização da homofobia: aspectos constitucionais e legais” terá a presença do pastor Silas Malafaia junto de três advogados. Os três têm competência para tratar de aspectos legais e constitucionais sobre a criminalização da homofobia. Vários outros juristas que não querem o PLC 122 aprovado poderiam estar na mesa para contrapor os argumentos jurídicos dos três primeiros. Aparentemente, eles não têm interesse em ir na Audiência ou nem estão sabendo do debate. Só Silas Malafaia, cuja formação é em Psicologia e a “especialização” é em retórica, adquirida em décadas de televisão. Enfim, não vou me alongar sobre o pastor Malafaia.

A singularidade que mais me interessou este ano é a temática do 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional (“Infância e Sexualidade”), sob organização da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT. Considero bastante corajoso endereçar o tema da sexualidade na infância. Isso implica mover certa parede moral que joga a sexualidade para “algum momento da adolescência” e ignora a sexualidade das crianças. Este tema claramente dialoga com a problemática da homofobia nas escolas, afinal, ambiente essencialmente infantil e juvenil. É corajosa a discussão também porque este assunto está num espécie de limbo político desde o veto que Dilma deu ao material pedagógico que trataria da diversidade sexual na escola. Aliás, só lá no Ensino Médio, período em que a maioria dos jovens já iniciou ou está iniciando a vida sexual; que a maioria das crianças que fogem aos padrões de gênero e performance viril/feminina já sofreram bullying e, por fim, em que muitas das concepções machistas, homo, les e transfóbicas já estão primariamente enraizadas.

Ao focalizar a infância, o Seminário só reverbera uma espécie de consenso acadêmico - refletido não só em posições teóricas, mas também em relatos colidos in loco sobre bullying homofóbico, bem como estatísticas de violência e mesmo suicídio - sobre a necessidade de abordar a diversidade sexual com as crianças. Eu creio que uma leitura mais calma de diversos desdobramentos desta questão ajude a clarificar ainda mais a urgência pela mudança do modo como tratamos (ou ignoramos) a questão nas escolas. Um exemplo sobre o qual tentei discorrer em A Propaganda Heterossexual é justamente o mecanismo perverso que oculta a onipresença da heterossexualidade na vida das crianças, em todas as suas “ambiências”, ao passo em que aponta uma “doutrinação” (sic) na mera tentativa de falar sobre diversidade sexual.

Mas, mais uma vez, penso que compartilhar histórias seja fundamental para trazer a realidade que as pesquisas, estatísticas e teorias retratam. Em março deste ano, o caso de agressão a um adolescente de 15 anos do interior do Rio Grande do Sul ganhou destaque na imprensa. No dia 23 de março, o jovem deu seu depoimento no programa Mais Você, da Rede Globo. Você pode ouvir os 5min em que ele fala sobre o que está passando neste link (entre 4’55’’ e 9’45’’).

Já o jovem Iago não chegou a contar sua história. Só sabemos da homofobia que ele sofria na escola pelos relatos tristes de seus familiares. Na edição de 19 de maio de 2009 do Profissão Repórter, também da Rede Globo, o tema era escola de periferia, e o caso do Iago, de 14 anos, surge por acaso [já havíamos visto este vídeo aqui, mas vale repetir]:


A violência que estes dois adolescentes sofreram por causa de sua real ou suposta homossexualidade não é exceção ou acidente no cotidiano escolar. Nem mesmo na sociedade. Nem mesmo no Brasil. Na edição de 24 de março do New York Times, o marroquino Abdellah Taïa contou sobre sua infância como um garoto afeminado em Salé, no noroeste do Marrocos. O ano era 1973. Em 1988, quando tinha 25 anos, Taïa exilou-se na França.
No Marrocos dos anos 80, onde a homossexualidade não existia, é claro, eu era um pequeno garoto afeminado, um garoto a ser sacrificado, um corpo humilhado sobre o qual recaia toda a hipocrisia, todos os não ditos. Quando tinha 10 anos, embora ninguém falasse sobre isso, eu sabia o que acontecia aos meninos como eu em nossa sociedade empobrecida; éramos vítimas designadas para sermos usadas, com a benção de todos, como simples objetos sexuais de homens frustrados. E eu sabia que ninguém me salvaria - nem mesmo meus pais, que certamente me amavam. Para eles também, eu era vergonha, sujeira. Um “gay”. [...] Como é para uma criança que ama seus pais, seus muitos irmãos, sua cultura operária, sua religião - o Islã - como é que ela pode sobreviver a este trauma? Ser ferido e molestado por causa de algo que outros viram em mim - alguma coisa no modo como movo minhas mãos, as minhas inflexões. Um jeito de andar, o meu comportamento. [...] Não me recordo mais da criança, do adolescente que fui. Sei que era afeminado e tinha consciência de que ser tão explicitamente “daquele jeito” era errado. 
[...] Nunca mais fui o mesmo Abdellah Taïa depois daquela noite [em que vários homens da vizinhança queriam fazer sexo com ele]. Para me salvar, eu me matei. Foi isso que fiz. Comecei a manter minha cabeça baixa todo o tempo. Eu cortei todas as relações com as crianças da vizinhança. Mudei meu comportamento. Eu me mantinha vigilante: nada mais de gestos femininos, nada mais de andar com as mulheres. Nada de mais nada. Eu tive que inventar um Abdellah inteiramente novo. Eu me empenhei nisso com grande determinação, e com a compreensão de que aquele mundo não era mais meu mundo. Cedo ou tarde, eu deixaria aquilo para trás. Eu crescercia e encontraria a liberdade em algum outro lugar. Mas até lá, eu me tornaria alguém forte. Muito forte.
A história de Abdellah ilustra bem o quanto crianças, na mais tenra idade, podem sofrer terríveis violências por não se comportarem como é esperado delas. Por não serem como se espera. Uma violência brutal que atinge jovens travestis, transexuais, gays e lésbicas. É urgente que a sexualidade - enquanto conjunto de manifestações de gênero, identidade e desejos - e a infância sejam harmonizadas. Não seria nem mesmo preciso recorrer a isso se nos recordarmos duma premissa essencial da educação: a escola deve ser um ambiente seguro e saudável para todas as crianças. Para todas elas, sem exceção.

- Luiz Henrique Coletto, Membro do Conselho LGBT da LiHS
Publicado nas Notas Públicas da LiHS 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Somos todos iguais. Ou não?"


Safo foi uma pensadora, considerada por Platão a décima musa. Mas então por que ela não foi reconhecida como tal na Grécia Antiga? Mulher não tinha vez. Seu único papel social era de reprodutora e “cuidadora” do lar. Trocando em miúdos, um bibelô dos homens. Ela se rebela, cria uma escola só para mulheres, em Mitilene, capital da Ilha de Lesbos, com ensinamentos de poesia, dança e música. Tal foi o preconceito quanto ao talento e às atitudes vanguardistas de Safo que precisaram lhe incutir algum “defeito”. Claro, corruptora de mulheres! Já que vivia cercada delas. A força dessa “medalha” foi tamanha que até hoje se define como “lésbica” a mulher que se relaciona sexualmente com outra. E se, em 1476, Leonardo da Vinci tivesse sido condenado à fogueira no Tribunal de Florença por crimes sodomitas (nome dado a homens que mantinham relações com outros homens)? O que a Humanidade teria perdido de obras artísticas, científicas e culturais?

Apenas dois exemplos, aparentemente distantes no tempo, para ilustrar esta caminhada. Por que permanece acesa essa fogueira da inquisição até o século XXI? Obama reconheceu. Que se apague esse fogo! O fogo do preconceito, que fique claro, mas que a chama da liberdade, do amor e da pluralidade arda incessantemente! Por falar em pluralidade, ela tem duas outras companheiras também regidas pela Constituição Federal: a dignidade e a igualdade. Se somos iguais perante a lei, por que a união de pessoas do mesmo sexo deve ser diferente?

Não estamos tratando de religião, como a palavra casamento pode soar aos nossos ouvidos. Tratamos aqui de um contrato especial de direito de família. Simples assim: vamos nos casar? Vamos ao cartório selar esta comunhão. Mas, até hoje, mesmo com alguns avanços jurídicos, não é bem assim. A união estável tem profundas diferenças do casamento civil. Neste, existe mudança do estado civil para casado, a intenção primordial da formação de família e direitos de proteção do cônjuge em caso de morte ou separação. Na união estável, trata-se de uma decisão judicial com exigência de que o casal recorra à justiça para tal reconhecimento.

Fundamentalistas se baseiam na ideia da existência exclusiva da formação de casal somente entre homem e mulher para condenar a aprovação do casamento igualitário. Só para lembrar, o casamento homossexual foi proibido pela primeira vez apenas no ano de 342 d.C. por um decreto romano. Até então era permitido. Ora, a escravidão era permitida legalmente até que a Lei Áurea foi assinada. Ora, as mulheres não tinham direito a voto até 1932. Hoje, elas chegam ao topo do poder de grandes nações. E imaginar que a gente nem votava há exatos 80 anos parece um completo absurdo! O mundo muda, as famílias mudaram, e as leis têm obrigação social de acompanhar essa evolução.

Até os contos de fadas sofreram mudanças e atualizações. Chapeuzinho Vermelho se transformou em “A Garota da Capa Vermelha”, uma versão noir da clássica neta e mocinha. Rapunzel virou animação bem-humorada em “Enrolados”, e “A Bela e a Fera” passou por uma profunda repaginada para se atualizar aos desejos deste público moderno.

Fiz a minha parte. Compus um conto de fadas com direito a castelo, dragão, duelos e cavaleiros, permeados por um amor capaz de vencer todos os obstáculos. É a história de “A Imperatriz e a Princesa”. Canção que encerra “Eu Raio X”, meu último álbum, e que, espero, traga a todos a inclusão que questiono aqui: dignidade, pluralidade e igualdade para que sejamos TODOS “tão felizes para sempre”!

- Isabella Taviani é cantora
Publicado originalmente no jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 5 de junho de 2012

Novos jeitos de amar

RETRATOS DA DIVERSIDADE: As três gerações da família Laborne, com enteados e filhos; Soraya Tofani, Ageeo Simões e os filhos dos casamentos anteriores; os recém-casados Rodrigo e Wanderson e Iracema, mãe de Wanderson; Paulo Barcala e o filho do segundo casamento, que tem a mesma idade do primeiro neto do publicitário; e Luiz Guilherme e Doralice, que optaram por não ter filhos

Modelo antigo da estrutura familiar divide cada vez mais espaço com situações diferentes: pais solteiros, casais unidos de maneira informal e casamentos entre pessoas do mesmo sexo. É a família mosaico, que dá um basta aos preconceitos.

Durante a festa de aniversário de 10 anos de Pedro Henrique, os amigos do Colégio Santo Antônio se reuniram para cantar o Parabéns pra você. Depois da música, veio o complemento constrangedor: “Com quem será que o Pedro vai casar/Vai depender se o Pedro vai quereeer…” E a canção não parou aí. Os colegas do menino insistiram na continuação da melodia: “ Eles vão casar e ter um monte de filhos/E daí então o Pedro vai se separaaar!” Na época, a brincadeira soou interminável para a mãe do garoto, a publicitária Soraya Malheiros. Ela sim, estava se separando do marido, com dois filhos para criar. Além de Pedro Henrique, havia João Paulo, de 7 anos.

Esse episódio ocorreu há cerca de 10 anos, quando as separações eram menos aceitas em Minas Gerais. De lá para cá, o termo desquite deixou de existir, sendo substituído por divórcio. Entre 2000 e 2010, o número de divórcios mais que dobrou no estado: passou de 1,6% da população para 3,3%, segundo dados do Censo 2010, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o fim dos casamentos, entram em cena os segundos relacionamentos e, consequentemente, os frutos dessa nova união e a convivência com os enteados, filhos das relações anteriores. É preciso criar um glossário para ajudar a entender os novos arranjos familiares, que incluem irmãos emprestados, “namorido” (namorado que vive uma relação conjugal com a mãe) e “boadrasta” (nova mulher do pai).

Os novos arranjos familiares em Minas são muitos: pais solteiros, casais sem filhos por opção, uniões estáveis e até o primeiro casamento gay de papel passado, que ocorreu este ano em Manhuaçu, a 278 quilômetros de Belo Horizonte, na Zona da Mata. Wanderson Carlos de Moura, de 34 anos, e Rodrigo Diniz Rebonato, de 18, se casaram e um adotou o sobrenome do outro.

Ufa, é tanta confusão que parece mais simples permanecer amando à moda antiga. “Há uma tendência a idealizar a família perfeita e a atribuir as dificuldades naturais da vida à separação dos pais. Se o modelo antigo, autoritário e patriarcal, era mais fácil de seguir, o novo modelo permite fazer escolhas”, compara Giselle Groeninga, psicanalista, doutora em direito civil pela Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Sociedade Internacional de Direito de Família (ISFL). Segundo ela, nos moldes antigos as questões homoafetivas, escapadas fora do casamento e o adultério costumavam ser tratadas com hipocrisia, repressão e sentimento de culpa. “Nos casais de hoje, instituições como a família, o Estado e a Igreja passam a ser separadas entre si e cada uma delas se fortalece”, completa.

FAMÍLIA MARGARINA Não quer dizer que a tradicional família mineira deixou de ser a “família-margarina”, formada por mãe e pai, filho e filha, que, pelo menos nas propagandas, parecem felizes para sempre. Segundo o Censo, porém, o número de casados caiu 5% em Minas e o grupo de pessoas que se unem informalmente cresceu quase 40% entre 2000 e 2010. De acordo com IBGE, elas já são quase um quarto da população. “As mudanças têm sido aceitas sem alarde, dentro do espírito da mineiridade. Mas elas têm acontecido”, lembra o advogado João Batista de Oliveira Cândido, especialista em direito de família.

Numa ampla casa do Bairro Cidade Jardim formou-se uma perfeita “família mosaico”, termo usado por especialistas ao se referirem às configurações familiares do século 21. No mesmo ambiente convivem “os meus, os seus e os nossos filhos”, como se costuma dizer. “Por mim, não teria me separado nunca. Para o homem, é difícil tomar a iniciativa”, declara o oftalmologista Luiz Alberto Laborne Tavares, de 51 anos, que terminou o primeiro relacionamento em 1999, depois de nove anos de união e dos filhos Pedro Henrique, hoje com 20 anos, e Lucas, de 19. O “namorido” calcula que sejam necessários quatro anos para administrar a situação. Ele passou a morar com a então namorada, a “boadrasta” Carina Ferreira, de 32, que já era mãe de Caio, de 14. Juntos, os dois tiveram Isabel, de 4 anos, que ajudou a unir os três “irmãos emprestados”.

De início, a situação gerou conflitos com os pais de Luiz Alberto, o oftalmologista Ângelo Laborne Tavares, de 90, e a professora de ioga Maria Tereza, juntos há 64 anos. Os ajustes, porém, foram feitos. “O tempo faz o seu curso e nós com ele vamos”, filosofa o patriarca, que diz escrever poemas até hoje para sua “menina”. Ela sorri e dá as mãos ao “filhinho”: “Cheguei a ter preconceito em relação às separações, mas entendo que eles queiram renovar a vida. Eu tive a sorte de encontrar a pessoa certa de primeira. Nós nunca brigamos.”

Filhos se adaptam à diversidade
As múltiplas configurações da nova família – homoafetivas, mosaico, de mães ou pais solteiros – provocam alterações que vão além da legislação e da nomeclatura. Os novos papéis e lugares que seus membros ocupam nesse emaranhado de combinações afetivas acabam por transformar a identidade das gerações futuras. Na maioria das vezes, para melhor. É o que afirma a psicanalista Giselle Groeninga. Segundo ela, a identidade é formada pelo conjunto de exemplos que temos de pessoas afetivamente importantes, em geral mãe e pai, e pela aprovação que se tem dessas pessoas. São os pais, ou as pessoas que exercem essa função, que passam para a criança os valores sociais. Se eles estão inseridos numa relação familiar que tem como característica a diversidade, a tendência é termos crianças mais “flexíveis”.

“Se essas pessoas estão agindo de forma mais livre, por exemplo em relação ao papel e função de pai e de mãe, de homem e de mulher, a consequência será a formação de pessoas mais flexíveis e, espera-se, com maior capacidade de empatia e com menos preconceitos”, diz, ponderando que não se pode desconsiderar que há também um movimento de retrocesso, com famílias mais rígidas, inclusive pelo grau de confusão e angústia que a mudança nos valores tem trazido.

No caso de famílias reconstituídas, isso é, com irmãos vindos do primeiro casamento da madrasta ou padrasto, a formação da personalidade dos filhos também apresenta um padrão diferente. Para Giselle, essas famílias requerem das crianças um “trabalho mental” maior, já que a identidade e a afetividade não estão diretamente ligadas ao parentesco. “A identidade é formada pela genética, pela inserção em linhagens familiares e pelo que se denomina de aspecto socioafetivo, ou parentalidade socioafetiva. Fica mais fácil quando esses três aspectos se concentram nas mesmas pessoas. O importante é que se mantenham os vínculos com os pais e se agreguem novas possibilidades. Em família, a ideia é somar, respeitando-se as funções exercidas de cada um”, analisa.

Giselle diz que, apesar de se afirmar que ninguém é insubstituível, quando se fala de pessoas com alto grau de envolvimento afetivo, nas relações familiares todos são insubstituíveis. “As funções paterna, materna e filial podem ser exercidas por outros. É importante, no caso de outros exercerem tais funções, que se reconheça a contribuição dos originais e se valorize a possibilidade atual.”

Para Maria Berenice Dias, vice-presidente do IBDFam, é preciso admitir que os filhos podem ter mais de um pai e uma mãe. “Será que o padrasto que o acompanhou uma criança a vida toda, não é também pai? Tenho visto muito essa situação: “Eu gosto do meu pai e do meu padrasto e tenho que escolher quem vai ao meu casamento. Vou me sentir muito mal porque ele me deu tudo”, completa.

Sem carinhos em público
Em casa, Rodrigo, de 18 anos, até ajuda na faxina, mas Wanderson, de 34, acha injusta a divisão de tarefas. “Eu cozinho, lavo e passo a roupa, arrumo a cama. Mas fazer o quê?”, resigna-se o mais velho, sorridente. Dois meses depois do primeiro casamento civil entre homens em Minas Gerais, Wanderson Carlos de Moura Rebonato e Rodrigo Diniz Rebonato Moura vivem dificuldades e alegrias típicas de qualquer casal, mas ainda não trocam afagos em público — sequer andam de mãos dadas. “Ele tem vergonha, mas eu não. Abraço no meio da rua”, diz Rodrigo, que está trabalhando como apanhador de café. “Aí, eu tiro a mão dele. Prefiro não nos expor”, justifica Wanderson, bordador. Os pais de Wanderson tratam Rodrigo com carinho, mas, católicos, nunca esconderam a insatisfação com o casamento, ao qual não compareceram. “Nunca tive coragem de tocar nesse assunto com eles. diz Wanderson.

Livres para as aventuras
Mochileiros desde a juventude, Luiz Guilherme de Moura Mendes, de 52 anos, e Doralice, de 51, vão comemorar Bodas de Prata este ano com uma travessia da Serra do Caraça, em dezembro. A nova aventura do casal ficaria mais complicada se os dois não tivessem optado, desde o início do relacionamento, por não ter filhos. Eles investiram em viagens os gastos com mensalidades escolares, fraldas e cursos extras, que seriam inevitáveis caso tivessem tido bebês. “Acho bacana ter filhos, mas não é a minha praia”, explica Dora. O casl optou por alternativas mais radicais, como subir o vulcão Tungurahua, no Equador e percorrer de jipe a Ilha de Páscoa. Segundo o marido, os dois baixaram a guarda por volta da idade limite de Dora para engravidar, aos 34 anos, e pararam de evitar filhos. Como nada aconteceu naturalmente durante um ano, desligaram-se da questão.

Namoro com pai solteiro
Depois da separação, a publicitária Soraya Malheiros decidiu investir na carreira e nos filhos. Ela se tornou barista e abriu uma cafeteria na Savassi. O ex-marido tornou a entrar em um relacionamento no ano seguinte. Soraya, por sua vez, levou 13 anos para apresentar um namorado firme aos filhos. Pedro Henrique, de 20 anos e João Paulo, de 17. Soraya conheceu ao vivo Aggeo Simões, cantor, locutor e ator, com quem já havia conversado pela internet. “A Sosô estava tão bonita de vermelho da primeira vez, e na vez seguinte a gente ficou e agradou um do outro”, explica Aggeo, que cuida da filha Ava, de 8 anos, em regime de guarda compartilhada com a mãe. Ele alimenta o blog Manual do Pai Solteiro, que deve virar livro. “Já conhecia o trabalho dele no blog e percebia o quanto ele era fofinho ao compartilhar as experiências de ser pai sozinho, de fazer comidinhas para a filha”, derrete-se Soraya, com 8 meses de namoro.

Os meus filhos, o seu filho e a minha filha
“Na época, a separação foi sofrida, mas a relação com a ex-esposa transformou-se em amizade e respeito”, afirma o médico Luiz Alberto Laborne Tavares, casado pela segunda vez. Os filhos do primeiro casamento continuam morando com a mãe, mas Pedro Henrique, guitarrista e estudante de publicidade, montou um estúdio de música na clínica do pai. “No começo foi difícil, pois a gente se acostuma a morar junto com os pais. Mas vejo meu pai sempre”, diz o vestibulando Lucas, que se tornou amigo de Caio, filho emprestado do pai com a madrasta Carina, que é bancária. Com ela, o médico teve Isabel, de 4 anos, que se dá bem com os três irmãos mais velhos e com a coelhinha Jojô. Há 12 anos, Carina mantém união estável com o médico, em contrato registrado no papel, deixando claras as intenções de cada um. “É natural que existam diferenças de amor quando Luiz trata da nossa filha ou do meu filho, mas isso é o que menos pesa hoje”, compara Carina. Segundo ela, na hora de decidir as viagens, as escolas onde matricular e as compras de roupas o tratamento é igual para todos.

Laços cada vez mais fortalecidos
Para especialistas do setor, os laços da família nunca estiveram tão fortes, apesar de terem sido amarrados de um jeito diferente. Segundo dados do Censo, os mineiros não vivem sós. Quase a metade da população (48,3%) está envolvida em algum tipo de união, formal ou informal. “As pessoas se perguntam se as crianças filhas de casamentos gays ou de segundos ou terceiros casamentos vão sofrer preconceitos. É claro que vão, assim como sofriam antes os filhos de pais separados”, alerta o advogado Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFam), com sede em Belo Horizonte.

A partir da experiência de Minas, estão surgindo decisões importantes no cenário nacional do direito de família, como a noção dos relacionamentos ligados pelo afeto e não pelas questões econômicas, como ocorria no passado com as famílias patriarcais. Da nova definição de família, defendida pelo IBDfam, deriva o conceito de uniões estáveis homoafetivas que, sem trocadilhos, acabou “pegando” para definir os casais gays.

“Novas estruturas de família estão em curso. O que não quer dizer que a família está em decadência. Pelo contrário. Ela nunca teve tanta importância quanto agora”, alerta o advogado, autor da primeira ação de abandono afetivo com decisão favorável em primeira instância no país a um filho que se sentiu desprezado pelo pai biológico na infância. Infelizmente, o cliente de Cunha teve o pedido negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2004. Só em 2012, um pai, do interior de São Paulo, foi condenado a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais por ter deixado de prestar cuidados e assistência à filha, segundo decisão do STJ.

Pai de Ava, de 9 anos, o locutor e cantor Aggeo Simões tem pouca chance de vir a ser processado pela filha. Autor do blog Manual do Pai Solteiro, ele faz parte do grupo de um homem em cada 10 mulheres brasileiras capazes de cuidar sozinhas das crianças, sem a necessidade da ajuda do cônjuge. Na realidade, desde que Ava tinha 18 meses, ele e a mulher, a artista plástica Júnia Melillo, concordaram em compartilhar a guarda da filha. Em relação a viver em duas casas ao mesmo tempo, Ava interrompe a entrevista para protestar: “Eu já implorei para os dois ficarem juntos, como namorados. É que, na maior parte das vezes, minha mochila está na casa do outro e eu não consigo fazer o para casa. A professora já avisou que, da próxima vez, quem não fizer os deveres vai perder o recreio”, desabafa a garota, revirando os olhos e antevendo um futuro sem folgas. “Fora isso, está tudo bem!”, completa.

(Publicado originalmente no Estado de Minas, em 03/06/12. Reproduzido via Conteúdo Livre)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Colégio é acusado de se omitir em caso de bullying

 

É isto que é inaceitável: que uma instituição de ensino compactue, de fato ou por conivência, com a agressão. E é tanto mais inaceitável que se trate de uma instituição católica, que deveria pautar todas as suas relações pelo respeito, pelo acolhimento incondicional e pelo amor irrestrito. Esses deveriam ser os valores transmitidos às crianças e jovens ali educados. E, no entanto, que mensagem se comunica com o silêncio ou a justificação da violência?

Está mais do que na hora de os cristãos assumirem uma posição firme, acima de tudo, contra toda e qualquer forma de violência.


No momento em que o País discute a possibilidade de criminalização do bullying, uma tradicional escola católica da cidade é acusada de omissão no caso de um garoto de 13 anos que conta ter sido agredido pelos colegas por ser bailarino. A mãe da vítima, que trabalhou na instituição por 18 anos, também acusa o colégio de assédio moral e demissão indevida. Os dois processos tramitam na Justiça, mas a escola rebate as alegações.

As primeiras ofensas começaram logo que Enzo Frizzo Paulino começou a fazer balé, aos 8 anos. “Alguns colegas sabiam que eu dançava. Começaram a me chamar de ‘veado’, ‘bicha’ e gay”, lembra o menino, que estudava no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, que tem mais de 70 anos e fica na Vila Regente Feijó, região de Água Rasa, na zona leste. Para acabar com as provocações, a família decidiu transferir o garoto para o turno da tarde. “Falei com a escola e disseram que resolveriam a situação”, conta a mãe do menino, Alba Mara Paulino.

Mas, na nova turma, a situação de Enzo piorou. “Eu escondia que era bailarino, morria de medo de ser descoberto. Mesmo assim, era chamado de gay e os garotos não me deixavam usar o banheiro masculino”, lembra. “Procurei a coordenadora, mas ela disse que, como ele era bailarino, deveria estar acostumado a ser chamado de ‘veado’”, conta Alba.
O garoto afirma que, quando os colegas da tarde descobriram que era bailarino, ele nunca mais teve paz. A mãe ainda não sabe como a notícia se espalhou. “Os alunos do período não sabiam e só os professores e funcionários sabiam”, lembra Alba. Por isso, para ela, a informação foi provavelmente repassada por um adulto. “Com certeza, a pessoa que contou não imaginou o impacto disso na vida do Enzo.”

O menino percebeu que seu segredo havia sido revelado em 2010, após retornar de um festival de dança em Joinville, em Santa Catarina, um dos mais importantes do País. Foi quando as agressões passaram a ser também físicas. “Eles me batiam e gritavam: ‘veado’, ‘veado’, ‘sua bicha’”, conta o garoto, cerrando um dos punhos e batendo três vezes contra a outra mão. “Eu me sentia a escória. E eu não sou gay.”

Enzo sofreu calado. Aguentou meses de surras e xingamentos sem contar nada à mãe. Até que um dia, Alba entrou no banheiro enquanto o filho estava no chuveiro e o viu machucado. “Foi quando ele me contou tudo”, desabafa a mãe. A professora afirma ter procurado a coordenação da escola mais de uma vez. “Disseram que iriam resolver e acabei não fazendo boletim de ocorrência. Eu mesma estudei na escola, de criança até o Ensino Médio, tinha uma relação com a instituição, e não achei que poderiam negligenciar ajuda ao meu filho.”

Hoje, ao lembrar do comportamento do filho, Alba se lamenta. “Eu me sinto culpada por não ter percebido antes”, diz ela, com os olhos cheios d’água. “Ele não contava. Mas começou a faltar, a ter problemas com as notas e a ficar doente”, relata. Enzo teve anorexia e ficou um ano afastado da dança. “Cheguei a pensar em desistir da dança para não sofrer mais”, diz o garoto.

O menino ficou fascinado pela dança após ver o filme Encantada, no cinema, com a mãe. “Deixamos a sessão e ele dizia que queria ser bailarino”, conta a professora. A mãe levou o garoto ao futebol, à natação e ao tae-kwon-do, mas Enzo só queria dançar. “Ele pediu para ir a uma academia de balé. Estava firme na decisão”, diz Alba. Hoje, em um novo colégio, voltou a dançar e não precisa mais esconder isso de ninguém. “Já não tenho medo de dizer que sou bailarino. Agora, eu tenho amigos”.

(Fonte: Estado de S. Paulo, conforme tuitado pelo @celsodossi)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Bullying e homofobia nas escolas

Escultura: Mark Jenkins

Esse assunto tem estado muito em evidência ultimamente, e deve ter gente se perguntando por que há tanta insistência no assunto. Afinal, já não se falou o suficiente? As pessoas já não estão 'carecas' de saber?

Sim, as pessoas sabem que o bullying acontece, mas é só. A solução ainda está longe de ter sido alcançada, e isso porque envolve uma série de fatores.

Bullying em geral já é ruim, mas quando acontece com alguém por motivos que ele ou ela consegue conversar com os pais ainda há uma saída, porque os pais podem ir à escola e conversar com a direção e os professores e tentar achar uma solução. Um trabalho interessante neste sentido foi feito em uma escola em Porto Alegre e pode ser visto aqui. [Não deixe de ler também: Homofobia nas escolas]

No entanto, quando se trata de adolescentes LGBT o panorama muda. Muitas vezes o/a adolescente não pode contar para os pais que sofre bullying na escola pelo simples motivo de que ele não pode contar sobre a sua homossexualidade para os pais. A maioria dos pais não está preparada para lidar com essa realidade, existem inúmeros relatos de jovens LGBT que são obrigados a esconder da família o que são e, portanto, também não podem contar com a ajuda dos pais para tentar uma solução junto à escola. Isso leva a situações como essa descrita em um artigo da Unesco, sobre evasão escolar [aqui]:
"Pesquisas recentes, como o estudo Discriminação em razão da Orientação Sexual e da Identidade de Gênero na Europa, do Conselho da Europa, identificaram que como resultado do estigma e da discriminação na escola, jovens submetidos ao assédio homofóbico são mais propensos a abandonar os estudos. Também são mais predispostos a contemplar a automutilação, cometer suicídio e se engajar em atividades ou comportamentos que apresentam risco à saúde."
Essa situação de isolamento total, na qual o/a jovem não pode contar com ninguém para ajudá-lo pode levar a extremos como o suicídio e outros problemas. Um caso ocorrido no Brasil ilustra o abandono em que se encontram jovens assim:


Mesmo quando não chega a esse ponto, há sérias consequências. Em um estudo feito nos EUA concluiu-se que há uma tendência maior à depressão e ao comportamento de risco e de contrair DSTs [aqui]. (...) No Brasil a situação não é diferente. Conforme um estudo, maioria dos jovens brasileiros discrimina homossexuais [aqui]. (...) E, em uma entrevista feita recentemente com o deputado Jean Wyllys, ele conta um pouco sobre a sua própria experiência como vítima de bullying na escola [aqui]. (...)

A quem cabe resolver o problema? Àquele que tem o poder para isso. Diante de tantas evidências de que o bullying de fato ocorre nas escolas, e considerando que os pais e professores estão sem nenhum preparo para lidar com a situação, fica muito claro que a solução precisa vir das autoridades. O Kit Anti-Homofobia que foi vetado pela presidente Dilma é uma das coisas de que precisamos para mudar o panorama do bullying nas escolas.

A omissão descrita por Jean Wyllys na entrevista parece ser comum. Como se pode ver no vídeo sobre o suicídio ocorrido no Brasil, a professora também se omitiu. Pode-se concluir que muitos professores se omitem possivelmente porque eles mesmos são homofóbicos. Embora não cometam violência eles mesmos, permitem que aconteça. Nas palavras do irmão do menino de 14 anos que se suicidou: "olha aí ó, meu irmão tá apanhando aí, tem uns moleque batendo nele aí. Aí ela [a professora] 'ah, não tenho nada a ver com isso, a briga é de vocês' "
Quando a criança sai do ambiente da família para o ambiente maior que é a escola, em seu processo gradual de se inserir na sociedade, ela precisa ser protegida. Não é correto tratá-la como se fosse uma pessoa adulta, já plenamente capaz de se defender, nem de agressões verbais, muito menos físicas. E muitas vezes a orientação tem que vir de cima: são as autoridades que precisam mandar um recado muito claro de que a omissão diante desse tipo de conduta é inadmissível.

- Åsa Heuser, vice-presidente da LiHS, para o Conselho LGBT da LiHS

(Fonte: LiHS)

sábado, 26 de maio de 2012

Como combater a homofobia na escola

Foto daqui

Do aluno que desmunheca ao grupinho de meninas que brinca de beijar na boca, a escola convive diariamente com situações que colocam a orientação sexual dos alunos em discussão. Os jovens que apresentam comportamentos heterossexuais, condizentes com o sexo biológico, não preocupam. Meninos se comportam dentro das regras para o gênero masculino e meninas seguem o jeito predefinido das garotas.

O termo heteronormatividade resume esse conjunto de atitudes preconceituosas e compulsórias. "O conceito embasa a ideia de que a heterossexualidade é a sexualidade natural", diz Maria Cristina Cavaleiro, pedagoga do Grupo de Estudos de Gênero, Educação e Cultura Sexual da Universidade de São Paulo (USP).

Nesse cenário, a homossexualidade e a bissexualidade são consideradas desvios da norma. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo publicada em 2009 mostra que, quando perguntados sobre pessoas que menos gostam de encontrar, os entrevistados classificaram em quarto lugar os homossexuais (16%). Foram deixados para trás somente por usuários de drogas, pessoas que não acreditam em Deus e ex-presidiários.

Quando o olhar se volta para a escola, o panorama não é diferente. Outro estudo, divulgado em 2004 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), revela que quase 40% dos alunos entrevistados não gostariam de ter homossexuais como colegas e mais de 35% dos pais não gostariam de tê-los como amigos dos filhos.

Antes de tudo, o que deve ficar claro para todos é que ninguém escolhe ser gay. "Essa orientação tem relação direta com o desejo, a atração física por alguém do mesmo sexo. E não é premeditado. Ocorre espontaneamente", diz o professor Luiz Ramires Neto, mestre em Educação pela USP e um dos diretores da organização não-governamental Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor (Corsa), de São Paulo.

Segundo ele, até hoje não há análises conclusivas sobre o assunto, nem no campo da genética nem nos estudos sobre o impacto do ambiente social (leia as dúvidas respondidas nos destaques desta reportagem). O fato é que, no ambiente escolar, comportamentos desviantes da norma muitas vezes são encarados como problemas. "O professor tem de entender que não vai mudar a orientação sexual de um jovem, mas tem como despertar na turma o respeito pela diversidade sexual", aconselha Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, especializado em Educação e sexualidade. "O educador pode debater com base na história de homossexuais que desempenham funções de destaque ou aproveitar um debate sobre a família para tratar de tipos de arranjo, especialmente os que vão além de pai, mãe e filhos."

Preconceito contra alunos, parentes e educadores
No dia a dia da escola, uma das situações mais incômodas é a manifestação exagerada da homossexualidade. "Assumir uma postura de enfrentamento é uma tática de reação muito comum do jovem, que pode se dar por meio de atitudes como afinar a voz, rebolar (se menino) ou agir de maneira bem agressiva e engrossar a fala (se menina)", descreve Lúcia Facco, doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e estudiosa do assunto. "Quem chama a atenção dessa forma está defendendo seu jeito de ser, da mesma maneira que o faria um aluno esquerdista que vai à aula vestindo uma camiseta com a estampa de Che Guevara", diz Ramirez Neto, da ONG Corsa.

Mas nem todos extravasam os sentimentos. Alguns ficam quietos. São esses os que mais sofrem. "Desenvolvem depressão e até abandonam a escola", comenta a professora e pesquisadora de diversidade de gênero Edith Modesto. Angela Moysés Nogueira Rodrigues, de Brasília, observou que a sua filha mais velha, Thaís, parecia ser muito tímida. Enquanto todos brincavam no pátio da escola de Ensino Fundamental em que estudava aos 13 anos, ela se sentava num canto para ler. Até que, com o tempo, numa conversa franca, a menina assumiu ser lésbica. Não havia política na escola sobre o tema, mas, com a ajuda dela, a direção passou a orientar os professores para trabalhar a temática.

E quando os pais de alunos são homossexuais? Jéssica Gutierrez e Carina Ramires, da capital paulista, criam juntas as filhas biológicas de outros casamentos, uma de 8 anos e outra de 10. "Hoje, as duas não enfrentam dificuldades. Todos sabem que elas têm duas mães", fala Jéssica. O casal de mulheres participa de reuniões e de eventos sem constrangimentos. Uma vez, uma das professoras perguntou qual era a formatação da família, pois precisava preparar atividades para o dia dos pais. "Explicamos naturalmente e todos entenderam", lembra Jéssica.

Pena que a clareza e o entendimento nem sempre dão o tom. Há casos em que manter a discrição sobre a homossexualidade poupa sofrimento - e, em última instância, garante o emprego. Renato*, professor do Ensino Fundamental da rede estadual paulista, é gay e procura deixar esquecer isso na escola. "Nem todos os alunos sabem. A maioria gosta de estar comigo. E os jovens podem se afastar ao saber. Não vejo professores homossexuais assumidos sendo abraçados pelos alunos com carinho ou afetividade", diz.

Levar uma vida de fingimento, porém, é cansativo. No tempo livre com os colegas, por exemplo, Renato se vê obrigado a passar por situações constrangedoras, como omitir detalhes do seu último fim de semana. Em pesquisas sobre o tema, a escritora Lúcia Facco presenciou casos semelhantes e orienta: "Primeiramente, o gay precisa entender que não é nenhum ser especial. Além disso, cabe a ele buscar apoio na direção, já que um trabalho isolado pode ser mal entendido e visto como uma espécie de apologia. É vital saber que essas atitudes funcionam e vão ajudar outras pessoas".

* * *

Como lidar com uma aluna gay assumida?
Pergunta do leitor A. S., São Luis, MA
Ao iniciar qualquer diálogo, o professor deve aceitar a autodefinição da aluna, sem a questionar. A estudante tem o direito de proteção a reações hostis para se ver e se julgar pela sinceridade dos seus desejos, sem preconceitos. Outros estudantes poderão reagir negativamente à presença de um gay na sala de aula, mas lembre-se de que eles também estão preocupados em tentar construir a própria identidade (e pode ser perturbador observar esse confronto com alguém que não siga o caminho da maioria). Grande parte dos homossexuais descobre seu desejo sexual na idade escolar, como acontece com os heterossexuais. Durante a adolescência, jovens podem ter experiências com colegas do mesmo sexo, o que não é a comprovação irrefutável da orientação de alguém. Pode ser um meio de buscar conhecer certas formas de satisfação. Mas pode também ser o momento de uma descoberta, caso o jovem se sinta confortável com a experiência. O problema não é o aluno ser declaradamente gay, mas como podemos aprender (e também ensinar) que são múltiplas as formas de vivenciar os afetos e a sexualidade. A Educação deve desmontar estereótipos, veicular conhecimentos objetivos e fomentar nos jovens a capacidade de defender a si próprios de forma não violenta.

* * *

A mãe de uma aluna é lésbica. O que faço?
Pergunta da leitora B. P., Ilhéus, BA
Primeiramente, trate essa família como qualquer outra. A maioria das escolas ainda só entende uma organização: a heteropatriarcal, em que há o pai, a mãe e os filhos. A questão é que hoje existem várias configurações possíveis na sociedade: mães solteiras ou separadas que criam os filhos sozinhas, avós que cuidam dos netos integralmente, homens e mulheres separados que se casam novamente e passam a criar juntos os filhos de outros casamentos, casais homossexuais que se unem e, juntos, cuidam dos filhos de relacionamentos heterossexuais que tiveram e assim por diante. Essas diferentes constituições de família, aos poucos, vão sendo assimiladas por diretores, coordenadores pedagógicos e professores. Esse movimento, porém, se dá de fora para dentro e, muitas vezes, ocorre lentamente. É só pensar que, há 30 anos, ninguém ousava comentar nas unidades de ensino quando uma criança era filha de pais divorciados. Aos poucos, a comunidade escolar vai se acostumar com a condição da aluna que tem duas mães, por exemplo. Uma das formas de auxiliar esse processo é abordar a questão. Sempre que houver oportunidade de falar sobre a família e suas possíveis constituições, inicie um debate sem preconceito nem viés religioso. A reunião de pais é outra oportunidade de a escola conhecer quem são os responsáveis por cada criança e saber que tipos de arranjo familiar existem naquele momento.

* * *

Como deve se portar um professor gay?
Pergunta do leitor P. N., Guajara-Mirim, RO
Nada pode forçá-lo a manifestar seus desejos e nada o obriga a calar sobre as próprias vontades. Decidir como se posicionar, contando ou não sobre sua orientação sexual, vai depender de uma série de fatores. Um deles é o contexto. Às vezes, assumir a homossexualidade acarreta consequências reais, como o preconceito aberto e a perseguição por parte de algum integrante da equipe. Fora isso, é possível que os adolescentes sejam invasivos ao fazer perguntas muito pessoais. O educador decide se entra no assunto ou não. Quanto mais a escola lida abertamente com a questão da sexualidade, mais condição o professor tem de responder francamente às colocações da turma, mesmo as mais ousadas. A não discriminação sexual é garantida pela Constituição, mas em um ambiente homofóbico esse direito fica prejudicado. Nesse caso, autoridades como promotores de Justiça e até a polícia devem ser acionadas. Por outro lado, o docente que se sentir confortável pode assumir sua opção sexual. É recomendado que se busque apoio na direção ou na coordenação pedagógica, já que um trabalho isolado corre o risco de ser visto como apologia. Em todas as situações, o educador precisa ter consciência de que, quanto maior a visibilidade das ações, mais avanços se conquistam.

Questões repondidas por: Maria Cristina Cavaleiro, da USP, e Luiz Ramires Neto, da ONG Corsa.
* O nome foi trocado para preservar o personagem.

(Fonte: Nova Escola)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A escola na luta contra a homofobia


Dados alarmantes sobre discriminação a homossexuais na escola vieram à tona no 9° Seminário Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais - realizado na Câmara dos Deputados em 17 de maio de 2012, dia Internacional de Combate à Homofobia. Uma pequena (e triste) amostra:

- Mais de 40% dos homens homossexuais brasileiros já foram agredidos fisicamente durante a vida escolar, diz estudo da Unesco;
- Mais de um terço dos 15 mil alunos entrevistados para uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) procuram não chegar perto de homossexuais;
- 21% acham que estudantes homossexuais não são normais;
- 26% dizem não aceitar a homossexualidade.

Também é desanimador constatar que possíveis mudanças a esse cenário estão em compasso de espera. O congelamento da discussão vem desde 2011, com o veto governamental ao material anti-homofobia (apelidado pelos críticos como "kit gay"), que os militantes da área veem como retrocesso.

Isso que não significa, claro, que as escolas estejam de braços cruzados. "Ações para a formação de professores sobre o tema têm sido disseminadas", afirma Cláudia Vianna, professora da Faculdade de Educação Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Gênero e Educação . "Entretanto, os materiais relacionados estão diluídos pelo Brasil e partem de iniciativas de ONGs, que apenas em alguns casos são incentivadas pelo governo".

É preciso destacar, ainda, que o trabalho não acaba com a simples distribuição de um livro didático ou com a criação de uma disciplina que trate do assunto. Um trabalho eficaz, capaz de diminuir o preconceito à homossexualidade de modo a ultrapassar os muros da escola, deve permear todo o currículo e as situações de gestão de conflitos. O lado positivo é que já percorremos parte dessa trilha: desde a década de 1990, Educação Sexual é tema transversal previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). O lado ruim é que pouco disso saiu do papel. "Na prática, falta atenção à diversidade sexual e à percepção da sexualidade como resultado de um processo de socialização", argumenta Cláudia.

Retomar o caminho trilhado, portanto, é uma primeira providência indispensável ao combate à homofobia nas escolas. Também é preciso uma dose razoável de realismo. Afinal, o fim do problema depende de um longo processo de formação - não apenas dos alunos, mas também dos professores. Vale a reflexão: quantos docentes ainda acham que a homossexualidade é doença? "As mudanças com relação ao tema são lentas, porque envolvem valores sociais e disputa política por qualidade da Educação em diversos aspectos. Mas não podemos desistir delas", completa a especialista.

(Fonte: Nova Escola)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Famoso psiquiatra pede desculpas por estudo sobre "cura" para gays

Foto via Blue Pueblo

O fato foi simplesmente que ele fez tudo errado, e ao final de uma longa e revolucionária carreira, não importava com quanta frequência estivesse certo, o quão poderoso tinha sido ou o que isso significaria para seu legado.

O dr. Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da psiquiatria moderna, que completa 80 anos nesta semana, acordou recentemente às 4 horas da madrugada ciente de que tinha que fazer algo que não é natural para ele.

Ele se esforçou e andou cambaleando no escuro. Sua mesa parecia impossivelmente distante; Spitzer sofre de mal de Parkinson e tem dificuldade para caminhar, se sentar e até mesmo manter sua cabeça ereta.

A palavra que ele às vezes usa para descrever essas limitações – patéticas – é a mesma que empregou por décadas como um machado, para atacar ideias tolas, teorias vazias e estudos sem valor.

Agora, ali estava ele diante de seu computador, pronto para se retratar de um estudo que realizou, uma investigação mal concebida de 2003 que apoiava o uso da chamada terapia reparativa para “cura” da homossexualidade, voltada para pessoas fortemente motivadas a mudar.

O que dizer? A questão do casamento gay estava sacudindo novamente a política nacional. O Legislativo da Califórnia estava debatendo um projeto de lei proibindo a terapia como sendo perigosa. Um jornalista de revista que se submeteu à terapia na adolescência, o visitou recentemente em sua casa, para explicar quão miseravelmente desorientadora foi a experiência.

E ele soube posteriormente que um relatório da Organização Mundial de Saúde, divulgado na quinta-feira (17), considera a terapia “uma séria ameaça à saúde e bem-estar – até mesmo à vida – das pessoas afetadas”.

Os dedos de Spitzer tremiam sobre as teclas, não confiáveis, como se sufocassem com as palavras. E então estava feito: uma breve carta a ser publicada neste mês, na mesma revista onde o estudo original apareceu.

“Eu acredito que devo desculpas à comunidade gay”, conclui o texto.

Perturbador da paz
A ideia de estudar a terapia reparadora foi toda de Spitzer, dizem aqueles que o conhecem, um esforço de uma ortodoxia que ele mesmo ajudou a estabelecer.

No final dos anos 90 como hoje, o establishment psiquiátrico considerava a terapia sem valor. Poucos terapeutas consideravam a homossexualidade uma desordem.

Nem sempre foi assim. Até os anos 70, o manual de diagnóstico do campo classificava a homossexualidade como uma doença, a chamando de “transtorno de personalidade sociopática”. Muitos terapeutas ofereciam tratamento, incluindo os analistas freudianos que dominavam o campo na época.

Os defensores dos gays fizeram objeção furiosamente e, em 1970, um ano após os protestos de Stonewall para impedir as batidas policiais em um bar de Nova York, um grupo de manifestantes dos direitos dos gays confrontou um encontro de terapeutas comportamentais em Nova York para discutir o assunto. O encontro foi encerrado, mas não antes de um jovem professor da Universidade de Columbia sentar-se com os manifestantes para ouvir seus argumentos.

“Eu sempre fui atraído por controvérsia e o que eu ouvi fazia sentido”, disse Spitzer, em uma entrevista em sua casa na semana passada. “E eu comecei a pensar, bem, se é uma desordem mental, então o que a faz assim?”

Ele comparou a homossexualidade com outras condições definidas como transtornos, tais como depressão e dependência de álcool, e viu imediatamente que as últimas causavam angústia acentuada e dano, enquanto a homossexualidade frequentemente não.

Ele também viu uma oportunidade de fazer algo a respeito. Spitzer era na época membro de um comitê da Associação Americana de Psiquiatria, que estava ajudando a atualizar o manual de diagnóstico da área, e organizou prontamente um simpósio para discutir o lugar da homossexualidade.

A iniciativa provocou uma série de debates amargos, colocando Spitzer contra dois importantes psiquiatras influentes que não cediam. No final, a associação psiquiátrica ficou ao lado de Spitzer em 1973, decidindo remover a homossexualidade de seu manual e substituí-la pela alternativa dele, “transtorno de orientação sexual”, para identificar as pessoas cuja orientação sexual, gay ou hétero, lhes causava angústia.

Apesar da linguagem arcana, a homossexualidade não era mais um “transtorno”. Spitzer conseguiu um avanço nos direitos civis em tempo recorde.

“Eu não diria que Robert Spitzer se tornou um nome popular entre o movimento gay mais amplo, mas a retirada da homossexualidade foi amplamente celebrada como uma vitória”, disse Ronald Bayer, do Centro para História e Ética da Saúde Pública, em Columbia. “‘Não Mais Doente’ foi a manchete em alguns jornais gays.”

Em parte como resultado, Spitzer se encarregou da tarefa de atualizar o manual de diagnóstico. Juntamente com uma colega, a dra. Janet Williams, atualmente sua esposa, ele deu início ao trabalho. A um ponto ainda não amplamente apreciado, seu pensamento sobre essa única questão – a homossexualidade – provocou uma reconsideração mais ampla sobre o que é doença mental, sobre onde traçar a linha entre normal e não.

O novo manual, um calhamaço de 567 páginas lançado em 1980, se transformou em um best seller improvável, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. Ele estabeleceu instantaneamente o padrão para futuros manuais psiquiátricos e elevou seu principal arquiteto, então próximo dos 50 anos, ao pináculo de seu campo.

Ele era o protetor do livro, parte diretor, parte embaixador e parte clérigo intratável, rosnando ao telefone para cientistas, jornalistas e autores de políticas que considerava equivocados. Ele assumiu o papel como se tivesse nascido para ele, disseram colegas, ajudando a trazer ordem para um canto historicamente caótico da ciência.

Mas o poder tem seu próprio tipo de confinamento. Spitzer ainda podia perturbar a paz, mas não mais pelos flancos, como um rebelde. Agora ele era o establishment. E no final dos anos 90, disseram amigos, ele permanecia tão inquieto como sempre, ávido em contestar as suposições comuns.

Foi quando se deparou com outro grupo de manifestantes, no encontro anual da associação psiquiátrica em 1999: os autodescritos ex-gays. Como os manifestantes homossexuais em 1973, eles também se sentiam ultrajados por a psiquiatria estar negando a experiência deles –e qualquer terapia que pudesse ajudar.

A terapia reparativa
A terapia reparativa, às vezes chamada de terapia de “conversão” ou “reorientação sexual”, é enraizada na ideia de Freud de que as pessoas nascem bissexuais e podem se mover ao longo de um contínuo de um extremo ao outro. Alguns terapeutas nunca abandonaram a teoria e um dos principais rivais de Spitzer no debate de 1973, o dr. Charles W. Socarides, fundou uma organização chamada Associação Nacional para Pesquisa e Terapia da Homossexualidade (Narth, na sigla em inglês), no sul da Califórnia, para promovê-la.

Em 1998, a Narth formou alianças com grupos de defesa socialmente conservadores e juntos eles iniciaram uma campanha agressiva, publicando anúncios de página inteira em grandes jornais para divulgar histórias de sucesso.

“Pessoas com uma visão de mundo compartilhada basicamente se uniram e criaram seu próprio grupo de especialistas, para oferecer visões alternativas de políticas”, disse o dr. Jack Drescher, psiquiatra em Nova York e coeditor de “Ex-Gay Research: Analyzing the Spitzer Study and Its Relation to Science, Religion, Politics, and Culture”.

Para Spitzer, a pergunta científica no mínimo valia a pena ser feita: qual era o efeito da terapia, se é que havia algum? Estudos anteriores tinham sido tendenciosos e inconclusivos.

“As pessoas me diziam na época: ‘Bob, você vai arruinar sua carreira, não faça isso’”, disse Spitzer. “Mas eu não me sentia vulnerável.”

Ele recrutou 200 homens e mulheres, dos centros que realizavam a terapia, incluindo o Exodus International, com sede na Flórida, e da Narth. Ele entrevistou cada um profundamente por telefone, perguntando sobre seus impulsos sexuais, sentimentos, comportamentos antes e depois da terapia, classificando as respostas em uma escala.

Spitzer então comparou os resultados de seu questionário, antes e depois da terapia. “A maioria dos participantes relatou mudança de uma orientação predominante ou exclusivamente homossexual antes da terapia, para uma orientação predominante ou exclusivamente heterossexual no ano passado”, concluiu seu estudo.

O estudo –apresentado em um encontro de psiquiatria em 2001, antes da publicação– tornou-se imediatamente uma sensação e grupos de ex-gays o apontaram como evidência sólida de seu caso. Afinal aquele era Spitzer, o homem que sozinho removeu a homossexualidade do manual de transtornos mentais. Ninguém poderia acusá-lo de tendencioso.

Mas líderes gays o acusaram de traição e tinham suas razões.

O estudo apresentava problemas sérios. Ele se baseava no que as pessoas se lembravam de sentir anos antes – uma lembrança às vezes vaga. Ele incluía alguns defensores ex-gays, que eram politicamente ativos. E não testava uma terapia em particular; apenas metade dos participantes se tratou com terapeutas, enquanto outros trabalharam com conselheiros pastorais ou em grupos independentes de estudos da Bíblia.

Vários colegas tentaram impedir o estudo e pediram para que ele não o publicasse, disse Spitzer.

Mas altamente empenhado após todo o trabalho, ele recorreu a um amigo e ex-colaborador, o dr. Kenneth J. Zucker, psicólogo-chefe do Centro para Vício e Saúde Mental, em Toronto, e editor do “Archives of Sexual Behavior”, outra revista influente.

“Eu conhecia o Bob e a qualidade do seu trabalho, e concordei em publicá-lo”, disse Zucker em uma entrevista na semana passada.

O artigo não passou pelo habitual processo de revisão por pares, no qual especialistas anônimos avaliam o artigo antes da publicação.

“Mas eu lhe disse que o faria apenas se também publicasse os comentários” de resposta de outros cientistas para acompanhar o estudo, disse Zucker.

Esses comentários, com poucas exceções, foram impiedosos. Um citou o Código de Nuremberg de ética para condenar o estudo não apenas como falho, mas também moralmente errado.

“Nós tememos as repercussões desse estudo, incluindo o aumento do sofrimento, do preconceito e da discriminação”, concluiu um grupo de 15 pesquisadores do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, do qual Spitzer era afiliado.

Spitzer não deixou implícito no estudo que ser gay era uma opção, ou que era possível para qualquer um que quisesse mudar fazê-lo com terapia. Mas isso não impediu grupos socialmente conservadores de citarem o estudo em apoio a esses pontos, segundo Wayne Besen, diretor executivo da Truth Wins Out, uma organização sem fins lucrativos que combate o preconceito contra os gays.

Em uma ocasião, um político da Finlândia apresentou o estudo no Parlamento para argumentar contra as uniões civis, segundo Drescher.

“Precisa ser dito que quando este estudo foi mal utilizado para fins políticos, para dizer que os gays deviam ser curados –como ocorreu muitas vezes. Bob respondia imediatamente, para corrigir as percepções equivocadas”, disse Drescher, que é gay.

Mas Spitzer não conseguiu controlar a forma como seu estudo era interpretado por cada um e não conseguiu apagar o maior erro científico de todos, claramente atacado em muitos dos comentários: simplesmente perguntar para as pessoas se elas mudaram não é evidência de mudança real. As pessoas mentem, para si mesmas e para os outros. Elas mudam continuamente suas histórias, para atender suas necessidades e humores.

Resumindo, segundo quase qualquer medição, o estudo fracassou no teste do rigor científico que o próprio Spitzer foi tão importante em exigir por muitos anos.

“Ao ler esses comentários, eu sabia que era um problema, um grande problema, e um que eu não podia responder”, disse Spitzer. “Como você sabe que alguém realmente mudou?”

Reconhecimento
Foram necessários 11 anos para ele reconhecer publicamente.

Inicialmente ele se agarrou à ideia de que o estudo era exploratório, uma tentativa de levar os cientistas a pensarem duas vezes antes de descartar uma terapia de cara. Então ele se refugiou na posição de que o estudo se concentrava menos na eficácia da terapia e mais em como as pessoas tratadas com ele descreviam mudanças na orientação sexual.

“Não é um pergunta muito interessante”, ele disse. “Mas por muito tempo eu pensei que talvez não tivesse que enfrentar o problema maior, sobre a medição da mudança.”

Após se aposentar em 2003, ele permaneceu ativo em muitas frentes, mas o estudo da terapia reparativa permaneceu um elemento importante das guerras culturais e um arrependimento pessoal que não o deixava em paz. Os sintomas de Parkinson pioraram no ano passado, o esgotando física e mentalmente, tornando ainda mais difícil para ele lutar contra as dores do remorso.

E, em um dia em março, Spitzer recebeu um visitante. Gabriel Arana, um jornalista da revista “The American Prospect”, entrevistou Spitzer sobre o estudo sobre terapia reparativa. Aquela não era uma entrevista qualquer; Arana se submeteu à terapia reparativa na adolescência e o terapeuta dele recrutou o jovem para o estudo de Spitzer (Arana não participou).

“Eu perguntei a ele sobre todos os seus críticos e ele disse: ‘Eu acho que eles estão certos’”, disse Arana, que escreveu sobre suas próprias experiências no mês passado. Arana disse que a terapia reparativa acabou adiando sua autoaceitação e lhe induziu a pensamentos de suicídio. “Mas na época que fui recrutado para o estudo de Spitzer, eu era considerado uma história de sucesso. Eu teria dito que estava fazendo progressos.”

Aquilo foi o que faltava. O estudo que na época parecia uma mera nota de rodapé em uma grande vida estava se transformando em um capítulo. E precisava de um final apropriado –uma forte correção, diretamente por seu autor, não por um jornalista ou colega.

Um esboço da carta já vazou online e foi divulgado.

“Você sabe, é o único arrependimento que tenho; o único profissional”, disse Spitzer sobre o estudo, perto do final de uma longa entrevista. “E eu acho que, na história da psiquiatria, eu não creio que tenha visto um cientista escrever uma carta dizendo que os dados estavam lá, mas foram interpretados erroneamente. Que tenha admitido isso e pedido desculpas aos seus leitores.”

Ele desviou o olhar e então voltou de novo, com seus olhos grandes cheios de emoção. “Isso é alguma coisa, você não acha?”

- Benedict Carey, para o The New York Times (original aqui)
Tradução de George El Khouri Andolfato, para o UOL Internacional

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Respeito à diversidade se aprende na infância


No dia 15 de maio, será realizado o 9º Seminário LGBT do Congresso Nacional. Este ano, o tema em discussão será “Sexualidade, Papéis de Gênero e Educação na Infância e na Adolescência”, com o lema: “Respeito à diversidade se aprende na infância”.

O evento será realizado pela Comissão de Legislação Participativa, a Comissão de Educação e Cultura e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, em parceria com a Frente Parlamentar LGBT e a Frente em Defesa dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente, e trará especialistas em direito, psicologia, cultura, educação, sexualidade para debater a infância e adolescência de meninos e meninas que sofrem bullying por não se enquadrarem nos papeis de gênero definidos pela sociedade. O 9º Seminário LGBT do Congresso Nacional acontecerá nos plenários da Câmara dos Deputados, das 9h às 17h30.

(Fonte: Dep. Jean Wyllys, no Facebook)

sábado, 5 de maio de 2012

"Meninos de Rosa, Meninas de Azul": minidoc sobre homofobia e bullying homofóbico


O minidocumentário começa com uma propaganda do serviço do Governo Federal Disque 100, que desde o início do ano passado recebe denúncias de casos de preconceito e discriminação. Logo depois vem o desabafo pessoal do jovem Matheus Rodrigues, seguido por explicações do psicólogo Claudio Picazio e de Carla Cristina Garcia, professora de Antropologia da PUC-SP.

(Fonte: Elos LGBT DF. Dica do @wrighini, sempre mostrando coisas incríveis para nós. ;-)))

Leia também:
Homofobia nas Escolas, um artigo imperdível discutindo o uso da expressão bullying e a homofobia no contexto escolar
"Bully", o filme que mostra que está na hora de tomar uma atitude

terça-feira, 24 de abril de 2012

As crianças e os gêneros

Foto via Facebook

Causou furor na rede há umas duas semanas a divulgação de um catálogo de brinquedos sueco que inverteu os papéis tradicionais de gênero, mostrando um Homem-Aranha (um menino ou uma menina?) empurrando um carrinho de bebê e cercado de outros brinquedos cor-de-rosa, enquanto uma menina de calça comprida e tênis pedalava um carrinho. A esse propósito, reproduzimos aqui o belo texto da Debora Regina, publicado no Blog Mamíferas na semana passada.

Entro em casa e, na sala, vejo a seguinte cena: Naná vestida de princesa, com os pés descalços e encardidos, jogando futebol de botão com Pedrinho, o irmão mais velho.

Essas situações são comuns aqui em casa. Outro dia, João Felipe brincava de casinha com as meninas, ajudava a carregar o bebê e cuidar da casa. Vantagens de quem tem meninos e meninas em casa: eles têm oportunidade de brincar com todos os tipos de brinquedos. Fico feliz em ver que, pelo menos nas brincadeiras, para meus filhos, a questão de gênero não faz diferença, pelo menos para eles homens e mulheres são iguais e fazem o que lhes der na veneta.

Eu nunca disse para eles que tal atitude/roupa/brinquedo eram para menino ou menina, eles podem brincar com tudo, vestir o que quiserem. Lembro que quando o João era pequeno, me pediu uma pia e panelinhas pois ele queria brincar de cozinheiro, eu comprei uma roxa e amarela. Fico muito brava ao ver que, hoje em dia, não fazem mais geladeira ou fogão brancos, tudo, absolutamente tudo, é rosa, ou seja, além de reforçar que o serviço doméstico só pertencem às mulheres, ainda por cima temos que aceitar o rosa como a única cor possível.

Por outro lado, não há como fugir de alguns estereótipos: Ana Cecília adora rosa, fru-frus, coroas, vestidos, enquanto os meninos curtem brincar de luta, futebol, além de algumas “ogrices” típicas de meninos como arrotar e soltar pum. Isso me faz refletir onde está sendo repetido um padrão social e onde esses gostos e atitudes pertencem às naturezas feminina e masculina. Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva, mas, algo me diz que há sim maior influência social.

Para mim, o problema maior quando o assunto é gênero, são as informações vindas de fora, porque as crianças sempre trazem os preconceitos proferidos pelos próprios coleguinhas. Ultimamente, a grande dúvida deles é sobre o que é ser gay, visto que alguns coleguinhas já tacharam que meninos não podem ter algumas atitudes porque são considerados gays. Eu, muito calmamente, explico para eles que o amor pode acontecer com pessoas de todos os sexos: homens que amam mulheres, homens que amam homens e mulheres que amam mulheres. Explico também que isso é algo que só acontece com pessoas mais velhas, então eles não precisam se preocupar com isso. Ponto final.

De minha parte, faço o possível para não reforçar esses estereótipos. Desejo sinceramente que meus filhos sintam-se, acima de tudo, indivíduos livres e sem preconceitos.

- Debora Regina, para o Blog Mamíferas

A Lola publicou ontem no seu blog um texto excelente sobre o assunto. E tudo isso nos lembrou, aliás, este post aqui... e o vídeo aí embaixo. ;-)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Orientação espiritual para crianças

Foto: Alex Ruiz

Com certeza, você esbarra em amigos e vizinhos no shopping, no cinema, em restaurantes e barzinhos, mas hoje dificilmente conhece alguém próximo que sai de casa para ir à missa aos domingos. O que antes era uma obrigação a cumprir, uma espécie de ritual familiar, com direito a roupa nova, hoje nada mais é do que uma cena do passado distante.

Os pais não se sentem mais à vontade em impor uma religião às crianças, como há 50 anos, quando a doutrina passava de pais para filhos. Sem querer obrigá-los os filhos a seguir os mesmos passos, os pais – em sua maioria criados na religião católica – não sabem mais como agir. (...)

Para responder a essa inquietação dos pais, especialistas explicam por que continua sendo imprescindível transmitir aos filhos conceitos de fé, amor e respeito. O teólogo e escritor Leonardo Boff é um dos que ensinam aos pais como apresentar o sagrado às crianças. “Nunca passar a ideia de um Deus vigiador e castigador. Isso gera medo. E o que se opõe à fé não é a não fé, mas o medo. A criança com medo tem dificuldades de crer, de confiar, de se entregar a alguém.”

Emerson Pedersoli, psicólogo com formação clínica e especialista em psicologia da educação, sempre envolvido com casais e famílias, confirma: “Os pais estão realmente perdidos. Vieram de uma educação rígida, mas não conseguiram achar o meio do caminho. Saíram do extremo da rigidez para a liberdade em excesso.”

Nos cursos e palestras que ministra, Pedersoli conversa muito com os pais e percebe que, hoje, eles tendem a deixar a orientação espiritual para o futuro, quando os filhos estiverem crescidos. “Mas a ideia de deixá-los crescer sem apresentar nenhum parâmetro já é deixá-los perdidos”, assegura. Aí, pode ser tarde, “porque eles não terão como decidir, porque não foram orientados”.

Ele acredita que em tempos de grande liberdade de escolha, dar aos filhos orientação espiritual é “fundamental”, mas avisa: “Costumo dizer que é preciso associar a fé ao raciocínio. E não ter uma fé cega, do tipo acreditar porque estão dizendo. Ao contrário: acredito porque pesquiso, estudo e aprofundo”.

Compreensão do mundo
Nem sempre pais e filhos têm a mesma opinião quando o tema é espiritualidade. Especialistas sugerem que os adultos não rotulem ou usem juízos de valor para tratar do assunto com as crianças Nem a rigidez de antes nem a liberdade excessiva. Como os pais podem encontrar o meio do caminho e apresentar o sagrado às crianças? Quem responde é Leonardo Boff (...). Depois de abandonar suas funções de frade franciscano (...), Boff vive atualmente no Jardim Araras, região campestre ecológica do município de Petrópolis (RJ), e compartilha vida e sonhos com a educadora Márcia Maria Monteiro de Miranda.

“Creio que devemos entrar pela porta certa, que é a inteligência emocional. A criança não entende conceitos que não passam por alguma experiência ou metáfora. Deus é uma realidade grande demais para ela fazer uma representação”, observa.

Ele crê que os pais devem primeiro mostrar à criança o sagrado. “Ela é sensível ao sagrado. A gente faz isso entrando numa igreja. Ela percebe que lá é outra lógica, diferente da rua, do mercado, dos shoppings. Na igreja há silêncio ou se fala baixinho, há espaços altos, as figuras, os altares. Dessa experiência nasce o respeito, a veneração: estamos diante de algo importante. É preciso dizer que Deus mora ali. Mas Ele gosta mesmo de morar no coração da criança, protegendo-a, iluminando-a, fazendo-a querida para as outras pessoas.”

Outra experiência importante do sagrado, segundo o teólogo, é mostrar as estrelas. “Sempre há noites estreladas, mesmo nas grandes cidades. E perguntar: ‘Quem se esconde atrás daquelas estrelas?’, ‘Quem faz com que elas se movimentem?’, ‘Quem criou aquele céu todo?’. E aí dizer: ‘Foi Deus quem quis embelezar nossas noites e alegrar nossos olhos. Todos nós nascemos das estrelas, porque tudo o que está no nosso corpo veio delas, especialmente do Sol. Todos nós queremos brilhar. E com razão. Porque devemos ser como as estrelas: nascemos para brilhar.’”

Ele aponta outra experiência importante – o nascimento de um bebê. “A criança logo se interessa: ‘De onde veio?’. Sabe que veio da mãe. E a mãe veio de onde? De quem ela recebeu a criança? E daí explicar que há no céu um pai carinhoso e uma mãe bondosa que nos amam e nos mandam essas crianças. Cada criança é um sinal de amor de Deus. Enquanto nascerem crianças é prova de que Deus ainda nos ama e ama o mundo.” O contato com o mar também fala do sagrado: “É a experiência da majestade e da grandeza, que inspira respeito e cuidado. Deus tem majestade. É um mar de amor e de vida”.

Outra forma é despertar a criança para a beleza da natureza: “De uma flor, de um gatinho que nasce, de um cachorrinho, de um pássaro ou mesmo o descortinar de uma paisagem a partir de um lugar alto. Aí emerge o mistério da vida e da beleza. Deus é aquele que dá vida e faz tudo belo neste mundo”.

Por fim, o teólogo constata: “A criança é muito sensível à oração. À noite, antes de deitar, os pais podem ensinar pequenas orações, como ‘Com Deus me deito, com Deus me levanto, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo’. Há tantas fórmulas… Cada família tem a sua. Conheço pais que são ateus e as crianças pedem à mãe para rezar. E aí é importante encenar a oração: fazer silêncio, juntar as mãos, pensar no mais alto do céu, nas estrelas e num grande pai bom ou numa grande mãe bondosa. E só quando estiverem concentrados, então fazer a oração. Geralmente, pedem para repetir. Mas não troquem as fórmulas de oração. As crianças querem sempre a mesma fórmula”.

Estado de Alma
Professora do Instituto de Ciências Humanas da PUC Minas e mestre em ciências da religião, Luzia Werneck acha importante que os pais trabalhem com as crianças a compreensão do mundo: “Se você trilha o caminho da espiritualidade, tudo fica mais leve”.

Para Luzia, a questão da espiritualidade, da fé e da religião não deve ser uma imposição. “Os pais devem pegar a criança pelas mãos e trilhar esse caminho da compreensão do mundo. Conheço pais que são ateus, mas ensinam valores humanos. Será que posso afirmar que não há espiritualidade ali, mesmo que eles sejam ateus?”

Espiritualidade, para Luzia, é “olhar o mundo como se fosse a primeira vez. Não viciar o olhar. Até para conversar sobre a existência de Deus você não pode impor sua opinião. Se você fizer isso, impede o outro de compreender o mundo a partir da própria vivência”. Ela cita uma letra de um canto gregoriano dos monges trapistas, que diz o seguinte: ‘O mundo é um grande berço e nós temos que pensar que mãos vão embalar esse berço. Quando um filho nasce, o lar é um grande berço. E devemos saber que mãos vão conduzir esse sujeito e qual a espiritualidade que vai permear a vida. Para mim, espiritualidade é um estado de alma’”.

Sem filhos, Luzia, no entanto, tem sete sobrinhos. “Converso muito com eles e a espiritualidade acontece em qualquer hora e lugar. Outro dia, passeando num sítio para olhar as árvores e os pássaros, nos deparamos com um ninho onde a fêmea tomava conta dos filhotes. Paramos para observar e conversar sobre o saber cuidar, que não é só da condição humana.”

- Déa Januzzi, para o Estado de Minas
Leia na íntegra no Conteúdo Livre

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