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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Comprometidos com a dignidade humana

Foto via Blue Pueblo

Pouco mais de um ano depois, reproduzimos a nota abaixo, emitida no dia 11/05/11 pelo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), tanto para marcar o primeiro aniversário da decisão do STF em prol da união civil homoafetiva, como para assinalar que nem tudo é fundamentalismo entre os religiosos e, sim, é possível uma leitura das Escrituras e dos acontecimentos no mundo mais próxima do olhar amoroso e inclusivo de Cristo.

“... o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com teu Deus.” Miqueias 6. 8.

Recebemos com serenidade a recente decisão unânime do STF sobre o reconhecimento jurídico das uniões estáveis de pessoas homoafetivas. Tal aprovação representa um importante avanço em nossa sociedade na busca pela superação de todas as formas de preconceito e um aperfeiçoamento no conceito de igualdade e cidadania numa sociedade marcada pela pluralidade, mas também por profundas desigualdades e discriminações;

Nosso reconhecimento é feito com base em sólida tradição de defesa da separação entre igreja e estado (e entre religiões e estado), que não significa a sujeição de um campo ao outro, nem a substituição de um pelo outro, mas a necessária junção da autonomia institucional e legal com a liberdade de expressão e o pluralismo. Ou seja, a IEAB sente-se perfeitamente à vontade para expressar sua posição porque sua prática a recomenda e porque entende que o estado deve ser continuamente acompanhado em suas decisões, em qualquer esfera de poder, aprovando-o ou questionando-o em suas ações; - A decisão do STF levanta sérios desafios a todos os cristãos de todas as igrejas, pois requer abertura para reconhecer que as relações homoafetivas são parte do jeito de ser da sociedade e do próprio ser humano. A partir de agora, os direitos desse grupo tornaram-se iguais aos de todas as outras pessoas. Reconhecemos que há ainda muito que fazer nesse campo, pastoral e socialmente, para afirmar a dignidade da pessoa humana e seus direitos. Sabemos que um profundo e longo debate deve acontecer na sociedade brasileira a este respeito, e a IEAB não está isenta de nele participar, com profunda seriedade e compromisso de entender as implicações do evangelho de Jesus Cristo em nosso tempo e lugar; - Reconhecemos que tal decisão é resposta à prece que sempre fazemos em nossos ritos de Oração Matutina/Vespertina: “Ó Senhor, que nos governas... ao teu misericordioso cuidado encomendamos nossa Pátria... concede a todas as Autoridades, sabedoria e força para conhecer e praticar a tua vontade. Enche-os de amor à verdade e à justiça...” (Livro de Oração Comum, pg. 38). Assim, afirmamos nosso compromisso pastoral para com essas pessoas. Cremos que a promessa declarada no rito do batismo: “És de Cristo para sempre!” (Livro de Oração Comum pag. 169) repousa sobre todos nós e, portanto, não nos cabe decidir quem pertence ou não a Deus.

Neste momento de mudança, reafirmamos nosso compromisso de ser uma Igreja que Acolhe e Serve, reconhecendo o sensus fidelium declarado na última CONFELIDER: defender os Direitos Humanos e o Direito à Cidadania plena. Entendemos que esse compromisso é decorrência dos votos que fazemos perante o altar em nossa confirmação: "Defenderás a justiça e a paz para todos, respeitando a dignidade de todo ser humano" (Livro de Oração Comum pg 179);

Louvamos a Deus pelos avanços conquistados, entendendo que fazem parte da sutil e gradativa inspiração do Espírito Santo para transformar nossa sociedade. Conclamamos todos os anglicanos e as anglicanas a acolher as pessoas que nos buscam, a orar por elas e acompanhá-las pastoralmente, entendendo que a Igreja é um edifício ainda em construção e que a totalidade de sua membresia só é conhecida pelo próprio Cristo, Senhor da Igreja.

No amor inclusivo de Jesus Cristo, nosso Senhor e Rei e supremo juiz dos vivos e mortos,

Dom Maurício José Araújo de Andrade
Bispo Primaz

terça-feira, 15 de maio de 2012

Amanhã, 16/5: III Marcha Nacional contra a Homofobia


Por Paulo Tavares Mariante, advogado, filiado ao PT em Campinas, militante pelos direitos humanos, Coordenador de Direitos Humanos do Identidade – Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual, e Conselheiro Municipal de Saúde de Campinas – SP:

No próximo dia 16 de maio acontecerá em Brasília a III Marcha Nacional Contra a Homofobia, convocada pela ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que reúne mais de 200 organizações de base por todo o território nacional) e com o apoio de outras redes e associações nacionais do movimento LGBT. Precisamos refletir sobre o momento em que vivemos no Brasil, do ponto de vista do reconhecimento dos direitos da diversidade sexual e dos enfrentamentos com o campo conservador (em especial o fundamentalismo religioso), a conjuntura e a correlação de forças. (...)

Em décadas de atuação do movimento LGBT e da diversidade sexual, travamos muitas lutas, e obtivemos algumas conquistas isoladas, como leis municipais e estaduais punindo a discriminação de caráter homofóbico, e algumas ações pontuais em políticas públicas municipais, estaduais e federais. E a presença de um Presidente da República – Lula – na abertura da I Conferência Nacional LGBT, em junho de 2010, dava a impressão de que outros avanços estavam por vir.

A campanha eleitoral de 2010, quando as três candidaturas de maior expressão eleitoral – Dilma, Serra e Marina – se submeteram às chantagens dos grupos religiosos conservadores, em temas e debates fundamentais para os direitos das mulheres e pela diversidade sexual – como aborto e casamento homossexual – e comprometendo gravemente o princípio da laicidade do estado – separação entre estado e religião – em seus discursos, foi a senha para que o fundamentalismo religioso desequilibrasse a balança a seu favor.

A desastrosa decisão da Presidenta Dilma Rousseff de suspender a distribuição dos materiais didáticos e pedagógicos do Projeto Escola Sem Homofobia – denominado por seus detratores como “kit gay” – pela pressão das bancadas fundamentalistas religiosas pôs mais combustível no motor do ódio. Rifar os direitos LGBT pela pressão dos conservadores religiosos não era em si nenhuma novidade – o Governo de Fernando Henrique Cardoso fez isso duas vezes, em Janeiro de 1999 e Maio de 2001 – mas a maior autoridade pública da Nação ir a frente às câmeras de TV e fazer uma fala lamentável – “de que seu governo não iria fazer ‘propaganda’ de ‘opções sexuais’(sic) – teve um peso considerável em todos os desatinos da homofobia religiosa que estariam por vir.

O fundamentalismo religioso é um fenômeno que merece uma análise mais cuidadosa por parte daquelas e daqueles que afirmam lutar pela democracia e pela igualdade de direitos. A questão vai muito além da homofobia e da negação de direitos à população LGBT, ou do rechaço aos direitos sexuais e reprodutivos, o que por si só já seria motivo de preocupação. Recentemente, um município importante na Bahia aprovou uma lei que torna obrigatório, em todas as escolas da rede pública municipal de ensino, que seja rezado no começo do dia a oração cristã conhecida como “Pai Nosso”. E professores de escolas públicas estaduais de diferentes estados constrangeram e intimidaram alunos adolescentes que não queriam participar de uma “oração” em sala de aula! Se olharmos o que vem ocorrendo por todo o Brasil perceberemos que o avanço do fundamentalismo religioso é uma ameaça concreta à própria democracia.

As decisões do Supremo Tribunal Federal que reconheceram a legitimidade jurídica das uniões entre pessoas do mesmo sexo e sua equiparação às uniões estáveis heterossexuais, bem como autorizando a realização do aborto nos casos de fetos anencéfalos, e ainda a constitucionalidade das cotas raciais nas universidades, têm sua importância numa espécie de contraponto à onda fundamentalista religiosa que acovarda o governo federal e o Congresso Nacional. Mas não podemos ter a ilusão de que isso é de fato uma garantia de que o quadro atual não possa piorar.

O fundamentalismo religioso está cada vez mais organizado, com peso considerável em espaços de mídia e de grupos econômicos, e a recente aliança com os ruralistas apenas evidencia qual a sua verdadeira opção política, que é pela direita. Este setor não tem qualquer dúvida quanto ao seu lado nas disputas sociais, inclusive nas que dizem respeito à classe trabalhadora, mesmo que faça isso de forma subliminar.

O movimento LGBT e pela diversidade sexual precisa de um esforço para superar a visão – equivocada, em nosso ponto de vista – de que podemos avançar em nossas lutas sem uma aliança estratégica com os demais segmentos oprimidos, discriminados e excluídos de nossa sociedade. Nenhuma opressão ou discriminação será superada enquanto outras coexistirem.

A construção de uma frente nacional pela igualdade de direitos, que aglutine militantes dos movimentos negros, feministas, LGBT e da diversidade sexual, da juventude, das pessoas com deficiência, idosos, trabalhadoras e trabalhadores, bem como sem terra, sem teto, e pela efetividade dos direitos sociais, para nós é tarefa essencial a ser desenvolvida e embora não seja simples ou fácil exige um esforço de unidade e de priorização.

Que a mobilização para a III Marcha Nacional Contra a Homofobia, na qual estaremos juntas e juntos gritando por nossos direitos em Brasília, seja também um momento para aprofundarmos essa reflexão, na perspectiva de construção de uma sociedade diferente, sem qualquer forma de opressão.

(Fonte: Fora do Armário)

Leia também:
Programação da Semana Nacional contra a Homofobia
Quando Deus pauta a política

Deputado gay na universidade católica

Foto daqui

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), assumidamente homossexual, defende no Congresso Nacional a criminalização da homofobia e o casamento gay. Ele esteve em duas universidades católicas participando de debates: em Recife, onde se realizou um congresso sobre direito homoafetivo, e no Rio de Janeiro, tratando da agenda LGBT no legislativo. Pode-se perguntar por que estas instituições católicas promovem eventos dessa natureza. As aspirações e as reivindicações do movimento gay não divergem dos ensinamentos da Igreja?

Antes de tudo, a universidade católica é uma ‘universidade’, isto é, um universo de encontro dos saberes, da diversidade de pontos de vista, da pesquisa e do ensino que passam pelo debate aberto e respeitoso. O simples fato de ser universidade já justifica plenamente um evento assim. Além disso, o humanismo de inspiração cristã deve permear esta instituição, sem diminuir em nada a sua competência acadêmica.

Não se pode ficar alheio à realidade da população LGBT, que carrega um estigma milenar de uma dura discriminação e é vítima de uma brutal hostilidade: a homofobia. Não se pode ficar alheio ao seu anseio destas pessoas por segurança, liberdade e igualdade. O Concílio Vaticano II, iniciado há 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS,1).

Por isso, a universidade católica faz uma reflexão séria e um debate qualificado sobre a cidadania da população LGBT. Assim, ela pode fomentar ideias inovadoras que beneficiam a sociedade e a vida política, arejam os ambientes cristãos e alavancam as transformações tão necessárias ao nosso tempo. Fica ainda a questão: como podem os fieis católicos lidar com a oposição da alta hierarquia ao reconhecimento do casamento gay, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nocivo a um reto progresso da sociedade?

O conceito de ‘cristão adulto’, sobre o qual refletiu o teólogo Karl Rahner, pode contribuir bastante neste debate. No início do século 20, o magistério da Igreja rechaçava a teoria da evolução, ensinando que os primeiros capítulos da Bíblia, que narram a criação do homem, tinham que ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como ele deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções de sua fé realmente centrais e existencialmente significativas, para nelas se aprofundar sempre mais; e por fim rejeitar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

Não se deve colocar todas as coisas em termos de tudo ou nada. O Concílio Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR,11). Este nexo pode ser maior ou menor. Há ensinamentos de mais relevância, e outros de menos relevância. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e de sua consciência, e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o respaldo institucional e eclesial desejado.

Muitas pessoas hoje estão plenamente convencidas de que o casamento gay é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano Barack Obama. A união homo e a união hétero se destinam a pessoas diferentes. É cada vez mais evidente que não há concorrência entre estas formas de união, e nem ameaça à família ou à sociedade. Muitos cristãos pensam assim. Sabem que Deus é amor e compreensão, e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Estes cristãos devem ser encorajados a dar testemunho desta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido respaldo de suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Os eventos promovidos por estas universidades católicas ajudam a trilhar este caminho, que é belo e humanizante.

Equipe Diversidade Católica

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Atualização em 22/05/12:
Leia aqui a nota publicada no jornal da PUC (de circulação no campus) sobre a visita do deputado à universidade. :-)

Filha de Raúl Castro diz que pai é a favor da união gay

Foto daqui

HAVANA - Filha do presidente cubano Raúl Castro, a sexóloga Mariela Castro disse neste sábado (12/05/12) que seu pai é a favor da união civil entre homossexuais e orientou que toda a forma de descriminação contra minorias seja banida da ilha.

A diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), que se destacou como um defensora da diversidade sexual, liderou uma marcha contra a homofobia, que reuniu cerca de 400 cubanos, entre homossexuais, travestis e transexuais.

— Tenho entendido que o presidente cubano se manifestou em várias ocasiões sobre o tema) — disse Mariela Castro. — Mas não fez isso em público. Certamente é parte de suas tática e estratégia. É seu estilo. Eu não vou pressioná-lo (Raúl Castro) a fazê-lo publicamente, porque me importa mais que se trabalhe em ações específicas que em palavras — disse ela.

Os gays têm sido depreciados e por vezes reprimidos desde os primeiros anos da revolução de 1959, que levou o ex-ditador Fidel Castro ao poder. Homossexuais e transexuais foram enviados em 1960 a campos de trabalhos forçados, em uma sociedade com fortes doses de machismo.

As declarações de Mariela Castro, que dançou na passeata ao ritmo de conga pelas ruas de Havana, veio logo após o presidente Barack Obama apoiar o casamento gay nos Estados Unidos.

— Saúdo o presidente Obama por sua mensagem humana de entendimento (...) a favor do casamento, da união livre de pessoas do mesmo sexo — reiterou. — Ele (Raul) tem falado sobre a necessidade de avançar nas questões dos direitos de orientação sexual e identidade de gênero e de superar todos os preconceitos — disse a sexóloga ao responder a uma pergunta da Reuters sobre se seu pai apoiava uniões civis de cubanos do mesmo sexo.

A diretora do Cenesex, cujos avanços em direitos incluem cerca de 15 cirurgias gratuitas de mudança de sexo desde 2008, apresenta desde 2006 ao Parlamento uma emenda que procura formas de alterar o Código da Família, em vigor desde 1975, sobre assuntos relacionados à transexualidade e à homossexualidade no país. A Primeira Conferência Nacional do Partido Comunista em janeiro decidiu rejeitar todas as formas de discriminação, incluindo a orientação sexual.

(Fonte: O Globo. Colaboração do amigo @Lucas_Vazzz)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Igualdade

Imagem daqui

"Todos os americanos, sejam gays, héteros, lésbicas, bissexuais ou transgêneros, TODOS os americanos merecem ser tratados com igualdade aos olhos da lei e aos olhos da nossa sociedade. É muito simples."


Agora, experimente substituir "americanos" por "seres humanos".

Estatuto da Diversidade Sexual: campanha busca 1,4 milhão de assinaturas


A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu a união estável para casais do mesmo sexo completou um ano no dia 05 de maio. A data é motivo de comemoração, mas serve também para lembrar que as conquistas efetivas serão garantidas pela legislação. Não por acaso, nesta semana, a advogada Maria Berenice Dias, vice-presidente nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) e presidente da Comissão de Diversidade Sexual do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), iniciou campanha para apresentar o projeto do Estatuto da Diversidade Sexual por iniciativa popular.

Será necessário colher 1,4 milhão de assinaturas, ou a participação de 1% do eleitorado nacional. O Estatuto tem como objetivo assegurar todos os direitos à população LGBT - lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, além de criminalizar a homofobia e a adoção de políticas públicas para coibir a discriminação. Este foi o compromisso assumido pelas Comissões da Diversidade Sexual da OAB de todo o País, que elaboraram o projeto de lei incorporando todos os avanços já assegurados pela Justiça.

De acordo com a Comissão Nacional, apresentar o projeto por iniciativa popular é a forma de a sociedade reivindicar tratamento igualitário a todos os cidadãos, independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. O respeito à diferença é a essência da democracia, defendem. Para participar, assine a petição pública online aqui. A impressão do formulário também é fundamental. Acesse.

A presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção Rio de Janeiro, Raquel Costa, enfatiza a necessidade de legislação específica para garantir os direitos dos homossexuais. Ela coordena o I Ciclo de Palestras de Direito Homoafetivo, que começou no dia 07 (segunda-feira) de maio e vai até o próximo dia 17. O encontro funciona como curso prático para operadores do Direito.

"O que mais temos ouvido, tanto no Ciclo de Palestras, quanto no dia a dia, é que está sendo muito difícil conseguir a conversão da união estável em casamento. Apesar da decisão do STF reconhecer a união estável homoafetiva, isto não está sendo aceito pelos tribunais porque não há lei, mas sim uma decisão judicial", diz a advogada.

Raquel destaca a importância de se apresentar o Estatuto da Diversidade Sexual por iniciativa popular. De acordo com ela, ao ser encampada por 1% do eleitorado, a proposta derruba um argumento de congressistas contrários à criação de legislação homoafetiva.

"Os parlamentares conservadores dizem que as leis que contemplam homossexuais são desnecessárias porque atenderiam a um número reduzido de pessoas. Mas com a assinatura de 1,4 milhão de brasileiros, esse argumento não resiste porque a população estará dizendo que quer a aprovação do Estatuto da Diversidade Sexual", pontua. Uma indicação do quanto as uniões homoafetivas interessam ao público, é a informação dada no site do STF no início do mês, de que o reconhecimento da união estável para casais do mesmo sexo é uma das notícias mais lidas no portal da instituição.

Se a lacuna da lei para o casamento gay persiste, também há juízes que não se abstêm da responsabilidade de avaliar a questão do ponto de vista humano e social. Como a magistrada Gardência Carmelo, integrante da diretoria do IBDFAM de Sergipe. A sentença da juíza, dada no dia 03 de maio, foi favorável à habilitação para o casamento de duas mulheres, diante da negativa de cartório de Aracaju.

Em sua fundamentação, ela argumenta: "Não obstante o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda possa ser considerado, por razões eminentemente de origem religiosa, um tabu, não vislumbramos um desafio no enfrentamento da questão posta com o pedido. Não antevemos dificuldade no trato jurídico de um aspecto tão inerente à condição humana: amar e ser amado. Afinal, o amar entre pessoas adultas e em plena capacidade de pensar e de determinar-se de acordo com isso deve ser sempre respeitado e honrado".

Além da decisão de Sergipe, os estados de São Paulo, Pernambuco, Alagoas e Distrito Federal já autorizaram a possibilidade entre pessoas do mesmo sexo. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), em uma de suas decisões (25/10/2011), também reconheceu a possibilidade de habilitação para o casamento homoafetivo.

(Fonte: IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito da Família)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Juventudes da Democracia Cristã do Chile a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo

"É importante para mim a questão do casamento gay, 
ou como gosto de dizer, 'casamento'. 
Porque, sabe, quando eu almocei hoje não foi um almoço gay. 
E, quando estacionei o carro, não foi um estacionamento gay."

As Juventudes da Democracia Cristã chilena (JDC) decidiram apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em seu 5º Congresso Ideológico e Programático. Militantes LGBT do Movimento de Integração e Liberação Homossexual (MOVILH) qualificaram de "histórica" a decisão, e parabenizaram a organização jovem.

“Essa iniciativa marca um antes e um depois na abordagem dada pelos setores democratas cristãos aos direitos humanos das minorias sexuais, que não só vai ao encontro da justiça como reafirma o princípio da igualdade garantido pela Constituição, sem discriminações de nenhum tipo”, declarou o MOVILH após a decisão das JDC. “Esperamos que o diretório nacional da Democracia Cristã e o partido como um todo acolham bem essa decisão da ala jovem e aproveitem a oportunidade para dar início a um debate amplo e renovado acerca dos direitos humanos das minorias sexuais, a não  discriminação e a importância de se contar com um Estado laico”. E o MOVILH aproveitou ainda para convocar "todas as juventudes políticas a tomar iniciativas similares, em que lancem o debate não só a respeito do casamento igualitário, mas também da adoção por casais do mesmo sexo”.

A Democracia Cristã do Chile é uma organização de inspiração cristã situada no centro do espectro político, que desde o final da ditadura de Pinochet faz parte da chamada Concertación, aliança de partidos de centro e esquerda que governou o Chile de 1990 a 2010.

Inserimos a seguir uma entrevista (sem legendas em português) realizada pela CNN Chile com Jorge Andrés Cash, presidente da JDC, que explica a decisão e revela que muitos membros da organização aproveitaram o intenso debate ocorrido para sair do armário e visibilizar-se:


Sem dúvida, uma decisão muito positiva, que acontece no calor da significativa reação social desencadeada no Chile após o brutal assassinato homofóbico do jovem Daniel Zamudio, manifesta também nas iniciativas de aprimoramento do projeto de lei contra a discriminação.

Nesse contexto, o MOVILH iniciou uma campanha em que atores, atrizes, jornalistas e celebridades famosos contam em vídeo casos reais de discriminação. Mais informações aqui.

(Fonte: Cristianos Gays)

Obama se torna o primeiro presidente americano a apoiar o casamento gay

Foto daqui

A menos de seis meses das eleições americanas, o presidente Barack Obama assumiu um risco calculado ao apoiar o casamento gay.

Por um lado, o presidente põe em risco a sua popularidade junto aos eleitores mais conservadores nos chamados Estados-pêndulo – que não fecham com democratas nem republicanos e precisam ser disputados a cada eleição.

Por outro, Obama finalmente desce do muro e abre a possibilidade de reenergizar sua base – de militantes e de doadores – frustrada com a falta de clareza do presidente nesse assunto. O tema já entrou no debate eleitoral e, ao assumir uma posição, creem analistas, Obama lidera o debate ao invés de ser engolido por ele.

Independentemente da opinião do presidente americano, a decisão de permitir ou não o casamento entre pessoas do mesmo sexo cabe aos Estados. Atualmente, nove já votaram para permiti-lo, sendo que em dois (Washington e Maryland) a lei ainda precisa entrar em vigor.

Mas Obama vinha sendo pressionado a dizer o que acha sobre a ideia depois que outros membros de sua equipe, incluindo o vice-presidente, Joe Biden, expressaram seu apoio à proposta.

Observadores políticos não deixaram de notar o tato do presidente ao abordar um tema sensível, trazendo-o para o plano pessoal e "refletindo sobre o tema como todo mundo reflete", como disse a analista política da CNN, Hilary Rosen.

Obama disse à jornalista Robin Roberts, da rede ABC, que resolveu assumir sua posição depois de notar que membros gays de sua própria equipe eram "incrivelmente comprometidos com relacionamentos monógamos do mesmo sexo e que estão criando suas crianças juntos" e de pensar "naqueles soldados, ou aviadores, ou fuzileiros navais, ou marinheiros que estão lutando por mim, e apesar disso se sentem constrangidos".

"No fim, o que mais nos importa (a ele e à esposa, Michelle Obama) é a forma como tratamos as pessoas. Somos ambos cristãos praticantes e obviamente esta posição pode ser considerada como contrária à visão de outros. Mas quando pensamos na nossa fé, o que está na raíz não é apenas Cristo se sacrificando por nós, mas a regra de ouro, sabe, trate os outros como quer ser tratado".

Até então, Obama dizia que sua visão sobre o casamento gay estava "evoluindo". Questionado sobre o assunto em 2004 e 2008, o presidente era contra o casamento gay, e dizia que ainda não estava convencido em 2010 e no ano passado.

Como mostraram pesquisas de institutos de opinião, a própria visão dos americanos sobre o tema também "evoluiu" na última década e meia.

Em 1996, quando o instituto Gallup começou a colher seus dados, 68% dos americanos eram contra o casamento gay e 27% a favor. Dois anos atrás a diferença desapareceu e hoje os que apoiam o casamento gay são ligeiramente mais numerosos dos que se opõem (50% a favor, 48% contra).

Outra pesquisa do jornal Washington Post e da rede ABC mostra que em 2004 os que eram contra o casamento gay superavam os favoráveis (55% a 41%). Hoje a relação se inverteu e os que apoiam são 55% contra 43% que se opõem.

Analistas ainda tentam avaliar o impacto que a declaração de Obama pode ter na sua candidatura. É possível que sua posição complique as chances de uma vitória em Estados-pêndulo como a Carolina do Norte – que na terça-feira reafirmou a sua proibição ao casamento gay –, Virgínia e Flórida.

Por outro lado, muitos analistas acham que é improvável que os eleitores negros, que se sentiram valorizados com a eleição de Obama, muitos deles no Sul do país, deixem de votar pela reeleição de Obama por causa de um único ponto polêmico.

Se as eleições fossem hoje, as pesquisas indicam que Obama venceria seu rival, Mitt Romney, na Carolina do Norte, por apenas 2,4 pontos percentuais. Entre os afroamericanos da Virginia, venceria por 97% a 1%.

Um especialista republicano citado pela analista de política da rede ABC, Amy Walter, disse que "os eleitores que são fortemente contra o casamento gay – ou seja, que deixariam a opinião de um candidato sobre esse assunto determinar o seu voto – já não votariam pelo presidente de qualquer maneira".

O que tem sido apontada como benefício para Obama é a injeção de ânimo na sua base de militantes, frustrada com a insistência do presidente em declarar sua posição quando tantos representantes do partido já são favoráveis ao casamento gay.

"O apoio do presidente para a igualdade no casamento é uma grande notícia, que deve energizar os ativistas progressistas em todo o país", disse Justin Ruben, diretor-executivo da organização Move On, que faz campanha pelos direitos civis e pelo partido democrata.

O analista de política e autor do blog The Fix, do Washington Post, Chris Cillizza, apontou que "a base LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) não apenas é uma grande parte da base democrata, como compreende algumas das pessoas mais politicamente ativas do partido".

Além disso, disse, "não é segredo para ninguém que, para vencer, o presidente Obama precisa de um apoio muito consolidado entre as pessoas entre 18 e 29 anos de idade – o grupo que mais apoia o casamento gay".

Análises dos financiamentos da campanha de Obama já mostraram que o candidato, além de ser movido pelas pequenas doações (abaixo de US$ 200), também recebe um de cada seis dólares que vão para o seu caixa de doadores homossexuais.

A declaração de Obama gerou reações positivas e negativas. O virtual candidato republicano à Presidência, Mitt Romney, disse que sua visão é a de que o casamento é apenas entre um homem e uma mulher, e as uniões civis são "suficientes" e "apropriadas" para contemplar os direitos dos homossexuais.

O presidente do Comitê Republicano Nacional, Reince Priebus, acusou Obama de "fazer política nesse assunto", enquanto o seu partido e Romney "são claros". "Apoiamos a manutenção do casamento entre um homem e uma mulher, e nos opomos a qualquer tentativa de mudar isto."

Um dos primeiros a se manifestar foi o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, um ex-Democrata que se elegeu pelo partido Republicano e agora é independente. Bloomberg disse que a decisão de Obama de declarar seu apoio ao casamento gay, que é permitido em Nova York, é "um ponto de inflexão na história dos direitos civis americanos".

Já a organização Human Rights Campaign, que faz campanha pelo casamento gay, colocou em seu site uma carta aberta ao presidente – que os internautas podem assinar – agradecendo ao presidente Obama em letras garrafais pela sua posição.

"O presidente Obama fez história dizendo firmemente que gays e lésbicas americanos merecem nada menos que o igual respeito e reconhecimento que vem através do casamento", disse a organização."

"Estamos confiantes que nossa nação continuará a caminhar inexoravelmente em direção à igualdade, e agradecemos o presidente por nos liderar nesta direção."

(Fonte: BBC Brasil, com a colaboração do amigo @Lucas_Vazzz)

Leia também:
Argentina: Apoio de Obama a casamentos homossexuais é "mudança de época"
Argentina, Chile e EUA: os avanços e o apoio presidencial
Obama evita radicalizar posição sobre gays
Obama e o casamento gay

* * *

Atualização em 15/05/12:

Veja abaixo o vídeo da CNN com a declaração histórica.

Via Um Outro Olhar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Uma agenda em comum

"Todas as famílias merecem a igualdade"

Nosso amigo Rev. Marcio Retamero estará, dia 15 de maio, em uma audiência no Senado Federal, expondo temas pertinentes à comunidade LGBT. Neste texto, escrito para o Bule Voador, um site (excelente, por sinal) dedicado ao humanismo secular, ele conclama diferentes grupos progressistas a se unirem em prol dos direitos humanos e no combate à instalação de um Estado teocrático no Brasil.

Não faz muito tempo que ateus e cristãos formavam um par binário de opostos. Quando muito, a questão girava em torno do debate se Deus existe ou não; se a religião é alienante ou não; se o criacionismo era uma teoria válida ou puro mito (e é mito!). Geralmente tais debates descambavam para enquetes bem rasas e ingênuas do tipo: você crê que Deus criou o mundo em sete dias ou crê na teoria do Big Bang?

Enfim, não havia diálogo, mas apenas embates infrutíferos, tal como continua acontecendo entre ateus e cristãos fundamentalistas, aqueles cujos representantes estão no Congresso Nacional e que não abrem mão de lutar pela imposição de sua cosmovisão à sociedade como um todo. Aqui no Rio de Janeiro temos até uma campanha que lemos nos carros: “Bíblia sim, Constituição não!”

Cristãos fundamentalistas não se abrem ao debate, eles elegem certas passagens da Bíblia e as leem literalmente, enquanto deixam intocadas outras ou relativizam muitas, o que desvela a desonestidade intelectual deles em relação às Escrituras Cristãs, o Antigo e o Novo Testamentos. São fechadíssimos ao debate e tomam como “verdade literal” o que selecionam na Bíblia deles.

Cristãos fundamentalistas possuem um projeto sólido de poder político, um verdadeiro assalto ao Estado Laico que tem sido desvendado diante dos nossos olhos, desde os anos 90, eleições após eleições. Crescem em progressão geométrica e, segundo dados da revista Veja, já são 25% da população brasileira, ou seja, um grupo social que decide qualquer pleito eleitoral seja no nível municipal, estadual ou federal.

As últimas eleições para o Palácio do Planalto revelou aos brasileiros e brasileiras a importância, em nossos dias, do voto evangélico. Os dois candidatos com reais condições de vencer as eleições buscaram nos caciques das Igrejas Cristãs Fundamentalistas apoio e compromisso. Cartas foram publicadas, como a então candidata Dilma Rousseff publicou a “Carta ao Povo de Deus”, comprometendo-se, enquanto presidente, a jamais sancionar nada que fosse contra os valores da família brasileira e do cristianismo (qual cristianismo?).

José Serra, apoiado pelo midiático pastor assembleiano Silas Malafaia, não levou a melhor. Dilma conseguiu construir alianças mais largas com o povo evangélico de vertente fundamentalista e levou a melhor. A outra candidata, vista por muitos como “a via média”, também é evangélica de vertente fundamentalista (Marina Silva é afiliada à Assembleia de Deus) e sua agenda descartava, por exemplo, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, porque segundo a então candidata, casamento é sacramento (uma mentira deslavada, pois nenhuma igreja evangélica fundamentalista tem em sua doutrina o conceito sacramental de casamento, mas somente a Igreja Católica Romana). Na esteira de Marina Silva, sempre que os outros dois candidatos eram confrontados com perguntas sobre os direitos não concedidos à população LGBT, principalmente o casamento civil, saíam pela tangente, dizendo que casamento era coisa de Igreja (?!). Ou seja, ignoravam o Código Civil Brasileiro que não tem no *casamento civil* uma base teológica sacramental. Claro que eles não são ingênuos e sabem disso, mas tal discurso agradava aos evangélicos da vertente fundamentalista.

Neste ano de 2012 teremos eleições municipais e nas principais capitais do país a luta cerrada pela conquista do voto evangélico já começou. Aqui no Rio de Janeiro, o atual prefeito Eduardo Paes (PMDB/RJ) que tenta a reeleição, já apareceu nas capas dos principais jornais sendo “abençoado” por caciques das Igrejas Universal do Reino de Deus e da Assembleia de Deus, esta, a maior denominação evangélica brasileira, de vertente fundamentalista. O par Rodrigo Maia (DEM/RJ) e Clarissa Garotinho (PR/RJ) formam uma tentativa de equilibrar de um lado o “progressismo” de um deputado federal, que enquanto atuava na Câmara dos Deputados apoiava as questões mais prementes de direitos humanos, inclusive a agenda LGBT, integrando a Frente Parlamentar LGBT daquela Casa. Sua candidata a vice, por outro, representa o lado mais conservador, com amplo apoio entre as igrejas cristãs, desde as históricas, como a Igreja Batista, às neopentecostais, como a Renascer em Cristo e congêneres.

Fato é que o mesmo tem acontecido em São Paulo. Hadadd, candidato pelo PT à prefeitura, já declarou que não é o responsável pelo kit Escola Sem Homofobia, projeto abortado pela Presidenta Dilma Rousseff, quando os deputados federais e senadores da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) bateram no Planalto “cobrando” a dívida de apoio nas eleições. Conseguiram. Hadadd aproxima-se do eleitorado paulistano evangélico, buscando apoio neste setor, pois sabe que Gabriel Chalita (PMDB/SP) tem amplo apoio dos católicos carismáticos, quantitativamente majoritários em relação aos evangélicos de cunho fundamentalista.

Toda essa equação política nos dá a certeza que o voto evangélico vem sendo disputado acirradamente entre os candidatos, seja no nível municipal, estadual ou federal. Os políticos e políticas já sabem a importância e o peso do voto evangélico de vertente fundamentalista e buscam se adequar à agenda política de tais grupos, prometendo lutar pelos “valores cristãos e da família brasileira”.

É preciso refletir sobre o atual fenômeno político com muita seriedade. Por isso desejo com este texto chamar atenção dos ateus e dos cristãos que chamo de progressistas para o perigo que nos ronda em pleno século 21: o obscurantismo e o assalto ao Estado Laico pelo fundamentalismo religioso.

Cristãos Progressistas encontramos tanto na Igreja Católica Romana (são os católicos e católicas herdeiros da Teologia da Libertação que ainda não está morta), quanto nas Igrejas Evangélicas, como as Igrejas Inclusivas (abertas ao público LGBT) e históricas em alguns setores, pois geralmente não há unanimidade entre as históricas (como as Igrejas Presbiterianas e as Metodistas). Entre os Batistas temos uma ala abertamente de esquerda, a Aliança Nacional de Batistas do Brasil, da qual sou membro.

Os Cristãos Progressistas são o avesso dos cristãos fundamentalistas: são engajados socialmente; preocupam-se com o atual rumo da política e do exercício da política no Brasil; são defensores do Estado Laico, ou seja, a total separação entre Igreja e Estado; apoiam as agendas dos Direitos Humanos, inclusive a agenda LGBT e não tomam a Bíblia como paradigma para a criação de leis; relativizam valores de acordo com o atual contexto histórico, principalmente o de família (tão cara aos fundamentalistas) e o de Igreja, sendo esta vista como “consciência do Estado”, ou seja, como aquela que vigia o Estado e o denuncia quando não cumpre seu papel de promover o bem estar social e o avanço da cidadania dos seus cidadãos.
Creio que podemos enxergar entre a agenda política dos Cristãos Progressistas e dos Ateus uma convergência de propósitos: inclusive o apoio da retirada de símbolos religiosos cristãos dos espaços públicos dos três poderes constituídos da nossa nação, bem como de todo e qualquer estabelecimento público; a retirada da frase “Deus seja Louvado” das cédulas do Real e a laicidade do Estado.

Existe uma agenda em comum entre Ateus e Cristãos Progressistas que ultrapassam os velhos debates pseudo-teológicos sobre a existência ou não de um Deus Soberano e Criador, prevalecendo uma dimensão histórica, do chão da vida, da nossa existência enquanto cidadãos de um país cada vez mais “cristão”, mas fundamentalista cristão.

Creio que essa agenda pode ser ampliada, não apenas enlaçando Ateus e Cristãos Progressistas, mas todas as outras minorias que sofrem e sofreriam quando este país se tornar um teocracia republicana, se é que existe ou seja possível existir tal conceito. Falo das prostitutas, das travestis, dos homossexuais e lésbicas e bissexuais, do “povo de santo (candomblé e umbanda), ciganos, dentre outras muitas minorias que coexistem neste país continental.

A ameaça cristã fundamentalista é real. O avanço deles ao poder é real, basta ver que um dos representantes desta ala, o bispo Marcelo Crivella já chegou ao Executivo; o crescimento deles, segundo os dados oficiais que dão conta dos números também são reais. Eles detém concessões públicas de TV e Rádios (tanto católicos fundamentalistas quanto evangélicos fundamentalistas), possuem muito dinheiro advindo das doações dos fiéis através dos dízimos e ofertas; vendem milhares de exemplares de revistas e jornais deste segmento e são vorazes proselitistas, lançando mão de todo o tipo de mídia para conquistar o cidadão e a cidadã.

Os políticos já demonstraram que estão cada vez mais dispostos a conquistarem os votos dessa gente e adotarem sua agenda conservadora e que ameaça à laicidade do Estado, criando leis que obrigam, por exemplo, o ensino religioso confessional nas escolas municipais e estaduais, dentre outras coisas bem sérias, como aconteceu na suspensão do kit Escola Sem Homofobia.
Nós precisamos construir uma ampla frente apartidária e política, apesar das nossas convicções religiosas ou não, apesar das nossas afiliações partidárias ou não e acima dos nossos preconceitos se quisermos parar o assalto do cristianismo de vertente fundamentalista ao Estado Laico. Todos nós, Ateus, Cristãos Progressistas e demais minorias temos muito a perder se o Brasil continuar caminhando para esse abismo que é o casamento do Trono, no nosso caso os Poderes Legislativos, Executivos e o altar e o púlpito. Nuvens obscurantistas pairam sobre nossas cabeças e, antes que elas vertam suas águas que matam e ferem, é melhor nos unirmos, construirmos uma agenda em comum e começarmos a botar os nossos pés nas ruas, clamando contra o atual estado de coisas em nosso país.

- Rev. Marcio Retamero, teólogo e historiador.
Mestre em História Moderna/Uff e pastor da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo e da Igreja da Comunidade Metropolitana Betel do RJ.

(Fonte: Bule Voador)

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Por uma Frente Ampla em Garantia do Estado Republicano, Democrático e Constitucional
As igrejas e os direitos de todos

Declaração de vice-presidente americano a favor do casamento gay leva movimentos LGBT a pressionar Obama

Foto daqui

Seja fruto de uma gafe ou de um cálculo político, a declaração do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em favor do casamento gay, botou o presidente Barack Obama na berlinda. Movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais voltaram a cobrar de Obama uma definição, e seu porta-voz, Jay Carney, escorregou com a afirmação de que a opinião do presidente sobre o tema “está em evolução”.

Em entrevista no domingo ao programa “Meet the press”, da NBC, Biden, que é católico, disse que se sente “absolutamente confortável” com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em declaração que surpreendeu os jornalistas que cobrem a Casa Branca.

Quase imediatamente após a divulgação da declaração do vice-presidente, David Axelrod, um dos principais estrategistas da campanha de Obama, usou o Twitter para reiterar a posição de que, para o presidente, “todas as pessoas casadas (e casais) devem ter os mesmos direitos”.

Mas os militantes da igualdade de direitos não compraram a versão de que não havia divergência entre as duas posições, e agora cobram mais clareza de Obama.

— Não sei se era um balão de ensaio. Não sei se o vice-presidente estava apenas falando livremente sobre como se sente. Mas não é possível voltar atrás — disse Winnie Stachelberg, vice-presidente da ONG Center for American Progress.

Joe Solmonese, presidente do grupo Human Rights Campaign, disse que as palavras de Biden correspondem a um apoio ao casamento gay, e pediu a Obama um compromisso mais claro com a causa.

— Agora é a hora de o presidente Obama falar claramente a favor da igualdade absoluta para os casais do mesmo sexo — disse Solmonese.

Diversos apresentadores e comentaristas de TV criticaram Obama por ficar em cima do muro, evitando assumir uma posição clara em um ano eleitoral. Pesquisas recentes mostram que tem oscilado o nível de apoio dos americanos ao casamento gay. Uma sondagem divulgada ontem pelo Instituto Gallup mostrou que 50% dos entrevistados nos EUA apoiam a proposta, enquanto 48% se opõem à união entre homossexuais. Mesmo a marca de 50% representa uma queda no índice de apoio, que havia chegado a 53% no ano passado.

O tema voltou aos destaques do noticiário também por causa do referendo realizado ontem na Carolina do Norte, que se tornou o 30º estado americano a aprovar uma emenda à Constituição estadual definindo o casamento exclusivamente como uma união de pessoas de sexos opostos.

Fonte: O Globo

Pelo direito de cada um a ser quem é

Imagem daqui

A aprovação do casamento igualitário traz consequências... HOJE, o Senado argentino aprovará uma lei de identidad de gênero que reconhece o direito à identidade e à livre determinação sobre o corpo de travestis e transexuais. Na Câmara dos Deputados, a lei passou por 167 votos contra 17 e é muito provável que no Senado a votação também seja quase unânime. Antes da aprovação do casamento igualitário, uma lei como essa seria impossível, mas hoje é tão políticamente incorreto ser contra que até os políticos mais conservadores já se manifestaram a favor. Saiba mais aqui.

Via Eu sou a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil, no Facebook

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Carta aos parlamentares sobre o livro "A Estratégia"

Foto: Vinciane P

Compartilhamos aqui a carta da Cia Revolucionária do Triângulo Rosa enviada a todo(a)s o(a)s parlamentares do Congresso Nacional na semana passada:

Senhores e Senhoras Parlamentares,

Em 1897, apareceu na Rússia um documento intitulado "Os Protocolos dos Sábios de Sião”, de autoria da polícia secreta do Czar Nicolau II. O documento, falso, acusava os judeus de armarem uma conspiração para ter o domínio mundial. Mais tarde, o documento foi instrumentalizado por Hitler para justificar o extermínio de judeus. Como é possível perceber, um documento falso utilizado para reforçar posições políticas pode ter uma utilização ainda mais espúria: justificar genocídios.

Pois, surpresos, soubemos que cada parlamentar recebeu um exemplar do falacioso livro “A Estratégia – O Plano dos homossexuais para transformar a sociedade”, do Pastor Louis Sheldon, aonde se forja uma suposta conspiração homossexual para o domínio do mundo. Ou como disse outro senador, montar um “império homossexual”.

Mas como montar um império homossexual se a organização dos sexodiversos é muitas vezes mais frágil do que tantos outros setores da sociedade? Ora, querer que o mundo seja menos intolerante é querer o domínio do mundo? Lutar pelo direito a indiferença é querer implantar uma “ditadura gay”? Querer uma sociedade mais inclusiva, onde o gênero, orientação sexual e identidade de gênero não sejam motivos para discriminação, para a diminuição cívica e violência é querer o domínio do mundo? Por que tanta energia gasta por parte dos fundamentalistas religiosos em combater o que seres humanos fazem, consensualmente, em suas camas e com seus corpos? Porque não concentram seus esforços em diminuir a desigualdade social, por exemplo?

Diante da imensa responsabilidade que os (as) parlamentares têm diante do Brasil e da proteção a Constituição Federal, é importante que atentem para mais essa tentativa de manipulação por parte dos fundamentalistas religiosos (e outros representantes do poder publico aliados a esses) da questão da homofobia no Brasil. O livro “A Estratégia”, afirma que a homossexualidade é “perigoso distúrbio emocional” – quando a OMS e o Conselho Nacional de Psicologia não a considera doença, sequer perigosa. Compara lgbts a terroristas, que propalam um “discurso violento vindo das profundezas do inferno”. A Organização das Nações Unidas não estaria preocupada com a condição vulnerável dos homoafetivos se fossemos terroristas. O livro ainda afirma que os “promotores do plano homossexual são pessoas cheias de ressentimento e ódio, misturados com autorrejeição e vergonha” (sem apresentar nenhum dado empírico que comprove o argumento) e que tem o “cristianismo como verdadeiro inimigo” (onde ficam as diversas igrejas cristãs inclusivas nesse argumento?).

O livro claramente alimenta o ódio contra os sexodiversos e não deveria ser levado a sério por nenhum (a) defensor da Democracia e dos Direitos Humanos. Vale a pena lembrar que a liberdade de expressão não é absoluta, pois há prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica e que, em um Estado Democrático de Direito, o respeito pelos princípios que garantem os Direitos Humanos deve ser intransigente e constante. Acreditamos que um livro que acusa irresponsavelmente e que incita o ódio e a discriminação, fere o ordenamento jurídico de nosso país.

Como militantes sexodiversos afirmamos que cristãos não são nossos inimigos. Pelo contrário: os que têm o amor como orientação maior de suas vidas e seguem as palavras de Cristo (que dedicou sua vida à defesa dos explorados e oprimidos) são nossos aliados. Nossos inimigos são sim aqueles que exploram a fé do povo pobre e crédulo para construir verdadeiras fortunas, isentas de impostos, e elegem bancadas parlamentares com um discurso fundamentalista que impõe a toda sociedade padrões de comportamento que deveriam dizer respeito somente às suas igrejas. E para alcançar esse fim alimentam o ódio
contra minorias da nossa sociedade.

Unimo-nos a Cristo no combate aos hipócritas.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Exposição fotográfica “Mães pela Igualdade”


Nos últimos meses, mães de todo o Brasil vêm unindo forças contra a discriminação, a violência e a homofobia crescentes no país. E um dos resultados desta união é a exposição fotográfica itinerante “Mães pela Igualdade”, que será inaugurada ao público no dia 3 de maio (quarta-feira), na Praça XV, a partir de 10:00h. Durante todo o mês as fotos passarão por outras zonas da cidade. No dia anterior, 2 de maio, haverá coquetel para convidados de 17:00h às 21:00h.

A exposição retrata a dor e a alegria de 22 mulheres que têm ou tiveram filhos vítimas de preconceito e exclusão. As fotos expressam as histórias de amor e luta dessas mães pela igualdade e respeito. A responsável pela organização do grupo Mães pela Igualdade e pela mostra é a All Out – movimento global pela luta de direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais - em parceria com a Ceds (Coordenadoria da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro).

“O Brasil precisa das Mães da Igualdade. Elas nos mostram o poder da compaixão humana. Suas trajetórias de vida nos mostram que o amor incondicional é uma das coisas mais importantes”, diz Andre Banks, Diretor Executivo da AllOut. “Estamos orgulhosos de ver essas mulheres no centro de uma das cidades mais importantes do país e no mundo. As Mães da Igualdade são uma inspiração e esperamos espalhar o exemplo do Brasil para todas as regiões do mundo. A igualdade é um valor da família”.

A All Out preparou ainda uma “Árvore da Igualdade”, uma escultura onde as pessoas poderão colocar as suas mensagens de apoio e respeito a gays, lésbicas, bissexuais e trans no Brasil. Por meio de uma campanha mundial, a All Out conectará os membros em todo o mundo e também no Brasil por meio do envio destas mensagens, que irão ser postadas nas folhas nesta árvore, fazendo-a florescer recados durante o mês dedicado às mães e ao combate contra a homofobia. Ao término da exposição a Árvore segue pra Brasília, diretamente para a presidente Dilma Rousseff.

Serviço:
Exposição fotográfica “Mães pela Igualdade”, ao ao livre, no Rio de Janeiro:
1a semana : 03/05 ao dia 08/05 : Praça XV (ao lado do Paço Imperial – Av. 1º de março, Centro)
2a semana : 09/05 ao 15/05 : Praça Antero de Quental, Leblon
3a semana : 16/05 a 22/05 : Praça Saens Peña, Tijuca
4a semana: 23 a 29/05 : Vigário Geral
Horário: Sempre de 10 às 18h - GRÁTIS

Fonte: Imprença

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Casamentos gays na Grã-Bretanha?


A Inglaterra pode se tornar o sétimo país europeu a aprovar o casamento homossexual depois da Holanda, Bélgica, Espanha, Noruega, Portugal e Islândia. Pelo menos, esse é o objetivo do primeiro-ministro David Cameron, que deseja trazer para casa esse resultado até 2015, a dez anos da luz verde ao Civil Partnership Act, que oferece aos casais homossexuais os mesmos direitos dos casais heterossexuais.

A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 25-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Isso significaria "formalizar" ainda mais um passo já dado pelo governo trabalhista de Tony Blair, que, com as uniões civis, 'levou ao altar", no dia seguinte à luz verde, 687 casais gays, incluindo o muito famoso entre Reginald Kenneth Dwight, cujo nome artístico é Elton John, e o canadense David Furnish, que celebraram suas núpcias em Windsor Guildhall, o cartório onde, alguns meses antes, haviam se casado o príncipe Charles e Camilla Parker Bowles.

Em sete anos, enquanto isso, na Inglaterra, um casal gay também teve tempo para se separar (depois da união civil) e, no fim de março, um tribunal de Londres emitiu um julgamento sobre aquele que é considerado o primeiro caso legal de divórcio entre gays na Grã-Bretanha. Portanto, uniões civis e divórcios civis.

O que você mudaria, então? Mudaria que, das uniões, se passaria para casamentos civis propriamente ditos, e essa questão não é muito simples, especialmente porque a hierarquia eclesiástica, dos anglicanos aos católicos, se inclinaram amplamente contra a proposta. A Igreja da Inglaterra, no dia 15 de março, dia do início da consulta, publicou uma nota em seu site, na qual que expressa toda a sua contrariedade: "A Igreja da Inglaterra está comprometida com a concepção tradicional da instituição do matrimônio como sendo entre um homem e uma mulher" e "defende o modo pelo qual as uniões civis oferecem a casais do mesmo sexo uma paridade de direitos e de responsabilidades com relação aos casais heterossexuais casados. Uma abertura do matrimônio aos casais do mesmo sexo conferiria pouco ou nenhum novo direito legal àqueles que já estão ligados por uma união civil, mas exigiria muitas modificações na lei, com a mudança da definição de matrimônio que valeria para todos''.

Os católicos também não manifestaram simpatia pela "batalha" de Cameron, tanto que o presidente e vice-presidente da Conferência dos Bispos da Inglaterra e do País de Gales, Dom Vincent Nichols e Dom Peter Smith, arcebispo de Southwark, enviaram uma carta assinada que foi lida em 2.500 paróquias do país, na qual evidenciaram que os católicos "têm a obrigação de fazer todo o possível para assegurar que o verdadeiro significado do matrimônio não se perca para as gerações futuras".

O núcleo da discussão reside no fato de que, se com a "parceria civil" os casais do mesmo sexo têm a possibilidade de se vincular em uma união registrada, ela não é, no entanto, um casamento do ponto de vista jurídico. Aspecto que mudaria com a lei para a qual Cameron iniciou uma consulta pública. Noventa dias a partir de 15 de março. Até a metade de junho, em suma, a opinião pública britânica poderá informar ao governo quais são as suas próprias orientações a respeito.

Na consulta, especifica-se, no entanto, que os casamentos serão apenas e exclusivamente civis, mas se trata de uma "tranquilização" que não bastou para aqueles que não concordam com a escolha. A imprensa também manifestou, mais ou menos veladamente, a sua posição: não exatamente de acordo os conservadores Daily Mail e Daily Telegraph, e não totalmente em desacordo o Guardian e o Independent, que, nos últimos dias, traçou o ponto da situação.

De um lado, a Coalizão para o Casamento, que reúne diversas organizações que se recusam a "redefinir" o matrimônio tradicional, com algumas publicações, como a Country Life Magazine, que conseguiram reunir mais de 400 mil assinaturas contra a proposta de Cameron. De outro lado, a Coalition for Equal Marriage, liderada por um casal gay de Newcastle, apoiada por organizações como a Humanistic Society, Gay Times e a National Secular Society: sua campanha, até agora, trouxe 40 mil signatários para a petição pela igualdade, mas eles sabem que a batalha, apesar do apoio do governo, não será nada fácil.

Especialmente depois do "se" usado por Cameron durante seu discurso aos líderes religiosos para o dia da Páscoa. Um "se" que não passou despercebido por nenhuma das partes (''Se a questão seguir em frente – disse o primeiro-ministro –, mudará o que acontece em um cartório. Não vai mudar o que acontece em uma igreja").

quarta-feira, 25 de abril de 2012

domingo, 22 de abril de 2012

Família no Papel


Já que esta semana tanto falamos em família, vamos fechar com chave de ouro e indicar o documentário "Família no Papel", com direção de Fernanda Friedrich e Bruna Wagner. Gravado em Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo e composto de depoimentos de sete famílias homoafetivas, o filme será lançado na próxima terça, 24/04/12, em Florianópolis.

"Família no Papel mostra a vida de casais homoafetivos com seus filhos. O documentário expões as batalhas que eles enfrentam para tornarem-se no papel a família que já são na vida real. O documentário traz à tona problemas reais vivenciados por eles, pessoas comuns, vítimas de preconceito e discriminação. 'Família no Papel' desmistifica os conceitos de normalidade erroneamente aplicados para classificar famílias de todo o Brasil."

(Fonte: Fora do Armário)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma questão de justiça: os LGBTs de Maringá e a Catedral


Desde a divulgação dos cartazes da Parada do Orgulho LGBT de Maringá, no Paraná, começou a polêmica. Como a arte de um deles (imagem acima) mostra a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Glória, construção-símbolo da cidade, atingida por um raio de luz e "explodindo" em um arco-íris, a assessoria de imprensa da Arquidiocese de Maringá informou, no final da manhã desta segunda-feira (16), que o departamento jurídico da cúria arquidiocesana foi acionado e tomaria providências jurídicas sobre o caso. Em nota a respeito do caso, a arquidiocese reiterou que "a Igreja Católica não tem a pretensão de Domesticar a sociedade, impondo-lhe seus princípios e valores", mas que o cartaz "confrontou opinião religiosa da parcela maior da comunidade maringaense".

"A ideia de fazer esse convite veio justamente, como se pode reparar na imagem, do conceito da catedral como um prisma em que, ao ser injetado um foco de luz solar de um lado, do outro desponta em todas as cores possíveis", disse Luiz Modesto, representante do movimento gay da cidade e editor do site Maringay. "Como a catedral é o primeiro símbolo de Maringá, é um convite a chamar para o diálogo todas as pessoas, para maior aceitação e respeito. Nós aprovamos e gostamos do conceito".

A inspiração veio da capa do álbum "The Dark Side of the Moon", da banda de rock britânica Pink Floyd. A autora dos cartazes polêmicos (há também uma segunda versão, mais próxima da referência original do disco), Elisa Riemer, justificou sua escolha: "Nada melhor que esse símbolo para usar como se fosse o prisma. O prisma tem vários lados e jogando uma luz conseguimos ver todos os caminhos. As sete cores. Imagine que para cada problema você tem sete respostas ou caminhos a tomar e se um estiver bloqueado... Procure a outra cor que lhe indicará outra coisa".

"Não estou ofendendo a religião de ninguém e jamais foi essa a intenção", continuou ela. "Que símbolo usar para definir Maringá? Poderia ter sido usado pra qualquer outra coisa, poderia ter sido usado pra uma campanha de alguma rádio, de alguma banda, de qualquer outro segmento. Mas o que pegou foi justamente isso, foi porque foi usada pra uma campanha LGBT. Não vejo problema algum, e muito menos falta de respeito".

Segundo Elisa, o uso da catedral se deu exclusivamente pela similaridade com o prisma: "Se as pessoas observassem bem, veriam o quanto escureci a catedral e retirei a cruz - para nada, exatamente nada, estar ligado à religião. Não tive a intenção de polemizar e sim de fazer as pessoas pensarem, refletirem". De todo modo, porém, ressaltou Modesto, "este nunca foi o cartaz de divulgação da Parada Gay. O oficial, que usaremos para publicação, é bem mais simples e pode ser visto na Fan Page do evento, no Facebook".

Ainda assim, o arcebispo de Maringá, Dom Anuar Battisti, ontem, no seu blog, lamentou “o uso dado ao cartaz, que confronta com o pensamento e a opinião religiosa da parcela maior da comunidade maringaense”. Diante da polêmica, Luiz Modesto contou ter recebido um convite para tomar café com o arcebispo nesta terça-feira (17). A reunião, segundo ele, foi amigável; o arcebispo teria entendido que o cartaz visava a ampliar o diálogo sobre a homofobia. Levantamentos feitos pelo movimento gay de Maringá registram 38 agressões contra GLBTs nos últimos 12 meses, sendo duas delas assassinatos de travestis.

“Levei alguns dados de suicídio entre adolescentes gays, de violência contra LGBT e assassinato de travestis nos municípios da arquidiocese. O arcebispo comoveu-se. Concordamos que direcionar as atenções para os casos de violência contra o ser humano é muito mais relevante que a polêmica causada pelo cartaz. O foco agora é outro, a criação da Pastoral da Diversidade em Maringá e o indicativo de uma Pastoral Nacional da Diversidade pela CNBB”, relatou Modesto. A proposta, segundo ele, seria de uma pastoral que congregasse os católicos homossexuais: “É necessário divulgar a ideia de que Deus não é ódio e punição, mas amor e acolhimento. Embora a posição da Igreja seja contrária à homossexualidade, deve existir um braço dentro dela que nos proteja da violência e nos acolha da forma como somos, sem deixar-nos desamparados espiritualmente”.

“Estamos abertos à discussão e dispostos a falar dos problemas enfrentados por eles”, disse Dom Anuar, que segundo Modesto teria afirmado também que a preocupação maior deve ser contra a violência, e não contra o movimento.

Caso a pastoral seja criada, será a primeira iniciativa oficial da Igreja Católica para trabalhar diretamente no combate à homofobia. “Para as pessoas que entenderam o cartaz como provocação, eu peço desculpas sinceras. O objetivo maior era criar um diálogo sobre o assunto. E conseguimos”, concluiu Modesto.

O que pode ter contribuído para a má recepção do cartaz - que, para os segmentos mais conservadores de Maringá, provavelmente já seria impactante pela mera associação entre LGBTs e Igreja - foi a saída das sete cores do arco-íris cercada de estilhaços, uma imagem que talvez tenha parecido agressiva. Porém, pode-se entender também a sugestão de explosão como uma referência à urgentíssima necessidade de uma mudança, na sociedade brasileira hoje, com relação à violência sofrida pelos LGBTs. E à importância e responsabilidade da Igreja como foco de transformação da atual situação - afinal, ela é o prisma que transforma a luz. Ou, como tão bem comentou nosso amigo Murilo Araújo em seu editorial brilhante para o Vestiário (leia na íntegra aqui):
De certo modo, [o cartaz] representa a igreja com que eu sonho cotidianamente. Trata-se de um sonho muito particular, porque quem tem outra fé (ou não tem nenhuma) tem todo o direito de discordar desse meu pensamento, ou de apenas não se preocupar com isso. Mas, se substituíssemos a Catedral de Nossa Senhora da Glória por uma escola, ou por um prédio do governo, o cartaz continuaria representando a minha utopia: uma instituição que transforma uma só cor em várias, e que gera a diversidade, em vez de anulá-la.
Mais tarde, ainda na terça-feira, a assessoria de imprensa da Arquidiocese veio a público informar, segundo O Diário, que as palavras de Dom Anuar sobre a Pastoral da Diversidade foram: “Acolho a proposta no coração e a respeito. Vamos encaminhá-la na medida do possível, mas não há indicativo momentâneo de sua criação”. A assessoria informou ainda que Dom Anuar participaria nesta quarta-feira (18) da 50ª Assembleia Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Aparecida (SP), e a criação da Pastoral da Diversidade provavelmente seria discutida, por conta da repercussão nacional do caso de Maringá, embora não estivesse na pauta oficial do evento.

É bom saber da própria assessoria de imprensa da Arquidiocese, oficialmente, o que foi dito pelo Arcebispo. Mesmo não havendo "indicativo momentâneo de sua criação", a postura de diálogo e abertura sinalizada foi um primeiro passo; a CNBB estar ciente e discutir a repercussão do ocorrido é outro. O terceiro... bem, o que nós, católicos, gays e não-gays, faremos agora?

De fato, antes mesmo de qualquer discussão sobre a doutrina vigente da Igreja Católica a respeito da homossexualidade, uma coisa é certa: a Igreja - e, como sempre, por "Igreja" referimo-nos não só ao Magistério, mas a todos os batizados - precisa assumir seu papel histórico de mediadora e pacificadora, que tantas vezes desempenhou com mérito, e, também na questão da homofobia, atuar como a defensora da justiça social, contrária a toda forma de violência, que é.

Parafraseando o Fórum Europeu de Grupos Cristãos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros em sua carta aberta ao papa Bento XVI ano passado, a Igreja Católica no Brasil precisa, como aconteceu no Chile, posicionar-se explicitamente contra os atos de violência contra a população LGBT. “O silêncio, neste contexto, pode ser perigosamente interpretado pelos perpetradores de atos de violência, tortura e assassinato como um parecer favorável às suas ações”, como bem sublinhou o referido Fórum.

Trata-se, aqui, de uma questão de justiça: justiça perante o direito dos LGBTs de serem respeitados e acolhidos no seio não só da Igreja, mas da sociedade mais ampla; e justiça com o papel histórico da Igreja Católica de defensora da vida e da dignidade da pessoa humana.

Portanto, urge que os católicos, gays ou não, comuniquemos à CNBB que a postura que esperamos da nossa Igreja é de abertura, acolhimento, inclusão e respeito à vida, às diferenças e à dignidade dos LGBTs. Os católicos americanos já se organizaram para transmitir ao respectivo Magistério seu desejo nesse sentido. Os europeus, também. E nós, leigos católicos aqui no Brasil?

Fica a pergunta para a nossa reflexão. De todos nós.

(Com informações do UOL, Folha de S. Paulo, O Diário [aqui e aqui], Maringay, Vestiário e Arquidiocese de Maringá e a colaboração dos amigos @MarkosOliveira, @realfpalhano, @wrighini e @murilo17)


* * *

Atualização em 18/04/12:
Veja aqui a repercussão da notícia no Jornal Hoje, da Rede Globo, que não chega a falar no desfecho da reunião e traz a informação errônea de que a imagem que foi pivô do conflito seria o cartaz oficial da Parada; e, no SBT, já trazendo a referência a uma possível Pastoral da Diversidade. Colaboração do sempre atento @MarkosOliveira. :-)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Igreja de Seattle diz "não" à homofobia


Temos sublinhado aqui a importância de não perder de vista o "magistério silencioso dos cristãos cotidianos" e lembrar que "Igreja" somos todos nós, e cada um de nós é responsável por ser a Igreja que queremos ver no mundo.

Como aconteceu no caso de Barbara Johnson e no caso dos padres suíços que se recusaram a ler uma carta pastoral de seu bispo, soubemos hoje de mais um exemplo de cristãos que deixaram a voz de suas consciências falar mais alto. A arquidiocese de Seattle, EUA, decidiu transformar suas paróquias em centros de coleta de assinaturas para uma campanha contra a aprovação da lei do casamento igualitário no estado de Washington. Porém, a catedral de St. James não vai participar, conforme anunciou seu pároco aos fiéis.

Para o Padre Michael Ryan, seria "doloroso e gravemente segregacionista" colaborar com a estratégia do Arcebispo de Seattle, Peter Sartain. "Embora o Arcebispo tenha decidido apoiar a campanha, ele sabiamente deixou a critério de cada sacerdote decidir se haveria ou não coleta de assinaturas em sua paróquia", explicou. "Após discutir o assunto com os membros da equipe ministerial da catedral, optei pela nossa não-participação. Acredito que isso poderia ferir as pessoas e causaria uma grave ruptura em nossa comunidade".

O Pe. Ryan não foi o único católico a torcer o nariz para a ideia. A governadora de Washington, Christine Gregoire, católica, foi quem aprovou o projeto de lei. O senador do estado, Ed Murray, gay e católico, grande defensor da lei, classificou a decisão do arcebispo de "repreensível".

Esse caso mostra bem por que, quando se fala em Igreja, não se pode pensar apenas no Papa, nos bispos e no clero: Igreja é uma realidade múltipla, plural, que abarca desde a criança que acaba de receber o sacramento do batismo até Bento 16 ou o bispo de sua cidade. É todo o povo de Deus que acredita em Jesus, o Cristo, e procura viver de acordo com a vida dele. Saiba mais sobre a doutrina da Igreja a respeito da prerrogativa da consciência aqui: "Como é possível uma pessoa gay ser católica?".

(Fonte: Advocate.com. Colaboração do sempre atento Hugo Nogueira)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nós também somos! :-)


O Diversidade Católica é a favor do Casamento Civil Igualitário para pessoas do mesmo sexo. Deus abençoe a campanha!

Efetivar o Estado laico

Charge: Paixão

Aproveitando todo o debate gerado ontem acerca da laicidade do Estado brasileiro, suscitado pelo julgamento, pelo STF, da legalidade da interrupção da gravidez de fetos anencéfalos (a esse respeito, recomendamos o excelente guest post sobre o tema no blog Escreva Lola Escreva e este artigo publicado na Carta Maior), reproduzimos o artigo a seguir, de Tulio Viana, publicado originalmente na Revista Fórum.

O monoteísmo não é nada democrático. A crença em um deus único pressupõe a negação da existência do deus do vizinho. Pior: pressupõe que os mandamentos do seu deus são mais justos que os do deus do vizinho. E é natural que todos aqueles que se arroguem o direito de falar em nome deste deus único e todo-poderoso não primem muito pelo pluralismo. Quem ousaria contestar alguém que fala em nome de um deus onipotente, onipresente e onisciente?

A história está repleta de casos de políticos que sustentaram seu poder em nome de Deus. A teoria do “Direito Divino dos Reis”, em voga no século XVII, deu a Luiz XIV a necessária fundamentação ideológica para tornar-se o maior monarca absolutista da França: “L`État c`est moi” (O Estado sou eu) é a frase que melhor sintetiza o poder do mandatário de Deus na Terra.

No século seguinte, a mão de Deus não evitou que as cabeças de seus representantes na Terra rolassem e só então os ideais iluministas de separação entre direito e religião começaram a prevalecer. Nascia, assim, a concepção de um Estado laico que viria a nortear as democracias ocidentais até hoje.

No Brasil, durante todo o Império, o catolicismo continuou sendo a religião oficial, e as demais eram apenas toleradas (art.5º da Constituição de 1824). Como Estado confessional, o imperador antes de ser aclamado jurava manter aquela religião (art.103) e cabia a ele nomear os bispos (art.102, XIV). Somente com a proclamação da República, o Brasil se tornou um Estado laico, garantindo assim a separação entre Estado e religião (art.72, §3º a 7º da Constituição de 1891).

A atual Constituição brasileira de 1988 não deixa dúvidas quanto ao caráter laico de nosso Estado, garantindo expressamente a liberdade de crença, a liberdade de culto e a liberdade de organização religiosa (art. 5, VI da CR) e estabelecendo claramente a separação entre Estado e religião (art.19, I, da CR).

E “nunca antes na história deste país” esta separação entre direito e religião foi tão importante. Com a expansão das religiões neo-pentecostais nos últimos anos, o catolicismo, que sempre foi francamente majoritário no Brasil, começou a perder espaço e os brasileiros começaram a deparar com os problemas típicos do pluralismo religioso.

Divergências de crenças de um povo 90% cristão
Pesquisa Datafolha de maio de 2007 mostrou que 64% dos brasileiros se declaram católicos, 17% evangélicos pentecostais ou neo-pentecostais, 5% protestantes não pentecostais, 3% espíritas kardecistas, 1% umbandistas, 3% outra religião e 7% sem religião.

Poderíamos simplificar estes números e afirmar que o Brasil é um país 90% cristão, mas, na verdade, estas religiões divergem sobre pontos significativos de suas doutrinas, a começar por católicos e protestantes. Para os protestantes, a Bíblia é a única fonte de revelação de Deus e eles tendem a interpretá-la em sentido mais literal. Já os católicos acreditam também na Sagrada Tradição, isto é, nos ensinamentos orais transmitidos pelos cristãos ao longo dos séculos, como complementares ao texto bíblico. Daí surgem diferenças importantes: católicos adoram os santos e Maria, mãe de Cristo; os protestantes, não. Os católicos reconhecem o Papa como líder espiritual e acreditam nos sete sacramentos como instrumento para sua salvação; os protestantes creem que somente a fé em Jesus é capaz de salvá-los. Católicos interpretam o livro do Gênesis, que narra a história de Adão e Eva, como uma metáfora; alguns protestantes o interpretam literalmente e defendem o ensino do criacionismo na escola.

Mas há diferenças significativas também entre as Igrejas Protestantes históricas (Batistas, Luteranos, Presbiterianos, Metodistas e outras) e as Pentecostais (conhecidas no Brasil como evangélicas). A principal delas é a de que os pentecostais acreditam que o Espírito Santo continua a se manifestar nos dias de hoje, por meio das práticas de curas milagrosas, profecias e exorcismos, entre outras.

Há diferenças substanciais também entre o Pentecostalismo Clássico (Assembleia de Deus, Congregações Cristãs, Deus é Amor e outras) e o Movimento Neo-Pentecostal (Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Renascer em Cristo e outras). A primeira delas é visível: os pentecostais clássicos se vestem com roupas bastante formais por imposição das Igrejas: homens de terno; mulheres de saias longas e cabelos compridos. Outros usos e costumes rígidos normalmente são impostos aos fiéis, como por exemplo, não assistir à TV e não praticar esportes e, para as mulheres, não se depilar ou usar anticonceptivos. O conservadorismo é a tônica da doutrina pentecostal clássica, que se baseia no ascetismo e no sectarismo. Já os neo-pentecostais são bem mais liberais, não se vestem de forma determinada e têm como principal foco a Teologia da Prosperidade, que propugna que os fiéis têm o direito de desfrutar uma vida terrena com saúde e riquezas materiais. Para tanto, precisam demonstrar sua devoção a Deus doando suas economias de modo a se tornarem credores de Deus em uma dívida que será paga com a concessão das dádivas divinas. O sacrifício ascético do corpo é substituído por um sacrifício econômico em honra de Deus.

Finalmente, os neo-pentecostais têm uma divergência inconciliável com os espíritas. Ambos creem em manifestações sobrenaturais na vida cotidiana. Os espíritas acreditam na reencarnação e creem que estas manifestações são causadas por espíritos de pessoas comuns que faleceram e ainda não reencarnaram. Já os neo-pentecostais não acreditam em reencarnação e nem na possibilidade de os mortos se comunicarem com os vivos. Para eles, estes espíritos são na verdade manifestações do demônio e, portanto, precisam ser combatidos. Daí o motivo de tanta hostilidade entre evangélicos e espíritas: enquanto estes creem na possibilidade de conversar com os espíritos de parentes e amigos já falecidos, aqueles os acusam de conversar com demônios.

Neste contexto fervilhante de crenças, nada mais natural que se retomem as discussões sobre a importância do Estado laico. Enquanto o Brasil era um país com população quase que exclusivamente católica, a maioria simplesmente impunha suas crenças sobre a minoria que, de tão pequena, não levantava sua voz para lutar pelo Estado laico.

Basta ver os crucifixos afixados nas paredes dos tribunais e órgãos públicos brasileiros. Se até então o símbolo do predomínio católico em nossos tribunais só incomodava à pequena minoria não-cristã da população, atualmente muitos protestantes já se insurgem contra ele. Infelizmente, em 2007, o Conselho Nacional de Justiça decidiu que os crucifixos nos tribunais não violam o princípio constitucional da laicidade, por se tratar de um costume já arraigado na tradição brasileira. Com este simplório argumento, os conselheiros do CNJ justificariam até mesmo a escravatura que, quando foi abolida em 1888, ainda era costume no Brasil. Se costume fosse fundamento jurídico para justificar o próprio costume, as mulheres ainda teriam que se casar virgens, não haveria o divórcio e o adultério ainda seria crime. Fato é que tribunais e órgãos públicos são mantidos com dinheiro público e não devem expressar as crenças pessoais de seus dirigentes. Os crucifixos não são, pois, apenas um símbolo do predomínio católico, mas antes de tudo de uma apropriação privada da coisa pública para a manifestação de crenças pessoais.

Ensino religioso nas escolas públicas
A questão atualmente mais polêmica que decorre do princípio constitucional da laicidade é a do ensino religioso, de matrícula facultativa, nas escolas públicas, previsto expressamente no art.210, §1º, da Constituição Brasileira.

O Acordo Brasil-Vaticano (Decreto 7.107/10) que em seu art.11, §1º, prevê “o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas” provocou imediata reação da sociedade civil ao colocar em risco a igualdade de tratamento entre as religiões. A constitucionalidade do dispositivo está sendo contestada atualmente no Supremo Tribunal Federal (ADI 4.439) pela Procuradoria-Geral da República, que defende corretamente que o ensino religioso no Brasil deva ser não-confessional, limitando-se, pois a um apanhado teórico da diversidade de religiões existentes em nosso país.

Melhor seria, porém, que o Estado deixasse cada família decidir sobre a melhor formação religiosa de seus filhos, matriculando-os em cursos fornecidos pelas próprias Igrejas e outras instituições religiosas. Uma emenda constitucional que abolisse o ensino religioso nas escolas públicas resolveria de vez a controvérsia relegando a formação religiosa para a esfera exclusivamente privada.

A meta do Estado laico
O Estado laico ainda é uma meta a ser perseguida pelo Direito brasileiro. Se na questão dos crucifixos e do ensino religioso, a manifestação de cristãos não-católicos tem sido decisiva para colocar em pauta os debates, as violações do princípio da laicidade tendem a ser menosprezadas quando há consenso entre católicos e protestantes.

Veja-se, por exemplo, o art.79, §1º, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que prevê que “a Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”. Se o Estado é de fato laico e a religião não deve ser fundamento da elaboração das leis, qual sentido há neste dispositivo? Se o deputado é cristão, que compre sua própria Bíblia e a leve consigo.

O nome do deus monoteísta tem sido usado sem maiores pudores na esfera pública, sob o argumento de que contemplaria todas as religiões. Alega-se que o preâmbulo da Constituição de 1988 se refere expressamente à “proteção de Deus” e, portanto, o ateísmo estaria excluído da liberdade de crença. Trata-se de um falso fundamento jurídico, já que o preâmbulo, por sua própria definição, é o texto que antecede a norma e, portanto, não faz parte dela. Em suma: não tem qualquer valor normativo.

A liberdade constitucional de crença é também uma liberdade de descrença, e ateus e agnósticos também são cidadãos brasileiros que devem ter seus direitos constitucionais respeitados. O mesmo se diga em relação aos politeístas, que acreditam em vários deuses e não aceitam a ideia de um deus onipotente, onisciente e onipresente.

Um bom exemplo do uso do nome de Deus com violação do princípio da laicidade é a expressão “Deus seja louvado” no dinheiro brasileiro. Como não incomoda à maioria da população, acaba sendo negligenciada em detrimento dos direitos constitucionais dos ateus, agnósticos e politeístas, que ainda não são bem representados no Brasil. Já se vê, porém, algumas destas expressões riscadas à caneta nas notas brasileiras, o que é uma clara manifestação de descontentamento com o desrespeito à descrença alheia.

O paradoxal desta menção de Deus no dinheiro brasileiro é que a Bíblia narra (Mateus: 22, 21) uma passagem na qual Jesus rechaça uma tentativa de uso político de seus ensinamentos e reconhece a importância do Estado laico, referindo-se justamente à moeda romana: “Dai o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus”. Das duas, uma: ou o Deus cristão mudou de ideia nestes últimos dois mil anos ou seus representantes na Terra andam excedendo os limites da procuração por Ele outorgada.

- Túlio Vianna
Reproduzido via Revista Fórum
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