Mostrando postagens com marcador diálogo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diálogo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Igreja Católica ante a homossexualidade: contextualizações e indicações pastorais (parte 1 de 4)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa; começamos por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, em duas partes (primeira e segunda), e continuamos agora com o artigo de Edênio Valle, em quatro partes. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a primeira parte do artigo:


O artigo expõe o pensamento ético da Igreja Católica sobre a homossexualidade, assim como sua forma de apresentação nos documentos emanados da Santa Sé. Ao mesmo tempo, faz breve resenha das posições de alguns moralistas contemporâneos e de contribuições da psicologia e da pedagogia para um melhor manejo da questão da homossexualidade por parte da Igreja.

Introdução

Minha experiência de contato direto com boa parte do clero do Brasil me mostrou que, entre nós, presbíteros, há um desconhecimento bastante generalizado do que a Igreja Católica tem dito e repetido sobre a ética sexual em geral e, mais especificamente, sobre a homossexualidade. O que a gente geralmente escuta são generalizações imprecisas (pró e contra) que dão a entender que a Igreja Católica continua a considerar a homossexualidade apenas como uma anomalia ou desvio patológico que ofende a lei natural e é sempre e necessariamente um pecado, o que de fato não corresponde nem ao que a Igreja ensina nem aos fatos.

1. Caminhando para nova compreensão teológica e pastoral

Um bom exemplo da abertura da Igreja acha-se sintetizado na declaração feita pela Congregação para a Doutrina da Fé em 29 de dezembro de 1975, um dos momentos em que, na Cúria Romana, se dá um endurecimento doutrinário e disciplinar. Lê-se aí um parágrafo que representa uma abertura em parte brecada, mas não desmentida:

A pessoa humana, segundo os dados da ciência contemporânea, está de tal modo marcada pela sexualidade que esta é a parte principal entre os fatores que caracterizam a vida dos homens. Na verdade, no sexo radicam as notas características que constituem as pessoas como homens e mulheres no plano biológico, psicológico e espiritual, tendo assim muita parte em sua evolução individual e em sua inserção na sociedade.[1]

Não é difícil perceber que o parágrafo supracitado traz algumas novidades que merecem aprofundamento. Primeiro, nele se diz, com todas as letras, que o ser humano é uma pessoa e, enquanto tal, tem sua vida e evolução social e psicológica marcadas e condicionadas pela maneira como é marcada sua vivência da sexualidade. Sublinha-se, assim, que não se pode falar da pessoa e de sua sexualidade em sentido abstrato e/ou puramente espiritualizante. Dizer “pessoa” implica afirmar sua qualidade de ser situado e datado, portador de um corpo sexuado, mas ao mesmo tempo – porque pessoa – livre e potencialmente desenvolvido em ao menos três planos essenciais de seu existir: o biológico, o psicológico e o espiritual. A sexualidade, portanto, abrange o todo do humano. Não cabe dualizar o existir. Há uma espécie de osmose entre sexualidade e existência. Nesse sentido, pode-se dizer que o indivíduo humano não tem um sexo; ele é sexo. O existir humano comporta e supõe uma maneira própria de ser no mundo e uma capacidade também racional de lhe dar sentido. Em outros termos, como dizia o papa Bento XVI[2] em sua primeira encíclica, ele não pode, em consequência, ser concebido sem a sexualidade, ou seja, sem o eros, que implica o corpo, a philia, a dimensão da amizade,eo ágape, que abre o ser humano para uma relação que transcende e complementa as duas primeiras. Um ser humano sexualmente adulto sem essas três dimensões é tão impensável quanto um homem sem sentimentos, sem inteligência e/ou sem vínculos pessoais que o impliquem responsavelmente. O problema, nesse campo tão ambíguo da vivência humana, concentra-se especialmente em saber falar sobre oeros e o prazer que propicia e saber lidar com eles. A dificuldade não está só ou principalmente na philia ou noágape. O problema, no dizer de Moreira (2006), é que, quando o assunto é o eros em sentido estritamente sexual, um dos assuntos mais explorados e lucrativos da nossa sociedade atual, aí o tema se torna um tabu para a Igreja e seus representantes ordenados, deixando a todos sem recursos para superar certos impasses. A Igreja, em tais circunstâncias, tende a ficar batendo, monotonamente, nas mesmas teclas (Moreira, 2006, p. 4). No caso da homossexualidade, pesam ainda preconceitos que datam de muitos séculos e são hodiernamente sentidos como ofensa a direitos humanos básicos. São temas difíceis que a Igreja, ultimamente, tem tentado enfrentar, até porque seus presbíteros têm sido insistentemente acusados de abusos e destemperos sexuais em diversos países do mundo.

Para a Declaração de 1975, a sexualidade relaciona-se com a capacidade que o ser humano tem de reciprocidade (de ser-com). Como tendência que tem um componente libidinal congênito, tal capacidade já está presente em algumas espécies inferiores, mas, na espécie humana, ela se faz dentro de uma relação “eu-tu”.

Sendo uma realidade tão fundamental e complexa, a sexualidade, especialmente no caso das homofilias, não pode ser definida apenas desde um único ponto de vista histórico, ético-cultural ou teológico-doutrinal, por importante que ele possa ser. Isso se tornou mais evidente devido aos notáveis avanços das modernas ciências biomédicas, sociais e psicológicas, óticas que exercem enorme influência na atual discussão sobre a homossexualidade. Para quem vem da psicologia, como eu, o fato de um texto como o da Declaração de 1975 iniciar com uma menção expressa à necessidade de ter presente o aporte das ciências representa um passo altamente significativo. De maneira muito clara, o texto diz que a teologia e a ética cristãs não podem voltar as costas às descobertas científicas. Eu acrescentaria que esse princípio tem validade mesmo quando as evidências científicas são altamente questionadoras de modos de ver, julgar e agir defendidos no passado pela Igreja, com ou sem o apoio da Escritura e da Tradição. Como encontrar caminhos que respondam a tais desafios das ciências e da sociedade sem, ao mesmo tempo, negligenciar ou deixar de lado o papel que cabe essencialmente à Igreja no exercício de sua missão evangelizadora no mundo contemporâneo? Acompanhando o que tem sido dito e feito pelo papa Francisco, tenho a impressão de ser essa a pergunta que ele nos faz em alguns de seus pronunciamentos esporádicos sobre o assunto. Entre moralistas católicos de clara fama, a reflexão parece caminhar na mesma direção. É o caso de Snoek (1981), Azpitarte (1997), Vidal (1985), Moser (2001), Cozzens (2001) e Forcano (1996) e de pastoralistas e psicólogos como Oraison (1976), Leers e Trasferetti (2002), Valle (2011) , dentre outros outros, que têm se debruçado sobre o tema da homossexualidade não sem suscitar suspeitas por parte das autoridades eclesiásticas e de setores mais conservadores da Igreja.

No presente texto não me aterei ao mérito teológico e doutrinário das argumentações. Minha perspectiva será a da psicologia social, com ênfase no cuidado psicoterapêutico e pastoral, procurando evitar polêmicas do tipo “ou tudo ou nada”. Evitarei, igualmente, entrar no debate científico mais específico das ciências biomédicas e demais ciências afins. No fundo, o que pretendo mostrar é que, na parte doutrinária, a Igreja se mantém coerente com os seus ensinamentos tradicionais, mas, no tocante à pastoral (isto é, ao acolhimento e acompanhamento das pessoas), sua atitude é de maior compreensão para a complexidade desse comportamento em cada um de seus múltiplos e distintos aspectos, tanto científicos quanto bíblico-teológicos e históricos (cf. ALISON, 2010;; BOSWELL, 1985;; CRAWFORD e ZAMBONI, 2005; DI VITO, 2005; MALINA, 2005 e outros). A transição processual das posições da Igreja está longe de ter chegado a resultados conclusivos, mas existe já uma vontade de entender e dialogar. Ao lado dessas inegáveis aberturas, aparecem, porém, resistências e fechamentos. Há grupos fundamentalistas de tendência quase diametralmente oposta, e nesse embate cabe à Igreja preservar dons e valores preciosos. Nos Estados Unidos, a dissensão é ainda mais veemente, devido à força política do movimento gay e também aos dolorosos escândalos comportamentais surgidos no seio do clero. Lá, hoje, o debate é escancaradamente público, tendo sido quebrada a maneira sigilosa com que, durante séculos, assuntos como a homossexualidade eram debatidos e as normas e medidas pastorais e disciplinares eram tomadas.

Não é nada fácil solucionar o impasse pastoral em que a Igreja se debate. O primeiro ano do pontificado do papa Francisco aponta, sem dúvida, para uma retomada do diálogo com a modernidade – ela mesma em crise –, mas persistem vacilações e dificuldades que não podem ser subestimadas. Uma delas reside no fato de o magistério eclesiástico continuar mantendo uma visão e um referencial unilateralmente patriarcais. Desse prisma, torna-se difícil para o magistério discutir padrões de comportamento sexual que há séculos a Igreja declara serem “contra a natureza” criada e desejada por Deus e o exercício de sexualidades alternativas é sempre visto e julgado só negativamente (NOLASCO, 1995; GREEN e TRINDADE, 2005, dentre outros. Ora, na realidade social e cultural contemporânea, a “minoria” homossexual já não vive no “gueto” cultural a que fora relegada (com o aval da Igreja). Hoje, ela se apresenta como legítima representante de uma luta libertária que tem como objetivo defender direitos proclamados elementares em sociedades democráticas. Nas Paradas do Orgulho Gay, esse movimento coloca milhões de simpatizantes e militantes nas grandes avenidas das capitais brasileiras. Conta, para tanto, com a ajuda interessada do “mercado” gay e da indústria do espetáculo (SIMÕES e FRANÇA, 2005). Nas telas da Globo, o beijo homossexual em uma novela recente foi recebido com aplausos por milhões de brasileiros, até por famílias inteiras, que encaravam com simpatia o itinerário de um dos principais personagens do enredo e de um grupo de parceiros seus. Além disso, no Congresso Nacional, seguindo uma tendência mundial, são aprovadas leis que legitimam os direitos dos cidadãos e cidadãs homossexuais. Os formadores de opinião e a imprensa caminham inequivocamente na mesma direção. Não existe, porém, unanimidade, pois, assumindo posições antagônicas, existe uma massa até certo ponto anônima, do meio da qual se destacam deputados e senadores ligados principalmente a Igrejas neopentecostais. Resulta daí crescente animosidade entre grupos homofóbicos, que perseguem e agridem homossexuais nas praças e ruas, e outros que, ao contrário, saem às ruas em defesa dos direitos dos homossexuais. Aos poucos, porém, surge e ganha consistência o que Castells (1983) chamou de “cultura identitária homossexual”.Em tal clima cultural, não é de estranhar que surjam desentendimentos de princípio também no seio das Igrejas cristãs, como a Católica.

Resumindo: a Igreja (a grande comunidade de fé) e os pastores (os que são postos à frente do povo de Deus) estão, sim, em busca de nova ética sexual, mas, ao mesmo tempo, veem-se presos a certas amarras que os impedem de lidar, de forma mais desimpedida, com a nova mentalidade existente especialmente entre os mais jovens. Os textos e pronunciamentos emanados da Santa Sé buscam indicar caminhos alternativos, novas atitudes e normas pastorais para o acompanhamento. Embora a lógica individualista, secularizada e permissiva que preside hoje a sociedade, a cultura e a política em todos os campos continue sendo rejeitada, é inegável a existência, na Igreja, da disposição de repensar perguntas de fundo antes descartadas e vistas como indignas de consideração. Eis algumas dessas perguntas: a) São as posições e normas tradicionalmente tidas como inquestionáveis corroboradas pelos conhecimentos que temos hoje da Bíblia e da teologia da sexualidade? b) São os posicionamentos e concepções adotados até bem recentemente compatíveis com os dados seguros das ciências que estudam a sexualidade humana? c) No caso da minoria de tendência homossexual, a Igreja mantém sua posição de respeito à pessoa humana em seus direitos e dignidade? d) Haveria caminhos pastorais alternativos mais aptos para ajudar os católicos e a humanidade a viver suas tendências sexuais – homo ou heterossexuais – na perspectiva dos valores essenciais da fé cristã? e) A motivação que leva a Igreja a falar de um modo mais aberto da homossexualidade teria sido “segurar” a onda da opinião pública, hoje largamente disseminada, segundo a qual os homossexuais teriam direito à plena cidadania na sociedade e na Igreja e seria seu modo de comportar-se “uma” das formas normais de viver a sexualidade humana? Tanto mais que a essa visão e prática se soma vasto movimento político-cultural em torno da “causa” homossexual, cujos objetivos últimos seriam a autorrealização da pessoa, a aplicação dos avanços do conhecimento científico nesse campo e a nova visão antropológica, ética e teológica que a humanidade vem desenvolvendo a respeito da sexualidade como um direito do indivíduo em sociedades livres, laicas e democráticas. Essa é uma polêmica complexa que está longe de chegar ao seu fim.

[Continua amanhã]

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Homoafetividade e evangelização: abrir caminhos (parte 2 de 2)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa, começando por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, que dividiremos em duas partes. A primeira foi postada aqui ontem. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a segunda parte do texto:

2. A evolução histórica

A religião cristã se tornou hegemônica em muitos países, chegando a ser a religião do Estado. O homoerotismo foi classificado como sodomia e criminalizado. Para a Igreja, a sodomia era um crime horrendo: provocava a ira de Deus a ponto de causar tempestades, terremotos, pestes e fome que destruíam cidades inteiras. Era algo indigno de ser nomeado, um “pecado nefando”, que não se podia mencionar, muito menos cometer (Vide, 2007, p. 331-332). Tribunais eclesiásticos, como a Inquisição, julgavam os acusados desse delito e entregavam os culpados ao poder civil para serem punidos, até mesmo com a morte.

Com o advento do Iluminismo e da razão autônoma independente da Revelação, a prática sexual exercida sem violência ou indecência pública não devia cair sob o domínio da lei. Começou uma crescente descriminalização da sodomia. A modernidade, impulsionada pelo Iluminismo, trouxe a separação entre Igreja e Estado, a autonomia das ciências e os direitos humanos, que restringem o poder do soberano sobre o súdito e ampliam a liberdade da pessoa em relação à coletividade. O termo sodomia foi substituído, no século XIX, por “homossexualidade”. A questão é trazida do âmbito religioso e moral para o âmbito médico. O que então era visto como abominação passa a ser considerado como doença. Por muitas décadas, pessoas homossexuais eram internadas em sanatórios. Chegou-se até mesmo ao uso do choque elétrico.

A partir dos anos 1970, houve progressiva “despatologização” da homossexualidade, impulsionada pelo crescimento do movimento gay. Nos anos 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. E em 1999, o Conselho Federal de Psicologia declarou que a homossexualidade não é nem doença, nem distúrbio, nem perversão e proibiu os psicólogos de colaborar em serviços que proponham tratamento e cura da homossexualidade. Assim, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda a vida. Não se trata de opção, mas de condição ou orientação. Com isso, surgiu também novo campo jurídico: o direito homoafetivo, contemplando a população LGBT.

A modernidade, em suas grandes linhas, foi assimilada pela Igreja Católica no Concílio Vaticano II. Além do novo enfoque da evangelização e da leitura da Bíblia, o concílio legitimou a separação entre Igreja e Estado e a autonomia da ciência e reconheceu a liberdade de consciência, o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência e o dever de não agir contra ela. Nela está o “sacrário da pessoa”, onde Deus está presente e se manifesta. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos às outras pessoas no dever de buscar a verdade e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (Gaudium et Spes, n. 36 e 16). Nenhuma palavra externa substitui a reflexão e o juízo da própria consciência. O Catecismo da Igreja Católica aprofunda esse ensinamento e cita o cardeal Newman: “A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo” (n. 1.778). É ela quem primeiro representa Cristo para o fiel.

3. O ensino atual da Igreja e as perspectivas pastorais

O papa Bento XVI, certa vez, afirmou que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu por completo (BENTO XVI, 2006). É muito bom que um papa reconheça esse problema. Há ênfase demais na proibição, gerando ameaça de condenação eterna, culpa e medo que paralisam as pessoas. O ponto de partida do ensinamento cristão deve ser o seu elemento positivo que é boa notícia (evangelho). Francisco segue esse caminho e avança: “o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa”. Para ele, a prioridade da pregação deve ser curar todo tipo de ferida. Depois se pode falar de todo o resto. O anúncio, concentrando-se no essencial, é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús (Francisco, 2013c). A compreensão e a exposição do ensinamento da Igreja também devem seguir esse itinerário.

Uma carta pastoral afirma que nenhum ser humano é mero homo ou heterossexual. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de sua graça, a qual o torna filho seu e herdeiro da vida eterna (CDF, 1986, n.16). A posição da moral católica deve se basear na razão humana iluminada pela fé e encontrar apoio também nos resultados seguros das ciências humanas (n.2). Toda violência física ou verbal contra pessoas homossexuais é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifique (n.10). Os atos homossexuais, por sua vez, são considerados intrinsecamente desordenados e, como tais, não podem ser aprovados em nenhum caso (n. 3). Sobre a culpabilidade da pessoa, porém, deve haver prudência no julgamento. São reconhecidos casos em que a tendência homossexual não é fruto de opção deliberada da pessoa e que esta não tem alternativa, mas é compelida a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, em tal situação, ela agiria sem culpa. Alerta-se para o risco de generalizações, mas podem existir circunstâncias que reduzem ou até mesmo eliminam a culpa da pessoa (n. 11). Nesta situação, não se pode dizer jamais que a pessoa está em pecado mortal e deve se afastar dos sacramentos.

A castidade, hoje, é definida primeiramente como a integração bem-sucedida da sexualidade na pessoa, na sua unidade de corpo e alma (Catecismo, n. 2.337). Essa integração é um caminho gradual, um crescimento em etapas marcadas pela imperfeição e até pelo pecado (n. 2.343). Não é o reino do tudo ou nada. É preciso levar em conta a situação em que a pessoa se encontra e os passos que ela pode e deve dar. Só há uma integração bem-sucedida se a pessoa viver em paz com a sua sexualidade, amando o seu semelhante e a si mesma.

O estudo crítico da Bíblia, a devida atenção aos resultados das ciências, a fidelidade à própria consciência e os matizes da moral são referências que tornam o ensinamento da Igreja um componente rico e dinâmico na vida dos fiéis. Não se deve buscar nesse ensinamento nem na Bíblia um manual de instruções próprio de um eletrodoméstico ou um código moral detalhado, universal e imutável. Muitas vezes se fazem citações descontextualizadas da Bíblia e simplificações indevidas da doutrina, com extrema rigidez e terrível ímpeto condenatório dirigido aos gays. A pregação, em vez de curar feridas e aquecer o coração, traz mais devastação; e a Palavra do Deus da vida acaba se tornando palavra de morte. Os gays jamais devem ser tratados como endemoninhados a ser exorcizados ou ser submetidos a orações de “cura e libertação” para mudarem a sua condição.

Sobre o reconhecimento legal da união homossexual, o ensino da Igreja faz severa oposição à equiparação dessa união àquela entre homem e mulher, bem como a mudanças no direito familiar que caminhem nesse sentido. No entanto, ainda que com ressalvas, afirma que se podem reconhecer direitos de pessoas homossexuais conviventes, com proteção legal para situações de interesse recíproco (CDF, 2003, n. 5 e 9). Esse passo é muito importante. Se não há nenhum reconhecimento social ou proteção legal das uniões homoafetivas, a homofobia presente na sociedade pressiona os gays a contrair uniões heterossexuais para fugirem do preconceito. Isso tem acontecido há séculos e traz muito sofrimento às pessoas envolvidas. É necessário que pare. O sacramento do matrimônio, nessas circunstâncias, é inválido (Código de Direito Canônico, Cân. 1.095, n. 3). Os fiéis precisam saber disso. O casamento tradicional não é solução para a pessoa homossexual.

Outra iniciativa é a dos bispos norte-americanos, que escreveram bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é oportuno e profético: “Sempre nossos filhos”. Os bispos afirmam que Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amar a si mesmos e não se culpar pela orientação sexual de seus filhos nem por suas escolhas. Os pais não são obrigados a encaminhar os filhos a terapias de reversão para torná-los heterossexuais. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E, dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário (USCCB, 1997).

Uma forma de acolhimento que vem sendo aplicada por bispos católicos da Suíça se dá por meio das bênçãos. Conforme recomendações da Conferência Episcopal Suíça para a Igreja daquele país, pessoas homossexuais podem ser abençoadas, sem que isso denote qualquer semelhança com o matrimônio sacramental (CES, 2002, n. 3) e sem contrariar as normas da Igreja. No Ritual de Bênçãos, por exemplo, há bênção de uma residência, com orações pelos que nela residem, bênção do local de trabalho e bênçãos para diversas circunstâncias.

Há muitas famílias que têm filhos gays e sofrem imensamente com isso. Os pais frequentemente culpam a si mesmos e não sabem o que fazer. Essa mensagem é muito oportuna também na realidade social e eclesial do Brasil. Os bispos norte-americanos também trataram da pastoral com homossexuais. Nesse trabalho, os ministros religiosos são convidados a ouvir as experiências, as necessidades e as esperanças dessas pessoas. Assim se manifesta o respeito à dignidade inata e à consciência do outro. Gays e lésbicas podem, dependendo das circunstâncias, revelar a sua condição a familiares e amigos e crescer na vida cristã (USCCB, 2006).

As iniciativas em favor do acolhimento são corroboradas pelo papa Francisco: “Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar?… Não se devem marginalizar essas pessoas por isso” (Francisco, 2013b). Em vez de julgá-las ou marginalizá-las, deve-se fomentar na Igreja um ambiente acolhedor no qual pessoas gays possam buscar a Deus. Que a Igreja seja um lugar onde suas feridas sejam curadas e seus corações aquecidos. Um lugar onde sintam o jugo leve e o fardo suave oferecidos por Jesus.

Bibliografia

CDF (Congregação para a Doutrina da Fé). Homosexualitatis problema. Roma, 1986. Disponível em: .
______. Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais. Roma, 2003.
CES (Conférence des Évêques Suisses). Note pastorale 10. Friburgo, 2002. Disponível em: .
BENTO XVI. Entrevista de Bento XVI em previsão de sua viagem à Baviera (I). Zenit, 16 ago. 2006.
FRANCISCO. Solenidade de Pentecostes. Roma, 19 maio 2013a. Disponível em: .
______. Encontro do santo padre com os jornalistas durante o voo de regresso do Brasil. 28 jun. 2013b.
______. Entrevista exclusiva do papa Francisco às revistas dos jesuítas. Brotéria,19 ago. 2013c.
USCCB (United States Conference of Catholic Bishops). Always our children. Washington, 1997. Disponível em: <www.usccb.org>.
______. Ministry to persons with a homosexual inclination. Washington, 2006. Disponível em: <www.usccb.org>.
VIDE, D. Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Brasília: Senado Federal, 2007.


Luís Corrêa Lima, SJ
Padre jesuíta, doutor em História e professor da PUC-Rio. Trabalha em pesquisa sobre história da Igreja, modernidade e diversidade sexual. Colabora na Paróquia N. Sra. da Boa Viagem, na Rocinha, e atua no aconselhamento espiritual de pessoas homossexuais. E-mail: lclima@puc-rio.br

domingo, 15 de junho de 2014

Homoafetividade e evangelização: abrir caminhos (parte 1 de 2)



Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa, começando por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, que dividiremos em duas partes. A segunda será postada aqui amanhã. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a primeira parte do texto:

O acolhimento pastoral de pessoas homossexuais, recomendado pelo papa Francisco, encontra apoio na leitura crítica da Bíblia, na evolução histórica, nas conclusões das ciências, no ensinamento da Igreja e em iniciativas regionais promovidas pelos bispos. É preciso superar barreiras para viabilizar e fomentar esse acolhimento.


A Igreja Católica vive um tempo de renovação com o papa Francisco. Ele convoca a Igreja a ir às “periferias existenciais”: ao encontro dos pobres e dos que sofrem com as diversas formas de injustiças, conflitos e carências. A novidade que Deus traz à nossa vida, diz o papa, é verdadeiramente o que nos realiza e nos dá a autêntica alegria e serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem. Francisco critica uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento e fechada aos novos caminhos que Deus apresenta. A ação do Espírito Santo ergue nosso olhar para o horizonte, impelindo-nos a essas periferias (Francisco, 2013a).

Importante sinal dos tempos atuais é a visibilização da população homossexual. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Eles se escondiam em casamentos tradicionais e, quando muito, formavam guetos, protegendo-se em espaços de convivência bastante reservados. Hoje, fazem imensas paradas, estão presentes nas telenovelas, buscam reconhecimento, exigem respeito e reivindicam direitos. Essa população está em toda parte. Com frequência, usa-se o termo gay (originalmente “alegre”) para se referir a todos eles. Quem não é gay tem parentes próximos ou distantes que são, velada ou manifestamente, bem como vizinhos ou colegas de trabalho. Os gays fazem parte da sociedade e, ao se visibilizarem, almejam cidadania plena, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

Essa visibilização também manifesta os problemas que os afligem. Há uma aversão a pessoas homossexuais, a homofobia, que produz diversas formas de violência física, verbal e simbólica contra essas pessoas. No Brasil, são frequentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há também o suicídio de muitos adolescentes que se descobrem gays e mesmo de adultos. Eles chegam a essa atitude extrema por pressentirem a rejeição hostil da própria família e da sociedade. Há pais que já disseram: “Prefiro um filho morto a um filho gay”. Entre os xingamentos mais ofensivos que existem, consta a referência à condição homossexual e à relação sexual entre pessoas do mesmo sexo. Tal hostilidade gera inúmeras formas de discriminação e, mesmo que não leve à morte, traz frequentemente tristeza profunda ou depressão.

Há muitos gays na Igreja. São pessoas que nasceram e foram criadas nesse ambiente, têm fé e, em certo momento, descobriram essa orientação sexual. Vários deles participam ativamente de sua comunidade, mas não poucos se afastaram e se afastam por depararem com incompreensão e hostilidade. É preciso que encontrem fiéis e ministros religiosos sensíveis às suas feridas e dificuldades e, também, aos seus talentos e potencialidades. Não há dúvida de que essa realidade faz parte das periferias existenciais apontadas pelo papa.

Para a Igreja, a lei de toda a evangelização é pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada à realidade dos povos, como diz o Concílio Vaticano II (1962-1965). Deve haver um intercâmbio permanente entre a Igreja e as diversas culturas. Para isso, ela necessita da ajuda dos que conhecem bem as várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. Os fiéis precisam saber ouvir e interpretar as várias linguagens ou sinais do nosso tempo, para avaliá-los adequadamente à luz da Palavra de Deus, de modo que a Revelação divina seja bem compreendida e apresentada de modo conveniente (Gaudium et Spes, n. 44). A correta evangelização, portanto, é uma estrada de duas mãos, de intercâmbio entre a Igreja e as culturas contemporâneas. A fé cristã necessita dialogar com os diversos saberes legítimos. Só se pode saber o que a Palavra de Deus significa hoje, e que implicações ela tem, com suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilização da população LGBT e o reconhecimento dos seus direitos humanos.

1. A Sagrada Escritura

Para se tratar corretamente da homossexualidade na Bíblia, convém ir além da leitura ao pé da letra. A Revelação divina testemunhada nesse livro é proposta e expressa de modos diversos. Segundo o concílio, o leitor deve buscar o sentido que os autores sagrados, em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir, servindo-se dos gêneros literários então usados. Devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre as pessoas daquela época (Dei Verbum, n. 12).

No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Supõe-se uma heterossexualidade universal, expressa no imperativo “crescei e multiplicai-vos” (Gn 1,28). Isso foi escrito no tempo do exílio judaico na Babilônia. Para o povo expulso de sua terra e submetido a uma potência estrangeira, crescer era fundamental para a sobrevivência da nação e da religião. Não se nega o desígnio divino de que a humanidade se espalhe pela terra, mas a necessidade de sobrevivência do povo judeu naquele tempo era urgente.

O sêmen do homem, supostamente, continha o ser humano inteiro e deveria ser colocado no ventre da mulher assim como a semente é depositada na terra. Não se conhecia o óvulo. O próprio nome sêmen está ligado a semente. Ele jamais deveria ser desperdiçado, como mostra a história de Onã. Este praticou coito interrompido e ejaculou fora da vagina da esposa. Por isso, Onã foi fulminado por Deus por causa dessa transgressão (Gn 38,1-10).

É nesse contexto que a relação sexual entre dois homens era considerada uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, com seu culto, sua lei e seus costumes, segundo o código de santidade do livro do Levítico. Aí se inclui a proibição do homoerotismo, considerado abominação (Lv 18,22). Proíbe-se também, e com rigor: trabalhar no sábado, comer carne de porco ou frutos do mar, aparar o cabelo e a barba, tocar em mulher menstruada durante sete dias, usar roupa tecida com duas espécies de fio, semear no campo duas espécies de semente e acasalar animais de espécies diferentes. Quando o cristianismo, nascido em Israel, expandiu-se entre os povos não judeus, a santidade do Levítico não se tornou norma para esses povos, mas a proibição do homoerotismo sim.

A essa proibição se somou a história de Sodoma e Gomorra, cujo pecado clamou aos céus e resultou no castigo divino destruidor (Gn 19). Esse pecado foi recusar hospitalidade aos homens abrigados na casa do patriarca Ló, a ponto de tentarem estuprá-los. Com frequência, o estupro era uma forma de humilhação imposta por exércitos vencedores aos vencidos. Inicialmente, o delito de Sodoma era visto como “orgulho, alimentação excessiva, tranquilidade ociosa e desamparo do pobre e do indigente”. Por meio do profeta, o Senhor diz: “Tornaram-se arrogantes e cometeram abominações em minha presença” (Ez 16,49-50). Vários séculos depois, tal pecado foi identificado com o homoerotismo, mas na origem ele nada tinha que ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo ou mesmo com relações sexuais livremente consentidas entre pessoas adultas do mesmo sexo.

No Novo Testamento, a carta aos Romanos afirma que quem ama o próximo cumpriu a lei, pois os mandamentos se resumem no amor ao próximo como a si mesmo (Rm 13,8-10). Este é o espírito dos mandamentos e o critério de sua interpretação. Mas, ao refutar o politeísmo, o apóstolo Paulo o associa ao homoerotismo (Rm 1,18-32). Os pagãos não adoravam o Deus único, mas as criaturas. E ainda permitiam essa prática sexual vista como abominação pelos judeus. Esse comportamento era considerado castigo divino pela prática religiosa errada: “Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas”. Outros escritos paulinos têm a mesma posição, ligando o homoerotismo à idolatria e à irreligião (1Cor 6,9-11; 1Tm 1,8-11). No contexto judaico-cristão da Antiguidade, esse argumento era compreensível. Não havia o conceito de orientação sexual, de uma tendência profundamente enraizada na pessoa, com relativa estabilidade, atraindo-a para o sexo oposto ou para o mesmo sexo. Tal orientação nada tem que ver com a crença em um ou em vários deuses ou com alguma prática religiosa. Mas, no contexto da Antiguidade, a Igreja herdou a visão antropológica da heterossexualidade universal com suas interdições.

[Continua amanhã]

sábado, 14 de junho de 2014

Revista Vida Pastoral sobre "Homoafetividade e fé cristã"



Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduziremos ao longo da semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa, começando hoje pelo editorial em que a equipe da publicação justifica a escolha do tema. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue o editorial:


Caros leitores e leitoras,

Graça e paz!

É comum, em ambientes religiosos, ouvirmos dizer que sobre alguns temas de ética da sexualidade é preferível silenciar, para evitar polêmicas. Por isso, publicar uma edição de Vida Pastoral sobre a temática da fé cristã ante a homoafetividade foi motivo de bastante reflexão prévia. O objetivo da edição não é polemizar, mas oferecer subsídios para melhor compreensão da questão e favorecer o atendimento de necessidades pastorais. Se, por um lado, houve de fato problemas entre a hierarquia e teólogos morais no passado recente – o que não significa que não haja excelentes reflexões dos moralistas católicos –, por outro, tem havido constante esforço, seja por parte da Santa Sé, seja por parte de muitos pastores do povo de Deus, no sentido de compreender e abordar adequadamente questões de sexualidade e de homoafetividade que interpelam os cristãos atualmente, como atesta Pe. Edênio Valle em seu artigo. Certas posturas extremadas geralmente revelam desconhecimento do que a Igreja diz oficialmentesobre ética da sexualidade. Por vezes, limitam-se a repetir superficialidades e generalizações publicadas pelos meios de comunicação ou pelo senso comum.

Já em 1976, uma carta da Congregação para a Doutrina da Fé (Declaração sobre alguns pontos de ética sexual)afirmava: “Indubitavelmente essas pessoas homossexuais devem ser acolhidas, na ação pastoral, com compreensão e devem ser apoiadas na esperança de superar suas dificuldades pessoais e sua inadaptação social. Também sua culpabilidade deve ser julgada com prudência”. Outra carta da mesma congregação, do ano de 1986 (Carta aos bispos sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais), afirma que nenhum ser humano é mero homo ou heterossexual, mas é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de sua graça, que o torna filho seu e herdeiro da vida eterna (n. 16). A posição da moral católica deve se basear na razão humana iluminada pela fé e encontrar apoio também nos resultados seguros das ciências humanas (n.2). Toda violência física ou verbal contra pessoas homossexuais é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifique (n. 10).

É verdade que, em temas complexos, convém ter prudência. Entretanto, silenciar a respeito do assunto pode significar omissão, seja em relação às pessoas e às famílias que necessitam de orientação, seja em relação à própria Igreja, que tem o desejo e a missão de auxiliar os seres humanos em suas necessidades, ouvindo seus apelos e anseios. Amar a Igreja é também ajudá-la em seu esforço de dialogar com as necessidades atuais, com as ciências sociais, humanas e biológicas, fazendo progredir sua tradição.

Qualquer um que tenha contato pastoral com o público católico ou esteja atento a notícias sobre violência contra homossexuais, casos de homicídios e de suicídios, afastamentos e incompreensões mútuas entre a Igreja e as pessoas homossexuais sabe quanto é importante compreendermos bem a questão.

Educar as pessoas para a boa vivência da ética cristã em todas as dimensões, não apenas na sexualidade, é muito mais do que pôr ênfase em condenações, culpas e medos. Como nos lembra o papa Francisco, o ponto de partida do ensinamento cristão deve ser o seu elemento positivo que é boa notícia (evangelho). Para ele, a prioridade da pregação deve ser curar todo tipo de ferida e “o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa”.

Pe. Jakson Alencar, ssp

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Lançar fora o medo


"Este Túmulo sagrado convida-nos a lançar fora outro medo que é talvez o mais difuso na nossa era moderna, a saber, medo do outro, medo do que é diferente, medo do seguidor de outra fé, de outra religião, ou de outra confissão. O racismo e todas as outras formas de discriminação estão ainda espalhados em muitas das nossas sociedades contemporâneas; o pior é que, frequentemente, permeiam também a vida religiosa das pessoas. O fanatismo religioso já ameaça a paz em muitas regiões do globo, onde o próprio dom da vida é sacrificado no altar do ódio religioso."

- Patriarca Bartolomeu I, no encontro com o Papa Francisco

domingo, 25 de maio de 2014

Papa Francisco: Diversidade "não deve provocar rejeição" porque "variedade é sempre enriquecimento"

Papa Francisco abençoa o repórter palestino Imad Freij
durante o voo entre Roma e Amã, 24.5.2014. Via

O papa Francisco iniciou este sábado uma visita de três dias à Terra Santa, tendo sublinhado na homilia da primeira missa a que presidiu, na Jordânia, que «a diversidade de pessoas e de pensamento não deve provocar rejeição e obstáculos, porque a variedade é sempre enriquecimento».

A intervenção centrou-se no apelo à paz mediante a invocação do Espírito Santo, dado que a celebração, no estádio de Amã, capital jordaniana, se realizou «não longe do local onde o Espírito Santo desceu com poder sobre Jesus de Nazaré, depois que João o batizou no rio Jordão», disse Francisco, citado pela Rádio Vaticano.

«A Ele [Espírito Santo] pedimos para preparar os nossos corações para o encontro com os irmãos para além das diferenças de ideias, língua, cultura, religião; para ungir todo o nosso ser com o óleo da sua misericórdia que cura as feridas dos erros, das incompreensões, das controvérsia», pediu.

Francisco frisou que a paz «não se pode comprar, não se vende», sendo antes «um dom a procurar pacientemente e a construir artesanalmente mediante pequenos e grandes gestos» que envolvem a «vida quotidiana».

«O caminho da paz consolida-se se reconhecemos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do género humano; se não esquecemos que temos um único Pai no céu e que somos todos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança», afirmou.

Ao chegar a Amã, o papa encontrou-se com o rei Abdullah, tendo elogiado o «generoso acolhimento» do país a uma grande quantidade de refugiados palestinos, iraquianos e provenientes de outras regiões de crise, em particular da vizinha Síria, envolvida num conflito que dura há demasiado tempo».

Torna-se «urgente uma solução pacífica para a crise síria, bem como uma solução justa para o conflito israelo-palestino», acentuou, pedindo a Deus para que proteja do «medo da mudança».

Na primeira intervenção na Jordânia, Francisco renovou o «profundo respeito» e «estima» pela comunidade muçulmana, e realçou o papel do monarca na promoção de «uma mais adequada compreensão das virtudes proclamadas pelo Islão e a serena convivência entre os fiéis das diversas religiões», tendo agradecido a Abdullah o facto de ser «artífice de paz».

A Jordânia foi também louvada «por ter encorajado várias iniciativas importantes a favor do diálogo inter-religioso para a promoção da compreensão entre judeus, cristãos e muçulmanos, entre as quais a "Mensagem Inter-religiosa de Amã"», bem como por ter patrocinado, no âmbito da ONU, a celebração anual da "Semana de Harmonia entre as Religiões".

Dirigindo «uma saudação plena de afeto à comunidade cristã», presente na região «desde a era apostólica», Francisco recordou a sua contribuição «para o bem comum da sociedade».

«Apesar se serem hoje numericamente minoritários», os cristãos trabalham no apoio aos refugiados, através da Cáritas Jordânia, além de dirigirem escolas e hospitais, «podendo professar com tranquilidade a sua fé, no respeito da liberdade religiosa, que é um direito humano fundamental».

A terminar, o papa expressou os votos de «paz» e «prosperidade» para a Jordânia, com o desejo que a visita «contribua para incrementar e promover boas e cordiais relações entre cristãos e muçulmanos».

O programa do primeiro dia da viagem de Francisco à Terra Santa completa-se com a visita ao local do Batismo de Jesus (Betânia além do Jordão) e, às 17h15 (hora de Lisboa), o encontro com refugiados e jovens com deficiência, na igreja latina de Betânia.

Líderes de crenças diversas apoiam religiões afro-brasileiras


Representantes e e estudiosos das mais variadas crenças repudiaram a sentença do juiz federal do Rio de Janeiro Eugênio Rosa de Araújo, afirmando que “manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”. Araújo se retratou em relação às religiões afro-brasileiras, mas não retirou os vídeos do YouTube, atitude criticada por líderes religiosos. Presidente da Associação Nacional de Mídia Afro, a candomblecista Márcio Righetti, responsável pela denúncia feita ao Ministério Público Federal, ressalta que a mobilização contra os vídeos não é voltada apenas para os devotos de matrizes afro-brasileiras, mas também pela democracia:

– A sociedade civil tem que mostrar sua capacidade política para que não aconteça novamente. As declarações do juiz foram totalmente infelizes. Mesmo se retratando, ao não retirar os vídeos, mantém institucionalizada a intolerância religiosa. Quero deixar claro que isso não é uma defesa específica da comunidade de terreiro; é uma defesa da democracia.

No ato Independente de escolhas, somente unidos somos fortes, que ocorreu nesta quarta-feira (21) na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio, líderes de diferentes religiões debateram sobre o problema da intolerância religiosa no Brasil. Foram recolhidas assinaturas no abaixo-assinado pedindo a retirada dos vídeos, a ser entregue ao Ministério Público. O babalaô Ivanir dos Santos, presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), também não ficou satisfeito com o que chamou de “arrependimento pela metade”:

– Por sermos religiosos, nós aceitamos o arrependimento, mas não pode ser pela metade. O juiz reconhece que são religiões, mas mantém a medida e os vídeos. É contraditório. Estamos pedindo que retirem o vídeo para nos respeitarem. Não queremos punir ninguém. Estamos pedindo respeito e dignidade.

Não apenas as religiões diretamente atacadas pelo juiz Eugênio Rosa participaram do ato contra a intolerância religiosa, que contou com a participação de católicos, muçulmanos e judeus. Representante do arcepisbo do Rio, dom Orani Tempesta, que não pôde comparecer ao ato, o diácono Nelson Águia, secretário da Comissão Arquidiocesana de Diálogo Inter-Religioso, também defendeu a retirada dos vídeos, e ressaltou a importância do encontro entre as religiões:

– Não devemos criar acirramento entre as religiões, uma guerra religiosa. Devemos construir pontes, e não levantar muros. Não viemos para discutir dogmas nem doutrinas, viemos conversar sobre aquilo que nos é comum: a paz e a fraternidade. O que todas as religiões querem é que o homem seja melhor do que ontem. Nós temos mais coisas que nos unem, portanto, para que acentuar aquilo que nos separa? Devemos promover a harmonia. Eu vim representando Dom Orani, que prega a união e a harmonia entre as religiões. A expressão dele é que não devemos deixar ninguém de fora. Nós devemos incluir, e não excluir. Devemos conversar com todos. (ouça as declarações de outros líderes religiosos).

"A sentença é inaceitável para toda a sociedade", diz pesquisadora

A historiadora especialista em pertenças religiosas Denise Fonseca, professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio e uma das autoras do livro Presença do axé: mapeando terreiros no Rio de Janeiro (Ed. PUC-Rio e Pallas), com a também professora da PUC Sonia Giacomini, questiona a postura do magistrado.

– O juiz jamais poderia emitir um parecer, transformando sua autoridade em verdade, e impor à sociedade brasileira, do lugar de poder que ocupa, uma percepção que parece um tanto pessoal. No espaço público, onde ele se enunciou, não poderia ter feito. Para fazer uma argumentação como aquela, num espaço jurídico, refletindo sobre questões que passam pelos campos da antropologia religiosa, da teologia, ele deveria, minimamente, ter consultado especialistas destas áreas.

Para a professora da PUC, a sentença é inaceitável para toda a sociedade. A defesa da liberdade democrática deve ser debatida por todos, não só pelos adeptos das religiões de matrizes africanas, como se fosse um problema exclusivamente deles.

– Isso reflete também uma vontade política, uma adesão a um projeto intolerante que vem se construindo na sociedade brasileira e que hoje ocupa espaços de poder muito importantes. Por trás, está a vontade que é expressa nos 15 vídeos. Trata-se, sim, de cooptar e aliciar politicamente, explorar economicamente um segmento muito vulnerável – analisa Denise, que completa: – Essa questão é apenas a ponta de um iceberg, de uma questão política que diz respeito a todos nós.

Em carta aberta, Denise defende a livre expressão, “fundamento democrático para a concretização do princípio de dignidade da pessoa humana”, e lembrou que é preciso combater “antigos e odiosos projetos de sociedade nos quais nossas diferenças – de qualquer ordem – são percebidas como equívocos e tratadas com desrespeito”. Citando o estudo sobre o trabalho social desenvolvido nas casas religiosas, ela afirma: “Ali se cuidam de pessoas que buscam na fé um esteio para sobreviver à pobreza com dignidade”. Lançada em março, a publicação é resultado de uma pesquisa que mapeou 847 terreiros no Estado do Rio, em 20 meses de trabalho de campo, contanto com mais de 30 pesquisadores, entre eles líderes religiosos. (Leia também Rio ganha mapa das casas de umbanda e candomblé e assista reportagem de TV).

Padre Hortal: "Caso expõe incompreensão de aspectos religiosos e culturais"

Para o reitor da Universidade Católica de Petrópolis e ex-reitor da PUC-Rio, padre Jesus Hortal Sánchez, o caso mostra uma incompreensão dos aspectos religiosos e culturais que envolvem as religiões de matrizes africanas para além dos cultos nos terreiros.

– Na nossa sociedade, os símbolos da umbanda e do candomblé, sobretudo em algumas regiões, são muito comuns. É um aspecto mais cultural do que religioso. Isso acontece com outras religiões.

Padre Hortal, que foi consultor do Vaticano para o diálogo com o judaísmo por dez anos, ressalta que religiões costumam ser definidas como um conjunto de crenças, que têm um código de conduta e que significam sempre uma relação com a divindade. No entanto, lembra, elas podem ser constituídas de formas diferentes:

– Existem os dois aspectos: o da fé, das crenças, das doutrinas; e o da conduta ética. Há religiões reveladas, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, que têm escritura. E há também religiões que, na tradição, elaboram suas crenças e condutas.

Denise ainda afirma que as alegações do juiz federal, que se baseiam em três aspectos para considerar uma religião como uma religião – ter um Deus único, uma hierarquia visível e de ter um texto sagrado como referência –, não se sustentam em face a muitas outras religiões. Esta não seria a única maneira de definir religiões. A professora completa que a sentença está em total desacordo com a liberdade de credo e o respeito a diferentes crenças. O fato de o juiz ter voltado atrás “pelo apoio que a sociedade demonstrou”, para ela, foi tão inaceitável quanto a afirmação inicial de que candomblé e umbanda não são religiões:

– Inaceitável em nome da democracia brasileira. A sentença abominável foi mantida. O juiz voltou atrás evocando o direito da livre expressão, fundante do princípio democrático, que garante a liberdade de expressão para tornar concreta a dignidade da pessoa humana, exatamente o que não está feito. A decisão garantiu a manutenção de espaços de violência, de degradação e de desqualificação do outro.

O babalaô Ivanir (foto), porém, vê um lado positivo na discussão sobre intolerância religiosa no Brasil:

– Este tem sido um problema muito grave na sociedade brasileira. O dado novo é que a sociedade está acordando. Não é só o ataque à umbanda e ao candomblé; é o desrespeito com a pessoa que é de uma religião diferente ou até mesmo não tem religião. Se alguém escolhe até não acreditar em Deus, tenho que respeitá-lo.

Fonte

Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro


Compartilhamos aqui a mensagem do Papa Francisco para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 1º de junho de 2014. Os grifos são nossos.

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje vivemos num mundo que está a tornar-se cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximo uns dos outros. Os progressos dos transportes e das tecnologias de comunicação deixam-nos mais próximos, interligando-nos sempre mais, e a globalização faz-nos mais interdependentes. Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, e às vezes muito acentuadas. A nível global, vemos a distância escandalosa que existe entre o luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas ruas duma cidade para ver o contraste entre os que vivem nas calçadas e as luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas económicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas.

Neste mundo, os meios de comunicação em massa podem ajudar a sentir-nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos. Os muros que nos dividem só podem ser superados, se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros. Precisamos de harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito. A cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros. Os meios de comunicação podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus.

No entanto, existem aspectos problemáticos: a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correcta de si mesmo. A variedade das opiniões expressas pode ser sentida como riqueza, mas é possível também fechar-se numa esfera de informações que correspondem apenas às nossas expectativas e às nossas ideias, ou mesmo a determinados interesses políticos e económicos. O ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-nos. O desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós. Sem esquecer que a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de comunicação social corre o risco de ser excluído.

Estes limites são reais, mas não justificam uma rejeição dos meios de comunicação; antes, recordam-nos que, em última análise, a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica. Portanto haverá alguma coisa, no ambiente digital, que nos ajuda a crescer em humanidade e na compreensão recíproca? Devemos, por exemplo, recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar. Temos necessidade também de ser pacientes, se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: uma pessoa expressa-se plenamente a si mesma, não quando é simplesmente tolerada, mas quando sabe que é verdadeiramente acolhida. Se estamos verdadeiramente desejosos de escutar os outros, então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições. Entretanto saberemos apreciar melhor também os grandes valores inspirados pelo Cristianismo, como, por exemplo, a visão do ser humano como pessoa, o matrimónio e a família, a distinção entre esfera religiosa e esfera política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros.

Então, como pode a comunicação estar ao serviço de uma autêntica cultura do encontro? E – para nós, discípulos do Senhor – que significa, segundo o Evangelho, encontrar uma pessoa? Como é possível, apesar de todas as nossas limitações e pecados, ser verdadeiramente próximo aos outros? Estas perguntas resumem-se naquela que, um dia, um escriba – isto é, um comunicador – pôs a Jesus: «E quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29 ). Esta pergunta ajuda-nos a compreender a comunicação em termos de proximidade. Poderíamos traduzi-la assim: Como se manifesta a «proximidade» no uso dos meios de comunicação e no novo ambiente criado pelas tecnologias digitais? Encontro resposta na parábola do bom samaritano, que é também uma parábola do comunicador. Na realidade, quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada. Jesus inverte a perspectiva: não se trata de reconhecer o outro como um meu semelhante, mas da minha capacidade para me fazer semelhante ao outro. Por isso, comunicar significa tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus. Apraz-me definir este poder da comunicação como «proximidade».

Quando a comunicação tem como fim predominante induzir ao consumo ou à manipulação das pessoas, encontramo-nos perante uma agressão violenta como a que sofreu o homem espancado pelos assaltantes e abandonado na estrada, como lemos na parábola. Naquele homem, o levita e o sacerdote não vêem um seu próximo, mas um estranho de quem era melhor manter a distância. Naquele tempo, eram condicionados pelas regras da pureza ritual. Hoje, corremos o risco de que alguns meios de comunicação nos condicionem até ao ponto de fazer-nos ignorar o nosso próximo real.

Não basta circular pelas «estradas» digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos meios de comunicação não pode alhear-se da solicitude pela humanidade, chamado como é a exprimir ternura. A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas. A neutralidade dos meios de comunicação é só aparente: só pode constituir um ponto de referimento quem comunica colocando-se a si mesmo em jogo. O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais.

Tenho-o repetido já diversas vezes: entre uma Igreja acidentada que sai pela estrada e uma Igreja doente de auto-referencialidade, não hesito em preferir a primeira. E quando falo de estrada penso nas estradas do mundo onde as pessoas vivem: é lá que as podemos, efectiva e afectivamente, alcançar. Entre estas estradas estão também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança. Também graças à rede, pode a mensagem cristã viajar «até aos confins do mundo» (Atos 1, 8). Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos. Somos chamados a testemunhar uma Igreja que seja casa de todos. Seremos nós capazes de comunicar o rosto duma Igreja assim? A comunicação concorre para dar forma à vocação missionária de toda a Igreja, e as redes sociais são, hoje, um dos lugares onde viver esta vocação de redescobrir a beleza da fé, a beleza do encontro com Cristo. Inclusive no contexto da comunicação, é precisa uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração.

O testemunho cristão não se faz com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros «através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana (Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Pensemos no episódio dos discípulos de Emaús. É preciso saber-se inserir no diálogo com os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças, e oferecer-lhes o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado e da morte. O desafio requer profundidade, atenção à vida, sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas.

Possa servir-nos de guia o ícone do bom samaritano, que liga as feridas do homem espancado, deitando nelas azeite e vinho. A nossa comunicação seja azeite perfumado pela dor e vinho bom pela alegria. A nossa luminosidade não derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximo, com amor, com ternura, de quem encontramos ferido pelo caminho. Não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital. É importante a atenção e a presença da Igreja no mundo da comunicação, para dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo: uma Igreja companheira de estrada sabe pôr-se a caminho com todos. Neste contexto, a revolução nos meios de comunicação e de informação são um grande e apaixonante desafio que requer energias frescas e uma imaginação nova para transmitir aos outros a beleza de Deus.

Vaticano, 24 de Janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano 2014.

Franciscus
Fonte

sábado, 24 de maio de 2014

(Re)leituras do Gênesis


Saiu hoje no jornal O Globo uma matéria sobre uma nova tradução do Gênesis que está sendo lançada no Brasil do ponto de vista da tradição judaica (o primeiro livro do nosso Antigo Testamento é o primeiro livro da Torá judaica). A reportagem nos pareceu preciosa por seus esclarecimentos acerca do método judaico de leitura e interpretação das Escrituras, baseado na permanente reflexão e atualização críticas à luz do tempo presente. E pensar que só há pouco mais de um século nós, cristãos, e especialmente católicos, começamos a vislumbrar as possibilidades do método histórico-crítico, que só em meados do século XX se tornou oficialmente o método preferencial para leitura e exegese da Bíblia adotado pelos católicos - e que, com o recrudescimento do fundamentalismo entre católicos e reformados, ainda há tantos que defendem leituras literais e descontextualizadas dos textos bíblicos e da Tradição. E, no entanto, talvez o que mantenha a Bíblia viva e sagrada através dos séculos seja justamente sua permanente reatualização à luz dos tempos que correm...

Aliás, é o que mantém a Igreja viva através dos tempos, como bem lembrou esta semana o secretário-geral da CNBB, D. Leonardo Steiner, ao comentar que "A Igreja muda sempre; está em mudança. Ela não é a mesma através dos tempos. Tendo como força iluminadora de sua ação o Evangelho, a Igreja busca respostas para o tempo presente. Assim como todas as pessoas, a Igreja sempre procura ler os sinais dos tempos, para ver o que se deve ou não mudar" (aqui). :-)

Segue a matéria do Globo. Que proporcione reflexões instigantes! Boa leitura! :-)

Narrativa fundamental para o povo judeu, a Torá está longe de ser um texto estático, como muitos podem imaginar. Ao contrário, a tradição judaica é calcada justamente na interpretação dos fundamentos religiosos, o que acaba por aproximá-los da realidade contemporânea, legando um retrato histórico da realidade de cada época. Nesse espírito, chega ao mercado editorial brasileiro uma nova tradução da primeira parte da Torá (Gênese), da Ed. Exodus, de autoria do psicanalista e estudioso do judaísmo Davy Bogomoletz, que pode interessar não apenas aos religiosos, mas também ao público em geral. Ela foi feita com base no texto original e na tradução do rabino argentino Marcos Edery, e traz uma gama variada de interpretações.

A Torá (ou Pentateuco, parte inicial da Bíblia hebraica e que corresponde também aos cinco primeiros livros do Velho Testamento para os cristãos) é o conceito central da tradição judaica. O termo significa “instrução” e oferece aos seus seguidores regras para viver de acordo com as obrigações religiosas e a lei civil. Em geral, o livro vem acompanhado de comentários feitos por rabinos ao longo dos tempos, interpretando e atualizando as leis divinas. Essa tradição de releituras faz com que, por exemplo, inovações médicas sejam mais bem aceitas hoje - mesmo temas considerados polêmicos para outras religiões, caso das pesquisas com células-tronco.

- Novas traduções da Bíblia existem muitas, mas traduções do Pentateuco por autores judeus só havia a do rabino Masliach, bem antiga; a de Jairo Friedlin e David Gorodovitz, mais recente, que traduziram a Bíblia Hebraica integral; e esta, do rabino argentino Mordechai (Marcos) Edery - explica Bogomoletz. - Enquanto as traduções anteriores ou eram destituídas de comentários, como a do Jairo Friedlin e David Gorodovitz, ou traziam muito poucas interpretações, como a do rabino Masliach, esta (do rabino Edery) tem sua força justamente nos comentários, uma coleção enorme de interpretações dos mais variados exegetas judeus, desde o gênio medieval Rashi até comentaristas atuais como Adin Steinzalz.

Muitas interpretações reunidas

Essas variadas interpretações, nas palavras de Bogomoletz, são justamente o grande diferencial desta nova edição, que mantém a atualidade das escrituras.

- Levando-se em conta que os judeus não leem a Bíblia (o Antigo Testamento) sem alguma interpretação da mesma, fica clara a importância desta edição - afirma o especialista. - Para os leitores não judeus, e para muitos judeus também, trata-se de um primeiro contato com a antiga arte judaica de interpretação do texto bíblico.

A ideia, de acordo com especialistas, é trazer o texto divino para o mundo real, como explica o psicanalista Paulo Blank, do Programa Transdisciplinar de Estudos Avançados da ECO-UFRJ, em análise sobre a nova tradução: “A tradição judaica preferiu trazer o texto bíblico ao mundo dos homens, que nele interferem através da linguagem que produz pensamento. Sem essa característica interpretativa, as narrativas bíblicas teriam se transformado numa ordem engessada pela sacralização da escritura.”

- Os judeus sempre interpretaram os textos bíblicos. “Toda geração tem seus intérpretes”, diz um célebre aforismo judaico. E o fato é que, a cada geração, surgem novas descobertas sobre sentidos de versículos e significados de palavras no mesmo texto - explica Bogomoletz. - Não se trata aqui de uma “diferença” entre as interpretações. Cada intérprete estudou a obra de seus antecessores e acrescenta as suas inovações.

Um paraíso sem maçãs

Neste primeiro volume, do Gênese, Bogomoletz cita exemplos de interpretações que, por conta das várias análises, trazem visões diferentes das cristãs. Eva, na tradição judaica, é criada a partir de um dos lados de Adão, não de sua costela. Ela é criada, como explica Bogomoletz, para defrontar-se com Adão, não para servi-lo. A costela, segundo ele, vem do folclore cristão. Tampouco há maçã no paraíso. Na tradição judaica, o “fruto proibido” não é nomeado. Da mesma forma, não existe o “terrível” pecado sexual pelo qual o cristianismo explica a expulsão do casal do céu. O pecado, na tradição judaica, é estritamente político, diz o tradutor, isto é, constituiu-se de uma desobediência.

- A sexualidade não teve nada a ver com isso - garante Bogomoletz. - Ao contrário, a sexualidade é explicitamente estimulada no texto, desde o famoso “Crescei e multiplicai-vos” até as inúmeras bênçãos que prometiam muitos filhos a quem as recebia.

Por conta dessa tradição das releituras e interpretações múltiplas, segundo a historiadora Mônica Selvatici, especialista em identidade judaica e cristã da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, o judaísmo tende a ser mais dinâmico, mais aberto a mudanças e inovações do que outras religiões.

- A tradição de múltiplas interpretações, de estudo contínuo do texto bíblico, me parece que torna o judaísmo mais aberto, sim. Ele não se fecha numa única verdade, numa única doutrina - afirma Mônica. - E é interessante essa tradução com os diversos comentários ao longo dos tempos, porque permitirá trabalhos variados sobre diferentes leituras históricas.

Bogomoletz concorda. E fala sobre a adaptação das religiões a questões que surgem com a vida moderna.
- Falando como judeu, o judaísmo acredita que Deus nos deu a vida, mas a medicina dos homens está aí para servir à Sua vontade de preservar a vida. Então toda inovação médica é bem-vinda, do ponto de vista dos rabinos, porque representa mais um instrumento a serviço do Criador. O judaísmo não proíbe o aborto, mas põe condições à sua realização (principalmente quanto ao tempo de vida do feto) - enumera. - Já o casamento gay é outra coisa; tem a ver com escolhas individuais, não com o salvamento de vidas em perigo. No entanto, há mais de 15 anos venho ouvindo falar de sinagogas para gays (nos Estados Unidos), e Tel Aviv, a principal cidade de Israel, é quase uma Capital Mundial do movimento gay, apesar de os ortodoxos rangerem os dentes contra.

Para os especialistas, a Torá é essencial também na construção da identidade judaica, como lembra o psicanalista Paulo Blank em sua análise da tradução do primeiro volume do livro. “Amos Oz, o escritor israelense bem conhecido do público brasileiro, publicou em 2012 pela Yale University Press um ensaio intitulado “Jews and Words” (Judeus e Palavras). Apesar de seu ateísmo declarado, ele identifica na adesão milenar às narrativas hebraicas da Bíblia e ao seu estudo — que manteve viva a língua original — o verdadeiro traço identitário dos que hoje se definem como judeus.”

Uma identidade em um texto

A historiadora Mônica Selvatici tem opinião semelhante.

- Os textos que formam o Pentateuco (a Torá) foram escritos em épocas bem distintas - explica Mônica. - No entanto, a edição final desse conjunto unido ocorreu no século VI a.C., quando Nabucodonosor destrói Jerusalém e leva parte da elite judaica para a Babilônia. Neste contexto do exílio, surge a necessidade de se fixar um texto que conferisse essa ideia, essa unidade, uma tentativa de fixação de um povo por meio de um texto.

Mesmo para quem não é religioso, a Torá tem um papel importante na construção da identidade judaica.

- Os religiosos judeus leem a Bíblia Hebraica como ela “foi entregue no Sinai” e acreditam inteiramente que ali está a História do Povo Judeu - explica Bogomoletz. - Já os leigos têm, cada qual, sua opinião mais ou menos fundamentada. Posso dizer que, embora muitas coisas (principalmente as mais antigas, anteriores à fundação do primeiro reino hebreu) possam ser consideradas lendas pelos leigos, não há muita dúvida de que tais lendas se basearam, muitas vezes, em tradições orais bem anteriores.

Professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ, Maria Clara Bingemer defende a ideia de que a Torá é importante para todas as religiões, não apenas a judaica:

- Sobretudo para as monoteístas. Na verdade, o judaísmo transformou o mapa religioso da Humanidade ao inaugurar a fé em um Deus único e pessoal - diz a teóloga. - Claro que isso foi um processo longo que teve etapas e fases até chegar ao monoteísmo tal como é vivido hoje pelo povo de Israel. E esse monoteísmo foi construído a partir da experiência do povo com a escuta de seu Deus, que foi registrada em uma escritura. Nessa escritura, a Lei de Deus (a Torá) tem uma importância fundamental por demonstrar que Ele está ligado à vida do fiel como indivíduo e à do povo como coletivo. A Torá significa esse registro escrito e permanente de um Deus pessoal que fala ao ser humano e lhe dá orientações de conduta para viver a verdadeira adoração e praticar a verdadeira justiça.

Fonte

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Todos irmãos: somos um só corpo no amor de Cristo




Um breve comentário a propósito da nossa postagem recente sobre o trabalho de nosso amigo, o diácono Marcos Lord, e seu alter ego, Luandha Perón (leia nossa postagem original aqui, e uma nota de esclarecimento do próprio Marcos sobre o trabalho da Betel e a presença da ICM no Brasil, aqui):

Temos muito orgulho dos laços de parceria e inquebrantável amizade que nos unem a nossos irmãos da Comunidade Betel - ICM Rio. Somos integralmente adeptos da atitude ecumênica e do diálogo inter-religioso defendidos e vividos pela Igreja Católica desde pelo menos o Concílio Vaticano II, ocorrido o começo da década de 1960. Acreditamos firmemente, como prega a doutrina católica, que todos os cristãos, católicos ou reformados, somos todos irmãos em Cristo e filhos de uma única e mesma Santa Madre Igreja. Para quem tiver interesse em se aprofundar no tema, indicamos a leitura do texto abaixo e dos documentos conciliares ali citados.

Com relação ao trabalho de Marcos como drag queen, a repercussão que teve a notícia constitui, a nosso ver, uma maravilhosa oportunidade para ampliar o entendimento e celebração da diversidade. Para nós, antes de podermos falar em definições de sexo biológico (
homem/mulher), identidade de gênero (masculino/feminino) e orientação sexual (homossexual, heterossexual ou bissexual) e todas as diferentes maneiras como os seres humanos, na magnífica diversidade com que o Pai nos criou (reflexo exuberante da Sua própria riqueza), transitamos entre essas diferentes instâncias - antes de podermos falar dessas identidades (e para que nenhuma delas se transforme em rótulo, estigma nem prisão), há algo que nos une e dignifica a todos, que é o fato de sermos, todos, Filhos Amados do mesmo Pai e irmãos em Cristo.

A esse respeito, uma boa leitura a respeito é o artigo "Imagem de Deus e Diversidade", aqui.

Um fraterno e caloroso abraço a todos! :-)

Equipe Diversidade Católica
 
* * *

O Concílio Vaticano II e o Ecumenismo

1. A forma como a Igreja católica vê hoje a tarefa ecuménica, considerando-a uma opção “irreversível” e “prioritária”, é impensável sem o Concílio. Por outro lado, o alcance do Vaticano II só se entende olhando para o peso que a consciência do problema ecuménico teve no decurso do processo conciliar.

A questão ecuménica esteve presente logo na intenção de convocar o Concílio (anunciada no último dia do Oitavário pela Unidade - 25.1.1959). Ainda antes do seu início, João XXIII criou o Secretariado para a Unidade dos Cristãos (15.6.1960), que veio a ter uma importância fulcral na forma como muitos temas foram refletidos. Finalmente, a 19.10.1962 (pouco depois do início da 1ª sessão), João XXIII elevou o Secretariado ao nível de Comissão conciliar, colocando-o em igualdade com as outras Comissões.

2. Do ponto de vista ecuménico, o Concílio representou um profundo salto qualitativo na consciência católica. Pode falar-se mesmo de uma “transformação epocal”, no sentido de que o Concílio marcou “o princípio do fim” de uma mentalidade de “Contra-Reforma”, que condicionou a identidade católica desde Trento até aos nossos dias, conduzindo-a a estreitezas confessionalistas limitadoras da sua catolicidade. Para essa mudança foi estimulante a presença de observadores não católicos.

3. Em termos de conteúdos, a importância ecuménica do Vaticano II encontrou expressão direta no Decreto Unitatis redintegratio (UR), votado a 19.11.1964, no mesmo dia da Lumen Gentium (LG). A coincidência de datas não é casual: o Decreto sobre o Ecumenismo tem de ser lido em estreita ligação com a Constituição sobre a Igreja. Todos os aspetos da renovação eclesiológica operada pelo Concílio são de relevância ecuménica: desde o novo sentido do mistério da Igreja à visão da Igreja como “Povo de Deus”; desde as bases de uma eclesiologia de comunhão à valorização, ainda que incipiente, da realidade das Igrejas Locais.

A abertura ecuménica na Lumen Gentium emerge sobretudo na perceção da comunhão que já existe entre todos os cristãos, comunhão essa assente em bens que edificam a Igreja: a Palavra de Deus escrita; a fé trinitária; a vida da graça; a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo, etc. (LG 15). Por isso, reconhece-se que a “Igreja de Cristo” não se identifica pura e simplesmente com a “Igreja católica”, mas “subsiste” nela. Ou seja: fora do espaço visível da Igreja católica há elementos de santificação e de verdade, há eclesialidade (LG 8).

4. Dois outros documentos são de grande significado ecuménico. Em várias das suas perspetivas – por exemplo, na conceção da Revelação ou na visão da relação entre Escritura e Tradição – a Constituição Dei Verbum coloca sob outros pressupostos o diálogo com os cristãos provenientes da Reforma. Não menos relevante é a Declaração Dignitatis humanae sobre a liberdade religiosa como um direito social e civil, individual e comunitário, a reconhecer pelo Estado em todas e quaisquer circunstâncias.

5. O Decreto sobre o Ecumenismo foi um dos documentos que requereu maior disponibilidade mental para a mudança (a sua aprovação exigiu grande capacidade de diálogo interno). Destacam-se algumas das suas afirmações: os cristãos não católicos são vistos como “irmãos no Senhor” (UR 3); há bens de salvação nas outras Igrejas e Comunidades eclesiais (UR 3); os católicos também foram responsáveis pelas divisões (UR 3 e 7); o ecumenismo exige disponibilidade para uma renovação permanente (UR 3 e 6); no centro da tarefa da unidade está o ecumenismo espiritual (UR 7 e 8); há uma legítima pluralidade na expressão da verdade cristã (UR 4, 9); importa atender à “hierarquia das verdades” da fé (UR 11).

6. A receção ecuménica do Concílio tem sido marcada por avanços e recuos (o que não acontece só na Igreja católica). De qualquer forma, avançou-se mais em quase 50 anos do que nos últimos cinco séculos. Basta ler a Encíclica Ut Unum Sint (1995) enquanto receção criativa do Concílio, a Declaração católico-luterana sobre a Justificação (1999) ou o documento católico-anglicano sobre Maria (2005) para confirmar isso.

Naturalmente, persistem tarefas bem complexas a enfrentar. A busca da unidade é questionada por novos problemas e frequentemente contraditada na prática concreta. Um problema fulcral é que muitos membros da Igreja (também hierarcas e teólogos) ainda não interiorizaram o que a tarefa ecuménica exige em termos de transformação de mentalidade e de abertura à ação criativa do Espírito.

- José Eduardo Borges de Pinho, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

Fonte: Agência Ecclesia

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A casa do Pai tem muitas moradas



O Diácono Marcos Lord, Líder Pastoral da Icm Betel Rio, foi notícia neste fim de semana no jornal O Globo, que fez uma matéria (leia aqui) sobre ele e seu alter ego, a drag queen (e também pastora) Luandha Perón. A reportagem ficou entre as mais lidas do site do jornal por pelo menos dois dias, trazendo, para nossa alegria, uma grande visibilidade ao lindo trabalho realizado pelos nossos amigos e parceiros da ICM Betel. (Leia nota de esclarecimento do próprio Marcos sobre o trabalho da Betel, aqui.)

Aproveitando a ocasião, divulgamos aqui um depoimento (público) que recolhemos no Facebook (aqui) e que nos emocionou profundamente. Porque Luandha tem razão: a casa de nosso Pai, onde Ele nos espera de braços e coração abertos, tem muitas moradas, e há lugar para todos - sem exceção nem condições.

NUNCA FUI TÃO PROFUNDAMENTE TOCADO POR JESUS como aconteceu hoje em minha vida.
Tudo começou quando decidi almoçar, no domingo, com os irmãos da Igreja Cristã Metropolitana da Baixada. Não queria participar do culto que antecederia, pois me recusava a participar de qualquer culto evangélico. Por este motivo aguardei que terminassem do lado de fora do local... Ao final, ouvi a música “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque de Hollanda, que me fez lembrar o musical “A Ópera do Malandro”, cuja canção fora feita para o Genival que tinha Geni como seu “nome de guerra”. Já neste momento lembrei-me da Susan Kidman, que muitos dos meus amigos conhecem muito bem... Ali soube que o Pastora Luandha Perón ministraria o culto de mais tarde. Achei incrível e queria muito estar neste momento, tirar fotos e postar pra qualquer irmão cristão de outras denominações o que é, de fato, ousadia, só para que estes pudessem comentar negativamente. Mesmo os que não comentam, costumam fazer seus julgamentos (como sempre) dentro de seus corações “puros”.
Cheguei cedo para o culto. Muitos membros sequer haviam chegados. Fiquei ansioso e torcendo para saber da repercussão que causaria após ser publicado na mídia. Fui me controlando até que ela surge para explicar a Palavra de Deus. Parecia que Deus falava comigo através dela. Senti a emoção tomando conta de mim aos poucos. Quando ouvi as seguintes palavras: “EU TE AMO! NA MINHA CASA TEM MUITAS MORADAS. VENHA MORAR COMIGO”, tive de me retirar e desabafar toda a amargura que estava em meu peito, no banheiro. No momento da ceia, já estava tão nervoso que quase derrubei o cálice da mão da pastora. Saí novamente e minha oração se resumiu em mais um choro doído. Ao final do culto, totalmente aquebrantado, decidi participar da singela homenagem feita aos amigos que partiram vítimas da AIDS.

Pensei comigo (o tempo todo reflito e questiono as coisas): “Maior que ser vitima da AIDS é ser vítima do preconceito”. E lembrei-me do amigo Luis Phellipe que partiu este ano... Então respirei fundo e entrei na fila para acender uma vela e ajudar a formar a cruz que se criava no chão. Ao chegar a minha vez, não consegui colocar a vela de pé. E ali, curvado em frente ao altar do Senhor, tive outra crise que não pude evitar. Minhas lágrimas saíram azedas como o vinagre que Jesus foi obrigado a tomar em seu sacrifício. Tirei os óculos e pus no chão, e tremia, num misto de tristeza, vergonha e alívio. Do meu coração parecia sair os pregos cravados por muitos evangélicos e homofóbicos que existem nas Igrejas... Neste momento pude ver as Mãos do Senhor me ajudando através de mãos cujas unhas eram pintadas e tinha um anel enorme em um de seus dedos. Deus estava ali, eu sei. Eu senti. Os cuspes e pedras que haviam me atirado estavam sendo limpos e retirados por uma Drag Queen. Então, sai dali para tentar entender o que estava acontecendo...

Sou como uma samaritana, inconformada por ser tão discriminada por esta sociedade machista, porém que fora acolhida nos braços de Jesus. Sou como o mendigo Lázaro, que retornou da morte por meio Jesus. Sou como a mulher impura, que apenas ao tocar nas vestes de Jesus, foi curada de seu mal. Sou como aquele que está à porta de muitas Igrejas, esperando um convite para entrar e permanecer como é...
Enfim, neste período pascal, Ele ressurgiu em minha vida, e por isso, sinto-me lavado e impulsionado a sair do meu comodismo pra fazer diferença neste mundo, com pessoas tão injustas e preconceituosas. Ele deseja que sejamos Sal que dá gosto à vida daqueles que não veem razão pra viver; quer que sejamos luz para os que vivem à marginalidade desta sociedade; quer também que caminhemos até Ele como somos e estivermos, entretanto sem máscaras. Porque estas, como maquiagem, já são usadas em muitas Igrejas.

Com carinho, para Marcos Lord.
* * *

ATUALIZAÇÃO EM 22/05/14:

Não deixe de ler nosso comentário a respeito da repercussão desta postagem, aqui, e a nota de esclarecimento do próprio Marcos, aqui :-)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...