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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Em severa crítica à Igreja, Francisco apresenta maior reforma do Vaticano em meio século


Jorge Bergoglio lança um projeto de “conversão do papado”, propõe a “descentralização” da Igreja e apresenta o plano da maior reforma feita no Vaticano em pelo menos meio século. No primeiro documento de seu próprio punho apresentado hoje, o papa Francisco explica em mais de 200 páginas seu projeto para o futuro da Igreja, lançando duros ataques contra sacerdotes e denunciando a guerra pelo poder dentro dos muros da Santa Sé.

“Desejo dirigir-me aos fieis cristãos para convidá-los a uma nova etapa de evangelização marcada por esta alegria e indica direções para o caminho da Igreja nos próximos anos”, escreveu em sua Exortação Apostólica publicada hoje, o Evangelii Gaudium do Santo Padre Francisco aos Bispos, Presbíteros, Diáconos às pessoas consagradas e aos fieis laicos sobre o Anuncio do Evangelho no Mundo Atual. “É uma nova evangelização no mundo de hoje, insistindo nos aspectos positivos e otimismo”, explicou o cardeal Rino Fisichella, presidente do Conselho Pontifical para a Nova Evangelização e que admite que o papa é “franco”. “O centro é o amor”, insistiu. “Sem isso, a Igreja é um castelo de cartas e isso é o nosso maior perigo”, declarou.

Em seu texto, Francisco apela à Igreja a “recuperar a frescura original do Evangelho”, mas encontrando “novas formas” e “métodos criativos”. “Precisamos de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como elas são”.

Uma parte central de seu trabalho será o de “reformar as estruturas eclesiais” para que “todas se tornem mais missionárias”.

O recado é claro: promover uma “saudável descentralização” na Igreja, num gesto inédito vindo justamente da pessoa que representou por séculos a centralização da instituição e sempre lutou contra repartir poderes. A esperança é de que as conferencias episcopais possam contribuir para “o sentido de colegialidade”.

A descentralização apontaria até mesmo para a abertura de espaços para diferentes formas de praticar o catolicismo. “O cristianismo não dispõe de um único modelo cultural e o rosto da Igreja é multiforme”, escreveu. “Não podemos esperar que todos os povos, para expressar a fé cristã, tenham de imitar as modalidades adoptadas pelos povos europeus num determinado momento da historia”. Para o papa, teólogos precisam ter em mente “a finalidade evangelizadora da Igreja”.

Nem o próprio papa estaria isento da reforma. Sua meta é a de promover uma “conversão do papado para que seja mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe quis dar e às necessidades atuais da evangelização”.

A burocracia e a aristocracia da Santa Sé também precisa ser revista. “Nesta renovação não se deve ter medo de rever costumes da Igreja não diretamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns dos mais profundamente enraizados ao longo da história”.

Bergoglio insiste que prefere “uma igreja ferida e suja por ter saído às estradas, em vez de uma igreja preocupada em ser o centro e que acaba prisioneiras num emaranhado de obsessões e procedimentos”.

Abertura – Um dos pontos centrais é ainda a abertura da Igreja aos fieis. “Precisamos de igrejas com as portas abertas” para evitar que aqueles que estão em busca de Deus encontrem “a frieza de uma porta fechada”. “Nem mesmo as portas dos Sacramentos se deveriam fechar por qualquer motivo”, escreveu.

A escolha dos fieis que deveriam comungar também é atacada pelo papa. “A Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um generoso remédio e um alimento para os fracos”, alertou.

Poder – O documento ainda lança severas críticas a padres e sacerdotes. O papa pede que se evite as “tentações” do individualismo e alerta que “a maior ameaça é o pragmatismo incolor da vida quotidiana da Igreja, quando na realidade a fé se vai desgastando”.

Pedindo uma “revolução de ternura”, o papa critica “aqueles (religiosos) que se sentem superior aos outros” e que apenas fazer obras de caridade não seria o suficiente. O papa também ataca os sacerdotes que “em vez de evangelizar, classificam os outros”, adotando um “certo estilo católico próprio do passado”.

Bergoglio também ataca os religiosos que tem “um cuidado ostensivo da liturgia, da doutrina e do prestigio da Igreja, mas sem que se preocupem com a inserção real do Evangelho” as necessidades das populações. “Esta é uma tremenda corrupção com a aparência de bem. Deus nos livre de uma igreja mundana sob cortinas espirituais ou pastorais”.

As batalhas por poder dentro do Vaticano também são alvos de ataques do papa contra a Igreja. Ele apela para que as comunidades eclesiais “não caiam nas invejas e ciúmes”. “Dentro do povo de Deus, quantas guerras”, lamenta o argentino. “A quem queremos evangelizar com estes comportamentos?”, atacou, indicando um “excesso de clericalismo”.

O papa ataca o “elitismo narcisista” entre os cardeais. “O que queremos? Generais de exércitos derrotados? Ou simplesmente soldados de um esquadrão que continua batalhando?”, questionou.

Até mesmo as homilias são alvos de ataque do papa. “São muitas as reclamações em relação a este importante ministério e não podemos fechar os ouvidos”. Bergoglio insiste que ela não deve ser nem uma conferencia e nem uma aula. “Temos de evitar uma pregação puramente moralista”.

Um ataque especial vai também aos religiosos que não se preparam devidamente para as missas. “Um pregador que não se prepara não é espiritual, é desonesto e irresponsável”, escreveu. Quanto às confissões, o argentino é ainda mais duro: “não se trata de uma câmara de tortura”.

Mulher – O papa volta a defender um maior papel da mulher dentro da Igreja. “Ainda há necessidade de se ampliar o espaço para uma presença feminina mais incisiva na Igreja, nos diferentes lugares onde são tomadas decisões importantes”, defendeu. “As reivindicações dos direitos legítimos das mulheres não se podem sobrevoar superficialmente”, apontou.

Bergoglio deixa claro a posição da Igreja contrária ao aborto. “Entre os fracos que a Igreja quer cuidar estão as crianças em gestação, que são as mais indefesas e inocentes de todos, às quais hoje se quer negar a dignidade humana”, escreveu.

“Não se deve esperar que a Igreja mude a sua posição sobre essa questão. Não é progressista fingir resolver os problemas eliminando uma vida humana”, declarou.

Economia – Bergoglio ainda destina uma parte importante de seu texto à situação mundial e não deixa de atacar o modelo econômico que prevalece. “O atual sistema economico é injusto pela raiz”, declarou. “Esta economia mata porque prevalece a lei do mais forte”.

“Os excluídos não são explorados, mas lixo, sobras”, atacou. “Vivemos uma nova tiraria invisível, por vezes virtual de um mercado divinizado onde reinam a especulação financeira, corrupção ramificada, evasão fiscal egoista”. O dinheiro, segundo ele, deve servir, e não dominar.

Para ele, esse modelo estaria promovendo uma “crise cultural profunda” nas familias. “O individualismo pos-moderno e globalizado promove um estilo de vida que perverte os vínculos familiares”, alertou.

O papa ainda apela para que a Igreja não tenha medo de se envolver nos debates políticos e que faça parte da luta por influenciar grupos políticos para garantir maior justiça social. Para ele, os pastores tem “o direito de emitir opiniões sobre tudo o que se relaciona com a vida das pessoas”, escreveu. “Ninguém pode exigir de nos que releguemos a religião à secreta intimidade das pessoas”, declarou.

Sua luta contra a pobreza também fica claro no documento. “Até que não se resolvam radicalmente os problemas dos pobres, não se resolverão os problemas do mundo”, declarou, fazendo um apelo aos políticos.Em seu documento, ele volta a defender os “mais fracos”, os “sem-teto, os dependentes de drogas, os refugiados” e apela a países que promovam uma “abertura generosa” aos imigrantes. Para ele, existem “muitos cúmplices” nesses crimes.

O argentino, porém, não deixa de apelar “humildemente” aos países muçulmanos que garantam a liberdade religiosa para os cristãos, “tendo em conta a liberdade de que gozam os crentes do Islã nos países ocidentais”. “Uma adequada interpretação do Corão se opõe a toda a violência”, defendeu. Bergoglio, porém, insiste na necessidade de fortalecer o diálogo e a aliança entre crentes e não-crentes.

Apesar dos desafios, o papa insiste que os fieis não devem desistir. “Se eu conseguir ajuda pelo menos uma única pessoa a viver melhor, isto já é suficiente para justificar o dom da minha vida”, concluiu.

Fonte: Estadão

Leia a exortação apostólica Evangelii Gaudium na íntegra aqui.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A Igreja caminhando no meio da noite com o seu povo


As 38 perguntas recebidas pelos episcopados do mundo (saiba mais aqui e aqui) foram colocadas repentinamente em rede por intermédio de uma pesquisa anônima e aberta a todos. Leia na reportagem de Piero Schavazzi, publicada no jornal L’Huffington Post, 05-11-2013, com tradução de Anete Amorim Pezzini, aqui reproduzida via IHU.

Atualização em 9-12-13: você já leu a carta de alguns grupos católicos LGBT brasileiros para os bispos? O texto, com o link para a petição (pra quem quiser assinar e apoiar), está aqui.
:-)

Projetada com a intenção de filtro para bispos e para paróquias, a sondagem promovida por Francisco tornou-se, assim, patrimônio de todos, “regulares” e especialmente “irregulares”, a começar pelos interessados diretos, ou seja, os casais protagonistas das novas realidades, ou “Rerum Novarum”, com alusão à mais famosa das encíclicas, a respeito da qual as palavras do documento apresentado mostra uma afinidade sugestiva.

“Delineiam-se hoje problemáticas inéditas até a alguns anos”, começa o texto que introduz o questionário, “a propagação dos casais de fato, que não procuram o matrimônio, e, às vezes, não excluem a ideia da união entre pessoas do mesmo sexo, a quem, não raro, é consentida a adoção de filhos”.

"Nós não podemos mais fazer o papel de avestruz”, sintetizou com cuidado explícitou o bispo Bruno Forte, teólogo progressista de renome mundial, que Francisco tirou de sua década de exílio na província como arcebispo de Chieti e nomeado Secretário Especial da Assembleia Extraordinária, programada para 5 a 19 de outubro de 2014, sobre “Desafios Pastorais da Família”, reunindo, em Roma, os presidentes de todas as conferências episcopais.

O seu convite para não enterrar a cabeça na areia e para não virar o olhar encontra nítido eco no preâmbulo: “Se, por exemplo, pensa-se no simples fato de que, no atual contexto, muitas crianças e jovens, nascidos de matrimônios irregulares, possam não ver jamais os seus genitores aproximarem-se dos sacramentos, compreende-se o quanto urgente são os desafios para a evangelização na situação atual, no entanto, espalhou-se para todas as partes da aldeia global”.

É o próprio Papa que presidirá as reuniões preparatórias de 7 e 8 de outubro, contribuindo com a individuação e redação das perguntas, incluindo a mais espinhosa: “No caso das uniões de pessoas do mesmo sexo, como comportar-se pastoralmente em vista da transmissão da fé?”.

Bergoglio não inovou somente o método, mas a estrutura do Sínodo, que, até agora, contradizendo a própria etimologia e natureza, parecia estático, não dinâmico, condescendente a priori, e independência plebiscitária contra os Pontífices.

Ao contrário, para a sua Igreja, Francisco tem em mente um “sistema bicameral” verdadeiro que se distinga pela vivacidade do debate e pela capacidade de mobilização.

Os jornalistas tiveram a prova na conferência de imprensa do bispo Lorenzo Baldisseri, toscano de Garfagnana e embaixador versátil, habituado aos países continentes do Brasil à Índia, hoje secretário da assembleia sinodal ou, se quisermos, em analogia com a linguagem parlamentar, porta-voz da “câmara baixa”, por definição, a mais próxima das pessoas.

De resto, Bergoglio não tinha deixado dúvidas acerca de seu entendimento na entrevista de setembro para a Civiltà Cattolica: “Os consistórios, os sínodos são lugares importantes para tornar a consulta verdadeira e ativa. Necessita, no entanto, torná-los menos rígidos na forma. Quero consultas reais, não formais”.

Provando que está falando sério sobre a experiência de partida, o Papa que, na juventude diplomou-se em química, escolheu o reagente mais explosivo – a moral familiar –, e a fórmula mais arriscada – um questionário de trinta e oito perguntas sobre os problemas em aberto e temas que queimam, suscetíveis de provocar uma reação em cadeia com consequências imprevistas: “Pode acontecer o que pode acontecer a todos aqueles que saem de casa e vão às ruas: um incidente”, tinha dito há seis meses durante a vigília de Pentecostes. “Mas eu lhes digo: prefiro mil vezes uma Igreja machucada, por causa de um acidente a uma Igreja doente porque fechada em si mesma!”.

Se Bergoglio dispõe do diploma em Química, Baldisseri possui um de piano: papa Ratzinger executava Mozart, Baldisseri, ao contrário, o genial compositor carioca Villa-Lobos, que inseriu no classicismo europeu os ritmos populares da América do Sul.

Para ler atentamente a partitura e escutar o papel de relator geral, bem como o primeiro tenor do Sínodo, o arcebispo de Budapeste, Peter Erdö, adverte que, de fato, a configuração que permanece por enquanto é a tradicional, mas mudou a interpretação, menos rigorosa e mais generosa, empreendedora e com traços aparentemente inacabados, com acentos suspensos e liberdade de expressão, e claramente estendeu firmemente a mão para conquistar um público diferente e mais amplo.

O documento confirma a mensagem das Sagradas Escrituras e o magistério do Concílio sobre os valores da família e sobre a lei natural, reiterando-o com as palavras do catecismo: “A aliança matrimonial, mediante a qual um homem e uma mulher constituem entre si uma comunhão íntima de vida e de amor foi fundada e dotada de suas próprias leis pelo Criador”.

Ao mesmo tempo, no entanto, perguntou desde a primeira indagação do questionário, se e até que ponto esse ensinamento é “conhecido e integralmente aceito” pelos fiéis: “O conceito de lei natural na relação da união entre homem e mulher é comumente aceito enquanto tal por parte dos batizados em geral?”.

Como na tradição dos verdadeiros parlamentos, a “câmara” reunir-se-á em duas sessões, com uma distância de um ano entre elas: uma assembleia extraordinária em outubro de 2014, para obter respostas e testemunhos, definindo o “status quaestionis” e medindo a extensão dos “desafios” que afetam e ameaçam perturbar a pastoral da família. Uma outra assembleia, ordinária, ocorrerá no outono de 2015, para assimilar os novos conceitos e desenvolver uma sensibilidade coletiva, ao longo de um caminho que envolve um bilhão de católicos, e desenvolve-se sob os olhos do mundo, confiando em Deus e confiando no instinto das pessoas.

“Os bispos, particularmente, devem ser homens capazes não somente de acompanhar com paciência o seu povo, de modo que nenhum fique para trás, mas também acompanhar o rebanho que tem um instinto para encontrar novos caminhos”, explicou Francisco no colóquio com Padre Spadaro.

Na ânsia de reformar o executivo com a incorporação dos ministérios, em que o concílio “constituinte” dos oito cardeais está trabalhando, Bergoglio transmitiu, portanto, um choque de adrenalina nas duas assembleias “legislativas”: a câmera alta dos cardeais e a baixa do Sínodo dos Bispos.

No papel, tratam-se dos órgãos consultivos, que não legislam, visto que o Pontífice Romano é ainda um monarca absoluto, mesmo na era de Francisco: ambos, porém, tornam-se legais, se o soberano reinante ratifica suas deliberações, no sentido de um exercício colegial do ministério de Pedro, que, sem afetar a constituição formal da Igreja, inova-a, todavia, a material.

A câmara alta de imediato virá reequilibrada geograficamente, já no consistório de fevereiro, redimensionando o componente italiano e europeu, para dar espaço aos países excluídos do último conclave. Mas, mais tarde, poderia ser modificada geneticamente, com o ingresso de uma mulher cardeal ou, pelo menos, uma reavaliação e reorganização do colégio que elege o Papa, integrando a linhagem divina dos purpurados com os representantes laicos do povo de Deus.

Há dois domingos, enquanto caía o pano na festa das famílias, a última quermesse no tema do Ano da fé, escrevemos que, no Vaticano, tinha aparecido o sinal “trabalho em curso”.

Francisco de manhã, nos seus discursos tinha voado alto, como os balões que alçam no céu de São Pedro, metáfora colorida de uma realidade mais variada, e “irregular”, dos preceitos que a retratam em preto e branco.

Um dia depois, no entanto, com os dias que se encurtavam, voltou celeremente ao hospital de campanha e aos corredores de emergência, que conduzem o caminho do Sínodo em direção à zona de sombra, em que a tarefa da Igreja e de seu questionário, em primeiro lugar, não é a clareza da doutrina, mas sentir a carícia divina sobre as feridas da vida: “Os ministros do Evangelho devem ser pessoas capazes de reaquecer o coração das pessoas, de caminhar no meio da noite com elas, de saber dialogar, e também de descer na noite delas, na sua escuridão sem perder-se”.

domingo, 11 de agosto de 2013

Zeca de Mello, confissões de um ex-padre que se reinventa seis anos após deixar a batina


"Me chamou a atenção que quase não se veem mulheres no Vaticano, e nunca em funções de decisão. As dificuldades que a Igreja tem com a sociedade contemporânea estão sempre no campo moral, sexual e familiar. Há dois mil anos a moral sexual e familiar tem sido elaborada por homens celibatários. É interessante, porque o pensamento moral social da igreja é muito avançado", reflete Zeca de Mello, que foi uma espécie de celebridade da Igreja no Rio de Janeiro dos anos 2000, conhecido como "Padre Zeca". Seis anos depois, saiu hoje no jornal O Globo sua primeira entrevista desde que deixou a batina. Pela pertinência de suas reflexões, achamos mais que necessário compartilhar aqui.

José Luiz Jansen de Mello Neto está em pé na porta do Antique Garage. O bar, decorado com espelhos, lustres e quadros de tempos imemoriais no coração do SoHo, foi o lugar que o próprio escolheu para dar a primeira entrevista desde que deixou de ser o padre Zeca, lá se vão mais de seis anos. Calça jeans, camisa polo azul-clara, aliança de ouro na mão esquerda, ele vai comandar o primeiro evento da The School of Life — uma espécie de Casa do Saber O GLOBO de conteúdo humanista fundada em Londres pelo filósofo Alain de Botton — no Rio, no próximo domingo (leia mais na página 30). Diante de uma carreira ascendente de professor, consultor e palestrante, sabe que a exposição será inevitável. Então sai falando sem freios, antes mesmo de escolher uma mesa e pedir um chá gelado.

Ele conta que está casado com uma americana de Nova York e por isso passa duas ou três temporadas por ano nos Estados Unidos, que o sogro tem uma loja de guitarras logo ali na Broome Street, que está louco para ser pai, que acaba de se mudar para um apartamento no Jardim Botânico. Small talk. O chá gelado chega. Ele dá um gole.

— Reparou que esses bancos são de igreja? — pergunta, apontando para o assento da repórter.

Aos 42 anos, Zeca — um carioca do Leblon que foi um dos mais jovens padres ordenados no Brasil — fala com carinho dos 18 anos que dedicou à Igreja Católica. Quando pediu afastamento, no fim de 2006, estava no auge da carreira: recém-chegado de um doutorado na Itália, coordenava o departamento de Cultura Religiosa da PUC e era uma estrela da Paróquia da Ressurreição, no Arpoador.

— Nunca tive crise de fé. Meu problema foi com a instituição — diz, enquanto levanta a sobrancelha esquerda, como voltará a fazer sempre que quiser sublinhar algum pensamento.

O “problema” de Zeca começou na segunda metade dos três anos e meio que passou estudando na Universidade Gregoriana de Roma, a partir de 2001. Ele era bolsista, morava numa casa de padres e preparava uma tese sobre Santo Agostinho.

— Me chamou a atenção que quase não se veem mulheres no Vaticano, e nunca em funções de decisão. As dificuldades que a Igreja tem com a sociedade contemporânea estão sempre no campo moral, sexual e familiar. Há dois mil anos a moral sexual e familiar tem sido elaborada por homens celibatários — critica, para em seguida divagar: — É interessante, porque o pensamento moral social da igreja é muito avançado.

As consequências, ele lembra, foram demolidoras:

— No final do segundo ano na Itália eu entrei em crise. Já tinha casado todos os meus irmãos, batizado todos os meus sobrinhos, meus amigos estavam tendo filhos, eu estava com 30 e poucos anos. Comecei a antever que seria muito difícil ter um futuro saudável e equilibrado sem uma família.

Foi mais ou menos quando Zeca conheceu Stephanie Pensa, bacharel em Literatura Italiana que trabalhava num programa da Universidade de Dartmouth em Roma.

— A gente se apaixonou — confessa. — Mas nunca deixaria o ministério por uma mulher. Quando a gente se conheceu eu já estava em crise. Sempre pensei que, se deixasse o ministério, essa responsabilidade deveria ser só minha. Então a vida nos separou, e só fui reencontrá-la anos depois: ela tinha terminado um relacionamento; eu não era mais padre e tinha acabado um namoro também (ele diz que teve “algumas namoradas, uma mais séria”, depois de largar a batina). Mas quando cheguei de Roma já estava decidido. Eu não tinha vivido muitas coisas de que gostaria. O mais honesto era pedir afastamento. Eu não quero ter uma vida dupla.

Stephanie, que depois fez mestrado em Educação de Paz na Columbia University e hoje dá aulas de inglês no Rio, surgirá no meio da sessão de fotos que sucedeu esta entrevista. Muito bonita, extremamente simpática, a morena de 31 anos — cabelo preso num coque displicente, jeans de bainha dobrada, camiseta sem manga e brincão de argola na orelha — lembra que ligou para Zeca quando voltou a Roma, a cidade que os unira, de férias com amigas. Ele foi encontrá-la em Nova York. Ela viajou para vê-lo no Rio. E outra. E outra. Os dois se casaram no dia 20 de agosto de 2011, com uma cerimônia celebrada pelo padre José Roberto Devellard, da Paróquia da Ressurreição, num clube frequentado pela família dela nos arredores de Manhattan.

— O Zeca sempre foi um padre muito querido. Agora mesmo, éramos três padres dizendo que sentimos a falta dele na Jornada Mundial da Juventude. Porque ele tinha e tem uma liderança natural, espontânea. Foi uma pessoa que somou tanto que eu, que não sou de viajar, fiz questão de celebrar o casamento dele. Se ele somava tanto na Igreja, agora esperamos que ele some na família — diz, por telefone, o padre José Roberto.

Parece cena de final feliz, mas, para Zeca, a vida está só começando. E não foi fácil chegar até aqui.

— Deixar o ministério é como se separar e perder o emprego no mesmo dia — ele compara. — Quando entrei para o seminário, era só certezas. No final, a única certeza era a de que o mais correto seria sair. Vem um sentimento de fracasso por não ter conseguido levar adiante um sonho, uma vocação. Eu sei que tenho uma vocação. Sempre fui feliz e fiz as pessoas felizes como padre. Mas uma hora chega uma questão existencial e ela é forte demais. Tive que repensar de que forma poderia ser útil à sociedade e me manter também. Você como padre não tem preocupação com plano de saúde, aluguel, nada disso. Tive que me reinventar.

Zeca precisou se afastar do cargo na PUC (“Não tem histórico de ex-padre dando aula de Teologia, talvez agora com esse Papa isso fique mais tranquilo, I hope so”, diz ele, numa das muitas vezes em que evoca o Papa Francisco). Chegou a pensar em sair do Brasil, mas acabou alugando um quarto e sala em Ipanema.

— Tenho muitos colegas que deixaram o ministério magoados com a Igreja. Eu não: sempre fui muito grato à formação que recebi, aos valores, às oportunidades que eu tive. Não queria sair dando entrevista e falando, não tinha por quê. Estava desempregado. Precisava iniciar o processo de reencontrar o meu lugar — conta.

A transformação do padre Zeca em Zeca de Mello começou na Coppead, a escola de negócios da UFRJ, com uma pós-graduação em Administração de Empresas. Ele leu muito: Paulo Freire, Edgar Morin, Leonard Boff, a filósofa italiana Michele Marzano. Já formado, foi surpreendido pelo convite de um executivo que frequentava suas missas para prestar consultoria na área de responsabilidade social de uma empresa de energia renovável com sede em Curitiba. Hoje, Zeca dá aulas no Crie (Centro de Referência em Inteligência Empresarial), da Coppe, é professor convidado da Fundação Dom Cabral e da Fundação Getúlio Vargas, roda o Brasil fazendo consultorias e palestras. Sempre na área de humanismo e gestão:

— Chamo minhas palestras de provocações fraternas. Trabalho nessa lacuna que existe entre o modelo educacional no qual nós fomos formados e o mundo de hoje. Viemos da escola das respostas certas, tínhamos que dizer a resposta que já estava prevista. E fazer tudo sozinhos. Nós inclusive definimos sucesso como não depender do outro. Hoje, o maior desafio nas organizações é colaborar para inovar.

Os Sermões Seculares que a The School of Life costuma promover com sucesso em Londres aos domingos são a mais perfeita tradução do trabalho que Zeca vem desenvolvendo. Eles consistem de uma celebração em torno de um tema específico, sempre sob o comando de um palestrante convidado, com direito a cantos, folhetos como os das missas e comida no final. A escola estreia no Rio justamente com um sermão. Uma oportunidade, nas palavras de Zeca, “para as pessoas se encontrarem e refletirem sobre questões relativas à vida”.

— A escolha do Zeca foi além do currículo, por ele ter sempre gostado das ideias do Alain e conseguir passar para as pessoas de maneira direta, clara e concisa o que tem a dizer. O Zeca tem uma experiência de vida eclética, ao lado de qualificações formais muito sólidas — diz a diretora-executiva da The School of Life, Jackie de Botton.

Zeca nem pensou duas vezes antes de eleger a gratidão como tema do sermão.

— Como padre, uma das experiências mais ricas que tive foi lidar com a dor da morte, em missas, hospitais, consolando famílias. Comecei a perceber a força da gratidão. A vida é um presente, a vida é um dom que não se conquista, é recebido gratuitamente. E diante de algo que é gratuito só há uma resposta à altura, que é a gratidão — justifica. — Quando perdi meu pai, há quase três anos, eu já não era mais padre e não celebrei a missa, mas no final dei uma palavra e falei justamente sobre isso. Eu morro de saudade do meu pai, e sempre agradeço pela vida dele. De alguma forma ele está vivo, toda vez que a gente lembra dele, quando eu falo dele. Percebi que o exercício da gratidão como postura diante da vida tem o poder de transformar as coisas mais duras.

Zeca agradece o fato de o pai, que trabalhava com construção civil e sempre quis que ele fosse advogado, ter tido a oportunidade de ver a sua retomada profissional. Os quatro filhos de José Luiz Jansen de Mello Filho foram criados indo à igreja todo domingo, mas, curiosamente, ele foi o único que se afastou da prática religiosa por um tempo, na adolescência.

— Achava missa uma coisa chata, uma celebração muito distante — diz ele, lembrando que tudo mudou quando foi fazer curso de crisma. — Ali tive uma experiência espiritual muito forte, justamente na época de escolher que caminho tomar, e pensei: quero ser um bom cristão. Isso fez sentido para mim.

Com 18 anos, ele saiu de casa com uma malinha e se internou no seminário.

— Minha família ficou muito preocupada. Minha mãe sempre dizia: “Meu filho, faz uma faculdade primeiro.” Meu pai foi duro comigo no início, foi difícil para ele, como temos o mesmo nome, pensar que eu não ia continuar a família — diz Zeca, que se graduou em Filosofia e Teologia e depois fez mestrado em Teologia Bíblica na PUC.

Zeca ainda não voltou a frequentar a igreja com assiduidade, mas pretende criar os filhos na tradição cristã.

— Nunca me senti excluído, mas é natural um afastamento num primeiro momento. Estou no processo de retomada do meu lugar na Igreja também. O Dom Orani (João Tempesta), quando virou Arcebispo do Rio, me chamou e tive uma acolhida ótima. Muito na linha do Papa, uma linha muito humana.

O assunto descamba, claro, para o Papa Francisco. Criador do movimento Deus é 10, que atraía milhares de fiéis à Praia de Ipanema, Zeca estava em Nova York durante a JMJ.

— Tenho muita esperança nesse Papa. Um Papa aberto, que trata a religião de uma forma muito próxima. Uma liderança simples, falando à vontade sobre qualquer questão. Quando falou sobre a inclusão das mulheres nas decisões... Agora a questão do celibato vai ser pelo menos discutida. Antes, não se podia nem tocar no assunto — elogia ele, que também aplaude Bento XVI: — Achei importante a atitude de renúncia, de entregar um cargo vitalício para alguém que pudesse fazer as reformas de que a Igreja precisa.

Enquanto isso, ele vai à praia, sai para dançar na Lapa, cuida com o irmão da fazenda de produção de leite que o pai deixou perto de Friburgo. Recebeu uma proposta de escrever um livro sobre a atualidade do pensamento de Santo Agostinho, “um dos maiores gênios do Ocidente”, baseado na tese que defendeu em Roma.

O legado da Igreja na sua vida?

— Acreditar que as pessoas podem mudar.

Fonte

Viver em minoria


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 12,32-48 que corresponde ao 19 Domingo do Tempo Comum, ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Lucas copilou no seu evangelho palavras cheias de afeto e carinho dirigidas por Jesus a seus seguidores e seguidoras. Muitas vezes elas não são percebidas. Porém lidas atentamente desde nossas paroquias e comunidades cristãs aparecem hoje com uma surpreendente atualidade. É o que se necessita para escutar Jesus nestes tempos que não são fácies para viver a fé.

“Meu pequeno rebanho”. Jesus olha com grande ternura para seu pequeno grupo de seguidores. Eles são poucos. É uma vocação de minoria. Não podem pensar em grandezas. Jesus imagina-os sempre assim: como um pouco de fermento escondido na massa, uma pequena “luz” no meio da obscuridade, um pouco de sal para dar sabor na vida.

Depois de séculos de “imperialismos cristãos”, os discípulos de Jesus aprenderam a viver em minoria. É um erro ter saudades de uma igreja forte e poderosa. É um engano procurar o poder do mundo ou tentar dominar a sociedade. O Evangelho não se impõe pela força. É contagiado por aqueles que vivem ao estilo de Jesus fazendo a vida mais humana.

“Não tenham medo”. Essa é uma grande preocupação de Jesus. Não quer que seus seguidores fiquem paralisados pelo medo ou afogados pelo desalento. Eles não devem nunca perder a confiança e a paz. Hoje, eles também são um pequeno rebanho, mas permanecendo unidos a Jesus, seu Pastor que os guia e os defende, podem viver com paz o tempo atual.

“O Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino”. Jesus lembra-lhes isso ainda uma vez mais. Eles não devem sentir-se órfãos. Tem a Deus como Pai. Ele confiou-lhes o seu projeto do Reino. Trata-se de um grande presente. O melhor que temos em nossas comunidades é a tarefa de que a vida seja mais humana e a esperança de conduzir a historia à sua salvação definitiva.

“Vendam os seus bens e deem o dinheiro em esmola”. Os seguidores de Jesus são um pequeno rebanho, mas nunca devem ser uma seita fechada em seus próprios interesses. Não podem viver de costas às necessidades de ninguém. Devem ser comunidades de portas abertas. Compartilham seus bens com todos os que precisam de ajuda e solidariedade.

“Deem esmola, isto é, “misericórdia”. Este é o significado original do termo grego. Os cristãos precisam mais tempo para aprender a viver em minoria no meio de uma sociedade secular e plural. Mas há algo que podem e devem fazer sem esperar nada em troca: transformar o clima que se vive nas comunidades, tornando-o mais evangélico. O papa Francisco nos está assinalando esse caminho com seus gestos e seu estilo de vida.

Fonte

sábado, 10 de agosto de 2013

Servos responsáveis!


Nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (11 de agosto de 2013). A tradução é de André Langer.


Referências bíblicas:
Segunda leitura: Hb 11, 1-2.8-19
Evangelho: Lc 12, 32-48

Nós continuamos no caminho que leva para Jerusalém, com Cristo e, no caminho, somos interpelados pela Palavra de Deus que nos questiona sobre a qualidade da nossa fé. Onde estamos como cristãos e cristãs? Como crentes? Como lideranças na Igreja? A carta aos Hebreus, da segunda leitura de hoje, nos recorda que: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hb 11, 1). Estamos convencidos disso? Na carta aos Romanos, Paulo chega inclusive a nos convidar a “esperar contra toda a esperança” (Rm 4, 18). E, portanto, quando olhamos para a Igreja de hoje, a Igreja que somos e que formamos, podemos nos perguntar se não estamos em pane, em falta de fé, porque a nossa Igreja não se arrisca mais; ela se assenta sobre seus dogmas e não avança mais nos caminhos do Evangelho, cujos caminhos ainda não estão demarcados ou previamente traçados. Felizmente, o Papa Francisco traz um pouco de frescor à nossa Igreja. Ele nos ensina que o medo, a certeza da fé e o autoritarismo abusivo são freios no caminho da vida cristã.

1. O medo

O Cristo do evangelho de Lucas diz aos seus discípulos: “Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino” (Lc 12, 32). Infelizmente, esse versículo foi, muitas vezes, mal interpretado: uma certa direita religiosa que acredita ter a verdade, porque faz parte do pequeno rebanho, do pequeno resto de Israel, e que impõe sua verdade mesmo quando permanece sozinha para crer nisso. Eu retorno ao Evangelho: o que Lucas nos diz é uma promessa que nos é feita. Prometer é dizer que será dado. É dar sua palavra, retardando o momento do dom efetivo. É confiar no outro, e convidá-lo para a confiança recíproca.

É isso que nos recorda o autor da carta aos Hebreus, quando escreve: “Pela fé, Abraão, chamado por Deus, obedeceu e partiu para um lugar que deveria receber como herança. E partiu sem saber para onde” (Hb 11, 8). Mas mais do que isso, diz a carta aos Hebreus, falando de Abraão, de Sara, de Isaac e de Jacó: “Todos eles morreram na fé. Não conseguiram a realização das promessas, mas só as viram e saudaram de longe: e confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11, 13). Isso quer dizer que os nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?

2. A certeza da fé

A fé nunca pode ser uma certeza. A única certeza que temos é não ter nunca certeza de nada. Doris Lussier dizia: “Eu não disse: eu sei; eu disse: eu creio. Crer não é saber. Eu saberei quando verei, como vocês outros. Se eu tenho que saber... E então, depois de tudo, como eu disse um dia a um amigo que é descrente: tu sabes, as nossas respectivas opiniões sobre os mistérios do além não tem grande importância. O que nós cremos ou o que nós não cremos, isso não muda absolutamente nada a verdade da realidade: o que é, é... e o que não é, não é, um ponto, é tudo. E temos de conviver com isso”. Doris Lussier descrevia sua fé da seguinte maneira: “Eu só tenho uma pequeníssima fé natural, frágil, vacilante, resmungona e sempre inquieta. Uma fé que se parece bem mais a uma esperança que a uma certeza”. E a esperança é a fé no seu melhor, dizia Charles Péguy, porque a esperança nos faz crer que amanhã será melhor, quando hoje tudo está mal. Eis a maravilha da esperança!

É a esperança que nos permite “estar com os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12, 35). Porque, para esperar o senhor voltar das núpcias (Lc 12, 36), é preciso saber esperar. Se estivermos certos de seu retorno, da data e da hora em que chegará, não precisamos mais esperar; saberemos exatamente como será seu retorno. É por isso que o evangelista Lucas formula esta bem-aventurança: “Felizes dos empregados que o senhor encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá” (Lc 12, 37). Para vigiar, basta esperar; caso contrário, para que serve vigiar? A certeza é o que há de mais prejudicial à fé, porque a certeza acaba por ter razão da esperança.

3. O autoritarismo abusivo

Lucas escreve: “Então Pedro disse a Jesus: ‘Senhor, estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?” (Lc 12, 41). Por meio de outra parábola, o evangelho parece dizer que os primeiros envolvidos são justamente aqueles que exercem uma responsabilidade dentro da Igreja; com a questão de Pedro, o Senhor ressuscitado, mestre da Igreja, interpela todos aqueles que têm por missão dar o grão da Palavra ao pequeno rebanho. Sobre o administrador fiel e sensato, que o senhor, na sua chegada, encontrará em seu trabalho, diz: “Em verdade, eu digo a vocês: o senhor lhes confiará a administração de todos os seus bens” (Lc 12, 44). Mas se os responsáveis pela Igreja sofrem do autoritarismo abusivo e se metem a rejeitar, condenar, marginalizar e excluir as mulheres e os homens que lhes são confiados, o mestre lhes tirará todas as responsabilidades: “Por isso eu lhes afirmo: o Reino de Deus será tirado de vocês, e será entregue a uma nação que produzirá seus frutos” (Mt 21, 43). Quanto mais se é responsável na Igreja, mais se deve produzir e dar os frutos: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12, 48b).

Para finalizar, gostaria de compartilhar com vocês a bela reflexão do exegeta francês Jean Debruynne sobre o evangelho de hoje: Um coração em desejo! “Sejam como pessoas que esperam... Mas, quem ainda pode ter tempo para esperar? Por acaso, o tempo não é dinheiro, e, atualmente, não é o tempo o item mais caro? Não são os prazos os mais ruinosos? Está na hora de não mais confundir espera com impaciência. A espera do Reino de Deus não é aquela de esperar o trem ou o avião partir. A espera do Reino de Deus é um coração em desejo e não o medo de se atrasar. Aquele que espera é aquele que ainda encontra no fundo de si um pouquinho de esperança acesa”.

Fonte

Estai preparados!


A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum (11 de agosto de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Sabedoria 18,6-9
2ª leitura: Hebreus 11,1-2,8-19
Evangelho: Lucas 12,32-48

Neste domingo, somos lembrados da importância da espera. E da alegria da espera: o Senhor voltará, mas nós já o possuímos. E Ele nos enche de felicidade: «O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem!»

Possuir desde já o que se espera
Trazemos todos no fundo de nós mesmos uma insatisfação escondida: uma certeza confusa de que tudo poderia ser melhor, de que poderíamos ser diferentes, de que as coisas que determinam a nossa situação atual poderiam e deveriam ser outras. As leituras de hoje estão cheias de referências a esta espera por uma "pátria melhor" (Hebreus 11,16). E o que esperamos exatamente? Não sabemos. No âmbito da fé, chamamos isto de «vida eterna» que consiste, diz Jesus, em conhecer -em sentido forte- o Pai e Aquele que Ele enviou; o Cristo (João 17,3). Conhecer, nascer com, para viver de sua vida. Esta é a Terra prometida para onde nos dirigimos sem que jamais, nesta vida, cheguemos a atingi-la. Como os Hebreus (11,13), nós a saudamos de longe, considerando-nos estrangeiros e viajantes nesta terra. Somos locatários provisórios dos lugares em que moramos. Mas isto não deveria nos instalar na tristeza e insatisfação? Não, uma vez que "a fé é a garantia dos bens que se esperam e a prova das realidades que não se veem" (Hebreus 11,1). A fé as antecipa. Quando a prostituta de Lucas 7 manifesta seu amor de reconhecimento antes mesmo de ter ouvido a palavra de perdão, ela copia a atitude dos Hebreus que celebraram a Páscoa antes mesmo de terem deixado o Egito: entoaram o hino de louvor, de ação de graças, antes mesmo de serem libertados, "como se isto já tivesse sido feito" (1a leitura). Alegremo-nos desde agora por aquilo em que nos tornaremos, pela vida para a qual somos chamados.

Conservai vossas lâmpadas acesas
Nosso evangelho inscreve-se perfeitamente no contexto que acaba de ser evocado. No versículo 32, Jesus nos recomenda não ter medo; a renunciar, portanto, à inquietação com respeito ao futuro. A insatisfação quanto ao nosso presente, moral, físico, espiritual, certamente tem fundamento. Corresponde ao que somos e vivemos; projeta-nos para o futuro. Mas insatisfação não quer dizer inquietude e nem mesmo medo; estas duas atitudes sinalizam a ausência da fé. E por que podemos de fato não ter medo? É Jesus quem o diz: porque «foi do agrado do Pai dar a vós o Reino». Reino significa realização, paz alegria. Mas leiamos de novo a frase que acabamos de citar: o Reino não é apresentado simplesmente como promessa, mas como um dom já realizado. Acrescente-se a isto outra palavra de Jesus: «O Reino de Deus está no meio de vós.» Ou «entre vós», ou «em vós». O futuro está já aí, portanto, presente já. Um pouco como o adulto está presente na criança. Digamos que a promessa de Deus já foi realizada na medida em que cremos nela. A nossa maneira de possuí-la é esperá-la. Espera simbolizada pelas lâmpadas que é preciso conservar acesas. Finalmente, o que esperamos não é alguma coisa, mas Alguém. E sua presença nos irá saciar porque é presença do amor. Este Amor que é «o Outro», capaz de nos penetrar e de nos transformar.

Vigiar sem descanso
Nenhum repouso nesta espera; as lâmpadas não devem se apagar jamais. É este exatamente o sentido dos versículos 35-40. Na seqüência, introduz-se, no entanto, um novo tema. De fato, o que pode exatamente significar vigiar sem descanso? Será que iremos nos tornar obcecados por esta espera, tendo apenas isto na cabeça, como um pensamento único? É claro que não. Seria um esforço em vão e logo nos descobriríamos incapazes de uma constância deste tipo. Já não é difícil para nós perseverarmos em oração, em nossa participação na missa, por exemplo, sem a menor distração? Felizmente, a partir do versículo 42, Jesus nos explica em que consiste a espera perfeita. Não se trata de manter os olhos fixos na porta para observar o momento da entrada do mestre, mas de fazer o nosso trabalho conscienciosamente. Num certo sentido, a espera do Cristo passa pelo trabalho que se nos impõe. Mas não importa como: o desejo e a espera da vinda de Deus são como uma bem leve coloração que afeta tudo o que vemos, sofremos e fazemos. Uma atmosfera em que tudo está imerso. Uma espécie de distância que nos permite dominar todas as coisas e não nos deixa afundar nas águas que não nos são favoráveis, a não ser que permaneçamos na superfície. Se esta espera se esvanece, somos entregues a todos os demônios. O chefe da casa (o responsável, conforme o v. 42 do nosso texto) não se preocupa mais com o pão dos seus empregados, mas pensa apenas em dominá-los e explorá-los (v. 45). Ao contrário, esperar é amar.

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terça-feira, 6 de agosto de 2013

O significado do silêncio


A atenção aos pobres e as desigualdades sociais protagonizaram as declarações do papa Francisco durante sua visita ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, prevalecendo sobre temáticas de moral sexual mobilizadas com mais freqüência e veemência no papado anterior de Bento XVI. Em uma semana, o papa conclamou os jovens a serem revolucionários (no sentido de não aceitarem a ideia do casamento sacramentado como algo fora de moda), falou em “humanismo na economia”, fez uma autocrítica em relação ao distanciamento da Igreja para com os fiéis – para ele, motivo da notória perda de seguidores em todo o mundo – e chegou a louvar a importância da laicidade do Estado para o convívio pacífico entre diferentes religiões.

Ao contrário do que se esperava, Francisco não aproveitou a oportunidade de passar aos jovens lições da moral católica, preferindo calar-se sobre temas como casamento gay, aborto e uso de métodos contraceptivos. Apenas em sua viagem de volta à Roma, em entrevista a jornalistas presentes no mesmo vôo, o papa tocou em assuntos como a homossexualidade e o papel da mulher na Igreja. Sobre este último disse que as mulheres têm um papel essencial na Igreja, embora o pontífice tenha se mantido contrário à ordenação. Sobre a homossexualidade, disse: "Se uma pessoa é gay e busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?"

Foi o bastante para que Francisco ganhasse a simpatia de representantes de movimentos LGBT brasileiros, que viram com bons olhos as declarações do papa e entenderam o posicionamento como um sinal de abertura e diálogo.Muitos deles afirmaram-se esperançosos, acreditando que a mensagem do papa possa vir a contribuir para o combate à discriminação. Mas até que ponto as declarações do papa sobre alguns temas e o seu silêncio sobre outros representam realmente alterações significativas no rumo e na doutrina da Igreja Católica? Que efeitos a visita de Francisco pode trazer na maneira como algumas questões serão tratadas no cotidiano pastoral da Igreja daqui para frente?

Para Sérgio Carrara, antropólogo e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, não é possível afirmar que haja uma mudança doutrinária em termos de moral sexual. “A fala do Papa sobre os gays não significa uma alteração no sentido que a homossexualidade possui na doutrina. Não foi uma declaração que negasse a ideia de pecado que define a relação entre pessoas do mesmo sexo. Pela declaração, não fica claro a opinião do papa sobre o tema”.

Opinião semelhante à da co-coordenadora do Sexuality Policy Watch (SPW) Sonia Corrêa. “A rigor, não houve alterações do ponto de vista doutrinário. A ideia de pecado permanece. O que se pode apontar como diferencial é a ênfase na compaixão e na misericórdia. Ainda assim, uma compaixão que aparece atrelada à fé, possibilitada por aquele que busca a Deus, nas palavras do papa”, observa.

Para um membro do grupo Diversidade Católica, que prefere não se identificar, a fala do Papa Francisco sobre homossexualidade representa uma grande mudança. “Francisco usa o termo ‘gay’ e não ‘homossexual’, que aparece na doutrina oficial como um termo hostilizado. Há, nesse sentido, a incorporação de um vocabulário da militância pelo líder da Igreja Católica. Também acredito que não há avanço em termos doutrinários, mas não se pode descartar o tom positivo de acolhida que se vê na fala do papa. Há uma mudança no tom que propicia condições para potencializar mudanças”, acredita o integrante da Diversidade Católica.

A mensagem do Papa para os gays não pode ser analisada separadamente da observação subseqüente do pontífice. Francisco afirmou que o problema não é ter essa tendência [a homossexualidade], mas sim o lobby [gay], comparando ao lobby de pessoas avaras, da maçonaria e dos políticos. Não fica claro, porém, se a referência é ao lobby dentro do Vaticano ou a grupos de advocacy dos direitos LGBT. “O Papa parece sugerir um contraste entre a politica "negativa" que segundo ele é praticada por lobbies elitistas - os avaros, os políticos, os maçons e os gays - e a conexão não elitista da igreja com as classes subalternas. Essa retórica, entre outras coisas, oculta as práticas de pressão política da Igreja e do próprio Vaticano sobre e por dentro dos estados. A aprovação da Concordata Brasil Vaticano em 2009 é uma ilustração cabal que a Igreja também faz lobby", afirma Sonia Corrêa.

A despeito da histórica oposição do Vaticano às perspectivas dos direitos sexuais e reprodutivos – como o uso da camisinha e da pílula, por exemplo –, na prática, a vida dos católicos nem sempre está em acordo com as recomendações morais da Igreja. Pesquisa divulgada pelas Católicas pelo Direito de Decidir durante a JMJ mostrou que o uso de pílula anticoncepcional é aceito por 82% dos jovens católicos. Além disso, 56% dos jovens mostraram-se favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

(...) O papa, durante a JMJ, falou em laicidade, no sentido de uma convivência pacífica entre as diversas religiões, e não como o princípio de separação entre o poder político e administrativo do Estado e o poder religioso. Sobre essa abordagem, Sérgio Carrara avalia que é uma posição interessante pelas implicações que isso pode trazer. “A declaração traz a questão da laicidade para a convivência entre doutrinas diferentes. No entanto, quando isso se volta para a laicidade enquanto princípio jurídico, é possível refletir sobre determinadas implicações. A separação entre Estado e Igreja tem sido um argumento mobilizado por movimentos sociais para promover e garantir direitos sexuais e reprodutivos. Portanto, é possível deduzir que o comentário pode trazer contribuições para o diálogo com minorias”, argumenta Sérgio Carrara.

A não tematização de determinados assuntos deve ser olhada também com atenção. Seria uma sinalização que enseja o debate sobre assuntos sensíveis? Não se viu declarações sobre aborto ou contracepção, por exemplo. De acordo com Sérgio Carrara, o foco do papa tem sido a desigualdade social e a pobreza, cujo destaque tem deixado de lado questões ligadas à moral sexual. “As falas do Papa apontam para alterações sutis. Embora nada novo em termos de doutrina tenha sido proposto, é possível avaliar que exista um deslocamento na hierarquia das questões, como se ele apontasse que aquilo que diz respeito à sexualidade fosse uma questão de foro íntimo. A Igreja, nesse sentido, estaria sinalizando um deslocamento de ênfases”, analisa Sérgio Carrara.

O silêncio de Francisco, avalia o integrante da Diversidade Católica que prefere o anonimato, é muito emblemático. “O papa tem demonstrado, desde que assumiu, que as posições da Igreja sobre moralidade sexual já são suficientemente conhecidas. Assim, ele parece se abster de retomar as proibições morais. Ao fazer isso, deixa aberto um caminho de diálogo”, observa.

Talvez o silêncio do papa signifique que ele – Francisco – não esteja querendo reiterar as velhas posições da Igreja. Não que ele esteja se afastando da doutrina tradicional, apenas está evitando insistir nela.

Publicada em 01/08/2013 pelo CLAM, aqui

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

“Não julguem, e vocês não serão julgados” (Mt 7,1)




Francisco “leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem”, escreve o teólogo José María Castillo, em artigo publicado em seu blog Teología Sin Censura, 30-07-2013. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU.

Se algo está ficando evidente em relação ao papa Francisco, cada dia mais evidente, é que se trata de um papa que acredita mais no Evangelho do que no papado, que leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem. Não pretendo discutir agora, nem sequer insinuar que haja, ou possa haver, contradições entre o Evangelho e o Vaticano. Refiro-me ao que é a “convicção determinante” na vida.

Essa convicção pode ser a bondade ou pode ser o poder. Existiram papas cuja convicção determinante foi a bondade, assim como papas cuja convicção determinante foi o poder. Pois bem, o mecanismo que faz funcionar a bondade é o respeito a todos, ao passo que o mecanismo que faz funcionar o poder é o julgamento. Isto ficou claro no princípio satânico que a serpente pronunciou, no mito do paraíso, quando disse para Eva: “Vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3, 5).

O que define Deus, segundo o demônio, é o poder que delimita o que está bem e o que está mal. E para isto, muitas vezes, os chamados “representantes de Deus” na terra se dedicaram. Por isso, sem dúvida, o papa Francisco se dedicou, em seu ainda curto pontificado, a atiçar fortemente os clérigos, começando por ele mesmo, pelos papas, os cardeais, os bispos, os padres, os freis... Os clérigos, disse Francisco, tem distanciado os jovens da Igreja. Uma Igreja que se dedicou em julgar a bons e maus. Uma Igreja que se dedicou a se “fazer de Deus”, a produzir a impressão de que tem a última palavra, como se fosse Deus.

Por isso, em poucos minutos, a resposta que Francisco deu a um jornalista no avião, em seu retorno do Rio de Janeiro para Roma, circulou o mundo: “Se uma pessoa gay busca ao Senhor, quem sou eu para julgá-la?”. Francisco tem consciência de sua responsabilidade. Contudo, também sabe que esta responsabilidade está limitada por sua condição humana. Uma condição e sua conseguinte limitação, que o Papa sempre leva consigo, por mais papa que seja. Jesus proibiu seus operários de arrancar a cizânia do mundo porque – tenham a tarefa que tiverem – podem se equivocar. E pode muito bem acontecer que ao invés de arrancarem a erva daninha, passem a vida por este mundo arrancando o trigo de Deus (Mt 13, 24-30. 36-43). Apenas os anjos de Deus, em definitivo, somente Deus pode saber e pode decidir o que está bom e o que está ruim.

E para terminar, um critério que o papa Francisco deixou muito claro: “Os pecados se perdoam, os crimes não”. O problema é que abundam os clérigos (com seus coroinhas) que, caso seja preciso, atiram-se na rua para pedir que, enquanto for possível, algumas coisas que o Catecismo diz sejam copiadas no Código Penal. Já é ruim pecar e ter que se confessar, entretanto, se acima disto, você precisa passar pelo juizado para acabar na prisão... não é isso pretender que o nacional-catolicismo retorne?

Santo Deus! Não nos cansemos de ser boas pessoas. Porque apenas a bondade – e sempre a bondade – tem força para mudar o mundo. E até para dar uma nova virada na história.

domingo, 4 de agosto de 2013

Cidadania e Estado Laico: reflexões em torno do momento atual brasileiro


Excelente e profunda a análise de Ivone Gebara no Adital sobre a liberdade de consciência numa sociedade pluralista e num Estado laico. Selecionamos apenas o trecho final, mas vale ler o texto inteiro aqui.

"As crenças religiosas nos espaços políticos públicos são um fenômeno crescente em nossa época e em nosso meio. Elas invadem os espaços públicos mesmo num Estado que constitucionalmente se afirma como laico. Deputados, senadores, vereadores, juízes eleitos ou escolhidos para servir o bem comum não conseguem estar isentos de suas crenças religiosas. Suas crenças passam a ser bandeiras políticas de forma que estamos continuamente sendo vítimas de um Estado religioso constitucionalmente afirmado e reconhecido como laico. Este paradoxo pode ser observado nas muitas manifestações religiosas que temos assistido nos últimos anos para interferir em políticas públicas, sobretudo as que tocam a sexualidade humana. Vale notar, nesse particular, o uso indevido de textos religiosos para fundamentar posturas políticas através de uma retórica impressionista usada para convencer o público. Creio que isto é um delito que atenta contra a Constituição Nacional e merece ser enfrentado pelo conjunto de cidadãs e cidadãos das mais diferentes formas.

A questão é de saber como se pode colocar entre parêntesis sua crença religiosa em favor do bem comum. Ou, como crescer em consciência em relação à diversidade de situações num mundo tão complexo quanto o nosso? Como se educar para uma sociedade pluralista onde minha crença religiosa e política não é verdade para toda a sociedade? Além disso, trata-se de educar-se para discernir entre a necessidade de leis e minha escolha pessoal. Não é porque existe a legalização do aborto ou casamento homossexual que tenho que vivê-los e nem acreditar que as pessoas serão menos morais ou menos responsáveis se uma lei se efetivar. Em outros termos, não é porque o casamento homossexual ou heterossexual existe que vou me casar e nem porque o aborto é permitido por lei que vou abortar. As muitas polêmicas de nosso tempo não chegarão a lugar nenhum se não assumirmos a realidade do pluralismo de nossa nação e de nosso mundo. Pluralismo significa diversidade e diversidade significa que algumas leis devem ter validade para todos os cidadãos/ãs e outras podem ser escolhas de cada um e cada uma diante de sua própria consciência e da contingência em que está vivendo. Significa igualmente não bloquear o caminho e as escolhas de outras pessoas que vivem e pensam diferentemente de mim.

Nesse contexto as muitas soluções devem ser relativizadas, isto é, entendidas a partir da diversidade e particularidade das situações. Por exemplo, algumas soluções afirmam a necessidade de leis proibitivas em torno da sexualidade e apostam numa legislação rígida que tenha efeito punitivo das /os infratores. Outras optam por uma legislação permissiva que chame a atenção da responsabilidade individual e coletiva frente aos problemas da sexualidade. Outras ainda propõem medidas educativas com diferentes propostas. E nesse universo de observações há igualmente uma grande maioria da população que está fora do debate e da busca de soluções. Estão numa postura de desinformação política e social aguardando que um problema individual irrompa e venha motivar a sua procura imediata de soluções.

Nessa conjuntura somos chamadas/os ao discernimento e a uma reflexão que busque ver os muitos matizes de uma mesma situação. Não há mais lugar para posições absolutas, para princípios imutáveis fundados numa imagem de Deus que é facilmente manipulada pelos diferentes grupos. O desinteresse pelo pensamento é algo que nos choca. Reduz-se o pensamento crítico aos interesses individuais ou partidários sem que se reflita na humanidade plural que constitui a nação brasileira e todas as outras nações do mundo. Estamos necessitadas de uma compreensão não sectária de nossos problemas e da busca de soluções viáveis. Essa compreensão deve ser ampla para ser compatível com as diferentes visões do que se considera vida justa e bem viver. Mas, onde vamos encontrá-la? Creio que o único caminho é o diálogo incessantemente recomeçado pelos diferentes grupos, um diálogo onde desde o início, embora com nossas convicções, estejamos dispostos a ouvir os outros. Ouvir é a grande questão, pois na realidade desaprendemos a ouvir numa sociedade onde predomina o barulho das máquinas, dos muitos sons, dos muitos gritos humanos que de tão fortes não conseguem ser distinguidos pelos ouvidos de uns e de outros. Baixar a nossa voz, talvez até silenciar para ouvir a melodia da música alheia, para aprender outros sons que também constituem as notas da musicalidade humana e da sinfonia do universo. Baixar a voz para aprender a pensar, para escutar a nossa voz interior. E só então, dar alguns passos em conjunto sabendo que estamos todas/os a caminho, com possibilidades inevitáveis de tropeçar e de perder o rumo, mas estamos juntas/os na extraordinária aventura humana."

sábado, 3 de agosto de 2013

A Igreja da empatia


O teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão, publicou o artigo abaixo no jornal La Repubblica, 30-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto, para o IHU.

É muito provável que os comentários sobre as declarações do papa sobre as pessoas homossexuais se dividam em duas correntes contrapostas entre si.

De um lado, aqueles que desejam uma decisiva reforma das posições da Igreja Católica entenderão as palavras do papa como revolucionárias, diferentes, anunciadoras de mudanças. De outro lado, aqueles que pretendem conservar o status quo lerão as mesmas palavras do papa como totalmente coerentes com as posições de sempre, aquelas reiteradas várias vezes por João Paulo II e Bento XVI.

E é preciso dizer, na verdade, que, na ausência de atos efetivos de governo do Papa Francisco voltados a modificar a legislação canônica vigente, ambas as posições têm a sua legitimidade própria. De fato, o papa não disse nada que Bento XVI também não teria assinado embaixo, dizendo que: 1) as pessoas homossexuais como tais devem ser acolhidas e em nada discriminadas, enquanto os atos sexuais delas não podem encontrar acolhida dentro da ética católica; 2) para os divorciados em segunda união, o primado deve ser atribuído à misericórdia; 3) a mulher deve ter mais espaço no governo da Igreja, mesmo que a Igreja não poderá chegar a lhe conceder a admissão ao sacerdócio, excluído das mulheres católicas definitivamente.

Por que, então, por parte de todos no mundo se sente nas palavras do papa uma sensação de novidade e de esperança, de inovações? Por que esse entusiasmo por palavras que, nos conteúdos, não modificam em nada a tradicional abordagem ética e dogmática católica? Eu penso que seja pelo clima de empatia que circunda a pessoa do pontífice e pela necessidade de mudança e de reforma que os católicos de todo o mundo sentem. Mas especialmente pela frase, esta sim totalmente inovadora para um papa, "quem sou eu para julgar?". Uma frase que, a meu ver, nem Bento XVI nem João Paulo II jamais poderiam ou quereriam pronunciar.

Essas palavras colocam o papa não mais entre os chefes de Estado e os poderosos deste mundo, que, por definição, julgam, mas sim entre os discípulos de Jesus atentos a pôr em prática as palavras do Mestre: "Não julguem e não serão julgados; não condenem e não serão condenados, perdoem e serão perdoados" (Lucas 6, 37). De tudo isso, porém, deve brotar uma consequente ação de governo, finalmente sob a insígnia da novidade evangélica (assim como são os gestos extraordinariamente simples e poderosíssimos desse papa).

Eu falei antes de empatia e gostaria de salientar que a empatia é muito importante, não só, como é óbvio, em nível psicológico, mas também em nível teológico. O termo, de fato, remete à palavra grega pathos, que significa paixão, e que constitui um dos conceitos centrais do cristianismo, a partir da paixão de Cristo e do amor que define a essência de Deus, amor que, por sua vez, é paixão e gera paixão.

O fato de que o Papa Francisco seja cercado por um abraço de empatia em nível mundial não se explica apenas em nível humano pela sua carga pessoal e pela espontaneidade e a simplicidade dos seus gestos; explica-se também em nível teológico e espiritual pelo seu ser capaz de representar a paixão de Deus pelo mundo.

Portanto, a empatia que circunda o papa (e que nos leva a ver em cada palavra sua algo de novo mesmo quando, por si só, não haja nenhuma novidade) é extremamente preciosa, é um sinal do Espírito, diríamos na linguagem teológica. E o papa não a deve decepcionar, deve estar à sua altura até o fim, indo ao encontro da necessidade de mudança que a maioria dos católicos no mundo sente com relação à Igreja.

De fato, é insustentável a posição católica tradicional com relação tanto às pessoas homossexuais, quanto às pessoas divorciadas, quanto ao papel atualmente ocupado pelas mulheres dentro do governo da Igreja. E é preciso coerência: não se pode proclamar em palavras o respeito pelas pessoas homossexuais e a sua igual dignidade de filhos de Deus e, depois, julgar a sua condição como condenada pela lei natural e pela Bíblia.

Ao contrário, se verdadeiramente se quer mostrar de modo concreto o respeito de que se fala com relação a eles, é preciso pôr em ação hermenêuticas consequentes tanto da lei natural (a ser entendida em sentido formal como harmonia das relações, e não como definições de papéis e de comportamentos), quanto das passagens bíblicas que condenam as pessoas homossexuais relegando tais páginas ao lado daquelas que favorecem a guerra ou a inimizade com relação às outras religiões (e que não merecem ser levadas em consideração). Ou seja, é preciso chegar ao evangélico "não julgar" e "não condenar".

Do mesmo modo, se verdadeiramente se quer que a misericórdia tenha o primado para os divorciados em segunda união, é preciso pôr em ação uma disciplina canônica dos sacramentos que lhes conceda que eles se aproximem sem nenhuma discriminação (assinalo, a esse respeito, o recente livro de Oliviero Arzuffi, Caro papa Francesco. Lettera di un divorziato, Ed. Oltre).

Da mesma forma, enfim, se verdadeiramente se quer que a mulher tenha maior poder dentro da Igreja, deve-se proceder em conformidade e, mesmo sem chegar à ordenação sacerdotal, deve-se permitir que as mulheres se tornem cardeais e ministros com plenos poderes de governo da Igreja (hoje, para se acessar ao cardinalato, é preciso ser diácono ou sacerdote, e as mulheres podem ter acesso ao diaconato, como testemunha o Novo Testamento, basta lê-lo e aplicá-lo).

"Quem sou eu para julgar?", disse o papa, e nisso se fez discípulo de Jesus. Mas Jorge Mario Bergoglio, como pontífice reinante, pode fazer com que essa mentalidade não julgante se torne a prática corrente da Igreja com relação às pessoas homossexuais e aos divorciados em segunda união. Diante dele, está a tarefa de não decepcionar a empatia que o circunda e as esperanças de renovação evangélica de muitos crentes e "pessoas de boa vontade".

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Nova série de vídeos sobre gays católicos


O Papa Francisco não foi o único jesuíta a, nesta semana, ser notícia no que concerne às declarações positivas relacionadas com temas respeitantes às pessoas de orientação homossexual.

Também a Ignatian News Network, uma companhia de produções dos jesuítas da California, lançou um video no YouTube, que é o primeiro de uma série sobre homossexuais católicos e a igreja e intitulado "Quem Somos Nós Para Julgar?".

Este primeiro episódio contém entrevistas com o padre jesuíta James Martins, autor espiritual de renome, e com o padre jesuíta Matt Malone, editor-chefe da America Magazine, uma revista católica americana. O episódio contém ainda uma entrevista com Arthur Fitzmaurice, um homossexual católico que é diretor de recursos da Catholic Association for Lesbian and Gay Ministry. Todos falam de forma positiva sobre os esforços de evangelização que muitas pessoas dentro da igreja católica estão a realizar com as pessoas LGBT.

O pessoal do Rumos Novos (Portugal) legendou o vídeo e o compartilhou aqui.

Criando uma bagunça carregada de verdade e livre de julgamentos

 "Todos" significa "todos"

Tenho refletido sobre as várias mensagens que recebemos do papa esta semana: "viva a sua verdade", "faça uma bagunça", e "quem sou eu para julgar". Esta semana tem sido incrível e eu sei que novas ideias surgirão a cada vez que olharmos em retrospecto para este momento, seja na próxima semana, daqui a dois meses ou daqui a 10 anos.

(...) Foram as suas últimas palavras, "quem eu sou para julgar", que me marcaram mais. Ele está apenas reafirmando a posição tradicional da Igreja, mas mudando o foco da "desordem" para "nenhuma marginalização"? Ou é um vislumbre, ainda que vago, de uma transformação esperançosa que está acontecendo em todos os níveis da igreja? (...)

Talvez não seja a afirmação radical pela qual muitos de nós ansiamos, mas nem por isso deixa de oferecer a este peregrino cansado alguma esperança de que estejam acontecendo certas oscilações e transformações. O trabalho feito por nós, peregrinos LGBTs do Equally Blessed, assim como o trabalho de milhões de pessoas ao redor do mundo que vivem na interseção da fé e da sexualidade, vem de fato tendo um impacto; sementes estão sendo plantadas e vão florescer de formas que ainda não podemos imaginar. É um processo lento, sim, mas as palavras do papa mostram que o processo está se dando. Este processo foi e é muito vivo tanto nas pessoas que encontramos como naquelas que tocamos mesmo sem saber (pessoas que nos viram ou que receberam nossas fitas e adesivos do arco-íris através de sua família e amigos). Os polegares para cima, os pedidos de mais etiquetas, conversas que criaram um espaço seguro para falar e fazer perguntas, os comentários no Facebook e no blog... tudo isso revela que o processo está florescendo e que a transformação está se dando por toda a igreja.

Olhando para essas três expressões que mais mexeram comigo, percebo que o papa talvez tenha subversivamente nos abençoado e convidado para viver "a nossa verdade", "fazendo uma bagunça" para que mais e mais pessoas possam viver uma vida livre de julgamentos. A declaração em si causou uma bagunça nas pessoas, lutando para decifrar a verdade contida nessas palavras. Se realmente acreditamos que somos igreja, todos nós juntos devemos continuar tendo a certeza de que ninguém é marginalizado e que todas as pessoas são integradas ao Corpo de Cristo como igualmente abençoadas. Não podemos proclamar que somos igreja e depois esperar que o papa faça e diga tudo sozinho. É preciso criar na nossa igreja espaços onde se viva de formas novas e íntegras de celebrar a todos. Devemos continuar a viver nossas verdades bagunçadas. Sua declaração pode não ser o pronunciamento radical que estamos esperando da boca de um papa, mas para todos nós que foram feridos pela doutrina da Igreja sobre homossexualidade ou a pela falta de reconhecimento das pessoas trans, espero que esta dica de Francisco funcione como uma pequena dose de esperança com que nos curarmos. Pessoalmente, vou tirar daí o máximo que eu puder!

A radicalidade não está nas suas palavras em si sobre homossexualidade e sacerdócio, mas no fato de ele ter dito algo que sacudiu a todos nós. Temos de continuar fazendo a nossa parte... sair em peregrinação na JMJ, escrever cartas, conversar com membros do Magistério da Igreja em todos os níveis, educar os outros e a nós mesmos, criar espaços seguros... confiar que o Espírito irá agitar as águas por toda a Igreja. Somos Igreja e juntos, como Igreja, devemos encarar o desafio de compartilhar a mensagem de que "todos são igualmente abençoados" realmente significa que todos são igualmente abençoados. Com esta nova verdadeira bagunça nascida na JMJ, devemos permanecer comprometidos em agitar as águas, fazer perguntas nas sessões de catequese, conversar, propor orações que celebrem todas as pessoas... tudo isso sabendo, ao mesmo tempo, que Deus está fazendo a sua parte com e através do papa, dos bispos, dos sacerdotes, dos religiosos e de cada um de NÓS.,

As palavras do papa, todas juntas... "fazer uma bagunça", "viva a sua verdade" e "quem sou eu para julgar"... constituem um sinal de que talvez, na próxima Jornada Mundial da Juventude na Polônia, os peregrinos do Equally Blessed possamos compartilhar suas verdades bagunçadas sem ter de justificar quem somos e por que estamos lá e, assim, possamos simplesmente ser. Dou graças a Deus por que, por mais ínfima que seja a possibilidade de esperança que podemos encontrar nas palavras do Papa, a integridade que renasceu nesta JMJ deriva não só das palavras do papa, mas permeou e prosperou em todas as interações, abraços, elogios, sorrisos e conversas. Somos Igreja e, como Igreja, vamos continuar a fazer bagunças criadores de verdade, e a viver as verdades bagunçadas que proclamam que ninguém deve ser julgado, porque somos todos igualmente abençoados! Amém!

- Delfin Bautista, no blog do Equally Blessed

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Padre jesuíta fala sobre homossexualidade e Igreja


O vídeo é de uns 2-3 anos atrás, mas vale aproveitar toda essa discussão a respeito das recentes declarações do papa para lembrar um pouco da história da relação da Igreja com a homossexualidade. Porque contextualizar nunca é demais. :-)

A primeira vez que uma autoridade da Igreja usa a palavra "gay"


(...) Na mesma calorenta Roma, o cenário em torno do Vaticano é radicalmente diferente. Se nos primeiros 100 dias o Papa Francisco mudou a cultura do Vaticano apenas através de gestos simbólicos, na semana que passou no Brasil definiu as grandes linhas do seu papado, com o chamamento para recuperar a ética, a compaixão e a solidariedade. Entre o Rio e Roma, complementou a sua narrativa modernizadora da Igreja, ao abri-la aos gays, defender um novo papel para a mulher e um tratamento diferenciado para os divorciados. Em uma hora de entrevista, consolidou a sua conquista da ala progressista dos católicos.

“Isto tudo sem mudar a doutrina, mudou apenas o tom”, analisou o vaticanólogo John Allen Jr na CNN.

Ontem foi dia de olhar os detalhes da conversa com os jornalistas. Descobriu-se que nunca antes um documento da Igreja ou uma alta autoridade eclesiástica usara a palavra “gay”, sempre preterida pelo mais circunspecto “homossexual” ou pelo horroroso “sodomita”. “Ao recuperar o termo ‘gay’ da militância, reforça a autoestima dos homossexuais”, diz um dos membros do grupo Diversidade Católica. As feministas também foram procurar novos significados no elogio do Papa à mulher paraguaia e descobriram que ele se referia à decisão delas de partir para a produção independente de filhos depois da guerra contra Brasil e Argentina, já que só sobrara um homem para cada oito mulheres e esta seria uma maneira de garantir a descendência no país. “Ele é a favor da família tradicional, mas elogiou um comportamento nada convencional”, disse o padre Luiz Lima.

Ficou faltando modernizar a posição para lá de conservadora da Igreja em relação à contracepção. Alguns dizem que poucos ainda seguem a recomendação de não usar camisinha ou pílula, mas isso ajuda em nada na prevenção da Aids, restringe a liberdade de escolha da mulher e cria mais tensão na discussão sobre a legalização do aborto.

Fonte

O casamento gay no ano 100 d.C.

SS. Sérgio e Baco, uma união homoafetiva. Via

O casamento gay parece ser uma ideia ultra contemporânea. Mas, há quase vinte anos, um estudioso católico de Yale chocou o mundo ao publicar um livro repleto de evidências de que os casamentos homossexuais eram sancionados pela Igreja Cristã durante uma era comumente chamada de Idade das Trevas, a Alta Idade Média.

John Boswell foi um historiador e religioso católico que dedicou grande parte de sua vida acadêmica ao estudo do tempo entre o final do Império Romano e início da Igreja cristã. Analisando os documentos legais e da igreja a partir desta época, ele descobriu algo incrível. Havia dezenas de registros de cerimônias da igreja, onde dois homens se juntaram em associações que usaram os mesmos rituais de casamentos heterossexuais. Em compensação, não conseguiu quase nenhum registro de uniões lésbicas, o que demostra que a cultura é muito mais masculina.

Amparado por esta evidência, Boswell publicou um livro em 1994, um ano antes de sua morte por AIDS, chamado de Same-Sex Unions in Pre-Modern Europe (“Uniões do mesmo sexo na Europa pré-moderna”). O livro será lançado no próximo mês pela primeira vez em edição digital. Foi um pára-raios instantâneo de controvérsia, atraindo críticas da Igreja Católica e da especialista em sexo e gênero Camille Paglia. Sabendo da visão atual da Igreja sobre o casamento gay, esses detratores argumentaram que a história de Boswell parecia uma ilusão.

Mas não era. Boswell na verdade começou sua pesquisa na década de 1970, e publicou um trabalho igualmente controverso em 1980 chamado Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality: Gay People in Western Europe from the Beginning of the Christian Era to the Fourteenth Century ("Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade: Pessoas gays na Europa Ocidental a partir do início da era cristã até o século XIV"). Seu livro revela muito do que ele havia descoberto ao longo de uma vida de pesquisa em fontes primárias nas mais diversas bibliotecas e arquivos.

Como esses casamentos foram esquecidos pela história? Uma resposta fácil é que – como Boswell argumenta – a Igreja reformulou a ideia do casamento no século 13 para fins de procriação. Eruditos e autoridades da igreja trabalharam duro para suprimir a história desses casamentos, a fim de justificar sua nova definição.

Naturalmente, a história é mais complicada do que isso. Boswell afirma que parte do problema é que a definição de casamento hoje é tão diferente que é quase impossível para os historiadores reconhecer documentos de casamentos gays de 1800 anos atrás. Muitas vezes, esses documentos referem-se à união entre “irmãos”, que na época teria sido uma maneira de descrever parceiros do mesmo sexo, cujos estilos de vida eram tolerados em Roma. Além disso, os casamentos mais de um milênio atrás não eram baseados na procriação, mas na partilha da riqueza. Assim, o “casamento” às vezes significava uma união não-sexual de duas pessoas ou famílias. Boswell admite que alguns dos documentos que encontrou poderiam referir-se simplesmente ao fato da união não-sexual enrre dois homens – mas muitos também se referiam ao que hoje chamaríamos de casamento gay.

O jurista Richard Ante escreveu um artigo explicando que o livro de Boswell poderia até ser usado como evidência para a legalidade do casamento gay, uma vez que mostra a evidência de que as definições de casamento mudaram ao longo do tempo. Ele descreve algumas das evidências de Boswell desses ritos do mesmo sexo, no início do primeiro milênio: “O rito do enterro dado a Aquiles e Pátroclo, dois homens, foi o rito do enterro de um homem e sua esposa. As relações de Adriano e Antínomo, de Polyeucte e Nearco, de Perpétua e Felicidade e dos Santos Sérgio e Baco, são semelhantes aos casamentos heterossexuais de suas épocas. A iconografia de Sérgio e Baco era a mesma usada em cerimônias nupciais do mesmo sexo pela Igreja cristã primitiva”.

A principal evidência de que essas uniões do mesmo sexo eram casamentos é que eram muito parecidas com cerimônias heterossexuais. O especialista em literatura Bruce Holsinger descreve os minuciosos relatos de Boswell sobre cerimônias do mesmo sexo: “[Boswell] inteligentemente descreve o desenvolvimento de ofícios nupciais heterossexuais e homoafetivos como um mesmo fenômeno, acompanhando o desenvolvimento deste último de ‘um mero conjunto de orações’ na Idade Média até seu florescimento no século XII, quando já envolvia ‘a queima de velas, a colocação das mãos dos dois noivos sobre o Evangelho, a união de suas mãos direitas, a ligação de suas mãos (…) com a estola do sacerdote, uma ladainha introdutória, a Oração do Senhor, a comunhão, um beijo, e às vezes a circulação ao redor do altar’. Boswell dedica um capítulo inteiro à comparação desses rituais com seus homólogos heterossexuais, revelando uma série de semelhanças extraordinárias entre os dois; em vários apêndices, que totalizam quase 100 páginas, ele compilou inúmeros exemplos diretamente dos documentos (incluindo cerimônias de matrimônio heterossexual e rituais de adoção, para fins de comparação) a fim de permitir que ‘os leitores julguem por si mesmos’, como ele diz”.

Eram estas uniões do mesmo sexo na Idade Média a mesma coisa que os casamentos gays de hoje? Provavelmente não. Pessoas da época talvez não vissem nada de extraordinário em dois homens formando uma união. O próprio casamento significava algo diferente há milhares de anos, e os tabus sociais em relação à homossexualidade ainda não tinham se consolidado. Ainda assim, na obra de Boswell, encontramos registros de instituições em que os casais do mesmo sexo eram celebrados com as mesmas cerimônias dos casais de sexo oposto. Dois homens podiam viver como irmãos, partilhando riqueza, casa e família. E, sim, podiam amar uns aos outros, também.

Embora Boswell tenha morrido antes de seu país começar a permitir essas uniões, ele poderia se vangloriar por saber algo que a maioria das pessoas não conhecia. Mesmo os tipos mais fundamentais de relações humanas mudam com o tempo. Aqueles que foram banidos hoje podem ser abençoados amanhã – assim como foram, mais de mil anos atrás.

Fonte (e também aqui)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"A Igreja precisa estar atenta aos sinais dos tempos"


E o Diversidade Católica, representado por Arnaldo e Cristiana, esteve mais uma vez no CBN Mix Brasil desta semana, conversando com os apresentadores André Fischer e Petria Chaves sobre a visita do papa Francisco ao Brasil e as perspectivas de transformação da Igreja e diálogo com os LGBTs. No player acima, a partir de 12:30.

Papa Francisco não é juiz dos gays

 Missa de envio da JMJ2013 na praia de Copacabana. (Foto: Cristiana Serra)

O que o Papa disse na entrevista aos jornalistas a bordo do avião que o transportava a Roma, a respeito dos gays, parece ser uma continuação da sua mensagem durante uma semana aos jovens da JMJ-Rio.

O carinho com que ele foi cercado por todos não se deve unicamente ao seu charme, mas ao farto de que ele manifestou a todos a misericórdia de Deus em Jesus Cristo. Sua mensagem foi sempre a do Evangelho, uma mensagem libertadora, que requer justiça, solidariedade, amor, alegria e paz.

Assim como Jesus Cristo, o Papa não veio para julgar nem condenar. Mas ele sabe que o Evangelho não é uma superestrutura, ele supõe um lastro humano sobre o qual ele trabalha, para levar o ser humano à perfeição. Se quiséssemos usar uma expressão provocativa poderíamos – inspirados no Concílio do Vaticano II – dizer que “Jesus Cristo veio revelar o homem ao homem” (Cf. Gaudium et Spes, 22). Sob este aspecto, o importante não é ser cristão, é ser homem, pois na visão antropológica da Igreja, cristão é o verdadeiro homem, disposto a crescer até alcançar “a estatura de Cristo” (Ef 4,13).

Houve um tempo, na verdade ele ainda não acabou, em que os gays foram estigmatizados, e para isso até mesmo a Igreja colaborou. A sociedade os enquadrava num catálogo de doenças. Há religiões que tratam os gays como criminosos. Ainda hoje tomamos conhecimento de países onde a legislação civil e religiosa é tão retrógrada que leva gays à prisão e à morte, tal como fazem com mulheres consideradas adúlteras. Ora, nem a sociedade civil, nem a religiosa podem admitir tais situações.

O que o Papa disse é a doutrina da Igreja. Todos os seres humanos têm uma dignidade que lhes vem do Criador. Cabe a cada ser humano reconhecer e aceitar a sua identidade, inclusive sexual. A diferença e a complementaridade físicas, morais e espirituais estão orientadas para os bens do casamento e para o desabrochar da vida familiar. Esse é o caminho dado a todos, razão pela qual o casamento, na visão da Igreja, sempre será a união estável entre um homem e uma mulher para seu mútuo enriquecimento humano e santificação, mediante a doação de seus corpos, abertos para a geração e educação de filhos. Se a história nos revelar outras modalidades de união, desde que mantida a qualidade verdadeiramente humana – isto é, livres e respeitando as consciências – entre seres humanos, quem poderá se arvorar com o direito de desrespeitá-las ou julgá-las?

Ora, tudo na vida deve estar aberto ao aperfeiçoamento, razão pela qual não é desejável que se façam lobbies para impor visões e pragmáticas que ferem a sensibilidade dos simples, ou dos que ainda não se desvincularam de uma leitura fundamentalista de textos bíblicos (que fomenta a culpabilidade e discriminação de qualquer tipo de diferença existencial). A solução está (e o papa insistiu bastante sobre este aspecto) no diálogo. O universo da afetividade, com suas expressões na sexualidade, é fenômeno demasiadamente complexo e polivalente, que envolve enraizamentos biológicos, culturais e psíquicos das pessoas, com desdobramentos em outras forças nem sempre conhecidas pelas nossas pretensas sabedorias. OPapa nos falou da cultura do encontro, mas ainda estamos longe de sequer nos aproximarmos, quanto mais compreendermos o mundo dos gays e de tantos outros que a nossa sociedade se compraz em ofender e humilhar.

Respeitar os homossexuais, achar que eles também podem aspirar à perfeição moral, renunciando às práticas que contrariam a exigente ética do Sermão da Montanha, é ser revolucionário, é ir contra a corrente. Assim como muitos não esperavam que “algo de bom pudesse vir de Nazaré” (Jo 1,46), assim também nos surpreenderíamos se Deus comunicasse a sua Palavra, através de quem nós menos esperaríamos?

- Domingos Zamagna, no G1 de 29/07/2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

Lobby Gay X Lobby Anti-gays


Comentário de Frei Betto sobre a declaração do papa Francisco.

"Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados, mas integrados à sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby."

São palavras do papa Francisco ao deixar o Brasil, no voo entre Rio e Roma. A mensagem é esperançosa, mas, ao contrário do que o papa diz, o problema no Brasil é o lobby antigay, liderado pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Deputados que consideram a homossexualidade uma doença propõem a "cura gay". Querem alterar a resolução do Conselho Federal de Psicologia que impede seus profissionais de tratar homossexuais como doentes. O que é um gay? Como diz a palavra inglesa, é uma pessoa alegre. Se os homossexuais são felizes, por que submetê-los à terapia?

Terapia é própria para obsessivos, como é o caso de quem odeia constatar que homossexual é uma pessoa feliz. Isto sim é doença: a homofobia, aliás, como toda fobia. E há inúmeras: desde a eleuterofobia, o medo da liberdade que, com certeza, caracteriza os fundamentalistas, até a malaxofobia, o medo de amar sobretudo quem de nós difere.

Sugiro aos deputados cortar o mal pela raiz: proibir a promíscua narrativa de "Branca de Neve e os Sete Anões", a relação pedófila entre o lobo mau e a Chapeuzinho Vermelho e, na Bíblia, o relato da íntima ligação entre Jônatas e Davi, aquele que "ele amava como a sua própria alma". (1 Livro de Samuel, 18).

Segundo censo do IBGE, há no Brasil 60 mil casais assumidamente gays. São pelo menos 120 mil pessoas que, em princípio, deveriam ser "submetidas a tratamento". Considerando que a Parada de Orgulho LGBT reúne, em São Paulo, cerca de 4 milhões de pessoas, haveria que construir uma clínica do tamanho de 50 Maracanãs para abrigar toda essa gente.

O processo terapêutico certamente teria início com uma sessão de exorcismo, já que, no fundo, a obsessão fundamentalista considera a homossexualidade muito mais coisa do demônio do que doença.

Outra sugestão é comprar um armário para cada gay e obrigá-lo a ficar lá dentro. Dizem os moralistas que qualquer um tem direito de ser gay, não deve é sair do armário.

Imagino que, terminado o processo de "cura gay", haverá uma grande Parada de Ex-Gays subindo a rampa da Câmara em Brasília para agradecer aos deputados que, iluminados, aprovaram a medida.

Ainda que todos os gays sejam confinados na clínica dos deputados, de uma coisa não poderão se queixar: será divertido contar ali com shows de Daniela Mercury e sir Elton Hercules John.

Saiba Feliciano que Alan Chambers, ex-presidente da associação Exodus International, destinada a curar gays, declarou em junho deste ano que também é gay, pediu perdão pelos sofrimentos causados a homossexuais e fechou a entidade.

À luz do Evangelho, o melhor é seguir o conselho de santo Agostinho: "Ama e faz o que quiseres." Ou, como diz Francisco, sejamos todos irmãos.

- Frei Betto, ontem na Folha de S. Paulo
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