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terça-feira, 3 de abril de 2012

Menino brinca de boneca?


O Luiz Henrique, do excelente Queer and Politics, num post imprescindível sobre homofobia e educação (não deixe de ler aqui), propôs uma discussão: se um vídeo que andou viralizando na rede nas últimas semanas mostrasse dois meninos ou duas meninas apaixonadas, em vez de um menino e uma menina, será que as pessoas teriam achado fofinho e compartilhado? Ou teria gerado escândalo? Isso nos lembrou muito o post da mãe do menino apaixonado pelo personagem gay de Glee e sua repercussão aqui. E o que isso fala sobre a questão da homofobia nas escolas, de que já tratamos aqui? Será que a educação não pode mesmo fazer nada a respeito, como recentemente declarou nosso ministro da educação (sic)? E as crianças, como vivenciam e refletem essas questões?

(Vídeo via Queer and Politics)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Porque "és precioso a meus olhos": tudo melhora


O projeto It Gets Better, de apoio a adolescentes e jovens vítimas da homofobia, continua gerando frutos e filhotes. Aqui na América Latina, surgiu, no mesmo espírito, o projeto Todo Mejora, para mostrar aos adolescentes e jovens LGBT que é possível atravessar essa tempestade, e que um futuro melhor os aguarda.

Foi para esse projeto que o jesuíta chileno Pedro Labrín gravou o vídeo acima. Não temos legendas em português, mas com um pouquinho de atenção deve dar para pegar bastante coisa do espanhol. Ele conta sobre a descoberta da sua "própria cegueira" em relação às pessoas que sentiam "suas vidas censuradas, castradas, porque não lhes prestávamos atenção nem sabíamos escutá-las, e simplesmente ignorávamos o que poderiam estar vivendo em suas angústias e tristezas, sem que tivessem ninguém que as escutasse".

Tendo se colocado "com decisão" ao lado desses jovens, estes puderam mostrar-lhe "como se pode sobrepor, como se pode redescobrir, como se pode consolidar uma identidade pessoal que se torna uma base para eles e para os demais, mesmo em meio das opressões, dos silêncios, das dificuldades, das confusões e, muitas vezes, dos maus-tratos".

"Meus amigos homossexuais enfrentaram, em algum momento, enormes dificuldades: ruptura com a família, ruptura com a Igreja, falta de sentido na vida - e talvez, até, tenham chegado a pensar em acabar com tudo. Porém, hoje em dia a vida deles melhorou porque conseguiram descobrir que Deus os ama incondicionalmente, e que Deus não cria nada de mau. (...) Se você vive esta situação, saiba que é chamado a vivê-la em plenitude. Se seu Criador te deu essa característica, (...) ela é amada por Deus; deve ser objeto do teu orgulho e é causa de toda a nossa admiração e solidariedade, porque você é muito precioso aos olhos do único que te pode dar a vida - e ele te deu a vida conforme a sua vontade, e como você pode vivê-la."

"São muitas as vozes que talvez estejam te dizendo, neste momento, para mudar. Escute a voz do teu coração. É lá que o Senhor, teu Deus (que pode receber nomes muito diferentes, dependendo de onde você vier), te diz: 'Não mude. Reconheça-se, aceite-se como Eu te criei. Assim, você poderá reconhecer e amar a todos, na diversidade com que os criei'."

"Este caminho de reconciliação não está livre de dificuldades, mas vale a pena empenhar-se em percorrê-lo. Sobretudo, vale a pena confiar que a escuridão logo será vencida pela luz da esperança. Porque tudo melhora. Tudo muda. De repente, o amor se instala nas nossas vidas e muda a perspectiva com que você via as coisas até então."

* * *

"E agora, eis o que diz o Senhor, aquele que te criou e te formou: Nada temas, pois eu te resgato, eu te chamo pelo nome, és meu. Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti. Fica tranqüilo, pois eu estou contigo."

- Isaías 43:1-5

terça-feira, 20 de março de 2012

Dores e amores da homossexualidade

Foto: i can read

Recebemos de um amigo este lindo depoimento, e é com muita gratidão e sentindo-nos muito honrados que o reproduzimos aqui.

Enquanto homossexual não saberia dizer se a homossexualidade nos faz mais sensíveis. Penso que na condição de seres humanos vivemos num mundo diverso, pronto a ser descoberto na sua riqueza existencial infinita. Por isso, seria importante que estivéssemos sempre sensíveis a tudo que nós rodeia. Sou daqueles que acreditar que sensibilidade também se aprende. Mas, talvez, aqueles que, por algum motivo, não são desejados pela sociedade tentem a criar um mundo particular e, neste mundo, vivem seus sonhos e pesadelos, tentando, de algum modo, encontrar a forma como aparecer no mundo concreto sem precisar sofrer muito.

Enquanto permanecemos no mundo particular ganhamos tempo para nos compreender internamente. Percebo que nesta experiência ganhamos em sensibilidade na medida em que é preciso criar pequenos modos de felicidade. Lembro-me, por exemplo, da minha infância na qual por não poder brincar com bonecas eu pedia aos meus pais lápis de cor e muitas folhas para poder desenhá-las e, assim, me divertir com elas no meu imaginário. Deste modo, eu fui desenvolvendo a sensibilidade para as cores. Também comecei a prestar atenção às bonecas para poder reproduzi-las, em detalhes, no papel. Enquanto as outras crianças já tinham o seu brinquedo pronto, eu era desafiado a aguçar as minhas capacidades perceptivas e criativas. E quanto mais eu desenhava e melhorava o meu traço, apesar de muitos estranhamentos por parte das pessoas por eu só reproduzir bonecas, era muito elogiado por todos. Bom, mas é claro que, por outro lado eu sofria. Sofria porque enquanto criança o mundo era severamente posto de uma forma na qual eu não encontrava um lugar. E, apesar de todos perceberem a minha homossexualidade, era como se ela não existisse. O que existia era uma criança sensível, diferente das demais. Muitas vezes introvertida. Fui crescendo num mundo confuso, entre formas de disciplinamento heterossexuais e a fantástica descoberta da minha sexualidade. A atração pelo mesmo sexo provocava em mim, ao mesmo tempo, prazer e medo. Eu achava curioso o encantamento pelo mesmo sexo. Minha sensibilidade me dizia intimamente que aquela combinação era uma coisa bonita, e isso era muito natural. No entanto, eu não podia imaginar em dizer isso para ninguém. Tinha medo de não ser compreendido e aceito. Parece estranho dizer, mas isso era dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

O tempo passou, e eu fui direcionando todas as minhas energias para os estudos. Lembro-me que quando cursava o segundo grau eu me apaixonei por um rapaz. Ele era da minha turma. Como era bom conversar com ele! Mas, com medo de que ele se distanciasse de mim, calei. Foi duro! Acabamos brigando. Foi uma forma que eu encontrei para não sofrer mais. Depois que o ano letivo terminou, eu nunca mais o vi. Entrei na faculdade e comecei a investir pesado nos estudos. Na minha família ninguém cursou uma faculdade, e para mim era um desafio. Concluí a faculdade com boas expectativas. Fui elogiado e incentivado pelos professores a realizar o mestrado e seguir a carreira docente. Embora introvertido, me fascinavam as relações humanas, e via na relação de ensino e aprendizagem a mais bonita forma de diálogo. Esse passou a ser o meu grande projeto. O mestrado foi concluído com sucesso.

Neste percurso não deixei de pensar, sofrer e me alegrar com a minha sexualidade. Mas o fato é que até então eu não havia vivido a minha homossexualidade. Eu não tinha tido uma experiência homossexual. Não tinha amigos gays e nunca havia falado sobre a minha sexualidade para ninguém. Pode-se imaginar como é difícil não poder falar o que se sente? Mas o fato é que eu tinha me tornado um homem inteligente e sensível e, também, bonito. Já não era mais um menino franzino. Faltava apenas que eu me percebesse.

Logo retorno aos estudos para a realização do Doutorado, com 27 anos. E assim continuava a minha trajetória de estudos. Paralelamente a minha sexualidade permanecia oculta para o mundo. Hoje penso que não ter falado sobre a minha condição me afastou da possibilidade de experiências afetivas e sexuais. Mas, se até então eu não havia tido a coragem de revelar a minha sexualidade, as circunstâncias da vida me puseram a prova.

Um colega com o qual eu convivia por aquele período começou a me notar. Mas eu acreditava que me mantinha tão imperceptível do ponto de vista da sexualidade, que não acreditei que ele pudesse ser gay e que estava interessado em mim. O fato é que ele era gay e tinha interesse. A cada encontro nos aproximávamos mais. E quando dei por mim eu já estava apaixonado. Talvez não pelo rapaz, e sim por toda aquela situação que para mim era uma extrema novidade. O fato é que eu lhe despertei o interesse. Neste caso eu me vi percebido por ele. Alguém havia me visto e isso mexeu demais com a minha auto-estima. Bom, custei a entender que o meu colega não estava apaixonado por mim, era apenas uma atração. Claro que eu sofri muito, pois me vi apaixonado e ao mesmo tempo vivendo e descobrindo as possibilidades da minha sexualidade. Parecia que uma represa tinha se rompido dentro de mim. Não sabia o que fazer com todos aqueles sentimentos e descobertas. Era a minha sexualidade me confrontando e me dizendo: como é que você vai querer viver daqui em diante?

Na ocasião eu revelei a situação a uma amiga. A escuta dela foi fundamental. Pela primeira vez eu me via falando sobre a minha sexualidade, ainda com muitos receios, mas eu falava, eu expressava. Esta amiga, na tentativa de me ajudar, apresentou-me a um amigo seu que era gay. Ela fez isso por acreditar que ter um amigo gay iria me ajudar. O rapaz tinha 21 anos e uma cabeça de adolescente. Ele vivia na região serrana, numa cidade pequena e cheia de repressões. Eu percebia que isso havia aflorado a sua rebeldia e ele se expressava de maneira bem intensa, parecendo querer provocar a atenção de todos. Apesar de um tanto assustado, eu comecei a manter contato com ele. Assim nos aproximamos e, após duas semanas de contato, fui conhecê-lo na sua cidade. Comprei um tênis all star, vesti uma bermuda, coloquei um boné e uma mochila nas costas. Segui viagem pela Serra. Essa sensação da viagem foi maravilhosa! Era como se eu estivesse mudando o cenário da minha vida. Dizem que às vezes é preciso viajar, sair de si, para depois retornar à nossa essência. Eu acho que era um pouco isso que estava acontecendo comigo. Trajado do modo como descrevi anteriormente, ali eu era um adolescente. Enfim, eu experimentava a adolescência que não havia vivido! Encontrei-me com o rapaz, juntei-me ao seu grupo de amigos adolescentes e vivi dias maravilhosos. Acordei no dia seguinte com as badaladas do sino da igreja local, que me transmitiam sinais de vida. Retornei para casa com entusiasmo para prosseguir. O namoro com o rapaz não foi adiante, e nem tinha condições de dar certo. Era mais uma experiência que a vida estava me anunciando. O anuncio era: nunca mais deixe as páginas da sua vida em branco, você tem o direito de ser feliz, você é especial.

Nesta experiência acabei me apaixonando pela região serrana. Aquela sensação do ônibus subindo a Serra mexia comigo, me enchia os pulmões e, eu sentia, alargava os meus caminhos de liberdade. Numa dessas subidas conheci outro rapaz. Um homem simples, mas com imensa sabedoria, cultivador de orquídeas na região. Eu sempre gostei de flores e ele me apresentou muitas delas. Passamos um final de semana num lugarejo chamado São Pedro da Serra. Este é um lugar que vai ficar pra sempre na minha memória! Lá pude entrar em contato com muitas cores. Eu precisava de cores, muitas cores! Fiquei encantado com a diversidade da natureza e, nesta experiência, pude compreender a minha própria riqueza e diversidade. No contato com cada flor, com cada fruta, com cada planta que ele me apresentava eu descobria uma sensação nova, um novo sentido! Marcou-me uma experiência em que ele me levou diante do espelho e chamou atenção para a minha aparência, para que eu valorizasse a minha aparência no mundo. Eu não podia mais me esconder, e nem tinha porque fazer isso.

Namorei este rapaz por alguns meses e com ele aprendi muito. A relação afetiva com ele foi fundamental. Com a sua simplicidade e sabedoria ele me mostrou como ser gay podia ser especial, como podia ser maravilhoso o sentimento entre dois homens. Sou-lhe grato por isso e, até hoje, tenho um carinho e uma amizade muito especial por ele.

Assim eu prossegui a minha experiência de vida. Conheci pessoas, namorei, conheci novos lugares, continuei me empenhando nos estudos... apareci para mim e para o mundo, com serenidade e orgulho. Ficou-me a certeza de que eu podia conhecer!

O mais importante dessa história foi que eu pude, entre dores e amores, me apresentar à vida. Apresentar-se a vida é confirmar a nossa existência. Como é que as pessoas saberão quem você é, quais são os seus valores, se você não se apresenta para o mundo? E quanto mais temos orgulho ao nos apresentar, mais as nossas relações afetivas vão se ampliando...maiores são as possibilidades de ser feliz!

E hoje me apresento à vida com grande orgulho de ser gay! Deus me fez especial nesta condição, e como é bom vivê-la sem medo! Embora a minha vida não se resuma a minha sexualidade, ela não seria nada se eu não pudesse expressar e viver as minhas relações sociais e afetivas como gay. Compreendo que a minha riqueza, o que me torna singular e especial neste mundo é a minha condição sexual. Não seria inteligente e justo anular justamente aquilo que me torna especial. Por isso - embora eu compreenda que ser gay não é uma opção - se eu tivesse que optar eu escolheria ser gay sempre! O bom é viver e poder se apresentar à vida, ao mundo! E, sobretudo compreender que não estamos sós. Há uma infinidade de pessoas no mundo e o nosso desafio é construir relações com elas. Quando eu decidi assumir a minha sexualidade eu me perguntei: “que mal há em viver o que somos de modo verdadeiro e digno”? “Ser homossexual não é um crime, então eu não preciso viver em clandestinidade”. “Para quem sobrará o ônus da infelicidade se eu não me assumir”? Mas até chegar a essa compreensão foi um longo caminho. Não é nada simples. As famílias, as instituições, algumas religiões, apesar de toda a mudança ocorrida nos últimos tempos no mundo, ainda não estão preparadas para acolher e respeitar a diversidade. A produção da culpa, da violência, da exclusão infelizmente ainda é recorrente. É preciso esclarecimento, fé, apoio e coragem! Mas o bacana é descobrir a nossa essência, o quanto somos especiais e o quanto é bom defender a nossa auto-estima com vigor. O que nos sustenta e amplia horizontes não são somente as dores, mas, sobretudo os amores. E eu decidi que estou na vida para amar. Eu escolhi amar e por isso sou feliz na minha condição. Nesta minha caminhada, entre dores e amores, ficou um aprendizado: O mais duro não é sofrer por amor...o mais duro é sofrer pelo desamor, pela ausência, por aquilo que não vivemos, ou deixamos de viver. Abraçar a nossa homossexualidade e vivê-la com plenitude, responsabilidade e fé é um ato de amor por si, pelos outros e pelo mundo!

- Bruno Peres

quarta-feira, 7 de março de 2012

Guest post: "O Padre quer conversar"

Cartum: Angeli

Há algumas semanas recebemos um e-mail de um leitor do blog, o Daniel, contando que seu pároco o havia chamado para uma conversa por haver postado em seu Facebook a tirinha acima - da qual também gostamos muito.

É importante que nós, individualmente e também como Igreja, sejamos capazes de rir de nós mesmos, das nossas próprias limitações e dificuldades. Temos sempre a impressão de que, quando alguém se leva a sério demais e tudo fica muito grave e rigoroso, a pessoa vira um pouco prisioneira de tanta seriedade.

O papa Bento XVI disse uma vez que o cristianismo nao deveria ser visto como um conjunto de proibições, mas como uma opção positiva; entendemos essa fala dele como um convite a viver a mensagem do Evangelho como um grande sim à vida, como uma Boa Nova de amor, abertura, acolhimento, inclusão. Infelizmente, vemos muita gente vivendo o cristianismo como um monte de fórmulas e regras de certo e errado, que acabam sendo usadas para julgar as pessoas e separar o mundo em bons e maus, justos e injustos, santos e pecadores. O que acaba sendo muito cruel - pois somos todos bons E maus, fortes E fracos, santos E pecadores, e o que deveria acolher e incluir acaba separando e excluindo. Ninguém é só uma coisa, ninguém está só de um lado. Mas aí a gente divide o mundo em dois lados, julga os outros e a gente mesmo, e fica todo mundo aprisionado nisso. E assim se perde a liberdade para cada um ser e se amar tal como é, na certeza de que também o Pai nos olha e abraça com total e irrestrito amor, a cada um de nós, exatamente como somos.

Oramos muito para que o olhar amoroso de Cristo e seu Sagrado Coração acompanhassem nosso leitor e ao seu pároco nessa conversa, e que eles pudessem se ver, se ouvir e se sentir com os olhos, os ouvidos e o Coração dEle.

Alguns dias depois, recebemos do Daniel nova mensagem e o link para o relato abaixo, que reproduzimos com sua autorização. Ficamos muito felizes por saber que correu tudo bem e que o pároco se mostrou humano e humilde ao reconhecer que não tem todas as respostas - e o Daniel também. Diálogo é por aí mesmo. 



Temos muito a te agradecer, Daniel. Que bom saber que você está sendo coerente consigo mesmo e fiel aos valores em que acredita. O mundo precisa muito de pessoas assim. 

"Veja aquele rapaz despudorado ferindo nossa moral cristã" disse um dos freis da tirinha.

"Você desrespeitou a igreja e o papa" disse-me o pároco da minha comunidade, por telefone.

Se houver comparações, pode-se afirmar que eu me passei por aquele jovem que feriu a fé por meio de uma tirinha que une crítica e humor ácido à igreja e aos pudores da religião.

Sol tapado com a peneira se formos tentar amenizar os escândalos que acontecem nas sacristias e confessionários ao redor do mundo. Escândalos quando comparados à cegueira de alguns pais da igreja que preferem não ver a que resolver. Em Levítico 22, no livro dos livros, a palavra usada é "abominação" e isso me faz lembrar o Abominável Homem das Neves. Será que essa lenda na verdade não fala de um homem das montanhas de Aspen, que oferecia comida e abrigo aos turistas masculinos em troca de satisfação sexual?

Há duas semanas o padre da comunidade onde participo me chamou para uma conversa. 'Tem que ser pessoalmente' disse enfadonho do outro lado da linha.

Adiantou-me que queria satisfações de uma tirinha (anexa acima) que eu postei em minha página pessoal na rede social do momento. Uma tira(da) do cartunista Angeli, que mostra dois freis assistindo de suas cúpulas a Parada Gay acontecer nas avenidas defronte à capelinha.

A tirinha é sutil, chega até ser bonitinha, mas em suas últimas falas, aflora a hipocrisia que a igreja tenta esconder e vez ou outra estoura em noticiários jornalísticos. Dá para tirar várias conclusões do quadrinho: desde a pedofilia, homossexualidade enrustida ou as duas vertentes juntas, fruto de repressão e celibato forçado.

Aceitei conversar com o padre, embora eu entenda que não tinha de dar satisfações ao pároco que celebra as missas onde minha banda toca aos domingos. Senti-me pressionado no início, lembrei da palavra "Ditadura" várias vezes e de alguns dos personagens que sofreram represálias na época, mas logo lembrei que no ano de meu nascimento, em 85, era o fim da ditadura. Nasci livre desde então.

Com palpitadas fortes, aceitei a conversa corretiva e sem delongas comecei a digestão dessa intimada santa, que ficou marcada para o domingo antes das dez da manhã.

Não aguentei. No mesmo dia, ao passar em frente a igreja do Cristo Operário e notar que estava acesa, num salto dentro do ônibus, toquei o sinal e desci para tirar aquela história a limpo de uma vez por todas. Chamei o padre que veio me atender com um sorriso e um aperto franco de mão.

- Não aguentei padre, eu disse. Vim logo porque estou curioso interessado no que o senhor tem para me dizer.

- Sem grilo, ele disse. Só queria conversar, as pessoas estão falando, comentando sabe!?

Confesso que a pressão dessa conversa das dez me deixara armado, com pedras e foices na mão, mas após o padre esfriar minha espinha, senti que pude raciocinar melhor sobre quais palavras usar quando fosse defender minha livre opinião sobre isso ou aquilo no domingo próximo. Naquele dia, não pode me atender e conversar a panos frios. Ficou para domingo mesmo.

No dia, minha banda estava escalada para tocar na missa das dez e exatamente às nove e vinte da manhã, enquanto arrumávamos os equipamentos da banda, em sua batina branca, o padre passou e me chamou para a sacristia. Deu ordem aos ministros para que ninguém entrasse ou atrapalhasse nossa conversa. A porta do céu estaria fechada, pois os anjos estariam trabalhando. Olhos arregalados dos outros serventes de branco.

A conversa foi sutil. Há mais de dez anos nós nos conhecemos e temos profundo respeito um pelo outro. Cada um em suas condições. Ele começou falando, dizendo que um terceiro mostrou a tirinha para ele, visto que ele não tem perfil na rede. Disse que como padre, ele tinha o direito de me alertar sobre esse comportamento fora da igreja, pois querendo ou não eu era um agente de pastoral em sua paróquia, ou seja, trabalhava cantando, atuando e editando o jornal paroquial.

Após minutos em defesa da igreja, de cuidados nas atitudes e formalidades, foi minha vez. Entendi sua posição e entendi que se preocupava com a publicação daquela tirinha por alguém que serve em sua paróquia. Porém, usei o argumento da individualidade. Publiquei isso em minha página pessoal, somente. Não foi uma opinião profissional, em nada que fosse da igreja. Sempre publico textos, vídeos, fotos interessantes e nunca levaram isso a ele, até encontrarem uma brecha para atacar. Este terceiro, oculto, está entre meus 'amigos', um contato que me adicionou e denunciou-me como 'o despudorado'. Usei o termo mesquinho para definir essa tal pessoa que teve o trabalho de printar a página, entrar em contato com o padre e mostrar o que eu publiquei.

- Não vamos julgar a pessoa, ele disse.

Concordei, mas julguei sim, a atitude. Mesquinha. Atitude de quem precisa de um tanque cheio de roupa para lavar ou um mato para carpir. Porém, apesar de tudo, percebi que sobre essas pessoas é que nos fazemos mais fortes e nos entendemos mais humanos. Sem querer, esse abominável-mesquinho-denunciador-de-homossexuais-on-line propiciou uma conversa com o padre que se fosse por mim, nunca iria acontecer.

Um tema desse não é falado pela igreja, não é discutido. É abafado. (Abafa!)

Esse foi um dos pontos altos da conversa. Quando eu citei que a igreja não se pronuncia sobre a homossexualidade, quando não fala qual o caminho que gays, lésbicas e trans devem seguir quando se propõe a seguir determinada religião, também não se pode definir regras apenas baseando-se na Bíblia para atacar, queimar em praça pública ou apedrejar. Porém, o padre me mostrou toda sua sabedoria quando, ao ver esses argumentos, respondeu por si: 'Eu não sei'.

Deu um suspiro e assumiu que tal tema não é apenas tabu, mas sim ignorância, no melhor sentido da palavra, de não saber mesmo, não ter argumentos para explicar (se é que tem explicação) a homossexualidade e suas vertentes. Ele podia usar de argumentos do Catecismo, dizer que é um afronte ao Criador e que há um inferno esperando pelos homem que deitam com homens e vice-versa (rs). Mas, não. Ele admitiu que a igreja é ausente nesse sentido. Percebi que estava conversando com um Homem e não com um padre fanático.

Argumentei que, enquanto a comunidade eclesiástica está nessa dúvida, muitos homossexuais estão se suicidando, impedidos de serem aceitos por um Deus, ou pela igreja propriamente dita. Lembrei de uma entrevista que fiz com Marcelo Gil, da ONG ABCD'S, que luta pelos direitos homossexuais na região do ABC Paulista, no qual ele me contou um caso que me chocou: 'Pai e mãe quebraram as pernas da filha de 16 anos, quando descobriram que ela era lésbica.' Com as pernas quebradas, a adolescente não poderia sair de casa.

...

Sugeri que sem pré-conceitos, para que ele se informasse, para poder falar, ajudar mais e notar que há ministros, padres, bispos, agentes de pastoral homossexuais e que acreditam ser a fuga o melhor dos caminhos para essa doença sexual, que nada tem em patologia.

Lembrei de uma homilia feita por ele, logo após a liberação da União Homoafetiva do Supremo Tribunal de Justiça, no qual ele leu uma carta do Bispo de nossa diocese, direcionada mais aos héteros como um manual para o tratamento de pessoas homossexuais.

A carta era cheia de dedos, assim como ele, o padre, estava em seu discurso no altar. Minha avaliação, sem julgamentos, era de que ele estava perdido, escolhendo palavras e sem desfecho concreto para encerrar a conversa.

- Não queria ofender ninguém, argumentou.

Sei que não, mas mais uma vez é provado que, a igreja não sabe o que dizer.

A conversa chegou num ponto (já faltavam dez minutos para começar a missa) que, as opiniões eram claramente diversas e jamais iríamos chegar num consenso. Ele como padre, eu como eu.

- Não concordo, porém respeito.

Foi o que sugeri como encerramento do papo santo.

O padre não desmitificou sua opinião. Era aquilo e pronto. Eu também.

Com algumas palavras, ele definiu que o tempo cura e responde tudo.

Terminamos a conversa. Saímos da sacristia sob olhos atentos e famintos por informações. Arrumei meu microfone e no decorrer da missa, cantei o Glória e o Entoemos, enquanto ele consagrou a hóstia e proferiu o perdão dos pecados. Na homilia desse domingo, proferiu as seguintes palavras:

- Conversando com um amigo eu disse que o tempo cura e responde perguntas que só Deus tem as respostas.

Meu amigo me cutucou com a perna e notou que ele falava de mim. Identificou-me como 'amigo' e isso já pode ser um grande começo.

Fonte: O Textículo

quinta-feira, 1 de março de 2012

Pela Espada e pela Palavra

Escultura: Carl Fredrik Reuterswärd (daqui)

Estamos vivendo no Brasil o despertar político da luta pela cidadania gay. A questão do reconhecimento dos direitos sexuais que se inscreve no hall de direitos humanos em qualquer nação que se queira democrática e minimamente herdeira dos ideais da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fratarenidade – suscita paixões arrebatadoras, contra e a favor.

Conseguimos importantes vitórias no Judiciário, no âmbito estadual, aqui no Rio, temos leis para coibir a homofobia, mas nos falta ainda uma legislação nacional que mostre que o país está cumprindo de fato seu papel para com seus cidadãos homossexuais: garantir, mesmo que por leis específicas para grupos discriminados, a igualdade de oportunidades para todos.

Temos a nosso favor o fato de que, cada vez mais, a sociedade entende que a homossexualidade não é uma questão moral, que, de per si, a orientação sexual não define caráter ou sanidade mental. E contra nós os conservadores, dentre os quais os mais aguerridos são os religiosos porque entendem que a homossexualidade vai de encontro à própria criação. E se nós contamos com a crescente aprovação social para que cada um viva a sua vida amando quem se queira, os religiosos homofóbicos tem uma coesão política-ideológica nem sonhada por nós gays, e o neo-pentecostalismo cresce cada vez mais no Brasil.

Os dois parágrafos anteriores foram estruturados em termos de “Eles x Nós”. Esta polarização rompe qualquer possibilidade de procurar um terreno comum a partir do qual se possa dialogar; nos predispõe para a batalha, vendo no “outro” apenas o inimigo a ser subjugado.

Sem dúvida alguma este enfrentamento político, ideológico se faz necessário muitas vezes, e quiçá tivéssemos mais pessoas preparadas e dispostas a realizá-lo. No entanto, é igualmente necessário gente capaz de construir pontes, ainda que frágeis, temerárias, num trabalho insistente e delicado. Conheço religiosos, católicos e evangélicos assim. São como que o fermento que não pressiona “de fora”, mas faz crescer a partir do interior.

Eu não tenho mais paciência, saco, vontade para esta missão, mas peço na minha quase-ainda-fé: Que deus abençoe estes corajosos!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre a necessidade de acreditar em deus (e as palavras)

Imagem daqui

Saiu há poucos dias no excelente Minoria é a Mãe, de que já falamos aqui, este texto da Kamila que achamos que valia muito a pena reproduzir. Afinal, o que ela escreveu acaba sendo - mesmo sem pretender - uma explicação simples e bem argumentada do porquê da debandada de fieis que as religiões em geral, e o catolicismo em particular, têm sofrido. Bom, vamos ao texto, que eu comento depois.

"Fui criada em uma família que pratica o que eu chamo de “catolicismo padrão”. O católico brasileiro padrão é aquele que conhece e até segue as tradições básicas da religião, mas não a pratica à risca - só vai pra missa em ocasiões especiais, por exemplo.

"Eu segui algumas das tradições católicas no começo. Fui batizada, fiz catecismo, aprendi a rezar, tentei até ler a Bíblia algumas vezes, mas confesso que nunca consegui terminar. O fato do qual eu tentei fugir durante muitos anos, no entanto, foi que nada disso me tocava. Então eu evitei a questão até que finalmente consegui encará-la de frente e me questionar: afinal, eu acredito em deus ou não? E isso é mesmo necessário? Quando eu finalmente consegui me perguntar isso, cheguei a uma estranha conclusão: meu problema nunca foi com deus, mas sim com a religião.

"Mas eu queria chegar no seguinte fato: quando criança, dificilmente alguém vai te dizer que existe a possibilidade de questionar deus, ou a religião. Mas você geralmente questiona assim mesmo, é isso que crianças fazem. Só que, em um momento ou em outro, você acaba absorvendo que, afinal, não existe por que questionar. Desde muito cedo somos ensinados que existe uma necessidade inerente a todo ser humano de acreditar em um deus. Se converter para outra religião ou não ter religião nenhuma não é tão condenável do que não acreditar em deus, porque isso simplesmente não é visto como uma possibilidade.

"O cristianismo em geral nunca me tocou porque eu não via sentido nele. Jesus pode ter existido e ter sido um cara legal, mas por que as pessoas precisam tentar provar isso, eu me perguntava. Por que as pessoas que são de outras religiões vão automaticamente pro inferno? O que me dá o direito de considerar a minha religião verdadeira e as outras falsas? Por que eu tenho que fazer coisas boas visando agradar a deus pra que eu vá para o paraíso quando morrer? Por que as pessoas não amam e respeitam as outras, se era isso que Jesus queria e é a ele que elas estão seguindo? Por que deus pedia sacrifícios? Por que deus achou que seria uma boa ideia fazer um dilúvio? Por que as pessoas não entendem que o Jardim do Éden é uma metáfora? Por que as pessoas insistem que religião e ciência são mutuamente excludentes?

"Então eu aprendi que deveria construir minhas crenças. E, na minha cabeça, as coisas devem fazer sentido. O conceito de divindade - especialmente a judaico-cristã - não era lógica o suficiente e nunca entrou na minha cabeça. No entanto, mesmo achando perfeitamente plausível que deus não existisse, eu ainda acreditava. E cheguei à conclusão de que, bem, ele existe pra mim. O que eu chamo de deus pra facilitar a vida na verdade não é uma personificação, mas sim uma força universal, por mais brega que isso possa soar. É aquilo que rege as leis da física, a matemática, o nascimento e morte das estrelas, o funcionamento perfeito dos órgãos do corpo humano. Isso tudo sempre foi mais divino pra mim do que o sermão do padre. Isso tudo sempre me tocou, sempre me fez admirar o mundo e o simples fato de existirmos. E é justamente isso que eu acho tão importante: conseguir admirar a existência.

"Resumindo a história, hoje em dia eu já descobri que isso tem um nome: eu sou teísta agnóstica. O que basicamente significa que eu acredito em deus, da minha própria maneira, mas que não tenho como saber se ele de fato existe ou não e na verdade não me importo muito em saber. A definição simples de agnosticismo, aliás, é essa: a visão de que a razão humana é incapaz de proporcionar fundamentos racionais suficientes para justificar o conhecimento da existência ou não de Deus. [Wikipedia]

"O que eu quero dizer com isso tudo é que, assim como em qualquer outro aspecto da vida, não vale a pena tentar impor sua religião sobre outra pessoa. Algumas coisas simplesmente não funcionam para algumas pessoas, assim como o catolicismo não funcionou pra mim. Às vezes nós nos damos bem com aquilo que nos é ensinado e às vezes nós precisamos ir atrás do que vai dar certo pra gente. Às vezes nós simplesmente não precisamos. O fato de acreditar em um deus em nenhum momento torna uma pessoa melhor do uma que não acredita - e o contrário também é verdadeiro: não acreditar em deus não torna ninguém melhor do que outra pessoa.

"Somos muito mais do que uma característica só na vida. Às vezes a sua religião define o seu modo de viver, às vezes você simplesmente não tem uma. Eu não tenho um problema específico com religião alguma, além do fato de não compreendê-las totalmente. O único problema, ao meu ver, acontece quando você usa o seu deus e a sua religião como uma muleta para o desrespeito. Não conheço nenhuma religião que pregue o desrespeito ao próximo; e, no entanto, muitas vezes ela é usada a torto e a direito como uma desculpa plausível para isso. O fato de a sua religião condenar a homossexualidade, por exemplo (o que por si só já é um fato questionável), não te dá o direito de desrespeitar alguém e não faz com que esse ato seja menos condenável.

"Li em algum lugar uma vez que algumas pessoas estavam reclamando do fato de a lei contra a homofobia estar comprometendo a liberdade de expressão. O argumento era que não poderia ser considerado crime o fato de a sua religião condenar a homossexualidade e você seguir isso. Acontece aqui um erro muito claro de interpretação: existe uma grande diferença entre você não gostar de homossexuais - seja lá por qual motivo for - e cometer algum crime de ódio ou desacato. Nesse momento, a bandeirinha da opinião costuma ser levantada, e ela é muito perigosa. 'Eu não tenho preconceito, só não gosto de viado, por que vocês não respeitam a minha opinião?'

"O perigo desse argumento é que ele mascara o preconceito com a liberdade de expressão. Veja você o caso do Danilo Gentilli e da piada do macaco: 'Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?', ele disse. Isso é uma distorção do conceito de poder. Eu posso fazer muitas coisas. Pra falar a verdade, eu posso fazer praticamente qualquer coisa, mas eu não faço, por diversos motivos. Um deles é que nós não devemos fazer algumas coisas, apesar de teoricamente poder.

"Eu uso palavras que dificilmente seriam consideradas politicamente corretas. Mas uso dentro de um determinado grupo, onde nós nos apropriamos dessas palavras e onde elas não são usadas como ofensa. Eu digo 'viadagem' com essas pessoas, mas em momento nenhum digo em qualquer outro lugar. Porque em qualquer outro lugar, e sem um acordo prévio entre as pessoas que estão ouvindo, eu vou simplesmente estar ofendendo alguém. Há muito e muito tempo, convencionou-se que viado é um xingamento, pois significa que você está chamando a pessoa de gay. Um heterossexual costuma se ofender com isso porque não quer ser confundido com um homossexual. Um homossexual, no entanto, se ofende porque convencionou-se que o termo deveria ser ofensivo. Ele se ofende com a sua própria sexualidade porque nos fazem acreditar que ela está errada e que devemos ter vergonha.

"Eu já fui chamada de puta várias vezes, nos mais variados contextos e por pessoas diferentes. Em pouquíssimas me senti realmente atingida, mas foi mais porque a pessoa realmente acreditava que aquilo era uma ofensa, e das piores. Eu gosto da palavra puta - acho sonoro, acho bonito. Mas convencionou-se que puta é uma coisa ruim pra se dizer a uma pessoa, porque é basicamente dizer que ela faz sexo por dinheiro. No entanto, curiosamente, puta não é tão usado assim nesse contexto; quantas vezes você já não ouviu alguém se referir a alguma moça como puta porque ela gosta de sexo ou por que se veste de determinada maneira? O fato de ser um xingamento só reflete mais ainda o fato de a sexualidade da mulher ser condenada.

"Nós não ofendemos e somos ofendidos por palavras, pura e simplesmente, mas sim pelo significado que foi atribuído a elas e que nós absorvemos. Vamos parar um pouco e pensar, então, no que estamos falando, no que estamos ouvindo e, principalmente, no que estamos entendendo disso tudo."

- Kamila

Pois aí está: quando as pessoas usam a religião pra fazer juízo de valor do outro e justificar menosprezá-lo, excluí-lo ou condená-lo, como a Kamila descreve - que talvez nem seja a religiosidade mais comum, mas certamente é a mais barulhenta - essa religião, vivida dessa forma, é, na minha opinião pessoal, simplesmente detestável. E, com relação aos cristianismos, ela tem toda razão ao intuir que a religião, praticada dessa forma, nada tem a ver com a Boa Nova que Cristo nos veio anunciar.

Outro dia postamos aqui no blog um texto em que Raymond Gravel comentava que as pessoas em geral não têm problemas com Deus, ou com Cristo: "Os fiéis e os cristãos que tomaram distância em relação à Igreja, não é a Cristo que eles rejeitam, mas à instituição que pretende representá-lo. As pessoas não se tornaram anticristãs; pelo contrário, nossos modos de viver sempre refletem os valores cristãos fundamentais: a justiça, a liberdade, a igualdade, a dignidade das pessoas. O que as pessoas rejeitam são os gurus, os aiatolás, os ditadores religiosos que creem deter a verdade sobre Deus e sobre o mundo e que esmagam os fiéis com interditos, regras e leis que convidam à intolerância, ao ódio e ao desprezo da pessoa humana."

Ou seja, o que escandaliza é essa imagem de Deus que tantos religiosos, infelizmente, têm vendido por aí. Esse Deus é inaceitável. Ninguém quer um Deus ranzinza, cruel, pronto a condenar ao menor deslize. Ninguém precisa de um Deus que tolhe. O ser humano precisa se realizar em sua plenitude, precisa se abrir, precisa de alegria e paz. Essa imagem de Deus não representa nada disso, e talvez seja mesmo muito saudável que a rejeitemos com todas as nossas forças, apesar de toda a pressão em contrário.

Sendo você religioso, agnóstico ou ateu, esse senso de reverência e beleza, essa capacidade de se emocionar diante do universo, esse senso de que há algo grande para além de nós, e que o universo simplesmente não gira ao redor do umbigo de cada um - isso é o que tantos filósofos, místicos, teólogos descrevem como o senso do sagrado, e que pessoalmente me parece que é inerente ao ser humano. Se uma religião facilitar para você entrar em contato com isso mais profundamente, ótimo. Aí, a religião será ponte, será portas e janelas abertas, será ligação mais profunda consigo mesmo e com os outros seres humanos, que aí chamaremos de irmãos - "meus iguais": nem abaixo, nem acima. Sem divisões, sem exclusões.

Mas, se você for religioso, agnóstico ou ateu, ou pegar qualquer outra crença e torná-la importante para você de um modo que te feche para o encontro e para o diálogo, e a use para julgar, condenar, menosprezar e excluir o outro - aí entra em ação um mecanismo que é uma tentação permanente para os seres humanos, e que se manifesta independente da religião (ou falta de) da pessoa. Tenho visto muito isso entre os ateus: uma maneira de defender seu ateísmo chamando os religiosos de estúpidos e cegos que soa muito parecido com os religiosos dizendo que os ateus são imorais e vão para o inferno.

Vejam bem, acho perfeitamente válido ser ateu. José Saramago era ateu, militava ativamente contra a Igreja Católica, e era um humanista de carteirinha. Era de um humanismo tão profundo e tocante que é evidente que, com Cristo ou sem Cristo, ele captou a ideia da coisa melhor do que muito cristão que se encontra por aí. E, sinceramente, isso - como você vive a sua vida e se relaciona - é muito mais importante do que a palavra que você usa para se descrever. No Evangelho, aliás, é também disso que Cristo fala ao advertir que não adianta dizer "Senhor, Senhor", declarar-se seu seguidor, e não agir como tal. Ele deixa muito claro que os atos são muito mais importantes que as palavras.

Sobre as palavras e as opiniões... outro dia li uma discussão (não me lembro onde agora, se lembrar coloco o link) toda baseada em argumentos técnicos do Direito em que essa história de brandir o direito à liberdade de expressão como desculpa para poder sair ventilando ofensas por aí, do ponto de vista do Direito, é um equívoco, porque o respeito à dignidade humana se antepõe à liberdade de expressão. Quer dizer, existem direitos mais importantes que outros, e o direito que eu tenho de ser respeitada é mais importante do que o seu de falar qualquer coisa que lhe venha à cabeça. Muito simples.

Um beijo, com todo o amor. Cuidem-se bem por aí neste Carnaval.
;-)

Cris

domingo, 29 de janeiro de 2012

"Um beijo pra quem é trans!" 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans


Neste Dia Nacional da Visibilidade Trans, aproveitamos para reproduzir aqui o belo e honesto depoimento do Flavio Alves (@flavioalves_65) em seu ótimo blog Ideias Canhotas.

(Saiba mais sobre a data aqui; caso se interesse pelo tema, não deixe de ler o artigo "Transfobia: as pedras na Geni", da jornalista Laura Gheller, aqui.)

Porque, enquanto for preciso que pessoas tenham coragem para simplesmente serem quem são, ainda teremos muito o que caminhar. E vamos, de mãos dadas.


Recentemente recebi uma imagem que circulava na rede separando os gays em "bichinhas e homossexuais" (é esta imagem aqui), abaixo da imagem li inúmeros comentários e revi algumas coisas que sempre me chamaram a atenção: a primeira, a necessidade de se enquadrar e limitar as coisas ou os comportamentos; e a segunda, reflexo da primeira, é a forma como as pessoas falam de si mesmas quando se referem à sua orientação sexual.

Quem nunca ouviu uma pessoa dizendo que é gay, mas é supernormal, não é efeminado, não tem trejeitos de gays, é super discreto, é tão normal nem sequer parece ser gay? Indo mais além, quem nunca ouviu algumas pessoas dizendo que não são e não gostam de efeminados, dos viadinhos, das pintosas, de gente que fala fino demais ou que tem trejeitos, de pessoas espalhafatosas que chamam a atenção pra si?

Já fiz muito isso, até já contei por aqui que apontava meu dedinho para tudo quanto é lado e distribuía muitos julgamentos.

Não sei o que passava na minha cabeça, aliás, sei sim! Eu acreditava que ser LGBT e ser digno era duas coisas que se opunham de tal forma que era impossível viver dignamente não sendo heterossexual.

Não parecer LGBT, era mais que um mecanismo de defesa, era uma qualidade e uma condição fundamental para que eu fosse respeitado. Qualidade esta que devia ser preservada, reforçada e exaltada.

Vivia me policiando para não ter nenhum tipo de comportamento que pudesse ser identificado como gay, que desse a entender que eu era diferente, que evidenciasse minha verdadeira orientação. O futebol sempre me entregou!

Como não consegui negar o que sou, durante um tempo me tornei no dizer de uma amiga, um gay de respeito. No entender dela, um gay de respeito é um gay que se nega, que socialmente se passa por aquilo que não é, que nega sua sexualidade, seus desejos, enfim, um gay que fica com meio corpo fora do armário, e na primeira complicação volta correndo para dentro dele. E hoje, observando a maneira como as pessoas se descrevem, vejo que não era só eu que pensava desta maneira... Muita gente pensa assim!
Há uma cultura da invisibilidade, uma apologia a negação de si próprio, uma recomendação sutil de que devemos levar uma vida “contida”, isto é, sejamos gays e lésbicas, mas vivamos sob uma roupagem heteronormativa, nos tornemos palatáveis para turma da moral e dos bons costumes, sem chocar ou levantar bandeiras.

E olhando para essas pessoas que vivem angustiadas e presas em convenções sociais é que cresce meu respeito e minha admiração pelas travestis e pel@s transexuais.

Não tenho dúvidas de que são as travestis e transexuais as mais agredidas, as mais atacadas e as mais incompreendidas. São as que mais têm direitos negados, as que mais são discriminadas. Inclusive pela população LGBT.

São as travestis que mais encontram dificuldades de ingresso no mercado de trabalho, de acesso aos serviços públicos. Sofrem com a falta de atendimento e tratamento adequado, com a carência de políticas públicas que atendam suas especificidades. São elas que são as mais apontadas na rua, na escola, alijadas do meio familiar, invisíveis para o poder público. Sob elas ainda pesa o estigma da marginalidade. E a elas muitas vezes, é negado um dos direitos mais fundamentais do ser humano: o direito a um nome!
Durante muito tempo travestilidade e transexualidade para mim eram sinônimos de sujeira, imoralidade e prostituição. Por anos acreditei no estereótipo de travesti que me passaram: barraqueiras, agressivas, desbocadas e ainda usavam gilete no dente. Figuras ameaçadoras, que resolviam tudo na base do tapa.

Me incomodava estar num mesmo ambiente ou lhes dirigir a palavra. Pensava que se existia um grupo que devia ser discriminado, este era o das travestis, já que elas faziam por merecer, a regra da discrição servia para tod@s, e se tem um segmento que chuta para longe essa regra são as travestis. Mereciam as pedradas e as dificuldades que a vida lhes impunha por “não saberem se comportar decentemente”. Sinceramente ainda tenho certa dificuldade de compreendê-las, mas passei a olhá-las de outra forma.

Todas as travestis que conheci são pessoas imponentes, valentes, combativas, assertivas, mesmo as que não são militantes. Tem consciência da discriminação que sofrem, dos preconceitos, das agressões a que estão sujeitas, e de que a vida não é fácil! Reagem a isso, nem sempre da melhor maneira, mas enfrentam tudo de cabeça erguida, argumentam e dão combate.

Com o tempo percebi que o que me incomodava nas travestis não era a falta de discrição e sim o fato de que as travestis me tiravam do meu lugar confortável de gay respeitável. Eram elas a expressão mais clara de que era possível viver como se quer, não importando o tamanho das dificuldades, dos perrengues ou do que os outros iriam pensar.

Elas atestavam a minha covardia, a minha falta de coragem e os meus preconceitos. Uma demonstração clara de que eu ainda tinha muitas amarras para soltar e correntes para me livrar.

Aí num exercício de humanidade levei meu olhar para além do que meus olhos estavam acostumados a enxergar, para além do que meus preconceitos me diziam e vi nas travestis e transexuais pessoas tão frágeis como todo e qualquer ser humano, cheias de sonhos, planos, vontades e, acima de tudo, cheias de coragem pra enfrentar os desafios cotidianos.

Mas o melhor foi percebê-las cheias de vida, de alegria e graça, mesmo com todas as dificuldades que a vida lhes impõe!

São humanas, capazes de grandes gestos de solidariedade, de demonstração de carinho e cuidado com o próximo, e por incrível que pareça, tem gente que insiste em ignorá-las, como se fosse possível!

Admiro as travestis e @s transexuais, pois além de me tirarem da minha zona de conforto, elas transgridem e transcendem qualquer rótulo que a sociedade, os acadêmicos, o poder público, ou quem quer que seja, tentem lhes impor, Estão acima de definições, são complexas, intensas, únicas e vivas demais para se sujeitaram a ficar presas nas molduras que tentam lhes colocar!

Vivem a me surpreender e ter a oportunidade de conviver com elas é receber uma lição nova a cada dia. Lição de vida, de solidariedade, de luta!

À elas a minha admiração e o meu profundo respeito. E um beijo para quem tem a coragem de ser travesti!

- Flavio Alves

Este post é parte da Blogagem Coletiva no Dia da Visibilidade Trans, promovida pelas Blogueiras Feministas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A história dos meninos gays e de infâncias devastadas

Uma foto por dia, durante 13 anos: Jeff Harris

Uma das integrantes do Diversidade Católica compartilhou com o grupo a história de Pedro e João, relatada na semana passada por Eliane Brum em sua coluna semanal na Revista Época. Ela começa contando:
"Da infância, somos todos sobreviventes. Alguns mais do que outros. Esta é a história de um homem em busca de compreender a si mesmo. E de tentar, como adulto, ser diferente do menino pelo poder da narrativa. Esta história é contada aqui porque foi a nossa ignorância – a minha e também a sua – que destroçou a vida dessas duas crianças. E tem destroçado – às vezes em brutal literalidade, com tiros e pancadas – a vida de muitos – demais."
Não vamos reproduzir o texto inteiro aqui, mas (para quem ainda não viu) recomendamos sua leitura, aqui. O que gostaríamos de compartilhar com os leitores do blog é o depoimento pessoal que, a partir desse caso, outro membro do grupo e colaborador deste blog (nosso Mister MM) compartilhou conosco.

Porque histórias como as de Pedro, João e tantas outras às vezes precisam ser compartilhadas para que as pessoas possam superar as dores e as feridas e seguir adiante - e, quem sabe, estender a mão para quem vier atrás e passar por situações semelhantes.


Vi isso acontecer de perto, muito de perto. Por ter estudado em Colégio Militar e ter convivido sempre com rapazes, presenciei por diversas vezes verdadeiros massacres como esse. Numa fase da vida em que a autoafirmação torna-se a base de toda e qualquer sobrevivência no grupo social, ninguém quer ser o diferente, seja lá qual for o parâmetro ou a medida para tal.

No colégio, vi muitos colegas serem perseguidos por serem mais fracos, franzinos, delicados, tímidos. Eu mesmo, porque era gordo, tive que desenvolver um jogo de cintura fenomenal para escapar às gozações e brincadeiras dos colegas. Nos casos de homofobia que presenciei, minha atitude foi a do omisso: temia que ali também me identificassem com todos aqueles pejorativos inflingidos à vítima e me silenciava. Um orgulho tenho no currículo (e isso ainda vou contar em episódio de um livro que estou escrevendo): salvei dois colegas da exposição à execração pública e consequente expulsão do colégio. Mas isso eu conto numa reunião do DC, prometo.

O relato do Pedro é de uma solidão infinita e a forma como ele descreve o seu percurso de "volta", de reconhecimento de si próprio, de sua identidade e (apesar do clichê) de sua verdade é bastante comovente. Em determinado ponto da sua história (quando ele diz: "eu era um adolescente exemplar. Nunca tinha bebido, nunca tinha usado drogas), vi nitidamente a figura de um ex-namorado meu: filho exemplar, certíssimo, sem falhas, sem mácula, defensor da ordem, da moral, impecavel no seu traje social e no cabelo escovinha, tudo brilhante, solar e perfeitamente enquadrado como num comercial de margarina. Obviamente, mentia para todos e para si mesmo até a raiz dos cabelos. O peso de ter que se enquadrar em qualquer esquema (seja ele a figura do filho ideal ou a do porra louca universitário, como aconteceu com Pedro), ainda mais quando o artifício serve como manutenção de um disfarce, inevitavelmente cobra um preço salgado. O próprio desenrolar da história de Pedro nos mostra isso.

Pelo que deduzi da história de Pedro, sou uns 10 anos mais velho que ele. Vivi uma época em que tanto a escassez de informação quanto a falta de meios para veiculá-las me obrigou a descobrir tudo sobre (homo)sexualidade e tudo sobre mim mesmo numa quase completa solidão. Não havia internet, os estereótipos gays eram impiedosamente repisados nos programas de humor televisivo e, quando queríamos ofender gravemente alguém, bastava chamar o sujeito de Clodovil ou Ney Matogrosso que era confusão na certa. Tive muita sorte na minha história pessoal em não ter caído no poço escuro e sem fundo da raiva, da repulsa e da culpa, como aconteceu com Pedro. E mesmo assim isso não me impediu de experimentar dolorosamente esses sentimentos diversas vezes, através das palavras, dos olhares e da (in)sensibilidade de outras pessoas.

Todos os dias rezo para que meu afeto sobreviva nesse mundo caótico de símbolos e siglas e tantas e tantas interdições, rezo para não perder a minha humanidade em meio aos que, por ignorância ou maldade, subtraem o que há de genuíno e o substituem pelo que há de supérfluo. Rezo, enfim, para que os percursos de tantos e tantos Pedros e Joões por aí desaguem em mares de compreensão e acolhimento. De perdão. Para outros e para eles mesmos.

Obrigado por ter compartilhado essa matéria.

Beijo carinhoso.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

E ser feliz é o que realmente importa!


Reproduzimos abaixo o lindo texto de Flavio Alves, publicado em seu excelente blog Ideias Canhotas.

Um dia desses acompanhei em um fórum na net o relato um adolescente de 16 anos que compartilhava com os membros sua angústia: havia entregue uma carta para sua mãe revelando a sua homossexualidade e naquele momento aguardava a reação dela, bem como do restante da família que provavelmente não reagiria bem.

Acabei puxando pela memória algumas lembranças de como vivenciei este período, algumas coisas até já compartilhei por aqui. Lembro que este período foi um tanto quanto solitário, não tinha com quem dividir as minhas angústias, falar das minhas confusões e das paixonites. Penso que com o advento da internet, hoje exista mais espaço para que as pessoas possam se expressar e existe a real possibilidade de abertura de canais para que as pessoas dêem vazão àquilo que as afligem.

Nas mensagens que se seguiram ao post, muitas pessoas deram apoio e se solidarizaram com a situação do garoto, e houve – sempre há – quem aproveitou a oportunidade para pisar, humilhar e despejar alguns preconceitos sobre uma pessoa que já estava bastante fragilizada e exposta, essas nem merecem consideração.

Entre vários comentários das pessoas que seguiam o fórum algumas coisas me chamaram a atenção: a primeira é que a internet (e os espaços criados por ela) nunca vai substituir as relações humanas, o olho no olho, o calor de um abraço e o som das palavras, porém, é possível encontrar algum alento por ali.

Pelos textos percebia-se que o ato de se assumir por vezes é aterrorizante. A angústia de expor uma parte importante de nossas vidas e o temor das conseqüências deste ato que parece tão simples são assustadoras. Acabam por misturar sentimentos, valores morais, convenções sociais, doutrinas religiosas, entre tantas outras coisas que acabam por trazer uma sensação de inadequação e não pertencimento ao grupo familiar e de amizades.

A segunda coisa que me chamou a atenção foram os inúmeros conselhos sobre a melhor forma de se revelar, de assumir a própria homossexualidade. Já ouvi uma infinidade de conselhos sobre quando e como se assumir. Alguns bastante válidos, como contar para um amigo próximo, um familiar ou alguém de confiança que possa dar espaço para que a pessoa se abra, mas até isso é mais fácil em teoria.

Porém, alguns outros acabavam por fazer com que o fardo de se assumir ficasse cada vez mais pesado, aconselhando o rapaz (e quem mais estivesse na situação) a antes de se assumir conquistar independência financeira, fazer uma faculdade, conseguir um bom trabalho, juntar uma boa grana, mudar de casa e depois contar à família. E aos que ainda não podem sair de casa ficava a recomendação de ser o melhor em tudo, o melhor aluno, o melhor filho, o melhor primo, o melhor funcionário, o melhor amigo, pois essa seria uma forma de “compensar” o fato de ser gay.

Avaliando o que eu passei, o que eu escuto por aí, o que já estudei e o que eu li no fórum, percebo que essa idéia da independência financeira associada a tese de que devemos ser os melhores em tudo é bem mais comum do que se pensa, e em alguns casos parece ser uma reação quase que automática, como se ao não depender financeiramente de ninguém, estivéssemos acima do julgamento de qualquer pessoa, ou deixássemos de depender afetivamente das outras pessoas também. Ou como se o fato de eu ser o melhor aluno, manter meu quarto organizado, ir ao mercado com minha mãe e lavar a louça do jantar compensasse o fato de não ser o que esperavam que eu fosse.

Pura balela! Não tem dinheiro, produção acadêmica, eficiência profissional que compense afeto, aliás, não há nada para ser compensado. Ao nos revelarmos, o fazemos por que queremos ser amados como somos, e não por aquilo que temos, fazemos ou podemos vir a ter. O fazemos por que levar uma vida dupla é insuportável, por que se negar e não se aceitar é tão doloroso, quanto por que o medo de perder o amor e o respeito das pessoas que amamos.

E por fim, no meio das postagens surgiram as eternas perguntas: como se assumir? Como contar a nossos pais sobre nossa sexualidade? E para as pessoas próximas? E o que fazer quando isso acontecer? Como vai ser depois de contar?

Sinceramente não sei, e não creio que existam respostas e receitas certas para se assumir. Mas tenho a certeza que é importante falar sobre o assunto.

Hoje, penso que para compartilhar esta parte tão importante com a família e com os amigos, a primeira coisa a se fazer é estar bem consigo mesmo.

Isso mesmo, ao me revelar e exigir respeito das pessoas devo em primeiro lugar me aceitar e me respeitar, estar bem com isso. Aceitar que a minha orientação sexual é uma variação natural da sexualidade humana, e que mesmo que alguns preconceituosos digam, não sou nenhum anormal, abominação ou aberração.

Note-se que eu digo “me respeitar” e não “se dar ao respeito”, como dizem por aí. Na linguagem moralista, “se dar ao respeito” é se anular, se esconder, se portar como se a nossa sexualidade (homo, bi, trans, ou qualquer outra possível) não existisse, ou ficasse restrita ao maravilhoso mundo de Nárnia, bem guardada dentro do armário.

Depois de estar seguro e feliz com o que se é, penso que a melhor coisa a se fazer é conversar, conversar e conversar sempre!

Estar aberto para responder as perguntas que surgirão, lidar com as dúvidas, com as frustrações, com as cobranças e em alguns casos com as limitações que decorrerão daí.

Enfim, acredito que se assumir não se limita a contar a alguém. Se assumir tem a ver com se aceitar e gostar se si próprio como realmente se é. É um processo de autoconhecimento que se faz diariamente, é tomada consciência de si próprio, de reconhecer que somos e podemos ser falhos, mas que nossa sexualidade não tem relação nenhuma com isso. Se assumir é dar novos sentidos aos nossos valores e sentimentos, é compreender a maneira como amamos e como lidamos com nossos afetos. Se assumir é um ato de coragem que demonstra cuidado com a nossa própria existência e uma grande disposição para ser feliz. E ser feliz é o que realmente importa!

- Flavio Alves
Publicado originalmente no blog Ideias Canhotas

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Demônios invisíveis: preconceitos e exclusões entre LGBTs e cristãos


Amig@s,

Ontem publicamos uma nota (leia aqui) chamando atenção para o fato de que a notícia de maior repercussão esta semana nos veículos LGBT, de que o papa chamou o casamento gay de "ameaça à humanidade", estava baseada numa distorção, na medida em que Bento XVI em nenhum momento, em seu discurso, faz referência direta aos gays.

Sim, sabemos qual é, historicamente, seu posicionamento. Sim, em outras ocasiões ele se manifestou de maneira desastrosa em relação a nós, e de forma perfeitamente direta. Sim, estamos carecas de saber qual é a postura do Magistério, que justifica tantas intervenções em assuntos civis e de Estado por instâncias diversas do clero em todo o mundo, com consequências funestas para nós, gays, e nossos direitos civis. Sim, sabemos o quanto a Igreja como instituição, historicamente, assumiu posturas nefastas em relação a questões humanas prementes, bem como da sua dificuldade tacanha em lidar com tudo o que diz respeito à sexualidade. Em momento nenhum negamos nada disso. Apenas chamamos a atenção para o fato de que, desta vez, houve uma grave distorção pela Reuters, que fez questão de, de um discurso que abordou pontos importantes de maneira positiva, destacar uma alusão aos gays que seria, no máximo, indireta. Por que essa escolha? Por que, neste como em outros casos, fazer questão de reforçar estigmas, acentuar o mal-estar e intensificar conflitos? Isso não quer dizer que a postura da Igreja católica em relação a nós, na teoria e na prática, seja outra, mas nos sentimos na obrigação de questionar uma certa atitude que parece pretender  simplesmente jogar lenha na fogueira, porque com acirramento do conflito e abertura das feridas também não vamos construir nada de bom nunca.

Recebemos uma série de críticas por "defendermos o indefensável" - como disse um amigo querido no twitter, a quem agradeço profundamente por manter o bom humor - quando não publicamos essa nota para defender ninguém. O que nos moveu, e que nos move sempre, é o combate às estigmatizações, aos rótulos, aos preconceitos construídos sobre o desconhecimento e ideias preconcebidas, às generalizações que colocam todo um conjunto de pessoas em um mesmo saco de gatos, tira de cada uma delas o direito de ser vista como ser humano único e inigualável que é e a aprisiona num papel fixo e preestabelecido do qual ela não poderá sair jamais; e, sobretudo, às segregações, aos sectarismos, às intolerâncias, às incapacidades de dialogar com quem pensa ou vê diferente de você, ao totalitarismo de ideias que é contrário ao pluralismo e ao diálogo que almejamos. Porque acreditamos que, sem uma legítima superação do ressentimento, sem uma legítima abertura ao diálogo, não poderemos nunca construir uma sociedade mais justa e plural.

Isso significa uma postura acrítica em relação à instituição eclesiástica? De forma nenhuma, e muito pelo contrário. Como cristãos responsáveis que procuramos ser, buscamos sempre estar atentos às injustiças e violências, pequenas e grandes, denunciando-as e fazendo-lhes frente, e damos nosso testemunho da nossa dignidade humana como pessoas cuja dimensão afetivo-sexual é inalienável, ao contrário do que (ainda) diz a doutrina católica - e acreditamos que qualquer mudança, em toda instituição humana, começa por aí: pelas bases. Mas, assim como conhecemos (na pele, e muito bem) a Igreja pecadora, que exclui, ameaça e violenta, quando não falha gravemente por uma escandalosa omissão e se exime, assim, de sua missão de anunciar a Boa Nova de amor de Cristo, conhecemos também a Igreja santa que se insurge contra as injustiças, que defende o fraco, que aceita, acolhe e produz boas obras, neste como em outros momentos da história. Não seria injusto colocar tudo no mesmo balaio?

Ontem o Deputado Federal Jean Wyllys publicou um excepcional comentário na Carta Capital sobre a postura nada evangélica da Igreja a respeito da homossexualidade (não deixe de ler, aqui). Seu texto é eloquente e suas críticas, colocadas com muita clareza, absolutamente pertinentes. (Com uma única falha grave, a nosso ver - o ter adotado como ponto de partida a falácia de que o papa afirmou que os gays representam uma "ameaça ao futuro da humanidade" etc., porque desta vez não foi isso que ele disse, mas paciência.) Foi, claro, bombardeado por "cristãos zelosos" nos comentários do site, ameaçando-o e a todos os gays com a danação eterna - e tome citações bíblicas, e "Deus ama você, mas odeia seu pecado". Ao ataque seguiu-se a resposta, por sua vez, dos "gays zelosos", arrolando todos os erros da Igreja e basicamente demonstrando que, se tem alguém que merece queimar nas profundas do inferno, são os cristãos e, se perigar, religiosos em geral. Ambos os lados - sim, porque são dois partidos diametralmente opostos e em guerra acalorada - tratam-se como incompatíveis, irreconciliáveis e mutuamente excludentes. A sobrevivência de um implica na destruição ou banimento ou, no mínimo, no silenciamento do outro.

É esse o reino de amor anunciado pelos cristãos? Essa é a sociedade plural, a diversidade tolerante ansiada pelos LGBTs?

Quem, como um outro amigo extremamente querido, não gostou de nos ver "defendendo o indefensável" logo encontrou uma explicação para nossa atitude injustificável: claro, é porque nós do Diversidade Católica estamos do "outro" lado, do lado "deles", não passamos de conservadores, mentirosos, hipócritas, charlatães, bajuladores. Porque, evidentemente, num mundo em guerra, polarizado entre dois extremos inconciliáveis, ou você está do meu lado, ou está contra mim. Não existe espaço para as diferenças individuais, não existe espaço para a história, o tempo, o percurso, a bagagem de cada um. Todo mundo, de um lado e de outro, é igual. Quem parece não se enquadrar numa categoria clara cai no terreno pantanoso de uma perigosa e suspeita ambiguidade. O que não é possível - de que lado você está, afinal?

Pessoalmente, sinto essa necessidade de classificar as pessoas em categorias estanques preconcebidas como uma abstração que desumaniza, uma demonização que apaga quem o outro é e o transforma num monstro; esvazia-me de toda a complexidade de sentimentos e história e relações que tecem a pessoa que eu sou e me impinge um rosto coletivo que não é o meu. Sinto que o que está em ação aí é o mesmíssimo mecanismo de invisibilização que leva os doutrinadores e juízes religiosos a afirmar, sem me conhecer, que minha afetividade e sexualidade são desordenadas por princípio. Como alguém pode afirmar qualquer coisa a meu respeito, se não me conhece, se nunca me viu? Por favor, me olhe nos olhos e me enxergue antes de me colocar num lugar que não é o meu. E isso vale tanto para o papa, dos píncaros do seu poder, quanto para quem tiver sido ferido por esse poder, do fundo da sua dor.

Ricardo, espero que algum dia você entenda o que quisemos dizer e possa nos ver de outra forma. Nunca nos conhecemos pessoalmente, mas você conquistou meu respeito, minha admiração e minha afeição mais sinceros, e lamento imensamente pela forma como você está se sentindo.

Um beijo carinhoso a tod@s.

Cristiana

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Ninguém pode me tirar de junto do Pai"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Meu nome é Cristiana, tenho 37 (quase 38) anos, sou psicóloga e psicoterapeuta e casada. Desde que me entendo por gente, Deus é uma presença constante em minha vida, em meus pensamentos e em meu coração. Uma presença muito real, com quem sempre conversei e dividi minhas angústias, minhas alegrias e meus desejos, e cujas respostas sempre ouvi muito concretamente através de pequenos acontecimentos e detalhes do cotidiano. Educada em colégio católico, lembro como se fosse ontem da primeira aula de religião, no antigo C.A. (classe de alfabetização): a Irmã Maria Amélia – pequenina, um pouquinho encurvada, um jeitinho simples e mineiro de falar, levemente dentuça, sempre de saia preta e camisa bege abotoada até o pescoço – fazendo o gesto de discar na palma da mão (começo dos anos 1980, tempos dos telefones cinzentos com fio e de disco da antiga Telerj) e ensinando que “o telefone de Deus” era “a oração: o telefone do coração”. Eu tinha 6 anos, e Deus era o meu “Papai do Céu”, com quem eu ia conversar diariamente na capela do colégio antes das aulas e na hora do recreio. Conversava muito também com a “Mamãe do Céu” – uma Nossa Senhora linda e coroada, que, do altar, Menino Jesus ao colo fazendo um gesto de bênção, me olhava com benevolência e compaixão. Aos seus pés estendia-se um misterioso letreiro em latim, o lema da ordem religiosa da escola: In Sion Firmata Sum, cujo significado sempre foi um enigma para mim.

Cresci com essa relação de afeto e familiaridade com Deus. A partir da Primeira Eucaristia, aos dez anos, passei a frequentar religiosamente (sem trocadilhos) a missa aos domingos com meu pai (minha mãe ficava em casa com minha irmã pequena). Só o que me perturbava um pouco era a noção recém-adquirida, junto com a Confissão que acompanhou a Primeira Eucaristia, de “pecado”, e a necessidade de estar “limpa”, através da confissão, para poder comungar. Resultado: todo domingo eu precisava chegar meia hora antes para entrar na fila da confissão e relatar meus pecadilhos: eu menti, eu impliquei com a minha irmã, eu fiz malcriação para a minha mãe, fui desaforada com meu pai...

Ao longo da adolescência foi nascendo a sexualidade, e começou a confusão. Ouvi dizer que masturbação era pecado – e, bem, toda semana eu ia me confessar e perguntar ao padre por que. Foram muitos padres, muitas explicações diferentes, mas nenhuma me convencia. Não conseguia entender por que aquilo seria “um ato de egoísmo”. Não conseguia entender como eu estaria prejudicando alguém. Eu não indagava num espírito de confronto; simplesmente era algo que não fazia sentido para mim, e queria muito compreender.

Ali começou a surgir uma imagem de um Deus que me poria à prova, perante o qual eu teria de me justificar e comprovar meu valor; um Deus que teria para mim planos que estariam além dos meus desejos mais imediatos e, para adequar-me à sua vontade, eu teria de “purificar” a minha. De filha querida, amada e confiante no colo do Pai, fui me tornando, aos meus próprios olhos, impura. Na tentativa de mostrar-me à altura dele, merecedora de seu afeto, esforcei-me por parar de chamá-lo daquele infantil “Papai do Céu” e “amadurecer”, passando a dirigir-me a Ele como “Deus” – ainda “Pai”, mas, sem que eu percebesse, mais distante, mais severo; um Pai de desígnios misteriosos e arbitrários, que nem sempre faziam sentido para mim e que eu já não compreendia mais.

Quando me dei conta da minha homossexualidade – que sempre, sempre, sempre tinha estado ali, embora eu simplesmente não tivesse olhos para ver –, já aos 18 anos, mergulhei no inferno da dúvida. Por um lado, coisas que nunca tinham feito sentido passaram a fazer, portas e janelas se abriram e uma lufada de ar fresco invadiu meus pulmões quando entendi finalmente que não precisava me obrigar a me interessar por meninos, a flertar com os meninos, a desejar os meninos, a me apaixonar por meninos e um dia a casar com um. O fascínio e o encantamento que as meninas me despertavam (bem, algumas delas) e que desde sempre me haviam levado a escrever poesias e suspirar e ansiar por estar com elas e tocá-las e protegê-las e receber sua atenção – isso era a tal atração, o tal flerte, o tal desejo, a tal paixão, o tal amor. Agora, sim, alguma coisa fazia sentido.

Por outro lado, havia a história do pecado. Se eu estava “em pecado”, não podia comungar. Durante a Eucaristia, chorava a alma, mas, em respeito ao sacramento, “não podia” ir recebê-lo enquanto não chegasse a uma conclusão quanto a ter o direito de fazer isso ou não. E toca a ir a todos os padres que estavam ao meu alcance perguntar por que ser homossexual era pecado, sem querer me dar conta do absurdo da pergunta – desde quando “ser” alguma coisa é pecado? Se eu “sou”, não é uma escolha, não pode ser pecado, assim como não é pecado eu ser, sei lá, destra ou canhota. De novo, recebi as mais diferentes respostas, e absolutamente nenhuma fazia sentido, porque eu tinha aprendido que “pecar” era escolher fazer mal a alguém, e eu não percebia nenhum mal em sentir o que eu sentia. Um dia, depois de ouvir de um padre muito querido todas as respostas que eu já conhecia de cor e salteado, e de retorquir com todos os argumentos que eu também já tinha na ponta da língua, ele, sem ter mais como continuar, jogou a toalha: “Minha filha, você vai ter que conversar com alguém mais esclarecido do que eu. Não sei mais o que dizer a você”. Foi uma luz no fim do túnel. Talvez houvesse sentido no que eu sentia, afinal.

Já na faculdade, já declaradamente fora do armário para família e amigos, mas ainda vivendo apenas paixões platônicas, sem que nada de concreto tivesse acontecido, fui convidada um dia para um retiro de iniciação aos exercícios espirituais de Santo Inácio. Ao final do retiro, antes da celebração eucarística, fui, como sempre, me confessar. E comecei minha ladainha: “Queria saber por que ser homossexual é pecado. Não consigo entender, pois, se é amor, e se todo amor gera vida...” Nesse ponto a voz sempre embargava, e engasguei; o padre entendeu, sorriu e teve a compaixão de me poupar do trabalho de continuar. “Minha filha, você tem toda razão. Todo amor gera vida. Pode ficar em paz.” E fiquei: naquele dia, comunguei em paz, finalmente, depois de alguns anos. Meu coração estava mais livre.

Percorrer o caminho dos exercícios inacianos, de lá para cá, foi um grande aprendizado – a começar pela presença amorosa, paciente e perseverante da minha orientadora, em si mesma uma graça do Pai em minha vida. Tem sido um caminho sinuoso, de longas voltas, de constantes recomeços e reconversões, de eternos retornos. Desde então, passaram-se mais de 15 anos de um contínuo voltar-me e voltar para Deus, e nele passo a passo reencontrar o Pai amoroso da minha infância, em cujo regaço posso repousar com confiança inocente e em paz; meu “Papai do céu”, que, mesmo quando me afasto, me conduz amorosamente por suas veredas, e que, nos momentos mais sombrios, quando me sinto só e brado “Meu Deus, por que me abandonaste?”, me carrega no colo em silêncio e sem que eu perceba, deixando apenas um par de pegadas na areia.

Assim, por meandros quase nunca fáceis mas sempre de graça em graça, cheguei em 2008 ao Diversidade Católica. Aqui descobri que o amor do Pai se faz sentir no amor que recebo dos que me amam e no amor que sinto por eles: meus pais, minha irmã, meus muitos amigos e outros tantos tão queridos. Aqui aprendi a viver em comunidade a graça desse amor radiante, e finalmente entendi o “onde um ou mais estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles” – porque aqui o amor do Pai, a Boa Nova de Cristo, se fazem sentir concretamente, sempre que estamos juntos eu e meus irmãos.

Aqui também recebi de presente, num dia de aniversário, a mulher ao lado de quem quero caminhar e crescer e com quero dividir todos os dias da minha vida e ter filhos para os quais transmitir os valores que compartilhamos e com os quais também aprender; mulher que admiro e respeito e amo com um amor tão profundo que não cabe em mim, transborda e torna a minha vida mais luminosa e minha caminhada mais leve. A minha família é a família dela, e a família dela é a minha; e minha maior felicidade é sermos família juntas, na certeza de que temos a responsabilidade de servir como agentes de multiplicação da infinidade de graças que recebemos.

Sobretudo, descobri também que Deus não me impõe nada além do que já é a minha própria natureza e vontade, aquela que reverbera no mais fundo do meu coração. Deus, em seu amor, não me pede sacrifícios nem me propõe jogos, testes ou provas. Tudo o que ele quer é que eu seja feliz; para isso ele me preparou, e tudo o que eu devo fazer é me deixar conduzir por ele na realização daquilo que eu sou desde sempre e desde sempre me impulsiona e pulsa no meu ser.

Foi assim, por um desses carinhos sutis com que o Pai nos aconchega e faz sentir o seu amor, que recentemente decifrei um dos maiores mistérios da minha infância: o In Sion Firmata Sum, a inscrição aos pés de Nossa Senhora de Sion, lema gravado no altar que tanto me intrigava em pequena, traduz-se como “Estabeleci-me firmemente em Sião”. Sem que eu soubesse, esse lema esteve desde sempre gravado na minha alma, no meu coração e no meu nome como um sinal. Sim, de pés plantados na rocha da qual ninguém me pode arrancar, “estabeleci-me firmemente em Sião”: ninguém, nem eu mesma, pode me afastar dos sacramentos nem da Igreja dos meus irmãos.;ninguém pode me tirar de junto desse Pai que me ama sem razão nem porquê, com esse amor de uma gratuidade louca e escandalosa, sem que eu nada tenha feito para merecer. Porque, sim, desde o nascimento eu sou o que sou: Cristiana, mulher, gay, cristã, católica e filha amada incondicionalmente, irrestritamente, pelo Pai Infinitamente Amoroso, e por Ele capaz de amar, e refletir e espalhar o seu amor.

E que para sempre seja louvado.

* * *

Com este depoimento, chegamos ao fim da nossa série. Aproveito este espaço para mais uma vez agradecer a todos os que tiveram a generosidade de compartilhar suas histórias conosco e com os leitores do blog, e também para expressar minha mais profunda e sincera gratidão aos meus companheiros de jornada: Rodolfo, minha amada Zu, Marcelo, Mister MM, Hugo, o Inquieto e demais colaboradores do blog, assíduos ou bissextos, antigos ou recentes; a todos os que, de perto ou de longe, nos incentivam com suas palavras ou com sua torcida, com sua participação ou com sua presença, com seus comentários, críticas ou sugestões. A todos vocês, e a todos os meus irmãozinhos do Diversidade, muito obrigada, e que neste Natal a presença viva de Cristo renasça mais uma vez no coração de cada um de nós.

Com amor,

Cris

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"O amor é a maior força que existe, capaz de vencer qualquer dificuldade, mesmo quando a maior delas é seu próprio medo"

Foto: i can read

Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Sempre acreditei na força dos testemunhos. Era a atividade que mais me comovia nos retiros que eu participava, fossem os retumbantes encontros de jovens, com suas músicas de louvores e exagerada disponibilidade, fossem os introspectos retiros de preparação para a crisma (desses últimos, aliás, eu fui socio contribuinte, não perdia um). Eram esses os momentos nos quais eu mais refletia sobre o meu pecado #1: o de gostar de coisas impuras.

Quem já foi numa igreja barroca sabe que normalmente o altar é escalonado e cada andar tem a imagem de um santo (que normalmente usa uma peruca com cabelo humano – isto é bizarro!). É como uma classificação bem dividida que começa por nós, fiéis, no chão. Depois o padre, no presbitério. Daí vem um anjo, um santo, uma Maria, Jesus e Deus. Isso tem um quê de hierarquia, uma distribuição de poderes bem denifida, assim como no "estava a velha em seu lugar", só que com personagens religiosas. Para mim a Igreja sempre foi exatamente assim: um grande coro de hierarquias encabeçado pelo Papa João de Deus, tão amado pela minha família, cujo retrato afetuoso encimava nossa mesa de jantar. Aliás, acima do papa estava Jesus, não andando ou vestindo suas roupas de época, mas pregado na cruz e olhando de ladinho aqui pra baixo, como quem quisesse dizer alguma coisa. E na minha cabeça, nessa escada estavam presentes também o meu anjo da guarda – o zeloso guardador – e meus antepassados que foram grandes personalidades lá na roça, onde se confiava em Deus e nada mais.

Eu não queria usar uma expressão chavão, pois gosto de ser exclusivo. Mas nada que eu invente daria conta de explicar melhor o fato de que "eu sempre soube". É uma m&%#@, mas é a verdade. As travas da Lapa sempre souberam, mas e daí?, são pecadores! Eu não... não sou igual a eles, devo rezar por eles e pedir forças a Deus para que consiga me livrar deste mal. Nunca acreditei em um inferno quente e péssimo, mas como ninguém prova nada, fica o dito pelo não dito e toda semana eu ia me confessar.

"Meu filho, Deus te ama. Peça forças a ele porque você é um jovem muito bom e vai conseguir se livrar disto."

"De novo né? Quer o que com isso? Hein? Vai conseguir ser pai de família assim?"

"Meu filho, não precisa vir aqui para confessar isso, eu já te falei."

"Ué, fazer o que, né, pecado mortal. Reza para Nossa Senhora te livrar do pecado".

É, nenhum dos mil padres com quem eu me confessava toda semana sabia de fato o que me dizer. Nenhum deles me convencia; aliás, essa enorme variedade de opiniões me deixava mais perdido. Mas Jesus de ladinho era quem mais me amedrontava, não pela relação de temor que eu tentava nutrir, a despeito da minha forte crença de que Deus me amava, mas porque eu nunca estive realmente a sós com ele. Jesus nunca veio falar sozinho comigo, sempre trouxe toda a galera da hierarquia, o papa, os padres e seu pessoal. E sempre quando eu tentava falar com ele, tinha que passar por esses interlocutores bizarros.

A minha vantagem era que eu nunca tinha me apaixonado por um menino. Toda a relação que eu tinha com homens era apenas sexual e isso me fazia acreditar que eu não era gay, mas apenas um cara que sentia tesão por outros caras. E até mesmo esses questionamentos acerca da relação entre a religião e minha sexualidade só aconteciam quando eu tinha alguma experiência sexual homoerótica; no meu dia-a-dia, eu me julgava super hétero e condenava abertamente o "homossexualismo". Dei inúmeras palestras nos grupos de jovens e nas aulas de crisma sobre esse assunto e não tinha medo de me posicionar contra. Não posso dizer que eu era hipócrita, pois no fundo eu realmente acreditava na opinião oficial da Santa Mãe Igreja – e, mesmo que eu sentisse o contrário, o errado era o meu sentir. Eu realmente sofria muito.

Tudo começou a mudar quando Jesus de ladinho saiu da sua cruz. Se desprendeu do madeiro no meu terceiro dia e veio falar pessoalmente comigo. Achei isso formidável, mas eu demorei muito a acreditar que era ele mesmo ali falando comigo, sem as opiniões dos mil padres, sem os antepassados, sem o João de Deus. Eu tinha me acostumado a só ouvir a voz de Jesus através dos outros e era como se ele tentasse falar comigo e imediatamente fosse cortado pelas vozes daquele séquito. Era muito difícil ouvir Jesus falar!

Conheci um menino, diferente de todos os outros, e por ele me apaixonei. Nossa relação durou cinco anos, e com ele aprendi que o amor é a maior força que existe e é capaz de vencer qualquer barreira, mesmo quando o maior obstáculo é você mesmo. O nosso amor venceu meu próprio preconceito, venceu minha própria opinião, me venceu.

Eu conheci um grupo de pessoas, diferente de todos os outros, e por ele me apaixonei. Hoje posso testemunhar porque vi com meus próprios olhos, senti com meu próprio coração, chorei minhas próprias lágrimas. Com esse grupo, que se chama Diversidade Católica, eu aprendi que o amor é a maior força que existe e é capaz de vencer qualquer dificuldade, mesmo quando a maior delas é seu próprio medo. O amor venceu meu rancor, venceu minha dúvida, venceu minha ideia de que encontrar Jesus é subir as escadinhas de um altar barroco.

Hoje eu não vou mais nos retiros de crisma, porque talvez eles tenham medo das pessoas serem o que realmente são. Descobri que os sentimentos não são impuros, nós aqui fora é que os tornamos assim. Ainda gosto de igrejas barrocas, mas as observo como uma marca histórica de um tempo em que se acreditava que Jesus precisava ser protegido do ser humano cruel e sujo e por isso foi elevado e cercado de um monte de santos, anjos e afins. Notícia: foi ele mesmo que escolheu ser um de nós, foi para isso que ele veio ao mundo! Não faz sentido apartá-lo da nossa realidade, deixem ele aqui no chão com a gente, é isso mesmo que ele quer!

(Se você não tem senso de humor, pule o próximo parágrafo e vá direto para "E eu conheci")

Em outras palavras, Jesus chegou para acabar com "estava a velha em seu lugar"! As travas da Lapa e os padres que me confessavam vão se encotrar no céu, juntamente com os santos barrocos que vão tirar suas perucas humanas e descobrir que podem ser felizes com seus próprios cabelos! O João de Deus – que já até morreu, tadinho – vai sair da mesa de jantar da minha família e desmontar aquele sorriso que já dura uns vinte anos, e Jesus de ladinho, ah! Esse sim, vai desentortar seu pescocinho, colocar suas roupitchas de época e virá abraçando todo mundo!

E eu conheci o Jesus, que hoje não fica mais de ladinho, e que é muito diferente da imagem que fazem dele por aí. Eu tenho absoluta certeza de que posso me afirmar filho de Deus pelo amor que ele tem por mim hoje, como eu sou. Foi o amor dele por mim que me deu forças para eu me amar e me aceitar como eu sou, pois se ele me ama como eu sou, eu não posso me amar de maneira diferente. Sim, eu sou gay e me amo como sou, pois Deus me ama como sou!

Beijos,

Pedro!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

O depoimento desta semana tem uma peculiaridade: foi enviado para nós não por um membro do grupo do Rio, mas por um amigo virtual, uma das pessoas que entraram em contato conosco interessadas em iniciar um grupo de católicos gays em Belo Horizonte e nos pediram ajuda para estruturá-lo. Os grifos são do autor.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Eu “amei“ em toda a minha vida, até hoje, quatro pessoas. Duas do sexo masculino e duas do sexo feminino. Somente depois de uma longa caminhada, consegui descentrar o amor romântico a fim de buscar o amor real: uma mescla de amor Eros, amor Filia e amor Ágape, além de muito suor e lapidação no cotidiano de uma relação. Tornei-me uma pessoa melhor.

Sou intenso e faço a experiência de Deus da Meditação à Teologia da Libertação. A espiritualidade, o fato de gostar de gente, literatura, música, psicanálise e a paixão por viagens contrapuseram e ressignificaram intensos sofrimentos, perdas, abuso sexual e bullying na infância.

Somente aos 42 anos, encaro a minha orientação sexual não convencional como dom de Deus. Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus: Ele me ama e ponto.

Existem sete bilhões de pessoas no planeta terra. Existem sete bilhões de singularidades. Portanto, existem sete bilhões de sexualidades, porque ninguém é igual a ninguém. Hetero, bi, homo, transexual... São balizamentos importantes, mas essas denominações não podem aprisionar a vastidão do mistério que pulsa em cada coração humano: buscamos sempre Deus no outro, nossa verdadeira sede é Dele e é essa a nossa maior e melhor realidade.

Uma amiga íntima, freira, falou-me um dia: “Marcos, Deus é amor, a pessoa humana é que é um mistério...” Pura sabedoria, verdade verdadeira. Assim...

Aos 07 anos, amei pela primeira vez: uma menina de minha sala, dois anos mais velha que eu. Ela era muito feia, mas eu adorava Gláucia: a menina mais charmosa que já conheci. Ela usava óculos fundo de garrafa, tinha uma pinta preta e grande no rosto e era zarolha. A sua vivacidade, jeito de falar, dançar e ser encantavam-me. E ela levava bombom de cereja para mim e batia nos meninos que me insultavam na escola. Eu andava com a foto dela na minha merendeira e cheguei ao ápice da paixão ao entregar meu ovo de páscoa inteiro para ela, que quase desmaiou de alegria. E eu de tristeza no dia em que, ao chegar à escola, sua carteira estava vazia. E vazia para sempre. A família mudou-se para outro país para aproveitar uma excelente oportunidade de trabalho para seu pai. Ah, que dor eu sofri!

Aos 13 anos, vivi um amor platônico, experiência que todo mundo deveria ter, porque além de ser uma delícia, prepara, delicadamente, o adolescente para o namoro real. Tiago era o nome dele. Ele tinha 16 anos e um dos adolescentes mais bonitos que conheci em minha vida. Ele era o “cara”: quase todas as meninas queriam namorá-lo. E ele namorou muitas garotas, mas, coetaneamente, por uns bons anos e todos os dias, ele quase furou com sua moto, o asfalto da rua onde morava. Eu ficava no jardim, meio que escondido por entre as árvores e o coração disparado. Seus olhos negros atravessaram todas as barreiras de censura e de preconceito existentes em mim e iluminaram meu ser por inteiro. Eu não precisava de mais nada, sentia-me “pleno”, podia morrer. É engraçado: ao rememorar essas cenas, não posso deixar de falar que jamais tive qualquer fantasia sexual genital com ele. O fato de ele existir e o fato de poder todas as manhãs, na escola, vê-lo e ser visto, de ser o seu amor proibido, enchia-me de um tipo de alegria que jamais senti novamente. Nunca comunicamo-nos por palavras. Elas, hoje penso, quebrariam o encanto. Somente sorrisos, olhares e as iniciais de nossos nomes, de maneira clandestina escritos nas árvores de nosso colégio. Ao mesmo tempo, eu era coroinha e amigo do padre do bairro: nós jogávamos peteca em dupla e ele era extremamente amigo: deu-me um belo presépio em um dos natais e ensinou-me que Jesus nasce no coração de todos nós em todos os momentos de nossas vidas. Sinto que Deus enviou-me Tiago e encheu-me de uma pureza de estado de alma, que a turbulência de minha fase posterior, dos 17 aos 21 anos, não conseguiu apagar. Nessa etapa de minha vida, afastei-me da Igreja e experimentei vários namoricos e relacionamentos sexuais - corri sério risco de vida ou de contrair AIDS – até dar-me conta de que não tinha coragem e maturidade de me entregar a ninguém. Eu precisei de mais dois anos para que a homofobia silenciosa e arrasadora começasse a ser transformada em fonte de amor. Eu precisei fazer psicanálise por uns bons anos e essa foi essencial no meu processo de amadurecimento humano. Quanta dor, quanta busca: tocar o dedo nas feridas, enfrentar o inconsciente, as sombras: nossas mestras companheiras, como nos ensinam os padres do deserto dos primeiros séculos de cristianismo: “O céu começa em você “ ensinou-me o passar dos anos e o monge beneditino Anselm Grün, autor do belo livro com esse nome.

Em uma segunda-feira ao meio-dia em ponto, aos 25 anos, conheci a paixão de minha vida: Marco Túlio e três anos de relacionamento que valeram por trinta. Túlio acabava de sair do seminário, onde viveu por muitos anos. Túlio: homem de inteligência viva e ousada, que açulou minha consciência crítica, opção preferencial pelos excluídos, cidadania, direitos humanos. Através dele pude “Beber do próprio poço” com Gustavo Gutierrez; ser atravessado pela obra de Theilhard de Chardin; saborear “Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos”, “Vida para além da morte”, “São Francisco de Assis: ternura e vigor” e tantos outros magníficos livros de Leonardo Boff; tive “Fome de beleza e de pão”, aprendi o “Catecismo Popular” e vivi o “Batismo de Sangue” de um de nossos maiores escritores e profetas modernos, que é Frei Betto. Através desse relacionamento, comecei a participar de pastorais sociais, acompanhei movimentos reivindicativos em portas de fábricas, conheci a realidade dos nossos irmãos das favelas, fiz retiros espirituais com prostitutas e a experiência do sexo como expressão do amor entre dois homens. Nós dormíamos entre livros de Adélia Prado, Clarice Lispector e discos de Maria Bethânia, Almir Sater, Renato Teixeira, Simon e Garfunkel. Nós tocávamos violão e ele tinha uma voz linda. Viajávamos. Fazíamos amor nas estradas desertas e o céu estrelado, íamos a cachoeiras pouco exploradas e festas simples de interior... Como abominar esse amor gerador de tantos frutos e poucos ramos secos? Quem ousa julgar e pisar no solo sagrado de uma relação bem diferente daquilo que o sociólogo polaco Zigmunt Bauman denomina de “amor líquido“ resultado de uma sociedade em que tudo é superficial, artificial, efêmero, “líquido” que se esvai ao se deparar com a concretude do mundo atual de valores distorcidos? Somente a ignorância e o medo, mãe e pai de todo preconceito podem sustentá-lo. E é por isso que precisamos dar testemunho de nossas vidas, buscas e direitos autênticos.

29 a 40 anos
Conheci a mãe de meu maior presente de Deus: meu filho. Uma mulher extraordinária em muitos aspectos, que cuidou de mim com devoção, em momentos delicados de minha vida. E confesso: Marco Túlio, apesar das inúmeras qualidades, jamais teria dado conta de sustentar as barras pelas quais tivemos que enfrentar juntos. Não pelo fato de ser homem, mas devido à sua personalidade imatura para os momentos mais difíceis de um relacionamento. Devido ao fato de eu saber claramente sobre a predominância de minha orientação homossexual, jamais imaginei namorar e me casar com uma mulher... Mas com o desenrolar da psicanálise, minha dimensão heterossexual bloqueada e maciçamente reprimida veio à tona e eu fiquei completamente envolvido por um desejo e por um amor que nunca imaginei que me habitasse. Apavorado e apaixonado, contei tudo para ela, que linda, delicada, sensível e paciente, acolheu-me totalmente. Simplesmente aceitou-me do jeito que sou. Eu não resisti e vivi o mais profundo relacionamento de minha vida: desejo, afinidade, cumplicidade, fidelidade e filho.

Porém, jamais deixei de ser homossexual e sempre, nos sonhos apareciam os desejos e na vida de vigília uma angústia muito forte, um peso excessivo, algo muito ruim que sempre compartilhei com ela. Até que, por fim, ela foi, mais uma vez, um anjo em minha vida ao pedir a separação. Ela com muito sofrimento e de maneira delicada apontou-me que o excesso de peso era o meu ressentimento inconsciente com minha posição subjetiva no mundo: minha posição no casamento convencional. Era verdade. Parte da verdade, pois sofri as piores dores de minha vida. Óbvio que ela também apresentou limitações que ajudaram a colocar fim ao casamento. Mas, cheguei a sentir que não viveria sem ela. Separamo-nos. Isso aconteceu no início de 2009 e por dois anos fiquei muito mal. As orações diárias, a bondade de Deus, o amor de minha família e amigos e o tempo devolveram-me a alegria de viver.

Hoje, aos 42 anos, sinto-me livre para amar novamente e acredito firmemente que será um homem o meu companheiro. Porém, o maior aprendizado que fiz após essas experiências de amor e de vida é, ao mesmo tempo, o meu núcleo gerador de confiança, serenidade e alegria: independentemente do amor que eu for viver, o meu e o nosso maior caso de amor precisa sempre ser com Deus. Jesus é o amado insubstituível. somente Ele é o “cara”. E esse caso de amor é, podemos falar com toda certeza, o que nos sustenta e nos fortalece para que possamos dar o melhor de nós, aconteça o que acontecer.

Experimente desde o raiar do dia, todos os dias, louvar, amar e servir à Trindade. E você vai sentir uma transformação profunda no seu ser e na sua vida.

Com carinho, a todos vocês.

- Marcos, novembro de 2011
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