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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Missa cantada

Ilustração: Yau Hoong Tang

O autor, não-religioso, que se diz "tantas vezes revoltado com o que vejo de absurdos na doutrina católica", viu-se um dia, a convite de um amigo, assistindo a uma certa missa. Mas algo naquela igreja, que a princípio lhe parecia igual a todas as outras - principalmente, igual às suas imagens preconcebidas -, algo naquele momento o surpreende. E ele se pergunta: "Onde eu estava? Num reduto ultraconservador? Mas a retórica do padre não servia a fins sinistros"...

Uma igreja pode ser diferente da outra, mas os bancos são sempre iguais. Têm aquele apoiozinho na frente para que os fiéis se ajoelhem. Até aí, tudo certo.

Mas nem sempre é assim. Na missa, diante do altar, a pessoa pode ficar em pé, atenta àquilo que está acontecendo, e não de joelhos, numa oração interior.

Esta posição, de joelhos, na verdade, é adequada diante do sacrário: o armariozinho onde ficam guardadas as hóstias. E o ideal, para prosseguir no assunto, é que o sacrário não fique atrás do altar. Um amigo católico ia me explicando essa e outras sutilezas.

Estávamos, no último domingo, na capela do Pátio do Colégio. É uma construção arejada e branca, que reproduz, em linguagem moderna, as proporções do antigo edifício jesuíta.

Lá, o sacrário fica do lado esquerdo - e nos bancos não existe o tal do genuflexório. A pia batismal, toda de pedra, prevê que a criança seja mergulhada de corpo inteiro na água benta. A convite do amigo, fui ao Pátio do Colégio assistir à missa das 10h. Uma das "melhores missas" de São Paulo, segundo quem entende da coisa.

É cantada, com órgão e coral. A entrada do padre e de seus ajudantes (uns dez, se contei bem) se faz com incenso e pompa. À frente, um senhor magro, longas roupas, ostentava a cruz; outro veio e trazia, braços ao alto, uma Bíblia encadernada em metal e pedrarias. Será o padre, pensei. Não era: esse veio depois, numa batina verde e amarela, um bocado vistosa para sua aparência, terrível à primeira vista.

Quando digo missa cantada, não é somente porque o coro já começa a cerimônia com seus "Kyries" e "Glórias", que, aliás, não se estendem além da conta.

O próprio padre passa a maior parte do tempo vocalizando aquela reza meio cantada que ainda associamos à religião tradicional. Até mesmo o trecho do Evangelho daquele dia é "entoado" como uma oração.

Outro detalhe: o padre, para ler o Evangelho, vai até uma pequena sacada (será o famoso púlpito?) e lê o texto lá de cima. A razão, explica o amigo, é que nas igrejas, até a Idade Média, o lugar da leitura ficava sempre no meio do fiéis, para mostrar que Deus estava entre eles.

Careca, meio baixo, uma barba preta de poucos amigos, o padre pareceu, aos meus olhos ímpios, quase um sósia do Zé do Caixão. Feita a leitura cantada, ele voltou para o altar e começou a falar de improviso.

Foi um espetáculo. Hoje em dia, nem mesmo os políticos mais astutos dominam a arte da oratória. Sem abandonar certa dicção eclesial, o padre Carlos Alberto Contieri ia do grave ao agudo, acumulava nuvens escuras e deixava em seguida passar um raio de luz. Por vezes, um laivo de ironia: uma pergunta que ele largava no ar e depois colhia no exato instante em que ameaçava rolar pelo chão.

Havia, pensei, algo de assustador em tanto poder retórico - na segurança com que o padre dominava seu instrumento, como o órgão da igreja. O órgão, aliás, acaba de ser reformado e conta agora com cerca de mil tubos. "O que são mil tubos", perguntou o padre, num meandro de humildade, "perto da grandiosidade de tantos outros órgãos maiores?". Parou um pouco. "Mas o nosso órgão, pelo menos, toca."

Sim, pensei. E como toca! O incenso, a música, a barba preta, um trecho do profeta Ezequiel, o trecho correspondente de são Mateus falando de ímpios e pecadores...
Onde eu estava? Num reduto ultraconservador? Mas a retórica do padre não servia a fins sinistros. Transmitia com clareza uma ideia nova para mim. A homilia era sobre o perdão.

Sabemos, é claro, que devemos perdoar a quem nos ofendeu etc. etc. Coisa que não faço, aliás. Mesmo se fizesse, disse o padre, não seria tão simples assim. Não se trata apenas de aceitar as desculpas que nos pedem. "Ah, está desculpado, passe bem." É mais difícil. Trata-se de oferecer o perdão - a iniciativa deve vir do ofendido, não do ofensor. Outra coisa, diz o padre, não faz Deus aos pecadores.

Tantas vezes revoltado com o que vejo de absurdos na doutrina católica, olhei mansamente para as costas do meu amigo religioso, sentado mais à frente. "Ego te absolvo", bom amigo. Depois de uma missa tão bonita e inteligente, vocês estão desculpados. Até a próxima.

- Marcelo Coelho
Publicado na Folha de S. Paulo em 07/09/2011
Reproduzido via Conteúdo Livre

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O paradoxo da homofilia


Embora não acreditemos que o fato de ser gay, lésbica, travesti, transgênero, preto, branco ou cor-de-rosa faça necessariamente com que a pessoa apresente um determinado tipo de personalidade - pelo contrário, é apenas mais uma característica em meio a um monte de outras possíveis que fazem com que cada pessoa seja quem é, um ser humano único e precioso - ficamos comovidos com o olhar do blogueiro Karl, que fala sobre o universo médico no Ecce Medicus, e achamos que valia reproduzir seu depoimento aqui.

Não errei, não. Não quis me referir à doença hematológica que faz com que seu portador necessite transfusões de hemoderivados frequentes. Vou, na verdade, falar sobre outra doença, essa talvez mais grave, mais prevalente, mais vil…

Por detrás da manchete, “apenas” mais um caso de agressão a uma “bichinha”. Chamou minha atenção, o fato de o agredido trabalhar na área da Saúde. Talvez por essa razão, minha máquina de esquecer não tenha funcionado direito e remoí esse fato alguns meses até que uma outra estória me fez lembrar do que não tinha esquecido…

Como é de conhecimento dos poucos, porém altamente seletos leitores e leitoras deste blog, gasto ainda grande parte do meu tempo em unidades de terapia intensiva pelos hospitais da grande São Paulo. Tenho notado que a área da Saúde trata seus não-heterossexuais da mesma forma que outras áreas do mercado de trabalho “teoricamente” menos esclarecidas sobre as nuanças da sexualidade humana, a saber, com preconceito e violência. Tenho convivido com médicos, médicas, enfermeiras e enfermeiros, fisioterapeutas entre tantos outros profissionais da área da Saúde, aberta ou veladamente homossexuais, e tenho uma estória para o caso específico do homossexual masculino, levemente efeminado, denominado vulgarmente de “bichinha”, por vezes com o escárnio da pronúncia dos “S” entredentes.

Um homem de 54 anos, empresário bastante bem-sucedido, em um passeio motociclístico de sábado de manhã, bastante comum atualmente na cidade de São Paulo, sofreu um acidente relativamente grave. Fraturas de costelas, traumatismo raquimedular (lesão da coluna vertebral), múltiplas escoriações. Foi para UTI. Com o famigerado colar cervical, intubado e necessitando de ventilação mecânica, logo se recuperou. Jovem, não tinha nenhuma doença crônica associada. Na célula que ficou internado na UTI, o técnico de enfermagem da manhã foi sempre o mesmo. Um pouco mais de 20 anos, bem menos que 30. Gay desses que não deixam dúvida, porém sem ser afetado ou escrachado demais. Pelo menos durante o trabalho. Pelo contrário, a forma e o carinho como cuidava do corpo inerte, por vezes malcheiroso e grande do paciente acidentado transmitia extrema competência. Transparecia a todo o momento o treinamento recebido. Costumo dizer que um profissional começa-se a avaliar pela forma como veste-se com o uniforme. Quem trabalha direito tem um relação com o traje de trabalho, acaba encontrando um jeito de arrumar a touca ou vestir o avental, de deixar os óculos de proteção (chamamos tudo de EPI – equipamento de proteção individual) de um jeito próprio. As mesmas atividades são feitas com elegância particular e tudo isso junto, faz com que admiremos o profissional no exercício de suas funções. Assim era o rapaz. Medicações, banhos, eletrocardiogramas, mudanças de decúbito, instalação das dietas, tudo feito corretamente, com zelo e segurança. O paciente melhorou, acordou, saiu do ventilador, sentou na cama, tirou a sonda nasoenteral para alimentação e começou a receber dieta oral, nos 2 ou 3 dias subsequentes. Cheguei um dia à UTI e o rapaz estava dando uma sopinha, às colheradas, ao paciente. Me postei diante da cama e fiquei observando, satisfeito. Tinha que examiná-lo e questioná-lo sobre dores, falta de ar, etc, mas como estava quase no final, resolvi esperar e apreciar aquele momento de pequena felicidade (dizem até que a vida é feita destas pequenas felicidades!). Ao perceber, o técnico de enfermagem começou a falar, com seus trejeitos característicos, de como ele estava melhor, levantando o ânimo do paciente. Ao terminar a refeição, ele saiu do quarto e eu fiquei a sós com o paciente. Tirei o estetoscópio da parede e antes de posicioná-lo nos ouvidos o paciente disparou: “Pô, Dr! Que é que essa bichona tá fazendo aqui?”

Me senti mal, mas não consegui responder nada. Limitei a dizer que ele tinha sido cuidado, durante quase toda a internação, por aquele rapaz e que ele era muito competente. Agora, com toda essa violência estampada nas páginas de sítios e jornais, me ocorre novamente essa estória de intolerância.

É esse o paradoxo da homofilia. Homossexuais masculinos costumam ter um olhar diferenciado para o cuidar. Amam a espécie humana – sem preconceito de gênero – e aprendi a ver isso no meu trabalho, que, convenhamos, não é um parque de diversões. Peço a licença deste hibridismo, mas usei o homo- do latim que significa homem, anthropos (no grego), ser humano, junto com o sufixo grego –filia, afinidade por, gostar de, amar; e não o homo- grego (igual, o mesmo) pela exata força do trocadilho e pela estranheza que a expressão gera. Estranheza que me causa o fato de não entender como pode ser possível um homossexual que sofre um preconceito diuturno, eternas gozações e piadas de malgosto, bullyings, agressões verbais ou físicas da sociedade em que está inserido, possa demonstrar um amor tão verdadeiro e engajado pela mesma espécie (Homo) que o maltrata. Paradoxo afetivo-linguístico, sem dúvida. Sem dúvida, um caso de homoafetividade.

- Karl, no blog Ecce Medicus
Reproduzido via Conteúdo Livre. Grifo nosso.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Comentários dos Divers@s sobre a resposta de Dom Orani



O post de terça-feira de um dos Membros de nosso grupo a respeito de sua experiência na JMJ com a fala de Dom Orani, gerou muitos comentários e propostas de reflexão.


Se você não viu, veja o post aqui.
Dentre as muitas colocações destacamos uma que encontra um ponto de convergência em nossas opiniões divers@s. =)

Autorizados pel@ autor@ do comentário, em nossas também calorosas trocas de emails, reproduzimos a opinião de V, membr@ do Diversidade Católica:

Querido Rafael,


para mim foi completamente surpreendente esse acontecimento que você conseguiu provocar. Sim, foi um discurso cheio de sabedoria. A questão homoafetiva sempre foi uma questão impactante, em todos os tempos. E agora o impacto surge à tona. Porque antes as pessoas se escondiam.
Agora, elas pedem a palavra. E é um desafio às pessoas em geral, o fato de terem que pensar em algo inusitado. E encarar de frente, nos olhos, uma realidade surpreendente.


As pessoas, em geral não têm maturidade humana suficiente, para se depararem com a realidade homoafetiva, sem ficarem desconcertadas. Mas, é um processo que pede resolução, ou ao menos, reflexão. Não se trata de ideias. Trata-se de pessoas, de vidas, de corações.Trata-se de estender fortemente a mão e segurar quem quer que seja. Porque a abertura de coração e o acolhimento não podem excluir ninguém. O Amor como se entende no cristianismo não pode ser setorial, não pode ser seletivo. Tipo: "este sim, aquele não".


Mas, sempre de novo se esbarra na barra cultural. Na trava cultural.
É muito difícil para as pessoas lidarem com o novo.
Mas, um dia, o novo se tornará antigo, e fará parte da vida comum.
O discurso foi interessante e abre uma perspectiva nova.
Isto é muito importante para todos os homoafetivos e a Igreja não tem o direito de desamparar ninguém. Agora, como se efetivará ou se tornará explícito este amparo, para isto ainda resta um bom caminho a ser feito...


Não tenho dúvida da importância do Diversidade em nossas vidas.

V

Sim V, temos fé que todos estes discursos e reflexões, tanto nossos quanto da hierarquia, não se esgotarão em si e podem se tornar uma ação efetiva no corpo eclesial ao qual fazemos parte.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Homofobia em família: as unhas e a caixa de ferramentas


Entro em uma loja especializada em produtos para unha e cabelo e uma voz bem alta para que toda a loja ouvisse me chama atenção: “não, ele não gosta de unhas, não! Ele gosta é de ferramentas! Não é fulano? Lá em casa ele tem uma caixa de ferramentas! Eu dei a ele. Não gosta de unhas não, gosta de ferramentas!” Isso gritado para um menino de talvez pouco mais de dois anos, e, claro, para o restante da loja. Fiquei em choque. Fiquei ali, muda, estática, estarrecida, olhando fixamente para aquela cena. Eu estava de costas, mas virei metade do corpo em direção àquela família e fiquei encarando toda a cena. O que algum tempo depois me fez pensar como a escandalosa não me perguntou o que eu tanto olhava. Passado o choque, fiquei pensando: a preocupação é o que vão pensar sobre o filho dela, se vão pensar que é um viadinho? Ou ela acredita na idéia escrota de que se a pessoa for criada direito não “se torna” homossexual? Ou ela acha que se o cara gostar de esmalte, claro que é viado? Ou se o cara gostar de caixa de ferramenta não é viado, pois viado que é viado gosta mesmo é de esmalte?

Depois foi um turbilhão de sensações e pensamentos. Como será a vida desta criança? Crescerá um homofóbico, um machista, um conservador, uma bicha reprimidíssima, destas que precisam reafirmar a masculinidade das formas mais controversas e ridículas? O que a família fará com esta criança? O que causará a ela? Ele, se percebendo gay um dia, terá coragem de assumir? Achei tão triste e dolorosa aquela cena. Não apenas pelo garoto, tão vulnerável e frágil, mas por ser a história de todos nós. Sim, é a história de cada um de nós. Quem nunca sofreu homofobia em família, em maior ou menor grau, de forma explícita ou velada? Quem nunca se viu no meio de questões com saia, tipo de sapato, corte do cabelo e insistência na história d@ namorad@? É por isso, por nossa própria homofobia em família, que sabemos bem que não se trata apenas deste menino nem de um episódio isolado.

Fiquei muito triste. Aquela cena me abalou de um jeito que eu não esperava. Talvez tenha mexido fundo em minha própria história. Talvez tenha gritado na minha cara que eu ainda faço muito pouco, que tenho que fazer mais. E como eu gostaria que cada pessoa LGBT entendesse a necessidade de se posicionar, a necessidade de lutar. Como eu gostaria que tod@s, agora, neste exato momento, procurassem como ajudar na luta por nosso reconhecimento, na luta contra a discriminação, contra a homofobia e a favor do amor.Afinal, não podemos mais permitir este tipo de comportamento tacanho. Não podemos mais permitir agressões e mortes cotidianas. E não falo somente de agressões e mortes físicas. Há muitas outras que deixam marcas indescritíveis, como todos nós, infelizmente, sabemos tão bem. Não se trata somente de mim ou de você. Trata-se de cada um de nós e também dos que ainda estão a caminho. Trata-se de cada uma destas crianças. Que elas não sofram o que não precisariam sofrer.

Por tudo isso é que assumir é um ato político. É uma questão social. Assumir é a melhor cura para nossos males de opressão. Não assumir é carregar todas as mágoas em silêncio e em absoluta solidão. Não assumir é continuar sofrendo todo tipo de perversidade. Não assumir é uma dor infindável. Não assumir é uma prisão, mas não apenas sua. Não assumir é se omitir. Não uma omissão individual, particular, é uma omissão social, uma omissão política, é não colaborar com a quebra do ciclo perverso a que somos subjugados. Não assumir é morte lenta. Sei que assumir não é fácil. Assumir é conversar com papai e/ou mamãe. É vê-los chorar. É se sentir nu. Assumir é reconhecer toda uma parte da vida trancada, oprimida, tolhida – e saber que não se poderá recuperá-la. Assumir é reconhecer o quanto se foi magoad@ e dizer para quem nos magoou: você me machucou naquele dia, no outro, aqui, ali, desta e daquela forma.

Assumir é dizer ao mundo que sim, eu sou @ mesm@ de sempre, mas jamais serei @ mesm@.

- Ivone Pita
Publicado originalmente na Políticativa, coluna da autora no Gay1

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Os caminhos do verão


É verão no hemisfério norte, de onde nos escreve o autor. Mas, mesmo no inverno do sul, vale a reflexão sobre o sabor das pequenas coisas...

"Somos crianças feitas para grandes férias". É um verso de Ruy Belo que a nossa alma sabe. Vem o sol, avança sobre os dias uma claridade que já quase ignorávamos, o calor estende-se longamente como um gato preguiçoso, é julho, quase agosto, e mesmo de gravata e afazeres ainda apertados ao pescoço sabemos isso: que somos feitos para outros modos, que pertencemos a outros lugares. Não tem de ser necessariamente uma deslocação para outro país ou uma cidade diferente da nossa. Às vezes tudo o que nos falta é simplesmente caminhar com outro passo. É abrir a janela devagar, tendo consciência de que a abrimos. É reaprender outra qualidade para um quotidiano talvez demasiado deixado às rotinas e aos seus automatismos. É, no fundo, degustar o sabor das coisas mais simples. Pode-se fazer uma inesquecível viagem entregues ao sabor de um fruto, à contemplação de uma paisagem próxima, à sabedoria de uma conversa, ao silêncio de um livro. Sobre este último, acho que todos concordamos com o que escreveu Marcel Proust: «Talvez não haja dias da nossa infância tão plenamente vividos como os que passámos com um livro preferido». Mas a noção de «dias plenamente vividos» é suficientemente aberta para conter a nossa singularidade, as nossas manias, descobertas e paixões.

Há dias voltei a Roma e quase me envergonho de confessar que uma das coisas que mais apreciei foi a sombra. Vi coisas arrebatadoras de beleza, ouvi palavras e música que guardarei no coração por muito tempo…Mas dentro da canícula daquela semana romana, apreciei com espanto e vagar a frescura simples da sombra. De um lado da rua o sol descia como um punhal transparente e implacável, mas da outra parte, numa sensação talvez acentuada pelo contraste, o prazer da sombra era solene e doce como as notas de uma canção assinada por Mozart. Lembro-me que a Lourdes Castro me deu uma vez a indicação de um guia de viagem, salvo erro do século XVIII, que sugeria um périplo por Roma, indicando para cada viela e bairro as horas da sombra. Não têm preço mapas assim. Penso no verão como esse lugar onde as horas estendem, para cada um, uma sombra mais leve.

Acho que a dada altura o mais importante já nem é o que se vê, mas o como se vê. Nesta minha ida a Roma, fui uma tarde ao Museu Etrusco. Havia centenas e centenas de peças. Mas fiquei a olhar o belíssimo sorriso de duas figuras, pertencentes a uma tampa funerária. Para os etruscos a morte era encarada com uma suavidade impressionante. Fiquei sentado diante daqueles sorrisos, sem ter bem a noção do tempo. Claramente não precisava voltar a correr o Museu inteiro (maravilhoso, por sinal). Um sorriso pode ser tão acolhedor como uma sombra. Creio que para cada um de nós há assim uma geografia sentimental, um mapa descontínuo sedimentado ao longo de anos, um conjunto de indicações fragmentárias, retalhos disto e daquilo, que não sendo necessariamente preciosos, são certamente o nosso tesouro. Que os caminhos do verão nos conduzam até ele.

- José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira), via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

sábado, 23 de julho de 2011

"Assim me diz a Bíblia": documentário completo


Disponibilizamos aqui o link completo do documentário Assim me diz a Bíblia, do qual até então sabíamos apenas de trechos postados no You Tube - dica preciosa do Projeto Libertos de Verdade.

Diz a sinopse oficial:
O amor entre duas pessoas pode ser uma abominação? O abismo que separa homossexuais e cristãos é de fato tão grande quanto aparenta? Como a Bíblia pode ser usada para justificar ódio? Estas são as questões no coração de Daniel Karslake em "Como Diz a Bíblia". Através das experiências de cinco famílias tradicionais americanas, descobrimos como as pessoas conseguem, ou não, lidar com um filho gay. Ouvimos vozes respeitadas, ligadas a diversas religiões.
Para quem ainda não viu, vale tirar um tempo para assistir com calma.

Bom fim de semana!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigos


“Eu talvez não tenha muitos amigos.
Mas os que eu tenho são os melhores que alguém poderia ter.
Além disso tenho sorte, porque os amigos que tenho têm muitos amigos e os dividem comigo.
Assim o meu número de amigos sempre aumenta, já que eu sempre ganho amigos dos meus amigos.
Foi assim aqui, uns eu ganhei há tempos, outros são mais recentes.
E quem os deu não ficou sem eles, pois a amizade pode sempre ser dividida sem nunca diminuir ou enfraquecer.
Pelo contrário, quanto mais dividida, mais ela aumenta.
E há mais vantagens na amizade: é uma das poucas coisas que não custam nada e valem muito, embora não sejam vendáveis.
Entretanto, é preciso que se cuide um pouco das amizades. As mais recentes, por exemplo, precisam de alguns cuidados...Poucos, é verdade, mas indispensáveis. É preciso mantê-las com um certo calor, falar com elas mais amiúde e no início, com muito jeito. Com o tempo elas crescem, ficam fortes e até suportam alguns trancos.
Prezo muito minhas amizades e reservo sempre um canto no meu peito para elas.
E, sempre que surge a ocasião, também não perco a oportunidade de dar um amigo a um amigo, da mesma forma que eu ganhei.
E não adiantam as despedidas, de um amigo ninguém se livra fácil.
A amizade além de contagiosa é totalmente incurável. "

- Vinícius de Moraes

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Loucura


A loucura é algo relativo. E inconstante. Quem é o louco, e por quê? Dos pensamentos unânimes, quando alguns se revoltam, mudam de direção, destroem e reconstroem um prisma, são chamados de loucos. A burrice aponta a loucura, como posso interpretar Nelson Rodrigues, "Toda unanimidade é burra" e eu, particularmente, prefiro ser louco a ser burro.

Minha loucura queima em meu ser jovem. E como seria bom que todos os jovens fossem loucos. Nunca burros. Loucos por acreditarem em algo impossível. Loucos por lutarem em batalhas ditas perdidas. Como nos diz a sabedoria popular, existem “velhos jovens e jovens velhos”. O medo do novo nos traz a velhice. Cada sonho de jovem perdido, são cabelos brancos, tristes e frágeis em nossa cabeça pueril. Sou louco com prazer.

Tudo isso porque tenho medo. Medo da inutilidade. Medo de arcar só comigo mesmo e mais alguns poucos. Medo de não servir pra nada. Medo de me enclausurar na imensidão de meu mundo, e viver por lá, como grande parte das pessoas. Precisamos, sim, de tal reclusão, precisamos nos conhecer, precisamos entrar em contato com nossa intimidade, e sair, buscar o mundo, voltando esporadicamente. Não devemos permanecer ensurdecidos por nossos fones, invisíveis por nossos óculos escuros e intocáveis por nossos casacos. Sejamos percebidos como jovens, no sentido genuíno de juventude.

Acreditemos, em nós mesmos e no mundo. Eu creio em nossos sonhos. Creio que temos força para fazermos o que quisermos. Creio nos sonhos realizados do "menino dos sonhos impossíveis” *. É isso que deve nos guiar. Guiar a nossa fé, a nossa crença. A minha é diferente da sua, mas elas têm o mesmo objetivo. Não deixemos morrer a importância de nossa ‘missão’ de ser jovem. Arrumemos nosso quarto, unamo-nos e mudaremos o mundo. Falo em "arrumar os quartos" pois, se desejamos algo, precisamos merecê-lo. Não podemos agir na hipocrisia, a loucura já nos basta. Avaliemo-nos e vejamos se estamos aptos aos nossos sonhos. A humanidade está doente, e se "de médico e louco, todo mundo tem um pouco" eu, encharcado de minha loucura, desejo curar os meus semelhantes.

- André Martha Tavares Filho, Belém, 18 anos, estudante de publicidade e propaganda.
Reproduzido via Amai-vos.

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* “Menino dos sonhos impossíveis" foi o apelido dado a São Marcelino Champagnat, quando o mesmo idealizou a congregação Marista. Congregação essa que hoje se faz presente no mundo todo.

Somos juntos em nossas diferenças

No dia 12 de abril de 2011, este pessoal aqui convocou uma unidade em nome dos direitos humanos. A todos que, independente de orientação sexual, raça, credo e sotaque, aos que acreditam na tolerância, compaixão e respeito pelo próximo, eles pediram fotos com uma só mensagem: #eusougay. Essa é a resposta.


O projeto continua além do vídeo! Você pode colocar sua foto na galeria do projeto: http://projetoeusougay.tumblr.com/

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Católico e homossexual, quero viver a minha fé e a minha diferença"


Para viver bem e verdadeiramente em andamento, Jean-Michel Dunand escolheu escrever e contar o seu itinerário, que resultou no livro De la honte à la lumière. (Presses de la Renaissance). Atualmente, animador de pastoral em um grande liceu católico de Montpellier, passou “da vergonha à luz”...

A entrevista é de Elisabeth Marshall e está publicada no sítio da revista francesa La Vie, 31-05-2011. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU com grifos nossos.

Eis a entrevista.


Desde muito cedo você sentiu que não era “semelhante aos outros”. Quando e como você descobriu sua homossexualidade?

Desde quando possa me lembrar eu era sensível ao corpo dos homens. Quando eu tinha seis anos, indo com meus pais para a festa popular, eu descobri que a beleza dos corpos masculinos me fascinava. Eu realmente não entendia e pensava que era o único no mundo a fazer esta experiência. Na minha pequena cidade de Albertville, na Sabóia, eu não tinha nenhum modelo homossexual com quem me identificar. Em almoços de família, às vezes se fazia menção a um primo, com mais de dez anos, exilado em outra cidade e que, segundo eles, tinha “costumes estranhos”, mas eu não sabia que ele e eu compartilhávamos talvez a mesma experiência.

Não se escolhe, você escreve, ser homossexual, assim como não se escolhe ser heterossexual. Isso não está no domínio da liberdade?

Levei um tempo para perceber que eu não tinha feito uma escolha, que eu não podia mudar. Minha homossexualidade se impôs a mim da mesma maneira que a minha estatura ou o meu porte físico. Eu nunca fui afeminado, refinado, mas quando eu jogava, era natural que eu exibisse os trejeitos de uma garota. Atraído pela vida religiosa, eu me imaginava como carmelita seguindo os passos de Teresa. Eu pensava: "Se fosse uma mulher, entraria na ordem." Não estou dizendo que a homossexualidade é inata, mas que ela se inscreve na singularidade de uma história. No entanto, nas mentes e nas igrejas, ainda perdura a ideia de que se pode mudar, de que é uma questão de vontade... Mas quem se exporia voluntariamente à diferença?

É com a escola, como adolescente, que o olhar dos outros começou a pesar.

Eu não disse nada, mas os outros meninos perceberam porque eu não gostava de esportes, futebol, jogos violentos. Eu sempre escondi, com medo de ser descoberto. Mais tarde, muitas vezes pensei que, se nos reconhecemos entre homossexuais é porque podemos ler no olhar do outro esta fadiga de perpetuamente ter que esconder quem se é. E depois houve aquele dia, na quinta, quando cheguei atrasado, eu tive que passar diante de toda a fila e enfrentar os insultos, “bicha”, “marica”... Eu fiz a experiência da vergonha, aquela que joga você vivo em um túmulo.

E depois, outro apelo, o da vida religiosa...

Sim, aos 8-9 anos, eu fui como que tomado por Cristo, eu chorei na Paixão de Jesus, lendo uma vida de santo oferecida por uma catequista. Mais tarde, aos 14 anos, sozinho na Abadia de Tamié, eu experimentei uma presença de amor, uma profunda paz. Eu guardei secretamente este encontro no meu coração e, ao mesmo tempo, eu me construí um personagem, aquele do perfeito cristão, futuro sacerdote que servia a missa, tinha a confiança do padre e ostentava uma grande cruz de madeira bem visível. Era mais fácil ser o aprendiz de santo do que o pequeno homem. Eu preferia que rissem da minha fé do que da minha homossexualidade. Eu levantei, com a religião, uma muralha ao redor de mim para me proteger do olhar dos outros e, principalmente, de mim mesmo, das minhas próprias divagações...

Estas são as páginas mais terríveis de seu livro. Você conta como, aos 14 anos, em Lourdes, você aceita as carícias de um estranho. A sexualidade sem o amor, você diz...

Naquele dia, o chão se abriu sob os meus pés. Senti-me indecente, mas também descobri que fui atraído. Entre 18 e 25 anos, eu vivi um verdadeiro aquartelamento, uma vida dupla, eu era o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde. De um lado, no convento das carmelitas, nos grupos de oração e de evangelização, depois no seminário durante alguns anos, eu me apresentava como um modelo de fé, vestido de branco com um manto preto, sandálias nos pés... Do outro, eu me encontrava com homens às escondidas. Recusei-me a me instalar em qualquer relacionamento. Eu pensava que era menos grave, que era a minha única fragilidade e que à base de oração, de confissão, de vida sacramental, eu sairia dessa situação. As poucas vezes que eu me confessei, me falaram de “desvio”. Que me curaria pela oração de libertação. Nesse período, só Cristo não me abandonou.

O que você queria ouvir neste momento?

Olhando para trás, aos 46 anos, eu gostaria de ter sido compreendido em profundidade. Que me levasse de volta à realidade para não mais fugir, mas descobrir a minha humanidade mais profunda, minha afetividade, minha sexualidade, em vez de enterrar tudo sob uma pseudo-espiritualidade. Após ter ouvido muito, constato que não é incomum que as pessoas homossexuais comecem suas relações em ambientes sórdidos. Talvez porque seja proibido viver o amor e a ternura à luz do dia.

O que ajudou você?

Tentaram me curar, me exorcizar de qualquer maneira, queriam me internar para fazer uma sessão de regressão. Eu estava ficando cada vez pior, pensei em suicídio. E eu disse para mim mesmo "basta!". Foi a amizade que me ajudou. A de Patrick, um amigo que me abriu um outro caminho. Comecei a trabalhar como agente de um hospital que me permitiu retomar uma vida normal, uma apreciação adequada de mim mesmo e viver mais verdadeiramente a minha homossexualidade. Eu também encontrei o amor e agora vivo uma relação estável que já dura 20 anos. Finalmente, as pessoas confiam em mim. Sou animador de pastoral em uma escola católica há quase 16 anos graças à confiança que tive, com todo o conhecimento de causa, de um diretor de escola.

O que você está pedindo à Igreja hoje?

Eu não reivindico nada, exceto o direito de viver sem ser amputado de uma parte perdida de mim mesmo. Como católico, eu quero poder viver a minha fé e o desenvolvimento da minha sexualidade e da minha ternura partilhadas com alguém do mesmo sexo. Eu não sou um ativista que lança a bandeira da causa gay. Mas eu não posso aderir a estas certezas segundo as quais "a homossexualidade é contra a natureza e fora do plano de Deus". Isto leva a um impasse. Se eu reivindico algo é uma mudança e uma humildade do olhar. Com as pessoas “homossensíveis” – prefiro falar assim, pois não nos reduz à sexualidade – estamos muitas vezes diante de percursos fraturados, de vidas acidentadas. Mas também de verdadeiras sensibilidades em relação à beleza, à arte, à espiritualidade. Veja o número de homossexuais entre os grandes artistas, designers de moda... Estes são, em todos os casos, vidas singulares que não se pode julgar sem conhecer, nem vasculhar sua intimidade. Diante da mulher adúltera do Evangelho, o que Jesus faz? Ele não a questiona, mas afasta os olhos, inclinando-se ao chão para escrever; ele afasta também os acusadores, pois todos vão se retirando na medida em que ele os faz perceber seu próprio pecado. Não encerremos as pessoas em nossas normas e em nossos olhares inflexíveis.

Você criou, em 2000, em conjunto com mosteiros, a Comunhão Betânia, a serviço de pessoas homossensíveis e transgêneros.

Sim, é uma comunhão contemplativa. Nós nos encontramos duas vezes por ano para um retiro num mosteiro, às vezes na Abadia de Tamié. Mas nós estamos, diariamente, em união de oração através de um pequeno ofício composto de salmos, das bem-aventuranças e de uma oração de intercessão, como uma ponte entre nós. Além do círculo de amigos engajados, há amigos que rezam todas as quintas-feiras em nossa intenção, pais de filhos homossexuais, contemplativos como o carmelo de Mazille, inclusive bispos que se juntam a nós nesta fraternidade espiritual. Nosso objetivo é mudar os olhares, propor também gestos simbólicos como, por exemplo, durante eventos do orgulho gay, propondo uma oração nas igrejas para erguer espiritualmente o caminho das pessoas homossensíveis. Eu acredito que a evolução dos cristãos em relação aos homossexuais se fará pela oração. A militância assusta, os monges não! Ao convidar para a oração, nós convidamos pacificamente a acolher este olhar de Cristo que desloca. A Igreja precisa, em relação a essa questão, de uma cura de silêncio. Eu não peço que reconheça a homossexualidade no mesmo nível da heterossexualidade, mas que olhe as pessoas e proporcione instâncias de encontro e de escuta.

Que mensagem gostaria de deixar aos cristãos?

Antes de arriscar uma palavra, ter tempo para ouvir as pessoas homossexuais. Antes de discutir sobre ideias, conhecer vidas. Foi poder falar e ser ouvido que, pessoalmente, me salvou. No meu trabalho eu sou discreto sobre a minha vida pessoal, mas eu sei que eu tenho a confiança do meu bispo, do meu diretor diocesano, do meu diretor da escola, eu sou franco com eles. Foi Freud quem disse: “Quando alguém fala, é dia!” É talvez justamente por que faça dia que eu escrevi e publiquei este livro.

domingo, 12 de junho de 2011

Fogo que arde e não se vê

Cartão: Dear Nic

Porque meu amor é fogo por você, meu coração incandesce. Porque é água que me lava a alma, é brisa que refresca e acalma, é a terra do caminho por onde traçamos juntas nossos passos.

Porque meu amor por você é o riso que me sustenta, é a luz que me guia, é o sol que me aquece.

Porque meu amor constrói mundos, por meu amor cometas disparam em revoada e nascem estrelas e galáxias inteiras.

Ao teu lado, meu amor, sou mais inteira, sou mais digna, sou mais fiel à minha história, à minha essência, à minha vocação, a mim mesma.

Sim, Deus um dia disse: "Faça-se a Luz" - e nesse dia nos conhecemos.

Porque eu te amo, meu amor, sei a cada dia de novo que Deus existe, e sinto no nosso amor, meu amor, o amor dEle por você e por mim - e, sim, nosso amor é santo.

E a minha pele na tua, a minha carne e a tua - renovam a cada dia a vida na face da Terra.

* * *

(Te amo. ;-)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O encontro da realidade da fé e da razão permite que o ser humano encontre a si mesmo


O diálogo entre crentes e não crentes, promovido pelo Pontifício Conselho para a Cultura, é uma iniciativa que parte da idéia de que o Deus conhecido na fé é sempre um Deus misterioso, e seus adoradores não se sentem de fato longe daqueles que procuram realmente um Deus desconhecido. www.atriumgentium.org é o endereço web que se encontra em construção, tal como o projeto ao qual serve. O papa Bento XVI sugeriu em 21 de dezembro de 2009 a necessidade de “criar um espaço de diálogo com aqueles para quem a religião é algo estranho, para quem Deus é desconhecido e que, apesar disso, não gostariam de estar simplesmente sem ele, mas sentindo-o pelo menos como desconhecido”.

A EXPERIÊNCIA DE TAIZÉ
Desconhecendo a convocação, minha esposa Virgínia, minha filha Ana e eu aproveitamos a passagem por Paris para participar de um encontro de Taizé, anunciado em Notre-Dame, esperando uma experiência de diálogo entre membros de diferentes Igrejas cristãs na oração.

Caminhar a Notre-Dame de Paris para um argentino é uma mistura de turismo e devoção (...). À minha direita, um homem que cruza a porta, ajoelha-se e beija o chão, não deixa lugar a dúvidas sobre o sentido de nossa visita. No entanto, deve-se evitar o movimento de turistas no circuito perfeitamente estabelecido pelas galerias laterais, para consolidar a opção.

Uma vez na nave principal, sua altura, a multiforme luminosidade de seus vitrais e uma estrutura sustentada por colunas que se elevam, parecendo grupos de mãos que se unem em oração, suaviza os sentidos, aquieta as paixões e, no princípio, alerta a razão. Um coro perfeitamente colocado depois do altar, presente (identificável até no vestir) mas não protagonista, indica-nos que a missa vai começar. Na procissão em primeiro lugar vai a Palavra, as luzes, o turíbulo, os celebrantes e acólitos. Um grupo de monges, jovens em sua maioria, cujo hábito se assemelha ao dos cistercienses, se coloca à direita do altar. Irmão Alois, prior de Taizé, os acompanha, sucessor do venerado fundador, tristemente assassinado como tantos atores da paz, Irmão Roger. O Evangelho é lido em francês e inglês e depois uns versículos escolhidos são reiterados uma e outra vez em diferentes idiomas, o espanhol entre eles. O sermão a cargo do cardeal italiano Gianfranco Ravasi é em francês, a consagração e a comunhão vão acompanhadas pela linguagem universal dos gestos cuidadosamente cumpridos. No momento da bênção, é como se o tempo tivesse parado, não foi muito nem pouco, simplesmente estivemos dentro de nós mesmos, fora do tempo.

O PRESENTE ESPERADO
Depois da bênção, retira-se a maioria, nós e poucos curiosos ficamos no fundo, porque parece que poderia acontecer algo… um grupo de jovens de camiseta e jeans retira todas as cadeiras da nave principal, estende tapetes, coloca em ambos os lados do altar um ícone do Crucificado e outro de Pedro e Paulo. Sobre o altar uma tela suspensa, de onde este segundo ícone presidirá a celebração.

Pequenas velas acesas no altar, nas grades laterais e no chão. Os monges se ajoelham num retângulo diante do altar, sob o cruzeiro. Há uns “banquinhos” para facilitar os tempos prolongados ajoelhados (...).

Alguém nos convida a ir para frente, em três oportunidades, até que ficamos na primeira fila junto a eles; abrem-se as portas e um bom número de jovens ocupa toda a nave central e outros as laterais. Há entre eles religiosas católicas e clérigos de diferentes confissões cristãs, dois cardeais, quatro bispos e vários monsenhores.

De algum modo fica em nossas mãos uma xerocópia prolixa com os cantos e leituras do dia e uma vela fina. O cardeal Gianfranco Ravasi nos dá formalmente as boas-vindas.

Vão-se acendendo as luzes e começamos a cantar breves antífonas em diferentes idiomas que se repetem uma e outra vez num clima de recolhimento (“The Kingdom of God”, “Laudate omnes gentes”, “Psaume 130”). Proclama-se lenta e claramente a Palavra (Mt 5, 1-10), fazemo-nos eco dela com cantos breves, muitas vezes reiterados, entre a leitura em diferentes idiomas do versículo: “Bem aventurados os que procuram a paz, pois eles serão chamados filhos de Deus”. Canta-se “Nada te perturbe”, e novamente há um silêncio para a viagem interior.

O PRESENTE INESPERADO
Logo vem: a oração de petição e de intercessão, os cantos, a meditação de Irmão Alois, o canto do Magnificat e a surpresa de ver na tela gigante o papa Bento XVI. Transmite seu convite para abrir na Igreja vários pátios dos gentios, uma imagem que evoca o espaço aberto na esplanada junto ao templo de Jerusalém, que permitia a todos os que não compartilhavam a fé de Israel aproximar-se do templo e interrogar-se sobre a religião.

Bento XVI destaca que um motivo fundamental deste átrio é promover a fraternidade, além das convicções, sem negar as diferenças. Ao terminar, os irmãos giram sobre suas costas e o ícone do Crucificado é reclinado no centro, e enquanto os cantos acompanham, cada um pode aproximar-se e beijá-lo; muitos fazem isso de joelhos. Quando saímos já é de noite, passaram quase duas horas sem que nos déssemos conta (...).

Já é de noite e a brisa nos refresca, enquanto nossos olhos se assombram com o que vêem… lá fora há tantos como dentro, ou talvez mais. Embora tudo esteja conectado: na praça diante da catedral duas telas gigantes apresentam, com a dinâmica de um show televisivo, diferentes pessoas que explicam suas crenças e convidam os grupos de diálogo que estiveram celebrando entre crentes e não crentes em pequenas carpas laterais, enquanto nós rezávamos por eles. Alguém nos oferece um sorriso e um chá quente. Com o calor de nossa Igreja no coração e no estômago, fomos para casa.

O pátio dos gentios começou a caminhar na direção do Reino. Houve uma apresentação prévia em Bolonha. Mas a primeira sessão propriamente dita, a inaugural, foi celebrada em Paris. Foi escolhida pelo cardeal Ravasi, devido ao simbolismo da Cidade das Luzes. A Ilustração, a laicidade positiva, a liberdade, a independência entre Igreja e Estado. As diferentes sessões foram realizadas em lugares significativos; a sede da UNESCO, a Universidade de Sorbonne, a catedral de Notre-Dame.

As palavras do Papa continuam repercutindo. “No coração da Cidade das Luzes, diante desta magnífica obra-prima da cultura religiosa francesa, Notre-Dame de Paris, abre-se um grande átrio para dar um novo impulso ao encontro respeitoso e amistoso entre pessoas de convicções diferentes. Vocês, jovens, crentes e não crentes, tal como na vida cotidiana, nesta noite querem estar juntos para reunirem-se e falarem das grandes interrogações da existência humana (…) Estou profundamente convencido de que o encontro entre a realidade da fé e da razão permite que o ser humano encontre a si mesmo”.

- Reproduzido via Amai-vos. Grifos nossos.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

"O amor dos homens", Elisa Lucinda


Semana passada, ia eu andando pela Avenida Paulista e, como era bom admirar tantos casais imprevisíveis, inter-raciais. Muito japa com preto, coisa rara de se ver no Rio de Janeiro. Entre tanta gente, meu olhar mais se fixava nos gays. Vi uma menina beijando outra, tão meigas, tão doces; sincera a cena me pareceu. É bonito e democrático sentir e compartilhar a presença do amor entre homens e entre mulheres, mãos dadas na urbanidade. Reparo e curto, pois não estou acostumada a ver o homo- amor assim pelas ruas; (será que vão pensar que é um tipo de sabão em pó só para amantes?). Acho que falta esse tipo de amor como romance. Não se vê nas telenovelas uma história normal, um idílio entre iguais em gênero. O amor, para que saibam, não é um privilegio de héteros. Assim fosse, seria proibido com eficiência que se apaixonassem e se queressem. Mas não, o que o famoso senso comum, a moral dominante e as leis conseguiram era impedir a oficialização das uniões, mas não às uniões. Faltam mais filmes no circuito popular, mais circulação de livros sobre o amor entre os do mesmo sexo. Não precisa ser só vídeo de sacanagem e na hora da sacanagem. São histórias de amar como qualquer outra. E o amor é lindo onde estiver. Prefiro milhões de vezes assistir ao lindo segredo de Brokeback Mountain do que ao amor entre uma mocinha boba e um vampiro e suas sangrias. Todo mundo sabe que vampiro não é bom partido para ninguém. Portanto se apaixonar e ter como príncipe aquele que nos chupa o sangue, pode não ser educativo para uma mulher cuja sociedade ainda não admite que o homem não seja seu dono absoluto.

Tenho tantos amigos gays e isso não me incomoda nada. Qual o problema de existir quem se queira e seja do mesmo sexo? Por que isso ameaça tanto? O que realmenta ameaça? Já é hora da civilização, que se acha tão moderninha, se perguntar essas coisas de gente grande. Ter uma conversinha consigo mesmo e parar de dar bandeira, de se tornar tão vulnerável, de se sentir tão ultrajada pelo amor entre iguais. Se eu namorasse alguém assim, homofóbico, obsecado pelo tema, eu ia avaliar com mais profundeza a masculinidade dele. Ninguém faz vestibular para escolher seu objeto de amor. Quando se sabe que se é, já se é há muito tempo.

Conheço mil relatos de meninos que, aos onze ou até antes, se surpreenderam quando perceberam o desejo pelo coleguinha. Criados para casarem com a namoradinha, no horror desta descoberta de ser portador de tão horroroso pecado, os pequenos gays vivem com muito medo desta verdade da qual por não saberem que não é um erro, também não sabem que não são culpados! Na minha infância quando a fofoca do bairro comentava: menina o Zé Maria, virou, né? Minha avó, mesmo sendo católica e apostólica, dizia logo sem surpresa: “ah, isso é mais antigo que Roma!” Pura verdade. Não houve um ano, que eu saiba em que se disse do ADVENTO da homossexualidade. Sempre houve e é dos humanos e alguns outros animais. Sempre houve, só que mais escondido que hoje. Tinham, quando homens, que se casar com uma mulher, desejando o irmão dela. Ou, se mulheres, sonhando com a cunhada. Quando finalmente é permitida aos gays a união oficial e oferecido às escolas um conteúdo de educação de gêneros que não exclua nem discrimine as relações homo-afetivas, estamos falando de Direitos humanos! Se eu preferisse mulheres eu ia andar, mesmo que fosse na Paulista com medo de ser agredida por que estou apaixonada pela minha namorada e o demonstro na rua como fazem os casais onde o amor está vivo e permitido. Por isso é inadmissivel que o Bolsonaro, ocupando um cargo federal, recebendo salário pago pelo povo, traia este povo com tantos absurdos. Bizarras atitudes e palavras o tem exposto aos que ele representa, da pior maneira. Cabe ao parlamentar, é de sua competência, representar o povo, pelo povo e para o povo que o colocou ali através do voto. E se um viado desavisado votou nele? (desculpem, não podia perder a rima e a graça). E ainda que não tenha votado, o que acho difícil, isto não importa. Governa-se para todos. Pra mim é grave o que estamos assistindo. Creiam-me, os que respeitam a liberdade pela qual tantos morreram para conquistar: Quanto mais brancos se posicionarem e não facilitarem a disseminação do racismo, melhor para todos; quanto mais homens contra a violência doméstica, quanto mais héteros se declarando pelos direitos dos gays, mais reforço e credibilidade ganham os temas . Senão, pode parecer papo de gueto. Tanta violência na TV, nos computadores, incitando e ensinando a violência seguida de morte e isso não incomoda tanto quanto o romance entre os homossexuais. Arma de fogo é que não é normal. Há uma flor que se chama Amor dos Homens. Meu coração não suporta guerras. Prefiro a flor e o amor dos homens.

- Elisa Lucinda

O professor: recurso mais importante no combate à homofobia na escola


Lembra que eu disse aqui como fiquei feliz com um trabalho sobre transexualidade no estágio? Pois é, alegria de gay dura pouco. Esta semana o tema da aula eram as políticas de reparação e reconhecimento de grupos minoritários. O professor fez um paralelo entre a lei contra o racismo de 1989 e o Projeto de Lei Complementar 122 que, entre outras discriminações, confere o mesmo status de crime às manifestações homofóbicas de que gozam as racistas.

Disse que gostaria de um debate sobre as semelhanças e diferenças a respeito destas duas formas de discrimanção. Mas o que fez, de fato, ao longo de toda a aula foi defender que o projeto contra a homofobia era contrário à liberdade de expressão. A lei contra o racismo teria consagrado uma postura unânime da sociedade sobre o tema, enquanto a questão da homofobia é bastante controversa. Pra coroar, citou apenas uma parte do texto do projeto de lei e pôs no quadro o manifesto inteiro da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, sublinhando a parte em que se afirma que nem toda manifestação contrária aos homossexuais é homofóbica. Citou ainda Bolsonaro e Marcelo Crivella. Ele chegou ao ponto de apelar para a questão do humor, quase dizendo que fazer piada das minorias era algo absolutamente inocente. Lembrei de um professor meu da faculdade que, em sua dissertação de mestrado sobre as travestis, afirma que as piadas e os risinhos vão criando o ambiente que ajuda a apertar o gatilho.

Desde quando a liberdade de expressão é um valor absoluto ao ponto de se permitir a degradação da dignidade humana de outros cidadãos que gozam do direito não só à vida e integridade física, mas também à sua imagem? Dizer que o repúdio ao racismo era já consenso na sociedade brasileira e por isso a lei consagrou uma atitude social já consolidada? Para que a lei então? Eu cresci vendo na televisão piadas sobre negros, pegando elevadores sociais nos quais as empregadas domésticas e porteiros, muitos deles negros, eram impedidos de entrar. Tudo isto foi mudando graças à maior consciência sim, mas muito por causa do instrumento coercitivo que a lei proporcionou a quem era discriminado.

Fiquei com pena dos alunos, alguns visivelmente gays. Mais do que material didático contra a homofobia, é urgente que se invista na sensibilização dos professores em relação à questão.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mais amor, por favor


Nestes tempos tão necessitados de amor...

Ygor Marotta tem apenas 24 anos e todo o sentimento do mundo. E é com suas duas mãos que ele escreve pelos muros de São Paulo a frase “Mais amor, por favor”. “É uma frase feita para que as pessoas passem para frente. Uso o picho como suporte, mas também cartazes e vídeos”, diz o garoto, que trabalha com criatividade em artes visuais, música e vídeo. O projeto surgiu despretensiosamente do nada, em 2009.

“Nunca veio uma ideia na sua cabeça e você a anotou em algum lugar?”, pergunta. “A frase veio da necessidade de ter mais amor, ver mais amor nesta sociedade em que vivemos, na qual os valores são outros, muito ligados a dinheiro”, diz Marotta. “É um pedido, uma imploração (mas com educação) em meio a toda agressividade, indiferença e velocidade de uma metrópole como São Paulo. É uma proposta que tenta fazer com que o observador se surpreenda com o conteúdo da frase inserida no âmbito urbano e reflita por um tempo, ou pelo menos abra um sorriso no momento da leitura.” Como o amor pede delicadeza, Marotta escolheu fazer grafite com letra cursiva, menos caótica e agressiva do que as que costumamos ver pelas ruas.

A resposta que Ygor recebe dos habitantes da cidade é constante, tanto nas ruas quanto na internet. Pesquisando a frase no Google, a gente encontra centenas de fotos, desenhos, etc., tanto do grafite quanto de pessoas tirando fotos em frente a elas, fazendo releituras em outros suportes. “Parece que o amor é uma necessidade coletiva; 90% das pessoas aprovam a frase, e é bom que tenha os outros 10% para abrir a discussão. Meu dia a dia ganhou mais amor e mais “por favor”. Já presenciei estranhos abrindo um sorriso no rosto ao parar o carro ao lado de um muro. Conheci pessoas que colecionam fotos da frase, que se tatuaram. Algumas me ligam contentes ao presenciar um novo muro e outras agradecem por lembrá-las de algo tão simples, mas tão fundamental.” Ygor acredita que “Mais amor, por favor” não é apenas uma frase vazia. “Creio no poder transformador do amor. E tento seguir esse conceito à risca, passando para as pessoas com que convivo e para outras que sequer conheço.”


- Daniela Arrais em "O amor nos dias de hoje", para a Revista Conhecer
Grifos meus.

domingo, 29 de maio de 2011

Iguais, mas diferentes


E finalmente saiu o curta "Não gosto dos meninos", inspirado na campanha americana "It gets better". Nosso amigo Tony Goes informa e comenta:

A partir de quase 13 horas de material gravado, os diretores André Matarazzo e Gustavo Ferri montaram 18 minutos de depoimentos de um jeito que, apesar das diferenças óbvias entre os participantes, ressalta o que há de comum nos processos de descoberta e aceitação da própria homossexualidade. O filme teve sua estreia mundial quinta passada, na mostra "Possíveis Sexualidades" em Salvador, e na sexta foi exibido no MASP, em São Paulo, para uma plateia de convidados. Nas duas sessões os aplausos foram estrondosos, mas mesmo assim houve quem criticasse. Mais uma vez reclamaram da "pouca" diversidade dos entrevistados, (...) [mas] o "Não Gosto dos Meninos" reúne apenas umas 30 pessoas que atenderam voluntariamente ao chamado dos produtores pela internet e que estavam em SP no dia 18 de janeiro, dispostas a dar meia hora de seu tempo. O trabalho nunca se propôs a ser o único, nem o definitivo. Quem se sentiu de fora, que faça o seu - aliás, quanto mais vídeos melhor. Outro comentário negativo foi com respeito à montagem adotada. "As histórias não são iguais para todo mundo, vocês fizeram parecer que são". Claro que não são, dãã. Um mauricinho dos Jardins teve uma trajetória bem distinta de uma trans da favela. Mas esta foi a linha escolhida pelos diretores: mostrar o quanto somos parecidos. E este é exatamente o objetivo do "It Gets Better" original: contar para a bichinha do interior (ou lésbica, ou bi, whatever) que ela não está sozinha no mundo. Que tem muita gente como ela, em todas as classes sociais. E que as coisas podem estar difíceis agora, mas um dia vão melhorar. Só isto.

"Condenados: no meu país, minha sexualidade é um crime"

Foto: Divulgação

A CAIXA Cultural São Paulo inaugurou em 21 de maio a exposição “Condenados - no meu país, minha sexualidade é um crime”. Esse trabalho é resultado da pesquisa do fotógrafo e jornalista francês Philippe Castetbon, que se baseia na discriminação sexual em diversos países. A exposição insere o Brasil, e a CAIXA, no circuito internacional de localidades como Paris, Aubervilliers, Montpellier, Genebra e Viena, entre outras, onde o projeto já foi realizado. Além disso, demonstra o comprometimento e preocupação com os direitos humanos no país e no mundo. A entrada é gratuita e o evento visa reforçar o respeito aos direitos humanos na semana do Dia Internacional de Combate à Homofobia (17 de maio).

Em sua investigação sociológica, o jornalista francês utilizou-se da web como ferramenta, inscrevendo-se em um site de encontros, escolhido ao acaso. Castetbon viu que era possível contatar homens em quase todos os países, onde a homossexualidade é proibida e condenada pelas leis, e pôde compreender como se conciliam o desejo de encontro e a proibição legal. Notou que muitos se escondem e não mostram seu rosto.

Criando uma relação de confiança, Castetbon conseguiu a cooperação de todos, que cederam suas imagens e depoimentos. A coleção de 50 retratos, acompanhada dos testemunhos e das leis em vigor, foi a forma, encontrada pelo jornalista, de revelar o cotidiano difícil dos homossexuais que vivem em 80 países, nos quais essas relações são condenadas. O medo de ser reconhecido e discriminado, além de perder seus direitos civis e até a própria vida, predomina em todas as histórias.

Estes homens estão condenados ao terror, mentira, humilhação, exclusão, prisão e violência, fuga ou morte. Vivendo em regime de opressão e perseguição, a internet tornou-se um escape. Nesse espaço de liberdade temporária, eles podem encontrar conforto, conversar com os seus pares e afins, quebrar a solidão, e talvez se apaixonar.

Para junho, são aguardados grandes debates sobre o tema, com ilustres convidados e, em julho, o lançamento do livro “Condenados – no meu país, minha sexualidade é um crime”, que reunirá imagens e depoimentos de todos os envolvidos.

A exposição reforça o papel social que a arte tem, de provocar discussões e reflexões que contribuam positivamente na formação e desenvolvimento dos cidadãos, melhorias na qualidade de vida e relações tolerância e boa convivência com as diferenças. Historicamente, a arte tem sido responsável por inúmeras transformações de comportamento e costumes nas sociedades.

SERVIÇO:
Exposição “Condenados – no meu país, minha sexualidade é um crime”
Visitação: de 21 de maio a 17 de julho de 2011
Horário de visitação: de terça-feira a domingo, das 9h às 21h.
Local: CAIXA Cultural São Paulo (Sé) - Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo (SP)

Informações, agendamento de visitas mediadas e translado (ônibus) para escolas públicas: (11) 3321-4400

Acesso para pessoas com necessidades especiais

Entrada: franca
Recomendação etária: 14 anos
Patrocínio: Caixa Econômica Federal

Fonte: CAIXA Cultural

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Des-costura

Ilustração: --neve

As coisas não são, elas se fazem. No princípio era o vácuo. E, então, alguém inventou: homem, mulher, moral, sexo, normal, correto. A partir do primeiro contorno rarefeito de cada uma destas coisas se viu que era necessário mais formas, definir, moldar: mulher-dócil-materna, homem-ativo-provedor, sexo-homem/mulher; a cada laço se reforçava como o “é assim” o que se inventava apenas a cada vez que se contavam casos, histórias, teorias científicas, narrativas sagradas. Cada laço, moldando, ajustando, formando o que, depois, se vê como a identidade sólida e perene de algo. Porque tudo é performance.

Formar-se per, através de, insistindo-se perenemente, e em laços sempre outros a respeito do mesmo. Costura-se, amarra-se de todas as maneiras possíveis, a única exigência é que o tecido seja inteiro, de alto a baixo sem linhas, junturas ou justaposições. É preciso que a costura se perca para deixar que as coisas apenas “sejam”, numa identidade que se produz a cada instante e instância.

Daí o medo dos incautos. Como desafiar um mundo de certezas? Ser homem e gostar de homem? Ser mulher e não jogar as tranças esperando alguma espécie de salvação? Os covardes dirão que é tudo muito difícil e cruel, que as coisas são como são e ponto. O que eles não sabem, ou não querem enxergar, é que as coisas não são, elas se fazem.

A natureza inscrita numa espécie de código imutável a se repetir perenemente, a sociedade como instância que precisa de bases sólidas e homogêneas, protegidas como o interesse maior da humanidade, sancionada pela benção divina que criou homem e mulher. Filmes, livros, discos, “desde que o mundo é mundo é assim” transmitem certezas absolutas e contam com manicómios, exorcismos, alguma permissão temporária no carnaval, normal/anormal e lâmpadas na cara em plena avenida para ajustar os desviantes. Tudo para que o que se faz reiteradamente como condição de se manter, desponte apenas como a obviedade do “desde sempre foi assim”.

O que não se percebeu de antemão é que, cada laço que afirma não se encaixa completamente no anterior, a costura não é perfeita, há espaços, vazios, volumes e fendas não previstas. Porque sendo performance, ser homem e mulher, nunca pode ser exatamente a mesma coisa. Não sabiam disso, não contavam comigo e tantos outros.

Aqui e ali, alargamos as brechas, vemos oportunidades na folga de laços, atrapalhamos, com apurado senso de espetáculo, o fazer-se repetitivo da trama. Retiramos da invisível sombra, o tecer constante do “normal”. Ser homem, ser mulher não é de forma alguma destino natural, mas é o que se inventa disso, e nisso falaremos mais e mais, para escândalo dos opressores e glória dos que sabem ser a vida o que, afinal de contas, importa. Então porque não fazê-la mais ampla e colorida?

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Igreja de peito aberto para as minorias


Dia 13 de maio de 2011, o jornal O Globo publicou a entrevista com frei Gilvander Moreira sobre a decisão do STF que reconheceu juridicamente a União Civil Homoafetiva.

A entrevista enviada, via e-mail, para o jornal não foi publicada na íntegra. Vários cortes foram feitos.

Eis, abaixo, a íntegra da entrevista enviada por Frei Gilvander Moreira, reproduzida via IHU com grifos nossos.

Frei Gilvander Luís Moreira é padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis a entrevista.

Como o senhor recebeu a decisão do STF?

Com alegria, pois é uma vitória dos Movimentos e Grupos que historicamente vêm lutando pelo direito à liberdade sexual homossexual. Nesse caso, o STF posicionou-se com justiça e equidade. A sociedade está em constante transformação, e esse grupo em questão existe e está no dia a dia vivendo e construindo suas relações à margem da sociedade. Devido a isso o Direito não podia mais se esconder ou pôr uma venda e continuar negando esse direito para as relações homoafetivas. Nesse caso, o STF deu exemplo de coragem e cidadania. Tornou-se visível o invisível. Declara-se assim o início do fim da hegemonia da moral heterossexual. Abre caminho para a afirmação à luz do dia das mais de 60 mil uniões estáveis entre homossexuais no Brasil (Cf. último Censo do IBGE) que até aqui pagavam um altíssimo preço pela sua orientação sexual.

Dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal, ao decidir por unanimidade reconhecer, juridicamente, a união civil homoafetiva, reconheceu como legítimas e constitucionais decisões que já acontecem em dez estados brasileiros em 1ª e 2ª instâncias e em mais de vinte países. Nessa decisão, o STF está de parabéns. Esperamos que assim prossigam as decisões do Supremo, pois em muitas outras decisões, o STF não tem seguido os princípios constitucionais do respeito à dignidade humana, do republicanismo, da função social da propriedade... deixando campear pelo Brasil uma série de injustiças estruturais, tais como a falta de reformas agrária e urbana.

Como o senhor vê hoje a situação dos homossexuais no Brasil?

Segundo o pesquisador Luiz Mott (prof. emérito da UFBA), o mais preocupante é que o registro de violência contra a população LGBT vem aumentando ao longo dos anos. “Nunca se matou tanto homossexual no Brasil quanto agora”, afirmou.

De janeiro a novembro de 2010, Luiz Mott contabilizou 205 assassinatos entre a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) no País.

Mott, que faz o levantamento desse tipo de crime desde 1960, relatou que, entre 1960 e 1969, foram 30 ocorrências; na década seguinte, chegaram a 41. De 1980 a 1989, o número de registros chegou a 369; saltou para 1.256 nos anos 90 e atingiu 1.429 casos na primeira década deste século. Estima-se que o número de casos de discriminação da população LGBT atinge entre 10 mil e 12 mil por ano no País.

O senhor considera a sociedade brasileira preconceituosa e intolerante?

Infelizmente estamos sim numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica. Ainda há muito moralismo, fundamentalismos e sectarismos em segmentos conservadores de igrejas e da sociedade que ficaram irritados e questionam o acerto da decisão do STF. No último censo do IBGE foi declarado que há mais de 60 mil uniões estáveis homoafetivas no Brasil. O movimento que defende os direitos dos homossexuais está crescendo, o que é muito bom. Na decisão do STF - que reconheceu a união civil entre as pessoas do mesmo sexo - não se pode deixar de destacar e parabenizar a luta do Movimento pelos direitos dos homossexuais, que incansavelmente, no Brasil e no mundo, vem marchando pelas ruas, erguendo suas bandeiras, gritando de diferentes formas o direito que agora é reconhecido. Os ministros do STF não criaram uma novidade, mas em cada voto ecoaram os clamores das pessoas homossexuais que lutam pela afirmação de seus direitos há tanto tempo.

O senhor já ouviu confissões de pessoas que se declararam homossexuais? Que conselhos costuma dar para as que reclamam de preconceito?

Eu já ouvi sim confissões de pessoas homossexuais. Uma, por exemplo, chegou e me disse: “Gostei muito da sua homilia na missa de ontem. Por isso resolvi vir confessar. Frei Gilvander, ser homossexual é pecado?” Diante de uma pergunta tão direta assim ainda no início da confissão, percebi que tinha que conversar antes de responder sim ou não. A pessoa acabou me dizendo que após refletir muito tinha resolvido contar para a família que estava assumindo a orientação sexual homossexual. Disse que estava sofrendo muito, sendo discriminado pela família, por colegas na escola, nas ruas, por onde ia. Disse que resolveu me perguntar se era ou não pecado, porque tinha lido em um livro da Renovação Carismática onde se dizia que não era pecado ser homossexual, desde que não colocasse em prática o sentimento. Ele me disse que não tinha como não colocar em prática. Por isso queria saber se é ou não pecado, pois se for pecado, preferia suicidar a ter que viver sendo discriminado e humilhado.

Ouvi e conversei com essa pessoa mais de uma hora. Eu disse a ela que se o elo mais forte de uma corrente é o elo mais fraco, só poderá ser mais justo e aplaudido por Deus, um mistério de amor que nos envolve, o que for tratado a partir do elo enfraquecido e discriminado. Numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica, os homossexuais são um dos elos discriminados. Feliz do povo que houve os clamores dos que fazem outra opção sexual senão a hegemônica. Quanta dor! Quanta lágrima derramada! Quanta cruz carregada! Deus ouve os clamores de todas as pessoas que são oprimidas. Deus é amor e não discrimina ninguém e nem pune ninguém por opção ou orientação sexual. Deus não faz acepção de Deus. Deus acolhe a todos sem distinção.

Eu disse ainda que devemos respeitar todos, mas não podemos respeitar todos da mesma forma. Devemos respeitar as minorias - sem terra, mulheres, negros, deficientes, idosos, indígenas, homossexuais, sem casa etc – nos colocando na e da perspectiva deles para a partir deles nos posicionar sobre o que deve ser considerado justo e ético. E devemos respeitar os diferentes que estão na classe dominante – latifundiário, machistas, racistas, “normais”, fortes, brancos, heterossexuais, especuladores etc – fazendo de tudo para retirar das mãos deles as armas de opressão com as quais discriminam, muitas vezes, inconsciente e involuntariamente.

Sentindo-se compreendida e acolhida, a pessoa desistiu do suicídio. Ergueu a cabeça, levantou-se e foi embora.

A união civil entre pessoas do mesmo sexo ameaça a instituição familiar?

Penso que não por vários motivos. São minorias e há uma grande pluralidade de famílias hoje. Há familias tradicionais; famílias só com mãe e filhos (monoparental); 80 mil famílias sobrevivendo debaixo da lona preta em acampamentos clamando por reforma agrária; milhares de famílias que sobrevivem apertadas em um único quarto de cortiço; milhões de famílias arrochadas em barracos nas favelas; famílias só “marido e mulher” sem filhos etc. Por que não pode haver também famílias homossexuais? Por moralismo? Mais: concordo com Gerson Henrique, que, em monografia sobre Famílias Reconstituídas, pondera: “Sendo o Brasil um estado laico, que consagra o pluralismo, o respeito à diversidade e a autonomia da pessoa, não é coerente que a ordem infraconstitucional estabeleça modelos ideais de família, excluindo outros já existentes no cenário social. Uma vez reconhecida a autonomia da pessoa na formação da sua família e a natureza sócio-cultural desta, o ordenamento jurídico terá de reconhecer-lhes os efeitos apesar dos matizes com as quais se apresentar. Importa destacar o vínculo afetivo e o reconhecimento de pertença dos membros ao grupo por eles designado como família.” No Direito de Família contemporâneo existe uma crescente abertura às distintas modalidades de constituição familiar e a dimensão do afeto é muito considerada na hora de reconhecer direitos, o que considero pertinente eticamente.

Como o senhor entende as referências diretas ou indiretas da Bíblia sobre o tema? Ser homossexual é ser impuro, como sustentam os mais conservadores?

Na Bíblia, o primeiro relato da Criação (Gênesis 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado e interconectado a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Nas ondas da evolução, Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O livro de Atos dos Apóstolos resgata, nas primeiras comunidades cristãs, essa mística ao dizer que não há nada impuro. Tudo é puro, é sagrado. Deus não faz acepção de pessoas, não discrimina. O apóstolo Pedro ressalta a ordem divina de não chamar de profano ou de impuro nenhuma pessoa (Atos dos Apóstolos 10, 28). Pedro muda de atitude e passa a perceber que Deus não faz discriminação de pessoas. O importante é a prática da Justiça (Atos dos Apóstolos 10,34-35). O autor da Carta de Tiago nos alerta que Deus não faz distinção de pessoas, mas faz opção pelos pobres. Não é tolerável rico discriminar pobre. (cf. Carta de Tiago 2, 1-9). Numa sociedade hegemonicamente heterossexual, os homossexuais são pobres. Por isso, devem ser respeitados e compreendidos.

Como o senhor avalia o desempenho do movimento gay no Brasil?

Já evoluiu bastante, mas não pode ficar só nas reivindicações corporativistas, ou seja, defendendo só os direitos deles. É preciso se aliar aos outros movimentos populares que lutam pela construção de uma sociedade justa, solidária e sustentável ecologicamente. Fará um bem enorme ao povo quando os vários movimentos populares, que lutam pelos direitos das minorias - que numericamente são maiorias -, atuarem em unidade e solidariamente: os movimentos dos Sem Terra, dos negros, dos indígenas, dos sem casa, dos deficientes, dos homossexuais, dos desempregados etc, enfim, toda a classe trabalhadora unida e lutando pelos direitos de todos, defendendo toda a biodiversidade e construindo uma sociedade em que caibam todos.

A postura da Igreja em determinadas questões atrapalha a conversão de novos fiéis?

igrejas e não apenas igreja. Por exemplo, na Igreja católica há Igreja instituição - diáconos, padres, bispos e papa – e há a igreja que é povo de Deus. É óbvio que quando membros da Igreja instituição se posicionam de forma moralista, proselitista e autoritária afugentam muitas pessoas. Mas quando membros da igreja ouvem, dialogam e, inspirados no evangelho de Jesus Cristo, testemunham um projeto de vida que busca realizar o grande sonho do Deus da vida, que é vida e liberdade em abundância para todos e para toda a biodiversidade, aí, sim, cativam muitas pessoas para se engajarem em projetos humanizadores.

O que o senhor tem a dizer sobre o uso da camisinha?

É claro que devemos preservar a vida nossa, do próximo e de toda a biodiversidade. Para isso é necessário várias coisas. É necessário sim usar camisinha nas relações sexuais, por questão de saúde pública e por respeito à sacralidade de cada pessoa. Não podemos correr o risco de contrair HIV e/ou doenças sexuais transmissíveis que matarão o outro aos poucos. Isso não tem o apoio do Deus da vida. Mas camisinha não é panacéia para todos os males. Além do uso da camisinha, é necessário, para preservar a vida das pessoas, realizar reformas agrária, urbana e educacional. É preciso mudar o modelo de programação televisiva e dos meios de comunicação. Enquanto houver o sexismo, imoralidades e erotismo sendo trombeteados aos quatro ventos através de novelas e filmes, reduzindo a mulher a objeto, infelizmente só usar camisinha será um paliativo. É preciso educação de qualidade e elevar o nível cultural da sociedade. Estrangular o narcotráfico e mudar a política econômica destinando a maior fatia do orçamento do país, não para pagar dívida pública e investir em infraestrutura que viabilize crescimento das grandes empresas, a fina flor do capitalismo, mas investir pesadamente nas áreas sociais. Isso tudo junto com os uso da camisinha poderá nos levar a vida com mais dignidade.

Sua posição a respeito de tais temas é solitária na Igreja?

Não. Há muitos teólogos e teólogas, cristãos e cristãs, que partilham conosco essas posições. Todo o povo da igreja que participa da Teologia da Libertação. Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, pastorais sociais e muitos movimentos eclesiais. Na Igreja Instituição há membros que comungam conosco dessa visão mais compreensiva com os direitos das minorias e há também outros profissionais do sagrado que ficam indignados com essas posturas mais ecumênicas e proféticas.

O que ainda há a ser feito pelo direito das minorias no país?

A luta continua. Luta contra a homofobia, o preconceito e o conservadorismo que só excluem e negam a liberdade e a dignidade constitucionalmente garantidas e biblicamente amparadas. Faz-se imprescindível, como ensinou Paulo Freire, educar para a indignação. Indignação diante das injustiças sociais e das violações aos direitos humanos e planetários. Enfim, é ético seguir o seguinte princípio: No necessário, a unidade; no discutível, a liberdade; em tudo, o amor.

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Para quem quiser entrar em contato com Frei Gilvander:

E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Twitter: @gilvanderluis
Facebook: gilvander.moreira

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um minuto de silêncio


Hoje, dia de tragédia no Rio, assisti, em meio ao choque generalizado diante do ocorrido e às primeiras reações de compaixão e solidariedade, a uma crescente onda de boatos nas redes sociais acerca do autor dos disparos: que seria religioso, fundamentalista, islâmico, soropositivo, homossexual, ateu, crente - imediatamente acompanhada de uma avalanche de trocas raivosas de acusações... "gays" contra "religiosos", "fundamentalistas" contra "libertinos", "conservadores" contra "progressistas", "crentes" contra "ateus", "defensores dos direitos humanos" contra "reacionários"... e, em meio ao recrudescimento da raiva generalizada, as crianças feridas e mortas e o rapaz transtornado que as feriu e matou pareciam ter virado apenas um pretexto para o cabo-de-guerra entre interesses rivais.

...E, em meio à polarização das paixões e à intensificação da troca de insultos e agressões, o santo nome das crianças chacinadas me parecia cada vez mais usado em vão. Do impulso inicial de compaixão, algo parecia ter se perdido.

A mim não parece que a questão seja identificar de quem é a culpa - se da religião ou do ateísmo ou do fundamentalismo ou da libertinagem ou da homossexualidade ou do reacionarismo ou da soropositividade ou do fracasso do referendo contra as armas. Sobretudo, não me parece que a questão seja aproveitar - por convicção ou oportunismo - para identificar a culpa com aquele "outro" que pensa diferente de mim. Ao menos não agora.

Ao menos não agora. Por ora, demo-nos um minuto.

Mais que encher-nos de ódio pelo criminoso - seja ele louco, radical, gay, soropositivo, crente, ateu ou E.T. - a ocasião pede sobretudo humanidade diante de tanto sofrimento - das crianças, das famílias, dos amigos, dos profissionais que atuaram no resgate, nos hospitais, nos bancos de sangue, e por que não? Também do perpetrador de tamanha insanidade.* Diante de tamanho sofrimento, resta-nos sentir, resta-nos por um instante suspender toda pretensão, arrogância e julgamento, resta-nos baixar os olhos, e baixar a guarda, baixar as certezas de que certo estou eu e toda diferença está errada, e guardar por um instante as palavras e fazer um minuto que seja de silêncio, em silenciosa abertura para tão-somente compartilhar com o outro a sua dor. Resta-nos, diante da tragédia - desta de hoje como de outras - por um minuto que seja baixar as baionetas e as palavras aguçadas e dar-nos as mãos, como quem diz "Vem, irmão, apóia-te por um instante no meu ombro, sei que estás cansado, como cansado estou eu". E a dor assim dividida, com o peito assim aberto, por um minuto que seja nos faz mais humanos, porque mais humildes perante o mistério insondável da existência; o mistério da dor diante da qual só podemos dar-nos as mãos, calar e confiar que um dia as lágrimas secarão, as feridas irão cicatrizar um dia, e um dia - embora em meio a tamanha treva seja impossível acreditar - o sol voltará e será outro dia, outra vez.

E a dor assim dividida, por um minuto que seja desse silêncio que se instala porque não há resposta para o "por quê?!" mortificado, a dor assim dividida anula as diferenças. E porque anula as diferenças, porque não importa por ao menos um minuto a tua ideologia ou religião ou raça ou classe ou seja lá o que te faz diferente de mim e a mim, diferente de ti; porque nada mais importa voltamos a ser iguais como quando chegamos neste mundo, e a igualdade nos torna de novo simplesmente humanos e irmãos na dor.

Partilhemos com as vítimas essa dor tamanha, e demo-nos as mãos e façamos silêncio por um minuto que seja, para que pelo menos a tragédia nos torne outra vez irmãos. Porque a dor assim sentida, de mãos dadas, humaniza. Por um minuto, que assim seja.

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*Quem leu a sua carta? Quem, em meio ao horror das suas palavras, leu, nas entrelinhas, o fardo de solidão e desespero...?
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