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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Qual o Valor da Vida de Nossos Filhos e Filhas?

Junte-se às "Mães pela Igualdade" no Brasil, aqui

"A sociedade tratou dois meninos assassinados de modo desigual, mas a morte violenta os igualou."


Em 2006, no auge da comoção pública ocorrida em razão da morte do menino João Hélio, publiquei artigo de opinião no Congresso em Foco [aqui: "Há várias formas de matar uma criança"] em que questionava não apenas a exploração da dor pela mídia convencional, como também os discursos inflamados pela diminuição da maioridade penal, que mais uma vez surgiam ante um fato exaustivamente exposto nas TVs, jornais e rádios brasileiras.

Na mesma semana, um adolescente de 17 anos fora torturado, violado e morto, com requintes de crueldade na vizinha cidade de Anápolis, a segunda mais importante no estado de Goiás. Não foi publicada sequer uma linha nos jornais do Distrito Federal ou do país, e, mesmo em Goiás, apenas um pequeno jornal semanário (Jornal Opção) deu a notícia com pouco mais de 200 caracteres, quase num pé de página.

Qual a diferença entre João Hélio, o menino de seis anos, morto em razão de um assalto mal sucedido e o garoto sem nome, de 17 anos, torturado, violado e assassinado em Goiás? Por que os defensores da diminuição da maioridade penal, os paladinos da pena de morte, do movimento lei e ordem, nada falaram sobre o caso? O que motivou os editores de telejornais, jornais e rádios do país a sequer se preocuparem em dar a notícia? Por que não houve clamor popular, comoção pública, debates em torno da crescente violência que assola o país?
Tantas perguntas, uma única resposta. O que diferencia o garoto sem nome de João Hélio é que aquele causara rebuliço na família seis meses antes, por que revelara que era homossexual. E por que era homossexual, foi torturado, violado e friamente assassinado.
Retrato de uma sociedade adoecida em que a vida, a integridade física e emocional são valores relativos. Uma cultura que pune cruelmente todo aquele que não reza pela cartilha da maioria, que não realiza as expectativas identitárias, em especial e principalmente, que ousa desobedecer o código da heteronormatividade e das identidades de gênero binárias.
O que têm em comum João Hélio e o garoto sem nome? Eles têm mãe. Mas poderiam ter tantas outras coisas em comum, qualidades que jamais saberemos por que ambos foram vítimas da violência.
Ainda assim, para João Hélio, cuja identidade sexual e de gênero ainda não estava plenamente expressa, a sociedade bradou por justiça, os meios de comunicação inflaram o debate em torno da segurança pública, os políticos de plantão levantaram suas bandeiras de tolerância zero. Enquanto repousa anônimo o garoto torturado, violado e assassinado em Anápolis, e ninguém, exceto a própria mãe, clamou por justiça. A sociedade os tratou de modo desigual, mas a morte violenta os igualou.
É preciso que nossos filhos e filhas tenham direitos iguais. É necessário que a vida, a integridade física e emocional sejam valores absolutos em nossa sociedade. Respeitar e garantir os direitos civis de brasileiros e brasileiras sem qualquer distinção, inclusive a de orientação sexual, é garantir o estado democrático de direito.
- Maria Cláudia Cabral é advogada, blogueira e faz parte do movimento Mães pela Igualdade.
Publicado originalmente no site Congresso em Foco. Reproduzido via blog das Mães pela Igualdade.

domingo, 10 de junho de 2012

O mundo não é preto e branco, e sim colorido. Vamos falar de sexo?

Foto: Takeshi Suga

Do blog do Leonardo Sakamoto:

Na época da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo sempre aumenta a minha percepção do quanto nós somos desinformados sobre a nossa própria sexualidade. E terreno sem informação é fértil para o brotar o preconceito e a discriminação, principalmente entre aqueles que acham que a vida é um preto e branco maniqueísta, homem e mulher, macho e fêmea e o resto é doença. Ignoram que há outras cores no meio do caminho que, por sua vez, podem ser tão específicas que apresentem tonalidades únicas e individuais. Sim, na prática, cada um tem sua própria cor. Assustador e maravilhoso isso, não?

Por isso, pedi para Claudio Picazio, psicólogo especialista em sexualidade, um texto que fosse didático para ajudar aos leitores deste blog a entenderem a questão. Ele não encerra o tema, claro. Muito pelo contrário, é um bom ponto de partida.


Para entendermos a sexualidade e por uma questão didática, vamos analisá-la sob quatro aspectos diferentes e interligados: Sexo Biológico, Identidade Sexual, Papeis Sexuais e Orientação Sexual do Desejo. Repito essa divisão é didática, pois todos os aspectos se entremeiam, formando dentro de nós aquilo que chamamos identidade de gênero.

Sexo Biológico: Biologicamente falando quantos sexos existem? Dois, masculino ou feminino. Quando nascemos pelas características que nosso corpo possui, somos registrados como macho ou fêmea. Essa afirmação parece simplista e óbvia, mas não é bem assim, quando falamos de sexo masculino ou feminino estamos nos referindo às características dos órgãos sexuais e a predominância que este tem no nosso corpo.

Muitas pessoas nos anos 70, por uma questão de distinção ou até modismo, começou a chamar a homossexualidade de terceiro sexo. Isto não é verdade, só confundiu. Biologicamente falando, homens hetero, bi e homossexuais não têm a menor diferença, assim como as mulheres hetero, bi e homossexuais. Portanto, quando uma pessoa fala popularmente que um gay não é homem, esta incorreto, o gay é tão homem quanto qualquer outro, a única variação é por quem o seu desejo sexual se orienta. Há exceções, é claro. Por exemplo, uma pessoa hermafrodita nasce com uma dupla formação de características dos seus órgãos sexuais masculinos e femininos.

Identidade Sexual: Vamos definir como sendo o aspecto de onde guardamos a nossa certeza do que somos. Quando nascemos, somos registrados como menino ou menina. A partir daí somos tratados como tal e incoporamos a sensação de pertencemos a um gênero. Acreditamos que somos menina ou menino: a forma de como somos tratados é tão importante como o nosso sexo biológico para a formação da nossa identidade sexual. Mas a nossa identidade sexual não depende tanto do nosso corpo para se manter. Ele é importante para seu desenvolvimento, mas a sensação de quem somos é muito maior, e muito mais profunda do que o nosso corpo pode dizer.

Papeis Sexuais: Vamos entender como papeis sexuais, todos os comportamentos definidos como maneirismos, atitudes e expressões daquilo que chamamos de masculino e feminino. Papeis sexuais são variados de cultura para cultura de sociedade para sociedade e estão em constante transformação. Aquilo que era considerado há 20 anos como exclusivamente ao papel feminino, hoje também pode ser considerado do masculino. As mudanças sociais e econômicas, o movimento feminista permitiu uma flexibilidade e mudança das posturas rígidas de ser masculino ou feminino. Um exemplo: o uso de brincos por homens.

Ainda temos muito enraizado em nós os papeis sexuais e a análise que fazemos destes para julgar o outro. Uma mulher que não se identifique muito com os papeis femininos típicos, tenderá a ser “diagnosticada” pelos outros como lésbica. Mas papeis sexuais não determinam desejo erótico e sim ações e atitudes que incorporamos. Um garoto que não goste de futebol e de nenhum esporte violento, será interpretado como “mulherzinha, gay”. Pensando nesse exemplo, estamos dizendo que um homem heterossexual de verdade tem que ser violento assim como uma mulher heterossexual de verdade tem que ser passiva e meiga. Já estamos estabelecendo uma divisão entre os gêneros complicada, porque incentivamos um comportamento na criança que mais tarde brigaremos muito para retirar. Na verdade encontramos homens heterossexuais e gays violentos, assim como encontramos homens heterossexuais e homossexuais que não são violentos e nem se adaptam a essa postura.

Orientação Sexual do Desejo: Muita gente utiliza “opção sexual”, o que não é nada correto quando falamos da sexualidade. Quando falo em “opção” estamos falando em escolha e para ser considerada uma escolha teríamos que ter duas ou mais coisas de igual significado ou valor para quem escolhe. Se desejo erótico fosse opção teríamos que sentir desejos tanto por homens quanto por mulheres da mesma forma. Isso não acontece por ninguém. Nenhum de nós parou um certo dia, para pensar quem desejaria. Acredito que muitos gostariam que assim o fosse, por que isso o permitiria flexibilizar, variar, e não sofrer julgamentos e preconceitos tão doídos de serem combatidos. Dizemos Orientação Sexual do Desejo pois nosso desejo se orienta para um determinado objeto amoroso. Não optamos e sim percebemos o nosso desejo erótico, descobrimos algo que já parece instalado em nós.

O desejo erótico não é influenciável como se imagina ser. Se o fosse não existiram gays e lésbicas. A nossa sociedade é heteronormativa. Tudo que existe nela é feito pensando na heterossexualidade. Pais e mães educam seus filhos para a heterossexualidade. O preconceito social, a homofobia e as religiões ainda são muitos fortes na sua postura contra a homossexualidade. E mesmo com tudo isso os homossexuais não se influenciam pela heterossexualidade.

“Desejo sexual” é parte fundamental da orientação afetivo sexual, ao passo que uma “atitude sexual” pode existir interdependentemente da orientação do desejo. Por exemplo, na época da Segunda Grande Guerra muitas mulheres tinham relações sexuais entre si, assim como muitos homens, no campo de batalha. Estas mulheres sentiam falta de seus companheiros, a orientação de seu desejo era claramente voltada para homens, mas relacionavam-se sexualmente com outras mulheres. As mulheres motivadas por um desejo de descarregar a sua energia sexual. Com a volta de seus companheiros, essa atitude automaticamente deixava de existir.

Em muitos casos, homossexuais que não querem viver a sua orientação, vão à procura de igrejas, e/ou profissionais que estimulam atitude sexual desses homossexuais. Esses gays tentam viver anulando o seu desejo erótico e tendo somente atitudes sexuais heterossexuais. A dor psíquica é muito grande.

Muitos meninos têm uma relação que se chama “troca-troca” que está longe de ser considerada homossexualidade. Um dos motivos é porque para a maioria o objeto desejado internamente é uma pessoa do outro sexo. O que há é um exercício de sexualidade, um descarrego de energia que está vibrando nos corpos com toda a sua força e é vivido com um(a) colega. Em suma, todo ser humano pode ter uma atitude sexual com qualquer dos sexos, mas seu desejo interno, a libido, é o determinante de uma conduta homo, hetero ou bissexual.

O que seria então a bissexualidade? A bissexualidade não é termos uma atitude sexual por uma pessoa e um desejo erótico por outra. A bissexualidade é um fenômeno que algumas pessoas têm de desejar afetiva e sexualmente tanto homens como mulheres. Não podemos falar que um bissexual optou por homens ou por mulheres. Não escolhemos, conscientemente, por quem nos apaixonamos, assim como não escolhemos por que vamos desejar eroticamente.
Concluindo: podemos dizer que o desejo erótico, ou ele é homo, por uma pessoa do mesmo sexo que o nosso, hetero por uma pessoa do sexo diferente do nosso, ou bissexual que é o desejo erótico pela pessoa do mesmo sexo ou do sexo oposto.

E a Travestilidade e a Transexualidade, como se comportam? Uma pessoa hetero ou homossexual tem a sua identidade sexual correspondente ao seu sexo biológico. Uma travesti tem a sua identidade dupla, ou seja, ela se sente homem e mulher ao mesmo tempo. O leitor deve se lembrar quando falamos de identidade sexual? A sensação de pertencimento à identidade sexual feminina e masculina da travesti é o que lhe garante mais do que o desejo, a necessidade de adequar o seu corpo aos dois sexos que sente pertencer.

A Travestilidade também não é opção, muitas pessoas crêem erroneamente que a travesti é um gay muito afeminado que resolveu virar mulher. Além de simplista esta afirmação esta recheada de equívocos. Uma travesti diferente do gay tem uma identidade dupla: masculina e feminina. Uma travesti pode ter papeis sexuais tanto masculino como feminino, pois como já dissemos anteriormente esse é um processo de identificação com valores e costumes da sociedade. Quanto ao desejo erótico, uma travesti pode ser homo, hetero, ou bissexual.

A maioria delas se intitula homossexuais, mas não é bem assim. Quase a unanimidade dessas travestis sente-se mulher. Na grande maioria do tempo, elas não desejam eroticamente o seu amigo gay, elas desejam um homem típico heterossexual. Portanto se uma pessoa se identifica, sente-se mulher e sente atração por um homem, o seu desejo é heterossexual. Portanto a maioria das travestis tem o desejo heterossexual. Uma relação homossexual de uma travesti seria com uma outra travesti.

A Transexualidade, caracteriza se pela identidade sexual ser oposta ao sexo biológico é como se a sua “alma” fosse do sexo oposto do que o seu corpo a condena. A necessidade de correção do corpo para a identidade sentida se faz urgente. Muitos Transexuais se mutilam para poder fazer a cirurgia de adaptação genital. A força da identidade sexual é a tônica na construção da nossa identidade de gênero. Uma transexual também pode ser homo, hetero ou bissexual.

Para quiser se aprofundar, sugiro o livro “Uma outra verdade – Perguntas e respostas para pais e educadores sobre homossexualidade na adolescência”, de Claudio Picazio pela Editora Summus. A leitura é fundamental. Talvez com informação possamos inverter uma lógica perversa. Quando alguns pais “descobrem” que o filho é gay ou a filha lésbica, recebem suporte emocional de parentes e amigos. Mas deixam sozinhos seus filhos, que têm que passar sozinhos pela fase de sua própria descoberta. Isso é justo?

O bonde da história


A Parada Gay de São Paulo é um marco na luta pelos direitos dos homossexuais no Brasil. O aumento estrondoso no número de participantes a cada ano mostra a evolução do evento. Em sua primeira edição, há 16 anos, cerca de 300 pessoas -em sua maioria homossexuais- reuniram-se para reivindicar a garantia de seus direitos. Eu estava lá.

O evento cresceu enormemente, manteve as reivindicações e transformou-se em motivo de encontro e celebração de diferentes tribos. As famílias foram para a rua declarar sua tolerância e a parada se tornou a maior manifestação gay do mundo. No ano passado, 4 milhões de pessoas lotaram a avenida Paulista e o evento gerou mais de R$ 200 milhões para os cofres da cidade.

Se aos poucos a cobrança de direitos foi ficando diluída, é indiscutível que a parada possibilitou o surgimento de vários outros eventos culturais voltados para o público LGBT e deu enorme visibilidade para as reivindicações da comunidade. Além de outras paradas que criam espaços na mídia e celebram o orgulho da diversidade sexual por todo o país.

Nestes últimos anos tivemos alguns avanços do lado do Executivo (declaração de Imposto de Renda conjunta e INSS) conquistados no governo Lula. Nada do Congresso. O projeto que criminaliza a homofobia encontra-se há anos no Senado ainda com dificuldades de aprovação.

Há um ano o STF concedeu aos casais homossexuais os mesmos direitos e deveres que a legislação brasileira já estabelece para os casais heterossexuais. Durante a votação, o então presidente do STF, o ministro Cezar Peluso, cobrou do Congresso que "assumisse a tarefa que até agora não se sentiu propenso a fazer" e transformasse a conversão em lei. Começamos.

Há poucas semanas a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou projeto, de minha autoria, que altera artigos do Código Civil para reconhecer como entidade familiar a união estável entre pessoas do mesmo sexo. A proposta dá um passo adiante na decisão do STF permitindo a conversão da união homoafetiva em casamento.

O projeto seguiu para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), onde será relatado pelo senador Roberto Requião. Aprovado, irá à Câmara dos Deputados.

É uma oportunidade concreta para os parlamentares tomarem o bonde da história, como fizeram recentemente na CCJ aprovando a lei das cotas nas universidades para os mais carentes e os negros. Esse caminho, do cumprimento da Constituição e de ações afirmativas voltadas à garantia dos direitos humanos, está traçado. Pode demorar mais, ou menos, mas é inexorável.

Agora é a vez do Congresso. O Brasil espera e a parada de amanhã [hoje] exigirá.

- Marta Suplicy
Publicado ontem na Folha de S. Paulo. Reproduzido via Conteúdo Livre

sábado, 9 de junho de 2012

A escola deve ser um lugar seguro para todas as crianças, sem exceção


Extensa e excelente análise publicada por Luiz Henrique Coletto  nas Notas Públicas da LiHS  no início de maio. Apesar do atraso, reproduzimos em vista da relevância da discussão em pauta, aproveitando o ensejo da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, amanhã.

Maio é um mês bastante movimentado na agenda do movimento LGBT nacional. Em meados do mês, ocorrerão em Brasília a 3ª edição da Marcha Nacional Contra a Homofobia, o 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional e uma Audiência Pública para tratar da criminalização da homofobia e da violência homofóbica. Esses eventos, nos dias 15 e 16, marcam a passagem do Dia Internacional Contra a Homofobia (17 de maio).

A Marcha Nacional chega à terceira edição e consolida-se como a manifestação política mais proeminente do movimento em âmbito nacional se considerarmos as Paradas do Orgulho LGBT como eventos não exclusivamente políticos, como avaliam alguns. O tom da Marcha é, até mesmo por sua realização no centro político do país, mais característico da ideia clássica de uma manifestação política. Os eventos desse ano, entretanto, trazem algumas singularidades interessantes, e vou apenas mencionar uma delas para tratar mais detidamente de uma outra.

A Audiência Pública será mais uma das várias que já foram feitas para discutir a criminalização da homofobia. O fato é que o PLC 122 está emperrado no Senado Federal, e de audiência em audiência, não se votou o projeto em plenário ainda. Esta edição tem um grande mérito, entretanto, ao dar cara e voz mais explícitas ao objeto deste projeto e desta demanda histórica do movimento. A meu ver, as histórias de vítimas da homo/les/transfobia são o elemento central neste momento, porque as discussões de legalidades e tecnicalidades já foram exaustivamente feitas. É preciso compartilhar estas histórias de violências físicas, psicológicas e morais que atingiram jovens e adultos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais; que atingiram as mães e os pais destes LGBTs, bem como seus amigos e colegas.

A terceira mesa prevista para a Audiência trará testemunhos de homofobia. Se eu vejo esta mesa como o ponto central, creio, infelizmente, que a mesa seguinte (e final) é que terá maior destaque: a recente e intensa polarização entre Toni Reis, presidente da ABGLT, e Silas Malafaia, pastor televangelista, tem atraído a atenção não só do movimento como também da mídia. Por alguma razão de outra ordem que não a competência, a mesa “A criminalização da homofobia: aspectos constitucionais e legais” terá a presença do pastor Silas Malafaia junto de três advogados. Os três têm competência para tratar de aspectos legais e constitucionais sobre a criminalização da homofobia. Vários outros juristas que não querem o PLC 122 aprovado poderiam estar na mesa para contrapor os argumentos jurídicos dos três primeiros. Aparentemente, eles não têm interesse em ir na Audiência ou nem estão sabendo do debate. Só Silas Malafaia, cuja formação é em Psicologia e a “especialização” é em retórica, adquirida em décadas de televisão. Enfim, não vou me alongar sobre o pastor Malafaia.

A singularidade que mais me interessou este ano é a temática do 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional (“Infância e Sexualidade”), sob organização da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT. Considero bastante corajoso endereçar o tema da sexualidade na infância. Isso implica mover certa parede moral que joga a sexualidade para “algum momento da adolescência” e ignora a sexualidade das crianças. Este tema claramente dialoga com a problemática da homofobia nas escolas, afinal, ambiente essencialmente infantil e juvenil. É corajosa a discussão também porque este assunto está num espécie de limbo político desde o veto que Dilma deu ao material pedagógico que trataria da diversidade sexual na escola. Aliás, só lá no Ensino Médio, período em que a maioria dos jovens já iniciou ou está iniciando a vida sexual; que a maioria das crianças que fogem aos padrões de gênero e performance viril/feminina já sofreram bullying e, por fim, em que muitas das concepções machistas, homo, les e transfóbicas já estão primariamente enraizadas.

Ao focalizar a infância, o Seminário só reverbera uma espécie de consenso acadêmico - refletido não só em posições teóricas, mas também em relatos colidos in loco sobre bullying homofóbico, bem como estatísticas de violência e mesmo suicídio - sobre a necessidade de abordar a diversidade sexual com as crianças. Eu creio que uma leitura mais calma de diversos desdobramentos desta questão ajude a clarificar ainda mais a urgência pela mudança do modo como tratamos (ou ignoramos) a questão nas escolas. Um exemplo sobre o qual tentei discorrer em A Propaganda Heterossexual é justamente o mecanismo perverso que oculta a onipresença da heterossexualidade na vida das crianças, em todas as suas “ambiências”, ao passo em que aponta uma “doutrinação” (sic) na mera tentativa de falar sobre diversidade sexual.

Mas, mais uma vez, penso que compartilhar histórias seja fundamental para trazer a realidade que as pesquisas, estatísticas e teorias retratam. Em março deste ano, o caso de agressão a um adolescente de 15 anos do interior do Rio Grande do Sul ganhou destaque na imprensa. No dia 23 de março, o jovem deu seu depoimento no programa Mais Você, da Rede Globo. Você pode ouvir os 5min em que ele fala sobre o que está passando neste link (entre 4’55’’ e 9’45’’).

Já o jovem Iago não chegou a contar sua história. Só sabemos da homofobia que ele sofria na escola pelos relatos tristes de seus familiares. Na edição de 19 de maio de 2009 do Profissão Repórter, também da Rede Globo, o tema era escola de periferia, e o caso do Iago, de 14 anos, surge por acaso [já havíamos visto este vídeo aqui, mas vale repetir]:


A violência que estes dois adolescentes sofreram por causa de sua real ou suposta homossexualidade não é exceção ou acidente no cotidiano escolar. Nem mesmo na sociedade. Nem mesmo no Brasil. Na edição de 24 de março do New York Times, o marroquino Abdellah Taïa contou sobre sua infância como um garoto afeminado em Salé, no noroeste do Marrocos. O ano era 1973. Em 1988, quando tinha 25 anos, Taïa exilou-se na França.
No Marrocos dos anos 80, onde a homossexualidade não existia, é claro, eu era um pequeno garoto afeminado, um garoto a ser sacrificado, um corpo humilhado sobre o qual recaia toda a hipocrisia, todos os não ditos. Quando tinha 10 anos, embora ninguém falasse sobre isso, eu sabia o que acontecia aos meninos como eu em nossa sociedade empobrecida; éramos vítimas designadas para sermos usadas, com a benção de todos, como simples objetos sexuais de homens frustrados. E eu sabia que ninguém me salvaria - nem mesmo meus pais, que certamente me amavam. Para eles também, eu era vergonha, sujeira. Um “gay”. [...] Como é para uma criança que ama seus pais, seus muitos irmãos, sua cultura operária, sua religião - o Islã - como é que ela pode sobreviver a este trauma? Ser ferido e molestado por causa de algo que outros viram em mim - alguma coisa no modo como movo minhas mãos, as minhas inflexões. Um jeito de andar, o meu comportamento. [...] Não me recordo mais da criança, do adolescente que fui. Sei que era afeminado e tinha consciência de que ser tão explicitamente “daquele jeito” era errado. 
[...] Nunca mais fui o mesmo Abdellah Taïa depois daquela noite [em que vários homens da vizinhança queriam fazer sexo com ele]. Para me salvar, eu me matei. Foi isso que fiz. Comecei a manter minha cabeça baixa todo o tempo. Eu cortei todas as relações com as crianças da vizinhança. Mudei meu comportamento. Eu me mantinha vigilante: nada mais de gestos femininos, nada mais de andar com as mulheres. Nada de mais nada. Eu tive que inventar um Abdellah inteiramente novo. Eu me empenhei nisso com grande determinação, e com a compreensão de que aquele mundo não era mais meu mundo. Cedo ou tarde, eu deixaria aquilo para trás. Eu crescercia e encontraria a liberdade em algum outro lugar. Mas até lá, eu me tornaria alguém forte. Muito forte.
A história de Abdellah ilustra bem o quanto crianças, na mais tenra idade, podem sofrer terríveis violências por não se comportarem como é esperado delas. Por não serem como se espera. Uma violência brutal que atinge jovens travestis, transexuais, gays e lésbicas. É urgente que a sexualidade - enquanto conjunto de manifestações de gênero, identidade e desejos - e a infância sejam harmonizadas. Não seria nem mesmo preciso recorrer a isso se nos recordarmos duma premissa essencial da educação: a escola deve ser um ambiente seguro e saudável para todas as crianças. Para todas elas, sem exceção.

- Luiz Henrique Coletto, Membro do Conselho LGBT da LiHS
Publicado nas Notas Públicas da LiHS 

O corpo

Arte: Danny Quirk

Em torno da festa cristã de Corpus Christi, vale lembrar que uma linha vertical divide os seres humanos entre vencedores e vencidos, aliados e inimigos, fiéis e hereges; desce da abstração da linguagem, consubstanciada em ideologias e crenças religiosas, para atingir seu ponto mais cruel: a segregação de corpos.

“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”, declamava Gertrude Stein.

Ninguém discorda. No entanto, não há consenso de que “uma pessoa é uma pessoa é uma pessoa”. Nazistas negam a judeus o direito à vida, assim como há judeus que se julgam superiores aos árabes, e árabes que assassinam cristãos que não comungam de suas crenças, e cristãos que excomungam espiritualmente judeus, muçulmanos, comunistas, homossexuais e adeptos do candomblé.

Uma pessoa é o seu corpo. Vive ao nutri-lo e faz dele expressão de amor e gera novos corpos. Morto o corpo, desaparece a pessoa. Contudo, chegamos às portas do terceiro milênio num mundo dominado pela cultura necrófila da glamorização de corpos aquinhoados por fama, beleza e riqueza, e a exclusão de corpos condenados pela pobreza.

Na lista telefônica de Santa Mônica, EUA, consta o número da Fundação Elizabeth Taylor contra a aids. Não há nenhuma fundação contra a fome. Esta mata muito mais que aquela. Por que a Aids mobiliza mais que a fome? Porque não faz distinção de classe. A fome é problema dos oprimidos, e ameaça um terço da humanidade. Os premiados pela loteria biológica, nascidos em famílias que podem se dar ao luxo de comer menos para não engordar, são indiferentes aos famintos ou dedicam-se a iniciativas caridosas, com a devida cautela de não questionar as causas da pobreza.

Clonam-se corpos, não a justiça. Açougues virtuais, as bancas de revistas exaltam a exuberância erótica de corpos, sem que haja igual espaço para ideias, valores, subjetividades, espiritualidades e utopias. Menos livrarias, mais academias de ginástica. Morreremos todos esbeltos e saudáveis; o cadáver, impávido colosso, sem uma celulite.

A política das nações pode ser justamente avaliada pela maneira como a economia lida com a concretude dos corpos, sem exceção. Num mundo em que o requinte dos objetos de luxo merece veneração muito superior ao modo como são tratados milhões de homens e mulheres, o valor do dinheiro se sobrepõe ao de vidas humanas, as guerras funcionam como motor de prosperidade, é hora de nos perguntarmos como é possível corpos tão perfumados com mentalidades e práticas tão hediondas? E por que ideias tão nobres e gestos tão belos floresceram nos corpos assassinados de Jesus, Gandhi, Luther King, Che Guevara e Chico Mendes? O limite do corpo humano não é a pele, é a Terra. Somos células de Gaia. Resta fazer essa certeza implantar-se na consciência, lá onde o espírito adquire densidade e expressão.

- Frei Betto
Publicado no Estado de Minas em 30/05/12. Reproduzido via Conteúdo Livre

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Nunca é demais googlar


Sim, a esta altura quase todo mundo já viu. Mas, como bem disse o Tony Goes em seu blog, e nunca é demais lembrar:

"Este é o caminho certo: mostrar que a causa do casamento civil igualitário também é apoiada por héteros. Temos amigos, parentes, conhecidos, muita gente que gosta da gente. Também tem muita gente que nem nos cohece, mas que tem a cabeça e o coração no lugar certo. Agora é torcer que outras empresas façam vídeos parecidos e que este movimento fique parecido com o "It Gets Better". E por falar em empresas, como é que a Parada Gay de São Paulo - nada menos que o 2o. evento que mais traz faturamento para a cidade - está com cada vez menos patrocinadores?"

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Somos todos iguais. Ou não?"


Safo foi uma pensadora, considerada por Platão a décima musa. Mas então por que ela não foi reconhecida como tal na Grécia Antiga? Mulher não tinha vez. Seu único papel social era de reprodutora e “cuidadora” do lar. Trocando em miúdos, um bibelô dos homens. Ela se rebela, cria uma escola só para mulheres, em Mitilene, capital da Ilha de Lesbos, com ensinamentos de poesia, dança e música. Tal foi o preconceito quanto ao talento e às atitudes vanguardistas de Safo que precisaram lhe incutir algum “defeito”. Claro, corruptora de mulheres! Já que vivia cercada delas. A força dessa “medalha” foi tamanha que até hoje se define como “lésbica” a mulher que se relaciona sexualmente com outra. E se, em 1476, Leonardo da Vinci tivesse sido condenado à fogueira no Tribunal de Florença por crimes sodomitas (nome dado a homens que mantinham relações com outros homens)? O que a Humanidade teria perdido de obras artísticas, científicas e culturais?

Apenas dois exemplos, aparentemente distantes no tempo, para ilustrar esta caminhada. Por que permanece acesa essa fogueira da inquisição até o século XXI? Obama reconheceu. Que se apague esse fogo! O fogo do preconceito, que fique claro, mas que a chama da liberdade, do amor e da pluralidade arda incessantemente! Por falar em pluralidade, ela tem duas outras companheiras também regidas pela Constituição Federal: a dignidade e a igualdade. Se somos iguais perante a lei, por que a união de pessoas do mesmo sexo deve ser diferente?

Não estamos tratando de religião, como a palavra casamento pode soar aos nossos ouvidos. Tratamos aqui de um contrato especial de direito de família. Simples assim: vamos nos casar? Vamos ao cartório selar esta comunhão. Mas, até hoje, mesmo com alguns avanços jurídicos, não é bem assim. A união estável tem profundas diferenças do casamento civil. Neste, existe mudança do estado civil para casado, a intenção primordial da formação de família e direitos de proteção do cônjuge em caso de morte ou separação. Na união estável, trata-se de uma decisão judicial com exigência de que o casal recorra à justiça para tal reconhecimento.

Fundamentalistas se baseiam na ideia da existência exclusiva da formação de casal somente entre homem e mulher para condenar a aprovação do casamento igualitário. Só para lembrar, o casamento homossexual foi proibido pela primeira vez apenas no ano de 342 d.C. por um decreto romano. Até então era permitido. Ora, a escravidão era permitida legalmente até que a Lei Áurea foi assinada. Ora, as mulheres não tinham direito a voto até 1932. Hoje, elas chegam ao topo do poder de grandes nações. E imaginar que a gente nem votava há exatos 80 anos parece um completo absurdo! O mundo muda, as famílias mudaram, e as leis têm obrigação social de acompanhar essa evolução.

Até os contos de fadas sofreram mudanças e atualizações. Chapeuzinho Vermelho se transformou em “A Garota da Capa Vermelha”, uma versão noir da clássica neta e mocinha. Rapunzel virou animação bem-humorada em “Enrolados”, e “A Bela e a Fera” passou por uma profunda repaginada para se atualizar aos desejos deste público moderno.

Fiz a minha parte. Compus um conto de fadas com direito a castelo, dragão, duelos e cavaleiros, permeados por um amor capaz de vencer todos os obstáculos. É a história de “A Imperatriz e a Princesa”. Canção que encerra “Eu Raio X”, meu último álbum, e que, espero, traga a todos a inclusão que questiono aqui: dignidade, pluralidade e igualdade para que sejamos TODOS “tão felizes para sempre”!

- Isabella Taviani é cantora
Publicado originalmente no jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 5 de junho de 2012

Presidente e primeira-dama dos EUA lançam vídeos contra homofobia (em inglês)


O presidente dos EUA, Barack Obama, e a primeira-dama, Michelle Obama, lançaram vídeos nos quais discursam contra a homofobia e pela igualdade de direitos. O presidente aproveitou as comemorações do mês do orgulho LGBT para mandar uma mensagem de apoio a todos àqueles que durante a história lutaram pelo reconhecimento da luta pela igualdade de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais no país. Como exemplos, Obama citou ativistas como Harvey Milk e homenageou todos aqueles que se levantam diariamente contra a homofobia no país:
“Em junho vamos celebrar os professores e estudantes que lutam contra o bullying, os soldados gays e lésbicas que defendem nosso país com honra e integridade e os familiares e amigos que viram suas próprias atitudes evoluírem”.
No próximo dia 28 se comemora o Dia do Orgulho LGBT. A data lembra 1969, nos EUA, quando gays que frequentavam o bar Stonewall em Nova Iorque decidiram se rebelar contra as constantes intervenções da polícia, que os agredia e prendia. A resistência dos LGBT, na ocasião, é considerada mundialmente como o início do movimento LGBT moderno. Para comemorar são feitas diversas paradas da diversidade ao redor do mundo, incluindo no Brasil.

A primeira-dama, Michelle Obama também fez um discurso favorável aos LGBTs. Em um vídeo no qual responde perguntas de seus seguidores no Twitter, ela fala sobre a importância de educar as suas filhas para os valores de justiça e igualdade. “Nós procuramos ensinar as nossas crianças que todas as pessoas do nosso país são iguais perante a lei e que a discriminação contra casais do mesmo sexo não é correta”.


É realmente emocionante ver um presidente e primeira-dama falando abertamente em valores como justiça e igualdade.

Que nossos políticos se espelhem nesses exemplos de coragem e que nós saibamos reconhecer àqueles que merecem nosso voto.

(Reproduzido do Eleições Hoje)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Todos os homens podem se casar


“Homecoming” é o título do curta-metragem produzido a fim de apoiar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Inglaterra e no País de Gales.

De autoria do premiado cineasta Mike Buonaiuto, "Homecoming" retrata um soldado inglês que transforma o seu regresso ao país num pedido de casamento ao seu parceiro. Desde o seu lançamento, em abril último, já teve mais de 750 mil visualizações.

Em 2005 foi concedido aos casais constituídos por pessoas do mesmo sexo acesso à figura jurídica da união civil, mas ainda continua a ser negado o acesso ao casamento civil.

(Fonte: dezanove.pt)

O Parlamento Brasileiro, o PLC 122 e a Diversidade nas Escolas Públicas


Artigo do Rev. Marcio Retamero (que participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06, falando sobre "Homossexualidade e Bíblia") para o Bule Voador:

No último dia 15 de maio, estive em Brasília participando no Senado Federal e na Câmara dos Deputados de dois eventos comuns à agenda LGBT no Brasil. No primeiro, participei do Congresso LGBT sobre o PLC 122, convocado pela Senadora Marta Suplicy; no segundo, do IX Seminário LGBT, que debatia o ensino sobre a diversidade sexual nas escolas públicas brasileiras.

No Senado, pela manhã, meu objetivo não era defender o governo ou TODOS os artigos do PLC 122, mas falar desde o lugar em que me encontro enquanto teólogo e pastor cristão progressista e inclusivo; cidadão gay e pastor de pessoas que amam pessoas do mesmo sexo, bem como pessoas que amam pessoas do sexo oposto. Fui pontuar as questões urgentes em torno da homofobia e a urgência de uma lei que contemple e tipifique a homofobia como crime de ódio, dentre outras coisas que o PLC 122 advoga.

Muito estardalhaço foi feito no Brasil desde que em 2006, a deputada Iara Bernardes do PT de SP deu início ao Projeto de Lei nº 122/2006. Assim que os setores conservadores e fundamentalistas da religião cristã evangélica no Brasil tomou conhecimento do texto, o Pastor Silas Malafaia se auto-elegeu o maior inimigo da causa gay no Brasil, o paladino contra o PLC 122 e tem vencido com sua verborragia insana e argumentos frágeis de desconstruir. Contudo, tem encontrado eco e a anuência da sociedade brasileira, não apenas entre os evangélicos, diga-se de passagem. Basta ler os comentários que são postados nos sites onde o dito pastor aparece falando sobre o PLC 122, que verificamos ser verdade o que aqui coloco.

Tenho meus “senões” com o PLC 122, eu confesso. Desde que este Projeto nasceu, tenho dito aos líderes do Movimento Homossexual no Brasil que este é um projeto natimorto, infelizmente. O PLC 122 quis, na verdade, como dizemos no popular, “abraçar o mundo com as pernas” e deu no que está dando, ou seja, em nada. No próximo ano, ele será arquivado, certamente, sem ter sido tocado pelos senadores e senadoras, pois é neste estágio que ele está parado, no Senado Federal.

A senadora Marta Suplicy tentou dar uma nova roupagem ao PLC 122, principalmente no que diz respeito à tal “liberdade de expressão” que o tal do maior inimigo da causa gay no Brasil tanto gosta de apontar no tal Projeto. O Movimento Homossexual não gostou da nova roupagem da Marta e retornamos à segunda versão do Projeto, cuja redação é da senadora Fátima Cleide, que acabou não se reelegendo ao Senado por conta, talvez, da sua defesa e trabalho contra a homofobia no Brasil.

O texto do PLC 122 criminaliza alguns atos preconceituosos ou difamatórios contra as pessoas LGBT como p.ex. a agressão verbal ou física em caso de demonstração pública de afeto, o discurso injurioso contra pessoas LGBT, a demissão trabalhista por orientação sexual e o discurso homofóbico, ou seja, o pensamento filosófico contra a homossexualidade. Talvez este seja o ponto mais fraco do PLC 122 que fez com que a sociedade brasileira, em sua maioria, não ficasse ao lado do PLC 122.

No site da ABGLT, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais do Brasil, podemos consultar no link legislação, todas as leis que já temos em vigor nos municípios e estados da nossa Federação em relação à homofobia, identidade de gênero etc.

O site nos informa, por exemplo, que em mais de uma dezena de municípios e estados da Federação, já existem leis que protegem as pessoas LGBT do preconceito e da agressão verbal ou física em estabelecimentos públicos por demonstrações de afetos publicamente; uma grande parte dessa legislação não tem caráter criminalizador, mas pedagógico, multando o estabelecimento ou a pessoa que agride pessoas LGBT. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, temos a Lei 3406 de 15 de maio de 2000 [http://www.abglt.org.br/port/leiest3406.htm], sancionada pelo então governador evangélico, hoje deputado federal, Anthony Garotinho, a redação da Lei foi do então deputado estadual Carlos Minc.

Pela lei carioca, o cidadão ou a cidadã LGBT tem o direito de, assim como os heterossexuais, exprimirem seus afetos publicamente e as sanções são pesadas contra os lesionados pelos estabelecimentos comerciais, associações etc. A penalidade pode ser a multa, perda de função no caso do funcionalismo público e fechamento ao público no caso de estabelecimento comercial. Portanto, a lei carioca não dá cadeia, mas ensina; não criminaliza, mas adota uma função pedagógica.

O PLC 122, para artigo similar, penaliza o réu. Dá cadeia. Assim como demitir alguém por orientação sexual. Está ai, meu desacordo com o PLC 122, ele deveria ser pedagógico e não criminalizador.

Fui para o Senado Federal com os argumentos afiados em relação aos detratores do PLC 122, principalmente a Frente Parlamentar Evangélica. Tentando ser sucinto, me coloquei dizendo:

1 – É preciso diferenciar, cada vez mais e melhor, liberdade de expressão de discurso injurioso. Qual é o limite da liberdade de expressão? Podemos usá-la para ofender e injuriar pessoas? Agredi-las verbalmente com palavras chulas, comparando-as aos párias sociais e toda sorte de gente de má conduta social como fazem os pastores evangélicos em suas pregações?

2 – Tipologizar o crime como homofóbico quando há assassinato e lesão corporal e verbal. Crimes homofóbicos são crimes “assinados”. Nunca são poucas facadas, mas muitas facadas. Nunca são poucos tiros, mas muitos tiros. Os requintes de crueldade são característicos deste tipo de crime, basta compará-los conforme nos informa os jornais, de como a polícia encontra a vítima. Não dá pra comparar um crime homofóbico, assinado como tal, com o assassinato por dívidas com o tráfico ou um assassinato circunstancial de um cidadão no calor da hora de um assalto, por exemplo. A lesão corporal bem como a agressão verbal, também devem ser tipificados como crime, pois ambas lesam e muito, as vítimas. Palavras também ferem e trazem prejuízos à psique humana.

3 – Questões trabalhistas. Não deveria “dar cadeia”, mas multa e uma multa grande aos patrões que demitirem uma babá por ela ser lésbica ou um vendedor de loja por ele ser gay. Não podemos, com base na orientação sexual das pessoas, medir seu caráter, se assim fosse, os heterossexuais, que são a maioria da população estariam em maus lençóis. Demitir alguém por que esse alguém é LGBT ou não admitir no emprego, por questão de orientação sexual e gênero deve ser tipificado na lei como homofobia, mas não criminalizar, na minha opinião, o empregador, antes, fazê-lo entender, onde o ser humano é mais sensível, no bolso, que assim não pode ser.

4 – No caso do discurso injurioso, a mesma coisa. Não deveria “dar cadeia”, mas mexer no bolso daquele que ofende com seu discurso o cidadão ou cidadã homossexual. Aqui entram os pastores que elegeram os LGBT como a “última Geni”, em referência à música de Chico Buarque. Não sei porque, mas os pastores gostam de proferirem em seus púlpitos discursos injuriosos contra homossexuais. Os comparam com toda sorte de coisas ruins e de exemplos ruins na sociedade. Sempre dão um jeito de comparar homossexuais com pedófilos, por exemplo, contrariando as estatísticas, pois sabemos, já que a pedofilia é crime tipificado (o que nos dá dados concretos sobre este tipo de crime), ao contrário da homofobia, que a maioria dos pedófilos são heterossexuais do sexo masculino, cerca de 70%, próximos ao menor de idade alvo, como pais, tios, avós, pastores e padres e que é mínimo a participação de pessoas LGBT neste tipo de crime.

A Bíblia diz muito sobre vários assuntos desde o Velho ao Novo Testamento e ninguém, nenhuma vertente cristã pode se considerar cumpridora do que realmente a Bíblia ordena, uma vez que ela ordena coisas impensáveis hoje como vender a filha para pagar dívidas ou não semear dois tipos de semente na mesma terra ou comer camarão ou matar o filho mentiroso porque ele mentiu.

Usar a Bíblia hoje contra as pessoas LGBT como no passado ela foi usada contra negros, índios e mulheres e toda sorte de pessoas que a Igreja considerava hereges não cabe mais numa sociedade cujo estado é de direito, democrático e laico, ou seja, secular.

Assim como a Bíblia diz que os homossexuais não herdarão o Reino dos Céus (numa leitura “literal” de uma das cartas de Paulo), também diz, numa das Cartas de Paulo, que os judeus mataram Jesus e que a mulher deve ser submissa ao homem, usando véu na Igreja e nada nela falar, somente perguntando em casa, ao macho, o que não entendeu na Igreja.

Assim como a Bíblia diz que os filhos de Cã, identificados com os africanos não são pessoas de boa índole e que são afeitos à toda sorte de males e idolatrias.

A Bíblia diz, em certa altura, no Novo Testamento, que os judeus mataram Jesus e que por isso “o seu sangue deve ser sobre eles”, ou sejam, devem ser mortos.

Muita coisa a Bíblia diz… Contudo, porque hoje os pastores não pregam mais que negros não têm alma, que a mulher deve ser submissa (embora alguns mais radicais ainda acreditem nisso) e que os judeus são dignos de pena de morte porque “mataram o Senhor Jesus?” Porque tais pessoas são protegidas pela Lei.

Então, as pessoas LGBT são a última “Geni” dos religiosos, não sobrara para eles nenhuma outra categoria de pessoas para sentarem a língua com todo tipo de discurso injurioso, que está bem longe da tão advogada liberdade de expressão como querem os evangélicos fundamentalistas.

O Pastor Malafaia gastou dezenas de milhares de reais para espalhar pelo Rio de Janeiro outdoors dizendo: “Por que Deus criou macho e fêmea”. Escreveu nos outdoors o óbvio do óbvio, uma vez que um homossexual masculino não deixa de ser macho, tampouco uma homossexual feminina deixa de ser fêmea, nem mesmo as travestis deixam de ser machos, com exceção das transexuais, que mudam de sexo por uma questão de saúde psíquica e física.

Acredito que a “cruzada” que Malafaia tomou para si, arregimentando quase por completo a parcela evangélica da sociedade e ganhando adeptos entre nem os que crentes são por conta do caráter criminalizador do PLC 122. Caso as questões de injúria e não de liberdade de expressão (os religiosos podem continuar tratando a homossexualidade como pecado, caso assim acreditam, embora haja controvérsias) fosse tratada pelo PLC não como crime, que “dá cadeia”, mas mexendo no bolso deles, ainda que gritassem alto contra o PLC 122, porque eles sabem que seriam atingidos, seu discurso perderia muita força.

Basicamente é isso o que fui dizer ao Senado Federal. Não sei se me ouviram ou se me ouvirão. A participação no 9º Seminário LGBT da Câmara dos Deputados e questão que envolve a diversidade sexual nas escolas, tratarei em outro texto, posto que este já está de bom tamanho.

- Marcio Retamero, teólogo, historiador e pastor presbiteriano, participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06 (saiba mais aqui), falando sobre "Homossexualidade e Bíblia".

terça-feira, 29 de maio de 2012

Pobreza e (com)paixão



“Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo,
mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista.”
(Dom Hélder Câmara)

Nei Alberto Pies, no Brasil de Fato (fonte: PavaBlog)


A defesa das causas dos pobres é uma tarefa muito árdua. Exige da gente mais do que compreensão, discursos e teorias, mas, sobretudo, compromisso e compaixão. Somos muito preconceituosos para com o sofrimento dos pobres.

Desconhecemos sua realidade e não nos dispusemos a mexer na raiz de nossos problemas: a nossa forma de organizar o mundo. Entre nós é muito forte a idéia de que pobres são coitados, por isto desprovidos de sorte e de bens. Se não lutam, são preguiçosos. Se lutam e exigem, tornam-se perigosos. Mesmo quando passam fome, a gente insiste em dizer que eles ainda são capazes de sonhar.

Só a lucidez da razão e a sensibilidade podem tratar bem das questões da existência e convivência humanas. Na visão ocidental, desenvolvemos a ilusão de que somente a razão nos dará respostas aos problemas humanos.

Nem a razão ornamental (que serve de ornamento), nem a razão instrumental (ferramenta para transformar a realidade) são capazes de justificar o sofrimento e a realidade daqueles que excluímos socialmente (os pobres).

Os pobres não são invenção, não são uma ideia. Os pobres são reais. Os pobres existem, e sofrem a violação de sua vida e dignidade.

Leonardo Boff, defensor incansável das causas dos pobres e oprimidos, afirma que são três as compreensões que se tem da pobreza. Uma primeira, clássica, é a ideia de que o pobre é aquele que não tem. A estratégia então é mobilizar quem tem para ajudar a quem não tem, através de ações assistencialistas, sem reconhecer a potencialidade dos mesmos.

A segunda ideia, moderna, é aquela que descobre os potenciais do pobre e compreende que o Estado deve fazer investimentos para que ele seja profissionalizado e potencializado, com fins à inserção no mundo produtivo.

Ambas as posições desconsideram, na visão de Boff, que a pobreza é resultado de mecanismos de exploração, que sempre geram enormes conflitos sociais. Boff acredita que é preciso reconhecer as potencialidades dos pobres não apenas para engrossarem a força de trabalho, mas principalmente para transformarem o sistema social.

Os pobres, organizados e articulados com outros atores da sociedade, são capazes de construir uma democracia participativa, econômica e social. “Essa perspectiva não é nem assistencialista nem progressista. Ela é libertadora”,a firma Boff.

Só a compaixão reveste-se de libertação. Compaixão não é sofrer pelos outros, mas sofrer com eles. O sofrer com os outros permite à gente colocar-se em seu lugar. Enxergar a partir dos seus pontos de vista e de suas realidades. É também deixar-se transformar, permitindo que os nossos mais nobres sentimentos se traduzam em ações concretas a favor dos pobres, fracos e marginalizados.

Poucos vivem a compaixão. Muitos perderam a sensibilidade, o que os impossibilita de viver a caridade e o amor ao próximo. Outros preferem atribuir aos pobres a culpa por sua situação de miséria e vulnerabilidade.

Outros discursam democracia, não perguntando se esta propicia as mesmas condições e oportunidades a todos, como ponto de partida. Põe que o ponto de chegada depende de cada um de nós. E muitos, em grande número, tratam como crime a atitude de quem luta por causas humanitárias, quando estas exigem uma mudança na estrutura e organização da sociedade.

“As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros. Leve-as no coração”, disse Dom Hélder Câmara. Este é o sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual, que não sabe lidar com eles.

- Nei Alberto Pies é professor e ativista em direitos humanos

domingo, 27 de maio de 2012

Os gays também são vadias


"Olhando as belas de todas as idades se colocando contra o pior do sexismo, aquele que quer colocar limites e um lugar para mulher,  é impossível não pensar que se tem uma luta que se assemelha ao dos homossexuais e transgêneros é a da mulher.

A condenação da promiscuidade dos gays se assemelha ao caso das mulheres e não ao dos homens héteros que 'quanto mais rodados melhor'. A questão moral e asséptica em relação ao sexo é um fardo para a vida tanto das mulheres quanto dos gays que desejam ter liberdade, sexual inclusive. (...)


Este fato de internalizar o discurso do oponente ocorre com muita frequência com os gays como também entre as mulheres, principalmente com aquelas tristes mulheres que odeiam, não tem amizade e criticam as outras mulheres. As que não vadeiam.

Vendo as faixas da manifestação em São Paulo foi que vi como  as mulheres e gays estavam na mesma esfera de opressão. Basta trocarem algumas palavras que o sentido é o mesmo. A única que não podemos trocar é que somos todas vadias, com muito orgulho."

- Vitor Angelo, no Blogay (leia na íntegra aqui)



"Já atravessamos uma revolução sexual. Podemos fazer sexo de forma mais livre e com menos culpa que antes. Mas expressar nossos sentimentos é algo longe de acontecer livremente. (...) Chegou a hora de [os homens] passarmos por uma transformação afetiva, começar a entender que tem direito ao afeto, às emoções, a sentir. Passar a ser homem e não macho. Em outras palavras, o homem hetero precisa fazer sua revolução masculina.

Com isso, talvez entendessemos melhor o outro. Hoje, bater em 'vadia' e 'bicha' pode. Assim como em índio e 'mendigo'. E, na maioria das vezes, a culpa recai sobre a própria vítima. Afinal de contas, quem são eles para não se encaixarem? Quem são eles para acharem que podem ser melhores do eu, sendo diferentes do que aprendemos como o 'certo'? Bem-feito. Vestida assim, ela estava pedindo."

- Leonardo Sakamoto, em seu blog (leia na íntegra aqui)

Leia também:
10 vadias "históricas" do Brasil, por Xico Sá (aqui)

Uma fé para além do ressentimento


“Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele”, reflete James Alison [que participará da mesa-redonda em nosso evento no dia 3/6, aqui no Rio de Janeiro - mais informações aqui] na entrevista exclusiva que concedeu por telefone à IHU On-Line. Ele analisa a possibilidade de uma fé para além do ressentimento. Em sua opinião, isso é possível “quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém”. E frisa: “Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem”.

Outro tema da conversa com Alison foi a questão do desejo rivalístico. James explica que o desejo não nasce em nós, mas nos outros. “Assim, nossos desejos são ‘emprestados’”. E pondera: “Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico”.

James Alison (Londres, 1959) é teólogo católico, sacerdote e escritor. Com estudos em Oxford, é doutor pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte. É considerado um dos principais expositores da vertente teológica do pensamento de René Girard. Atualmente é Fellow da Fundação Imitatio, instituição que apoia a divulgação da teoria mimética. Há mais de 15 anos é um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays. Seu trabalho é respeitado em todo o mundo pelo caminho rigoroso e matizado que tem aberto nesse campo minado da vida eclesiástica. Seus sete livros já foram traduzidos para o espanhol, italiano, francês, holandês e russo. Em português podem ser lidos Uma fé além do ressentimento: fragmentos católicos numa chave gay (São Paulo: É Realizações, 2010 com introdução de João Batista Libânio, SJ [leia aqui]) e O pecado original à luz da ressurreição (São Paulo: É Realizações, 2011). Seu trabalho mais recente é A vítima que perdoa – uma introdução para a fe cristá para adultos em doze sessões. A versão em língua inglesa será lançada em texto e vídeo ainda em 2012 com a possibilidade de versões em outros idiomas em andamento. James Alison reside em São Paulo, onde está iniciando uma pastoral católica gay e viaja pelo mundo inteiro dando conferências, palestras e retiros. Textos seus podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk. Mais detalhes sobre a Fundação Imitatio encontram-se disponíveis aqui.

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


IHU On-Line – Por que o dogma do pecado original sempre foi alvo de críticas?
James Alison – O pecado original tem sido alvo de dois tipos de críticas. A primeira delas é porque vem sendo associado, há muito tempo, com uma visão muito primitiva da antropologia ou das origens humanas em termos de paleontologia, ou seja, aquilo que já se sabe sobre as origens. À medida que as pessoas imaginam que a doutrina do pecado original tem a ver com Adão e Eva no Jardim do Éden (e tudo fica em torno dessa questão) parece que, na mente popular, a doutrina está vinculada a uma visão ultrapassada das origens humanas. Acrescento que, na verdade, trata-se de uma falsa caracterização da doutrina essa associação de Adão e Eva no Jardim. O segundo motivo é porque desde o Iluminismo o pensamento ocidental não tem gostado muito da ideia de que a nossa razão seria, digamos, viciada. O mundo da ilustração gosta de pensar que somos “inocentes”, e que o mal está nos outros, que nascemos inocentes e estruturas sociais ruins fazem com que a vida seja difícil. Procuram, assim, salvar a suposta inocência da humanidade e acham que a doutrina do pecado original é uma acusação provinda de um deus cruel e vingativo. Essa segunda crítica é muito menos ouvida ultimamente. Nos últimos 50 anos ouve-se falar no colapso da mente ilustrada como um crescente entendimento de como somos violentos desde os nossos começos. É muito menos difícil agora pensar os seres humanos como não inocentes do que era há umas cinco décadas atrás.

IHU On-Line – Em que aspectos o pecado original é a base indispensável de toda a doutrina da salvação?
James Alison – Não é a base indispensável, porque a base é de onde começa. O pecado original é uma das conclusões de toda a doutrina da salvação. A doutrina do pecado original é uma visão retrospectiva, ou seja, no centro da fé cristã está a vivência entre nós, da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. A partir da ressurreição como dom do Espírito Santo é que o grupo apostólico começa a poder olhar para trás, pensando que imaginávamos como era a vida e agora podemos encará-la de outra forma. Jesus abriu nossos olhos sobre que tipo de pessoa o ser humano é capaz de ser: um ser humano não fadado à morte, não necessariamente movido pelas violências que estão na base de toda a comunidade humana. A partir desse momento em que se olha retrospectivamente, percebe-se que desde o início da humanidade (e a palavra Adão é uma espécie de atalho para se refletir os começos de toda humanidade) a cultura humana tem sido, de alguma maneira, desenvolvida na morte. Agora estamos entendendo essa cultura como contingente, e não necessária. Não fomos feitos para isso, mas para outra coisa. A doutrina não é a base, mas a visão retrospectiva a partir da ressurreição, e algo necessário. É o sinal de quanta diferença fez Jesus.

IHU On-Line – Em que sentido a salvação conseguida por Cristo é a superação de toda religião sacrificial?
James Alison – Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro, e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.

IHU On-Line – Como a hipótese mimética de René Girard ajuda a compreender esse dogma?
James Alison – Quero enfatizar a importância do que é uma visão retrospectiva no sentido daquilo que o pensamento de Girard nos permite fazer, e entender melhor essa visão restrospectiva. A partir da ressurreição, quando se percebe como os humanos podem ser, olhamos para trás e nos damos conta de que pensávamos algo como normal, e depois nos espantamos com isso. O que parecia destino era, na verdade, contingência. Não somos seres fadados à morte, mas à vida. Isso altera todas as relações entre nós.

IHU On-Line – A partir do pensamento de Girard, como é possível distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico e o desejo pacífico/criador?
James Alison – O centro do pensamento de Girard é que desejamos segundo o desejo do outro. O desejo não nasce em nós, mas no outro. Isso nos incita a desejar. Assim, nossos desejos são “emprestados”. Isso significa que tipicamente nos achamos dentro de rivalidades antes mesmo de nos darmos conta de que isso está acontecendo. Para que haja um desejo, em primeiro lugar, este precisa ser pacífico. É o caso da criança desejante. Muito do que ela quer é incitado pelos próprios pais. É interessante notar o quanto o desejo tende a ser rivalístico inclusive nas crianças pequenas. Desde cedo, os pequenos podem ficar com raiva se percebem que outras crianças ao seu lado estão sendo atendidas primeiro. Não pensemos que somos inocentes durante muito tempo e que depois não o somos mais. Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico. Ninguém de nós consegue viver sem rivalidade, inclusive para construir nossa identidade por contraste com os outros. Em nosso caso, esse desejo possessivo ou rivalístico é o normal, tal como se apresenta em nossa vida. É o que mais há, e aquilo que todas agências de publicidade conhecem muito bem. Se você quer vender algo, você tem que dar a impressão à pessoa de que ela precisa daquilo. Quando uma modelo aparece vendendo alguma coisa, tem-se a impressão de que, se adquirirmos aquilo, seremos como ela. O difícil em todos os casos é voltarmos a descobrir aquilo que é possível dentro do nosso desejo, que é a possibilidade de uma emulação, uma imitação não rivalística. Quando recebemos o que vem do outro sem a necessidade de “agarrar” esse desejo. É o sentido saudável, e o que chamo de desejo pacífico. Girard fala em desejo mimético sobretudo para a versão mais negativa do desejo. Em princípio, existe o desejo apropriativo, que aparece “agarrando”. E há o desejo pacífico, aquele que é de imitação sem essa necessidade de “agarrar”.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para pensarmos uma fé para além do ressentimento?
James Alison – O que é interessante no pensamento de Girard é que ele aceita o desafio de Nietzsche, o pensador que acusou o cristianismo de ser ressentido e dependente desse sentimento. Alguns dos textos mais bonitos de Girard são, justamente, textos em que ele discute Nietzsche. Descobri que Girard, ao desmascarar o mecanismo do bode expiatório, da vitimização que há na base da sociedade, também nos oferece a possibilidade de pensar de forma não vitimária. Essa é a grande novidade para mim. Em vez de se pensar o herói ou vítima, que na verdade são a mesma pessoa, trata-se de reconhecer a cumplicidade dentro daqueles mecanismos sem ser levado por eles. Isso é a possibilidade da fé além do ressentimento. É dar-se conta de que se é partícipe de um mundo no qual a vitimização está por todas as partes. Mas estou disposto a aprender a amar mesmo dentro de toda essa confusão. Isso Nietzsche não entendeu no cristianismo, mesmo que chegou muito próximo disso, segundo Girard. Mesmo que Nietzsche tenha optado por Dionísio em lugar do Crucificado.
Uma fé além do ressentimento é quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém. Em termos de vivência pessoal, isso é o mais fundamental: como deixar de se considerar vítima ou herói. Como perder o ressentimento e chegar a desenvolver o papel de irmão, ou irmã em vez de vítima ou herói, um processo de humanização. É o que busco elaborar.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para uma melhor compreensão da questão gay em nossa sociedade?
James Alison – Sim, oferece, mesmo que a questão gay não seja um dos interesses principais de sua obra. É possível vermos como Girard entende os mecanismos violentos de exclusão que os diferentes grupos humanos fazem com uma série de grupos considerados perigosos, contaminantes, diferentes. A partir disso, chegam a ser bem compreensíveis os mecanismos irracionais que levam à exclusão e tratamento indigno das pessoas gays e lésbicas em nossa sociedade precisamente porque chegam a ser portadores de acusações estereotipadas, como se estivessem causando o colapso da sociedade, da família e da moral.

Essas acusações são feitas contra alguém que é “dispensável”, que você quer convenientemente jogar fora, sem ter que olhar para as causas reais do que está acontecendo. Dizer que os gays estão provocando o colapso da família é uma declaração que só pode partir de uma pessoa que não quer prestar atenção nas dinâmicas reais das famílias modernas. Atribuem esse poder maléfico aos gays, que são um grupo muito pequeno para uma realidade social grande, que são as mudanças na maneira de ser família. Isso é ridículo, especialmente em se considerando que os próprios gays são membros de famílias. Chega-se a dizer que deixar os gays casarem irá provocar o colapso do matrimônio.

O que, na verdade, provoca o colapso do matrimônio é o comportamento dos heterossexuais em seus relacionamentos matrimoniais. Já é muito para nós, pessoas gays ou pessoas heterossexuais, arcar com os fracassos de nossos próprios relacionamentos! Para a mentalidade sacra, contudo, esses argumentos não importam. O que importa é poder desenhar o mal, e, uma vez que este fique desenhado, torna-se possível construir uma falsa bondade às costas da vítima. Esse é o mecanismo que Girard desvela. Nossas sociedades são, sim, sacrificiais, seguindo padrões arcaicos, nos pensando modernos e ilustrados.

IHU On-Line – Quais são as maiores contribuições de Girard para a filosofia e a teologia no século XXI?
James Alison – Suas maiores contribuições são um desafio de uma antropologia nova, entendendo a maneira como os “bichos” humanos, que se comportam de maneira imitativa, se comportam e como constroem suas sociedades, sem recorrer para ideias muito idealistas. Precisamos nos fixar num entendimento de mecanismos muito humanos na construção da sociedade. Isso é a insistência girardiana.

Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele.

Sabe-se que grande parte do discurso sobre Deus tem sido viciado pela atribuição de violência para poder entender a morte de Jesus de maneira salvífica. Várias teorias da salvação, expiação e redenção pensam assim. Então, pela primeira vez em muitos séculos, Girard nos permite entender de uma nova forma a maneira pela qual a morte de Jesus é salvífica sem que isso atribua qualquer tipo de violência a Deus. Essa é uma questão fundamental.

Outra área na qual Girard faz muita diferença na Teologia é na questão da leitura bíblica. Isso porque Girard é um leitor de textos a partir de sua intuição mimética. E é como leitor de textos que nos ajuda a ler o Antigo e Novo Testamento e mostrar, pela primeira vez em séculos, uma maneira de perceber como o Novo Testamento se aninha dentro do Antigo. Isso nos permite avançar além daquelas tendências do cristianismo que não prestam atenção ao Antigo Testamento porque é demasiado violento, ou aquela posição fundamentalista de deixar que o Novo Testamento seja totalmente dominado pelo Antigo.

IHU On-Line – Em que medida suas ideias podem ajudar a “arejar” a Igreja Católica?
James Alison – Na verdade, só o Espírito Santo poderia arejar a Igreja Católica, uma vez que ela ainda é muito resistente... Girard nos permite elaborar um novo paradigma da fé, entender de novo a fé cristã. Em vez da explicação da fé que recebíamos nos catecismos antigos, muito moralistas, chega a ser possível agora entender a fé de maneira orgânica, como boa nova, com o pensamento de Girard como catalizador. Esse é o dom fundamental que esse autor nos oferece.

É a possibilidade de uma nova evangelização que seja autenticamente boa nova, e não o moralismo antiquado disfarçado de alta tecnologia moderna, muito chique e atual, mas que ao ter seu véu retirado, mostra a mesma incapacidade de tratar com questões como a relativa aos gays, por exemplo. Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem.

Em segundo lugar, destaco que ao nos desvelar o mecanismo do bode expiatório, Girard nos oferece a possibilidade de fazer uma autocrítica institucional constante. Isso em termos eclesiásticos talvez seja a contribuição mais interessante, se é que estamos dispostos a fazê-lo. A partir do Cristo ressuscitado, da vítima que está no nosso meio, começarmos a ser autocríticos com os posicionamentos vitimários de nossos mecanismos eclesiásticos. Mesmo fora do âmbito da igreja isso é algo de fundamental importância.

Na sociedade moderna nos damos conta do quanto pesam as instituições sobre nós. Como seres humanos dependemos fatalmente das instituições. Ao mesmo tempo, nos damos conta de que elas nos movem fora do nosso controle. É difícil tomarmos responsabilidade por nossa vida institucional. As vozes dissonantes são as de pessoas “jogadas fora”, que passam a protestar e se colocar contra essas instituições. Por isso a possibilidade de uma vivência autocrítica, que não tem necessidade de recorrer a estes jogos vitimários, seria um dom muito, muito grande para nós todos.

sábado, 26 de maio de 2012

Igualdade, não "tolerância"


"Ao longo da história, as afirmações de 'liberdade religiosa' e as atitudes de 'tolerância' às vezes se confundem. E sempre foi mais fácil tolerar o outro, do que lhe conceder real liberdade para ser tal como é."

- Elias Wolff, em sua análise da declaração Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa


"Seis anos atrás, na escola de meus filhos, foi criada a Aliança Gay-Hetero de Pais para ajudar a escola a incorporar os direitos dos gays em seu currículo de direitos civis. Alguns pais relutantes confundiram a meta de ensinar as crianças a enxergar a escolha de amar uma pessoa do mesmo gênero como sendo um direito civil fundamental com ensiná-las sobre comportamentos sexuais. Foram precisos alguns anos para mostrar a diferença aos pais e para superar a mensagem um tanto quanto aviltante de 'tolerância', substituindo-a pelo conceito de igualdade e proteção plenas garantidas em lei.

O exercício pedagógico empreendido por nossa escola e que o país [EUA] como um todo está enfrentando com dificuldades acaba de ganhar um ímpeto importante do presidente [Obama]. Em 122 palavras, ele traçou um marco contra o qual serão medidas leis e normas culturais futuras."

- Julia Sweig, em artigo publicado na Folha de S. Paulo esta semana



Vem Espírito Santo e ensina-nos a viver


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20, 19-23 que corresponde ao Domingo de Pentecostes, ciclo B do Ano Litúrgico.

O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Pouco a pouco aprendemos a viver sem interioridade. Já não precisamos estar em contato com aquilo que há de melhor em nosso coração. É suficiente para vivermos distraídos nas nossas ocupações. Contentamo-nos com funcionar sem alma e nos alimentarmos somente de pão. Não gostamos de nos expor na busca da verdade. Vem Espírito e liberta-nos do vazio interior.

Já não sabemos viver sem raízes e sem metas. É suficiente nos deixarmos programar externamente. Movemo-nos e agitamo-nos sem cessar, mas não sabemos o que desejamos e para onde vamos. Estamos cada vez melhor informados, mas sentimo-nos mais perdidos que nunca. Vem Espírito e liberta-nos da desorientação.

Quase não nos interessam as grandes questões da existência. Não nos preocupa ficarmos sem luz para enfrentarmos à vida. Transformamos-nos em pessoas céticas e ao mesmo tempo mais frágeis e inseguras. Queremos ser inteligentes e lúcidos. Por que não encontramos sossego e paz? Por que a tristeza nos visita tão seguidamente? Vem Espírito Santo e liberta-nos da escuridão interior.

Queremos viver mais, viver melhor, viver sem tempo. Mas viver o quê? Queremos nos sentir bem; buscamos nos sentir melhor. Mas para que? Procuramos desfrutar intensamente da vida, tirar proveito ao máximo, mas nos contentamos somente com passar bem. Realizamos aquilo que gostamos. Apenas há algumas proibições ou terrenos vetados. Por que desejamos alguma coisa diferente? Vem Espírito Santo e ensina-nos a viver.

Queremos ser livres e independentes e nos encontramos cada vez mais a sós. Necessitamos viver em grupo, mas às vezes nos fechamos no nosso pequeno mundo. Necessitamos nos sentir queridos e não sabemos criar contatos vivos e amistosos. O sexo é nomeado “amor” e o prazer “felicidade”. Mas quem saciará nossa sede? Vem Espírito Santo e ensina-nos a amar.

Na nossa vida já não há espaço para Deus. Sua presença ficou reprimida ou atrofiada dentro de nós mesmos. Cheios de ruídos interiores, já não conseguimos escutar sua voz. Dedicados a milhares de desejos e sensações, não conseguimos perceber sua proximidade. Sabemos dialogar com todo o mundo, menos com ele. Temos aprendido a viver de costas ao Mistério. Vem Espírito Santo e ensina-nos a acreditar.

Sejamos crentes ou não crentes, pouco a pouco vamos virando poucos crentes e maus crentes e assim peregrinamos muitas vezes pela vida. Na festa cristã do Espírito Santo Jesus disse para todos nós aquilo que um dia falou para seus discípulos exalando seu espírito sobre eles: “Recebam o Espírito Santo”. Esse Espírito que sustenta nossas pobres vidas e anima nossa débil fé pode entrar em nós por caminhos que somente ele conhece.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Eu trabalho para que as coisas fiquem melhores"


"Eu trabalho para que as coisas fiquem melhores", dizem, nos respectivos idiomas, os cerca de 50 políticos e líderes de instituições europeias que participam num novo vídeo inspirado na campanha It Gets Better, que pretende ajudar os jovens LGBT a vencer o isolamento e a combater as tentativas de suicídio devido à discriminação.

Os políticos mostram a cara num vídeo divulgado a propósito do Dia de Combate à Homofobia e Transfobia, que marca a data de hoje, 17 de maio. Martin Schulz (presidente do Parlamento Europeu) e Herman van Rompuy (presidente do Conselho Europeu) também participam.

Será que algum dia veremos também os nossos políticos tirando a sua solidariedade do armário? E nossos amigos e familiares, colegas e conhecidos? E cada um de nós?

Que também aqui a homofobia não tenha mais lugar.

(Fonte: dezanove.pt)

Dividindo o mundo em caixinhas

Foto daqui

Da querida Kamila Oliveira, do Minoria é a Mãe (o blog que volta e meia diz tudo o que a gente queria dizer, mas não sabia como). Perfeito para, no dia internacional de combate à homofobia, nos lembrarmos de combater os preconceitos embutidos nos rótulos que nós mesmos construímos para classificar o mundo, as coisas e as pessoas:

Rótulos são facas de dois gumes. Quando precisamos falar de um movimento, de um grupo de pessoas, ou coisas do tipo, rotular é útil. Definir para as pessoas que existem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros ajuda, porque o ser humano têm essa necessidade de dividir tudo em coisas muito específicas para poder simplesmente começar a pensar sobre o assunto. O problema é que, como talvez você já tenha percebido na frase acima, existem muitos outros conceitos entre esses poucos que eu citei, mas são esses poucos que formam a sigla do movimento LGBT+.

Há alguns anos, a única sigla que eu conhecia era GLS - gays, lésbicas e simpatizantes. Depois eu vi GLBS - agora incluindo bissexuais. Um tempo depois o S saiu e entrou o T, e uma decisão recente da ABLGBT colocou o L na frente pra chamar mais atenção para a causa lésbica. Esse é só um exemplo de como definir pessoas pode ajudar outras a entender do que se trata um movimento.

Eu gosto de fazer uma analogia com caixas pra tentar explicar o que é um rótulo. É como se dentro da cabeça de todo mundo houvesse várias caixinhas, geralmente em pares. Em cima de cada caixinha dessas existe um rótulo: homossexual (essa se desdobra pra outras duas: gay e lésbica), heterossexual, gordo, magro, negro, branco, bonito, feio, rico, pobre, etc. A divisão é quase sempre binária. Dentro de cada uma dessas caixinhas está um pensamento pré-definido - um julgamento. O que acontece é que, quando uma pessoa te acha feio, por exemplo, ela automaticamente pega o pensamento que tá dentro da caixinha “feio” e aplica a você. São como primeiras impressões enlatadas - o problema é que não são primeiras impressões de verdade, pois já estavam lá bem antes de você.

Se você diz que é bissexual, você confunde as caixinhas. Porque é como se você fosse hetero e homo “ao mesmo tempo”, e não pode, só dá pra usar uma caixinha por vez. Se você é transgênero, as pessoas não sabem se te colocam na caixinha “homem” ou “mulher”, não sabem se te colocam em “homossexual” ou “heterossexual”, porque acham que é alguma coisa no meio, e nos pré-julgamentos não existe meio termo. Ou é isso ou é aquilo, e toda característica acaba caindo nessa armadilha; algumas, como as que eu citei, mais do que outras.

Todos os dias novos termos e conceitos aparecem. No mundo ideal eles provavelmente não seriam necessários, mas hoje em dia são. Isso acontece porque em determinados grupos as pessoas não precisam explicar e definir para as outras se gostam disso, daquilo, se são assim ou assado. Mas, de modo geral, é fácil perceber que isso é muito pontual e fora desse grupo de repente a necessidade de definição se torna tão necessária que você praticamente não existe em sociedade se não puder ser colocado em alguma caixa.

Talvez um dia seja tão desnecessário explicar a sexualidade queer quanto hoje é desnecessário explicar a heterossexualidade - a grande maioria das pessoas nunca realmente pára pra pensar por que é hetero, ou se escolheu ser hetero, ou em que momento da vida percebeu ser hetero. Talvez um dia a identidade de gênero não seja mais confundida com a sexualidade. Apesar de tudo que se vê por aí e apesar de muitas vezes pensar que está piorando, eu costumo ser otimista e pensar que, mais dia menos dia, as mudanças acontecem.

- Kamila Oliveira

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Lamento dos afro-descendentes: 13 de maio

Imagem daqui

De Leonardo Boff, em seu blog (aqui):

Ontem, 13 de maio, foi o dia das mães. Mas não esqueçamos a mães negras, especialmente as “amas-de-leite”, as mucamas. Quantas crianças brancas não foram por elas amamentadas e salvas?

Agora, finalmente a Justiça fez justiça aos afrodescentendes, pagando uma dívida histórica que pesava em nossa consciência branca coletiva. Foram-lhes concedidas as cotas de acesso às universidades federais. Mas a nossa dívida começou apenas a ser paga. Há tantas reparações e compensações ainda por fazer.

Enquanto isso a Paixão de Cristo continua pelos tempos afora no corpo destes crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único destes seus irmãos e irmãs que estejam ainda pendendo de alguma cruz.

Assim pensa também o budismo tibetano. O bodhisattwa (o iluminado) pára no umbral do Nirvana e suplica retornar ao mundo da dor – samsara – para viver solidariamente com quem sofre no reino humano, animal e vegetal. Nesta mesma convicção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes:

”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito e com maná de alimentei. Preparei-te bela terrra, e tu, a cruz para o teu rei”.

Rememorando a abolição da escravatura a 13 de maio, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. A paixão de Cristo continua na paixão do povo afrodescendente. Falta a segunda abolição, da miséria e da fome, como postula o senador Cristovam Buarque. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação, vindos das senzalas, hoje das favelas ao redor de nossas cidades:

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome e da opressão.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica da Bahia. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio-fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, “peça”, escravo. Fui a mãe-preta para teus filhos e filhas. Cultivei os campos, plantei o fumo para o cigarro e a cana para o açúcar. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se continuasse escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, mestiços e brancos. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza, continue como realidade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas sagradas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos e filhas, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca, diminuindo assim o valor de nossa alma de negros, dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre tu me preteres em favor de um branco. Porque sou negro.

E quando se pensaram políticas públicas para reparar a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades e assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social. Mas finalmente a Justiça agora nos fez justiça e nos abriu as portas das universidades federais.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”

“Responde-me, por favor”.

E nós brancos, os que dispomos do ter, do saber e do poder, geralmente calamos, envergonhados e cabisbaixos. É hora de escutar o lamento destes nossos irmãos e irmãs afro-descendentes, somar forças com eles e construir juntos uma sociedade inclusiva, pluralista, mestiça, fraterna, cordial onde nunca mais haverá, como ainda continua havendo no campo, pessoas que se atrevem a escravizar outras pessoas.

Oxalá possamos gritar: “escravidão nunca mais”. E enxugando as lágrimas podemos dizer como no Apocalipse:”Tudo isso passou”.

Leia também:
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