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sexta-feira, 16 de março de 2012

E quem é a mulher?

Foto daqui

Em um dos últimos posts [aqui], explicávamos porque não existe a escolha ou a “opção” sexual. Trata-se de um, entre tantos, mitos sobre a sexualidade dos quais nos ocuparemos de vez em quando neste blog.

Hoje queremos falar de outros que tem a ver com uma mesma confusão: algumas pessoas não entendem que nós, gays, gostamos de homens e que as lésbicas gostam de mulheres.

Parece óbvio. Apesar disso, já escutei muitas vezes esta pergunta, dirigida a um casal gay: “Quem é o homem e quem é a mulher?”. Eu, às vezes, respondo da maneira mais séria que possa: “E com você e a sua namorada, como funciona? Ela se finge de homem ou você de mulher?”.

É que, pensando com a mesma lógica, eu deveria supor – já que eu gosto de homens – que a única explicação para que outro homem forme um casal com uma mulher é que ela se finja de homem.

Se não, como é possível?

Mas não é assim, porque existem homens que gostam de mulheres.

Sim, ainda que você não acredite.

E se fingindo de mulheres, seja lá o que isso signifique para cada um.

Perguntar sobre quem é a mulher em um casal gay é querer interpretá-lo partindo da impossibilidade do desejo homoerótico, como se, parar que um homem goste de outro homem, um dos dois deva ser, de algum modo, feminino. O mesmo vale para quem pensa que, em um casal de lésbicas, uma das duas “seja o homem”.

Tem mais: uma olhada rápida por páginas de paquera gay surpreenderia a mais de um: estão repletas de avisos que põem o destaque, às vezes bastante estereotipado e machista, na masculinidade. “Macho busca Macho”.

Em um casal gay, os dois “são os homens”, seja lá o que isso signifique para cada um. “Masculino” e “feminino” são duas categorias da linguagem, como “hétero”, “homo” e “bi”, com as quais tratamos de aprisionar um universo muito mais complexo, cheio de tons de cinza e, sobretudo, de cores. Mas deixemos essa parte da história para outro dia. O que queremos deixar claro hoje é que, em uma relação entre dois homens, não existe um que “é a mulher”, a não ser que se trate de um jogo ou fantasia sexual, o que também pode ocorrer em uma cama hétero.

É claro.

E já que falamos da cama, esclarecemos que tudo o que foi dito anteriormente não tem nada a ver com ser “ativo” ou “passivo”. Acreditar que o que penetra é mais homem que o que é penetrado é, novamente, querer entender uma relação homossexual como se fosse heterossexual, ou seja, com só um pênis – e sem imaginação. Os papéis na cama no têm nada a ver com a identidade de gênero nem fazem com que ninguém ganhe ou perca masculinidade.

Um amigo meu diz, às vezes, “Eu não sou bicha. Eu como as bichas”. Mas diz isso de brincadeira, claro.

Além do mais, quem disse que os papéis na cama devem ser fixos, estáveis e excludentes? Outra vez, algo básico e simples: quando dois homens vão para a cama, existem dois pênis. E os dois podem ser usados, de diferentes maneiras. Supor que um dos homens deve anular automaticamente o seu pênis para ir para a cama outro é querer, outra vez, heterossexualizar uma relação que não é heterossexual.

E, convenhamos, que entre um homem e uma mulher também podem acontecer muitas outras coisas. Para isso inventaram os brinquedos que se vendem nas sex shops e a natureza, sábia, nos colocou cinco dedos em cada mão. Isso sem levar em conta as travestis, que tem um pênis e identidade de gênero feminina.

O mundo da sexualidade é mais complexo que nossos dicionários.

Por último, a versão mais radical da confusão que queremos tratar com este post é a de quem acredita que os gays, no fundo, querem ser mulheres. Outra vez: não podem deixar de nos ver com lentes heterossexuais. Como se a única explicação para que nós gostemos de homens fosse que, em algum lugar do nosso ser, nos imaginamos no sexo oposto.

Sempre tratando de reconstruir, de uma ou outra forma, o modelo menino + menina.

Lamento decepcioná-los. Eu gosto de homens e gosto de ser homem. Nem sequer posso me imaginar como mulher. E o que me atrai em outros homens é a sua masculinidade, ainda que, claro, isso é uma questão de gosto.

Já foram ao cinema ver A pele que habito, última joia do mestre Pedro Almodóvar?

Os homens que a tenham visto vão me entender. Quando Antonio Banderas disse “vaginoplastia”, tive a mesma impressão que vocês. Quase lhes diria que me doeu.

E entre Vera e Vicente, escolho Vicente, que, por que não dizer, está incrível.

- Bruno Bimbi
Traduzido do blog Tod@s pelo amigo Fernando Palhano, com grifos do autor.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A coabitação entre duas pessoas do mesmo sexo faz bem para a vida social, dizem jesuítas italianos

Foto: Robert Galbraith/Reuters

A coabitação entre duas pessoas do mesmo sexo faz bem para a vida social, e é possível, e até desejável, o seu reconhecimento jurídico. Essa "plataforma jurídica" pode ser lida no número de junho de 2008 da Aggiornamenti Sociali, renomada revista dos jesuítas italianos.

A opinião é de Filippo Di Giacomo, padre, jornalista e juiz canônico que viveu durante 11 anos como missionário no Congo, publicada no jornal L'Unità, 11-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Que Lucio Dalla descanse em paz. E que os "Sólons" destes dias vão dar uma volta na biblioteca. Assim, poderão descobrir que, na Itália, a única plataforma jurídica para os casais que vivem juntos, mesmo do mesmo sexo, é a assinada pelos jesuítas. Se os gays (ou os pró-gays) de profissão fingem não a ter lido, é só porque é uma proposta mais razoável, ousada, vital e concreta do que os textos anteriores, de 2006 e 2007, que já nasceram mortos no Parlamento [italiano].

Ela pode ser lida no número de junho de 2008 da Aggiornamenti Sociali, renomada revista dirigida pelo padre Bartolomeo Sorge. Desde as primeiras linhas, e fora de toda polêmica, a tese é enunciada sem meias palavras: a coabitação entre duas pessoas do mesmo sexo faz bem para a vida social, e é possível, e até desejável, o seu reconhecimento jurídico.

São vinte páginas de estudos assinadas pelo grupo de especialistas (leigos e padres: Carlo Casalone, Giacomo Costa, Paolo Fontana, Aristide Fumagalli, Angelo Mattioni, Mario Picozzi, Massimo Reichlin), comprometidos a aprofundar para a revista os temas bioéticos, com reflexos que não condenam nem excluem, mas buscam possibilidades para um "espaço de encontro" entre as diversas culturas do nosso país. A importância do reconhecimento dos casais homossexuais estáveis é claramente afirmada: "Para o bem comum".

A definição é retirada literalmente do Concílio Vaticano II: o bem comum é "conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição" (Gaudium et Spes, n.26). Segue-se disso – afirma o mesmo número da Aggiornamenti Sociali – que o Concílio traz no peito a plena dignidade da pessoa que floresce em uma relação estreita entre o indivíduo e a sociedade. Uma e outra, se separadas, sofrem.

Além disso, o "bem comum" do Concílio também encontra raízes na Constituição italiana, quando o artigo dois prescreve que devem ser reconhecidos à pessoa direitos e deveres impostos tanto como indivíduo, quanto nas formações sociais em que se explica a sua personalidade.

Por que, então, a lésbica e o gay que vivem, amam, sofrem, se alegram há muito tempo no interior de um casal em estreita relação com a sociedade (trabalham, pagam os impostos, vivem de cultura etc.) não devem ser reconhecidos por ela? Deixá-los à margem significa não contribuir para o "bem comum". Ou, melhor, é ofender os indivíduos, é empobrecer a sociedade.

Carlo Casalone, vice-diretor da revista, escreve explicitamente: "A pessoa informa que se descobriu homossexual sem querer e quase sempre de modo irreversível. A tarefa da ética não está, portanto, em insistir que se modifique essa organização psicossexual, mas sim em favorecer, dentro do possível, o crescimento de relações mais autênticas nas condições dadas".

E também sobre as condenações magisteriais (em 2003, a Congregação para a Doutrina da Fé reiterou a doutrina que vê no amor homossexual a falta de autenticidade e desordem, negando o reconhecimento de "direitos específicos" aos homossexuais. E manifestou grande impaciência com relação ao uso ideológico da "tolerância"), Paolo Fontana, encarregado do setor de bioética na diocese de Milão, faz algumas interrogações claras e serenas: o que fazemos com o peso social das relações entre coabitantes? Se há um casal estável, surgem direitos e deveres, e a sociedade deve protegê-los. Como fazer? Os escritos magisteriais exploraram realmente toda a questão, ou ainda não se pronunciaram sobre a relevância social de um casal sólido?

Segue-se disso, sintetiza Fontana, a necessidade, para os casais estáveis, de encontrar soluções em que, aos direitos, correspondam deveres iguais. Para os católicos e para a Igreja, portanto, a palavra-chave é "união estável", também para um casal homossexual. E, juridicamente falando, ainda estão à espera de uma instituição jurídica que saiba reconhecer a sua importância e que, assim, afirme direitos e deveres daqueles que oferecem cuidados e apoio ao parceiro. Sem necessariamente se concentrar somente nas expressões sexuais ou nas afetivas.

Ao legislador, depois, não deve interessar que a coabitação seja sexual ou sublimada. No Ângelus de um domingo de junho de 2000, João Paulo II, referindo-se justamente aos fiéis homossexuais, disse: a doutrina católica deve ser tomada na sua integridade evangélica; a discriminação não é mais concebível; quem quiser se reconhecer no cristianismo, qualquer que seja a sua opção afetiva, também deve aceitar progredir na lei moral que a tradição apostólica sempre extraiu dos ensinamentos da Escritura Sagrada.

Contudo, para a "irmã morte", homossexuais ou heterossexuais, não faz diferença: ela nos torna todos pobres do mesmo modo, todos mendicantes da mesma misericórdia.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Três mitos sobre a Igreja para se abster nesta Quaresma

Imagem daqui

Sei que este texto chega um pouco tarde, mas se alguém ainda está procurando algo para se abster nesta Quaresma, eu sugeriria que os seguintes equívocos sobre a Igreja Católica e sobre o Cristianismo em geral seriam excelentes pedaços de lixo intelectual para se livrar no espírito da estação.

Naturalmente, os locais onde esses três mitos tendem a estar mais profundamente enraizados – a mídia, a academia, os círculos políticos seculares e assim por diante – também são lugares onde toda a ideia de sacrifício quaresmal é às vezes uma impossibilidade. No entanto, eles estão notavelmente difundidos dentro da Igreja também, entre pessoas que realmente deveriam conhecê-la melhor. Se os católicos perpetuam essas ideias, é difícil culpar o mundo exterior por se deixar seduzir por eles.

Aqui estão três falácias populares, na esperança de que a Quaresma 2012 possa marcar o início da data de validade de cada uma delas.

1. Eclesiologia púrpura
A "eclesiologia púrpura" refere-se à noção de que os principais atores do drama católico são o clero e, de fato, a única atividade que realmente conta como "católica" em geral é aquela realizada pela casta clerical da Igreja, especialmente os seus bispos. Você sempre pode detectar a eclesiologia púrpura em funcionamento quando ouvir alguém dizer "a Igreja" quando o que realmente se quer dizer é "a hierarquia."

(Eu já fui chamado uma vez por uma produtor da BBC em busca de protagonistas para um programa que eles queriam fazer sobre as mulheres na Igreja Católica. Eu enumerei uma série de leigas católicas de alto perfil às quais eles podiam contatar, ao que a produtora respondeu: "Me desculpe, eu preciso de alguém da Igreja". Ela quis dizer, é claro, alguém com um colarinho romano – essa é a eclesiologia púrpura em ação).

A verdade é que o número de padres ordenados na Igreja Católica chega a cerca de 0,04% do total da população católica de 1,2 bilhão de pessoas. Se eles são o ato principal, então tudo se pode dizer é que o show católico está desenfreadamente sobrecarregado com um elenco de apoio.

A natureza autoparodística da eclesiologia púrpura foi uma vez foi memoravelmente capturada pelo cardeal John Henry Newman, que, questionado sobre a sua opinião sobre o laicato, respondeu: "Bem, nós pareceríamos terrivelmente ridículos sem eles".

Ver a Igreja através de um filtro púrpura é enganoso, mesmo que tudo o que analisemos seja a dimensão visível e institucional da vida católica. A maioria das escolas, hospitais, centros de serviços sociais, movimentos e associações católicos, até mesmo secretarias e sedes paroquiais, são formados predominantemente por leigas e leigos. Mais profundamente, porém, a Igreja não existe para si mesma, mas sim para mudar o mundo, o que significa que, se sua mensagem deve penetrar nos vários campos da cultura – a medicina, o direito, a academia, a política, a economia e assim por diante – ou ela será levada até lá pelos leigos, ou não será.

Abandonar a eclesiologia púrpura permite um foco mais amplo sobre o que a história católica do nosso tempo realmente é. Essa história não se limita a qualquer declaração que os bispos norte-americanos fizeram essa semana sobre apólices de seguro ou ao pronunciamento vaticano mais recente sobre a prática litúrgica, independentemente de quão importantes esses desenvolvimentos possam ser. A história católica completa também inclui o que centenas de milhões de leigas e leigos estão fazendo em suas próprias vidas e em seus círculos de influência, motivados pela sua fé.

Dentre outras coisas, uma eclesiologia púrpura nos deixa mal equipados para ver a mudança criativa tomando forma na Igreja. Mesmo um entendimento rudimentar de história da Igreja é suficiente para concluir que essa mudança raramente vem de cima para baixo.

O catolicismo desenvolveu as ordens mendicantes, por exemplo, não porque um papa decretou que assim deveria ser, mas porque indivíduos criativos como Domingos e Francisco viram um mundo novo nascendo nas grandes cidades da Europa nos séculos XII e XIII, e desenvolveram novo modelos apostólicos para evangelizá-las. O catolicismo deu à luz grandes movimentos leigos do século XX, como L'Arche, Comunhão e Libertação, Schönstatt e Santo Egídio, precisamente da mesma forma – de baixo para cima.

Qualquer panorama sobre o catolicismo no século XXI que não incluir os Focolares juntamente com os bispos, ou o projeto Catholic Voices e a rede Salt and Light juntamente com o Vaticano, ou a grande ascensão do ministério leigo somado ao Colégio dos Cardeais, simplesmente não estará vendo o quadro por inteiro.

Se você não entender isso, então você realmente não entende a Igreja.


2. Uma Igreja em declínio
A opinião popular sobre o catolicismo nos dias de hoje tende a ser de que ela é uma Igreja em crise. Abalada por escândalos sexuais, lutas políticas agressivas e déficits financeiros, ela parece estar sofrendo de uma hemorragia de membros – um recente estudo do Pew Forum constatou que há agora 22 milhões de ex-católicos nos EUA, que seria o segundo maior grupo religioso do país depois daquilo que restou da própria Igreja Católica –, assim como como fundindo paróquias, fechando instituições e lutando para transmitir a fé para a próxima geração.

A percepção geral é que essa é uma era de entropia católica – declínio, contração, coisas cada vez menores.

Visto a partir de uma perspectiva global, contudo, isso está simplesmente errado, absolutamente errado. A última metade do século testemunhou o maior período de expansão missionária nos 2.000 anos de história de catolicismo, alimentada pelo crescimento explosivo no hemisfério Sul. Tomemos a África subsaariana como um caso em questão: a população católica no início do século XX era de 1,9 milhão, enquanto, no fim do século, era de mais de 130 milhões, representando uma impressionante taxa de crescimento de 6.708%. Em geral, a pegado católica mundial subiu de 266 milhões em 1900 para 1,1 bilhão em 2000, à frente da taxa global de aumento da população mundial, e ainda está crescendo hoje.

A narrativa católica dominante do nosso tempo, em outras palavras, não é o declínio, mas sim o crescimento astronômico (isso não é verdade em todos os lugares, porque há perdas significativas na Europa, em partes da América do Norte e em alguns bolsões da América Latina, mas esse é o grande quadro mundial).

Repassando esses números, lembramo-nos de um famoso artigo de 2003 de David Brooks, zombando das elites seculares que gostam de acreditar que a religião está em declínio: "Um grande Niagara de fervor religioso está caindo em cascata ao redor deles", escreveu, "enquanto eles permanecem parvos e secos na pequena caverna do seu próprio paroquialismo".

Mesmo nos EUA, a Igreja Católica está realmente se defendendo. Sim, ela perdeu um terço dos norte-americanos nascidos nessa fé, mas a sua taxa de retenção de dois terços é realmente bastante saudável segundo os competitivos padrões do escancarado mercado religioso dos EUA (ela é muito maior do que, digamos, a das Testemunhas de Jeová, que retêm apenas um terço dos seus membros).

Além disso, a Igreja Católica está segurando firmemente cerca de um quarto da população nacional, em grande parte graças à imigração hispânica e taxas de natalidade maiores do que a média entre os católicos hispânicos. Nas palavras de Luis Lugo, diretor do Pew Forum, o catolicismo norte-americano está se "bronzeando", mas não se contraindo.

Na verdade, as estatísticas por si sós não resolvem as disputas sobre as escolhas que estão perante a Igreja. Aqueles 22 milhões de ex-católicos dos EUA, por exemplo, não representam necessariamente um "referendo de insatisfação" contra o desvio conservador das lideranças da Igreja no último quarto de século, especialmente quando consideramos que, de acordo com os dados do Pew, uma parte considerável desertou para o protestantismo evangélico. Nem o fenomenal crescimento do catolicismo no Sul global necessariamente significa um endosso à política vaticana atual, porque, honestamente, o Vaticano teve muito pouco a ver com isso.

Em outras palavras, não se pode traçar uma linha reta ligando os dados populacionais a quem está certo ou errado nos atuais debates católicos. O que pode se dizer com certeza empírica, entretanto, é que qualquer pessoa que pense que essa é uma era de declínio católico precisa sair por aí mais vezes.


3. O cristianismo é o opressor, não o oprimido
De todos os equívocos populares sobre o catolicismo, e sobre o cristianismo em geral, esse é provavelmente o mais pernicioso.

Alimentado por imagens históricas das Cruzadas e da Inquisição, e até mesmo pelas atuais percepções de riqueza e poder dos líderes das Igrejas e das instituições, é difícil para os observadores ocidentais compreender que, em um crescente número de questões candentes mundiais, os cristãos são hoje os oprimidos indefesos, não os opressores arrogantes.

Eis a dura realidade dos nossos tempos: no início do século XXI, estamos testemunhando a ascensão de uma nova geração de mártires cristãos.

Os cristãos são hoje, estatisticamente falando, de longe, o grupo religioso mais perseguido do planeta. Segundo a Sociedade para os Direitos Humanos, com sede em Frankfurt, um total de 80% de todos os atos de discriminação religiosa no mundo hoje são voltados contra os cristãos. O Pew Forum estima que os cristãos experimentam a perseguição em um impressionante total de 133 nações, dois terços de todos os países do mundo.

Como parte desse quadro, a agência católica "Ajuda à Igreja que Sofre" estima que 150 mil cristãos morrem por causa de sua fé a cada ano, em lugares que vão desde o Oriente Médio até o Sudeste Asiático, passando pela África subsaariana e por partes da América Latina. Isso significa que, a cada hora do dia, cerca de 17 cristãos são mortos em algum lugar do mundo, seja por ódio à fé, seja por ódio pelas obras de caridade e de justiça que a sua fé os compele a realizar.

Talvez o exemplo emblemático seja o Iraque, onde uma forte comunidade cristã que levou dois milênios para se construir foi devastada no arco de pouco mais de duas décadas. Antes de 1991, o ano da Primeira Guerra do Golfo, havia mais de 2 milhões de cristãos no Iraque, enquanto hoje a estimativa é de que há entre 250 mil e 400 mil.

Dada a responsabilidade especial que os EUA têm no Iraque, o fato de o destino dos cristãos iraquianos não ser uma prioridade motriz e central na vida católica norte-americana não é nada menos do que um ultraje moral.

Enquanto os bispos norte-americanos se preparam para combater um novo conjunto de batalhas Igreja-Estado no fronte doméstico, esse antecedente sugere um desafio especial para os católicos norte-americanos de manter os olhos abertos. Nos EUA, uma ameaça à liberdade religiosa normalmente significa que você pode ser processado, enquanto, em muitas partes do mundo, isso significa que você pode levar um tiro. Certamente, todos podemos concordar que esse é um conjunto de circunstâncias mais dramáticas.

Se você vai se abster de qualquer coisa nessa Quaresma, a incapacidade de reconhecer uma crescente guerra global contra os cristãos seria uma escolha verdadeiramente inspirada.

- John L. Allen Jr.
Publicado originalmente no sítio National Catholic Reporter, 02-03-2012. Reproduzido via IHU, com grifos nossos.
Tradução: Moisés Sbardelotto

segunda-feira, 12 de março de 2012

A inumanidade do fundamentalismo


O que pode ser mais complexo do que o homem e suas relações? Não é uma resposta simples, muito menos imediata, não são físicas ou biológicas somente, nem ao menos se submete às questões estritamente químicas. O homem é capaz de se encantar, de se apaixonar pelo universo que o envolve; vislumbra o belo e interpreta o mesmo.

Desta evidência empírica o homem produz o humano: MOZART, BEETHOVEN, EINSTEIN, FREUD, mas produz também o seu contrário: HITLER, BUSH, BIN LADEN. Obviamente, que todos têm a capacidade de gestos grandiosos e mesquinhos, sem uma classificação de quem seja bom, plenamente bom, e mau, plenamente mau. Até mesmo, por se tratar de variantes que dependem das circunstâncias, e dos momentos: eis a persona[1]· Por este dado, muitos teóricos não definiram com precisão a humanidade devido a sua complexidade, e se limitaram a expô-la de forma genérica, como Heidegger: O homem é humano porque fala[2].

Destarte, a fala é a própria interpretação do sujeito da realidade, seu caráter é individual, pertence ao falante, que nela imprime sua cosmovisão: social, cultural e ideológica, no sentido de carregar cada pensamento particularizado de cada enunciador. Ao mesmo tempo em que, para dela se fazer uso, há que necessariamente relacioná-la a linguagem, ou um universo maior, mais abrangente do que língua e fala. Um conjunto de signos, podendo estes serem visual, gestual, comportamental, sonoro que mexe com a faculdade intelectual do falante para captar a mensagem. Portanto, a linguagem está associada ao pensamento, como diria Saussure.

E tal pensamento é a própria capacidade da irrupção do símbolo, da ressignificação da realidade imediata, de transformar a ausência em presença, representando essa ausência em todas as suas formas e gerando o objeto de pensamento, dando lugar à fala, na linguagem significante, à significada, criando às regras, as instituições, o social, a religião. Assim, o pensamento humano constrói o que não está, torna atual a consciência, e faz o presente, operando, desta feita sob signos mediadores.

Assim, a diversidade é condição humana, pois cada qual apropria do símbolo de maneira diferente do outro, sendo esta a qualidade do humano. É no inesperado que o homem constrói, na contingência é que se faz a necessidade das respostas, naquilo que já está estabelecido não há formulação, não há movimento, pois já foi pensando e já está predito. A única coisa capaz de surpreender é o diferente, o inesperado, e é nesta surpresa que o encantamento se estabelece, assim dizia o poeta Nazim Hikmet: “... A mais bela criatura ainda não nasceu; o mais belo dos mares é aquele que ainda não vimos.” O humano é a constante mudança, contudo há um paradoxo.

A mente humana se satisfaz no ideal do ego, o auto-referencial, que conduz o próprio como bom e o diferente como inferior. É o desejo do olhar materno, que contempla a criança- o menino rei- no espelho idêntico e necessário do homólogo, da identidade do perfeito e protegido, mas que torna sufocante o abraço e o mesmo olhar, se estes se perduram no tempo em demasia. O “Narciso” tem que ser superado o amor a igualdade, ao idêntico tem que se desabilitar para que o desejo de explorar venha ser integrado como movimento do ser, atração irresistível do inédito e desconhecido, da transgressão como propulsora.

Não é objetificar os desejos, ou aniquilar a identidade, muito menos o outro, mas é ter compreensão plena da identidade pessoal e das necessidades relacionais, e através da mesma compreensão se abrir ou se permitir o diferente, sem nele estigmatizar a ameaça do aniquilamento.

O individualismo exacerbado, essa postura de um olhar posseiro, e a satisfação pessoal dos desejos, sem o enfrentamento, ou o confronto da identidade pessoal construída, refletida e consciente faz do espaço em que o homem se estabelece em pleno espaço objeto, e não espaço integração, espaço-ambiente, essencial à própria condição do ente. O medo de se perder na multidão, pelo isolamento da própria personalidade (a solidão desolada), e o eclipse entre o ser a objetificação do ser dilaceram a construção da identidade plural. O indivíduo se ilha na multidão, não é nada para ninguém, e ninguém significa nada para si mesmo.

Um novo código é criado, a angustia se descarrega no corpo e na conduta, há a fragmentação do animus[3], o estado de anomia, o inumano, onde devido a falta da condição que humanize o ente surgem formas artificiais e substitutivas de sociabilidade: os fanatismos baseados em um particularismo identitário, as seitas e religiões, as tribos urbanas, as gangues, as quadrilhas sociopatas e delinquentes. Não é uma ligação horizontal, homem-humanidade, mas uma ligação vertical, homem-objeto onde as qualidades das hordas primitivas estabelecem o funcionamento da ‘tribo’.

Toda ação fundamentalista é ação inumana inscrita em lógicas e lealdades diferentes da pluralidade democrática, mas onde os membros conseguem um espaço de reconhecimento – a invencível necessidade narcisista de serem amados e reconhecidos. Neste aspecto, quando a inumanidade se apresenta com ar de bondade e inocência mais perverso é o seu mal, defendo critérios de ‘valores’, família, e salvação e moral não postulam outra coisa, senão a própria exclusão e aniquilamento do diferente; é como se uma frase estivesse inscrita, tatuada em suas testas: “primeiro, nós!”.

Tudo que o fundamentalismo postula, postula como se fosse humano, mas tudo que o fundamentalismo pratica, pratica em sua inumanidade hipócrita e eclipsada da própria condição demente em que se encontra. E desta forma a pergunta do teólogo Leonardo Boff é bem esclarecedora: Como pensar o ser humano depois de Auschwitz?

- Renato Hoffmann
Reproduzido do blog do autor

Notas:
[1] Persona é um termo dado para descrever as versões de si mesmo que todos os indivíduos possuem, é dado à função psíquica relacional voltada ao mundo externo, na busca de adaptação social. Comportamentos são selecionados de acordo com a impressão desejada que um indivíduo deseja criar quando interage com outra pessoa. Portanto, a persona apresentada por outras pessoas variam de acordo com o ambiente social que a pessoa estiver inserida, em particular a persona mostrada perante os outros se diferenciarão da persona que um indivíduo irá apresentar quando ele/ela estiver sozinho.
[2] HEIDEGGER. Martin (1889 – 1976); Stein, Ernildo. - O existencialista, Fenomologia. Filosofia. Porto Alegre. Ética 1967.
[3] Nesta acepção(animus/anima), responsável pela adaptação ao mundo interno

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um futuro para Laerte Coutinho

Cartum: Laerte

imagino Laerte
aos 96 anos
se maquiando
para ir ao cinema

diante do espelho
ele lamenta
velhas amigas
travestis
que deixaram de usar
roupas femininas
por se sentirem feias
depois de certa idade

a mão treme um pouco
mas ainda consegue
passar a sombra
sem sujar os óculos
equilibrados
na ponta do nariz

sua casa cheira
a gato doente
mas que casa não cheira
a gato doente?

-

na fila
não sabem quem é
aquela velhota
de saia laranja
curta e old fashioned

Laerte não se importa
a batalha está ganha
e suas pernas doem -

entre garotas de falos enormes
meninos de três mamilos
mastodontes de cílios escarlates
e alguns exóticos heterossexuais

- Fabrício Corsaletti
Publicado originalmente na Revista SP, da Folha de S. Paulo, em 04/03/12
Reproduzido via Conteúdo Livre

quinta-feira, 8 de março de 2012

História do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher


Sugestão de Telia Negrão, jornalista e cientista social que integra o Coletivo Feminino Plural, a Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos e a Rede de Saúde das Mulheres Latinoamericanas e do Caribe (RSMLAC), ao Vi o Mundo.

Veja também:
Entrevista especial com Telia Negrão sobre os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, aqui.

E um belo levantamento histórico sobre as origens da data e o movimento feminista, em "8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher", por Miriam Martinho, que começa questionando:
"Testemunha ocular de como movimentos sociais, altamente ideologizados, são capazes de forjar datas de celebração e eventos 'históricos', fiquei obviamente com dois pés atrás no que se refere a todas as datas de comemoração, entre outros, do movimento feminista ou de mulheres. Quem me garante que outras datas não foram também fabricadas como uma que eu vi 'nascer'?"
Continua aqui.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Pela Espada e pela Palavra

Escultura: Carl Fredrik Reuterswärd (daqui)

Estamos vivendo no Brasil o despertar político da luta pela cidadania gay. A questão do reconhecimento dos direitos sexuais que se inscreve no hall de direitos humanos em qualquer nação que se queira democrática e minimamente herdeira dos ideais da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fratarenidade – suscita paixões arrebatadoras, contra e a favor.

Conseguimos importantes vitórias no Judiciário, no âmbito estadual, aqui no Rio, temos leis para coibir a homofobia, mas nos falta ainda uma legislação nacional que mostre que o país está cumprindo de fato seu papel para com seus cidadãos homossexuais: garantir, mesmo que por leis específicas para grupos discriminados, a igualdade de oportunidades para todos.

Temos a nosso favor o fato de que, cada vez mais, a sociedade entende que a homossexualidade não é uma questão moral, que, de per si, a orientação sexual não define caráter ou sanidade mental. E contra nós os conservadores, dentre os quais os mais aguerridos são os religiosos porque entendem que a homossexualidade vai de encontro à própria criação. E se nós contamos com a crescente aprovação social para que cada um viva a sua vida amando quem se queira, os religiosos homofóbicos tem uma coesão política-ideológica nem sonhada por nós gays, e o neo-pentecostalismo cresce cada vez mais no Brasil.

Os dois parágrafos anteriores foram estruturados em termos de “Eles x Nós”. Esta polarização rompe qualquer possibilidade de procurar um terreno comum a partir do qual se possa dialogar; nos predispõe para a batalha, vendo no “outro” apenas o inimigo a ser subjugado.

Sem dúvida alguma este enfrentamento político, ideológico se faz necessário muitas vezes, e quiçá tivéssemos mais pessoas preparadas e dispostas a realizá-lo. No entanto, é igualmente necessário gente capaz de construir pontes, ainda que frágeis, temerárias, num trabalho insistente e delicado. Conheço religiosos, católicos e evangélicos assim. São como que o fermento que não pressiona “de fora”, mas faz crescer a partir do interior.

Eu não tenho mais paciência, saco, vontade para esta missão, mas peço na minha quase-ainda-fé: Que deus abençoe estes corajosos!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um filme que é um hino à paz e à harmonia entre as religiões

Foto: divulgação

Num vilarejo libanês cristãos e muçulmanos convivem pacificamente, isolados do resto do mundo, graças ao colapso providencial de uma ponte. Mas de vez em quando os ecos da guerra, que recomeçou no país, chegam a eles, por meio de uma televisão improvisada, e as mulheres se reúnem em segredo para encontrar um modo de dissuadir os homens do revoltar-se novamente uns contra os outros...

O filme "E agora para onde vamos?" é um hino à paz e à harmonia entre as religiões sem qualquer retórica, porque é baseado na realidade de muitas comunidades multiétnicas do Oriente próximo.

Algumas linguagens são um pouco explícitas entre as mulheres, alguma cena sensual.

Grande habilidade da diretora (também protagonista) no saber dirigir grande diversidade de características e conseguir dar-nos a imagem de uma comunidade viva, apaixonada e cheia de humanidade.

O filme, se não prestarmos atenção a algumas perdoáveis arritmias, é uma obra-prima.

A ambientação num pequeno vilarejo isolado do resto do mundo por causa da guerra, em um tempo não especificado, dá ao filme características de uma história que pode falar-nos sobre um tema universal, a paz.

Misturando comédia, fábula, drama e musical com uma capacidade de fazer-nos sorrir com coisas muito sérias, de uma forma que não se via desde os tempos de "A Vida é Bela" (1997) de Roberto Benigni.

Nesta pequena comunidade vivem juntos cristãos e muçulmanos que se conhecem desde crianças e gerenciam pacificamente seus negócios na sombra de uma mesquita e de uma igreja; porém mais para além de uma ponte, que foi providencialmente destruída, há a guerra que de vez em quando, por meio de imagens de uma TV improvisada, derrama a carga de ódio. O pequeno cimitério do vilarejo, dividido inexoravelmente em dois setores, já está repleto de sepulturas de maridos, filhos e pais que as mulheres de ambos os lados já estão cansadas ​​de ir visitar para renovar as flores e limpar as fotos de lembrança.

Desde os tempos da Lisístrata de Aristófanes é a mulher que sempre demonstrou uma vocação firme para a paz; agora também Nadine Labaki, diretora e ao mesmo tempo atriz (como no seu anterior "Caramel"), juntamente com outras mulheres do vilarejo inventam de tudo e de todos os encantamentos que podem para distrair os seus homens e evitar que se matem uns aos outros pelo ódio religioso, pela vingança ou simplesmente para defender seu orgulho.

O filme entretém e nos diverte ao mostrar a imaginação dessas mulheres, que conhecendo seus bebezões, procuram distraí-los com um grupo de bailarinas russas que estavam na cidadezinha, sem dúvida não por acaso, ou tentam fazê-los acreditar nas mensagens de uma presunta aparição de uma Nossa Senhora, muito informada sobre todas fofocas do vilarejo... Mas a comédia não é o único registro do filme: quando a tragédia chega inesperada e uma mãe se depara com seu filho morto por uma bala perdida, a tonalidade torna-se heróica e a mulher sabe sufocar seu ressentimento enterrando secretamente a criança para evitar que se torne um pretexto para começar uma cadeia de vinganças.

Poderíamos ficar perplexos, diante da complexidade das problemáticas do mundo meio oriental, pela forma simples e direta com que as mulheres, apesar das várias provocações, são capazes de manter a coerência de pensar sempre e em todos os momentos em como manter em vida os seus maridos (usando às vezes métodos pouco ortodoxos) considerando-se satisfeitas só quando conseguem enterrar as armas fornecidas para o vilarejo. E talvez este seja o modo de afirmar o absurdo de todas as guerras: como é fácil pensar na paz e como se torna estúpido e irracional aqueles que vêem na guerra uma solução para seus problemas.

Muito bonitas são as figuras do imame e do pároco da cidade, unidos primeiramente na harmonia das duas comunidades... e quando se unem com as mulheres na implementação dos subterfúgios destinados a pacificar os ânimos, não se sentem muito confiantes de terem cumprido atos agradáveis às suas respectivas Superioridades Celestes.

Nadine Labaki esteve muito boa ao caracterizar todos os personagens: poucas cenas são suficientes e alguns toques para fazer-nos entrar na vida desta simpática comunidade. É verdade, é uma comunidade de fábula, mas poderia perfeitamente ser o modelo para tantas realidades multiétnicas.

Se tivéssemos que reprovar algo à autora, não é possível negar que o seu ponto de vista seja exclusivamente feminino: enquanto as mulheres são sábias e controladas, os homens são vítimas dos seus instintos, sejam esses de natureza bélica ou simplesmente os de perder a cabeça diante da primeira mini-saia que passa na sua frente.

* * *

Título Original: Et maintenant on va ou?
País: França, Líbano, Itália, Egito
Ano: 2011
Direção: Nadine Labaki
Encenação: Nadine Labaki, Jihad Hojeily, Rodney El-Haddad
Produção: LES FILMS DES TOURNELLES, PATHÉ, LES FILMS DE BEYROUTH, UNITED ARTISTIC GROUP, CHAOCORP, FRANCE 2 CINÉMA, PRIMA TV CON LA PARTECIPAZIONE DI CANAL +, CINECINEMA, FRANCE 2
Duração: 100
Elenco: Nadine Labaki, Claude Baz Moussawbaa, Layla Hakim, Yvonne Maalouf
Para saber mais: aqui

- Franco Olearo
Tradução: Thácio Siqueira
Fonte: Zenit
Reproduzido do blog de D. Mauro Morelli

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eu sou a filha da Chiquita Bacana


Resiliência – Capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas (Wikipédia)

É isto de que boa parte das minorias são feitas. Para existir, o que por si só já é resistir, num mundo com padrões rígidos de ser aos quais você não satisfaz, por um motivo ou outro, ou por quase todos, é preciso resiliência.

E isto fica absolutamente claro através da celebração das “filhas da chiquita”. A festa surgiu em 1975 no bojo da maior manifestação religiosa do norte do Brasil, o Círio de Nazaré que atrai cerca de 2.000.000 de pessoas em Outubro.

Este contexto é interessantíssimo. O mais importante evento gay de Belém do Pará nasce em simbiose total com a festa católica mais tradicional da região. Espera-se a imagem da santa ser transladada até a Igreja da Sé e depois no meio deste percurso acontece a festa. Há shows de drag, música e muito, muito fervo.

Eu conhecia esta história por alto, mas ontem vi o ótimo documentário “As filhas da Chiquita” (Direção: Priscilla Brasil. 2006). O filme retrata muito bem esta interseção entra as duas festas e a maneira como cada um dos respectivos organizadores lida com esta confluência de motivos, pessoas e rituais tão díspares.

O discurso da Igreja é o óbvio ululante e não poderia ser outro a partir dos personagens escolhidos para representá-la: um padre com cara de infeliz que repete todos os bordões de uma teologia rasa contra a homossexualidade e uma senhorinha fofa de cabelos quase azuis que diz que um assassino merece mais perdão do que um homossexual.

A fala das “chiquitas” é bem mais interessante. Mostra como cada um, e muitos se afirmavam devotos, ressignificou a pertença religiosa para além da questão da culpa pela homossexualidade. Mais do que isso, desde que esta é entendida como algo intrínseco, vivê-la é de algum modo respeitar a sua natureza e, assim sendo, ser autêntico, verdadeiro, valores morais positivos diante de Deus.

O documentário, rapidamente, conversa com gente simples sentado num bar. Um diz que a homossexualidade é algo estranho à cultura cabocla, indígena da região, uma espécie de contágio que viria do “sul”, das novelas a que os companheiros de mesa logo desdizem; um senhor faz mesmo um discurso bastante libertário sobre o que, nós “do sul”, chamamos de “direitos individuais”. O que mais me chamou atenção nesta sequência, no entanto foi o uso tranqüilo, plenamente incorporado ao discurso, do termo “gay”. Não deixou de me causar certo fascínio pensar que tal termo foi incorporado à homossexualidade nos E.U.A. como uma forma de positivar a experiência de ser homossexual e foi se propagando por meio da militância e setores mais engajados com esta mesma finalidade, chegando até uma mesa de bar bem simples em Belém do Pará.

É o “mestre de cerimônias” da festa das filhas da Chuiquita, no entanto, que nos dá a forma mais feliz de entender a relação entre estas duas festas. Uma imagem que sai cheia de flores, com um manto todo trabalhado na pedraria tinha mesmo que inspirar uma festa gay. E eu acrescentaria: que é conduzida num carro puxado por um bando de homens se roçando uns aos outros para segurar a corda. Ok, talvez a melhor frase mesmo seja a da Miss “Chiquita 2006”, uma drag pobre e descabelada que no seu agradecimento disse cinco frases incompreensíveis, no meio das quais soltou esta: “Nasci feia. Porque quando eu nasci, a beleza tava de férias”.

Fiquei pensando também se apesar de ser um grande fervo a festa das chiquitas não é por si só a manifestação gay política mais significativa do Norte. Existir e se mostrar em praça pública, no evento sagrado e sério do Círio, talvez seja maior do que qualquer manifestação sisuda e cheia de cartazes.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre a necessidade de acreditar em deus (e as palavras)

Imagem daqui

Saiu há poucos dias no excelente Minoria é a Mãe, de que já falamos aqui, este texto da Kamila que achamos que valia muito a pena reproduzir. Afinal, o que ela escreveu acaba sendo - mesmo sem pretender - uma explicação simples e bem argumentada do porquê da debandada de fieis que as religiões em geral, e o catolicismo em particular, têm sofrido. Bom, vamos ao texto, que eu comento depois.

"Fui criada em uma família que pratica o que eu chamo de “catolicismo padrão”. O católico brasileiro padrão é aquele que conhece e até segue as tradições básicas da religião, mas não a pratica à risca - só vai pra missa em ocasiões especiais, por exemplo.

"Eu segui algumas das tradições católicas no começo. Fui batizada, fiz catecismo, aprendi a rezar, tentei até ler a Bíblia algumas vezes, mas confesso que nunca consegui terminar. O fato do qual eu tentei fugir durante muitos anos, no entanto, foi que nada disso me tocava. Então eu evitei a questão até que finalmente consegui encará-la de frente e me questionar: afinal, eu acredito em deus ou não? E isso é mesmo necessário? Quando eu finalmente consegui me perguntar isso, cheguei a uma estranha conclusão: meu problema nunca foi com deus, mas sim com a religião.

"Mas eu queria chegar no seguinte fato: quando criança, dificilmente alguém vai te dizer que existe a possibilidade de questionar deus, ou a religião. Mas você geralmente questiona assim mesmo, é isso que crianças fazem. Só que, em um momento ou em outro, você acaba absorvendo que, afinal, não existe por que questionar. Desde muito cedo somos ensinados que existe uma necessidade inerente a todo ser humano de acreditar em um deus. Se converter para outra religião ou não ter religião nenhuma não é tão condenável do que não acreditar em deus, porque isso simplesmente não é visto como uma possibilidade.

"O cristianismo em geral nunca me tocou porque eu não via sentido nele. Jesus pode ter existido e ter sido um cara legal, mas por que as pessoas precisam tentar provar isso, eu me perguntava. Por que as pessoas que são de outras religiões vão automaticamente pro inferno? O que me dá o direito de considerar a minha religião verdadeira e as outras falsas? Por que eu tenho que fazer coisas boas visando agradar a deus pra que eu vá para o paraíso quando morrer? Por que as pessoas não amam e respeitam as outras, se era isso que Jesus queria e é a ele que elas estão seguindo? Por que deus pedia sacrifícios? Por que deus achou que seria uma boa ideia fazer um dilúvio? Por que as pessoas não entendem que o Jardim do Éden é uma metáfora? Por que as pessoas insistem que religião e ciência são mutuamente excludentes?

"Então eu aprendi que deveria construir minhas crenças. E, na minha cabeça, as coisas devem fazer sentido. O conceito de divindade - especialmente a judaico-cristã - não era lógica o suficiente e nunca entrou na minha cabeça. No entanto, mesmo achando perfeitamente plausível que deus não existisse, eu ainda acreditava. E cheguei à conclusão de que, bem, ele existe pra mim. O que eu chamo de deus pra facilitar a vida na verdade não é uma personificação, mas sim uma força universal, por mais brega que isso possa soar. É aquilo que rege as leis da física, a matemática, o nascimento e morte das estrelas, o funcionamento perfeito dos órgãos do corpo humano. Isso tudo sempre foi mais divino pra mim do que o sermão do padre. Isso tudo sempre me tocou, sempre me fez admirar o mundo e o simples fato de existirmos. E é justamente isso que eu acho tão importante: conseguir admirar a existência.

"Resumindo a história, hoje em dia eu já descobri que isso tem um nome: eu sou teísta agnóstica. O que basicamente significa que eu acredito em deus, da minha própria maneira, mas que não tenho como saber se ele de fato existe ou não e na verdade não me importo muito em saber. A definição simples de agnosticismo, aliás, é essa: a visão de que a razão humana é incapaz de proporcionar fundamentos racionais suficientes para justificar o conhecimento da existência ou não de Deus. [Wikipedia]

"O que eu quero dizer com isso tudo é que, assim como em qualquer outro aspecto da vida, não vale a pena tentar impor sua religião sobre outra pessoa. Algumas coisas simplesmente não funcionam para algumas pessoas, assim como o catolicismo não funcionou pra mim. Às vezes nós nos damos bem com aquilo que nos é ensinado e às vezes nós precisamos ir atrás do que vai dar certo pra gente. Às vezes nós simplesmente não precisamos. O fato de acreditar em um deus em nenhum momento torna uma pessoa melhor do uma que não acredita - e o contrário também é verdadeiro: não acreditar em deus não torna ninguém melhor do que outra pessoa.

"Somos muito mais do que uma característica só na vida. Às vezes a sua religião define o seu modo de viver, às vezes você simplesmente não tem uma. Eu não tenho um problema específico com religião alguma, além do fato de não compreendê-las totalmente. O único problema, ao meu ver, acontece quando você usa o seu deus e a sua religião como uma muleta para o desrespeito. Não conheço nenhuma religião que pregue o desrespeito ao próximo; e, no entanto, muitas vezes ela é usada a torto e a direito como uma desculpa plausível para isso. O fato de a sua religião condenar a homossexualidade, por exemplo (o que por si só já é um fato questionável), não te dá o direito de desrespeitar alguém e não faz com que esse ato seja menos condenável.

"Li em algum lugar uma vez que algumas pessoas estavam reclamando do fato de a lei contra a homofobia estar comprometendo a liberdade de expressão. O argumento era que não poderia ser considerado crime o fato de a sua religião condenar a homossexualidade e você seguir isso. Acontece aqui um erro muito claro de interpretação: existe uma grande diferença entre você não gostar de homossexuais - seja lá por qual motivo for - e cometer algum crime de ódio ou desacato. Nesse momento, a bandeirinha da opinião costuma ser levantada, e ela é muito perigosa. 'Eu não tenho preconceito, só não gosto de viado, por que vocês não respeitam a minha opinião?'

"O perigo desse argumento é que ele mascara o preconceito com a liberdade de expressão. Veja você o caso do Danilo Gentilli e da piada do macaco: 'Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?', ele disse. Isso é uma distorção do conceito de poder. Eu posso fazer muitas coisas. Pra falar a verdade, eu posso fazer praticamente qualquer coisa, mas eu não faço, por diversos motivos. Um deles é que nós não devemos fazer algumas coisas, apesar de teoricamente poder.

"Eu uso palavras que dificilmente seriam consideradas politicamente corretas. Mas uso dentro de um determinado grupo, onde nós nos apropriamos dessas palavras e onde elas não são usadas como ofensa. Eu digo 'viadagem' com essas pessoas, mas em momento nenhum digo em qualquer outro lugar. Porque em qualquer outro lugar, e sem um acordo prévio entre as pessoas que estão ouvindo, eu vou simplesmente estar ofendendo alguém. Há muito e muito tempo, convencionou-se que viado é um xingamento, pois significa que você está chamando a pessoa de gay. Um heterossexual costuma se ofender com isso porque não quer ser confundido com um homossexual. Um homossexual, no entanto, se ofende porque convencionou-se que o termo deveria ser ofensivo. Ele se ofende com a sua própria sexualidade porque nos fazem acreditar que ela está errada e que devemos ter vergonha.

"Eu já fui chamada de puta várias vezes, nos mais variados contextos e por pessoas diferentes. Em pouquíssimas me senti realmente atingida, mas foi mais porque a pessoa realmente acreditava que aquilo era uma ofensa, e das piores. Eu gosto da palavra puta - acho sonoro, acho bonito. Mas convencionou-se que puta é uma coisa ruim pra se dizer a uma pessoa, porque é basicamente dizer que ela faz sexo por dinheiro. No entanto, curiosamente, puta não é tão usado assim nesse contexto; quantas vezes você já não ouviu alguém se referir a alguma moça como puta porque ela gosta de sexo ou por que se veste de determinada maneira? O fato de ser um xingamento só reflete mais ainda o fato de a sexualidade da mulher ser condenada.

"Nós não ofendemos e somos ofendidos por palavras, pura e simplesmente, mas sim pelo significado que foi atribuído a elas e que nós absorvemos. Vamos parar um pouco e pensar, então, no que estamos falando, no que estamos ouvindo e, principalmente, no que estamos entendendo disso tudo."

- Kamila

Pois aí está: quando as pessoas usam a religião pra fazer juízo de valor do outro e justificar menosprezá-lo, excluí-lo ou condená-lo, como a Kamila descreve - que talvez nem seja a religiosidade mais comum, mas certamente é a mais barulhenta - essa religião, vivida dessa forma, é, na minha opinião pessoal, simplesmente detestável. E, com relação aos cristianismos, ela tem toda razão ao intuir que a religião, praticada dessa forma, nada tem a ver com a Boa Nova que Cristo nos veio anunciar.

Outro dia postamos aqui no blog um texto em que Raymond Gravel comentava que as pessoas em geral não têm problemas com Deus, ou com Cristo: "Os fiéis e os cristãos que tomaram distância em relação à Igreja, não é a Cristo que eles rejeitam, mas à instituição que pretende representá-lo. As pessoas não se tornaram anticristãs; pelo contrário, nossos modos de viver sempre refletem os valores cristãos fundamentais: a justiça, a liberdade, a igualdade, a dignidade das pessoas. O que as pessoas rejeitam são os gurus, os aiatolás, os ditadores religiosos que creem deter a verdade sobre Deus e sobre o mundo e que esmagam os fiéis com interditos, regras e leis que convidam à intolerância, ao ódio e ao desprezo da pessoa humana."

Ou seja, o que escandaliza é essa imagem de Deus que tantos religiosos, infelizmente, têm vendido por aí. Esse Deus é inaceitável. Ninguém quer um Deus ranzinza, cruel, pronto a condenar ao menor deslize. Ninguém precisa de um Deus que tolhe. O ser humano precisa se realizar em sua plenitude, precisa se abrir, precisa de alegria e paz. Essa imagem de Deus não representa nada disso, e talvez seja mesmo muito saudável que a rejeitemos com todas as nossas forças, apesar de toda a pressão em contrário.

Sendo você religioso, agnóstico ou ateu, esse senso de reverência e beleza, essa capacidade de se emocionar diante do universo, esse senso de que há algo grande para além de nós, e que o universo simplesmente não gira ao redor do umbigo de cada um - isso é o que tantos filósofos, místicos, teólogos descrevem como o senso do sagrado, e que pessoalmente me parece que é inerente ao ser humano. Se uma religião facilitar para você entrar em contato com isso mais profundamente, ótimo. Aí, a religião será ponte, será portas e janelas abertas, será ligação mais profunda consigo mesmo e com os outros seres humanos, que aí chamaremos de irmãos - "meus iguais": nem abaixo, nem acima. Sem divisões, sem exclusões.

Mas, se você for religioso, agnóstico ou ateu, ou pegar qualquer outra crença e torná-la importante para você de um modo que te feche para o encontro e para o diálogo, e a use para julgar, condenar, menosprezar e excluir o outro - aí entra em ação um mecanismo que é uma tentação permanente para os seres humanos, e que se manifesta independente da religião (ou falta de) da pessoa. Tenho visto muito isso entre os ateus: uma maneira de defender seu ateísmo chamando os religiosos de estúpidos e cegos que soa muito parecido com os religiosos dizendo que os ateus são imorais e vão para o inferno.

Vejam bem, acho perfeitamente válido ser ateu. José Saramago era ateu, militava ativamente contra a Igreja Católica, e era um humanista de carteirinha. Era de um humanismo tão profundo e tocante que é evidente que, com Cristo ou sem Cristo, ele captou a ideia da coisa melhor do que muito cristão que se encontra por aí. E, sinceramente, isso - como você vive a sua vida e se relaciona - é muito mais importante do que a palavra que você usa para se descrever. No Evangelho, aliás, é também disso que Cristo fala ao advertir que não adianta dizer "Senhor, Senhor", declarar-se seu seguidor, e não agir como tal. Ele deixa muito claro que os atos são muito mais importantes que as palavras.

Sobre as palavras e as opiniões... outro dia li uma discussão (não me lembro onde agora, se lembrar coloco o link) toda baseada em argumentos técnicos do Direito em que essa história de brandir o direito à liberdade de expressão como desculpa para poder sair ventilando ofensas por aí, do ponto de vista do Direito, é um equívoco, porque o respeito à dignidade humana se antepõe à liberdade de expressão. Quer dizer, existem direitos mais importantes que outros, e o direito que eu tenho de ser respeitada é mais importante do que o seu de falar qualquer coisa que lhe venha à cabeça. Muito simples.

Um beijo, com todo o amor. Cuidem-se bem por aí neste Carnaval.
;-)

Cris

''É preciso questionar a nossa ansiedade diante da pluralidade''

Foto: Ward Roberts

A socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger analisa a pluralização das nossas sociedades, enfatizando a paradoxal homogeneização contemporânea.

A reportagem é de Élodie Maurot, publicada no jornal La Croix, 06-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


De onde vêm as nossas interrogações recorrentes sobre a pluralização das nossas sociedades?

Leio essa inquietação como uma curiosa inversão dos diagnósticos anteriores – que remontam, grosso modo, aos anos 1960 – que consistia em pôr em discussão o monolitismo da nossa sociedade e em reivindicar a possibilidade de expressar a pluralidade das situações, dos pontos de vista, das identidades que eram anuladas ou limitadas pelas restrições de um sistema. Desejava-se reivindicar o reconhecimento da singularidade e da diversidade.

Hoje, estamos um pouco no extremo oposto! Preocupamo-nos com a manifestação dessas diferenças por serem suscetíveis de ameaçar o viver juntos... Penso que essa inversão deve ser estudada, investigada. Por que hoje temos a sensação de que a pluralidade está em excesso, enquanto há 50 anos achava-se que ela estava faltando? Na verdade, a diversidade é percebida como uma riqueza e uma oportunidade contanto que possa ser ordenada dentro de um projeto comum. Sem um dispositivo de codificação comum, as afirmações dos indivíduos não permitem a leitura da carta do social.

Pode citar alguns fortes indicadores da pluralização?

Podemos dizer coisas banais, considerando que a mundialização, a aceleração da circulação das pessoas e das informações, a rapidez da mudança em todos os âmbitos nos dão a sensação de sermos bombardeados por uma quantidade cada vez maior de novidades e de diversidade. Na incerteza resultante dessa mudança permanente, os julgamentos, as opiniões se dispersam sem poder se confrontar em um debate público produtivo.

Tomemos o exemplo da ciência. Vivemos por muito tempo com um consenso – pelo menos relativo – sobre os benefícios do desenvolvimento da ciência. Hoje, a nossa relação com a ciência é muito mais complexa. Sabemos que mais ciência não é apenas mais capacidade de destruição, mais questões éticas difíceis, mas sobretudo, paradoxalmente, um número ainda maior de problemas não resolvidos, cujos resultados escapam aos cidadãos. Queremos transgênicos ou não? O debate não se traduz em "a favor" ou "contra". Ele é muito mais pluralizado. Não opõe apenas "progressistas" de um lado e "reacionários" de outro.

Durante muito tempo, pôde-se descrever a cena social dividindo-a entre aqueles que queriam ir para o movimento e aqueles que, ao contrário, o rejeitavam e se opunham a ele. Essa simplificação não se sustenta mais hoje. Mesmo no campo religioso, o esquema que opõe "progressistas" e "conservadores" ou "tradicionalistas" simplifica muito e não permite dar um quadro completo da variedade das opiniões religiosas e das opções espirituais.

No seu livro "Catholicisme, la fin d'un monde" ("Catolicismo, o fim de um mundo"), você descreve o colapso – no fundo, recente – da cultura cristã comum...

A diminuição da população católica praticante na França começou há muito tempo, mas esse processo foi por muito tempo compatível com a preservação de uma matriz cultural originária do catolicismo, secularizada. Os indivíduos, embora não fossem de convicção católica, embora estivessem distantes ou fossem hostis ao catolicismo, se inseriam nessa matriz comum, que ajudou a dar forma às instituições seculares (o Estado, a escola, o hospital, a universidade, a família...) e continuou impregnando as mentalidades.

Desse ponto de vista, a França, um país muito secularizado e religiosamente plural de longa data, podia, no entanto, ser chamado de "país de cultura católica". A partir dos anos 1960, observa-se a dissolução dessa matriz cultural com o advento de uma cultura mundializada do indivíduo.

O que poderia substituir hoje essa matriz cultural?

O que eu observo é precisamente que não há nada que possa substituí-la. A ideia de "cultura comum" é uma noção praticamente vazia, e essa é uma das causas do aumento das obsessões comemorativas e patrimoniais que são um modo um pouco desesperado para retomar as rédeas. A nossa sociedade é composta por universos culturais separados, que entram muito pouco em contato uns com os outros.

Essa afirmação pode parecer em contradição com a suposta "homogeneização" de uma cultura mundializada, mas a circulação mundializada de bens culturais não significa a apropriação compartilhada de saberes, de valores, de experiências que poderiam desenvolver uma relação comum com o mundo. Os grandes relatos federadores – nacional, operário, católico, secular – perderam a maior parte da sua capacidade mobilizadora.

Esses grandes relatos, confrontando-se e polemizando entre si, criavam o espaço para uma pluralidade fecunda. A atonia presente do debate público é um indicador da dispersão e da impermeabilidade dos universos culturais uns aos outros, como bolhas flutuantes umas ao lado das outras.

Você propôs, em "O Peregrino e o Convertido" (Ed. Vozes, 2008), uma leitura da crescente diversidade religiosa nas nossas sociedades. Desde então, você tem visto uma evolução na pluralidade religiosa?

Minha opinião não mudou, mas também observo o crescimento de um fenômeno ao qual eu não tinha prestado atenção suficiente naquele momento, que é o do esgotamento do peregrino! Eu associava a figura do peregrino – e a mobilidade que lhe é conexa – a uma espécie de apetite pela descoberta de novos territórios, uma atração espiritual pela alteridade.

O convertido, ao contrário, era como um peregrino que depunha suas malas, suspendia a busca e assumia a sua identidade religiosa como uma escolha pessoal, pronto para ir, depois, de escolha em escolha.

O que constato hoje é que a trajetória do peregrino não chega necessariamente a uma escolha. Ele também pode se esconder, se diluir, quando a busca espiritual é submersa pela dificuldade de ser si mesmo, como diz Ehrenberg. A religiosidade peregrina também pode ser uma forma – que merece atenção – de sair da religião.

O que você diria sobre a qualidade da diversidade religiosa hoje? É real?

A "metáfora do supermercado" foi muito utilizada para descrever a diversidade religiosa contemporânea, com a ideia de que o indivíduo faz as suas "compras" de bens simbólicos e espirituais e coloca em seu carrinho o que quiser. Fora do quadro das instituições, ele compõe, então, o seu pequeno relato crente singular.

Mas essa metáfora também pode ser lida de forma diferente. O supermercado também é o lugar em que se encontram todos os tipos de marcas diferentes que cobrem um produto, no fundo, idêntico. No âmbito dos bens simbólicos e religiosos, assim como em outros âmbitos, a economia ultramoderna produz tanto a padronização da produção, quanto a extrema personalização do consumo. Somos convidados a consumir, "como se nos fossem destinados pessoalmente", produtos absolutamente iguais.

Independentemente das diversas famílias religiosas, constata-se assim uma redução minimalista da mensagem religiosa – do ponto de vista da sua densidade teológica – e uma diversificação da "oferta", apresentada em uma forma que se considera adaptada para responder às expectativas mais imediatas dos consumidores espirituais.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Elas são mais corajosas


Entre os segmentos mais excluídos da sociedade, travestis e transexuais se organizam para enfrentar as inúmeras violências que sofrem no dia-a-dia. Matéria publicada na Revista Fórum.

“Em nenhum momento eu soube que era travesti. Eu sou completamente heterossexual e acho que isso não tem dúvida.” Era assim que o jogador de futebol Ronaldo justificava, no programa Fantástico, da Rede Globo, o fato de ter ido a um motel com três travestis. O foco de discussão da mídia se concentrava justamente na questão do atleta ter supostamente tido relações homossexuais. Uma forma velada de homofobia que escancara um dos segmentos mais excluídos da sociedade brasileira: as transgêneros.

Embora haja controvérsias sobre o tema, pode-se dizer que, de forma geral, transgêneros são pessoas que não se identificam com o seu sexo biológico. Isso se expressa desde o hábito de usar roupas do gênero oposto, fazer tratamentos hormonais e cirurgias estéticas ou mesmo operações de mudança de sexo. Neste último caso, estariam as transexuais, que rejeitam ou não sentem prazer com seus órgão genitais, enquanto com as travestis isso não necessariamente ocorre.

O fato é que ambas enfrentam o estranhamento e a intolerância no seu dia-a-dia, sendo muitas vezes discriminadas, até mesmo por homossexuais. “De modo geral, muitas transexuais e travestis são postas para fora de casa pelos seus próprios familiares, por volta dos 13 ou 14 anos. Normalmente, neste período é que começa a busca pela nossa verdadeira identidade sexual”, explica a transexual pernambucana Aleika Barros, representante e coordenadora da Articulação e Movimento de Transgêneros em Pernambuco (Amotrans-PE). “Este ato de exclusão já contribui bastante para que estas pessoas sintam na pele a intolerância”, garante.

Estudos e pesquisas vão ao encontro da realidade contada Aleika. É nos dois ambientes mais importantes para crianças e adolescentes, o próprio lar e a escola, que travestis e transexuais sentem pela primeira vez o estigma e a discriminação que em geral as acompanham pelo resto da vida. Com isso, a saída de casa e o precoce contato com a prostituição acabam se tornando algo comum a muitas delas, com o quase simultâneo abandono da vida escolar. De acordo com o estudo Travestis profissionais do sexo: vulnerabilidades a partir de comportamentos sexuais, que coletou dados por meio de entrevistas individuais com cem travestis profissionais do sexo da cidade de Uberlândia (MG), 53% têm até o ensino fundamental incompleto e nenhuma possuía ensino superior.

“A baixa escolaridade deste segmento é enorme. E mesmo quem consegue ultrapassar essa barreira, acaba excluída devido ao preconceito”, conta Majorie Marchi, presidente licenciada da Associação de Transgêneros do Rio de Janeiro (Astra-Rio), organização que conta com 1.300 associadas em todo o estado. “A escola é o lugar das primeiras rejeições vividas na infância, mesmo as que não usam trajes, quando emanam um sinal de sexualidade fora dos padrões, acabam saindo, não há o reconhecimento da identidade”, relata ela, que é travesti desde os 13 anos e viveu da prostituição dos 14 aos 28. Atualmente, participa da Câmara Técnica de Elaboração do programa estadual Rio sem Homofobia.

Majorie tem sido uma das vozes mais ativas do movimento GLBT na contestação ao tratamento que a mídia deu ao caso Ronaldo. Em nota oficial da associação, ela reivindica que “as travestis e transexuais sejam respeitadas na sua identidade de gênero, que é feminina, e que sejam identificadas por seus nomes sociais, e não pelos nomes de registro”. E prossegue: “Infelizmente, a maior parte da mídia não tem observado esse princípio, que faz parte de um direito humano fundamental, preservando a dignidade das pessoas, que têm o direito de ser tratadas como se reconhecem.” Em outra nota, ela protesta contra a apresentadora Ana Maria Braga, que teria dito em uma entrevista com o “Fenômeno”, que ele “deveria dormir mais cedo em vez de se envolver em situações como essa e com esse tipo de gente”.

“O senso comum não vê a transexualidade como uma visão possível de sexualidade”, aponta a cientista social Larissa Pelucio, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade de Campinas (Pagu/Unicamp). Para ela, a imprensa tem dificuldade em reconhecer a travesti como um tipo de expressão de gênero distinto da caricatura usual que se faz delas. Larissa realizou um trabalho etnográfico com travestis, em especial da cidade de São Carlos (SP), e, segundo ela, um dos pontos mais importantes desse trabalho foi “ver a dimensão humana e as estratégias que elas têm que desenvolver para enfrentar o preconceito.”

Durante o período em que conviveu com travestis, Larissa conta que presenciou não somente as agressões físicas, algo tristemente normal para aquelas que trabalham nas ruas, mas a violência velada, só visível para quem é alvo dela. “São atos como impedir que a travesti entre em algum lugar. É um mal-estar constante. Nem sempre a violência física é o ato mais brutal, mas o riso no supermercado, os olhares na fila do banco, no circular”, observa. “A travesti desafia os catálogos identitários, não é homem, nem mulher, nem gay, segmentos que ainda têm um grau de aceitação maior na sociedade”, analisa o psicólogo Marcos Garcia, autor da tese de doutorado Dragões: gênero, corpo, trabalho e violência na formação da identidade entre travestis de baixa renda. Ele ressalta a dificuldade que elas enfrentam para sair da condição de profissional do sexo, em especial as que ganham menos. “Uma mulher que trabalha na prostituição, quando envelhece, tem a oportunidade de mudar de profissão e esconder seu passado. Já a travesti tem muito mais dificuldade por conta do estigma”, esclarece.

Agressões corriqueiras
“É uma vida difícil. Assim, difícil porque a gente não tem outro jeito. Então é melhor arriscar. Aí, põe Deus na frente e vem. A violência continua do mesmo jeito. Eu tô achando que tá até piorando mais ainda.” Esse era um trecho de um depoimento da travesti Gleice, no filme Basta um Dia, do documentarista Vagner de Almeida. Tristemente profético, já que ela foi assassinada depois, em novembro de 2007, por um cliente, conforme depoimento de Almeida, que tem muitas outras histórias como esta.

Episódios de agressão são corriqueiros, em especial para aquelas que fazem programas nas ruas. “São filhinhos de papai que passam tacando ovos, extintores, urina em sacos plásticos, fezes, pedras, isso quando não vêm grupos que espancam todas que encontram pela frente”, descreve Cris Stefanny, coordenadora-geral da Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS) e que também faz parte do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. Ela ressalta que boa parte da violência sofrida pelas travestis é resultado da relação com os próprios clientes. “Quando não querem pagar pelo preço combinado com as travestis e transexuais profissionais do sexo, começam a dar escândalos e chamam a polícia com a mesma conversa da Carochinha de que foi ver o coelhinho da páscoa e dar volta na mula sem cabeça quando deparou com uma travesti que queria lhe roubar”, ironiza. “Como entre homens e mulheres, no meio também existem travestis boas e ruins, mas na maior parte dos casos que param na delegacia tudo não passou de desentendimento comercial. E sempre o cliente vem com o papo de que não sabia que se tratava de uma travesti, como se sair com travesti fosse ato anormal e elas não fossem pessoas merecedoras de direitos e dignidade”, completa.

Mesmo aquelas que conseguem se fazer notar pelo ativismo e pela defesa da diversidade, saindo do gueto, estão sujeitas a humilhações. A travesti Marcelly Malta, servidora pública da prefeitura de Porto Alegre e militante na área dos direitos das travestis e transexuais, foi homenageada pela prefeitura de Porto Alegre no Dia Internacional da Mulher deste ano. Malta recebeu um diploma oferecido a quem se destacou nas ações de parceria com o município, em prol do desenvolvimento da cidade e da melhoria das condições de vida das comunidades onde estão inseridas. Mas nem este reconhecimento vence o preconceito. No dia 13 de maio, Malta denunciou ter sofrido uma agressão no complexo hospitalar onde trabalha há 28 anos na capital gaúcha.

A servidora conta que se desentendeu com seguranças na saída do Posto de Atendimento Médico 3 (PAM 3) da rede municipal por causa de sua identificação. Na discussão, foi agredida e levada a uma sala vazia, onde foi chutada e esganada. “O que sinto mais não é a dor física e sim a dor psicológica. Minha auto-estima foi lá pra baixo”, declarou Marcelly Malta. Ela registrou queixa na delegacia e compareceu ao Instituto Médico Legal para fazer exame de corpo de delito, onde foi constatada luxação na faringe e em três costelas. A denúncia será levada ao Ministério Público.

O secretário municipal de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos, divulgou uma nota oficial para esclarecer a denúncia de Marcelly. De acordo com a nota, os agressores já foram identificados e “providências administrativas” estão sendo tomadas e diz que “é necessário afirmar que não existe qualquer tipo de argumento que justifique a violência sofrida pela senhora Marcelly Malta”. O secretário ressalta na nota que os seguranças agressores não são funcionários do município e fazem parte de uma empresa terceirizada, ironicamente chamada Grupo Reação.

“O nosso país é muito homofóbico e as pessoas se acham no direito até mesmo de assassinar”, afirma a deputada Cida Diogo, presidente da frente parlamentar GLBT da Câmara dos Deputados, que trabalha em prol da aprovação do PLC 122, que criminaliza a homofobia – atualmente em tramitação no Senado –, além de ser autora de um projeto de inclusão do nome social no RG das travestis. “Elas estão me procurando e estamos pesquisando as bases jurídicas para ver se conseguimos aprimorar este projeto. A proposta é substituir o nome no registro pelo nome social, mesmo sem a cirurgia (de mudança de sexo)”, explica a deputada.

A organização da luta
Hoje, existem diversas associações e grupos no Brasil organizados em torno da luta dos direitos de travestis e transexuais. Mas quase todos têm em comum a dificuldade em agregar apoios e chamar a atenção para a causa. “Muitas das trans já estão desacreditadas nessas lutas pela classe em busca de mais respeito e cidadania”, conta Aleika Barros, que participou da formação da Articulação e Movimento de Transgêneros de Pernambuco, estado que apresenta hoje o maior número de assassinatos de travestis no país.

“No mundo inteiro, o movimento GLBT surge do movimento da classe média alta”, analisa o psicólogo Marco Garcia, destacando uma outra dificuldade dos movimentos, que é alcançar as transgêneros de baixa renda. “No Rio de Janeiro e em Salvador, por exemplo, existem associações mais fortes. As ONGs GLBT também estão ajudando elas a se organizar, mas tenho a impressão que o forte ainda está nas travestis da classe média. As mais pobres estão longe”, comenta.

“Não podemos cair no lugar comum de vitimizar a travesti e esquecer de lhe proporcionar espaço de inserção nesta mesma sociedade que a exclui”, defende o documentarista Vagner de Almeida. “Sempre tem novas travestis entrando no mercado do sexo. Se elas não conseguem fazer a vida, ir para Europa, montar salão, o que acontece é o empobrecimento, podendo vir daí o envolvimento com as atividades ilícitas. Tudo fruto da discriminação”, pondera Garcia.

Mas, aos poucos, as barreiras começam a ser vencidas. Em janeiro deste ano, o ministro da Saúde José Gomes Temporão recebeu um grupo de representantes das travestis, que apresentou um documento com reivindicações do segmento no campo da saúde. O documento foi entregue no dia 29 de janeiro, o Dia da Visibilidade das Travestis. Hoje, no Sistema Único de Saúde, as transgêneros já podem ser atendidas pelo seu nome social.

Outra importante conquista é o projeto Damas, desenvolvido pela Secretaria de Assistência Social da prefeitura do Rio de Janeiro. Durante quatro meses, as participantes recebem uma bolsa-auxílio e são assessoradas por uma equipe técnica que garante o acesso à educação, à capacitação profissional e à participação em palestras de direitos humanos, saúde, entre outras. Ao final do curso, realizam estágio em empresas privadas, organizações não-governamentais ou órgãos públicos.

A travesti Majorie Marchi concluiu seu curso em 2006 e depois trabalhou na secretaria de Assistência Social, colaborando com a reformulação do projeto. “Hoje o programa se divide em dois momentos: no primeiro, elas aprendem técnicas relativas ao mercado de trabalho e, no segundo, discutem orientação sexual”, explica. “Antes de fortalecer elas mesmas ou as entidades, elas precisam saber sua história, por isso trabalhamos com um conteúdo pragmático próprio, trabalhando orientação sexual e identidade de gênero e a história do movimento social GLBT.”

Ativista, Majorie não desanima, mesmo quando encontra dificuldades na discussão do tema, como a que ela conta ter acontecido em um dos encontros do Rio Sem Homofobia, uma câmera técnica inter-setorial. “Uma vez, em uma das reuniões com as secretarias do governo, uma representante de uma secretaria falou que seria um privilégio desenvolver projetos para a comunidade GLBT. Eu respondi o seguinte: não é privilegio não. O privilégio existe quando nosso quadro social é igualitário, mas quando o cenário é de desvantagem e as medidas são para igualar ou diminuir as mazelas, não há privilégio.” Pessoas como ela e outras ouvidas nessa matéria, além de tantas que lutam pela causa, podem finalmente tirar as transgêneros do gueto que o preconceito as condenou.

Os riscos na busca do corpo perfeito
“Queria me levantar da cama porque não conseguia suportar toda aquela dor, mas sabia que era a dor da beleza e não me mexi”, o depoimento é da travesti Fernanda, e faz parte do livro Princesa, um depoimento de uma travesti a um líder das Brigadas Vermelhas, e exemplifica a busca da travesti pela feminilizacão do seu corpo e a afirmação de sua identidade. No entanto, muitas delas possuem baixa renda e, desprovidas do acesso a meios e técnicas de custo elevado, recorrem a técnicas extremamente perigosas. São aplicações de silicone líquido, em uma combinação muitas vezes fatal de cola Superbonder e agulhas veterinárias.

O processo é rápido, ao contrário do tratamento com hormônios. Em horas, a travesti tem seu corpo modificado. Mas também é um processo doloroso. A sessão conta com a bombadeira, chamada assim por ser a responsável por “bombar” o corpo, isto é, injetar o silicone líquido na região. Também está presente uma assistente, em geral responsável pelo enchimento das seringas e pelo fechamento dos furos, realizado com pedaços de papelão e Superbonder. “O silicone injetável é um produto de uso industrial e migra no corpo. Migra para as virilhas, pernas, joelhos e pés. Nestes casos as travestis convivem com ele, e ocasionalmente têm problemas circulatórios”, explica a assistente social Eliana Chagas, que trabalha em uma organização de travestis em Aracaju (SE), a Associação das Travestis na Luta pela Cidadania (Unidas). O silicone já causou a morte de diversas travestis, principalmente quando a aplicação é nas mamas, pois pode migrar para os pulmões e outros órgãos vizinhos.

Em Aracaju, a Unidas, realizou uma pesquisa com as travestis do estado e constatou que 92% das entrevistadas conheciam amigas que tiveram complicações na aplicação. Mesmo assim, 80% fariam a aplicação do conteúdo. Para conscientizar as bombadeiras e as travestis, a Unidas produziu o livro Silicone – Redução de danos e organiza oficinas sobre o tema. “Fizemos as cartilhas com fotos, algumas até chocantes. Insistimos sempre nas discussões sobre o assunto, no cuidado com a higiene e assepsia do espaço físico onde as aplicações são feitas”, relata a assistente social. “Temos percebido que pelo menos aqui em nosso estado as aplicações nas mamas não têm mais acontecido. Conversamos por diversas vezes com as bombadeiras sobre estes riscos e as travestis têm buscado colocar próteses mamárias”, informou Eliana Chagas.

"Amo travestis mesmo"
"Sim , amo travestis mesmo, já namorei uma durante quatro anos e fiquei casado com outra durante um ano, morei na mesma casa. Estou iniciando uma nova relação, espero que dê certo.” O depoimento é de Paulinho Cazé, 30 anos, que, ao contrário de outros t-lovers, não tem medo de demonstrar sua afeição publicamente. “Digo que sou um amante de travestis, assumo elas em qualquer lugar, isso na minha vida superou fronteiras, a ponto de minha família e amigos de infância aceitarem minha condição.”

Cazé tem um blogue, o SampaTrans, onde divulga as entrevistas que faz com travestis. “As meninas só querem ser respeitadas, nada mais, já os ‘amantes de travestis’ querem saber sobre como é a primeira experiência, pedem pra indicar uma transa... Perguntam se são gays ou não por que saem com travestis, essas coisas de quem está iniciando uma etapa na vida”, conta.

A pesquisadora Larissa Pelucio formou na rede de relacionamentos Orkut a comunidade “Homens que gostam de Travestis” (hoje com 5.056 membros), o que facilitou o seu contato com os t-lovers para realizar sua tese de doutorado. Vários dos perfis na comunidade não têm fotos de rostos, mas apenas de partes do corpo. Segundo ela, grande parte pertence à classe média, e são profissionais liberais, na maioria com idade entre 25 e 40 anos. São casados com mulheres, que costumam chamar de genetic girls.

Na internet, as travestis reivindicam que seus parceiros façam como Paulinho Cazé e assumam sua orientação sexual, o que ajudaria a diminuir o preconceito. No mesmo Orkut, uma das travestis explica que “todos os namorados que tive eram homens heterossexuais que se apaixonaram por mim, e depois que nosso namoro acabou eles voltaram a namorar ou casar com mulheres. Mas enquanto estivemos juntos, eles me assumiram totalmente diante de suas famílias e amigos. Já com os t-lovers, eu tive casos fortuitos e às escondidas. Hoje, que tenho mais consciência política, me nego a ter um namorado que não me assuma. Para mim, isso passou a ser um defeito grave, por mais belo que seja o cara”. E prossegue, repudiando o comportamento dos parceiros que procuram relações, mas que as enxergam “simplesmente como um o obeto sexual. Um tipo de cafajeste que transa com as trans, mas diante da sociedade fala mal das travestis, enfim, o comportamento típico de quem vive no armário. Um verdadeiro t-lover é um homem que se realiza não só sexualmente, mas afetivamente, com uma trans, além de assumi-la diante de todos.”

Por Brunna Rosa e Glauco Faria

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Cristãos negros, e não por acaso

Foto daqui

Nos últimos 30 anos, nas Igrejas cristãs da América Latina, foi-se desenvolvendo uma nova teologia, filha das comunidades negras descendentes dos escravos africanos, que une vontade de justiça, feminismo e inculturação.

A reportagem é de Mauro Castagnaro, publicada na revista Jesus, de dezembro de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


"Eu sou a filha da teologia da libertação, porque sempre me identifiquei com a opção pelos pobres. No entanto, a minha pesquisa teológica começou da percepção de que a minha experiência de mulher, o fato de não querer ser marginalizada na Igreja como negra e, sobretudo, a intensa espiritualidade da população afrocolombiana exigiam uma reflexão mais aprofundada e inclusiva".

Essas palavras de Maricel Mena López, professora de Novo Testamento na Pontifícia Universidade Xaveriana de Bogotá, não descreve, apenas, de um ponto de vista feminino, um itinerário individual, mas também são representativas do processo mediante o qual surgiu a teologia afroamericana.

Nos últimos 30 anos, de fato, paralelamente ao surgimento de movimentos negros na cena sociopolítica e cultural latino-americana, também nas Igrejas – e particularmente na católica – ganhou espaço uma tentativa de reler a mensagem evangélica e o cristianismo dentro da vivência das comunidades afroamericanas, marcadas pelo violento desenraizamento da África, por séculos de escravidão e de revoltas, pela opressão, pela discriminação, pela marginalização e pela pobreza que ainda hoje acompanham a condição da grande maioria dos 150 milhões de afrodescendentes, presentes principalmente no Brasil, Colômbia, Venezuela, Equador, na costa atlântica da Nicarágua e Honduras, e no Caribe (Haiti, Cuba, Jamaica e República Dominicana).

Entre eles, no entanto, cresceu a conscientização e a reivindicação da sua própria identidade cultural. Mena López resume: "A teologia afroamericana nasce da discriminação racial e da experiência de Deus vivida pelas comunidades negras em todo o continente. Ela propõe uma reflexão enraizada nas nossas cosmovisões culturais e religiosas, começando pelo culto praticado por diversas comunidades afrocatólicas".

O ponto de partida, pelo menos no plano do Magistério continental, é geralmente considerado o documento final da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Puebla, no México, em 1979: o texto, referindo-se aos "rostos concretos" que assume "a situação de extrema pobreza generalizada" e em que "devemos reconhecer os traços sofredores de Cristo", dita os afroamericanos definindo-os, assim como os índios, de "os mais pobres entre os pobres".

Desde 1980, realizaram-se 11 Encontros de Pastoral Afroamericana, o último dos quais na Cidade do Panamá, em 2009, promovido pelo Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), enquanto, desde 1985, com uma frequência mais ou menos decenal, ocorreram três Consultas Ecumênicas de Teologia Afroamericana e Caribenha, e desde 1999 a Associação Ecumênica de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo realizou quatro Encontros de Teologia Afroamericana e Caribenha.

À produção teológica popular, ligada diretamente à pastoral afro, juntam-se alguns órgãos de pesquisa, elaboração e divulgação como o Centro Afroequatoriano de Quito e o Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia de São Paulo, no Brasil, assim como grupos como o Guasá, na Colômbia.

Enquanto isso, aumentou o número de bispos negros, surgiram espaços inter-religiosos em que participam padres, religiosas, pastores protestantes, pais de santo e mães de santo (que presidem os cultos do candomblé), houve grandes encontros dos órgãos de pastoral negra católicos e protestantes, dos quais também participaram sacerdotes afro.

O padre Antônio Aparecido da Silva, professor de Teologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pioneiro da pastoral afrobrasileira, falecido em 2009, explicava que "o Deus dos pobres se identifica com o povo negro. Deus é negro, caminha com o seu povo e se revela na sua história de marginalização como a única fonte de segurança". E identificava como tarefa principal da teologia afroamericana a de "ajudar a comunidade negra a compreender a sua fé no emaranhado tecido e na mistura das experiências religiosas", lembrando que "em algumas regiões do Caribe há comunidades de tradição protestante, mas a maioria da população negra do continente é católica. Uma parte significativa, no entanto, permanece fiel às tradições religiosas africanas, através do vodu (Haiti), do candomblé (Brasil) ou da santeria (Cuba). Igualmente significativo é o número de negros e negras que têm uma dupla filiação, participando da vida da Igreja católica e dos cultos afro".

Segundo Sílvia Regina de Lima Silva, teóloga brasileira que atualmente trabalha em San José, na Costa Rica, no Departamento Ecumênica de Pesquisa (Dei) e na Universidade Bíblica Latino-Americana, "no início, falávamos de teologia negra da libertação, assumindo o lugar, espaço, corpo da negritude como ponto de partida do fazer teológico, promovendo a formação dos agentes de pastoral negros e a liturgia afro, a partir de uma hermenêutica negra da Bíblia, muito atenta ao Deus libertador, à prática libertadora de Jesus, ao compromisso de libertação das primeiras comunidades cristãs. Depois, o fato de descobrir o povo negro como imagem e semelhança de Deus nos ajudou a desmontar o Deus que nos foi imposto pelo colonialismo teológico e a abrir a pesquisa à pluralidade de imagens, experiências, culturas. Hoje, quando se fala de interculturalidade e diálogo inter-religioso na nossa experiência, há esse encontro com um Deus plural, que remete à diversidade, à criatividade, à diferença".

No centro da reflexão teológica afroamericana há questões relacionadas à vida cotidiana das comunidades negras, como a pobreza, a terra, a saúde e a educação, mas também as relações com as religiões tradicionais. Estas, explica Lima Silva, "foram para os negros na diáspora um lugar privilegiado de encontro com Deus, que nelas se revelou como solidário e fiel". Isso facilita um diálogo com o cristianismo, porque "muitos negros e negras tiveram nele uma experiência do Deus libertador semelhante à vivida nos cultos africanos, que têm um cuidado especial pela vida, pela saúde, pelos relacionamentos amorosos, pela sobrevivência financeira, com o uso de ervas, peixes etc. Para mim, que cresci em comunidades cristãs, foi muito bonito me encontrar com esse Deus dos meus antepassados e experimentar o seu cuidado".

De acordo com López Mena, no entanto, "não se trata de inserir símbolos de um universo religioso em outro, mas sim de assumir e respeitar as riquezas de culturas não hegemônicas. O diálogo com as religiões afroamericanas deve ser conduzido a partir do conceito de 'macroecumenismo', que busca superar os limites impostos pelo 'ecumenismo' (limitado às Igrejas cristãs) e 'diálogo inter-religioso' (que nem sempre expressa a necessidade de um prática comum pela paz e pela justiça). O macroecumenismo implica respeito pelas diferenças religiosas e busca de ações comuns em favor de uma vida digna para todos e todas".

Marcos Rodrigues da Silva, teólogo brasileiro e professor convidado em diversas universidades no país, salienta que o centro de tudo é a cristologia desenvolvida a partir do "Cristo negro de Portobelo, no Panamá, do Cristo Negro de Limón, na Costa Rica, e pelo Senhor do Bonfim, na Bahia. O primeiro é triste, sofredor, torturado, o Cristo da Senzala (a casa dos escravos nas plantações). O segundo é um Cristo glorioso, o Cristo dos reis espanhóis. E o terceiro é o Cristo da dança, da bênção. Três aspectos que remetem ao Jesus da história, que já é salvífico na perspectiva do povo afroamericano".

Segundo Rodrigues da Silva, a teologia afroamericana está dando passos importantes na eclesiologia, "que surge a partir não só das comunidades eclesiais de base, mas também das comunidades quilombolas (onde vivem os descendentes dos escravos fugitivos das plantações), das confrarias e das congadas (festas populares religiosas)". E, acrescenta, "pode dar uma contribuição fundamental para enfrentar a 'questão ecológica', porque a essência dos mitos africanos – da água, da chuva, da floresta, da cura com as ervas – é o respeito pela natureza, que é mãe e vida".

A vertente feminista adquiriu recentemente uma grande. Mena López recorda que esse filão "nasce da necessidade de produzir teologia a partir da vida comunitária e religiosa de mulheres latino-americanas negros, sejam cristãs, sejam pertencentes aos cultos afroamericanos. A teologia negra feminista se preocupa acima de tudo com a tríplice opressão – de classe, de gênero e de raça – que caracteriza a sua existência nas nossas sociedades. Nós, mulheres negras, nos confrontamos não só com o racismo e o sexismo da sociedade dominante e das suas estruturas patriarcais, mas também, de um lado, com o racismo de um movimento feminista dominado por mulheres brancas e, de outro, com o antifeminismo e o heterossexismo normativo do movimento negro, que não raramente expressa um machismo violento e exalta o super-homem. Essa teologia quer manifestar a revelação de Deus na vida das mulheres negras, partindo tanto do seu sofrimento pela discriminação e pelo racismo, quanto das suas lutas e resistências. Mesmo sem esquecer que continuam sendo vítimas da fome, das doenças e das taxas mais altas de desemprego, ela lhes resgata do papel de 'pobres', domésticas e escravas, e lhes recupera como detentoras de poder e sabedoria".

Isso ocorre também "reivindicando os seus próprios corpos como espaços sagrados de revelação, em resposta a uma sociedade que desvalorizou o corpo da mulher negra e de uma teologia que, durante séculos, o considerou como 'corpo de pecado'. O corpo é o espaço em que confluem as nossas alegrias, as nossas angústias, os medos, a fé e a esperança, em que a mulher negra experimenta o mundo, o divino e a salvação".

A essa luz, no seu trabalho de biblista, Mena López se dedicou "à pesquisa de raízes afroasiáticas na Bíblia e ao estudo da influência dos povos de origem africana (Egito, Cuch ou Etiópia, Saba) na formação da tradição judaico-cristã. Depois, ao resgate de mulheres negras presentes na Bíblia dos papéis de escrava, bruxa e sedutora, evidenciando, por exemplo, como Hagar, a serva egípcia de Abraão, é a única mulher que fala diretamente com Deus (Gn 16); Séfora, a esposa de Moisés, é a única que circuncida um bebê (Ex 4), ato que a religião israelita reservava aos homens, e precisamente o papel sacerdotal da mulher cuchita parece estar na origem da hostilidade de Miriam e de Arão contra ela (Nm 12 e Ex 18). Assim, as afrocolombianas descobriram que o cristianismo não tinha chegado a elas apenas através da colonização, mas também havia uma herança bem mais antiga".

No entanto, observa Rodrigues da Silva, "a teologia afroamericana custa para abrir espaço, porque o que provinha do povo da diáspora africana foi rotulado como sincretismo religioso". E Lima Silva vai mais longe: "Se existe a teologia negra, a teologia tradicional não é mais 'a' teologia. Ela deve renunciar a se apresentar como um 'universal' e reconhecer as suas próprias parcialidades".

No entanto, as maiores dificuldades, retoma Rodrigues da Silva, foram registradas "no campo litúrgico, porque ainda não está claro como conectar os rituais africanos de tradições diversas e o rito católico ou protestante".

Em 1981, a Congregação vaticana para os Sacramentos e o Culto Divino vetou a Missa dos Quilombos, composta por Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, e por ele celebrada em Recife nesse mesmo ano, juntamente com Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, e Dom Hélder Câmara, ordinário local.

O que desperta desconfiança, acrescenta Mena López, é também o fato de que, "enquanto os ocidentais separam o divino-espiritual, entendido como superior, do humano-corporal, considerado inferior, os afroamericanos e afroamericanas se expressam nas cerimônias com todo o corpo, na dança e com uma simbologia diferente, superando esses dualismos".

O caminho da inculturação parece ser, portanto, ainda muito longo caminho, mas no fundo resta o sonho de Dom Pires, hoje com 92 anos, "patriarca do cristianismo afroamericano", carinhosamente apelidado de "Dom Zumbi" (em homenagem ao líder da revolta negra decapitado em 1695): "Nós, negros, alimentamos a esperança de nos seja reconhecido o direito à cidadania eclesial. Estamos cada vez mais convencidos de que é possível para o negro ser discípulo de Cristo e viver na Igreja sem deixar de ser negro, sem renunciar à sua cultura, sem ter que abandonar a religião dos orixás (os ancestrais divinizados), que, como o judaísmo, poderá se deixar comprometer pela mensagem de Jesus Cristo" e ter "centenas de milhares de pequenas comunidades cristãs organizadas com base no terreiro (o espaço em que se celebra o culto do candomblé), com uma mãe de santo à frente, incorporando os valores evangélicos nas tradições africanas e mantendo uma profunda solidariedade com os mais pobres".
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