Mostrando postagens com marcador consciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador consciência. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de maio de 2012

Acreditar é humano; duvidar é divino

Foto: Martin Zalba

Acho muito interessante a frase do meu amigo Peter Rollins : “To believe is human; to doubt divine” – Acreditar é humano; duvidar é divino. Ou seja, onde não houver espaço para a dúvida, também não haverá espaço para especular sobre o que a fé, no sentido mais amplo, significa – Basta analisar a realidade dos personagens bíblicos.

A fé é nostalgia. É um nó na garganta. A fé é mais um passo adiante do que uma posição, mais um pressentimento do que uma certeza.

A fé é espera. Ela está caminhando no tempo e no espaço.

Portanto, se alguém se achega a mim e me pede ( o que acontece com frequência) para falar sobre minha fé, é exatamente sobre essa jornada no tempo e no espaço que falo. Os altos e baixos das lágrimas, os sonhos, os momentos particulares, as intuições. Falo sobre a sensação ocasional que tenho de que a vida não é uma sequência de eventos que gera outros eventos tão a esmo, quanto uma tacada no jogo de bilhar faz que as bolas se afastem em diferentes direções, mas que a vida tem um roteiro, assim como num romance – aqueles eventos que, de algum modo, nos levam a algum lugar.

Embora passe a vida à busca de Deus, com frequência sinto que Deus está na próxima curva do caminho, ali atrás da próxima árvore na floresta. Continuo andando porque gosto de onde a jornada me levou até agora, pois outros caminhos parecem ainda mais problemáticos do que o meu próprio e porque anseio pela conclusão do plano. Conheço pouco das tragédias da vida. Provei sua comédia. Continuo andando porque creio no conto de fadas de que um Deus forte e sábio o suficiente para criar um mundo marcado por tal beleza e bondade será fiel em restaurar sua aparência original. Quero me esforçar para cooperar nesse projeto, e coloco todas as minhas fichas na firme promessa de Cristo, de que, no final , tudo sairá bem. Tanto para mim quanto para todos!

- Nelson Costa Jr.
(Fonte: A fé absurda)

Quem desobedece a quem?


A infalibilidade papal não pode legitimar o argumento da autoridade. Mesmo com a voz mais doce e o espírito mais humilde que ninguém contesta a Bento XVI, pode ser que nos encontremos diante de um abuso de poder.

A opinião é do sacerdote francês Patrick Royannais, da diocese de Lyon, em artigo publicado no jornal católico
La Croix, 13-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Durante a última Missa Crismal, Bento XVI se referiu ao apelo lançado por mais de 300 padres austríacos há um ano acerca da urgência das reformas na Igreja: "Recentemente, em um país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir essa desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer".

Bento XVI reconhece que esses padres querem servir a Igreja, mas se interroga sobre a pertinência dessa desobediência, e o podemos compreender. Mas desobediência a quem? A Cristo? Não parece se tratar disso. Certamente – de maneira falaz ou por falta de rigor – o papa opõe a "configuração a Cristo, que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação", e o "impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias". Desobediência à Igreja? Isso não é dito. A polêmica diria respeito a apenas um ponto, além disso discutido, do ensinamento de João Paulo II.

O que diz a Igreja? Quem não é fiel? Em quê? Em que âmbito cultural ou intelectual é preciso que nos encontremos para pensar que, dado que o chefe falou, o que ele disse é automaticamente verdadeiro? Nenhum grupo, nenhuma pessoa, nem mesmo o chefe, pode pretender ter a última palavra da verdade. Somos entregues ao conflito das interpretações, não que se possa dizer qualquer coisa ou que a verdade seja subjetiva, mas nada garante de maneira definitiva qualquer interpretação. Fragilidade recentemente reconhecida, mas não nova, da verdade expressa em linguagem humana.

Além disso, será que é preciso lembrar que o chefe da Igreja Católica não é o papa, mas Cristo? Isso evita fazer do governo do papa um regime político mundano e permite ressaltar, com o último Concílio, que todo discípulo está à escuta da Revelação, à qual, incluindo o magistério, quer obedecer.

"O magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente" (Dei Verbum, n. 10).

O papa e os padres austríacos ouvem a palavra do Senhor, mas não compreendem a mesma coisa, pelo menos em pontos muito periféricos, embora decisivos no comportamento da Igreja. Não pode ser posto em causa o seu apego comum de Cristo que revela no Espírito a paternidade de Deus; ou o seu apego à Igreja, que recebe a missão de fazer ressoar a palavra de Jesus e de louvar ao Pai pelos sinais do Reino que germinam no mundo; ou o seu apego à forma histórica da Igreja Católica, em particular na sua estruturação sacramental do ministério.

O conflito das interpretações deriva do contragolpe criado pela secularização e pela crise das instâncias de verdade ou, em outros termos, da conscientização da historicidade da verdade. Para ser fiel ao ensinamento da Igreja, não basta repetir sempre a mesma coisa. Com o tempo, as mesmas palavras, as mesmas práticas têm sentidos diferentes, de modo que aqueles que se limitam a repetir tornam-se inevitavelmente inféis.

Por isso, é preciso comentar continuamente as Escrituras, comentar o Credo, reinterpretar a Tradição da Igreja, reinventar a ação pastoral. A Igreja sempre inovou para ser fiel à sua tradição e à sua missão.

Portanto, há interpretações diferentes ou conflitantes entre esses padres e o papa. Mas quando quem tem a autoridade fala de desobediência passa de um conflito de interpretações à denúncia e à exclusão de uma posição. Bento XVI pretende encerrar o debate, recorrendo de facto ao argumento da autoridade que a grande tradição sempre contestou: "Acima do papa como expressão da autoridade eclesial, existe a consciência, à qual é preciso obedecer acima de tudo, se necessário até contra as exigências da autoridade da Igreja" (Joseph Ratzinger).

Falar de desobediência, em vez de admitir a contingência, o conflito indefinido de interpretações, significa confiscar a autoridade e a verdade. A infalibilidade papal não pode legitimar o argumento da autoridade. Mesmo com a voz mais doce e o espírito mais humilde que ninguém contesta a Bento XVI, pode ser que nos encontremos diante de um abuso de poder. Quem desobedece a quem?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Famoso psiquiatra pede desculpas por estudo sobre "cura" para gays

Foto via Blue Pueblo

O fato foi simplesmente que ele fez tudo errado, e ao final de uma longa e revolucionária carreira, não importava com quanta frequência estivesse certo, o quão poderoso tinha sido ou o que isso significaria para seu legado.

O dr. Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da psiquiatria moderna, que completa 80 anos nesta semana, acordou recentemente às 4 horas da madrugada ciente de que tinha que fazer algo que não é natural para ele.

Ele se esforçou e andou cambaleando no escuro. Sua mesa parecia impossivelmente distante; Spitzer sofre de mal de Parkinson e tem dificuldade para caminhar, se sentar e até mesmo manter sua cabeça ereta.

A palavra que ele às vezes usa para descrever essas limitações – patéticas – é a mesma que empregou por décadas como um machado, para atacar ideias tolas, teorias vazias e estudos sem valor.

Agora, ali estava ele diante de seu computador, pronto para se retratar de um estudo que realizou, uma investigação mal concebida de 2003 que apoiava o uso da chamada terapia reparativa para “cura” da homossexualidade, voltada para pessoas fortemente motivadas a mudar.

O que dizer? A questão do casamento gay estava sacudindo novamente a política nacional. O Legislativo da Califórnia estava debatendo um projeto de lei proibindo a terapia como sendo perigosa. Um jornalista de revista que se submeteu à terapia na adolescência, o visitou recentemente em sua casa, para explicar quão miseravelmente desorientadora foi a experiência.

E ele soube posteriormente que um relatório da Organização Mundial de Saúde, divulgado na quinta-feira (17), considera a terapia “uma séria ameaça à saúde e bem-estar – até mesmo à vida – das pessoas afetadas”.

Os dedos de Spitzer tremiam sobre as teclas, não confiáveis, como se sufocassem com as palavras. E então estava feito: uma breve carta a ser publicada neste mês, na mesma revista onde o estudo original apareceu.

“Eu acredito que devo desculpas à comunidade gay”, conclui o texto.

Perturbador da paz
A ideia de estudar a terapia reparadora foi toda de Spitzer, dizem aqueles que o conhecem, um esforço de uma ortodoxia que ele mesmo ajudou a estabelecer.

No final dos anos 90 como hoje, o establishment psiquiátrico considerava a terapia sem valor. Poucos terapeutas consideravam a homossexualidade uma desordem.

Nem sempre foi assim. Até os anos 70, o manual de diagnóstico do campo classificava a homossexualidade como uma doença, a chamando de “transtorno de personalidade sociopática”. Muitos terapeutas ofereciam tratamento, incluindo os analistas freudianos que dominavam o campo na época.

Os defensores dos gays fizeram objeção furiosamente e, em 1970, um ano após os protestos de Stonewall para impedir as batidas policiais em um bar de Nova York, um grupo de manifestantes dos direitos dos gays confrontou um encontro de terapeutas comportamentais em Nova York para discutir o assunto. O encontro foi encerrado, mas não antes de um jovem professor da Universidade de Columbia sentar-se com os manifestantes para ouvir seus argumentos.

“Eu sempre fui atraído por controvérsia e o que eu ouvi fazia sentido”, disse Spitzer, em uma entrevista em sua casa na semana passada. “E eu comecei a pensar, bem, se é uma desordem mental, então o que a faz assim?”

Ele comparou a homossexualidade com outras condições definidas como transtornos, tais como depressão e dependência de álcool, e viu imediatamente que as últimas causavam angústia acentuada e dano, enquanto a homossexualidade frequentemente não.

Ele também viu uma oportunidade de fazer algo a respeito. Spitzer era na época membro de um comitê da Associação Americana de Psiquiatria, que estava ajudando a atualizar o manual de diagnóstico da área, e organizou prontamente um simpósio para discutir o lugar da homossexualidade.

A iniciativa provocou uma série de debates amargos, colocando Spitzer contra dois importantes psiquiatras influentes que não cediam. No final, a associação psiquiátrica ficou ao lado de Spitzer em 1973, decidindo remover a homossexualidade de seu manual e substituí-la pela alternativa dele, “transtorno de orientação sexual”, para identificar as pessoas cuja orientação sexual, gay ou hétero, lhes causava angústia.

Apesar da linguagem arcana, a homossexualidade não era mais um “transtorno”. Spitzer conseguiu um avanço nos direitos civis em tempo recorde.

“Eu não diria que Robert Spitzer se tornou um nome popular entre o movimento gay mais amplo, mas a retirada da homossexualidade foi amplamente celebrada como uma vitória”, disse Ronald Bayer, do Centro para História e Ética da Saúde Pública, em Columbia. “‘Não Mais Doente’ foi a manchete em alguns jornais gays.”

Em parte como resultado, Spitzer se encarregou da tarefa de atualizar o manual de diagnóstico. Juntamente com uma colega, a dra. Janet Williams, atualmente sua esposa, ele deu início ao trabalho. A um ponto ainda não amplamente apreciado, seu pensamento sobre essa única questão – a homossexualidade – provocou uma reconsideração mais ampla sobre o que é doença mental, sobre onde traçar a linha entre normal e não.

O novo manual, um calhamaço de 567 páginas lançado em 1980, se transformou em um best seller improvável, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. Ele estabeleceu instantaneamente o padrão para futuros manuais psiquiátricos e elevou seu principal arquiteto, então próximo dos 50 anos, ao pináculo de seu campo.

Ele era o protetor do livro, parte diretor, parte embaixador e parte clérigo intratável, rosnando ao telefone para cientistas, jornalistas e autores de políticas que considerava equivocados. Ele assumiu o papel como se tivesse nascido para ele, disseram colegas, ajudando a trazer ordem para um canto historicamente caótico da ciência.

Mas o poder tem seu próprio tipo de confinamento. Spitzer ainda podia perturbar a paz, mas não mais pelos flancos, como um rebelde. Agora ele era o establishment. E no final dos anos 90, disseram amigos, ele permanecia tão inquieto como sempre, ávido em contestar as suposições comuns.

Foi quando se deparou com outro grupo de manifestantes, no encontro anual da associação psiquiátrica em 1999: os autodescritos ex-gays. Como os manifestantes homossexuais em 1973, eles também se sentiam ultrajados por a psiquiatria estar negando a experiência deles –e qualquer terapia que pudesse ajudar.

A terapia reparativa
A terapia reparativa, às vezes chamada de terapia de “conversão” ou “reorientação sexual”, é enraizada na ideia de Freud de que as pessoas nascem bissexuais e podem se mover ao longo de um contínuo de um extremo ao outro. Alguns terapeutas nunca abandonaram a teoria e um dos principais rivais de Spitzer no debate de 1973, o dr. Charles W. Socarides, fundou uma organização chamada Associação Nacional para Pesquisa e Terapia da Homossexualidade (Narth, na sigla em inglês), no sul da Califórnia, para promovê-la.

Em 1998, a Narth formou alianças com grupos de defesa socialmente conservadores e juntos eles iniciaram uma campanha agressiva, publicando anúncios de página inteira em grandes jornais para divulgar histórias de sucesso.

“Pessoas com uma visão de mundo compartilhada basicamente se uniram e criaram seu próprio grupo de especialistas, para oferecer visões alternativas de políticas”, disse o dr. Jack Drescher, psiquiatra em Nova York e coeditor de “Ex-Gay Research: Analyzing the Spitzer Study and Its Relation to Science, Religion, Politics, and Culture”.

Para Spitzer, a pergunta científica no mínimo valia a pena ser feita: qual era o efeito da terapia, se é que havia algum? Estudos anteriores tinham sido tendenciosos e inconclusivos.

“As pessoas me diziam na época: ‘Bob, você vai arruinar sua carreira, não faça isso’”, disse Spitzer. “Mas eu não me sentia vulnerável.”

Ele recrutou 200 homens e mulheres, dos centros que realizavam a terapia, incluindo o Exodus International, com sede na Flórida, e da Narth. Ele entrevistou cada um profundamente por telefone, perguntando sobre seus impulsos sexuais, sentimentos, comportamentos antes e depois da terapia, classificando as respostas em uma escala.

Spitzer então comparou os resultados de seu questionário, antes e depois da terapia. “A maioria dos participantes relatou mudança de uma orientação predominante ou exclusivamente homossexual antes da terapia, para uma orientação predominante ou exclusivamente heterossexual no ano passado”, concluiu seu estudo.

O estudo –apresentado em um encontro de psiquiatria em 2001, antes da publicação– tornou-se imediatamente uma sensação e grupos de ex-gays o apontaram como evidência sólida de seu caso. Afinal aquele era Spitzer, o homem que sozinho removeu a homossexualidade do manual de transtornos mentais. Ninguém poderia acusá-lo de tendencioso.

Mas líderes gays o acusaram de traição e tinham suas razões.

O estudo apresentava problemas sérios. Ele se baseava no que as pessoas se lembravam de sentir anos antes – uma lembrança às vezes vaga. Ele incluía alguns defensores ex-gays, que eram politicamente ativos. E não testava uma terapia em particular; apenas metade dos participantes se tratou com terapeutas, enquanto outros trabalharam com conselheiros pastorais ou em grupos independentes de estudos da Bíblia.

Vários colegas tentaram impedir o estudo e pediram para que ele não o publicasse, disse Spitzer.

Mas altamente empenhado após todo o trabalho, ele recorreu a um amigo e ex-colaborador, o dr. Kenneth J. Zucker, psicólogo-chefe do Centro para Vício e Saúde Mental, em Toronto, e editor do “Archives of Sexual Behavior”, outra revista influente.

“Eu conhecia o Bob e a qualidade do seu trabalho, e concordei em publicá-lo”, disse Zucker em uma entrevista na semana passada.

O artigo não passou pelo habitual processo de revisão por pares, no qual especialistas anônimos avaliam o artigo antes da publicação.

“Mas eu lhe disse que o faria apenas se também publicasse os comentários” de resposta de outros cientistas para acompanhar o estudo, disse Zucker.

Esses comentários, com poucas exceções, foram impiedosos. Um citou o Código de Nuremberg de ética para condenar o estudo não apenas como falho, mas também moralmente errado.

“Nós tememos as repercussões desse estudo, incluindo o aumento do sofrimento, do preconceito e da discriminação”, concluiu um grupo de 15 pesquisadores do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, do qual Spitzer era afiliado.

Spitzer não deixou implícito no estudo que ser gay era uma opção, ou que era possível para qualquer um que quisesse mudar fazê-lo com terapia. Mas isso não impediu grupos socialmente conservadores de citarem o estudo em apoio a esses pontos, segundo Wayne Besen, diretor executivo da Truth Wins Out, uma organização sem fins lucrativos que combate o preconceito contra os gays.

Em uma ocasião, um político da Finlândia apresentou o estudo no Parlamento para argumentar contra as uniões civis, segundo Drescher.

“Precisa ser dito que quando este estudo foi mal utilizado para fins políticos, para dizer que os gays deviam ser curados –como ocorreu muitas vezes. Bob respondia imediatamente, para corrigir as percepções equivocadas”, disse Drescher, que é gay.

Mas Spitzer não conseguiu controlar a forma como seu estudo era interpretado por cada um e não conseguiu apagar o maior erro científico de todos, claramente atacado em muitos dos comentários: simplesmente perguntar para as pessoas se elas mudaram não é evidência de mudança real. As pessoas mentem, para si mesmas e para os outros. Elas mudam continuamente suas histórias, para atender suas necessidades e humores.

Resumindo, segundo quase qualquer medição, o estudo fracassou no teste do rigor científico que o próprio Spitzer foi tão importante em exigir por muitos anos.

“Ao ler esses comentários, eu sabia que era um problema, um grande problema, e um que eu não podia responder”, disse Spitzer. “Como você sabe que alguém realmente mudou?”

Reconhecimento
Foram necessários 11 anos para ele reconhecer publicamente.

Inicialmente ele se agarrou à ideia de que o estudo era exploratório, uma tentativa de levar os cientistas a pensarem duas vezes antes de descartar uma terapia de cara. Então ele se refugiou na posição de que o estudo se concentrava menos na eficácia da terapia e mais em como as pessoas tratadas com ele descreviam mudanças na orientação sexual.

“Não é um pergunta muito interessante”, ele disse. “Mas por muito tempo eu pensei que talvez não tivesse que enfrentar o problema maior, sobre a medição da mudança.”

Após se aposentar em 2003, ele permaneceu ativo em muitas frentes, mas o estudo da terapia reparativa permaneceu um elemento importante das guerras culturais e um arrependimento pessoal que não o deixava em paz. Os sintomas de Parkinson pioraram no ano passado, o esgotando física e mentalmente, tornando ainda mais difícil para ele lutar contra as dores do remorso.

E, em um dia em março, Spitzer recebeu um visitante. Gabriel Arana, um jornalista da revista “The American Prospect”, entrevistou Spitzer sobre o estudo sobre terapia reparativa. Aquela não era uma entrevista qualquer; Arana se submeteu à terapia reparativa na adolescência e o terapeuta dele recrutou o jovem para o estudo de Spitzer (Arana não participou).

“Eu perguntei a ele sobre todos os seus críticos e ele disse: ‘Eu acho que eles estão certos’”, disse Arana, que escreveu sobre suas próprias experiências no mês passado. Arana disse que a terapia reparativa acabou adiando sua autoaceitação e lhe induziu a pensamentos de suicídio. “Mas na época que fui recrutado para o estudo de Spitzer, eu era considerado uma história de sucesso. Eu teria dito que estava fazendo progressos.”

Aquilo foi o que faltava. O estudo que na época parecia uma mera nota de rodapé em uma grande vida estava se transformando em um capítulo. E precisava de um final apropriado –uma forte correção, diretamente por seu autor, não por um jornalista ou colega.

Um esboço da carta já vazou online e foi divulgado.

“Você sabe, é o único arrependimento que tenho; o único profissional”, disse Spitzer sobre o estudo, perto do final de uma longa entrevista. “E eu acho que, na história da psiquiatria, eu não creio que tenha visto um cientista escrever uma carta dizendo que os dados estavam lá, mas foram interpretados erroneamente. Que tenha admitido isso e pedido desculpas aos seus leitores.”

Ele desviou o olhar e então voltou de novo, com seus olhos grandes cheios de emoção. “Isso é alguma coisa, você não acha?”

- Benedict Carey, para o The New York Times (original aqui)
Tradução de George El Khouri Andolfato, para o UOL Internacional

OPAS/OMS condena tratamentos para ‘curar’ homossexualidade


Serviços que se propõem a “curar” homossexuais carecem de justificativa médica e representam uma grave ameaça à saúde e ao bem-estar das pessoas afetadas, afirma a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) em comunicado divulgado no último dia 17/05, Dia Internacional contra a Homofobia.

“A homossexualidade não é um transtorno nem requer cura. Em consequência, não existe indicação médica para a mudança de orientação sexual”, observou a Diretora da OPAS/OMS, Mirta Roses Periago.

O comunicado destaca que há consenso profissional de que homossexualidade é uma variação natural da sexualidade humana e não pode ser considerado como condição patológica. Contudo, vários órgãos das Nações Unidas constataram a existência de “clínicas” e “terapeutas” que promovem tratamentos que pretendem mudar a orientação sexual de não heterossexuais. Não há estudos científicos que demonstrem eficiência de esforços nesse sentido.

Entretanto, há muitos testemunhos sobre graves danos à saúde mental e física que tais serviços podem causar. A repressão da orientação sexual vem sendo associada a sentimentos de culpa, vergonha, depressão, ansiedade e até mesmo suicídio. Como agravante, há um crescente número de relatos de tratamentos degradantes e de violência física e sexual como parte da “terapia”, geralmente oferecida ilegalmente.

O documento faz um apelo para que governos, instituições acadêmicas, associações profissionais e imprensa exponham essas práticas e promovam o respeito à diversidade. “As práticas devem ser denunciadas e sujeitas a sanções dentro da legislação nacional”, observou Roses.

Para enfrentar socialmente este problema, a OPAS/OMS apresenta uma série de recomendações que podem ser acessadas no posicionamento técnico, aqui (em espanhol).

(Fonte: ONU)

Terra


Morreram com sete anos e um dia de diferença: Dorothy Stang, missionária norte-americana na região amazônica, que adotou o Brasil como sua própria terra, foi assassinada por seis disparos em 12 de fevereiro de 2005; Dom Ladislao Biernaski, Bispo de San José dos Pinhais e presidente da Comissão Pastoral da Terra ou CPT, organização da Igreja brasileira, morreu de câncer em 13 de fevereiro de 2012.

Dorothy Stang, conhecida localmente como Irmã Dorothy, tornou-se famosa depois de seu trágico final. Vivia em Anapu (uma cidade do Pará), onde promovia um projeto de desenvolvimento sustentável que fomentava a produção familiar cuidando do meio ambiente. Foi assassinada porque seu projeto entorpecia os interesses de proprietários de terras locais. Embora tanto os assassinos como os instigadores do assassinato tenham sido condenados, a irmã Dorothy não estaria contente hoje: O Código Florestal, em caminho de ser aprovado em Brasília, e as controvérsias ao redor da barragem de Belo Monte (terceiro maior complexo hidrelétrico do mundo) abrirá ainda mais as feridas na Amazônia e de seus habitantes indígenas, sem mencionar os danos causados por monocultivos de plantação de agronegócios.

Ladislau Biernaski era uma pessoa apaixonada pela terra, como Jelson Oliveira, membro da CPT escreveu na página web da Comissão: “Com as mãos cheias de calos e as unhas escuras desfrutava orgulhoso mostrando aos visitantes o jardim que ele pessoalmente se encarregara de cuidar, ao lado da singela casa onde vivia. Esta paixão pela terra, herdada de sua família de imigrantes polacos, levou-o a transformar a ‘terra’ numa causa evangélica e política. Com esta motivação, passou anos visitando os acampamentos e assentamentos da comunidade. Com frequência deixava de lado a mitra e outros símbolos episcopais para unir-se solidariamente ao povo, comemorando este compromisso profético pela justiça. Dom Ladislau tinha aprendido a compreender e a explicar a missão pastoral da Igreja aos pobres. Inspirado por essa clareza, participou de inúmeras manifestações dos pobres no Paraná, tanto no campo como na cidade”.

Estas duas testemunhas nos recordam duas coisas. A primeira é que a terra não é uma simples mercadoria ou um ativo financeiro —em contraste com o que os abutres que “açambarcam a propriedade das terras” fazem-nos crer: as multinacionais e os estados que numa década açambarcaram uma superfície que cobre oito vezes o Reino Unido—.

A terra, pelo contrário, é um valor de proteção especial, uma condição essencial para a afirmação da dignidade humana, e também é o “primeiro elemento” da cultura de uma comunidade e sua identidade. Inclusive quando a economia global atual é em grande parte subcontratada, a agricultura se transformou em objeto da lógica da bolsa de valores, e nossa vida cotidiana é cada vez mais mediada pela tecnologia. No entanto, a terra continua sendo especificamente o fator que constitui a base da universalidade dos direitos, já que nos chamamos seres humanos, e nascemos numa só terra (humus).

A segunda mensagem de Irmã Dorothy e Dom Ladislau é principalmente para aqueles que ainda repetem o estribilho de que a Igreja deve abster-se da política para dedicar-se às coisas do céu: O verdadeiro cristão é aquele que se esforça com todas suas forças para tornar o mundo, e de fato a terra, mais habitável.

- Stefano Femminis
Fonte: Mirada Global. Reproduzido via Amai-vos.

domingo, 20 de maio de 2012

"'A videira é Cristo"


Tem-se medo "do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico", da "liberdade de expressão que isso implica". Consequentemente, também existe o medo de permitir que "as vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas delas poderiam legitimamente levar à mudança". Uma mudança que gera o temor de perder "poder e controle".

A entrevista é de Ludovica Eugenio, publicada na revista
Adista, nº. 19, 14-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa chave de leitura, as irmãs norte-americanas, postas na mira pelo Vaticano com o comissariamento do seu órgão de coordenação mais importante, a
Leadership Conference of Women Religious (LCWR), tornam-se perigosas "porque, talvez, sejam o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja". (Saiba mais sobre o caso aqui)

A Ir. Jeannine Gramick é muito decidida: desde 2001, membro da congregação das Irmãs de Loretto, desde sempre dedicada ao ministério voltado às minorias sexuais e, nesse âmbito, cofundadora, juntamente com o Pe. Robert Nugent, da associação New Ways Ministry, empenhada com a busca da justiça social para gays e lésbicas.

A Ir. Gramick aceitou compartilhar com Adista as suas opiniões e o seu ponto de vista sobre a medida tomada recentemente pelo Vaticano e sobre o futuro da LCWR.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


Com o Vaticano II, a Igreja, povo de Deus, foi chamada a estar mais perto do mundo. As religiosas norte-americanas encarnaram esse apelo em uma ampla variedade de ministérios, vivendo profundamente no mundo e ouvindo as pessoas que, de diversos modos, se encontram em dificuldades. Pode nos dizer que tipos de ministérios vocês têm desenvolvido?
Antes do início dos anos 1960, as religiosas desenvolviam o seu papel principalmente como professoras nas escolas, ou como enfermeiras ou administradoras nos hospitais. Depois do Concílio Vaticano II, se comprometeram com inúmeras novas formas de ministério. Por exemplo, em atividades relacionadas à justiça e à paz, para mudar as políticas e as estruturas da sociedade e da Igreja, em benefício dos pobres e dos marginalizados. Esse papel foi levado adiante em um ministério de tipo político, que visava à educação e à pressão política, trabalhando com a mídia, com a rádio, com a TV e através de um ministério que se ocupa da ecologia e do cuidado com a terra. Muitas religiosas começaram a defender as pessoas gays e lésbicas e uma participação mais plena das mulheres em todas as formas de ministério eclesial, incluindo a ordenação. Além do tradicional ministério de serviço social, as irmãs foram ao encontro dos divorciados em segunda união, das prostitutas, dos presos, dos sem-teto e das mulheres maltratadas.

O Vaticano aceitou positivamente essa proximidade com o mundo e com as pessoas?
O Vaticano não objetou ao fato de que as irmãs se fizessem mais próximas do mundo e das pessoas, mas contestou as implicações dessa proximidade nos ministérios não tradicionais que se ocupam de política, de sexualidade, ou de ambos. Por exemplo, em 1983, o Vaticano obrigou a Ir. Agnes Mary Mansour a renunciar à congregação das Irmãs da Misericórdia por causa do seu cargo como diretora do Departamento de Serviço Social do Estado de Michigan, que financiava o aborto a mulheres pobres. No meu caso, em 1999, o Vaticano me ordenou a interromper o meu ministério pastoral voltado aos católicos gays e lésbicas, porque eu optara por afirmar que eu não compartilhava a posição tradicional sobre a moralidade da homossexualidade.

Houve inúmeros casos menos conhecidos em que bispos diocesanos puseram em prática as posições vaticanas. Por exemplo, as religiosas receberam a ordem de renunciar à direção de órgãos que tivessem relação com o HIV-Aids, porque promoviam o uso dos preservativos. Algumas religiosas foram demitidas dos seus cargos paroquiais ou diocesanos porque apoiavam a ordenação sacerdotal feminina.

A atual avaliação doutrinal da LCWR pela Congregação para a Doutrina da Fé constitui mais um exemplo disso. As duas objeções concretas citadas pela Congregação foram a posição da LCWR sobre a homossexualidade e sobre a ordenação feminina.

O seu ministério levou a sua congregação, a das Irmãs Escolares de Notre Dame, a excluí-la porque a senhora tinha optado por não obedecer ao silêncio imposto e, em 2001, entrou na Congregação das Irmãs de Loretto que, ao contrário, a apoiaram em seu ministério. Desde então, não teve mais problemas com o Vaticano?
Entre 2001 e 2009, o Vaticano enviou nove cartas à presidente das Irmãs de Loretto referentes ao meu ministério. Em cada uma delas, substancialmente, se afirmava que eu tinha que interromper o meu ministério em favor das pessoas LGBTQ ou seria afastada da vida religiosa. As minhas coirmãs optaram por não me afastar e, neste momento, nem o Vaticano o fez.

Desde 1956, a LCWR representa a maioria das congregações religiosas femininas dos EUA. Quais foram as suas maiores conquistas, atividades e interesses?
A LCWR oferece uma vasta gama de atividades e de programas que são de apoio às superioras e visam a reforçar as relações entre os componentes da LCWR com os outros grupos importantes. Entre essas atividades, há uma oficina anual, que inclui um retiro, para as novas líderes e um manual que ajuda a desenvolver as competências importantes para a Leadership. Ela também produz regularmente materiais escritos, como uma publicação trimestral sobre justiça social, um livrinho de oração e reflexão, um jornal chamado Occasional Papers e e informações sobre justiça e paz.

Acredito que a conquista mais importante da LCWR foi a de ter conscientizado todas as religiosas que a ela aderem, mas também a um público mais amplo, de todos os tipo de temas que envolvem a justiça. Ela oferece reflexões teológicas, análises sociais e sugestões para a ação sobre muitas questões, como a justiça econômica, a defensa dos pobres, o diálogo com o Islã e inter-religioso, a pena de morte, a reforma das políticas de imigração, as mudanças climáticas e as questões ambientais, a reforma da saúde, as armas nucleares, o testemunho contra a tortura, o cancelamento da dívida para os países empobrecidos, o tráfico de órgãos e a militarização do espaço, e muitos outros assuntos ligados à justiça. A lista é praticamente inesgotável.

Nos últimos anos, as religiosas estiveram no alvo do Vaticano. Além de casos individuais, as congregações religiosas femininas sofreram uma visitação apostólica. O mesmo aconteceu com a LCWR. Há uma relação entre as duas visitas apostólicas? Do que Roma tem medo?
Eu não fui demitida porque a Congregação para a Doutrina da Fé não é a minha chefe e nunca me apoiou financeiramente nesse ministério. A Congregação, em 1999, afirmou que eu não deveria me envolver nesse ministério, mas, depois de um discernimento aprofundado, eu concluí que Deus continuava me chamando a ele, e então decidi não cooperar com a opressão do silêncio. Eu continuo me ocupando das pessoas gays e lésbicas.

Quanto ao resto, sim, acredito que haja uma ligação entre as visitas às congregações religiosas individuais e a avaliação doutrinal (ou inquisição doutrinal) da LCWR, ambas iniciadas no início de 2009. Muitas pessoas consideram que ambos os projetos de investigação foram iniciados para eliminar a discordância e varrer os últimos vestígios da renovação trazida pelo Vaticano II. No documento que apresenta o processo da visitação, uma das perguntas feitas às líderes das comunidades era: "Qual é o processo posto em prática para responder às coirmãs que expressam pública ou privadamente a sua discordância com relação ao ensino de autoridade da Igreja?".

A meu ver, a Cúria vaticana e o Papa Bento XVI têm medo do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico. Eles têm medo da liberdade de expressão que isso implica. Eles tem medo de permitir que vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas dessas vozes poderiam legitimamente levar à mudança. As personalidades autoritárias têm medo da mudança e de perder poder e controle.

Ken Briggs, autor de Double Crossed: Uncovering the Catholic Church’s Betrayal of American Nuns [Traídas: Revelando a traição das irmãs norte-americanas pela Igreja Católica], considera que as irmãs conservaram, mais do que qualquer outro grupo da Igreja, a ética e o espírito conciliar, apesar da vigorosa oposição dos últimos dois papas. As irmãs norte-americanas são perigosas porque são, talvez, o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja.

Como a senhora vê o futuro da LCWR à luz da nomeação de um comissário que irá rever seus estatutos e programas?
Penso que a LCWR tem duas opções: submeter-se ao controle do Vaticano ou dissolver a LCWR e reconstituí-la como órgão sem vínculos com o Vaticano. Acredito que a primeira escolha seria um repúdio dos mais de 40 anos de renovação nos quais as comunidades religiosas se comprometeram. Precisamos lembrar que foi pedido que as religiosas reavaliassem e atualizassem as suas comunidades para atender às exigências dos tempos. As religiosas levaram a sério esse pedido, e agora os resultados não agradam ao Vaticano. O Vaticano quer que as irmãs voltem à vida religiosa do passado.

A história tem demonstrado que a política de apaziguamento de Neville Chamberlain [primeiro-ministro do Reino Unido de 1937 a 1940] não satisfez os desejos de um ditador como Hitler. A Igreja Católica institucional, da forma como é atualmente, é um Estado totalitário religioso que, desde a época do papado de Pio IX, viveu uma centralização sempre crescente. O Concílio Vaticano II tentou trazer a Igreja de volta aos trilhos de uma comunidade de fiéis no caminho de Cristo, mas as forças curiais tentaram desviar a renovação nos últimos 30 anos ou mais.

A segunda opção, acredito eu, respeitaria a honra e a integridade das congregações religiosas que tentaram, com a sua fidelidade, manter vivos os valores de uma Igreja como comunidade de discípulos fiéis de Cristo. A reconstituição da LCWR como órgão que respeita o Vaticano, mas não abandona nada da sua autonomia, representaria uma aplicação do valor conciliar da subsidiariedade. Essa reconstituição seria uma vantagem para as religiosas, mas também para a Igreja como um todo. Isso afirmaria a necessidade de abandonar uma atitude de obediência cega em favor de uma capacidade de decisão moral moral.

Desde o Papa Pio IX, a Igreja deu provas de uma atmosfera de infalibilidade crescente, por força da qual se partia do pressuposto de que toda decisão, por parte de qualquer líder, aceita muitas vezes como infalível, devia ser obedecida sem discussão. O Vaticano II tentou mudar essa atitude, enfatizando a liberdade de consciência. Uma reconstituição mostraria que a Igreja consiste em muitos ramos enxertados em Cristo, a videira. O Vaticano é um dos ramos. As dioceses, congregações religiosas apostólicas, ordens monásticas e contemplativas, e movimentos leigos individuais são outros ramos. Devemos sempre nos lembrar de que Cristo, e não o Vaticano, é a videira.

Não sei por qual escolha a LCWR vai optar. Ela já cooperou com a Congregação para a Doutrina da Fé na sua investigação doutrinal, portanto não sei se a organização vai continuar colaborando na sua opressão, ao invés de resistir à tomada de posse por parte do Vaticano. Eu continuo alimentando a esperança de que as novas lideranças da LCWR sejam mais realista ao constatar que tudo isso tem a ver com o totalitarismo religioso e que rejeitarão a medida como invasão indevida e como afronta à natureza profética da vida religiosa.

Em que medida esse passo do Vaticano vai tocar na vida, no ministério e no papel das religiosas na Igreja dos EUA no futuro?
A intervenção vaticana terá efeitos enormes sobre a vida, o ministério e o papel das religiosas dos EUA e da Igreja mundial. Os efeitos irão depender do curso que a LCWR irá optar por tomar. Eu gostaria de ser otimista e acreditar que a decisão da LCWR irá fortalecer não só as religiosas, mas também a Igreja inteira. Rejeitar gentilmente o fato de serem dominadas por um sistema patriarcal que não compreende a natureza comunitária da Igreja será demonstrar que um cristão maduro não obedecem cegamente aos homens, mas segue o chamado de Deus na oração.

Essa escolha significará que não há necessidade de pessoas controladoras da ortodoxia ou de inquisições. Essa escolha significará que Cristo, e não o Vaticano, é a videira, e nós somos os ramos. Essa escolha significará que o Espírito de Deus guia a Igreja e que, com esse guia, não temos medo. Com esse guia, temos fé e confiança.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dividindo o mundo em caixinhas

Foto daqui

Da querida Kamila Oliveira, do Minoria é a Mãe (o blog que volta e meia diz tudo o que a gente queria dizer, mas não sabia como). Perfeito para, no dia internacional de combate à homofobia, nos lembrarmos de combater os preconceitos embutidos nos rótulos que nós mesmos construímos para classificar o mundo, as coisas e as pessoas:

Rótulos são facas de dois gumes. Quando precisamos falar de um movimento, de um grupo de pessoas, ou coisas do tipo, rotular é útil. Definir para as pessoas que existem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros ajuda, porque o ser humano têm essa necessidade de dividir tudo em coisas muito específicas para poder simplesmente começar a pensar sobre o assunto. O problema é que, como talvez você já tenha percebido na frase acima, existem muitos outros conceitos entre esses poucos que eu citei, mas são esses poucos que formam a sigla do movimento LGBT+.

Há alguns anos, a única sigla que eu conhecia era GLS - gays, lésbicas e simpatizantes. Depois eu vi GLBS - agora incluindo bissexuais. Um tempo depois o S saiu e entrou o T, e uma decisão recente da ABLGBT colocou o L na frente pra chamar mais atenção para a causa lésbica. Esse é só um exemplo de como definir pessoas pode ajudar outras a entender do que se trata um movimento.

Eu gosto de fazer uma analogia com caixas pra tentar explicar o que é um rótulo. É como se dentro da cabeça de todo mundo houvesse várias caixinhas, geralmente em pares. Em cima de cada caixinha dessas existe um rótulo: homossexual (essa se desdobra pra outras duas: gay e lésbica), heterossexual, gordo, magro, negro, branco, bonito, feio, rico, pobre, etc. A divisão é quase sempre binária. Dentro de cada uma dessas caixinhas está um pensamento pré-definido - um julgamento. O que acontece é que, quando uma pessoa te acha feio, por exemplo, ela automaticamente pega o pensamento que tá dentro da caixinha “feio” e aplica a você. São como primeiras impressões enlatadas - o problema é que não são primeiras impressões de verdade, pois já estavam lá bem antes de você.

Se você diz que é bissexual, você confunde as caixinhas. Porque é como se você fosse hetero e homo “ao mesmo tempo”, e não pode, só dá pra usar uma caixinha por vez. Se você é transgênero, as pessoas não sabem se te colocam na caixinha “homem” ou “mulher”, não sabem se te colocam em “homossexual” ou “heterossexual”, porque acham que é alguma coisa no meio, e nos pré-julgamentos não existe meio termo. Ou é isso ou é aquilo, e toda característica acaba caindo nessa armadilha; algumas, como as que eu citei, mais do que outras.

Todos os dias novos termos e conceitos aparecem. No mundo ideal eles provavelmente não seriam necessários, mas hoje em dia são. Isso acontece porque em determinados grupos as pessoas não precisam explicar e definir para as outras se gostam disso, daquilo, se são assim ou assado. Mas, de modo geral, é fácil perceber que isso é muito pontual e fora desse grupo de repente a necessidade de definição se torna tão necessária que você praticamente não existe em sociedade se não puder ser colocado em alguma caixa.

Talvez um dia seja tão desnecessário explicar a sexualidade queer quanto hoje é desnecessário explicar a heterossexualidade - a grande maioria das pessoas nunca realmente pára pra pensar por que é hetero, ou se escolheu ser hetero, ou em que momento da vida percebeu ser hetero. Talvez um dia a identidade de gênero não seja mais confundida com a sexualidade. Apesar de tudo que se vê por aí e apesar de muitas vezes pensar que está piorando, eu costumo ser otimista e pensar que, mais dia menos dia, as mudanças acontecem.

- Kamila Oliveira

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (1)

Foto: Tony Park

Publicamos a partir de hoje, em 6 partes, sempre às quintas-feiras pela manhã, o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Um novo quadro e sua história
Um importante sinal dos tempos atuais é a visibilização da população homossexual. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Escondiam-se em casamentos tradicionais e, quando muito, formavam guetos, que são espaços de convivência bem isolados. Hoje, fazem imensas paradas, junto com travestis e transexuais, estão presentes nas telenovelas, exigem respeito e reconhecimento, e reivindicam direitos. Esta população está em toda parte. Quem não é gay, tem parentes próximos ou distantes que são, bem como vizinhos ou colegas de trabalho que também são, velada ou manifestamente. Eles compõem a sociedade, visibilizam-se cada vez mais, e querem ser cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

A visibilização desta população também manifesta os problemas que a afligem. Há uma aversão a pessoas homossexuais, chamada homofobia, que produz diversas formas de violência física, verbal e simbólica contra estas pessoas. No Brasil são freqüentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há também o suicídio de muitos adolescentes que se descobrem gays, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por pressentirem a rejeição hostil da própria família e da sociedade. Há pais que já disseram: ‘prefiro um filho morto que um filho gay’. Esta hostilidade gera inúmeras formas de discriminação, e, mesmo que não leve à morte, traz freqüentemente tristeza profunda ou depressão.

Tamanha repulsa tem raízes históricas. Por muitos séculos, as relações entre pessoas do mesmo sexo foram consideradas como o pecado de Sodoma, que resultou no castigo divino destruidor (Gên 19). Este pecado foi a tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. No Brasil do século 18, por exemplo, então colônia de Portugal, as leis eclesiásticas consideravam a sodomia ‘tão péssimo e horrendo crime’ que “provoca tanto a ira de Deus, que por ele vêm tempestades, terremotos, pestes e fomes, e se abrasaram e subverteram cinco cidades, duas delas somente por serem vizinhas de outras onde ele se cometia”. Era um pecado indigno de ser nomeado, por isso chamava-se ‘pecado nefando’, do qual não se pode falar, muito menos se cometer [VIDE, D. Sebastião Monteiro. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Brasília: Senado Federal, 2007, p. 331-332]. Tribunais eclesiásticos, como a inquisição, julgavam os acusados de sodomia e entregavam os culpados ao poder civil para serem punidos, até mesmo com a morte.

Esta aversão ao homoerotismo é mantida no Brasil independente. O seu primeiro Código Penal, de 1823, determinava que “toda pessoa, de qualquer qualidade que seja, que pecado de sodomia por qualquer maneira cometer, seja queimado, e feito por fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa de nosso Reino, posto que tenha descendentes; pelo mesmo caso seus filhos e netos ficarão inábeis e infames, assim como os daqueles que cometeram crime de Lesa Majestade (traição) [TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.164].

O advento do Iluminismo trouxe importantes mudanças. A razão autônoma, independente da Revelação e do ensinamento da Igreja, deve governar a sociedade e conduzir seus dirigentes. Para os iluministas a prática sexual, se exercida sem violência ou indecência pública, não devia absolutamente cair sob o domínio da lei. Por isso julgavam uma atrocidade punir a sodomia com a morte. O código napoleônico em 1810 retirou o delito de sodomia da legislação penal. Por sua influência, muitos países latinos fizeram o mesmo décadas depois, inclusive o Brasil.

A secularização impulsionada pelo Iluminismo vai modificar a própria compreensão do homoerotismo. Em 1869, o escritor austro-húngaro Karol Maria Benkert criou o termo ‘homossexualidade’, um neologismo greco-latino que formou um conceito de diversidade psicofísica para substituir a sodomia. Este termo teve ampla difusão, e o homoerotismo se deslocou do âmbito religioso e moral para o âmbito biológico. Não era mais uma abominação, mas se tornou uma doença. Houve uma patologização, que permaneceu por muitas décadas. Na primeira metade do século 20, foram feitas no Brasil internações de pessoas por homossexualidade. Alguns médicos chegaram até a sugerir o tratamento com choque elétrico.

A partir do anos 1970, houve uma crescente despatologização da homossexualidade. O movimento político-social da população LGBT [Sigla que significa: lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Também se usa o termo gay de modo genérico, para as diversas formas de homossexualidade] trouxe uma sensilibidade maior à sua realidade. A Associação Psiquiátrica Americana retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. Na década seguinte, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina retirou a homossexualidade da lista de desvios e transtornos sexuais. Em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia afirmou que a homossexualidade não é doença, nem distúrbio, nem perversão; e proibiu os psicólogos de colaborarem em serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Isto significa que, definitivamente, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda a vida. De maneira alguma se trata opção, mas de condição ou orientação.

A homossexualidade também se encontra entre os animais. Desde o início do século 20, ela é descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. O comportamento homoerótico foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo coelhos, cães, gatos, antílopes, carneiros e leões. A homossexualidade entre primatas não humanos já está amplamente documentada na literatura científica, incluindo macacos bonobos e chimpanzés, os parentes mais próximos do homem na cadeia evolutiva [VARELLA, Dráuzio. “Violência contra homossexuais”, 4 dez. 2010]. Não se pode de modo algum atribuir a sua causa ao pecado original.

Continua na próxima quinta-feira, 24/5/12

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Comprometidos com a dignidade humana

Foto via Blue Pueblo

Pouco mais de um ano depois, reproduzimos a nota abaixo, emitida no dia 11/05/11 pelo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), tanto para marcar o primeiro aniversário da decisão do STF em prol da união civil homoafetiva, como para assinalar que nem tudo é fundamentalismo entre os religiosos e, sim, é possível uma leitura das Escrituras e dos acontecimentos no mundo mais próxima do olhar amoroso e inclusivo de Cristo.

“... o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com teu Deus.” Miqueias 6. 8.

Recebemos com serenidade a recente decisão unânime do STF sobre o reconhecimento jurídico das uniões estáveis de pessoas homoafetivas. Tal aprovação representa um importante avanço em nossa sociedade na busca pela superação de todas as formas de preconceito e um aperfeiçoamento no conceito de igualdade e cidadania numa sociedade marcada pela pluralidade, mas também por profundas desigualdades e discriminações;

Nosso reconhecimento é feito com base em sólida tradição de defesa da separação entre igreja e estado (e entre religiões e estado), que não significa a sujeição de um campo ao outro, nem a substituição de um pelo outro, mas a necessária junção da autonomia institucional e legal com a liberdade de expressão e o pluralismo. Ou seja, a IEAB sente-se perfeitamente à vontade para expressar sua posição porque sua prática a recomenda e porque entende que o estado deve ser continuamente acompanhado em suas decisões, em qualquer esfera de poder, aprovando-o ou questionando-o em suas ações; - A decisão do STF levanta sérios desafios a todos os cristãos de todas as igrejas, pois requer abertura para reconhecer que as relações homoafetivas são parte do jeito de ser da sociedade e do próprio ser humano. A partir de agora, os direitos desse grupo tornaram-se iguais aos de todas as outras pessoas. Reconhecemos que há ainda muito que fazer nesse campo, pastoral e socialmente, para afirmar a dignidade da pessoa humana e seus direitos. Sabemos que um profundo e longo debate deve acontecer na sociedade brasileira a este respeito, e a IEAB não está isenta de nele participar, com profunda seriedade e compromisso de entender as implicações do evangelho de Jesus Cristo em nosso tempo e lugar; - Reconhecemos que tal decisão é resposta à prece que sempre fazemos em nossos ritos de Oração Matutina/Vespertina: “Ó Senhor, que nos governas... ao teu misericordioso cuidado encomendamos nossa Pátria... concede a todas as Autoridades, sabedoria e força para conhecer e praticar a tua vontade. Enche-os de amor à verdade e à justiça...” (Livro de Oração Comum, pg. 38). Assim, afirmamos nosso compromisso pastoral para com essas pessoas. Cremos que a promessa declarada no rito do batismo: “És de Cristo para sempre!” (Livro de Oração Comum pag. 169) repousa sobre todos nós e, portanto, não nos cabe decidir quem pertence ou não a Deus.

Neste momento de mudança, reafirmamos nosso compromisso de ser uma Igreja que Acolhe e Serve, reconhecendo o sensus fidelium declarado na última CONFELIDER: defender os Direitos Humanos e o Direito à Cidadania plena. Entendemos que esse compromisso é decorrência dos votos que fazemos perante o altar em nossa confirmação: "Defenderás a justiça e a paz para todos, respeitando a dignidade de todo ser humano" (Livro de Oração Comum pg 179);

Louvamos a Deus pelos avanços conquistados, entendendo que fazem parte da sutil e gradativa inspiração do Espírito Santo para transformar nossa sociedade. Conclamamos todos os anglicanos e as anglicanas a acolher as pessoas que nos buscam, a orar por elas e acompanhá-las pastoralmente, entendendo que a Igreja é um edifício ainda em construção e que a totalidade de sua membresia só é conhecida pelo próprio Cristo, Senhor da Igreja.

No amor inclusivo de Jesus Cristo, nosso Senhor e Rei e supremo juiz dos vivos e mortos,

Dom Maurício José Araújo de Andrade
Bispo Primaz

Uma carta do papa em 2020

Foto daqui

No livro The content of faith, do teólogo jesuíta Karl Rahner (1904-1984), organizado a partir de seus escritos, consta o trecho abaixo, intitulado "Uma carta do papa em 2020". Expressa-se nele a profecia do pensamento de Rahner, em um artigo que oferece um vislumbre de esperança de que, um dia, algum papa será suficientemente corajoso para enviar tal carta à Igreja e ao mundo.

Este breve ensaio parece ser particularmente relevante neste momento na história, em que as rodas parecem estar caindo do carro institucional mais seriamente do que em qualquer momento anterior. O que Karl Rahner escreve aqui se encaixa muito bem com os muitos pensamentos já publicados nos últimos tempos, incluindo os de Dom Geoffrey Robinson.

O artigo foi publicado no sítio australiano
Catholica, 03-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Embora eu não atribua a nenhum dos meus antecessores, ou ao menos aos meus predecessores imediatos, uma falta de humildade e de modéstia, parece-me que hoje um papa [no ano 2020] pode, até mesmo publicamente, fazer esta autoavaliação crítica mais claramente do que costumava ser feita. Pessoas importantes na história do mundo e da Igreja costumaram ter a ideia de que a sua autoridade legítima se colocaria em risco se deixassem seus "súditos" ver que eles também eram apenas seres humanos que cometiam erros. Era somente após a sua morte que os historiadores da Igreja eram autorizados a descobrir falhas, erros ou hesitações em um papa.

Mas, se eu estou convencido de que, mesmo como papa, eu continuo sendo um ser humano que irá cometer falhas, talvez até mesmo graves, por que não me seria permitido reconhecer isso mesmo durante a minha vida? Será que a mentalidade de pessoas que realmente não importam tanto hoje é a de que a autoridade não sofre danos, mas ao contrário lucra quando o seu portador admite abertamente as limitações de um pobre e pecador ser humano, e não tem medo de reconhecê-los? Por enquanto, ao menos, estou disposto a ouvir discussões públicas em minha presença, eventualmente para aprender com os outros e para reconhecer que eu aprendi.

Mesmo como papa, eu gostaria de continuar aprendendo. Deixe que as pessoas percebam que um papa pode errar, cometer equívocos, estar mal informado e escolher o tipo errado de assistentes. Tudo isso é evidente, e eu acredito que nenhum papa recente duvidou seriamente disso. Mas por que tal evidência deve permanecer oculta e encoberta? Pedro permitiu que Paulo o confrontasse frente a frente, e eu suponho que Pedro reconheceu que Paulo estava certo. Mesmo hoje, um papa pode se permitir algo desse tipo. Eu, pessoalmente, reivindico esse direito e estou disposto, se necessário, a permitir que a minha autoridade sofra uma perda, o que seria meu dever aceitar.

Eu não deverei ser um grande papa. Eu não tenho os meios para isso. Portanto, não vou ter um complexo de inferioridade se eu parecer bastante modesto em comparação com os grandes papas do século XX. Para mim, isso parece ser providencial. Tenho a sensação de que, através da sua grandeza, esses papas tiveram uma influência na Igreja que provavelmente nunca pretenderam ter e que teve seu lado questionável, uma influência que eu vou tentar compensar com o meu pontificado mais modesto.

Não é verdade? Esses papas não fomentaram involuntariamente uma mentalidade na Igreja que superestima a função apropriada do papa, de acordo com o dogma e de como ela foi na maior parte da história dos papas? Essa mentalidade não implica que um papa deva ser, em todos os aspectos, o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais pernate o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens ?

Eu não vou me tornar um papa desses e não considero necessário isso a todos. O papa tem uma tarefa na Igreja que é estritamente limitada, apesar da jurisdição universal e da plenitude da autoridade de ensino mencionada pelo Concílio Vaticano Primeiro. Vou exercer essa plenitude de poder, mas dentro dos limites impostos sobre mim pelas limitações da minha própria natureza. Isso e nada mais.

Eu não vou ser o mais santo da Igreja. Perante Deus, eu sou menos do que os santos que vivem hoje na Igreja, aqueles que rezam em silêncio, aqueles que são misticamente arrebatados, aqueles que perecem por causa de sua fé nas prisões dos inimigos de Cristo e da Igreja, aqueles que amam altruisticamente, como Teresa de Calcutá, todos os heróis desconhecidos e não recompensados do dever e da abnegação cotidianos.

Ninguém pode negar que até mesmo um Inocêncio III empalidece diante de Francisco de Assis, e que os papas Pio dos dois últimos séculos são menos importantes do que um Cura d'Ars ou do que uma Santa Teresinha de Lisieux. Você podem dizer, é claro, que eu estou comparando realidades que não podem ser comparadas. No entanto, na vida da Igreja e diante do tribunal eterno de Deus, santos e grandes teólogos como um Tomás de Aquino ou um John Henry Newman são mais importantes do que a maioria dos papas, e sobretudo mais importante do que jamais vou ser.

Há muitos carismas na Igreja, e o papa não tem todos em si mesmo. Se é verdade que podemos realmente compreender apenas os nossos próprios carismas, então até mesmo um papa deve dizer a si mesmo que ele não pode avaliar tudo o que vive na Igreja, e que só Deus, e não o papa, se encontra onde tudo o que é bom e santo na Igreja se funde em uma sinfonia perfeita.

É por isso que nenhum dano será feito se o meu pontificado corrigir, em certa medida, a mentalidade dos cristãos piedosos que equivocadamente esperam dos papas aquilo que eles podem receber apenas dos santos e das grandes mentes da Igreja e, possivelmente, de si mesmos.

Será que há cristãos, e talvez papas, que se lembram de que, ao rezar o Pai Nosso com esperança impaciente pela vinda do reino eterno de Deus, eles estão rezando também pelo fim do papado?

terça-feira, 15 de maio de 2012

Deputado gay na universidade católica

Foto daqui

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), assumidamente homossexual, defende no Congresso Nacional a criminalização da homofobia e o casamento gay. Ele esteve em duas universidades católicas participando de debates: em Recife, onde se realizou um congresso sobre direito homoafetivo, e no Rio de Janeiro, tratando da agenda LGBT no legislativo. Pode-se perguntar por que estas instituições católicas promovem eventos dessa natureza. As aspirações e as reivindicações do movimento gay não divergem dos ensinamentos da Igreja?

Antes de tudo, a universidade católica é uma ‘universidade’, isto é, um universo de encontro dos saberes, da diversidade de pontos de vista, da pesquisa e do ensino que passam pelo debate aberto e respeitoso. O simples fato de ser universidade já justifica plenamente um evento assim. Além disso, o humanismo de inspiração cristã deve permear esta instituição, sem diminuir em nada a sua competência acadêmica.

Não se pode ficar alheio à realidade da população LGBT, que carrega um estigma milenar de uma dura discriminação e é vítima de uma brutal hostilidade: a homofobia. Não se pode ficar alheio ao seu anseio destas pessoas por segurança, liberdade e igualdade. O Concílio Vaticano II, iniciado há 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS,1).

Por isso, a universidade católica faz uma reflexão séria e um debate qualificado sobre a cidadania da população LGBT. Assim, ela pode fomentar ideias inovadoras que beneficiam a sociedade e a vida política, arejam os ambientes cristãos e alavancam as transformações tão necessárias ao nosso tempo. Fica ainda a questão: como podem os fieis católicos lidar com a oposição da alta hierarquia ao reconhecimento do casamento gay, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nocivo a um reto progresso da sociedade?

O conceito de ‘cristão adulto’, sobre o qual refletiu o teólogo Karl Rahner, pode contribuir bastante neste debate. No início do século 20, o magistério da Igreja rechaçava a teoria da evolução, ensinando que os primeiros capítulos da Bíblia, que narram a criação do homem, tinham que ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como ele deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções de sua fé realmente centrais e existencialmente significativas, para nelas se aprofundar sempre mais; e por fim rejeitar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

Não se deve colocar todas as coisas em termos de tudo ou nada. O Concílio Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR,11). Este nexo pode ser maior ou menor. Há ensinamentos de mais relevância, e outros de menos relevância. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e de sua consciência, e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o respaldo institucional e eclesial desejado.

Muitas pessoas hoje estão plenamente convencidas de que o casamento gay é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano Barack Obama. A união homo e a união hétero se destinam a pessoas diferentes. É cada vez mais evidente que não há concorrência entre estas formas de união, e nem ameaça à família ou à sociedade. Muitos cristãos pensam assim. Sabem que Deus é amor e compreensão, e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Estes cristãos devem ser encorajados a dar testemunho desta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido respaldo de suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Os eventos promovidos por estas universidades católicas ajudam a trilhar este caminho, que é belo e humanizante.

Equipe Diversidade Católica

* * *

Atualização em 22/05/12:
Leia aqui a nota publicada no jornal da PUC (de circulação no campus) sobre a visita do deputado à universidade. :-)

Não temos medo de pensar. Temos medo de não amar.

Foto: David Talley

Texto escrito a quatro mãos por Lucas Lujan e Suênio Alves e publicado no extraordinário blog Fora da Zona de Conforto em 4 de agosto de 2009. Fica para reflexão... :-)

Não temos medo de (re)pensar conceitos sobre Deus. Temos medo de não (re)amar como Cristo, quem na realidade não amamos: os mendigos, os pobres, os excluídos, os marginalizados, as crianças africanas, os homens e mulheres de Darfur.

Não temos medo de incertezas. Temos medo que nosso Amor deixe de ser nossa bandeira do Reino de Deus.

Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema.

Não temos medo de questionar dogmas. Temos medo de que os dogmas impeçam a transformação de vidas.

Não temos medo do inferno. Temos medo de que nossas mãos se fechem, e não possam ajudar o nosso próximo a sair de sua existência-inferno. Ou pior, que as nossas próprias mãos sejam as quais o empurra para esta existência-inferno.

Não temos medo de devanear teorias loucas. Temos medo que a loucura desse mundo violento cegue nossos olhos a ponto de sempre que pararmos num farol, nesta cidade-sombria, fechemos nossos vidros para a sinceridade dos filhos da injustiça.

Não entendemos como problema sair do molde da teologia sistemática. Temos medo de sistematizar Deus e modela-lo a algum padrão.

Nós não temos medo de chorar por nós mesmos. Nós temos medo de que não mais choremos o choro dos outros.

Não sentimos culpas pelas nossas dúvidas. Mas pedimos que nos lembre sempre de amar como Cristo.

Não temos medo ter uma fé cheia de espelhos em enigmas e despedaçada, que não tem a precisão de uma fé “face a face”. Temos medo de perder o que existe de mais precioso: Amar.

Não temos medo de balançar alicerces religiosos construídos por pensamentos humanos. Temos medo de perder a doçura e a simplicidade de Jesus.

Não temos medo de sermos rejeitados pela instituição. Temos medo da hipocrisia religiosa.

Não temos medo de sermos chamados de hereges. Temos medo de compactuar com o sistema religioso e seus interesses, e esquecermos de amar pessoas.

Não temos a pretensão que nossos argumentos tenham todos os versículos a favor, e assim entrarmos numa guerra de versículos. Temos medo que nós não cumpramos aquilo que Cristo chamou de o resumo da lei e dos profetas: Amar a Deus e ao próximo.

Não temos medo de nos manifestar a favor de alguém. Desde que esse alguém não se esqueça que o conceito central do cristianismo é o amor.

Aprendemos que não podemos ficar presos às amarras da religião e da instituição.

Aprendemos que Deus está acima da religião.

Aprendemos que no Reino não importa o que se pensa, importa o que se ama.

Aprendemos a olhar pessoas como “filhos de Deus”, e amá-las incondicionalmente.

Aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.

Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.

domingo, 13 de maio de 2012

"Eu tenho orgulho do meu filho gay"

Imagem via Facebook

Há pouco menos de dois meses a professora aposentada Luci de Carvalho se submeteu a uma cirurgia para implantar uma prótese no joelho. Durante o período pré e pós cirúrgico foi assistida por sua nora, Aline, que é enfermeira e chegou a integrar a equipe cirúrgica. As duas ficaram amigas desde que a enfermeira começou a namorar a filha mais velha de Luci, a promoter de eventos Aline Carvalho.

Quando o bailarino Wesley Batista separou-se de seu primeiro companheiro, Moisés, depois de quatro anos e meio morando juntos, sua mãe, a manicure Eliane Batista, foi quem mais sentiu o baque. “Eu chorei mais que Wesley (risos). Era muito apegada ao Moisés e via ele sofrendo daquele jeito... Ele foi uma pessoa muito importante na vida do Wesley, o primeiro namorado, era um porto seguro. Fiz de tudo para que o casamento deles voltasse, mas não deu certo”, lembra Eliane.

Já a gerente de loja Rocélia Melo foi mais prática. Ao ver o DJ Victor Wesley, seu primogênito, insône pela casa, deprimido por conta do fim do namoro com Rafael, ela se dispôs a levar o então adolescente de 17 anos à casa do ex-namorado para tentar uma reconciliação. “Comprei uma caixa de bombons e um cartão para o Victor escrever e fui bater na casa do Rafael com ele. Não dava mais para ver meu filho sofrendo tanto e não fazer nada. Como ele não dirigia, peguei o carro e eu mesma fui”, conta Rocélia.

Aceitação
A comerciária, a professora e a manicure não se conhecem, mas as três partilham de uma mesma atitude. Todas elas lidam tranquilamente com a homossexualidade de seus filhos.

Por causa destas mulheres, nestas três famílias, a diversidade sexual não é razão para distanciamento. “Não tem porque ser diferente. Ser homossexual não é desvio de caráter. Meu filho é gay, não é drogado nem marginal. Amo meu filho agora mais que nunca”, declara Eliane.

Luci não fica atrás. Segundo ela, a família ficou muito mais unida depois que passou a conviver harmoniosamente com a homossexualidade de Aline. “Ela é minha filha, não faz diferença se é hétero ou não”, pontua.

Rocélia aponta vantagens no jogo aberto em sua casa. “Somos uma família feliz. A gente sabe onde ele anda, o que está fazendo, sem a preocupação de antes”.

Reação materna inicial foi de resistência
Hoje, pode até parecer fácil. Mas não foi sempre assim na relação de Wesley e Eliane e Luci e Aline. Quando os filhos saíram do armário (expressão comumente usada para definir o ato de assumir a homossexualidade), enfrentaram a resistência inicial das mães.

Recém-chegada do Rio de Janeiro, onde Aline nasceu e cresceu, Luci mandou a filha estudar em Manaus (AM), Natal (RN), João Pessoa (PB) e até de volta à capital fluminense na ilusão que a distância de Fortaleza iria “reverter sua homossexualidade”.

“Eu namorava com homens no Rio, vim me entender (como homossexual) aqui. Quando falei para minha mãe, ela me mandou estudar fora para ver se ‘passava a vontade’. Claro que não adiantou”, ri-se Aline, que, quando voltou para Fortaleza, ainda foi encaminhada a um psicólogo - que tinha a mesma missão (impossível) dos estudos distantes.

Já Eliane Batista caiu em depressão quando seu filho Wesley se assumiu gay, apesar de já ter suas desconfianças sobre a sexualidade do rapaz. “Mãe já sabe, né? Só não quer acreditar. Nenhuma mãe se engana a respeito disso”, garante. “Mas ele tinha namoradas, era muito bonito... Na verdade, eu fiquei apavorada. Sofri pelo preconceito que ele iria enfrentar“.

Passado o choque inicial, ambas asseguram que as dores do processo de aceitação da homossexualidade dos filhos (que chega a levar anos) é recompensada pela qualidade de relacionamento que eles ganham com o correr do tempo.

Histórias da hora de "sair do armário"
No dia seguinte à primeira vez que beijou um rapaz na boca, Victor Wesley, então com 16 anos, chegou para a mãe e sem rodeios disparou: “Mãe, eu sou gay”. Rocélia olhou para o filho, sorriu e respondeu: “Eu já sabia”. Minutos antes, o adolescente tinha dito a mesma frase para a avó, com quem era mais apegado. “Minha avó disse que tinha mulher demais no mundo para eu virar gay (risos). Mas, recentemente teve um primo que saiu do armário e a mãe dele não aceitou. Quando a avó soube foi lá conversar com ela”, conta o DJ.

Aline Carvalho contou primeiro para o pai, que ganhou a incumbência de “amaciar” a mãe. “Até então eu tinha muito mais intimidade com ele, depois que ele falou com ela foi que eu cheguei junto e me assumi para a mamãe”,a firma.

Quando Wesley, aos 17 anos, mostrou a foto de Moisés para Eliane e disse que era seu namorado, a manicure caiu na gargalhada, achando ser uma brincadeira. “Demorou um pouco para ela entender que eu estava falando sério”, conta o bailarino.

A seguir, os vídeos com os depoimentos das três mães:






Fonte: Jornal O Povo (aqui, aqui, aqui e aqui)

Leia também:
Mães de gays saem em marcha hoje contra a homofobia

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Católicos leigos são mais liberais do que o Magistério, revela pesquisa americana

Foto daqui

Um novo estudo do Public Religion Research Institute revelou que os católicos americanos em geral não são menos favoráveis ao casamento gay ou a uniões civis entre pessoas do mesmo sexo do que os não-católicos, apesar da oposição do Magistério católico.

Outros estudos mostraram que os pontos de vista dos católicos leigos com relação ao aborto e à pesquisa com células-tronco embrionárias também se alinham com os de não-católicos. in line with those of non-Catholics.

Assim, perde um pouco o sentido os cientistas políticos falarem em voto católico nos EUA, onde, de maneira geral, acaba sendo igual ao voto da população em geral.

E aqui no Brasil?

(Fonte: rrstar.com)

"Por uma nova linguagem: teológica e erótica"

Foto: Herb Ritts

Compartilhamos aqui, há alguns dias, um belo texto publicado por Isaac Palma em seu blog, Ide por toda a Web. Nele, Isaac conclamava os cristãos a uma "espiritualidade cheia de Tesão". Seu apelo era dirigido aos evangélicos, meio a que pertence, mas aplica-se perfeitamente aos católicos, por que não? :-) O autor conseguiu expressar em palavras simples e diretas um anseio ardente e sincero por encontrar a Deus no seu tempo, no seu mundo, no seu coração – não em algum lugar distante e imaterial que pouco tem a ver com a realidade dos homens e mulheres de hoje. E, no entanto, foi aqui que Ele nos mandou buscá-lo, não foi? No pobre, no faminto, no sedento, no ferido, no exilado que estão do nosso lado, aqui e agora – é aí que Ele está. E não só no pobre de dinheiro, no faminto de comida, no sedento de água, no exilado de sua pátria, mas no pobre de alma, no faminto e no sedento de Deus, no exilado do Amor. Concordamos com Isaac: para tocar esse próximo é preciso que falemos palavras de hoje.

Em vista disso, reproduzimos hoje a continuação daquele primeiro texto, escrito a partir do debate por ele suscitado. De novo, embora ele dirija suas observações e comentários à realidade das Igrejas Evangélicas, em muitos (ainda que não em todos) segmentos católicos, em meios tanto religiosos quanto leigos, não encontramos situação muito diferente com relação à sexualidade humana e à expressão e vivência do desejo. Está mais que na hora de redimir Eros, como vimos recentemente no apelo do Bispo G. Robinson



Segue o texto, com grifos nossos.

A moral evangélica é casta, e seu objetivo é manter o “cabaço” alheio. E isso não apenas sexualmente, mas o status evangélico nos deixa bem longe de sermos fecundos na prática do Reino de Deus. Meu último texto, Por uma espiritualidade cheia de Tesão, pipocou na internet não pela profundidade daquilo que falei, mas principalmente pelas palavras que usei, ao fazer um paralelo entre a sexualidade e a vida cristã. Utilizei uma linguagem “profana” que não é sacralizada e nem muito comum nos corredores das igrejas. O mais interessante é o espanto que isso causa, porque toca na ferida. A igreja é mal resolvida sexualmente, prova disso é o medo de falar sobre sexo; só se fala disso quando sob o controle dos lideres. Somos levados a acreditar em qualquer baboseira “espiritual” para justificar uma opressão com desculpa de (pseudo)Santidade. Negamos o sexo porque negamos o corpo, na dicotomia grega que não conseguimos largar, porque se o corpo é mau, os seus desejos são ruins; portanto, o sexo, expressão máxima do corpo, só pode ser ruim. Se falar de sexo fora desses moldes é ruim, imagine falar de Deus a partir dessa linguagem.

Deus está para além do que os nossos discursos possam captar ou expressar; tudo o que conseguimos é, a partir de nossas experiências, dar significado a elas e interpretá-las à luz daquilo que chamamos de Deus. As nossas linguagens partem, ou deveriam partir, da nossa experiência humana; soa no mínimo estranho expressarmos Deus a partir de uma linguagem que não seja nossa. E é isso que fazemos pegamos emprestado de outras culturas e tradições uma determinada linguagem de espiritualidade, de determinado período histórico, que fazia sentido para aquele povo específico, e tornamos universal e eterno algo que é local e passageiro.

O mais estranho é que santificamos aquela cultura e forma de falar de Deus, e impedimos as novas linguagens e novas formas de falar de Deus. Assim, negamos o corpo, o sexo e as novas linguagens. Alguns devem se perguntar : “Mas por que a linguagem erótica?” e eu devolvo a pergunta : “Mas por que não a linguagem erótica?”. Já que é uma linguagem legítima e humana, por que não usá-la?

É muito comum vermos nas igrejas referências à vida cristã a partir do imaginário da guerra; usamos palavras como ‘batalha, guerra, vitória, inimigo, General etc”, fazemos diversas referências na nossa linguagem à experiência da guerra. Dentro disso, duas coisas me chamam a atenção: primeiro, nós não vivemos a experiência da guerra, o imaginário construído em torno dessa linguagem não faz parte do nosso cotidiano, falamos dessa experiência mas a mesma está distante de nós, copiamos isso das páginas da Bíblia, que é um texto cultural e temporal. Segundo, a mensagem de Jesus é uma mensagem de paz, e não de guerra. Na verdade Cristo vai contra a violência e a guerra, basta ler o sermão da montanha pra perceber isso. A ética da não-violência, que depois foi propagada por homens como Gandhi, Martin Luther King e Tolstoi, é uma proposta que nasceu em Jesus. Tal ética é totalmente anti-guerra; como então é mais cristão usar a linguagem de guerra do que a erótica? Já que, além de não fazer parte do nosso cotidiano, remete a um imaginário contrario à mensagem do Mestre a quem dizemos seguir? Ou Cristo era contra o sexo? Ou o prazer é algo “mundano”?

É preciso repensar e recriar as maneiras de falar; por isso proponho novas linguagens, mas que sejam nossas, que falem dos nossos anseios, que sejam humanas e por isso divinas. É preciso ainda ir além e ler as entrelinhas. É preciso sentir na carne antes de sistematizar, e que nossa sistematizações sejam, assim como nós, frágeis e passageiras, só assim poderemos anunciar o que é Eterno.

Que nossa expectativa pelo inaudito, pelo inédito e por tudo aquilo que ainda não foi feito esteja sempre direcionada pelo Espirito de Deus, que é Aquele que faz o que quer e onde quer, em detrimento das nossas vãs expectativas religiosas; afinal, sopra como vento, e quem saberá de onde vem ou para onde vai? Que nossa linguagem denuncie e renuncie aos males da religião, nos excite, e nos encha de Tesão. Que nossa virgindade espiritual e existencial fique pra trás. Que possamos entrar de cabeça em tudo aquilo que acreditamos. Que tudo o que falarmos seja sentido na carne; esse é o apelo de Jesus - e que seja o nosso, constantemente.

- Isaac Palma, no Ide por toda a Web (via PavaBlog)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Juventudes da Democracia Cristã do Chile a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo

"É importante para mim a questão do casamento gay, 
ou como gosto de dizer, 'casamento'. 
Porque, sabe, quando eu almocei hoje não foi um almoço gay. 
E, quando estacionei o carro, não foi um estacionamento gay."

As Juventudes da Democracia Cristã chilena (JDC) decidiram apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em seu 5º Congresso Ideológico e Programático. Militantes LGBT do Movimento de Integração e Liberação Homossexual (MOVILH) qualificaram de "histórica" a decisão, e parabenizaram a organização jovem.

“Essa iniciativa marca um antes e um depois na abordagem dada pelos setores democratas cristãos aos direitos humanos das minorias sexuais, que não só vai ao encontro da justiça como reafirma o princípio da igualdade garantido pela Constituição, sem discriminações de nenhum tipo”, declarou o MOVILH após a decisão das JDC. “Esperamos que o diretório nacional da Democracia Cristã e o partido como um todo acolham bem essa decisão da ala jovem e aproveitem a oportunidade para dar início a um debate amplo e renovado acerca dos direitos humanos das minorias sexuais, a não  discriminação e a importância de se contar com um Estado laico”. E o MOVILH aproveitou ainda para convocar "todas as juventudes políticas a tomar iniciativas similares, em que lancem o debate não só a respeito do casamento igualitário, mas também da adoção por casais do mesmo sexo”.

A Democracia Cristã do Chile é uma organização de inspiração cristã situada no centro do espectro político, que desde o final da ditadura de Pinochet faz parte da chamada Concertación, aliança de partidos de centro e esquerda que governou o Chile de 1990 a 2010.

Inserimos a seguir uma entrevista (sem legendas em português) realizada pela CNN Chile com Jorge Andrés Cash, presidente da JDC, que explica a decisão e revela que muitos membros da organização aproveitaram o intenso debate ocorrido para sair do armário e visibilizar-se:


Sem dúvida, uma decisão muito positiva, que acontece no calor da significativa reação social desencadeada no Chile após o brutal assassinato homofóbico do jovem Daniel Zamudio, manifesta também nas iniciativas de aprimoramento do projeto de lei contra a discriminação.

Nesse contexto, o MOVILH iniciou uma campanha em que atores, atrizes, jornalistas e celebridades famosos contam em vídeo casos reais de discriminação. Mais informações aqui.

(Fonte: Cristianos Gays)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...