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segunda-feira, 5 de março de 2012

Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considera que “discurso de ódio não é liberdade de expressão”

Foto daqui

Em dezembro de 2004, um grupo de quatro jovens distribuiu aproximadamente cem panfletos, de conteúdo homofóbico, pelos corredores de uma escola secundária sueca. A atitude de estes jovens surgiu no âmbito de uma organização designada de National Youth (em tradução livre Juventude Nacional), um movimento neofacista.

Os panfletos continham frases afirmando que a homossexualidade era “um desvio sexual” com um “efeito moral destrutivo na sociedade”, que seria responsável pelo desenvolvimento do HIV e que o “lobby homossexual” tentava justificar a pedofilia. Este caso terminou com a intervenção do director da escola em causa.

A este propósito o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) emitiu uma sentença unânime [em 08/02/12] declarando que os indivíduos que distribuíram panfletos ofensivos a homossexuais não estão protegidos pela liberdade de expressão garantida pelo artigo 10º da Convenção.

O TEDH confirmou que estas frases constituíam alegações sérias e prejudiciais, mesmo não existindo incitamento direto a crimes de ódio. O tribunal reforçou que a discriminação com base na orientação sexual é tão séria quanto a discriminação com base na “raça, origem e cor”. O tribunal reconheceu ainda que tais afirmações são ofensivas para toda a comunidade e declararam que os indivíduos e organizações que expressem, publiquem e disseminem tais afirmações não se podem justificar com “o direito de expressão garantido pela Convenção."

Martin K.I. Christensen, co-Presidente da Comissão Executiva da ILGA Europe, afirmou: “Esta sentença é verdadeiramente importante e histórica. Durante décadas pessoas lésbicas, gays, bi, trans e intersexuais têm estado submetidas a uma avalanche de retórica ofensiva, sem fundamento, discriminatória e difamatória. Durante demasiado tempo, as pessoas que as produziam afirmavam o seu direito à liberdade de expressão e opinião.”

- César Monteiro
Reproduzido via Dezanove (Portugal).
Mais informações no site da ILGA, aqui.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Defina "família"


Defina FAMÍLIA. Pergunte ao Yahoo! – "uma mãe e um pai e 2 ou 3 filhos." Wikipedia: "no contexto humano, uma família (do latim: familia) é um grupo de pessoas ligadas por consangüinidade, afinidade ou co-residência. Na maioria das sociedades, é a principal instituição para a socialização das crianças." Prefiro a definição da Wikipedia. Já a do Yahoo... tradicional demais.

À medida que envelhecemos, vamos percebendo que "família" é aquela que nós criamos, não aquela em que nascemos. Afinal, muitos de nós LGBTs não temos uma esposa ou filhos. Envelhecemos durante o período em que a Maioria Moral e a Direita Religiosa nos diziam qual era o significado de "família tradicional", e muitos de nós viviam à margem disso. Porém, sei que todos somos da família.

Quer seja a comunidade LGBT em geral, ou um grupo de amigos, ou alguns seletos parentes de sangue que nos amam e são por nós amados incondicionalmente... encontramos nossa família e a definimos como a percebemos, não mais de forma não-tradicional. Temos valor, e agregamos valor. Somos FAMÍLIA.

Ontem nasceu meu segundo sobrinho-neto, Declan Flynn Anderson, com 3,3 kg – o mais novo membro da minha família. E como é bonito esse camaradinha. Parabéns, Stef e Drew, e Devlin – você tem um irmão mais novo para amar e por quem ser amado. A família de Stefanie, minha sobrinha, é prova de que eu tenho um papel na sociedade, tendo ou não meus próprios filhos. Seus dois filhos e meus outros quatro sobrinhos me dão a certeza de que o papel que desempenho na vida dos meus sobrinhos e sobrinhas tem imenso valor. Muitos socialistas podem confirmar que não há relação mais forte do que a de tia ou tio e sobrinho ou sobrinha, pois podemos ser "pais" e "amigos" ao mesmo tempo. Isto é: FAMÍLIA.

Eva, minha querida amiga e poderosa mãe solteira, chama a unidade que ela, seu filho Ezra (que também considero meu "filho") e eu criamos de FAMÍLIA. O sangue pode criar laços ou não; amamos de forma plena e livre, temos afinidade e carinho uns pelos outros e tornamo-nos um triunvirato que dá um forte testemunho do verdadeiro significado de “família” a qualquer juiz ou homofóbico. Eva e Ezra são os primeiros na minha lista de pessoas para ir ver ao voltar para casa, depois de duas semanas fora.

Nos últimos dias, visitando a família de minha melhor amiga, Donna, em New Haven, Connecticut, o alemão aqui tornou-se italiano. Tanto as irmãs ou a mãe de Donna, que criou as três filhas como mãe solteira, quanto sua sobrinha e seu sobrinho e a namorada de Donna, Lisa, deixaram claro que tinham me adotado. Eu fazia parte de uma linda e prolífica instituição: a FAMÍLIA.

Enquanto conversava com a mãe e a irmã de Donna na sala onde ela cresceu, quase meio século atrás, ocorreu-me o quanto nossa sociedade já avançou. A sobrinha e o sobrinho de Donna se sentaram na mesa da sala de jantar, ao lado, onde três gerações daquela família haviam jantado como uma unidade ligada pelo amor. Estavam brincando com seus iTouches, curtindo a companhia um do outro. Ambos perderam os pais uma década atrás. Sua sobrinha está sendo criada pela mãe, sozinha, no apartamento de cima, enquanto, neste apartamento, seu sobrinho é criado pela "nonna", a mãe de Donna. Naqueles aposentos, dava para sentir a fidelidade, a segurança, a confiança e a proteção reinantes. Rimos, brincamos, conversamos e, por fim, reunimo-nos para comer, como um só corpo, quando Lisa chegou: três gays, duas mães solteiras; três melhores amigos, dois héteros, dois jovens demais para saber ao certo; duas viúvas, uma divorciada gay, quatro órfãos... No entanto, como quer que a gente divida e conjugue, não há como se esquivar dessa definição: FAMÍLIA.

- Rick Rose, autor da coluna Rick This!, no LGBTSr
Tradução: Equipe DC

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O que importa é o que fazemos, não o que pensamos que fazemos

Fotomontagem: John Clang

"Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?" (Mt 25:37-39)

No fim de contas,  o que importa é o que fazemos, não o que pensamos que fazemos. Muitas pessoas religiosas acham que é seu dever defender a Deus dos homens ímpios, condenando ou matando porque eles sabem melhor quem é Deus. E se Deus estiver escondido no outro? Se o nome de Deus for impronunciável, imerso em seu próprio silêncio, e confundido com os nossos nomes humanos? Quando foi que te vimos...? Não disseste teu nome... Nós não te reconhecemos.

O nome é descoberto no outro porque Deus nunca é separado, a base do ser não é um ser que possa ser rotulado.

Somente entrando no silêncio podemos encontrar esse outro, pois silenciar é tirar o foco da atenção de nós mesmos e projetá-lo no desconhecido. Cristãos atarefados podem esquecer que alimentar o pobre, vestir o nu e acolher o estrangeiro é um trabalho silencioso se nossa atenção estiver verdadeiramente voltada para aqueles a quem servimos, não para nós mesmos ou para a instituição por trás de nós. No silêncio deste amor, o "prestador do serviço" e o "usuário do serviço" revelam Deus um para o outro. E, assim fazendo, esses rótulos frios se desvanecem.

Somente encontrando o outro podemos encontrar a nós mesmos.

O outro pode ser ameaçador. Cor, comida, língua, roupas ou costumes diferentes. Por outro lado, se somos atraídos pelo outro, podemos ter medo de cair na sua alteridade e ser absorvidos – ou simplesmente rejeitados.

Não há dor pior do que o exílio emocional da rejeição. Não há maior alegria do que quando o outro sorri de volta, do fundo de seu coração, te reconhece e procura. Deus não é uma alternativa para o risco e a dor do relacionamento humano. Ele é o outro tão íntimo, o terreno comum onde nos encontramos e aprendemos, dolorosamente, a amar uns aos outros.

"Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes."

- Laurence Freeman OSB
Reproduzido do site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Elas são mais corajosas


Entre os segmentos mais excluídos da sociedade, travestis e transexuais se organizam para enfrentar as inúmeras violências que sofrem no dia-a-dia. Matéria publicada na Revista Fórum.

“Em nenhum momento eu soube que era travesti. Eu sou completamente heterossexual e acho que isso não tem dúvida.” Era assim que o jogador de futebol Ronaldo justificava, no programa Fantástico, da Rede Globo, o fato de ter ido a um motel com três travestis. O foco de discussão da mídia se concentrava justamente na questão do atleta ter supostamente tido relações homossexuais. Uma forma velada de homofobia que escancara um dos segmentos mais excluídos da sociedade brasileira: as transgêneros.

Embora haja controvérsias sobre o tema, pode-se dizer que, de forma geral, transgêneros são pessoas que não se identificam com o seu sexo biológico. Isso se expressa desde o hábito de usar roupas do gênero oposto, fazer tratamentos hormonais e cirurgias estéticas ou mesmo operações de mudança de sexo. Neste último caso, estariam as transexuais, que rejeitam ou não sentem prazer com seus órgão genitais, enquanto com as travestis isso não necessariamente ocorre.

O fato é que ambas enfrentam o estranhamento e a intolerância no seu dia-a-dia, sendo muitas vezes discriminadas, até mesmo por homossexuais. “De modo geral, muitas transexuais e travestis são postas para fora de casa pelos seus próprios familiares, por volta dos 13 ou 14 anos. Normalmente, neste período é que começa a busca pela nossa verdadeira identidade sexual”, explica a transexual pernambucana Aleika Barros, representante e coordenadora da Articulação e Movimento de Transgêneros em Pernambuco (Amotrans-PE). “Este ato de exclusão já contribui bastante para que estas pessoas sintam na pele a intolerância”, garante.

Estudos e pesquisas vão ao encontro da realidade contada Aleika. É nos dois ambientes mais importantes para crianças e adolescentes, o próprio lar e a escola, que travestis e transexuais sentem pela primeira vez o estigma e a discriminação que em geral as acompanham pelo resto da vida. Com isso, a saída de casa e o precoce contato com a prostituição acabam se tornando algo comum a muitas delas, com o quase simultâneo abandono da vida escolar. De acordo com o estudo Travestis profissionais do sexo: vulnerabilidades a partir de comportamentos sexuais, que coletou dados por meio de entrevistas individuais com cem travestis profissionais do sexo da cidade de Uberlândia (MG), 53% têm até o ensino fundamental incompleto e nenhuma possuía ensino superior.

“A baixa escolaridade deste segmento é enorme. E mesmo quem consegue ultrapassar essa barreira, acaba excluída devido ao preconceito”, conta Majorie Marchi, presidente licenciada da Associação de Transgêneros do Rio de Janeiro (Astra-Rio), organização que conta com 1.300 associadas em todo o estado. “A escola é o lugar das primeiras rejeições vividas na infância, mesmo as que não usam trajes, quando emanam um sinal de sexualidade fora dos padrões, acabam saindo, não há o reconhecimento da identidade”, relata ela, que é travesti desde os 13 anos e viveu da prostituição dos 14 aos 28. Atualmente, participa da Câmara Técnica de Elaboração do programa estadual Rio sem Homofobia.

Majorie tem sido uma das vozes mais ativas do movimento GLBT na contestação ao tratamento que a mídia deu ao caso Ronaldo. Em nota oficial da associação, ela reivindica que “as travestis e transexuais sejam respeitadas na sua identidade de gênero, que é feminina, e que sejam identificadas por seus nomes sociais, e não pelos nomes de registro”. E prossegue: “Infelizmente, a maior parte da mídia não tem observado esse princípio, que faz parte de um direito humano fundamental, preservando a dignidade das pessoas, que têm o direito de ser tratadas como se reconhecem.” Em outra nota, ela protesta contra a apresentadora Ana Maria Braga, que teria dito em uma entrevista com o “Fenômeno”, que ele “deveria dormir mais cedo em vez de se envolver em situações como essa e com esse tipo de gente”.

“O senso comum não vê a transexualidade como uma visão possível de sexualidade”, aponta a cientista social Larissa Pelucio, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade de Campinas (Pagu/Unicamp). Para ela, a imprensa tem dificuldade em reconhecer a travesti como um tipo de expressão de gênero distinto da caricatura usual que se faz delas. Larissa realizou um trabalho etnográfico com travestis, em especial da cidade de São Carlos (SP), e, segundo ela, um dos pontos mais importantes desse trabalho foi “ver a dimensão humana e as estratégias que elas têm que desenvolver para enfrentar o preconceito.”

Durante o período em que conviveu com travestis, Larissa conta que presenciou não somente as agressões físicas, algo tristemente normal para aquelas que trabalham nas ruas, mas a violência velada, só visível para quem é alvo dela. “São atos como impedir que a travesti entre em algum lugar. É um mal-estar constante. Nem sempre a violência física é o ato mais brutal, mas o riso no supermercado, os olhares na fila do banco, no circular”, observa. “A travesti desafia os catálogos identitários, não é homem, nem mulher, nem gay, segmentos que ainda têm um grau de aceitação maior na sociedade”, analisa o psicólogo Marcos Garcia, autor da tese de doutorado Dragões: gênero, corpo, trabalho e violência na formação da identidade entre travestis de baixa renda. Ele ressalta a dificuldade que elas enfrentam para sair da condição de profissional do sexo, em especial as que ganham menos. “Uma mulher que trabalha na prostituição, quando envelhece, tem a oportunidade de mudar de profissão e esconder seu passado. Já a travesti tem muito mais dificuldade por conta do estigma”, esclarece.

Agressões corriqueiras
“É uma vida difícil. Assim, difícil porque a gente não tem outro jeito. Então é melhor arriscar. Aí, põe Deus na frente e vem. A violência continua do mesmo jeito. Eu tô achando que tá até piorando mais ainda.” Esse era um trecho de um depoimento da travesti Gleice, no filme Basta um Dia, do documentarista Vagner de Almeida. Tristemente profético, já que ela foi assassinada depois, em novembro de 2007, por um cliente, conforme depoimento de Almeida, que tem muitas outras histórias como esta.

Episódios de agressão são corriqueiros, em especial para aquelas que fazem programas nas ruas. “São filhinhos de papai que passam tacando ovos, extintores, urina em sacos plásticos, fezes, pedras, isso quando não vêm grupos que espancam todas que encontram pela frente”, descreve Cris Stefanny, coordenadora-geral da Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS) e que também faz parte do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. Ela ressalta que boa parte da violência sofrida pelas travestis é resultado da relação com os próprios clientes. “Quando não querem pagar pelo preço combinado com as travestis e transexuais profissionais do sexo, começam a dar escândalos e chamam a polícia com a mesma conversa da Carochinha de que foi ver o coelhinho da páscoa e dar volta na mula sem cabeça quando deparou com uma travesti que queria lhe roubar”, ironiza. “Como entre homens e mulheres, no meio também existem travestis boas e ruins, mas na maior parte dos casos que param na delegacia tudo não passou de desentendimento comercial. E sempre o cliente vem com o papo de que não sabia que se tratava de uma travesti, como se sair com travesti fosse ato anormal e elas não fossem pessoas merecedoras de direitos e dignidade”, completa.

Mesmo aquelas que conseguem se fazer notar pelo ativismo e pela defesa da diversidade, saindo do gueto, estão sujeitas a humilhações. A travesti Marcelly Malta, servidora pública da prefeitura de Porto Alegre e militante na área dos direitos das travestis e transexuais, foi homenageada pela prefeitura de Porto Alegre no Dia Internacional da Mulher deste ano. Malta recebeu um diploma oferecido a quem se destacou nas ações de parceria com o município, em prol do desenvolvimento da cidade e da melhoria das condições de vida das comunidades onde estão inseridas. Mas nem este reconhecimento vence o preconceito. No dia 13 de maio, Malta denunciou ter sofrido uma agressão no complexo hospitalar onde trabalha há 28 anos na capital gaúcha.

A servidora conta que se desentendeu com seguranças na saída do Posto de Atendimento Médico 3 (PAM 3) da rede municipal por causa de sua identificação. Na discussão, foi agredida e levada a uma sala vazia, onde foi chutada e esganada. “O que sinto mais não é a dor física e sim a dor psicológica. Minha auto-estima foi lá pra baixo”, declarou Marcelly Malta. Ela registrou queixa na delegacia e compareceu ao Instituto Médico Legal para fazer exame de corpo de delito, onde foi constatada luxação na faringe e em três costelas. A denúncia será levada ao Ministério Público.

O secretário municipal de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos, divulgou uma nota oficial para esclarecer a denúncia de Marcelly. De acordo com a nota, os agressores já foram identificados e “providências administrativas” estão sendo tomadas e diz que “é necessário afirmar que não existe qualquer tipo de argumento que justifique a violência sofrida pela senhora Marcelly Malta”. O secretário ressalta na nota que os seguranças agressores não são funcionários do município e fazem parte de uma empresa terceirizada, ironicamente chamada Grupo Reação.

“O nosso país é muito homofóbico e as pessoas se acham no direito até mesmo de assassinar”, afirma a deputada Cida Diogo, presidente da frente parlamentar GLBT da Câmara dos Deputados, que trabalha em prol da aprovação do PLC 122, que criminaliza a homofobia – atualmente em tramitação no Senado –, além de ser autora de um projeto de inclusão do nome social no RG das travestis. “Elas estão me procurando e estamos pesquisando as bases jurídicas para ver se conseguimos aprimorar este projeto. A proposta é substituir o nome no registro pelo nome social, mesmo sem a cirurgia (de mudança de sexo)”, explica a deputada.

A organização da luta
Hoje, existem diversas associações e grupos no Brasil organizados em torno da luta dos direitos de travestis e transexuais. Mas quase todos têm em comum a dificuldade em agregar apoios e chamar a atenção para a causa. “Muitas das trans já estão desacreditadas nessas lutas pela classe em busca de mais respeito e cidadania”, conta Aleika Barros, que participou da formação da Articulação e Movimento de Transgêneros de Pernambuco, estado que apresenta hoje o maior número de assassinatos de travestis no país.

“No mundo inteiro, o movimento GLBT surge do movimento da classe média alta”, analisa o psicólogo Marco Garcia, destacando uma outra dificuldade dos movimentos, que é alcançar as transgêneros de baixa renda. “No Rio de Janeiro e em Salvador, por exemplo, existem associações mais fortes. As ONGs GLBT também estão ajudando elas a se organizar, mas tenho a impressão que o forte ainda está nas travestis da classe média. As mais pobres estão longe”, comenta.

“Não podemos cair no lugar comum de vitimizar a travesti e esquecer de lhe proporcionar espaço de inserção nesta mesma sociedade que a exclui”, defende o documentarista Vagner de Almeida. “Sempre tem novas travestis entrando no mercado do sexo. Se elas não conseguem fazer a vida, ir para Europa, montar salão, o que acontece é o empobrecimento, podendo vir daí o envolvimento com as atividades ilícitas. Tudo fruto da discriminação”, pondera Garcia.

Mas, aos poucos, as barreiras começam a ser vencidas. Em janeiro deste ano, o ministro da Saúde José Gomes Temporão recebeu um grupo de representantes das travestis, que apresentou um documento com reivindicações do segmento no campo da saúde. O documento foi entregue no dia 29 de janeiro, o Dia da Visibilidade das Travestis. Hoje, no Sistema Único de Saúde, as transgêneros já podem ser atendidas pelo seu nome social.

Outra importante conquista é o projeto Damas, desenvolvido pela Secretaria de Assistência Social da prefeitura do Rio de Janeiro. Durante quatro meses, as participantes recebem uma bolsa-auxílio e são assessoradas por uma equipe técnica que garante o acesso à educação, à capacitação profissional e à participação em palestras de direitos humanos, saúde, entre outras. Ao final do curso, realizam estágio em empresas privadas, organizações não-governamentais ou órgãos públicos.

A travesti Majorie Marchi concluiu seu curso em 2006 e depois trabalhou na secretaria de Assistência Social, colaborando com a reformulação do projeto. “Hoje o programa se divide em dois momentos: no primeiro, elas aprendem técnicas relativas ao mercado de trabalho e, no segundo, discutem orientação sexual”, explica. “Antes de fortalecer elas mesmas ou as entidades, elas precisam saber sua história, por isso trabalhamos com um conteúdo pragmático próprio, trabalhando orientação sexual e identidade de gênero e a história do movimento social GLBT.”

Ativista, Majorie não desanima, mesmo quando encontra dificuldades na discussão do tema, como a que ela conta ter acontecido em um dos encontros do Rio Sem Homofobia, uma câmera técnica inter-setorial. “Uma vez, em uma das reuniões com as secretarias do governo, uma representante de uma secretaria falou que seria um privilégio desenvolver projetos para a comunidade GLBT. Eu respondi o seguinte: não é privilegio não. O privilégio existe quando nosso quadro social é igualitário, mas quando o cenário é de desvantagem e as medidas são para igualar ou diminuir as mazelas, não há privilégio.” Pessoas como ela e outras ouvidas nessa matéria, além de tantas que lutam pela causa, podem finalmente tirar as transgêneros do gueto que o preconceito as condenou.

Os riscos na busca do corpo perfeito
“Queria me levantar da cama porque não conseguia suportar toda aquela dor, mas sabia que era a dor da beleza e não me mexi”, o depoimento é da travesti Fernanda, e faz parte do livro Princesa, um depoimento de uma travesti a um líder das Brigadas Vermelhas, e exemplifica a busca da travesti pela feminilizacão do seu corpo e a afirmação de sua identidade. No entanto, muitas delas possuem baixa renda e, desprovidas do acesso a meios e técnicas de custo elevado, recorrem a técnicas extremamente perigosas. São aplicações de silicone líquido, em uma combinação muitas vezes fatal de cola Superbonder e agulhas veterinárias.

O processo é rápido, ao contrário do tratamento com hormônios. Em horas, a travesti tem seu corpo modificado. Mas também é um processo doloroso. A sessão conta com a bombadeira, chamada assim por ser a responsável por “bombar” o corpo, isto é, injetar o silicone líquido na região. Também está presente uma assistente, em geral responsável pelo enchimento das seringas e pelo fechamento dos furos, realizado com pedaços de papelão e Superbonder. “O silicone injetável é um produto de uso industrial e migra no corpo. Migra para as virilhas, pernas, joelhos e pés. Nestes casos as travestis convivem com ele, e ocasionalmente têm problemas circulatórios”, explica a assistente social Eliana Chagas, que trabalha em uma organização de travestis em Aracaju (SE), a Associação das Travestis na Luta pela Cidadania (Unidas). O silicone já causou a morte de diversas travestis, principalmente quando a aplicação é nas mamas, pois pode migrar para os pulmões e outros órgãos vizinhos.

Em Aracaju, a Unidas, realizou uma pesquisa com as travestis do estado e constatou que 92% das entrevistadas conheciam amigas que tiveram complicações na aplicação. Mesmo assim, 80% fariam a aplicação do conteúdo. Para conscientizar as bombadeiras e as travestis, a Unidas produziu o livro Silicone – Redução de danos e organiza oficinas sobre o tema. “Fizemos as cartilhas com fotos, algumas até chocantes. Insistimos sempre nas discussões sobre o assunto, no cuidado com a higiene e assepsia do espaço físico onde as aplicações são feitas”, relata a assistente social. “Temos percebido que pelo menos aqui em nosso estado as aplicações nas mamas não têm mais acontecido. Conversamos por diversas vezes com as bombadeiras sobre estes riscos e as travestis têm buscado colocar próteses mamárias”, informou Eliana Chagas.

"Amo travestis mesmo"
"Sim , amo travestis mesmo, já namorei uma durante quatro anos e fiquei casado com outra durante um ano, morei na mesma casa. Estou iniciando uma nova relação, espero que dê certo.” O depoimento é de Paulinho Cazé, 30 anos, que, ao contrário de outros t-lovers, não tem medo de demonstrar sua afeição publicamente. “Digo que sou um amante de travestis, assumo elas em qualquer lugar, isso na minha vida superou fronteiras, a ponto de minha família e amigos de infância aceitarem minha condição.”

Cazé tem um blogue, o SampaTrans, onde divulga as entrevistas que faz com travestis. “As meninas só querem ser respeitadas, nada mais, já os ‘amantes de travestis’ querem saber sobre como é a primeira experiência, pedem pra indicar uma transa... Perguntam se são gays ou não por que saem com travestis, essas coisas de quem está iniciando uma etapa na vida”, conta.

A pesquisadora Larissa Pelucio formou na rede de relacionamentos Orkut a comunidade “Homens que gostam de Travestis” (hoje com 5.056 membros), o que facilitou o seu contato com os t-lovers para realizar sua tese de doutorado. Vários dos perfis na comunidade não têm fotos de rostos, mas apenas de partes do corpo. Segundo ela, grande parte pertence à classe média, e são profissionais liberais, na maioria com idade entre 25 e 40 anos. São casados com mulheres, que costumam chamar de genetic girls.

Na internet, as travestis reivindicam que seus parceiros façam como Paulinho Cazé e assumam sua orientação sexual, o que ajudaria a diminuir o preconceito. No mesmo Orkut, uma das travestis explica que “todos os namorados que tive eram homens heterossexuais que se apaixonaram por mim, e depois que nosso namoro acabou eles voltaram a namorar ou casar com mulheres. Mas enquanto estivemos juntos, eles me assumiram totalmente diante de suas famílias e amigos. Já com os t-lovers, eu tive casos fortuitos e às escondidas. Hoje, que tenho mais consciência política, me nego a ter um namorado que não me assuma. Para mim, isso passou a ser um defeito grave, por mais belo que seja o cara”. E prossegue, repudiando o comportamento dos parceiros que procuram relações, mas que as enxergam “simplesmente como um o obeto sexual. Um tipo de cafajeste que transa com as trans, mas diante da sociedade fala mal das travestis, enfim, o comportamento típico de quem vive no armário. Um verdadeiro t-lover é um homem que se realiza não só sexualmente, mas afetivamente, com uma trans, além de assumi-la diante de todos.”

Por Brunna Rosa e Glauco Faria

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Rainha da Bateria

Foto daqui

Um dia ela quis.

A família foi contra. Nem ligava, ela iria mesmo assim. Sair nua no carnaval. Nua inteirinha. A arte da pintura corporal a adornar. Nada mais. Nem tapa-sexo. Não tinha sequer certeza de que seria permitido.

Candidatou-se. Os 118 quilos não eram impedimento legal, confirmou com a advogada. Sambava melhor que qualquer magra. Animava a bateria. Tinha uma voz incrível e um fôlego incomparável. Cantava e sambava, ao mesmo tempo, a distância do sambódromo inteirinha. Era uma verdadeira sereia do samba.

Amava mulheres. Era, além de tudo, lésbica. Preta, pobre, gorda, lésbica e, claro, mulher. Ela que sonhava em sair nua no carnaval.

O feito rodou as notícias, a mídia. Vieram repórteres de todo o Brasil, do mundo. Se ela conseguisse o posto de rainha seria a primeira gorda e a primeira lésbica a comandar no pé uma bateria do grupo especial. No começo estava até tímida com tantas perguntas. Não gostava de revelar o peso, nem a idade. Os repórteres insistiam. Ela lá, firme. Importava o peso? “Já não dá pra ver que sou gorda?”, retrucava.

Perguntavam sobre a família, afinal, duas mulheres de mais de 100 quilos que têm um filho e uma filha não é exatamente o padrão do comercial de margarina. Biscates, desafiavam o mundo inteiro com sua mera existência. Que não é mera coisíssima nenhuma, vale dizer.

Imoral. Pronto. Como são geralmente as biscates, ela era uma verdadeira imoral. O mau exemplo em pessoa. Ninguém escolhe nascer negro, claro, mas ela podia fazer um regime. Exercícios. Cirurgia pra reduzir o estômago. Podia não se casar ou tentar um tratamento para resolver os problemas psicológicos que levavam “ao homossexualismo”. Podia fingir casando-se com um homem. Podia não desejar sair pelada pela avenida.

Ofensa. Foi esse o tom das respostas pela internet. Ofensa pelo amor que ela nutria à sua companheira. Ofensa por seu corpo. Ofensa por seu desejo carnavalesco. Enfim não foi eleita rainha da bateria.

Indagada pelo repórter, o último que veria em sua vida de curto flash midiático, como lidaria com essa derrota, com a frustração de não realizar o sonho, respondeu:

“Derrota seria não tentar” e acrescentou, ainda, esmigalhando o tom de autoajuda que a imprensa tanto gostaria de levar ao ar: “Meus fãs ainda poderão me ver. Fui convidada pela escola de samba Unidos do Tupiniquim, em São Vicente, para comandar a bateria. Me aguarde!”

Certas biscates não desistem. Que bom.

PS. Inspiradoras mulheres…quando ser biscate é ter coragem: A Musa (Haonê) e Vânia Flor (musa do Salgueiro/2012)

- Marília Moscou
Reproduzido do excelente Biscate Social Club

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Amor de carnaval tem que ser sem violência

Imagem daqui

É fevereiro e começamos a contar os dias para a chegada do Carnaval. Época de festar, frevar, sambar e namorar bastante, como dizia a música: Beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é, é namorar pelado. Em alguns estados são quase duas semanas de bloquinhos, bailes, micaretas, mesmo com as críticas que possamos ter a este período que começa a inebriar o país é importante lembrar que para nós feministas Carnaval não é sinônimo de carta branca para passar a mão na cabeça dos casos de violência machista e mercantilização do corpo da mulher e não é raro nos depararmos com aumento de casos de violência contra a mulher durante as folias, por que será, né?

O Observatório da Discriminação Racial, da Violência Contra a Mulher e a Comunidade LGBT, promovido pela Secretaria Municipal da Reparação (Semur), registrou 254 casos até o final da tarde da última terça-feira, 08 de março, último dia oficial do Carnaval.

A maior parte deles, 149, foi de racismo. As denúncias de agressão a mulher vem em seguida, com 63 registros. Contra grupos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) foram 42 casos. (Violência contra a mulher foi a segunda mais recorrente no carnaval de Salvador)

A questão é tão séria que chama atenção dos governos estaduais, no nordeste aparecem campanhas em diversas unidades federativas com o eixo do combate à violência contra a mulher, principalmente a física. Tanto que este ano o afoxé Filhos de Gandhy levará para o circuito do carnaval soteropolitano o tema da violência machista, numa alusão carnavalesca e importante da campanha do laço branco. A questão é que o Carnaval, apesar de parecer para muitas pessoas, não é um momento de abertura de um vórtex onde toda a construção social e cultural que envolvem as mulheres e os negros somem como mágica.

Normalmente acabamos caindo pela máxima de que no Carnaval é meio inócuo de se fazer coisas para disputar ideologicamente a sociedade, passo longe dessa ideia e acho iniciativas como o “Maria vem com as outras” e o “Adeus Amélia” fantásticas e que devem ser mais exploradas, pois é importante ter bailes e bloquinhos que se pretendam festejar, mas sem perpetuar as opressões diversas existentes em nossa sociedade. Quando se tratam de blocos compostos por mulheres acho melhor ainda, pois normalmente as mulheres de verdade são substituídas pelas siliconadas da capa da playboy nas passarelas do samba. No caso das mulheres negras não somos apenas substituídas nas grandes escolas de samba, se em uma sociedade patriarcal a máxima para mulher é ser santa ou puta, para as mulheres negras é ser da cor do pecado ou domésticas e raramente a mulher para ser assumida como parceira de vida ou companheira.

A questão da mercantilização do corpo das mulheres não é menor, mas obviamente assusta mais casos de violência sexual estimulados por esta mercantilização, a mulher é sempre de alguém, nunca dela mesma e paga caro por esta concepção arraigada no senso comum. Talvez no carnaval seja um dos momentos mais ilustrativos, até por que como todo mundo vai para avenida com o intuito de se divertir, pular carnaval e afins nunca imaginamos ser alvo de violência ao ir com as amigas para um bloco de carnaval ou para um baile.

A objetificação da mulher e a perpetuação da lógica de propriedade do homem se perpetuam no Carnaval, as vezes de forma mais grave do que em outros períodos, talvez que de maneira mais massiva só se presencie durante as calouradas, nas quais veteranos muitas vezes se aproveitam de calouras bêbadas para poder irar uma casquinha. No carnaval talvez seja pior, justamente por conta da lógica do ninguém é de ninguém e eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem.

Durante a festa a mulher bebe, se diverte, como todo mundo. Diz ao homem que não quer ficar com ele. Isso já deveria bastar para um homem com um mínimo de senso ético desencanar da dita mulher. Pois não. Ele fica lá, enchendo o saco. Ela continua dizendo que não quer ficar com ele. No final da noite, ela trêbada se deita. Ele vai lá e começa a abusar dela. Carícias não só não-solicitadas, como repelidas, não são carícias. São atos de violência. Se a mulher não diz não, isso não significa um “sim” automático, até porque ela não estava em condições de dizer nenhum dos dois. (MOSCHKOVICH, Marília. A cena do Big Brother é um problema do Brasil)

Grande parte das vezes as mulheres vítimas de violência durante as folias não são acolhidas dessa forma, mas sim como se tivessem provocado sua própria violência, perpetuando a lógica de culpabilização das mulheres pelas ações machistas perpetradas em nossa sociedade e, sobretudo, pelos homens. Rodinhas de homens coagindo garotas a beijarem ou até mesmo se aproveitar de mulheres que não tem a mínima condição de sequer ficarem sentadas, recolocando assim o debate sobre estupro de vulnerável na pauta da sociedade.

Tão grave quanto o ataque do estuprador são os comentários que consideram que a culpa do estupro é da vítima. Estar bêbada, usar determinadas roupas e até mesmo “olhar” de certo jeito são argumentos frequentemente usados por defensores de estupradores para culpar a vítima. Ora, se o estupro fosse causado por uma saia curta, quase todos os homens heterossexuais seriam estupradores e todas as mulheres teriam sido estupradas. O que causa estupro não é a roupa, o comportamento da vítima (corrobora com isso, inclusive, o fato de que a maior parte dos casos de violência sexual acontece dentro da família da vítima, em casa). É o estuprador. (MOSCHKOVICH, Marília. A cena do Big Brother é um problema do Brasil)

Não fechar os olhos para coisas como estas enquanto nos divertimos entre amigos, ficantes, namorados e afins é importantíssimo, pois o combate a violência machista e a coisificação das mulheres também deve aparecer durante as festas e folias, é necessário que metamos a colher quando vemos acontecer em nossa frente abuso. Pois hoje pode ser com aquela menina que tu não conheces, mas amanhã pode ser tu, tua irmã, filha, mãe e faz parte das nossas tarefas como feministas sim reafirmarmos a necessidade de defesa e autodefesa das mulheres inclusive durante o Carnaval e em todos os estados do Brasil. Assim como deve estar casada uma política real de atendimento as mulheres em situação de violência, não apenas doméstica, mas de todas as formas. Política que tenha investimento suficiente para acolher e dar suporte as mulheres que sofrem com violência sexual, psicológica e afins durante os festejos momescos e que garanta para nós um ótimo Carnaval.

A maioria de nós curte pular o Carnaval e nada melhor do que pular nos bloquinhos e bailes sem ter a preocupação e o medo de ser abusada, violentada ou estuprada por um desconhecido, ou até mesmo por alguém próximo. O combate à violência contra mulher é por mim, por você, por todas nós e a todos os momentos.

- Luka
Reproduzido do excepcional Blogueiras Feministas

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Homossexualidade e movimento LGBT: estigma, diversidade, cidadania

Foto daqui

Ensaio retirado da coletânea Agenda brasileira: temas de uma sociedade em mudança, lançada em julho de 2011 pela Companhia das Letras.

Acostumamo-nos a ver, em várias cidades brasileiras, multidões de pessoas reunidas em manifestações organizadas para celebrar o “Orgulho LGBT”, sigla que se refere a lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros. No Brasil, assim como em vários outros países, os modernos movimentos LGBT representam um desafio às formas de condenação e perseguição social contra desejos e comportamentos sexuais anticonvencionais associados à vergonha, imoralidade, pecado, degeneração, doença. Falar do movimento LGBT implica, portanto, chamar a atenção para a sexualidade como questão social e política, seja como fonte de estigmas, intolerância e opressão, seja como meio para expressar identidades e estilos de vida.

A sexualidade é uma referência privilegiada em muitas interpretações clássicas do Brasil. Sensualidade e luxúria, manifestadas como uma espécie de propensão coletiva à precocidade sexual e ao desregramento erótico, foram apontadas como traços importantes (ou mesmo definidores) da brasilidade, por autores tão diversos em contextos distintos como Nina Rodrigues (1862-1906), Paulo Prado (1869-1943) e Gilberto Freyre (1900-1987). Deve-se observar que a visão do Brasil como terra do excesso sexual provinha já dos primeiros tempos da colonização, como sugerem os relatos de viajantes sobre práticas do “pecado nefando” entre os ameríndios e documentos sobre confissões e denúncias de sodomia durante a visitação do Santo Ofício, na Bahia e em Pernambuco, no final do século XVI e começo do século XVII. Nas interpretações da formação social brasileira que se desenvolveram desde o final do século XIX até meados do século XX, causas variadas foram propostas para explicar aquele pendor: a influência do calor tropical; a natureza supostamente mais excitável, ardente e descontrolada de africanos, ameríndios e portugueses; as condições sociais de desigualdade, violência e degradação moral forjadas na escravidão; ou, ainda, uma combinação de tudo isso. Diferenças de ênfase à parte, essas interpretações corroboraram a visão de um Brasil marcado por uma sexualidade excessiva, com sua busca de prazeres “perversos” de toda sorte, entre os quais se destacavam as relações entre pessoas do mesmo sexo.

Apesar da importância que vários autores clássicos do pensamento social brasileiro atribuíram à sexualidade, somente a partir dos anos 1970 o tema deixou de ser incidental e se tornou foco de pesquisa sistemática nas nossas ciências sociais. Isso se ligou, em boa parte, ao contexto de intensificação dos movimentos em defesa da liberdade sexual nos Estados Unidos e na Europa durante a chamada “contracultura” dos anos 1960, culminando com a famosa rebelião dos frequentadores homossexuais do clube Stonewall contra a polícia de Nova York, no começo do verão de 1969. Na cena norte-americana, palavras de ordem como “assumir-se” e “sair do armário” simbolizavam o anseio de tornar visível e fonte de orgulho o que até então era motivo de vergonha e vivido na clandestinidade.

No Brasil dos anos 1970, sob a ditadura militar, formas locais de desbunde e contestação cultural abriram brechas na repressão política. A androginia adquiria então um potencial subversivo. Em seu primeiro espetáculo no Brasil depois da volta do exílio na Inglaterra, em 1972, o cantor e compositor Caetano Veloso surpreendia o público ao usar batom e encenar maneirismos à moda de Carmem Miranda. Ao mesmo tempo, surgia o grupo teatral Dzi Croquettes, cujos componentes misturavam barbas, cílios postiços, peitos peludos, sutiãs, meiões de futebol e saltos altos em espetáculos de humor, canto e dança que percorriam o país com grande impacto. Os Dzi Croquettes buscavam vivenciar no cotidiano o que representavam no palco, mobilizando fãs ou “tietes” com quem formavam uma comunidade com múltiplas relações eróticas e afetivas. Essas intervenções artísticas e existenciais foram, em boa medida, precursoras e coprodutoras da “saída do armário” no Brasil. No final da década de 1970, em meio a um movimento crescente de oposição ao regime militar, emergiria um movimento homossexual no país, cujos marcos foram a criação do jornal Lampião e a fundação do grupo Somos de Afirmação Homossexual, ambas em 1978.

Também nesse momento os trabalhos do filósofo e historiador francês Michel Foucault (1926-1984) sobre a produção histórica e social da loucura, do crime e da sexualidade foram introduzidos nos cursos de ciências humanas no Brasil. Em sua História da sexualidade: a vontade de saber (publicado na França em 1976 e traduzido no Brasil já no ano seguinte), Foucault argumentou que os especialistas médicos, desde a segunda metade do século XIX, em seus esforços de conhecer e prevenir tudo aquilo que poderia ameaçar a saúde do indivíduo e da nação, contribuíram decisivamente para estabelecer uma série de classificações de tipos humanos que deram corpo às sexualidades “marginais” ou “perversas”. Dessa forma, os médicos ajudaram a promover uma nova forma de controle social, tendo a sexualidade como alvo, ao mesmo tempo que moldaram novos personagens sociais. Um exemplo seria a figura do “homossexual”, que substituiu a figura do “sodomita” na linguagem da medicina e do direito. Na visão influenciada pela religião, o sodomita era um praticante eventual ou reincidente de relações sexuais ilícitas. Na visão dos especialistas médicos, o “homossexual” passava a ser um tipo de natureza física e psíquica singular, situada entre o masculino e o feminino, que se manifestaria em seu corpo, seu temperamento e sua conduta.

No âmbito do debate brasileiro dos anos 1970, cabe destacar o trabalho do antropólogo Peter Fry, por sua relevância para a configuração de uma área de estudos voltada às conexões entre homossexualidade, cultura e política, que também desenvolvia uma abordagem da sexualidade como produto histórico e social. Fry argumentou que no Brasil, na passagem do século XIX para o século XX, também se elaborou uma compreensão do “homossexual” como um ser dotado de uma natureza singular. Nossos especialistas médicos não apenas codificaram e descreveram “anormalidades” sexuais, mas procuraram associá-las a explicações para degeneração, delinquência e loucura fundamentadas em diferentes versões do determinismo biológico e das teorias raciais em voga.

A visão médica da homossexualidade viria se contrapor a um modelo mais antigo e persistente de classificação de tipos sexuais, que Fry denominou de “hierárquico-popular”. Nele, as categorias referidas às práticas homossexuais estão englobadas por uma hierarquia de gênero, distinguindo as figuras do “homem” e da “bicha” (ou “viado”, “boiola”, “xibungo” etc.), em termos de seu papel no ato sexual. Na lógica do modelo hierárquico-popular, os atos de penetrar e de ser penetrado adquirem os sentidos respectivos de dominação e submissão por meio das categorias de “ativo” e “passivo” (e várias outras expressões populares correspondentes, como “comer” e “dar”, “ficar por cima” e “ficar por baixo”, “meter” e “abrir as pernas” etc.). O parceiro ativo dominador conservaria sua masculinidade, enquanto o feminino é quem se entregaria de forma subalterna e servil. Seria possível conceber também uma versão desse modelo para as relações homossexuais femininas, com a figura do “sapatão” (ou “paraíba”, “fancha”, “mulher-macho” etc.), que desempenharia o papel “ativo” ao se relacionar com “mulheres”.

Fry sugeriu que o modelo hierárquico-popular teria raízes históricas profundas, mas não seria uma peculiaridade brasileira. Distinções similares de “ativo” e “passivo” já constavam em cancioneiros medievais que mencionavam praticantes do coito anal. Recuando ainda mais no tempo, podemos encontrá-las na Roma antiga, onde o cidadão adulto que se deixasse penetrar em relações homossexuais era vilipendiado em sua honra viril, enquanto a passividade era adequada aos jovens escravos. Cabe lembrar que Gilberto Freyre, em Casa-grande & senzala (1933), já havia equiparado o papel do moleque, como paciente do senhor moço entre as grandes famílias escravocratas do Brasil, ao do escravo púbere escolhido para companheiro do rapaz aristocrata no Império Romano, observando que, “através da submissão do moleque, seu companheiro de brinquedos e expressivamente chamado de “leva pancadas”, iniciou-se muitas vezes o menino branco no amor físico”.

Enquanto o modelo hierárquico-popular diz quem é masculino e quem é feminina, o modelo médico-psicológico insiste na distinção entre homossexualidade e heterossexualidade. Em um primeiro momento, os médicos incorporaram em suas classificações os princípios da hierarquia de gênero, dividindo os homossexuais em “ativos” e “passivos”, parcialmente correspondendo a suas concepções de homossexualidade “adquirida” e “congênita”. O modelo médico-psicológico se encaminharia depois para uma representação mais homogênea dos diferentes tipos, baseada em uma noção de orientação do desejo sexual. Assim, os homens que mantivessem relações sexuais com outros homens seriam considerados “homossexuais”, não importando mais se é “ativo” ou “passivo”.

Essa passagem é importante, pois permite a Fry argumentar que um modelo “igualitário-moderno” teria surgido como uma derivação do modelo médico-psicológico, mudando-se o valor social atribuído aos termos. Se “homossexual” apresenta conotações de patologia, perturbação e crime, termos como “gay” vêm substituí-lo para expressar literalmente uma pessoa “alegre” e “feliz”. O modelo igualitário-moderno alargaria a visão de que a orientação do desejo sexual é o que importa para identificar os parceiros de uma relação homossexual, ao mesmo tempo que buscaria separar a homossexualidade da inversão de gênero. Se “bicha” ou “travesti” trazem as conotações de afeminação e espalhafato, termos como “entendido” ou “gay” vêm substituí-los para referir-se a rapazes que, mesmo “alegres”, são discretos e viris.

É nesse terreno de convivência e disputa entre modelos concorrentes — com ênfase na igualdade de orientação sexual em contraposição à hierarquia de gênero — que Fry e outros pesquisadores situaram a emergência do movimento político em defesa dos direitos homossexuais no Brasil, no final dos anos 1970. Desde então, o movimento homossexual colaboraria de forma decisiva para a expansão do modelo igualitário-moderno, que se daria principalmente entre as classes médias urbanas, como também dependeria dessa expansão. As diferenças de valor entre “igualdade” e “hierarquia” nas relações homossexuais ajudariam a produzir uma hierarquia entre os próprios modelos, tornando-se assim um meio privilegiado de expressar e constituir distinções de classe. O emergente movimento político homossexual tenderia a incorporar a crítica aos papéis de gênero convencionais, formulada pelo feminismo. Desse modo, entraria em tensão crescente com os valores e comportamentos que prevaleceriam no universo “tradicional” e “atrasado” das “bichas”, “sapatões” e travestis.

Algumas qualificações podem ser feitas acerca dessa influente leitura da estruturação da homossexualidade e do movimento homossexual no Brasil. Em primeiro lugar, ela sugere uma tendência geral de transição do modelo hierárquico para o igualitário, através da mediação do modelo médico, cuja realização histórica não pode nem deve ser entendida de forma linear. O historiador James Green mostrou evidências de identidades homossexuais masculinas que extrapolavam o binário ativo/passivo na cena urbana brasileira desde a virada do século XIX ao século XX — contemporâneas, portanto, dos primeiros momentos de produção da visão médico-psicológica do “homossexual”; e bem anteriores ao surgimento e popularização das categorias de “entendidos” e “gays”.

Em segundo lugar, a insistência no termo “modelo” é crucial para definir com mais clareza o plano em que essa leitura se situa: isto é, das ideias, valores e suas conexões lógicas, por meio das quais comportamentos e identidades ganham inteligibilidade social, demarcam regras e contravenções. Em contrapartida estão os processos através dos quais indivíduos tornam-se sujeitos e agentes sociais, incorporando-se e reconhecendo-se em determinadas categorias; o que abre espaço para variações, deslocamentos e transformações nos próprios modelos. Assim, podemos encontrar rapazes que fazem sexo com outros homens por dinheiro ou alguma outra forma de recompensa, e que podem até desempenhar o papel “passivo” no ato sexual, mas que não deixam de se considerar e de ser considerados como “homens”. Temos ainda as travestis, que adotam nomes e modos de tratamento no feminino, submetem-se a modificações corporais irreversíveis para adquirir vistosas formas femininas, mas não se acham necessariamente “mulheres” e, muitas vezes, desempenham o papel “ativo” no ato sexual. Além disso, podemos encontrar homens e mulheres que se dispõem à experimentação erótica com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto, sem recorrer a identidades fixas de orientação sexual.

Essa dinâmica não deixou de repercutir na própria trajetória do movimento LGBT no Brasil. O antropólogo Edward MacRae, em seu trabalho sobre o Somos, de São Paulo, um dos primeiros grupos homossexuais formados no final dos anos 1970, mostra que já naquele momento os militantes se dividiam quanto a se constituir ou não em torno de uma identidade homossexual. Havia então uma grande inquietação quanto aos riscos de se cristalizar (ou “reificar”, para usar uma expressão mais comum à época) a oposição entre hetero e homossexualidade, e daí promover novos rótulos e estigmas. MacRae registrou sua própria angústia de trabalhar com pressupostos analíticos (baseados na visão da homossexualidade como um papel social e historicamente construído) que se contrapunham a um princípio importante para a solidariedade do grupo, de que a homossexualidade seria uma característica interna e inescapável de cada pessoa.

Nos anos 1980 o cenário mudou. A eclosão da epidemia HIV-aids trouxe de volta velhas associações entre homossexualidade e doença, enquanto a democratização acenava com a abertura de canais de comunicação com o Estado, especialmente com as autoridades de saúde envolvidas nas respostas sociais à aids e com os novos partidos políticos. A partir de então, é possível observar também o desenvolvimento de um estilo de atuação política diferente, mais preocupado com aspectos formais de organização institucional e que buscava se organizar em torno de campanhas específicas, como a mobilização para incluir a proibição de discriminação por “orientação sexual” durante a Assembleia Constituinte. Embora não tenha atingido seu objetivo, essa campanha envolveu um significativo esforço pela produção de um consenso em torno da ideia de “orientação sexual”. A pesquisa da antropóloga Cristina Câmara sobre o grupo Triângulo Rosa, do Rio de Janeiro, no final dos anos 1980, mostra como essa campanha mobilizou vários cientistas sociais brasileiros, que proferiram pareceres ressaltando vantagens da expressão “orientação sexual” como instrumento capaz de promover o direito individual à liberdade sexual e propiciar ao movimento maiores possibilidades de diálogo com a sociedade civil e com as diferenças.

Ao longo dos anos 1990, as parcerias com o Estado em torno do combate à aids consolidaram-se e deram impulso à multiplicação de grupos ativistas, inclusive de lésbicas e de travestis, promovendo a diversificação e a incorporação dos vários sujeitos do movimento homossexual na atual sigla LGBT. Parte considerável das entidades de base do movimento aderiu ao formato de organizações não governamentais (ONGs), estabelecendo estruturas mais formais de organização interna, conduzindo uma rotina de elaboração de projetos e relatórios, preocupando-se com a “capacitação de quadros” para estabelecer relações duráveis com técnicos de agências governamentais e organismos internacionais. A pesquisa da antropóloga Regina Facchini mostra como esse processo se deu em um pequeno grupo de ativistas de São Paulo, na segunda metade dos anos 1990.

Nesse período mais recente, o movimento LGBT lança campanhas pelo reconhecimento legal dos relacionamentos homossexuais e pelo combate à discriminação e à violência contra homossexuais, que contribui para popularizar o termo “homofobia”. É também o momento de emergência e consagração das Paradas do Orgulho LGBT, paralelamente ao crescimento de um mercado segmentado e à proliferação de diversos estilos de vida associados à homossexualidade, que acaba por refratar em múltiplas categorias e identidades.

Grande parte da visibilidade social e política alcançada pelo movimento LGBT deveu-se ao seu processo recente de institucionalização e estabelecimento de parcerias com o Estado. Nesse campo de relações, há vantagens, mas também riscos. Abrem-se novos canais para pressões vindas “de baixo” que, entretanto, podem também favorecer novas redes de clientela que amorteçam o potencial crítico do movimento. Sob esse aspecto, a trajetória do movimento LGBT recoloca de forma eloquente um fenômeno bastante conhecido e atual: a interpenetração e porosidade entre Estado e sociedade civil no Brasil. Poderia ser diferente? Afinal, o movimento LGBT leva consigo as tramas e tensões da sociedade em que está enredado.

- Júlio Assis Simões é professor do Departamento de Antropologia da USP e pesquisador colaborador do Pagu – Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp. Tem pesquisas sobre movimentos sociais, participação política, envelhecimento, gênero e sexualidade.

Reproduzido do Blog da Companhia

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Tapa na peruca de Higgs e palmada no bumbum do jornalismo


Pela trocentésima vez desde o final do ano passado, tive a oportunidade de me deparar com uma manchete gritando que cientistas chegaram quase-quase na observação do qualquer-coisa do Bóson de Higgs. Esse Bóson de Higgs parece o "pertim" do mineiro; tá sempre quase lá.

Pra quem ainda não entendeu do que eu estou falando, Bóson de Higgs é uma partícula elementar surgida logo após o Big Bang de escala maciça hipotética predita para validar o modelo padrão atual de partícula. É a única partícula do modelo padrão que ainda não foi observada, mas representa a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares.

Entendeu? Nem eu. Qual a relevância disso pro católico? Veremos.

No que concerne ao ser humano católico, alguém, um belo dia, resolveu chamar essa questão física de Partícula de Deus. Se o nome de Deus gerasse R$1,00 em prol das pesquisas pelo fim de doenças graves no mundo, a cada vez que fosse usado, a gente nunca mais morreria.

Daí começou a confusão e eu tenho acompanhado essa discussão toda que já chegou ao ponto de alguém dizer que os cientistas estão perto de descobrir Deus. Achei que era hora de parar com isso. Me arrepio toda só de pensar que algum ser humano realmente acredita que o tal Boston de Higgs, somente por ter estado lá no começo de tudo, representa Deus. É como se alguém andasse por aí procurando o próprio umbigo. Ele está lá. Basta se envergar um pouquinho pra ver. E ele sempre esteve lá. Parte do ser humano, igualzinho a Deus. E aí eu me pergunto: Quando observarem o Higgs, seremos todos felizes? Estaremos todos repletos e teremos as respostas para todas as perguntas? Seremos mais irmãos e menos resmunguentos? De onde viemos, saberemos. Mas, e pra onde vamos? E o porquê da gente ter sido criado? Comofaz?

Acredito muito que cada um de nós precise mesmo construir senso crítico frente à imprensa porque a coisa tá ficando cada vez mais feia. Escreve-se qualquer coisa para vender jornal ou aumentar o fluxo de navegação em sites de notícias e a gente não pode cair na tentação de comprar tudo o que se fala por aí porque, do mesmo jeito que algum irresponsável alardeia que a pesquisa científica séria da observação do bóson de Higgs vai nos mostrar Deus, esse mesmo irresponsável espalha outra infinidade de cretinices que só geram mais confusão e gritaria. Todo ser humano carrega, em si, Deus. Todas as pessoas são sacrários do Divino, e à humanidade cabe apenas descobrir como se unir cada vez mais a essa Divindade, independente da religiosidade que a expressa. A ciência corre atrás de seus interesses em prol da evolução da nossa espécie mas daí a algumas mídias transformarem isso na manchete de que Deus está pra ser descoberto, é pura pescaria de leitor. E a gente sabe que a religião de verdade vem para esclarecer, para formar consciência, para fazer de nós, humanos, pessoas mais críticas e menos mera massa de manobra.

Espero que os cientistas evoluam na pesquisa e se sintam felizes e satisfeitos com ela. Espero que o jornalismo pare de tentar transformar pessoas de verdade em Pinocchios e acredito mesmo que a gente consiga ter a temperança de pensar e pesquisar antes de cair na rede de qualquer cretino que se intitula jornalista e faltou à aula de ética.

Com amor,
Zu.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Família ou famílias?

Foto daqui

Hoje ninguém mais tem dúvida de que família é mesmo um conceito plural.

As fotografias antigas mostravam um casal sentado ao centro e rodeado de filhos, todos muito sérios. Hoje, não só as fotos adquiriram colorido. A família também. As imagens atuais estampam manifestações de afeto e sorrisos de felicidade.

A formatação da família não decorre exclusivamente dos sagrados laços do matrimônio. Pode surgir do vínculo de convívio e não ter conotação de ordem sexual entre seus integrantes. Tanto é assim que a Constituição Federal esgarçou o conceito de entidade familiar para albergar não só o casamento, mas também a união estável e a que se passou a ser chamada de família monoparental: um dos pais com a sua prole.

Desta verdadeira revolução provocada no sistema jurídico não se apercebeu o legislador ao, apressadamente, aprovar o Código Civil. Apesar de ter sido editado no ano de 2002, o projeto original datava do ano de 1958, antes mesmo da Lei do Divórcio, outro paradigma que rompeu o modelo da família indissolúvel, patriarcal e verticalizada.

Assim, a lei que rege as relações familiares do século 21 é da metade do século passado e isso no que não reproduziu o código anterior que era do ano de 1916. Muitos institutos simplesmente foram copiados. Basta lembrar a mantença da presunção da paternidade em plena era do DNA.

Porém, a todas estas mudanças é sensível a Justiça que não pode deixar sem resposta quem lhe bate às portas e nem consegue aplicar leis velhas a situações novas. Afinal, ausência de lei não significa ausência de direitos.

Foi atentando a esta realidade que, a muitas mãos, o Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM elaborou o Estatuto das Famílias, que se transformou no Projeto de Lei nº 2.285/2007, de relatoria do Deputado Sérgio Barradas.

Fazendo uso das modernas técnicas legiferantes de construir microssistemas para regrar situações que merecem tratamento integrado, o Estatuto das Famílias traz regras não só de direito material, mas também processual para imprimir às demandas a agilidade que é tão indispensável quando se trata de direitos que dizem de modo tão significativo com a vida das pessoas. Também o Estatuto veio albergar no âmbito de proteção todas as estruturas familiares presentes na sociedade. Com esta concepção claro que não poderia continuar condenada à invisibilidade as uniões de pessoas do mesmo sexo. Com o nome de união homoafetiva foram inseridas no conceito de entidade familiar sendo-lhes assegurados os mesmos direitos de todas as famílias, inclusive o direito à adoção.

Apesar de parecer uma novidade, estes avanços de há muito estão sendo reconhecidos pela jurisprudência de todas as instâncias e tribunais. De enorme repercussão duas recentes decisões do STJ. Há cerca de um mês assegurou benefício previdenciário ao parceiro sobrevivente. E, em decisão histórica, invocando o princípio da proteção integral, concedeu a um casal de
lésbicas a adoção de duas crianças.

A partir dessas decisões não há como manter-se o substitutivo apresentado e que simplesmente exclui do Estatuto das Famílias os direitos assegurados às famílias homoafetivas, bem como proíbe, expressamente, o direto à adoção. Também não há como continuarem tramitando dois projetos de lei com a mesma finalidade.

O surpreendente é que, ao invés de assegurar direitos, criminalizar a homofobia, acanha-se o legislador. Comprometido com um fundamentalismo religioso e conservador, afronta um punhado de princípios constitucionais.

Ainda bem que a Justiça arrancou a venda dos olhos e assume o seu papel mais significativo: fazer justiça!

- Maria Berenice Dias, advogada
Recebido via Facebook. Site da autora aqui

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Família que se escolhe

Foto daqui

Sempre fui meio avessa às ideias tradicionais de família. Nunca compreendi muito bem que se pudesse ser fosse forçado a gostar e conviver com pessoas específicas, simplesmente porque há entre nós e eles uma compatibilidade genética. Para mim, família sempre foi outra coisa, mais ligada ao sentimento do que à biologia.

Tenho uma família (biológica) até que grande. Minha avó materna era a quarta de cinco filhos. Meu avô materno, o terceiro de onze filhos. Meus avós paternos vieram para São Paulo do norte e do nordeste sem suas famílias, das quais nunca soube muita coisa, mas quando se casaram tiveram quatro filhos, o que também contribuiu significativamente para engrossar a minha árvore genealógica.

Mesmo assim, dessa gente toda, aqueles com os quais realmente convivi e criei laços ao longo da vida não são muitos. A maioria, habituei-me a encontrar somente em um ou outro aniversário ou casamento, velório ou enterro. Cumprimentamo-nos cordialmente, trocamos algumas palavras, contamos da vida como anda, mais por convenção do que por verdadeiro interesse, e quando saímos dali, cada um retoma a sua vida. Não há proximidade. Não há intimidade.

Há na minha vida, por outro lado, um bocado de gente sem qualquer laço genético comigo, mas com quem ao longo da vida fui criando laços afetivos fortes, pessoas que se importam comigo e com quem eu me importo, que fazem a diferença na minha vida. Foram afetos cultivados ao longo da infância, da adolescência, da vida adulta. Não viemos ao mundo biologicamente conectados, fazemos parte de grupos genéticos diferentes. Mas eu as escolhi como parte da minha lista de “indispensáveis”, para usar um termo que ouvi outro dia, e de que gostei muito. Estas pessoas sim, eu considero como parte da minha família. Juntamente, é claro, dos parentes (no sentido comum da palavra) com quem, além de laços biológicos, tenho também relações verdadeiras de proximidade, conhecimento mútuo, afeto e bem querer.

Minha família, portanto, é feita de gente bem escolhida. Família, para mim, não é destino nem fatalidade, é caminho. É construção de toda uma vida: é presença, é cuidado, é atenção. É amor desmedido, é olhar carinhoso, preocupado. É amizade. Nesse balaio que eu chamo, com toda sinceridade, de “minha família”, tem quem seja parente de sangue, e que junto comigo construiu uma história de afeto, muito além da biologia. E tem uma porção de gente muito querida, gente amiga que não tem comigo qualquer conexão genética, mas que vive do meu lado de dentro em um lugarzinho muito especial, porque nós nos escolhemos. Assim é com minha madrinha e seus filhos, que cresceram comigo e aprendi a amar como irmãos. Assim é com meu avô “postiço”, padrasto da minha mãe, que foi o avô que a vida me deu e me ensinou a amar. Assim é com amigos escolhidos muito a dedo, alguns deles hoje com suas familinhas, gente muito amada com quem eu sei que posso contar, e para quem estou presente para toda obra. Isso é família, para mim – não conheço outra definição.

Dizem que parente, a gente não escolhe. Pode até ser. Mas família, essa a gente escolhe sim – com o coração.

- Tata, do Blog Mamíferas

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O armário número 24


"Se eu pudesse dizer que ele não precisa se esconder..." 

Ele resolveu fazer esportes, voltar a ter uma vida saudável. Mas ele sempre sofria com o ambiente de vestiário, desde a época que era esportista e atlético. Sempre foi para ele meio esquisito os caras seminus querendo provar para cada um deles que era mais homem que o outro, elencando as mulheres comíveis, as que já comeram e as que nunca comeriam. Entendia como cultural – assim como os ingleses que têm adoração por falar do clima – o assunto recorrente sempre ser o futebol. Em alguns, ele percebia uma paixão genuína pela modalidade esportiva que nos transformou em uma pátria de chuteiras, mas em outros, ele enxergava algo meio forçado, apenas para poder ter a carteirinha do clube da masculinidade. Ele não gostava de futebol, apesar de ter time e de acompanhar à distância os campeonatos estaduais e brasileiro.

Ele ria - meio tímido – de certas piadas. Ele sabia que a vida era bem mais dinâmica que as teorias e teses, assim como os olhares que todos lançavam discretíssimos para os pênis dos outros colegas de vestiário. Sim, alguns eram homossexuais, mas ele sabia que muitos ali estavam - no melhor estilo do macho competitivo – apenas fazendo comparações. Não via naquilo o que a moçada do vestiário certamente chamaria de viadagem. Ele ria – meio sem graça – de certos comentários mais pejorativos contra os gays.

Ele voltou a fazer esporte e retornou ao ambiente dos vestiários, mas algo ainda o incomodava muito. Um garoto, muito feminino, muito frágil, era constantemente alvo de um silêncio e um desdém malicioso. Quando o jovem entrava na área dos chuveiros, todos faziam questão de tentar sair o mais rápido possível. Era como se um leproso fosse contaminar todo o clima de masculidade reinante. O moleque também era tímido e não reagia, não sabia como se comportar, o que responder, apesar de ser clara a vontade de excluí-lo do vestiário.

Ele lembrou de um artigo de Duílio Ferronato, na antiga coluna GLS da Revista da Folha de São Paulo que contava que ao fazer capoeira e escutar piadinhas contra gays, o colunista logo de cara rebateu: “Eu sou viado”. E todos começaram a respeitá-lo. Mas aquele pobre garoto não poderia fazer isso pois nada era direto, a agressão era silenciosa.

Ele, de repente, percebeu que um desses machinhos começou a dizer que o armário de número 24 – que sempre estava vazio - era do tal garoto. E essa brincadeira começou a ficar constante. O garoto talvez nunca tenha escutado, mas não demorou muito e nunca mais viram o jovem que sumiu para alívio das testosteronas exacerbadas.

Ele tinha que fazer algo, ele se irmanava com a timidez e com uma certa liberdade de não ter que seguir condutas e regras para poder ser homem. Enfim, no dia que o vestiário estava cheio de "cuecas", todos rindo, fazendo o seu velho e sempre ritual de afirmação da macheza, ele sem mais nem menos se trocou e colocou a roupa no armário de número 24. aquele que estava sempre vazio.

Ele percebeu que rolaram olhares estranhos, mas ninguém mexeu com ele nem fez piadinhas e assim ele fez durante todas as vezes que ia ao vestiário. Ele fazia questão de colocar suas roupas no armário de número 24. Era sua resposta sem barulho para uma agressão que o perturbou. Ele, heterossexual, mas deslocado do discurso de afirmação de uma certa forma de masculinidade, não precisava sair do armário, mas colocar lá dentro de forma trancafiada o desprezo e a ignorância de seus colegas de vestiário.

- Vitor Angelo
Publicado originalmente no Blogay

* * *

O vídeo acima faz parte da campanha "Pink Dot", de Cingapura, cujos organizadores sabem que o preconceito e a discriminação não vão acabar de uma hora para outra e convidam todos a mostrar que os LGBTx não estão sozinhos. A cada situação mostrada, os personagens dizem "Se ao menos eu tivesse coragem de defendê-lo..."; "Se eu pudesse dizer que ele não precisa se esconder...";
"Se pudesse dizer a elas que seu amor uma pela outra também é bonito..."; "Se eu pudesse mostrar a ela o quanto ela é importante para mim..."; "Se as pessoas gays pudessem parar de se sentir culpadas por serem diferentes..."; "Ah, se o mundo pudesse ver o que eu vejo".

Toda sociedade produz o seu estrangeiro


A ideia de sociedade proposta por muitos movimentos xenófobos europeus é a de uma comunidade fechada, limitada e reservada aos autóctones. Não uma comunidade "quente", fundamentada na mútua solidariedade, em vínculos internos fortes, mas sim em uma fortaleza nascida para repelir o inimigo e defender seus bens.

A análise é do antropólogo italiano Marco Aime, professor da Universidade de Gênova, em artigo para a revista MicroMega, republicado pelo jornal La Repubblica, 24-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


"Todas as sociedades produzem estrangeiros, mas cada uma produz um tipo particular, segundo modalidades únicas e irrepetíveis". Parece uma paráfrase do incipit tolstoiano de Anna Karenina, mas essas palavras de Zygmunt Bauman evidenciam o processo de produção do estrangeiro como indivíduo, que ultrapassa as fronteiras que criamos e que às vezes mal suportamos.

Define-se como "estrangeiro", continua Bauman, quem não se adapta aos mapas cognitivos, morais ou estéticos do mundo e quem, com sua simples presença, torna opaco o que deveria ser transparente. Segundo o escritor e ensaísta martinicano Édouard Glissant, é justamente a ideia de transparência que é perigosa: "Eu reivindico o direito à opacidade. A definição e transparência excessiva leva ao apartheid: aqui, os negros, lá, os brancos. 'Não nos entendemos', diz-se, e então vivemos separados. Não, digo eu, não nos entendemos completamente, mas podemos conviver. A opacidade não é um muro, sempre deixa filtrar alguma coisa. Um amigo me disse recentemente que o direito à opacidade deveria ser inserido entre os direitos humanos".

Estrangeiro é aquele que subverte os modelos de comportamento estabelecidos, que compromete a serenidade difundindo a ansiedade (...).

"Os objetos se mundializam, os indivíduos se tribalizam". Com essa frase seca e um pouco sarcástica, o escritor francês Régis Debray sintetizou de modo exemplar um fenômeno que marca fortemente estas últimas décadas. É realmente assim?

A implementação de políticas de liberalização em escala mundial, típicas da globalização, não se traduz, de fato, como poderíamos esperar, em um triunfo do individualismo, mas, ao contrário, na proliferação de identidades coletivas. O progressivo descompromisso do Estado social obriga a chamada sociedade civil a se encarregar dos seus problemas. Isso encoraja o florescimento de uma série estruturas (associações, ONGs), que têm como missão a gestão do social no lugar do Estado e que, muitas vezes, se apoiam em formas comunitárias.

"Assiste-se, então, à retribalização das sociedades contemporâneas?", pergunta-se Jean-Loup Amselle. "A resposta é positiva se considerarmos que esse fenômeno está relacionado com a globalização e com a redução concomitante da esfera da intervenção estatal, e não com uma essência qualquer de sociedade que retornaria ao estado natural. Assim como as etnias africanas são o produto de uma história e, portanto, da modernidade, no sentido de que resultam da concretização de categorias importadas e de categorias locais, as tribos dos bairros difíceis são, também elas, o produto da história recente das sociedades ocidentais e, em particular, do descompromisso do Estado".

Estamos naquela sociedade líquida, incerta, descrita por Bauman, em que os pontos fixos tradicionais vieram pouco a pouco a faltar. A pós-modernidade é uma época marcada pela contingência, pela sobrecarga de presente a despeito das outras dimensões. "O pesadelo dos nossos contemporâneos é o de serem desenraizados, sem documentos, sem pátria, sozinhos, alienados e à deriva em um mundo de 'outros' organizados".

Nessa espécie de mar imenso em que nos encontramos flutuando, sem meta e sem um farol à vista, estamos continuamente em busca de um porto. Assim como ao náufrago se lança uma corda para se agarrar antes de ser levado pelas ondas, aos náufragos da modernidade se joga a boia salva-vidas da dimensão étnica.

"A identidade floresce no cemitério das comunidades, mas o faz graças à promessa de ressurreição". Nenhum agricultor jamais fez um museu para proclamar sua identidade: bastava-lhe ser agricultor. A identidade é um substituto da comunidade, que funciona no nosso mundo individualista, e é "no momento em que a comunidade desmorona que é inventada a noção de identidade". A identidade é algo que deve ser inventado, não descoberto. É o produto de um trabalho de construção, não uma matéria-prima que se encontra debaixo do solo de determinado território, nem um nutriente para as plantas de uma determinada região.

É aqui que entra em jogo a etnicidade, e o "nós" regional é definido em termos etnoculturais, que se entrelaçam com interesses econômicos específicos. Enquanto o nacionalismo clássico, o social, se baseava em uma sociedade que incluía diferenças em seu interior, unidas por uma cultura nacional compartilhada e por um sentimento unanimemente percebido, o nacionalismo étnico é exclusivo, não aceita diferenças, porque se baseia exclusivamente na identidade étnica. Uma 'identidade que, tal como é concebida, indiscutivelmente ligada à autoctonia, não pode ser negociada nem modificada, sob pena da "contaminação", termo que incute temor e não por acaso é utilizado nas retóricas da pureza, porque evoca doenças contagiosas e mortais.

Quando a busca de comunidade se torna obsessão, ela corre o risco de se tornar tribalismo. É a ideia de uma sociedade "pura", fundamentada em uma uma suposta origem comum, definida com vagueza porém, mas capaz de fornecer aquela autoctonia a qual é atribuída uma importância fundamental. Evitar misturas, conservar a suposta pureza original.

A simplificação, que reduz tudo a dois elementos contrapostos, (...) trai a falta de elaboração da complexidade, mas que se revela absolutamente vencedora no plano midiático. Além disso, responde perfeitamente à necessidade de satisfazer, a baixo custo, um sentimento de pertença, que não prevê diversidades internas ao grupo do "nós", nem ao dos "outros".

Além disso, essa visão dicotômica e antagônica, que não deixa espaço para nuances, favorece uma adesão acrítica ao "nós", que seria, contudo, melhor do que a solução oposta, construída deliberadamente com base em conotações negativas e diametralmente opostas às nossas.

A ideia de sociedade proposta por muitos movimentos xenófobos europeus é a de uma comunidade fechada, limitada e reservada aos autóctones. Não uma comunidade "quente", fundamentada na mútua solidariedade, em vínculos internos fortes, mas sim em uma fortaleza nascida para repelir o inimigo e defender seus bens.

Retomando a definição de Huxley e de Haddon a propósito da nação em geral, se poderia dizer que "é uma sociedade unida por um erro comum com relação às suas próprias origens e por uma aversão comum com relação aos vizinhos".

Ficam as perguntas:


Quais serão os estrangeiros que nós, religiosos, produzimos, aqui e agora? Até que ponto não erigimos nossa identidade como uma fortaleza que exclui o outro que nos parece tão perigoso?

Quais serão os estrangeiros que nós, LGBTx, produzimos, aqui e agora? Até que ponto não erigimos nossa identidade como uma fortaleza em oposição ao outro que sentimos nos ser hostil?



Como con-viver?

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

How to dismantle an atomic bomb

Foto daqui

"Não ligue pra essas caras tristes
Fingindo que a gente não existe"

Eu detesto Parada do Orgulho Gay*. Detesto da mesma forma que detesto o Carnaval, da mesma forma que detesto festas de largo, da mesma forma que detesto shows, principalmente os gratuitos, da mesma forma que detesto ajuntamentos de pessoas em geral onde há muito barulho, muita bebida e muita bagunça. Detesto. E quando eu digo "detesto" quero dizer que detesto estar lá, detesto estar perto, detesto participar, não que detesto sua existência.

Tendo isso claro, devo dizer que eu apóio a Parada do Orgulho Gay. Enquanto olho para o Carnaval e outras festas com uma certa condescendência que beira o desprezo, olho para a Parada do Orgulho Gay como algo necessário.

Algumas pessoas acham que faz muito barulho e que acaba perdendo o foco que é lutar contra o preconceito. Eu concordo com essa interpretação, porém, acho importante esse barulho, inclusive acho bom essa perda do foco. A Parada virou uma espécie de carnaval onde as pessoas assumem sua orientação sexual, brincam e se divertem esfregando na cara da sociedade que elas existem - e não são poucas.

Algumas pessoas se preocupam com o barulho, mas esquecem que o barulho é uma das melhores formas de dar sinal de vida. Qual o maior sinal de que se tem criança saudável em uma casa? O barulho! Eles precisam fazer barulho porque estão crescendo, se desenvolvendo, aprendendo e se fortificando. Eu vejo a Parada do Orgulho Gay dessa forma. O movimento precisa fazer barulho para que as pessoas vejam que ele existe, precisam chamar atenção para que as pessoas se acostumem com a existência dele, precisam parar uma avenida para que as pessoas entendam que eles também têm direitos e merecem ser respeitados, eles precisam fazer barulho para que as pessoas que se identificam saibam onde eles estão.

Domingo fui ao shopping com minha filha, meu marido e meu cunhado. Sentamos para comer e a conversa veio para o nascimento do [blog] Minoria é a mãe. Falei sobre a intenção do blog, sobre as pessoas que fazem parte dele, falamos sobre preconceito e tolerância. Em determinado momento meu cunhado, que é artista plástico, comentou que "O problema dos gays é que eles são descarados e ficam dando em cima o tempo todo", falando sobre a experiência que ele tem trabalhando em uma escola onde um aluno gay dava em cima dele insistentemente. Meu marido retorquiu na hora "Você está falando de HOMEM, não é? Porque muito homem hétero fica dando em cima da mulher até chatear. Não é porque ele é gay, é porque homem é idiota e gosta de fazer isso."

Eu senti muito orgulho de meu marido nesse momento, porque ele não fez uma coisa que muito hétero faz, que é concluir que por gostar de outro homem o gay deixa de ser homem.

A afirmação de meu marido tem um certo fundo de verdade, porque nossa sociedade machista ensina os meninos que eles podem tudo e que se uma pessoa lhe diz não, basta insistir que ele receberá um sim, mas isso fica para outro momento. A questão que fica é o fato de que as pessoas acham que somente os gays dão em cima e insistem, e que todo gay é assim. E elas tiraram essa conclusão do simples fato de quase todo mundo falar a mesma coisa, sem nenhuma experiência com outras pessoas.

Como ele é meu cunhado resolvi ser boazinha e não ir chegando dando fatality, aproximei-me dele e falei calmamente "Você fala isso baseado na sua experiência com UM homossexual na escola que você trabalha, mas deixe eu te dizer uma coisa sem medo NENHUM de pecar: a maioria dos gays na escola que você trabalha não são assim, há muitos outros deles, e você não sabe quem são, porque eles nem assumiram sua sexualidade. Tenha CERTEZA que a maioria dos meninos gays da escola estão nessa hora em casa, na frente do computador, sem incomodar ninguém."

Meu marido acrescentou comentando sobre a experiência dele no trabalho onde tem alguns gays, e que os comportamentos deles são muito variados. As pessoas tendem a achar que gay é aquele homem afetado, que usa roupas extravagantes ou femininas, que a lésbica é aquela mulher que se veste de homem e engrossa a fala (alguns também pensam que essas são as feministas, mas isso também fica para outro momento). As pessoas só esquecem de pensar que gays são, como posso dizer?... Er... Pessoas. Gays são PESSOAS. E se tem uma coisa que todas as pessoas têm em comum é que elas são diferentes umas das outras. É bem pouco saudável achar que gays são todos iguais.

Por isso eu apóio a Parada do Orgulho Gay. Ela é uma forma das pessoas verem que no meio das drag queens, dos travestis, dos crossdressers, dos dançarinos com pouca roupa também há pessoas vestidas convencionalmente, dançando convencionalmente e que todos citados acima são gente, também convencionalmente. Será que eles terão que virar cachorrinhos para que as pessoas percebam que eles também têm direitos?

- Rebeca
Postado originalmente no blog Minoria é a Mãe

*Sou péssima com termos, e tenho o desleixo de ser desatualizada, então se o nome da parada tiver sido atualizado podem avisar.
O título do post é o nome de um disco do U2. A epígrafe é um trecho da música Bete Balanço, de Cazuza.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Como se Deus não existisse

Foto: Shen Wei

Dietrich Bonhoeffer, autor dessa frase tão carregada de conteúdo, foi enforcado pelo regime de Hitler, acusado de conspirar contra o próprio. Sua vida transcorre entre o dia 4 de fevereiro de 1906 e sua execução no dia 9 de abril de 1945, após ter sido condenado por um tribunal em um pacote que reuniu o Almirante Canaris e outros cinco militares de alta graduação e um juiz. Ele era um pastor evangélico filiado à Igreja Confessante, um grupo dentro da Igreja Luterana que ele mesmo liderava em sua oposição aberta ao nazismo e ao silêncio de sua Igreja oficial e em defesa dos judeus.

Pertencia a uma família da alta sociedade prussiana. Havia dedicado a  vida a ser vigário do pastor de Barcelona e ao ensino nos seminários da Alemanha e dos EUA, mas, perante a irrupção do nazismo, se sentiu chamado a se concentrar na luta contra Hitler e se uniu ao grupo do almirante Canaris em sucessivas tentativas de derrubar o ditador.

Foi preso no dia 5 de abril de 1943 e, a partir desse momento, soube que acabaria na forca. No tempo em que passou na prisão, pôde escrever cartas e outros documentos nos quais amadurece seu pensamento e sua religiosidade. Afastado do ensino de futuros aspirantes ao ministério e da pregação nos seminários, sua vida na prisão está destinada ao fracasso da forca e – algo que lhe marcou ainda mais – ao diálogo e em relação com presos alheios a toda ideia religiosa, descrentes ou agnósticos.

Essa circunstância dupla – junto com a correspondência com sua namorada Maria von Wedemeyer, que sempre o trazia para a realidade – o move a elaborar um pensamento novo ou, melhor, a extrair as consequências mais audazes dos princípios do Iluminismo e da evolução da teologia e da filosofia alemãs mediante pensadores como Harnack, Barth e outros.

Extraímos de seus escritos da prisão alguns parágrafos que poderiam resumir seu pensamento e esclarecer e especificar o conteúdo de sua expressão "É preciso viver como se Deus não existisse", que, longe de significar um posicionamento ateu ou negação de Deus, é uma afirmação do Deus que se manifesta para nós através de toda a Bíblia e, principalmente, em Jesus de Nazaré.

- "O Iluminismo condena o homem a resolver todas as questões importantes, não só as científicas e artísticas, mas também éticas e até mesmo religiosas, sem apelar para a hipótese Deus. Não se trata de negar a Deus, mas sim de afirmar a sua inutilidade".

- "As pessoas religiosas falam de Deus quando o conhecimento humano não dá mais de si mesmo, ou quando fracassam as capacidades humanas. Na realidade, limitam-se sempre a oferecer um deus ex machina, ao qual exibem para que solucione os problemas insolúveis... Mas não quero falar de Deus nos limites, mas sim no centro, não nas fraquezas, mas sim na força, isto é, não na hora da morte e da culpa, mas sim na vida e no bom do homem. Nos limites, parece-me melhor guardar silêncio e deixar sem solução o insolúvel".

- "Não podemos ser honestos sem reconhecer que é necessário que vivamos neste mundo etsi Deus non daretur [como se Deus não existisse]... Ele nos faz saber que é preciso que vivamos como seres humanos que chegam a viver sem Deus. O Deus que nos deixa viver no mundo sem a hipótese de trabalho "Deus" é aquele perante o qual estamos constantemente. Diante de Deus e com Deus, vivemos sem Deus. Deus se deixa desalojar do mundo e pregar na cruz. Deus é impotente e fraco no mundo, e só assim está em nós e nos ajuda... Mateus 8, 17 nos indica claramente que Cristo nos ajuda não por sua onipotência, mas sim por sua debilidade e sofrimentos".

Eis aqui a diferença decisiva de todas as demais religiões. A religiosidade do ser humano o remete, em sua miséria, ao poder de Deus no mundo: Deus é o deus ex machina. A Bíblia o remete ao sofrimento e à debilidade de Deus. Só o Deus sofredor pode ajudar. Nesse sentido, pode-se dizer que a evolução do mundo para a vida adulta, fazendo tábua rasa de uma falsa imagem de Deus, liberta a miséria do ser humano para direcioná-la para o Deus da Bíblia, que adquire seu poder e seu lugar no mundo pela sua impotência.

Bonhoeffer confessava da prisão que, frente "às pessoas religiosas, com frequência, não me atrevo a pronunciar o nome de Deus, porque tenho a sensação de produzir um som equivocado e não muito honesto. Frente a pessoas não religiosas, ao contrário, posso nomear Deus ocasionalmente com toda a tranquilidade e como algo óbvio".

É claro que essa linguagem de Bonhoeffer, lutador de primeira fila e mártir do nazismo, se choca frontalmente com a linguagem de Ratzinger, cuja trajetória frente ao nazismo está muito longe de ser tão veemente e decidida como a do pastor da Igreja da Confissão... E, sem dúvida, a tensão do ser humano e de seu espírito ao enfrentar uma morte violenta como a que coube a Bonhoeffer ajudam a alcançar as verdades em toda a sua profundidade.

- Honorio Cadarso
Artigo publicado no sítio Atrio, 18-01-2012. Tradução: Moisés Sbardelotto
Reproduzido via IHU, com grifos nossos.

Nota do autor:
As citações foram extraídas do livro Resistencia y sumisión. Cartas y apuntes desde el cautiverio, que reúne os escritos de Bonhoeffer na prisão. Foi editado pelas Ediciones Sígueme, Salamanca, 2008. Também pode-se consultar um estudo da teologia de Bonhoeffer escrito por Arnaud Corbic, intitulado Cristo, Señor de los no religiosos, disponível aqui (em espanhol), Biblioteca Koinonia.
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