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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Dom Geoffrey Robinson e a redenção de Eros

Foto: Herb Ritts

Dom Geoffrey Robinson quer que a Igreja, segundo a frase da época de Pentecostes, "fale uma linguagem inteiramente nova" sobre os atos sexuais, mas entende que deve pronunciar o seu convite em um vocabulário de distinções e regulações legais à moda antiga, que se tornou a língua nativa e às vezes bifurcada da instituição.

A opinião é de Eugene Cullen Kennedy, professor emérito de psicologia da Loyola University, Chicago, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 20-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


O abençoado bispo da Austrália que fala com tão bom senso sobre a sexualidade humana é um Robinson por nome e por mito. Porque ele é um Robinson Crusoé, construindo um barco com a ajuda de Sexta-Feira, avatar de todos nós, que permitirá que a Igreja zarpe até as profundezas da experiência sexual humana.

O bispo quer que a Igreja, segundo a frase da época de Pentecostes, "fale uma linguagem inteiramente nova" sobre os atos sexuais, mas entende que deve pronunciar o seu convite em um vocabulário de distinções e regulações legais à moda antiga, que se tornou a língua nativa e às vezes bifurcada da instituição.

Ele faz isso graciosamente, fazendo uma proposta radical para se reexaminar e renovar os ensinamentos da Igreja sobre os atos heterossexuais, condição necessária para que ela possa olhar de novo para os atos homossexuais. Ele compreende que os saudáveis Sextas-Feiras, os homens e mulheres comuns do catolicismo, ultrapassaram há muito tempo a Igreja institucional em seus esforços para compreender e integrar a sua sexualidade em suas vidas.

O propósito de Dom [Geoffrey] Robinson é, de fato, aquele definido pelo Papa João XXIII como a sua razão para a convocação do Vaticano II: "Tornar a caminhada humana sobre a Terra menos triste".

De fato, ao urgir uma revisão muito necessária do que e de como a Igreja ensina sobre sexualidade humana, Dom Robinson se baseia sobre temas centrais do Vaticano II. O primeiro deles se encontra no fato de colocar a realidade da pessoa humana, em vez da abstração da lei natural, como o ponto de referência central nos ensinamentos da Igreja e nos pronunciamentos papais sobre matrimônio e atividade sexual.

O segundo se encontra na mudança de uma ênfase em atos objetivos para intenções e disposições subjetivas ao fazer julgamentos sobre a maldade ou a bondade de como as pessoas se comportam. Isso enfatiza justamente o impacto que nossas ações ou omissões têm sobre outras pessoas, em vez da ira que se estagnou dentro de tantos líderes da Igreja que têm se preocupado tanto com o pecado.

O bravo bispo também aponta para o trabalho acadêmico, em grande parte com o pioneirismo, nos EUA, do corajoso padre Charles Curran, para modificar o antigo ensino de que, devido à sua natureza especial, todo ato, pensamento, desejo ou mesmo distração sexual permitidos a iluminar por muito tempo na alma sempre foram um pecado grave e mortal.

As convicções de Robinson sobre a necessidade de uma análise aprofundada do ensino da Igreja sobre a sexualidade são importantes em si mesmas, mas também porque ele encontrou uma forma de falar sobre essa questão essencial a partir de dentro da Igreja, mesmo que de uma forma tradicional e afetada, em que o diálogo se move, embora lentamente, em direção a um círculo mais amplo de prelados.

Ele está buscando, por assim dizer, redimir Eros, isto é, reconhecer a natureza fundamentalmente saudável e criativa de Eros, em vez de rotulá-la, como os Padres da Igreja primitiva fizeram em sua incompreensão do mito do Jardim do Éden, como a consequência carregada de concupiscência do Pecado Original.

As apostas são altas nesse esforço de entender Eros como um impulso humano basicamente saudável que assume seu caráter moral de energia positiva em todas as atividades que dão vida e melhoram a vida, da arte verdadeira ao amor verdadeiro. O Papa Bento XVI falou sobre Eros de uma forma positiva em sua primeira encíclica sobre o amor.

Os Padres do Vaticano II, convidados a votar sobre uma proposta para condenar uma ampla variedade de "ismos", do comunismo ao erotismo, se recusaram a incluir este último depois que um bispo se levantou para objetar a esse mal-entendido do Eros que, como ele disse, tem "algo de bom".

Geoffrey Robinson é um bispo apenas também, levantando-se sozinho como seus antecessores do Vaticano II fizeram, para se dirigir aos outros bispos amontoados sobre ele ao falar da sua necessidade de compreender e afirmar novamente o que é bom e criativo, ao invés do que é mau e destrutivo, em toda expressão de amor sexual verdadeiramente humana.

Eu aposto que, contra todas as possibilidades, Dom Robinson irá falar e, finalmente, será ouvido pelo que há de saudável em seus irmãos bispos.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Bispos Anglicanos da Inglaterra apoiam casamento igualitário


Em meio à polêmica com relação ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Inglaterra, um grupo de veteranos religiosos anglicanos afirmou, em carta divulgada pelo jornal britânico The Times, que a Igreja "não tem nada a temer" diante da perspectiva do matrimônio civil homossexual. Segundo eles, o casamento gay deveria ser visto como motivo de "alegria", não condenação; e destacaram que os líderes eclesiásticos geralmente dão uma falsa impressão sobre o sentimento popular a respeito dos matrimônios homossexuais.

"Afirmações recentes e passadas feitas por líderes religiosos podem ter dado a impressão errônea de que a Igreja se opõe universalmente à extensão dos matrimônios civis aos casais do mesmo sexo", declararam os religiosos. Porém, "a Igreja não tem nada que temer quanto a matrimônio civil entre casais do mesmo sexo. (...) Dependerá de cada igreja decidir como responder de maneira pastoral".

Os autores da carta relembram que o matrimônio "é uma instituição sólida que se adaptou ao longo dos séculos" e que "se afastou da poligamia do Velho Testamento e da preocupação com o status social e com a propriedade nos tempos anteriores ao Iluminismo".

(Fonte: Fora do Armário e Cooperativa.cl, dica do nosso colaborador honorário @wrighini ;-))

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Entre a cruz e o arco-íris

Bordado daqui

Ainda sobre o episódio do cartaz da parada LGBT de Maringá e seu diálogo com a arquidiocese local: nosso amigo Murilo Araújo escreveu um brilhante editorial no Vestiário.org, que vale muito a pena ler (aqui). Achamos tão pertinente a sua reflexão, que resolvemos reproduzir um trechinho aqui:
(...) Vamos fazer um esforço de repensar: em vez de ficar reproduzindo a mania de perseguição, afirmando um eterno embate entre religiosos e militantes, alguém parou para pensar no significado bonito que esse cartaz carrega? 
De certo modo, ele representa a igreja com que eu sonho cotidianamente. Trata-se de um sonho muito particular, porque quem tem outra fé (ou não tem nenhuma) tem todo o direito de discordar desse meu pensamento, ou de apenas não se preocupar com isso. Mas, se substituíssemos a Catedral de Nossa Senhora da Glória por uma escola, ou por um prédio do governo, o cartaz continuaria representando a minha utopia: uma instituição que transforma uma só cor em várias, e que gera a diversidade, em vez de anulá-la. 
(...) [O arcebispo, D. Anuar] Batistti afirmou que a preocupação maior da Igreja deve ser contra a violência e não contra o movimento, e apontou caminhos para a criação de uma espécie de “pastoral da diversidade” na Arquidiocese. Se a iniciativa é válida ou não, a discussão é outra, mas eu, talvez inocentemente, vejo pelo menos o esforço de diálogo como um sinal de esperança. Continuar na briga desmedida é fazer mais do mesmo. E acho que não queremos ser todos um bando de fundamentalistas, mesmo que cada um ao seu modo.


Leia também:
Uma questão de justiça: os LGBTs de Maringá e a Catedral
Entre a cruz e o arco-íris

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Igreja Católica: uma renovação é possível?

Foto: Gavin Dunbar

A homilia de Bento XVI na Missa do Crisma da Quinta-Feira Santa poderia marcar uma passagem-chave do "segundo tempo" do seu pontificado. O fato novo é que ele citou explicitamente a Iniciativa dos Párocos Austríacos que assinaram um "Apelo à desobediência" para solicitar mudanças na Igreja Católica. O documento teve um grande impacto, causando adesões e iniciativas semelhantes em escala internacional.

Diante da contestação aberta, as reações mais frequentes da instituição eclesial são o silêncio, a deslegitimação de quem contesta e a condenação. Bento XVI não escolheu nenhuma dessas opções.

O fato de citar uma realidade desse tipo em uma ocasião liturgia tão solene é uma novidade que soa como um reconhecimento do seu porte.

O papa não considera a desobediência como um caminho a ser percorrido na Igreja, mas não deslegitimou os padres em questão, nem pronunciou condenações. Ele quis acreditar, ao invés, na sinceridade da sua solicitude pela Igreja. Ele pronunciou um claro "não" à ordenação feminina, mas sem esgotar o assunto, que continua aberto, do papel eclesial da mulher e da ministerialidade feminina (que é muito mais amplo). Ele também não se fechou para as outras questões levantadas pelo apelo.

Em suma, parece que ele se colocou em uma sincera atitude de diálogo, da sua posição de pastor da Igreja universal, como fez também o arcebispo de Viena, que se encontrou mais de uma vez com o porta-voz da iniciativa. Bento XVI não se pôs em nada na estrada da excomunhão, como alguns já invocaram.

De fato, ele reconheceu a renovação como dinâmica essencial da Igreja, afirmando também que, assim como a desobediência, o enrijecimento – que não quer nenhuma mudança – também não é um caminho a seguir. É uma mensagem clara contra o tradicionalismo radical que também foi retomado por um editorial do diretor do L'Osservatore Romano.

Há a possibilidade de abrir na Igreja Católica uma temporada de diálogo para a renovação eclesial? Isso irá depender da boa vontade das partes em causa. A bola passa agora para os padres austríacos e para os seus apoiadores. Eles deverão ter cuidado para não radicalizar a sua própria posição, mas também em não deixar que a sua iniciativa deslize para a insignificância.

Acredito que é importante que eles procurem uma coordenação com iniciativas análogas que surgiram em outros países, tentando se concentrar em dois ou três pontos fortes sobre os quais pode haver uma abertura real do Vaticano (como a questão da comunhão aos divorciados em segunda união) e que podem assumir um valor simbólico.

- Christian Albini, cientista político e leigo católico italiano
Nota publicada no blog Sperare per Tutti, 06-04-2012. Tradução: Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

Leia também:
A quem é devida a obediência religiosa

sábado, 14 de abril de 2012

A quem é devida a obediência religiosa

Foto: nebulous 1

"A coragem também é mostrada pelo mameluco, a obediência é o ornamento do cristão". A frase, tirada da balada de Schiller A luta contra o dragão, é sintomática de um modo de pensar que dominou por muito tempo as altas esferas da Igreja Católica. O que não é ordenado ou, pelo menos, aprovado do alto não deve ocorrer.

Isso não favorece necessariamente atividades e responsabilidades pessoais dos católicos, mas lhes permite ver de vez em quando como se comportam os bispos em uma situação difícil e problemática. Nas relações com as ditaduras, como vimos, pastores "condescendentes" e os seus rebanhos estavam principalmente do lado seguro, enquanto aqueles que agiam obedecendo mais à sua consciência do que ao exemplo da sua hierarquia corriam o risco de perseguição, tortura e execução capital.

O Concílio Vaticano II – será celebrado no fim do ano o 50º aniversário da sua abertura – definiu a consciência na constituição pastoral Gaudium et Spes como "o núcleo mais secreto" e "o sacrário do homem" e, finalmente, como voz de Deus e lei à qual o homem deve obedecer. Segundo a doutrina católica, uma "consciência formada" deve se orientar naturalmente segundo o ensinamento da Igreja, mas isso não significa que o indivíduo não possa chegar a conclusões diferentes, se delas estiver honestamente convencido.

Isso certamente se torna crítico quando um grupo inteiro lança um "Apelo à desobediência", como ocorreu no ano passado na Áustria. Com a palavra-tabu "desobediência" conscientemente escolhida, os promotores da iniciativa assustaram não só a hierarquia local, mas também a central de Roma. Se outros apelos críticos, de grupos menores ou maiores de teólogos, foram mais facilmente ignorados – no máximo, se negava aos signatários o acesso a uma cátedra –, agora, com relação à "desobediência" austríaca, o Papa Bento XVI pessoalmente tomou posição. Justamente na Quinta-Feira Santa, em uma das celebrações mais importantes do ano, ele perguntou retoricamente na sua pregação: "Será a desobediência um caminho?".

Do ponto de vista do papa, ela certamente não é um caminho, principalmente não uma desobediência que deve ignorar "decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer".

Por outro lado, ele concede aos autores que é a "solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje".

Bento XVI ressaltou na sua rejeição à desobediência, expressa somente na forma de questões críticas, que, na história da época pós-conciliar, pode-se reconhecer "a dinâmica da verdadeira renovação" e chamou a atenção para o fato de que "para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor".

A questão é se a "radicalidade da obediência" – além do mais uma obediência que manifestamente o papa requer não só para com Deus e para com a consciência, mas também para com as autoridades eclesiásticas – realmente forma um todo com as três colunas cristãs da fé, da esperança e da caridade. Bento XVI já dedicou encíclicas à esperança e à caridade. Resta saber se agora ele quer tematizar em um ensinamento por escrito, juntamente com a fé, o muitos pressupõem, também a obediência.

Surpreendeu o fato de o papa ter intervindo dessa forma a propósito da Iniciativa dos Párocos Austríacos, assim como o tom bastante moderado. Nenhuma menção a sanções contra os reformadores da Igreja por parte do bispo de Roma, que, em seu tempo como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, havia recebido o apelido de Panzerkardinal, mas sim uma advertência a eles, especialmente para mudar de opinião com relação a temas sobre os quais atualmente não se pode discutir, como a ordenação das mulheres (benévolos expoentes do clero da Áustria, como o bispo auxiliar emérito de Viena, Helmut Krätzl, já haviam aconselhado isso aos "desobedientes").

Na Áustria, no entanto, as palavras do papa foram recebidas não negativamente, mas sim como um encorajamento – tanto pelo presidente da Conferência Episcopal, o cardeal Christoph Schönborn, quanto pelo primeiro representante da Pfarrer-Initiative, Helmut Schüller, que se mostrou "agradavelmente surpreso".

A reação papal mostra, de todos os modos, que as exigências dos padres austríacos são levadas a sério no Vaticano. Não parece ser, de momento, uma ameaçadora ruptura, mas sim, certamente, um processo de diálogo longo e complicado. O fato de o papa ter abordado o tema torna mais alegre o som dos sinos da Páscoa. Para chegar a um verdadeiro evento de Pentecostes, em que conservadores e reformadores não só se entendam linguisticamente, mas cheguem a soluções amplamente compartilhadas, o caminho a ser percorrido, porém, ainda é muito longo.

- Reportagem de Heiner Boberski, publicada no sítio Wienerzeitung.at, 06-04-2012.
Tradução de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Os jovens e a construção da autonomia: um desafio

Ilustração: Marumiyan

“A juventude quer vivência grupal. Nunca houve tanta busca dessa vivência como nos dias de hoje. Por outro lado, a essência da Igreja é ser comunidade (ecclesia). Não se entende uma Igreja que não seja e não promova a comunidade, o grupo. Por isso a juventude espera acolhida”, diz padre jesuíta.

A Igreja precisa possibilitar e incentivar a construção da autonomia. É a partir dessa percepção que Pe. Hilário Dick critica as práticas da Igreja e sua relação com a juventude. Para ele, a Jornada Mundial da Juventude – JMJ, evento católico que reúne o maior número de jovens em todo o mundo desde 1980, tem uma pedagogia que não conduz “à transformação social” e tampouco possibilita o protagonismo juvenil na Igreja. “Não se nega que um e outro jovem mude de valores, se ‘converta’, que descubra Jesus Cristo etc., mas poucos são os dados que fazem que o jovem descubra mais a realidade social ou, até mesmo, a própria realidade juvenil em termos mais amplos”. E complementa: “A maior prova disso está na observação de quem é o protagonista das Jornadas: quem fala? Quem decide? Quem ocupa o palco? De forma um tanto dura podemos dizer que a juventude das JMJ é uma massa de manobra da Igreja-Instituição”, provoca, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

Em contato com a juventude há mais de 40 anos, ele assegura que, apesar das limitações, “a Igreja e a juventude se encontram: a Igreja naquilo que ela deveria ser e a juventude naquilo que ela sonha com uma instituição como a Igreja”. E explica: “A juventude quer vivência grupal. Nunca houve tanta busca dessa vivência como nos dias de hoje. É falso dizer que a juventude não quer viver em grupo. Por outro lado, a essência da Igreja é ser comunidade (ecclesia). Não se entende uma Igreja que não seja e não promova a comunidade, o grupo. Por isso a juventude espera acolhida”. Para que esta aproximação seja possível, sugere, o trabalho pastoral com os jovens deve ser entendido como um processo, “que acontece no dia a dia, nos pequenos grupos que se encontram para relacionar-se, viver, estudar, enfrentar questões comuns, celebrar etc.”.

Hilário Dick é graduado em Teologia pela Pontifícia Faculdade do Colégio Máximo Cristo Rei, e em Filosofia e em Letras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Mestre e doutor, também em Letras, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, é coordenador do Observatório Juvenil do Vale/Unisinos. Entre seus vários livros publicados, citamos Gritos silenciados, mas evidentes: jovens construindo juventude na história (São Paulo: Loyola, 2003) e Cartas a neotéfilo – Conversas sobre assessoria para grupos de jovens (São Paulo: Loyola, 2005). Junto de Carmem Lucia Teixeira e Lourival Rodrigues da Silva publicou Juventude: acompanhamento e construção de autonomia. É autor do Cadernos IHU número 18, intitulado Discursos à Beira dos Sinos. A emergência de novos valores na juventude: o caso de São Leopoldo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a trajetória da Jornada Mundial da Juventude – JMJ? A JMJ é uma apresentação da Igreja para os jovens ou revela o engajamento e a relação da juventude com a Igreja?
Hilário Dick – Quando é que podemos falar de “trajetória” de um evento? Basta ver as datas, o número de participantes, os locais, a reação da sociedade, a repercussão na Igreja, o preço do evento? Qualquer “movimentação” se caracteriza pelas preocupações que manifesta, pelas ideias que defende, pelas propostas que carrega. É mais do que um ajuntamento de datas, de número de participantes, de número de discursos ou “sermões” que se fizeram, de tipos de hinos que foram cantados etc. Por isso, somente com um estudo em profundidade poder-se-á falar de uma possível trajetória das JMJ.

Quanto à segunda parte da pergunta, as Jornadas Mundiais estão provando que elas são muito mais uma apresentação da Igreja para os jovens do que um engajamento dos jovens com a Igreja. A maior prova disso está na observação de quem é o protagonista das Jornadas: Quem fala? Quem decide? Quem ocupa o palco? De forma um tanto dura podemos dizer que a juventude das JMJ é uma massa de manobra da Igreja-Instituição. Assim como não se fala de Reino para esta juventude, insiste-se muito no amor à Igreja. Não podemos dizer que o seguimento de Jesus não é desenvolvido, mas não é o que as juventudes enxergam e ouvem de forma mais significativa.

IHU On-Line – Como explicar a receptividade da Jornada por parte dos jovens? Qual o significado desses eventos massivos? A JMJ tem um viés transformador?
Hilário Dick – Todo jovem gosta de viajar e de participar de um evento em que se encontram muitos jovens. Isso vale para dentro e fora da Igreja. O Papa João Paulo II, além de seu carisma no relacionamento com os jovens, foi transformado num “Papa Pop” como até cantam os Engenheiros do Havaí. Pelo caráter que tinham e têm as JMJ, os meios de comunicação não tiveram nem têm dificuldade em assumi-las.

Existem dois modos de trabalhar pastoralmente com os jovens: ou priorizando uma pastoral de eventos, de grandes concentrações, de movimentos massivos com muito marketing, muita visualidade etc., ou priorizando uma pastoral de processos, essa que acontece no dia a dia, nos pequenos grupos que se encontram para se relacionar, viver, estudar, enfrentar questões comuns, celebrar etc. A Igreja Católica está priorizando, nesse momento, de muitas formas, a pastoral de eventos. É em tal geografia que se situam as JMJ.

Pela pedagogia que se usa nas JMJ pode-se dizer que elas não levam à transformação social. Não se nega que um e outro jovem mude de valores, se “converta”, descobre Jesus Cristo etc., mas poucos são os dados que fazem que o jovem descubra mais a realidade social ou, até mesmo, a própria realidade juvenil em termos mais amplos. Basta recordar o significado que tiveram as mobilizações juvenis na Jornada Mundial de Madrid. A juventude fora da Igreja parece que não existe...

IHU On-Line – Como construir, a partir dos movimentos de grupos, das pastorais da juventude, a autonomia dos jovens que participam da Igreja?
Hilário Dick – Critico a pedagogia, porque as JMJ não garantem a participação da juventude. Se houvesse e se possibilitasse real participação, haveria protagonismo juvenil. Só se constrói autonomia, personalidade, identidade numa boa participação, e uma boa participação significa uma boa organização, onde o protagonismo juvenil seja o exercício da autonomia etc. Podemos dizer que a autonomia é o tendão de Aquiles da Igreja porque se trata do exercício do poder. E a Igreja Católica, hoje e na história, tem muita dificuldade na vivência evangélica do poder. Isso vale para todos, também para o povo de Deus, em geral, e de modo especial para a juventude que vive a descoberta da liberdade (saindo do mundo da dependência), da participação e da autonomia. Esse aspecto fica evidente na forma como são vivenciadas as JMJ. Apesar disso, na teoria, o paradigma que a Igreja defende (assume?) é o da construção da autonomia. Uma das coisas que mais afasta a juventude da Igreja é a esquizofrenia, afirmando uma coisa e fazendo outra, na prática.

IHU On-Line – Em que consiste o projeto de revitalização da Pastoral da Juventude Latino-Americana? Em que medida é preciso revitalizar a ação pastoral?
Hilário Dick – É um atestado de sanidade e de saúde para qualquer instituição o fato de ter vontade de sempre se renovar. Ora, a Pastoral Juvenil Latino-Americana tem uma caminhada de 30 anos, fundamentada na construção da Civilização do Amor. As diretrizes dessa caminhada já mereceram várias reelaborações. A grande decisão da revitalização, falada e sonhada há mais tempo, foi a proposta assumida no 3º Congresso Latino-Americano, em 2010, na Venezuela. Trata-se de reforçar o espírito missionário da juventude, seguindo uma inspiração bíblica. A novidade foi a escolha dos lugares bíblicos alimentando essa revitalização, isto é, impulsionada por aquilo que é mais de Deus: o Evangelho. Vai sair, por isso, em breve, nova edição da obra Civilização do Amor com o subtítulo Projeto e Missão. A Conferência de Aparecida, embora não tenha dito algo novo neste campo da evangelização da juventude, não deixou de reforçar o que já se vinha fazendo, embora dificultando um aspecto fundamental: a articulação, considerada como o melhor instrumento para suscitar a formação de jovens caminhando para o empoderamento, a autonomia ou, então, o protagonismo. A revitalização é uma exigência da vida; também o é da ação pastoral. Uma das formas de sempre se renovar é saber alimentar-se da Palavra de Deus.

IHU On-Line – Na sua avaliação, a juventude está mais consciente do seu papel como ator social?
Hilário Dick – Toda a humanidade e também toda a juventude, com o decorrer da história, cresce em consciência social. Assim como se descobrem e se conquistam novos direitos, também vão-se conquistando e descobrindo novos deveres. É arriscado dizer que a juventude, hoje, tem mais consciência. A juventude atual não é melhor nem pior que a juventude de outrora: ela é diferente. Assim como nos anos 1960 a juventude tentou fazer tudo o que fez sem TV, sem celular, sem internet, etc., a juventude de 2012 deve tentar fazer tudo o que pode com os auxílios que a técnica e a comunicação oferecem. Nos últimos tempos estamos vendo manifestações juvenis significativas em várias partes do mundo. Poderiam ser mais? Poderiam ser melhores? Ser ator social nem sempre é fácil. Assim como também não foi. O mundo dos adultos não quer e nem pode entregar, nas mãos da juventude, o protagonismo e a autonomia. Isso sempre será conquista e sempre será conflitivo.

IHU On-Line – Quais os limites e desafios da Igreja diante da Juventude?
Hilário Dick – O documento 85 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desenvolvendo sua doutrina sobre a evangelização da juventude, chama-se Desafios e Perspectivas da Evangelização da Juventude. Não vou repetir o que está exposto nesse documento. Você faz, no entanto, outra pergunta, dizendo: "O que a juventude procura na Igreja e o que a Igreja tem para oferecer a esta juventude". Eu gostaria de responder às duas questões numa só resposta. Pensando bem, a Igreja e a juventude se encontram: a Igreja naquilo que ela deveria ser e a juventude naquilo que ela sonha com uma instituição como a Igreja. Acentuaria cinco aspectos:

1) a juventude quer vivência grupal. Nunca houve tanta busca dessa vivência como nos dias de hoje. É falso dizer que a juventude não quer viver em grupo. Por outro lado, a essência da Igreja é ser comunidade (ecclesia). Não se entende uma Igreja que não seja e não promova a comunidade, o grupo. Por isso a juventude espera acolhida;
2) a juventude espera ser reconhecida em sua realidade concreta. A Igreja, por sua vez, que não se encarna nas diferentes realidades onde deseja anunciar a Boa Nova, não é a Igreja de Jesus Cristo que se encarnou. É nessa inserção que nasce o profetismo e a juventude deseja uma Igreja profética;
3) a juventude quer ser ela mesma, quer deixar de ser massa para ser povo, isto é, um segmento organizado. Por outro lado, na Igreja, a pastoral orgânica e a colegialidade episcopal fazem parte de seu ser. É só na organização que a juventude vai construir a sua autonomia e seu protagonismo. Não há outro instrumento;
4) a Igreja tem consciência de que ela, como Deus, deve ser acompanhante. Nas últimas Diretrizes Gerais da CNBB, os bispos até dizem que a Igreja é a casa da iniciação cristã. A juventude não quer caminhar sozinha; ela sonha com a presença de alguém que saiba ser “companheiro”, alguém que, com ela, coma do mesmo pão. Portanto, as duas vocações se encontram;
5) a juventude sonha com uma formação que seja integral, que a ajude em todas as suas dimensões. Um dos maiores vazios que ela sente é a ausência destes/as companheiros. Por outro lado, a Igreja diz nas suas Diretrizes que ela é e deseja ser uma Igreja a serviço da vida plena para todos. Por isso que afirmamos que não é grande a distância entre a Igreja e a juventude.

Voltando às JMJ, devemos ter presente essas realidades por parte da Igreja (instituição) e por parte da juventude. Se for grande a distância entre os sonhos e as vocações, o diálogo será mais difícil.

IHU On-Line – Quais os desafios de passar de uma igreja episcopal para uma igreja ministerial?
Hilário Dick – A pergunta é simples e complexa. Suponho que a pergunta pense “igreja episcopal” como aquela onde os bispos “mandam” demais, esquecendo-se que também fazem parte do “povo de Deus”. Infelizmente estas contradições também acontecem na Igreja: esquecer-se de sua identidade... A reflexão que desejaria fazer refere-se a uma das doenças de nossa Igreja: o clericalismo. No clericalismo o “leigo” está de um lado, na parte que não decide, que recebe ordens; quem decide é o clero. Um dualismo que não tem sentido, mas que é muito forte em toda a parte, também no trabalho com a juventude. Parece que se tem medo de estar próximo, de perder a autoridade. Isso pode ser visto igualmente nas JMJ. Nem o padre nem o bispo deixam de ser o que são se forem capazes de se misturarem com a juventude, nem quando deixam que a juventude entre no “comando” das grandes plenárias, das grandes concentrações etc. Clero e pastores devem convencer-se de que, embora a “autoridade” seja algo que venha de “fora”, antes de tudo ela é algo que vem de “dentro”, onde todos são “povo de Deus”. É muito estranho que o discurso da “aparência” esteja tão forte em nossa Igreja. É preciso voltar à simplicidade que aprendemos com Jesus de Nazaré.

O triste é que a ostentação reforça o clericalismo; ela não aproxima. Além disso, esmaga, oprime, provoca uma cisão. É um “encanto” perigoso. Saber ser próximo da juventude e do povo é uma graça, mas é igualmente uma conquista, fruto de estudo, leitura, presença, pesquisa, observação, abertura à novidade. As JMJ serão ações de aproximação quando o espírito de Jesus de Nazaré se manifestar, também, nestas grandes concentrações.

IHU On-Line – O que espera da visita do Papa ao Brasil no próximo ano, quando participará da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro?
Hilário Dick – Deixemo-lo primeiramente vir. Claro que é bem-vindo. O povo brasileiro e a juventude brasileira vão estar de festa. Depois, talvez, possamos fazer uma avaliação. Sonhamos, contudo, que nosso Papa não deixe de estimular a juventude do mundo para que sejam uma novidade no seguimento a Jesus Cristo, indo além das sacristias e dos templos, proclamando o Reino de Deus e não só incentivando o amor à Igreja.

Fonte: Unisinos, via Amai-vos

Igreja de Seattle diz "não" à homofobia


Temos sublinhado aqui a importância de não perder de vista o "magistério silencioso dos cristãos cotidianos" e lembrar que "Igreja" somos todos nós, e cada um de nós é responsável por ser a Igreja que queremos ver no mundo.

Como aconteceu no caso de Barbara Johnson e no caso dos padres suíços que se recusaram a ler uma carta pastoral de seu bispo, soubemos hoje de mais um exemplo de cristãos que deixaram a voz de suas consciências falar mais alto. A arquidiocese de Seattle, EUA, decidiu transformar suas paróquias em centros de coleta de assinaturas para uma campanha contra a aprovação da lei do casamento igualitário no estado de Washington. Porém, a catedral de St. James não vai participar, conforme anunciou seu pároco aos fiéis.

Para o Padre Michael Ryan, seria "doloroso e gravemente segregacionista" colaborar com a estratégia do Arcebispo de Seattle, Peter Sartain. "Embora o Arcebispo tenha decidido apoiar a campanha, ele sabiamente deixou a critério de cada sacerdote decidir se haveria ou não coleta de assinaturas em sua paróquia", explicou. "Após discutir o assunto com os membros da equipe ministerial da catedral, optei pela nossa não-participação. Acredito que isso poderia ferir as pessoas e causaria uma grave ruptura em nossa comunidade".

O Pe. Ryan não foi o único católico a torcer o nariz para a ideia. A governadora de Washington, Christine Gregoire, católica, foi quem aprovou o projeto de lei. O senador do estado, Ed Murray, gay e católico, grande defensor da lei, classificou a decisão do arcebispo de "repreensível".

Esse caso mostra bem por que, quando se fala em Igreja, não se pode pensar apenas no Papa, nos bispos e no clero: Igreja é uma realidade múltipla, plural, que abarca desde a criança que acaba de receber o sacramento do batismo até Bento 16 ou o bispo de sua cidade. É todo o povo de Deus que acredita em Jesus, o Cristo, e procura viver de acordo com a vida dele. Saiba mais sobre a doutrina da Igreja a respeito da prerrogativa da consciência aqui: "Como é possível uma pessoa gay ser católica?".

(Fonte: Advocate.com. Colaboração do sempre atento Hugo Nogueira)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

''É preciso rever a moral sexual'': palavra de bispo


Geoffrey Robinson, bispo emérito de Sydney, fez essa declaração em Baltimore, nos Estados Unidos, durante um simpósio de homossexuais católicos.

Que a Igreja é muitas vezes vista como uma agência que pretende ensinar as pessoas o que se deve ou não fazer, quase como um oásis de controle dentro de uma cultura secular de "liberdade", já se sabia há muito tempo. Uma imagem enganosa que encerra em si uma série de preconceitos a serem desfeitos, mas em que ninguém talvez possa se declarar isento de responsabilidade. Que o caminho que conduz à santidade não consiste em uma superação de um exame de boa conduta, mas sim um entrar cada vez mais em relação com Deus e a sua liberdade não é hoje uma concepção muito difundida, nem entre os católicos, que, de fato – pelo menos segundo os inúmeros estudos e pesquisas sobre o assunto – acabam, em matéria de moral, no entanto, decidindo de acordo com as suas ideias.

Na área da moral sexual, a diferença é ainda mais evidente: nos EUA, por exemplo, enquanto os bispos e alguns católicos invocam a liberdade religiosa para combater a reforma da saúde – que também amplia a cobertura para os anticoncepcionais – não há pesquisa que não indique o seu uso por mais de mais de 98% das mulheres, sem nenhuma distinção de confissão religiosa.

O recurso à liberdade de consciência e à responsabilidade pessoal é uma das aquisições conciliares mais utilizadas em matéria de pastoral familiar, e que diversos teólogos morais preferem se pronunciar com extrema cautela, dada a complexidade das questões de hoje, em que é cada vez mais difícil, senão impossível, traçar uma linha nítida de demarcação, também é conhecido, como muitas pequenas observações ditas em voz baixa por muitos, postas por escrito por poucos.

Mas que um bispo indique, sem muitos rodeios, como a doutrina moral da Igreja tem necessidade de uma bela revisão talvez poucos imaginariam, antes do dia 15 de março passado, quando, em Baltimore, Dom Robinson, bispo emérito de Sydney, declarou que é necessário "um novo estudo de tudo o que tem a ver com a esfera da sexualidade para melhorar o ensino da Igreja em matéria de relações tanto hetero quanto homossexuais". Na verdade, "todo o ensino que disciplina todas as relações de tipo sexual deveria ser atualizado, porque o sexo é uma modalidade importante para expressar o amor entre duas pessoas". E, se a sociedade o banaliza, não é óbvio que a Igreja deve continuar aceitando acriticamente as antigas concepções da moral sexual que nos vêm da tradição.

Geoffrey Robinson fala com conhecimento de causa: australiano, nascido em 1937, títulos em filosofia, teologia e direito canônico em Roma, foi pároco e professor de direito canônico, juiz do tribunal eclesiástico para os matrimônios, além de ter trabalhado para escolas católicas e no diálogo ecumênico. Em 1984, foi nomeado bispo auxiliar de Sydney e, em 2002, o Papa João Paulo II o chamou para fazer parte da comissão vaticana para o abusos por parte do clero. Tendo se aposentado por causa do limite de idade, voa frequentemente para os EUA para conferências e retiros em universidades e paróquias.

Em março deste ano, Dom Robinson visitou os EUA mais uma vez. Nos dias 15 e 16 de março, ele foi um dos oradores do VII Simpósio Nacional sobre Catolicismo e Homossexualidade – que ocorreu em Baltimore, Maryland, com a presença de mais de 400 pessoas, incluindo gays, lésbicas e transgêneros católicos –, um tema ao qual ele também dedicou estudos e energia no passado.

No mesmo simpósio, discursou o governador do Estado, Martin O'Malley, que havia assinado alguns dias antes a legalização do casamento gay, ao qual os opositores ameaçam um recurso ao referendo (mas as pesquisas indicam que a maioria ainda está a favor, ou até em crescimento).

Precisamente ao responder a questão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Robinson declarou que a doutrina da Igreja sobre o matrimônio é clara e imutável, mas que a abordagem das questões de moral sexual e a própria interpretação de algumas passagens da Escritura sobre a homossexualidade precisam de uma "profunda revisão".

Ele teria chegado a essa convicção – confessou – analisando justamente as causas sobre os abusos do clero na qualidade de presidente da Sociedade Australiana de Direito Canônico. "Paradoxalmente, foi justamente o choque dos abusos que me convenceu sobre a importância fundamental do sexo na vida das pessoas, e não haverá nenhuma margem de mudança da doutrina da Igreja Católica sobre os atos homossexuais enquanto não houver uma mudança sobre os atos heterossexuais".

"Se o ponto de partida – como é hoje na moral oficial – é que todo ato sexual individual deve ser necessariamente tanto unitivo quanto procriativo, então nunca haverá qualquer possibilidade de aprovação do menor ato homossexual".

"Durante séculos, a Igreja ensinou que todo pecado sexual é pecado mortal. Hoje, isso já não é mais proclamado aos quatro ventos como antigamente. Porém, a doutrina nunca foi abolida e afetou muitas pessoas, favorecendo a crença em um Deus irascível que condena ao inferno por um único instante de prazer derivado de um desejo humano de ordem sexual". "Uma vida moral – declarou – não é só fazer as coisas certas, mas também compromisso para chegar a identificar qual é a coisa certa a fazer".

Robinson continuou a sua turnê de palestras em todos os EUA. No dia 30 de março, ele esteve na Santa Clara University, na Califórnia, para, depois, voar até San Francisco no sábado e assim retornar para Sydney. Não houve relatos de reações por parte de seus coirmãos norte-americanos, mas ele encontrou um notável apoio no editorial do jornal National Catholic Reporter publicado no dia 27 de março.

"Estamos em perfeita consonância com Dom Robinson para um reexame aprofundado e honesto do ensino da Igreja sobre a sexualidade". Se a posição é clara, assim também é a motivação: contribuir para fazer com que a Igreja não seja condenada à irrelevância no panorama cultural de hoje.

Acolher o convite de Robinson para abandonar a ideia do pecado sexual como um pecado contra Deus, para, ao contrário, considerar a moral sexual em termos de bem ou mal com relação às pessoas representaria um passo de grande liberdade. Ao invés de ir em busca do bem ou do mal em atos objetivos individuais – é um ato é unitivo e aberto à procriação? – o desafio é se esforçar para olhar para as intenções e as circunstâncias. "Os atos sexuais são agradáveis a Deus quando ajudam o crescimento das pessoas e melhoram as suas relações. Mas não são agradáveis quando causam ofensa às pessoas e pioram as suas relações".

O convite é o de não se concentrar na leitura literal da Bíblia para compreender o significado mais profundo nos termos da jornada espiritual do povo de Deus na história.

Robinson não é o primeiro a pedir uma revisão da moral católica, escreve o editorial, mas certamente a palavra de autoridade de um bispo irá se juntar ao coro, acrescentando uma nova dimensão. Só com uma moral sexual clara e compreensível hoje seremos capazes de desafiar a mensagem martelante da cultura dominante na mídia: uma sexualidade egoísta que idolatra a satisfação pessoal, o sexo separado do amor e que coloca em primeiro lugar o "eu" ao invés do "você".

Não nos esqueçamos, escreve o NCR, que uma sexualidade cristã genuína, centrada nas exigências dos outros, responderia mais plenamente às expectativas mais profundas do coração humano e seria capaz de promover de forma mais eficaz a relação entre as pessoas.

Trata-se, no fim das contas, de assumir, sempre, a própria responsabilidade pessoal no dia a dia, que é, além disso, o primado conciliar da consciência.

- Maria Teresa Pontara Pederiva, para o Vatican Insider, 30-03-2012.
Tradução: Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Bento XVI critica, ainda que suavemente, o clericalismo na América Latina

Foto: JF Diorio/AE

O ato diplomátio de alta tensão do Papa Bento XVI em Havana, pressionando pela liberdade religiosa, mas evitando o confronto direto com o regime de Castro, foi o principal flash noticioso da sua viagem ao México e Cuba entre os dias 23 a 28 de março. No entanto, havia outro leitmotiv para a viagem, mais sutil, mas sem dúvida mais decisivo para a Igreja na América Latina.

Não me levem a mal, mas o papa ofereceu uma ridicularização gentil, embora inconfundível, do clericalismo. Seu foco pareceu ser a gradual reformulação da cultura eclesial, não as manchetes sensuais de curto prazo, o que a coloca diretamente na sala de controle de Bento XVI.

O catolicismo na América Latina é extremamente diversificado, desde o catolicismo popular emocional das diversas devoções marianas, até as "comunidades de base" que foram a espinha dorsal da teologia da libertação. Uma corrente importante, no entanto, tem sido uma forma extraordinariamente forte de clericalismo, talvez o inevitável resultado do fato de a fé ser efetivamente um monopólio até muito recentemente.

Expressões típicas desse clericalismo incluem:

  • O clero se vê como lobbista político, desempenhando um papel direto nos assuntos de Estado;
  • A Igreja projeta uma imagem de poder e de privilégio com seu imaginário espiritual preferido enfatizando Deus como um monarca cósmico;
  • O papel dos leigos é concebido em termos largamente passivos – "pague, reze e obedeça";
  • Pouco valor é dado à evangelização ou à formação na fé, com o cuidado pastoral sendo entendido principalmente em termos de administração de sacramentos.

As consequências pastorais negativas desse tipo de clericalismo são agora incrivelmente claras. Enfrentando o duplo ataque violento do secularismo em alguns círculos e do pentecostalismo praticamente em todos os demais lugares, a Igreja Católica na América Latina manteve perdas enormes em porcentagem durante o fim do século XX. (Os números católicos brutos aumentaram como resultado do crescimento da população em geral, mas a parcela católica do continente diminuiu, em parte devido ao astronômico crescimento do cristianismo pentecostal e evangélico).

Pode parecer irônico que uma viagem papal, com todo o seu imaginário clerical resultante, tenha sido o veículo para uma crítica do clericalismo. Também pode parecer irônico, ao menos para alguns, que Bento XVI tenha sido o papa a fazer isso, dado que os críticos ao longo dos anos o acusaram de defender uma espécie de eclesiologia da "alta Igreja" contra um catolicismo popular "de baixo".

O tecido da história, no entanto, muitas vezes é costurado com ironia, e essa viagem parece ser um caso exemplar a respeito.

A Igreja e a política
Em primeiro lugar, Bento XVI reafirmou que a Igreja Católica não é um partido político, e que a sua contribuição mais importante para a vida política é a formação das consciências individuais – valorizando o papel do clero como pastores, não como especialistas ou ativistas.

Bento XVI fez isso antes mesmo de chegar à América Latina, no avião papal, pouco depois de decolar de Roma. Em resposta a uma pergunta sobre o papel político da Igreja, ele ressaltou que é preciso ter clareza sobre "o que a Igreja pode e deve fazer, e o que não pode e não deve fazer" – uma referência ao perigo das plataformas diretamente partidárias.

No Parque Bicentenário de León, Bento XVI ofereceu uma meditação sobre "Cristo Rey", que era o grito de guerra dos cristeros durante a Revolução Mexicana e ainda é invocado hoje por membros da Igreja mexicana como uma espécie de cartaz político.

"O seu reino não consiste no poder dos seus exércitos submeterem os outros pela força ou pela violência", disse o papa. "Funda-se em um poder maior, que conquista os corações: o amor de Deus".

Nesse espírito, Bento XVI exortou os católicos a serem "corajosos na humildade".

Bento XVI continuou seu discurso evitando qualquer coisa que pudesse ser interpretada como um comentário político direto na corrida às eleições do México em julho. As lideranças católicas do México são frequentemente percebidas como alinhadas em favor do partido conservador Ação Nacional, e alguns temiam que a viagem papal equivaleria a um comício de campanha.

No entanto, Bento XVI nunca disse nada sobre as eleições vindouras, nem mesmo algo anódino como um chamado genérico à responsabilidade eleitoral. Surpreendentemente, ele evitou amplamente as questões polêmicas do aborto e do casamento gay, que estão em jogo no México e em outras partes da América Latina (durante a sua intervenção no Ângelus de domingo, Bento XVI se referiu à importância da "defesa e do respeito pela vida humana").

Com relação às lealdades políticas da Igreja Católica, Bento XVI enfatizou que a Igreja deve "estar do lado de quem é marginalizado pela violência, pelo poder ou por uma riqueza que ignora quem carece de quase tudo".

O papa disse que a fé deve ter consequências para a vida pública, rejeitando uma "esquizofrenia" que tenta separar a ética privada e a moralidade pública. No entanto, mesmo aqui, o papa sublinhou que o papel da Igreja é a "educação das consciências", ao invés de oferecer soluções legislativas diretas.

Em geral, Bento XVI parecia determinado a oferecer à América Latina um exemplo de como um clérigo católico sênior poderia passar vários dias sob um intenso foco midiático sem resultar em um político de batina.

Um Deus "pequeno e próximo"
Durante suas considerações a bordo do avião papal, Bento XVI fez uma meditação sobre o que ele chamou em italiano de um "cristianismo essencializado", ou seja, um cristianismo focado no "núcleo fundamental para se viver hoje com todos os problemas do nosso tempo".

No centro desse cristianismo essencial, defendeu o papa, está a ideia de um Deus que é pequeno e próximo de cada pessoa humana – para além do Deus "grande e majestoso", o tipo de imaginário espiritual h[a muito tempo associado com uma Igreja clericalista.

"Nós vemos a racionalidade do cosmos, vemos que há algo por trás disso, mas não vemos como esse Deus está próximo, como ele concerne a mim", disse o papa.

"Essa síntese do Deus grande e majestoso e do Deus pequeno que está perto de mim, que me orienta, que me mostra os valores da minha vida é o núcleo de evangelização", afirmou Bento XVI.

Em seu discurso para os bispos latino-americanos, Bento XVI afirmou que essa noção de um Deus pequeno e próximo flui naturalmente em um espírito de serviço.

"A Igreja não pode separar o louvor de Deus do serviço aos seres humanos", disse ele.

"O único Deus Pai e Criador é que nos constituiu irmãos: ser homem é ser irmão e guardião do próximo", disse o papa. "Nesse caminho, com toda a humanidade, a Igreja deve reviver e atualizar o que Jesus foi: o Bom Samaritano que, vindo de longe, se integrou na história dos homens, nos levantou e se prodigalizou pela nossa cura".

Os leigos não são pessoas que contam pouco
O golpe mais direto de Bento XVI contra o clericalismo surgiu em uma discussão sobre o papel dos leigos na Igreja.

Não por coincidência, o papa escolheu um discurso para os bispos da América Latina e do Caribe na catedral de León para apresentar esse ponto, enfatizando que ele estava falando não apenas para o México, mas para todo o continente.

"Uma atenção cada vez mais especial é devida aos leigos mais comprometidos na catequese, na animação litúrgica, na ação caritativa e no compromisso social", disse o papa. "A sua formação na fé é crucial para tornar presente e fecundo o Evangelho na sociedade atual".

Só isso já seria suficiente para puxar o tapete de uma psicologia überclericalista, em que a aplicação da fé à sociedade contemporânea é tratada como território exclusivo da casta clerical.

Para ter certeza de que ninguém perdeu o ponto, porém, Bento XVI acrescentou uma injunção ainda mais direta sobre os leigos.

"E não é justo que se sintam tratados como quem pouco conta na Igreja", disse ele, "apesar do entusiasmo que sentem em trabalhar nela segundo a sua vocação própria, e o grande sacrifício que às vezes lhes requer esta dedicação".

O papa também pediu que "um espírito de comunhão" prevaleça entre sacerdotes, religiosos e os fiéis leigos, afirmando que "divisões estéreis, críticas e suspeitas nocivas" devem ser evitadas.

"Missão Continental"
Finalmente, Bento XVI endossou repetidamente o pedido feito por uma grande "Missão Continental", que resultou da última assembleia geral dos bispos latino-americanos em Aparecida, Brasil, em 2007, da qual o papa participou.

Os pilares dessa "Missão Continental", tal como foi concebida há cinco anos, são:

  • Um forte papel para os leigos como evangelizadores de vanguarda;
  • Uma sólida formação na fé para toda a população católica da América Latina, não apenas para as elites clericais (ou mesmo leigas).

Uma e outra vez, Bento XVI voltou a essa ideia, salientando que a evangelização e a formação na fé são uma preocupação de todos.

"A Missão Continental, que agora está sendo realizada de diocese em diocese neste continente, tem precisamente como objetivo fazer chegar essa convicção a todos os cristãos e às comunidades eclesiais", disse o papa, "para que resistam à tentação de uma fé superficial e rotineira, por vezes fragmentária e incoerente".

Esse trecho sobre uma fé "superficial" é, indiretamente ao menos, um golpe contra uma das mais notórias patologias do clericalismo, em que a maioria dos leigos são batizados, confirmados e casados na Igreja, mas, por outro lado, são deixados se virando sozinhos.

A consequencia evidente dessa a abordagem pastoral laissez-faire foi capturada em um ditado espanhol: "Católico ignorante, seguro Protestante": ou seja, um católico ignorante certamente irá se tornar um protestante, A ideia é que alguém que não sabe por que é católico, em primeiro lugar, é um bom candidato para resolver seu negócio religioso em outro lugar quando uma oferta atraente surgir.

Bento XVI pediu que essa Missão Continental esteja no centro do "Ano da Fé" que ele proclamou recentemente.

Uma nota de rodapé sobre os cartéis e Maciel
Em declarações no sábado durante uma celebração das Vésperas, antes de um encontro de bispos latino-americanos ao qual um jornalista italiano se referiu como um "conclave latino", Bento XVI se referiu às "nossas fraquezas e faltas" e à realidade da "maldade e a ignorância dos homens", mesmo dentro da Igreja.

Os comentários foram interpretados como uma referência indireta a dois capítulos da história mexicana recente que mancharam a imagem do clero católico: a íntima relação que alguns membros do clero parecem ter com os cartéis de drogas e seus senhores – que às vezes vão à missa e até mesmo dão dinheiro à Igreja para demonstrar suas bona fides católica – e o caso do falecido Pe. Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, que cometeu várias formas de abuso sexual e de más condutas.

Bento XVI nunca mencionou diretamente o caso Maciel e recusou um pedido de se encontrar com as vítimas de Maciel. Em uma sessão com os jovens, no entanto, o papa convidou "todos a protegerem e cuidarem das crianças, para que nunca se apague o seu sorriso, podendo viver em paz e olhar o futuro com confiança".

Será que vai funcionar?
Mudar a cultura eclesial de todo um continente não é fácil, e a maioria dos observadores irá lhe dizer que a desconstrução do clericalismo na América Latina é ainda um trabalho em progresso. Além disso, não está claro se o novo abraço por parte dos bispos de um robusto espírito missionário com liderança leiga é verdadeiramente uma questão de “metanoia”, de uma mudança duradoura de coração e de mente, ou simplesmente uma resposta pragmática para não serem derrotados pelos pentecostais.

Mas há sinais de que o catolicismo na América Latina, aos trancos e barrancos, está fazendo a transição do clericalismo para um espírito mais dinâmico (e, é claro, portanto, mais fissíparo e frenético) de energia empreendedora.

Em seu livro de 2008, Conversion of a Continent, o padre dominicano Edward Cleary argumenta que a América Latina está nas garras de uma turbulência religiosa, com o pentecostalismo como sua ponta de lança. No entanto, Cleary argumenta que o catolicismo também está se tornando mais dinâmico, gerando altos níveis de compromisso entre aqueles que ficam. Cleary acredita que esse despertar católico teve suas raízes nos movimentos leigos que remontam aos anos 1930 e 1940, mas teve seu início com a saudável concorrência dos pentecostais.

Se a transição para longe do clericalismo insalubre for levado a uma conclusão bem-sucedida, a viagem de março de 2012 de Bento XVI pode ser lembrada como um ponto de virada – não tanto em termos de provocar a mudança, talvez, mas ao menos por dar a ela o apoio papal.

- John L. Allen Jr., para o sítio do jornal National Catholic Reporter, 30-03-2012. Tradução de Moisés Sbardelotto, reproduzida aqui via IHU.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cardeal de Viena desautoriza pároco e confirma homossexual como membro de conselho paroquial [Atualizado em 04/04]

Foto: AFP

Postamos esta notícia originalmente em 02/04/12 mas, tendo encontrado uma versão bem mais completa da história aqui, estamos atualizando seu conteúdo em 04/04/12.

O jovem de vinte e sete anos, Florian Stangl, foi o mais votado, entre os paroquianos, durante as eleições do novo conselho pastoral de Stützenhofen, ao norte de Viena. O pároco, porém, não quis admitir sua designação. E, aí, interveio o arcebispo, que assumindo a responsabilidade, decidiu convalidar a eleição. A intervenção do cardeal Cristoph Schönborn, agora, está sendo motivo de polêmica (Die Presse, em alemão). Nos últimos dias, depois de expressar reservas, num primeiro momento, decidiu admitir no conselho pastoral, da paróquia da pequena cidade austríaca, um jovem homossexual que convive com seu parceiro, com quem contraiu união civil.

Na votação, ocorrida há três semanas, Stangl obteve 96 votos a favor, dos 142. O pároco Gerhard Swierzek pediu para que ele renunciasse e, inclusive, o convidou para não se apresentar para receber a eucaristia. Uma decisão contestada pelo vigário forâneo, responsável pelo decanato, o padre George Von Horick: “Se existe a permissão aos divorciados, que voltam a se casar, para se colocarem como candidatos – disse – tampouco as inclinações, nem a vida homossexual” devem impedir a eleição.

Num primeiro momento, a diocese de Viena havia declarado que o registro numa união civil não permite a participação no conselho pastoral. Stangl declarou numa entrevista: “Sinto-me unido aos ensinamentos da Igreja, porém o pedido de viver em castidade me parece pouco realista. Quantas pessoas vivem na castidade?” E pediu para falar com o cardeal Schönborn, que convidou, ele e seu parceiro, para almoçar. No dia 30 de março, o arcebispo de Viena fez publicar uma segunda declaração, mais articulada (Arquidiocese de Viena, em alemão). Schönborn agradeceu aos “muitos candidatos às eleições do conselho pastoral”, porque com suas candidaturas “demonstraram interesse pela Igreja e pela fé”. “Assim – continua o cardeal – deram testemunho da vitalidade da Igreja. Em sua diversidade, refletem a diversidade atual dos caminhos de vida e de fé”.

“Existem muitos membros dos conselhos pastorais paroquiais – acrescentou o arcebispo de Viena – cujo estilo de vida não cumpre, em sua totalidade, com os ideais da Igreja. Em vista do testemunho de vida que cada um deles nos dá, em conjunto, e do esforço em viver uma vida de fé, a Igreja aprecia seu compromisso”.

Schönborn, então, elogiou a viva participação das jovens gerações na vida paroquial da pequena comunidade de Stützenhofen, e a grande participação nas eleições do conselho pastoral. “Os erros formais que vieram à luz, durante a eleição, não colocam em discussão os resultados da eleição, em que o candidato mais jovem, Florian Stangl, recebeu a maioria dos votos”.

O cardeal conta que se reuniu com Stangl e que ficou “profundamente impressionado por sua fé, por sua humildade, e pelo modo em que concebe seu serviço. Ele pôde compreender por que os paroquianos votaram, de forma tão decidida, na sua participação no conselho pastoral”. Por último, o cardeal assinalou a decisão do conselho episcopal, que por unanimidade estabeleceu que as autoridades diocesanas não pretendem invalidar a eleição, nem os resultados, e que revisarão as regras para os conselhos pastorais, para esclarecer os requisitos necessários para os candidatos.

A que “erros” Schönborn se referia? Ao fato de que os candidatos para os conselhos pastorais, na diocese de Viena, devem assinar uma declaração na qual garantem cumprir com todos os requisitos necessários, entre os quais está o de adesão da fé e disciplina da Igreja católica, que, como se sabe, condena a prática homossexual e as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Porém, na eleição em Stützenhofen, os candidatos não quiseram assinar a declaração, afirmando verbalmente cumprir com os requisitos.

Nos últimos dias, na Itália, foi o cardeal Carlo Maria Martini, arcebispo emérito de Milão, que se pronunciou sobre a possibilidade do reconhecimento das uniões civis de pessoas do mesmo sexo. No livro-entrevista “Credere e conoscere” [Crer e conhecer] (Einaudi), escrito em diálogo com Ignacio Marino, Martini afirmava: “(...) não seria ruim que no lugar de relações homossexuais ocasionais, as pessoas tivessem certa estabilidade e, então, neste sentido, o Estado poderia favorecê-las também”.

Fonte: Vatican Insider, 03-04-2012. A tradução do Cepat, aqui reproduzida via Dom Total e IHU.


* * *

Nossa postagem original, de 02/04:

Vão permitir que um homossexual, que vive abertamente com outro homem, seja membro de um conselho paroquial (leigos que assessoram o pároco)? Esta foi a pergunta que despertou acalorados debates na Áustria nos últimos dias, como informa o diário vienense Die Presse.

Florian Stangl foi eleito para o conselho paroquial de Stützenhofen, um povoado da Baixa Áustria na região de Weinviertel, mas a notícia não foi recebida com grande entusiasmo por parte do párroco, Gerhard Swierzek.

Para surpresa de alguns fiéis, Stangl e seu marido conseguiram marcar uma entrevista com o cardeal Christoph Schönborn, que ao que parece os convidou para comer, ou, pelo menos, teve com o casal uma longa conversa. Segundo o Die Presse, o cardeal Schönborn foi a favor de que Stangl não deixasse o conselho paroquial, mas a decisão ainda não fora comunicada oficialmente... Até ontem à tarde. De fato, Schönborn confirmou Stangl em seu cargo, segundo informa a agência católica austríaca Kathpress.

A notícia poderia ter acabado aqui, mas tem mais.

Enquanto isso, o sacerdote de Stützenhofen recebeu ameaças, jogaram gasolina por uma janela de sua casa e um jornal local teria divulgado a falsa notícia de que o padre teria "saído de férias". (É assim que pretendemos construir um mundo melhor? Isso é defender a paz? Indo à guerra? Apelando para a mesma violência e difamação de que somos alvo há tanto tempo? A refletir...)

Fonte: ABC.es via nosso "colaborador honorário" @wrighini ;-)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eu sou a filha da Chiquita Bacana


Resiliência – Capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas (Wikipédia)

É isto de que boa parte das minorias são feitas. Para existir, o que por si só já é resistir, num mundo com padrões rígidos de ser aos quais você não satisfaz, por um motivo ou outro, ou por quase todos, é preciso resiliência.

E isto fica absolutamente claro através da celebração das “filhas da chiquita”. A festa surgiu em 1975 no bojo da maior manifestação religiosa do norte do Brasil, o Círio de Nazaré que atrai cerca de 2.000.000 de pessoas em Outubro.

Este contexto é interessantíssimo. O mais importante evento gay de Belém do Pará nasce em simbiose total com a festa católica mais tradicional da região. Espera-se a imagem da santa ser transladada até a Igreja da Sé e depois no meio deste percurso acontece a festa. Há shows de drag, música e muito, muito fervo.

Eu conhecia esta história por alto, mas ontem vi o ótimo documentário “As filhas da Chiquita” (Direção: Priscilla Brasil. 2006). O filme retrata muito bem esta interseção entra as duas festas e a maneira como cada um dos respectivos organizadores lida com esta confluência de motivos, pessoas e rituais tão díspares.

O discurso da Igreja é o óbvio ululante e não poderia ser outro a partir dos personagens escolhidos para representá-la: um padre com cara de infeliz que repete todos os bordões de uma teologia rasa contra a homossexualidade e uma senhorinha fofa de cabelos quase azuis que diz que um assassino merece mais perdão do que um homossexual.

A fala das “chiquitas” é bem mais interessante. Mostra como cada um, e muitos se afirmavam devotos, ressignificou a pertença religiosa para além da questão da culpa pela homossexualidade. Mais do que isso, desde que esta é entendida como algo intrínseco, vivê-la é de algum modo respeitar a sua natureza e, assim sendo, ser autêntico, verdadeiro, valores morais positivos diante de Deus.

O documentário, rapidamente, conversa com gente simples sentado num bar. Um diz que a homossexualidade é algo estranho à cultura cabocla, indígena da região, uma espécie de contágio que viria do “sul”, das novelas a que os companheiros de mesa logo desdizem; um senhor faz mesmo um discurso bastante libertário sobre o que, nós “do sul”, chamamos de “direitos individuais”. O que mais me chamou atenção nesta sequência, no entanto foi o uso tranqüilo, plenamente incorporado ao discurso, do termo “gay”. Não deixou de me causar certo fascínio pensar que tal termo foi incorporado à homossexualidade nos E.U.A. como uma forma de positivar a experiência de ser homossexual e foi se propagando por meio da militância e setores mais engajados com esta mesma finalidade, chegando até uma mesa de bar bem simples em Belém do Pará.

É o “mestre de cerimônias” da festa das filhas da Chuiquita, no entanto, que nos dá a forma mais feliz de entender a relação entre estas duas festas. Uma imagem que sai cheia de flores, com um manto todo trabalhado na pedraria tinha mesmo que inspirar uma festa gay. E eu acrescentaria: que é conduzida num carro puxado por um bando de homens se roçando uns aos outros para segurar a corda. Ok, talvez a melhor frase mesmo seja a da Miss “Chiquita 2006”, uma drag pobre e descabelada que no seu agradecimento disse cinco frases incompreensíveis, no meio das quais soltou esta: “Nasci feia. Porque quando eu nasci, a beleza tava de férias”.

Fiquei pensando também se apesar de ser um grande fervo a festa das chiquitas não é por si só a manifestação gay política mais significativa do Norte. Existir e se mostrar em praça pública, no evento sagrado e sério do Círio, talvez seja maior do que qualquer manifestação sisuda e cheia de cartazes.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A missão de um bispo: primeiro os pobres, os presos, os doentes, os estrangeiros

Imagem daqui

O perfil do bispo contemporâneo em debate: para o bispo recém-eleito de Novara, na Itália, Franco Giulio Brambilla (foto), o cardeal Carlo Maria Martini delineia a figura pastoral do bispo sobre o pano de fundo dos grandes textos da tradição bíblica, que enfatizam a sua dedicação, amorosidade e o mandato que vem de Cristo.

A opinião – escrita por ocasião do lançamento do novo livro do cardeal Martini, intitulado Il vescovo [O bispo] (Ed. Rosenberg & Sellier, 92 páginas) – foi publicada no jornal Corriere della Sera, 22-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Vou saudar o cardeal Martini. Em poucos dias, farei o ingresso como novo bispo da diocese de Novara. Ele foi o da minha maturidade de padre. Falamos longamente com o olhar no momento presente da Igreja e do mundo. A sua voz imperceptível intervém pouquíssimo, com palavras afiadas e encorajadoras.

A certa altura, ele me pergunta: que programa você tem para Novara? Ele pede que o secretário busque um pequeno livro, ainda quente da imprensa: Il vescovo [O bispo]. Ele me diz: quis escrever de minha mão com dificuldade. Ele será lançado em alguns dias dias. Em casa, leio-o de uma vez só.

É um pequeno livro pensado no rastro da grande tradição do Liber pastoralis, de Gregório Magno a Carlos Borromeu. Ele não frequenta os grandes picos da teologia. Protela-os conscientemente. Devia ser – diz a nota introdutória do editor – a primícia da coleção La cura delle parole. É como o número zero, confiado a "um verdadeiro mestre do cuidado com as palavras". E assim foi escrito. Ele quer falar do bispo para "arrancá-lo do nicho e vê-lo em contato com as pessoas (...) com uma imagem menos vaporosa e hierática, mais viva e sem falsas pretensões".

Martini, mestre da Palavra, é capaz de tecer sobre a trama da linguagem humana uma reflexão sapiencial, tingida de ironia e desencanto, de pontas marcantes e saborosas notações. Ele a entrega a todos aqueles que se perguntam sobre o sentido de autoridade na Igreja e sobre a sua presença na sociedade civil.

As palavras precisam de cuidado, senão se consomem. Ou, melhor, corrompem a nossa relação com o real, porque são a porta para o mistério do ser. A etimologia do termo "bispo" (de epi-skopein: supervisor, guardião, guia, pastor) tende a esmagar a sua figura sobre a questão da autoridade. Essa, na comunicação pública, goza hoje de uma má fama. Martini a remove da sua concentração sobre o poder de governo para colocar o bispo em relação com a Palavra e a sua ação santificadora. Quando estava em Milão, ele dizia frequentemente que sentia o ônus de ser um símbolo também para a cidade.

A figura pastoral do bispo é lida sobre o pano de fundo dos grandes textos da tradição bíblica, que enfatizam a sua dedicação, amorosidade e o mandato que vem de Cristo. Surge daí uma imagem persuasiva que faz do bispo um "servidor da Palavra de Deus". O próprio Martini foi como que o seu ícone: "Ele deve ter o Evangelho dentro de si mesmo e, assim, ser um Evangelho vivo".

Surpreenderá muito, até mesmo aqueles que não frequentam a língua da Igreja, a sua insistente referência ao vínculo do bispo com a Igreja celeste: ele deve "ser homem de oração, sobretudo de oração de intercessão". Para concluir de modo icônico: "Se queremos um bispo profeta, é preciso dar-lhe muito tempo para rezar".

A imagem perfilada por Martini no capítulo crucial do pequeno livro relê radicalmente o tema da autoridade. O seu poder é iluminador e libertador, que participa dos gestos de libertação do mal de Jesus e transmite a força do fermento evangélico. A autoridade na Igreja tem a forma testemunhal, porque coloca em contato vital a consciência com a Palavra. Como disse em um texto fulgurante, o terreno não existe sem a semente: "Terra e semente foram criados um para o outro. Não faz sentido pensar na semente sem uma relação própria com o terreno. E este último sem a semente é deserto inabitável. Fora da metáfora: o homem, assim como nós o conhecemos, se cortar toda a sua relação com a Palavra, torna-se estepe árida, torre de Babel".

A ponta de diamante da figura do bispo, segundo Martini, se desdobra no terceiro capítulo de modo agradável por parte de todos. Passam-se em resenha todos os contatos do bispo: com os não crentes, os pobres, os doentes, os encarcerados, os estrangeiros. Depois, a ampla rosa das relações eclesiais: os fiéis, os colaboradores, os padres e diáconos, os teólogos, o seminário, os religiosos, o mundo missionário. Para terminar com as instituições, os judeus e o mundo da mídia. É o capítulo mais "martiniano", onde se desenha a imagem do bispo que se deixa guiar – na dialética com o mundo – pela pergunta: Quid hoc ad Evangelium?, "o que eu faço e digo, o que tem a ver com o Evangelho?”.

Um texto provocativo que não despreza nem o debate com o peso burocrático da vida da Igreja e a sua relação com as diversas instâncias da Igreja universal.

Enfim, à margem do livro, as características atuais de um bispo: a integridade, a lealdade, a paciência e a misericórdia. Esculpidas com o estilete de um sábio bíblico e entregues idealmente a um jovem bispo. Como a conclusão final do livro: "Um homem humilde, que vence as durezas com a sua doçura, que sabe ser discreto, que sabe rir de si mesmo e das suas fragilidades. Que sabe reconhecer seus próprios erros, sem muitas autojustificações. Portanto, acima de tudo, um homem de verdade".

Um Martini clássico!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Entrevista com Leonardo Boff – Imperdível

Na segunda-feira, dia 23, zapeando, deparei-me com uma excelente entrevista no programa “É Notícia” da RedeTV com o Leonardo Boff.

Já tinha lido muitos textos dele, mas sua serenidade e firmeza nas duras críticas a Igreja me fez pensar bastante no tipo de Igreja que desejo pra mim. Em vários momentos eu exclamei - “...isso, Isso, ISSO...”!!!

Ou seja, para este homem permanecer na Igreja é um ato muito Cristão. Resistindo e se articulando pra mudar o que ele acredita.

Durante a entrevista, Boff explica os princípios da teologia da libertação, sexualidade, ética na hierarquia, de quando estudou com Ratzinger, fala também dos anos como Frei Franciscano e dos conflitos com o Magistério nesse período e critica a postura das Igrejas na mídia.

A entrevista é longa, está divida em 3 partes. Mas, enquanto você trabalha pode ir ouvindo :)

Na sequência:

Parte 1


Parte 2



Parte 3





O teólogo Leonardo Boff é considerado um dos nomes mais importantes da Teologia da Libertação e da defesa dos Direitos Humanos. Ingressou na Ordem dos Frades Menores em 1959 e, em 1992, pressionado pelo Vaticano, renunciou às atividades de padre. Boff é autor de mais de 60 livros sobre teologia, ecologia, espiritualidade, filosofia e antropologia.



Rodolfo Viana

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O Papa e o Casamento Gay

Foto: Rodney Smith

O discurso anual do papa Bento XVI aos diplomatas no Vaticano (1) recebeu uma dura manchete de uma agência internacional de notícias: "Casamento homossexual é 'ameaça' à humanidade, diz papa". E ainda: "Declarações são as mais fortes proferidas por Bento XVI contra união gay" (2).

Quem se der ao trabalho de ler o pronunciamento do papa (aqui) vai encontrar uma gama de questões internacionais sob a ótica de um humanismo de inspiração cristã. São temas como a crise econômica mundial e sua incidência sobre as nações e sobre a juventude, os conflitos do Oriente Médio e da África, as manifestações em favor da democracia, as migrações, o acesso universal à educação, a liberdade religiosa, os desastres ecológicos, e a luta contra as alterações climáticas e contra a pobreza extrema. Há até uma menção à “Rio+20”, a próxima Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável.

O que supostamente disse o papa sobre a ameaça do casamento gay à humanidade? Eis o trecho:
"[...] a educação tem necessidade de lugares. Dentre estes, conta-se em primeiro lugar a família, fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher; não se trata duma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade. Por conseguinte, as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade."
A alusão ao casamento homossexual é no máximo indireta, e mesmo assim questionável. Por que esta união atentaria contra a família tradicional? Os gays não têm obrigação de se tornarem héteros e de se casarem com pessoas de outro sexo. Até porque, para o direito eclesiástico, um matrimônio assim é nulo. Além do mais, as terapias de reversão são proibidas, pois a homossexualidade não é doença. Os héteros, por sua vez, não são gays enrustidos prestes a debandarem diante da possibilidade de união homo. Portanto, casamento homo e casamento hétero são de naturezas distintas e não concorrem entre si. Não há ameaça.

De qualquer maneira, o papa não disse aos diplomatas que o casamento gay é uma ameaça à humanidade, ainda que outras vezes tenha se manifestado contra esta forma de união. Há, no entanto, um ranço moralista que só enxerga proibição e condenação no ensinamento da Igreja, sobretudo a respeito de sexo. E todo o resto é irrelevante. Este ranço não está somente nos segmentos ultraconservadores da Igreja, mas também em certa imprensa facciosa que só quer fazer alarde para vender notícia.

Quantas questões de suma importância não foram levantadas pelo papa? Quantos desses assuntos não merecem séria reflexão e engajamento das nações, da opinião pública e dos organismos internacionais? Mas tudo isso é omitido pelo ranço moralista, que embolora as mentes e aliena as pessoas. Que Deus nos livre deste triste empobrecimento humano.

Equipe do Diversidade Católica

Notas:
(1) Leia o discurso do papa na íntegra aqui
(2) Notícia no G1 aqui. Fonte: Reuters.

* * *

Atualização em 16/01/12:

  • Uma das colaboradoras do blog publicou uma reflexão pessoal acerca da repercussão desta nossa nota (veja os comentários deste post), aqui.
  • Em 14 de janeiro, mais ou menos na mesma linha do texto acima, um jornalista do The Guardian denunciou que a agência Reuters atribuiu ao Papa Bento XVI uma frase sobre o "matrimônio homossexual" que ele nunca pronunciou. Leia aqui. (Note que esse link é para um site católico, mas, até onde temos conhecimento, foi o único veículo em português que noticiou a denúncia. Caso prefira, leia a nota original, em inglês, aqui.)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os limites da ''grande tenda'' da Igreja Católica


Em seu livro The Emerging Catholic Church (Ed. Orbis), Tom Roberts relatou e observou a "busca por si mesma" da comunidade católica. No trecho que segue, retirado do livro, ele se afasta do relato para oferecer uma avaliação inicial.

Roberts é editor do jornal católico norte-americano
National Catholic Reporter há 17 anos, tendo sido anteriormente editor do jornal Religious News Service. O trecho foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 16-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A nota positiva é fácil de acertar: remova a Igreja Católica e o trabalho do seu povo do nosso meio, e a vida deste país seria dramaticamente diferente e muito pior do que é. Escolha uma cidade e comece removendo os ministérios e o trabalho das paróquias católicas e dos católicos independentes agindo a partir da sua compreensão do Evangelho e do ensino social da Igreja. Leve embora, por exemplo, o centro iniciado décadas atrás por um casal de irmãs que cuida dos filhos de mães pobres, que trabalham, geralmente solteiras. Elimine a agência nessa mesma cidade que trabalha contra as grandes probabilidades de que um número crescente de homens e de mulheres sejam libertados da prisão sem nada mais do que as roupas que vestem. Há irmãs que estão transformando blocos inteiros de pragas urbanas cuidando dos marginalizados, formando pessoas para os seus trabalhos, reabilitando casas e dirigindo centros residenciais de reabilitação das drogas.

Padres, irmãs e líderes leigos advogam, das fronteiras do Texas e do Arizona ao centro de detenção de imigrantes em Newark, em favor dos refugiados que buscam um novo lar e novas vidas. Em algumas das circunstâncias mais desesperadoras deste país, uma "nova evangelização", inteiramente nova, segue em frente, não com palavras e dogma, mas com o poder da presença e do amor transformador.

Crianças estão sendo resgatadas de ambientes inimagináveis e são ensinadas a reimaginar seus futuros; arte e da literatura, agricultura urbana e novas formas de comunidade começam a fazer parte da história da Ressurreição em cidades do interior infernais.

Escolha qualquer cidade e comece eliminando as cozinhas de sopa e os bancos de roupas e de alimentos, as organizações de caridade católicas que ajudam as pessoas com tudo, desde a habitação ao aconselhamento.

Dentre todos os programas que visam a tentar preencher as lacunas entre as facções da comunidade católica, talvez nenhum encontre uma maior difusão de afinidades do que o JustFaith, o movimento iniciado por Jack Jezreel. Esse não é um programa barato de distribuição de graças. Os participantes se comprometem a meses de encontros com um pequeno grupo, um grande volume de leituras na área da justiça social, e uma determinação de enfrentar alguns dos problemas mais preocupantes do mundo a partir de uma perspectiva cristã e católica. O "curso" inclui visitas a partes raramente vistas das comunidades locais, aquelas partes em que os falidos e marginalizados moram e recebem apoio.

Dezenas de milhares de católicos em todo o país têm se debatido ao longo dos meses com as complexidades de determinar o que é justo e o que pode trazer a paz para situações que vão da cena vista do lado de fora das suas portas aos megaproblemas da guerra, da pobreza, dos refugiados e da degradação ambiental global. Muitos têm se encontrado mudados para sempre nesse processo, conscientes de coisas que eles não haviam ponderado antes, a partir de um ponto de vista ancorado profundamente nos Evangelhos cristãos e, no fim, empoderados a agir como jamais poderiam imaginar.

Multiplique estas poucas observações por centenas e centenas de vezes em todo o país. Remova toda aquela atividade ser humano a ser humano e a oração sobre a qual ela está construída e que a acompanha. A vida de muitos se tornaria extremamente sombria e sem esperança.

A presença católica na cultura é significativa. Da paróquia ao Palácio do Estado, do Congresso à Suprema Corte, da academia a Wall Street, provavelmente nunca houve um momento na história do nosso país em que a vida católica se projetou tão robustamente na vida norte-americana.

E, mesmo assim, a sensação de que nem tudo está bem é generalizada. Há um sentimento inquieto sobre o que significa ser católico e o que ser católico significa no domínio público. Políticos católicos estão em desacordo com os seus bispos acerca de questões de política pública, particularmente no que se refere a estratégias políticas envolvendo o aborto. Membros da hierarquia estão em desacordo uns com os outros, com as instituições católicas e com os religiosos consagrados. Ter líderes empresariais católicos não garante um tipo diferente de mercado. Católicos aos milhares estão envolvidos em guerras que sucessivos papas condenaram. E, a cada nova revelação de abuso sexual de padres contra crianças e de acobertamento oficial, mais credibilidade escorre do nível hierárquico.

As divisões dentro da comunidade católica se expressam em formas mais extremas na blogosfera, que abriu um enorme espaço para opiniões e boatarias irresponsáveis, não documentadas, irracionais e irresponsáveis. Os ataques podem ser cruéis e implacáveis, particularmente a partir daqueles elementos que John Allen chamou de "católicos talibãs", autonomeados guardiães de medidas de ortodoxia autoforjadas. A Grande Tenda da Igreja Católica se estica hoje para conter tudo isso.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Igreja: rigidez e flexibilidade, o ar infalível do Espírito Santo que lhe confere vida eterna

Foto: Caras Ionut

É com imensa alegria que ganhamos esta semana um novo colaborador: nosso querido Marcelo Moraes Caetano, que já havia nos brindado há pouco tempo com um comentário que virou post esta semana ("Aqueles que são bem ditos", aqui). Neste texto, ele comenta algumas questões muito presentes recentemente em nossas discussões.

Eu hoje queria tratar de dois aspectos da Igreja Católica que a acompanham desde a sua fundação, feita pelo próprio Cristo.

Gostaria de falar da sua rigidez, porquanto perfeitamente fiel à vontade do Pai, anunciada por Jesus, e da sua flexibilidade, aparentemente paradoxal àquela primeira característica aludida, a rigidez.

Não vou retroceder aos tempos dos primeiros cristãos, dos catecúmenos. Prefiro restringir-me aos dias mais recentes, e observar como as duas características da Igreja, em vez de se oporem, se interpenetram e se complementam.

Antes de tudo, erra quem acredita que o dogma da infalibilidade significa que algo que foi postulado ou dito não poderá jamais ser revogado. O Papa é infalível; seus bispos, ministros, sacerdotes, todo o clero é infalível. Cremos nisso, com devoção e amor; se não crêssemos, não seríamos católicos, e não estaríamos aqui discutindo em prol de nossa vivência completa no catolicismo: simplesmente estaríamos fazendo o que bem nos aprouvesse e não debateríamos sobre os sacramentos e os dogmas da Igreja de Cristo, que amamos, e de que queremos participar sem sermos “invisíveis”.

Toquei no ponto da infalibilidade para voltar àquela dicotomia acima: rigidez X flexibilidade. E para refletir sobre a questão do ar insuflado no coração eclesial. Com efeito, “ar” é palavra que em grego é polissêmica, e significa ao mesmo tempo “alma”, “espírito” e “vento”, “fôlego” (cf. “ar”, do grego: “pneuma”; essa mesma polissemia ocorre em hebraico, cf: “ruach” = “ar” e “espírito”). O próprio Messias utiliza um trocadilho com essa polissemia, para ser instrutivo a seus discípulos: “Vede, o vento sopra onde lhe apraz, e vós ouvis a sua voz, porém não sabeis nem de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece para quem nasce do Espírito” (Evangelho de São João). Jesus usou também um trocadilho quando usou a palavra “sefas”, que significa “pedra”, para dizer justamente a “Pedro” que lançasse a “pedra” fundamental de Sua Igreja, pondo-o como o seu apóstolo paráclito e pioneiro.

O ar da igreja, seu Espírito, é ao mesmo tempo causa e consequência (nesses aparentes paradoxos que só Deus pode solucionar) de sua infalibilidade, que por sua vez, sustenta-se no equilíbrio (como as asas de uma Divina Pomba, como a pomba que volta do dilúvio com o ramo de oliveira entre o bico, profetizando a nova aliança) entre rigidez (a pedra) e flexibilidade (o voo, o ar).

A Igreja precisa ser rígida, antes de tudo, porque sua fidelidade à Voz de Deus não lhe permite meias palavras, meios-termos. Outra razão é o fato de que a Igreja precisa manter a sua tradição, porque, se não a mantiver, os fiéis vão se indagar: “Por que frequentar uma instituição que não difere em nada do mundo aqui de fora?” Nós, fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana, vamos a ela, frequentamo-la, antes de tudo, porque sabemos que, ali dentro, em comunhão com o Cordeiro de Deus, “estamos dentro do mundo, mas completamente fora dele”, como diz São João da Cruz. “Abraçar a cruz é uma loucura”, como dizia Santo Agostinho. É uma loucura porque significa estar no mundo e fora dele... O Bispo de Hipona usou a palavra “loucura” com esta intenção: “nadar contra a correnteza”. E, se vamos à Igreja, é porque necessitamos de seu ar, de seu Espírito.

Repito, pois: se a Igreja aceitar todas as modernidades, tudo o que é modismo, o que entra e sai da voga como um produto descartável qualquer, vai perder seu sentido, antes de tudo porque não estará mais anunciando a Lei de Deus, e, em seguida, porque seus fiéis não sentirão necessidade de comungar com o céu se este céu tiver se tornado mundano. Quem vai à igreja vai ao céu, está no céu. São Leonardo de Porto Maurício dizia que ser católico "...consiste em irdes à Igreja como se fôsseis ao Calvário, e de vos comportardes, diante do altar, como o faríeis diante do trono de Deus, em companhia dos Santos Anjos. Vede, por conseguinte, que modéstia, que respeito, que recolhimento são necessários para receber o fruto e as graças que Deus costuma conceder àqueles que honram, com sua piedosa atitude, mistérios tão santos".

A Igreja é – e precisa ser – rígida, tradicional. Esta é a sua infalibilidade. Sua infalibilidade existe porque tudo o que Pedro atar na Terra será atado no céu, e tudo o que ele desatar na Terra, assim o será no céu.

Mas, há a outra asa do Divino Espírito Santo, sem a qual a infalibilidade da Igreja não se sustentaria: a sua flexibilidade. Examinemos como isso se dá. Dizer que a Igreja não muda nunca, que nunca mudou, está muito distante da verdade, uma distância de côvados intermináveis, de estádios inteiros. Pedro mesmo aconselhou-nos que fôssemos tolerantes uns com os outros e que compreendêssemos uns aos outros. Jesus disse: Antes de chegardes ao altar e vos apresentardes para o Pai, ide até vosso irmão com quem vos desentendestes, e reconciliai-vos.

Duas palavras eu retiro daqui: ide e reconciliai-vos.

Cristo não disse: “Ide e julgai”.

Ide. Reconciliai-vos. Sede tolerantes. Compreendei-vos mutuamente.

A Igreja, como o Corpo de Cristo, também vai e se reconcilia com seu rebanho. Se não fizesse isso, não seria a nossa Igreja. É esta, precisamente, a marca do apostolado que levamos ao nos sabermos, de coração e alma, católicos, apostólicos, romanos. É esta, precisamente esta, a flexibilidade a que aludo. A legitimidade sobrepujando a legalidade. Os dons do Espírito soterrando a força por vezes aterrorizante de leis arcaicas e enferrujadas. Reconciliação. Se a Igreja fosse apenas rígida e tradicional, e se não buscasse a reconciliação, por meio de uma incrível flexibilidade ao longo de mais de 2000 anos (a instituição mais antiga do planeta), simplesmente não teria sobrevivido às intempéries históricas abjetas e hediondas às quais sobreviveu – fortalecida.

Os gays poderíamos estar em muitas outras religiões ou denominações cristãs que aceitam os gays, mas, com todo o respeito, profundo, que nutrimos por elas, por que preferimos nos manter católicos?

Exatamente porque confiamos na infalibilidade do nosso clero, cujo Pastor Divino é o nosso amado Papa. Palavra que é acróstico de “Petrus Apostolus, Princeps Apostolorum” (P.A.P.A.): “Pedro Apóstolo, Príncipe dos Apóstolos”. Nosso Papa é, sim, o Príncipe dos Apóstolos e o Sucessor legítimo e legal de São Pedro.

Por isso, como ensinou Pedro: “Sede tolerantes e buscai a compreensão mútua”.

A Igreja, então, muda, sim, para se reconciliar. Ela obedece a Cristo quando disse: “Ide e reconciliai-vos”. Ela não poderia fingir que esse mandamento não foi ordenado.

Para dar um primeiro exemplo: o Beato João Paulo II, em seu Pontificado, pediu perdão publicamente pelas omissões da Igreja durante o nazismo.

O Papa que estava naquele momento em sua missão pontifícia, Pio XII, foi “falível”?

Não! Ele não foi falível, mas a Igreja, ecclesia sancta et meretrix, igreja santa e pecadora, reconheceu uma omissão grave contra os seres humanos (nem os católicos, mas os judeus, ciganos, homossexuais e outras vítimas da sanha do Führer alemão), e, com a humildade de Cristo, pediu perdão ao seu pecado, confessando-se no sacramento da penitência, ao povo de Deus, Urbi et Orbi, a Roma e ao Mundo, frase dita por um sumo-Pontífice ao dirigir-se ao seu rebanho em bênçãos especiais, como a de Natal, de Páscoa e até mesmo, em alguns casos, a do início do compromisso como sucessor de São Pedro.

O Papa pediu perdão não porque seu predecessor tenha “errado”, mas porque, como Deus é o Senhor do tempo, ille tempore, ele viu que seu predecessor não estava vendo (ou até mesmo não estava conseguindo executar) algo crucial à manutenção do rebanho de Deus: a prática irrestrita da misericórdia a todos.

O Papa Pio XII não era nazista, como alardearam alguns livros mal informados. Sabe-se que ele escondeu milhares de judeus, homossexuais e perseguidos nos subsolos do Vaticano. Ajudou-os a fugir com a anuência de diplomatas, inclusive brasileiros, como Sousa Dantas (na França) e Guimarães Rosa e sua esposa, Aracy Guimarães Rosa (na própria Alemanha). Há um detalhe: o governo brasileiro na época era a favor do nazismo, e, ainda assim, esses e outros diplomatas brasileiros na Europa, junto com o Papa Pio XII, arriscaram não apenas seus cargos, mas suas vidas ao fazerem migrar judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová, comunistas e outros perseguidos para solos simpatizantes ao nazi-fascismo, como o era o Brasil, repito.

O Papa Pio XII foi um Pastor de valentia comparável à de um Santo Inácio de Loyola, e, embora diplomático (o que faz com que alguns o tenham na conta equivocada de omisso), lutou com todas as suas forças e poderes e hierarquias contra o nazismo.

Mas, ainda assim, João Paulo II pediu perdão pelas omissões cometidas por todo o clero durante o regime de Hitler. Porque houve omissões. Ou ao menos o Papa João Paulo II assim o sentiu, e, obedecendo ao seu coração, veio a público pedir perdão.

Houve, para dar continuidade à questão, outros membros do clero, padres, freiras, e até leigos valorosíssimos a favor dos direitos humanos em todos os momentos da História. Houve padres que foram a favor da Inconfidência Mineira (e morreram por causa disso), da Conjuração Baiana (Soror Joana Angélica morreu fuzilada e martirizada ao impedir, sozinha, que um exército invadisse seu convento). O Padre Fernando Bastos d´Ávila, e tantos outros, lutaram aguerridamente contra os abusos e desmandos da ditadura militar, recente no Brasil, pondo suas próprias vidas em risco para socorrer os perseguidos pelo status quo, pelo establishment terrível e iníquo que grassava. E os exemplos pelo mundo seriam praticamente infinitos.

Então voltando ao caso do Santo Padre João Paulo II, ele pediu perdão ao mundo. Ele foi e se reconciliou.

Foi uma atitude de humildade, e de flexibilidade. Ele não se constrangeu de admitir uma omissão grave por parte do clero e da sua então atitude enregelada, legalista, farisaica, omissa, condescendente. Antes, com total sinal de contrição, foi a público pedir perdão por um erro do qual ele, como Pontífice, seria co-responsável se não se confessasse. E, com isso, redimiu toda a Santa Igreja de um pecado que ela cometeu, sim, num passado bastante recente.

Assim, tempo chegará, certamente, em que a Igreja inteira há de perceber o equívoco que há em se banir um homossexual pelo simples fato de ele ser homossexual, e não por supostos frutos indevidos de sua videira, ou em exigir que esse homossexual se esconda da sociedade e se abstenha da sexualidade, do sexo, a não ser que ele tenha sido chamado, por Deus, em Jesus e no Espírito Santo, e só pela Santíssima Trindade, por mais ninguém, à vida em celibato e em castidade.

Não se julga uma árvore senão pelos seus frutos. Não se pode julgar um grupo de pessoas (todas as vezes que se fez isso, que qualquer instituição fez isso, inclusive a Igreja, errou; a diferença é que a Igreja reconhece seus erros e pede perdão por eles), não se julga um grupo inteiro, sem se atentar para as individualidades e singularidades que compõem este grupo. Não se diz “os homossexuais estão errados”, “as mulheres estão erradas”, “os negros estão errados” etc. Será que só há figueiras estéreis nesses grupos olhados de maneira tão truculentamente panorâmica? Einstein definia “estupidez” como a faculdade de não discernir. Nomear grupos e dar a todos que ali estão inseridos uma mesma característica – boa ou má, pecador ou santo – é estupidez, isso para ficarmos no campo do eufemismo.

Julga-se alguém – Deus julga alguém, fique bem claro – pelas suas obras, por seus frutos. Na parábola do joio e do trigo, Jesus deixa isso claro: o joio e o trigo, na aparência inicial, são idênticos; mas, ao crescerem, diferem um do outro; então – ensina o Salvador – deve-se atar o trigo para o pão num feixe o joio será amarrado e queimado. Onde haverá choro e ranger de dentes. Deus julgará a cada um de nós, independentemente dos “grupos” a que pertencemos, pelas nossas obras, nossos frutos, se fomos ou não capazes de multiplicar os talentos que ele nos deu, se, enfim, somo joio ou trigo.

Essa é a interpretação da misericórdia do Julgamento de Deus nos Dies Irae.

Por não se ter pensado assim, no passado, já se usou a Bíblia para se justificar a escravidão dos negros todos, um grupo (supostamente descendentes de Sem, filho enjeitado de Noé, o que também gerou o antissemitismo, pois os semitas seriam descendentes do mesmo Sem); a completa submissão das mulheres, todas elas, por causa do pecado original de Eva; o desprezo aos deficientes físicos, sem exceção, inscrito em Levíticos, que prescreve que eles não poderiam sequer se aproximar das proposições; e vários outros livros. Mas Cristo veio para redimir a todos esses “desterrados”. Cristo veio e salvou as prostitutas, os leprosos, os deficientes físicos de todo tipo, os publicanos, as mulheres, os samaritanos... Enfim, o médico veio por causa dos doentes, e não por causa dos sãos.

O médico veio para discernir. Para separar o joio do trigo. Para secar a figueira estéril e comer o fruto da figueira fértil. Ambas eram figueiras – do mesmo “grupo” – mas Cristo não julga “grupos”, julga indivíduos.

Cristo teria, então, vindo para remendar o Antigo Testamento? De jeito nenhum: ele veio para dar a chave da CORRETA interpretação do Antigo Testamento – o amor. Sem o amor, o verbo não teria se feito carne, e nem habitado entre nós. “Ainda que eu fale a língua dos homens, e que eu fale a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria” – ensinou Paulo. Cristo veio confirmar a Lei, mas a sua confirmação é esta: ser lida em Espírito, em amor, e não em formalidade, em farisaísmo.

O homossexual vive uma vida de dores e alegrias exatamente igual à dos heterossexuais. Simone de Beauvoir, em seu livro “O segundo sexo”, diz algo que parafraseio aqui: “Homens, mulheres, homossexuais, todos gozam alegrias e padecem dores iguais; todos caminham na estrada da consciência da vida, e suas éticas não estão, de forma alguma, ligadas às suas manifestações íntimas”.

Portanto, ser infalível não significa dizer que o tempo não revelará que as atitudes tomadas em dado momento estavam incorretas. Ou melhor: as atitudes estavam corretas PARA AQUELE momento, mas isso não significa que não tenham de ser revistas, reconciliadas, e, em muitos casos, alvo de pedido de perdão público até mesmo de um Papa, que, exatamente por ser um Papa, sabe que o sacramento da penit~encia pode ser necessário à Igreja como um todo, porque ela, instituição que também é formada por seres humanos, pode pecar.

Ser infalível significa que o clero age com a mais perfeita intenção, inspirado, sim, pelo Espírito Santo. E disso, nenhum de nós duvida.

Mas ser infalível também significa que, inspirado pelo mesmo Espírito Santo, o mesmo clero, em tempo vindouro, poderá reconhecer que 1) poderia ter feito mais do que fez, ou que 2) não deveria ter feito algo que fez, ou que 3) deveria ter feito algo que não fez.

Particularmente, eu, como católico praticante, em muitos momentos já me indispus com atitudes do clero que eu considerava demasiadamente farisaicas, e, como sempre faço, expressei-me publicamente acerca de minha indignação. Hoje, no entanto, compreendo exatamente a dicotomia da infalibilidade, que reside, como foi dito, na rigidez necessária e na flexibilidade, cujo tempo de maturação pertence a Deus, Senhor dos Plantios e das Colheitas.

Todos nós, católicos, quer outros católicos nos aceitem, quer não aceitem e resistam em nos apedrejar, todos nós, sem exceção, somos o corpo de Cristo. Cristo, na missa, está na Palavra, na Hóstia e na Assembleia, isto é, em nós todos. Para Cristo, não faz diferença que sejamos condenados por outros católicos: o que importa é o nosso coração ali presente. O que Deus vê é o coração – sursum corda – corações ao alto. Deus não olha os nossos pecados, mas a fé que anima a Sua Igreja. Nossa prestação de contas é no sacramento da penitência. Não somos obrigados, nem mesmo do ponto de vista civil (há leis civis que nos protegem) a sermos achincalhados, hostilizados pelo que quer que sejamos.

Somos singulares, a nossa prestação de contas a Deus será individual. Cristo disse que veio e separará, da mesma FAMÍLIA (mesmo grupo) pai de mãe, filho de filha, irmão de irmã. Por Cristo discerne, não juga a FAMÍLIA, o GRUPO, mas a PESSOA, o FRUTO, os TALENTOS

O Papa Bento XVI disse, na Homilia pelo início do seu Ministério Petrino, em 24 de abril de 2005: "Queridos amigos, neste momento eu posso dizer apenas: rezai por mim, para que eu aprenda cada vez mais a amar o Senhor. Rezai por mim, para que eu aprenda a amar cada vez mais o seu rebanho, a Santa Igreja, cada um de vós singularmente e todos vós juntos. Rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos."

Não teremos nós, tampouco, medo de lobos astuciosos, que se escondem sob pele de cordeiro, que odeiam nossas singularidades, ressaltadas pelo Santo Padre em sua primeira oração e exortação pública; lobos que são “modelos sociais”, “padrões”, mas que, no íntimo, tramam, quiçá, contra seus semelhantes, com um coração imundo, coração este que Deus sonda, observa, conhece, muito mais do que rostos contritos e convolutos em pé diante do altar, nas primeiras fileiras e nos lugares de honra dos banquetes, comendo o pão de Cristo como Judas Iscariotes comeu, com o coração doloso, intentando o mal, eretos, pomposos, augustos, junto aos escribas e doutores da lei...

Aquela mesma lei que mataria... se o Ar do Espírito não a vivificasse...

A infalibilidade da Igreja lhe concede, pois, o anúncio da Vontade de Deus, com a rigidez que isso venha a requerer, e o reconhecimento das próprias faltas e pecados, numa flexibilidade que lhe permite pedir perdão não como um ato ignominioso ou vexatório, mas, antes pelo contrário, como uma atitude digna de quem se comprometeu completamente ao Ministério de Cristo: a Piedade e o Perdão, inclusive a si mesmo, pelas faltas cometidas no passado.

Não nos enganemos com falsos messias que vêm bradando a palavra seca da Bíblia como navalha. O mundo está cheio de seitas que se arrogam cristãs e cujo artifício de sedução (seduzir é a arma do demônio, que é o pai da mentira, como ensina São João Evangelista) é exatamente o uso da Bíblia como um gládio, um punhal, uma mortalha de chumbo sobre os ombros, um discurso histérico e fundamentalista que insiste na “leitura” formalista e farisaica das Sagradas Escrituras, sem admitir nenhuma possibilidade de que aquela interpretação, dada por seres humanos, possa sequer estar errada. São pessoas que, ao que parece, acham-se Deuses – ou o próprio Deus? – na Terra.

Não é essa a Igreja que conhecemos. Não é essa a Igreja que amamos.

Cristo, nossa cabeça, está dirigindo o corpo eclesial, do qual nós todos fazemos parte, quer nos aceitem, quer nos repudiem. (Aliás, se nos repudiarem, em nome de Cristo, seremos exatamente aqueles últimos que virão a ser os primeiros.) E é essa cabeça, só essa, que tem o poder de julgar quais os corações que contêm impurezas e quais aqueles que se apresentam diante do altar com o coração sedento de Deus e de Misericórdia. INDEPENDENTEMENTE DA FAMÍLIA, GRUPO, ORIGEM ÉTNICA, SOCIAL, CULTURAL, SEXUAL. Deus não julga grupos: Deus julga pessoas. Até no dilúvio, Deus salvou quem merecia ser salvo. Até Lot foi salvo, enquanto sua própria esposa se tornava uma estátua de sal no extermínio de Sodoma. Deus salvou quem tinha de ser salvo. Até entre os samaritanos, havia um que se curvou para socorrer seu rival, o bom samaritano. Até entre os centuriões houve um sobre cuja fé Jesus afirmou nunca ter visto outra semelhante, que lhe disse: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”. Até entre os dois bandidos que foram crucificados com Jesus houve discernimento. Jesus não julgou a “categoria”, o “grupo” dos bandidos: ao contrário, um deles foi salvo (São Dimas, o primeiro santo canonizado na Igreja Católica) e outro não. Até entre os apóstolos de Jesus, seu próprio “grupo”, houve uma PESSOA que o traiu: Judas Iscariotes.

Se Deus julgasse grupos e não pessoas, não poderia haver um Judas Iscariotes exatamente no grupo de Seu Filho Unigênito.

(A propósito, São Tomás de Aquino e São Gregório Magno afirmam que a perdição de Judas não se deu no ósculo detrator, mas, antes disso, quando Judas Iscariotes comeu do pão e bebeu do vinho da Santa Ceia já com o coração mal-intencionado. Um alerta, avisam-no-lo os dois santos escolásticos, àqueles que participam da Eucaristia da Missa com o coração cheio de intriga e dolo em relação ao seu semelhante.)

Eu obedeço ao Papa, a quem amo profundamente, pois sei que o Santo Padre Bento XVI é um enviado de austeridade e transparência inigualáveis, discreto, atento, sensível, erudito, inspirado, rígido e flexível, como todo Pai deve ser, e faço o que ele manda: rezo por ele, para que, como ele nos exortou, ele “aprenda cada vez mais a amar o Senhor. Aprenda a amar cada vez mais o seu rebanho, a Santa Igreja, cada um de nós singularmente e todos nós juntos.”

Rezo por vós, meu amado Papa, “para que vós não fujais, por receio, diante dos lobos”.

Por isso, eu repito que, na rigidez e na flexibilidade, frutos sagrados da infalibilidade com que o próprio Cristo dotou Sua Igreja, reside a pedra fundamental e o ar do Espírito Santo que conferem a essa mesma Igreja o Sopro de Vida da Eternidade. Pelos séculos dos séculos.
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