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quinta-feira, 26 de maio de 2011

O verdadeiro significado da obediência

Foto: Anna Di Prospero, "Self-portrait with my mother"

"A obediência não vem de uma batalha de opiniões ou de uma sobreposição de uma vontade sobre a outra, mas sim de um lugar de profunda humildade e respeito." A opinião é de Clare Condon, SGS, superiora das Irmãs do Bom Samaritano da Austrália, publicada no sítio The Good Oil, 11-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU com grifos nossos:

Na época do recente casamento do Príncipe William e de Kate Middleton, a mídia comentou que Kate não incluiu a "obediência a William" na sua fórmula de voto, mas, ao contrário, publicamente, afirmou: "Eu me comprometo a amar, honrar, confortar e conservar".

Considerando as mudanças nas relações de gênero que ocorreram nos últimos 50 anos, pode-se facilmente estar de acordo com a sua resposta. Qualquer forma de obediência em um casamento deve ser mútua e expressada por ambas as partes. Mas talvez haja alguma hipótese subjacente na cobertura midiática sobre o casamento de um futuro rei, de um governante do seu país. Em um marco hierárquico, espera-se que todos obedeçam ao rei?

A linguagem é dinâmica. As palavras mudam seu significado ao longo do tempo e dentro de diferentes contextos culturais. A palavra "obediência" recebe uma imagem muito ruim na nossa atual sociedade democrática e individualista, porque a "obediência" é vista como uma implicação da subserviência, de abrir mão da própria vontade pelo poder e dominação do outro. Ela é vista como um sinal de fraqueza pessoal.

A própria Igreja Católica, com suas estruturas hierárquicas e medievais, também pode distorcer o verdadeiro significado da obediência. Em tal estrutura de poder e dominação, reforçada por uma legitimidade divina, a obediência pode ser vista como simplesmente dizer "sim" ao magisterium ou à autoridade "legal", em uma forma irrefletida e pouco inteligente.

A palavra latina fundamental para "obediência" é oboedire, que corretamente traduzida significa "ouvir ou escutar". Essa tradução implica em uma relação de mutualidade, em que os membros da comunidade ouvem uns ao outros.

Na nossa tradição beneditina, essa palavra está constantemente diante de nós. É nas nossas relações humanas que nos aproximamos de Deus, e é nesses relacionamentos que chegamos a obediência à Palavra de Deus por nós mesmos e uns pelos outros, dentro e para essa comunidade.

A palavra "obediência", na tradição espiritual da Igreja Cristã, pede uma resposta profunda e informada de uma consciência bem formada pela comunidade e pela partilha da Palavra de Deus em um espírito de escuta.

Na obediência, sempre haverá uma tensão, porque nós discernimos as preferências de Deus nas situações reais e desafiadoras em que nos encontramos. A obediência não vem de uma batalha de opiniões ou de uma sobreposição de uma vontade sobre a outra, mas sim de um lugar de profunda humildade e respeito.

Por isso, eu acredito que seja válido ressuscitar o verdadeiro significado da palavra "obediência" em nossas experiências diárias de vida em comunidade, quer seja em um casamento, em uma amizade, em uma comunidade religiosa, em uma igreja ou em uma nação. Se pudéssemos ouvir mais atenciosamente uns aos outros dentro de nossas diversas comunidades, as decisões que fossem tomadas ofereceriam um maior sentido de retidão e de paz em nossas vidas e em nosso mundo.



* * *

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Um grande abraço! :-)

terça-feira, 24 de maio de 2011

A Igreja ainda tem salvação?



"A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo", escreve Anselmo Borges, teólogo e fílósofo, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, comentando o novo livro de Hans Küng, Ist die Kirche noch zu retten? (A Igreja ainda tem salvação?), em artigo publicado no Diário de Notícias, 21-05-2011.

Anselmo Borges, é padre da Sociedade Missionária da Boa Nova, estudou Teologia na Universidade Gregoriana, Roma, Ciências Sociais na École dês Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, e Filosofia na Universidade de Coimbra. Foi professor de Filosofia e Teologia na Universidade Católica Portuguesa e no Seminário Maior de Maputo, Moçambique.

Eis o artigo, reproduzido via IHU com grifos nossos.

Não falta quem se irrite com o simples nome de Hans Küng, acusando-o inclusivamente de ressentido: não teria ainda perdoado a João Paulo II nem a Bento XVI a condenação. Mas quem tenha boa fé sabe que Küng se confessa convictamente cristão - para ele, ser cristão é ter Jesus Cristo como determinante na vida e na morte - e não pode ignorar o seu contributo incalculável para o encontro da fé com o mundo moderno e pós-moderno e um ethos global. Leia-se, por exemplo, a sua recente obra Was ich glaube, várias vezes aqui citada e agora traduzida para espanhol - Lo que yo creo -, onde, de modo profundo e pessoal, responde às perguntas essenciais: em que posso acreditar?, em que posso confiar?, em que posso esperar?, como posso configurar a minha vida?

Foi por imperativo de consciência que escreveu o livro que acaba de ser publicado: Ist die Kirche noch zu retten? ("A Igreja ainda tem salvação?"). "Preferiria não ter escrito este livro. Não é agradável dirigir à Igreja, que foi e é a minha, uma publicação tão crítica", mas, "na presente situação, o silêncio seria irresponsável".

De que sofre a Igreja? A Igreja católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está "realmente doente", "sofre do sistema romano de poder", que se caracteriza pelo monopólio da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual. Que propõe Küng?

É preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Cristo: "A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo." Como procederia Jesus nas actuais situações, quando pensamos no modo como agiu? Seria contra o preservativo, os anticonceptivos, excluiria as mulheres, obrigaria ao celibato, proibiria a comunhão aos recasados? Que diria sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procederia em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso?

A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo. O papado não tem que desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como "um autocrata espiritual", antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente com os outros bispos.

A Igreja, ao mesmo tempo que tem de fortalecer as suas funções nucleares - oferecer aos homens e mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos -, deve assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando, sem partidarismos, à sociedade opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.

Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? "Conselheiros independentes haverá poucos."

Mais: precisa-se de transparência nas finanças da Igreja; deve-se acabar com a Inquisição, não bastando reformá-la, e eliminar todas as formas de repressão; não é suficiente melhorar o Direito eclesiástico, que precisa de uma reforma de base; deve-se permitir o casamento dos padres e dos bispos, abrir às mulheres todos os cargos da Igreja, incluir a participação do clero e dos leigos na eleição dos bispos; não se pode continuar a vedar a Eucaristia a católicos e protestantes; é preciso promover a compreensão ecuménica e o trabalho em conjunto.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

União estável homoafetiva, um direito conquistado


O Frei Gilvander Moreira, que ganhou algum destaque da imprensa há algumas semanas por ter sido uma voz dissonante - ainda que não a única, como ele mesmo reconhece - na Igreja Católica em meio ao ativismo anti-gay da CNBB, publicou por ocasião da decisão do STF o artigo a seguir em seu site. Vale a leitura para mais uma vez constatar que a Igreja é, sim, um corpo plural, de muitas vozes... :-)

O Supremo Tribunal Federal – STF -, dia 5 de maio de 2011, decidiu por unanimidade reconhecer, juridicamente, a união estável homoafetiva.

Assim, o STF reconheceu como legítimas e constitucionais decisões que já acontecem em dez estados brasileiros em 1ª e 2ª instâncias e em mais de vinte países. Decisão justa, que trouxe alegria aos defensores do respeito à orientação sexual homossexual. Declara-se assim o início do fim da hegemonia da moral heterossexual. Abre caminho para a afirmação à luz do dia das uniões estáveis entre homossexuais que até aqui pagavam um altíssimo preço pelas suas opções. Mas segmentos conservadores ficaram irritados e questionam o acerto da decisão do STF.

Para a decisão, o STF se fundamentou em vários argumentos jurídicos, tais como: “A homossexualidade caracteriza a humanidade de uma pessoa. Não é crime. Então por que o homossexual não pode constituir uma família? Por força de duas questões que são abominadas por nossa Constituição: a intolerância e o preconceito.” (Ministro Luiz Fux).

“O reconhecimento de uniões homoafetivas encontra seu fundamento em todos os dispositivos constitucionais que tratam da dignidade humana.” (Ministro Joaquim Barbosa).

“Se o reconhecimento da entidade familiar depende apenas da opção livre e responsável de constituição de vida comum para promover a dignidade dos partícipes, regida pelo afeto existente entre eles, então não parece haver dúvida de que a Constituição Federal de 1988 permite seja a união homoafetiva admitida como tal." (Ministro Marco Aurélio).

“Aqueles que fazem sua opção pela união homoafetiva não podem ser desigualados em sua cidadania. Ninguém pode ser de uma classe de cidadãos diferentes e inferiores, porque fez a escolha afetiva e sexual diferente da maioria." (Ministra Cármen Lúcia).

"O Supremo restitui [aos homossexuais] o respeito que merecem, reconhece seus direitos, restaura a sua dignidade, afirma a sua identidade e restaura a sua liberdade." (Ministra Ellen Gracie).

"É arbitrário e inaceitável qualquer estatuto que puna, exclua, discrimine ou fomente a intolerância, estimule o desrespeito e a desigualdade e as pessoas em razão de sua orientação sexual." (Ministro Celso de Mello).

Se o elo mais forte de uma corrente é o elo mais fraco, só poderá ser mais justo o que for tratado a partir do elo enfraquecido e discriminado. Numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica, os homossexuais são um dos elos discriminados. Feliz do povo que houve os clamores dos que fazem outra opção sexual senão a hegemônica. Quanta dor! Quanta lágrima derramada! Quanta cruz carregada!

Devemos respeitar todos, mas não podemos respeitar todos da mesma forma. Devemos respeitar as minorias – sem terra, mulheres, negros, deficientes, idosos, indígenas, homossexuais, sem casa etc. – nos colocando na e da perspectiva deles para a partir deles nos posicionar sobre o que deve ser considerado justo. E devemos respeitar os diferentes que estão na classe dominante – latifundiário, machistas, racistas, “normais”, fortes, brancos, heterossexuais, especuladores etc – fazendo de tudo para retirar das mãos deles as armas de opressão com as quais discriminam, muitas vezes, inconsciente e involuntariamente.

Na Bíblia, o primeiro relato da Criação (Gen 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado e interconectado a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Nas ondas da evolução, Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O livro de Atos dos Apóstolos resgata, nas primeiras comunidades cristãs, essa mística ao dizer que não há nada impuro. Tudo é puro, é sagrado. Deus não faz acepção de pessoas, não discrimina. O apóstolo Pedro ressalta a ordem divina de não chamar de profano ou de impuro nenhuma pessoa (At 10,28). Pedro muda de atitude e passa a perceber que Deus não faz discriminação de pessoas. O importante é a prática da Justiça (At 10,34-35). O autor da Carta de Tiago nos alerta que Deus não faz distinção de pessoas, mas faz opção pelos pobres. Não é tolerável rico discriminar pobre. (cf. Tg 2,1-9). Numa sociedade hegemonicamente heterossexual, os homossexuais são pobres. Por isso, devem ser respeitados e compreendidos.

Na decisão do STF - que reconheceu a união estável entre as pessoas de opção homoafetiva - não se pode deixar de destacar e parabenizar a luta do Movimento pelos direitos dos homossexuais, que incansavelmente, no Brasil e no mundo, vem marchando pelas ruas, erguendo suas bandeiras, gritando de diferentes formas o direito que agora é reconhecido. Os ministros do STF não criaram uma novidade, mas em cada voto ecoaram os clamores das pessoas homossexuais que lutam pela afirmação de seus direitos há tanto tempo.

Nesse caso, o STF deu exemplo de coragem e cidadania. Tornou-se visível o invisível. Mas a luta continua. Luta contra a homofobia, o preconceito e o conservadorismo que só excluem e negam a liberdade e a dignidade constitucionalmente garantidas e biblicamente amparadas.

Enfim, é ético seguir o seguinte princípio: No necessário, a unidade; no discutível, a liberdade; em tudo, o amor.

Belo Horizonte, 09 de maio de 2011, véspera dos 25 anos de martírio do padre Josimo Tavares, ocorrido em 10/05/1986.


- Gilvander L. Moreira
Frei e padre carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia Bíblica; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina

E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
Twitter: @gilvanderluis
Facebook: gilvander.moreira

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Padre coordena grupo que lançou consultoria online para público LGBT

Ilustração: Esther Aarts

Publicado há pouco no jornal O Globo:

RIO - Entre os religiosos que defendem o reconhecimento dos direitos dos homossexuais, o padre Luís Corrêa Lima, professor do Departamento de Teologia da PUC, ressalta que o Brasil não está longe da questão do batismo de crianças criadas por casal homoafetivo. E defende que convém considerar o que for melhor para a criança. Luís Corrêa Lima dirige o Grupo de Pesquisa Diversidade Sexual, Cidadania e Religião da PUC, formado por professores e alunos de teologia, psicologia e pedagogia.

NOVO OLHAR: Padre contraria CNBB e elogia decisão do Supremo de reconhecer união de casais homossexuais

O grupo acaba de lançar um serviço de consultoria online para público LGBT, no portal Amai-Vos. Ali a pessoa pode tirar dúvidas sobre como proceder em questões ligadas à violência, direitos humanos, religião e espiritualidade. Entre os colunistas do site estão Frei Betto, Leonardo Boff, Luiz Eduardo Soares e Luiz Paulo Horta.

Confira a entrevista com o padre Luís Correa Lima:

O GLOBO - O Grupo de Pesquisa Diversidade Sexual, Cidadania e Religião sofreu alguma resistência dentro da Igreja Católica do Brasil?

LCL - Felizmente, não. Nós estamos em uma universidade, onde a liberdade acadêmica é fundamental para a produção do conhecimento, que se realiza através de debates, pesquisas, eventos e publicações.

O GLOBO - Como o senhor recebeu a decisão do Supremo quanto à união civil homoafetiva?

LCL -Há coisas positivas nesta decisão. Ao contrário do senso comum, existem elementos de convergência entre a decisão do Supremo e a doutrina da Igreja. Um documento do Vaticano, de 2003, trata do reconhecimento civil da união entre pessoas do mesmo sexo. Ele se opõe à equiparação desta forma de união àquela entre homem e mulher, bem como a mudanças no direito familiar neste sentido. No entanto, o Vaticano afirma que se podem reconhecer direitos decorrentes da convivência homossexual.

Este passo é muito importante. Se não houver nenhum reconhecimento social ou proteção legal às uniões homoafetivas, a homofobia presente na sociedade vai pressionar os gays a contraírem uniões héteros, para fugirem de um preconceito que é muito forte. Isto já acontece há séculos, traz muito sofrimento e precisa parar. O sacramento do matrimônio nestas circunstâncias é inválido. É preciso que os fiéis saibam disto. O casamento tradicional não é, de modo algum, solução para a pessoa homossexual.

O GLOBO - A posição da CNBB, expresso em documento público, é consensual?

LCL - Tudo indica que sim, por ser da Presidência da entidade. Alguns bispos individualmente se manifestaram a favor de direitos dos conviventes homossexuais, mas frisando que não se deve considerar esta convivência como família.

O GLOBO - Como o senhor se posiciona sobre o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo?

LCL - O casamento religioso está fortemente enraizado na tradição judaico-cristã, que desde os tempos bíblicos é heterossexual. Em países escandinavos e em regiões onde as uniões homoafetivas são comuns, igrejas como a Anglicana e a Luterana realizam bênçãos para estes conviventes, embora distinguindo estas uniões do casamento. Mudanças na tradição não são impossíveis de acontecer, mas é difícil saber o que vai permanecer, o que vai mudar e quanto tempo vai levar.

O GLOBO - O senhor defende o batismo de crianças criadas por casais homoafetivos?

LCL - O número de crianças criadas por casais homoafetivos não é muito. Mas este número deve aumentar devido ao crescente reconhecimento destas uniões. Os bispos americanos se depararam com esta questão em 2006. Eles se posicionaram contra este tipo de paternidade, chamada homoparentalidade. Mas aceitam que estas crianças sejam batizadas desde que possam ser educadas na fé da Igreja. No Brasil, não estamos longe desta questão e convém considerar o que for melhor para a criança.

* * *

É também por sacerdotes sérios como este que insistimos em fazer parte da Igreja, apesar de toda a dificuldade. A estes o nosso obrigado, por serem exemplos de Bons Pastores nesta semana temática.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

''Encontramos Deus em nossa própria humanidade''

Óleo sobre madeira: Mary Jane Ansell

"O Evangelho tem algo muito forte, muito duro, que não cabe em nossa cabeça. A partir do primeiro Natal que houve na história, Deus já não é encontrado no forte, mas sim no frágil. Desde o momento em que Jesus veio a este mundo, encontramos Deus em nossa própria humanidade."

A reflexão é do teólogo espanhol José María Castillo, em artigo publicado no sítio Religión Digital, 08-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.

Não falo de males e de catástrofes, que já temos muitos. E muito falamos de nossas desgraças. Melhor seria se tivéssemos uma visão positiva e esperançosa da vida e das coisas. Por isso, hoje, proponho que pensemos no dano que a todos nos causa o medo que temos à nossa própria humanidade. Porque estou persuadido de que, nesse medo, está a explicação e a raiz de tantas torpezas e maldades que poderiam e que teriam que ser evitadas.

Desde a noite de Natal até o Dia dos Reis, os cristãos recordam uma série de episódios nos quais é fácil indicar o que há de lenda e o que há de verdade nesses relatos. Os estudiosos quebram a cabeça tentando decifrar cada detalhe e não conseguem se pôr de acordo. Mas, em todo o caso, o que há de certo (para um cristão) nos evangelhos da infância (Mt 1-2; Lc 1-2), é que "o divino" (Deus, em definitiva) se deu a conhecer, se fez presente e se manifestou no "humano". E precisamente no mais humano: uma criança, de condição humilde e em circunstâncias de despojo, desamparo e perseguição à morte.

Sem dúvida, como se sabe, a historicidade desses fatos é questionada por não poucos pontos de vista e em muitos de seus detalhes. Mas isso é o que menos importa neste momento. Não esqueçamos que os evangelhos não são primordialmente "livros de história", mas neles nos é oferecida uma "mensagem religiosa". E isso é o que interesse ao fiel. Ou é isso o que lhe deve interessar.

Pois bem, a "mensagem religiosa" dos evangelhos da infância é obstinadamente clara e provocativa. É a mensagem que nos diz isto: "o divino" se encontra no "humano". No mais humano, isto é, no frágil, no marginal, no excluído e até no perseguido. "O divino" não se fez presente no portentoso, no milagroso, no surpreendente, como aconteceu com Moisés na sarça ardente ou no monte Sinai. "O divino" se fez presente em uma criança, em um estábulo, entre sujeira e animais. E foi anunciado a pastores, uma das atividades marginais daquele tempo. E até o rei, informado pelos sacerdotes, decidiu matá-lo.

Foi assim que "o divino" teve que se fazer emigrante. Porque "o divino", que se faz presente no "humano", não tem "papéis". É verdade que o menino foi circuncidado (Lc 2, 21), como se fazia com todos os humanos daquela cultura. E o levaram ao templo (Lc 2, 22-23), como também se fazia então com todos os humanos. Mas fica de pé o fato de que, segundo os evangelhos da Natividade, "o divino" se faz presente, se comunica, se dá em algo tão humano, tão frágil, tão entranhável que é encontrado "um recém nascido envolto em faixas e deitado em uma manjedoura" (Lc 2, 12).

O Evangelho tem algo muito forte, muito duro, que não cabe em nossa cabeça. A partir do primeiro Natal que houve na história, Deus já não é encontrado no forte, mas sim no frágil. Não é encontrado no grande, mas sim no insignificante. Não é encontrado no grandioso e no notável, mas sim no que não tem valor para ninguém. Não se trata de que o Evangelho representa um projeto niilista, inumano. Trata-se exatamente de todo o contrário. O Evangelho é a afirmação mais sublime do humano. Porque é evidente que aqueles que conheceram Jesus, o que viram e apalparam nele foi um ser humano.

Então, por que, desde antes de nascer e em seu nascimento, os anjos e a força do Espírito intervieram? E tudo isso, além disso, envolto em sonhos, aparições, enigmas e manifestações do extraordinário e do celestial? Porque era preciso vencer nossa pertinaz resistência para aceitar que, desde o momento em que Jesus veio a este mundo, encontramos Deus em nossa própria humanidade.

Mas isso é o que não cabe em nossa cabeça, nós, humanos. Gostamos do grande, do importante, do notável, do solene, do que impressiona e chama a atenção, do que se impõe e se admira... Tudo isso e o que se parece a isso. Mas e o que não é nem mais nem menos do que o humano? O que é comum a todos os humanos? Pois isso, precisamente isso, que é o que tantas vezes menos valorizamos, isso é o que mais necessitamos. Porque é o que mais nos humaniza. E é o que mais humaniza a vida, a convivência, a sociedade. Todos somos "educados" para ser importantes, mas não para ser simplesmente humanos.

Daí a consequência mais perigosa e mais patética que todos arrastamos. Seduz-nos o poder. Seduz-nos a glória. Queremos, a todo custo, ser importantes, nos destacar, ser notáveis. Confesso publicamente que, para mim pelo menos, tudo isso me atrai, me agrada e é motivo de anseios inconfessáveis. Anseios e desejos que, quando sou sincero comigo mesmos, os maldigo mil vezes. Porque esses sentimentos me rompem por dentro e destroçam minha própria humanidade.

Essa "civilização"(?), essa "cultura"(?) em que vivemos fez conosco o pior que podia ser feito. Inoculou-nos o medo à nossa própria humanidade. Tem razão o velho mito do paraíso perdido: a tentação satânica, que a todos nos acossa, é o desejo de "ser como Deus" (Gn 3, 5). Estou cansado de ver "ateus" (e não digamos "crentes") que passam a vida aspirando a ser "como Deus". Não sei se conseguem. O que eu sei, sim, é que somos muitos os que, à força de tanto querer alcançar ser "divinos", deixamos de ser verdadeiramente "humanos". Tanta falsa apetência de "divindade" esfarrapou a nossa própria "humanidade".

E, além disso, se pensamos no que aconteceu no âmbito das crenças e no próprio terreno da teologia, o que aconteceu é que "o divino" se distanciou tanto do "humano" que chegou a entrar em conflito com as melhores manifestações da nossa própria humanidade. Basta pensar nos constantes enfrentamentos entre os supostos direitos do divino e os direitos humanos. Sem falar no destroço que essas ideias causaram no próprio estudo da cristologia. Dá pena pensar que não poucos hierarcas da Igreja gritam aos céus se ouvem dizer que Jesus foi não somente humano, mas também o modelo perfeito da plenitude humana. Ser representantes do poder divino, que lhes dá cargos e poder, lhes encanta. Ser exemplos de humanidade, isso é outra história.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Igreja de peito aberto para as minorias


Dia 13 de maio de 2011, o jornal O Globo publicou a entrevista com frei Gilvander Moreira sobre a decisão do STF que reconheceu juridicamente a União Civil Homoafetiva.

A entrevista enviada, via e-mail, para o jornal não foi publicada na íntegra. Vários cortes foram feitos.

Eis, abaixo, a íntegra da entrevista enviada por Frei Gilvander Moreira, reproduzida via IHU com grifos nossos.

Frei Gilvander Luís Moreira é padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis a entrevista.

Como o senhor recebeu a decisão do STF?

Com alegria, pois é uma vitória dos Movimentos e Grupos que historicamente vêm lutando pelo direito à liberdade sexual homossexual. Nesse caso, o STF posicionou-se com justiça e equidade. A sociedade está em constante transformação, e esse grupo em questão existe e está no dia a dia vivendo e construindo suas relações à margem da sociedade. Devido a isso o Direito não podia mais se esconder ou pôr uma venda e continuar negando esse direito para as relações homoafetivas. Nesse caso, o STF deu exemplo de coragem e cidadania. Tornou-se visível o invisível. Declara-se assim o início do fim da hegemonia da moral heterossexual. Abre caminho para a afirmação à luz do dia das mais de 60 mil uniões estáveis entre homossexuais no Brasil (Cf. último Censo do IBGE) que até aqui pagavam um altíssimo preço pela sua orientação sexual.

Dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal, ao decidir por unanimidade reconhecer, juridicamente, a união civil homoafetiva, reconheceu como legítimas e constitucionais decisões que já acontecem em dez estados brasileiros em 1ª e 2ª instâncias e em mais de vinte países. Nessa decisão, o STF está de parabéns. Esperamos que assim prossigam as decisões do Supremo, pois em muitas outras decisões, o STF não tem seguido os princípios constitucionais do respeito à dignidade humana, do republicanismo, da função social da propriedade... deixando campear pelo Brasil uma série de injustiças estruturais, tais como a falta de reformas agrária e urbana.

Como o senhor vê hoje a situação dos homossexuais no Brasil?

Segundo o pesquisador Luiz Mott (prof. emérito da UFBA), o mais preocupante é que o registro de violência contra a população LGBT vem aumentando ao longo dos anos. “Nunca se matou tanto homossexual no Brasil quanto agora”, afirmou.

De janeiro a novembro de 2010, Luiz Mott contabilizou 205 assassinatos entre a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) no País.

Mott, que faz o levantamento desse tipo de crime desde 1960, relatou que, entre 1960 e 1969, foram 30 ocorrências; na década seguinte, chegaram a 41. De 1980 a 1989, o número de registros chegou a 369; saltou para 1.256 nos anos 90 e atingiu 1.429 casos na primeira década deste século. Estima-se que o número de casos de discriminação da população LGBT atinge entre 10 mil e 12 mil por ano no País.

O senhor considera a sociedade brasileira preconceituosa e intolerante?

Infelizmente estamos sim numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica. Ainda há muito moralismo, fundamentalismos e sectarismos em segmentos conservadores de igrejas e da sociedade que ficaram irritados e questionam o acerto da decisão do STF. No último censo do IBGE foi declarado que há mais de 60 mil uniões estáveis homoafetivas no Brasil. O movimento que defende os direitos dos homossexuais está crescendo, o que é muito bom. Na decisão do STF - que reconheceu a união civil entre as pessoas do mesmo sexo - não se pode deixar de destacar e parabenizar a luta do Movimento pelos direitos dos homossexuais, que incansavelmente, no Brasil e no mundo, vem marchando pelas ruas, erguendo suas bandeiras, gritando de diferentes formas o direito que agora é reconhecido. Os ministros do STF não criaram uma novidade, mas em cada voto ecoaram os clamores das pessoas homossexuais que lutam pela afirmação de seus direitos há tanto tempo.

O senhor já ouviu confissões de pessoas que se declararam homossexuais? Que conselhos costuma dar para as que reclamam de preconceito?

Eu já ouvi sim confissões de pessoas homossexuais. Uma, por exemplo, chegou e me disse: “Gostei muito da sua homilia na missa de ontem. Por isso resolvi vir confessar. Frei Gilvander, ser homossexual é pecado?” Diante de uma pergunta tão direta assim ainda no início da confissão, percebi que tinha que conversar antes de responder sim ou não. A pessoa acabou me dizendo que após refletir muito tinha resolvido contar para a família que estava assumindo a orientação sexual homossexual. Disse que estava sofrendo muito, sendo discriminado pela família, por colegas na escola, nas ruas, por onde ia. Disse que resolveu me perguntar se era ou não pecado, porque tinha lido em um livro da Renovação Carismática onde se dizia que não era pecado ser homossexual, desde que não colocasse em prática o sentimento. Ele me disse que não tinha como não colocar em prática. Por isso queria saber se é ou não pecado, pois se for pecado, preferia suicidar a ter que viver sendo discriminado e humilhado.

Ouvi e conversei com essa pessoa mais de uma hora. Eu disse a ela que se o elo mais forte de uma corrente é o elo mais fraco, só poderá ser mais justo e aplaudido por Deus, um mistério de amor que nos envolve, o que for tratado a partir do elo enfraquecido e discriminado. Numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica, os homossexuais são um dos elos discriminados. Feliz do povo que houve os clamores dos que fazem outra opção sexual senão a hegemônica. Quanta dor! Quanta lágrima derramada! Quanta cruz carregada! Deus ouve os clamores de todas as pessoas que são oprimidas. Deus é amor e não discrimina ninguém e nem pune ninguém por opção ou orientação sexual. Deus não faz acepção de Deus. Deus acolhe a todos sem distinção.

Eu disse ainda que devemos respeitar todos, mas não podemos respeitar todos da mesma forma. Devemos respeitar as minorias - sem terra, mulheres, negros, deficientes, idosos, indígenas, homossexuais, sem casa etc – nos colocando na e da perspectiva deles para a partir deles nos posicionar sobre o que deve ser considerado justo e ético. E devemos respeitar os diferentes que estão na classe dominante – latifundiário, machistas, racistas, “normais”, fortes, brancos, heterossexuais, especuladores etc – fazendo de tudo para retirar das mãos deles as armas de opressão com as quais discriminam, muitas vezes, inconsciente e involuntariamente.

Sentindo-se compreendida e acolhida, a pessoa desistiu do suicídio. Ergueu a cabeça, levantou-se e foi embora.

A união civil entre pessoas do mesmo sexo ameaça a instituição familiar?

Penso que não por vários motivos. São minorias e há uma grande pluralidade de famílias hoje. Há familias tradicionais; famílias só com mãe e filhos (monoparental); 80 mil famílias sobrevivendo debaixo da lona preta em acampamentos clamando por reforma agrária; milhares de famílias que sobrevivem apertadas em um único quarto de cortiço; milhões de famílias arrochadas em barracos nas favelas; famílias só “marido e mulher” sem filhos etc. Por que não pode haver também famílias homossexuais? Por moralismo? Mais: concordo com Gerson Henrique, que, em monografia sobre Famílias Reconstituídas, pondera: “Sendo o Brasil um estado laico, que consagra o pluralismo, o respeito à diversidade e a autonomia da pessoa, não é coerente que a ordem infraconstitucional estabeleça modelos ideais de família, excluindo outros já existentes no cenário social. Uma vez reconhecida a autonomia da pessoa na formação da sua família e a natureza sócio-cultural desta, o ordenamento jurídico terá de reconhecer-lhes os efeitos apesar dos matizes com as quais se apresentar. Importa destacar o vínculo afetivo e o reconhecimento de pertença dos membros ao grupo por eles designado como família.” No Direito de Família contemporâneo existe uma crescente abertura às distintas modalidades de constituição familiar e a dimensão do afeto é muito considerada na hora de reconhecer direitos, o que considero pertinente eticamente.

Como o senhor entende as referências diretas ou indiretas da Bíblia sobre o tema? Ser homossexual é ser impuro, como sustentam os mais conservadores?

Na Bíblia, o primeiro relato da Criação (Gênesis 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado e interconectado a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Nas ondas da evolução, Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O livro de Atos dos Apóstolos resgata, nas primeiras comunidades cristãs, essa mística ao dizer que não há nada impuro. Tudo é puro, é sagrado. Deus não faz acepção de pessoas, não discrimina. O apóstolo Pedro ressalta a ordem divina de não chamar de profano ou de impuro nenhuma pessoa (Atos dos Apóstolos 10, 28). Pedro muda de atitude e passa a perceber que Deus não faz discriminação de pessoas. O importante é a prática da Justiça (Atos dos Apóstolos 10,34-35). O autor da Carta de Tiago nos alerta que Deus não faz distinção de pessoas, mas faz opção pelos pobres. Não é tolerável rico discriminar pobre. (cf. Carta de Tiago 2, 1-9). Numa sociedade hegemonicamente heterossexual, os homossexuais são pobres. Por isso, devem ser respeitados e compreendidos.

Como o senhor avalia o desempenho do movimento gay no Brasil?

Já evoluiu bastante, mas não pode ficar só nas reivindicações corporativistas, ou seja, defendendo só os direitos deles. É preciso se aliar aos outros movimentos populares que lutam pela construção de uma sociedade justa, solidária e sustentável ecologicamente. Fará um bem enorme ao povo quando os vários movimentos populares, que lutam pelos direitos das minorias - que numericamente são maiorias -, atuarem em unidade e solidariamente: os movimentos dos Sem Terra, dos negros, dos indígenas, dos sem casa, dos deficientes, dos homossexuais, dos desempregados etc, enfim, toda a classe trabalhadora unida e lutando pelos direitos de todos, defendendo toda a biodiversidade e construindo uma sociedade em que caibam todos.

A postura da Igreja em determinadas questões atrapalha a conversão de novos fiéis?

igrejas e não apenas igreja. Por exemplo, na Igreja católica há Igreja instituição - diáconos, padres, bispos e papa – e há a igreja que é povo de Deus. É óbvio que quando membros da Igreja instituição se posicionam de forma moralista, proselitista e autoritária afugentam muitas pessoas. Mas quando membros da igreja ouvem, dialogam e, inspirados no evangelho de Jesus Cristo, testemunham um projeto de vida que busca realizar o grande sonho do Deus da vida, que é vida e liberdade em abundância para todos e para toda a biodiversidade, aí, sim, cativam muitas pessoas para se engajarem em projetos humanizadores.

O que o senhor tem a dizer sobre o uso da camisinha?

É claro que devemos preservar a vida nossa, do próximo e de toda a biodiversidade. Para isso é necessário várias coisas. É necessário sim usar camisinha nas relações sexuais, por questão de saúde pública e por respeito à sacralidade de cada pessoa. Não podemos correr o risco de contrair HIV e/ou doenças sexuais transmissíveis que matarão o outro aos poucos. Isso não tem o apoio do Deus da vida. Mas camisinha não é panacéia para todos os males. Além do uso da camisinha, é necessário, para preservar a vida das pessoas, realizar reformas agrária, urbana e educacional. É preciso mudar o modelo de programação televisiva e dos meios de comunicação. Enquanto houver o sexismo, imoralidades e erotismo sendo trombeteados aos quatro ventos através de novelas e filmes, reduzindo a mulher a objeto, infelizmente só usar camisinha será um paliativo. É preciso educação de qualidade e elevar o nível cultural da sociedade. Estrangular o narcotráfico e mudar a política econômica destinando a maior fatia do orçamento do país, não para pagar dívida pública e investir em infraestrutura que viabilize crescimento das grandes empresas, a fina flor do capitalismo, mas investir pesadamente nas áreas sociais. Isso tudo junto com os uso da camisinha poderá nos levar a vida com mais dignidade.

Sua posição a respeito de tais temas é solitária na Igreja?

Não. Há muitos teólogos e teólogas, cristãos e cristãs, que partilham conosco essas posições. Todo o povo da igreja que participa da Teologia da Libertação. Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, pastorais sociais e muitos movimentos eclesiais. Na Igreja Instituição há membros que comungam conosco dessa visão mais compreensiva com os direitos das minorias e há também outros profissionais do sagrado que ficam indignados com essas posturas mais ecumênicas e proféticas.

O que ainda há a ser feito pelo direito das minorias no país?

A luta continua. Luta contra a homofobia, o preconceito e o conservadorismo que só excluem e negam a liberdade e a dignidade constitucionalmente garantidas e biblicamente amparadas. Faz-se imprescindível, como ensinou Paulo Freire, educar para a indignação. Indignação diante das injustiças sociais e das violações aos direitos humanos e planetários. Enfim, é ético seguir o seguinte princípio: No necessário, a unidade; no discutível, a liberdade; em tudo, o amor.

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segunda-feira, 28 de março de 2011

''A Igreja Católica encontrou o seu papel no século XXI?'': a atualidade do Vaticano II


“O que se presenciou no século XIX na Igreja foi o surgimento de duas formas de se compreender a missão da instituição no mundo: uma que aceitava e entendia de forma positiva os caminhos abertos pelos novos tempos modernos, e que visava levar a Igreja a se 'adequar' àquele tempo, abrindo-se, e outra que via com muita negatividade o que se sucedia, criando, inclusive, uma filosofia da história calcada na ideia de que Lutero, a Revolução Francesa e seus congêneres, os iluminismos e o comunismo faziam parte de uma revolução mundial demoníaca”. A afirmação é de Rodrigo Coppe que acaba de lançar o livro Os baluartes da tradição: o conservadorismo católico brasileiro no Concílio Vaticano II (Curitiba: CRV, 2011). Em entrevista originalmente publicada no IHU, ele analisa esse momento histórico da Igreja Católica e reflete sobre o papel do Concílio do Vaticano II hoje. “Depois de quase 50 anos de seu início, nota-se que o Vaticano II não colocou em causa nem modificou substancialmente o modelo que prevalecia anteriormente”, apontou.

Rodrigo Coppe é graduado em História pela PUC Minas com mestrado e doutorado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Nesse ano iniciou a graduação em Direito na PUC Minas, onde é professor Adjunto de Cultura Religiosa e Fenomenologia da Religião.

Confira a entrevista.

Rodrigo, você pode começar nos explicando o que é a antimodernidade católica brasileira que esteve presente no Concílio Vaticano II?
Antes de tudo a antimodernidade é uma sensibilidade. Uma sensibilidade que se formou lentamente desde os primeiros movimentos do que conhecemos como “história moderna” no século XVI, ou seja, com a Reforma Protestante, a Revolução Francesa e os iluminismos e, posteriormente, o comunismo. Porém, a antimodernidade compreendida de forma consciente só surge no século XIX e aparece como um componente de reação – e aqui o termo não tem nada a ver com “reacionário” – a certo tipo de pensamento liberal, progressista e revolucionário, que levava à débâcle do status quo e à queda de civilizações. Além, claro, de se levantar contra um dos principais pontos de apoio daquela ordem, a Igreja Católica Apostólica Romana. Dessa forma, a Igreja Católica do século XIX – chamada de ultramontana – cerrou-se cada vez mais em seus muros como tentativa de contenção do avassalador movimento de crítica ao seu poder temporal, e logo, posteriormente, aos temas centrais de sua tematização teológica.

De fato, o que se presenciou no século XIX na Igreja foi o surgimento de duas formas de se compreender a missão da instituição no mundo: uma que aceitava e entendia de forma positiva os caminhos abertos pelos novos tempos (modernos), e que visava levar a Igreja a se “adequar” àquele tempo, abrindo-se, e outra que via com muita negatividade o que se sucedia, criando, inclusive, uma filosofia da história calcada na ideia de que Lutero, a Revolução Francesa e seus congêneres, os iluminismos e o comunismo faziam parte de uma revolução mundial demoníaca. Foi possível, assim, lendo a história da Igreja no século XX, entrever os dois campos de conflito contínuo: de um lado aqueles defensores do novo, ligados aos movimentos sociais, litúrgicos, bíblicos e tutti quanti que se desenvolviam com vigo; do outro, aqueles defensores da tradição – tradição entendida aqui como aquela, especialmente, assinalada pelas resoluções do Concílio de Trento, pelos papas Gregório XVI, Pio IX e Pio X com seus inúmeros documentos anatematizantes da modernidade.

A antimodernidade católica brasileira que esteve no concílio foi um grupo que se desenvolveu no país a partir daqueles parâmetros citados desde a segunda década do século XX, que lutou aguerridamente contra as novas “tendências pastorais”. Ela teve como personagem marcante Plínio Corrêa de Oliveira [1] e a fundação da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a polêmica TFP, em 1960 e em D. Geraldo de Proença Sigaud (bispo de Diamantina-MG) [2] e D. Antônio de Castro Mayer (bispo de Campos-RJ) [3] os seus principais baluartes nas discussões do Concílio Vaticano II, entendido por mim como o paroxismo da tensão entre as duas tendências no interior da Igreja no século XX e como um campo de lutas simbólico-normativas.

Quais as linhas de pensamento que marcam a tendência “conservadora” da Igreja Católica hoje?
O termo “conservadorismo” é complexo e objeto de muitas incompreensões, utilizações indevidas e claramente manipulável ideologicamente por certos grupos que visam desqualificar este ou aquele discurso, político, religioso ou não. Por exemplo: se tomamos um grupo mais afeito a uma teologia sob influxos do pensamento filosófico moderno, como, por exemplo, a Teologia da Libertação, indiscutivelmente um grupo tomado pelos analistas como progressista e avançado nas discussões teológicas, notaremos corriqueiramente que compreendem o reinado de João Paulo II como um pontificado conservador. Por outro lado, se tomamos as opiniões de Lefebvre e sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X – FSSPX veremos que compreendem o mesmo pontificado como progressista e liberal.

Como resolver a questão? Não sei dizer se é possível, pois o que isso demonstra é que atrás de um vocábulo existe alguém que a pronuncia, e sabemos bem que nada é dito sem consequências. Aprendi uma lição com Barbara Herrnstein Smith [4], que afirmava em seu Crença e resistência que não devemos entender as diferenças existentes entre nosso ponto de vista e o do outro como meros “reflexos de nosso esclarecimento e do obscurantismo deles”. Assim sendo, como historiador, prefiro pensar a Igreja – e sua instituição máxima de poder, o papado – inserida numa longa duração do que me aferrar a estes tipos de generalizações que, acredito, não colaboram nem minimamente para compreensão sobre o que acontece.

É fato que grupos de tendências diversas existem em seu interior. Porém a busca de enquadrar todo um pontificado num conceito como “progressismo” ou “conservadorismo” é questionável. Por outro lado, não se pode negar, por exemplo, que exista uma tendência neste papado de uma revalorização da tradição litúrgica que chega até João XXIII. O moto próprio Summorum Pontificum (2007) apareceu nesse sentido, a fim de possibilitar que os fiéis tivessem contato novamente com a forma extraordinária do rito romano.

Quais foram as principais questões que a modernidade suscitou na Igreja Católica e que foram levantadas a partir do Concílio Vaticano II?
Bem, no Vaticano II existiram alguns temas “quentes”, que notavelmente mobilizaram os padres conciliares e, especialmente, os padres do Coetus Internationalis Patrum, o grupo no qual a minoria se organizou para tentar barrar os avanços dos padres que visavam distender as relações entre Igreja e o mundo moderno. Entre os vários temas “quentes” – como a questão litúrgica, o papel do leigo, a questão da colegialidade, entre outros – aquele que se destacou, acredito, foi o da liberdade religiosa. É preciso lembrar que o Estado democrático de Direito foi sendo tomado cada vez mais, durante todo o século XX, como o regime que melhor pudesse dar conta da realidade da pluralidade.

Desde o Humanismo Integral de Jacques Maritain [5] na década de 1930, inclusive, já se vislumbrava na Igreja um processo de adaptação e acomodação em vista desta realidade e do tipo de Estado que a dava suporte. Porém, para os antimodernos a questão da liberdade religiosa barrava no magistério dos papas do século XX, especialmente no Syllabus Errorum Modernorum (Sílabo dos erros modernos) e na encíclica Quanta Cura de Pio IX, que negavam qualquer possibilidade de a Igreja se coadunar com a ideia de “liberdade de consciência”, da qual se depreendeu a de liberdade religiosa. Por sinal, um dos opúsculos que passavam pelas mãos dos padres conciliares no período, e que possivelmente tinha as mãos do Coetus, afirmava que um complô judaico-maçônico – realizado pelo cardeal Bea (Secretaria para a Unidade dos Cristãos) e a B’nai Brith – estava em andamento em vistas de se aprovar a liberdade religiosa.

Para você, é chegada a hora do Vaticano III, conforme sugerem alguns intelectuais?
Bem, de fato, como historiador, afirmo que seria muitíssimo interessante presenciar a realização de um concílio no início do século XXI. Imagine o papel da opinião pública e dos meios de comunicação nesse concílio! Ele seria certamente tuitado... Porém, não creio nessa perspectiva. O Concílio Vaticano II ainda não foi recepcionado, como Yves Congar [6] e vários outros autores constataram. Niceia demorou por volta de 80 anos para ter sua recepção. Parece, às vezes, que alguns acreditam, de forma ingênua a meu ver, que é só conclamar um concílio para que, como num passe de mágica, as coisas se resolvam (isso aconteceu de certa forma também com Vaticano II).

A realidade histórica é complexa e um concílio, um momento extraordinário da vida da Igreja. Sabe-se das inúmeras e profundas transformações passadas pelas sociedades desde a década de 1960 e a necessidade da Igreja se fazer mais presente. Todavia, a instituição responde a elas de inúmeras formas, e não somente a partir de um concílio. É preciso dizer que, na minha perspectiva interpretativa, o tempo da Igreja é um tempo lento, de maior duração, estabilidade, alterando-se em prazos mais longos, de forma processual. Assim, se um evento – como o Vaticano II – é entendido como algo que irrompe nesse tempo a partir da movimentação de certas personagens – como no caso, Roncalli –, as estruturas permanecem supraindividuais e intersubjetivas, não se reduzindo a uma única pessoa ou aos desejos de grupos determinados.

E como você avalia a trajetória da Igreja no século XX?
Busco avaliar a trajetória da Igreja no século XX numa longa duração. Desde o século XIX, como bem observou o Pe. Henrique de Lima Vaz [7], duas tendências em seu anterior se debatem em busca de influenciar o centro de poder: a cúria e o papado. Olhando para eles, noto que suas realizações podem ser tomadas como passos à frente e passos atrás, não necessariamente nessa ordem.

O que desejo dizer com isso? Que existe uma dinâmica complexa, na qual a Igreja contemporânea caminha, sempre num processo de adequação e acomodação contínuos, a partir, no caso, de uma perspectiva modernizadora – isso com relação aos meios de levar a mensagem evangélica, como, por exemplo, os meios de comunicação. Veja hoje o papel que desempenha no Twitter, Facebook, na blogosfera e nas mídias em geral, tanto a hierarquia como o laicato – uma perspectiva modernizante. Isto é, buscando elementos da cultura contemporânea para dialogar com ela a partir da teologia, mas também numa perspectiva de atenção em relação ao que foi recebido como herança, numa perspectiva de conservação.

Se tomarmos os papados desde o início do século XX, estudando seus atos e documentos, perceberemos que em todos eles apresentam-se passos de avanços, de conservação e de recuo. Vejamos, por exemplo, Pio X, tomado hoje em certas análises, tanto pelo progressismo católico, como pelo conservadorismo, ou tradicionalismo católico, como uma papa antimoderno. O que sempre é realçado é a sua visão do mundo a partir da encíclica Pascendi Dominici Gregis, o juramento antimodernista. Porém, ele também colocou em andamento reformas, como a comunhão frequente e à comunhão das crianças; a reforma da música sacra e da liturgia; medidas a fim de melhorar o ensino do catecismo e a pregação; a reorganização da cúria romana e das congregações romanas, além de um amplo movimento em vistas da organização do Codex Iuris Canonici.

Pio XII, outro papa lido apenas na chave da “antimodernidade”, e tido por alguns como o “último papa antimoderno”, também não se caracteriza apenas por seu lado “conservador”, diríamos, mas também por uma perspectiva de avanço. O que diríamos das encíclicas Divino Afflante Spiritu – que toma os pressupostos do método histórico-crítico – e Mystici Corporis Christi – que aceita a dimensão mistérico-invisível da Igreja, entendida agora não só como societas perfecta, mas também como Corpo Místico de Cristo? O que diríamos então de um documento do Santo Ofício de 1949 condenando os rigoristas do extra Ecclesia nulla salus da St. Benedict’s Center e do Boston College?

Um outro, e último, exemplo que posso dar dessa minha avaliação é a própria presença de um concílio no meio do século XX. Para muitos que analisam o processo histórico da Igreja naquele século, o Vaticano II é tomado como uma fissura, uma ruptura que marca um “antes e um depois” da vida da Igreja. Sim, tomado como um evento crucial de sua vida, como um momento extraordinário da história do cristianismo e como um ponto de inflexão de todos os movimentos que surgiram desde o século XIX, é um momento histórico e marcante. Contudo, a ideia de que ele teria transformado a Igreja e que, a partir dele ela teria tomado outro caminho em relação à história pregressa, não se mostrou tão evidente.

Depois de quase 50 anos de seu início, nota-se – e aqui me utilizo do próprio Congar em uma de suas falas no pós-concílio e de Émile Poulat [8], um dos maiores historiadores da Igreja do século XX – que o Vaticano II não colocou em causa nem modificou substancialmente o modelo que prevalecia anteriormente, ou seja, aquele baseado nos seguintes pilares: 1) negação de uma autonomia do homem que prescinda de Deus; 2) incentivo à modernização da atuação dos católicos no meio social, contanto que não coloque em questão a busca da “cidade cristã”; 3) negação e condenação do modernismo como assimilação sub-reptícia das autonomias políticas, sociais e culturais da modernidade.

A Igreja Católica encontrou o seu papel no século XXI?
Pergunta difícil. Acho que poderia responder essa pergunta com outra: A Igreja Católica encontrou o seu papel no século XX? Penso que seja essa a pergunta que deva ser respondida.

O jornal La Republicca produziu uma reportagem em que fala sobre o medo provocado pelo Vaticano II. Na chamada eles apresentam uma questão que replicamos para você: Quem ainda tem medo do Concílio?
Disse uma vez que o Vaticano II é aquele “obscuro objeto de desejo”. O que me parece é que cada um tem o concílio que deseja ter. Dependendo de sua posição social e religiosa você pode fazer o concílio falar o que deseja, e isso acontece, também, pelo "compromisso do pluralismo contraditório", que marcou os documentos finais do concílio. Assim, a grande questão atual referente ao concílio caminha no campo de sua hermenêutica. Compreender é também compreender-se diante de algo.

Dessa forma, gosto da perspectiva de Gadamer [9], que nos fala sobre a história efeitual. Para falar sobre o Vaticano II – tanto como qualquer outro evento – devemos estar cientes de que sofremos os efeitos das próprias compreensões sobre o concílio que foram sendo construídas desde a sua realização. Assim, “compreender um fenômeno histórico a partir da distância histórica que determina nossa situação hermenêutica como um todo, encontramo-nos sempre sob os efeitos dessa história efeitual”, dizia. Não sei como responder, a quem apontar como portador desse medo, já que deveria que saber a qual concílio esse medo teria como objeto.

Os mesmos intelectuais que sugerem um terceiro concílio e membros de dentro da própria Igreja criticam duramente Bento XVI. O que há de errado com este papa? Por que ele foi eleito se é tão contestado?
Acredito que uma das marcas desses anos de pontificado de Bento XVI foi a de tentar um certo reequilíbrio de forças. De fato, sempre houve exageros de parte a parte, ou cedendo demais ao “espírito da época”, colocando praticamente a Igreja de joelhos para o mundo, como afirmou Jacques Maritain num livro pós-conciliar, Le paysan de la Garone, perpassados por um otimismo frente às realidades imanentes, arriscando-se, de certa maneira, em perder referências seculares da tradição cristã; ou vendo na modernidade apenas perdição e anticristianismo, arriscando-se a cair numa paralisia devido a um pessimismo que a tudo contamina.

O discurso aos Cardeais no Natal de 2005 é, a meu ver, o momento em que Bento XVI deixa claro esse posicionamento, criticando as hermenêuticas de ruptura (descontínuas), visando, claramente, à manutenção e à conservação de uma herança que entende estar constantemente ameaçada pelos ventos pós-modernos e por radicalismos interpretativos dos documentos do Vaticano II. Os debates em torno desta questão apenas estão começando e a complexidade da discussão deve-nos levar a uma abordagem sempre cuidadosa e prudente entre as continuidades e descontinuidades na história da Igreja contemporânea trazidas à tona pelo evento conciliar.

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Notas:
[1] Plínio Corrêa de Oliveira foi um ativista católico, fundador da organização Tradição, Família e Propriedade (TFP), de inspiração católico-tradicionalista.
[2] D. Geraldo de Proença Sigaud foi um religioso verbita, bispo católico. Arcebispo Emérito da Arquidiocese de Diamantina, em Minas Gerais.
[3] D. Antônio de Castro Mayer foi um bispo católico. Conhecido por ser o único bispo diocesano a não implantar o Novus Ordo Missae após sua promulgação e pelo seu rigor na ortodoxia e ortopráxis.
[4] Barbara Herrnstein Smith é crítico-literária estadunidense. É conhecida por seu trabalho Crença e Resistência – A Dinâmica da Controvérsia.
[5] Jacques Maritain foi um filósofo francês de orientação católica (tomista). As obras deste filósofo influenciaram a ideologia da Democracia cristã.
[6] Yves Congar foi um teólogo dominicano francês.
[7] Pe. Henrique de Lima Vaz foi um padre jesuíta, professor, filósofo e humanista. Nos anos 1960 tornou-se mentor da Juventude Universitária Católica – JUC e da Ação Popular, na sua primeira fase. Trabalhou no magistério filosófico universitário durante quase 50 anos. Vinculado fundamentalmente à metafísica clássica, possuía um vivo interesse pelo pensamento moderno e seus principais representantes, deixando-se seriamente questionar pela Modernidade. Grande destaque deve ser dado, também, ao seu profundo conhecimento da obra de F. Hegel.
[8] Émile Poulat é um historiador e sociólogo francês. Diretor de estudos da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. É também diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França e historiador da Igreja Católica contemporânea. É um dos fundadores da sociologia da religião.
[9] Hans-Georg Gadamer foi um filósofo alemão considerado como um dos maiores expoentes da hermenêutica filosófica. Sua obra de maior impacto foi Verdade e método, de 1960.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

"Igreja mergulha em longo processo neoconservador": entrevista com J.B. Libânio


Reproduzimos parcialmente a entrevista com o teólogo João Batista Libânio publicada originalmente no site do IHU, a propósito do recente manifesto de teólogos alemães, suíços e austríacos pedindo por renovação da Igreja.

Recentemente, teólogos e teólogas alemães, suíços e austríacos lançaram um manifesto propondo reformas para a Igreja em 2011. A convite da IHU On-Line, o teólogo João Batista Libânio leu o documento e analisou as propostas, concedendo por e-mail a entrevista a seguir. Resumindo, ele é enfático: “A tônica do projeto do Papa e a do manifesto divergem”.

Com a experiência de quem presenciou “nítidos momentos no processo eclesiástico” da Igreja nas últimas décadas, Libânio ressalta que o manifesto “alude ao fato de que em 2010 ‘tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição’”. A constatação do êxodo cristão, entretanto, “não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica”, assinala.

Para ele, Roma reforça a autoridade sobre as igrejas locais porque elas a solicitam. “A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte”, lamenta. (...)


João Batista Libânio é padre jesuíta, escritor e teólogo. É doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de inúmeros livros, dentre os quais "Teologia da revelação a partir da Modernidade" (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), "Qual o caminho entre o crer e o amar?" (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e "Qual o futuro do Cristianismo?" (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.


Qual sua reação ao manifesto que propõe reformas para a Igreja em 2011, elaborado por teólogos alemães, suíços e austríacos?
Impressiona, logo à primeira vista, o conjunto de assinaturas de teólogos da mais alta competência e responsabilidade. Portanto, não subscreveriam nenhum manifesto superficial, imprudente. Concordemos ou não com as proposições, ele merece séria consideração e detida atenção.

Parte do inegável mal-estar que afetou não só a Igreja Católica alemã e de alguns países por causa do escândalo da pedofilia, mas de toda a Igreja por ver-se nele a ponta de um iceberg de maior amplitude: a falta de liberdade e de transparência no interior da Igreja devido ao cerceamento das instâncias de poder eclesiástico. Por isso, o manifesto bate forte na tecla das estruturas de governo da Igreja Católica.

A partir da sua trajetória sacerdotal, o senhor também concorda que a Igreja precisa ser reformada? Quais seriam as reformas urgentes?
Os anos me permitem perceber três nítidos momentos no processo eclesiástico das últimas décadas. Ainda conheci estruturas hieráticas no pontificado de Pio XII, que lançava a imagem do poder eclesiástico onisciente e onipotente. Roma pronunciava-se sobre os mais diversos assuntos e com a consciência de dizer verdades inquestionáveis. Não se percebia sinal de dúvida ou perplexidade. Isso acontecia com duplo efeito. Positivamente, oferecia aos católicos fieis enorme segurança sobre temas desde a astronomia até a intimidade da vida conjugal. Para aqueles que já tinham recebido o impacto da modernidade liberal, democrática, marcada pela subjetividade, autonomia das pessoas, consciência história, práxis transformadora, tais declarações romanas produziam enormes dificuldades e mal-estar.

Veio então João XXIII. Convoca o Concílio Vaticano II que inicia, com certa coragem, o diálogo da Igreja com a modernidade. Usando a imagem da música “andante ma non troppo”, a Igreja caminha em direção ao repensamento doutrinal e pastoral, provocado pelos questionamentos teóricos e práticos levantados nos últimos séculos. No entanto, o tempo de aggiornamento não durou muito. Já no próprio Pontificado de Paulo VI, a partir de 1968, despontam sinais de contenção e retrocesso. E depois a Igreja Católica mergulha em longo processo neoconservador que dura até hoje. As inovações iniciadas no Vaticano II se interromperam e outras não surgiram, exceto em um ou outro gesto ousado de João Paulo II, como a Oração pela Paz em Assis com os líderes das diferentes religiões do mundo. Ainda que o clima geral não fala de abertura, entretanto percebe-se-lhe a necessidade.

O manifesto também propõe uma reconversão da Igreja. O que o senhor entende por esta proposta?
A Igreja tem a enorme graça de pôr como referência última, principal, insuperável a pessoa de Jesus Cristo. E quanto mais se conhece o Jesus histórico, mais se percebe a força revolucionária de sua pessoa. Ele não deixa nenhuma estrutura esclerosar-se, sem que lhe seja acicate de mudança. Menciono de passagem o maravilhoso livro de J. Pagola, Jesus: aproximação histórica (Petrópolis: Vozes, 2010), que nos descreve e narra um Jesus colado à realidade no projeto maior de devolver às pessoas a dignidade.

Diante dessa figura de Jesus, muitas estruturas eclesiásticas sofrem terrível crítica. A partir dele, cabe falar de contínua reconversão da Igreja. Basta comparar a figura de Jesus andarilho, de Pedro pescador e crucificado em Roma com certas aparências poderosas clericais para ver a gigantesca distância e a força crítica de Jesus. Santo Inácio de Loyola apostava na força de conversão da contemplação dos mistérios de Jesus. Isso vale em nível pessoal, comunitário e eclesiástico. Em confronto com a pessoa de Jesus, a Igreja se vê questionada continuamente a assumir formas de humildade, simplicidade, pobreza, abandonando o luxo, o esplendor, a arrogância triunfante. (...)


É possível a Igreja romper com tradições, se renovar sem perder seus princípios básicos?
Não se trata nem de romper nem de engessar a Tradição, ou mais corretamente as tradições. Na polêmica com Mgr. Lefebvre, que defendia a literalidade da Tradição e das tradições, Paulo VI insistia na necessidade de interpretá-la(s). Eis a questão! Os princípios permanecem no nível universal, abstrato. Importa ver como eles são entendidos nas situações concretas. E aí está o problema. O trabalho interpretativo tem exigências. Implica esforço da inteligência de captar três coisas. O significado da questão no contexto primeiro em que ela foi formulada e respondida. Esta mesma questão como se entende hoje. E, então, como o significado de ontem se reinterpreta para hoje. Por exemplo, a usura, cobrar mais do que se emprestava, até o nascimento do capitalismo se considerava roubo, portanto eticamente condenável. Hoje, ela se chama juros e ninguém os considera imorais. Então, como se fez a transposição de um princípio ético no pré-capitalismo para o capitalismo?

Numa economia estável sem circulação monetária parecia injusto receber mais do que se emprestava. Nisso consistia a injustiça. Numa sociedade em que o dinheiro se tornou fonte de renda, se considera injustiça só quando as taxas de juros superam de muito a força de rentabilidade. Recebe o nome de agiotagem. Mas cobrar taxas razoáveis não contradiz o princípio ético pré-capitalista no significado, embora materialmente pareça opor-se a ele (usura). Problemas semelhantes se levantam em muitos campos.

O documento também chama a atenção para a necessidade de reconhecer a liberdade de consciência individual, referindo-se também a opção sexual dos indivíduos. Entretanto, observa que “a alta consideração da Igreja pelo matrimônio e pela força de vida sem matrimônio está fora de discussão”. Parece algo contraditório?
A consideração anterior que fiz no campo das finanças vale no campo da sexualidade. Os ensinamentos morais da Igreja sobre o matrimônio permanecem válidos na linha dos princípios. E cabe perguntar-nos pelo seu significado profundo que diz respeito à dignidade humana, ao respeito das relações afetivas. Que significam o respeito e a dignidade nas relações humanas na união homoafetiva? Não se responde em abstrato, mas a partir das experiências que se fazem no concreto da vida. Tanto nas relações matrimoniais como nas homoafetivas existem tanto dignidade, respeito como o oposto. E as considerações éticas descem ao concreto de tais relações para aí interpretar o princípio fundamental da dignidade humana, do respeito entre as pessoas, o projeto de amor de Deus.

O que significam os casos de pedofilia na Igreja?
Revelam a face pecadora dos homens e mulheres de Igreja em todos os níveis: do simples fiel até pessoas da alta hierarquia. Em face do pecado, cabem, em primeiro lugar, a conversão e o perdão de Deus. Quando o direito de outras pessoas é lesado, como no caso da pedofilia que fere gravemente a criança envolvida, entram fatores de reparação desde a econômica até a judicial. Nada justifica o ocultamento, mas importa tomar as medidas concretas para evitar outros casos, sanear o acontecido, reparar o estrago feito.

Evidentemente, não tem sentido entrar no sensacionalismo da mídia. Está em jogo algo sério demais para ser simplesmente assunto de folha policial em ocasião para jogar pedras na Igreja. Não se pensa em acabar com a família, embora nela aconteça a imensa maioria dos casos de pedofilia. A mesma mídia que divulga, “escandalizada” casos de pedofilia, termina sendo uma das causas importantes da decadência moral da sociedade com a enxurrada de programas de banalização do amor, de sexualização das crianças, de exibicionismo e voyeurismo sexual, da perda de senso de responsabilidade social. A luta contra a pedofilia exige programa complexo de purificação das fantasias, de presença maior de educação sadia, de melhoria de cultura veiculada pela mídia.

Quais são as perspectivas e os desafios da Igreja para esta segunda década do século XXI?
Distingamos os níveis. No momento, em nível das estruturas internas da Igreja não se veem perspectivas animadoras. Durante o longo pontificado de João Paulo II, a Igreja Católica viveu o paradoxo, de um lado, de rasgos de abertura na prática do diálogo inter-religioso, na defesa dos direitos humanos, na oposição a toda guerra enfrentando, inclusive, as pretensões americanas, na proximidade com o mundo dos pobres e, de outro, de enrijecimento doutrinal e disciplinar interno. No horizonte, não se percebe que a Igreja enfrentará os novos desafios da cultura contemporânea por meio de mudanças internas, como fez, em parte, logo depois do Concílio Vaticano II. Falta o clima de abertura, de otimismo e de profetismo para lançar-se em transformações profundas. Em termo de hierarquia, reina antes momento de silêncio, de prudência sem muita inspiração e lanço de coragem inovadora. A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte.

No universo dos leigos há sinais de esperança nas comunidades de base, na crescente participação consciente e ativa das mulheres, no maior desejo de espiritualidade e teologia, na vitalidade de novos ministérios, na criatividade litúrgica, no acesso amplo às Escrituras pela via da leitura orante. Em algumas igrejas particulares a Assembleia do povo de Deus anuncia algo de novo, desde que a clericalização não a prejudique.

O senhor concorda com a tese de que o Vaticano está enquadrando a Igreja no Brasil?
Cícero chamou a história “mestra da vida”. Lancemos um olhar para os últimos séculos a fim de entender a relação entre o Vaticano e as igrejas locais. Gregório VII, no século XI, deu a decisiva guinada da autonomia das igrejas locais para crescente poder de Roma. Ele pautou o governo pontifício pelo dictatus papae, que ressuda centralismo, autoritarismo desmedido. Esse longo processo de quase mil anos marcou uma linha de comportamento em que Roma exerce imensa influência sobre as Igrejas particulares ou regionais. O Concílio Vaticano II, com a colegialidade, tentou diminuir tal tendência, mas com pouco resultado. Faz parte, portanto, da consciência comum eclesiástica a dependência em relação a Roma. E a dialética de dependência de uma parte pede o exercício de domínio da outra.

A criança que pergunta a mãe que meia vai usar pede uma mãe cada vez mais absorvente que termina ditando-lhe tudo. Assim na Igreja. Roma responde com autoridade e a reforça porque as próprias igrejas locais a solicitam e ficam à espera. A liberdade se entende como relação entre duas liberdades. Não há liberdade de um lado só. Que o diga Erich Fromm no magistral livro "Medo da liberdade". As análises que lá faz, baseadas em sua experiência do nazismo, valem para toda relação de submissão e de autoritarismo, onde ela se dê. No dia, porém, em que as igrejas locais tomarem maior consciência de outra eclesiologia, então a Igreja de Roma também lentamente afinar-se-á com ela. O processo se institui de ambas as partes simultaneamente em mútua relação e influência.

Quanto mais a Igreja do Brasil marcar a originalidade, a liberdade, a autonomia, tanto mais Roma a reconhecerá. Se ela, porém, está a esperar para cada palavra que disser um sorriso aprobatório de Roma, a liberdade se encurtará e a autonomia se dissolverá. Quem age sob o olhar de um outro, termina condicionando-se de tal modo que perde a própria identidade. (...)


Como vê a atual internacionalização da Cúria Romana? Como propõe o manifesto, a sociedade deveria ajudar a escolher os representantes?
A internacionalização traz vantagens. Mas não decide por si mesma. Acontece que a cor internacional desaparece facilmente por homogeneização ideológica por força da instituição. Se cada nação levasse para dentro da Cúria Romana a própria originalidade e a conservasse em contínuo diálogo com a predominante cultura europeia e romana, então a internacionalização causaria outro efeito.

Bispos latino-americanos, africanos ou asiáticos que arribam a Roma se romanizam a ponto de não se distinguir muito dos outros. Outra coisa significaria se as igrejas locais se fizessem presentes em Roma por meio de seus representantes, escolhendo-os e eles fazendo-se porta-voz delas. Mais: se elas mesmas decidissem na escolha dos ministros que as servem ou vetassem aqueles que não as satisfizessem. Assim evitaríamos casos desastrosos que tivemos de bispos, párocos ou pessoas em outras funções que durante décadas exerceram funções com detrimento da vida eclesial em vez de construí-la e os fieis tiveram de suportá-los calados e sem poder de mudança. Certos aspectos da sociedade democrática não contradizem, teologalmente falando, a maneira de designar membros da hierarquia. A escolha pode ser democrática, embora a conferição se faça pela graça do sacramento. (...)


Está em curso a consolidação do programa ratzingeriano para a Igreja do Brasil?
Teríamos que conhecer de antemão o programa do Papa. Os papas, em geral, não fazem discursos programáticos, mas dogmáticos. E supõe-se arguta análise para perceber sob as afirmações doutrinais que tipo de prática de governo subjaz. Aventuraria dizer que Bento XVI atribui relevância especial à qualidade da pertença à Igreja e não se impressiona tanto com a diminuição estatística. O manifesto dos teólogos alude ao fato de que em 2010 “tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição”. Enquanto percebo, tal constatação não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica.

No projeto de Igreja em curso, a fidelidade, a exatidão doutrinal e a coerência prática disciplinar merecem relevo preponderante mesmo que à custa de êxodo de católicos.

O manifesto pondera a questão do isolamento da Igreja em relação à sociedade. Tal fato, porém, não se entende na percepção pontifícia de modo negativo, enquanto fechamento, mas como exigência de coerência com a própria mensagem a despeito da incompreensão por parte da mentalidade moderna.

Outra coisa, como parece supor o manifesto, tal aspecto implicaria incongruência com o projeto salvífico de Jesus. A questão teológica se desloca. Até onde tal programa eclesiástico afasta-se do reino anunciado por Jesus? Acusação grave que precisa ser bem pensada e discutida de ambos os lados. A tônica do projeto do Papa e a do manifesto são divergentes. No primeiro caso, volta-se para a Igreja e quer mantê-la na sua atual estrutura e, a partir daí, cumprir melhor sua função. No outro, propõe-se o projeto de Jesus e se pergunta como adequar as estruturas da Igreja a ele. Pontos divergentes que geram leituras diferenciadas. Só o diálogo mostra o limite e a positividade de cada perspectiva. O manifesto acentua: primeiro a liberdade individual e de consciência e a partir dela a fidelidade. A atual disciplina eclesiástica: primeiro a fidelidade à doutrina e à prática e aí dentro a liberdade.

O mesmo vale de outros pontos acentuados pelo manifesto: participação dos fiéis, comunidade de partilha, reconciliação dos pecadores e celebração ativa, enquanto o projeto eclesiástico em curso entende tais demandas a partir dos quadros jurídicos traçados para a participação, para a vida de comunidade, para a reconciliação e celebração e não à sua revelia ou à exigência da sua mudança. Nessa tensão consiste, segundo minha leitura, a divergência maior entre o manifesto e o que está em curso atualmente no seio da Igreja Católica.
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