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terça-feira, 8 de maio de 2012

Pessoas menos religiosas tendem a ser mais generosas, diz estudo


Um alerta para que estejamos atentos e não deixemos que nosso apego à doutrina e às prescrições nos feche o coração, em vez de ajudar a abri-lo. :-)

Um estudo da Universidade da Califórnia que envolveu 1.600 adultos nos EUA revelou que os menos religiosos baseiam o sentimento de generosidade na ligação emocional que estabelecem com os outros. Os religiosos, por outro lado, são mais ligados à doutrina e às relações de reputação e identidade com a comunidade.

“A pesquisa sugere que embora pessoas menos religiosas tendam a ser menos confiáveis nos Estados Unidos, quando sentem compaixão, elas podem estar mais abertas a ajudar estranhos do que pessoas mais religiosas”, comentou Robb Willer, psicólogo da Universidade de Berkeley - observação que já estava presente na parábola evangélica do Bom Samaritano.

E, de fato, o estudo sugere que crentes podem não ser tão “bons samaritanos” quanto ateus e agnósticos. Publicado no periódico Social Psychological and Personality Science, o artigo afirma que pessoas menos religiosas tendem a ser mais sensíveis às necessidades de um estranho.

O experimento foi realizado em três etapas. Na primeira, os cientistas analisaram dados de uma enquete americana de 2004 entre 1.300 adultos. A análise mostrou que as pessoas menos religiosas eram mais caridosas do que os mais crentes.

No segundo experimento, 101 adultos americanos assistiram a imagens de crianças muito pobres. Em seguida, os participantes receberam moedas falsas e foram instruídos a doar uma quantidade qualquer a um estranho. Novamente, os menos religiosos mostraram-se mais caridosos e doaram valores maiores.

“As imagens tiveram um grande efeito na generosidade dos menos crentes”, disse o psicólogo Robb Willer, da Universidade de Berkley, coautor do estudo. “Mas não modificou de maneira significativa a generosidade dos participantes mais religiosos.”

No último experimento, mais de 200 alunos universitários tinham que dizer quão compassivos estavam se sentindo no momento. Em seguida, participaram de jogos em que precisavam decidir se compartilhariam dinheiro com um estranho ou se guardariam para si.

Em uma rodada, os jogadores eram informados que haviam recebido doação de outro participante. Os agraciados tinham liberdade para decidir se recompensariam o doador devolvendo parte do dinheiro. Aqueles que haviam declarado baixa religiosidade e alta compaixão estiveram mais propensos a devolver parte do dinheiro recebido por um estranho do que os outros participantes do estudo.

De acordo com os autores, os menos religiosos apoiam a generosidade e a caridade na força da ligação emocional que estabelecem com um estranho. Já os mais religiosos parecem basear a generosidade menos na emoção e mais na doutrina e na identificação com a comunidade.

(Fonte: PavaBlog)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um caminho tortuoso


"Apresentar a ciência nas escolas e universidades ou nos meios informais de comunicação como um triunfalismo infalível da civilização esconde um de seus lados mais interessantes: o drama da descoberta, as incertezas da criatividade", escreve Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 29-04-2012.


Uma bela reflexão sobre o modo de conhecer o mundo da ciência, que leva a um questionamento: por que esse modo de conhecer e dar sentido ao mundo seria incompatível com a fé, e não complementar? A dicotomização entre ciência e espiritualidade, razão e fé serve apenas, a nosso ver, para alimentar radicalismos e intolerâncias. Muito mais proveitoso é trabalhar nos pontos de convergência e, em vez de tratá-las como incompatíveis, encará-las como formas complementares de compreender o mundo e lidar com a realidade. :-)

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.

Do jeito que a ciência é ensinada nas escolas, não é à toa que a maioria das pessoas acha que o conhecimento científico cresce linearmente, sempre se acumulando.

No entanto, uma rápida olhada na história da ciência permite ver que não é bem assim: o caminho que leva ao conhecimento é tortuoso e, às vezes, vai até para trás, quando uma ideia errada persiste por mais tempo do que deveria.

Isso pode ocorrer por razões como censura política (veja o caso de Trofim Lysenko durante o regime stalinista na União Soviética) ou por ideologias na classe científica, promulgadas por membros influentes.

Apresentar a ciência nas escolas e universidades ou nos meios informais de comunicação como um triunfalismo infalível da civilização esconde um de seus lados mais interessantes: o drama da descoberta, as incertezas da criatividade.

Cientistas tendem a reagir negativamente às ideias que ameaçam o status quo. Por um lado, esse ceticismo é essencial, dado que a maioria das ideias novas está errada. Por outro, ele pode revelar um conservadorismo que atravanca o avanço do conhecimento.

Um bom exemplo disso é o experimento de Albert Michelson e Edward Morley, realizado em 1887 para detectar o movimento da Terra através do éter, o meio material cuja função era servir de suporte para a propagação das ondas de luz.

Tal qual as ondas de som se propagam no ar, supunha-se que as ondas luminosas também necessitassem de um meio para se propagar, o éter. O experimento mediria as diferenças na velocidade da luz quando um raio luminoso ia contra o éter ou a favor, como quando andamos de bicicleta e sentimos um "vento" contra nosso corpo. (Uma bola jogada contra ou a favor do "vento" terá velocidades diferentes.)

Para total e completa surpresa da comunidade científica, o experimento não detectou diferenças na velocidade da luz em qualquer direção.

Em meio à perplexidade generalizada, várias tentativas de explicar o achado foram propostas, inclusive uma por George Fitzgerald e Hendrik Lorentz que sugeria que as hastes do aparato podiam encolher na direção do movimento. Esse encolhimento de fato existe, mas não como proposto pelos dois.

Apenas em 1905 Einstein explicou o que estava acontecendo, com sua teoria da relatividade especial: o éter não existe - a velocidade da luz é sempre a mesma, uma constante da natureza.

Observações recentes andam questionando a existência de um outro meio material ainda não detectado, a matéria escura. Essa matéria, supostamente feita de partículas diferentes das que compõem o que conhecemos no Universo (ou seja, coisas feitas de elétrons, prótons e nêutrons), deve ser seis vezes mais abundante que a matéria comum e se aglomerar em torno de galáxias, inclusive a nossa.

As observações não detectaram a quantidade esperada de matéria escura. E agora? A coisa é complicada porque existem outros métodos de detecção da matéria escura que parecem bastante claros. Qualquer que seja a resolução do impasse atual, estou certo de que algo de novo e surpreendente está para acontecer. Será interessante ver a reação da comunidade ao se deparar com o inesperado.

Leia também:
Sobre o (suposto) conflito entre fé e ciência
“A ciência é um dos melhores modos para se conhecer a Deus”
“A ciência não tem que se dedicar a comprovar a existência de Deus”

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Jovens brasileiros conciliam bem ciência e religião

Imagem daqui

A maioria dos jovens brasileiros vive em paz com suas crenças religiosas e a ciência da teoria evolutiva. Tem fé em Deus e, ao mesmo tempo, concorda com as premissas estabelecidas por Charles Darwin mais de 150 anos atrás, de que todas as espécies da Terra - incluindo o homem - evoluíram de um ancestral comum por meio da seleção natural. É o que sugere uma pesquisa realizada com mais de 2,3 mil alunos do ensino médio no País, coordenada pelo professor Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

A conclusão flui de um questionário sobre religião e ciência respondido por estudantes de escolas públicas e privadas de todas as regiões do País, com média de 15 anos de idade. A base de dados e a metodologia usadas na pesquisa foram as mesmas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), segundo Bizzo, para garantir que os resultados fossem estatisticamente representativos da população estudantil brasileira. "É o primeiro dado com representatividade nacional sobre esse assunto para esta faixa etária", diz o educador, que apresentou os dados pela primeira vez neste mês, em uma conferência na Itália.

"Ainda vamos fracionar e analisar mais profundamente as estatísticas, mas já dá para perceber que os alunos religiosos brasileiros são bem menos fundamentalistas do que se esperava", avalia Bizzo, que também é formado em Biologia e tem livros e trabalhos publicados sobre a história da teoria evolutiva. "É surpreendente. Algo que sugere que no futuro teremos uma população com uma interpretação mais elástica das doutrinas religiosas e mais sensível à ciência."

Aos 15 anos, diz Bizzo, os jovens estão passando por uma fase de definição moral, em que consolidam suas opiniões sobre temas fundamentais relacionados à ética e à moralidade. "É um período crucial. Dificilmente os conceitos de certo e errado mudam depois disso."

O questionário apresentava aos alunos 23 perguntas ou afirmações com as quais eles podiam concordar ou discordar em diferentes níveis. Mais de 70% disseram que se consideram pessoas religiosas e acreditam nas doutrinas de sua religião (52% católicos e 29% evangélicos, principalmente, além de 7,5% sem religião). Ao mesmo tempo, mais de 70% disseram que a religião não os impede de aceitar a evolução biológica; e 58%, que sua fé não contradiz as teorias científicas atuais. Cerca de 64% concordaram que "as espécies atuais de animais e plantas se originaram de outras espécies do passado".

Só quando a evolução se aplica ao homem e à origem da vida, as respostas ficam divididas. Há um empate técnico, em 43%, entre aqueles que concordam e discordam que a vida surgiu naturalmente na Terra por meio de "reações químicas que transformaram compostos inorgânicos em orgânicos". E também entre os que concordam (44%) e discordam (45%) que "o ser humano se originou da mesma forma como as demais espécies biológicas".

Sensibilidade
Os pesquisadores chamam atenção para o fato de que nenhuma das respostas que seriam consideradas fundamentalistas, do ponto de vista religioso, ultrapassam a casa dos 29%, porcentagem de entrevistados que se declararam evangélicos (denominação em que a rejeição à teoria evolutiva costuma ser mais forte). Apenas em dois casos elas ultrapassam 20%: entre os alunos que "discordam totalmente" que o ser humano se originou da mesma forma que as outras espécies (24%) e que os primeiros seres humanos viveram no ambiente africano (26%).

"A porcentagem dos que rejeitam completamente a origem biológica do homem é menor que a de evangélicos da amostra, o que é uma surpresa, já que os evangélicos no Brasil costumam ser os mais fundamentalistas na interpretação do relato bíblico", avalia Bizzo. "A teoria evolutiva é talvez a coisa mais difícil de ser aceita do ponto de vista moral pelos religiosos. Mesmo assim, os dados mostram que a juventude brasileira é sensível aos produtos da ciência."

Divulgada em 1859, com a publicação de A Origem das Espécies, a teoria evolutiva de Charles Darwin propõe que todos os seres vivos têm uma ancestralidade comum, e que as espécies evoluem e se diversificam por meio de processos de seleção natural puramente biológicos, sem a necessidade de intervenção divina ou de forças sobrenaturais - um conceito amplamente confirmado pela ciência desde então.

Apesar de ser frequentemente (e erroneamente) resumida como "a lei do mais forte", a teoria evolutiva é muito mais complexa que isso. A Origem das Espécies tinha 500 páginas, e Darwin ainda considerava isso muito pouco para explicá-la. Desde então, com o surgimento da genética e o desenvolvimento de várias outras linhas de pesquisa evolutiva, a complexidade da teoria só aumentou, dificultando ainda mais sua compreensão - e, possivelmente, sua aceitação - pelo público leigo.

"O problema é que a maioria dos estudantes - ainda mais com 15 anos - não tem muita clareza sobre o que está envolvido na teoria darwiniana. Com isso há o potencial de surgirem respostas contraditórias", avalia o físico e teólogo Eduardo Cruz, professor do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "Isso não tem a ver com a qualidade da pesquisa, mas com a pouca compreensão de temas tanto científicos quanto teológicos. Além do que, quando se trata de perguntas que envolvem a intimidade das pessoas, as respostas nem sempre são confiáveis. É como perguntar a rapazes de 15 anos se ainda são virgens."

Aceitação
Uma pesquisa nacional realizada pelo Datafolha em 2010, com 4.158 pessoas acima de 16 anos, indicou que 59% dos brasileiros acreditam que o homem é fruto de um processo evolutivo que levou milhões de anos, porém guiado por uma divindade inteligente. Só 8% acreditam que o homem evoluiu sem interferência divina. Os dados também mostram que a aceitação da teoria evolutiva cresce de acordo com a renda e a escolaridade das pessoas - o que pode ou não estar relacionado a uma melhor compreensão da teoria.

"Há uma discussão se a aceitação depende do entendimento, e uma análise mais precisa será realizada, mas uma análise superficial dos dados não encontrou essa correlação", afirma Bizzo sobre sua pesquisa, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Faculdade de Educação da USP. "Há indícios de que a compreensão básica seja acessível a todos e que a decisão de concordar que a espécie humana surgiu como todas as demais não depende de estudos aprofundados na escola."

Para a filósofa e educadora Roseli Fischmann, os resultados da pesquisa são "compatíveis com a capacidade dos jovens de viver o mundo de descoberta da ciência sem abalar sua fé".

"A fé, se bem sustentada, não é ameaçada pelo conhecimento científico", diz Roseli, coordenadora da Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista e professora da USP. "Sozinhas, nem a ciência nem a religião garantem que o ser humano seja bom e que o bem comum seja alcançado. É preciso a presença da ética, do respeito a todo ser humano, da consciência da responsabilidade individual na construção do bem comum."

(Reportagem: Herton Escobar. Publicado n'O Estado de S. Paulo, 29-04-2012. Reproduzido aqui via IHU.)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Posicionamento do CFP: tratamento da mídia sobre homossexualidade


A esta altura do campeonato já não é nenhuma novidade esta nota emitida dia 11/04/12 pelo Conselho Federal de Psicologia a respeito da questão da "cura homossexual". Mas, como a gente não tem mesmo como ser mais rápido no gatilho que o Sérgio Viula em seu excelente blog Fora do Armário, que está sempre dando as notícias mais relevantes em primeiríssima mão, reproduzimos, mesmo com atraso, porque vale o registro e nunca é demais divulgar. ;-)

Diante das recorrentes discussões por parte da mídia sobre a questão da orientação sexual e a possibilidade de “cura” dos homossexuais pelas psicólogas e psicólogos, tendo como exemplo o programa "VEJAM SÓ" da Rede Internacional de Televisão (RIT TV), transmitido dia 19/03/2012 e que levantou o tema “você concorda que os psicólogos sejam proibidos de ajudar os gays que desejem mudar sua orientação sexual?”, o CFP tem o seguinte posicionamento:

Primeiramente, já foi esclarecido anteriormente em nota publicada dia 28/03 que a Resolução do CFP nº 001/99 referenda a posição internacional frente ao tema, pois em 1993, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade do rol de doenças e patologias da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID 10).

Da leitura da Resolução nº 001/99, constata-se que, bem ao contrário do que sustenta o autor do PDC 234/2011, o CFP em momento algum veda a prestação de orientação psicológica profissional aos que pretendam voluntariamente alterar sua orientação sexual. O que se veda é que a psicóloga (o) preste os seus serviços de modo a tratar ou a prometer a cura da homossexualidade, pois a homossexualidade não é uma doença.

A (o) psicóloga (o) deve acolher o sujeito em sofrimento psíquico, seja ele proveniente de sua orientação sexual ou qualquer outro, entendendo que cabe ao indivíduo expressar-se livremente em suas demandas para a construção de um projeto terapêutico singular.

Deverá a (o) psicóloga (o) ter como princípio o respeito à livre orientação sexual dos indivíduos, e conforme o artigo 2º item b de nosso Código de Ética, é vedado à/ao Psicóloga(o) induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito quando no exercício de suas funções profissionais.

A questão da orientação sexual como expressão do direito humano, distancia-se radicalmente de conceitos de cura e doença. O objetivo terapêutico não será a reversão da homossexualidade porque esta não é uma demanda passível de tratamento, já que não se configura como distúrbio ou transtorno. O projeto terapêutico proposto estará direcionado para o bem-estar daqueles que procuram auxílio psicológico, contribuindo para a universalização do acesso da população as informações, ao conhecimento da ciência psicológica e aos padrões éticos da profissão.

Mas uma segunda questão vem à tona, relativa ao papel da mídia brasileira na discussão de tais questões, que têm sido muitas vezes debatidas de forma rasa e tendenciosa, sem entrar no mérito de um assunto tão sério, que acaba guiado por paradigmas religiosos.

Muitas das discussões desencadeadas pelos referidos meios ferem a Democracia e substituem o necessário embate de ideias políticas por denúncias unilaterais e, de modo geral, sem comprovação informativa, e sem o livre exercício do direito ao contraditório.

Acreditamos que fatos como estes mostram, mais uma vez, que a ausência de mecanismos de regulação democrática capazes de apurar e providenciar ações imediatas para lidar com as infrações cometidas pelas emissoras demandam uma das políticas públicas que necessitam ser construídas no Brasil como um Conselho Nacional de Comunicação, com participação dos diversos segmentos da sociedade, assim como já ocorre nos países democráticos.

Esta é uma das políticas em que o CFP atua no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), onde o Conselho ocupa a Secretaria-Geral da coordenação executiva no biênio 2012-2013. A coordenação executiva do FNDC é composta atualmente por nove entidades que trabalham juntas na luta por uma Comunicação Democrática no Brasil.

É fundamental que o Ministério das Comunicações coloque em discussão, imediatamente, propostas para um novo marco regulatório das comunicações, com mecanismos que contemplem órgãos reguladores democráticos capazes de atuar sobre estas questões.

Acesse: http://www.comunicacaodemocratica.org.br/

Assista a seguir debate transmitido no dia 22/01 no programa Ver TV, da TV Brasil, com a participação da conselheira do CFP Roseli Goffman. O programa organizou debate sobre os excessos na programação da TV brasileira. Veja a seguir os blocos do Programa:

Parte 1:
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Parte 2:
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Parte 3:
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Evolução e pecado original: releituras do Gênesis

Ilustração: Ashley Percival

Como nos sentimos quando ouvimos a história do Gênesis? Por um lado, ela é tão familiar que se tornou caseira, e não conseguimos perceber a sua recorrente alteridade. Por outro lado, ela passou a exemplificar a batalha entre ciência e religião. Para os fundamentalistas cristãos, ela constitui a Palavra de Deus absoluta que refuta a teoria da evolução pela seleção natural. Para os ateus evolucionistas, a ciência oferece provas quase irrefutáveis de que Deus não existe, tornando obsoletos nossos antigos mitos de origem.

Isso se torna ainda mais problemático se levarmos em consideração o que Paulo diz em Romanos 5, 12-19, repassando a história da salvação até o pecado de Adão. Em um mundo em que nos conhecemos como macacos altamente evoluídos – embora sendo macacos cujos cérebros pularam as faixas da evolução até adquirir consciência –, como devemos interpretar essas histórias de pecado, de morte e de salvação de uma forma que não nos torne ridículos ou infantis?

O teólogo jesuíta Jack Mahoney recentemente tentou dar uma resposta por meio do que ele chama de "uma teologia cristã do altruísmo". Em seu livro Christianity in Evolution: an Exploration [Cristianismo em evolução: Uma exploração] ele argumenta que a teoria da evolução tornou a doutrina do pecado original redundante. Cristo não morreu por nossos pecados para satisfazer a Deus. Ao contrário, ele é a entrada de Deus na espécie humana em evolução, a fim de nos ensinar a imitar o altruísmo trinitário. Nós somos "propensos ao interesse próprio e até mesmo à obsessão própria", mas isso não é atribuível a "algum desastre moral primordial".

Cristo, por exemplo nos mostra como superar essas características evolutivas naturais, para que o seu testemunho "possa ser visto como um passo evolutivo maior no avanço moral da humanidade e como uma indicação de que o altruísmo universal é o convite moral e o destino evolutivo das espécies humanas". Mais importante ainda é que, morrendo, Cristo enfrentou a universalidade da morte e, ressuscitando, ele "salvou seus companheiros seres humanos da extinção, seu destino evolutivo, para compartilhar com eles a vida divina da Trindade".

No entanto, tenho dúvidas sobre a a viabilidade ou conveniência do ponto de vista de Mahoney, e gostaria de dizer por quê.

O mito do Gênesis não é factual, mas é veraz. Os mitos são portadores de sentido para além do que as nossas mentes racionais podem suportar. Eles não explicam nem discutem. Por um processo paradoxal de ocultação e revelação simultâneos, eles evocam ressonâncias sutis e evasivas.

A história do Gênesis toca em muitos enigmas sobre o que significa ser humano. Há, por exemplo, a intuição de que desejo e proibição parecem presos em uma relação parasitária mútua. Há também o enigma da sexualidade humana – a dolorosa história de amor e violência, liberdade e dominação, deleite e desastre, que constitui o romance e a tragédia em curso das nossas uniões sexuais. E depois há a relação entre nós e o restante da criação como um paraíso que se torna um deserto de conflito e discórdia, e a harmonia original entre Deus, a humanidade e a natureza que se rompe ao longo de linhas de culpa e alienação, vergonha e expulsão.

Nascemos em um mundo que nunca foi diferente do que é, e demitologizar é em si apenas mais um mito – o mito do progresso impulsionado pela razão e pela ciência. Esse mito moderno está rapidamente se tornando um pesadelo acordado, enquanto vemos o colapso das nossas instituições econômicas e democráticas, e a devastação do ambiente natural.

Como o filósofo Paul Ricoeur sugere, assim como Adão e Eva, nós descobrimos que a serpente sempre esteve no paraíso, que as suas origens são inexplicáveis, que a sua presença é um obscuro mistério dentro da história humana. Não importa como a chamemos – pecado original, alienação, angústia existencial, uma predisposição genética –, não estamos em paz com nós mesmos e com o nosso mundo, e mesmo que, com grande sabedoria e paciência, adquiramos algum nível de paz, é um dom frágil e efêmero.

Entre o início e o fim das Escrituras, descobrimos a história redentora do nosso próprio vir a ser – macacos vindo a ser humanos vindo a ser deuses mediante a nossa divinização em Cristo. Mas nós também precisamos mudar o foco de nossas lentes antropocêntricas. Esse não é um projeto moral, como Mahoney parece sugerir, e também não é um projeto puramente humano. Cristo é um redentor cósmico, e a Carta aos Romanos nos diz que toda a criação geme em dores de parto enquanto espera a glória da redenção.

Uma teologia que procura se explicar perante o tribunal da ciência sempre abrirá mão de muito, e uma ciência que tranca as suas portas contra a teologia sempre saberá muito pouco.

- Tina Beattie
Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Primavera cristã: uma esperança mundial

Charge: El Roto

É hora de aliar-se com o humanismo secular e com os mundos diferentes do europeu.

"Cristo é a força que deve transformar a história. E a Igreja deve falar mais de Cristo. Senão, ela se comporta como um treinador que tem na equipe Maradona e Messi e mantêm ambos no banco". Dom Vincenzo Paglia, bispo de Terni e assistente da Comunidade de Santo Egídio sorri. Seu novo livro, Cercando Gesù [Buscando Jesus] (Ed. Piemme), escrito com o presidente da Rai Cinema, Franco Scaglia, se abre e se fecha em Jerusalém, é fortemente marcado pela atmosfera da Semana Santa e da Páscoa, tem acentos dolorosos, até mesmo dramáticos, que relembram os calvários medievais e A Paixão de Cristo de Mel Gibson. Mas, no fundo, traz uma mensagem de alegria.

"Na era do primado da ciência, do aparente domínio da tecnologia, a Igreja tem realmente uma chance formidável: a aliança entre cristianismo e humanismo", diz Dom Paglia. "Depois de três séculos de primado da razão sem Deus, sintetizados por De Lubac com a fórmula do 'drama do humanismo ateu', se abre uma era completamente diferente. Se Nietzsche anunciava a morte de Deus, e se nos massacres dos totalitários e nos excessos do capitalismo morreu também o ser humano, Deus e ser humano renascem juntos em uma só pessoa: Jesus. Mas muitas vezes os homens da Igreja falam de outras coisas. Perdem-se em questões de poder. Dão um peso muito excessivo à razão. A razão pode sustentar a fé no caminho para Deus, não pode substituí-la. O [Giovanni] Papini de Un uomo finito, que se rende à impossibilidade de elevar o ser humano à divindade, me lembra a busca de Agostinho: a consciência dos nossos limites não é o fim, mas sim o início; o ser humano parte da razão, mas não chega ao fim sem a fé".

Sobre o papa, o livro de Paglia tem palavras de grande admiração e afeto, define como extraordinária a escolha de um pontífice para liberar a escrivaninha e a agenda para escrever um livro sobre Jesus, que deve completar a trilogia dedicada por Bento XVI à figura de Cristo; assim como reconhece que, sobre a tragédia da pedofilia, o papa impôs uma linha clara e corajosa.

Mas também é verdade que, segundo Paglia, "não poucos homens da Igreja não captam plenamente o seu grande potencial de falar ao mundo moderno e de orientá-lo. Por isso, Bento XVI faz bem ao insistir sobre uma 'nova' evangelização".

"Um ano atrás, tivemos a primavera árabe. Por que não temos a primavera cristã? Por que, da América do Sul, não surge uma figura carismática como a de Dom Romero? Por que a energia liberada pelo Concílio como que se dispersou? Devemos recomeçar da figura de Cristo que transforma a história. E a transformação é eficaz se se tornar cultura, se conseguir fazer uma aliança com mundos diferentes do nosso. Como não ver que a Europa, curvada pela crise financeira e social, pode ter na a Igreja uma força em defesa do ser humano e uma aliada para construir um novo humanismo? E o alfabeto do humanismo são as Escrituras, particularmente o Evangelho. Muitas vezes, foi assim no passado".

No seu livro anterior, o best-seller In cerca dell'anima [Em busca da alma], os dois coautores identificaram o mal que consumia a Itália na inércia. Desde então, o cenário mudou, o espírito de Todi contribuiu para abrir uma nova temporada político-cultural, marcada por um compromisso direto dos católicos. Em Cercando Gesù, um padre atento ao social como Dom Paglia investiga uma dimensão nova, teológica, ligada também às sugestões literárias dos Evangelhos.

São interessantes as páginas sobre a natureza diferente da ressurreição de Lázaro, que volta milagrosamente à vida de homem e que, portanto, morrerá de novo, e a de Cristo, que renasce à vida do espírito e que, por isso, nunca morrerá mais, marcando o início de um novo mundo. É inesquecível a imagem de João Paulo II, que, durante a viagem à Terra Santa por ocasião do Jubileu do ano 2000, visitou o Santo Sepulcro, mas, por prudência, foi mantido longe da escada que sobe ao Gólgota, no temor de que a doença lhe negasse as forças para subi-la. Mas Wojtyla não quis deixar Jerusalém sem beijar, uma última vez, a rocha que acolheu a cruz de Jesus. Assim, à tarde, voltou de repente ao Sepulcro. Os religiosos tiveram que suspender as funções, os turistas foram literalmente postos para fora, e o papa fica por um longo tempo com o rosto e as mãos estendidas: "Naquele momento, consciente de que o cristianismo começava a partir dali, de onde o madeiro da cruz foi plantado e se elevou ao céu, João Paulo II tocava as alturas dos místicos".

O que resta hoje dos ensinamentos de Jesus, da sua indignação, da sua caridade, do seu sacrifício? Hoje, Jesus vive nos pobres, responde Dom Paglia, citando a Elsa Morante de La storia: "Eu jamais fui embora de vocês. São vocês que, todos os dias, me lincham, passam por mim sem me ver. Eu, todos os dias, passo perto de vocês mil vezes, me multiplico por tantos quantos vocês são, os meus sinais preenchem cada centímetro do universo, e vocês não os reconhecem...".

Por isso – sintetiza Dom Paglia – "Jesus não é um professor de moral, e o cristianismo não é apenas um sistema de valores. É a síntese entre ser humano e Deus, é o encontro com uma Pessoa que desorganiza o universo como o conhecemos e faz novas todas as coisas. O mundo de amanhã não espera nada mais além de que a Igreja anuncie a sua palavra".

- Aldo Cazzullo, para o jornal Corriere della Sera, 19-03-2012. Tradução: Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

sexta-feira, 30 de março de 2012

“A ciência é um dos melhores modos para se conhecer a Deus”


“A ciência é um dos melhores modos para se conhecer a Deus”, defende, no convênio sobre o tema “Viver a fé católica”, promovido pela arquidiocese norte-americana de Denver, o padre Guy Consolmagno, astrônomo do Observatório Vaticano. Estudar cientificamente o universo ajuda a entender melhor “a pessoa de Cristo”. O religioso e cientista ítalo-americano, que há mais de 30 anos estuda os asteroides e os cometas (um asteroide foi batizado com o seu nome), não exclui a possibilidade de que haja outra vida inteligente no universo.

Mas o ET não faz a fé entrar em crise: “O que aprendemos não anula o que já sabemos. Se um dia descobrirmos que não estamos sozinhos no universo, tudo aquilo em que cremos não é que seja incorreto, pelo contrário, nos daremos conta de que é mais verdadeiro, de modos e formas que nunca pudemos imaginar”. Para confirmar tudo isso, o padre Consolmagno cita o Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, isto é, Jesus, a segunda pessoa da Trindade. O Verbo é a salvação, a encarnação de Deus no universo. Segundo o Evangelho, o Verbo existia antes do universo. O único ponto no espaço-tempo que é o mesmo em todas as linhas temporais. Este é o modo como a salvação acontece, e aqui se manifestou na pessoa de Jesus Cristo”. Antes da criação do universo, Cristo já existia; e, portanto, abraçava, não apenas a nós e a terra, mas a outros hipotéticos seres.

“O ateísmo moderno tende a considerar Deus simplesmente como uma força que “enche os vazios” em nossa compreensão do universo” – observa o jesuíta nascido em Detroit em 1952. “Mas usar Deus para encher os vazios de nosso conhecimento é teologicamente enganoso, já que minimiza Deus e o reduz a outra força dentro do universo em vez de reconhecê-lo como fonte de criação. Aqueles que crêem em Deus não deveriam temer a ciência, mas deveriam considerar a ciência como uma oportunidade que Deus deu à humanidade para que o conheça melhor”. A fé e a razão são como que as duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. É Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em definitiva, de conhecê-lo a Ele próprio, para que, conhecendo-o e amando-o, possa alcançar também a plena verdade sobre si mesmo. O padre Guy Consolmagno precisa que acredita em Deus “não porque Ele seja o final de uma cadeia lógica de cálculos, mas porque experimentou que a física e a lógica podem mostrar-me a beleza, a razão e o amor, mas não explicá-los”. Além disso, a fundamental diferença entre o jesuíta e o cientista ateu Stephen Hawking é que ele reconhece que Deus não é outra parte do universo que explica o inexplicável, mas o “Logos”, a “Razão” mesma.

As outras religiões ou filosofias podem dar-nos uma visão racional do universo, mas “apenas o Evangelho pode nos dizer que a razão mesma se materializa entre nós na forma de Jesus Cristo”. “Tomás de Aquino fala de numerosos mundos”. A encarnação, segundo o Evangelho, aconteceu aqui; mas poderia valer também em qualquer outro lugar. “A Bíblia é a ciência divina, um trabalho sobre Deus” – precisa o padre Consolmagno. “Não é necessário que seja ciência física” e explique como o universo foi construído. Mas um universo sem limites “poderia incluir outros planetas com outros seres criados pelo mesmo Deus de amor. A ideia da existência de outras raças e outras inteligências não é contrária ao pensamento tradicional cristão. Não há nada nas Sagradas Escrituras que possa confirmar ou contradizer a possibilidade de vida inteligente em outras partes do universo”. Nosso conhecimento não é completo; e é uma loucura “subestimar a capacidade de Deus para criar com uma profundidade de modos que nós não entenderemos nunca completamente”. E, portanto, seria da mesma maneira arriscado pensar que “entendemos a Deus completamente”, limitando sua ação ao planeta Terra, e aos outros seres humanos. Observar os asteroides, os meteoritos e os corpos celestes “é uma das coisas que me aproximam de Deus”. Santo Tomás, “que sempre foi proposto pela Igreja como mestre do pensamento e modelo do reto modo de fazer teologia”, reconhece que a natureza, objeto precisamente da filosofia, pode contribuir para entender a revelação divina.

A fé, portanto, não tem medo da razão, mas que a busca e confia nela. Assim como a graça supõe a natureza e a leva a término, do mesmo modo a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta última, iluminada pela fé, se libera da fragilidade e dos limites derivados da desobediência do pecado e encontra a força necessária para elevar-se ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Já João Paulo II, na encíclica Fides et Ratio, de 1998, advertia que “muitos arrastam sua vida até quase a borda do abismo, sem saber o que vão encontrar”.

A filosofia, que tem a grande responsabilidade na formação do pensamento e da cultura através do “apelo permanente à busca do verdadeiro”, tem que recuperar com força sua vocação original. Portanto, não há motivo para que exista “nenhuma competitividade entre a razão e a fé: uma está dentro da outra, e cada uma delas tem seu próprio espaço de realização”. Assim que, “a fé pede que seu objeto seja compreendido com a ajuda da razão; a razão, no auge de sua busca, admite que é necessário aquilo que a fé apresenta”. Crer na possibilidade de conhecer a verdade universalmente válida não é, em hipótese alguma, fonte de intolerância; pelo contrário, é condição necessária para um sincero e autêntico diálogo entre as pessoas. E os cientistas, com sua pesquisa, “nos dão um crescente conhecimento do universo em seu conjunto e da variedade incrivelmente rica de seus componentes, animados e inanimados, e das complicadas estruturas atômicas e moleculares”.

Giacomo Galeazzi para o Vatican Insider, 20-03-2012. 
Tradução do Cepat, aqui reproduzida via IHU.


Leia também:  Entre Deus e o Big Bang está o astrônomo do papa

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Código de Ética Profissional e a Psicóloga Cristã

Imagem daqui

Tem repercutido o fato de que finalmente o Conselho Regional de Psicologia do Paraná chamou a senhora Marisa Lobo, autointitulada "Psicóloga Cristã" nas redes sociais e defensora de terapias para "cura da homossexualidade", a prestar esclarecimentos sobre sua atuação.

Como adverte o psicólogo Alessandro Vieira dos Reis:

Como já pontuado anteriormente, vivemos hoje no Brasil um crescimento assombroso do cristianismo evangélico, em especial do neopentecostal. Nesse contexto, surge um mercado consumidor para um novo tipo de terapia alternativa, ao lado de tantas outras já existentes e igualmente não reconhecidas oficialmente por órgãos como o Conselho de Psicologia e o de Medicina: a psicoterapia cristã (cujo carro-chefe, atuamente, é a propaganda da pretensa “cura da homossexualidade”). 
Como toda terapia alternativa, (...) a Psicoterapia Cristã faz um pastiche teórico-metodológico da Psicologia com alguma espiritualidade mística e/ou religiosa. Como terapia alternativa explora o efeito placebo originário da fé do paciente. Pouquíssimo ou nada se baseia em Ciência. Seu diferencial diante das outras terapias alternativas é que a fé que neste caso é religiosa, reforçada por um aparato social poderoso (uma determinada comunidade cristã), e não uma fé mística individual (...). 
Por conta desse mercado crescente, deduzo que será cada vez mais comum a presença de líderes religiosos em cursos de formação em psicoterapias breves, bem como a criação de cursos especialiados para membros dessa comunidade (como os já muito comuns, nos EUA, cursos de “aconselhamento pastoral”). 
E eis aí um novo agente surgindo no cenário da Psicologia Brasileira, caros psicólogos e clientes de Psicologia. Em um Brasil que cada vez mais tem como grandes líderes pastores como Silas Malafaia (que também é psicólogo, notem!), Edir Macedo e Valdomiro Santiago, cada vez mais surgirá demanda e oferta de psicólogos cristãos. Marisa Lobo não é a primeira, mas é o protótipo e modelo teórico, metodológico e prático para muitos e muitas que estão por vir.
Seu texto completo pode ser lido aqui.

A respeito desse caso, reproduzimos abaixo texto do também psicólogo e amigo deste blog Flavio Alves, originalmente publicado em seu blog Ideias Canhotas.

E, caso tenha interesse, você encontra aqui a nota da ABGLT de apoio ao Conselho Regional de Psicologia do Paraná a respeito do caso.


De tempos em tempos vejo algum burburinho em torno das declarações da senhora Marisa Lobo (“Psicóloga Cristã”) nas redes sociais. Particularmente não sou de dar muita audiência para pessoas ou blogs desse tipo, mas sendo um profissional da área é inevitável não ler alguma coisa sobre o que ela anda dizendo.

Sou psicólogo, entrei na faculdade de Psicologia no ano de 2006. Logo nas primeiras semanas, no meio de um debate em sala de aula, uma professora nos disse que, a partir do momento que ingressamos na graduação, já nos submetíamos aos dispositivos do Código de Ética da profissão.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo gerou e subsidiou inúmeras discussões ao longo do curso, algumas bem calorosas e que, obviamente, envolviam religião, sexualidade, política, profissionalismo, entre milhares de outras questões inerentes ao trabalho do psicólogo.

Ao longo de minha formação aprendi, e assim o faço até hoje, a compreender o Código como NORTE e não como uma lista de regras. O Código expressa um conjunto de valores e princípios que são fundamentais para o exercício da função e nos dá a dimensão exata da responsabilidade que cada profissional tem para com as pessoas e para com a sociedade no exercício dela.

Assim, de tudo o que eu li até hoje, afirmo sem sombra de dúvidas que Marisa Lobo, para promover suas opiniões, distorce o Código de Ética do Profissional Psicólogo, deturpa textos científicos, falta com a verdade quando fala a respeito de proposições que tramitam nas Casas Legislativas do país e das bandeiras defendidas pelos movimentos sociais, e reúne uma rede de fundamentalistas contra todos os que a questionam.

Recentemente, Marisa Lobo foi chamada ao Conselho Regional de Psicologia do Paraná para prestar esclarecimentos sobre sua atividade profissional, e após o ocorrido fez inúmeros comentários nas redes sociais, mobilizando alguns segmentos para atacar a profissão e os movimentos sociais e se colocando acima de qualquer tipo de crítica.

Para entender a situação é fundamental conhecer o que diz o Código, instrumento que deveria ser conhecido por todos, psicólogos ou não.

Vejamos o que diz o texto: o Código de Ética Profissional já em seus princípios fundamentais afirma que cada psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E que trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (CFP, 2005, p.7).

Ou seja, o profissional de psicologia atua na sociedade e exerce sua profissão de maneira a garantir e promover os Direitos Humanos, nos sendo vedada qualquer tipo de ação que colabore, mesmo que indiretamente para a marginalização de qualquer grupo ou pessoa.

Indo mais adiante, o CE dispõe em seu primeiro artigo:
Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos:
c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional;
Este dispositivo estabelece o conhecimento científico como parâmetro para a atuação do profissional psicólogo, ou seja, seu exercício está condicionado ao domínio de métodos e técnicas validados e comprovados cientificamente, e que possam ser questionados da mesma maneira, pela ciência.

Independente da fé que professa, ao exercer sua profissão, o psicólogo se pautará pela ciência, sempre! O segundo artigo determina que:
Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:
a) Praticar ou ser conivente com quaisquer atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão;
b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais;
f) Prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão;
Este artigo reforça o compromisso do psicólogo com os direitos humanos, impede que psicólogos se utilizem de sua profissão e da relação que estabelecem com seus atendidos para induzi-los a compartilhar de suas convicções, além de impedir que vinculemos nosso título a qualquer outra coisa que não se relacione a profissão, ou seja, religião, política, time de futebol, gosto musical entre milhões de outras coisas.

Em resumo, o Código o reafirma que em todo lugar em que o profissional se apresente como psicólogo, o deve fazer com base no conhecimento científico, nos métodos e técnicas advindos da Psicologia e respeitando os Direitos Humanos.

Marisa Lobo, que se tornou conhecida por se utilizar da profissão e do título acadêmico que possui para fazer proselitismo religioso, promove reiterados ataques aos movimentos por direitos humanos (com ênfase ao LGBT), às religiões de matriz africana, aos ateus e ao sistema de Conselhos de Psicologia.

Sabedora das infrações que comete, Marisa Lobo se esforça para se passar por vítima de um Conselho dominado por militantes intolerantes, postura fica nítida na foto em que posa em frente à sede do CRP/PR de bíblia em punho, numa tentativa de tornar uma discussão sobre sua conduta profissional em um debate religioso.

Sobre o processo que corre no CRP/PR, Marisa Lobo afirma que o Conselho exige que renuncie seu deus, renegue sua fé para exercer a profissão de psicóloga, numa clara distorção da verdade, expediente bem comum em seu blog e em suas postagens nas redes sociais.

Nas declarações que deu sobre o processo, Marisa Lobo em momento nenhum se defendeu, não desmente o que é colocado, ao contrário, ataca ainda mais os homossexuais, ateus, entre outros segmentos e novamente tenta se passar por vítima. Publicou alguns trechos na internet, e em NENHUM momento há a orientação para que ela deixe de freqüentar sua igreja ou suspenda seu trabalho missionário, o que existe é a exigência de que ela separe sua atuação profissional das atividades religiosas em que está envolvida, que deixe de utilizar do título de psicóloga para defender sua fé e misture ciência com religião.

Aos psicólogos, como a qualquer outra pessoa é garantido o direito de professar a sua fé e praticar sua religião, mas isso deve ser feito nos lugares e momentos adequados e de forma alguma deve ser associada ao exercício da profissão. Ao contrário do que Marisa Lobo tenta provar, é possível ser psicólogo e ter vida religiosa sem que uma coisa anule a outra.

Logo, fica claro que Marisa Lobo distorce e deturpa qualquer informação ou texto para atender seus interesses políticos/religiosos. Submete os interesses da profissão à sua agenda religiosa, incorre em falta ética, e deve ser responsabilizada por isso.

Como disse aqui, o Código afirma em seus princípios o compromisso com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, declaração esta que garante a liberdade religiosa como direito fundamental. Serve para nortear a atuação de todos os profissionais de Psicologia, independente de sua fé religiosa, convicção política, orientação sexual, o Código se aplica a todos e nenhum profissional está acima dele.

Espero que a situação no CRP do Paraná se resolva rapidamente, que a profissão saia fortalecida e nossos princípios sejam preservados!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Por que casais homossexuais podem ser excelentes pais

Imagem daqui

O casamento gay e a questão de pais homossexuais estiveram na boca de todos nos últimos tempos. Muito se tem discutido a respeito da capacidade dos LGBTs de cuidar de seus filhos de forma a que cresçam com saúde e equilíbrio. Mas pesquisas com famílias lideradas por homens e mulheres gays não trazem nenhum resultado desastroso. De fato, algumas vezes, pais gays podem trazer talentos à mesa que os heterossexuais não conseguem.

Os pais gays “tendem a ser mais motivados, mais comprometidos do que os heterossexuais, na média, porque escolhem ser pais”, afirma a psicóloga Abbie Goldberg, que pesquisa esse tipo de caso. De acordo com ela, gays e lésbicas raramente viram pais por acidente, em comparação com quase 50% de gravidez acidental entre os heterossexuais. “Isso dá mais comprometimento e envolvimento, em geral”.

E enquanto pesquisas indicam que os filhos de pais gays apresentam diferença quase nula de aprendizagem, saúde, funcionamento social e outras medidas, essas crianças podem ter a vantagem de possuir uma mente mais aberta, tolerante e modelos de comportamento para relações igualitárias, de acordo com outros estudos. Não só isso, mas de acordo com pesquisas, pais homossexuais tendem também a oferecer casa para crianças difíceis do sistema de adoção.

Adotando quem mais precisa
A adoção gay causou controvérsia no estado americano de Illinois, onde serviços de adoção católicos decidiram parar de oferecer os serviços porque o estado se recusou a disponibilizar fundos, a menos que os grupos concordassem em não discriminar os gays.

Deixando de lado a oposição católica, pesquisas sugerem que pais gays são uma fonte poderosa para crianças que precisam ser adotadas. De acordo com um estudo de 2007, 65 mil crianças americanas estavam vivendo com pais adotivos homossexuais, entre 2000 e 2002, com outras 14 mil em casas de adoção lideradas por gays. (Existem mais de 100 mil crianças, atualmente, nessa situação, nos EUA).

Um estudo de outubro de 2011, do Instituto de Adoção Evan B. Donaldson, descobriu que das adoções por pais gays em mais de 300 agências, 10% das crianças tinham mais de seis anos – uma idade tipicamente difícil de ser adotada. Cerca de 25% tinha mais de três anos; 60% dos casais adotou raças diferentes, o que é importante já que crianças que são minorias tendem a se manter no sistema de adoção; e mais da metade das crianças adotadas tinham necessidades especiais.

De acordo com o autor David Brodzinsky, o estudo não comparou as preferências adotivas dos heterossexuais. Mas pesquisas sugerem que os gays tendem a adotar crianças mais velhas, com necessidades especiais e minorias. Parte disso poderia ser de suas preferências, e outra por causa da discriminação nas agências que coloca as crianças mais “difíceis” para os pais “menos desejados”.

Brodzinsky afirma que não importa como você encare isso, os gays, como um grupo, se interessam por adoção. Um estudo de 2007, do Instituo Urban, revelou que mais da metade dos pais gays e 41% das lésbicas, nos Estados Unidos, gostariam de adotar. Numericamente isso corresponde a dois milhões de pessoas para adoção. “É uma reserva enorme de pais em potencial que poderiam tirar as crianças do sistema instável de adoção”, comenta Brodzinsky.

“Quando você pensa nas 114 mil crianças que estão prontas para serem adotadas mas continuam vivendo em casas de adoção, o objetivo é aumentar a reserva de pais disponíveis, interessados e treinados para serem pais delas”, comenta Brodzinsky.

E ainda, o pesquisador comenta que existem evidências sugerindo que os gays aceitam adoções abertas, quando a criança continua tendo algum contato com os pais biológicos. E as estatísticas dizem que esses pais não têm problemas em suas crianças serem criadas por casais do mesmo sexo.

“O interessante é que encontramos uma pequena porcentagem, mas o suficiente para ser notada, de mães biológicas que fazem a decisão consciente de deixar o filho com homens gays, para que sejam a única mãe na vida da criança”, afirma Brodzinsky.

Boa criação
Pesquisas mostram que filhos de casais do mesmo sexo – adotados ou biológicos – não são piores do que os filhos de heterossexuais na saúde mental, funcionamento social, desempenho escolar e outras variedades de sucesso na vida.

Em 2010, os sociólogos Tim Biblarz e Judith Stacey reviram quase todos os estudos sobre pais gays, e não descobriu nenhuma diferença entre crianças criadas em casas com pais heterossexuais e em casas com mães lésbicas. “Não há dúvida de que crianças com mães lésbicas vão crescer e ser ajustadas socialmente e obter sucesso como as crianças com pai e mãe”, afirma Stacey.

Há muito pouca pesquisa sobre homens, pais, homossexuais, então Stacey e Biblarz não conseguiriam chegar a conclusões nesse ponto. Mas Stacey suspeita que homens gays “seriam os melhores pais na média”, comenta.

Ela afirma que isso é especulação, mas se lésbicas têm que planejar para ter uma criança, isso é ainda mais difícil para homens gays. Para Stacey, os dois devem estar muito comprometidos. Homens gays também podem experimentar menos conflitos parentais, já que a maioria das lésbicas usa doações de esperma para ter uma criança, então uma mãe é a biológica, o que pode criar conflito por proximidade à criança.

“Com homens gays, você não tem esse fator”, comenta. “Nenhum deles fica grávido, nem amamenta, o que não gera essa assimetria no relacionamento”.

E para aqueles que dizem que uma criança precisa de um pai e uma mãe em casa, Stacey afirma que estão esquecendo pesquisas que comparam filhos de pais solteiros e de casais. Dois bons pais são melhores do que um, mas um bom pai é melhor do que dois ruins. E a opção sexual não parece afetar isso. Mesmo que existam diferenças entre como homens e mulheres criam os filhos, ela afirma que há muito mais diversidade dentro dos gêneros do que entre eles.

“Dois pais heterossexuais com o mesmo passado, classe, raça e religião são muito parecidos na maneira como criam os filhos. Não é como se um fosse igual a todos os homens e outra, a todas as mulheres”, comenta Stacey.

Para Goldberg, os únicos pontos consistentes onde você pode encontrar diferenças entre crianças de casais gays e de heterossexuais está na tolerância e abertura de conceitos. Em um estudo de 2007, ele conduziu entrevistas com 46 adultos com pelo menos um pai gay. Vinte e oito falaram espontaneamente que se sentiam mais abertos mentalmente e empáticos do que aqueles não criados nessas condições.

“Esses indivíduos sentem que suas perspectivas sobre família, gênero ou sexualidade são muito acrescentadas por crescerem com pais gays”, comenta Goldberg.

Um homem de 33 anos, com uma mãe lésbica, afirmou à Goldberg: “Eu me sinto mais aberto por ter sido criado em uma família não tradicional, e penso que aqueles que me conhecem iriam concordar. Minha mãe me abriu para o impacto positivo das diferenças entre as pessoas”.

Crianças com pais homossexuais também comentaram que se sentem menos bloqueados por estereótipos de sexualidade do que se tivesse nascido em casas heterossexuais. Isso porque casais homossexuais tendem a possuir uma relação mais igualitária.

“Homens e mulheres sentiam que eram mais livres para procurar uma série de interesses”, afirma Goldberg. “Ninguém estava dizendo para eles, ‘Oh, você não pode fazer isso, isso é coisa de menino’, ou ‘Coisa de menina’”.

Aceitação do mesmo sexo
O sociólogo Brian Powell argumenta que se o casamento entre pessoas do mesmo sexo tem alguma desvantagem, a culpa não é da escolha dos pais, mas da reação da sociedade sobre essas famílias.

“Imagine ser uma criança vivendo em um estado onde, legalmente, apenas um dos pais pode ser seu pai”, comenta Powell. “Nessas situações, a família não é vista como autêntica ou real pelos outros. E seria uma desvantagem”.

Em sua pesquisa, Goldberg descobriu que muitos filhos de casais gays pensam que mais aceitação das famílias homossexuais ajudaria a resolver o problema.

Em um estudo desse ano, Goldberg entrevistou outro grupo de 49 adolescentes e adultos jovens com pais gays, e descobriu que nenhum deles rejeitava o direito de homossexuais se casarem. Muitos citaram benefícios legais e aceitação social.

“Eu estava pensando sobre isso com alguns amigos e comecei a chorar pensando em como minha infância poderia ter sido se o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse legalizado, há 25 anos”, confessou para Goldberg um homem de 23 anos, criado por um casal de mulheres. “Os impactos culturais e status legal afetam as narrativas familiares desse tipo de situação – como nos vemos em relação a uma cultura maior, como parte ou excluídos”.

Fonte: Blog Um outro olhar

Nota: O texto acima é uma tradução do site LiveScience, feita por outro portal de ciência, o HypeScience. Na tradução, faltam vários links que vale conferir no original, aqui.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

“A ciência não tem que se dedicar a comprovar a existência de Deus”


A partícula de Deus. É o que os cientistas estão buscando. Na realidade, é um exagero jornalístico. O que buscam é uma partícula que dê razão definitiva à teoria da evolução. Isso pode ser comprovado pela ciência. O Pe. Ramón María Nogués é o exemplo perfeito de que ciência e religião podem andar de mãos dadas na compreensão da realidade.

A entrevista é de José Aguado e está publicada no jornal espanhol La Razón, 18-12-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O que é a religião?

É uma tentativa de estabelecer contato com a realidade última da vida, o que chamamos Deus. É, além disso, uma criação humana que pode responder a uma inspiração ou a grandes tradições. Embora seja verdade que há grandes tradições que não se referem a Deus.

Como se diferencia a religião de outras narrações?

Não é fácil distingui-la, mas as religiões têm graus de maturidade e superam as colocações fundamentalistas e sectárias que suscitam reservas. As religiões têm uma tradição histórica que foi se polindo com o passar do tempo graças à aceitação do diálogo com a cultura ou com a ciência.

Não há conflito entre ambos?

Não, não é uma relação conflitiva. Na cultura moderna há muitas linguagens sobre a realidade. Caso forem rigorosas, ao final são compatíveis. O conflito vem quando a relação entre ambas se faz em relações de poder, sobretudo entre pessoas.

Mas a ciência foi tirando terreno da religião.

Na história da Europa muitos aspectos que eram monopolizados pela religião foram ocupados pela ciência, como a cosmologia ou a ciência da vida. Mas isso não é ruim: a religião não se pergunta pelo como, mas pelo horizonte, pelo sentido. Cada um tem que estar em seu lugar. Assim, a ciência não tem que se dedicar a comprovar a existência de Deus.

A religião está no cérebro?

A religião é um produto humano e parte da nossa experiência mental e cultural. É possível que se encontrem estruturas cerebrais que sejam significativas em experiências religiosas. É o que se denomina neurorreligião. Os místicos, por exemplo, estão na fronteira da doença: nas epilepsias leves se produz uma atividade cerebral de alta intensidade, como ocorria com Santa Teresa. Produz-se uma exaltação das possibilidades mentais, que dá estas excelências não apenas religiosas, mas também estéticas.

Deus já não dá medo.

Para as novas gerações a ideia de Deus já não está unida ao medo. Antes se utilizava o temor para falar de Deus de maneira incorreta, mas agora Deus se afastou dessa ideia. Contudo, na Europa estamos regredindo com a expressão religiosa e é preciso refletir. A perda de importância da religião, como experiência, não é uma vantagem. O sentido religioso enriquece a vida, dá resposta às últimas perguntas. Dá valor à experiência humana.

Você está em um ponto intermédio entre a ciência e a religião?

E me movimentei com comodidade. Quase sempre coincidi com colegas não religiosos, no sentido de crer em Deus. Mas são rigorosos, são prudentes e se baseiam nas comprovações. A crença em Deus não tem comprovações. O seu é um agnosticismo negativo. Estão em prudente espera.

Há ateus mais radicais.

Eu creio que os círculos dos ateus militantes estão diminuindo. Também, quando os leio, por exemplo, Richard Dawkins, e vejo a quem vão “arrebentar”, creio que não falam de mim. Criticam certos aspectos religiosos, mas não falam de mim.

É mais simples viver com fé?

A vida tem um enigma, uma pergunta. A fé é consoladora, mas não torna a vida mais fácil. O religioso bem vivido leva a assumir a insegurança, mas ela pode ser vivida de maneira mais controlada do que sem horizonte. Uma vida religiosa é vivida com a dificuldade de qualquer pessoa, mas é feita com uma consolação interior, com uma paz interior.

Há vida mais além.

Creio que na palavra de Jesus, que vem para dizer que a morte não é a última palavra. A vida é um processo aberto, mas se deve evitar imaginar o que vem depois porque se abre uma paisagem de ridicularidade: nós não podemos representar algo que está fora do espaço e do tempo. Eu creio que é uma questão de confiança.

Nem todos os cristãos fazem a mesma reflexão.

Cada um faz o que pode. Desde os que ilustram as formas imaginativas mais simples até os mais críticos. Mas a confiança de ambos é a mesma.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"A Cura da Homossexualidade" - Denúncia

Estou estarrecido com o que encontrei na rede! Não que o assunto seja surpreendente...porque, não é. Porém, o mínimo que posso fazer é tornar público o absurdo que é a reprodução de certos conteúdos Católicos.

Um dos nossos seguidores partilhou em nosso mural do Facebook alguns dias atrás o seguinte texto – A Cura da Homossexualidade. Clique aqui e veja.

Se você clicou e se indignou como eu com o fato chocante da comunidade médica de um país desenvolvido ter semelhante discurso, siga lendo...

O artigo está no site Católicos Online "Sem vós, Senhor, nada somos" e há um vínculo com a Congregação a Maria Santíssima. Veja aqui o site.

Pois é, seguindo um pouquinho mais a fundo, resolvi pesquisar no esquema de busca do site a palavra “homossexualidade”, se tiver estomago de encarar, clica aqui.

Não acho digno que o texto “A Cura da Homossexualidade” mereça a reprodução que sempre fazemos aqui, mas vou me ater a uma resposta ótima do nosso Conselho Federal de Piscologia aos nossos, é né “irmãos”, Catolicos Online:

RESOLUÇÃO CFP N° 001/99 DE 22 DE MARÇO DE 1999


"Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da
Orientação Sexual".

O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e regimentais, CONSIDERANDO que o psicólogo é um profissional da saúde; CONSIDERANDO que na prática profissional, independentemente da área em que esteja atuando, o psicólogo é freqüentemente interpelado por questões ligadas à sexualidade. CONSIDERANDO que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser
compreendida na sua totalidade; CONSIDERANDO que a homossexualidade não
constitui doença, nem distúrbio e nem perversão; CONSIDERANDO que há, na
sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente; CONSIDERANDO que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações;

RESOLVE:
Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão
notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e
bem-estar das pessoas e da humanidade.


Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma
reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e
estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas
homoeróticas.


Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a
patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão
ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não
solicitados.


Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que
proponham tratamento e cura das homossexualidades.


Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de
pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a
reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais
como portadores de qualquer desordem psíquica.


Art. 5° - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.


Art. 6° - Revogam-se todas as disposições em contrário.


Brasília, 22 de março de 1999.
ANA MERCÊS BAHIA BOCK
Conselheira

Minha preocupação e indignação não é com você leitor do nosso blog que tenho certeza partilhar do nosso ponto de vista. Também minha preocupação, não é dar uma resposta ou mesmo esclarecer tais instituições que estão pouco abertas ao dialogo.

Minha extrema preocupação é com aquele que sofre e passa por agonias e frustrações por se depararem com a irresponsabilidade do discurso dos, nossos...é...dos nossos...sim “irmão” Católicos Online.

Ave Maria, rogai por nós!!!


Rodolfo Viana

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre o (suposto) conflito entre fé e ciência

Confesso: me deu uma certa vergonha alheia pelo jornalista, que me pareceu tão preocupado em criar uma "pegadinha" para o entrevistado, colocá-lo numa saia justa, sei lá, que acabou  transformando o que poderia ser uma ótima pauta séria numa tentativa de matéria engraçadinha - um desperdício de entrevista boa jogada pela janela, a começar pelo título, bobo toda a vida. Pena. O que vale é que o entrevistado se sai de tudo com tranquilidade, e salva esta matéria publicada esta semana no site do jornal O Globo. ;-)

Beijos,
Cris


"Não existe conflito entre extraterrestres e a Igreja"
Inspirado pelo que chama de "época de ouro" da conquista do espaço, que culminou com a chegada do homem à Lua em 1969, José Funes, então com seis anos, decidiu ser astrônomo. Quase 15 anos depois, porém, ouviu outro chamado, desta vez de Deus. Assim, logo depois que obteve seu diploma de astrônomo da Universidade de Córdoba, na Argentina, em 1985, ingressou na ordem dos jesuítas, recebendo novo diploma em filosofia antes de seguir para Roma, onde foi ordenado.

Em 2006 os dois caminhos se encontraram e Funes foi apontado diretor do Observatório do Vaticano pelo Papa Bento XVI. Homem de fé e de ciência, ele defende o diálogo como forma de superar os conflitos. Para ele, o Big Bang e o Gênesis não são contraditórios, e sim caminhos diferentes da eterna busca humana pelo conhecimento e pela verdade. Até a possibilidade de existência de vida extraterrestre já é aceita pela Igreja. "Não vejo contradição entre fé e ciência, pois a verdade é uma só", diz ele, que está no Rio para participar do workshop "The Evolving Universe", evento promovido pela PUC-Rio e pela Fundação Planetário.

Sendo, ao mesmo tempo, cientista e padre, como o senhor equilibra questões de ciência e fé?
Não vejo contradição entre fé e ciência, pois a verdade é uma só. Creio que as duas ajudam e apoiam uma a outra. Claro que cada uma tem sua própria linguagem, método e perspectiva, mas podemos aprender da diversidade entre as duas. Houve conflitos no passado e provavelmente teremos conflitos no futuro, mas podemos superar esses conflitos com o diálogo.

O senhor certamente já ouviu questionamentos do tipo: "a Bíblia diz que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, quando então ele teria criado o Universo?". Como isso influencia o diálogo?
É preciso estarmos atentos à linguagem, ao contexto e às culturas. A Bíblia não é um livro de ciência. Então, se estamos procurando uma explicação científica para o início do Universo, não vamos achar na Bíblia. A Bíblia é um livro que foi escrito entre 2 mil e 3 mil anos atrás e seus autores não tinham o conhecimento científico que temos hoje. O livro do Gênesis não diz como Deus criou o Universo, o que havia no seu começo, se era matéria escura, energia escura, átomos. Esse não é o escopo e o objetivo da Bíblia. Os autores da Bíblia foram inspirados por Deus para comunicar uma mensagem religiosa e não uma mensagem científica.

O senhor concorda que o Big Bang é a melhor explicação para a origem do Universo? O que sente quando dizem que ele não precisou da ação de Deus para acontecer?
A teoria do Big Bang é a melhor explicação científica que temos hoje para a origem do Universo. Temos várias evidências de que o Universo tem cerca de 14 bilhões de anos e, com os dados que temos, é, sim, a melhor explicação disponível. Deus, para nós cristãos, não é a energia escura, a gravidade ou qualquer outra explicação científica de como o Universo se fez. Esse não é o Deus cristão. O Deus em que acreditamos é o pai de Jesus, autor da criação, o pai amoroso que toma conta de nós e nos ama tanto que nos enviou seu filho. Claro que se pensarmos Deus como a energia escura, a força da gravidade etc, não precisamos de Deus para explicar a realidade do Universo.

E quanto aos argumentos de que o Universo que vivemos é resultado de um desenho inteligente que seria a prova da existência de Deus?
Se entendermos o desenho inteligente como um teoria científica ou um caminho teológico para Deus, não concordo, pois não é boa ciência, nem boa teologia. Segundo a teoria do Big Bang, de forma a termos vida como conhecemos, precisamos que o Universo tenha tido uma espécie sintonia fina. Se diferentes parâmetros físicos, como a massa do elétron, a constante da gravidade, a velocidade da luz, tivessem seus valores mudados, acabaríamos com um Universo diferente. Não é possível ter uma prova da existência de Deus do ponto de vista da ciência. Por outro lado, essas explicações científicas são racionais e compatíveis com nossa crença de que Deus é o Criador. Não vejo nenhum conflito real entre a teoria do Big Bang e o que sabemos pela fé. Do ponto de vista da fé, creio que há um propósito para a criação do Universo.

A Igreja aceita a possibilidade de existência de vida extraterrestre?
Primeiro, deixemos bem claro que não temos provas de que exista vida no Universo fora da Terra. Dito isso, há um ramo interdisciplinar de estudo chamado astrobiologia que tem se desenvolvido muito nos últimos 20 anos e que tem como objetivo procurar por vida. Vivemos em um Universo com centenas de bilhões de galáxias, cada uma delas formada por centenas de bilhões de estrelas, que por sua vez têm centenas de bilhões de planetas orbitando elas, então é possível que haja vida lá fora no Universo. Vamos ver. Não há conflito entre a possibilidade de existência de vida extraterrestre e a doutrina da Igreja. Temos que fazer mais pesquisas, pois até o momento não temos provas da existência de vida fora da Terra. A Igreja encoraja essas pesquisas e não podemos fazer mais que isso.

E se encontrarmos vida fora da Terra e ela for diferente de nós, o senhor acha que há alguma contradição com os ensinamentos da Igreja? Afinal, a Bíblia não diz que fomos criados à imagem e semelhança de Deus?
Não vejo nenhuma contradição entre a possibilidade de existência de vida no Universo com a fé em Deus como o Criador. Nós fomos criados à imagem de Deus, mas basicamente é nossa natureza espiritual que foi criada à imagem de Deus. Isso é que é importante. Outros seres podem ter sido criados com diferentes aparências, mas também abrigando a natureza espiritual de Deus.

O mesmo vale para a discussão entre criacionismo e evolução?
Não sou biólogo, e sim astrônomo, mas posso dizer que do ponto de vista da ciência a evolução está comprovada. Na opinião da Igreja, não há oposição entre a criação e a evolução. Assim como no caso do Big Bang, são linguagens diferentes. Não podemos ler a Bíblia literalmente e isso está claro para a Igreja Católica. Ninguém na Igreja faria isso. E temos evidências da ciência de que a evolução existe. Assim como a vida, o Universo também evolui. Nos próprios processos físicos há evolução das galáxias, das estrelas, então a ideia da evolução é bem compreendida por nós.

(Fonte: O Globo, 15/08/11)
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