Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de outubro de 2011

Religiões: o diálogo passa pelo bem

"Lendo as entrelinhas": projeto arquitetônico Gijs Van Vaerenbergh

A peregrinação a Assis (entenda do que se trata aqui) não foi desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". A única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação.

A afirmação é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, em sua lectio magistralis proferida nesta quarta-feira, 26, em Assis, na vigília de oração pela paz com o papa. A reflexão foi publicada no jornal La Stampa, 26-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


Na Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo convocada pelo Papa Bento XVI, pode-se entrever, ao lado de uma substancial continuidade com a iniciativa de João Paulo II em 1986, alguns acentos de novidade. Para esta jornada, de fato, também foram convocadas personalidades do mundo da cultura que não se professam religiosas. Além disso, o encontro está intitulado "Peregrinos da verdade, peregrinos da paz", colocando em relevo, assim, como a busca da verdade é essencial para que possa haver uma busca da paz.

Aqueles que presumem conhecer Bento XVI e, muitas vezes, o apontam como "corretor" dos seus antecessores gritaram a traição, e alguns deles até se dirigiram a ele com cartas que o convidavam a cancelar essa iniciativa. Os tradicionalistas cismáticos expressam a sua condenação, e o mesmo fazem alguns católicos que temem o evento porque o julgam como um encorajamento ao sincretismo ou ao relativismo, segundo o qual todas as religiões se equivalem.

Assim, mais uma vez na nossa Igreja, cada vez mais dividida e conflitual, perfilam-se acusações e contraposições que marcam com desconfiança toda iniciativa e a tornam ocasião para uma negação de quem, longe de ter uma outra fé, simplesmente aparece com diversidade de estilo, de tons, de atitudes pastorais, de modos de se colocar na história e em meio aos homens.

Além das reações também descompostas, a vontade de Bento XVI de assumir o espírito de Assis confirma o caminho de diálogo desejado pelo Vaticano II e mostra como a Igreja Católica tem a consciência de uma missão verdadeiramente universal: isto é, uma missão que se refere a todos no respeito do caminho e das vias religiosas de cada um, na convicção de que todos os homens são irmãos porque são filhos de um único Pai e Criador, e que nenhum deles jamais poderá ser alheio ao mistério pascal de Jesus.

Também deve-se dizer que muitos temores repousam sobre um mal-entendido fundamental: presume-se que o diálogo requer deixar de lado a própria fé e esquecer a verdade. Na realidade, o diálogo implica uma autêntica reciprocidade, pede que se ouça o outro e a sua fé com respeito, mas, ao mesmo tempo, que se fale com parrésia sobre a própria fé. O diálogo inter-religioso exige que cada um dos dois parceiros conheça a sua própria tradição e permaneça fiel a ela, que seja um testemunho da sua própria fé sem a pretensão de impô-la ao outro. O diálogo, se bem compreendido, até faz parte da evangelização, porque só dialogando de modo autêntico é que se assume o estilo de Jesus, o estilo do Evangelho, o dos discípulos enviados entre os povos.

O caminho do diálogo é um percurso coerente com a grande tradição da Igreja. Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja, interrogando-se sobre as diversas tradições religiosas em meio às quais os cristãos eram uma realidade nova e minoritária, discerniam as semina Verbi, ou seja, a presença de "sementes da palavra de Deus", de traços do Espírito Santo, de raios de verdade.

Em todas as realidades, em toda a história, a palavra de Deus sempre trabalhou e, junto com ela, jamais dissociado dele, o Espírito de Deus. Com a Encarnação, depois, é o próprio Deus que se fez homem, carne, e habitou em meio a nós. A Palavra espalhou as suas sementes de vida nas culturas de todos os povos, sementes que inicialmente estão escondidas, mas que depois se desenvolvem e aparecem na história, nas diversas culturas.

Em outras palavras, Cristo é a única verdade, mas raios da sua luz se encontram em cada ser humano, criado por Deus à sua imagem e semelhança. Verdades, estas, jamais desmentidas, que levaram Paulo VI a constatar que "as religiões (...) ensinaram gerações inteiras a rezar", enquanto João Paulo II atestava: "Nós podemos considerar que toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo que está misteriosamente presente no coração de todos os homens".

Mas sob quais condições é possível convocar crentes de fé e religião diferentes para rezar pela paz? Quando foi organizado o encontro de 1986, em resposta às diversas contestações levantadas contra a iniciativa papal, afirmou-se insistentemente que a peregrinação a Assis não era desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". Desse modo, insistiu-se sobre a impossibilidade de uma oração comum, porque está só é possível entre cristãos de diferentes confissões, que reconhecem o Deus trinitário e confessam Jesus Cristo como único salvador. Os cristãos não podem assumir as formulações de oração de outras religiões e, reciprocamente, os outros certamente não gostariam de adotar as orações cristãs.

A oração, eloquência da própria fé, nos pede que rezemos juntos como cristãos que confessam a fé expressa no Credo Apostólico. Pede-nos também que rezemos juntos entre judeus e cristãos (pelo menos através dos Salmos), filhos gêmeos do Antigo Testamento que confessam o mesmo Deus e esperam dele a plena redenção.

Porém, somos impedidos de fazer uma oração comum e pública com crentes de outras religiões: a única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação. Deus conhece quem busca o seu rosto: ele certamente vê e cria uma comunhão que nós não podemos nem medir nem reconhecer. No entanto, como lembrava João Paulo II no discurso à Cúria Romana em 1986, consciência e fé nos dizem que "há um só plano divino para todo ser humano que vem a este mundo, um único princípio e fim", porque "as diferenças são um elemento menos importante do que a unidade que, ao contrário, é radical e determinante".

Nós, cristãos, acreditamos que Jesus Cristo é o único salvador, o único mediador e o único Senhor dos homens, e é justamente essa fé nele que nos leva ao encontro dos homens do mundo, das diversas culturas e religiões, com grande simpatia, com o desejo de ouvir o que arde em seus corações, com o desejo de aprender com eles também, no diálogo e no debate franco, livre, capaz de acolhida recíproca.

Nós não somos ingênuos otimistas, mas, ao contrário, é com esforço que buscamos assumir os sentimentos, as atitudes e os pensamentos de Jesus, ele que quis se encontrar com todos: sãos e doentes, justos e pecadores, ricos e pobres, judeus e pertencentes aos povos, pessoas com a fé em Deus ou que não conheciam Deus. Jesus nunca julgou nem condenou ninguém. Até se sentou à mesa dos impuros, dos pecadores e dos malditos: e como poderíamos nós, seus discípulos, nos recusar a aceitar qualquer um dos nossos irmãos e irmãs em humanidade?

Sim, nós, homens e mulheres, somos todos cegos em busca de sermos curados, coxos que se esforçam para seguir em frente, gagos ao falar de Deus, muitas vezes surdos ao ouvi-lo. Somos peregrinos em busca da verdade, da justiça e da paz: todos invocamos e esperamos a salvação, aquela "salvação [que] não está nas religiões enquanto tais, mas está ligada a eles, na medida em que levam o homem ao Bem único, à busca de Deus, à verdade e ao amor".

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Cristianismo como religião: a vocação messiânica


"A Igreja se decidirá a aproveitar a sua ocasião histórica e a retomar a sua vocação messiânica? Pois o risco é que ela mesma seja arrastada para a ruína que ameaça todos os governos e todas as instituições da terra".

Publicamos aqui o artigo de Giorgio Agamben, professor de filosofia teorética do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, publicado na revista Il Regno, nº. 22, 2009. O artigo é uma adaptação de um discurso do autor na catedral de Notre-Dame, em Paris, em março de 2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


O endereço de saudação de um dos textos mais antigos da Tradição eclesial, a Carta aos Coríntios de Clemente, começa com estas palavras: "A Igreja de Deus que se encontra em Roma à Igreja de Deus que se encontra em Corinto". A palavra grega "paroikousa" [traduzida no original francês como "en séjour", literalmente "em estada", e, na versão italiana corrente, como "che si trova", "que se encontra"] indica a estada do exílio, do colono ou do estrangeiro, em contraposição ao residir do cidadão, que se diz "katoikein" em grego. "Paroikein", viver em exílio, define tanto o habitar do cristão no mundo, quanto a sua experiência do tempo messiânico.

É um termo técnico, ou quase técnico, já que a Primeira Carta de Pedro (1,17), chama o tempo da Igreja de "ho chronos tes paroikias": o tempo da paróquia, se poderia traduzir, contanto que nos lembremos que paróquia aqui significa "estada do estrangeiro".

O termo "estada" não diz nada sobre a duração cronológica. A estada da Igreja sobre a terra pode durar – e de fato durou – séculos e milênios, sem que isso mude qualquer coisa da natureza especial da sua experiência messiânica do tempo. Devo destacar isso contra uma opinião muitas vezes retomada pelos teólogos acerca do suposto "atraso da parusia".

Segundo essa opinião, que sempre me pareceu quase blasfema, quando a comunidade cristã das origens, que esperava o retorno do Messias e o fim dos tempos considerando-os iminentes, se deu conta de que havia um atraso do qual não se via o fim, teria então mudado de orientação para se dar uma organização institucional e jurídica estável. Ou seja, teria deixado de ser "paroikein", de estar como estrangeira, e teria se disposto a "katoikein", a habitar como cidadão, como todas as outras instituições deste mundo.

A experiência do tempo messiânico

Se fosse verdade, isso implicaria que a Igreja teria perdido a experiência do tempo messiânico que lhe é consubstancial. O tempo do Messias, como veremos, não é um período cronológico, mas sobretudo uma transformação qualitativa do tempo vivido. E, nesse tempo, algo como um atraso cronológico – como se diz de um trem que está atrasado – não é nem mesmo concebível.

Exatamente como a experiência do tempo messiânico é tal que é impossível nela habitar, assim também algo como um atraso não pode se produzir. É isso que Paulo lembra ao tessalonicenses: "A respeito da época e do momento, não há necessidade, irmãos, de que vos escrevamos. Pois vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor vem como um ladrão de noite" (1Ts 5,1-2). "Vir (erchetai)" está no presente, justamente como o Messias é chamado nos Evangelhos o "ho erchomenos", aquele que vem, que não cessa de vir. Um filósofo do século XX, que tinha ouvido a lição de Paulo, repete do seu modo: "Cada instante é a porta estreita através da qual o Messias pode passar" (W. Benjamin).

É, portanto, da estrutura desse tempo, que é o tempo do Messias como Paulo o descreve, que eu gostaria de tratar. Um primeiro mal-entendido que é preciso evitar com relação a isso é o de confundir o tempo e a mensagem messiânicos com o tempo e a mensagem apocalípticos.

A apocalíptica se situa no último dia, o dia da cólera: vê o fim dos tempos e descreve aquilo que vê. O tempo que o Apóstolo vê, pelo contrário, não é o fim dos tempos. Se quiséssemos expressar com uma fórmula a diferença entre o messiânico e o apocalíptico, deveríamos dizer que o messiânico não é o fim dos tempos, mas o tempo do fim. Messiânico não é o fim dos tempos, mas a relação de cada instante, de cada kairós, com o fim dos tempos e com a eternidade. Assim, aquilo que interessa a Paulo não é o último dia, o instante no qual o tempo termina, mas sim o tempo que se contrai e que começa a acabar. Ou, se preferirmos, o tempo que resta entre o tempo e o seu fim.

Uma transformação radical da existência

A Tradição judaica conhecia a distinção entre dois tempos ou dois mundos: o "olam hazzeh", ou seja, o tempo que vai da criação do mundo até o seu fim, e o "olam habba", o tempo que vem depois do fim do mundo. Esses dois termos, na sua tradução grega, estão presentes no texto das epístolas: mas o tempo messiânico, o tempo que o Apóstolo viveu e o único que lhe interessa, não é nem o "olam hazzeh" nem o "olam habba": é o tempo que resta entre esses dois tempos, quando se verifica no tempo a cesura do acontecimento messiânico (o qual, para Paulo, é a ressurreição).

Como podemos representar esse tempo? Aparentemente, se o transferirmos como se faz na geometria com um segmento e uma linha, a definição que eu dei agora – o tempo que resta entre a ressurreição e o fim do tempo – não coloca dificuldades. Mas é uma outra coisa totalmente diferente se buscarmos pensá-lo no plano da experiência do tempo que ele implica. É claro que viver no "tempo que resta" ou viver o "tempo do fim" só pode significar uma transformação radical da experiência e também da representação habitual do tempo. Não é mais a linha homogênea e infinita do tempo cronológico profano (representável, mas vazio de qualquer experiência), nem o instante pontual e da mesma forma impensável do seu fim.

Mas não é nem mesmo um simples segmento retirado do tempo cronológico e que iria da ressurreição até o fim do tempo. É um tempo que pulsa dentro do tempo cronológico, que o trabalha e o transforma a partir de dentro. É, de um lado, o tempo que o tempo emprega para terminar; de outro, o tempo que nos resta, o tempo do qual precisamos para fazer o tempo terminar, para atingir a meta, para nos libertarmos da nossa representação ordinária do tempo.

Enquanto esta última, enquanto tempo dentro do qual acreditamos estar, nos separa daquilo que somos e nos transforma em espectadores impotentes de nós mesmos, o tempo do Messias, ao contrário, enquanto tempo operativo (kairós) no qual compreendemos pela primeira vez o tempo (o chronos), é o tempo que nós mesmos somos. É claro que esse tempo não é um outro tempo, que teria o seu lugar em algum outro lugar improvável e venturo. É, pelo contrário, o único tempo real, o único tempo que temos, e fazer experiência desse tempo implica em uma transformação integral de nós mesmos e do nosso modo de viver.

É isso que Paulo diz em uma passagem extraordinária, que é talvez a mais bela definição que ele deu da vida messiânica: "Eis o que vos digo, irmãos: o tempo é breve ("ho kairos synestalmenos esti": o verbo "systello" indica tanto o fato de cair as velas [de um navio] quanto o modo em que um animal se abaixa preparando-se para dar um salto). O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem". (1Cor 7,29-31).

Algumas frases antes, Paulo havia dito, a propósito da vocação messiânica: "Cada um permaneça na profissão em que foi chamado por Deus. Eras escravo, quando Deus te chamou? Não te preocupes disto. Mesmo que possas tornar-te livre, antes cuida de aproveitar melhor o teu chamamento" (1Cor 7,20-21).

"Hos me", "como se não" nos diz então que o sentido último da vocação messiânica é de ser a revogação de toda vocação. Justamente como o tempo messiânico transforma, a partir de dentro, o tempo cronológico, assim a vocação messiânica, graças ao "hos me", ao "como se não", é a revogação de toda vocação, que muda e esvazia a partir de dentro toda experiência e toda condição factual para abri-la a um novo uso.

É um ponto importante, já que nos permite pensar corretamente essa relação entre as coisas últimas e as coisas penúltimas, que define a condição messiânica. Pode um cristão viver apenas de coisas últimas? Um grande teólogo protestante, Dietrich Bonhoeffer, denunciou a falsa alternativa entre radicalismo e compromisso, que parte, em ambos os casos, da separação clara entre as realidades últimas e as realidades penúltimas, isto é, aquelas que definem a nossa condição social e humana de todos os dias. Ora, como o tempo messiânico não é um outro tempo, mas sim uma transformação do tempo cronológico, assim viver as coisas últimas é, antes de tudo, viver de outro modo as coisas penúltimas.

A verdadeira escatologia talvez não seja outra coisa que a transformação da experiência das coisas penúltimas. Já que as realidades últimas têm primeiro lugar dentre as penúltimas, estas – contra toda radicalismo – não podem ser simplesmente rejeitadas; mas – pela mesma razão e contra toda possibilidade de compromisso – as coisas penúltimas não podem ser consideradas como últimas. É com o verbo "katargein" – que não quer dizer "destruir", mas sim tornar inoperante, literalmente "des-operar" – que Paulo expressa a relação entre o que é último e o que não é. A realidade última desativa, suspende e transforma a realidade penúltima, mas é, porém, no seu interior que ela entra em jogo inteiramente.

Isso permite compreender a situação própria do Reino em Paulo. Ao contrário da corrente representação escatológica, deve ser lembrado que, para ele, o tempo do Messias não pode ser um tempo futuro. A expressão com a qual ele indica esse tempo é sempre "ho nyn kairos", o tempo do agora. Como escreve em 2Cor 6,2: "[Idou nyn] Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação!".

"Paroikia" e "parousia", estada do estrangeiro e presença do Messias, têm a mesma estrutura que é expressada em grego com a preposição "para": a de uma presença que distende o tempo, de um já que é também um não ainda, de um atraso que não é um adiamento para mais tarde, mas um descarte e uma disjunção dentro do presente, que nos permite compreender o tempo.

Vê-se bem, portanto, que a experiência desse tempo não é algo que a Igreja possa escolher entre fazer ou não fazer. Não existe Igreja senão nesse tempo e por meio desse tempo.

A Igreja e os sinais dos tempos

O que há dessa experiência do tempo do Messias na Igreja de hoje? De fato, a referência às coisas últimas parece ter desaparecido do discurso da Igreja a tal ponto que se pôde dizer, não sem ironia, que a Igreja de Roma fechou o Escritório Escatológico. E é com ironia, sem dúvida ainda mais amarga, que um teólogo francês pôde escrever: "Esperava-se o Reino, e chegou a Igreja". É uma imagem poderosa, sobre a qual devemos refletir.

Considerando o que foi dito acima sobre a estrutura do tempo messiânico, é claro que não se trata de criticar a Igreja pelo seu compromisso em nome do radicalismo. Nem se trata, como fez o maior teólogo ortodoxo do século XIX, Fëdor Dostoevskyi, de apresentar a Igreja de Roma sob a figura do Grande Inquisidor. Trata-se de uma outra coisa, ou seja, da capacidade da Igreja de compreender o que Mateus 16,3 chama de sinais dos tempos, "ta semeia ton kairon".

Quais são esses sinais que o Evangelho opõe ao desejo vão de interpretar o aspecto do céu? Se a história é penúltima em referência ao Reino, este – viu-se acima – tem o seu lugar antes de tudo e acima tudo na história. Viver no tempo do Messias exige, portanto, a capacidade de ler os sinais da sua presença na história, de reconhecer no seu percurso o selo da economia da salvação. Aos olhos dos Padres – mas também para os filósofos que refletiram sobre a filosofia da história, que foi e continua sendo (também em Marx) uma disciplina essencialmente cristã –, a história se apresentava como um campo de tensões, percorrido por duas correntes opostas: a primeira – que Paulo, em uma célebre e enigmática passagem da Segunda Carta aos Tessalonicenses, chama de "to catechon" – que considera e diferencia sem parar o fim do mundo ao longo da linha do tempo cronológico, infinito e homogêneo; a outra que, colocando em tensão a origem e o fim, não cessa de interromper e levar o tempo a termo. Chamamos de lei ou de Estado a primeira polaridade, devotada à economia, ou seja, ao governo infinito do mundo; e chamamos de Messias ou de Igreja a segunda, cuja economia – a economia da salvação – é essencialmente finita.

Uma comunidade humana não pode sobreviver se essas duas polaridades não estão copresentes, se não existe entre elas uma tensão e uma relação dialética.

Ora, é exatamente essa tensão que hoje é despedaçada. Enquanto a percepção da economia da salvação no tempo histórico se ofusca na Igreja, vê-se a economia estender seu próprio domínio cego e derrisório sobre todos os aspectos da vida social. Ao mesmo tempo, a exigência escatológica que a Igreja ignorou retorna sob uma forma secularizada e parodística nos saberes profanos, que parecem competir para profetizar em todos os campos das catástrofes irreversíveis. O estado de crise e de emergência permanente que os governos do mundo proclamam hoje é justamente a paródia secularizada da perpétua atualização do juízo último na história da Igreja.

Ao eclipse da experiência messiânica do cumprimento da lei e do tempo, corresponde uma hipertrofia inaudita do direito, que pretende legislar sobre tudo, mas que trai com um excesso de legalidade a perda de toda legitimidade verdadeira. Afirmo, aqui e agora, medindo as palavras: hoje, sobre a terra, não há mais nenhum poder legítimo, e os próprios poderosos do mundo são todos reis de ilegitimidade. A jurisdização e a economização integral das relações humanas, a confusão entre aquilo em que podemos crer, esperar, amar, e aquilo que somos levados a fazer ou a não fazer, a dizer ou a não dizer, marca não apenas a crise do direito e dos Estados, mas também e sobretudo a da Igreja, pois a Igreja não pode viver senão se mantendo – enquanto instituição – em relação imediata com o fim da Igreja. E – não devemos esquecer –, na teologia cristã, há uma única instituição que não conhecerá seu fim e sua dissolução: é o inferno. Aqui se vê bem – me parece – que o modelo da política de hoje – que aspira a uma economia infinita do mundo – é propriamente infernal. E, se a Igreja despedaça a sua relação original com a "paroikia", ela só pode se perder no tempo.

Eis porque a pergunta que eu coloco, certamente sem ter nenhuma autoridade para fazê-la senão a de um hábito obstinado de ler os sinais dos tempos, se resume nesta: a Igreja se decidirá a aproveitar a sua ocasião histórica e a retomar a sua vocação messiânica? Pois o risco é que ela mesma seja arrastada para a ruína que ameaça todos os governos e todas as instituições da terra.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Entendendo a fé (2)

Foto: i can read

Continuação do post de ontem...

Uma nova compreensão da fé destrói a prisão da crença. Ela liberta as pessoas religiosas para um mundo de ações compassivas, expressadas na parábola do Bom Samaritano. Ninguém está excluído dessa extensão da experiência de unidade, que surge das profundezas da alma, nas quais as crenças não podem adentrar, porque "conhecemos a Deus não por meio do pensamento, mas por meio do amor". Nos horizontes que a luz da experiência contemplativa revela, não mais identificamos a fé com a crença, ou condenamos as crenças de outras pessoas como sendo deficientes. O contemplativo deveria ser possuidor de uma cortesia mais parecida com a do Cristo, do que isso. E, dentro do risco, sim isso envolve um risco, do encontro com o outro, de encontrar outros crentes nos reinos desconhecidos da diferença, descobrimos a própria natureza da fé. Também seremos reconfortados porque, de fato, nossa própria identidade, que acreditávamos ameaçada, se afirma. [...]

A mera afirmação e defesa de nossas convicções não pode conduzir a uma verdadeira comunidade de fé. Isso faz com que nos tornemos membros de uma seita, uma cabala fundamentalista. Fecha a mente, como um órgão de percepção e da verdade. Caso confundamos a fé com a crença, dessa maneira, e passemos a pensar na fé como doadora de um senso de sermos diferentes ou superiores aos outros, terminaremos como o fariseu que agradecia a Deus por fazê-lo diferente dos outros e ficava satisfeito por ser superiormente diferente. A mente religiosa, nesse estado, pode até se persuadir a si mesma de que isso é humildade. Ao nos identificarmos inteiramente com a crença (o lado esquerdo do cérebro), negando a fé (o lado direito do cérebro), ocupamos um mundo privado só nosso, em lugar do reino de Deus, ou do reino de Cristo, no qual "não há nem judeus, nem gregos, homens ou mulheres, escravos ou libertos". Os religiosos frequentemente têm receio do poder da fé, precisamente porque ela tende a nos dirigir para esse reino indiferenciado do Espírito, no qual desmantelam-se todas as diferenças, que as crenças que colocamos em nosso altar podem controlar minuciosamente, religiosas, sociais e até mesmo de gênero.

A fé é a pista de alta velocidade para o espírito. Todo ato de fé que fazemos é uma descoberta do labirinto do espírito. A crença, quando rompida pela fé, conduz a um labirinto de espelhos, uma série de infinitas regressões, o labirinto do ego. Labirintos levam a becos sem saída e, quanto mais nos perdemos, mais entramos em pânico. Porém, os labirintos só nos pedem para seguirmos fielmente seus volteios e curvas, estranhos, mas afinal simétricos, de modo a sermos conduzidos para casa, ao centro.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Indignar-se: redescobrindo a via para a identidade humana


Em todas as partes do mundo cresce na sociedade um movimento: o dos indignados. Saindo às ruas, ao espaço público, em protesto contra injustiças que decidiram não mais tolerar, os indignados protestam com palavras, gestos, atitudes. Pretendem com isto chamar a atenção da sociedade e, sobretudo de seus dirigentes.

O que move esses grupos que enchem as ruas? O que move essas pessoas que não são bandidos, nem arruaceiros, mas sim cidadãos corretos, que trabalham e pagam seus impostos? Qual o motor de sua cólera, de sua indignação?

Indignação quer dizer cólera ou desprezo experimentado diante de uma indignidade, ou injustiça, afronta. É repulsa e revolta diante daquilo que fere valores básicos, direitos e princípios que regem a vida dos seres humanos.

Ela pode ser meramente uma defesa de interesses privados, domésticos e individuais. Diante de coisas que dizem respeito exclusivamente à própria pessoa, à família ou ao círculo dos mais próximos. Ou ainda o círculo mais largo da empresa, do partido político, ou até da agremiação esportiva. Tudo aquilo que freia, desvia, prejudica os interesses do grupo ou do clã suscita indignação que pode derivar em ações legais, judiciais, etc. Atingir os interesses do grupo suscita imediatamente a reação corporativa e indignada de seus membros.

Sem querer minimizar ou mesmo demonizar este tipo de indignação, é necessário constatar, no entanto, que ela toma a defesa de interesses particulares não universalizáveis. E pode inclusive tomar o aspecto de autodefesa de privilégios, como a defesa a qualquer preço ou custo de um estilo de vida confortável, protestando por isto contra propostas mais sociais; que beneficiem um leque mais amplo de pessoas e grupos. Assim também a indignação contra certas medidas de maior transparência pelo fato de que podem pôr a nu ou denunciar atitudes escusas de determinadas pessoas ou grupos a quem não interessa que a verdade venha à tona. O protesto gerado por este tipo de indignação não visa então prioritariamente o estabelecimento de valores ou do bem comum.

A indignação que hoje vemos ganhar as ruas parece fundar-se, no entanto, sobre razões não tanto formais, e certamente mais radicais do que aquelas cometidas contra as regras da equidade a nível pessoal ou intra-grupal. Trata-se de uma indignação propriamente ética, que se levanta em nome da proteção ou da defesa do ser mesmo das pessoas, de sua integridade física e moral.

Complexa e densa, essa indignação pode inclusive ir de encontro ao direito positivo e conduzir, em conseqüência, à resistência cidadã. Este tipo de indignação se refere, então, a valores reconhecidos como fundamentais e não negociáveis, como por exemplo, aqueles expressos na Declaração dos Direitos Humanos que, ainda que longe de ser perfeitos, representam uma conquista inalienável da humanidade sobre razões universais ou ao menos universalizáveis.

A indignação ética apresenta características que ultrapassam as fronteiras dos interesses próprios e pessoais e corporativistas. E mais: não se fundam no negativo nem na exclusão de inimigos ou de quem quer que seja. Estes, ao contrário, são incluídos nos benefícios dos valores que os atos de indignação ética pretendem promover. E mesmo os tiranos comprovadamente sanguinários, quando vencidos no bojo de atos que se iniciaram com uma atitude de indignação ética têm direito a um julgamento e a um procedimento judiciário com tudo que isso implica.

Parece-me que o que assistimos hoje em várias partes do mundo se encaixa neste segundo caso de indignação. Desde os protestos dos estudantes no Chile exigindo mais verbas para educação; passando pelos espanhóis que enfrentam 20% de desemprego, num processo de deterioração social que pode espalhar-se qual doença contagiosa por todo o continente europeu e por todo o mundo; até Nova York, onde o movimento “Occupy Wall Street”denuncia publicamente um sistema financeiro que sugou os recursos de muitas nações e gerações e agora dá sinais de exaustão.

No Brasil, o movimento contra a corrupção ainda mostra números tímidos de adesões, se comparado com o que ocorre em outras latitudes. Entretanto, o mero fato de que exista e haja começado já é uma esperança. Perder a capacidade de indignar-se é o pior que pode acontecer a uma pessoa, pois a desumaniza e debilita naquilo que tem de mais nobre e mais fundamental: sua liberdade. Indignar-se pode ser o novo caminho que a humanidade vai encontrando para gritar bem alto sua dignidade de seres humanos, feitos para a vida em plenitude.


- Maria Clara Bingemer
Reproduzido via Amai-vos

Entendendo a fé (1)


Em lugar de dedos que apontam para a lua, a doutrina ou o dogma viram-se para trás apontando para si mesmos. Tudo aquilo que questiona a crença, é então percebido como ameaçador, e aquilo que ameaça pode exalar um tipo de estranheza ou ameaça que incita o medo.

“Eu sou aquilo que eu acredito” é um princípio tão perigoso quanto “existo porque eu penso”. Então, aquilo que quero, ou tento, acreditar constitui minha identidade, meu eu, e assim, porque acredito nessas doutrinas, eu sou um cristão. Outras pessoas que não acreditam nessas declarações específicas são “não-crentes”. A crença, na verdade, pode ser forte e verdadeira. Podemos ser leais a nossas convicções, e morrer defendendo o sistema do qual elas fazem parte. Todavia, esse tipo de convicção, aquela pela qual poderíamos morrer, deveria surgir a partir da experiência da fé, e não do medo de uma identidade ameaçada e insegura. Por que morrer, ou atacar outras pessoas, apenas com respeito a fórmulas verbais? Enquanto pensamos na fé como sendo constituída por convicção, falta-nos a dimensão completa da mente de Cristo.

Esta é a mente “católica” que, intrinsecamente, busca incluir e integrar, em lugar de excluir e condenar, sempre que se encontra com diferentes expressões de crenças que trazem à tona a incerteza natural em nosso próprio sistema. Percebemos que existem crenças em diferentes caminhos, e que outras pessoas sustentam as suas, tão sinceramente quanto sustentamos as nossas. Sem a fé, isso nos fará sentir dolorosamente ameaçados. Quando reagimos a partir de nossa própria insegurança, nós cristãos frequentemente descrevemos os devotos seguidores de outras religiões como não-crentes, apenas porque eles possuem diferentes crenças.

As diferenças, assim como os opostos, em última análise, resolvem-se apenas em Deus, que é infinitamente simples, o suficiente para contê-las todas. Apenas em Deus podemos encontrar os outros, e é no nível da fé, e não no da crença, que esse encontro ocorre.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli

* * *

Continua amanhã... :-)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O que é o essencial para viver como seguidores de Jesus?

Si no puedo bailar, no es mi revolución ;-)

Em certa ocasião os fariseus reuniram-se em grupo e fizeram a Jesus uma pergunta que era motivo de discussão e debate entre os setores mais preocupados em cumprir escrupulosamente os 613 preceitos mais importantes sobre o Sábado, a pureza ritual, os dízimos e outras questões: “Mestre, qual é o mandamento principal da Lei?”.

A resposta de Jesus é muito conhecida entre os cristãos: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser”. Esse é o mais importante. Logo acrescentou: “O segundo é semelhante a ele: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E concluiu com esta afirmação: “Estes dois mandamentos sustentam a Lei e os profetas”.

Interessa-nos muito escutar bem as palavras de Jesus, pois também na Igreja, como no antigo Israel, foram crescendo ao longo dos séculos o número de preceitos, normas e proibições para regular os diversos aspetos da vida cristã. Qual é o primeiro e mais importante? O que é o essencial para viver como seguidores de Jesus?

Jesus deixa claro que nem tudo é igualmente importante. É um erro dar muita importância a questões secundárias de carácter litúrgico ou disciplinar, descuidando o essencial. Não devemos esquecer nunca que só o amor sincero a Deus e ao próximo é o critério principal e primeiro do nosso seguir a Jesus.

Segundo Ele, esse amor é a atitude de fundo, a força-chave e insubstituível que põe verdade e sentido à nossa relação religiosa com Deus e ao nosso comportamento com as pessoas. O que é a religião cristã sem amor? A que fica reduzida a nossa vida no interior da Igreja e no meio da sociedade sem amor?

O amor liberta o nosso coração do risco de viver empobrecidos, empequenecidos ou paralisados pela atenção insana a todo o tipo de normas e ritos. O que é a vida de um praticante sem amor vivo a Deus? Que verdade há na nossa vida cristã sem amor prático ao próximo necessitado?

O amor opõe-se a duas atitudes bastante difundidas. Em primeiro lugar, a indiferença entendida como insensibilidade, rigidez de mente, falta de coração. Em segundo lugar, o egocentrismo e desinteresse pelos demais.

Nesses tempos tão críticos nada há mais importante que cuidar humildemente do essencial: o amor sincero a Deus alimentado em celebrações sentidas e vividas desde dentro; o amor ao próximo fortalecendo o tratamento amistoso entre os crentes e impulsionando o compromisso com os necessitados. Contamos com o alento de Jesus.

- José Antonio Pagola
Reproduzido via IHU. Grifos do autor.

Leitura do Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum – Ano A (23 de outubro): Mt 22, 34-40

domingo, 23 de outubro de 2011

O Amor!

Foto daqui

“Depende da nossa fidelidade a Cristo para que o Amor seja essencial, não somente na nossa relação com Deus, mas especialmente nas nossas relações com os outros; caso contrário, o próprio amor de Deus é impossível.”

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote do Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras deste domingo, 30º Domingo do Tempo Comum – Ano A (23 de outubro). A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


Referências Bíblicas:
Primeira leitura: Ex 22, 20-26
Evangelho: Mt 22, 34-40.

Depois de uma controvérsia inicial com os fariseus sobre o imposto cobrado pelo Imperador, do último domingo, aqui está uma outra controvérsia com um dos fariseus, um legista, sobre o maior mandamento da Lei, não um mandamento qualquer entre os 613 – 248 prescrições e 365 proibições –, mas qual seria o mais importante de todos, um mandamento que resume todos os outros. Não há 36 mandamentos, responde Jesus ao legista; há apenas um, o do Amor, mas que tem dois destinatários: Deus e o próximo. Não um sem o outro, mas os dois juntos... O que isso dizer?

1. O Amor: uma fonte e dois rios. O teólogo francês Patrick Jacquemont escreveu: "A Palavra de Deus toma todo o seu sentido: Amarás o Senhor teu Deus... Amarás o teu próximo. O segundo mandamento é semelhante ao primeiro, mas não há apenas um amor. Há uma única fonte, mas dois rios diferentes". Pelo fato de nos sabermos amados por Deus é que podemos amá-lo... mas não podemos amá-lo senão amando o outro, os outros. É próprio do amor que amemos. Não é motivo de escárnio o fato de que São João, em sua primeira carta, tenha dito: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, e no entanto odeia seu irmão, esse tal é um mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4, 20). Basicamente, o que João está dizendo é que amar a Deus é participar do seu amor, amando os outros. Portanto, amando os outros, amamos a Deus.

Quando perguntado pelo doutor da lei: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (Mt 22, 36), isto é, o mandamento sob o qual poderíamos reunir todos os outros? Jesus, que é ele próprio o princípio da unidade, dá a resposta. Ele reúne as duas partes da Lei, os mandamentos que dizem respeito ao amor a Deus e aqueles que dizem respeito ao amor ao próximo; ele reúne e unifica sua expressão, que ele formula em termos idênticos, recolhidos das Escrituras: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5), e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18b). É um amor sem restrição, que envolve a pessoa inteira, coração, alma, espírito.

2. O amor cristão: dois princípios de unidade. Ao unificar o amor a Deus e ao próximo, o Cristo do Evangelho nos dá dois princípios de unidade:

1) A parábola do Juízo Final (Mt 25, 31-46). O Cristo se identifica com o próximo: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25, 40). E mais do que isso: ele se identifica com seus irmãos, com os cristãos que são pobres, despossuídos, marginalizados, porque suas situações de pobreza oferecem oportunidades para outros, para os não-cristãos encontrarem Cristo e reconhecê-lo.

Já no Antigo Testamento, o Deus da Aliança tinha uma queda pelos pobres. No trecho do livro do Êxodo de hoje, os pobres são o imigrante, em hebraico ger, isto é, o estrangeiro residente, este grupo de pessoas que tinha um status social intermediário entre os cidadãos israelenses e os escravos. Estas pessoas não podiam ter terras; apenas oferecer seu serviço aos outros. Eles eram, portanto, economicamente desfavorecidos: "Não explore o imigrante nem o oprimido, porque vocês foram imigrantes no Egito" (Ex 22, 20). A viúva e o órfão são outra classe de desfavorecidos na sociedade judaica da época; sem recursos, eles viviam muitas vezes na miséria: "Não maltrate a viúva nem o órfão" (Ex 22, 21). E o que fazer para não explorar os pobres? Emprestar-lhes dinheiro sem juros e dar-lhes sua dignidade: "Se você tomar como penhor o manto do seu próximo, deverá devolvê-lo antes do pôr do sol" (Ex 22, 25).

2) "Sigam-me" (Mt 4, 19). A lei do amor de Cristo não pode ser reduzida a um código ou a um registro; é o próprio Jesus que é a nossa lei, uma lei viva, uma pessoa com quem nós estamos em comunhão, cujo Espírito nos habita e cujo corpo nós somos. O que São Paulo traduz da seguinte maneira: "Sejam meus imitadores, como também eu o sou de Cristo" (1 Cor 11, 1). Como cristãos, nós somos cristos vivos, e é por esta razão que devemos amar como ele amou.

Então, se eu atualizo a Palavra de hoje, as leis, os preceitos da religião não podem ser aplicados senão em relação à Lei do Amor proposta por Cristo no Evangelho. Depende da nossa fidelidade a Cristo para que o Amor seja essencial, não somente na nossa relação com Deus, mas especialmente nas nossas relações com os outros; caso contrário, o próprio amor de Deus é impossível. E o próximo não é apenas aqueles que pensam como nós e que nos são próximos; é também e sobretudo aqueles que são diferentes de nós e às vezes mesmo difíceis de amar.

Concluindo, gostaria apenas de compartilhar esta pequena reflexão do francês Éric Julien: “Por que é tão difícil amar a Deus? Porque significa amar o próximo. E por que é tão difícil amar o próximo? Porque é preciso amá-lo como a si mesmo, e bem poucos sabem se amar no seu justo valor. E como se amar a si mesmo? Tentando olhar como Cristo nos vê. Com infinito respeito, ternura e... paciência”.

sábado, 22 de outubro de 2011

Vocação universal também aos leigos


Se a Igreja espera oferecer modelos relevantes de santidade para os leigos e leigas, é hora de tornar o processo de canonização muito mais acessível e muito menos caro para aqueles que conhecem um marido, uma esposa, uma mãe, um pai, um amigo, amiga, vizinho ou vizinha santos.

Publicamos aqui o editorial da revista dos jesuítas dos EUA,
America, 19-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


Desde que o Concílio Vaticano II falou da "vocação universal à santidade", houve um movimento para reconhecer mais leigos e leigas como santos, como modelos de santidade para os leigos e leigas católicos. Diversos leigos e leigas contemporâneos já foram elevados às "glórias do altar", entre eles Santa Gianna Molla (1922-1962), uma mãe italiana que carregou uma criança até o parto, ao invés de consentir com um aborto, e morreu no processo.

Outros a caminho do altar são o Beato Pier Giorgio Frassati (1901-1925), carismático ativista social italiano que disse: "A caridade não basta; precisamos de uma reforma social". Nesse mesmo filão, a causa para a canonização de Dorothy Day, a norte-americana cofundadora do Movimento Operário Católico [Catholic Worker], acaba de avançar. E, em 2008, Louis e Zélie Martin, os devotos pais de Santa Teresa de Lisieux, foram beatificados, um raro exemplo de um marido e de uma esposa reconhecidos juntos.

Mas quando se trata de reconhecer santos, a Igreja ainda tende a favorecer papas, bispos, padres e membros de ordens religiosas. Em junho, o Papa Bento XVI divulgou a lista mais recente de 27 candidatos à santidade, que incluiu mártires da Guerra Civil Espanhola, entre eles um bispo e 13 Filhas da Caridade; um padre austríaco morto em Buchenwald; a fundadora mexicana de uma ordem religiosa feminina; um padre diocesano italiano do século XVIII e um padre dominicano francês que fundaram a Comunidade Betânia. Enquanto há uma profusão de santos Padres e Madres nessa lista, onde estão as santas mães e os santos pais?

Cinquenta anos depois do Concílio, em meio aos contínuos convites da Igreja para que leigos e leigas tenham uma vida santa, por que ainda há relativamente poucos modelos para o laicato? Certamente há muitos que se encaixam na definição de santidade: homens e mulheres que, conscientes do amor de Deus por eles, retribuem esse amor mediante o serviço ao próximo, especificamente na sua humildade, caridade e autossacrifício.

Embora a logística possa ser difícil, a Igreja deveria encontrar uma forma de reconhecer os modelos de santidade em homens e mulheres que viveram vidas "ordinárias". Isso inclui: alguém que não seja um santo dos primeiros tempos da Igreja (como São José); alguém que não tenha sido da realeza (como Santa Isabel da Hungria); uma pessoa casada que não tenha fundado uma ordem religiosa anos mais tarde (como Santa Brígida da Suécia); um casal que não planejava inicialmente viver como "irmão e irmã" enquanto casados (como Louis e Zélie Martin); alguém que não tenha fundado uma comunidade religiosa ou movimento social (como Dorothy Day ); e alguém que não tenha morrido em circunstâncias terríveis (como Santa Gianna Molla).

Embora os católicos reconheçam que o santo canonizado precisa ter levado uma vida de "santidade heroica", muitos leigos católicos anseiam por alguém que possam imitar em suas vidas diárias. O que levanta uma questão: quem é mais santa – a Madre Teresa ou a mãe que vai à Igreja e que, durante décadas, cuida de uma criança autista? O Papa João Paulo II ou o homem piedoso que atua como diretor de uma instituição de educação religiosa e mantém dois empregos para sustentar a sua família?

A resposta: todos eles são santos e santas em seus próprios caminhos. A "santidade heroica" vem de muitas formas – e isso inclui tanto aquelas pessoas cuja fé as inspira a fundar uma ordem religiosa e aquelas cuja fé lhes capacita para cuidar de uma criança doente por anos a fio.

Três fatores frustram o desejo de mais santos e santas leigos. O primeiro é a crença persistente de que a ordenação ou os votos religiosos representam um nível mais elevado de santidade do que, digamos, criar um filho. Mas mesmo os santos não concordaram com essa ideia. "A santidade não é o luxo de poucos", disse a Madre Teresa. "É um dever simples para você e para mim".

O segundo fator é a natureza pública das vidas dos sacerdotes e dos membros de ordens religiosas que são canonizados. É mais fácil ver o impacto pessoal de um fundador ou de uma fundadora do que saber sobre o cuidado de um pai ou de uma mãe de uma criança autista. Esse tipo de santidade leiga escondida provavelmente irá atrair muito menos o devoto, simplesmente por ser menos conhecido. Assim, no caso do leigo e leiga comuns, a exigência da Igreja de que uma devoção local surja em torno da pessoa ficará frustrada.

O terceiro fator é o árduo, demorado e caro processo de canonização, pela qual só as ordens religiosas e as dioceses têm os recursos financeiros e o know-how técnico para navegar. Poucos filhos de pais santos podem gerenciar o complexo processo exigido pela Congregação para as Causas dos Santos. Quando a mãe da criança autista morrer, quem vai apresentar a sua causa? Poucos podem saber da sua santidade, mas seu exemplo pode falar para mais católicos do que até mesmo o de um papa.

Se a Igreja espera oferecer modelos relevantes de santidade para os leigos e leigas, é hora de tornar o processo de canonização muito mais acessível e muito menos caro para aqueles que conhecem um marido, uma esposa, uma mãe, um pai, um amigo, amiga, vizinho ou vizinha santos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Qual será o futuro religioso do Brasil?


Na discussão sobre a redução do percentual de católicos no país, reavivada pelo "Novo Mapa das Religiões no Brasil", da FGV, frequentemente se imagina um passado em que a ampla maioria dita católica teria o perfil que se espera do católico urbano atual. Mas o "catolicismo popular" brasileiro é muito diferente disso.

Ele sempre foi mais um "cristianismo popular", permeado por sincretismos e particularismos, em que a influência do magistério romano foi muito relativa.

Por isso, a redução do percentual de católicos no país deve ser lida como a explicitação de uma diversidade religiosa camuflada e o aflorar de visões de mundo populares antes ocultas e recalcadas.
Entre os anos de 1991 e 2009, enquanto a porcentagem de católicos caiu 15%, a dos "sem religião" aumentou apenas 2%; a de evangélicos aumentou 10%.

Isso sugere que estamos num caminho diferente da Europa, onde a religião vem perdendo espaço na sociedade, e mais próximo ao norte-americano, onde há grande diversidade de religiões e estas permanecem influentes na vida social.

A presença do fator religioso nas eleições de 2010 ilustra essa tendência e mostra como ela poderá influenciar a relação entre religiões e sociedade no futuro do Brasil.

Quanto ao catolicismo brasileiro, seu novo perfil é marcado pelo êxodo dos católicos "por convenção" e pelo surgimento de um novo polo dinâmico, representado principalmente pelos movimentos e pelas novas comunidades.

Na arquidiocese de São Paulo, por exemplo, são reconhecidos mais de 40 grupos, que variam de poucas dezenas de participantes em uma paróquia a movimentos com centenas de pessoas, que já se ramificam na Europa e nos EUA.

O laicato tem papel preponderante nessas organizações, que contam com leigos consagrados à obra, muitos dos quais celibatários.

Contando, desde João Paulo 2º, com o apoio explícito do Vaticano, conseguem uma síntese entre pluralidade e unidade. Com isso, resolveram vários problemas do catolicismo do final do século 20, como a necessidade de pluralismo interno, a autonomia dos leigos, a falta de padres e o celibato.

No Brasil, seu grande desafio é formativo, pois se propõem à exigente tarefa de conciliar renovação litúrgica, mística cristã, evangelização, trabalho cultural e ação social.

Os dados indicam que continuaremos a ser, no futuro, um país cristão, com um povo marcado pela religiosidade. Isso diz muito, mas deixa muito ainda por dizer.

Fundamentalismo versus racionalidade, individualismo versus solidariedade, bem comum versus clientelismo, essas são algumas das questões que estão intimamente ligadas à forma como compreendermos e praticarmos nossas opções religiosas no futuro.

- Francisco Borba Ribeiro Neto
Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, editor-assistente no Brasil da revista "Communio" e um dos organizadores dos livros "Um Diálogo Latino-Americano: Bioética & Documento de Aparecida" (Difusão, 2009) e "Economia e Vida na Encíclica Caritas in Veritate" (Companhia Ilimitada, 2010).
Reproduzido via Conteúdo Livre

Vivemos melhor sem Deus?


“Cada vez que hoje me perguntam se eu acredito se é melhor ou não acreditar em Deus, costumo responder que isso não tem importância, já que, se Deus existir, o importante é que ele acredite em nós, como Dom Romero me havia dito”.

A opinião é do jornalista, filósofo e teólogo espanhol Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal espanhol El País. Anteriormente, havia sido correspondente no Vaticano e fez a cobertura jornalística de algumas sessões do Concílio Vaticano II, tendo também acompanhado muitas das viagens dos papas Paulo VI e João Paulo II.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Um amigo me pergunta por que, em tempos de crise, inclusive as econômicas como na atualidade, o ser humano se refugia mais na fé em Deus. Difícil responder a essa pergunta, já que, para mim, se Deus serve para alguma coisa deve ser para os tempos de alegria e de felicidade, não para os tempos do medo.

Os pais do cientista e escritor Leonard Mlodinov se salvaram das garras do Holocausto. Ele mesmo salvou a sua vida no fatídico 11 de setembro, nos porões de uma das Torres Gêmeas em Nova York, quando se afundou. Em uma entrevista recente, perguntaram-lhe no Brasil o que ele sentia ao saber que Deus havia salvado milagrosamente a sua vida e a de seus pais. Ele respondeu: "Não foi Deus, mas sim o acaso". E acrescentou: "Que Deus seria esse que salva meus pais do nazismo e deixa morrer seis milhões de outros judeus?". "Que Deus seria esse que me salva do atentado terrorista de Nova York e deixa morrer outras 3 mil pessoas?".

Difícil encontrar Deus nos escombros da morte.

Leitores que não conheço costumam me perguntar, uns com respeito, outros, menos, se eu penso que, sem Deus, se acaba vivendo melhor. Escrevi há 40 anos um livro intitulado "El Dios em quien no creo" [pdf para download do livro completo em espanhol aqui]. Esse tinha sido o título de um artigo publicado no extinto jornal Pueblo de Madri. Havia passado pelos censores franquistas. Talvez porque pensaram que, se falava de Deus, não poderia ser nada subversivo. E era, para a Espanha católica e fechada de então.

O então arcebispo de Madri, Casimiro Morcillo, me chamou ao seu escritório. Ele me disse que o artigo estava ajudando os espanhóis a se tornarem ateus, porque afirmava, entre outras coisas, que, se Deus existe, não podia haver o inferno e que não podia curar uns e deixar outros morrerem. Mostrei-lhe a carta que eu acabava de receber de um casal jovem, em que me diziam que haviam recortado o artigo e conservado para quando seus dois filhos pequenos fossem maiores. "Nós não somos crentes, mas se um dia nossos filhos quiserem acreditar, gostaríamos que acreditassem nesse Deus irreconciliável com o inferno", diziam.

Não serviu de nada. A partir daquele dia, além da censura franquista, a Igreja de Madri impôs outro censor para a minha coluna do Pueblo, que se intitulava "Las cosas claras". Sobre aquele livro, nascido desse artigo e traduzido hoje para 10 idiomas, duas senhoras bem arrumadas, quando voltavam de trem de Assis, onde ele havia sido publicado, olhando com receio para a capa, me perguntaram: "Esse livro é a favor ou contra?". "Isso depende, senhoras", lhes respondi.

Cada vez que hoje me perguntam se eu acredito se é melhor ou não acreditar em Deus, eu costumo responder que isso não tem importância, já que, se Deus existe, o importante é que ele acredite em nós, como Dom Romero me havia dito, talvez em sua última entrevista antes de ser assassinado a tiros enquanto celebrava a Eucaristia.

Somos mais felizes sem Deus? Depende, senhores. Difícil se sentir livre e realizado com o Deus que os ditadores amam e adoram – com os quais, certamente, a Igreja sempre se entendeu melhor do que com os democratas –; difícil com o Deus absolutista incompatível com a democracia ou com o Deus que desconfia da sexualidade.

É difícil que as pessoas, jovens ou adultas, não tragam consigo a sombra de um Deus castrador, aquele sobre o qual, em um colégio de religiosas, a madre superiora tinha escrito nos banheiros das alunas: "Deus está te olhando".

O famoso poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, quando estava por morrer, quis falar com um sacerdote da Teologia da Libertação. Confessou-lhe que era ateu, mas que, naquela hora final, atacava-lhe o medo "daquele inferno de que me falaram quando criança na Igreja". O teólogo disse que, além de o inferno não existir, um poeta nunca teria lugar nele. Esse teólogo era Leonardo Boff, condenado ao silêncio pelo então cardeal Ratzinger e hoje Papa Bento XVI.

O Deus do medo é o Deus que não merece existir. O medo é argamassa humana, é a arma de todos os poderes da Terra, não tem nada de divino. É tirano. Só a felicidade é libertadora. O medo é usado e abusado pelas Igrejas institucionais. Jesus nunca impôs medos aos que o seguiam. Ele os tirava. Ele também os teve. Teve medo de morrer, suou sangue perante a iminência de sua morte, pediu explicações a Deus sobre por que deixava que o matassem se era inocente. E dele tiveram medo os hipócritas e os poderosos, nunca os desprezados ou indignados.

Aquele profeta tinha só um “pecado”: não acreditava no sofrimento, nem na dor, nem na morte como armas de redenção. Não suportava ver alguém sofrer. Não gostavam dos mortos e os ressuscitava. Nunca pediu aos seus apóstolos que fizessem jejuns e penitências, nem que fossem heróis ou virgens. Estavam todos casados, como ele.

E ele não foi um profeta fácil: exigiu, com naturalidade, algo que nos parece loucura: devolver o bem pelo mal. Ele sabia que a felicidade – que era a sua única teologia – se engendra na paz e não na guerra, no perdão e não na vingança.

Vivemos melhor sem Deus? "Depende, senhores". Sem aquele que oferecem as igrejas, que não te permite morrer em paz, nem fazer amor sem que te espie como um policial, vivemos melhor. Vivemos melhor sem o Deus que procura se adonar do mais sagrado do ser humano: sua liberdade e sua consciência. Pelo menos, sem ele, vivemos com menos medos, o que não é pouco.

E com o Deus em que Dom Romero acreditava quando o crivaram de balas no altar, por defender os pobres contra o poder, vivemos melhor?, alguns se perguntarão. Vivemos melhor com o Deus que sempre aposta nos que perdem, o Deus daquele Jesus que não só perdoou na cruz aos que blasfemavam contra ele, mas que até os desculpou: "Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem", expressão máxima do amor supremo que não humilha nem quando perdoa?

Acredito que como melhor se vive é sendo fiel à voz da consciência, mais severa do que as leis, porque não é possível burlá-la, e que constitui a única fonte de liberdade. O cardeal Newman, convertido do protestantismo ao catolicismo, foi um defensor do primado da consciência sobre a lei. Na Carta ao Duque de Norfolk conta que, se se visse obrigado a fazer um brinde, o faria "primeiro à consciência e depois ao papa". Newman tem uma frase que, ainda hoje, depois de dois séculos, continua deixando os cabelos da Igreja e dos teólogos tradicionais em pé: "Prefiro me equivocar seguindo a minha consciência do que acertar contra ela". A Igreja defende, ao contrário, que a consciência deve ser formada antes. Por ela e com medo, é claro.

Vivemos melhor sem Deus? Depende. Talvez tenhamos, às vezes, a tentação de acreditar em alguém mais do que humano, capaz de exorcizar a crueldade que semeia o planeta com mortos inocentes, que pisoteia os que não têm poder, que exalta os explorados, que discrimina os diferentes, que violenta as crianças, que quer impor o seu Deus, que humilha a liberdade. Mas esse não será, antes, o Deus dos nossos sonhos?

Poderíamos viver melhor só com o Deus – se existir – capaz de tirar de nós, mortais, o medo supremo da morte, sem a qual, curiosamente, as religiões deixariam de existir, como afirmava Saramago. Viveríamos melhor com o Deus que não nos proibisse sonhar. Existe?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sobre Deus

Foto: Isac Goulart

Três homens olham para o horizonte. O sol se anuncia colorindo de abóbora e sangue umas poucas nuvens escuras. Um deles diz: "Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Na janela, um vulto acena para mim." O segundo homem diz: "Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Mas não há nenhum vulto acenando para mim. A casa está vazia, é desabitada." O terceiro homem diz: "Não vejo vulto, não vejo casa. Vejo as nuvens abóbora e sangue... E como são belas! Sua beleza me enche de alegria!"

Essa é uma parábola metafísica. O primeiro homem vê, no meio das nuvens, um vulto, quem sabe o senhor do universo. Se eu gritar, ele me ouvirá. Para isso há as orações: gritos que pronunciam o Nome Sagrado, à espera de uma resposta. O segundo vê a casa, mas a casa está casa vazia, não tem morador. É inútil gritar, porque não haverá resposta. É o ateu... E como dói viver num universo que não ouve os gritos dos homens... O terceiro, que não vê nem casa e nem vulto, vê apenas a beleza -que nome lhe dar? Acho que o nome seria "poeta".

A beleza é o Deus dos poetas. Quem disse isso foi a poeta Helena Kolody: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo."

Borges relata que, segundo o panteísta irlandês Scotus Erigena, a Sagrada Escritura contém uma infinidade de sentidos. Por isso, ele a comparou à plumagem irisada de um pavão. Séculos depois, um cabalista espanhol disse que Deus fez a Escritura para cada um dos homens de Israel. Daí por que, de acordo com ele, existem tantas Bíblias quantos leitores da Bíblia. Cada leitor vê na Bíblia a imagem do seu próprio rosto.

O teólogo Ludwig Feuerbach disse a mesma coisa de forma poética: "Se as plantas tivessem olhos, gosto e capacidade de julgar, cada planta diria que a sua flor é a mais bonita." Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos lobos são lobos. Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. Dize-me como é o teu Deus e eu te direi quem és...

Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, não têm beleza alguma. Mas, se um artista os juntar segundo uma visão de beleza, eles se transformam numa obra de arte. As Escrituras Sagradas são um livro cheio de cacos. Nelas se encontram poemas, histórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos portentosos, textos eróticos, matanças, parábolas... Ao ler as Escrituras, comportamo-nos como um artista que seleciona cacos para construir um mosaico. Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos.

Como no caso do labirinto literário de Borges cujos cacos eram peças de um quebra-cabeças que, juntos, formavam o seu rosto, também o mosaico que formamos com os cacos dos textos sagrados tem a forma do nosso rosto. Há tantos deuses quanto rostos há. Assim, quando alguém pronuncia o nome "Deus" há de se perguntar: "Qual?"

- Rubem Alves
Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sacrifícios a César

Grafite: Bleeps.gr

A pergunta que fazem a Jesus alguns sectores fariseus, confabulados com partidários de Antipas, é uma armadilha preparada com astucia para ir criar um clima propício para eliminá-Lo: «É lícito pagar impostos a César ou não?».

Se diz que é lícito, Jesus ficará desprestigiado ante o povo e perderá o seu apoio: assim será mais fácil atuar contra Ele. Se diz que não é lícito, poderá ser acusado de agitador subversivo ante os romanos que, nas festas da Pascoa já próximas, sobem a Jerusalém para abafar qualquer intenção de rebelião contra César.

Antes de mais nada, Jesus pede-lhes que Lhe mostrem «a moeda do imposto» e que Lhe digam de quem é a imagem e a inscrição. Os adversários reconhecem que a imagem é de César como diz a inscrição: Tibério César, Filho augusto do Divino Augusto. Pontífice Máximo. Com o Seu gesto, Jesus situou a pregunta num contexto inesperado.
Tira então uma primeira conclusão. Se a imagem da moeda pertence a César, «dai a César o que é de César». Devolvei o que é seu: essa moeda idólatra, cunhada com símbolos de poder religioso. Se a estais utilizando nos vossos negócios, estais já reconhecendo a sua soberania. Cumpri com as vossas obrigações.

Mas Jesus que não vive ao serviço do imperador de Roma, "procura o reino de Deus e a Sua justiça" junta uma grave advertência sobre algo que ninguém Lhe perguntou: «A Deus dai o que é de Deus». A moeda leva a "imagem" de Tibério, mas o ser humano é a "imagem" de Deus: pertence só a Ele. Nunca sacrifiqueis as pessoas a nenhum poder. Defendé-las.

A crise económica que estamos a viver nos países ocidentais não tem fácil solução. Mais do que uma crise financeira é uma crise de humanidade. Obcecadas apenas por um bem-estar material sempre maior, acabamos vivendo um estilo de vida insustentável inclusive economicamente.

Não vai ser suficiente propor soluções técnicas. É necessária uma conversão do nosso estilo de vida, uma transformação das consciências: passar da lógica da competição à da cooperação: colocar limites à voracidade dos mercados; aprender uma nova ética da renúncia.

A crise vai ser longa. Esperam-nos anos difíceis. Os seguidores de Jesus, temos de encontrar no Evangelho a inspiração e o alento para vivé-la de forma solidária. De Jesus escutamos o convite para estar próximos das vítimas mais vulneráveis: os que estão a ser sacrificados injustamente às estratégias dos mercados mais poderosos.

- José Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mapa revela nações que mais protegem os direitos dos homossexuais

Escultura: Jennifer Collier

Surpreendentemente, países como Argentina, Espanha e África do Sul superam os EUA. Em termos de geopolítica e de casamentos gays, nas ex-ditaduras o "sim" é mais fácil.

A reportagem é de Angelo Aquaro, publicada no jornal La Repubblica, 10-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Há uma linha que une os mártires da Praça de Maio e os resistente gays de meio mundo? O que liga a África do Sul de Nelson Mandela ao Massachusetts daquele Mitt Romney que visa à Casa Branca? E Barack Obama realmente tem algo a aprender com o ex-primeiro-ministro português José Sócrates? Tudo o que você pensava saber até agora sobre os casamentos gays é falso. Ou pelo menos discutível.

Não é verdade que o fatídico "sim" aos homossexuais seja uma meta das nações reconhecidas como socialmente mais avançadas. Ao contrário. A geopolítica dos casamentos gays começa em Lisboa. O primeiro colunista abertamente gay do New York Times – Frank Bruni – foi até lá para descobrir por que esse pequeno país à beira do precipício (também econômico) da Europa conseguiu acertar um alvo até agora difícil para um gigante como os EUA, onde Barack Obama brinca com os seus partidários gays ("Encontrei a líder de vocês: Lady Gaga!"), mas ainda não se pronunciou a favor do casamento, fazendo, assim, com que o país escolha desordenadamente: de Massachusetts, em que se casa por decisão da Suprema Corte (e para a raiva do ex-governador mórmon Romney) até Nova York, que neste mês celebrou os primeiros 100 dias do "sim" aos gays.

Mas por que Portugal? Lisboa é a última capital a ter aprovado uma lei no ano passado. E, além do mais, é um país católico, que se poderia imaginar a anos luz daquela Holanda que escolheu a tolerância por princípio de Estado, das vitrines já turísticas aos cafés de maconha. E que, pela primeira vez no mundo, instituiu, há dez anos, o casamento gay. Desde então, só nove foram os Estados em que o casamento gay foi admitido. Mas aqui vêm as outras surpresas.

Os países que, como a Holanda, gozam de uma tradição de tolerância são um quarteto: Noruega, Suécia, Islândia e Canadá. Mas e os outros? África do Sul, Espanha, Portugal e Argentina. A explicação é esboçada pelo estudioso Evan Wolfson, do Freedom for Marry. "Trata-se de países onde a democracia e o respeito pela lei foram negados durante anos. E onde a sociedade civil lutou fortemente para reconquistá-los". Da Argentina da ditadura de Videla à Espanha do pós-Franco. Da África do Sul do apartheid ao Portugal livre da Revolução dos Cravos.

Mas não só. O ex-primeiro-ministro português Sócrates reconhece: "A escolha da Espanha foi muito importante para nós". A primavera (já murcha) de Zapatero teria servido como estímulo para o vizinho de península, mas também para a América Latina, que continua olhando com amor e rivalidade para a pátria-mãe. E não é por acaso que o próximo país na lista do reconhecimento ainda é de marca espanhola: o Uruguai.

A hipótese que cruza países saídos da ditadura e direitos gays é cativante. Mas há quem destaque os seus limites. Uma jurista gay e contracorrente, por exemplo, é Katherine M. Franke. A professora leciona na Universidade de Columbia e em seu livro The politics of same sex marriage politics já havia destacado alguns riscos, além de conquistas civis. Inclinando-se sobre a instituição burguesa do casamento, os homossexuais não só venderiam a sua alma ao diabo do conformismo, mas também sancionaram a enésima desigualdade social. Ou seja, o reconhecimento dos direitos somente sob prévio contrato - eu respeito você como gay – mas se você se casar.

E pensar que as uniões que hoje dividem afundam suas raízes nos séculos. Alan Tullchin, professor da Universidade da Pensilvânia, encontrou na França de 600 anos atrás aqueles contratos de "fraternização" (com a promessa de compartilhar "un pain, un vin et une bourse"), que serviam para repassar a propriedade em caso de morte do companheiro. Sem falar dos piratas da Ilha da Tartaruga, que se casavam entre si para permitir que os marinheiros – matelot – dividissem os tesouros.

A propósito: exatamente de matelot é que vem aquele mate, que, em inglês, designa o parceiro sexual, masculino ou feminino - ou ambos.

* * *

Em tempo: recebemos via twitter na semana passada, de nosso amigo @realfpalhano, o link para um artigo sobre a homossexualidade na Idade Média, na Espanha. E o artigo começa: "Chamavam-se Pedro Díaz e Muño Vandilaz os dois homens que, em 16 de abril de 1061, protagonizaram o primeiro matrimônio homossexual de que se tem registro na Galícia, e um dos primeiros da Europa." Vale a leitura, aqui.

O sacrifício cristão e o Vaticano II

Escultura: Michael Murphy

Com o Vaticano II, passamos imperceptivelmente da angústia do Dies irae para o “Hino à alegria”, de uma prática religiosa disciplinar na expectativa preocupada da cólera divina, a uma prática da fé em Cristo que leva a cumprimento a cristicidade (santidade) do humano e, por isso, o liberta do pecado.

A opinião é de Alain Weidert, publicada no jornal La Croix, 08-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


A ruptura com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X será reabsorvida? Formalmente, talvez, mas absolutamente não com relação aos temas de fundo! Persiste um antagonismo teológico crucial, jamais abertamente explicitado. Esse "não dito" refere-se à própria natureza da salvação, da redenção, ou seja, do tipo das relações Deus-homem.

O epicentro de todos os dissensos invocados (liturgia, sacerdócio comum, colegialidade, ecumenismo...) nada mais é do que o sacrifício de Cristo. A salvação em Jesus Cristo passa, sim ou não, por um sacrifício de reparação, de expiação, de satisfação ou, para usar uma palavra apreciada, por um sacrifício propiciatório?

Os lefebvrianos, em particular, são contrários ao conteúdo de um livro publicado em 1968 e republicado várias vezes até 2010 [1]. O seu autor, o futuro Papa Bento XVI, desenvolve nele um modo de entender o sacrifício de Cristo e, portanto, de Deus, nos antípodas da posição sacrificial e da luta ideológica integralista [2].

Joseph Ratzinger lembra acima de tudo a concepção cristã atual da redenção, que se baseia naquela que se chama de teoria da satisfação, elaborada por Anselmo de Canterbury. Para Anselmo, o pecado do homem era dirigido contra Deus, e, como Deus é infinito, a ofensa que lhe foi feita tem um peso infinito. E, como a humanidade é incapaz de fornecer uma reparação infinita, é o próprio Deus que acaba com a injustiça no sacrifício do Filho, que fornece a satisfação necessária.

Sem rejeitar todas as intuições de Anselmo, Joseph Ratzinger só pode constatar que nos é sempre mais difícil admitir uma teoria tão cruel que situa a cruz dentro de um mecanismo de direito lesado e restabelecido. Alguns textos devocionais parecem até sugerir, escreve ele, que o Deus da fé cristã exija um sacrifício humano, o do seu próprio Filho.

"Essa imagem é tão difundida quanto equivocada", afirma. A cruz não é a obra de reconciliação que a humanidade ofereceria a um Deus carrancudo, mas sim a expressão do amor insensato de Deus, que, no Homem, se oferece totalmente.

O sacrifício cristão não consiste em dar a Deus uma coisa que ele não possuiria sem nós, mas sim em nos tornarmos totalmente receptivos e em deixar-nos tomar totalmente por Ele. "Deixar Deus agir em nós, eis o sacrifício cristão", escreve Ratzinger. Para ele, o culto cristão não consiste na oferta de coisas, nem em uma forma de destruição, como "repete-se incessantemente nas teorias do sacrifício da Missa do século XVI".

O que importa, na cruz, escreve o teólogo, não é um acúmulo de sofrimentos físicos, como se o valor de redenção da cruz consistisse na soma máxima possível de tormentos. Depois, ele se pergunta: "Como Deus poderia obter prazer dos tormentos da sua criatura, até do seu próprio Filho e considerá-los como o valor a ser fornecido conquistar a reconciliação?". Para ele, a Bíblia e a fé cristã autêntica estão longe de tais ideias. Se fosse de outra forma, continua, "na cruz, os torturadores teriam sido os verdadeiros sacerdotes, teriam sido eles que, provocando o sofrimento, teriam oferecido o sacrifício".

Não é talvez uma ideia indigna representar um Deus que exige a imolação do Filho para aplacar a sua cólera? A essa pergunta, o futuro papa responde: "De fato, Deus não poderia ser concebido desse modo. Uma tal noção de Deus não tem nada a ver com a ideia de Deus do Novo Testamento".

Com essa declaração, ele repensa mais corretamente a ideia do sacrifício cristão, assim como a empatia natural, indefectível e sem condições de Deus para com o homem. Mas com essa configuração, ele também levanta a condenação por parte dos integralistas do famoso espírito do Concílio, da sua cristologia de reequilíbrio entre o homem e Deus

Com o Vaticano II, passamos imperceptivelmente da angústia do Dies irae para o “Hino à alegria”, de uma prática religiosa disciplinar, na expectativa preocupada da cólera divina, a uma prática da fé em Cristo que leva a cumprimento a cristicidade (santidade) do humano e, por isso, o liberta do pecado.

Quando nos sacrificamos, não é mais para sermos salvos ou para salvar almas, mas porque se realiza a gratuidade da salvação, as "Núpcias em Cristo", do humano e do divino. O espírito crístico desse Concílio excepcional não deterá tão cedo a sua obra pastoral de conversão.


Para se aprofundar neste tema, sugerimos:
A Cruz: suplício ou esperança?
Escândalo e loucura

_______________
Notas do autor:
1) Joseph Ratzinger, La fede cristiana, ieri e oggi.
2) Ver por exemplo Lettre à nos frères prêtres, n° 45, março de 2010; Dom Tissier de Mallerais, L'étrange théologie di Benoit XVI, Ed. Le Sel de la Terre, 2010.

domingo, 16 de outubro de 2011

Morrer é transvivenciar

Escultura: Sean Henry

A morte de toda celebridade provoca impacto midiático. Por isso, os arquivos da mídia guardam obituários da rainha Elizabeth II e do papa Bento XVI, de Pelé e Neymar, de Demi Moore e Sebastien Vettel. A morte nem sempre manda aviso prévio. Se uma celebridade deixa a vida por acidente, como Ayrton Senna e Lady Di, ou por causa inesperada, como Michael Jackson e Amy Winehouse, as redações precisam ter pronto o perfil biográfico do falecido. Agora, Steve Jobs morreu aos 56 anos. O impacto é tanto maior quanto mais prematura e irreparável a perda: não há como clonar cérebros e talentos geniais. Há pessoas, sim, insubstituíveis. Como já não estão entre nós, ficamos sem parâmetro de comparação, sem saber o que fariam no lugar de quem lhes sucedeu.

Sim, sabemos todos que ninguém é imortal. Em determinado dia, mês e ano do calendário, cada um de nós deixará este mundo. O que choca é ver alguém morrer antes do tempo.

Sobretudo quando se respira uma cultura de preconceito à velhice. Chamar, hoje, alguém de velho é uma ofensa. No máximo, admite-se idoso. E haja eufemismos para qualificar quem passou dos 60: terceira idade, melhor idade etc. Vi escrito numa van: “Aqui viaja a turma da dignidade”. Como velho que sou, rejeito tais artimanhas da linguagem. A melhor idade é dos 20 aos 35 anos (embora a ditadura, ao encarcerar-me, tenha me roubado quatro). Se é para inventar eufemismo, melhor ser realista e considerar nós velhos a turma da eterna idade, já que estamos naturalmente mais próximos dela.

Nossa cultura pós-moderna lida muito mal com a morte. Busca ansiosamente o elixir da eterna juventude: academias de ginástica, anabolizantes, macrobiótica, cirurgias plásticas etc. Na minha infância, criança era quem tinha de zero a 11 anos. Adolescente, de 11 a 18. Jovem, de 18 a 30. Adulto, de 30 a 50. Velho, mais de 50. Hoje, tem-se a impressão de que criança é de zero a 18, quando se vive na dependência dos pais. Adolescente, de 18 a 30, sem segurança quanto a compromissos afetivos e profissionais. E jovem, dos 30 em diante, ainda que se tenha 80 ou 90.

O mundo desencantou-se, disse Max Weber. Religiões e ideologias estão em crise. Pouco se pergunta pelo sentido desta vida e, portanto, muito menos o que nos espera na outra. A relativização de valores e a desculpabilização ética exorcizam o medo de padecer eternamente no inferno. A morte, como fato social, é tratada como inconveniente: não há rituais fúnebres. Morre-se no hospital, faz-se breve velório, crema-se o corpo, espalham-se as cinzas ao pé de alguma árvore. E vira-se a página. Não há luto nem memória do falecido. E em famílias ricas não raramente a briga por herança começa antes de o defunto esfriar.

As escolas deveriam educar seus alunos quanto aos ritos de passagem inevitáveis ao longo da vida. Eles aprenderiam que a morte não merece credibilidade porque, em si, não existe. Existem a passagem para quem se foi e a perda para quem ficou. Há famílias que cometem o erro de evitar que as crianças compareçam ao velório de entes queridos. Elas ficam com uma incômoda interrogação na cabeça frente ao sumiço do parente querido.

Não gosto do verbo morrer. Prefiro transvivenciar. Por uma questão de fé e sentimento. Quando nascemos, todos riem e nós choramos. Quando transvivenciamos, ocorre o contrário. A vida é um milagre excepcionalmente belo para enclausurar-se nos poucos anos que nos são dados viver. Acredito que, ao sair do casulo, todos haveremos de virar borboletas – o que é ainda mais belo e promissor.

- Frei Betto
Reproduzido via Conteúdo Livre

Nós somos imagens de Deus


"A laicidade não significa que um cristão não deva exercer uma função política na sociedade civil. Pelo contrário, ele pode fazê-lo, mas deve fazê-lo no respeito pelos outros que não compartilham a sua fé. Ser cristão não é impor uma fé aos outros. Ser cristão é dar testemunho de sua fé e esperança aos outros."

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote do Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras deste domingo, 29º Domingo do Tempo Comum (16 de outubro). A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


Referências bíblicas:
Segunda Leitura: 1Ts 1, 2-5b;
Evangelho: Mt 22, 15-21.

Às três parábolas do Reino dos três últimos domingos, se seguem, para as próximas duas semanas, duas controvérsias entre Jesus e seus adversários, os fariseus: a primeira (deste domingo) sobre o imposto pago a César e a segunda (domingo próximo) sobre o maior mandamento. Em Jerusalém, onde se aproxima a condenação e a morte de Jesus, vemos que os fariseus estão indispostos e procuram um meio para prender Jesus. Mas Jesus não permite e podemos dizer hoje que ele lhes devolve na mesma moeda: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22, 21). Não devemos esquecer que este texto de Mateus, assim como todos os outros, foi escrito depois da Páscoa, à luz da fé pascal, para uma comunidade cristã que certamente vivia em conflito com os romanos, mas especialmente com os judeus que consideravam o cristianismo uma seita temível e perigosa.

1. A controvérsia. Para compreender a controvérsia de hoje, temos que explicar o que é o imposto pago ao imperador, o tributo a César... Estamos na Judeia, uma província de Roma, no primeiro século da era cristã. As pessoas estavam sobrecarregadas com impostos. Havia um imposto que era cobrado para o rei Herodes, outro para o Templo de Jerusalém e os sacerdotes e um outro para o imperador de Roma, além de alfândegas, impostos e pedágios que todos os judeus tinham que pagar... E pior ainda, quando o imperador de Roma, César Augusto se divinizou a si mesmo, ele mandou inscrever na moeda: ‘O Divino César’, o que chocou alguns líderes judeus que se recusaram não apenas a pagar o tributo a César, mas até mesmo de usar sua moeda. No tempo de Jesus, havia os herodianos e os saduceus que mantinham boas relações com Roma; portanto, a moeda do império circulava pela Judeia. Por outro lado, os fariseus e os zelotes se opunham firmemente a isso... O que envenenava as relações entre Roma e a Judeia.

Esta situação nos permite compreender a cena do evangelista Mateus, onde vemos Jesus sendo questionado pelos discípulos dos fariseus, juntamente com os herodianos: "É permitido pagar o tributo a César, sim ou não?" (Mt 22, 17). A pergunta é realmente uma armadilha: quer Jesus responda sim ou não, ele se enrosca de uma ou de outra maneira. A fórmula: ‘É permitido...’, é a fórmula clássica para a observância da Lei de Moisés. Se Jesus responde que sim, isso significa que ele está em conluio com os romanos, que idolatram o imperador; mas se ele responde que não, isso significa que ele convida à desobediência e incentiva movimentos extremistas como os zelotes à revolta contra a ocupação romana.

Portanto, a resposta de Jesus é uma inversão da situação: ao pedir para ver uma moeda, ele arma uma armadilha, por sua vez, para os fariseus e os herodianos; ele desmascara sua hipocrisia, já que eles utilizam a moeda do imperador que eles carregam consigo, contra eles. Ele lhes disse: "De quem são esta efígie e esta inscrição?" (Mt 22, 20). Eles devem, portanto, responder à sua própria pergunta... E para mostrar que a política, o poder e o imperador não tinham nada a ver com Deus, Jesus acrescenta: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22, 21).

A mensagem é esta: se a imagem cunhada na moeda é do próprio César, isso significa que a moeda pertence a César. Mas se nós seres humanos somos à imagem de Deus, isso significa que nós somos de Deus... Somos rostos de Deus. Pela dupla sentença: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é Deus", Jesus desdiviniza o imperador e dessacraliza a sua moeda, e reconhecendo seu valor e devolvendo-o à sua própria responsabilidade. Ao mesmo tempo, Jesus afirma que o imperador não é contrário a Deus... O que pertence a Deus é de Deus e César não tem nenhum poder sobre isso.

2. Nossa dupla realidade humana. Infelizmente, muitas vezes este texto de Mateus foi usado para justificar a separação entre a Igreja e o Estado, entre a religião e a política, como se se pudesse separar completamente a dimensão espiritual e a dimensão material da nossa realidade humana. É verdade que as religiões não têm de impor seus pontos de vista às sociedades civis em sua visão sobre o mundo e sobre o modo de viver em sociedade. No entanto, as religiões podem dar as suas opiniões, interpelar as pessoas, propor um ideal evangélico... mas se o fizerem devem fazê-lo no respeito a cada um: sem julgamentos, sem condenações, com o cuidado da justiça, da equidade, da igualdade na dignidade em vista da Paz e da harmonia entre nós.

A este respeito, penso que a fé cristã influenciou muito as nossas sociedades ocidentais. É justamente esta influência religiosa que está na origem da Carta dos Direitos e das Liberdades, e que permite às minorias serem reconhecidas e respeitadas pela maioria. Entretanto, se as religiões se opõem à evolução dos povos e das sociedades e se elas julgam e condenam a novidade, isso significa que as religiões são contrárias ao ideal evangélico, proposto por Cristo que os líderes religiosos dizem representar. Neste caso, certamente não deveria surpreender o fato de que os religiosos sejam criticados, abandonados e até mesmo rejeitados pelos cristãos e cristãs de hoje.

Na segunda leitura, São Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses (por sinal, é o texto mais antigo do Novo Testamento, escrito em Corinto aproximadamente no ano 51 d.C.), nos lembra que a vida cristã repousa sobre três pilares: a fé, a esperança e o amor. Ele diz: "Sem cessar, conservamos a lembrança de vossa fé ativa, de vosso amor sacrificado e de vossa perseverante esperança, que nos vêm de nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai" (1Ts 1, 3). Se nós nos apoiarmos nestes três pilares da fé cristã, o Evangelho que proclamamos não será uma simples palavra, mas um poder, uma ação do Espírito Santo, uma certeza absoluta (1Ts 1, 5): ela é a Palavra de Deus.

Apoiar-se sobre estes três pilares da fé cristã é ver o mundo de forma diferente; isso dá uma qualidade de ser e de agir que promove a justiça e a paz. Isso humaniza a sociedade e as pessoas que a compõem, e possibilita a universalidade e a pluralidade em nosso mundo. Assim, a Palavra de Deus não é simplesmente um texto bíblico que podemos ler e reler todos os domingos; é uma Palavra que expressa a fé, a esperança e a caridade da Igreja na sua realidade histórica e teológica. O que era verdade para a comunidade de Tessalônica, também é verdade para as comunidades cristãs de hoje.

Concluindo, a laicidade não significa que um cristão não deva exercer uma função política na sociedade civil. Pelo contrário, ele pode fazê-lo, mas deve fazê-lo no respeito pelos outros que não compartilham a sua fé. Ser cristão não é impor uma fé aos outros. Ser cristão é dar testemunho de sua fé e esperança aos outros; é a única maneira de fazê-los querer crer e esperar. Sobre o Evangelho de hoje, Santo Agostinho dizia: "Do mesmo modo como César busca a sua imagem em uma moeda, Deus procura sua imagem na sua alma. Dai a César, diz o Salvador, o que pertence a César. O que César exigiu de ti? Sua imagem. O que o Senhor pede de ti? Sua imagem. Mas a imagem de César está em uma moeda, a imagem de Deus está em ti."
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...