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domingo, 15 de junho de 2014
Claudio Pastro na capela da Santíssima Trindade
Neste domingo da Santíssima Trindade, o querido Fábio Sotero nos envia esta linda reflexão do Pe. Ramón F. de la Cigoña, SJ e a compartilhamos aqui.
O mural de Claudio Pastro (*1948) sobre a Santíssima Trindade, na capela do 2º piso de Vila Kostka, Itaici (SP) [veja inteiro aqui] foi pintado em 1990, e ocupa quase 20 metros quadrados de extensão. A pintura foi feita diretamente sobre a massa, com técnicas de afresco, onde a tinta (pigmentos naturais, terra etc.) se mistura com a própria massa, penetrando-a por alguns milímetros.
O mural revela ondulações, alongando, desse modo, o lugar quadrado da capela. As mesmas curvas flutuantes convidam-nos a ir além do espaço e entrar no mistério de Deus... As curvas e as cores descansam o nosso olhar, trazem paz interior e lembram o deserto, lugar bíblico da provação e da revelação.
No deserto o homem se despoja de todas as suas mentiras. Para que as máscaras? A quem seduzir ou enganar? Contudo, Israel foi tentado no deserto e Jesus também. Nosso “eu” mais profundo é terra solitária, por onde vagueiam anjos e demônios, o bem e o mal.
No deserto podemos encontrar também o Senhor. E adorá-lo.
O artista, C. Pastro, não fechou o horizonte contemplado, deixando espaços sem pintar. Esses vãos convidam a ir além do que vemos e as ondulações das dunas ampliam o espaço de visão exterior e interior. Tudo se orienta, na fé, para o mistério, para o encontro Daquele que sempre vem. Observe o movimento cósmico que nos convida a entrar no mistério de Deus: o mundo, o deserto, as pessoas, o Cordeiro... Tudo está em movimento, porque a vida é sair de si mesmo e doar-se.
O tema da Santíssima Trindade na arte vem da tradição Copta e Siríaca. A Trindade não é fácil de ser representada. Alguns teólogos caíram em diversas heresias ao falar da Trindade: Uns, para assegurar a fé num único Deus, acabaram negando a Trindade das pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo); outros, destacando a diversidade, acabaram negando a unidade.
O artista representou a Trindade na figura dos três anjos peregrinos. O anjo, na Sagrada Escritura, representa muitas vezes, o próprio Deus. A Trindade é mistério de comunhão, gerador de vida. O Pai não é o Filho, nem o Espírito Santo é o Pai. São diferentes nas suas relações interiores e exteriores. Mas uma coisa é certa: onde está um sempre estão os outros dois. A Trindade é verdadeira comunidade.
No mural, o Pai está no meio, como aquele que gera. Seu olhar e suas mãos indicam o Filho muito amado (pessoa e Cordeiro).
O Filho é imagem do Pai (quem me vê, vê o Pai...); sua mão também aponta o Cordeiro imolado (Ele mesmo!) e a chaga dele, de onde vão brotar a água e o sangue, o Batismo e a Eucaristia. Jesus sempre olha para nós, pois é o único revelador do Pai. É ele quem revela o mistério da Santíssima Trindade. O Filho segura o cajado de Pastor. Eu sou o Bom Pastor!
O Espírito Santo é o doador de todos os dons. Ele revela o mistério e, ao mesmo tempo, nos convida a entrar nele. E olha para o mundo! O seu cajado está solto, porque Ele o colocou nas mãos dos pastores que hoje nos guiam, os bispos.
As cores usadas nos três anjos são o azul, o vermelho e o amarelo, cores do fogo. A divindade é luz que atrai e purifica.
No centro, a mesa com o Cordeiro de pé e imolado, o Alfa e o Omega, aquele que é, que era, e que vem (Ap 1, 8).
No meio, a árvore da vida, símbolo da eternidade de Deus. Algumas das suas folhas são amarelas... Esses traços amarelos se repetem nas asas e no resplendor dos três personagens e nos faz lembrar da promessa feita outrora a Abraão: Olha para as estrelas, assim será tua posteridade...
Todos estamos na tenda, a capela é a tenda, com Abraão e Sara. Observe as estacas da tenda nos dois extremos do mural. Abraão e Sara representam a humanidade toda. O homem e a mulher aproximando-se do mistério de Deus.
Alguns se aproximam do mistério de Deus e o adoram, como Abraão. Outros, como Sara, escutam e não entendem.
É Deus quem toma a iniciativa de se aproximar de nós, pois foram os três anjos, que vieram ao encontro de Abraão, como peregrinos que caminham para onde nós estamos. Deus quer se aproximar também de nós. Contudo, podemos acolhê-lo ou não; crer, como Abraão, ou rir, como Sara. Dentro de nós habita um Abraão ou uma Sara?
A fé rejuvenesce! Perceba como o artista fez um Abraão jovem. Adorando, nos unimos a Deus e aos irmãos. Formamos também comunidade.
Que a contemplação do belo e do Santo faça brotar a imagem de Deus Pai, Filho e Espírito Santo em cada um de nós.
Amém!
Fonte Tweet
terça-feira, 13 de maio de 2014
Reconhecimento mútuo
"Eu já desconfiava disso. (...) Eu queria conversar com você. Eu desconfiei, eu queria falar, mas eu não encontrava as palavras, sabe? Eu queria dizer alguma coisa, mas só me vinha à cabeça o discurso do preconceito. E esse eu não queria, porque... eu TENHO preconceito. Eu não queria ter. Eu tenho vergonha... Eu tenho vergonha de ter preconceito, mas eu tenho. Quem sabe agora, começando pela minha família, quem sabe eu consigo ficar livre mais rápido, mais fácil, desse preconceito.
Me dá um abraço?"Quanta dor seria evitada, quantas almas e famílias seriam poupadas de se dilacerar, se esse reconhecimento (mútuo) honesto e franco pudesse ser feito e acolhido com mais frequência.
Assista à cena no site da novela, aqui.
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domingo, 4 de dezembro de 2011
Solidão sonora
Foto: Mitch Dobrowner
“Quanto mais adentro na solidão,
tanto mais claramente vejo
a bondade de todas as coisas.
Para poder viver feliz em solidão,
tenho de ter um conhecimento
cheio de compaixão a respeito
da bondade dos outros,
um conhecimento reverente
sobre a bondade da criação inteira,
um conhecimento humilde
da bondade de meu próprio corpo
E de minha alma”
- Thomas Merton, daqui Tweet
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
3x sexo
HQ: Laerte
Como um sinal inequívoco de que, apesar dos infelizes Bolsonaros, o mundo avança na obra, moderna por definição, de desmontar preconceitos, numa mesma semana tive encontros com três representações de questões fundamentais da sexualidade. Representações que nos ajudam a compreender melhor essa dimensão central d...o sujeito que é a sexualidade, contribuindo politicamente para livrá-la do obscurantismo e de suas consequências: neuroses intensas, vidas desperdiçadas, explosões de violência. A presente edição da revista Trip, o filme "Céu sobre os ombros" e a série televisiva "Oscar Freire 279" tematizam questões como homofobia, prostituição, travestismo e monogamia - sempre com desassombro e inteligência.
A excelente edição da Trip traz uma entrevista de Zé Celso (que se define, gloriosamente, num lance de anti-identidade, como homem sexual); uma matéria com pessoas que mantêm relações grupais amorosas e sexuais; e um retrato passado-presente da dupla Luhli e Lucina, que nos anos 70 viveu um casamento a três, um "trisal", como elas chamam. São formas de vida que não se deixaram intimidar pela monogamia compulsória, fonte de tantos sofrimentos. Sim, pois a monogamia ocupa um lugar simbólico análogo ao das drogas na nossa sociedade: uma mistura de tabu e hipocrisia. As drogas, quase todo mundo nega, mas muita gente usa; a monogamia, muita gente exige, mas quase todo mundo descumpre. Assim como acontece com a política fracassada das drogas, o obscurantismo na tematização da monogamia leva a uma política potencialmente fracassada das relações amorosas.
Um único exemplo dá a dimensão do tabu que envolve a monogamia hoje. Num episódio da série "House", uma mulher jovem e bonita, casada com um homem idem, adoece subitamente. Após diversas especulações, o dr. House chega a um diagnóstico: ela contraiu um vírus africano (sic), cuja transmissão é genital. Ou seja, ou ela ou seu marido fizeram sexo com outra pessoa. A mulher está em estado grave e não admite o que fez. Só à beira da morte, aos 45 do segundo tempo, ela confessa. O marido, por sua vez, abandona-a, alegando que "não se pode amar alguém assim". Eis aí um brado retumbante: monogamia ou morte! Entre nós não é diferente. A capa da revista "Veja" desta semana traz uma associação entre corrupção (uma questão pública) e adultério (uma questão privada), implicitamente conferindo um valor moral positivo à monogamia.
Não se trata de recusar ou defender a monogamia, a priori e universalmente, mas de compreender os problemas que ela envolve, de modo que as pessoas possam ter maior autonomia para criar formas de vida em maior concordância com as suas próprias e inalienáveis fantasias. Há aqui um princípio: é preciso, inicialmente, des-moralizar as questões, para depois fundar, sobre essa compreensão, uma moral (individual). É exatamente isso o que faz a Trip. Recomendo fortemente sua leitura.
Outro tema igualmente submetido em geral a um tratamento hipócrita ou moralista é o da prostituição. Gabeira teve que ter coragem (virtude que não lhe falta) para defender a legalização da profissão quando estava em campanha (proposta que conta com meu apoio). Se é certo que a literatura já tratou do tema com profundidade e complexidade, o mesmo não costuma acontecer em programas televisivos. Pois é o que acontece na série "Oscar Freire 279" (Multishow). Sua protagonista é uma jovem, de classe média, linda, que se torna garota de programa por razões afirmativas (o prazer, a riqueza, a aventura existencial mais interessante que o roteiro previsível do casamento-emprego-família etc.). A série não idealiza a prostituição e ilumina também suas dimensões de sofrimento físico e moral. O decisivo é que ela não adere à perspectiva moralista (adotada pelo pai da "moça de família" que passa a se prostituir): dispõe, sobre a mesa, as diversas variáveis da questão, as alegrias e as angústias - e deixa que o espectador julgue por si próprio (eis o princípio de des-moralização inicial que mencionei acima).
O preconceito é sempre o efeito de uma distância; a proximidade humaniza e desmonta os estereótipos em que ele se funda. Talvez não haja uma figura social tão submetida a preconceitos quanto as travestis (já que o português me obriga a escolher um artigo de gênero). A recusa ao lugar social das travestis é tão forte que quase nunca se as vê em lugares públicos, à luz do dia. É absolutamente inaceitável que uma decisão sobre o próprio corpo (passar do masculino ao ambivalente masculino/feminino) implique uma condenação a um estatuto de pária social, de existência reconhecida apenas como objeto sexual a ser comprado (e renegado, como demonstrou um conhecido episódio envolvendo um jogador de futebol). Daí a importância de representações que mostrem travestis desempenhando funções sociais normais, como a travesti-professora do delicado filme "Céu sobre os ombros", de Sérgio Borges (que vi na edição presente da Semana dos Realizadores). Como prova do preconceito brutal, é mais obscena a imagem em que a travesti cita, fluentemente, a teórica americana Judith Butler, do que a cena em que ela faz sexo oral com um cliente, no carro.
Um mundo em que homossexuais tomam porrada e travestis têm que viver sorrateiramente é um mundo que deve ser transformado. E já está sendo, cada vez mais, felizmente.
- Francisco Bosco
Publicado originalmente no Jornal O Globo, em 26-10-11
Reproduzido via Conteúdo Livre, com grifos nossos. Tweet
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
I just wanna be with you
É em momentos como esse que a arte expressa o mais profundo anseio humano por um sentido, por atender ao chamado sutil que queima dentro de cada um de nós. :-)
* * *
Em tempo: a quem interessar possa, encontrei hoje um artigo de título curioso sobre Harrison, aqui: "Como George Harrison mudou a forma como nós acreditamos". Achei que o título promete mais do que o texto oferece, mas ainda assim vale a leitura. ;-)
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Sobre Deus
Foto: Isac Goulart
Três homens olham para o horizonte. O sol se anuncia colorindo de abóbora e sangue umas poucas nuvens escuras. Um deles diz: "Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Na janela, um vulto acena para mim." O segundo homem diz: "Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Mas não há nenhum vulto acenando para mim. A casa está vazia, é desabitada." O terceiro homem diz: "Não vejo vulto, não vejo casa. Vejo as nuvens abóbora e sangue... E como são belas! Sua beleza me enche de alegria!"
Essa é uma parábola metafísica. O primeiro homem vê, no meio das nuvens, um vulto, quem sabe o senhor do universo. Se eu gritar, ele me ouvirá. Para isso há as orações: gritos que pronunciam o Nome Sagrado, à espera de uma resposta. O segundo vê a casa, mas a casa está casa vazia, não tem morador. É inútil gritar, porque não haverá resposta. É o ateu... E como dói viver num universo que não ouve os gritos dos homens... O terceiro, que não vê nem casa e nem vulto, vê apenas a beleza -que nome lhe dar? Acho que o nome seria "poeta".
A beleza é o Deus dos poetas. Quem disse isso foi a poeta Helena Kolody: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo."
Borges relata que, segundo o panteísta irlandês Scotus Erigena, a Sagrada Escritura contém uma infinidade de sentidos. Por isso, ele a comparou à plumagem irisada de um pavão. Séculos depois, um cabalista espanhol disse que Deus fez a Escritura para cada um dos homens de Israel. Daí por que, de acordo com ele, existem tantas Bíblias quantos leitores da Bíblia. Cada leitor vê na Bíblia a imagem do seu próprio rosto.
O teólogo Ludwig Feuerbach disse a mesma coisa de forma poética: "Se as plantas tivessem olhos, gosto e capacidade de julgar, cada planta diria que a sua flor é a mais bonita." Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos lobos são lobos. Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. Dize-me como é o teu Deus e eu te direi quem és...
Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, não têm beleza alguma. Mas, se um artista os juntar segundo uma visão de beleza, eles se transformam numa obra de arte. As Escrituras Sagradas são um livro cheio de cacos. Nelas se encontram poemas, histórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos portentosos, textos eróticos, matanças, parábolas... Ao ler as Escrituras, comportamo-nos como um artista que seleciona cacos para construir um mosaico. Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos.
Como no caso do labirinto literário de Borges cujos cacos eram peças de um quebra-cabeças que, juntos, formavam o seu rosto, também o mosaico que formamos com os cacos dos textos sagrados tem a forma do nosso rosto. Há tantos deuses quanto rostos há. Assim, quando alguém pronuncia o nome "Deus" há de se perguntar: "Qual?"
- Rubem Alves
Reproduzido via Conteúdo Livre Tweet
domingo, 9 de outubro de 2011
O Amado não partiu
Foto: Isac Goulart
Vós que saístes a peregrinar!
voltai, voltai, que o Amado não partiu!
O Amado é vosso vizinho de porta,
por que vagar no deserto da Arábia?
Olhai o rosto sem rosto do Amado,
peregrinos sereis, casa e Kaaba.
De casa em casa buscastes resposta.
Mas não ousaste subir ao telhado.
Onde as flores, se vistes o jardim?
A pérola, além do mar de Deus?
Que descobristes em vossa fadiga?
O véu apenas, mas vós sois o véu.
Se desejas chegar à casa do alma,
buscai no espelho o rosto mais singelo.
- Rûmî
(Fonte: Marco Lucchesi. A sombra do Amado. Rio de Janeiro: Fisus, 2000, p. 39. Reproduzido via Blog do IHU) Tweet
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
O ícone e a caricatura
Colagem: Mareen Fischinger
O ícone é um tipo de pictografia que se distingue de outras por ser um caminho de contemplação dos mistérios de Deus, a exemplo da Trindade e da Encarnação. A contemplação através de ícones é uma tradicional forma de oração e degustação do divino, sobretudo na tradição ortodoxa cristã. O encontro de Deus através de uma imagem visa a um encontro autêntico com a identidade divina sem o uso de palavras ou conceitos. Há, então, um duplo paradoxo. Eis o primeiro paradoxo desse meio de expressão: apesar do uso de imagens, ele tem em vista uma superação destas imagens para o acesso ao mistério de Deus. Outro elemento paradoxal é que tal degustação não fica estacionada numa percepção sensorial, mas busca uma experiência totalizante, cuja centralidade, aí sim, pode reverberar no emocional.
Num extremo antagônico a este temos a arte evanescente da caricatura. Se o ícone evoca o mistério absoluto, a caricatura foca a relatividade da esfera do cotidiano como se fosse uma crônica do dia-a-dia sob forma visual. A charge, como exemplo de caricatura, serve para relativizar e satirizar o que se apresenta como “poder” e “verdade”. Nos jornais, ela nos faz pensar sobre determinadas situações de modo simples e espirituosamente incisivo. Neste processo interpretativo, cabe acompanhar as notícias e saber do assunto nela tratado, frequentemente sobre situações políticas ou de nosso cotidiano.
Logo, na caricatura, tudo evoca o que há de mais relativo; enquanto no ícone, o que há de mais absoluto. Um estilo é o oposto do outro. Há uma diferença na técnica do caricaturista e do iconógrafo. Ademais, com metodologia e objetivos distintos entre si, caricatura e ícone apresentam duas abordagens imagísticas diferentes do real. Sobre isso, há de se considerar que ambas dessas abordagens não se pretendem um acesso nítido do real. O mistério e o cotidiano não são realidades constatáveis por meio de instrumentos empíricos de análise.
Não se encontram em ambas as artes uma postura objetiva à maneira de um espelho, que refletiria exatamente a realidade tal e qual. As interferências do inconsciente e dos valores de cada um são matérias-primas do iconógrafo e do caricaturista em suas ânsias por revelação.
Assim, uma separação muito rígida entre o ícone e a caricatura, além de estreitizante, seria infiel à rica dinâmica dessas duas expressões artísticas. Caso fossemos fortemente estanques em nossa vida cultural e pessoal, iríamos provavelmente aprisionar o ícone numa catalogação dos “meios contemplativos”, excluindo o mistério de modos alternativos (alter-natura) de manifestação, o que seria um contracenso. Do mesmo modo, o caricaturista deveria ser franqueado a expressar a sua espiritualidade, mesmo que seja por uma via irônica, ou seja, pela ironia diante de teologias que se arrogam ahistóricas, colocando uma gravidade e seriedade sobre Deus, que nos impediria de concordar com a afirmação de Nietzsche: “Eu somente acreditaria em um Deus que soubesse dançar”.
Talvez tenhamos apenas caricaturas do divino. Deveríamos deixar de pretender explicar a Deus. Deus é o semper maior da tradição agostiniana e inaciana. Ainda que seja estranho conectar este semper maior com a caricatura e não com o ícone, usualmente associado à contemplação. Entendo que, paradoxalmente, a caricatura também pode servir a esse mote, pois Deus está além de nossa capacidade de acesso a ele.
Renunciar a isso, também poderia nos ajudar a entender as produções teológicas como produtos culturais, e assim mais próximos de discursos caricaturais sobre o seu mistério. Afinal, discursos que se apresentam como sendo descrições objetivas do mistério, além de pretensiosos e equivocados, não se abrem para as interpretações que discordam.
- Marcelo Barreira
Doutor em filosofia pela Unicamp e professor adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Reproduzido via IHU Tweet
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Preconceito, basta!
Cartum: Laerte. Clique na imagem para ampliar
(e no link em "Laerte" para uma excepcional entrevista)
(e no link em "Laerte" para uma excepcional entrevista)
Achado na seção de cartas do Estadão, 08/08/11:
Tenho 60 anos de idade e nunca me atraiu ou manifestei interesse em manter uma relação homossexual. Devo me orgulhar disso? Torna-me um ser humano melhor?
Luiz Nusbaum lnusbaum@uol.com.br
São Paulo
Grata pela compreensão, Luiz Nusbaum. Um bom fim de semana para você. :-)
Com amor,
Cris Tweet
terça-feira, 5 de julho de 2011
Entendendo a Homofobia pela sétima arte
Desde o sucesso de o Segredo de Brokeback Mountain, 2005, muitos filmes com a temática homossexual e quase dando um viés a homofobia foram lançados, um ponto que me chamou atenção é a intensidade do sofrimento psiquíco apresentado pelos personagens. Entretanto, se você trocar os personagens principais por Romeu e Julieta, acrescentando outros nomes aos demais, perceberá que muitos se tornariam massantes e básicos, sem o menor atrativo como obra cinematográfica. Então por que esses filmes são produzidos e veiculados? Simples: Quando algo se repete e reverbera, é sinal de que precisa ser mais bem elaborado ( Freud ). E, infelizmente ainda temos indícios sociais graves de que a sexualidade homoerótica não é bem-entndidade. Isso pode ser visto, também para os analistas sociais mais específicos da área.
Em todos os filmes sobre o tema, ficou claro que o sofrimento psiquíco existente não estava na orientação sexual inconsciente, mas sim, nas consequências que o preconceito traz para a vida dessas pessoas. Ou seja, o que “faz mal” aos homossexuais não é sua orientação, e sim, aquele que é preconceituoso. É uma questão social que traz impactos negativos ao psiquismo humano.
O Filme Anothes Gay Movie, 2006 tem algo de diferente e chama a atenção: O humor debochado. Se você gosta de filmes no Estilo American Pie, 1999 vai perceber total semelhança de estilo. Temos o mesmo enredo, porém, em uma versão gay. Acho importante citar este filme, pois ele deixa bem claro como a homofobia traz reflexos ruins no desenvolvimento de jovens que e descobrem homossexuais durante a adolescência.
Singularidade dos homossexuais
De uma forma inversa, por ser debochado, o filme mostra uma suposta sociedade ( que não é utópica, pois existe fora do Brasil ) onde homos, heteros, bis, tris, trans, pans, jans ou seja qual for a orientação, são aceita como são. Repare que os personagens do filme possuem um desenvolvimento ”normal” e passam pela adolescência tranquilamente, com conflitos comuns a esta fase da vida ( independente de orientação ).
A prova disso é que na Inglaterra, beijos, casamentos gays, personagens lésbicas já fazem parte dos enredos das novelas há mais de 20 anos, sinalizando que já foi algo elaborado “socialmente”.
Já o filme Get Real, 1998 foi produzido e gravado no Reino Unido, em uma cidade de “interior” ainda com resquícios de homofobia. Ele se passa em uma cidade pequena. Nessa mesma época, as ditas “cidades grandes” do Reino Unido já entendiam a homoafetividade de outra maneira.
Porém, se você comparar estes filmes verá que a homofobia, seja dos amigos, familiares e colegas de escola, é quem causa o sofrimento psíquico nos personagens. Mesmo quando se questionam sobre suas orientações, a “culpa” está sempre relacionada as aspirações e projeções que os outros fazem deles.
Outro filmes interessante é O clube do corações partidos ( The broken hearts club, 2006 ) que mostra um grupo de homossexuais adultos, saudáveis desfrutando sua vida normalmente, sem conflito e preconceito. É uma espécie de Sex and the City em versão gay, com todos esteriótipos e piadas comuns.
Em tempo de projeto de lei contra a homofobia muito se tem questionado sobre a homoafetividade, Os que são contra o projeto se embasam em aspectos religiosos para justificar algo que deveria ser laico – o direito. Este projeto não versa sobre imposição da sexualidade homoerótica, como alguns tem divulgado na mídia, mas sim, de liberdade de serem quem são, com respaldos legais para discriminações e agressões muito frequentes.
O preconceito e a Homofobia tornam toda descoberta da sexualidade homoerótica como um caso de Romeu e Julieta, de “amor proibido”, em que a sociedade, transforma os casais homossexuais em vítimas de sofrimentos psiquíco, e o final sempre condiz com o “feliz para sempre” proposto por Shakespeare.
Se você sentir qualquer sentimento negativo nos momento em que as cenas de beijo, ou mais “picantes” aparecerem em sua televisão, isso pode ser um indicativo de que as questões homoeróticas precisam ser melhor elaboradas, e se você pretende atuar em Saúde mental, precisa rever e deixar esses conceitos prevíos fora do seting psicoterápico.
Texto Elaborado por Eduardo J. S Honortado Psicólogo e Psicanalista;
Mateus Sant`Ana, Acadêmico de Direito do Complexo de Ensino Superior Santa Catarina – CESUCS;
Para a Revista Psiqué, edição 40.
Contextualizado e Atualizado por Felipe Resende, Psicanalista e Terapeuta Sexual.
Fonte: Homofobia Basta Tweet
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Rembrandt e o Cristo humano
(clique na imagem para vê-la ampliada)
A propósito da festa de Corpus Christi e aproveitando o ensejo da exposição sobre a figura de Cristo na obra de Rembrandt, no Museu do Louvre, publicamos hoje nosso último post da série sobre a abordagem do pintor à figura de Jesus, posterior a 1648. Tweet
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Rembrandt e os peregrinos de Emaús
Rembrandt: "Os peregrinos de Emaús", c. 1648
(clique na imagem para vê-la ampliada)
A propósito da festa de Corpus Christi e aproveitando o ensejo da exposição sobre a figura de Cristo na obra de Rembrandt, no Museu do Louvre, publicamos hoje mais uma abordagem do pintor à figura de Jesus, agora de c. 1648, quando ele tinha 42 anos. Tweet
terça-feira, 28 de junho de 2011
Rembrandt, Jesus e seus discípulos
(clique na imagem para vê-la ampliada)
A propósito da festa de Corpus Christi e aproveitando o ensejo da exposição sobre a figura de Cristo na obra de Rembrandt, no Museu do Louvre, publicamos hoje mais uma abordagem do pintor à figura de Jesus, agora de 1634, quando ele tinha 28 anos - um Jesus profundamente humano em meio à humanidade de seus discípulos. Tweet
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Rembrandt e o Cristo que agoniza
Rembrandt: "Cristo de Mas-d’Agenais", 1631
(clique na imagem para vê-la ampliada)
A propósito da festa de Corpus Christi e aproveitando o ensejo da exposição sobre a figura de Cristo na obra de Rembrandt, no Museu do Louvre, publicamos hoje mais uma abordagem do pintor à figura de Jesus, de 1631, aos 25 anos.
O Crucificado de Rembrandt expira... e a dor da agonia é, nesse momento, desprovida de qualquer glória. Tweet
domingo, 26 de junho de 2011
Rembrandt e a refeição de Emaús
Rembrandt: "A refeição de Emaús", c. 1629
(clique na imagem para vê-la ampliada)
A propósito da festa de Corpus Christi e aproveitando o ensejo da exposição sobre a figura de Cristo na obra de Rembrandt, no Museu do Louvre, publicamos hoje esta primeira abordagem do pintor à figura de Jesus, de 1629, quando ele tinha apenas 23 anos.
Um Jesus que se revela aos discípulos em Emaús, mas ainda na penumbra...
Bom domingo a todos! Tweet
sábado, 25 de junho de 2011
Rembrandt e a figura de Cristo
Rembrandt, "Cabeça de Cristo", c. 1648-54
(clique na imagem para vê-la ampliada)
Até o dia 18 de julho, o Museu de Louvre, na França, oferece uma excepcional viagem artística e espiritual na exposição “Rembrandt e a figura de Cristo”.
O texto é de Isabelle Francq, publicado pela revista francesa La Vie, 21-04-2011, e reproduzido via IHU.
Em 1629, aos 23 anos, Rembrandt pintou “A refeição de Emaús". Um pequeno quadro a óleo (conservado no Museu Jacquemard-André, em Paris), em que, em um primeiro plano, vê-se uma silhueta posicionada em frente ao brilho de uma vela que ilumina aquele que está diante dela e a perscruta. Assim, Cristo aparece irradiando a luz, mas permanece totalmente na sombra, em todo o seu mistério e sem que se possa distinguir seus traços.
Em 1648, o mestre flamengo pintou “Os peregrinos de Emaús" (conservado no Museu do Louvre). Desta vez, Cristo aparece de frente, mostrando um rosto sem beleza alguma, mas cheio de humanidade. Entre os tempos e ao longo de sua vida, a exposição do Louvre demonstra a figura de Cristo pintada por Rembrandt. Além de cenas de pregação, de milagres e crucificação, ele pintou uma série de sete faces de Cristo dos quais não se conhece a cronologia e sem que se saiba se se trata de estudos preparatórios ou de obras definitivas.
De toda forma, Rembrandt compôs esses retratos de Cristo na época em que se representavam sobretudo cenas bíblicas. Pela primeira vez, esses sete quadros são reunidos, (...) [permitindo] penetrar na trajetória artística desse gênio da pintura e desse leitor questionador da Bíblia em busca da verdade de Jesus. Voltando as costas para o academicismo da sua época e às representações de um Cristo de uma beleza ideal, vê-se nas figuras de Rembrandt uma paleta de emoções cheias de humildade, de doçura e de fragilidade. Em resumo, encontramos um homem.
E é nessa sua humanidade que Rembrandt busca nos dizer Deus. Para chegar lá, ele se inspirou em modelos vivos. Por uma questão de autenticidade, ele pode tê-los escolhido na comunidade judaica de Amsterdam…
* * *
Publicaremos aqui no blog, uma por dia, as sete telas de Rembrandt. É nossa forma de, nesta semana de celebração de Corpus Christi, propor uma reflexão a respeito da humanidade desse Cristo que nos alimenta. Tweet
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Como lidar?
(1)
Este(a) é você.
Este(a) é você sob a influência de uma pessoa ou experiência negativa.
Este(a) é você se deixando consumir pela negatividade e tendo um dia péssimo.
(2)
Este(a) é você.
Este(a) é você sob a influência de uma pessoa ou experiência negativa.
Este(a) é você reconhecendo essa carga negativa, aceitando essa realidade e deixando-a passar pela sua consciência, aprendendo alguma coisa - mas sem permitir que ela estrague o seu dia.
E você? ;o)
(A gente não muda o que acontece, mas muda o que a gente faz com o que acontece.)
Via don't touch Tweet
Mais amor, por favor
Nestes tempos tão necessitados de amor...
Ygor Marotta tem apenas 24 anos e todo o sentimento do mundo. E é com suas duas mãos que ele escreve pelos muros de São Paulo a frase “Mais amor, por favor”. “É uma frase feita para que as pessoas passem para frente. Uso o picho como suporte, mas também cartazes e vídeos”, diz o garoto, que trabalha com criatividade em artes visuais, música e vídeo. O projeto surgiu despretensiosamente do nada, em 2009.
“Nunca veio uma ideia na sua cabeça e você a anotou em algum lugar?”, pergunta. “A frase veio da necessidade de ter mais amor, ver mais amor nesta sociedade em que vivemos, na qual os valores são outros, muito ligados a dinheiro”, diz Marotta. “É um pedido, uma imploração (mas com educação) em meio a toda agressividade, indiferença e velocidade de uma metrópole como São Paulo. É uma proposta que tenta fazer com que o observador se surpreenda com o conteúdo da frase inserida no âmbito urbano e reflita por um tempo, ou pelo menos abra um sorriso no momento da leitura.” Como o amor pede delicadeza, Marotta escolheu fazer grafite com letra cursiva, menos caótica e agressiva do que as que costumamos ver pelas ruas.
A resposta que Ygor recebe dos habitantes da cidade é constante, tanto nas ruas quanto na internet. Pesquisando a frase no Google, a gente encontra centenas de fotos, desenhos, etc., tanto do grafite quanto de pessoas tirando fotos em frente a elas, fazendo releituras em outros suportes. “Parece que o amor é uma necessidade coletiva; 90% das pessoas aprovam a frase, e é bom que tenha os outros 10% para abrir a discussão. Meu dia a dia ganhou mais amor e mais “por favor”. Já presenciei estranhos abrindo um sorriso no rosto ao parar o carro ao lado de um muro. Conheci pessoas que colecionam fotos da frase, que se tatuaram. Algumas me ligam contentes ao presenciar um novo muro e outras agradecem por lembrá-las de algo tão simples, mas tão fundamental.” Ygor acredita que “Mais amor, por favor” não é apenas uma frase vazia. “Creio no poder transformador do amor. E tento seguir esse conceito à risca, passando para as pessoas com que convivo e para outras que sequer conheço.”
- Daniela Arrais em "O amor nos dias de hoje", para a Revista Conhecer
Grifos meus. Tweet
sábado, 12 de março de 2011
Da (in)compreensão
Em tempos de violência homofóbica na capa da Época, é tempo de rezar juntos: livrai-nos da incompreensão, Senhor.
Um bom fim de semana a todos. :-) Tweet
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
O sagrado fala aos homens de todas as gerações
Ilustração: Claudio Pastro
Em 2007, a propósito da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, a agência ZENIT entrevistou o artista plástico brasileiro Cláudio Pastro, responsável pelo projeto artístico do interior da capela de Bento XVI em seu aposento no Seminário Bom Jesus em Aparecida.
Cláudio Pastro, um dos mais renomados nomes da arte sacra no Brasil, trabalhou na construção de cerca de 200 igrejas nos últimos 30 anos. É também o responsável por toda parte de arte que está sendo realizada no interior da Basílica do Santuário de Nossa Senhora Aparecida.
O tempo passa sempre. O sagrado, que está ligado à eternidade, fala aos homens de todas as gerações. Uma imagem, uma pintura, uma escultura, um gesto de beleza que está ligado ao sagrado é uma linguagem universal que toca o mais íntimo de cada ser humano, que não nos cabe. Fazer arte sacra não é como encomendar uma peça de automóvel. Infelizmente, quem tem menos conhecimento disso hoje é o clero. Vê-se que os leigos estão buscando isso. Buscando uma vivência cristã profunda que permite o sagrado entrar na vida. É o sagrado que nos educa, não somos nós, com nossos interesses e nem com as nossas forças. E o que é o sagrado? É a presença do próprio Deus. Dando um exemplo, neste contexto de sagrado, o silêncio é fundamental. Na Basílica de Aparecida está escrito: "Silêncio, estamos orando". Eu disse para mudarmos essa placa e escrever: "O silêncio é oração". Quando você faz silêncio, você dá espaço para Deus falar. Quando tem só o essencial, você dá espaço para Deus entrar. Se você começa a encher com florzinhas, uma estátua aqui e outra ali, uma cortina acolá, não sobra espaço para Deus. A Igreja tem um jeito de ser e existir desde Jesus que se impõe no tempo e no espaço. Quando eu faço uma obra de arte, eu nunca penso nas pessoas, em como as pessoas vêem isso, mas eu estou interessado numa fidelidade, numa profundidade e numa espiritualidade séria. Depois é o Cristo que vai falar.
- Cláudio Pastro
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Que a beleza e a simplicidade que cruzem nossos caminhos hoje nos sirvam de pontes para encontrar a Deus. Bom dia! :-)
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