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terça-feira, 3 de abril de 2012

Menino brinca de boneca?


O Luiz Henrique, do excelente Queer and Politics, num post imprescindível sobre homofobia e educação (não deixe de ler aqui), propôs uma discussão: se um vídeo que andou viralizando na rede nas últimas semanas mostrasse dois meninos ou duas meninas apaixonadas, em vez de um menino e uma menina, será que as pessoas teriam achado fofinho e compartilhado? Ou teria gerado escândalo? Isso nos lembrou muito o post da mãe do menino apaixonado pelo personagem gay de Glee e sua repercussão aqui. E o que isso fala sobre a questão da homofobia nas escolas, de que já tratamos aqui? Será que a educação não pode mesmo fazer nada a respeito, como recentemente declarou nosso ministro da educação (sic)? E as crianças, como vivenciam e refletem essas questões?

(Vídeo via Queer and Politics)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Para que os seres humanos possam ser Deus

Foto: Théo Gosselin 

Nascida de uma visão mais profunda do que palavras, e transmitida através do silêncio cheio do Espírito, a mensagem cristã é constrangedora. "Deus fez-se humano para que os seres humanos possam ser Deus."

Esta recorrente afirmação dos primeiros teólogos soa mais ousada do que muitos teólogos arriscariam dizer hoje, e resistiu com muita força às tentativas do dualismo gnóstico de diluí-la. É claro que só podemos compreender o que isso significa pela experiência de nossas vidas, quando tentamos viver – e fracamente, na maior parte do tempo – como se fosse a verdade central, a coisa real em todas as circunstâncias.

Ela sugere que a Encarnação é Deus concentrado em um ser humano singular, para que Deus possa de fato "tornar-se plenamente humano". De que outra forma pode-se ser humano sem ser um ser humano em um tempo e lugar determinados? Os teólogos clássicos achavam que isso era necessário, mas que o sofrimento experimentado por este indivíduo era inevitável. Deus precisava ser humano. Jesus, o cumprimento dessa necessidade divina, assim como qualquer outro humano, não queria sofrer. (Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice!).

Para muitos, hoje em dia, essa doutrina pode parecer abstrata e paroquial. Na verdade, ela muda a forma como nós mesmos nos encarnamos em nossas próprias e únicas histórias de vida, através de todas as fases de nosso desenvolvimento. Ela nos ajuda a não ficar presos na mentalidade infantil ou no comportamento adolescente, como vemos acontecer na maioria dos conflitos violentos e, de fato, em muitos dos nossos próprios problemas pessoais.

Ele também nos ensina o modo autêntico de lidar com o sofrimento. Como diz Leonard Cohen, devemos aprender a lamentar nos estritos limites da dignidade e beleza. A tendência do ego à auto-piedade arrisca tornar-nos isolados e amargos. Mas saber qual é nosso destino, para onde o sofrimento nos leva, dá tanto compaixão quanto dignidade para a nossa abordagem da decepção, do sofrimento e da perda.

É por isso que a Quaresma é um tempo cristão. E que a meditação é uma oração cristã. Não devemos nos castigar por causa de nossas falhas, ou buscar a iluminação apenas como uma fuga do sofrimento. Mas para ser plenamente humanos, completamente acordados, a fim de que possamos realmente "tornar-nos Deus", como estamos programados a ser.

- Laurence Freeman OSB
Mensagem para a Segunda-Feira da Terceira Semana da Quaresma (12/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sábado, 24 de março de 2012

O atrativo de Jesus

Imagem daqui

Uns peregrinos gregos que vieram celebrar a Pascoa dos judeus aproximaram-se de Felipe com uma petição: «Queremos ver Jesus».

Não é curiosidade. É um desejo profundo de conhecer o mistério que se encerra naquele Homem de Deus. Também a eles lhes pode fazer bem.

Jesus é visto preocupado. Dentro de uns dias será crucificado. Quando lhe comunicam o desejo dos peregrinos gregos, pronuncia umas palavras desconcertantes: «Chega a hora de que seja glorificado o Filho do Homem». Quando for crucificado, todos poderão ver com claridade onde está a Sua verdadeira grandeza e a Sua glória.

Provavelmente ninguém entendeu nada. Mas Jesus, pensando na forma de morte que o espera, insiste: «Quando Eu for elevado sobre a terra, atrairei todos até Mim». Que se esconde no crucificado para que tenha esse poder de atração? Apenas uma coisa: O Seu amor incrível a todos.

O amor é invisível. Só o podemos ver nos gestos, nos sinais e na entrega de quem nos quer bem. Por isso, em Jesus crucificado, na Sua vida entregue até à morte, podemos perceber o amor insondável de Deus.

Na realidade, só começamos a ser cristãos quando nos sentimos atraídos por Jesus. Só começamos a entender algo da fé quando nos sentimos amados por Deus.

Para explicar a força que se encerra na Sua morte na cruz, Jesus utiliza uma imagem simples que todos podemos entender: «Se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica infecundo; mas se morre, dá muito fruto».

Se o grão morre, germina e faz brotar a vida, mas se se encerra no seu pequeno invólucro e guarda para si a sua energia vital, permanece estéril.

Esta bela imagem descobre-nos uma lei que atravessa misteriosamente a vida inteira. Não é uma norma moral. Não é uma lei imposta pela religião. É a dinâmica que torna fecunda a vida de quem sofre movido pelo amor. É uma ideia repetida por Jesus em diversas ocasiões: Quem se agarra egoistamente à sua vida, deita-a a perder; quem sabe entrega-la com generosidade gera mais vida.

Não é difícil comprová-lo. Quem vive exclusivamente para o seu bem-estar, o seu dinheiro, o seu êxito, a sua segurança, acaba vivendo uma vida medíocre e estéril: a sua passagem por este mundo não faz a vida mais humana. Quem se arrisca a viver uma atitude aberta e generosa, difunde a vida, irradia alegria, ajuda a viver. Não há uma forma mais apaixonante de viver que fazer a vida dos outros, mais humana e leve.

Como poderemos seguir Jesus se não nos sentimos atraídos pelo Seu estilo de vida?

- José Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos

sexta-feira, 23 de março de 2012

Fazer a hora ou esperá-la? #CasamentoIgualitário

Imagem daqui

Hoje entrou no ar o site www.casamentociviligualitario.com.br. A iniciativa visa angariar apoio da opinião pública para o projeto de emenda constitucional apresentada pelo deputado federal Jean Wyllys que almeja garantir por lei a casais gays a instituição do casamento civil, com os mesmos direitos e deveres dos casais héteros.

Acho admirável qualquer iniciativa que vise retirar-nos da situação de sub-cidadania em que, ainda, vivemos. O termo “casamento” ou “matrimônio” sempre gera bastante polêmica, como se tais palavras fossem de uso exclusivamente religioso, o que é uma bobagem. O “casamento civil” está aí, justamente, para secularizar a sagrada instituição do matrimônio.

Agora não sei se, estrategicamente, é a hora para insistirmos nesta nomenclatura. Pode parecer um detalhe insignificante a princípio, mas “união civil gay” e “casamento civil gay” repercutem de modo bastante diferente na sociedade brasileira.

Se não me engano, na maioria dos lugares em que as uniões gays ganharam a nomenclatura de “casamento” foi em um momento subsequente ao do estatuto da união civil, que me parece um primeiro passo para a sociedade perceber que reconhecer, pelo direito, as uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo não representa nenhuma ameaça real à sociedade. A não ser é claro que a heterossexualidade seja um mito e, imediatamente depois de reconhecida legalmente a união gay, todos os maridos larguem suas esposas e arranjem um bofe prometendo casa, comida e ingressos para o próximo show da Madonna.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Homofobia nas Escolas

Cartaz da campanha da rede portuguesa Ex Aequo 
sobre homofobia na escola. 


Luiz Henrique Coletto, um dos editores do Bule Voador, introduz o texto abaixo explicando que, em novembro de 2011, "ocorreu na Câmara dos Deputados o Seminário Plano Nacional de Educação – mobilização nacional por uma educação sem homofobia, que foi promovido pelas comissões de Legislação Participativa, de Direitos Humanos e Minorias e de Educação e Cultura. O evento tinha o objetivo de pressionar por uma abordagem mais ampla e diversificada do tema do que aquela que se pretende com a nova versão do PNE – a observação principal do movimento LGBT é a de que as próprias Conferências Nacionais de Educação haviam previsto bem mais ações do que a única que consta na nova versão do Plano."

Nesse seminário, a antropóloga Debora Diniz fez uma reflexão sobre a homofobia "abordando, basicamente, dois eixos", resume Coletto: "um sobre a definição da homofobia que observa suas implicações práticas – naquilo que a autora vai diferenciar por vítimas da homofobia e refugiados da homofobia; e outro sobre o efeito linguístico e ideológico que a adoção do termo
bullying encobre em relação à homofobia nas escolas. Este segundo ponto é, notadamente, o mais interessante porque traz uma perspectiva relativamente nova sobre a questão ao desnaturalizar o uso pouco reflexivo que temos feito do termo bullying." 

(Fonte: Bule Voador)



Obrigada pelo convite para participar de tão importante evento para a educação e a igualdade no Brasil. Em particular agradeço a Toni Reis – parte da minha militância pela igualdade sexual é inspirada pelo trabalho que ele realiza. Dada a extensão de apresentações nesta tarde, minha exposição será breve. Tocarei em dois conceitos que considero centrais: i)o que é homofobia e como ela viola a igualdade na escola; ii) por que devemos falar em homofobia e não em bullying nas escolas.

(i) O que é homofobia?
Homofobia é uma prática discriminatória que falsamente pressupõe a superioridade da heterossexualidade a outros regimes e práticas sexuais. Homofobia e heteronormatividade, isto é, a hegemonia heterossexual à vida social, se sobrepõem, apesar de ser possível traçar fronteiras políticas entre os conceitos. A homofobia se expressa pela violência, pela injúria, pela opressão. Falamos em vítimas da homofobia. Queria demarcar a violência na homofobia: a homofobia sempre deixa marcas, sejam as feridas no corpo, o cadáver ou as barreiras no reconhecimento. Há um vocabulário de conflito armado sendo agora apropriado pelos movimentos LGBT: “ataques homofóbicos”, “crimes homofóbicos”, “luta pela igualdade”, “desaparecimento de pessoas”, etc. Sim, ao mesmo tempo em que é um vocabulário político de denúncia, precisamos estranhá-lo pelo que nos chama a atenção – estamos em um conflito armado? Só há dois destinos aos fora da norma heterossexual: serem vítimas da violência homofóbica ou serem refugiados de sua patrulha moral. Grande parte de nossos refugiados da heteronormatividade estão nas escolas, descobrindo-se frente a um ambiente homofóbico.

Não há fundamento moral ou ético possível e aceitável para a homofobia.

A homofobia é um dos dispositivos que mantém a ordem heteronormativa na vida social – e a escola é um dos espaços prioritários para a garantia dessa ordem. É lá que se promovem os valores compartilhados à cidadania. A homofobia viola a igualdade, impede o reconhecimento, autoriza práticas de violação de direitos humanos. Não há fundamento moral ou ético possível e aceitável para a homofobia. Um homófobo precisa ser silenciado e suas práticas reprimidas. Por isso, a criminalização da homofobia é tão eloquente para a igualdade – o que me parece um paradoxo a quem acredita na educação como um dos principais sistemas de promoção da igualdade. E aqui quero ser clara: não há sistema de crença que legitime a homofobia, por isso não há como se apelar à expressão religiosa para o discurso homofóbico como expressão da liberdade de crença. Religião não autoriza ou legitima o discurso do ódio. E menos ainda nas escolas, onde ensino religioso é ainda pouco regulamentado pelo MEC. Essa afirmação simples traz conseqüências imediatas para as práticas de convivência e pedagógicas das escolas. Professoras, pedagogias e convivências devem se subordinar à igualdade sexual como um valor. Os livros – mesmo os de religião – devem reconhecer a igualdade em matéria sexual e afugentar expressões homofóbicas de seus textos e vozes.

Aqui chegamos no outro lado de um esforço à criminalização da homofobia e o que toca diretamente a educação e a escola. Tenho dúvidas se uma lei que reprima com a força do Estado a homofobia irá mudar comportamentos e valores. Talvez os iniba, o que já é importante para o direito à vida das vítimas da homofobia. Mas para os refugiados da homofobia não é suficiente. Por isso, a escola é um espaço tão prioritário para ações duradouras de promoção da igualdade. A escola mira o futuro, além de atuar no presente. O Direito Penal persegue o passado nos homófobos. É na escola que nosso principal esforço para a igualdade sexual precisa estar. Mas não é simples: os homófobos podem ser os professores, os diretores das escolas, os pais das crianças. A resistência homofóbica e heteronormativa ronda as ações de igualdade sexual. Vejam a controvérsia – agora parece resolvida – dos vídeos educativos sobre sexualidade, os kit anti-homofobia do MEC. Simplesmente romper o silêncio já parece insuportável para a moral heteronormativa que se mantém por um braço violento – a homofobia – e por um braço opressor silencioso – a hetenormatividade compulsória que falsamente supõe que o acoplamento pênis-vagina é o destino da reprodução social e biológica da humanidade.

(ii) Homofobia e não bullying!
Bullying é um neologismo com origem na língua inglesa que diz algo como “provocação”. A provocação entre crianças é parte de uma socialização naturalizada – se provoca para se reconhecer os limites e se definir frente ao outro como um espelho. Mas há outra raiz no conceito de bullying: quem provoca e agride é o “valentão”. Há desigualdade de força e de potência no sujeito que atua pelo bullying. O ator do bullying é alguém que sabe que tem força – e aqui é força física. Ele atua sozinho ou em grupo. Alguns dizem que o bullying sempre existiu. Sim, me lembro do meu tempo de escola – sempre havia provocações contra os gordinhos, as meninas vesgas ou as crianças com deficiência. Me lembro também do sofrimento dessas crianças. Em geral, eram crianças solitárias. Tento imaginar as consequências dessas provocações injustas para os adultos de hoje. Elas foram refugiadas da fúria contra a diferença marcada no corpo. Elas são sobreviventes do bullying escolar, de um tempo em que o neologismo não nos socorria para expressar a indignação pela provocação injusta.

Houve algo de novo para precisarmos de um neologismo para falar dos novos acontecimentos: a sexualidade na infância e na adolescência passou a estar na agenda política e educacional. Crianças e adolescentes têm sexo e sexualidade.

Aqui está a chave do bullying: é uma violência contra o corpo fora da norma. Vejam que não falo em normal, pois norma e normal se confundem para a imposição das regras sob o corpo. O corpo que foge da regra – seja nos olhos da menina vesga, nas pernas do menino cadeirante, ou no cabelo da menina negra – é matéria suficiente para ação do indivíduo ou do grupo provocador. Por isso, estranho o uso do neologismo de bullying para algo tão antigo e persistente ao universo escolar, e com tantas ramificações na discriminação. A discriminação pelo corpo acompanhou a socialização de todos nós nesta sala e acompanha a vida de todas as crianças. Vivemos em uma ordem social que discrimina e oprime a diferença no corpo. A minha descrição da persistência não significa que devemos naturalizá-la: ao contrário, é uma prática perversa, injusta e imoral. Precisamos falar dela e rompê-la exemplarmente. Mas houve algo de novo para precisarmos de um neologismo para falar dos novos acontecimentos: a sexualidade na infância e na adolescência passou a estar na agenda política e educacional. Crianças e adolescentes têm sexo e sexualidade.

Temos um nome para o bullying com fundamento na cor da pele: racismo. Por isso, sugiro manter a mesma potência no campo sexual: o bullying sexual tem um nome, homofobia.

Bullying nada mais é que um neologismo puritano e burguês – um vocábulo heteronormativo – para falar da provocação, da discriminação aos fora da norma heterossexual. Quem são as vítimas do bullying midiatizadas nos últimos tempos? O menino que se tranveste, a menina que gosta de outras meninas, o transexual que não sabe que banheiro usar na escola. Com raras exceções de uma política inclusiva à violência corporal, raramente ouvi falar em bullying contra as crianças obesas ou com impedimentos corporais. Quando os gordinhos aparecem, são como um apêndice da diversidade no bullying. O alvo são os fora da norma heterossexual. Quando o tema é a cor da pele, não falamos em bullying. Temos um nome para o bullying com fundamento na cor da pele: racismo. Por isso, sugiro manter a mesma potência no campo sexual: o bullying sexual tem um nome, homofobia.

O bullying é um neologismo paradoxal. Ao mesmo tempo potente, pois nos permitiu entrar na escola e descrever algo silencioso: a homofobia nas práticas de provocação entre crianças ou entre professores e crianças. Mas também esconde seu próprio fundamento na sexualidade: retiramos a sexualidade do bullying, não falamos em homofobia. A naturalização do bullying como algo comum e permanente à infância e à escola esconde sua matriz heternormativa. O bullying não é espontâneo nas crianças, não pode ser natural à socialização das crianças. A origem do bullying que nos interessa hoje é a homofobia, um conceito poderoso e que precisa ser potencializado na escola.

O neologismo bullying é palatável às escolas, às famílias, à moral heterossexual. Não falamos em crianças e adolescentes e suas práticas sexuais fora da norma. Falamos em “provocações” e protegidas por um neologismo que a distância lingüística não nos provoca diretamente. Sentimos diferentemente, como se fosse, falsamente, um novo fenômeno. Não é. A homofobia está na escola, assim como na Avenida Paulista. O bullying na escola é uma expressão primária e permanente da homofobia em nossa vida social. Por isso, minha principal recomendação política a esta audiência pública é que reconheçamos a força política do conceito de homofobia. Não falamos de bullying apenas, mas de crianças e adolescentes refugiado pela fúria homofóbica, que precisamos proteger para que não se transformem em vítimas da homofobia no futuro ou mesmo na escola.

- Debora Diniz
Antropóloga, Professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. Apresentação na Audiência Pública Homofobia nas Escolas - Câmara dos Deputados, novembro de 2011.

terça-feira, 20 de março de 2012

O que é fundamental no casamento


O que redime um casamento não é massagem tântrica, a abertura dos chacras, a dança do ventre, a ioga, aprender passos de salão, curso de sensualidade.

Louvo todas as iniciativas de compreensão mútua e desenvolvimento emocional.

Mas o que é fundamental num relacionamento é saber coçar as costas do outro.

Casal do mal espreme as espinhas de sua companhia. Casal do bem coça as costas.

É uma arte milenar egípcia. Dizem que é invenção do conselheiro do faraó Tutancâmon, Adel Emam Alef, o mesmo criador da pizza. Ao sovar a massa, encontrou a punção ideal.

Coçar as costas depende da exatidão do movimento. Muitos maridos, muitas esposas, desistem de pedir após a terceira tentativa e se recolhem à frustração sexual.

A inabilidade em esfregar o parceiro representa hoje a maior causa do divórcio no país. Superou os tradicionais motivos de desquite como palitar os dentes e ausência de cerveja na geladeira.

Devia constar como item indispensável no curso de noivos. O carinho primitivo libera serotonina e os peptídeos opioides beta-endorfina, meta-encefalina e dinorfina, combatendo depressão e estados de ansiedade.

As unhas não podem estar muito compridas, muito menos sujas. Não vale arranhar, sangrar ou esfoliar a pele. A compressão dos dedos terá o peso de uma esponja, e dura até quatro minutos (acima disso, entra no terreno da bolinação).

A posição ideal do beneficiado é de pé, com a cabeça lançada para frente, naquela inclinação para receber cascudo.

Cuidado com a vontade. Já vi gente coçar, não conter o entusiasmo e ser presa por agressão. Porque coçar é delicioso e insaciável, o coçador tem um prazer semelhante ao do coçado. Facilmente a coçadinha inocente desemboca em chagas de São Francisco de Assis.

O ato se caracteriza pela fricção sensual, de baixo para cima. É descobrir a zona de irritação e não mais levantar a mão. Como um desenho sem largar o lápis.

A cura do desconforto virá com a constância, com a dedicação exclusiva do gesto. Não é permitido coçar e assistir televisão, coçar e ler um livro, coçar e olhar para o lado. Duas ações ao mesmo tempo quebram o ritmo e diminuem a qualidade do serviço.

Coceira em grego significa “cuide de seu amor”. Não vale se distrair. Mergulha-se numa meditação dos dedos, na contemplação messiânica das unhas.

A invasão será superficial, indolor, intermediária entre a picada de mosquito e pontada de acupuntura. Mas o alívio equivale a um início de orgasmo.

Coçar as costas é um socorro amoroso de grande utilidade. Importante estar perto sempre.

Tragédia é quando sua mulher [ou marido] sente a tremedeira nas vértebras e não dispõe de sua companhia.

- Fabricio Carpinejar
Reproduzido via Conteúdo Livre

Vídeo da campanha 'It Gets Better' para famílias de jovens e crianças trans


Lindo o novo vídeo da campanha It Gets Better, dirigido às famílias de crianças e jovens trans. Afinal, sair do armário também não é tarefa fácil para os nossos pais. Nesse momento, é preciso informação, apoio e amor, muito amor.

Leia também:
"Quando o filho sai do armário, a mãe entra"
Carta de um padre católico aos pais de homossexuais






segunda-feira, 19 de março de 2012

Espaço para a autenticidade


Gosto, mas gosto muito, que a primeira palavra de Jesus no Evangelho de João seja uma pergunta (e seja aquela pergunta): “Que procurais?” (Jo 1,38). Consola-me ir percebendo que o que sustenta a arquitetura dos encontros e dos desencontros que os Evangelhos relatam é uma espécie de coreografia de perguntas, um intenso tráfico interrogativo, construído a maior parte do tempo a tatear, sem saber bem, com muitas dúvidas, muitos disparos ao lado, muita incapacidade até de comunicar. Isso é uma âncora, por muito que nos custe, pois uma vida só assente em respostas é uma vida diminuída, à maneira de uma primavera que não chegou a ser.

Não sei como vai rebentar em nós a primavera, como se vai acender este reflorir que a natureza insinua, este renascer que o gesto pascal de Jesus espantosamente (res)suscita na nossa humanidade. Sei apenas que nas perguntas, mesmo naquelas que são difíceis e nos estremecem, reencontramos a vida exposta e aberta, certamente mais frágil, mas a única que nos permite tocar as margens de uma existência autêntica.

Todos somos habitados por perguntas e elas cartografam zonas silenciosas, territórios de fronteira do nosso ser. Estes dias reencontrei a pergunta de Pilatos (ainda no Evangelho de João): “O que é a verdade?” (Jo18,38). E dei comigo a aproximar esta pergunta de uma das frases emblemáticas de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,2). Sem querer relativizar a natureza densamente dogmática do enunciado, dei comigo, porém, a revisitá-lo em chave existencial. E era como se Jesus, mestre da vida que incessantemente se reformula em nós, nos desafiasse a uma apropriação. Sim, a uma apropriação.

É necessário que perante a multidão dos caminhos percorridos e a percorrer cada um de nós diga: “eu sou o caminho que percorro”. É decisivo que as verdades que acordamos não sejam uma sobreposição, mas uma expressão profunda do que somos: “eu sou a verdade”. É urgente que a vida não seja só a acumulação do tempo e do seu cavalgar sonâmbulo, mas que cada um, pelo menos uma vez, possa dizer plenamente: “eu sou a vida”. Acho que é disto que o mistério pascal fala.

- José Tolentino Mendonça
Reproduzido do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

domingo, 18 de março de 2012

Acordar da anestesia espiritual


(...) O ser humano está como “anestesiado” diante do outro. O outro não interessa, e um número que nos passa perto, uma fantasma e não uma pessoa amada, parte de nós mesmos. Atenção ao outro exige que se deseje para o outro todo o bem.

A pessoa não pode ser feliz a pedaços, como pedras de mosaico, separadas umas das outras, mas no seu conjunto: a felicidade, o bem e a globalidade da pessoa que se realiza no seu todo. Não há felicidade quando falta o pão na mesa, o trabalho, os meios para curar-se das doenças, o alimento cultural que gera desenvolvimento. É preciso uma revolução a partir de dentro de nós mesmos, que nos coloque diante do outro como nosso irmão e deseja para o outro o que nós desejamos para nós.

A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. (n. 1)

Na verdade os sacerdotes levitas não maltratam quem tinha caído nas mãos dos ladrões e estava meio morto à beira da estrada, nem o ofenderam, nem tampouco cuspiram nele. Mas passaram e viraram o olhar ao outro lado. É o pecado da indiferença que está se tornando a cultura dominante do mundo. Não dar importância ao outro. A quaresma é o momento em que devemos nos acordar da anestesia, sentir dor não só pelas nossas feridas, mas também as dos outros. A vida cristã não é uma filosofia e um discutir sobre os problemas, mas sim ver, julgar e agir… Sem ação direta não haverá mudanças de estruturas e de estilo de vida, nem compromisso social que leve o ser humano a uma vida mais digna.

- Frei Patrício Sciadini, ocd, religioso, Carmelita Descalço, comentando a mensagem do Papa para esta Quaresma (aqui)

Fonte: ZENIT

sábado, 17 de março de 2012

O dia está cheio de esplendor

Foto via Blue Pueblo

Para @geisinhaguega ;-)

Eu me lembro, quando noviço, quando cantava as palavras do hino da manhã todos os dias: "o dia está cheio de esplendor…" Elas se repetiam em minha mente como um jingle. Um dia me dei conta de que talvez elas significassem alguma coisa de fato. Não eram somente uma frase piedosa, repetida por séculos para manter a mente em semicoma, como se o espírito fosse um coala indolente mascando folhas de eucalipto.

Talvez aquele que escreveu essas palavras realmente sentisse que o esplendor preenchia cada dia, qualquer que fosse o clima emocional ou geográfico. Etty Hillesum viu isso claramente em meio às condições sombrias e degradantes da vida em um campo de concentração. E se não passarmos a compreendê-lo um pouco melhor, nem formos capazes de enxergá-lo por nós mesmos como resultado de nossas disciplinas quaresmais, devemos estender nossa Quaresma até conseguirmos fazê-lo.

Cada dia, por mais estressante que seja, carregado de boas novas ou de repetidas decepções, está carregado de momentos de silenciosa eloquência, de glória natural. Pode ser o digno pôr do sol de um dia glacial, a brilhante efusão de cores em um hibisco vermelho, o tímido brotar de magnólias brancas ou cor-de-rosa perfumando seu mundo, tal qual alguém encantador inocentemente tomando consciência de sua própria beleza pela primeira vez. Pode ser o sorriso gentil e a graça de alguém prestando um pequeno serviço remunerado, uma comissária de voo presente para si mesma e para seus passageiros, um policial que caminha alguns passos com você para lhe dar informações melhores, enquanto seus colegas fazem seu trabalho com relutância ou de mau grado.

Quanto mais destes esplêndidos momentos particulares você vê, mais eles se ligam entre si. Você se dá conta de que não são fenômenos isolados, momentos da supernova de estrelas que morrem, mas aspectos da ordem natural e universal das coisas. Este esplendor é na verdade a natureza subjacente da realidade.

As disciplinas da Quaresma ou a disciplina diária do mantra são um preço pequeno a pagar para entrar neste mundo, o mundo real.

- Laurence Freeman OSB
Mensagem para a Sexta-Feira da Terceira Semana da Quaresma (16/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sexta-feira, 16 de março de 2012

E quem é a mulher?

Foto daqui

Em um dos últimos posts [aqui], explicávamos porque não existe a escolha ou a “opção” sexual. Trata-se de um, entre tantos, mitos sobre a sexualidade dos quais nos ocuparemos de vez em quando neste blog.

Hoje queremos falar de outros que tem a ver com uma mesma confusão: algumas pessoas não entendem que nós, gays, gostamos de homens e que as lésbicas gostam de mulheres.

Parece óbvio. Apesar disso, já escutei muitas vezes esta pergunta, dirigida a um casal gay: “Quem é o homem e quem é a mulher?”. Eu, às vezes, respondo da maneira mais séria que possa: “E com você e a sua namorada, como funciona? Ela se finge de homem ou você de mulher?”.

É que, pensando com a mesma lógica, eu deveria supor – já que eu gosto de homens – que a única explicação para que outro homem forme um casal com uma mulher é que ela se finja de homem.

Se não, como é possível?

Mas não é assim, porque existem homens que gostam de mulheres.

Sim, ainda que você não acredite.

E se fingindo de mulheres, seja lá o que isso signifique para cada um.

Perguntar sobre quem é a mulher em um casal gay é querer interpretá-lo partindo da impossibilidade do desejo homoerótico, como se, parar que um homem goste de outro homem, um dos dois deva ser, de algum modo, feminino. O mesmo vale para quem pensa que, em um casal de lésbicas, uma das duas “seja o homem”.

Tem mais: uma olhada rápida por páginas de paquera gay surpreenderia a mais de um: estão repletas de avisos que põem o destaque, às vezes bastante estereotipado e machista, na masculinidade. “Macho busca Macho”.

Em um casal gay, os dois “são os homens”, seja lá o que isso signifique para cada um. “Masculino” e “feminino” são duas categorias da linguagem, como “hétero”, “homo” e “bi”, com as quais tratamos de aprisionar um universo muito mais complexo, cheio de tons de cinza e, sobretudo, de cores. Mas deixemos essa parte da história para outro dia. O que queremos deixar claro hoje é que, em uma relação entre dois homens, não existe um que “é a mulher”, a não ser que se trate de um jogo ou fantasia sexual, o que também pode ocorrer em uma cama hétero.

É claro.

E já que falamos da cama, esclarecemos que tudo o que foi dito anteriormente não tem nada a ver com ser “ativo” ou “passivo”. Acreditar que o que penetra é mais homem que o que é penetrado é, novamente, querer entender uma relação homossexual como se fosse heterossexual, ou seja, com só um pênis – e sem imaginação. Os papéis na cama no têm nada a ver com a identidade de gênero nem fazem com que ninguém ganhe ou perca masculinidade.

Um amigo meu diz, às vezes, “Eu não sou bicha. Eu como as bichas”. Mas diz isso de brincadeira, claro.

Além do mais, quem disse que os papéis na cama devem ser fixos, estáveis e excludentes? Outra vez, algo básico e simples: quando dois homens vão para a cama, existem dois pênis. E os dois podem ser usados, de diferentes maneiras. Supor que um dos homens deve anular automaticamente o seu pênis para ir para a cama outro é querer, outra vez, heterossexualizar uma relação que não é heterossexual.

E, convenhamos, que entre um homem e uma mulher também podem acontecer muitas outras coisas. Para isso inventaram os brinquedos que se vendem nas sex shops e a natureza, sábia, nos colocou cinco dedos em cada mão. Isso sem levar em conta as travestis, que tem um pênis e identidade de gênero feminina.

O mundo da sexualidade é mais complexo que nossos dicionários.

Por último, a versão mais radical da confusão que queremos tratar com este post é a de quem acredita que os gays, no fundo, querem ser mulheres. Outra vez: não podem deixar de nos ver com lentes heterossexuais. Como se a única explicação para que nós gostemos de homens fosse que, em algum lugar do nosso ser, nos imaginamos no sexo oposto.

Sempre tratando de reconstruir, de uma ou outra forma, o modelo menino + menina.

Lamento decepcioná-los. Eu gosto de homens e gosto de ser homem. Nem sequer posso me imaginar como mulher. E o que me atrai em outros homens é a sua masculinidade, ainda que, claro, isso é uma questão de gosto.

Já foram ao cinema ver A pele que habito, última joia do mestre Pedro Almodóvar?

Os homens que a tenham visto vão me entender. Quando Antonio Banderas disse “vaginoplastia”, tive a mesma impressão que vocês. Quase lhes diria que me doeu.

E entre Vera e Vicente, escolho Vicente, que, por que não dizer, está incrível.

- Bruno Bimbi
Traduzido do blog Tod@s pelo amigo Fernando Palhano, com grifos do autor.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Humildade

Foto: Ken Simm

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.

- Cora Coralina, neste #DiadaPoesia

domingo, 11 de março de 2012

Homossexualidade e lei: alguns argumentos comuns


Vimos esta dica no excelente blog Comer de Matula, de Rita Colaço: como aplicar a lógica à discussão de alguns direitos civis da população LGBT. É longo, mas vale a leitura. :-)

O texto que se segue mostra o contributo da filosofia para o esclarecimento e solução de problemas reais — como, neste caso, os problemas associados à legislação sobre o casamento e a adopção por parte de casais de pessoas do mesmo sexo. Estes dois problemas podem ser formulados do seguinte modo:

  • Deve a lei permitir o casamento entre homossexuais?
  • Deve a lei permitir a adopção de crianças por parte de casais homossexuais que obedeçam às outras condições estabelecidas na lei da adopção?

Embora possamos discuti-los separadamente, existe uma relação, mais ou menos óbvia, entre eles: ambos procuram determinar se haverá, ou não, alguma justificação para que existam leis discriminatórias relativamente aos casais homossexuais ou leis que ofereçam cobertura legal para práticas discriminatórias relativamente aos mesmos.

Existe uma questão de fundo comum a toda esta polémica, que pode ser formulada do seguinte modo: haverá algo de errado na homossexualidade? O debate público em torno desta questão tem-se revelado pouco produtivo porque os seus intervenientes se limitam, muitas vezes, a inventariar os seus preconceitos e a tentar manipular a opinião pública com artifícios retóricos. É natural que tenhamos alguns preconceitos. A educação que tivemos, a cultura em que crescemos e a sociedade em que vivemos veiculam várias ideias acerca dos outros e do mundo que nos rodeia, ideias que aceitamos como verdadeiras, a maior parte das vezes, sem pensar muito no assunto. No entanto, por vezes acontece que essas ideias são postas em causa, por aqueles que nos rodeiam, por situações que enfrentamos, ou simplesmente porque gostamos de as submeter a uma avaliação cuidadosa e imparcial antes de continuar a dar-lhes assentimento. Nestas circunstâncias, somos, de certo modo, levados a avaliá-las criticamente. Avaliar criticamente uma ideia é pensar que razões temos para acreditar que é verdadeira e que razões ou argumentos podem existir que nos mostrem que é falsa. A filosofia é, como se costuma dizer, “o lugar crítico da razão” e, por isso, exercita as nossas competências de construção e avaliação de argumentos. Essas competências são particularmente úteis neste tipo de debates, uma vez que aquilo que está em causa é o facto existirem, ou não, argumentos que possam servir de suporte para a convicção de que há algo na homossexualidade que legitima certas formas de discriminação.

A oposição ao casamento e à adopção por parte de casais homossexuais baseia-se sobretudo nos seguintes argumentos:
  • Argumentos baseados na ideia de que a homossexualidade é contranatura;
  • Argumentos baseados nas intenções da divindade criadora;
  • Argumentos baseados nos perigos da homossexualidade para a preservação da espécie;
  • Argumentos baseados nos modelos familiares socialmente estabelecidos;
  • Argumentos baseados no interesse superior da criança.
Ao longo deste texto procurarei expor as fragilidades destas estratégias argumentativas, para concluir que, na ausência de razões melhores a favor deste tipo de discriminação, a lei deve permitir quer o casamento, quer a adopção por parte de casais homossexuais.

Na sua obra Elementos de Filosofia Moral, o filósofo James Rachels discute alguns dos argumentos clássicos contra a homossexualidade; muito do trabalho que aqui se apresenta resulta da sua leitura.

O argumento contranatura
O argumento contranatura — como de resto quase todos os argumentos aqui discutidos (o único argumento que se centra exclusivamente na adopção é o argumento baseado no interesse superior da criança) — é utilizado simultaneamente contra o direito de os homossexuais casarem e contra o seu direito de adoptarem crianças. Para refutar o argumento contranatura não preciso de me concentrar na questão da homossexualidade. Basta-me mostrar que todos os argumentos contranatura se baseiam numa ideia em comum e, de seguida, mostrar que essa ideia é falsa. Os argumentos contranatura têm a seguinte estrutura comum (em que “X” representa algo que se pretende avaliar do ponto de vista moral):

Versão 1
Premissa 1: Se X é contrário à natureza, então X é errado.
Premissa 2: X é contrário à natureza.
Conclusão: X é errado.

A forma destes argumentos é válida. Pelo que se as suas premissas forem verdadeiras, estamos racionalmente obrigados a aceitar as suas conclusões. Resta saber se as suas premissas são, de facto, verdadeiras. Dado que sem saber exactamente o que é representado por “X” não podemos estabelecer se a premissa 2 é, ou não, verdadeira, devemos concentrar a nossa atenção na premissa 1. A premissa 1 estabelece que ser contrário à natureza é uma condição suficiente para que algo seja errado. Será isto verdadeiro? Para responder a esta questão é necessário esclarecer o que se entende por contrário à natureza.

A abordagem estatística
A abordagem estatística estabelece que “contrário à natureza” deve ser entendido como sinónimo de “normal”, sendo “normal” interpretado como aquilo que é estatisticamente comum entre os membros de uma determinada espécie. Neste sentido, um determinado comportamento é normal se é frequente, comum, praticado pela maioria dos membros de uma espécie. Deste modo, quando alguém afirma que X é contrário à natureza está a afirmar que X é pouco usual. Vejamos o que aconteceria ao nosso argumento fazendo as devidas adaptações:

Versão 2
Premissa 1: Se X é pouco usual, então X é errado.
Premissa 2: X é pouco usual.
Conclusão: X é errado.

Será que ser pouco usual é uma condição suficiente para que algo possa ser considerado errado? Considero que não, pois, se o fosse, a conclusão do argumento que se segue seria verdadeira:

Versão 3
Premissa 1: Se ser albino é pouco usual, então ser albino é errado.
Premissa 2: Ser albino é pouco usual.
Conclusão: Ser albino é errado.

A conclusão não é verdadeira e o problema está, mais uma vez, na primeira premissa. A verdade é que ser pouco usual não é uma condição suficiente para algo ser errado, porque há muitas coisas que embora sejam pouco usuais, nada têm de errado — ser albino é apenas um exemplo de uma delas. Ser, ou não, usual, nada nos diz sobre a correcção moral do que quer que seja. Afinal de contas, muitas qualidades humanas frequentemente apreciadas, como a honestidade e o altruísmo, são raras e não é por isso que se tornam menos desejáveis, para não falar de erradas.

A abordagem teleológica
A abordagem teleológica interpreta a expressão “contrário à natureza” como sinónimo de contrário à sua finalidade (em grego: téleios). Esta abordagem parte da ideia de que os vários órgãos do nosso corpo têm determinadas finalidades — os ouvidos servem para ouvir, os olhos para ver, o coração para bombear o sangue ao longo do nosso corpo, etc. — e afirma que todo o uso desses órgãos que vá para além dessa finalidade é ilegítimo. Assim, se os órgãos genitais servem para procriar, não devem ser utilizados com outra finalidade. Uma relação homossexual implica a utilização dos órgãos sexuais para fins não reprodutivos, logo, a homossexualidade não é legítima. É de salientar que, por esta ordem de ideias, também os relacionamentos heterossexuais que não tivessem como finalidade a reprodução seriam ilegítimos — como, por exemplo, os relacionamentos entre pessoas que, por qualquer motivo, não querem ou não podem ter filhos. A estrutura genérica deste tipo de argumento pode ser expressa do seguinte modo:

Versão 4
Premissa 1: Se X implica a utilização de órgãos do corpo para fins alheios à sua finalidade, então X é errado.
Premissa 2: X implica a utilização de órgãos do corpo para fins alheios à sua finalidade.
Conclusão: X é errado.

Este argumento enfrenta vários problemas:

Parece pressupor um desígnio inteligente por detrás da constituição dos nossos corpos, desígnio esse que concebeu cada uma das suas partes com uma determinada finalidade. Uma vez que a teoria da evolução por selecção natural oferece uma alternativa pelo menos tão plausível para a nossa constituição, tal desígnio não pode ser simplesmente pressuposto.

É claro que os nossos órgãos, pelo menos a maioria, têm certas funções, mas não é claro que todos tenham uma, e só uma, finalidade. As mãos servem para agarrar e mexer, mas também para bater palmas, estalar os dedos, fazer sombras chinesas, etc.; qual é então a finalidade das mãos? Como saberemos ao certo qual é a finalidade de cada órgão do nosso corpo?

Mesmo que haja uma função principal associada a cada órgão do nosso corpo, não há razões para afirmar que todas as outras utilizações que se possam fazer desse órgão são erradas. Do facto de uma chave-de-parafusos ter sido concebida essencialmente para aparafusar e desaparafusar parafusos, não se segue que seria errado utilizá-la para recuperar um objecto que caiu por uma frincha estreita, por exemplo.

Atentemos na seguinte versão do argumento para perceber melhor o que está aqui em causa:

Versão 5
Premissa 1: Se fazer sombras chinesas implica a utilização de órgãos do corpo para fins alheios à sua finalidade, então fazer sombras chinesas é errado.
Premissa 2: Fazer sombras chinesas implica a utilização de órgãos do corpo para fins alheios à sua finalidade.
Conclusão: Fazer sombras chinesas é errado.

Não estamos dispostos a admitir que fazer sombras chinesas é moralmente errado, como não estamos dispostos a admitir que muitas outras utilizações dos nossos órgãos são erradas. Mesmo que estejamos dispostos a admitir que há uma finalidade para cada órgão do nosso corpo, isso por si só não basta para que se considerem ilegítimas todas as outras utilizações que se queiram fazer deles. O facto de X implicar uma utilização de órgãos do corpo para fins alheios à sua finalidade não é uma condição suficiente para que X seja errado.

“Contrário àquilo que uma pessoa deveria ser”
Esta abordagem é a pior das três, porque é viciosamente circular. Se com a expressão “contrário à natureza” queremos dizer “contrário àquilo que uma pessoa deveria ser”, então o argumento contranatura é circular, pouco informativo e não oferece razão alguma para se condenar seja o que for. Limita-se a dizer que “se algo é errado, então é errado”. Vejamos de novo o argumento com as devidas traduções:

Versão 6
Premissa 1: Se X é contrário àquilo que uma pessoa deveria ser, então X é errado.
Premissa 2: X é contrário àquilo que uma pessoa deveria ser.
Conclusão: X é errado.

O que se pretende estabelecer é precisamente se X é, ou não, errado — que é o mesmo que dizer que o que se pretende saber é se X é, ou não, contrário àquilo que uma pessoa deveria ser. Uma vez que as premissas se limitam a repetir por outras palavras aquilo que pretendem provar, não oferecem qualquer tipo de justificação a favor da conclusão.

Deste modo, podemos concluir que, a menos que uma abordagem mais razoável de “contrário à natureza” possa ser apresentada, os argumentos contranatura estão condenados ao fracasso. Na minha opinião, uma abordagem da noção de “contrário à natureza” que seja simultaneamente plausível e útil para os propósitos deste tipo de argumento, é algo muito difícil de encontrar. Não é fácil traçar uma linha definida entre o que é pró-natura e contranatura, porque mesmo os comportamentos aparentemente mais distantes do mundo natural dependem crucialmente da natureza, dos antibióticos, aos automóveis, televisores, máquinas de lavar, etc. Se alguém estivesse disposto a admitir que o correcto seria voltar a um estado selvagem, então teria de admitir que o correcto seria “forçar a nossa natureza” e imitar os outros animais, prescindindo do conforto de roupas, automóveis, televisores, avanços médicos e tecnológicos, em suma do conforto da civilização, para viver sob a lei do mais forte num mundo selvagem e hostil. Não me parece que alguém esteja disposto a admitir isto. Logo, a ideia de correcção moral não se pode identificar com um retorno à natureza selvagem.

O objectivo dos argumentos contranatura é mostrar que uma determinada prática (a homossexualidade, a eutanásia, a fertilização in vitro, a clonagem, etc.) é errada, mas acaba sempre por não admitir que muitos outros comportamentos abrangidos pelo seu conceito de “contrário à natureza” também seriam considerados errados. Tal inconsistência mostra que quem recorre a este tipo de argumentos se baseia em preconceitos infundados e numa profunda falta de imparcialidade, uma vez que pretende abrir excepções convenientes para as práticas que aprova, mas usar o princípio para condenar as práticas a que se opõe. Se houver uma forma de mostrar que há algo de errado na homossexualidade, na eutanásia, na fertilização in vitro ou na clonagem, o caminho terá de ser outro.

O argumento da recomendação bíblica
Por um lado, a invocação de um argumento baseado nas intenções do criador num estado laico, representa uma violação da imparcialidade religiosa que a lei deve observar. A lei não deve tratar, injustificadamente, de forma privilegiada os interesses dos membros de um determinado grupo, simplesmente porque pertencem a esse grupo. Mesmo que seja verdade que, por motivos religiosos, muitas pessoas não comem carne de porco, isso não é boa razão para fazer uma lei que proíba que se coma carne de porco.

Por outro lado, assumir que as intenções do criador, bem como as noções de certo e errado, podem ser facilmente encontradas na Bíblia, tem consequências difíceis de superar. O argumento é, mais ou menos, o seguinte:

Versão 1A (positiva)
Premissa 1: Se X é recomendado na Bíblia, X é correcto.
Premissa 2: X é recomendado na Bíblia.
Conclusão: X é correcto.

Versão 1B (negativa)
Premissa 1: Se X é condenado na Bíblia, X é errado.
Premissa 2: X é condenado na Bíblia.
Conclusão: X é errado.

No caso da homossexualidade aplica-se a estrutura da versão 1B (negativa), o que resultaria num argumento como este:

Versão 2
Premissa 1: Se a homossexualidade é condenada na Bíblia, a homossexualidade é errada.
Premissa 2: A homossexualidade é condenada na Bíblia.
Conclusão: A homossexualidade é errada.

A premissa 2 é claramente verdadeira; no Levítico 18:22 lê-se: “Não podes deitar-te com homem como com mulher; é uma abominação.” Mas, apesar disso, o argumento fracassa por três razões:

  • Pressupõe a existência de Deus;
  • Pressupõe que a Bíblia corresponde exactamente à palavra de Deus;
  • Pressupõe que é razoável ou sequer possível seguir integralmente as proibições ou permissões presentes na Bíblia.

O terceiro aspecto é o mais danoso para o argumento original. Para ver porquê, assumamos a posição de quem aceita os dois primeiros pressupostos e vejamos as consequências implausíveis que decorrem da aceitação deste argumento, nomeadamente, da aceitação da premissa 1: Se X é condenado na Bíblia, X é errado. É isso que James Rachels procura fazer na seguinte passagem:

“O problema prático é que os textos sagrados, especialmente os mais antigos, dão-nos muito mais do que pedimos. Poucas pessoas terão realmente lido o Levítico, mas, os que o fizeram, verificaram que além de proibir a homossexualidade, fornece instruções pormenorizadas para tratar a lepra, requisitos detalhados sobre sacrifícios pelo fogo e procedimentos complexos para lidar com mulheres menstruadas. Há um número surpreendente de regras sobre as filhas de sacerdotes, inclusivamente a anotação de que se a filha de um sacerdote “se prostituir” deverá ser queimada viva (21:9). O Levítico proíbe a ingestão de gorduras (7:23), proíbe uma mulher de ir à missa até 42 dias depois de dar à luz (12:4-5) e proíbe ainda ver o nosso tio despido. Esta última circunstância é, por acaso, igualmente chamada uma abominação (18:14, 26). Diz também que a barba deve ter uma forma quadrada (19:27) e que devemos comprar escravos em estados vizinhos (25:44). Há muito mais, mas isto basta para ilustrar a ideia.

O problema é que não podemos concluir que a homossexualidade é uma abominação simplesmente porque isso é dito no Levítico, a menos que estejamos igualmente dispostos a concluir que as outras instruções são exigências morais; alguém que tentasse viver segundo todas estas regras no século XXI ficaria maluco. Poderíamos, é claro, conceder que as regras sobre a menstruação, e as outras, eram características de uma cultura antiga, e não são obrigatórias para nós hoje em dia. Isso seria sensato. Mas se dissermos isso, a porta fica aberta para dizer o mesmo sobre as regras contra a homossexualidade.” (Rachels 2003: 74)

O nosso argumento poderia assumir o seguinte aspecto:

Versão 3
Premissa 1: Se comprar escravos em estados vizinhos é recomendado na Bíblia, comprar escravos em estados vizinhos é correcto.
Premissa 2: Comprar escravos em estados vizinhos é recomendado na Bíblia.
Conclusão: Comprar escravos em estados vizinhos é correcto.

A conclusão deste argumento é simplesmente inaceitável, porque não existe uma forma imparcial de justificar a escravatura. A escravatura representa a opressão de um grupo por parte de outro e, portanto, tem em linha de conta apenas os interesses do grupo opressor, desprezando os interesses do grupo oprimido. O argumento da recomendação bíblica implica que esta conclusão é verdadeira; logo, é fácil ver que há algo de muito errado com o argumento. O facto de algo ser recomendado, ou condenado, na Bíblia não é uma condição suficiente para que seja, de facto, correcto, ou errado, respectivamente.

O argumento da preservação da espécie
O argumento da preservação da espécie tem pelo menos dois pressupostos fundamentais:

  • Se permitirmos o casamento e a adopção por parte de casais homossexuais, em breve toda a gente será homossexual.
  • Se algo puser em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o pratique, então é errado.

Ambos os pressupostos são falsos. O primeiro estabelece que permitir o casamento e a adopção por parte de casais homossexuais é uma condição suficiente para que todos se tornem homossexuais. Neste caso, a homossexualidade teria a capacidade de se expandir por toda a humanidade pelo simples facto de ser legalmente consentida. Trata-se de uma ideia falsa e para o comprovar basta imaginar o que pensariam os seus proponentes da ideia de que o facto de permitirmos o casamento e a adopção por parte de casais heterossexuais é uma condição suficiente para que todos sejam heterossexuais. Se esta ideia fosse verdadeira, e dado que o casamento heterossexual existe há séculos, seria de esperar que os homossexuais não existissem. Outros exemplos poderiam ser avançados para ilustrar a ideia de que não é pelo facto de permitirmos o casamento e a adopção a um determinado grupo ou classe que todos se tornarão membros desse grupo ou classe.

O segundo pressuposto sustenta que “se algo puser em risco a preservação da espécie humana, caso toda agente o pratique, então é errado”. Assim, o argumento da preservação da espécie teria mais ou menos esta estrutura:

Versão 1
Premissa 1: Se X puser em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o pratique, então X é errado.
Premissa 2: X poria em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o praticasse.
Conclusão: X é errado.

O problema deste argumento está na premissa 1. Há coisas que poriam em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente as praticasse, mas não são erradas — justamente porque são praticadas apenas por alguns. De resto, vejamos o que resultaria da aplicação do argumento ao celibato:

Versão 2
Premissa 1: Se o celibato puser em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o pratique, então o celibato é errado.
Premissa 2: O celibato poria em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o praticasse.
Conclusão: O celibato é errado.

Se todos fôssemos celibatários, a espécie humana acabaria por se extinguir; mas isso não significa que o celibato deva ser considerado errado ou proibido. Se todos fôssemos carpinteiros, se todos fôssemos biólogos, se todos fôssemos arquitectos… há muitas coisas que se todos fizéssemos, teriam consequências muito perigosas para a sobrevivência da espécie, mas nem por isso devem ser proibidas. Isto porque a probabilidade de todos nos tornarmos arquitectos, mesmo que o casamento e a adopção por parte de casais de arquitectos sejam permitidos, é tão baixa que não é relevante.

O argumento do modelo familiar socialmente estabelecido
Os argumentos baseados nos modelos socialmente estabelecidos têm a seguinte estrutura:

Versão 1A (positiva)
Premissa 1: Se X está de acordo com o socialmente estabelecido, então X é correcto.
Premissa 2: X está de acordo com o socialmente estabelecido.
Conclusão: X é correcto.

Versão 1B (negativa)
Premissa 1: Se X não está de acordo com o socialmente estabelecido, então X é errado.
Premissa 2: X não está de acordo com o socialmente estabelecido.
Conclusão: X é errado.

Note-se, em primeiro lugar, que a estrutura destes argumentos é semelhante à dos argumentos que se baseavam na autoridade da Bíblia; tal como neste último caso, também aqui o que quer que a sociedade aprove é correcto, o que quer que a sociedade reprove é errado. Seja o extermínio de judeus, ou a discriminação racial, desde que a sociedade o aprove, o acto em questão será considerado correcto. Esta perspectiva tem vindo a ser conhecida como relativismo cultural e é alvo de sérias objecções. O seu principal erro é que pretende extrair daquilo que as pessoas pensam acerca de um determinado assunto uma conclusão acerca de como as coisas, de facto, são. Compare-se o argumento anterior com o seguinte:

Versão 2
Premissa 1: Se o heliocentrismo não está de acordo com o socialmente estabelecido, então o heliocentrismo é errado.
Premissa 2: O heliocentrismo não está de acordo com o socialmente estabelecido.
Conclusão: O heliocentrismo é errado.

Durante séculos acreditou-se erradamente que a Terra estava no centro do sistema solar; nesse contexto, a premissa 2 seria verdadeira, pelo que se aceitássemos a premissa 1, teríamos de aceitar a conclusão do argumento. Mas o facto de o heliocentrismo não estar de acordo com o socialmente estabelecido não é uma condição suficiente para que este esteja errado; como se veio a demonstrar mais tarde, era a sociedade da altura que precisava de rever as suas convicções acerca de astronomia, e não os poucos que se recusavam a aceitar uma ideia apenas porque esta gozava de um amplo apoio social.

O leitor pode dizer que o exemplo apresentado fala de astronomia, quando o que está aqui em causa é a correcção moral de determinadas práticas humanas. Mas exemplos desse domínio também podem ser apresentados a esse propósito. Em 1955, Martin Luther King, um importante reformista social norte-americano, opôs-se à discriminatória lei dos transportes, que obrigava os cidadãos negros a ceder o seu lugar aos brancos nos transportes públicos. A lei em causa era infundada, pois assentava em pressupostos errados acerca das diferenças raciais, mas era aceite pela maior parte dos norte-americanos; Martin Luther King chegou a estar preso por se opor a esta e a outras formas de discriminação racial, muito difundidas na sociedade da época. O argumento subjacente, neste caso, teria a seguinte configuração:

Versão 3
Premissa 1: Se a discriminação racial nos transportes está de acordo com o socialmente estabelecido, então a discriminação racial nos transportes é correcta.
Premissa 2: A discriminação racial nos transportes está de acordo com o socialmente estabelecido.
Conclusão: A discriminação racial nos transportes é correcta.

A conclusão é falsa, tal como veio a reconhecer a sociedade norte-americana que acabou por tornar ilegal a discriminação racial nos transportes públicos. Martin Luther King não se limitou a constatar passivamente o que era socialmente aprovado, mas ao invés, perguntou-se que razões haveria para que a sociedade continuasse a aprovar aquilo que aprovava. Ao perceber que não havia uma boa justificação para tais práticas discriminatórias, opôs-se-lhes publicamente, procurando deste modo estimular o espírito crítico dos norte-americanos e promover o progresso social. Do mesmo modo, não é legítimo combater a homossexualidade com base no modelo familiar socialmente estabelecido. Se não se encontrar boas razões para fundamentar semelhantes práticas discriminatórias, a sociedade pode e deve incluir novos modelos familiares — diferentes, por certo, mas igualmente legítimos.

O argumento baseado no interesse superior da criança
O argumento baseado no interesse superior da criança apela ao ponto 1 do Artigo 3 da Convenção sobre os Direitos da Criança da Unicef:

“Todas as decisões relativas a crianças, adoptadas por instituições públicas ou privadas de protecção social, por tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, terão primacialmente em conta o interesse superior da criança.”

No entanto, depois de termos estabelecido que os argumentos contra a homossexualidade fracassaram na sua tentativa de mostrar que há algo de errado com a homossexualidade. Não percebo de que forma se pode justificar que é do interesse superior da criança permanecer numa instituição, em vez de poder pertencer a uma família que seja capaz de satisfazer as suas necessidades materiais e afectivas. A resposta que encontro nas discussões informais acerca deste assunto é invariavelmente a mesma: mesmo que nada haja de errado na homossexualidade, a sociedade ainda não está preparada para lidar com este tipo de paternidade e, por isso, a criança será alvo de olhares depreciativos e de chacota, que acabarão por se reflectir de forma negativa no seu desenvolvimento. Eis a forma do argumento:

Versão 1
Premissa 1: Se X pode fazer com que crianças sejam alvo de chacota, o que acabará por se reflectir de forma negativa no seu desenvolvimento, então X deve ser proibido.
Premissa 2: X pode fazer com que crianças sejam alvo de chacota, o que acabará por se reflectir de forma negativa no seu desenvolvimento.
Conclusão: X deve ser proibido.

Se aceitarmos este argumento, estamos sujeitos a um número indefinidamente grande de proibições disparatadas, pois praticamente tudo pode servir de pretexto para que se faça troça de alguém. Compare-se este argumento com o seguinte:

Versão 2
Premissa 1: Se o uso de jeans por parte de mulheres pode fazer com que crianças sejam alvo de chacota, o que acabará por se reflectir de forma negativa no seu desenvolvimento, então o uso de jeans por parte de mulheres deve ser proibido.
Premissa 2: O uso de jeans por parte de mulheres pode fazer com que crianças sejam alvo de chacota, o que acabará por se reflectir de forma negativa no seu desenvolvimento.
Conclusão: O uso de jeans por parte de mulheres deve ser proibido.

É possível que o facto de a mãe de alguém usar jeans já tenha servido para fazer pouco dessa pessoa; contudo, daqui não se segue que devemos proibir as mulheres de usar jeans. O facto de algo poder conduzir à chacota não é uma razão suficiente para ser proibido (pense-se no que aconteceria à liberdade de expressão). O que é verdadeiramente importante é preparar as crianças e os jovens para pensarem criticamente sobre os insultos e provocações que lhes são dirigidos; deste modo, poderão constatar que, em certas situações, não há qualquer fundamento para tais atitudes, que devem assim ser desvalorizadas. Afinal de contas, há algum tempo, a sociedade não estava preparada para o fim da escravatura, para o voto das mulheres, para o emprego feminino, para o divórcio, etc., e como tal, todas estas ideias podiam ser ridicularizadas em muitos sectores da sociedade; mas daqui não se segue que todas estas coisas deviam ter sido proibidas. O facto é que havia boas razões para levar a cabo essas reformas, mesmo que isso implicasse que algumas pessoas iriam levar mais tempo a aceitá-las e, como tal, ridicularizassem aqueles que defendiam estas ideias. Aliás, qualquer reforma social implica importantes ajustes em vários sectores da sociedade. O conformismo impede o progresso social e não é uma solução viável. O que temos de fazer é pensar se há boas razões para se fazer essa reforma, ou não. Em caso afirmativo, resta encontrar as melhores formas de a efectivar, esclarecendo a opinião pública acerca dessas razões. Julgo que isso poderia ser o suficiente para minimizar os possíveis danos para o desenvolvimento da criança de crescer numa família pouco convencional. Mesmo que a sociedade demorasse tempo a admitir o seu erro, uma educação crítica acabaria por resultar na consciência de que mesmo que a maioria ainda não o tenha reconhecido, a razão está do lado daqueles que nada vêem de errado no facto de se ser adoptado por uma família homossexual. Julgo que aqui seria prudente adoptar uma postura semelhante àquela que Fernando Pessoa expressa quando afirma: “Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a razão, seja quem for o seu procurador”.

Conclusão
Tanto quanto me foi possível analisar, não há boas razões para considerar que há algo de errado com a homossexualidade, nem boas razões para que existam leis discriminatórias relativamente aos casais homossexuais ou leis que ofereçam cobertura legal para práticas discriminatórias relativamente aos mesmos. Nesta matéria, como em muitas outras, é importante que a discussão se apoie numa reflexão cuidadosa e honesta e não em opiniões infundadas. A filosofia caracteriza-se justamente por uma atitude crítica, o que implica uma avaliação rigorosa e imparcial dos argumentos e razões que podem ser apresentados a favor e contra uma determinada ideia; por isso, pode ser uma ferramenta muito útil no esclarecimento e solução deste tipo de disputas.

Luís Veríssimo
veriluis@gmail.com

Bibliografia
Madeira, P. 2006. Homossexuais: casamento e adopção. Crítica, 8 de Setembro.
Rachels, J. 2003. A Questão da Homossexualidade. In Elementos de Filosofia Moral. Trad. F. J. A. Gonçalves. Lisboa: Gradiva, 2004.

Nós somos o templo de Deus


Somos templos de Deus, e, com esse título, valemos mais do que todas as igrejas e todas as catedrais do mundo...

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 2º Domingo de Quaresma (4 de março de 2012). A tradução é de Susana Rocca. Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Ex 20,1-7
2ª leitura: 1 Co 1,22-25
Evangelho: Jo 2,13-25

“Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19). Eis a mensagem central do trecho do Evangelho que temos no 3° Domingo de Quaresma do ciclo B. Esse episódio narrado por todos os evangelistas é teológico, evidentemente, mas comporta uma dimensão histórica. Isso porque se sabe, hoje, que esse episódio de Jesus, expulsando os vendedores do templo, está na origem da prisão de Jesus e na causa da sua condenação. Mas porque essa versão de João em lugar da de Marcos, o evangelista do ano B? Simplesmente porque São João, que situa o evento no início da missão de Jesus, dá mais precisões importantes para a Igreja do 1°século, que não encontramos em Marcos e nos outros evangelistas, que situam o evento justamente antes da prisão de Jesus, da sua paixão e da sua morte.

Esse trecho, então, seja qual for o lugar em que os evangelistas se situam, retoma, sem dúvida, o gesto histórico de Jesus no momento de uma peregrinação a Jerusalém... um gesto que lhe custou a vida. Por outro lado, como é uma narrativa composta após a Páscoa, trata-se de uma releitura teológica de um evento histórico verdadeiro... Para nós que relemos essa narrativa, que devemos reter como mensagem?

1. Jesus, um revolucionário. Jesus, como profeta, se opôs abertamente ao poder religioso, civil e político do seu tempo, e o templo é a representação fiel desse tipo de poder: o templo de Jerusalém era, para os judeus, o lugar da presença de Deus; ele era gerenciado pelos sacerdotes e pelos avôs, e eles faziam um comércio um tanto lucrativo. Cada judeu devia ir em peregrinação ao Templo de Jerusalém, ao menos uma vez na vida, para oferecer sacrifícios a Deus. Havia mesas de cambistas, pois a moeda imperial era rechaçada. Os ricos obtinham bois, a classe média, ovelhas, e os pobres compravam pombas ou pombinhos, mas todos ofereciam sacrifícios a Deus. Que Jesus, em peregrinação com seus amigos, havia denunciado abertamente essa prática, é mais do que acreditável, e é sem dúvida o que permitiu às autoridades arrestá-lo e condená-lo. Então, podemos situar esse evento alguns dias antes da sua prisão.

2. Um anúncio da paixão de Jesus. São João faz alusões à paixão de Jesus nesta narrativa: fazendo um chicote de cordas para expulsar os vendedores do Templo (Jo 2,15), o evangelista anuncia o chicote com que Jesus, o novo templo de Deus, será flagelado ao momento da paixão (Jo 19,1). Tirando as moedas dos cambistas (Jo 2,15) e dos vendedores de ovelhas (Jo 2,14), podemos ver o anúncio que Jesus, ele mesmo, será vítima de um tráfico absolutamente indigno da casa de Deus, pois ele, o verdadeiro templo, o cordeiro pascal, será vendido por 30 moedas, que Judas voltará para jogar no templo, sujando-o definitivamente (Mt 26,15; 27,5).

3. A idolatria e a exploração dos pobres. Como diz verdadeiramente o teólogo Charles Wachenheim, é um mesmo sopro libertador que inspira os preceitos do Decálogo (1ª leitura) e a narrativa joânica dos vendedores expulsos do templo. Nos dois casos, os crentes de ontem e de hoje são chamados a livrar-se do culto dos ídolos que ameaça, incessantemente, escravizá-los:

3.1 A Lei. Após ter liberado seu povo da escravidão do Egito, Deus lhes oferece a maneira de alcançar no dia a dia a sua liberdade. É desta forma que nós devemos compreender o Decálogo ou os Dez Mandamentos. Wackenheim escreve: “Portanto o bezerro de ouro não está longe. Preferindo um ídolo morto ao Deus vivo, o povo reproduz nos seus próprios rangos de servidão o que denuncia a Lei divina: desrespeito dos pais, morte, adultério, furto, falso testemunho, luxúria. O coração da Lei, o penhor de uma autêntica libertação, é o reconhecimento do Deus único, o amor de seu nome e a observância do sabbat”.

3.2 O Evangelho. Confundindo comércio e religião, os contemporâneos de Jesus transformam o templo em casa de tráfico (Jo 2,16). Jesus quer liberar esses homens de uma imagem perversa de Deus. Se ele pega especialmente os vendedores de pombas (Jo 2,16), é porque esses vendedores exploram descaradamente os fiéis mais pobres, e isso é inaceitável. Ainda hoje, nos acontece de deformar o rosto de Deus, quando o utilizamos para esmagar e explorar as pessoas carentes, para condenar ou para excluir os feridos da vida, os marginalizados. Wackenheim escreve: “O homem religioso tende a sacralizar livros, tradições, instituições, prédios, ritos e doutrinas, enquanto que na Bíblia os únicos sagrados são Deus e o próximo”.

3.3 O Corpo de Cristo. Não podemos encerrar Deus num templo de pedras e de tijolos. O único caminho até Deus, a sua verdadeira casa entre os homens, é seu Filho feito homem. Wackenheim acrescenta: “Jesus de Nazaré revela, ao mesmo tempo, a eminente dignidade de todo ser humano e a humildade de um Deus que, no encontro com todos os ídolos, se apaga no dom que ele faz de si próprio”. A pedido das autoridades judaicas para que Jesus lhes explicasse seu gesto: “Que sinal nos mostras para agires assim?” (Jo 2,18), Jesus responde: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19). Jesus revira não somente as mesas, mas também a maneira de reencontrar Deus. Deus não está mais encerrado num templo de pedras, mesmo se fosse preciso 46 anos para construí-lo; o novo templo de Deus é o Cristo que levou três dias para levantar-se, para ressuscitar, e esse templo, hoje, são os cristãos de todos os tempos que são eles mesmos o Corpo de Cristo ressuscitado. Isso significa que o Cristo de São João dessacralizou os templos de pedra para sacralizar os templos de carne: os humanos que levam neles mesmos o Deus vivo. E, para estar mais seguro de ser bem entendido, o evangelista João o diz explicitamente: “Mas o Templo de que Jesus falava era o seu corpo” (Jo 2,21).

3.4 Escândalo para uns e loucura para outros. É evidente que a fé cristã repousa sobre um evento paradoxal e estratégico: a morte-ressurreição de Jesus; ainda mais porque se trata de uma morte por crucifixão: era a pena de morte infligida aos bandidos, aos assassinos e aos malfeitores. Então, é um escândalo para os judeus, diz são Paulo, e é pura loucura para os pagãos (1Co 1,23). É por isso que não dá para separar o Crucificado do Ressuscitado, pois o Cristo, o Messias, é poder de Deus e sabedoria de Deus por causa da Páscoa, por causa do Crucificado-Ressuscitado. O que quer dizer que são Paulo estaria escandalizado de ver, hoje, essa devoção popular que se desenvolveu após ele, ao redor de Jesus crucificado e ensanguentado, sem referência à Ressurreição. Sim, Jesus foi crucificado, mas ele está ressuscitado e as nossas cruzes devem significá-lo. Estou convencido de que os representantes de Cristo ressuscitado, com a cruz atrás, correspondem mais à teologia dos primeiros cristãos que contemplavam a cruz, no entanto à luz da Páscoa, do brilho da ressurreição.

Concluindo, estejamos cientes, hoje, na nossa caminhada de Quaresma, que somos templos de Deus, e, com esse título, valemos mais do que todas as igrejas e todas as catedrais do mundo...

sexta-feira, 9 de março de 2012

Do desejo e da falta de autenticidade


Às vezes o profundo desejo de uma pessoa está tão aparente em sua personalidade que todo mundo pode ver, embora estejam todos convencidos de que este desejo está escondido, e mal se dão conta disso. São destes tristes absurdos que as tragédias humanas são feitas. Ora construímos impérios financeiros, ora nos rendemos à vícios vergonhosos como meios infantis de fugir para longe tanto de nosso verdadeiro eu como de nosso falso eu – na verdade de qualquer eu que encontremos.

Tentando lidar com isso, nós não devemos subestimar o quão profundo e arraigado é o sofrimento humano.

"Os sãos não têm necessidade de médico e sim os doentes; não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento". (Lc 5,31)

Qualquer falta de autenticidade em nós corrompe a alma, cujos sintomas nós mesmos devemos reconhecer, seja medo, raiva, tristeza ou falso desejo. Podemos responsabilizar outros por tirarem vantagem de nossa culpa, mas também nos enfraquecemos, com cada perda, por um sentimento interior de vergonha. O quanto antes nós expusermos tudo isso, melhor (...). Apenas quando começamos a simplificar é que realmente vemos que Deus não é um juiz e executor externo, mas alguém que cura e um amigo.

As metáforas podem ser falhas, mas elas se tornam reais em nossa experiência. Apenas quando descobrimos o novo continente interno de amor é que o medo e a vergonha humanos se desfazem em sua própria inexistência.

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para o Sábado pós-Cinzas à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

terça-feira, 6 de março de 2012

O princípio fundamental da relação saudável é a solitude

Arte: Os Gêmeos

O maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Aquele que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado. (Mat.23, 11,12)

Que ideal ridículo e inviável. Como pode qualquer sistema de governo ou organização operar, verdadeiramente, baseado neste princípio?

Com certeza qualquer um incumbido de poder e autoridade alega estar servindo o povo. Todos nós pretendemos ser mais humildes do que efetivamente somos. Ainda que, em todos relacionamentos haja projeções, papéis, atuações e jogos que as pessoas desempenham com ou contra as outras. Na maioria dos jogos, aliás, as pessoas gostam de ganhar.

Assim, antes de se dar conta do que está acontecendo, o servir se torna uma fachada para manipulação e a humildade se torna uma forma de dominação. As máscaras estão caindo, tanto na Siria, hoje, como na Libia há poucos meses - ou aonde quer que o distorcido amor pelo poder sobre os outros esteja sendo ameaçado. Ainda que sempre se precise de dois para dançar o tango e que décadas podem se passar até que aqueles que estão sendo explorados possam reagir e se rebelar. Famílias, corporações, nações, todos nós jogamos o mesmo jogo do poder.

De onde, então, vem este ensinamento de Jesus e para aonde está apontando?

Relações saudáveis são, com certeza, um processo de mão dupla e a química dos múltiplos relacionamentos tem muitas dimensões. O princípio fundamental da relação saudável, no entanto, é a solitude. Se não podemos encontrar e nos sentarmos no nosso "quarto interno" ou deixarmo-nos 'ser conduzidos ao deserto' não poderemos ter o necessário desprendimento para a boa relação. A solitude é o nosso encontro com a base do ser, que é o chão de todos os relacionamentos. Apenas quando nos tornamos humildes com esta descoberta poderemos compreender que cada relacionamento do ser humano está enraizado neste chão do ser. Toda relação no cosmos objetiva a relação central que é ser si mesma.

Jesus não está apenas nos dizendo como devemos nos comportar. Ele está nos dizendo como Deus é.

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para a terça-feira da Segunda Semana da Quaresma (06/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sexta-feira, 2 de março de 2012

A "opção" sexual

Foto daqui

É comum que algumas pessoas se refiram à homossexualidade como uma "escolha", "preferência" ou "opção sexual". No entanto, qualquer pessoa - seja gay, heterossexual ou bissexual - sabe que não houve eleição: não houve um momento da vida em que, diante de dois caminhos possíveis, "decidiu" gostar de mulheres ou homens, depois de muita reflexão, consulta ao horóscopo ou aos amigos, busca de informações no Google, experimentar de tudo um pouco para ver como é, jogar a sorte na moeda ou fazer uni-duni-tê.

(Seja você gay ou não, pergunte-se: quando você "decidiu"? Poderia ter sido o contrário? Se você gosta de mulheres, poderia "decidir" que a partir de amanhã vai gostar de homens? Se você gosta de homens, poderia "decidir" que a partir de amanhã gostará de mulheres? Você poderia, em algum momento, "escolher" ser o oposto do que você é? Você é sequer capaz de se imaginar sendo diferente? Você não sabia quem é, de forma mais ou menos consciente, desde a infância?).

O engraçado é que ninguém fala sobre a heterossexualidade como uma "opção". Ninguém perguntou o que "causa" da heterossexualidade. Os negros são "pessoas de cor", os brancos são transparentes. E as pessoas hétero são os "brancos" da sexualidade.

Somos todos educados desde a infância para sermos heterossexuais, e todos os padrões que nos ensinam, em casa ou na escola, vêm sob a forma de menino + menina. Então, o que acontece conosco, gays e lésbicas, é que em algum momento percebemos que não nos encaixamos nesse molde. Nós não escolhemos, nós descobrimos. Os heterossexuais não precisam entender nem descobrir nada, porque desde crianças é-lhes dito e ensinado que, sendo homens, um dia começarão a se sentir atraídos por mulheres; se forem mulheres, em algum momento começarão a se sentir atraídas por homens, e é o que de fato lhes acontece. Assim, seguem em frente e pronto. A nós, porém, disseram o mesma e em algum momento percebemos que era mentira: o que sentimos é diferente do que nos disseram que iríamos sentir. Não podemos simplesmente seguir adiante, precisamos ver o que fazemos com isso que "está nos acontecendo". Com os heterossexuais não "está acontecendo" nada.

Ao começar a perceber que nossos sentimentos contradizem as expectativas dos outros, nem todos reagem da mesma maneira. Algumas pessoas "assumem" sua orientação homossexual desde a infância ou adolescência e outros, no entanto, fazem isso mais tarde, mesmo sendo já bem mais velhos. Marguerite Yourcenar escreveu (em 1929) um belo livro chamado "Alexis, ou o Tratado do Vão Combate", que fala de um homem que tenta ser o que não é, até que finalmente aceita que não pode e escreve uma carta para sua esposa explicando por que a deixa. Felizmente, à medida que os preconceitos vão caducando e morrendo, esses casos estão se tornando menos freqüentes.

Seja na idade que for, depois que assume a sua sexualidade a maioria dos gays começam a se lembrar de coisas que confirmam que, no fundo, sempre souberam. Começam a perceber como gostavam do coleguinha do colégio e a entender por que ficaram com ciúmes quando o amigo do ensino médio começou a namorar, ou por que se interessavam tão pouco pelas mulheres quando todos os seus amigos não falavam de outra coisa. Ao relegar a homossexualidade ao horário impróprio para crianças, nossa sociedade condena crianças e jovens gays e lésbicas a pular uma etapa de suas vidas e os priva de experiências que outras crianças vivem naturalmente à medida que crescem.

Sim, naturalmente. Quando um menino que está na quinta série chega em casa e conta que tem uma namorada, parabenizam-no. Alguns têm uma namorada já no jardim de infância. Claro que "uma namorada" nessa idade não significa o mesmo que "ter uma namorada" aos 15 ou aos 30, mas mesmo esses primeiros "namoricos" são importantes no amadurecimento. A sexualidade está sempre presente em nossas vidas, mas passa por várias etapas até a idade adulta. A sexualidade de gays e lésbicas deveria ser autorizada a desenvolver-se da mesma forma, passando pelas mesmas experiências, nas mesmas idades.

Você não escolhe ser gay ou lésbica, assim como não se escolher ser heterossexual, e também não se pode mudar. Nem há qualquer necessidade: ser gay é tão normal e natural quanto ser heterossexual, do mesmo modo como ser branco ou negro, ter olhos pretos, verdes ou azuis ou ser destro ou canhoto. Apesar de, até há pouco tempo, os canhotos serem castigados na infância e obrigados a escrever com a mão direita.

Quando acabarem os preconceitos em relação às sexualidades "diferente" (que, afinal, são tão diferentes quanto a heterossexualidade é diferente de outras orientações sexuais), provavelmente gays e lésbicas começarão a viver sua sexualidade na mesma idade e da mesma forma que as pessoas heterossexuais, sem que isso seja uma questão, sem ninguém pense que é preciso escolher e que uma "escolha" será melhor que outra. A idéia de "assumir-se" ou "sair do armário", então, será um anacronismo.

Da mesma forma os canhotos agora aprendem desde crianças a escrever com a mão esquerda, e a nenhum pai ou professor parece que isso não seja normal.

Então, este blog não existirá mais.

- Bruno Bimbi
Traduzido do blog Tod@s

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Defina "família"


Defina FAMÍLIA. Pergunte ao Yahoo! – "uma mãe e um pai e 2 ou 3 filhos." Wikipedia: "no contexto humano, uma família (do latim: familia) é um grupo de pessoas ligadas por consangüinidade, afinidade ou co-residência. Na maioria das sociedades, é a principal instituição para a socialização das crianças." Prefiro a definição da Wikipedia. Já a do Yahoo... tradicional demais.

À medida que envelhecemos, vamos percebendo que "família" é aquela que nós criamos, não aquela em que nascemos. Afinal, muitos de nós LGBTs não temos uma esposa ou filhos. Envelhecemos durante o período em que a Maioria Moral e a Direita Religiosa nos diziam qual era o significado de "família tradicional", e muitos de nós viviam à margem disso. Porém, sei que todos somos da família.

Quer seja a comunidade LGBT em geral, ou um grupo de amigos, ou alguns seletos parentes de sangue que nos amam e são por nós amados incondicionalmente... encontramos nossa família e a definimos como a percebemos, não mais de forma não-tradicional. Temos valor, e agregamos valor. Somos FAMÍLIA.

Ontem nasceu meu segundo sobrinho-neto, Declan Flynn Anderson, com 3,3 kg – o mais novo membro da minha família. E como é bonito esse camaradinha. Parabéns, Stef e Drew, e Devlin – você tem um irmão mais novo para amar e por quem ser amado. A família de Stefanie, minha sobrinha, é prova de que eu tenho um papel na sociedade, tendo ou não meus próprios filhos. Seus dois filhos e meus outros quatro sobrinhos me dão a certeza de que o papel que desempenho na vida dos meus sobrinhos e sobrinhas tem imenso valor. Muitos socialistas podem confirmar que não há relação mais forte do que a de tia ou tio e sobrinho ou sobrinha, pois podemos ser "pais" e "amigos" ao mesmo tempo. Isto é: FAMÍLIA.

Eva, minha querida amiga e poderosa mãe solteira, chama a unidade que ela, seu filho Ezra (que também considero meu "filho") e eu criamos de FAMÍLIA. O sangue pode criar laços ou não; amamos de forma plena e livre, temos afinidade e carinho uns pelos outros e tornamo-nos um triunvirato que dá um forte testemunho do verdadeiro significado de “família” a qualquer juiz ou homofóbico. Eva e Ezra são os primeiros na minha lista de pessoas para ir ver ao voltar para casa, depois de duas semanas fora.

Nos últimos dias, visitando a família de minha melhor amiga, Donna, em New Haven, Connecticut, o alemão aqui tornou-se italiano. Tanto as irmãs ou a mãe de Donna, que criou as três filhas como mãe solteira, quanto sua sobrinha e seu sobrinho e a namorada de Donna, Lisa, deixaram claro que tinham me adotado. Eu fazia parte de uma linda e prolífica instituição: a FAMÍLIA.

Enquanto conversava com a mãe e a irmã de Donna na sala onde ela cresceu, quase meio século atrás, ocorreu-me o quanto nossa sociedade já avançou. A sobrinha e o sobrinho de Donna se sentaram na mesa da sala de jantar, ao lado, onde três gerações daquela família haviam jantado como uma unidade ligada pelo amor. Estavam brincando com seus iTouches, curtindo a companhia um do outro. Ambos perderam os pais uma década atrás. Sua sobrinha está sendo criada pela mãe, sozinha, no apartamento de cima, enquanto, neste apartamento, seu sobrinho é criado pela "nonna", a mãe de Donna. Naqueles aposentos, dava para sentir a fidelidade, a segurança, a confiança e a proteção reinantes. Rimos, brincamos, conversamos e, por fim, reunimo-nos para comer, como um só corpo, quando Lisa chegou: três gays, duas mães solteiras; três melhores amigos, dois héteros, dois jovens demais para saber ao certo; duas viúvas, uma divorciada gay, quatro órfãos... No entanto, como quer que a gente divida e conjugue, não há como se esquivar dessa definição: FAMÍLIA.

- Rick Rose, autor da coluna Rick This!, no LGBTSr
Tradução: Equipe DC
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