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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Nem as orelhas estão livres


Eu juro que estava planejando uma coisa enormemente legal para esta postagem, mas uma coisa não exatamente legal, mas enormemente surpreendente, se interpôs e ganhou. Deixo o próximo post para frivolidades, e neste trago o pitoresco e insólito caso de violência homofóbica que atingiu heterossexuais. Isso diz muita coisa, não?

Bom, alguns dias atrás, um homem teve metade da orelha decepada num legítimo ataque homofóbico. A grande diferença é que ele não é gay. A cidade é São João da Boa Vista, uma dessas centenas de cidades do interior de São Paulo que transpiram a cultura do rodeio e do cowboy. O evento é a Exposição de Agropecuária Industrial e Comercial. Tudo nos trilhos, quando de repente algo acontece! Pai e filho se encontram e, pasmem, eles se abraçam! Diante de tão obscena prática, um grupo de sete jovens se aproxima e, numa exemplar demonstração de zelo pela instituição da família e dos bons costumes, perguntam: -Vocês são gay? Fico imaginando o que terão pensado pai e filho, que, possivelmente atônitos, respondem: -Não. -Ah, parecem dizer os jovens, e vão embora. Cinco minutos depois retornam e atacam os imorais. O filho tem ferimentos leves. O pai acorda com meia-orelha a menos. Arrancaram-na às dentadas.

Esse caso revela duas coisas surpreendentes e perturbadoras. A primeira é: Você não precisa ser gay para ser vítima de um ataque homofóbico. Você basta parecer ser gay. Isso quer dizer que mais do que uma posição política, a relação héteros x gay se guiam em parâmetros éticos. Precisamos desse lamentável acontecimento para que tomássemos consciência disso, mas quando se chega ao ponto em que a sociedade espontaneamente cria instrumentos repressores não de práticas de sexualidade, mas tão-somente de afeto, temos de nos perguntar das razões pelas quais essas coisas acontecem. Nunca o ideal de "somos todos pessoas" foi tão forte. Pena que foi pro mal. "Somos todos pessoas" na hora de apanhar de grupos de jovens homofóbicos.

A segunda revelação é ainda mais contundente. Gostaria de usar um exemplo. Dois homens gay caminham em direção ao bar. Um deles está vindo do trabalho, usa terno, e, além da cueca fio-dental por debaixo da calça de brim, nada nele é gay. O outro usa uma calça verde-limão, uma regata vermelha e tênis cinza. Na direção dos dois vem um "grupo de jovens". Eles estão à cata de "viados" há horas. Têm uma necessidade inexplicável de bater em "viados". Como se isso apaziguasse alguma coisa não sabem o quê. Quem vocês acham que eles vão atacar primeiro. Nosso amigo "flamboyantly gay" ou o cara de terno? O ponto é: O alvo dos ataques homofóbicos é de uma inspiração eminente e fundamentalmente do imaginário. Antes de um problema social e de saúde pública, os ataques homofóbicos são de uma matiz ideológica. Por isso são crimes de ódio. Por isso é tão urgente que as pessoas do Brasil e do mundo encarem esse problema: o problema de nem sequer tolerarmos o que discorda de nós.

As estatísticas dos últimos anos revelam que, em média, a cada dia uma pessoa é morta no País em ataques homofóbicos. O Caso de São João da Boa Vista nos mostra que o ser ou não ser gay é o fator menos determinante nessas assassinatos. Em última instância, a aparência delas às condenou à tortura moral e física e à morte. Como podemos tolerar isso? Como podemos não tolerar dois homens se beijando mas tolerar um homem matando outro? Terá nossa homofobia raízes tão fortes que preferiremos matar pessoas a matar nossos preconceitos? Vamos pensar nisso. Vamos pensar que vivemos num mundo onde nem abraços são tolerados.

- Getúlio FM
Reproduzido via Blogue do Frido

domingo, 14 de agosto de 2011

Tentando aprender

Clique na imagem para ampliar. :-)

Oração dos pais
Ajudai-me, Senhor, na missão de Pai, porque é difícil e pesado o encargo de sustentar a família e dar-lhe o bem-estar e a tranqüilidade; e é quase heroísmo ser alegre com os familiares quando pesam as preocupações pessoais e os problemas da profissão.

Ajudai-me, Senhor, na missão de pai, para que eu realize o diálogo com minha esposa e os filhos. Que eu seja aberto para ouvir, humilde para propor, sábio para decidir e co-responsável para realizar.

Ajudai-me, Senhor, na missão de pai, para que eu saiba descobrir os valores de minha esposa e os talentos de meus filhos; e os ajude a desenvolvê-los. Saiba corrigir com amor, sem destruir nem humilhar.

Ajudai-me, Senhor, na missão de pai, para que eu defenda a dignidade do meu lar contra a imoralidade atrevida e a permissividade tentadora, vivendo o amor com fidelidade e construindo a união que faz o lar feliz.

Ajudai-me, Senhor, na missão de pai, para que eu possa ser sempre um testemunho de fé em Deus, coragem nas dificuldades, paciência nas provações e esperança na dor. E que pelo apostolado familiar, ajude outras famílias a serem mais felizes.

Ajudai-me, Senhor, na missão de pai, para que eu saiba dar valor à experiência sem me prender ao passado, saiba ser moderno e atualizado sem ser superficial e vazio; e conserve bem viva a vontade de acertar.

Finalmente, ajudai-me, Senhor, na missão de pai, para que eu creia firmemente que a grandeza da paternidade, assim vivida, não termina nem mesmo com a morte, porque os seus frutos são eternos.

Sobre pais e filhos


Meus pais se separaram quando eu tinha menos de dois anos de vida. Durante a infância, convivi com meu pai de forma intermitente: finais de semana, viagens, encontros ocasionais, saídas da rotina.

Meu pai nunca fez parte da minha rotina diária, mas enquanto eu era apenas uma criança, ele foi um pai carinhoso, alegre, divertido. Gosto de pensar que herdei dele a alegria e o jeito descompromissado de brincar com a vida, encontrando leveza.

Mas um dia eu deixei de ser criança – cresci, e precisei de mais do que um colo para me carregar de cavalinho, ou uma companhia para jogar cartas, ou um acompanhamento no violão para as minhas afinadas tentativas musicais. E aí, as distâncias e os desencontros começaram: ele nunca foi alguém com quem eu pudesse contar. Nunca esteve lá quando eu precisei, nunca escutou minhas questões e dificuldades, nunca me ofereceu o ombro ou o colo para chorar nas horas difíceis. A vida foi acontecendo, ele se perdeu de mim – acho que de si mesmo também –, e eu dele.

Meu pai viveu uma série de dificuldades e questões pessoais que não vêm ao caso agora – para contar bem resumidamente, ele é alcóolatra e dependente químico. Luta contra essas dependências há anos, conhecendo todos os picos e todos os vales – ultimamente, muito mais destes últimos do que daqueles. Eu não sei como foi viver essa dependência do lado de dentro, mas sei muito bem como foi conviver com isso do lado de fora – sendo filha, vendo alguém tão amado desconstruindo a própria vida a passos largos, precisando de alguém que não tinha a menor condição de estar ali como eu desejava.

Em determinados momentos da minha vida, eu tive muita raiva do meu pai. Raiva pelo abandono, pela ausência, pelas faltas tão sentidas. Pela irresponsabilidade e imaturidade, por não ter crescido e encarado as questões difíceis de frente, quando a vida assim exigiu. Pelo vazio que deixou na minha história, um vazio que fica para sempre, que ninguém jamais irá preencher – porque era o espaço dele na minha vida, e ele não o ocupou como deveria.

Mas de novo, a vida aconteceu. Eu me tornei mãe, e como mãe, aprendi na lida diária tão cheia de descobertas e desvendamentos, que limitações fazem parte da vida de todos, que perfeição é delírio besta que se desfaz ao menor sopro. Compreendi por experiência própria que não há uma varinha mágica que nos torne miraculosamente onipotentes, onipresentes e cheios de sabedoria, quando nos tornamos pais. Talvez gostássemos de acreditar que sim, mas a verdade é que continuamos os mesmos: humanos, falíveis, imperfeitos. Amadurecendo a cada dia, aprendendo com as experiências, tentando acertar – e errando de vez em quando, quase sempre mais do que gostaríamos.

Meu pai e eu estivemos afastados por muito tempo – anos de distâncias, mágoas e silêncios. Mas se o tempo pode afastar, também faz acalmar a dor e nascer compreensão onde ela antes não existia. Ter me tornado mãe, ter aprendido a aceitar minhas próprias limitações e impossibilidades, fez brotar em mim novamente aquele amor teimoso que sentia a menina diante do pai, aquele que acreditava um herói, capaz de tudo e maior do que tudo. Mas agora, não era mais um amor ingênuo – era um amor adulto, consciente, uma escolha.

Eu não gosto de dizer que ‘perdoei’ meu pai. Quem sou eu, afinal, também tão cheia de defeitos e cometendo meus erros ao longo do caminho, para perdoar alguém? Prefiro dizer que o acolhi – da maneira possível, sem expectativas irreais, sem desejos de transformação que não encontrassem eco na realidade. Aprendi a compreender e aceitar. Não com condescendência, mas com respeito. Porque é fácil respeitar o que é grande, forte e bom – difícil é respeitar também o erro, o desalinho, o imperfeito.

Meu pai é o que é, assim como eu sou o que sou. Talvez eu, como mãe, faça melhor do que ele fez como pai. Assim como minhas meninas, provavelmente, serão mães melhores do que eu mesma fui – não é essa a ordem natural da vida, não é para isso que viemos ao mundo: crescer, aprender e melhorar?

Todos os dias, penso na história que tenho escrito com minhas filhas, cheia de imperfeições e maravilhas que são só nossas. Como mãe, antes de qualquer outra coisa, importa-me que o amor esteja presente. Como filha, talvez eu tampouco precise de qualquer outra coisa.

Tenho compreendido, a cada dia mais, que maternidade e paternidade não têm nada a ver com infalibilidade, com onipotência, com ausência de dúvidas, de medos ou de inseguranças. Tem a ver com entrega, do jeito que for possível, fazendo o melhor – que talvez nem sempre seja suficiente, mas é o que se tem para dar. E cada um constrói sua história a partir daí – pais e filhos.

Não sei dizer bem ao certo de onde nasceu essa reflexão toda – talvez tenha sido a proximidade do dia dos pais, uma data que sempre me faz parar para pensar, muito além da parafernália publicitária e do consumismo desenfreado. Talvez tenha sido mesmo só o amor que apesar de tudo existe, persiste, e resiste.

Ser mãe tem me ensinado muito. Ser filha, também. De um lado e de outro da experiência, talvez o aprendizado mais valioso seja esse: aceitar e amar o outro como é, com defeitos e limitações, sem esperar acertos todo o tempo, sem cobrar perfeição – não é disso que o amor é feito.

Amar é acolher a inteireza: aceitar a luz, mas também a sombra. E compreender que cada um faz o que é possível para si, e que não ser para nós o que esperávamos que fosse não significa ter menos amor para dar – significa apenas dar todo o amor que se tem, da maneira que se sabe.

- Tata
Reproduzido via blog Mamíferas

sábado, 13 de agosto de 2011

Paixões

Ilustração: weheartit

Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício - acho medonho alguém viver sem paixões.

- Graciliano Ramos

Essa manga é rosa?


Um belo texto do nosso amigo Eduardo da Amazônia, datado de 29 de novembro de 2008:

Curiosidade de heteros, desconfiança de lésbicas e gays de análises apuradas e sentidos antenados. É assim geralmente o caminho que um homem perpassa quando está sendo descoberto ou descobrindo-se homossexual. Pode ou não ter se relacionado com uma pessoa do mesmo sexo: com o vizinho, o primo, o colega do irmão... ou pode simplesmente ter segurado o fôlego ao ser atendido por um belo garçom num barzinho a beira do ver-o-rio ou suspirado ao ver o sarado rapaz que tradicionalmente corre todas as tardes na Praça Batista Campos. Pode até dar uma disfarçada tomando um tacacá, flertando-o por cima da cuia, mas por todo corpo começa a circular uma gostosa energia.

Essa energia começa a fazer bater o coração mais forte, vibrante como a multidão de pessoas que nos dias de Remo e Paysandu no mangueirão balançam a arquibancada do estádio ou dos/as “pavuleiros/as” nos domingos de junho dançam, pulam e cantam na Praça da República. E por falar nisso, me lembrei com o Teatro da Paz que também tem certa semelhança com os gays: alguns têm o privilégio de conhecer por dentro, outros não e até mesmo tem alguns que não fazem questão de ver e já se contentam com o que viram por fora. Os porquês são outras histórias que não nos cabe no momento.

E se na missa das 18hs na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, logo na entrada você recebe aquele olhar... e no abraço da paz, recebe um toque no ombro e ao virar ganha um gostoso e apertado abraço! Fica confuso com medo de estar a pecar, mas logo se lembra das palavras de Jesus dizendo: “Eu vim para que todos tenham vida em abundância” (Jo 10,10); e alivia quando se lembra: “Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres...” (Gl 5,1). E no final da celebração, um cumprimento e um escondido papel passado pelas mãos contendo número de telefones, MSN, orkut e uma frase: “te espero terça-feira às 19hs na Casa das Onze Janelas”.
Chega em casa fica com medo, confuso, bebe um pouco de suco de cupuaçu e rever o bilhete que estava em seu bolso. Esconde rapidamente antes que alguém veja e corre para o quarto, cobrindo-se do frio que a chuvinha lá fora traz e fica pensativo: flertes, o garçom, o abraço, o bilhete...

Atrasado e correndo atravessa frente à Igreja da Sé, onde logo avista aquele que o espera e logo caminha em sua direção. Num abraço forte e pedindo desculpas pelo atraso, inicia a conversa de apresentação. Olhar sério, sorrisos e a água da Baia do Guajará batendo na margem embala a noite. A hora avança e as pessoas já começam a se dispersar e apesar de morar em Icoaraci, quer permanecer, parecendo não estar preocupado com o horário ou não. Olha para um lado e outro e não vê mais ninguém e mal vira a cabeça em direção ao garoto e é surpreendido com um beijo roubado. Facilita até para o assaltante atravessando seus braços sobre suas costas num abraço, acariciando-o com suas mãos. Sobre o céu da Amazônia, carícias proibidas trocadas no desejo de viver intensamente este momento como se fosse o último.

Se esta manga é rosa? Isto eu não sei, só sei que em Belém do Pará “a medida do AMOR é AMAR sem medidas”. Escondido ou não: experimente! Descubra-se como alguém que merece e deve ser feliz. Quem sabe não irá descobrir que a chuva das duas pode ser diferente...

- Eduardo da Amazônia (@EduAmazonia)
Reproduzido via blog do autor.

Ser grato


A vida de todo dia traz muitas dificuldades. Em certos momentos, a pressão é tão grande que se transforma em angústia. E, no entanto, estamos vivendo um mistério extraordinário. Como diz a epístola de são Pedro, “bendito seja Deus que nos tirou das trevas para a sua luz admirável”.

Apesar de todos os problemas, no fundo de nós mesmos deveria existir um sentimento de gratidão. Porque fomos chamados à vida, e recebemos esse patrimônio incrível que é a natureza humana. Tão incrível, que aprouve ao próprio Deus revestir-se da nossa humanidade, viver como um de nós, sofrer como sofremos, e também sentir as nossas alegrias.Essa atitude básica de gratidão é o tema de uma das cartas do monge Barsanúfio, que viveu no século VI nas imediações de Gaza, Palestina:

“De acordo com as palavras do Apóstolo, devemos conservar sempre uma atitude de gratidão:

”Em tudo, demos graças a Deus“. ”Demos graças, inclusive, pelas tribulações, sofrimentos, angústias, doenças, porque também é o Apóstolo quem diz: “Através de muitas tribulações entraremos no Reino de Deus”. E lá, seremos livres de todo mal.

“Não tenha dúvidas, nunca desanime. Lembre-se do ensinamento de Paulo: ”Embora a nossa natureza exterior se gaste continuamente, a nossa natureza interior se renova a cada dia“. Aceitando o sofrimento, seremos capazes de partilhar da cruz de Cristo.

”Enquanto o navio estiver em mar alto, está exposto ao perigo e à mercê dos ventos. Mas quando ele chega ao porto, já não há nada que ameace sua segurança, sua tranquilidade, sua paz.

“O mesmo acontece conosco. Durante esta vida, somos sujeitos ao sofrimento e atacados pelas tempestades espirituais. Mas quando chegarmos ao término dessa viagem, não teremos mais nada a temer”.

- Luiz Paulo Horta
Reproduzido via Amai-vos

* * *

Barsanúfio sabia das coisas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Santa Clara e a dimensão erótico/esponsal da espiritualidade cristã


No estágio final do “mytho” grego de Eros, o deus do amor aparece como o mais fiel dos esposos do Olympo. A imagética grega desvela assim que o anseio mais profundo do coração humano, erótico no sentido amplo do termo, destina-se a esponsalidade, não a dispersão.

Em tempos modernos, quando a religião parece agarrar-se a moral como baluarte de sua existência ou justifica exclusão e violência “em nome de Deus”, parece oportuno lembrar, quando a Igreja celebra a Memória de Santa Clara, a dimensão erótico/esponsal da espiritualidade cristã.

A liberdade do místico transparece no modo com que ele brinca com a rigidez de nossos conceitos. É significativo que Clara, descrevendo sua filiação espiritual ao caminho franciscano, recorra a uma imagem que “subverte” os papéis de gênero. Nela, São Francisco aparece como uma mãe, que, expondo seu seio, amamenta-a com a doçura celeste de sua doutrina. Aliás, não custa lembrar que o pobrezinho de Assis descrevia a si mesmo como uma mãe para seus frades e desejava que todo Superior de sua fraternidade assim o fosse.

Tal originalidade é fruto de um Eros assumido e desposado, “agapicamente erótico”, cuja tradução se revela na alegria de saber-se amado e amar; na criatividade em criar pontes no acolhimento de todo outro; no maravilhamento de descobrir a unidade na diversidade.

Nem lei nem doutrina. O essencial da vida cristã é uma Pessoa, Jesus Cristo. Pessoa que é relação e nos convida a relação. O mesmo amor que anseia pela comunhão, lança fora os medos que provocam as divisões –“ já não há homem nem mulher, sois todos vós um em Cristo”. Tira-nos da pseudo segurança da moral e nos expõe a vulnerabilidade da acolhida.

Que Santa Clara, Mestra de uma espiritualidade a um só tempo estática e extática – centrada no Único necessário e constantemente saindo de si ao encontro de Deus e do próximo – nos ajude a encontrar o júbilo de sabermo-nos todos criados pelo mesmo Amor e exclamar com gratidão: “Senhor, sede bendito, porque me criastes!”

- Thiago Lins

* * *

Repitamos hoje com Santa Clara:
“Senhor, sede bendito, porque me criastes!”

domingo, 7 de agosto de 2011

Bolsonaro e as calcinhas


O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi convidado para ser garoto-propaganda da Duloren, empresa especializada em roupas íntimas. Bolsonaro não é nenhum deus grego que inspire mulheres a comprar calcinhas. Não é seu corpo que importa à Duloren, mas suas opiniões sobre sexo, gays e mulheres. A atual campanha da Duloren de moda para homens no site da empresa traz a imagem de um desses modelos perfeitos sendo admirado por um pit bull. O slogan da campanha é "perigoso, viril e arrebatador". Minha dúvida foi se a chamada era para o cachorro ou para o modelo. O cachorro e o modelo estão de cueca, a diferença é que o cachorro a usa entre os dentes. Imaginei a atualização da campanha com Bolsonaro como modelo para a venda de calcinhas. Com o slogan "machão, conservador, homofóbico", Bolsonaro ocuparia bem o lugar do pit bull.

O comércio de roupas íntimas transita entre símbolos contraditórios sobre o corpo e a sexualidade: o proibido e o desejado, o vulgar e o íntimo. Bolsonaro e as calcinhas representarão a força do vulgar, mas com alta dose de desrespeito às mulheres e aos gays. Não consigo imaginá-lo vestindo calcinha na campanha, o que seria um contrassenso ainda maior, considerando sua posição de parlamentar.

Portanto, sua aparição deve ser como a de quem admira ou aprova mulheres vestindo calcinhas. Exatamente o lugar de censor moral no qual hoje ele vocifera como deputado ou, na iconografia da Duloren, o lugar do pit bull que admira os homens: o senhor da heterossexualidade, a favor de que as mulheres retornem à casa e ao cuidado dos filhos, e contra a igualdade sexual. Há outras cores de conservadorismo na voz do quase modelo da Duloren: revisionismo da ditadura como opressão, defesa da pena de morte, além das recentes controvérsias sobre racismo.

O que fez a Duloren imaginar que Bolsonaro inspiraria as mulheres a comprar calcinhas? Apostar na ironia seria o caminho confortável e menos controverso, mas também pouco provável para uma empresa que se rege pelo lucro. Bolsonaro não seria um modelo, mas um contramodelo para a intimidade feminina. Ao comprar uma calcinha aprovada por ele, as mulheres negariam os valores subliminares da campanha. Bolsonaro não seria o censor que se imagina ser, mas uma paródia de seu colega Tiririca no campo da sexualidade feminina: o humor sexual moveria o comércio das calcinhas.

Acho pouco provável uma aposta de risco como essa. Uma campanha de sucesso é aquela cuja mensagem não deixa dúvida sobre sua eficácia, semelhante à promovida pela Duloren que envolvia um padre e uma modelo com roupas íntimas, ambientada na Praça de São Pedro. A modelo segurava uma cruz em direção ao padre, sugerindo que a lingerie provocaria o espírito libidinoso dos padres. Não havia dúvidas quanta à mensagem dessa campanha, o que deixou a Igreja Católica justamente indignada.

Minha aposta sobre o sentido da campanha é outra. Não há subliminaridades em Bolsonaro como garoto-propaganda, assim como no uso da cruz e do padre na campanha anterior. A Duloren aposta no símbolo do machão como o de um bom vendedor de calcinhas, assim como apostou no modelo perfeito e no pit bull para vender cuecas para homens. É o sentido do machão na cultura brasileira que será negociado pela campanha. Gostar de mulheres e, mais ainda, de mulheres lindas vestindo calcinhas sedutoras, seria um ato de masculinidade. Para admirar mulheres na intimidade, somente homens machões. Mas machão aqui não se resume à ordem heterossexual do desejo - confunde-se com a homofobia, a opressão de gênero e a redução das mulheres a objeto de posse dos homens. O machão censor da sexualidade e do corpo das mulheres está em baixa e a Lei Maria da Penha é um sinal vigoroso da sociedade brasileira sobre essa mudança de mentalidade e práticas de gênero.

Não sei se Bolsonaro ajudará a Duloren a vender calcinhas, mas a Duloren o ajudará a se manter como o deputado federal censor da sexualidade. Afirmar-se como machão e defensor da heteronormatividade faz os parlamentares se projetarem, nem que seja pelo espanto medieval. O sinal mais recente dessa atualização do machão foi a aprovação da lei para a criação do Dia do Orgulho Heterossexual pela Câmara Municipal de São Paulo. Foram 31 votos pela aprovação contra 19, com forte hegemonia dos partidos conservadores na defesa da lei. Assim como na campanha da Duloren, há várias incongruências na lei, sendo a mais importante a inversão da ordem moral - quem é discriminado é o gay, e não o heterossexual. Não se mata um casal heterossexual na rua, mas se violentam pai e filho que expressam carinho em público. A homofobia mata, mas é a heteronormatividade que define as leis e, como gorjeta, pode ajudar o capitalismo a vender calcinhas.

- Debora Diniz
Antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da ANIS - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero
Reproduzido via Conteúdo Livre

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Duelo

Milk Maid: Kerstin zu Pan

O que é este horror ao semelhante que nos torna a todos alheios uns aos outros? Mas, se não nos aproximarmos, se não olharmos ao menos com olhos pacíficos as diferenças, nunca vamos vislumbrar, para além delas, as semelhanças...


Com amor,


Cris

Gosto de caminhar no meio da multidão. Num cruzamento da avenida Paulista, à uma hora da tarde, sinto-me anônimo e protegido como um peixe no cardume. Nada me distingue, sou só mais um, sem nome, credo ou classe social.

Sensação completamente diferente de quando, andando por uma calçada deserta do bairro, vejo despontar na esquina oposta um outro pedestre. Se entre a turba me diluo, tranquilo, diante dessa presença que se aproxima me concentro, aflito. Agora sou apenas eu, ele é o Outro, com maiúscula, é todo mundo, é a teletela do Big Brother (de Orwell, não do Bial), espelho-janela das salas de interrogatório da polícia, em filme americano.

Que pensarão de mim esses dois olhos inquisidores? Que juízo farão de meus passos, das minhas roupas, da expressão que levo em minha face -ainda mais agora, que tropeço nessas dúvidas? Subitamente, os braços me sobram, as mãos quase roçam o chão, como as orelhas de um basset hound.

Questão prática: devo encarar esse ser que vem em minha direção ou ignorá-lo por completo? Não, não, ignorar seria suspeito -suspeito de que, meu Deus? Não sei, mas talvez ele saiba, ou então descubra: melhor é dar uma olhada rápida, ainda de longe, como quem não quer nada - e, por acaso, eu quero alguma coisa?! -, depois fixar as pupilas num ângulo de 45 entre o horizonte e o chão, inclinação cívica e recatada, como bem sabem os passageiros do ônibus e do metrô, os pedestres bem treinados e as ripas das persianas.

Enquanto levanto os olhos para checar o concidadão, torço para encontrar alguém muito diferente de mim: uma platinada perua, um porteiro de uniforme cáqui, um senhor de bengala, uma estudante mascando chicletes. Afinal, para a perua eu serei apenas um homem pobre. Para o porteiro, um homem rico. Para o velho, um homem novo. Para a menina, um homem velho. Não haverá disputa nenhuma entre nós e, mesmo que nos encaremos, a distância de nossos mundos impedirá um julgamento preciso.

Já ao passar por um semelhante, um sujeito da mesma idade e faixa socioeconômico-cultural, será impossível fugir da herança de milênios de competição por comida, mulheres, poder. Ainda que só por um segundo, nos mediremos, perguntando-nos: esse que vem aí é melhor ou pior do que eu? Se fôssemos gorilas, bateríamos no peito, mandando nossos gritos para a selva. Se fôssemos alces, chocaríamos nossos chifres, até sangrarem. Fôssemos ursos, nos estapearíamos, até que um dos dois desistisse e voltasse para o bosque, enquanto o outro buscaria, orgulhoso, o olhar de uma fêmea.

Ainda bem que não sou gorila, nem alce, nem urso. Sou tímido e covarde e só ia levar bordoada num documentário do National Geografic Channel. Ainda bem que, ao levantar os olhos, percebo que o pedestre vindo em minha direção é o seu Wilson, dono da banca na rua de baixo. Cumprimentamo-nos com um meneio de cabeça, amistosos e desinteressados, como uma zebra e um flamingo que bebem água de um mesmo laguinho, na savana. Então ele passa por mim e eu sigo em frente, levando minhas neuroses para longe dali.

- Antonio Prata
antonioprata.folha@uol.com.br
Reproduzido via Conteúdo Livre

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pelo menos estou vivo

Foto: Todd Korol

Pelo menos estou vivo. Em movimento, andando por aí, perdendo ou ganhando, levando porrada, passando fome, tentando amar. "De cada luta ou repouso me levantei forte como um cavalo jovem", onde foi que li isso? Sei: Clarice Lispector, me Deus, foi em Perto do Coração Selvagem.

- Caio Fernando Abreu
(via X1 Tantas Notícias)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Amar é fácil?

Ilustração: Kevin Tong

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

- Clarice Lispector

domingo, 31 de julho de 2011

As necessidades do povo


Mateus inicia seu relato contando que Jesus, ao ver o povo que saíra de suas aldeias para segui-lo, por terra, até aquele lugar solitário, "comoveu-se até as entranhas". Não é um detalhe pitoresco do narrador. A compaixão para com aquelas pessoas, entre as quais havia muitas mulheres e crianças, é o que vai inspirar todas as atitudes de Jesus. De fato, ele não aproveita para transmitir-lhes uma mensagem. Nada se diz de seus ensinamentos. Jesus preocupa-se com suas necessidades. O evangelista fala apenas de seus gestos de bondade e intimidade. Tudo o que faz naquele lugar desértico é "curar" os enfermos e "dar de comer" ao povo.

É um momento difícil. Encontram-se em um local despovoado, onde não há comida nem alojamento. É muito tarde, e a noite se aproxima. O diálogo entre os discípulos e Jesus nos vai revelar a atitude do Profeta da compaixão: seus seguidores não podem ignorar os problemas materiais do povo.

Os discípulos dão-lhe uma sugestão repleta de realismo: "Despede a multidão", que partam para as aldeias e comprem o que comer. Jesus reage de forma inesperada. Não quer que partam nessas condições, mas que permaneçam junto dele. Essa pobre gente é a que mais precisa dele. Então, ordena-lhes o impossível: "Deem-lhes o que comer".

De novo, os discípulos chamam-no ao realismo: "Não temos mais que cinco pães e dois peixes". Não é possível alimentar com tão pouco a fome de tantos. Mas Jesus não os pode abandonar. Seus discípulos têm de aprender a ser mais sensíveis aos padecimentos do povo. Por isso, pede-lhes que tragam o pouco que têm.

No fim das contas, é Jesus quem alimenta a todos, e são seus discípulos que dão de comer às pessoas. Nas mãos de Jesus, o pouco se converte em muito. O alimento em quantidade tão pequena e insuficiente adquire, com Jesus, uma fecundidade surpreendente.

Nós, cristãos, não podemos esquecer que a compaixão de Jesus deve estar sempre no centro de sua Igreja, como princípio inspirador de tudo o que fazemos. Afastamo-nos de Jesus sempre que reduzimos a fé a um  falso espiritualismo que nos leva a ignorar os problemas materiais das pessoas.

Em nossas comunidades cristãs, são hoje mais necessários os gestos de solidariedade que as belas palavras. Descubramos também nós que com pouco se pode fazer muito. Jesus pode multiplicar nossos pequenos gestos solidários e conferir-lhes uma grande eficácia. O importante é não ignorarmos ninguém que precise de acolhida e ajuda.

- José Antonio Pagola
Mateus 14,13-21

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"A turma de Bolsonaro contra o quiosque de Sueli"


Acabou a festa e a alegria no quiosque de praia de Sueli, em Insensato Coração. Lá, todos os gays do Rio de Janeiro são lindos, jovens, malhados, bem sucedidos, felizes e tanto moram quanto trabalham a poucos metros da praia, com expedientes de trabalho que parecem começar só após as 10 e terminar antes das 16, pois só assim para todos eles encontrarem-se todas as manhãs e fins de tarde para tomar sol, bater uma bolinha e paquerar no quiosque, todo decorado com bandeirinhas do arco-íris gay. Tudo ia muito bem, tanto com a clientela segmentada de Sueli quanto com o merchandising social da causa anti-homofóbica adotada pelos autores da novela, capitaneados por Gilberto Braga, ele mesmo homossexual do tipo que nunca viveu em armários e que mantém há décadas um casamento sólido com o fotógrafo Edgar Moura Brasil.

Há muito tempo que todo novelão das oito que se preza tem que ter um merchandising social, uma bandeira ativista em favor de algum tipo de vítima, pois a indústria do bem está cada vez mais na moda, apesar de as criacinhas pobres da África continuarem com fome mesmo com tanta gente boníssima querendo ser igual ou santificar Angelina Jolie e Bono Vox. No campo das causas sociais adotadas pelas novelas, a própria Globo já passeou por dependência de drogas, alcoolismo, racismo, violência contra a mulher, imigração clandestina, pedofilia, violência contra idosos e inúmeros outros temas. Em Insensato Coração, era a vez da bandeira anti-homofóbica, o que vinha mais do que em boa hora, pois o povo parece se informar mais com telenovela do que com livros e revistas, já que não os lê, e o Brasil continua com índices alarmantes de assassinatos e agressões físicas e morais contra homossexuais. E bastou a um pai do interior de São Paulo abraçar um filho de 18 anos para ter a orelha decepada por talibãs locais que viram na cena um diagnóstico de homossexualidade.


DENTADURA - Quem, afinal, poderia ser contra o levantamento de bandeiras a favor de causas e grupos sociais que são vítimas de preconceito, violência, sofrimento ou tudo isso junto? Quando se trata de abordar a questão homossexual, parece que muita gente é contra, sim. Quisera o otimismo dos defensores da diversidade que Jair Bolsonoro fosse uma exceção. Ele é tão somente o mais barulhento e falastrão. Talvez mais danosos que o deputado caricato sejam aqueles que escondem sua intolerância com o silencio, pois sequer têm coragem de dar a cara a tapa para serem confrontados.

Pois bem. Parece que a entidade que atende genericamente pelo termo família brasileira, representada majoritariamente tanto pela nova quanto pela velha classe média, ainda não está disposta a trazer para a sala de casa, nem sob a forma superficial de narrativa ficcional teledramatúrgica, a questão homossexual. Como a Rede Globo precisa manter a liderança de audiência para continuar vendendo para essa familia anúncios publicitários de selante de dentadura, leite em pó, geladeira, carro e absorventes, uma luz vermelha foi acesa para os autores de Insensato Coração. E por falar em anúncio, a mocinha dessa novela, a pretexto de divulgar um absorvente que causaria menos reação à vagina, o anuncia como um produto que faz "bem à pele" e o exibe com uma fluidíssima lavanda verde metaforizando o fluxo sanguíneo menstrual. Sim, é verdade também que, antes deste que optou pelo verde, todos os outros absorventes mostram na TV que o fluxo menstrual é azul. E sim, a família brasileira há anos acha natural ver na TV que a mulher publicitária menstrue azul. Mas duas pessoas do mesmo sexo namorando?! Ora, isso não é nem um pouco natural. E quem há de lhe contrariar?

BEIJO GAY- Daqui para a frente, não se verá mais viv'alma gay no quiosque de Sueli ou gays sendo gays em qualquer outro lugar de Insensato Coraçao, muito menos qualquer personagem criticando violência contra homossexuais. De gayzice, só sobrarão as gagues de Ronie, o fiel escudeiro, confidente e personal tudo da doidinha Natalie Lamour. Mas gay caricato na TV é redundância, chuva no molhado, todo mundo sabe.

A ordem para fazer desaparecer de uma vez tanto a bandeira colorida quanto a discursiva da causa gay da novela das nove foi dada diretamente pelo alto comando da Globo aos autores e diretores há uma semana, conforme noticiou em primeira mão a Folha de S. Paulo. Aos autores, diretores e elenco foi pedido ainda silêncio absoluto sobre as novas diretrizes em entrevistas à imprensa. Como parte dos telespectadores brasileiros desenvolveu uma fixação em torno da perspectiva de ver em uma telenovela o primeiro beijo gay masculino, a frustração foi antecipada. Nesse aspecto, merece destaque uma aparente contradição, carregada de significados culturais, ocorrida recentemente na cena jurídica brasileira. Coube ao Poder Judiciário, especificamente ao Supremo Tribunal Federal, comumente considerada como uma esfera atrasadíssima em relação aos comportamentos sociais do seu tempo, permitir que fosse ao ar, no programa mais canônico e um dos mais engessados da TV brasileira, o primeiro beijo gay masculino da televisão brasileira.

O fenômeno, para quem não se deu conta, foi veiculado em um telejornal, e não em uma telenovela, considerada como um produto de maior flexibilidade para a abordagem de temas delicados ou cercados de tabus. Desta vez, quem diria, a novela ganhou bolor e o Supremo agiu com arejamento e adequação à vida como ela é do lado de fora dos cenários do Projac. Goste-se ou não, o fato é que a turma de Bolsonaro parece mil vezes menos hipócrita que o pedido feito pelo comando da Globo aos autores de Insensato Coração. Essa rodada, os bolsonarianos venceram. E a Rede Globo, com seu Big Brother onde se pode tudo e mais um pouco, mostra, assim, que continua a mesma senhora hipocritamente austera dos tempos em que mandou explodir um shopping center na novela Torre Babel só para matar e excluir da trama um casal de lésbicas. Como agora, a emissora o fez também a pedido da família brasileira e para preservar a audiência conservadora pela qual seus anunciantes lhe pagam volumes astronômicos de dinheiro. Gilberto Braga deve estar em cólicas.

- Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.
Texto publicado originalmente em 24 de julho de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA;
maluzes@gmail.com
Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 26 de julho de 2011

Heteroinquisidores


Se pai e filho agredidos por homófobos tivessem se 'confessado' gays, em vez de uma orelha decepada poderia haver dois cadáveres

Minhas visitas à Índia são recheadas de descobertas culturais. Uma das que mais me fascina é a cena de homens de mãos dadas nas ruas. Ao contrário de nós, a expressão pública de afeto entre amigos é socialmente autorizada. Assim como meninas escolares no Brasil, os indianos de qualquer idade andam abraçados com seus colegas. A mesma intimidade entre homens, vi em vários países de tradição árabe. Aos homens, é permitido o toque como sinal de amizade. O curioso é que esse traço cultural não elimina a homofobia. Ao contrário, a homofobia é uma prática de ódio que convive com essas redescrições culturais sobre o corpo e o encontro entre os sexos. Entre nós, a novidade parece ser a de que nem mesmo o afeto entre pais e filhos será permitido pela patrulha homofóbica.

Um pai de 42 anos e um filho de 18 se abraçaram. De madrugada, cantavam juntos em uma festa ao ar livre no interior de São Paulo. Consigo imaginá-los felizes, razão para demonstrarem afeto mútuo. Foi o sinal para que dois homens desconhecidos perguntassem se eram gays. Insatisfeitos com a resposta negativa, saíram em busca de outros homens para iniciar a agressão. O pai teve parte da orelha decepada e o filho teve ferimentos leves. Pai e filho têm medo de represálias, pois os agressores estão pelo mundo, talvez orgulhosos da façanha ou, quem sabe, ainda sem entender por que não se pode agredir gays. Se tiverem algum senso de vergonha pelo ato, talvez seja o de ter confundido homens heterossexuais com gays.

A violência foi praticada com um ritual de confissão em dois atos: no primeiro, pai e filho deveriam declarar suas práticas sexuais para homens desconhecidos. Os homens homofóbicos são os inquisidores da heteronormatividade. Pai e filho negaram ser gays. Por alguma razão, a performance de gênero do pai e do filho não convenceu o grupo de homófobos. Eles buscaram reforço e retornaram com mais homens para silenciar aqueles que imaginavam ser representantes dos fora da lei heterossexual. No segundo ato, foram exigidas demonstrações de práticas homossexuais: pai e filho deveriam se beijar na boca para que os agressores vivenciassem a fantasia gay.

O primeiro ato do ritual homofóbico me leva a imaginar quais teriam sido as consequências de um "sim, somos gays" - uma autoafirmação entranhada em dois homens que não suportassem mais o tribunal homofóbico. Com essa resposta, talvez não estivéssemos diante de uma imagem de uma orelha parcialmente decepada, mas de dois cadáveres. Pai e filho foram vítimas da violência homofóbica. O curioso é que os dois não se apresentam como gays, mas como representantes da ordem heterossexual. Para os vigias homofóbicos, não importavam as práticas sexuais dos dois homens, mas a manutenção da ordem pública em que homens não devem se tocar. O interdito homossexual é tão poderoso que deveria impedir, inclusive, o contato físico entre pais e filhos.

Há outro ponto intrigante nessa história que é sobre como os homófobos se formam. Essa é uma inquietação a que qualquer aspirante a sociólogo responderia com uma tautologia: os fenômenos sociais não têm causa única. Mas aqui quero arriscar um caminho de compreensão. Os homófobos deste caso foram incapazes de diferenciar uma expressão de carinho paterno de uma prática erótica entre dois homens. Como hipótese, especularia que os agressores pouco receberam afeto de homens, seja de seus pais ou de outros homens de suas redes afetivas. Uma hipótese alternativa é a de que, se houve afeto paterno, esse foi mediado pelo temor homofóbico. Essa ausência levou os agressores a desconfiar do corpo de outros homens. Ao primeiro sinal de aproximação física, a defesa é a repulsa homofóbica.
Sei que essa explicação pode parecer reducionista para um fenômeno tão complexo e dependente da cultura patriarcal como é a homofobia. Mas é intrigante o erro do radar homofóbico dos agressores, o que sugere haver um equívoco de ponto de partida: eles parecem não ter sido capazes de identificar sinais corporais de algo tão fundamental quanto o amor paterno. Mesmo que não sejam ainda pais, não conseguiram se deslocar para o lugar de filhos que já foram ou ainda são. Aos guardiões da moral heterossexual, esse é um erro de diagnóstico que denuncia uma perturbação simbólica ainda mais fundamental.

Se minha hipótese for razoável, a mediação homofóbica na relação entre pais e filhos ou entre homens que se relacionam por vínculos de amizade ou convivência perpassa a socialização de gênero dos meninos. Os homens seriam treinados para evitar expressões de afeto e carinho por outros homens. Aqui volto à imagem da Índia para lembrar que o desejo de aproximação física entre homens não está inscrito nos corpos sexuados, mas é compartilhado pela cultura em que os homens vivem. Os homófobos se formam em casa, na rua, na escola. Em todos os espaços em que a fantasia homofóbica mediar a relação entre os corpos e afetos dos homens, a violência e a injúria contra os fora da lei heterossexual irão crescer.

- Debora Diniz
Antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da ANIS - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero
Reproduzido via Conteúdo Livre

O que aconteceu com o sexo?

Foto: Sarah

Diante do debate sobre a visibilidade gay na televisão brasileira hoje, achamos pertinente reproduzir aqui este texto do teólogo gay/queer André Musskopf, escrito em 2007 e publicado na G-Magazine e na revista alemã Werkstatt-Schwule Theologie (via blog do autor).

Já faz algum tempo que tenho refletido sobre a importância do sexo na construção da identidade gay. Tive uma fase em afirmar que minha identidade não era construída exclusivamente a partir do meu desejo ou das minhas práticas sexuais, para contrabalançar aqueles e aquelas que me viam apenas como um "ser sexual", ignorando todas as outras variantes que fazem parte da construção (e reconstrução) da minha identidade.

Como gosto de cinema e televisão (também das novelas!), fui levado mais uma vez a esta reflexão, e à minha já quase solidificada constatação, após ler uma entrevista de Gilberto Braga à G-Magazine (Março/2007). Nesta entrevista a respeito da novela Paraíso Tropical o autor afirma que "os meus gays não ocupam um espaço importante na novela ... porque uma história de amor gay pode não interessar à maior parte do público" e "os gays não têm história [em Paraíso Tropical] exatamente porque se eu der uma para eles, vou tirar o espaço de personagens para os quais está prevista uma história. Os gays devem ser bons coadjuvantes". Não tenho por objetivo fazer uma crítica à obra de Gilberto Braga ou ao seu caráter militante. Mas pensar no que tanto incomoda nas relações homossexuais, na dramaturgia bem como no cotidiano.

A reflexão: já fui levado muitas vezes ao cinema ou a locadoras pelos comentários sobre o "aspecto gay" de determinados filmes que chocaram audiências - seguramente com o objetivo de ver os tais "avanços" e, mais subjetivamente, a mim mesmo. Um deles que me recordo foi Alexandre, o Grande. Frustração! Talvez tenha lido os comentários errados, mas os supostos "componentes gays" não passaram de uma cena breve em que se insinua algum contato com um de seus súditos, que ninguém sabe se foram concretizados ao término do filme. O que ninguém deve esquecer é a cena tórrida de sexo de Colin Farrel (Alexandre) com Angelina Jolie (Olímpia). O exemplo mais recente é Brokeback Mountain. Este, que já foi lançado como um "filme gay", não poderia ser mais frustrante para alguém interessado em "sexo gay". Tirando a cena na cabana - e talvez a cena do beijo no reencontro - só consigo lembrar de outras cenas de sexo entre os cowboys e suas esposas. Não é à toa que no Brasil o filme foi lançado como o "segredo" de Brokeback Mountain. Poderia muito bem ser uma estória sobre dois amigos muito íntimos e muito companheiros, como as relações de amor fraternal descritas por inúmeros religiosos celibatários ao longo da história da Igreja Cristã. Como um "bom gay" eu posso imaginar o sexo e ir para casa com a sensação de que os homossexuais agora serão mais bem aceitos pela singeleza e pelo sofrimento expressos no telão. Coitados! Mas como um "bom gay" também quero saber o que aconteceu com o sexo?

Voltando às novelas, o próprio Gilberto Braga menciona as mudanças na abordagem do tema em A próxima vítima e América. Eu mesmo acompanhei e fiquei emocionado - eu confesso - com as histórias dos casais gays nestas novelas. Mas nem um beijinho? Que dirá sexo! Já sexo entre casais heterossexuais... Mesmo em Paraíso Tropical, personagens que eu colocaria no rol de "coadjuvantes", andam fazendo sexo com vontade. Outro dia vi uma cena de Bruno Gagliasso (o mesmo de América) com sua namorada em que ambos estava seminus, ela entrelaçando ele com as pernas, ele chupando os seios dela... ui! Já o casal formado por Sérgio Abreu e Carlos Casagrande... lindos, mas sem beijo e sem sexo, coadjuvantes sexless numa trama cheia de sexo. Defensores da moral e dos bons costumes?

Claro, não é preciso ir ao mundo do cinema ou da televisão para buscar exemplos similares. A própria comunidade gay tem construído suas fobias e mecanismos de ocultamento do sexo. Basta pensar nas reações causadas pelos "exageros" nas Paradas Gays na comunidade e a busca por parceiros/namorados cada vez mais discretos, mais masculinos, mais alinhados... aquele tipo que não causaria suspeita em lugar algum de ser, de fato, gay, e seria um sério candidato ao "genro que toda sogra sonhou". Nenhum vestígio de homossexualidade. O sexo fica no quarto, e os direitos também, é claro. Mas esta discussão já é bem conhecida e não vou me alongar nela, só dizer que suspeito que os motivos destas posições venham do mesmo lugar.

Mais um exemplo, este do mundo das igrejas. Talvez não seja muito conhecida a política de ordenação de homossexuais ao ministério, mas em algumas igrejas protestantes criou-se a "possibilidade" de homossexuais serem ordenados pastores, desde que sejam "não-praticantes". Ora, pressupõe-se que todo mundo saiba o que não se pode "praticar" a fim de que seja aceito como obreiro da igreja. Mas é bom dizê-lo: significa eliminar o sexo. O mesmo princípio regula a Igreja Católica Romana na sua relação com seminaristas e padres homossexuais, mas, neste caso, com o "atenuante" de que isto é exigido de todos, uma vez que o celibato é condição para o sacerdócio, sem exceções. Não vou aqui discutir o que de fato acontece na vida daqueles que se professam celibatários ou não-praticantes - poderíamos encontrar muito sexo aí. A questão é que no nível do discurso e da política eclesiástica parece atuar a mesma idéia que vinha identificando acima: acaba-se com o sexo (pelo menos pública e oficialmente) e as portas se abrem para "homo(já nem tão)sexuais". E também aí sabemos que não é bem assim que funciona.

A constatação: a questão da marginalização, exclusão e discriminação de homossexuais está proporcionalmente relacionada ao sexo. Esconde-se o sexo, a aceitação de homossexuais aumenta. Será? Bonitos, saudáveis, gentis, trabalhadores, sensíveis - tudo bem. Beijos e sexo - nem pensar. Como teólogo penso na histórica "negação ou domesticação" do corpo e da sexualidade, nos discursos sobre eles bem como em qualquer discurso teológico. Elogia-se a ideologia do amor romântico e a caridade fraterna, demoniza-se a materialidade do sexo e do desejo. Como pesquisador na área da sexualidade penso na higienização do sexo e na construção ideológica da família burguesa. Sendo assim, também tenho consciência dos limites e das possibilidades do sexo, em sua forma discursiva, na sua representação e nas práticas. Mas prefiro as possibilidades e o sexo.

Por mais que se questione a banalização do sexo heterossexual patriarcalmente definido (promovido pelas novelas ou qualquer outro meio de comunicação), também banaliza-se o sexo homossexual pela via do silêncio e do ocultamento. Ele já não nos pertence mais! Enquanto se deixa de veicular a mensagem de que o sexo gay é bom e saudável, transmite-se a mensagem de que é tão monstruoso que até mesmo um beijo precisa ser evitado para que, assim, os gays pareçam "normais" - comparados a quem? Tudo para que tenhamos últimos capítulos com muitos casamentos e crianças recém-nascidas ("Quanto maior a família melhor, diria o milionário Aristides de Páginas da Vida). E pobres das criancinhas que são influenciadas por estes meios diabólicos de comunicação: ou crescem e se tornam adultos homofóbicos, ou passam a adolescência tentando lidar com seus desejos, quando não se suicidam antes.

Ergamos nossa voz - pelo direito ao sexo! Nos quartos, nas telas de cinema e na televisão! Seguro, sem culpa e com tesão! Senão continuaremos sendo meros coadjuvantes sem uma história que seja nossa pra contar, e não cidadãos de verdade.

- André S. Musskopf

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Nova York diz "sim" para o casamento gay

484 casais do mesmo sexo casaram ontem em Nova York - como, por exemplo, Phyllis Siegel, 76, e Connie Kopelov, 84, juntas há 23 anos. Não é uma bela imagem para começar a semana?


Outras fotos aqui.

Uma semana abençoada a todos! :-)

sábado, 23 de julho de 2011

A patrulha do amor


O ataque dos homófobos ao pai que abraçava o filho revela o cerco àqueles que exibem afeto em público

Era uma festa de interior paulista em São João da Boa Vista. O pai, de 42 anos, abraçou o filho, de 18. Eles se veem uma vez por mês. “A gente fica no maior chamego, é a saudade”, disse o pai. Um grupo de seis homens se aproximou e perguntou se eles eram gays. O pai ainda respondeu que não. Foi desacordado por um soco no queixo. Sua orelha direita foi decepada por um dos agressores. Era um serralheiro de 25 anos que odeia homossexuais.

O serralheiro, preso dias depois, foi solto logo. E provavelmente só se arrepende pelo erro de avaliação: se pai e filho fossem um casal, teriam merecido o castigo. Ele é um entusiasta da tese defendida pelo deputado federal Bolsonaro: pais devem dar palmadas em filhos com “desvios” para “curar a doença” que está destruindo a família brasileira.

Essa legião homofóbica é muito maior do que se pensa em nosso país. Ela começa a sair do armário. Os novos direitos iguais dos gays cumprem uma função importante: mostram quem é quem. Preconceitos ficavam escondidos pela legislação discriminatória. Agora, emergem com fúria viril e religiosa. Agressões como essa e tantas outras terão de ser punidas exemplarmente, até que a sociedade se civilize e se modernize. O racismo é crime? A homofobia também precisa ser crime.

“Estava eu, meu filho, minha namorada e a namorada dele. Elas foram no banheiro. Aí eu peguei e abracei ele”, contou o pai, vendedor autônomo que vive numa chácara em Vargem Grande do Sul, cidade vizinha. O filho mora com a mãe em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. “Passou um grupo, perguntou se nós éramos gays, eu falei ‘lógico que não, ele é meu filho’. Ainda falaram: ‘Agora que liberou, vocês têm que dar beijinho’. Houve um empurra-empurra, eles foram embora, mas voltaram. Não sei se eu tomei um soco, apaguei. Quando levantei, senti. A minha orelha já estava no chão, um pedaço.” Uma mulher pegou o pedaço da orelha e colocou em um copo com gelo. No hospital, os médicos disseram que a orelha foi decepada por algum objeto cortante e muito bem afiado. “Não se pode nem mais abraçar um filho”, disse o autônomo.

Esse episódio dantesco numa festa agropecuária não choca apenas pelo ódio aos gays. Parece cada vez mais difícil ser pai amoroso quando, por todo lado, espreita a malícia alheia. Há dois anos, em setembro de 2009, um turista italiano foi preso por acariciar e beijar com “selinhos” a filha de 8 anos numa piscina pública em Fortaleza. Um casal de Brasília chamou a polícia. Estavam indignados com o “gringo pedófilo”. Ele branco, ela mais escura. A menina era filha do italiano com uma brasileira. A mulher também estava na piscina e protestou quando levaram o marido.

Pode-se entender o engano inicial numa região como o Nordeste, onde a prostituição infantil e o turismo sexual são uma tragédia quase oficial. Mas, mesmo depois de esclarecer que o italiano era pai da menina e estava com a mulher, como explicar sua detenção por dez dias de férias? Foi liberado sem pedido de desculpas. Daqui a pouco, um pai não poderá mais ajeitar o biquinizinho da filha, levar a menina ao banheiro, colocar no colo, abraçar e beijar.

Essa polícia do comportamento afetivo é dura, humilhante e cultural. Persegue sobretudo os homens. Em vários países, beijos entre heterossexuais não põem em dúvida sua masculinidade. São expressões de carinho. No Brasil, é mais complicado. Escrevi uma vez sobre o simbolismo de homens fantasiados de mulher no Carnaval. “O homem se veste de mulher porque quer ser mais afetivo de maneira escancarada, sair beijando todos, de qualquer sexo. Homem afetivo, nos outros dias do ano, é coisa de gay”, diz o psicoterapeuta Sócrates Nolasco. “É um momento do ano em que ele não precisa afirmar sua masculinidade. Mulher pode ser afetiva, carinhosa, extrovertida, e nem por isso será tachada de piranha.

Deve ser cansativo e frustrante tentar se enquadrar o tempo todo no que a sociedade espera do macho. As novas gerações de homens deveriam fazer uma revolução.


- Ruth de Aquino
Reproduzido via Revista Época, com grifo nossos

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Temperamento difícil para amar


I
palavras meu amor conhece todas
que belo passatempo é não encher folhas
enquanto examino as ranhuras da mesa
e a paisagem de um restaurante ou padaria
dobrada em pedaços enquanto deixo
de ver e ouvir outra pessoa

II
meu amor não gosta dos sábados
domingos ou dias de semana
meu amor não quer feriados
meu amor não quer tirar folga
eu só queria tirar o dia
pra dizer agora que há você
o que é que vem agora

- Ana Guadalupe

terça-feira, 5 de julho de 2011

Entendendo a Homofobia pela sétima arte



Desde o sucesso de o Segredo de Brokeback Mountain, 2005, muitos filmes com a temática homossexual e quase dando um viés a homofobia foram lançados, um ponto que me chamou atenção é a intensidade do sofrimento psiquíco apresentado pelos personagens. Entretanto, se você trocar os personagens principais por Romeu e Julieta, acrescentando outros nomes aos demais, perceberá que muitos se tornariam massantes e básicos, sem o menor atrativo como obra cinematográfica. Então por que esses filmes são produzidos e veiculados? Simples: Quando algo se repete e reverbera, é sinal de que precisa ser mais bem elaborado ( Freud ). E, infelizmente ainda temos indícios sociais graves de que a sexualidade homoerótica não é bem-entndidade. Isso pode ser visto, também para os analistas sociais mais específicos da área.

Em todos os filmes sobre o tema, ficou claro que o sofrimento psiquíco existente não estava na orientação sexual inconsciente, mas sim, nas consequências que o preconceito traz para a vida dessas pessoas. Ou seja, o que “faz mal” aos homossexuais não é sua orientação, e sim, aquele que é preconceituoso. É uma questão social que traz impactos negativos ao psiquismo humano.

O Filme Anothes Gay Movie, 2006 tem algo de diferente e chama a atenção: O humor debochado. Se você gosta de filmes no Estilo American Pie, 1999 vai perceber total semelhança de estilo. Temos o mesmo enredo, porém, em uma versão gay. Acho importante citar este filme, pois ele deixa bem claro como a homofobia traz reflexos ruins no desenvolvimento de jovens que e descobrem homossexuais durante a adolescência.

Singularidade dos homossexuais 

De uma forma inversa, por ser debochado, o filme mostra uma suposta sociedade ( que não é utópica, pois existe fora do Brasil ) onde homos, heteros, bis, tris, trans, pans, jans ou seja qual for a orientação, são aceita como são. Repare que os personagens do filme possuem um desenvolvimento ”normal” e passam pela adolescência tranquilamente, com conflitos comuns a esta fase da vida ( independente de orientação ).
A prova disso é que na Inglaterra, beijos, casamentos gays, personagens lésbicas já fazem parte dos enredos das novelas há mais de 20 anos, sinalizando que já foi algo elaborado “socialmente”.

Já o filme Get Real, 1998 foi produzido e gravado no Reino Unido, em uma cidade de “interior” ainda com resquícios de homofobia. Ele se passa em uma cidade pequena. Nessa mesma época, as ditas “cidades grandes” do Reino Unido já entendiam a homoafetividade de outra maneira.

Porém, se você comparar estes filmes verá que a homofobia, seja dos amigos, familiares e colegas de escola, é quem causa o sofrimento psíquico nos personagens. Mesmo quando se questionam sobre suas orientações, a “culpa” está sempre relacionada as aspirações e projeções que os outros fazem deles.
Outro filmes interessante é O clube do corações partidos ( The broken hearts club, 2006 ) que mostra um grupo de homossexuais adultos, saudáveis desfrutando sua vida normalmente, sem conflito e preconceito. É uma espécie de Sex and the City em versão gay, com todos esteriótipos e piadas comuns.

Em tempo de projeto de lei contra a homofobia muito se tem questionado sobre a homoafetividade, Os que são contra o projeto se embasam em aspectos religiosos para justificar algo que deveria ser laico – o direito. Este projeto não versa sobre imposição da sexualidade homoerótica, como alguns tem divulgado na mídia, mas sim, de liberdade de serem quem são, com respaldos legais para discriminações e agressões muito frequentes.

O preconceito e a Homofobia tornam toda descoberta da sexualidade homoerótica como um caso de Romeu e Julieta, de “amor proibido”, em que a sociedade, transforma os casais homossexuais em vítimas de sofrimentos psiquíco, e o final sempre condiz com o “feliz para sempre” proposto por Shakespeare.
Se você sentir qualquer sentimento negativo nos momento em que as cenas de beijo, ou mais “picantes” aparecerem em sua televisão, isso pode ser um indicativo de que as questões homoeróticas precisam ser melhor elaboradas, e se você pretende atuar em Saúde mental, precisa rever e deixar esses conceitos prevíos fora do seting psicoterápico.

Texto Elaborado por Eduardo J. S Honortado Psicólogo e Psicanalista;
Mateus Sant`Ana, Acadêmico de Direito do Complexo de Ensino Superior Santa Catarina – CESUCS;
Para a Revista Psiqué, edição 40.
Contextualizado e Atualizado por Felipe Resende, Psicanalista e Terapeuta Sexual.

Fonte: Homofobia Basta

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Para um cristão, o estilo é a mensagem


"A fé não é questão de números, mas de convicção profunda e de grandeza de ânimo, de capacidade de não ter medo do outro, do diverso, mas de sabê-lo escutar com doçura, discernimento e respeito. Do testemunho cotidiano dos cristãos no mundo depende a recepção do Evangelho como boa ou má comunicação, e portanto, boa ou má notícia."

Essa é a opinião de Enzo Bianchi, teólogo italiano e prior do Mosteiro de Bose, em artigo para o jornal La Stampa, 21-06-2009. A tradução é e Benno Dischinger.

Eis o texto, reproduzido via IHU com grifos nossos.


Conjugar a exigência do Evangelho com a realidade na qual é dado viver sempre foi a preocupação e o desafio de toda geração de cristãos, chamados – para usar as próprias palavras de Jesus – a “estar no mundo mas não ser do mundo”. O tema escolhido pela Convenção nacional (...) das Caritas diocesanas (isto é, dos organismos que se encarregam de testemunhar no cotidiano e em seu território a atenção da Igreja pelos “últimos”, dando corpo a um modo de viver a fé cristã que é imediatamente perceptível e legível também numa sociedade secularizada como a ocidental e mesmo por aquele que não compartilha daquela fé) indica muito bem a consciência da comunidade cristã: “Não vos conformeis com este mundo. Por um discernimento comunitário”. A primeira afirmação é uma admoestação de São Paulo aos cristãos de Roma no primeiro século depois de Cristo, exortação que é atualizada com um apelo à importância de operar um discernimento sobre o pensar, sobre o agir e sobre a necessidade que esta reflexão seja “comunitária”, isto é, fruto e também semente de uma comunidade viva e vital.

Esta concepção indica bem o difícil equilíbrio da presença cristã na sociedade: nenhuma “fuga do mundo”, nenhum enclausuramento numa cidadela de “puros”, mas também nenhuma concessão a uma mentalidade mundana que considera descontados ou privados de validade ética comportamentos lesivos da dignidade humana. Já o Antigo Testamento admoestava, de resto, a “não seguir a maioria para praticar o mal?” (Ex 23, 2). Na vivência cotidiana há escolhas que a fé cristã impõe e inspira, certamente deixando aos pastores da Igreja, às figuras representativas institucionais a tarefa de agir no terreno profético, pré-político, pré-econômico, pré-jurídico, mas assinalando aos fiéis, aos leigos cristãos o encargo de uma realização de tais instâncias sob sua responsabilidade mediada pela sua consciência. Parece-me que estes comportamentos capazes de mostrar a diferença cristã possam ser reassumidos em algumas opções de fundo.

O “mandamento novo”, isto é, último e definitivo, deixado por Jesus aos seus discípulos é: “Amai-vos como eu vos amei” (Jo 13,34), amai-vos até despender a vida pelos outros, até doá-la pelos irmãos. Ora, este mandamento que narra a especificidade do cristianismo requer que o cristão não ame somente o próximo, não ame somente os seus familiares, mas ame todos os outros que encontra, e entre estes privilegie os últimos, os sofredores, os necessitados. Ao observar este mandamento, o cristão não pode, pois, pensar na forma política a dar à igualdade, à solidariedade, à justiça social. Se não houvesse também uma epifania política do amor pelo último, da atenção ao necessitado, faltaria à polis algo decisivo nas relações sociais e teria certamente evadido uma grave responsabilidade cristã. Não esqueçamos que, segundo as palavras de Jesus, o juízo para a vida ou para a morte será feito precisamente sobre a relação que houve na vida e na história, aqui e agora, com o homem em necessidade, faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente, prisioneiro.

À mesma evangelização da Igreja pertence também a tarefa de indicar o ser humano e sua dignidade como critério primário e essencial à humanização, a um caminho de autêntica plenitude de vida. Isto requer que os cristãos saibam, acima de tudo, dar um testemunho com sua vida, mas saibam também tornar eloqüentes as suas convicções sobre as exigências de respeito, salvaguarda, defesa da vida humana. Diante da guerra que, não obstante as experiências vividas, continua atraindo os poderes políticos e os seres humanos, os cristãos devem saber manifestar sua contrariedade e sua condenação, na convicção de que não pode existir uma guerra justa, como profeticamente indicou o magistério de João XXIII, retomado por João Paulo II por ocasião da segunda Guerra do Golfo.

Os cristãos devem saber manifestar de modo eloqüente sua opção em favor do respeito da vida dos povos e das pessoas, ameaçados também por possíveis catástrofes ecológicas. Devem promover o respeito da vida de cada ser humano individual que, por certo, nasce de um homem e de uma mulher, mas, na visão de fé é sobretudo querido, pensado, amado por Deus que o chama à vida; o respeito de cada homem e cada mulher, dos quais tem sentido não só a vida, mas também o sofrimento até a morte. São necessárias hoje, da parte dos crentes, a criatividade, a fadiga de investigar e de pensar, a capacidade de expressar-se em termos que sejam compreensíveis também pelos não cristãos, termos antropológicos, portanto, e não teológicos ou dogmáticos.

Esta ação na polis – não me cansarei de repeti-lo – não deve nunca prescindir do estilo de comunicação e de práxis: também esta é uma instância fundamental, porque o estilo tem sido importante quanto ao conteúdo da mensagem, principalmente para não cristãos. Sim, o estilo com o qual o cristão está na companhia dos homens é determinante: dele depende a própria fé, porque não se pode anunciar um Jesus que narra Deus na mansidão, na humildade, na misericórdia, e o faz com estilo arrogante, com tons fortes ou até mesmo com atitudes que pertencem à militância mundana! E, precisamente para salvaguardar o estilo cristão é preciso resistir à tentação de exibir-se, de fazer-se falar, de mostrar os músculos... A fé não é questão de números, mas de convicção profunda e de grandeza de ânimo, de capacidade de não ter medo do outro, do diverso, mas de sabê-lo escutar com doçura, discernimento e respeito. Do testemunho cotidiano dos cristãos no mundo depende a recepção do Evangelho como boa ou má comunicação, e portanto, boa ou má notícia.
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