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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Um Concílio de toda a cristandade?


Celebramos 50 anos da morte do Papa João XXIII (1881-1963), seguramente o Papa mais importante do século XX. A ela se deve a renovação da Igreja Católica que tentou definir o seu lugar dentro do mundo moderno. No dia 25 de janeiro de 1959, sem avisar a ninguém, declarou diante dos Cardeais estupefactos, reunidos na abadia beneditina de São Paulo junto aos muros, que iria convocar um Concílio Ecumêmico.

Por sua própria conta havia feito um juizo crítico sobre a situação do mundo e da Igreja. Percebera que estávamos diante de uma nova fase histórica: a fase do mundo moderno com sua ciência, técnica, com suas liberdades e direitos. A Igreja precisava situar-se positivamente dentro deste fato emergente. Até então a atitude era de desconfiança e de condenação. O Papa entendeu que este comportamento levava a Igreja ao isolamento e à estagnação para seu próprio dano.

Ele repetiu a velho dito: vox temporis vox Dei (“a voz do tempo é a voz de Deus”): “isso não significa”, disse ele, “que tudo no mundo, assim como se encontra, representa a voz de Deus; significa que tudocarrega uma mensagem de Deus, se boa para ser seguida, se ruim para ser mudada”.

Efetivamente, o Concílio Vaticano II se realizou em Roma (1962-1965); o Papa o abriu mas morreu antes de sua conclusão (1963). Seu espírito, entretanto, marcou todo o evento, com consequências até os dias de hoje.

Dois eram seus mottos principais: aggiornamento e Concílio pastoral. Aggiornamento é dizer sim para o novo, sim para a atualização da Igreja em sua linguagem, em sua estrutura e em sua forma de se apresentar no mundo. Concílio pastoral queria exprimir uma relação para com as pessoas e para com o mundo de abertura, de diálogo, de acolhida e de fraternidade. Portanto, nada de condenações do modernismo e da nouvelle théologie como se fizera furiosamente antes. Em vez de doutrinas, diálogo, mútuo aprendizado e trocas.

Talvez esta afirmação de João XXIII resuma todo o seu espírito: “A vida do cristão não é uma coleção de antigüi­dades. Não se trata de visitar um museu ou uma academia do passado. Isto, sem dúvida, pode ser útil — como o é a visita aos monumentos antigos — mas não é suficiente. Vive-se para progredir, embora tirando seu proveito das práticas, e mesmo das experiências do passado para ir sempre mais longe na trilha que Nosso Senhor nos mostra”.

De fato, o Concílio colocou a Igreja dentro do mundo moderno, participando de seus avatares e de suas conquistas. A Igreja da América Latina logo percebeu que não havia apenas o mundo moderno mas o sub-mundo sobre o qual pouco se disse no Concílio. Em Medellin (1969) e Puebla (1979) viu-se que a missão da Igreja no sub-mundo, feito de pobreza e de opressão, deve ser de promoção da justiça social e de libertação.

Passaram-se já 50 anos do Concílio. O mundo e o sub-mundo mudaram muito. Surgiram novos desafios: da globalização econômico-financeira e a consequente consciência planetária, a dissolução do império soviético, as novas formas de comunicação social (internet, redes sociais e outras) que unificaram o mundo, a erosão da biodiversidade, a percepção dos limites da Terra e da possibilidade de extermínio da espécie humana e com ela do projeto planetário humano.

Com as categorias do Concílio Vaticano II não daremos mais conta desta nova realidade ameaçadora. Tudo aponta para a necessidade de um novo Concílio Ecumênico. Agora não se trata apenas de convocar só os bispos da Igreja Católica. Face aos perigos que nos ameaçam, todo o Cristianismo, com suas igrejas, está sendo desafiado. Precisamos tomar a sério a aliança que o grande biólogo E. Wilson propos entre as Igrejas e as religiões e a tecnociência, caso quisermos salvar a vida no planeta (cf. "A Criação :como salvar a vida na Terra", 2008). Como estas forças religiosas podem contribuir para que tenhamosainda futuro?. A subsistência da vida na Terra é o pressuposto de tudo. Sem ela se anulam todos os projetos e tudo perde sentido. Os cristãos deverão esquecer suas diferenças e polêmicas e se unir para essa missão salvadora.

O Papa Francisco tem todas as condições para convocar o conjunto das expressões cristãs, de homens e de mulheres, assessorados por pessoas de notório saber, mesmo não religiosas, para identificar o tipo de colaboração que podemos oferecer na linha de uma nova consciência de respeito, de veneração, de cuidado de todos os ecossistemas, de compaixão, de solidariedade, de sobriedade compartida e de irrestrita responsabilidade pois todos somos interdependentes.

O Papa Francisco com seu modo de ser e de pensar despertou em todos nós a razão cordial, sensível e espiritual. Agregada à razão intelectual, protegeremos e cuidaremos, cuidaremos e amaremos essa única Casa Comum que o universo e Deus nos legaram. Só assim nos salvaremos.

- Leonardo Boff, teólogo-filósofo e autor de vários livros, dentre eles: "Proteger a Terra-cuidar da vida: como escapar do fim do mundo", Record 2011.

Fonte

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

''É preciso revalorizar certas ênfases do Vaticano II''

Ilustração: Mattias Adolfsson

Há ênfases, perfeitamente fiéis à tradição cristã mais antiga, que, na obra do Vaticano II, apareceram como inovadoras. São aquelas mesmas ênfases que hoje não só se atenuam, mas também desaparecem muito frequentemente das palavras e das práticas de algumas de nossas comunidades.

Para expressar a condição comum dos crentes em Cristo, a Constituição Lumen Gentium coloca a igualdade em primeiro plano: "Reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo" (n. 32). Fora dessa igualdade, haveria, de outra forma, cristãos de série A e cristãos de série B?

O Concílio não deixa de notar, no mesmo texto, a diferença das funções, e, entre essas funções, a do pastor. Por que falar tão pouco da igualdade e ter tão pouca audácia para vivê-la de maneira mais visível? Sem dúvida, por medo de "fazer desaparecer" os pastores na comunidade. Por uma insuficiente compreensão da verdadeira natureza das diferenças. E, definitivamente, por uma deplorável desvalorização daquele nome comum de "cristão" que os discípulos receberam um dia em Antioquia (Atos 11,26).

Mas o que haveria para nós, acima da honra de ser cristãos, isto é, de Cristo? Já foi dito, mas é preciso repetir: não há "supercristãos". Às vezes, ouvimos dizer: "Os cristãos e os pastores". Enunciar a distinção desse modo não faz nenhum sentido na lógica do cristianismo.

No decreto sobre o ministério e sobre a vida dos presbíteros, o Vaticano II nos lembra como o ministério dos padres é insubstituível: "Juntamente com os fiéis, são discípulos do Senhor (…) Regenerados com todos na fonte do Batismo, os presbíteros são irmãos entre os irmãos, membros de um só e mesmo corpo de Cristo cuja edificação a todos pertence" (n. 9). A relação de fraternidade é a mais fundamental, e, se não fosse visível na vida cotidiana, o aspecto de "paternidade espiritual" que o ministério pastoral comporta se desnaturalizaria perdendo o seu sentido evangélico: "Vocês têm um único Pai, e todos vocês são irmãos".

Durante o Ano Sacerdotal, na abundância das publicações, custamos muito a descobrir traços claros e insistentes desse importante lembrete conciliar. Do que temos medo? Precisamos de vocações para o ministério presbiteral. Acreditamos, talvez, que a valorização urgente dessa vocação pode ser fecunda e principalmente bem compreendida, se não levar seriamente em consideração o "retorno" do ministério do padre ao interior do povo de Deus, como a dinâmica Lumen Gentium lá o inclui?

No decreto sobre o ecumenismo, o Concílio recomenda uma apresentação da fé cristã que coloque no lugar certo, isto é, no centro, o que não está diretamente "em relação com os fundamentos da nossa fé" (n. 11). A esse respeito, fala de uma "hierarquia das verdades". As devoções têm a sua razão de ser. Ilustram às vezes de maneira oportuna um aspecto ou outro do Mistério cristão. Mas, em outros momentos, a excessiva e persistente atenção a certos aspectos acaba ocultando o que está no coração da Revelação de Deus em Jesus Cristo e, consequentemente, o que é comum entre confissões cristãs. A identidade católica manifestada por essas devoções nascidas ao longo dos séculos deve ser subordinada à especificidade cristã no que ela tem de essencial. É ela, acima de tudo, que é preciso fazer com que seja vista.

A Constituição Gaudium et Spes examina a originalidade da Igreja, que não pode ser reduzida a nenhum modelo político. Mas faz isso situando essa particularidade na sociedade em que a Igreja é solidária com todos os protagonistas da vida comum. O Concílio não hesita em apresentar a Igreja e a sociedade em situação de reciprocidade. O que a Igreja dá ao mundo não está desvinculado do que a Igreja recebe do mundo (nn. 41 a 44). É de Cristo mesmo que nós recebemos incessantemente o Evangelho da salvação para propô-lo ao mundo. É "da história e do gênero humano" que a Igreja recebe novas indicações para a sua presença efetiva entre os homens deste tempo. Não podemos usar como pretexto erros individuais e coletivos dos nossos contemporâneos para pôr a Igreja acima de uma sociedade que não teria nada a nos dizer.

A ideia democrática, por exemplo, não se aplica à Igreja do mesmo modo que na sociedade política. Ela pode e deve, no entanto, inspirar os modos de relação dentro da comunidade cristã. Não basta repetir abusivamente que "a Igreja não é uma democracia". Seria melhor mostrar o que um sadio espírito democrático pode oferecer de vivificante na atuação daquele "momento comum" que é a expressão do povo de Deus. Realmente acreditamos nesse "momento comum" em que o próprio Espírito "fala à Igreja"?

Essas ênfases certamente não esgotam a obra do Vaticano II. No entanto, é necessário revivificá-los se a Igreja quer que não se diluam aqueles elementos importantes da renovação desejada pelo Concílio. A verdadeira Tradição eclesial perderia, assim, em parte, o sopro que se manifestou há 50 anos e do qual a comunidade cristã, mais do que nunca, precisa para ser testemunha fiel do Espírito "renova a face da terra".

- Gaston Piétri, padre em Ajaccio, na França.
Artigo publicado no jornal La Croix, 25-08-2012.
Tradução: Moisés Sbardelotto.
Via IHU.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O "Novo Pentecostes" da Igreja


"A Igreja Católica se descobriu, segundo a análise do grande teólogo alemão Karl Rahner, como Igreja no mundo, verdadeira “Igreja mundial”, afirma Dr. Margit Eckholt, professora da Universidade Osnabrück e painelista no Congresso Continental de Teologia, a ser realizado nos dias 7 a 11 de outubro, em São Leopoldo, RS.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


O Concílio Vaticano II tem sido chamado um "Novo Pentecostes" para a Igreja Católica, e necessitamos hoje do aggiornamento [atualização] e da memória viva desse "Novo Pentecostes".

O aggiornamento do Concílio se realiza acima de tudo mediante a Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Ao compenetrar-se com a situação da humanidade atual, a Igreja se converte numa instância presente no “hoje”.

Em consequência de sua redescoberta da essencial estrutura encarnatória da fé, descobre a presença divina na luta dos humanos, homens e mulheres, no sentido de desenvolver sua humanidade. Isso se condensa em ler os “sinais do tempo” e nos desafia: a paz que está em perigo, o desequilíbrio norte-sul, os problemas da pobreza cada vez mais agudos, o diálogo, necessário mas também desafiador com os demais: as igrejas cristãs e as outras religiões, e também a questão feminina.

A Igreja define sua nova identidade como Igreja no mundo, opondo-se com a força do Evangelho a tudo aquilo que signifique desamor, morte e lesa-humanidade.

A recepção desse aggiornamento se concretizou, na América Latina, sobretudo na Igreja e na teologia: as conferências gerais do Celam a partir de Medellín, o nascimento da Teologia da Libertação, uma igreja que levou a sério a “opção pelos pobres”, também inscrita na constituição Lumen Gentium do Concílio.

A Igreja católica se descobriu, segundo a análise do grande teólogo alemão Karl Rahner, como Igreja no mundo, verdadeira “Igreja mundial”. Ainda hoje a Igreja está no processo desse descobrimento e, por isso, faz falta a memória viva dos caminhos percorridos na América Latina: o tema do Congresso que ocorrerá na Unisinos não somente toca as Igrejas latino-americanas, mas também a Igreja alemã.

Faz falta desenvolver em comum o que significa hoje em dia ser igreja “encarnada” no mundo, signo de reconciliação e respeito ao outro, o que significa ser cristão, ser cristã num mundo fragmentado, pluricultural, onde estão em diálogo, mas onde também se confrontam as diferentes religiões.

Auditora do Concílio, irmã Mary Luke Tobin escreveu: “the council was a door opened wide – too wide to be closed. Renewal has no end. If it is to continue to be life-giving, it must go on and on” [“o concílio foi uma porta amplamente aberta, demasiado aberta para ser fechada. A renovação não tem fim. Se é para continuar a fim de ser doadora de vida, ela deve ir sempre em frente”]. Este também é meu desejo para nosso tempo: uma análise aprofundada dos textos e novos impulsos do Concílio Vaticano II, o que vai ajudar a deixar abertas as portas da Igreja, em seu serviço ao Evangelho, à humanidade e a toda a criação.

A Igreja ganhará reconhecimento numa sociedade global, muito fragmentada e polarizada, abre fronteiras, constrói pontes e está comprometida na luta pela dignidade dos homens e mulheres, pela paz e cuidado de toda a criação.

Novo Pentecostes significa não perder a esperança que o Espírito e a Sabedoria de Deus vão acompanhar a Igreja também hoje, e conduzi-la para o “novo” que nos falta para ser verdadeiramente testemunhos do Reino de Deus em nossa atualidade.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

“Maturidade eclesial”, característica de uma Igreja em diálogo com a sociedade contemporânea

Imagem daqui

Em seu artigo intitulado "Maturidade eclesial", [o teólogo e sacerdote jesuíta Mario de França] Miranda faz referência à atual crise da Igreja, com as seguinte palavras: “nenhum de nós ignora que hoje a Igreja Católica atravessa uma crise, como, aliás, também outras instituições da sociedade. Embora sua história apresente outros momentos difíceis por ela vencidos, parece-nos que a atual crise se diferencia das anteriores, mesmo da crise do século XVI, pelos desafios inéditos que traz em seu bojo”.

Entretanto, para o teólogo, essa crise deve ser entendida a partir da própria missão da Igreja que deve se desenrolar no seio da sociedade. Em outras palavras, a Igreja não se constitui numa realidade fora da sociedade, mas numa perspectiva relacional. Segundo o autor, as “rápidas e sucessivas mudanças socioculturais, a sociedade pluralista e secularizada, a hegemonia do fator econômico na vida social e familiar, a emergência da subjetividade, a desilusão e a desconfiança diante da capacidade da razão humana, a proximidade das outras religiões, são alguns fatores que transformaram a nossa sociedade e nossas vidas e que inevitavelmente incidem na vida da própria Igreja, visto que sua existência só se justifica enquanto esteja voltada para a sociedade levando-lhe a mensagem e a realidade do Reino de Deus”.

Para que a missão evangelizadora e transformadora frutifique na sociedade, a Igreja deve conhecer bem os interlocutores, levando em conta “suas linguagens, suas deficiências, seus valores, suas preocupações, seus sonhos, seus sofrimentos e suas realizações”. Caso contrário, alerta Miranda, a Igreja “não conseguirá ser uma realidade pertinente e significativa para seus contemporâneos”.

Os desafios contemporâneos não impactam apenas na linguagem da proclamação da fé, mas envolvem também a realidade da Igreja enquanto instituição. Por isso a Igreja deve “mudar para poder ser Igreja, a saber, sinal salvífico que seja, de fato, captado como tal pela sociedade”. Trata-se de uma tarefa exigente, na medida em que as “transformações de mentalidades, de práticas, de hábitos que nos são familiares só se realizam lentamente, mesmo quando pressionadas pelo contexto vital em que nos encontramos”.

Diante do novo contexto de mundo e de Igreja, abrir-se para uma perspectiva de mudança demanda uma maturidade inédita. Isto é, a “atual realidade eclesial pede de nós uma maturidade inédita, uma atitude nova, um posicionamento original, condizentes com a hora presente, já que a história jamais se repete como bem sabemos”. Trata-se, em outras palavras, de uma maturidade que implica a Igreja como um todo. Daí o sentido da maturidade eclesial mencionada por Miranda.

[Leia o artigo "Maturidade Eclesial" na íntegra aqui]

- Luís Carlos Dalla Rosa, para o IHU

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Concílio Vaticano II e a liberdade religiosa


De acordo com Philippe Chenaux, Diretor do Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano da Pontifícia Universidade Lateranense, a declaração Dignitatis Humanae (DH) sobre a liberdade religiosa, é um documento de importância histórica "dos maiores documentos do Concílio".

Falando no dia 3 de maio para o ciclo de conferências organizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Concílio Vaticano II da Lateranense em colaboração com o Centre Culturel Saint Louis de France sobre o tema "Revisar o Concílio, Historiadores e teólogos confrontando-se", o professor de História da Igreja Moderna e Contemporânea contou o trabalho que deu esta declaração e como os padres conciliares embora partindo de posições diferentes e em alguns casos opostas chegaram a votar com grande maioria a Dignitatis Humanae.

A declaração sobre a liberdade religiosa era considerada pelo Papa Paulo VI como um dos grandes documentos do Concílio, não tanto pelo seu tamanho (trata-se de um dos textos mais curtos), e nem sequer pela forma (é uma declaração simples), mas sim pelo seu conteúdo.

Para o prof. Chenaux a DH "resolvia dois dos problemas mais difíceis com que a Igreja se enfrentava há pelo menos dois séculos: o problema da relação entre liberdade e verdade, a nível teórico ou teológico, e aquele das relações entre a Igreja e o Estado moderno, a nível político-eclesiástico”.

O debate sobre a liberdade religiosa tem sido controverso, porque "apesar da Igreja sempre ter afirmado a liberdade do ato de fé", ou seja, que "ninguém pode ser forçado a abraçar a fé contra a sua vontade", era necessário superar o legado da aliança institucional dos poderes espirituais e temporais, da intolerância religiosa subsequente à reforma e contrareforma e uma certa intransigência durante o século XIX.

O professor da Lateranense explicou que "A tese intransigente do Estado Católico tinha permanecido oficial pela Igreja, pelo menos, até o final do pontificado de Pio XII" quando "A dolorosa experiência dos totalitarismos (o comunismo, o nazismo, o fascismo) tinham contribuído para uma redescoberta pelo Magistério da Igreja da eminente dignidade da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais".

Em mensagens de rádio no tempo de guerra, em Natal de 1942 e no Natal de 1944, Pio XII enfatizou a dignidade da pessoa humana e a importância de uma democracia saudável.

Para Chenaux já antes da Segunda Guerra Mundial, a Igreja era incapaz de conformar os poderes do Estado com o reconhecimento de Deus e da Igreja. Nos Pactos de Latrão com a Itália fascista (1929); o Reichskonkordat com a Alemanha nazista (1933); e o Concordato com a Espanha de Franco, em '53, a Igreja adotou uma política de defender o "mal menor", a fim de garantir a liberdade da Igreja, do clero, dos católicos e de todos os cidadãos.

No concílio as duas posições, a mais ortodoxa e a outra que abria para o mundo tendo em conta a mudança dos tempos, se confrontaram, ao ponto de que a elaboração da DH "foi até o último momento trabalhosa e difícil".

Chenaux disse que, mesmo em maio de '64 "O debate entre apoiantes e opositores do texto (da DH) foi muito amargo". Os bispos norte-americanos e muitos bispos da Europa do Leste (especialmente poloneses) "afirmaram a necessidade de reconhecer um direito com base na natureza da pessoa humana. Os segundos, ou seja, os adversários, expressaram a convicção de que não se podia separar a liberdade religiosa da verdade e dos seus direitos".

No debate interveio o então Arcebispo de Cracóvia, monsenhor Karol Wojtyla, que propôs preparar duas declarações: "uma dirigida aos cristãos não-católicos com um espírito ecumênico, para dizer que a verdade cristã nos torna livres, e outro dirigida aos governos, uma declaração ad Extra, que servia aos interesses da Igreja nos países comunistas".

Em dezembro de 1964, a pedido do Papa Paulo VI, também foi consultado o filósofo Jacques Maritain, que em um memorando entregue ao papa em março de 1965, lembrou com vigor que "a liberdade religiosa deve ser proclamada e mantida como um dos direitos humanos fundamentais da pessoa humana".

Acontece assim que no dia 7 de dezembro de 1965, com 2308 placet e 70 non placet, a declaração DH foi aprovada e promulgada pelo Papa Paulo VI.

A DH diz: "Este Concílio declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa, esta liberdade consiste no fato de que todos os homens devem estar livres de coação por parte de indivíduos e grupos sociais e de todo poder humano para que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a sua consciência, nem impedido dentro dos devidos limites a agir de acordo com sua consciência, em particular, publicamente, sozinho ou associados com outros".

O jesuíta José Leclerc, professor de eclesiologia no Institut Catholique de Paris e autor de uma obra sobre a história da tolerância na idade moderna, escreveu na revista Etudes em abril de 1966, que foi um "acontecimento extraordinário" na história dos Concílios.

- Antonio Gaspari
Tradução: Thácio Siqueira. Reproduzido via Zenit

domingo, 20 de maio de 2012

"'A videira é Cristo"


Tem-se medo "do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico", da "liberdade de expressão que isso implica". Consequentemente, também existe o medo de permitir que "as vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas delas poderiam legitimamente levar à mudança". Uma mudança que gera o temor de perder "poder e controle".

A entrevista é de Ludovica Eugenio, publicada na revista
Adista, nº. 19, 14-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa chave de leitura, as irmãs norte-americanas, postas na mira pelo Vaticano com o comissariamento do seu órgão de coordenação mais importante, a
Leadership Conference of Women Religious (LCWR), tornam-se perigosas "porque, talvez, sejam o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja". (Saiba mais sobre o caso aqui)

A Ir. Jeannine Gramick é muito decidida: desde 2001, membro da congregação das Irmãs de Loretto, desde sempre dedicada ao ministério voltado às minorias sexuais e, nesse âmbito, cofundadora, juntamente com o Pe. Robert Nugent, da associação New Ways Ministry, empenhada com a busca da justiça social para gays e lésbicas.

A Ir. Gramick aceitou compartilhar com Adista as suas opiniões e o seu ponto de vista sobre a medida tomada recentemente pelo Vaticano e sobre o futuro da LCWR.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


Com o Vaticano II, a Igreja, povo de Deus, foi chamada a estar mais perto do mundo. As religiosas norte-americanas encarnaram esse apelo em uma ampla variedade de ministérios, vivendo profundamente no mundo e ouvindo as pessoas que, de diversos modos, se encontram em dificuldades. Pode nos dizer que tipos de ministérios vocês têm desenvolvido?
Antes do início dos anos 1960, as religiosas desenvolviam o seu papel principalmente como professoras nas escolas, ou como enfermeiras ou administradoras nos hospitais. Depois do Concílio Vaticano II, se comprometeram com inúmeras novas formas de ministério. Por exemplo, em atividades relacionadas à justiça e à paz, para mudar as políticas e as estruturas da sociedade e da Igreja, em benefício dos pobres e dos marginalizados. Esse papel foi levado adiante em um ministério de tipo político, que visava à educação e à pressão política, trabalhando com a mídia, com a rádio, com a TV e através de um ministério que se ocupa da ecologia e do cuidado com a terra. Muitas religiosas começaram a defender as pessoas gays e lésbicas e uma participação mais plena das mulheres em todas as formas de ministério eclesial, incluindo a ordenação. Além do tradicional ministério de serviço social, as irmãs foram ao encontro dos divorciados em segunda união, das prostitutas, dos presos, dos sem-teto e das mulheres maltratadas.

O Vaticano aceitou positivamente essa proximidade com o mundo e com as pessoas?
O Vaticano não objetou ao fato de que as irmãs se fizessem mais próximas do mundo e das pessoas, mas contestou as implicações dessa proximidade nos ministérios não tradicionais que se ocupam de política, de sexualidade, ou de ambos. Por exemplo, em 1983, o Vaticano obrigou a Ir. Agnes Mary Mansour a renunciar à congregação das Irmãs da Misericórdia por causa do seu cargo como diretora do Departamento de Serviço Social do Estado de Michigan, que financiava o aborto a mulheres pobres. No meu caso, em 1999, o Vaticano me ordenou a interromper o meu ministério pastoral voltado aos católicos gays e lésbicas, porque eu optara por afirmar que eu não compartilhava a posição tradicional sobre a moralidade da homossexualidade.

Houve inúmeros casos menos conhecidos em que bispos diocesanos puseram em prática as posições vaticanas. Por exemplo, as religiosas receberam a ordem de renunciar à direção de órgãos que tivessem relação com o HIV-Aids, porque promoviam o uso dos preservativos. Algumas religiosas foram demitidas dos seus cargos paroquiais ou diocesanos porque apoiavam a ordenação sacerdotal feminina.

A atual avaliação doutrinal da LCWR pela Congregação para a Doutrina da Fé constitui mais um exemplo disso. As duas objeções concretas citadas pela Congregação foram a posição da LCWR sobre a homossexualidade e sobre a ordenação feminina.

O seu ministério levou a sua congregação, a das Irmãs Escolares de Notre Dame, a excluí-la porque a senhora tinha optado por não obedecer ao silêncio imposto e, em 2001, entrou na Congregação das Irmãs de Loretto que, ao contrário, a apoiaram em seu ministério. Desde então, não teve mais problemas com o Vaticano?
Entre 2001 e 2009, o Vaticano enviou nove cartas à presidente das Irmãs de Loretto referentes ao meu ministério. Em cada uma delas, substancialmente, se afirmava que eu tinha que interromper o meu ministério em favor das pessoas LGBTQ ou seria afastada da vida religiosa. As minhas coirmãs optaram por não me afastar e, neste momento, nem o Vaticano o fez.

Desde 1956, a LCWR representa a maioria das congregações religiosas femininas dos EUA. Quais foram as suas maiores conquistas, atividades e interesses?
A LCWR oferece uma vasta gama de atividades e de programas que são de apoio às superioras e visam a reforçar as relações entre os componentes da LCWR com os outros grupos importantes. Entre essas atividades, há uma oficina anual, que inclui um retiro, para as novas líderes e um manual que ajuda a desenvolver as competências importantes para a Leadership. Ela também produz regularmente materiais escritos, como uma publicação trimestral sobre justiça social, um livrinho de oração e reflexão, um jornal chamado Occasional Papers e e informações sobre justiça e paz.

Acredito que a conquista mais importante da LCWR foi a de ter conscientizado todas as religiosas que a ela aderem, mas também a um público mais amplo, de todos os tipo de temas que envolvem a justiça. Ela oferece reflexões teológicas, análises sociais e sugestões para a ação sobre muitas questões, como a justiça econômica, a defensa dos pobres, o diálogo com o Islã e inter-religioso, a pena de morte, a reforma das políticas de imigração, as mudanças climáticas e as questões ambientais, a reforma da saúde, as armas nucleares, o testemunho contra a tortura, o cancelamento da dívida para os países empobrecidos, o tráfico de órgãos e a militarização do espaço, e muitos outros assuntos ligados à justiça. A lista é praticamente inesgotável.

Nos últimos anos, as religiosas estiveram no alvo do Vaticano. Além de casos individuais, as congregações religiosas femininas sofreram uma visitação apostólica. O mesmo aconteceu com a LCWR. Há uma relação entre as duas visitas apostólicas? Do que Roma tem medo?
Eu não fui demitida porque a Congregação para a Doutrina da Fé não é a minha chefe e nunca me apoiou financeiramente nesse ministério. A Congregação, em 1999, afirmou que eu não deveria me envolver nesse ministério, mas, depois de um discernimento aprofundado, eu concluí que Deus continuava me chamando a ele, e então decidi não cooperar com a opressão do silêncio. Eu continuo me ocupando das pessoas gays e lésbicas.

Quanto ao resto, sim, acredito que haja uma ligação entre as visitas às congregações religiosas individuais e a avaliação doutrinal (ou inquisição doutrinal) da LCWR, ambas iniciadas no início de 2009. Muitas pessoas consideram que ambos os projetos de investigação foram iniciados para eliminar a discordância e varrer os últimos vestígios da renovação trazida pelo Vaticano II. No documento que apresenta o processo da visitação, uma das perguntas feitas às líderes das comunidades era: "Qual é o processo posto em prática para responder às coirmãs que expressam pública ou privadamente a sua discordância com relação ao ensino de autoridade da Igreja?".

A meu ver, a Cúria vaticana e o Papa Bento XVI têm medo do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico. Eles têm medo da liberdade de expressão que isso implica. Eles tem medo de permitir que vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas dessas vozes poderiam legitimamente levar à mudança. As personalidades autoritárias têm medo da mudança e de perder poder e controle.

Ken Briggs, autor de Double Crossed: Uncovering the Catholic Church’s Betrayal of American Nuns [Traídas: Revelando a traição das irmãs norte-americanas pela Igreja Católica], considera que as irmãs conservaram, mais do que qualquer outro grupo da Igreja, a ética e o espírito conciliar, apesar da vigorosa oposição dos últimos dois papas. As irmãs norte-americanas são perigosas porque são, talvez, o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja.

Como a senhora vê o futuro da LCWR à luz da nomeação de um comissário que irá rever seus estatutos e programas?
Penso que a LCWR tem duas opções: submeter-se ao controle do Vaticano ou dissolver a LCWR e reconstituí-la como órgão sem vínculos com o Vaticano. Acredito que a primeira escolha seria um repúdio dos mais de 40 anos de renovação nos quais as comunidades religiosas se comprometeram. Precisamos lembrar que foi pedido que as religiosas reavaliassem e atualizassem as suas comunidades para atender às exigências dos tempos. As religiosas levaram a sério esse pedido, e agora os resultados não agradam ao Vaticano. O Vaticano quer que as irmãs voltem à vida religiosa do passado.

A história tem demonstrado que a política de apaziguamento de Neville Chamberlain [primeiro-ministro do Reino Unido de 1937 a 1940] não satisfez os desejos de um ditador como Hitler. A Igreja Católica institucional, da forma como é atualmente, é um Estado totalitário religioso que, desde a época do papado de Pio IX, viveu uma centralização sempre crescente. O Concílio Vaticano II tentou trazer a Igreja de volta aos trilhos de uma comunidade de fiéis no caminho de Cristo, mas as forças curiais tentaram desviar a renovação nos últimos 30 anos ou mais.

A segunda opção, acredito eu, respeitaria a honra e a integridade das congregações religiosas que tentaram, com a sua fidelidade, manter vivos os valores de uma Igreja como comunidade de discípulos fiéis de Cristo. A reconstituição da LCWR como órgão que respeita o Vaticano, mas não abandona nada da sua autonomia, representaria uma aplicação do valor conciliar da subsidiariedade. Essa reconstituição seria uma vantagem para as religiosas, mas também para a Igreja como um todo. Isso afirmaria a necessidade de abandonar uma atitude de obediência cega em favor de uma capacidade de decisão moral moral.

Desde o Papa Pio IX, a Igreja deu provas de uma atmosfera de infalibilidade crescente, por força da qual se partia do pressuposto de que toda decisão, por parte de qualquer líder, aceita muitas vezes como infalível, devia ser obedecida sem discussão. O Vaticano II tentou mudar essa atitude, enfatizando a liberdade de consciência. Uma reconstituição mostraria que a Igreja consiste em muitos ramos enxertados em Cristo, a videira. O Vaticano é um dos ramos. As dioceses, congregações religiosas apostólicas, ordens monásticas e contemplativas, e movimentos leigos individuais são outros ramos. Devemos sempre nos lembrar de que Cristo, e não o Vaticano, é a videira.

Não sei por qual escolha a LCWR vai optar. Ela já cooperou com a Congregação para a Doutrina da Fé na sua investigação doutrinal, portanto não sei se a organização vai continuar colaborando na sua opressão, ao invés de resistir à tomada de posse por parte do Vaticano. Eu continuo alimentando a esperança de que as novas lideranças da LCWR sejam mais realista ao constatar que tudo isso tem a ver com o totalitarismo religioso e que rejeitarão a medida como invasão indevida e como afronta à natureza profética da vida religiosa.

Em que medida esse passo do Vaticano vai tocar na vida, no ministério e no papel das religiosas na Igreja dos EUA no futuro?
A intervenção vaticana terá efeitos enormes sobre a vida, o ministério e o papel das religiosas dos EUA e da Igreja mundial. Os efeitos irão depender do curso que a LCWR irá optar por tomar. Eu gostaria de ser otimista e acreditar que a decisão da LCWR irá fortalecer não só as religiosas, mas também a Igreja inteira. Rejeitar gentilmente o fato de serem dominadas por um sistema patriarcal que não compreende a natureza comunitária da Igreja será demonstrar que um cristão maduro não obedecem cegamente aos homens, mas segue o chamado de Deus na oração.

Essa escolha significará que não há necessidade de pessoas controladoras da ortodoxia ou de inquisições. Essa escolha significará que Cristo, e não o Vaticano, é a videira, e nós somos os ramos. Essa escolha significará que o Espírito de Deus guia a Igreja e que, com esse guia, não temos medo. Com esse guia, temos fé e confiança.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Deputado gay na universidade católica

Foto daqui

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), assumidamente homossexual, defende no Congresso Nacional a criminalização da homofobia e o casamento gay. Ele esteve em duas universidades católicas participando de debates: em Recife, onde se realizou um congresso sobre direito homoafetivo, e no Rio de Janeiro, tratando da agenda LGBT no legislativo. Pode-se perguntar por que estas instituições católicas promovem eventos dessa natureza. As aspirações e as reivindicações do movimento gay não divergem dos ensinamentos da Igreja?

Antes de tudo, a universidade católica é uma ‘universidade’, isto é, um universo de encontro dos saberes, da diversidade de pontos de vista, da pesquisa e do ensino que passam pelo debate aberto e respeitoso. O simples fato de ser universidade já justifica plenamente um evento assim. Além disso, o humanismo de inspiração cristã deve permear esta instituição, sem diminuir em nada a sua competência acadêmica.

Não se pode ficar alheio à realidade da população LGBT, que carrega um estigma milenar de uma dura discriminação e é vítima de uma brutal hostilidade: a homofobia. Não se pode ficar alheio ao seu anseio destas pessoas por segurança, liberdade e igualdade. O Concílio Vaticano II, iniciado há 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS,1).

Por isso, a universidade católica faz uma reflexão séria e um debate qualificado sobre a cidadania da população LGBT. Assim, ela pode fomentar ideias inovadoras que beneficiam a sociedade e a vida política, arejam os ambientes cristãos e alavancam as transformações tão necessárias ao nosso tempo. Fica ainda a questão: como podem os fieis católicos lidar com a oposição da alta hierarquia ao reconhecimento do casamento gay, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nocivo a um reto progresso da sociedade?

O conceito de ‘cristão adulto’, sobre o qual refletiu o teólogo Karl Rahner, pode contribuir bastante neste debate. No início do século 20, o magistério da Igreja rechaçava a teoria da evolução, ensinando que os primeiros capítulos da Bíblia, que narram a criação do homem, tinham que ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como ele deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções de sua fé realmente centrais e existencialmente significativas, para nelas se aprofundar sempre mais; e por fim rejeitar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

Não se deve colocar todas as coisas em termos de tudo ou nada. O Concílio Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR,11). Este nexo pode ser maior ou menor. Há ensinamentos de mais relevância, e outros de menos relevância. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e de sua consciência, e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o respaldo institucional e eclesial desejado.

Muitas pessoas hoje estão plenamente convencidas de que o casamento gay é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano Barack Obama. A união homo e a união hétero se destinam a pessoas diferentes. É cada vez mais evidente que não há concorrência entre estas formas de união, e nem ameaça à família ou à sociedade. Muitos cristãos pensam assim. Sabem que Deus é amor e compreensão, e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Estes cristãos devem ser encorajados a dar testemunho desta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido respaldo de suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Os eventos promovidos por estas universidades católicas ajudam a trilhar este caminho, que é belo e humanizante.

Equipe Diversidade Católica

* * *

Atualização em 22/05/12:
Leia aqui a nota publicada no jornal da PUC (de circulação no campus) sobre a visita do deputado à universidade. :-)

domingo, 6 de maio de 2012

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 2)

Imagem daqui

Publicamos aqui a segunda e última parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose (leia a primeira parte, publicada ontem à tarde, aqui), sobre a passagem da missa tridentina para a nova forma da missa, após o Concílio Vaticano II. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A missa tridentina – As primeiras reformas
Além da missa dos dias de semana e da missa dominical, gostaria também de lembrar uma outra missa muito solene, que era celebrada por ocasião de funerais ou missas de sufrágio, mas somente para pessoas ricas ou nobres. Sim, os ricos podiam pagar não só a missa "dita" pelo pároco, a ordinária, ao alcance das pessoas comuns, mas também a chamada "missa grande levítica".

Nessa ocasião, vinham de fora outros dois padres, que revestiam o papel levítico do diácono e do subdiácono: estes últimos vestiam a dalmática e assistiam o pároco durante a missa. Era uma missa que admirava pela solenidade (devida sobretudo à presença simultânea de três padres), pelo canto (executado pelo coro), pela presença de um catafalco altíssimo e ornado com inúmeras velas, diferente do dos pobres, montado especialmente para acolher o caixão, ou, no caso de missas em memória do falecido, para fingir que ali estava o caixão (até se incensava o catafalco vazio...).

Mas então, ninguém pensava que este era uma farsa ou que na liturgia era necessária a verdade, não a simulação. Nas cidades pequenas como a minha, a "missa grande levítica" era um evento raro de se ver, e o sentimento predominante era a maravilha pelo seu caráter solene, grandioso, espetacular.

Para mim, a missa de então era a única missa, e eu não tinha nenhum problema com relação à forma da sua celebração. Eu entendia o latim, tinha o messalino [pequeno missal popular] e era um cristão muito convicto. Não por acaso, aos 11 anos, contra a vontade do meu pai (a minha mãe havia morrido há três anos), eu quis ir para o seminário para me tornar padre, principalmente – dizia eu – para poder celebrar a missa.

Além do serviço cotidiano como coroinha no altar, era um exercício à liturgia e dava uma subjetividade cristã certamente nada fraca, mas convicta. Eu confesso que, de toda a celebração da missa, para além da consagração, para mim era importantíssima a meditação sobre a [oração da] coleta da missa do dia, em particular o domingo. A coleta da tradição latina, de fato, muitas vezes é uma "pérola", uma verdadeira síntese da oração cristã, um esboço para quem quer rezar segundo o coração da Igreja. Por isso, eu conhecia de cor muitas coletas, de modo que eu podia rezá-las em ocasiões diversas, sem recorrer à leitura do messalino.

Um evento muito significativo foi, depois, a reforma da Semana Santa desejada por por Pio XII no início dos anos 1950. Para mim que tinha dez anos se tratava de aprender novos ritos junto com o pároco: a introdução do lava-pés na Quinta-Feira Santa, a vigília pascal na noite entre sábado e o domingo apareciam como novidades que requeriam empenho e dedicação. Sim, porque até 1954 – perdoe-se e compreenda-se a expressão popular de então – "Jesus Cristo ressuscitava no sábado de manhã".

A liturgia pascal, de fato, ocorria por volta das 9h da manhã, em uma igreja obscurecida por cortinas, de modo a poder celebrar a luz da ressurreição. Na igreja, éramos muito poucos, menos do que em uma missa de semana em que participavam os parentes do falecido pelo qual se celebrava o sufrágio.

Por volta das 10h30, ouvia-se o som dos sinos, soltos na leitura do Gloria in excelsis Deo, depois de terem sido amarrados na Quinta-Feira Santa à noite, e as pessoas que ficavam em casa corriam para os córregos para se lavar o rosto.

Essa era, na época, a celebração da ressurreição de Jesus. Não foi fácil, portanto, aceitar essa primeira reforma litúrgica. Eu, o pároco, as freiras e alguns dos cristãos mais instruídos aprendíamos a compreender a grandeza do mistério das ressurreições. Para outros, ao invés, o comentário era: "Mudam até a nossa Páscoa!".

Uma reação não muito diferente daquela suscitada pela reforma litúrgica posterior, do Vaticano II, quando a exclamação era: "Mudam até a nossa missa!".

A missa pós-conciliar
Com Pio XII, a dinâmica da mudança já havia entrado na liturgia, e João XXIII, ele também, simplificaria alguns ritos e mudaria algumas fórmulas. Certamente, teria sido necessário explicar mais às pessoas o porquê da reforma, despertar nas pessoas um interesse pela "nova missa", iniciá-las à escuta das Sagradas Escrituras.

Foi feito muito pouco, mas posso dizer que, na minha cidadezinha, o pároco fez muito, todo o possível, eu acredito. Mas já haviam chegado os anos do boom econômico, as pessoas haviam mudado: o sábado e o domingo haviam se tornado ocasiões para ir ao mar ou – se dizia – para "dar uma volta". Era a televisão que dava lições no lugar dos padres. Os jovens andavam por aí para dançar...

Quanto a mim, tendo chegado a Turim para a universidade, ia sempre todos os dias à missa, mas não mais como coroinha. Aqui, lembro-me de missas ditas às pressas, tantas missas em diversos altares simultaneamente, ao menos na igreja mais perto do meu alojamento, o Santuário della Consolata.

Mas o Concílio já havia começado e estávamos cada vez mais convencidos de que, para chegar a uma reforma da vida do cristão e de toda a Igreja, era preciso dar vida a um caminho de reforma acima de tudo do ponto de vista litúrgico. Sentia-se a necessidade dela e ela também era esperada, nesse sentido, por parte das pessoas comuns.

Assim, pouco a pouco, chegavam "novidades". As novidades realmente existiam, mas – infelizmente – eram introduzidas aos trancos e barrancos, porque os presbíteros acabavam anunciando antes da missa: "A partir de hoje, na missa, muda-se isto... Esta parte da missa não é mais em latim, mas sim em italiano... Não se faz mais como se fazia, mas se faz de forma diferente...".

Essa modalidade, talvez, não era a mais adequada para fazer com que os cristãos comuns entendessem a intenção da reforma, e poucos presbíteros explicavam com paciência e competência as mudanças. Não houve revolta por parte das pessoas, mas, ao contrário, uma acolhida passiva. E a exclamação "Mudam até a nossa missa!" não tinha amargura, era quase uma piada, naquela hora em que a Itália do boom econômico estava mudando tudo. Porém, precisamente porque mudava a vida dos cristãos, também devia mudar a forma da liturgia.

Pouco a pouco, a reforma litúrgica mudou profundamente o modo de ir à missa. Podemos sintetizar essa mudança através de uma eloquente mudança de linguagem: "do tomar missa (ou assistir à missa)" para "participar da missa". Em primeiro lugar, todos ficaram agradecidos pela introdução da língua italiana, porque, finalmente, podiam compreender palavras que, até aquele momento, pareciam monopólio do presbítero e do coroinha.

O que o presbítero fazia ao altar não era mais obscuro, secreto, mágico para alguns, mas era algo compreensível e cada vez mais referido ao que Jesus fizera e dissera. Pense-se, depois, na maior riqueza de leituras na missa. Para dar só um exemplo, se, antes, no conjunto das missas dominicais e festivas, ouviam-se (ou, melhor, eram lidos em latim) cinco trechos do Antigo Testamento e dez do evangelho segundo Marcos, com o novo lecionário, os trechos do Antigo Testamento proclamados eram cerca de 240, e os de Marcos, quase 40.

As pessoas ouviam pela primeira vez páginas jamais ouvidas, das quais a pregação podia se tornar uma explicação e um comentário. Depois de um longo exílio, a palavra de Deus voltava ao coração do povo de Deus, e, acima de tudo, os evangelhos eram conhecidos quase na sua inteireza.

Além disso, começou-se a responder às palavras do padre. Teve-se verdadeiramente aquela "missa dialogada", como se dizia na hora do Concílio, tão desejada pelos párocos e pelos fiéis. Desapareceu o uso de conjugar a missa de semana com a missa "de morto": nessas liturgias, as leituras escriturísticas também eram variadas e abundantes.

Em suma, deve-se confessar – e por isso também é preciso agradecer ao Senhor – que se voltava verdadeiramente a uma comunidade, a uma assembleia celebrante, mesmo que as pessoas não tinham plena consciência disso.

Além disso, o presbítero, ao presidir a liturgia, aparecia mais claramente como sinal de Cristo para a assembleia e como sinal da assembleia para com Deus.

Não digo que não foi cansativo aceitar todas as mudanças introduzidas, mas a consciência de uma renovação necessária da liturgia me fez participar a partir de dentro dessa reforma, até por causa da minha amizade e assiduidade com os especialistas liturgistas que, em Turim, no centro litúrgico da Elle Di Ci de Leumann, trabalhavam para fazer uma contribuição de qualidade para toda a Igreja italiana.

A convicção e a determinação do cardeal Michele Pellegrino e a frequentação dos mosteiros beneditinos e trapistas franceses me ajudaram muito a acolher a reforma dentro da minha comunidade, que, desde 1968, já tinha feito da liturgia a “opus Dei” sobre a qual se podia construir a sua vida monástica.

A única tristeza, diante da qual eu senti toda a minha e a nossa impotência, foi a introdução de cantos e músicas cuja feiúra e banalidade, e cujo caráter ideológico muitas vezes deturpavam a liturgia. Compreendi que, nas paróquias, não se podia cantar o gregoriano (de fato, desapareciam os coros e eram introduzidas as bandas juvenis), mas se podia buscar, esperar e não ceder às novas modas musicais.

De nossa parte, enraizando-nos na liturgia monástica, fomos preservados dessa contaminação, e o nosso canto permaneceu em continuidade com a grande tradição latina, embora em língua italiana. Nenhuma alteração, mas sim um progresso, um crescimento da liturgia em si mesma.

Conclusão
Então, a missa mudou? Sim, mudou na sua forma, como sempre mudou nas diversas épocas da história da Igreja. Ao mesmo tempo, porém, a missa é a mesma em uma continuidade bem mais profunda do que a língua ou os gestos com os quais é executada.

Na verdade, para quem vive uma fé autenticamente cristã e eclesial, a liturgia da Palavra não mudou desde a da assembleia presidida por Esdras no retorno do exílio (cf. Ne 8), e a liturgia eucarística é sempre a mesma, desde o partir do pão da comunidade de Jerusalém na hora da Páscoa até hoje.

No meu coração, há, portanto, uma enorme gratidão ao Vaticano II e a Paulo VI, que atuaram pela reforma em fidelidade à tradição, à grande tradição cristã, mas não tenho sentimentos depressivos, muito menos negativos, lembrando a missa como era celebrada antes da reforma conciliar.

Há 40 anos, eu recolhia na reforma litúrgica principalmente as novidades. Hoje, reconheço sobretudo a continuidade, a tradição que se acresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a mesma missa, a mesma celebração da aliança entre Deus e o seu povo.

Ha 40 anos, a missa era, para mim, o sacrifício da cruz: hoje, ainda é o sacrifício da cruz, que tem como êxito a ressurreição, a vitória de Cristo sobre o mal e sobre a morte. Hoje, na missa, eu vivo com mais consciência o mistério pascal, renovo a aliança com o Senhor, ofereço a minha vida, o meu corpo em sacrifício (cf. Rm 12,1), oferece toda a criação com uma epiclese, invocação ao Espírito Santo, para que transfigure essa criação em reino dos céus.

E continuo convencido de que haverá outros desenvolvimentos, outros acréscimos e mudanças na liturgia, porque a liturgia, assim como a Igreja, é semper reformanda. Tudo isso, porém, em uma continuidade que tem como referência a grande tradição do Oriente e do Ocidente, e que completará o que faltar, corrigirá o que for necessário, enriquecerá o que parecer mísero.

sábado, 5 de maio de 2012

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 1)

Imagem daqui

Com uma forte marca autobiográfica, o prior de Bose relata como viveu a missa nos anos anteriores à reforma litúrgica. Palavras densas de memória e ricas de sugestões, que transparecem todo o afeto para com uma forma litúrgica que foi alimento espiritual imprescindível na primeira parte da sua vida. E, na passagem para a nova forma da missa, posterior ao Vaticano II, os seus inegáveis enriquecimentos – em particular a língua e o lecionário – e alguns defeitos – no canto litúrgico. Na reforma, enfim, reside "a continuidade, a tradição que cresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a si mesma, a mesma aliança entre Deus e seu povo".

Publicamos aqui a primeira parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Introdução
Há muito tempo, eu sentia o dever de contar como eu vivi a missa por 20 anos, antes da reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II. Eu sinto esse dever por diversas razões. Acima de tudo, porque em mim a recordação dessa missa permanece muito viva: dos meus seis aos 24 anos, ela foi, para mim, a missa cotidiana, uma missa em que eu "servia" como coroinha.

Essa missa era a principal fonte da minha vida espiritual, era a missa que me moldava todos os dias, era a liturgia de comunhão com o Senhor, na qual eu crescia e fazia discernimento sobre a minha vida e sobre a minha vocação.

Mas também há uma outra razão pela qual eu sinto esse dever de memória. Muitos dos que têm a minha idade ou são ainda mais velhos e, portanto, viveram como eu ou mais do que eu essa forma litúrgica, parecem não lembrar, não sabem mais falar a respeito, nem sabem lê-la: eu constatei isso mais de uma vez, ficando perturbado muitas vezes com tanto desmemoriamento...

Não se trata, porém, da transcrição de recordações pessoais, como se fossem minhas memórias, nem de nostalgia por parte de um senescente: é uma comparação entre duas formas de celebração, entre dois ritos capazes de celebrar o mistério de Cristo, mas um derivado do outro e gerado pelo mais antigo, na continuidade do crescimento da fé e da eloquência da fé que é a liturgia católica.

Ao escrever este testemunho, eu espero apenas ser verídico, honesto comigo mesmo dentro do possível, porque é verdade que a experiência da missa reformada pelo Concílio Vaticano II também me moldou, ou, melhor, muito mais, já que é a "minha" missa há mais de 40 anos, é a missa que eu vivo na minha comunidade, como monge que tenta ser cristão.

Espero não ferir ninguém e prestar um serviço àqueles que querem um testemunho sobre essa missa que hoje pode ser celebrada como rito extraordinário, concedido por Bento XVI àqueles que se sentem ligados e afeiçoados a essa forma pré-conciliar.

O leitor poderá, portanto, fazer uma comparação, poderá compreender ainda mais a continuidade entre os dois ritos e, ao mesmo tempo, discernir a "graça" que a reforma litúrgica contribuiu para a vida de toda a Igreja.

A missa tridentina
Comecemos dizendo alguma coisa sobre o tempo e sobre o espaço dessa liturgia. Nas cidades do interior, como a minha, a missa dos dias de semana era celebrada às 6h da manhã: um horário que ia ao encontro das necessidades das pessoas, em particular das mulheres, que, mais tarde, deviam trabalhar em casa.

Às 6h, eu estava na sacristia e ajudava o pároco a se vestir: ele, depois de tê-lo beijado, vestia o amito sobre as costas e ao redor do pescoço, depois vestia a alva, tomava o cíngulo e a estola que eu lhe estendia, depois vestia a casula, e eu lhe amarrava o manípulo.

Nesse ponto, o padre estava pronto e, depois de fazer uma reverência para a cruz colocada sobre a credência, nos aproximávamos à igreja, enquanto eu, na frente dele, portava o missal apoiado no peito, com a abertura junto ao coração. Quando passávamos pela porta, o sacristão dava um toque de sineta: e, então, estávamos na igreja.

Nos primeiros bancos, havia duas ou três irmãs, a governanta do padre, algumas senhoras idosas. Nos bancos do outro lado da igreja, estava uma família mais ou menos numerosa, aquela que havia "ordenado", ou seja, feito celebrar a missa para o seu querido falecido no aniversário ou no 30º dia da sua morte. No fundo da igreja, havia algumas mulheres e alguns homens que gostavam daquele lugar distante, fora dos bancos: com uma certa ironia, eram chamados de "aqueles da soleira".

No total, eram entre 10 e 15 pessoas, não mais. Porém, principalmente naquele hora, muitas vezes ainda no escuro, pelo menos eu e o meu pároco tínhamos a consciência de estar coram Domino por todos os cristãos da cidade e em comunhão com toda a Igreja.

Tendo chegado ao altar, depois da genuflexão, se subia até ele para levar até lá o cálice e a patena, cobertos pelo véu, e para colocar o missal sobre o suporte. Depois, se descia, e a missa tinha início. "Introibo ad altare Dei", dizia o padre em voz baixa, e eu respondia: "Ad Deum quilaetificat iuventutem meam".

Então, eu e o padre rezávamos o Salmo 41 (42). Era um salmo com o qual eu me identificava de modo particular, porque a minha vida era dura e marcada também pelo sofrimento. "Quare tristis incedo?" (Sl 41 [42], 2), eu dizia a Deus e esperava nele apenas para que alegrasse a minha juventude.

Seguia-se a confissão dos pecados. O padre a fazia primeiro: "Confiteor Deo omnipotenti", e eu o absolvia: "Misereatur tui omnipotens Deus et, dimissis peccatistuis, perducat te ad vitam aeternam. Amen". Depois, eu me confessava, e ele me absolvia ou, melhor, absolvia todos os presentes: mas eles não podiam ouvir, porque esse diálogo ocorria em voz baixa e parecia se referir apenas a nós dois, o padre e eu. Nós dois éramos os protagonistas.

Nesse sentido, também é preciso dizer que, quando um padre vinha de fora para dizer missa na minha cidade, ele chamava a mim, que morava na frente da igreja e, assim, podia satisfazer a obrigação, porque era proibido de celebrar a missa sozinho (segundo a norma do cânone 813 § 1 do Código de Direito Canônico de 1917: "Sacerdos missam ne celebretsine ministro qui eidem inserviat et respondeat").

O padre me explicava: "As pessoas não sabem o latim, portanto não podem entender. Às pessoas basta 'assistir à missa' e rezar como sabem, com o rosário ou com outras orações". Na verdade, nem sequer se ousaria pensar no conceito de "assembleia", muito menos considerar que as pessoas ("povo de Deus" era uma expressão inconveniente) entendida como assembleia era sujeito da celebração.

Os fiéis, de fato, eram pensados e tratados como "presentes ausentes". Nem mesmo as fidelíssimas freiras tinham um messalino [pequeno missal] para seguir a celebração, enquanto eu tinha orgulho de possuir e de poder usar o do Caronti [referência ao monge beneditino Emanuele Caronti (1882-1966)], que me foi presenteado no dia da primeira comunhão.

Para a minha geração, o pequeno missal ainda era um livro decisivo para a formação cristã. Aprendia-se a missa, as vésperas, o ano litúrgico com esse precioso livro que sempre estava sempre em cima do criado-mudo, também como fonte das orações da manhã e da noite, além das várias orações para as diversas necessidades e devoções dos fiéis.

Havia um pequeno missal para todas as idades: depois do Caronti, aos 12 anos me foi presentado o Lefebvre [referência ao monge beneditino Gaspar Lefebvre (1880-1966)] e depois, aos 15, o Feder [referência ao padre jesuíta G. Feder]. Ainda hoje, ao lado da minha cama, à espera de um pequeno missal latim-italiano posterior à reforma litúrgica, conservo o do Feder para a oração pessoal.

A missa tridentina - Consagração e comunhão
Naqueles anos, estava presente um movimento litúrgico muito reconhecido pelo meu pároco. Principalmente depois que Pio XII, na encíclica Mediator Dei (1947), falara das crianças como ministrantes, coroinhas, estas haviam se tornado uma presença e um serviço ao qual se prestava muita atenção.

Todas as semanas, havia duas horas de ensino litúrgico e de provas para aprender a como servir a missa e as outras liturgias: o pároco era muito exigente, e devia-se aprender a postura, o modo de caminhar, de manter as mãos, de fazer a genuflexão, de se inclinar...

Esse ensinamento e o exercício cotidiano me davam uma consciência profunda e uma forte convicção do serviço ao altar, quase como se a missa fosse coisa do padre e minha: nós dois éramos os protagonistas, porque, como coroinha, eu era, de fato, um concelebrante. Ainda mais que o que podia ser cantado pelas pessoas era irrelevante para a validade da missa: só o padre era celebrante, e o que importava era que ele e o coroinha seguissem o rito segundo as rubricas e validamente (riteet valide). Os cantos ou as eventuais respostas do povo eram decorativos, mas não necessários.

O coroinha de então tinha que ser um rubricista especialista, um atento conhecedor das regras e das normas litúrgicas, um rapaz consciente e valoroso do seu serviço ao altar. A sua presença e as suas respostas ao padre eram essenciais para a celebração: era uma espécie de clérigo virtual.

Também não devemos esquecer que esse serviço estava consentido apenas aos homens, enquanto as mulheres absolutamente não podiam entrar no presbitério, muito menos colaborar com o desenvolvimento da celebração. O coroinha era, portanto, educado no espírito litúrgico e à execução ordenada, elegante, séria das funções litúrgicas das quais era investido.

Quando o padre subia ao altar, ele o beijava e, depois, invocava a piedade do Senhor: "Kyrie eleison", dizia ele, e eu respondia. Cruzavam-se assim, entre mim e ele, as invocações de piedade. Depois, havia a oração da coleta do dia, sempre em latim, seguida pela leitura da epístola. Todas as manhãs, sendo a missa "de morto", a leitura da epístola era a mesma, 1Ts 4, 13-18, que iniciava com as palavras: "Fratres, nolumus vosignorare de dormientibus…", assim como a leitura posterior retirada do evangelho segundo João (Jo 11, 21-27).

Eu estudei e aprendi muito cedo o latim, ainda aos oito anos, graças a quem me educou de modo tão refinado, especialmente depois da morte da minha mãe, e assim pude seguir todas as palavras sussurradas pelo padre. Eu também ouvia, porém, por trás das costas, o burburinho das pessoas que recitavam o rosário. De vez em quando, o padre se virava para as pessoas dizendo: "Dominus vobiscum", mas eu só eu que respondia: "Et cum spiritu tuo".

No entanto, em um certo ponto, quando, depois do prefácio às vezes cantado, eu proclamava o Sanctus e tocava três toques de sineta, eis que o burburinho da oração das pessoas cessava, e todos, ajoelhados, olhavam para o padre que, no altar, inclinado sobre a hóstia e sobre o cálice, pronunciava em voz baixíssima as palavras da consagração. Todos sabiam, em uma total obediência à "disciplina do arcano", que aquele era o momento culminante da missa, um momento que infundia temor: era o "santíssimo" da missa, em que absolutamente era preciso calar e prestar atenção. Era o fascinosum et tremendum, que se impunha também para o povo rude do interior!

Todos os olhares estavam fixos na coluna inclinada do padre, à espera de que aparecessem, por cima da sua cabeça, elevados ao alto pelas suas mãos, a hóstia e depois o cálice. Aqui também a sineta ritmava os movimentos do padre que se ajoelhava depois das elevações. Um toque contínuo da sineta que eu fazia girar com arte indicava o fim da consagração, do momento mais alto, do ápice da missa.

Ver a hóstia e o cálice, para muitos, era o elemento decisivo da missa, a máxima comunhão possível com o Senhor, porque quase ninguém, depois, acedia à comunhão do corpo do Senhor. A comunhão sacramental, de fato, era praticada por pouquíssimos. Era necessário comungar ao menos uma vez por ano – recitava o preceito da Igreja –, e ninguém, à parte das freiras e eu, sentiam a necessidade de comungar cotidianamente.

Também devemos dizer que a comunhão não era feita durante a missa: no momento da comunhão, só o padre comungava, depois a missa acabava. Depois de entrar novamente na sacristia e de ter deposto a casula, o padre, em alva e estola, voltava ao sacrário do altar, o abria, e nós comungávamos, ajoelhados no parapeito. Depois, fechava-se o tabernáculo sussurrando: "O sacrumconvivium…".

Essa era a missa dos dias de semana e cotidiana, que durava entre 20 e 25 minutos, no centro da qual havia "o silêncio canônico", o santíssimo momento da consagração e da elevação, um tempo em que o celebrante se imergia, mais ou menos de acordo com a sua devoção, em uma ação temorosa, adorante, mistérica. E com ele eu também, que, de perto, apenas três degraus mais abaixo, escutava e, assim, podia acompanhar as suas palavras sussurradas.

A missa tridentina – A pregação
É verdade que as pessoas "assistiam" e que essa era a sua participação: o que importava era a devoção, o exercício dos afetos, a atenção à presença de Deus, o temor pelo que acontecia sobre o altar. Não era dada a palavra do Senhor: o Antigo Testamento, durante a semana, era lido pouquíssimas vezes, as leituras da epístola e do evangelho eram – como se disse – sempre as mesmas, em ainda em latim (mais em geral, nas missas não "de morto", as leituras bíblicas eram muito escassas: textos quase que unicamente do evangelho segundo Mateus e admoestações tiradas do apóstolo Paulo).

Eu também me lembro que o meu pároco, considerado um inovador na liturgia e às vezes por isso criticado pelo bispo, a partir de 1951, me fazia ler em italiano, do parapeito, as leituras que ele, simultaneamente, lia em voz baixa em latim no altar. Então, as pessoas faziam silêncio, ouviam, como na elevação: eram os únicos momentos em que se suspendiam as devoções realizadas paralelamente com o desdobramento da missa.

No domingo, ao invés, as missas eram três: às 6h para as mulheres, que depois tinham que ir para casa para preparar o almoço; às 8h para os meninos, à qual se seguia a hora de catecismo; às 11h, a "missa grande", principalmente para os homens e os jovens.

Nessa última missa, em particular, havia os cantos: o coro da cidade executava em gregoriano a Missa de angelis. No início e no fim, cantavam-se hinos que eu recordo com verdadeira tristeza, por serem composições feias, com palavras carregadas de sentimentalismo, às vezes contendo elementos dramáticos.

Mas as pessoas – deve-se reconhecer – consideravam-nos como seus e os cantavam com paixão. Na "missa grande", não faltava a pregação, adaptada para o auditório: no primeiro pós-guerra, vinha um "josefino" de Asti ou um frei passionista do santuário das Rocche e, para não tornar a missa muito longa, ele pregava durante o desdobramento do rito.

Ele só parava no momento do Sanctus, ele também se ajoelhava na direção do altar e retomava o sermão depois do toque de sineta que se seguia à consagração. Tratava-se de pregações, não de homilias: era a ocasião para lembrar e repassar durante o ano a ética cristã, os mandamentos de Deus, os preceitos da Igreja.

Nos anos 1950 e 1960 do século passado, a pregação era uma oportunidade para a defesa da Igreja, para a luta contra o ateísmo, o comunismo e o desaparecimento da rigorosa moral sexual, em uma sociedade que perdia os seus parâmetros e conhecia uma nova cultura, cada vez menos tradicional e cada vez mais embebida de individualismo e de liberdade.

Muitos homens, durante a pregação, ficavam do lado de fora, formando pequenos grupos, e eu tinha que sair para forçá-los a entrar antes do ofertório, advertindo-os que, caso contrário, para eles, a missa não seria válida. O pároco me disse: "Vamos, força! Compelle intrare, faça-os entrar (Lc 14, 23)". Aqueles que entravam, saíam de novo para o pátio da igreja depois do Pai Nosso, dizendo com alívio: "Acabou!", e se queixavam da pregação resmungando.

(Continua amanhã à tarde)

terça-feira, 1 de maio de 2012

As religiosas dos EUA e as tensões desde o Vaticano II

"As freiras católicas me ensinam o que significa perseverar no ministério 
sem o benefício do poder institucional. #OQueAsFreirasSignificamParaMim" (Tweet daqui)

É quase instintivamente que se chega, ao tentar explicar o que está acontecendo hoje na Igreja Católica, a metáforas do mundo natural – tempestades, terremotos, mudanças sísmicas – para chegar à magnitude dos eventos.

A análise é do jornalista norte-americano Tom Roberts, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 24-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Procuramos os termos que explicam o que estamos experimentando: fenômenos além dos distúrbios comuns aos quais aprendemos a resistir de uma época para a outra. Assim como os sismólogos ou os climatologistas começam a unir os padrões ao longo do tempo, a construir uma megaimagem do que está acontecendo, nós também o fazemos.

Outra peça do quebra-cabeça acabou de se encaixar para nós com a divulgação pelo Vaticano, na semana passada, da "Avaliação Doutrinal da Leadership Conference of Women Religious (LCWR)".

O terremoto de 5,8 graus que atingiu a Costa Leste em agosto foi insignificante para os padrões da Costa Oeste, mas foi sentido a centenas de quilômetros do seu epicentro na Virgínia. Os geólogos explicaram que a crosta da Terra nessa parte do mundo é mais densa e menos perturbada e fraturada do que nas zonas sísmicas habituais, permitindo que as ondas sísmicas viajem mais longe do que viajariam, digamos, em Los Angeles ou em San Francisco.

De forma semelhante, as ondas de choque que emanam desde o Concílio Vaticano II (1962-1965), um encontro diferente de todos os precedentes em termos de tom, propósito e linguagem, reverberaram por toda a crosta relativamente imperturbável das presunções e da cultura de liderança da Igreja institucional. A avaliação das religiosas é o mais recente dos tremores secundários. Esse Concílio, popularmente conhecido como Vaticano II, não anunciou anátemas; não condenou heresias, como ocorreu em outros; não discorreu sobre o dogma nem estabeleceu novas linhas para quem está dentro e quem está fora da comunidade.

Ao invés disso, dizendo a questão amplamente, ele pediu que todos nós fôssemos às raízes de quem nós somos como povo de Deus e descubramos o que isso significa no mundo contemporâneo. E, embora essa seja uma história muito mais complexa – na verdade, um universo de histórias – para que possamos fazer justiça no espaço deste ensaio, podemos saber algumas coisas sobre o que aconteceu desde que começamos a sentir os rumores por baixo da crosta eclesiástica.

Uma das realidades que moldam a notícia dessa semana é que os bispos e as religiosas tomaram caminhos muito diferentes na sequência do Concílio, e isso estabeleceu uma dinâmica infeliz. Kenneth Briggs explica a crescente tensão entre bispos e religiosas no livro Double Crossed: Uncovering the Catholic Church's Betrayal of American Nuns.

As irmãs dos Estados Unidos, afirma ele, foram amplamente ignoradas nos relatos históricos do desenvolvimento da Igreja e da nação por causa de sua "exclusão das posições de poder dentro da Igreja. Sua subjugação a uma ordem clerical masculina não apenas as manteve fora dos olhos do público, mas também, em última análise, esmagaram seus esforços para se remodelarem ousada e criativamente".

Muitos dos problemas experimentados pelas religiosas no último meio século, argumenta, derivam da "recusa da hierarquia de cumprir a promessa de renovação" implícita nos documentos conciliares.

Rearranjo da paisagem
Os rumores que começaram a perturbar a crosta da Igreja em meados dos anos 1960 elevaram-se até um gigante deslocamento no fim da década com o debate sobre a Humanae Vitae. Pode parecer impactantemente inadequado retomar essa velha disputa de novo e neste contexto. Mas ela foi importante e continua sendo relevante. A paisagem católica foi rearranjada de uma forma grande e única.

Os leigos, nesse caso, liderados pela sua própria experiência e por teólogos proeminentes, disseram "não". Eles disseram que não aceitavam a proibição da Igreja sobre o uso da contracepção artificial. E assim foi. Pouco mudou desde então. Essa decisão, informal mas generalizada, criou bons tremores. A Igreja se manteve firme, menos, talvez, do que uma gárgula, aqui e ali. Deus permaneceu nos céus, e a vida continuou, mas uma nova intuição-chave permeava as pessoas nos bancos das igrejas. O temor da danação eterna por desconsiderar um ensinamento que não fazia sentido começou a evaporar como razão para obedecer.

A estudiosa da religião Phyllis Tickle diz que o cristianismo mundial está passando por uma de suas turbulências a cada 500 anos, quando antigas "carapaças" se racham e incrustações de hábito, de prática e de crença se desprendem. Em cada um desses ciclos, diz ela, ficamos nos perguntando: "Onde está a autoridade?".

A controvérsia sobre o controle de natalidade forçou essa questão de uma forma abrupta e nova no mundo católico. Percebe-se que, assim como os EUA estão tentando descobrir, no pós-11 de setembro, como o poder funciona em um mundo mais encolhido, interconectado e rompido pela tecnologia do que nunca, assim também os bispos estão tentando descobrir como funciona a sua autoridade em uma Igreja cada vez mais fraturada, onde as armadilhas e as presunções de uma monarquia totalmente masculina têm pouca influência sobre o imaginário católico contemporâneo. Poder e autoridade não funcionam mais como antes.

* * *

Na Igreja, não existe desafio maior para o poder hierárquico e para a forma tradicional de fazer as coisas do que as religiosas. Seguindo o Concílio, as mulheres fizeram o que elas pensavam que o encontro havia mandado: elas cavaram profundamente em suas próprias histórias, reviram seus documentos fundadores, refletiram longamente sobre as vidas e os exemplos de seus fundadores e fundadoras. Muitas saíram desse período de intensa oração e exame com conclusões surpreendentes. Uma delas era que a sua missão devia ser mais do que uma mão de obra barata para a hierarquia.

Outra delas foi que, tendo redescoberto os seus "carismas" originais, elas viram o seu trabalho levá-las para além dos muros dos claustros e dos conventos, rumo ao mundo mais amplo, particularmente para as suas margens e entre os pobres.

Um resultado inevitável de toda a introspecção e meditação sobre suas vidas, suas histórias e suas missões foi uma nova descoberta de si mesmas como mulheres. De fato, Briggs fala delas como uma espécie de pré-movimento feminista. As religiosas estavam realizando tarefas normalmente reservadas aos homens muito antes que muitas outras mulheres na sociedade. Elas dirigiam escolas e hospitais e outras instituições. Elas eram, escreve ele, "líderes destacadas a cargo de grandes e complexas estruturas. Elas eram, em suma, os CEOs de instituições antes que as mulheres [em geral] fossem CEOs de instituições".

Milhares delas obtiveram graus acadêmicos nos anos 1950 e levaram os seus novos conhecimentos e habilidades para uma ampla gama de novas profissões, diz Briggs, que escreve que o "total de doutorados conferidos às irmãs mais do que dobrou" entre os anos 1950 e 1970.

Durante o longo arco de sua história nos EUA, é fato que as religiosas construíram a Igreja. Nós não teríamos o sistema escolar católico sem elas. Nós não teríamos um sistema hospitalar sem elas. Nós não teríamos hoje uma presença católica em muitos das piores partes das nossas cidades sem elas. Nós não teríamos uma pastoral para os desalojados, indesejados e feridos sem elas. Em muitos casos, nós não teríamos quaisquer ministérios ou programas de educação em nossas paróquias e dioceses sem elas. E, em algumas das regiões do país pobres em padres, não teríamos paróquias sem elas.

"O chão está se movendo"
Nós somos, ao mesmo tempo, católicos, e os bispos são uma parte importante da nossa história. Por isso, devemos questionar: quem gostaria de ser bispo na Igreja de hoje? O chão está se movendo abaixo de nós de uma forma sem precedentes. Os antigos símbolos do poder estão desaparecendo. A residência baronial do bispo em Boston foi vendida para pagar o escândalo dos abusos sexuais. A da Filadélfia está à venda. A autoridade dos bispos em todas as partes está comprometida, sua estatura moral diminuiu, enquanto o mundo continua ouvindo, através de depoimentos em julgamentos e de documentação publicada, como a cultura da liderança da Igreja Católica ignorou o horror que estava sendo cometido contra as crianças, a fim de proteger seus padres e a reputação da cultura clerical.

Para a maioria dos homens ordenados vivos hoje, às vezes deve parecer como se nada é como era, como se aquilo ao qual eles se inscreveram décadas atrás desapareceu.

E isso inclui a forma como as religiosas atuam hoje. Isso inclui a forma como as religiosas pensam hoje, o fato de que elas se engajariam na reimaginação de Deus nas múltiplas manifestações humanas que refletem a sua imagem. De que elas responderiam a perguntas sobre o lugar das mulheres na Igreja, a ordenação de mulheres, como a Igreja trata os homossexuais – na direção contrária de toda a boa ordem e a comunidade que os homens haviam construído.

* * *

A avaliação doutrinal de oito páginas – uma acusação formal, na verdade – põe em causa as vidas, as motivações, a espiritualidade, a fidelidade, a teologia e as formas de abordar a Igreja e o mundo dos membros da Leadership Conference of Women Religious, uma organização que representa mais de 80% das religiosas dos EUA.

O documento está apropriadamente ancorado em citações papais sobre a necessidade de que "pessoas consagradas" tenham a total "adesão da mente e do coração ao magistério dos bispos", assim como fizeram seus fundadores e fundadoras. Como é o caso frequentemente, aqueles que possuem um maior risco de colapso nas presunções e de surgimento de questões pintam a história da Igreja em linhas nítidas e claras. Mas a realidade de alguns desses fundadores e fundadoras é muito mais irregular e envolta por muito mais lutas com a instituição e com os que detinham o poder do que referem as admoestações papais contemporâneas à obediência e à lealdade.

Há uma consequência para o fato de as religiosas terem sido as construtoras da Igreja, aqueles que estavam em campo, as representantes da Igreja onde a dor está, onde as pessoas estão realmente vivendo, sendo cuidadas e morrendo. Elas são conhecidas, recebem confiança e inspiram uma admiração e uma lealdade que não serão abandonadas nesta época de provações.

Essa não deveria ser uma competição entre homens e mulheres. Não deveria ser um teste de quem é mais importante para a Igreja. Não deveria ser uma questão de ganhar ou perder. Mas os homens forçaram isso até esse ponto.

Apoios
Nos últimos dias, as religiosas foram abordadas por católicos nas liturgias dominicais em todo o país com uma simples pergunta: o que podemos fazer para ajudar? Uma irmã me disse que as religiosas de outros países enviaram mensagens de solidariedade, perguntando se não há nada que elas possam fazer.

Em uma paróquia na Costa Leste, uma simpática mensagem de apoio às irmãs, vinda do púlpito, provocou aplausos altos e demorados. Certamente, não foi uma experiência singular. Leigos em todas as partes estão buscando quaisquer formas para apoiar as religiosas. Abaixo-assinados estão circulando no éter e atraindo milhares de assinaturas.

Eu aposto que a maioria dos bispos realmente não querem essa disputa neste momento. Com tudo aquilo que precisa de conserto na Igreja hoje – e com a quantidade de "coisas quebradas" pelas qual as lideranças são responsáveis –, agora não é o momento para ficar lançando farpas sobre quaisquer outros grupos, e certamente não sobre as irmãs.

As perguntas que as religiosas estão fazendo, os temas que elas discutem, as opiniões que elas se atrevem a expressar publicamente poderiam estar em desacordo com o que os bispos emanam a partir de sua experiência vivida, assim como de sua formação. Se os bispos querem reconhecer os fatos, essas são as mesmas questões e preocupações que ocupam a comunidade em geral, e não vão desaparecer magicamente.

Evolução em revoluções
Xavier Le Pichon, geofísico francês, é conhecido por ter construído um modelo abrangente de tectônica de placas, mas também por ter extraído do seu conhecimento da atividade das placas terrestres profundas intuições sobre o comportamento humano e a dinâmica da comunidade humana. Em um artigo, ele escreve: "Como eu sabia da minha própria experiência científica, as fraquezas, as imperfeições, as falhas facilitam a evolução de um sistema. Um sistema que é muito perfeito também é muito rígido, porque não precisa evoluir. Isso é verdade na política, é verdade dentro de uma sociedade, dentro das famílias, dentro da natureza". Eu acho que pode-se inferir, sem esticar o ponto indevidamente, que isso também vale para a Igreja Católica e para a sua eclesiologia.

Um sistema perfeito, escreve ele, "é um sistema fechado que só pode evoluir mediante uma grande comoção. A evolução ocorre através de revoluções". Em um caso, é a quebra de rochas rígidas; em outro, se poderia extrapolar, é a lenta desintegração dos sistemas eclesiais que se tornaram muito rígidos ou que descobrem que a sua utilidade foi transposta pelo tempo, pelas circunstâncias e pelas novas intuições.

A avaliação vaticana, de fato, deu início a uma "grande comoção". De uma forma que nenhuma campanha de nova evangelização jamais poderia, a crítica contra as irmãs unificou os católicos para se reagruparem por uma boa causa como católicos, porque eles são católicos. Eles farão tudo o que puderem para proteger as religiosas. Os bispos devem estar prontos para o contra-ataque violento de cartas e abaixo-assinados.

A hierarquia dos EUA está mirando a sua raiva contra as irmãs, mas os tremores que estão movendo a terra debaixo de seus pés têm pouco a ver com as mulheres que servem os pobres e se atrevem a fazer perguntas inquietantes.

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sábado, 28 de abril de 2012

A metáfora da semente. Gérmens de ressurreição na Igreja


Declarar que a Igreja é uma semente implica indicar duas dinâmicas complementares: a disponibilidade de se esvaziar das suas aquisições para enriquecer-se através da comunhão vital com os outros, ou seja, "a disponibilidade de morrer para que a vida possa florescer".

A opinião é do teólogo italiano Carlo Molari, ex-professor das universidades Urbaniana, Lateranense e Gregoriana de Roma, em artigo publicado na revista Oreundici, de abril de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


O Concílio Vaticano II, descrevendo a forma ideal de Igreja na Constituição Lumen Gentium, afirma que deve "constituir o germe e o princípio do Reino de Cristo e de Deus na terra" (LG n. 5), e que constitui para toda a humanidade "um germe mais firme de unidade, de esperança e de salvação" (n. 9). A metáfora do germe deve ser explicada. O germe ou semente não é autossuficiente, tem alguns componentes essenciais da realidade futura, mas, para desenvolvê-los, precisa ser completado pela água, pelos sais da terra, pelo calor e pela luz do sol. Esse completamento ocorre através de uma decomposição. Para desenvolver as potencialidades, ele deve, acima de tudo, se desfazer, se perder, se decompor.

Jesus insistiu sobre esse processo de aniquilação, porque é indicativo de atitudes e de dinâmicas essenciais da Igreja. "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto" (Jo 12, 24). Paulo retoma a mensagem a propósito da ressurreição, indicando a morte como condição para a vida nova: "Aquilo que você semeia não volta à vida, a não ser que morra" (1Cor 15, 36).

Concretamente, declarar que a Igreja é uma semente implica indicar duas dinâmicas complementares: a disponibilidade de se esvaziar das suas aquisições para enriquecer-se através da comunhão vital com os outros, ou seja, "a disponibilidade de morrer para que a vida possa florescer".

Esse processo nunca é apenas individual, mas pressupõe e envolve ambientes vitais. O primeiro problema, por isso, é comunitário: que ambiente vital a comunidade é capaz de criar, de modo a fazer florescer e amadurecer os gérmens de ressurreição? É preciso um ambiente de vida teologal, de acolhida, de oração, de atenção aos sinais dos tempos. Neste tempo, existem muitos gérmens de ressurreição na Igreja, mas exigem o ambiente adequado para se expressar como sinais do Reino e para florescer como novidades de vida.

Se quisermos examinar alguns deles podemos lembrar: os muitos lugares de diálogo inter-religioso no mundo, as comunidades ecumênicas, as formas de voluntariado, os grupos de solidariedade. As comunidades de diálogo inter-religioso são pequenos lugares de fraternidade entre as pessoas de culturas e religiões diversas. O documento Diálogo e Anúncio (1991) os descreve de modo exato: "... pessoas radicadas nas próprias tradições religiosas compartilham as suas riquezas espirituais, por exemplo, no que se refere à oração e à contemplação, à fé e aos caminhos da busca de Deus e do Absoluto" (n. 42).

Esses centros modificam a partir de dentro a interioridade, oferecem uma contribuição notável no campo da teologia das religiões e acompanham o caminho da reflexão católica com intuições originais e com uma base experiencial muito ampla. O conhecimento a partir de dentro das respectivas religiões permite que se forneçam elementos que dificilmente podem ser encontrado nesse nível em outros autores.

O valor da teologia do diálogo entre as religiões está na sua base experiencial. Não partimos de categorias pré-constituídas, mas sim das experiências realizadas e do seu caminho espiritual, que certamente nem todos podem fazer, mas que amanhã se tornará obrigatório. Não haverá futuro se ficarmos fechados nas nossas pequenas experiências religiosas. O futuro pertence àqueles que serão capazes de falar mais linguagens e de entrar nos diferentes mundos religiosos. Os sinais estão nas inúmeras pessoas que praticam o diálogo e alimentam as relações.

A principal dificuldade está no fato de que não fomos educados para reconhecer as riquezas das outras culturas e das outras religiões. Ao contrário, era proibido pensar que houvesse, era proibido dialogar. Nos anos 1950, quando eu estudava teologia, os livros dos protestantes na biblioteca eram mantidos sob chave e, para lê-los, era necessária a autorização do Santo Ofício. Foram os modernistas que começaram a refletir sobre os elementos comuns das diversas religiões, mas o fizeram com uma atitude sincretista que depreciava o valor da religião cristã. Habitualmente, todas as culturas tendem a se considerar como únicas e a subestimar os outros. O pluralismo dá medo, porque implica a ideia de que toda tradição religiosa não é tudo, precisa ser confrontada, deve acolher os outros.

Por outro lado, as afirmações da unicidade da salvação em Jesus expressam, sem dúvida, a riqueza da experiência que os primeiros cristãos fizeram, mas pesaram notavelmente sobre a teologia das religiões em âmbito cristão. Aqueles que se dedicavam a ela eram logo postos em suspeita. Só depois do Concílio Vaticano II é que se rompeu o muro de separação, e o diálogo se tornou um componente essencial da missão. O relativismo ou o sincretismo são um risco, mas podem ser evitados, e é justamente esse aspecto que constitui um sinal de ressurreição: viver o diálogo como reconhecimento mútuo e aprofundamento da riqueza adquirida.

A humanidade mediante homens e mulheres espirituais está dando um passo à frente na acolhida recíproca. Como bem observa o missionário comboniano Giuseppe Scattolin, especialista em diálogo com o Islã: "Deve-se dizer que é justamente ao assumir a alteridade do outro com toda a seriedade e sem álibis que chegamos a compreender a própria identidade de modo cada vez mais profundo e verdadeiro. Alteridade e identidade não se excluem nem se anulam necessariamente, ao contrário, elas se requerem e se reforçam mutuamente. A compreensão de si mesmo não é cancelada, ao contrário, é amplificada e aprofundada através da abertura ao outro, ao diferente. É preciso, portanto, ter um olhar mais holístico da experiência religiosa, e não um preconceito relativista e reducionista dela" (Spiritualità in dialogo).

Um outro gérmen de ressurreição é constituído pelo voluntariado. Em um mundo em que as relações são cada vez mais condicionadas pelo interesse econômico, ganham espaço formas de atividade desinteressada e gratuita. São inúmeras iniciativas de fraternidade e de solidariedade que modificam desde a raiz as dinâmicas de relação.

Bento XVI, na encíclica Deus caritas est, escreve: "Nasceram e desenvolveram-se numerosas formas de colaboração entre as estruturas estatais e as eclesiais"; "um fenômeno importante do nosso tempo é a aparição e difusão de diversas formas de voluntariado, que se ocupam duma pluralidade de serviços. Desejo aqui deixar uma palavra de particular apreço e gratidão a todos aqueles que participam, de diversas formas, nestas atividades. Tal empenho generalizado constitui, para os jovens, uma escola de vida que educa para a solidariedade e a disponibilidade a darem não simplesmente qualquer coisa, mas darem-se a si próprios. À anticultura da morte, que se exprime por exemplo na droga, contrapõe-se deste modo o amor que não procura o próprio interesse, mas que, precisamente na disponibilidade a 'perder-se a si mesmo' pelo outro, se revela como cultura da vida" (n. 30).

Ligado a isso está o terceiro gérmen de ressurreição na Igreja: a difusão do espírito de misericórdia e a atenção pelos mais fracos da sociedade. Difunde-se cada vez mais a sensibilidade pelos marginalizados e as intervenções pela defesa das crianças, das mulheres solteiras, dos idosos abandonados.

Um quarto gérmen de ressurreição na Igreja é constituído pelo crescente interesse de muitos pela renovação da teologia. O teólogo é aquele que acompanha o caminho da comunidade eclesial estimulando a reflexão crítica sobre a experiência de fé de modo a saber traduzi-la em formas corretas e eficientes. O teólogo não é capaz por si só de formular a experiência de fé da Igreja, ele precisa da contribuição de todos: "A teologia cristã sempre existiu como elemento de um todo" (G. Ruggieri, Prima lezione di teologia, Ed. Laterza, 2011 p. 44).

A esse propósito, deve-se observar que, em certos ambientes eclesiais, dá-se excessiva importância à doutrina, enquanto que "a intenção principal da narrativa fundacional não está na determinação objetiva dos elementos, mas sim no alimento espiritual da experiência de fé, na sua legitimação profunda, além da preocupação apologética. A 'doutrina' continua sendo, portanto, elemento orgânico de um 'todo', isto é, de uma ordem entre diversas instâncias da vida da comunidade" (Ibid., p. 43).

De acordo com as fases da história e de acordo com o caminho da comunidade eclesial, a função do teólogo adquire maior ou menor importância, mas nos períodos de reviravolta cultural ele precisa da contribuição contínua da comunidade. A estrutura difusa e capilar do ensino teológica no Itália favoreceu o interesse pelos problemas da renovação do método e das pesquisas de teologia entre os fiéis. Espera-se que as respostas das estruturas oficiais também respondam a essa demanda de base.
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