Mostrando postagens com marcador Quaresma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Quaresma. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Chamados a um esforço escondido e solitário de recolhimento


«Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há de recompensar-te» (Mateus 6,6).

Como pessoas de oração, eis o nosso programa para a Quaresma: entrar neste lugar secreto, oculto aos homens, que só o Pai vê. Somos chamados a um esforço de recolhimento e aprofundamento. Um esforço escondido e solitário que ninguém pode fazer por nós. É preciso afastarmo-nos de todas as nossas pequenas preocupações e dependências do amor-próprio; encontrar tempo para entrar nas profundezas do coração, num esforço de abertura e lucidez, e aí rezar ao nosso Pai.

É uma tarefa que exige perseverança e coragem. Porque é preciso aceitar ser o que somos em toda a nossa pobreza. É preciso enfrentar no silêncio as nossas dores secretas de que tentamos fugir pelas nossas atividades e tagarelices. É preciso suportar a obscuridade da fé pois esse lugar secreto também está oculto para nós, que não vemos o Pai. É preciso que nos apoiemos sobre a Palavra de Cristo: «O vosso Pai sabe do que precisais antes que vós lhe pedis». O meu Pai sabe! Que paz encontramos na envolvência do seu amor que abraçamos no segredo, na escuridão, por vezes no sofrimento. Ele sabe, Ele compreende.

Tentemos deixar brotar em nós a oração de Cristo, a oração do Filho. A nossa oração não é uma questão de técnica, truques, emoções subjetivas, mesmo que sublimes, nem de conhecimentos, mesmo que profundos. Ela é algo de infinitamente maior que nós, excede por todos os lados as capacidades do nosso coração. Ela é a oração de Cristo em nós. Uma oração que tem a sua fonte no amor eterno do Filho pelo Pai, que é este amor voltado para o Pai, que dEle recebe tudo, a Ele dando tudo num dom de si perfeito. Uma oração-amor que se exprime na linguagem humana do “Abbá”, paizinho, sobre as lágrimas de Cristo, nas suas noites de contemplação solitária na montanha, em toda a sua vida, sobretudo na sua morte «por nós» no madeiro da cruz. Oração-amor que abraça todos os homens de todos os tempos. Que esta oração-amor que transcende o tempo e o espaço habite em nós, fazendo dos momentos transitórios da nossa existência momentos, de alguma forma, eternos.

A carta de São Paulo aos Filipenses (3, 10-11) resume a essência da nossa Quaresma: «Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos».

Paulo só persegue um objetivo: «Esquecendo-me daquilo que está para trás e lançando-me para o que vem à frente, corro em direção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus» (Filipenses 3, 13-14).

A nossa preparação para a Páscoa deve ser motivada por impulso semelhante.

- Um monge Cartuxo
Reproduzido do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Contando os dias

Foto: 1-7-6-0

Contando os dias. As crianças fazem isso quando elas esperam por alguma coisa. Prisioneiros fazem isso enquanto atravessam seu encarceramento. Peregrinos espirituais também, de uma forma infantil, e porque amam a liberdade.

A contagem regressiva da Quaresma começou. Trata-se de um meio artificial (parecendo mais natural, por ser tão antigo) para um melhor entendimento acerca do tempo e da eternidade, que está presente aqui e agora. É, como alguém a chamou, um gosto da "tempeternidade", o tempo atravessado por uma consciência clara do sagrado no que é comum.

Leva tempo para que a mente comum do dia-a-dia se conscientize do movimento de mudança que a meditação está constantemente impulsionando em nosso ser mais profundo. É por isso que não importa muito o que nós sentimos, ou não sentimos, em nossa prática espiritual. Alguns dias enxergamos o seu significado e ficamos entusiasmados. Outros dias ela nos parece tola e, uma perda de tempo. É a consciência mais profunda, mais clara, o coração puro, que conta toda a verdade.

Qualquer que seja a prática Quaresmal que você começou, assim como a própria meditação, não se trata de ser perfeito ou de alcançar sucesso. Vamos extirpar isso da equação, desde o primeiro dia.

Todos nós falhamos. Todo mundo começa, pára e começa de novo. Tudo o que importa é a fidelidade, é voltar. Fidelidade ensina disciplina. Disciplina liberta-nos do ego e nos leva além de nós mesmos para a consciência pura, inocência pura e, no fim das contas, puro amor.

- Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reflexão sobre a essência da vida cristã: o amor


Nesta sua mensagem para a Quaresma 2012, o papa Bento XVI pede aos católicos de todo o mundo que neste período haja reflexão, no sentido de “prestarmos atenção uns aos outros”, com “preocupação concreta pelos mais pobres”. Na mensagem, o papa faz o chamamento dos cristãos à “responsabilidade pelo irmão”. Isto é, que estejamos atentos “aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida”.

Leia na íntegra o texto divulgado pela Santa Sé:


Irmãos e irmãs!

Quaresma oferece-nos a oportunidade de reflectir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.

Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.

1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.

O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).

A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.

O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão.

Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.

O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.

Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).

3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.

Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.

Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).

Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.

Fonte: Amai-vos

domingo, 24 de abril de 2011

Escândalo e loucura


Os primeiros cristãos sabiam-no. A sua fé num Deus crucificado só podia ser considerada como um escândalo e uma loucura. Quem tinha pensado em dizer algo de tão absurdo e horrendo de Deus? Nunca religião alguma se atreveu a confessar algo semelhante.

Certamente, o primeiro que todos descobrimos no crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelas autoridades religiosas e pelo poder político, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Mas aí precisamente, nessa vítima inocente, os seguidores de Jesus veem Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos.

Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo sucesso político e toda aura religiosa, Deus revela-se, no mais puro e insondável do Seu mistério, como amor e só amor. Não existe nem existirá nunca um Deus frio, apático e indiferente. Só um Deus que padece conosco, sofre os nossos sofrimentos e morre a nossa morte.

Este Deus crucificado não é um Deus poderoso e controlador, que trata de submeter os Seus filhos e filhas procurando sempre a Sua glória e honra. É um Deus humilde e paciente, que respeita até ao final a liberdade do ser humano, mesmo que nós abusemos uma e outra vez do Seu amor. Prefere ser vítima das Suas criaturas do que o seu algoz.

Este Deus crucificado não é o Deus justiceiro, ressentido e vingativo que ainda continua a perturbar a consciência de não poucos crentes. Desde a cruz, Deus não responde ao mal com o mal. "Em Cristo está Deus, não tomando em conta as transgressões dos homens, mas reconciliando o mundo consigo" (2 Coríntios 5,19). Enquanto nós falamos de méritos, culpas ou direitos adquiridos, Deus acolhe-nos todos com o Seu amor insondável e o Seu perdão.

Este Deus crucificado revela-se hoje em todas as vítimas inocentes. Está na cruz do Calvário e está em todas as cruzes onde sofrem e morrem os mais inocentes: as crianças famintas e as mulheres maltratadas, os torturados pelos algozes do poder, os explorados pelo nosso bem-estar, os esquecidos pela nossa religião.

Os cristãos continuamos a celebrar o Deus crucificado, para não esquecer nunca o "amor louco" de Deus pela humanidade e para manter viva a recordação de todos os crucificados. É um escândalo e uma loucura. No entanto, para quem segue Jesus e acredita no mistério redentor que se encerra na Sua morte, é a força que sustenta a nossa esperança e a nossa luta por um mundo mais humano.

- José Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos. Grifos nossos.

sábado, 23 de abril de 2011

A Cruz: suplício ou esperança?

Foto: Kate Miss

A novidade da revelação cristã de Deus exige um ser humano novo, uma nova criatura. Sendo revelação de um mistério, só pode ser captada pela fé. Por isso, quando os Evangelhos apresentam Jesus, seus atos e palavras, eles o fazem de maneira misteriosa e velada.

Aqueles que detêm o poder religioso e, igualmente, detêm a interpretação oficial da verdadeira religião, declarando-a única e legítima, interpretam Jesus como alguém que age movido pelo espírito de Belzebu, e não pelo Espírito Santo. Conseqüentemente, por ser interpretado assim, Jesus deve morrer. Esse conflito vai levá-lo à condenação e à morte.

É aí que se levanta a grande questão que interpela a teologia e coloca a fé em cheque. É esta questão que vai por o selo definitivo à questão sobre a natureza divina de Jesus e sobre a identidade do Deus da revelação. Jesus é preso, acusado, condenado, torturado e morto. E diante de sua morte, seus seguidores silenciam e se dispersam, deixando-o sozinho. Fracassado e abandonado, sua pessoa e seu projeto são expostos à execração pública, aparentemente fracassados e destruídos. E não somente as testemunhas se calam. Deus também se cala. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que não suportou ver o povo sofrendo no Egito e no cativeiro da Babilônia, que mantinha com Jesus de Nazaré colóquio e diálogo permanente e amoroso, de Pai para Filho, e mar de intimidade, retira-se e silencia diante da tragédia por que passa o Filho bem-amado.

A cruz de Jesus é o sinal de seu amor fiel à causa do reino de Deus. Não devemos separar a morte do Jesus do resto de sua vida. O martírio do Jesus toma seu sentido pleno como conseqüência dramática e coerente de sua mensagem e de sua obra; a cruz é o símbolo de sua absoluta fidelidade ao Pai. É inseparável das perseguições e conflitos que a precederam; dos critérios, opções e atitudes do Jesus; do conteúdo de sua pregação.

Porque Jesus revelou o Deus verdadeiro, porque Jesus questionou a decadência religiosa e as deformações de Deus, porque fez publicamente os pobres e os pecadores os preferidos de sua solicitude e predileção, porque combateu os ídolos de sua sociedade, porque questionou seus falsos valores, Jesus desatou o conflito que o levou à cruz. Portanto, para o cristão, o sofrimento – ou seja, as cruzes da vida - é a seqüela coerente do seguimento fiel de Jesus Cristo. Freqüentemente certa devoção cristã separou a cruz do resto da vida de Jesus.

Em seu aspecto sombrio e negativo, a cruz nos ensina que o mal estará sempre presente enquanto dure a história. Por mais que o combatamos, sempre reaparece de novas maneiras. Sua persistência é uma trágica realidade. Sua oposição aos valores do reino de Deus é constante. Por isso é capaz, hoje como sempre, de trazer para a Igreja e sua missão duros fracassos.

A cruz nos ensina que a conversão do mundo contém a dimensão profunda de uma luta contra o mal (o pecado), expresso hoje em formas concretas: a corrida armamentista, todas as espécies de ameaças contra a vida, a corrupção do amor, a exploração do homem pelo homem, a fome, a miséria, o materialismo e todas as formas de injustiça, a agressão à natureza e ao planeta colocando em risco mortal o futuro da vida.

A Paixão e morte de Jesus, encarnação da inocência e do bem, recorda-nos hoje em dia que os inocentes e bons da terra, os fracos, os pobres e os desamparados continuam sendo crucificados. Pela cruz, a paixão de Cristo é a paixão do mundo, e a paixão do mundo é a paixão de Cristo.

Mas a paradoxo é que a cruz é decisivamente também sinal de esperança. Apesar da presença do mal, sobrepondo-se a ele, a cruz é sinal de esperança certa no reino, de sua eficácia e de sua vitória definitiva sobre todas as formas de pecado.

O paradoxo da cruz consiste em que o que em primeira instância parece um fracasso - a morte do Jesus e o fracasso da causa do reino; a perseguição e o fracasso dos bons e o aparente triunfo do mal - por causa do poder de Deus transforma a cruz em fonte de nova vida e de libertação total, e constitui o começo irreversível da destruição do mal em sua raiz.

O mal, para ser superado, requer redenção. A perseguição e a cruz são a dimensão redentora da fidelidade. Aí onde os meios humanos são impotentes para atacar as raízes de todos os males e de todas as injustiças, o sofrimento e as cruzes que acompanham à vida cristã incorporam tudo que sofrem os discípulos à perseguição e ao martírio do Mestre, Jesus de Nazaré. Assim "completamos o que falta à paixão de Cristo em benefício de seu Corpo, a Igreja" (Couve. 1,24).

A cruz é o sinal da esperança cristã porque nos ensina que na história, o mal, o egoísmo, a injustiça, não têm a última palavra. A última palavra na história é do bem, da fraternidade, da justiça e da paz encarnados e testemunhados por Jesus.

- Maria Clara Bingemer
Publicado originalmente no Amai-vos. Grifos nossos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Foto: Fabio Candeias

Paixão. 1. Sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade. 2. Amor ardente. 3. Entusiasmo muito vivo. 4. Atividade, hábito ou vício dominador. 5. O Objeto da paixão. 6. Desgosto, mágoa. 7. Rel. O martírio de Cristo.

A última descrição para o verbete Paixão que o dicionário Aurélio apresenta é justamente o sentido religioso do termo: a morte de Jesus Cristo. As demais descrições – apresentadas sob alguma lógica que não cabe aqui discutir – acabam, possivelmente sem qualquer intenção, por demonstrar o itinerário que levaria o Filho de Deus à cruz: a intensidade do amor trinitário pela humanidade, amor ardente e entusiasmado que se transforma em quase vício – há que se salvar a criatura humana, objeto de sua paixão. Esta, porém, em sua limitação não compreende o amor oferecido por Jesus e toda Sua missão acaba em sofrimento e morte.

Não poderia existir termo mais próprio: Paixão de Cristo. O sofrimento maior que um homem pode sentir – o aniquilar-se física e moralmente, o abandono, a dor, o tornar-se farrapo, sujo, nu, só. E dessa profunda humilhação ressurge glorioso para tornar a – eternamente – oferecer Seu amor ao amado.

A Paixão de Cristo é tão somente a sua entrega total à humanidade. Na pureza de Seu amor, Jesus não poderia ferir a liberdade dos homens que preferiram eliminá-lo a aceitá-lo como Messias. Seguir Jesus não seria uma tarefa fácil – significava ter que se desalojar, sair de si, eliminar os resquícios do comodismo e do egoísmo, tornar-se novo. E isso não é tarefa fácil para homens e mulheres.

O povo de Deus não aceitou Seu filho, não compreendeu que naquele carpinteiro de Nazaré estava o Messias. Talvez esperasse mais de Seu Senhor, talvez estivesse com a visão enevoada pela deturpação da lei e do entendimento sobre o amor de Deus. Enfim, aquele que só amou, terá sua paixão levada ao limite, sofrerá por amor, sofrerá pela incompreensão, sofrerá por não ser correspondido em sua paixão.

O apaixonado Jesus entregou-se, então, de vez à limitação do objeto de Seu amor. Permitiu-lhe que Lhe tirasse a vida e, ainda assim, por Sua ressurreição resgatará a salvação humana, ainda que esta tenha que passar pelas cruzes da vida e pela Cruz da Vida.

Para sua reflexão: Jo 18, 1-19,42

- Gilda Carvalho
Publicado originalmente no Amai-vos. Grifos nossos.

Converter… depressa


O Senhor Jesus, cuja humanidade foi perfumada e ungida pelas mãos amorosas de Maria, em Betânia,sente no seu coração toda uma perturbação pelo mistério da traição, sem deixar de amar e de acompanhar. O conhecimento do que está acontecendo não faz senão tornar mais aguda a consciência e a tornar, ainda mais forte, o consentimento e o abandono. O profeta Isaías nos mostra o Servo do Senhor consumido pela escuta e seguro de uma proteção divina que não poupa, mas reforça o dinamismo de uma fidelidade que custa muito caro: «Escondeu-me à sombra de sua mão, tornou-me como flecha afiada, colocou-me na sua aljava» (Is 49,2). Enquanto Maria, em Betânia, intuiu o segredo do coração de Jesus e o explicitou, os discípulos, sentados à mesa com o seu mestre, não compreendem, quase transtornados pelomedo de ter que compreender, e temerosos de ter que consentir. Aquilo que o Senhor Jesus diz a Judas: «Faze-o depressa!» (Jo 13,27) refere-se muito mais ao seu desejo de consumar depressa o seu amor, para que seja «luz» (Is 49,6) no coração de todo homem e toda mulher, e se faça claro, na terrível noite da traição, que o amor não desiste, mesmo quando é aniquilado. O amor não somente não desiste, mas a rejeição parece exaltar-lhe o perfume: «Enquanto estava à mesa com os seus discípulos, Jesus ficou profundamente perturbado e declarou...» (Jo 13,21).

Não devemos identificar a perturbação do Senhor Jesus pensando somente na traição de Judas. Na verdade, o evangelista João, de acordo com os sinóticos, relata-nos claramente a traição de todos os discípulos na hora da prisão de jesus, comparticular destaque à atuação de Simão Pedro que, tira fora a espada diante de um servo do sumo sacerdote, nega o seu discipulado diante da língua de uma serva e, de um modo tão claro que é impossível esquecer: «A fraqueza da Igreja está como que inserida em uma história de traições, e assim, é absolutamente visível a sua fraqueza»[1]. Uma fragilidade que, no entanto, é vivida de modo muito diferente para cada um. Os três discípulos que encontramos diretamente no evangelho de hoje – Judas, Simão Pedro e o discípulo amado – colocam-nos diante da responsabilidade de escolher como reagir e como viver a nossa participação no mistério de Cristo.

Judas, a quem o Senhor oferece o primeiro «pedaço de pão» (Jo 13,26) da ceia pascal, confirmando assim todo o seu amor, e oferecendo uma nova possibilidade de não ser sugado pelas trevas, mesmo assim, deixa-se como que engolir: «Tomando o pedaço de pão, saiu imediatamente. E era noite» (13,30). No entanto, existem outras possibilidades também, como aquela de Simão Pedro que, não obstante a sua negação, que fará cantar o «galo» (13,38) da manhã do dia de Páscoa, não fugirá do bálsamo doolhar misericordioso de Cristo; e também o discípulo amado, que se inclina «sobre o peito de Jesus» (13,24). Estes três apóstolos convivem no nosso coração, sem que possamos ter muito claro quem dos três está dominando, no momento. Peçamos ao Senhor que possa ter piedade do traidor e do medroso que estão em nós, e que fortaleça o amigo que queremos ser, e ajude-nos a ter acoragem de permanecer. De todos os modos, não tem tempo a perder, porque o amor, como a morte, não espera... então, «rápido!» (13,27).

- Semeraro, M. D., La messa quotidiana, Bologna, aprile 2011, 203-205.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Converter… os mínimos


A palavra do Senhor Jesus nos abre um verdadeiro e próprio caminho, chamado a tornar-se percurso de conversão de todos aqueles aspectos «mínimos» (Mt 5, 19) da e na nossa vida, para que sejam lugar e ocasião no qual se faça um espaço sempre «maior» ao Reino dos céus que habita em nós, e que se realiza através de nossa pequena, mas necessária contribuição. É cumprindo estes pequenos passos de vigilância e de consciência que conseguimos deixar-nos guiar pela Palavra do Senhor Deus que, no livro do Deuteronômio, acompanha e sustenta o caminho espiritual do povo de Israel, guiando-o, através de uma renovada memória dos tempos gloriosos do Êxodo, na direção de um êxodo espiritual, que faça passar da escravidão do esquecimento à memória da graça: «Cuida e guarda-te bem do esquecer as coisas que os teus olhos viram, não te escapem do coração, por todo o tempo de tua vida: as ensinarás a teus filhos e aos filhos de teus filhos» (Dt 4, 9). Assim, a Lei não somente não se opõe, mas garante e faz crescer a liberdade, como capacidade de discernimento e de escolha, que sabe captar, nos «mínimos» aspectos da relação com Deus e com o mundo, uma espécie de laboratório de autenticidade, sem ceder à idolatria legalista nem a estéreis fixações “devocionísticas”. Moisés sobre o monte Sinai e Jesus sobre o monte das bem aventuranças, revelam e continuam a revelar, progressivamente, o mesmo e nunca idêntico, Rosto de Deus, que deseja ardentemente a plenitude da alegria e de vida de seus filhos: «Escuta […] para que vivais e entreis em possessão da terra que o Senhor, Deus de vossos pais, está para dar-vos» (4,1). Na realidade, esta imagem de um Deus que é totalmente tomado pelo desejo de fazer-nos participar de seus dons e de si mesmo, como dom, não está ligada ao momento histórico do êxodo, mas é a atitude perene e contínua de Deus em relação a nós: « Não vim abolir a Lei, mas cumpri-la plenamente» (Mt 5,17).

A Lei, dada ao povo por meio de Moisés, tinha um papel de guiar a viagem interior para a liberdade; as bem aventuranças que o Senhor proclama sobre a montanha, diante da multidão que se senta ao redor dele, declara a realidade da liberdade na vida de cada homem e mulher, que se abre à relação com Deus, sempre menos prescritiva e sempre mais reconhecedora. Converter-se é sempre, de uma maneira ou outra, converte-se ao amor das Escrituras, porque comporta sempre o converter-se ao amor, através das Escrituras. Nas Escrituras – como em um rosto amado – cada «tracinho»  é um pequeno tesouro, cada tracinho é como um fragmento de eucaristia que nutre e faz crescer em nós o discípulo que caminha e avança no caminho. O Senhor Jesus fala em nome próprio, e se faz, deste modo, intérprete autorizado, mas não autoritário, da Lei recebida através de Moisés sobre o Sinai, e o sinal que se coloca como «pleno cumprimento» relaciona-se àqueles «mínimos» que não são, antes de tudo, preceitos secundários, mas aquelas situações e pessoas que consideramos secundárias e que, ao contrário, no final do evangelho, representam o critério do discernimento final. Aqueles que, no evangelho de hoje, são indicados como «estes mínimos» (5,19), nós os encontraremos como «Estes meus irmãos mais pequeninos» (25,40).

Textos para oração:
Dt 4,1.5-9; Mt 5, 17-19

- Semeraro, M., La messa quotidiana, Bologna marzo 2011, 278-280

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Desafios para o cristão de hoje


John Main disse que o grande desafio para o Cristão moderno é encontrar uma nova linguagem para compreender e comunicar a fé que nos une a Cristo. Esse é um desafio que abrange mais estágios do que pode parecer à primeira vista.

Primeiro, exige que mergulhemos nosso pensamento e nosso vocabulário tradicional em silêncio profundo, puro. Quando meditamos, não estamos pensando ou falando com Deus, mas apenas sendo em Deus. Este ser é silencioso. Plenamente compreendido, é silêncio - a total atenção e comunhão que é o amor de Deus.

Em segundo lugar, exige que arrisquemos nossas crenças familiares e nossa linguagem. Desconhecer ou rejeitar não é o mesmo que colocá-las de lado à medida que entramos no silêncio. Mas no começo pode parecer que estamos rejeitando ou até mesmo traindo o nosso sistema de crenças mais profundas. Temos de descobrir, em nossa própria experiência, que a meditação ensina, a todos os que a praticam, crentes e não crentes igualmente, que a fé é mais profunda do que a crença.

Em terceiro lugar, temos de voltar do silêncio e nos envolver com outras pessoas de boa vontade, para o bem comum do mundo. Não estamos tentando convertê-los ou impressioná-los. Estamos apenas sendo o que a fé e o silêncio nos possibilitam ser e podemos, portanto, aceitar e respeitar os outros como são. Desta forma, vemos Cristo de um modo novo e maravilhoso.

Ir ao encontro daqueles que não creem - um cientista agnóstico, por exemplo - em tal silêncio é esclarecedor tanto para nós e como para eles. É um deserto, um lugar de simplicidade radical e verdade, de auto-conhecimento, onde não podemos nos esconder por trás de uma máscara religiosa ou psicológica. É um encontro quaresmal em que aceitamos a necessidade de auto-contenção. Mas as rajadas do deserto se tornam flores e a Quaresma torna-se alegre quando duas pessoas honestas se encontram, seja lá onde e como estejam reunidos.


- Laurence Freeman, OSB

Publicado originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil. Tradução: Leonardo Corrêa. Grifos nossos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Constante vigília


"O coração é tortuoso acima de tudo; é perverso — quem pode compreendê-lo?" Esta visão do profeta Jeremias sugere uma resposta diferente e menos confortável para o auto-conhecimento. O coração é geralmente definido como lugar de conhecimento espiritual e discernimento verdadeiro. É o ponto central sagrado da consciência, tabernáculo da presença divina. Conhecer o coração é conhecer a Deus.

No entanto o coração é muito próximo à outra zona do "self" bíblico, o ventre — onde, da turbulência das emoções e da paixão, emergem tempestades repentinas. As forças deste aspecto do nosso "self" facilmente lançam uma sombra sobre o coração. Faz com que pareça termos, pelo menos temporariamente, perdido a cabeça completamente. Mas deixa-nos inseguros confundir ventre e coração desse modo. Somos tão instáveis, tão imprevisíveis assim?

Enquanto estivermos nesta jornada não podemos jamais ser complacentes com qualquer grau de tranquilidade ou paz que acreditamos ter alcançado. Os Padres do deserto nos advertiram sobre estarmos constantemente vigilantes e prontos para sermos humilhados pela nossa própria instabilidade. É por isso que a Quaresma não tem a ver com perfeccionismo nem com ganhar pontos por mérito. Trata-se de humildade e auto-conhecimento, que por sua vez significam perceber que existem zonas do nosso eu que não podemos conhecer ao certo.

Por um momento você pode se sentir seguro, ancorado no coração. Equilibrado, resiliente, compassivo, centrado nos outros. Mas, imperceptivelmente, apegos vão se formando - e com eles vêm as ilusões. Aí, quando a realidade desponta e expõe esses elos fracos, a cadeia inteira parece despedaçar-se. De repente, podemos nos ver jogados em meio à dor, raiva, tristeza. No intervalo da tempestade, saberemos que esse estado é temporário e pode ser assimilado, mas também podemos nos sentir incapazes de controlá-lo.

No final de um longo dia de "luta do coração", a saúde é restaurada. Tal como acontece com Jesus em sua Paixão, o ego vai se acomodando mediante a força divina do amor. Esse amor incontrolável surge inesperadamente e varre tudo. Somente quando o equilíbrio é restaurado, vemos que o que parecia ser fracasso e desilusão - e era — era de fato, mais verdadeiramente, graça e crescimento.


- Laurence Freeman, OSB

Publicado originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil.
Tradução: Leonardo Corrêa. Grifos nossos.

domingo, 17 de abril de 2011

Sobe a Jerusalém

Foto: ®oland

Na ocasião da festa da Páscoa, era costume dos judeus peregrinar até Jerusalém, a cidade santa. Maria fizera o percurso entre Nazaré e Jerusalém inúmeras vezes em sua vida, mas um, em especial, a marcará para sempre: aquele em que verá seu filho ser morto e, dos mortos, ressuscitar.

Maria conhecia seu filho e seu povo. Por isso, certamente já devia perceber que algo não ia bem e que se tentava prender Jesus. Era mais uma vez o mistério de Deus invadindo sua vida: por quê? Por que matar aquele que só faz o bem? Por que prender aquele que só tem palavras de verdade e de vida? Por que...?

Imagino-a caminhando pelas estradas em silêncio. O mesmo silêncio que calou seu coração na gruta em Belém. O silêncio daqueles que estão prestes a presenciar acontecimentos que não se explicam senão pela fé. E será lá, na cidade santa, que fará sua oferta. Desta vez, não mais pombas e rolas, mas o próprio filho!

Talvez Maria não imaginasse que a morte de Jesus fosse acontecer tão abrupta e brutalmente. Talvez não imaginasse que fosse acontecer naquele momento. Mas sabia que algo aconteceria naquela Páscoa. E, assim, com o coração silenciado pela dor assistiu uma vez mais ao mistério de um Deus que se curva à humanidade e se entrega a ela para, deste modo, salvá-la.

O coração da Maria que celebra a Páscoa em Jerusalém é um coração que é todo oferta. Ali, Ela devolve a Deus o menino que carregou em seus braços, a quem educou, a quem deu de comer, a quem viu crescer, tornar-se homem e transformar a vida de tantos outros homens e mulheres pelo simples poder de amá-los incondicionalmente. Ali, após sentir a dor maior que uma mãe pode sentir – a da perda de seu filho amado – será recompensada com a experiência da vitória da vida sobre a morte.

A celebração da Páscoa para Maria nunca mais será a mesma. Para que possamos também viver a Páscoa de uma maneira nova, aproximemo-nos dos mistérios que brevemente iremos recordar com o mesmo coração que Maria levou à Jerusalém: um coração de silêncio e escuta, para que, assim, possamos tirar melhor proveito do que Deus quer renovar em nossa Páscoa hoje.


Texto para oração:

Sobe à Jerusalém, Virgem Oferente sem igual
Vai, apresenta ao Pai seu Menino-Luz que chegou no Natal
E, junto à sua Cruz, quando Deus morrer fica de pé
Sim, Ele te salvou, mas o ofereceste por nós com toda a fé.

Nós vamos recordar esse sacrifício de Jesus
Morte e ressurreição, vida que brotou de sua oferta na Cruz
Mãe, vem nos ensinar a fazer da vida uma oração
Culto agradável a Deus
É fazer a oferta do próprio coração.


- Gilda Carvalho
Originalmente publicado no Amai-vos. Grifos nossos.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Páscoa: escravidão e liberdade


Cada ano festejamos Pessach porque a liberdade, para os indivíduos e para a sociedade, é sempre uma travessia, nunca um ponto de chegada, e ela só é possível porque se alimenta do exemplo e das lutas das gerações passadas.

Pessach é um momento de reflexão sobre o que nos faz escravos, permitindo que a opressão se instale no nosso interior e nas nossas relações. Por isto, festejar a liberdade exige refletir sobre a servidão, sobre o Faraó que cada um leva dentro de si:

• O Faraó que só percebe a si mesmo.
• O Faraó que deseja que os outros o obedeçam.
• O Faraó que não aceita que cada pessoa seja diferente.
• O Faraó que julga antes de compreender.
• O Faraó que divide tudo em certo e errado.
• O Faraó que fala para não ouvir.
• O Faraó que teme ideias diferentes das suas.
• O Faraó que ri dos outros sem ser capaz de rir de si mesmo.
• O Faraó que confunde solidez com rigidez.

Pessach nos lembra de que o poder material, econômico ou político não deve ser confundido com o poder de ser internamente livre. Porque a liberdade não se compra nem se impõe, só pode ser construída por cada um e na convivência, inspirando-se em exemplos, mas seguindo caminhos que são sempre singulares. Por isso:

• Só a liberdade nos leva a valorizar perguntas que questionam nossas certezas e a duvidar de respostas que confirmam nossas crenças.
• Só a liberdade nos permite amar nossos seres queridos sem querer transformá-los em espelhos de nós mesmos.
• Só a liberdade nos permite levar a vida a sério, sem nunca deixar de brincar.
• Só a liberdade nos permite aprender coisas diferentes que questionam nossas crenças.
• Só a liberdade nos permite entender nossas mudanças e das pessoas que nos circundam.
• Só a liberdade nos ensina que a vida nunca se reduz ou pode ser contida em leis e conceitos aparentemente rigorosos.
• Só a liberdade nos dá o sentido da ironia e do humor.
• Só a liberdade nos permite entender que toda fronteira usada para classificar os outros é precária e que nunca deve ser transformada numa forma de desclassificar.
• Só a liberdade permite que a tradição seja uma fonte de sabedoria e não uma camisa de força.

A afirmação da liberdade é um caminho que exige rompimentos e distanciamentos de um mundo conhecido e aparentemente seguro. Mas nada pode eliminar a angustia nem as incertezas. Ou nos refugiamos na repetição mecânica e em crenças cegas que sufocam a curiosidade, fogem do desconhecido e temem o que está fora de nosso controle, ou as transformamos numa energia que nos impele a descobrimentos e que nos faz crescer, transformando a vida num processo de aprendizagem permanente.

Só podemos lutar contra a servidão se enfrentamos o opressor e o oprimido que cada um de nós carrega. Porque a escravidão individual é produzida por traumas que nos deixam inseguros e por medos que nos paralisam e nos transformam em pessoas rígidas e oprimidas:

• Um oprimido que se esconde dele mesmo procurando ser igual ao resto.
• Um oprimido que transforma, por insegurança, o amor em possessão.
• Um oprimido que odeia o que não controla e o que não se ajusta à sua vontade.
• Um oprimido que foge da mudança, no lugar de se enriquecer com ela.
• Um oprimido que teme o futuro e a passagem do tempo no lugar de vivê-lo intensamente.
• Um oprimido que inferioriza os outros para se sentir superior.
• Um oprimido que se refugia em grupos e comunidades em torno das quais cria muralhas que desumanizam os que se encontram fora.

A liberdade pessoal só pode ser plenamente realizada em comunidades que permitem a livre expressão de cada indivíduo. Devemos, portanto, lutar contra toda forma de opressão política e social. Porque o autoritarismo se alimenta do ódio, estigmatiza quem discorda, transforma o opositor em inimigo e os indivíduos em membros de manadas. Lembrando sempre que não há comunidade onde não existe justiça social, pois a pobreza e a miséria geram excluídos.

Porque aspiramos a ser livres, mas nunca nos desprenderemos totalmente dos desejos de pressão, lembramos as grandezas, nem por isso destituídas por vezes de fraquezas, de nossos antepassados. A todos eles, e a todas as pessoas justas de todos os povos e culturas, que fizeram o possível para que hoje possamos brindar à vida e à liberdade:

Shehechyanu, ve´quimanau ve’higuyanu lazman haze.
Que vivemos, que existimos, que chegamos a este momento.

- Bernardo Sorj
Publicado originalmente no Amai-vos. Grifos nossos.

sábado, 9 de abril de 2011

Alegria: a experiência de ser em Deus



Podemos nos alegrar de diferentes modos e por diferentes motivos. É justamente essa diversidade de fontes da alegria que a torna ainda mais intensa. É como encontrar um jeito de se inebriar sem a ressaca depois - apenas a descoberta de novas variedades de felicidade. A breve happy hour parece estendida ao infinito. É aí que percebemos que a alegria não depende das circunstâncias, nem da boa sorte, nem da satisfação dos nossos desejos; ela simplesmente faz parte da natureza do ser.

Tal alegria de ser não se deixa limitar. É repetidamente ativada por coisas distintas e, em geral, muito simples. Pode até parecer tolice encontrar tal felicidade por toda parte, pelo simples fato de as coisas serem como são. As cores, as características das pessoas, mesmo pequenas decepções veem-se de tal modo enredadas em uma alegria que tem tantas causas em potencial que até parece não ter causa alguma. Assim começa a experiência de Deus refletida no cotidiano de cada um.

A experiência oposta também existe. Podemos vivenciar a tristeza do mesmo modo. Imersos em alguma grande perda e ainda ignorantes da aprendizagem que, com o tempo, ela acabará nos proporcionando, a tristeza pode permear tudo o que fazemos. Mesmo o que normalmente nos consola, levanta, delicia e tudo o que já foi motivo de alegria torna-se razão de dor. É como se tivéssemos perdido para sempre o segredo da felicidade. Como se qualquer possibilidade de alegria nesta vida se tivesse esgotado irreversivelmente. E, através de alguma ferida invisível em nossa alma, as águas da tristeza nos penetram - e vamos afundando.

Compreender esses dois estados pode nos levar para além de um dualismo feliz-infeliz, em que ambos são mutuamente excludentes. A verdadeira tristeza não se resolve se ficarmos alegres, assim como a verdadeira alegria não é eclipsada por nenhuma tristeza. A arte da atenção, iluminada pela sabedoria inerente ao nosso próprio espírito, nos ajuda a discernir e transcender toda dualidade, elevando-nos para um lugar novo. Surge uma nova visão de mundo, em que tudo está presente e as perdas e ganhos convergem. A Quaresma conduz a esse estado de consciência por meio do desapego. A meditação conduz a ele por meio do amor.

Não se trata de uma "experiência de Deus", mas de uma experiência de "ser em Deus".


- Laurence Freeman OSB
Publicado originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A caminhada


Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do deu pai, 
e vai para a terra que eu te vou mostrar”. 
Gênesis 12:1

Existe uma ligação irrevogável entre a terra prometida e o total despojamento. Desde o início, quando Deus chama a Abrão (ainda não Abraão), a convocação a fundar um povo novo num lugar distante vem com uma tarefa: tem que deixar tudo o que possui. Abrão não tem dúvida, nem medita muito. Pega e sai. Seria por não ter muita coisa a perder? Não sabemos. Por outro lado, ele mostra total confiança no Senhor que acabou de conhecer, naquele momento.

O futuro pai de multidões tem de superar a comodidade da rotina, a inércia de ficar no mesmo porque já está. Inovar sempre custa caro, pois significa começar tudo de novo. Alguma facilidade tinha, pois o semi-nomadismo já o fazia viver desinstalado, constantemente em busca de águas frescas e pastos novos para seus rebanhos. Já era caminhante. Aos aficionados da televisão, lhes custa mais - quiçá por não terem o costume do movimento constante. Para começar, andar faz bem.

Mesmo na pobreza, custa deixar o país, sua gente, a família, e quantas coisas mais. O catolicismo autoritário, recalcitrante e intransigente, de quaresmas austeras que duram todo o ano sem se acabarem jamais, inventou a falsa razão de que Deus impõe sobre Abrão uma exigência de sacrifício a fim de pô-lo à prova, para ver se era digno. Assim justificam os requisitos prévios para a salvação que têm inventado, a fim de se eximirem de levar a Boa Nova (de uma ressurreição que desconhecem) à multidão faminta de terra prometida.

As igrejas protestantes - especialmente as variantes fundamentalistas e pentecostais - não imaginam o despojamento como parte dum processo espiritual. Primeiro, por não entenderem de processos espirituais, nem de caminhadas largas. A sua versão da salvação ocorre no dia que a sua vida mudou. Por outra parte, se aferraram ao salmo primeiro, que promete prosperidade aos crentes. A acumulação de coisas, o consumismo irracional que está matando o planeta, é parte do seu evangelho da prosperidade: a recompensa atual como adianto do céu futuro.

Então, despojar-se não ergue ninguém, e ainda cheira a antiquadas penitências católicas. Porém, por mais bíblicos que sejam, esquecem-se dos chamados de Jesus, quando diz coisas radicais como "deixa todo o que tem: os seus pais, a sua mulher e seus filhos, e vem e segue-me". A sua religião é para assegurar essas coisas, não para despojar-se delas.

O amor de Deus é universal. A Boa Nova é gratuita. O despojamento começa com o chamado, livremente aceito, com alegria. Significa caminhar em direção a algo melhor. Os afeitos a caminhadas sabem que é bom andar de bagagem leve - quanto menos, melhor.

A convocação para a terra prometida é acompanhada do despojamento total pela simples razão de que não é possível viver em dois lugares. Não se pode ter dois mestres. Não adianta dedicar-se a dois ofícios. Não é possível ter dois amores, nem viver duas vidas.

Terra prometida para os discípulos de Jesus é mais que um espaço geográfico. É uma vida. É evangelho encarnado, boa notícia, amor incondicional. O chamado é para deixar para trás as condições, os apegos e as coisas insensatas de que a gente acha que precisa, como dinheiro, aplausos e honras. A promessa é Jesus mesmo, transfigurado, pleno, entregue, amor em pessoa, dando sentido e direção a tudo. Ele é nossa terra prometida. É hora de caminhar.


- Nathan Stone, S.J.
Publicado originalmente no Mirada Global. Grifos nossos.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um minuto de silêncio


Hoje, dia de tragédia no Rio, assisti, em meio ao choque generalizado diante do ocorrido e às primeiras reações de compaixão e solidariedade, a uma crescente onda de boatos nas redes sociais acerca do autor dos disparos: que seria religioso, fundamentalista, islâmico, soropositivo, homossexual, ateu, crente - imediatamente acompanhada de uma avalanche de trocas raivosas de acusações... "gays" contra "religiosos", "fundamentalistas" contra "libertinos", "conservadores" contra "progressistas", "crentes" contra "ateus", "defensores dos direitos humanos" contra "reacionários"... e, em meio ao recrudescimento da raiva generalizada, as crianças feridas e mortas e o rapaz transtornado que as feriu e matou pareciam ter virado apenas um pretexto para o cabo-de-guerra entre interesses rivais.

...E, em meio à polarização das paixões e à intensificação da troca de insultos e agressões, o santo nome das crianças chacinadas me parecia cada vez mais usado em vão. Do impulso inicial de compaixão, algo parecia ter se perdido.

A mim não parece que a questão seja identificar de quem é a culpa - se da religião ou do ateísmo ou do fundamentalismo ou da libertinagem ou da homossexualidade ou do reacionarismo ou da soropositividade ou do fracasso do referendo contra as armas. Sobretudo, não me parece que a questão seja aproveitar - por convicção ou oportunismo - para identificar a culpa com aquele "outro" que pensa diferente de mim. Ao menos não agora.

Ao menos não agora. Por ora, demo-nos um minuto.

Mais que encher-nos de ódio pelo criminoso - seja ele louco, radical, gay, soropositivo, crente, ateu ou E.T. - a ocasião pede sobretudo humanidade diante de tanto sofrimento - das crianças, das famílias, dos amigos, dos profissionais que atuaram no resgate, nos hospitais, nos bancos de sangue, e por que não? Também do perpetrador de tamanha insanidade.* Diante de tamanho sofrimento, resta-nos sentir, resta-nos por um instante suspender toda pretensão, arrogância e julgamento, resta-nos baixar os olhos, e baixar a guarda, baixar as certezas de que certo estou eu e toda diferença está errada, e guardar por um instante as palavras e fazer um minuto que seja de silêncio, em silenciosa abertura para tão-somente compartilhar com o outro a sua dor. Resta-nos, diante da tragédia - desta de hoje como de outras - por um minuto que seja baixar as baionetas e as palavras aguçadas e dar-nos as mãos, como quem diz "Vem, irmão, apóia-te por um instante no meu ombro, sei que estás cansado, como cansado estou eu". E a dor assim dividida, com o peito assim aberto, por um minuto que seja nos faz mais humanos, porque mais humildes perante o mistério insondável da existência; o mistério da dor diante da qual só podemos dar-nos as mãos, calar e confiar que um dia as lágrimas secarão, as feridas irão cicatrizar um dia, e um dia - embora em meio a tamanha treva seja impossível acreditar - o sol voltará e será outro dia, outra vez.

E a dor assim dividida, por um minuto que seja desse silêncio que se instala porque não há resposta para o "por quê?!" mortificado, a dor assim dividida anula as diferenças. E porque anula as diferenças, porque não importa por ao menos um minuto a tua ideologia ou religião ou raça ou classe ou seja lá o que te faz diferente de mim e a mim, diferente de ti; porque nada mais importa voltamos a ser iguais como quando chegamos neste mundo, e a igualdade nos torna de novo simplesmente humanos e irmãos na dor.

Partilhemos com as vítimas essa dor tamanha, e demo-nos as mãos e façamos silêncio por um minuto que seja, para que pelo menos a tragédia nos torne outra vez irmãos. Porque a dor assim sentida, de mãos dadas, humaniza. Por um minuto, que assim seja.

_______________
*Quem leu a sua carta? Quem, em meio ao horror das suas palavras, leu, nas entrelinhas, o fardo de solidão e desespero...?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O segredo é ver



Um dos heróis do Dalai Lama, como ele mesmo costuma contar, é um sujeito de Belfast que, em menino, estava um dia voltando da escola para casa quando levou um tiro de um soldado inglês que o deixou cego para sempre. Ao sair do hospital e voltar para casa, a mãe de Richard Moore puxou-o no canto para lhe dizer duas coisas. Primeiro, que ele não voltaria a enxergar. E, segundo, que ele não deveria jamais odiar os ingleses.

Em uma das suas visitas a Belfast, o Dalai Lama conheceu Richard e soube que ele tinha acabado de fundar uma obra filantrópica para crianças vítimas da violência e do conflito. Ele era uma testemunha viva daquilo em que os mestres da não-violência de todas as tradições tanto insistem: que é possível, por mais impossível que pareça, transcender as reações instintivas de ódio e vingança que vêm à tona e em geral nos subjugam depois de termos sofrido nas mãos dos outros.

A maneira mais importante de conseguir isso que parece impossível é ver. Uma vez visto e experimentado algo, por mais fora do alcance que pareça, penetra a esfera das possibilidades. Para ver desse modo, precisamos fechar os olhos às imagens ilusórias que, na realidade, são indícios da cegueira espiritual.

Quando, no Evangelho, Jesus cura o cego - o cego de nascença (Jo 9, 1-41) ou o mendigo cego Bartimeu (Mc 10, 46-52) - não age no plano físico somente. Com a visão restaurada, o Homem passa a ver com uma clareza e nitidez que o enche da coragem e capacidade de decisão que só a visão da realidade é capaz de despertar em nós. Em ambos os casos, os curados o seguem.

A meditação é, simultaneamente, um caminho de fé e de visão. À medida que a fé se aprofunda, a visão fica mais clara; e, quando enxergamos com suficiente nitidez, já mudamos de rumo. O instante preciso da mudança - como o da ressurreição dos mortos - esconde-se sempre no momento em que o grau de visão atinge seu ponto crítico. Não conseguimos jamais enxergar a Deus como um objeto, mas só participando no modo como Ele nos vê, que – como nosso ego só admite com relutância – não é um ponto final, mas apenas parte de um quadro infinitamente maior que nós, de nossa parte, podemos apenas imaginar.


- Laurence Freeman, OSB
Publicado originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil. Grifos nossos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Confiar, com Maria

Foto: hume

A introdução da Quaresma no calendário litúrgico é acontecimento muito posterior àqueles últimos dias de Jesus. Contudo, tal como a Quaresma é hoje para nós tempo de preparação para a celebração dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, podemos imaginar que Maria também viveu um tempo em que – mesmo não sabendo precisar o que iria acontecer – preparava-se para algo diferente, pois tinha total conhecimento sobre as consequências do trabalho que seu Filho.

A relação de Jesus com Maria era especial. Mãe e filho eram unidos não só pela condição familiar, mas pela fé na Missão que o Pai lhes confiara. Pode-se, então, imaginar longas conversas entre os dois, nas quais ora um, ora outro, desvendavam as entrelinhas das Escrituras e entravam mais e mais no Mistério de Deus. Conversas que também tratavam do mundo terreno, das ações de Jesus, de seus resultados efetivos, de suas dificuldades e de suas possíveis consequências. As leis terrenas da época de Jesus previam graves punições, e, a mais terrível delas, que era a morte na cruz. E os dois sabiam que isso poderia acontecer. Jesus já havia anunciado aos apóstolos que passaria por um grande sofrimento e é óbvio pensar que também já deveria ter prevenido Sua mãe sobre isso.

Maria, por sua vez, conhecia seu povo, conhecia a maldade e a dureza dos corações dos poderosos e sabia o que poderiam tramar contra seu Filho. Maria sabia que pode perder seu Menino e que a dor lhe chegará ao coração. Talvez se lembrasse constantemente das palavras de Simeão e Ana quando esteve no Templo para oferecer os sacrifícios a Deus. Talvez se lembrasse da perseguição em Belém e da vida no Egito. Talvez se lembrasse de tudo o que os profetas anunciaram sobre o Messias... Maria, como hoje os fiéis o fazem, também se preparou para enfrentar aqueles dias dolorosíssimos que chegariam e que arrasariam seu coração de mãe.

Mas, certamente, Ela também haveria de se lembrar das promessas que Deus fizera a seu povo. Portanto, sabia que Deus lhe seria fiel. Deus lhe concederia a força necessária para compreender os momentos que estavam por chegar e que não seriam facilmente compreensíveis aos olhos humanos. Deus estaria ao seu lado, seria o seu sustento e o seu amparo. Essa é sua única certeza – e somente essa pode ser a certeza atual diante do sofrimento incompreensível e do silêncio que cerca o período que antecede a celebração da memória da Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo.

Que possamos nos preparar com Maria para os Mistérios que se aproximam: com certezas, com confianças, com o olhar a ver o invisível.


- Gilda Carvalho
Publicado originalmente no Amai-vos. Grifos nossos.

sábado, 2 de abril de 2011

Ele cuidará


E por falar na inocência das crianças, um mimo para lembrarmos o quanto elas têm a nos ensinar sobre a confiança. Que, neste tempo da Quaresma, também nós possamos encontrar, em meio às atribulações, nosso repouso e alimento no colo amoroso do Pai.

Bom fim de semana a todos! :-)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Rezando o Rosário na Quaresma

Foto: sparth


A experiência de recitar o Rosário é uma das formas mais antigas da devoção popular à Maria. Rezar o Rosário, individual ou conjuntamente, não é, porém, apenas uma simples recitação de uma série de orações. É muito mais: é, com Maria, percorrer a história da salvação através dos mistérios da vida de Jesus Cristo.

Contemplar os mistérios da vida de Jesus é um convite a revivermos, internamente, cada momento que nos é proposto. É relembrar, com a memória, a história; é olhar, com a imaginação, a cena que se passa; é entender, com o sentimento, o chamado que Deus nos faz através daquela reflexão.

Neste momento especial da Igreja, em que se inicia a Quaresma – caminho que nos levará a Jerusalém, local da paixão e ressurreição do Senhor – é bastante apropriado nos fazermos acompanhar de devoções particulares que nos permitam revisitar os passos de Jesus e com Ele e Sua mãe experimentarmos seu sofrimento e sua glória.

Portanto, segue abaixo o roteiro para se rezar o Rosário – ou o Terço – com dicas de leituras bíblicas que podem aprofundar sua reflexão.


No Rosário são rezadas as seguintes orações:
A meditação do Rosário começa com o Sinal da Cruz, evocação da Santíssima Trindade, princípio e fim de nossa fé.

Em seguida, o Credo que nos convida a meditar sobre os principais artigos de nossa fé.
Antes de iniciar os mistérios, temos um conjunto de quatro orações iniciais - um Pai Nosso e três Ave Maria que é um momento de petição e oferecimento da oração do Rosário que está sendo iniciada.

O Rosário é composto por mistérios, organizados conforme a maneira que se propõe a reflexão sobre a história da Salvação. Assim é que teremos cinco mistérios gozosos (ou da alegria), cinco dolorosos, cinco gloriosos e, mais recentemente, os cinco mistérios luminosos.

Cada mistério é iniciado por um Pai Nosso seguido pela recitação de 10 Ave Maria e finalizado com um Glória ao Pai.

Após a meditação dos mistérios, finaliza-se o Rosário com a recitação da Salve Rainha, em louvor à Maria pelas graças concedidas com a oração que termina.

O Terço
O Terço é uma forma abreviada de se rezar o Rosário. Como o próprio nome diz, o Terço refere-se à terça parte do Rosário, ou seja, a meditação diária de apenas cinco dos conjuntos de mistérios propostos. Tradicionalmente, a meditação dos mistérios é realizada conforme os dias da semana, ou seja, para cada dia é proposto um conjunto de mistérios diferente.

A recitação do Terço é bastante comum na oração individual e comunitária. Famílias, grupos de oração e pastorais costumam reunir-se para rezar o Terço, marcando momentos de celebração e reflexão, sobretudo no mês de Maio, dedicado à Maria.


Meditação dos Mistérios
Roteiro para percorrer os mistérios da história da Salvação, com sugestões de leituras bíblicas que poderão auxiliá-lo na contemplação proposta por cada um.
A carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, recentemente publicada, faz uma alusão à distribuição dos mistérios pelos dias da semana, assemelhando-a ao tempo litúrgico de uma forma bastante interessante. Diz o Papa João Paulo: “A distribuição pela semana acaba por dar às sucessivas jornadas desta, uma certa cor espiritual, de modo análogo ao que faz a Liturgia com as várias fases do ano litúrgico.”

Mistérios Gozosos ou da Alegria (rezados às segundas e sábados)
Primeiro Mistério: Contemplação do anúncio do anjo Gabriel à Maria
Leitura Bíblica: Lc 1, 26-39
Segundo Mistério: Contemplação da visita de Maria à sua prima Isabel
Leitura Bíblica: Lc 1, 39-45
Terceiro Mistério: Contemplação do Nascimento de Jesus
Leitura Bíblica: Lc 2, 1-15
Quarto Mistério: Contemplação da apresentação de Jesus no Templo
Leitura Bíblica: Lc 2, 22-39
Quinto Mistério: Contemplação da perda e do encontro de Jesus no Templo
Leitura Bíblica: Lc 2, 41-52

Mistérios Dolorosos (rezados às terças e sextas-feiras)
Primeiro Mistério: Contemplação da agonia de Jesus no Horto das Oliveiras
Leitura Bíblica: Mc 14, 32-43
Segundo Mistério: Contemplação da flagelação de Jesus
Leitura Bíblica: Mt 27, 22-26
Terceiro Mistério: Contemplação da coroação de espinhos de Jesus
Leitura Bíblica: Mt 27, 27-32
Quarto Mistério: Contemplação de Jesus carregando sua cruz para ser crucificado
Leitura Bíblica: Lc 23, 20-32
Quinto Mistério: Contemplação da crucificação e morte de Jesus
Leitura Bíblica: Lc 23, 33-49

Mistérios Gloriosos (rezados às quartas-feiras e domingos)
Primeiro Mistério: Contemplação da ressurreição de Jesus
Leitura Bíblica: Mt 28, 1-15
Segundo Mistério: Contemplação da ascensão de Jesus aos céus
Leitura Bíblica: At 1, 4-11
Terceiro Mistério: Contemplação da descida do Espírito Santo sobre N. Senhora e os Apóstolos no Cenáculo
Leitura Bíblica: At 2, 1-14
Quarto Mistério: Contemplação da Assunção de Nossa Senhora
Leitura Bíblica: 1Cor 15, 20-23; 53-55
Quinto Mistério: Contemplação da coroação de Maria como Rainha do Céu e da Terra
Leitura Bíblica: Ap 12, 1-6

Mistérios da Luz (rezados às quintas-feiras)
Primeiro Mistério: Contemplação do Batismo de Jesus
Leitura Bíblica: Mc 1, 9-15
Segundo Mistério: Contemplação do primeiro milagre de Jesus - as bodas de Caná
Leitura Bíblica: Jo 2, 1-11
Terceiro Mistério: Contemplação do anúncio do Reino de Deus e do convite à conversão
Leitura Bíblica: Mc 1, 15
Quarto Mistério: Contemplação da Transfiguração de Jesus
Leitura Bíblica: Lc 9, 28-36
Quinto Mistério: Contemplação da Instituição da Eucaristia
Leitura Bíblica: Mc 14, 12-25


- Gilda Carvalho
Originalmente publicado no Amai-vos

terça-feira, 29 de março de 2011

A água pede de beber

Foto: catklein

O encontro de Jesus com a samaritana é bastante conheci­do (João 4, 1-30) e apresenta um paradoxo: Jesus, a água viva, pede de beber à samaritana. Esse não é o único paradoxo, nem a única “incoerência” desse texto que mistura fonte com poço, perguntas sem respostas e res­postas a perguntas que ninguém fez. Ao beber na fonte cristalina do texto original, pode-se des­cobrir a riqueza de um itinerá­rio iniciático apresentado pelo evangelista, oculto pela subjeti­vidade de muitos tradutores.

Logo no início, ao anunciar a intenção de Jesus de ir da Ju­deia para a Galileia, as traduções dizem que para tanto “era-lhe necessário passar pela Samaria (4, 4)”, ou “era-lhe preciso” ou “tinha de passar”. Muitos vêem nisso uma obrigação geográfica: o caminho era por ali, não tinha jeito. Não é verdade. Na reali­dade, Jesus nem devia, nem pre­cisava. Poderia tomar outro caminho, como a maioria dos judeus fazia: Por exemplo, seguir o vaie do Jordão — onde água e sombras eram abundantes — e evitar esses heréticos que eram, para os judeus, os samaritanos. Basta olhar um mapa da região e constatar. Jesus mesmo recomenda aos discípulos evitar a Samaria (Mt 10,5). Em Lucas (9, 51-56), os discípulos que atravessam a Samaria são mal recebidos.

Mas Jesus já os distinguia: o único dos dez leprosos curados, que volta reconhecido, era samaritano (Lc 17, 11-19) e na parábola do bom samaritano ele os opõe aos levitas do templo (Lc 10, 30-37). No texto grego origi­nal, Jesus devia, tinha de passar (êdei) no sentido de quem tem um objetivo. Jesus tinha um pro­jeto de ir a Galiléia. A passagem da Judéia na Samaria lembra a profecia de Isaías, em que os reinos separados serão um dia reconciliados. Em Jesus acaba­rá a separação, a divisão de Is­rael e Judá. O rei justo — sobre o qual repousará o Espírito de Deus — “ajuntará os banidos, ou desterrados de Israel, reunirá ou congregará os dispersos de
Judá” (Is 11, 12 cf. Os 2, 2; Jo 3, 18; 35, 50; Ex 37, 16-24). E nes­se contexto que se deve enten­der porque Ele deve passar pela Samaria. Seu ensinamento era também para os excluídos, os impuros, os heréticos e os que tentam viver sua fé no meio de nações pagãs. Como nós, nos dias de hoje, cercados pelo ne­opaganismo e pelas heresias.

O episódio é polissêmico, rico em significados, já que, como nos neopagãos de hoje em dia, o ouvido dessa mulher não estava totalmente fechado. Ainda havia abertura, pois ela era habitada pelo desejo. E para ela serão revelados, progressivamente, os mistérios da oração “em espírito e verdade”. Existe um itinerário iniciático, muito bem construído por João, que leva das verdades
adquiridas e relativas, contidas em nós, para a Verdade infinitamente mais elevada e vasta que nos contém.

Como numa espécie de séti­mo dia da criação, Jesus descan­sa. Cansado do caminho, ele Senta à beira do poço (4, 6). San­to Agostinho diz que é Deus quem se cansou, pois está nessa estrada há
séculos, milênios... em busca da humanidade. Deus está em busca do homem. Onde Ele poderia parar, pousar, repou­sar? No poço de nosso coração, na alma de cada um de nós. Tal­vez cada um já tenha vivido o essencial da experiência místi­ca e espiritual: a descoberta de que não somos nós, mas é Deus quem nos busca. Era Deus quem nos buscava esse tempo todo. Mas como é difícil deixar-se achar, deixar-se amar “tal como somos”. A estrada é longa até esse ponto da aceitação total.

E aproximadamente à sexta hora, meio-dia, em que o sol abrupto não deixa sombras, nem lugar para elas; e nessa hora da sede e do desejo; e nesse momento de uma luci­dez que deixa pouco lugar para as mentiras; e quando estamos na beira do poço, em nossa pior hora - é ali que Jesus nos espera. Na fonte (pegé) do nos­so ser. Onde a vida surge, na saída, na sua gratuidade. O poço é o símbolo do coração humano. A vida nos leva a des­cer nas suas profundezas para descobrir a fonte. Estar no fun­do do poço exige silêncio. Sen­tar na beira do poço é ficar na escuta, em estado de resso­nância. E o que vamos escu­tar? O silêncio nos prepara para ouvir a voz que murmu­ra no fundo das águas: dá-me de beber. O silêncio nos traz essa experiência.

Paradoxo: a água pede de beber. Jesus é a fonte que tem sede de ser bebida. Como en­tender esse chamado de Deus? A Fonte pede para ser reconhecida, pede tempo e atenção. Dá-me do teu silêncio, da tua solidão. Essa é nossa água, que podemos ofertar a Deus. Quem está disposto a dedicar para Deus uma parte do tempo de silêncio que entrega à televisão? Deus pede nosso silêncio, atenção e contemplação. É sempre uma surpresa ser cha­mado do fundo do Ser. Sentir-se esperado, desejado, por um Si que é mais que o nosso si-mesmo. Por um Todo Outro que si-mesmo. Pelo Desconhe­cido das profundezas. E desse primeiro despertar nasce o es­panto: Por que eu? Por que “mim”? Isso é outra história, outro paradoxo, que a samari­tana também vai descobrir. Mas hoje nos basta o convite a um pequeno voto de silêncio, como entrega gratuita a um Deus que, no fundo de nosso coração, pede de beber.


- Evaristo Eduardo de Miranda
In Corpo: Território do Sagrado, Ed. Loyola
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...