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quarta-feira, 5 de março de 2014

Por uma nova experiência de transformação


Sempre acreditei que todos nós LGBTs estivéssemos ligados intrinsecamente por meio do sofrimento que enfrentamos em nosso processo de aceitação. Mas refletir sobre um texto me levou a perceber que descobrir o que realmente nos liga pode mudar nossa percepção de identidade e justiça.

No dia 21 de fevereiro, a queridíssima companheira Ivone Pitta publicou em seu blog um texto tão bonito quanto instigante, cujo título é “Apenas um Aniversário” (aqui). Ao lê-lo, me identifiquei imediatamente com a história e decidi deixar um comentário breve acerca daquilo que eu havia percebido como pontos mais importantes. Mas senti que eu poderia colaborar um pouco mais e daí nasceu o presente texto, onde estendo as ideias que levantei a partir do relato de Ivone.

Segue seu texto:
“Há pouco mais de 20 anos conheci minha primeira namorada. Eu católica daquelas de sábado e domingo na igreja, homotransfóbica, tímida daquelas de ter vergonha da própria sombra, ela com o namorado, na festa de aniversário de uma amiga em comum. E o que seria apenas um aniversário como tantos outros, tornou-se um marco divisório em minha vida.

Nos vimos logo após minha chegada, olhamos uma para a outra: olhos brilhantes, sorrisos rasgados. Havia algo diferente. Olhei pro céu e implorei para o deus no qual eu ainda acreditava que não fosse verdade aquilo que eu estava sentindo. Ela, mais corajosa e sem as mesmas amarras, fez a aproximação que eu desejava mais que tudo naquele momento.

Começamos a namorar 20 dias depois e eu hoje nem lembro por que razão há esse intervalo, mas lembro que durante a primeira semana de namoro eu ligava para ela pela manhã para terminar a relação que implantaram dentro de mim ser errada, pecaminosa, anormal, doentia, mas que a noite estava mais feliz do que jamais havia sido, estando na companhia dela.

Ela ter suportado minhas crises de homofobia internalizada fez toda diferença para tudo o que veio depois entre nós e para que eu me tornasse quem sou hoje. E aqui penso como nós LGBTs não vivenciamos nossa adolescência, juventude e até a vida adulta como quem se alinha bem à heterocisnormatividade, como somos reprimidos, agredidos, violentados emocional e simbolicamente. E me emociono em pensar no que tive de vencer em mim mesma nestes últimos 20 anos até chegar nesta militante que vocês veem hoje. E choro de gratidão e amor por minhas amigas mais próximas, tão importantes e essenciais nessa caminhada de aceitação, reconstrução e fortalecimento.”

Minha história se confunde com a dela. A descoberta do amor aos 20 e poucos anos, a prática do catolicismo paroquial que me tirava do mundo aos finais de semana e o extremo medo e raiva dos gays, lésbicas, trans e toda sua corja de depravados. As histórias de muitos de nós, católicos que se descobrem gays, encontram eco nesse relato. A dicotomia constante com retoques de transtorno bipolar: longe da pessoa amada sobrevinha a sensação de erro, pecado, anormalidade, doença; ao lado dela, amor, companhia, segurança.

Talvez por ter lido tantos relatos como este, desenvolvi uma crença de que todos nós gays estamos de alguma forma conectados uns aos outros por termos experimentado, ao longo da nossa trajetória, o sofrimento de extrema exclusão gerado pela homofobia interna e/ou externa. Esse sofrimento tornou-se, para mim, como que uma insígnia, uma distinção, um elemento que ao mesmo tempo em que nos marca e nos separa de tantas pessoas importantes, nos une a outras. Ele fez com que nós nos organizássemos em associações e reivindicássemos voz e direito no campo social, e em torno dele se erigem discursos afirmativos que hoje começa a mobilizar uma parcela da sociedade que não tem ligação direta com esse sofrimento. Em outras palavras, no caminho transcorrido até aqui, nossos sofrimentos individuais e coletivos enquanto LGBTs tem sido o pilar central da nossa unidade ideológica. E no tocante a nós, católicos gays, identificar a Igreja como uma das principais instituições por trás da construção histórica do preconceito faz com que nossos sofrimentos individuais se relacionem com a crença num Deus impossível, que não me amava, que não era próximo a mim, que não havia me criado como eu sou.

Mas as nossas histórias não pararam aí. Uma espécie de força de vida nos fez caminhar para fora da condenação e nos conduziu em direção a um autoconhecimento. Somente partir daí é que o amor a mim mesmo e ao outro se tornou possível. No entanto, se lançarmos um olhar mais profundo sobre essa tal “força de vida”, poderemos perceber que ela é formada por muitos níveis. Em sua periferia habitam experiências da minha própria história e da história de outros que de alguma forma comigo se relacionaram. Lembro-me das falas relativas a um parente assumidamente gay que, mesmo condenado por diversas vozes importantes da família, insistia em ser uma referência de liberdade exótica para mim. Ou a estranha imagem do casal gay que foi vizinho nosso e de quanto incomodava ao condomínio o carinho que demonstravam ter um pelo outro. Num nível mais interno, percebo que essa “força de vida” é formada por exemplos de liberdade verdadeira que podiam vir, inclusive, de pessoas infelizmente homofóbicas, como meus parentes. A luta dos meus pais para que eu tivesse acesso a uma educação que me permitisse olhar o mundo com olhos de quem quer ser livre, os torna também parte dessa força. Ainda mais por dentro dessa força, encontramos as experiências de verdadeiro afeto, carinho e amor que muitas pessoas tiveram para conosco, como algumas avós que insistiam em nos amar de tal maneira como se quisessem nos mostrar que nós poderíamos ser verdadeiramente felizes. Em especial, lembramos também daqueles que conosco se relacionaram afetivamente quando ainda não nos aceitávamos. Sua paciência e dedicação nos deram a perceber a natureza de um amor verdadeiro, pois foram capazes de suportar nossas intensas crises de autocondenação.

Observar com mais cuidado como essa não tão óbvia rede de personagens atuou na construção e manutenção daquilo que chamei de “nossa ‘força de vida’”, me faz perceber que meu caminho em direção à aceitação não foi tão sem referências quanto eu imaginava. Se como diria Eric Fromm "a principal tarefa do ser humano nesta vida é dar a luz a si mesmo", pode ser que meu nascimento em direção à autoaceitação tenha se baseado numa importante rede de condições de possibilidades e que, dada sua intensidade, foram capazes de semear em mim o gérmen de uma coragem irredutível e, sobre certos aspectos, inexplicável. Hoje, vejo essa mesma força nos fazendo assumir com tanto orgulho a grandiosidade da nossa sexualidade, nos fazendo querer ser pessoas melhores para o mundo, nos fazendo querer ajudar aqueles que estão passando por esses mesmos sofrimentos, nos fazendo lutar por uma sociedade mais justa, nos fazendo optar pela verdade em todas as circunstâncias. Essa força nos motiva e nos faz acreditar no bem, na liberdade do amor, nas verdades inscritas em nossas consciências, na felicidade ímpar em ser você mesmo.

Assim, poderia arriscar uma nova luz sobre aquilo que nos liga enquanto gays: hoje, eu creio que é essa “força de vida” que nos conecta verdadeiramente, inclusive mais do mais que os nossos sofrimentos pessoais e coletivos. O que dá coesão às nossas histórias e as conectam entre si é muito mais o nosso nascimento para uma nova e verdadeira vida do que a dolorosa morte que o precedeu. Porque todo sofrimento foi enfim justificado é que podemos dizer que nossa luta não foi somente contra a sociedade, ou contra a igreja, ou contra nossos pais, foi contra o que nós mesmos acreditávamos e contra toda a estrutura de poder que internalizamos. Mas nossa batalha não foi tão solitária: diversas sementes estranhas aos nossos preconceitos brotaram e floresceram lindas em nossos corações, ao sabor d’um certo vento vindo não sei de onde.

Nós, os “reprimidos, agredidos, violentados emocional e simbolicamente”, como diz Ivone, poderíamos agora nos olhar sob uma nova perspectiva: porque não deixar que o testemunho de renascimento se sobreponha ao do sofrimento nos nossos discursos enquanto LGBTs? E especialmente nós, gays católicos, porque não nos tornar os vanguardistas desta postura? Proponho que troquemos a chave de nossos discursos: em vez de “nós, os reprimidos”, diríamos “nós, os renascidos”. Digo isto em defesa de um olhar que nos conectaria não apenas entre nossos iguais, mas aos nossos Outros, e que por ser tão mais útil e agregador não se trataria de um processo de enquadramento da memória, mas da percepção de que talvez as antigas lágrimas tivessem a função de regar o solo para que neste brotassem as novas sementes de uma vida, e vida em abundância.

O papel da denúncia que leva à frente os nossos sofrimentos individuais e coletivos é ainda muito importante, pois muitas violências morais e físicas precisam hoje gritar o nome de seus mortos diante de seus assassinos. Mas agora proponho um novo passo ainda mais ousado para dentro da estrutura daquela “força de vida” que eu havia mencionado. Um passo tão intenso e visceral que muitos poderiam taxá-lo de descabido, sentimental ou mesmo romântico. Proponho um passo de fé. Olhemos para o centro dessa coragem exótica que nos fez aceitarmo-nos como somos mesmo em face de toda adversidade para fazê-lo. Lá, escondido no âmago desta força, há algo que a torna viva e cada vez mais operante, tanto que descobri-la não nos paralisou em nossas memórias, mas a usamos como alimento para nossa jornada. E de tal sorte pode esta força nos cativar e iluminar que hoje me portador de uma luz para o mundo, compreendo minha responsabilidade para com uma nova proposta de civilização, onde verdadeiramente compreendamos a essência de uma velha expressão: “dar a outra face”.

Uma leitura rasa dessa expressão bíblica traz consigo o perigo de uma postura que cria uma série de “vítimas santificadas”, conceito que margeia um masoquismo hedonista. Ao permitir que nos conectemos a partir de nossos sofrimentos, estamos o convidando para compor nossa identidade, o que de maneira nenhuma poderia acontecer. Assim como aquele que dá a outra face não será elevado por ser o coitadinho indefeso, não seremos elevados por ostentarmos nosso sofrimento. E o gay católico tem a enorme responsabilidade de convidar a comunidade LGBT e a sociedade como um todo a compreender que esta expressão não defende o derrotado ferido que dá a outra face para se livrar da responsabilidade da denúncia e, talvez por sua submissão, receber a "recompensa" do "céu". A “outra face” aqui tem um sentido simbólico muito mais profundo: seríamos capazes de abrir mão em definitivo da justiça parcial – baseada nas leis que legitimam a vingança violenta – praticada pelo homem através de tantas gerações para assumirmos a responsabilidade da nova justiça proposta por Jesus – baseada na misericórdia? “Dar a outra face” é abandonar a vingança legal e a violência permitida e estabelecer princípios de justiça que faça meu coração solidário com a condição miserável do meu agressor, ainda que eu seja a vítima mais óbvia. A nossa “outra face” deve esta: misericórdia e não sacrifícios.

Abrir mão da vingança violenta legitimada desde a Lei de Talião é o passo para dentro de uma renovação poderosa não só do movimento gay, mas das estruturas desumanizadoras que, ao mesmo tempo em que o comportam, contra ele batalham. Isto porque nossas críticas às instituições de poder não podem ser nossa única palavra no campo nos quais atuamos. Como ponto de partida, elas são fundamentais, mas se nos detemos neste caminhar em direção à compreensão do ser humano em todas as suas dimensões, não conseguiremos nos solidarizar com os nossos Outros. Nosso discurso perderá sua força profética, trará frutos por ora interessantes, mas que se mostrarão inversamente discriminatórios porque estão pensados dentro da mesma lógica dicotômica na qual fomos forjados. Se restringirmos nosso olhar às nossas questões, secaremos como uma figueira amaldiçoada.

“E choro de gratidão e amor por minhas amigas mais próximas, tão importantes e essenciais nessa caminhada de aceitação, reconstrução e fortalecimento.” Não me parece à toa que Ivone demonstre sentir-se grata àquelas que estavam próximas. Este sentimento também me invade quando me lembro de tantos amigos que me apoiaram, estiveram ao meu lado, próximos a mim. E hoje convido você a revisitar sua trajetória e dar uma resposta afetiva positiva de gratidão a todos que direta ou indiretamente contribuirão para seu processo de aceitação. Gratidão poderia ser mais uma característica desta “outra face” a oferecer para o mundo, mais uma vez, não em “agradecimento” pela agressão sofrida que nos confere a confortável posição de oprimido, mas por tantas situações que nos permitem hoje sermos misericordiosos, solidários com nosso opressor para, enfim, ajudá-lo a também se libertar de sua opressão.

E finalmente, te proponho uma possibilidade. E se eu chamasse de "Deus" àquele que reside no centro de nossa força de vida? Seria apenas um nome. Mas diante de tantas conexões, de tantas novas visões e de tanto renascimento, não seria impróprio eu agradecê-lo por ter a oportunidade de conhecer e me conectar com histórias fantásticas como a de Ivone. Se abrirmos mão do sofrimento como única ligação entre nós, talvez passássemos a enxergar quão intensa é a ruptura que nós propomos, e quanto ela é capaz de oferecer outras respostas para as dores do mundo. Talvez essa nossa nova postura incentive na busca por uma justiça social verdadeira e profunda, só possível em toda sua plenitude se atrelada à misericórdia. Talvez esse lugar dispense a sua identidade, mas certamente hoje eu agradeço a Deus por essa força que você, eu e tantos outros tivemos.

Super beijo!

Pedro

Papa define pobreza como o tema da Quaresma em 2014

"Senhor, por favor me envie alguém para amar!"


Mensagem do Santo Padre para a Quaresma de 2014: 

Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9)

Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O baptizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8, 29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013, Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

Francisco

Fonte

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Acende a tua candeia

Imagem: Andy Denzler

«Ou qual é a mulher que, tendo dez moedas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a moeda perdida.” Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.» (Lucas 15, 8-10)

Esta parábola aparece-nos no capítulo 15 do Evangelho de São Lucas e ombreia com outras duas, talvez mais conhecidas e utilizadas pela Liturgia, as parábolas da Ovelha Perdida e do Filho Pródigo. Por isso, este importante capítulo 15 é também chamado por alguns «o Evangelho dos perdidos».

A experiência de perda marca a nossa existência de várias formas. Perdemo-nos do Pai e da casa paterna. Perdemo-nos na fraternidade. Perdemo-nos no tempo e no redil. Perdemo-nos... Há um espiritual negro que canta: «Por vezes sinto-me perdido como criança sem mãe/Por vezes sinto-me perdido como criança sem mãe».

Ao fazermos o balanço [do tempo da Quaresma na nossa vida] assomam, naturalmente, ao nosso coração as suas perdas. Jesus ajuda-nos a encontrarmo-nos, sem disfarçar ou minorar o dramatismo dos nossos desencontros, mas mostrando que eles podem constituir oportunidades para «adentrar-se» no conhecimento de Deus e de nós próprios. Como Moisés, somos chamados a dizer: «Vou adentrar-me mais para ver melhor esta grande visão: por que razão não se consome a sarça?» (Ex 3,3).

O paradoxo do amor de Deus é este: pelas perdas ficámos a conhecer, por exemplo, até que ponto o pastor está disposto a ir para resgatar a ovelha perdida. Ele vasculha o mundo «até a encontrar» (Lc 15,4). E, quando a encontra, «põe-na alegremente aos ombros» (Lc 15,5). Ficámos com o inesquecível retrato daquele Pai que, literalmente, «cobre de beijos» (Lc 15,20) as fe­ridas de amor de ambos os filhos.

Neste contexto, a pequena parábola de Lucas 15,18-10 tem um sabor especial. Diferentemente das outras, ela conta uma perda interior, quase íntima: há uma parte do tesouro que se perde dentro da própria casa.

Penso que, sem grandes explicações, todos sabemos o que é isso. Reparem: não perdemos tudo, nem a maior parte sequer. De dez moedas, a mulher perdeu uma. Quase não se dá por nada. Mas quem vive essa perda, percebe o que isso representa: um arrefecimento, um abrandamento, uma quebra na inteireza de vida, na unidade ampla do sim de amor que nos constitui.

É algo semelhante ao que o Espírito critica à Igreja de Éfeso, no livro do Apocalipse: «Conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância... Tens constância, sofreste por causa de mim e não perdeste a coragem. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primitivo amor» (Ap 2,2-4). Tendo perdido uma moeda, a vida continua, mas não da mesma maneira.

A maior parte das vezes, o nosso pecado não é apenas deixarmo-nos aprisionar a males concretos, mas é perdermos uma medida alta, exigente e vigilante, a medida profética e inteira do Reino em nós, e conformarmo-nos a isso, como se não nos fizesse realmente falta. Este é um problema espiritual típico de uma vida adulta, de um cristianismo avançado, em que nos espreitam as tentações do cinismo e do desleixo em relação ao «primitivo amor». Mais depressa nos pomos à procura de umas chaves ou de umas moedas que não sabemos onde param... Habituamo-nos, assim, a uma vida espiritual diminuída, amolecida, feita de meias tintas e de meias verdades, e falta-nos a ousadia das verdades inteiras. Desistimos momentaneamente de viver de Deus e de Deus só. Mas é isso que queremos?

Escreve a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen: «Meia verdade é como habitar meio quarto/ Ganhar meio salário/ Como só ter direito/ A metade da vida.» De que nos alimentamos e como vivemos nós? Vida inteira ou meia vida?

- José Tolentino Mendonça
In "O tesouro escondido", ed. Paulinas

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Morrer para viver

Gravura daqui

Estamos diante de “paradoxos” do evangelho? “Perder” a vida por amor é a forma de “ganhá-la” para a vida eterna (ou seja, ir de encontro aos valores definitivos do evangelho de Jesus, aplicando-os). Morrer para si mesmo é a verdadeira maneira de viver; entregar a vida é a melhor forma de retê-la; oferecer a vida (à causa de Jesus) é a melhor forma de receber a vida eterna, hoje e sempre (P.Tillich, A vida eterna é agora!). Paradoxo é uma contradição aparente, como perder ou ganhar, morrer ou viver, entregar ou reter, dar ou receber, desabrochar ou murchar, amadurecer ou apodrecer. Parecem dimensões ou realidades contraditórias. Mas não são.

Descobrir o evangelho, para João, é alcançar novas sensibilidades. O húmus da terra encarrega-se de dar vida à semente que morre e forma novas raízes. Saberes, conhecimentos, símbolos, significados, valores, sentimentos, emoções, sensibilidades, são eixos de orientação que precisamos aprender (C.R.Brandão), quando buscamos o sentido do evangelho de Jesus sobre a semente que morre para que ressuscitar a vida.

Físico de renome fala com muita delicadeza sobre este assunto: “Tudo que vive é dissipativo, se desmancha, se dissolve para alimentar outras coisas, outras vidas” (Yilia Prigonine). A morte alimenta a vida, quis João dizer? Pergunta que faço para mim mesmo, bom aprendizado para a vida de fé. Como a roseira na minha varanda, cujos galhos já não florescem precisando ser podados, para que brotem novos galhos do tronco que lhes dá a vida; para que novos botões aflorem, novas cores seduzam o observador; novos perfumes se lancem no ar úmido, em sensações deliciosas que anunciem o renovo, a ressurreição da vida. Permanecerá, sempre, a vida em renovo. Se os galhos improdutivos forem podados.

Uma águia real pode viver 70 anos, se aos 40 assumir o que deve ser feito. O bico enfraqueceu com a idade e se curvou, impedindo que a águia continue sua caça normalmente. As unhas estão gastas e enfraquecidas, a penas estão murchas, o corpo pesado desliza com dificuldade nas correntes de ar. A águia, então, toma a decisão necessária, sobe ao ninho na alta montanha para reorganizar suas forças e potenciais. O processo se completará em cinco meses. A águia começa por bater insistentemente o bico na pedra até arrancá-lo completamente. Depois, aguarda nascer o novo bico. Após semanas, com o bico renovado, arranca as unhas gastas, uma por uma. Em seguida, retira uma a uma as velhas penas e aguarda o renovo das duas. A partir daí viverá mais 30 anos.

O ser humano também se caracteriza por ser capaz de amar, de sair de si mesmo, e entregar sua vida ou entregar-se a si mesmo por amor. A humanização seria a “descentralização” de si mesmo, que é sair de si mesmo e encontrar-nos com os demais no amor… A parábola que estamos refletindo expressa um ponto alto desse amadurecimento, tanto que pode ser considerada uma expressão acima do amor. No fundo, esta parábola equivale ao mandamento novo: “Este é o meu mandamento, que se amem uns aos outros ‘como eu’ vos tenho amado; não há maior amor que ‘dar a vida’” (Jo 15,12-13). As palavras de Jesus têm ai a pretensão de síntese. Aí se encerra toda a sua mensagem. Amor para Jesus se traduz em misericórdia, compaixão, cuidado, solidariedade, partilha. Amor concreto, sem abstrações filosóficas. É preciso sacrificar as velhas convicções, os equívocos religiosos ou filosóficos, e ingressar no renovo que sustenta a vida.

No evangelho de João (12, 20-33) vemos judeus gentílicos que vêm a Jerusalém. Convertidos ao judaísmo no mundo greco-romano mediterrânico, comemorarão a Páscoa. Buscam a Jesus. Mais um gesto do evangelho ecumênico de João, ou pleno, total, universal (katholicos), pois este lhes informa: “inclusive os pagãos buscam a Jesus”. A ocasião é aproveitada para se anunciar que o tempo das palavras e sinais está chegando ao seu fim, pois se aproxima a “hora” do “sinal” maior: a paixão e morte na cruz, para a redenção do mundo. O testemunho da Ressurreição universal está na pauta do evangelho joanino.

Devemos perguntar se a mensagem da pequena parábola do grão de trigo é uma “uma revelação única”, particular, para eleitos, ou foi revelada para todos os homens e mulheres desta terra. As pessoas podem descobri-la, sem a interpretar? A mensagem que Jesus propõe, é uma “revelação” vinda do alto, à qual nunca poderíamos chegar se ele não nos tivesse manifestado aos crentes? Se o grão de trigo não cai na terra morre, não fecunda. O grão de trigo entrega-se à morte, enterra-se, perde-se, ou “ressuscita” para ser fecundo? A condição da fecundidade é saber morrer para muitas coisas e ressuscitar para outras, como nos lembrará, também, Paulo, o apóstolo e mártir do evangelho de Jesus Cristo.

Tratamos aqui das sementes e das raízes do evangelho de Jesus sobre a ressurreição. O Evangelho fala de gestos fundadores da vida humana na partilha do amor (Roland Barthes). Penso eu, você concorda?, Jesus recorre à parábola, “só o grão de trigo que morre dá muito fruto” como lição fundamental do Evangelho inteiro. O ponto máximo da mensagem de Jesus é o amor concreto, solidário, cooperativo; amor que reforça o primado da pessoa e da vida; amor que se dá a si mesmo em renúncia, e “perder-se a si mesmo” em entrega sem medo; amor que, por esse perder-se, morrendo para si mesmo, enquanto se gesta a vida nova em ressurreição do ser inteiro; amor sem fronteiras, como um poço profundo ao qual nenhuma sonda encontra o fundo.

Discordará dele o evangelho dopado pela religiosidade emocional (...) que evita sistematicamente a cruz, o sofrimento e as provações de quem ousa contestar, indignar-se contra a injustiça, desejando a felicidade “química” comprada com dinheiro e sustentada pelo evangelical show business que tomou as igrejas cristãs.

- Derval Dasílio, em Teologia & Liturgia e Culto Cristão
Mensagem para o 5º. Domingo da Quaresma – Ano B
Jeremias 31,34 – A Lei de Deus não nunca estará num livro de papel…
Salmo 107,1-3;17-22 – Salvos porque bradaram contra o sofrimento de todos
Hebreus 5,5-10 – Foi Cristo que orou pela salvação de todos
Evangelho: João 12, 20-33 – Se o grão de trigo morrer, produzirá muito fruto

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Um Deus que não nos pede sacrifícios

Foto via Blue Pueblo

O que Deus pediu a Abraão, o sacrifício de Isaac, ele mesmo o fez: "De fato, Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Paulo vai dizer: "Deus não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós" (Rm 8, 32). Esta é a grande novidade significada pela vida e morte de Jesus: a revelação de um Deus que não nos pede sacrifícios, mas Ele mesmo se sacrifica por nós. Um Deus que não nos tira, mas nos dá. Da parte deste Deus o ser humano não precisa esperar condenação, mas somente perdão. Afinal é essa a Boa Notícia, o Evangelho que esperamos.

Com Jesus realiza-se a passagem definitiva de uma religião fruto do esforço humano para a fé como dom de Deus. Enquanto pela conquista religiosa somos tentados a amar e servir ao nosso deus, com Jesus é Deus que toma a iniciativa de nos amar e servir primeiro. Pecadores que somos, não merecemos o amor de Deus, mas, pelo dom gratuito da fé, podemos acolhê-lo. O deus da religião-lei exige obediência a suas leis, o Pai pede que imitemos o seu amor. O Deus da lei condena e castiga, o Pai de Jesus absolve e perdoa.

Quantos acolhemos na vida a Jesus como Senhor e Mestre, não estamos sós, mas temos um Deus que se fez servo e por nosso amor tudo transforma em bem. A adesão a Jesus não elimina os inevitáveis sofrimentos da vida, mas nos dá uma força nova para aceitá-los. O Pai nos ama. O Pai nos transfigura, o Pai nos glorifica em seu Filho, Jesus Cristo. Saboreemos, com São Paulo, seu hino ao amor de Deus.

- Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Mensagem para a segunda semana da Quaresma do Retiro Quaresmal 2012 do CEI
Que diremos depois disso? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas? Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à mão direita de Deus, é quem intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro. Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor. 
- Rm 8, 31-39

domingo, 1 de abril de 2012

Fazer sentido é voltar para casa


De um modo geral, a experiência vem em primeiro lugar. A experiência em primeira mão é sempre imprevisível, mesmo se soubéssemos o que estava por vir, como um nascimento ou morte muito esperados. Podemos conscientemente esperar por uma experiência que sabemos que está sendo formada, mas quando ela realmente acontece uma mudança imprevisível ocorreu.

A experiência em seguida nos presenteia com um desafio e um enigma muitas vezes. Como ela se encaixa no padrão mais amplo de nossa história? É realmente tão significativa quanto parece?

Será que isso significa alguma coisa? Ficaríamos satisfeitos se pudéssemos prever o futuro. Isso nos daria uma sensação de segurança, mesmo se reduzisse a vida a um programa de computador. Mas a consciência humana tem que chegar ao nível da profecia, que se trata de vislumbrar o presente que atravessa todas as camadas do tempo. Temos de levar a vida a sério se quisermos achá-la alegre.

"'...você não consegue ver que é melhor que um homem morra pelo povo, do que toda a nação ser destruída.' Ele não falou como Ele mesmo, mas profetizou como o sumo sacerdote que era."

O significado é maior do que nós. Então, quando a experiência e o sentido se combinam na visão profética, a pessoa que somos se expande. Desconfortavelmente, mas maravilhosamente. Nesse ponto do processo as pessoas deixam de discutir por um momento. Deixamos de ficar ansiosos a respeito de coisas e descansamos por um momento em um estado tranquilo e vigilante que poderíamos quase chamar de adoração pura.

Fazer sentido é voltar para casa. Talvez por isso, a Quaresma é construída sobre a metáfora de uma longa jornada para uma terra prometida à qual sentimos que pertencemos e que (mais perigoso) pertence a nós. Também pode ser o motivo porque as pessoas muitas vezes dizem quando refletem sobre a experiência e o significado da meditação em suas vidas durante um período de tempo que sentiram como que "voltando para casa".

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para o Sábado da Quinta Semana da Quaresma (31/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sábado, 31 de março de 2012

Carregamos o lar dentro de nós


O homem sempre enxergou o mundo através dos grandes ciclos naturais. Tudo o que era será outra vez, diz um dos livros sapienciais da Bíblia. As estações orbitam como as constelações, previsíveis e tranquilizantes àqueles que experimentam a mudança e a mortalidade. A repetição, porém, é uma faca de dois gumes: é reconfortante em sua previsibilidade, mas tediosa em sua mesmice. Então tentamos ter o melhor de dois mundos, buscando a mudança quando esta pode realizar nossos desejos e ainda assim nos agarrando ao status quo, pois, não importa o quanto este seja incompleto, é o que conhecemos melhor.

Talvez a maior parte da história humana e de nossa vida seja passada numa tentativa de resolver essa equação.

O ciclo da natureza é a batida do baixo. Mas com base nele preparamos as variações criativas que nos libertam de toda sua monotonia. Uma vez libertado o espírito da criação, nos sentimos conectados à fonte da repetição cíclica que nunca é tediosa e é sempre nova. A experiência de Deus como nascente de tudo que existe é o objetivo último de todo o esforço e desejo humanos, mesmo aqueles mais iludidos e ofensivos. Como as grandes migrações na natureza, que ocorrem constantemente em nosso redor, estamos sempre procurando o lar, que é onde podemos nos sentir realizados e em paz, seguros e capazes de nos desenvolver.

"O Pai está em mim e eu estou no Pai"

Em peregrinação, no grande êxodo para deixar a opressão do espírito, nos damos conta de que carregamos o lar dentro de nós e progredimos em direção a ele nos ciclos de descoberta e despojamento, do encontrar e do perder. No êxodo diário de nossa meditação giramos a roda da oração, e ela sempre nos leva para um lugar novo.

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para a Sexta-feira da Quinta Semana da Quaresma (30/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes

Imagem daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 14, 1-15,47 que corresponde ao Domingo de Ramos, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto, aqui reproduzido via IHU.

Nem o poder de Roma nem as autoridades do Templo puderam suportar a novidade de Jesus. Sua forma de entender e de viver Deus era perigosa. Não defendia o império de Tibério; chamava todos a procurar o Reino de Deus e sua justiça. Não considerava importante quebrar as leis do sábado nem as tradições religiosas; somente lhe preocupava aliviar as dores das pessoas enfermas e desnutridas da Galileia.

Mas isso não foi perdoado. Ele se identificava demais com as vítimas inocentes do império e com os esquecidos pela religião do templo. Executado sem piedade em uma cruz, nele Deus revela-se a nós sempre identificado com todas as vítimas inocentes da história. Junto ao grito de todos , eles unem-se agora ao grito da dor do mesmo Deus.

Nesse rosto desfigurado do Crucificado revela-se a nós um Deus surpreendente, que quebra nossas imagens convencionais de Deus e põe em questão toda prática religiosa que tente dar culto a Deus, esquecendo o drama de um mundo no qual se segue crucificando aos mais frágeis e indefesos.

Se Deus foi morto identificado com as vítimas, sua crucifixão converte-se num desafio inquietante para os seguidores de Jesus. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes. Não podemos adorar o Crucificado e viver dando as costas ao sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, guerras e miséria.

Deus continua interpelando-nos desde todos os crucificados do nosso tempo. Não podemos continuar vivendo como expectadores desse sofrimento tão grande, alimentando nossa ingênua ilusão de inocência. Temos que nos manifestar contra essa cultura do esquecimento que permite isolarmos dos crucificados deslocando o sofrimento injusto que há no mundo para uma distância onde desapareça o clamor, o gemido e o pranto.

Não podemos nos fechar em nossa sociedade do bem-estar, ignorando essa outra sociedade do mal-estar na qual milhares de pessoas nascem somente para extinguir-se aos poucos anos de uma vida que somente foi morte. Não é humano nem cristão nos instalar na seguridade esquecendo aos que somente conhecem uma vida insegura e continuamente ameaçada.

Quando os cristãos dirigiram seus olhos até o rosto do Crucificado, eles contemplaram o amor imenso de Deus que se entregou até a morte por nossa salvação. Se olharmos mais detidamente, logo descobriremos o rosto de muitos crucificados que, longe ou perto de nós, estão reclamando nosso amor de solidariedade e compaixão.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Abre o teu Evangelho e medita

Foto: David Lazar

- Abre o teu Evangelho, olha para ele e toma nota do que te vou dizer.

Deu-me um lápis.

- Procura, primeiramente, no Evangelho de São Mateus, o sexto capítulo, e lê, desde o quinto ao nono versículo (Mt 6,5-8). Aqui está a preparação ou a introdução. Ensina, que não é na vaidade, nem no meio do barulho, mas num lugar isolado e tranquilo que se deve orar; orar para pedir perdão pelos nossos pecados, em união com Deus. Não se deve fazer muitos pedidos sobre as necessidades do dia a dia, como fazem os pagãos.

Depois, lê ainda do nono até ao décimo quarto versículo (Mt 6,9-13), onde encontras a forma da oração, isto é, as palavras que devemos pronunciar. Tudo o que precisamos para a nossa vida está aqui sabiamente reunido. Lê também o décimo quarto e décimo quinto versículos deste capítulo e verás qual a condição que é necessária manter, para que a oração seja efetiva, pois se não perdoarmos aos que nos ofendem, Deus não perdoará os nossos pecados.

No sétimo capítulo, do sétimo ao décimo segundo versículo, encontramos os meios para o sucesso na oração e a aprovação na esperança: pedir, procurar, bater. Esta expressão intensa representa uma parte da oração e o exercício principal, para que a oração não só esteja presente em todas as ações, mas que as supere no tempo. Esta é a principal riqueza da oração... Verás o exemplo no décimo quarto capítulo do Evangelho de São Marcos, do trigésimo segundo versículo ao quadragésimo, onde o próprio Jesus Cristo repete as mesmas palavras na oração. Encontramos um exemplo semelhante no Evangelho de São Lucas (cf. Lc 11,5-13) na parábola do amigo importuno e na parábola do juiz iníquo e da viúva (cf. Lc 18,1-14), apresentando o mandamento de Jesus, que nos manda rezar sempre, a toda a hora e em qualquer lugar; orar e não desanimar, isto é, não se entregar à preguiça.

Além destes sensatos conselhos, o Evangelho de São João mostra-nos ainda um ensinamento fundamental sobre a misteriosa oração interior do coração. Em primeiro lugar, assistimos à conversa de Jesus Cristo com a samaritana, onde é revelado o culto interior a Deus do espírito e da verdade, como Deus deseja, e que representa a verdadeira oração permanente, como uma nascente de água viva a jorrar para a vida eterna 0o 4,5-24).

Mais à frente, no décimo quinto capítulo, do quarto versículo ao oitavo, descreve-se, ainda de forma mais clara, a força, a potência e a necessidade da oração interior, isto é, o refúgio da alma em Cristo, na recordação eterna de Deus.

Depois, lê, no décimo sexto capítulo, do vigésimo terceiro ao vigésimo quinto versículo, no mesmo Evangelho. Que mistério aí se nos apresenta! Vê que a oração em nome de Jesus, ou como é conhecida, a oração de Jesus «Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!», se repetida frequentemente, tem uma força enorme, e ilumina o nosso coração. Isso nos é dado ver nos Apóstolos, que, sendo discípulos de Jesus Cristo há menos de um ano, aprenderam a rezar ao Senhor, isto é, o «Pai-Nosso».

Sabemos também que, no fim da sua vida terrena, Jesus Cristo lhes desvendou o seu mistério, para que a oração fosse definitivamente um sucesso. Ele disse-lhes: «Nesse dia nada me perguntareis. Em verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, Ele vos dará. Até agora, nada pedistes em meu nome; pedi e recebereis» (Jo 16,23-24). Assim sucedeu. Quando os Apóstolos aprenderam a dizer a oração em nome de Jesus Cristo, então, realizaram-se milagres admiráveis, e eles próprios ficaram maravilhados!

Vês agora a ligação e a plenitude do ensinamento sobre a oração, tão sabiamente exposta no Evangelho? Se, depois, começares a leitura das Epístolas dos Apóstolos, aí encontrarás, consequentemente o ensinamento da oração.

Para continuarmos as observações anteriores, indico-te algumas passagens que revelam os atributos da oração. Nos Atos dos Apóstolos, descreve-se a prática, isto é, o exercício aplicado e permanente na oração dos primeiros cristãos, instruídos na fé em Jesus Cristo (cf. Act 4,31). Indicam-nos os frutos ou os resultados da oração permanente, isto é, a expansão do Espírito Santo e das suas dádivas àqueles que oram.

Verás algo semelhante no décimo sexto capítulo, nos versículos vinte e cinco e vinte e seis. Continua, ordenadamente a leitura das Mensagens dos Apóstolos e verás:

1) como a oração é necessária em todos os atos da vida (Tg 5,13-16);
2) como o Espírito Santo ajuda a rezar (Jd 20-21; Rm 8,26);
3) como devemos rezar com o espírito (Ef 6,18);
4) como é necessário, ao orarmos, sossego ou paz interior (Fl 4,6-7);
5) como é necessário orar sem cessar (1 Ts 5,17);
6) finalmente, notamos que devemos rezar não só por nós, mas por todos (1 Tm 2,1-5).

In Relatos de um peregrino russo, ed. Paulinas

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

terça-feira, 27 de março de 2012

Deus tem entranhas de mãe


(...) No princípio era a Misericórdia. A Criação aparece como um grande gesto de Misericórdia e nossa vida torna-se a história da fidelidade desse amor gratuito. Fomos criados por um gesto misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, pensados por uma mente misericordiosa. Se Deus não fosse misericordioso, não teríamos jamais existido; e se essa Misericórdia existe desde o princípio do nosso viver, ele ainda agora é fonte de vida, graça da qual temos contínua necessidade e que constantemente está agindo em nós para reconciliar-nos. Vivemos mergulhados na Misericórdia.

Na Sagrada Escritura sempre há um núcleo comum na realidade indicada como “misericórdia”: uma bondade essencial, um envolvimento do coração, uma ternura que comove. Para a Bíblia, a misericórdia revela a natureza íntima de Deus; a misericórdia é uma outra expressão típica do Amor. É aquela que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. O Deus de Jesus não é um juiz com um catálogo de leis que tem necessidade de mandar, controlar, verificar... Basta-lhe a misericórdia, a compaixão...

A misericórdia revela um aspecto essencial da natureza divina: o lado feminino de Deus. A Misericórdia significa, etimologicamente, possuir um coração (cor) que se compadece da miséria (miseri) do outro porque a sente profundamente como sua. Em hebraico é ainda mais forte, pois a palavra “misericórdia” (“rahamim”) significa ter entranhas de uma mãe. Deus não só tem um coração que ama. Isso já é extraordinário. Mas também tem entranhas. Isso é avassalador. Foi um ato criativo de Misericórdia que nos deu vida. Tal experiência de Misericórdia gera em nós uma atitude correspondente de misericórdia. Ao revelar seu rosto misericordioso, Deus cria em nós um coração novo, feito de acordo com o seu, capaz de viver a misericórdia à sua maneira.

É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: ama-nos a ponto de enviar-nos ao mundo como instrumentos de sua reconciliação, pondo em nosso coração um Amor que vai além da justiça. (...)

- Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Mensagem para a segunda-feira da segunda semana da Quaresma do Retiro Quaresmal 2012 do CEI

segunda-feira, 26 de março de 2012

Para que os seres humanos possam ser Deus

Foto: Théo Gosselin 

Nascida de uma visão mais profunda do que palavras, e transmitida através do silêncio cheio do Espírito, a mensagem cristã é constrangedora. "Deus fez-se humano para que os seres humanos possam ser Deus."

Esta recorrente afirmação dos primeiros teólogos soa mais ousada do que muitos teólogos arriscariam dizer hoje, e resistiu com muita força às tentativas do dualismo gnóstico de diluí-la. É claro que só podemos compreender o que isso significa pela experiência de nossas vidas, quando tentamos viver – e fracamente, na maior parte do tempo – como se fosse a verdade central, a coisa real em todas as circunstâncias.

Ela sugere que a Encarnação é Deus concentrado em um ser humano singular, para que Deus possa de fato "tornar-se plenamente humano". De que outra forma pode-se ser humano sem ser um ser humano em um tempo e lugar determinados? Os teólogos clássicos achavam que isso era necessário, mas que o sofrimento experimentado por este indivíduo era inevitável. Deus precisava ser humano. Jesus, o cumprimento dessa necessidade divina, assim como qualquer outro humano, não queria sofrer. (Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice!).

Para muitos, hoje em dia, essa doutrina pode parecer abstrata e paroquial. Na verdade, ela muda a forma como nós mesmos nos encarnamos em nossas próprias e únicas histórias de vida, através de todas as fases de nosso desenvolvimento. Ela nos ajuda a não ficar presos na mentalidade infantil ou no comportamento adolescente, como vemos acontecer na maioria dos conflitos violentos e, de fato, em muitos dos nossos próprios problemas pessoais.

Ele também nos ensina o modo autêntico de lidar com o sofrimento. Como diz Leonard Cohen, devemos aprender a lamentar nos estritos limites da dignidade e beleza. A tendência do ego à auto-piedade arrisca tornar-nos isolados e amargos. Mas saber qual é nosso destino, para onde o sofrimento nos leva, dá tanto compaixão quanto dignidade para a nossa abordagem da decepção, do sofrimento e da perda.

É por isso que a Quaresma é um tempo cristão. E que a meditação é uma oração cristã. Não devemos nos castigar por causa de nossas falhas, ou buscar a iluminação apenas como uma fuga do sofrimento. Mas para ser plenamente humanos, completamente acordados, a fim de que possamos realmente "tornar-nos Deus", como estamos programados a ser.

- Laurence Freeman OSB
Mensagem para a Segunda-Feira da Terceira Semana da Quaresma (12/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

domingo, 25 de março de 2012

A vida mais forte que a morte

Foto via Blue Pueblo

Todo dom de si, todo avanço, toda morte em si mesma, molda nosso ser de eternidade. Nossa ressurreição já começou.

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 5º Domingo de Quaresma (25 de março de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Je 31,31-34
Evangelho: Jo 12,20-23

Cada vez mais nós nos aproximamos da festa da Páscoa, a festa das festas, a festa do Amor por excelência, a festa da Ressurreição, da Vida. Que imagens utilizar para experimentar a Vida com V maiúsculo, a vida mais forte que a morte? A vitória do Cristo da Páscoa? São João, no seu evangelho, utiliza a imagem do grão de trigo...

1. O semeador se faz semente: Lembremos desta bela parábola de Mateus: “O semeador saiu para semear” (Mt 13,3). Como os evangelhos foram escritos após a Páscoa, esse semeador é já o Cristo Ressuscitado, saído de Deus para semear a semente do Reino, a semente do Reino do Amor. Mas esse semeador, o Verbo feito carne, em São João, se fez semente, grão de trigo caído na terra para fecundar. O teólogo francês Michel Hubaut escreve: “Essa pequena parábola do grão que morre para renascer é uma das mais ricas dos evangelhos. Só ela valeria um tratado inteiro sobre a encarnação, a redenção, a fecundidade secreta de toda vida animada pelo amor, o mistério do dom de si que faz surgir a vida”.

Eis a lógica do Amor: o Amor não pode fazer outra coisa senão dar a vida. Mas para expressar-se na sua totalidade, ele deve ir até a morte: “se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Um grão de trigo depositado num prato na borda da janela fica um grão de trigo durante séculos... Por outro lado, se o colocarmos na terra, na noite, na umidade e no frio, o grão vai transformar-se para se converter em espiga de trigo com uma multidão de grãos de trigo. Assim também acontece com aquele ou aquela que nós amamos. Mas por quê? Simplesmente porque o Amor, para existir e subsistir, não pode fazer sofrer e morrer aquele ou aquela que deseja amar. Um dia ou outro, todos devermos nos ultrapassar a nós mesmos, essa é a hora do Amor que vai exatamente até o final de nós mesmos, como a hora da mulher grávida, pois o Amor dá a vida: “Quando a mulher está para dar à luz, sente angústia, porque chegou a sua hora. Mas quando a criança nasce, ela nem se lembra mais da aflição, porque fica alegre por ter posto um homem no mundo” (Jo 16,21). Eis por que, para examinar a totalidade do Amor, Jesus entregou a sua vida para que nós tenhamos Vida: “Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).

2. O Amor é divino: Lembremos esse tão bonito poema do Cântico dos Cânticos que diz: “Grave-me,como selo em seu coração,como selo em seu braço;pois o amor é forte, é como a morte!Cruel como o abismo é a paixão.Suas chamas são chamas de fogo,uma faísca de Javé!” (Ct 8,6). Esse grão de trigo que morre e dá seu fruto é um símbolo deslumbrante da vida pascal de todo cristão que deve escolher entre uma vida estéril ou uma vida fecunda. Não é nunca sem dor! Todos nós somos convidados a entrar neste mistério da fecundidade: “Se alguém quer servir a mim, que me siga. E onde eu estiver, aí também estará o meu servo. Se alguém serve a mim, o Pai o honrará” (Jo 12,26). Quantas mortes de si para amar verdadeiramente o outro: “Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundovai conservá-la para a vida eterna” (Jo 12,25). E como são seres humanos que amam esse Amor divino, São João acrescenta: “Agora estou muito perturbado. E o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (Jo 12,27). Mas que felicidade interior ao amar verdadeiramente! Sem dúvida, é uma cumplicidade secreta com Deus, pois quando eu me entrego com amor é quando eu mais me assemelho a ele!

Com o evangelho de hoje, estamos longe dos julgamentos, dos rechaços, das condenações e das exclusões. Isso não nos conduz a nenhum lugar, mas sim para bem longe do Deus de Jesus Cristo: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Então, como é que ainda hoje na nossa Igreja nós façamos julgamentos e condenações tão facilmente dos mais fracos dentre nós? Não há aí uma contradição com o evangelho? Quando aplicamos o Direito Canônico em lugar do Evangelho, nós contradizemos a mensagem de esperança de Cristo Ressuscitado e deformamos o rosto de Deus. Se nós cremos verdadeiramente que Cristo morreu por Amor, nós devemos crer também que está sempre vivo, pois o Amor entrega a Vida. E como nós vivemos para ele e dele, nós devemos viver no Amor, ressuscitados. Precisamos, então, passar da Sexta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa.

3. A cruz se faz luz: Morrendo numa cruz por Amor, Cristo é ressuscitado e ele salvou a todos, sem exceção. Por que ainda hoje buscamos nos salvar? Ficamos parados ou bloqueados na Sexta-Feira Santa? O que esperamos para fazer que se levante o Sol da Páscoa? A cruz se faz luz: ela é caminho de vida. Para os crentes, ela é um ponto de referência na noite. Segui-la não é para nos contentar no sofrimento e na morte; diferentemetne, é para encontrarmos o Cristo vivo. Quanto tempo perdido nos impondo sacrifícios, privações e mortificações de todo tipo! Em lugar de gastar esse tempo em amar! Michel Hubaut escreve: “Jesus nos convida a não chorar sobre a sua paixão e a sua morte, mas a ousar seguir o seu mesmo itinerário de vida. Esse Amor que morre por amor a nós, esse amor crucificado é uma luz que atravessa as trevas das nossas provas... Ressuscitado, Jesus traçou na cova da humanidade e da nossa vida, uma corrente de luz, imprimiu uma misteriosa atração, cavou uma chamada infinita que nos coloca no caminho. Todo dom de si, todo avanço, toda morte em si mesma, molda nosso ser de eternidade. Nossa ressurreição já começou”.

Para concluir, o Cristo da Páscoa realizou plenamente essa Aliança nova anunciada pelo profeta Jeremias, no momento do Exílio de Babilônia, narrativa que temos hoje na primeira leitura: “A aliança que eu farei com Israel depois desses dias é a seguinte – oráculo de Javé: Colocarei minha lei em seu peito e a escreverei em seu coração; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo” (Je 31,33). Essa Aliança nova, inscrita nos corações, nos torna capazes de amar e nos convida a liberar outras pessoas de todo o que lhes impede de amar: “Porque todos, grandes e pequenos, me conhecerão – oráculo de Javé. Pois eu perdoo suas culpas e esqueço seus erros” (Jr 31,34). A Aliança nova, dizia um teólogo belga, é aquela da fé no estado puro: uma nova criação, uma recriação... É a obra da Páscoa!

sábado, 24 de março de 2012

Quem poderá compreender a riqueza de uma só das vossas palavras?

Imagem via Blue Pueblo

Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza de uma só das vossas palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A palavra do Senhor apresenta aspetos muito diversos, segundo as diversas perspetivas dos que a estudam. O Senhor pintou a Sua palavra com muitas cores, a fim de que cada um dos que a escutam possa descobrir nela o que mais lhe agrada. Escondeu na sua palavra muitos tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita.

A palavra de Deus é a árvore da vida, que de todos os lados oferece um fruto bendito, como a rocha que se abriu no deserto, jorrando de todos os lados uma bebida espiritual. «Comeram – diz o Apóstolo – uma comida espiritual e beberam uma bebida espiritual.»

Aquele que chegou a alcançar uma parte deste tesouro, não pense que nessa palavra está só o que encontrou, mas saiba que apenas viu alguma coisa de entre o muito que lá está. E porque apenas chegou a entender essa pequena parte, não considere pobre e estéril esta palavra; incapaz de apreender toda a sua riqueza, dê graças pela sua imensidade inesgotável. Alegra-te pelo que alcançaste, e não te entristeças pelo que ficou por alcançar. O que tem sede alegra-se quando bebe, e não se entristece por não poder esvaziar a fonte. Vença a fonte a tua sede, e não a tua sede a fonte, poderás ainda beber dela quando voltares a ter sede; se, ao contrário, saciada a sede, secasse a fonte, a tua vitória seria a tua desgraça.

Dá graças pelo que recebeste, e não te entristeças pelo que sobrou e deixaste. O que recebeste e alcançaste é a tua parte, e o que deixaste é ainda a tua herança. O que não podes receber imediatamente por causa da tua fraqueza, poderás recebê-lo noutra altura se perseverares. E não tentes avaramente tomar tudo dum só fôlego o que não podes abarcar duma vez, nem desistas, por preguiça, do que podes ir conseguindo pouco a pouco.

- Santo Efrém
Reproduzido via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

O atrativo de Jesus

Imagem daqui

Uns peregrinos gregos que vieram celebrar a Pascoa dos judeus aproximaram-se de Felipe com uma petição: «Queremos ver Jesus».

Não é curiosidade. É um desejo profundo de conhecer o mistério que se encerra naquele Homem de Deus. Também a eles lhes pode fazer bem.

Jesus é visto preocupado. Dentro de uns dias será crucificado. Quando lhe comunicam o desejo dos peregrinos gregos, pronuncia umas palavras desconcertantes: «Chega a hora de que seja glorificado o Filho do Homem». Quando for crucificado, todos poderão ver com claridade onde está a Sua verdadeira grandeza e a Sua glória.

Provavelmente ninguém entendeu nada. Mas Jesus, pensando na forma de morte que o espera, insiste: «Quando Eu for elevado sobre a terra, atrairei todos até Mim». Que se esconde no crucificado para que tenha esse poder de atração? Apenas uma coisa: O Seu amor incrível a todos.

O amor é invisível. Só o podemos ver nos gestos, nos sinais e na entrega de quem nos quer bem. Por isso, em Jesus crucificado, na Sua vida entregue até à morte, podemos perceber o amor insondável de Deus.

Na realidade, só começamos a ser cristãos quando nos sentimos atraídos por Jesus. Só começamos a entender algo da fé quando nos sentimos amados por Deus.

Para explicar a força que se encerra na Sua morte na cruz, Jesus utiliza uma imagem simples que todos podemos entender: «Se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica infecundo; mas se morre, dá muito fruto».

Se o grão morre, germina e faz brotar a vida, mas se se encerra no seu pequeno invólucro e guarda para si a sua energia vital, permanece estéril.

Esta bela imagem descobre-nos uma lei que atravessa misteriosamente a vida inteira. Não é uma norma moral. Não é uma lei imposta pela religião. É a dinâmica que torna fecunda a vida de quem sofre movido pelo amor. É uma ideia repetida por Jesus em diversas ocasiões: Quem se agarra egoistamente à sua vida, deita-a a perder; quem sabe entrega-la com generosidade gera mais vida.

Não é difícil comprová-lo. Quem vive exclusivamente para o seu bem-estar, o seu dinheiro, o seu êxito, a sua segurança, acaba vivendo uma vida medíocre e estéril: a sua passagem por este mundo não faz a vida mais humana. Quem se arrisca a viver uma atitude aberta e generosa, difunde a vida, irradia alegria, ajuda a viver. Não há uma forma mais apaixonante de viver que fazer a vida dos outros, mais humana e leve.

Como poderemos seguir Jesus se não nos sentimos atraídos pelo Seu estilo de vida?

- José Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos

sexta-feira, 23 de março de 2012

O reino dos céus está próximo

Foto: i can read

O reino dos céus está próximo. Este é o subtexto de todas as práticas da Quaresma, que são projetadas para nos lembrar quão facilmente nos esquecemos disso e como é possível simplesmente recordar.

Etty Hillesum era uma mulher vivaz, jovem judia que morreu em Auschwitz em 1943. No meio do horror da deportação dos judeus de sua Holanda natal, ela passou por um despertar espiritual pessoal que ressoou nas últimas décadas. Sustentada por seu profundo mundo interior e por uma nova visão da vida humana, ela se dedicou a aliviar a miséria de seus companheiros de sofrimento. Ela se recusou a odiar os seus perseguidores e nas flores e céu ao seu redor ela encontrou tesouros inesgotáveis de beleza e revelação.

Uma das pessoas a quem ela estava ajudando uma vez perguntou-lhe como ela podia perder tempo pensando em flores no meio de sua provação.

Ela descobriu Deus ao se abrir ao mundo interior. Mas ela não parecia se preocupar sobre como as religiões competem entre si. Uma vez ela estava expressando algumas ideias sobre o perdão e alguém respondeu: "Mas isso soa como o Cristianismo". "Sim", respondeu ela, "Cristianismo, e por que não?".

Seja qual forem as ansiedades e medos que carregamos conosco hoje - e eles certamente devem ser menores do que aqueles que ela e seus companheiros judeus sofreram na época da loucura - a flor e a fé capazes de mergulhar-nos nas profundezas de Deus estão ao alcance da mão.

- Laurence Freeman OSB
Mensagem da quarta-feira da Terceira Semana da Quaresma (14/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristão no Brasil

Redescobrir a oração

Escultura: Tjep.

A oração é um exercício fundamental na busca pela qualidade de vida. Nas indicações que não podem faltar, especialmente para a vida cristã, estão a prática e o cultivo disciplinado da oração. É um exercício que tem força incomparável em relação às diversas abordagens de autoajuda, como livros e DVDs, muito comuns na atualidade.

A crise existencial contemporânea, em particular na cultura ocidental, precisa redescobrir o caminho da oração para uma vida de qualidade. Equivocado é o entendimento que pensa a oração como prática exclusiva de devotos. A oração guarda uma dimensão essencial da vida cristã. Cultivar essa prática é um segredo fundamental para reconquistar a inteireza da própria vida e fecundar o sentido que a sustenta.

É muito oportuno incluir entre as diversificadas opiniões, junto aos variados assuntos discutidos quotidianamente, o que significa e o que se pode alcançar pelo caminho da oração. Perdê-la como força e não adotá-la como prática diária é abrir mão de uma alavanca com força para mover mundos. A fé cristã, por meio da teologia, tem por tradição abordar a importância da oração ao analisar a sua estrutura fundamental, seus elementos constitutivos, suas formas e os modos de sua experiência. Trata-se de uma importante ciência e de uma prática rica para fecundar a fé.

A oração tem propriedades para qualificar a vida pessoal, familiar, social e comunitária. Muitos podem desconhecer, mas a oração pode ser um laço irrenunciável com o compromisso ético. É prática dos devotos, mas também um estímulo à cidadania. Ao contrário de ser fuga das dificuldades, é clarividência e sabedoria, tão necessários no enfrentamento dos problemas. Na verdade, a oração faz brotar uma fonte interior de decisões, baseadas em valores com força qualitativa.

A oração como prática e como inquestionável demanda, no entanto, passa, por razões socioculturais, por uma crise. Aliás, uma crise numa cultura ocidental que nunca foi radicalmente orante. O secularismo e a mentalidade racionalista se confrontam com aspectos importantes da vida oracional, como a intercessão e a contemplação. Diante desse cenário, é importante sublinhar: paga-se um preço muito alto quando se configura o caminho existencial distante da dimensão transcendente. O distanciamento, o desconhecimento e a tendência de banir o divino como referencial produzem vazios que atingem frontalmente a existência.

É longo o caminho para acertar a compreensão e fazer com que todos percebam o horizonte rico e indispensável da oração. Faz falta a clareza de que existem situações e problemas que a política, a ciência e a técnica não podem oferecer soluções, como o sentido da vida e a experiência de uma felicidade duradoura. A oração é caminho singular. É, pois, indispensável aprender a orar e cultivar a disciplina diária da oração. Tratar-se de um caminhar em direção às raízes e ao essencial. Nesse caminho está um remédio indispensável para o mundo atual, que proporciona mais fraternidade e experiências de solidariedade.

A lógica dominante da sociedade contemporânea está na contramão dessa busca. Os mecanismos que regem o consumismo e a autossuficiência humana provocam mortes. Sozinho, o progresso tecnológico, tão necessário e admirável, produz ambiguidades fatais e inúmeras contradições. Orar desperta uma consciência própria de autenticidade. Impulsiona à experiência humilde do próprio limite e inspira a conversão. É recomendação cristã determinante dos rumos da vida e de sua qualidade. A Igreja Católica tem verdadeiros tesouros, na forma de tratados, de estudos, de reflexões, e de indicações para o cultivo da oração, que remetem à origem do cristianismo, quando os próprios discípulos pediram a Jesus: “Ensina-nos a orar”. É uma tarefa missionária essencial na fé, uma aprendizagem necessária, um cultivo para novas respostas na qualificação pessoal e do tecido cultural sustentador da vida em sociedade.

- D. Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte
Reproduzido via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Espaço para a autenticidade


Gosto, mas gosto muito, que a primeira palavra de Jesus no Evangelho de João seja uma pergunta (e seja aquela pergunta): “Que procurais?” (Jo 1,38). Consola-me ir percebendo que o que sustenta a arquitetura dos encontros e dos desencontros que os Evangelhos relatam é uma espécie de coreografia de perguntas, um intenso tráfico interrogativo, construído a maior parte do tempo a tatear, sem saber bem, com muitas dúvidas, muitos disparos ao lado, muita incapacidade até de comunicar. Isso é uma âncora, por muito que nos custe, pois uma vida só assente em respostas é uma vida diminuída, à maneira de uma primavera que não chegou a ser.

Não sei como vai rebentar em nós a primavera, como se vai acender este reflorir que a natureza insinua, este renascer que o gesto pascal de Jesus espantosamente (res)suscita na nossa humanidade. Sei apenas que nas perguntas, mesmo naquelas que são difíceis e nos estremecem, reencontramos a vida exposta e aberta, certamente mais frágil, mas a única que nos permite tocar as margens de uma existência autêntica.

Todos somos habitados por perguntas e elas cartografam zonas silenciosas, territórios de fronteira do nosso ser. Estes dias reencontrei a pergunta de Pilatos (ainda no Evangelho de João): “O que é a verdade?” (Jo18,38). E dei comigo a aproximar esta pergunta de uma das frases emblemáticas de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,2). Sem querer relativizar a natureza densamente dogmática do enunciado, dei comigo, porém, a revisitá-lo em chave existencial. E era como se Jesus, mestre da vida que incessantemente se reformula em nós, nos desafiasse a uma apropriação. Sim, a uma apropriação.

É necessário que perante a multidão dos caminhos percorridos e a percorrer cada um de nós diga: “eu sou o caminho que percorro”. É decisivo que as verdades que acordamos não sejam uma sobreposição, mas uma expressão profunda do que somos: “eu sou a verdade”. É urgente que a vida não seja só a acumulação do tempo e do seu cavalgar sonâmbulo, mas que cada um, pelo menos uma vez, possa dizer plenamente: “eu sou a vida”. Acho que é disto que o mistério pascal fala.

- José Tolentino Mendonça
Reproduzido do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

O amor que refaz o mundo

Foto via Blue Pueblo

Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. (Jo, 3, 17)

É mesmo triste (para muitos de nós) que essas palavras amargurem tantas pessoas, pois ouvem justamente aquilo que elas não estão dizendo. Para aqueles que estão no discipulado Cristão (um dia é possível que sintamos que podemos ser chamados Cristãos, outros Cristos, mas provavelmente não hoje) essas palavras têm impacto diferente. Elas chamam a atenção para uma experiência cada vez mais profunda do amor que faz e, de maneira contínua, refaz o mundo, servindo-o, renovando-o e guiando-o para um desempenho cada vez mais perfeito, apesar de seus defeitos inerentes. Eu conferi este texto quanto a erros de impressão, mas talvez ainda haja alguns aqui. Uns poucos erros de impressão não invalidam o sentido.

A bagagem cultural da Igreja, em especial no Ocidente, torna difícil para muitos perceber que essa imperturbável bondade e misericórdia de Deus se reflete e se mostra ativa em nosso mundo psicológico e material - se nós a ativarmos, reconhecendo-a e recebendo-a como dom gratuito que ela é. Não estamos destinados a ser condenados, mas a nos tornarmos íntegros.

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para o quarto domingo da Quaresma (16/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

Viver todos os dias a fragilidade, a tentação, a confiança

Foto: Kurt Moses

Somos chamados a viver o dom de Deus, até ao fim, na fragilidade, na fraqueza, na confiança e na tentação. Podem variar de género os problemas que vivemos, ou de frequência, ou de intensidade, mas acompanhar-nos-ão sempre. As tentações vão existir sempre. O que muda, num processo de maturação humana e espiritual, é a nossa maneira de acolhê-las. É pelo discernimento da natureza das tentações que nos assaltam que compreendemos, muitas vezes, a nossa singularidade e diversidade, o real impacto da vida em nós, a nossa realidade submersa e os seus ilegíveis vestígios. A tentação humaniza-nos. É uma via. São Paulo bem rezou três vezes ao Senhor para que afastasse o espinho da sua carne (2 Coríntios 12,8). Mas em vão. A resposta foi: «basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.» (2 Coríntios 12,9).

Mestre Eckhart explica o «grande proveito e utilidade» das tentações: fazendo-nos travar um interminável combate, fazendo-nos passar à resistência vigilante elas, mesmo se nos humilham, mantêm-nos centrados em Deus.

É isso mesmo: o sonho da perfeição pode ainda ser um caminho que trilhamos pela superfície ou constituir uma ilusão que nos impede de aceder ao verdadeiro e paradoxal estado da vida. Levamos tanto tempo até perder a mania das coisas perfeitas, isentas da trepidação do real, e nos curarmos deste impulso que nos exila no conforto das idealizações, ou vencermos o vício de sobrepor à realidade um cortejo de falsas imagens!

Thomas Merton escreve, de forma emocionada, alguma coisa que nos devia fazer parar: «O Cristo que nós descobrimos realmente em nós mesmos distingue-se daquele que nos esforçamos, em vão, por admirar e idolatrar em nós. Bem pelo contrário: Ele quis identificar-se com aquilo que nós não amamos em nós próprios, porque Ele tomou sobre si a nossa miséria e o nosso sofrimento, a nossa pobreza e os nossos pecados… Jamais encontraremos paz se dermos ouvidos à cegueira que nos diz que o conflito está superado. Só teremos paz se formos capazes de escutar e abraçar a dança contraditória que agita o nosso sangue…É aí que se escutam melhor os ecos da vitória do Ressuscitado».

São Paulo compreendeu-o, porque responde: «De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte.» (2 Coríntios 12,9-10). Paulo testemunha a Fé como uma hipótese paradoxal: quando sou fraco, então é que sou forte. A Fé resiste e matura nas necessidades, nas angústias, nas afrontas, nos sofrimentos, isto é, no interior de uma existência assaltada pela tentação. Não se trata de escamotear ou de superar essa experiência: é no interior dessa experiência, que eu sou forte. É um paradoxo, claro. Mas é aí que a própria experiência espiritual se realiza.

O grande obstáculo a uma vida de Deus não é a fragilidade e a fraqueza, mas a dureza e a rigidez. Não é a vulnerabilidade e a humilhação, mas o seu contrário: o orgulho, a autossuficiência, a autojustificação, o isolamento, a violência, o delírio de poder. Dizum poema de Lao Tsé: «Os homens quando nascem são tenros e frágeis. A morte torna-os duros e rijos. As ervas e as árvores quando nascem são tenras e frágeis. A morte torna-as esquálidas e ressequidas. O duro e o rígido conduzem à morte. O fraco e o flexível conduzem à vida».A força de que verdadeiramente precisamos, a graça de que necessitamos, não é nossa, mas de Cristo E Ele dá-nos o exemplo do que é abraçar inteiramente a humanidade no seu dramatismo, já que foi «nas suas feridas que encontramos a cura» (Isaías 53,5).

- P. José Tolentino Mendonça
In Pai-nosso que estais na terra, ed. Paulinas
Reproduzido via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

domingo, 18 de março de 2012

Acordar da anestesia espiritual


(...) O ser humano está como “anestesiado” diante do outro. O outro não interessa, e um número que nos passa perto, uma fantasma e não uma pessoa amada, parte de nós mesmos. Atenção ao outro exige que se deseje para o outro todo o bem.

A pessoa não pode ser feliz a pedaços, como pedras de mosaico, separadas umas das outras, mas no seu conjunto: a felicidade, o bem e a globalidade da pessoa que se realiza no seu todo. Não há felicidade quando falta o pão na mesa, o trabalho, os meios para curar-se das doenças, o alimento cultural que gera desenvolvimento. É preciso uma revolução a partir de dentro de nós mesmos, que nos coloque diante do outro como nosso irmão e deseja para o outro o que nós desejamos para nós.

A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. (n. 1)

Na verdade os sacerdotes levitas não maltratam quem tinha caído nas mãos dos ladrões e estava meio morto à beira da estrada, nem o ofenderam, nem tampouco cuspiram nele. Mas passaram e viraram o olhar ao outro lado. É o pecado da indiferença que está se tornando a cultura dominante do mundo. Não dar importância ao outro. A quaresma é o momento em que devemos nos acordar da anestesia, sentir dor não só pelas nossas feridas, mas também as dos outros. A vida cristã não é uma filosofia e um discutir sobre os problemas, mas sim ver, julgar e agir… Sem ação direta não haverá mudanças de estruturas e de estilo de vida, nem compromisso social que leve o ser humano a uma vida mais digna.

- Frei Patrício Sciadini, ocd, religioso, Carmelita Descalço, comentando a mensagem do Papa para esta Quaresma (aqui)

Fonte: ZENIT
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