Mostrando postagens com marcador Papa Francisco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Papa Francisco. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

“Não julguem, e vocês não serão julgados” (Mt 7,1)




Francisco “leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem”, escreve o teólogo José María Castillo, em artigo publicado em seu blog Teología Sin Censura, 30-07-2013. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU.

Se algo está ficando evidente em relação ao papa Francisco, cada dia mais evidente, é que se trata de um papa que acredita mais no Evangelho do que no papado, que leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem. Não pretendo discutir agora, nem sequer insinuar que haja, ou possa haver, contradições entre o Evangelho e o Vaticano. Refiro-me ao que é a “convicção determinante” na vida.

Essa convicção pode ser a bondade ou pode ser o poder. Existiram papas cuja convicção determinante foi a bondade, assim como papas cuja convicção determinante foi o poder. Pois bem, o mecanismo que faz funcionar a bondade é o respeito a todos, ao passo que o mecanismo que faz funcionar o poder é o julgamento. Isto ficou claro no princípio satânico que a serpente pronunciou, no mito do paraíso, quando disse para Eva: “Vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3, 5).

O que define Deus, segundo o demônio, é o poder que delimita o que está bem e o que está mal. E para isto, muitas vezes, os chamados “representantes de Deus” na terra se dedicaram. Por isso, sem dúvida, o papa Francisco se dedicou, em seu ainda curto pontificado, a atiçar fortemente os clérigos, começando por ele mesmo, pelos papas, os cardeais, os bispos, os padres, os freis... Os clérigos, disse Francisco, tem distanciado os jovens da Igreja. Uma Igreja que se dedicou em julgar a bons e maus. Uma Igreja que se dedicou a se “fazer de Deus”, a produzir a impressão de que tem a última palavra, como se fosse Deus.

Por isso, em poucos minutos, a resposta que Francisco deu a um jornalista no avião, em seu retorno do Rio de Janeiro para Roma, circulou o mundo: “Se uma pessoa gay busca ao Senhor, quem sou eu para julgá-la?”. Francisco tem consciência de sua responsabilidade. Contudo, também sabe que esta responsabilidade está limitada por sua condição humana. Uma condição e sua conseguinte limitação, que o Papa sempre leva consigo, por mais papa que seja. Jesus proibiu seus operários de arrancar a cizânia do mundo porque – tenham a tarefa que tiverem – podem se equivocar. E pode muito bem acontecer que ao invés de arrancarem a erva daninha, passem a vida por este mundo arrancando o trigo de Deus (Mt 13, 24-30. 36-43). Apenas os anjos de Deus, em definitivo, somente Deus pode saber e pode decidir o que está bom e o que está ruim.

E para terminar, um critério que o papa Francisco deixou muito claro: “Os pecados se perdoam, os crimes não”. O problema é que abundam os clérigos (com seus coroinhas) que, caso seja preciso, atiram-se na rua para pedir que, enquanto for possível, algumas coisas que o Catecismo diz sejam copiadas no Código Penal. Já é ruim pecar e ter que se confessar, entretanto, se acima disto, você precisa passar pelo juizado para acabar na prisão... não é isso pretender que o nacional-catolicismo retorne?

Santo Deus! Não nos cansemos de ser boas pessoas. Porque apenas a bondade – e sempre a bondade – tem força para mudar o mundo. E até para dar uma nova virada na história.

sábado, 3 de agosto de 2013

A Igreja da empatia


O teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão, publicou o artigo abaixo no jornal La Repubblica, 30-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto, para o IHU.

É muito provável que os comentários sobre as declarações do papa sobre as pessoas homossexuais se dividam em duas correntes contrapostas entre si.

De um lado, aqueles que desejam uma decisiva reforma das posições da Igreja Católica entenderão as palavras do papa como revolucionárias, diferentes, anunciadoras de mudanças. De outro lado, aqueles que pretendem conservar o status quo lerão as mesmas palavras do papa como totalmente coerentes com as posições de sempre, aquelas reiteradas várias vezes por João Paulo II e Bento XVI.

E é preciso dizer, na verdade, que, na ausência de atos efetivos de governo do Papa Francisco voltados a modificar a legislação canônica vigente, ambas as posições têm a sua legitimidade própria. De fato, o papa não disse nada que Bento XVI também não teria assinado embaixo, dizendo que: 1) as pessoas homossexuais como tais devem ser acolhidas e em nada discriminadas, enquanto os atos sexuais delas não podem encontrar acolhida dentro da ética católica; 2) para os divorciados em segunda união, o primado deve ser atribuído à misericórdia; 3) a mulher deve ter mais espaço no governo da Igreja, mesmo que a Igreja não poderá chegar a lhe conceder a admissão ao sacerdócio, excluído das mulheres católicas definitivamente.

Por que, então, por parte de todos no mundo se sente nas palavras do papa uma sensação de novidade e de esperança, de inovações? Por que esse entusiasmo por palavras que, nos conteúdos, não modificam em nada a tradicional abordagem ética e dogmática católica? Eu penso que seja pelo clima de empatia que circunda a pessoa do pontífice e pela necessidade de mudança e de reforma que os católicos de todo o mundo sentem. Mas especialmente pela frase, esta sim totalmente inovadora para um papa, "quem sou eu para julgar?". Uma frase que, a meu ver, nem Bento XVI nem João Paulo II jamais poderiam ou quereriam pronunciar.

Essas palavras colocam o papa não mais entre os chefes de Estado e os poderosos deste mundo, que, por definição, julgam, mas sim entre os discípulos de Jesus atentos a pôr em prática as palavras do Mestre: "Não julguem e não serão julgados; não condenem e não serão condenados, perdoem e serão perdoados" (Lucas 6, 37). De tudo isso, porém, deve brotar uma consequente ação de governo, finalmente sob a insígnia da novidade evangélica (assim como são os gestos extraordinariamente simples e poderosíssimos desse papa).

Eu falei antes de empatia e gostaria de salientar que a empatia é muito importante, não só, como é óbvio, em nível psicológico, mas também em nível teológico. O termo, de fato, remete à palavra grega pathos, que significa paixão, e que constitui um dos conceitos centrais do cristianismo, a partir da paixão de Cristo e do amor que define a essência de Deus, amor que, por sua vez, é paixão e gera paixão.

O fato de que o Papa Francisco seja cercado por um abraço de empatia em nível mundial não se explica apenas em nível humano pela sua carga pessoal e pela espontaneidade e a simplicidade dos seus gestos; explica-se também em nível teológico e espiritual pelo seu ser capaz de representar a paixão de Deus pelo mundo.

Portanto, a empatia que circunda o papa (e que nos leva a ver em cada palavra sua algo de novo mesmo quando, por si só, não haja nenhuma novidade) é extremamente preciosa, é um sinal do Espírito, diríamos na linguagem teológica. E o papa não a deve decepcionar, deve estar à sua altura até o fim, indo ao encontro da necessidade de mudança que a maioria dos católicos no mundo sente com relação à Igreja.

De fato, é insustentável a posição católica tradicional com relação tanto às pessoas homossexuais, quanto às pessoas divorciadas, quanto ao papel atualmente ocupado pelas mulheres dentro do governo da Igreja. E é preciso coerência: não se pode proclamar em palavras o respeito pelas pessoas homossexuais e a sua igual dignidade de filhos de Deus e, depois, julgar a sua condição como condenada pela lei natural e pela Bíblia.

Ao contrário, se verdadeiramente se quer mostrar de modo concreto o respeito de que se fala com relação a eles, é preciso pôr em ação hermenêuticas consequentes tanto da lei natural (a ser entendida em sentido formal como harmonia das relações, e não como definições de papéis e de comportamentos), quanto das passagens bíblicas que condenam as pessoas homossexuais relegando tais páginas ao lado daquelas que favorecem a guerra ou a inimizade com relação às outras religiões (e que não merecem ser levadas em consideração). Ou seja, é preciso chegar ao evangélico "não julgar" e "não condenar".

Do mesmo modo, se verdadeiramente se quer que a misericórdia tenha o primado para os divorciados em segunda união, é preciso pôr em ação uma disciplina canônica dos sacramentos que lhes conceda que eles se aproximem sem nenhuma discriminação (assinalo, a esse respeito, o recente livro de Oliviero Arzuffi, Caro papa Francesco. Lettera di un divorziato, Ed. Oltre).

Da mesma forma, enfim, se verdadeiramente se quer que a mulher tenha maior poder dentro da Igreja, deve-se proceder em conformidade e, mesmo sem chegar à ordenação sacerdotal, deve-se permitir que as mulheres se tornem cardeais e ministros com plenos poderes de governo da Igreja (hoje, para se acessar ao cardinalato, é preciso ser diácono ou sacerdote, e as mulheres podem ter acesso ao diaconato, como testemunha o Novo Testamento, basta lê-lo e aplicá-lo).

"Quem sou eu para julgar?", disse o papa, e nisso se fez discípulo de Jesus. Mas Jorge Mario Bergoglio, como pontífice reinante, pode fazer com que essa mentalidade não julgante se torne a prática corrente da Igreja com relação às pessoas homossexuais e aos divorciados em segunda união. Diante dele, está a tarefa de não decepcionar a empatia que o circunda e as esperanças de renovação evangélica de muitos crentes e "pessoas de boa vontade".

Carta de um gay católico ao papa Francisco


Esta semana vários amigos compartilharam no Facebook a notícia de que um ex-padre gay havia escrito uma carta aberta ao papa Francisco. Embora as matérias divulgadas descrevessem a carta e contivessem trechos traduzidos do original espanhol, não encontramos nenhuma tradução na íntegra. Ao ler o original, ficamos muito impressionados com a clareza e qualidade de seu conteúdo, e achamos que valia muito a pena traduzir e compartilhar com vocês o texto completo. Fica para a reflexão de todos nós, Igreja.

Admirado e estimado Francisco:

Paz e bem! Tomo a ousadia de escrever, com todo o respeito e admiração marecidos.

Como milhões de pessoas, venho observando, ouvindo e acompanhando de perto sua nomeação, seus primeiros atos como papa, sua viagem à América Latina, suas belas palavras para os jovens. E, mesmo em meu atual agnosticismo, vi renovar-se minha esperança de que dentro da Igreja se torne realidade o tão esperado "aggiornamento" ["atualização"], como dito e reivindicado pelo Concílio Vaticano II. Estou feliz e comemoro o fato de que o ar fresco segue entrando no Vaticano, e de que há um longo caminho a percorrer.

Pessoalmente, faço eco às suas palavras: quero "criar problemas", "não me excluo", eu pertenço. Quero fazer valer os meus direitos e de muitos outros que estão em situação semelhante, não vou ficar de braços cruzados. Já fui padre, pastor, partilhei desse zelo missionário católico e da necessidade de reivindicar abertura da parte da Igreja - até que decidi me afastar, quando descobri minha própria tendência homossexual e admiti minha incapacidade de exercer o ministério pastoral em celibato. Hoje, meus caminhos seguiram em outras direções, e minha vocação foi tingida com outros tons.

Mas suas palavras e seu exemplo me fizeram reunir forças e tomar esta iniciativa. Atrevo-me a colocar-me como porta-voz de uma grande parcela de pessoas que pertencem à comunidade gay. E simplesmente, humildemente, peço-lhe encarecidamente que encoraje, estimule, promova e acompanhe um maior aprofundamento na teologia moral sexual sobre o lugar e a experiência das pessoas homossexuais.

Não peço que de um dia para outro a Igreja mude sua catequese em relação a este assunto. Pedimos apenas para não estigmatizar os teólogos e pastores que aportam elementos de dissensão a uma resposta pastoral insatisfatória para muitos de nós.

Não pedimos que se oponha à extensa tradição que fala de pecados contra a natureza, mas peço-lhe que reveja e amplie a concepção de "natureza".

Não lhe peço que deixemos de ler e interpretar as Escrituras, mas que nos aprofundemos e façamos leituras menos carregadas de preconceitos. Que não se usem mais como "armas" passagens bíblicas que a Teologia já provou e determinou que não se relacionam com o assunto. Quanto mais água deve correr debaixo dessa ponte para que se dissocie a palavra "sodomia" de um pecado que nada tem a ver com o que a passagem bíblica quer denunciar? Você sabe muito mais do que eu que, como esta, somos assolados por erros de interpretação que fizeram com que a Verdade - essa que nos torna tão livres - tenha sido relegada e escondida por muito tempo. Apenas para ilustrar com um exemplo: quantos anos levou para que João Paulo II pedisse desculpas pelos erros da Igreja em relação a Galileu Galilei - por interpretar mal uma passagem da Escritura (Josué 10,12-14)? É surpreendente que também nessa disputa o conceito de "natureza" esteja na base.

Não lhe peço que deixemos de manter uma doutrina. Peço-lhe que a ajude a continuar crescendo e adaptando-se aos novos paradigmas do mundo contemporâneo que nos desafiam a encontrar novas respostas. Lembra que, não muitos anos atrás, a Moral Sexual afirmava que o único objetivo primário do casamento era a procriação? Quantos casamentos tiveram renovada sua aliança quando foi reconhecido também o aspecto do amor e da ajuda mútua, o bem dos cônjuges? Essas atualizações são ar fresco que renova o coração das pessoas e as ajuda a viver com dignidade.

Não peço para diluir a Cristo; peço-lhe que, olhando para ele, se atreva a procurar todas as ovelhas espalhadas como um Bom Pastor.

Muitos governos e estados estão adotando uma forma mais aberta, uma nova visão de casais. O momento é propício. Há vários anos, o mundo clama por uma mudança de abordagem. Depois de anos de análise científica, em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade de "Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais". Mas só em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais.

A Igreja precisa dar um passo mais contundente e significativo. Para que atrasar ainda mais esse processo? Não seria bom ser pioneira, com respostas de adequação em uma sociedade em constante busca? Até não muito tempo atrás, pensava-se que esta tendência poderia ser curada com várias terapias e tratamentos. E você deve estar ciente de que são muitas as comunidades católicas que insistem nessas técnicas e causam prejuízos à vida de muitas pessoas submetidas a este tipo de prática.

Por experiência no confessionário, sei que há muitas pessoas que abraçam a fé católica e continuam recebendo uma resposta diluída, incompleta, que não cabe em seu estilo de vida. As pessoas de fé que têm essa tendência não tem muitas opções para viver sua sexualidade livremente. Ficam limitadas, na prática, a duas opções: ser casto ou celibatário (mas, de acordo com a doutrina católica, o celibato é um dom dado a poucos, que não pode ser abraçado compulsoriamente, por voluntarismo) ou agir de maneira distinta daquela proposta pelo catecismo e, portanto, viver em pecado, que seria a consequência de agir de acordo com a sua realidade homossexual.

Por outro lado, quando vejo na minha cidade, e em muitas outras do mundo, manifestações e passeatas do orgulho gay, reconheço que não me identifico plenamente com as formas pelas quais as reivindicações são apresentadas. Mesmo quando seu conteúdo seja verdadeiro sob muitos aspectos, me dói ver as duras críticas à Igreja (aquela que com tanto entusiasmo integrei no passado) e outras instituições, e me pergunto se a solução é mesmo o confronto agressivo, em um mundo tão dividido por visões díspares.

Gostaria de ser ponte e elo entre posições tão desencontradas, para que as experiências possam se aproximar e as expressões afetivas da humanidade possam se enriquecer. Aproveitar para transmitir algumas das dúvidas ocultas nestas reivindicações:

Será mesmo que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo não demonstra nem reflete de modo algum o amor de Deus? Será que não desvela algum traço ainda por descobrir de sua criação sem limites?

A Igreja realmente insiste na visão maniqueísta de que o sexo homossexual é apenas um ato de prazer carnal, destituída de qualquer real envolvimento espíritual, capaz de enobrecer o diálogo copular e corporal?

A Igreja vai mesmo, com seus silêncios, continuar permitindo que tantos jovens sejam estigmatizados em tantos países onde os gays ainda são mortos apenas por sua tendência? Não está na hora, como você mesmo disse, de sair e defender a integridade do ser humano com uma mensagem conciliadora e inclusiva?

Permita-me, finalmente, remontar-me à minha experiência pessoal. Especialmente quando me descobri homossexual, fiquei apavorado, com medo do novo e desconhecido que teria de enfrentar. Fiquei aterrorizado com a possibilidade de estar desafiando a vontade de Deus e estar à beira dos abismos do inferno. Minha saída do sacerdócio foi caótica, escandalosa, dolorosa. Mas justamente essa cicatriz, essa marca, essa ferida, hoje, me fazem questionar e desafiar esse paradigma, que continua sem nenhuma resposta sensata. Com humildade saudável, eu diria que hoje, depois de quase dez anos de vida monogâmica com outra pessoa do mesmo sexo, sinto-me feliz, realizado e ansioso para compartilhar essa experiência, de modo que muitos outros podem experimentá-la e vivê-la.

Ajude-me, e ajude muitos outros, a descobrir como mover-nos na fé, sem abrir mão da experiência de amor, que, em plena consciência, sentimos ser essencial em nossas vidas.

Com admiração e elevando uma oração por seu ministério.

Gioeni Andrew*, outro filho de Deus.

*Ex-padre católico que se reconheceu homossexual e renunciou ao hábito. Escritor e ator. Fonte

"Quem sou eu para julgar?"


Artigo do New York Times lança uma luz sobre a declaração que o papa Francisco deu na entrevista realizada no avião quando do seu retorno a Roma. Segue a nossa tradução de um trecho e um link para a íntegra do artigo em inglês:

Em primeiro lugar, parece que o papa estava falando especificamente sobre padres gays [...] suas declarações seguiram uma pergunta sobre o caso do Monsenhor Battista Ricca, uma indicação recente do papa que supostamente teve um relacionamento gay no passado, o que inspirou Francisco a uma longa digressão sobre a importância de perdoar pecados passados. Levando em consideração que o Vaticano de Bento XVI reafirmou especificamente a regra de que homens com uma profunda atração pelo mesmo sexo não devem ser ordenados, o tom dos comentários de Francisco – o perdoar e esquecer em relação a um caso específico, e o amplo “quem sou eu para julgar?” – é realmente extraordinário e digno de menção.

Especialmente porque um comentário tolerante em relação a esse tópico condiz com o tom do pontificado de Francisco como um todo. Papas não mudam a doutrina, mas eles escolhem o que enfatizar e o que minimizar, que assuntos destacar e quais descartar, quando julgar e quando perdoar e assim por diante. E nós já vimos o suficiente desse pontificado para saber que o foco de Francisco é: ele quer ser visto como um papa da justiça social e da renovação espiritual, ele não tem muita paciência para problemas que possam divergir dessa perspectiva Cristã. Por isso a retórica que desperta manchetes e os gestos simbólicos que enfatizam a pobreza e a simplicidade acima de tudo, por isso as menções frequentes de que o “clericarismo” é o pior problema que a igreja enfrenta e por isso sua atitude casual (pelo menos nos seus comentários improvisados) em relação à disciplina da doutrina, seus chamados à experimentação e sua aparente hostilidade à liturgia tradicional – e por isso, também, sua aparente determinação de distanciar-se e a sua mensagem dos debates culturais sobre a revolução pós-sexual do Ocidente.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Criando uma bagunça carregada de verdade e livre de julgamentos

 "Todos" significa "todos"

Tenho refletido sobre as várias mensagens que recebemos do papa esta semana: "viva a sua verdade", "faça uma bagunça", e "quem sou eu para julgar". Esta semana tem sido incrível e eu sei que novas ideias surgirão a cada vez que olharmos em retrospecto para este momento, seja na próxima semana, daqui a dois meses ou daqui a 10 anos.

(...) Foram as suas últimas palavras, "quem eu sou para julgar", que me marcaram mais. Ele está apenas reafirmando a posição tradicional da Igreja, mas mudando o foco da "desordem" para "nenhuma marginalização"? Ou é um vislumbre, ainda que vago, de uma transformação esperançosa que está acontecendo em todos os níveis da igreja? (...)

Talvez não seja a afirmação radical pela qual muitos de nós ansiamos, mas nem por isso deixa de oferecer a este peregrino cansado alguma esperança de que estejam acontecendo certas oscilações e transformações. O trabalho feito por nós, peregrinos LGBTs do Equally Blessed, assim como o trabalho de milhões de pessoas ao redor do mundo que vivem na interseção da fé e da sexualidade, vem de fato tendo um impacto; sementes estão sendo plantadas e vão florescer de formas que ainda não podemos imaginar. É um processo lento, sim, mas as palavras do papa mostram que o processo está se dando. Este processo foi e é muito vivo tanto nas pessoas que encontramos como naquelas que tocamos mesmo sem saber (pessoas que nos viram ou que receberam nossas fitas e adesivos do arco-íris através de sua família e amigos). Os polegares para cima, os pedidos de mais etiquetas, conversas que criaram um espaço seguro para falar e fazer perguntas, os comentários no Facebook e no blog... tudo isso revela que o processo está florescendo e que a transformação está se dando por toda a igreja.

Olhando para essas três expressões que mais mexeram comigo, percebo que o papa talvez tenha subversivamente nos abençoado e convidado para viver "a nossa verdade", "fazendo uma bagunça" para que mais e mais pessoas possam viver uma vida livre de julgamentos. A declaração em si causou uma bagunça nas pessoas, lutando para decifrar a verdade contida nessas palavras. Se realmente acreditamos que somos igreja, todos nós juntos devemos continuar tendo a certeza de que ninguém é marginalizado e que todas as pessoas são integradas ao Corpo de Cristo como igualmente abençoadas. Não podemos proclamar que somos igreja e depois esperar que o papa faça e diga tudo sozinho. É preciso criar na nossa igreja espaços onde se viva de formas novas e íntegras de celebrar a todos. Devemos continuar a viver nossas verdades bagunçadas. Sua declaração pode não ser o pronunciamento radical que estamos esperando da boca de um papa, mas para todos nós que foram feridos pela doutrina da Igreja sobre homossexualidade ou a pela falta de reconhecimento das pessoas trans, espero que esta dica de Francisco funcione como uma pequena dose de esperança com que nos curarmos. Pessoalmente, vou tirar daí o máximo que eu puder!

A radicalidade não está nas suas palavras em si sobre homossexualidade e sacerdócio, mas no fato de ele ter dito algo que sacudiu a todos nós. Temos de continuar fazendo a nossa parte... sair em peregrinação na JMJ, escrever cartas, conversar com membros do Magistério da Igreja em todos os níveis, educar os outros e a nós mesmos, criar espaços seguros... confiar que o Espírito irá agitar as águas por toda a Igreja. Somos Igreja e juntos, como Igreja, devemos encarar o desafio de compartilhar a mensagem de que "todos são igualmente abençoados" realmente significa que todos são igualmente abençoados. Com esta nova verdadeira bagunça nascida na JMJ, devemos permanecer comprometidos em agitar as águas, fazer perguntas nas sessões de catequese, conversar, propor orações que celebrem todas as pessoas... tudo isso sabendo, ao mesmo tempo, que Deus está fazendo a sua parte com e através do papa, dos bispos, dos sacerdotes, dos religiosos e de cada um de NÓS.,

As palavras do papa, todas juntas... "fazer uma bagunça", "viva a sua verdade" e "quem sou eu para julgar"... constituem um sinal de que talvez, na próxima Jornada Mundial da Juventude na Polônia, os peregrinos do Equally Blessed possamos compartilhar suas verdades bagunçadas sem ter de justificar quem somos e por que estamos lá e, assim, possamos simplesmente ser. Dou graças a Deus por que, por mais ínfima que seja a possibilidade de esperança que podemos encontrar nas palavras do Papa, a integridade que renasceu nesta JMJ deriva não só das palavras do papa, mas permeou e prosperou em todas as interações, abraços, elogios, sorrisos e conversas. Somos Igreja e, como Igreja, vamos continuar a fazer bagunças criadores de verdade, e a viver as verdades bagunçadas que proclamam que ninguém deve ser julgado, porque somos todos igualmente abençoados! Amém!

- Delfin Bautista, no blog do Equally Blessed

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A primeira vez que uma autoridade da Igreja usa a palavra "gay"


(...) Na mesma calorenta Roma, o cenário em torno do Vaticano é radicalmente diferente. Se nos primeiros 100 dias o Papa Francisco mudou a cultura do Vaticano apenas através de gestos simbólicos, na semana que passou no Brasil definiu as grandes linhas do seu papado, com o chamamento para recuperar a ética, a compaixão e a solidariedade. Entre o Rio e Roma, complementou a sua narrativa modernizadora da Igreja, ao abri-la aos gays, defender um novo papel para a mulher e um tratamento diferenciado para os divorciados. Em uma hora de entrevista, consolidou a sua conquista da ala progressista dos católicos.

“Isto tudo sem mudar a doutrina, mudou apenas o tom”, analisou o vaticanólogo John Allen Jr na CNN.

Ontem foi dia de olhar os detalhes da conversa com os jornalistas. Descobriu-se que nunca antes um documento da Igreja ou uma alta autoridade eclesiástica usara a palavra “gay”, sempre preterida pelo mais circunspecto “homossexual” ou pelo horroroso “sodomita”. “Ao recuperar o termo ‘gay’ da militância, reforça a autoestima dos homossexuais”, diz um dos membros do grupo Diversidade Católica. As feministas também foram procurar novos significados no elogio do Papa à mulher paraguaia e descobriram que ele se referia à decisão delas de partir para a produção independente de filhos depois da guerra contra Brasil e Argentina, já que só sobrara um homem para cada oito mulheres e esta seria uma maneira de garantir a descendência no país. “Ele é a favor da família tradicional, mas elogiou um comportamento nada convencional”, disse o padre Luiz Lima.

Ficou faltando modernizar a posição para lá de conservadora da Igreja em relação à contracepção. Alguns dizem que poucos ainda seguem a recomendação de não usar camisinha ou pílula, mas isso ajuda em nada na prevenção da Aids, restringe a liberdade de escolha da mulher e cria mais tensão na discussão sobre a legalização do aborto.

Fonte

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"A Igreja precisa estar atenta aos sinais dos tempos"


E o Diversidade Católica, representado por Arnaldo e Cristiana, esteve mais uma vez no CBN Mix Brasil desta semana, conversando com os apresentadores André Fischer e Petria Chaves sobre a visita do papa Francisco ao Brasil e as perspectivas de transformação da Igreja e diálogo com os LGBTs. No player acima, a partir de 12:30.

Papa Francisco não é juiz dos gays

 Missa de envio da JMJ2013 na praia de Copacabana. (Foto: Cristiana Serra)

O que o Papa disse na entrevista aos jornalistas a bordo do avião que o transportava a Roma, a respeito dos gays, parece ser uma continuação da sua mensagem durante uma semana aos jovens da JMJ-Rio.

O carinho com que ele foi cercado por todos não se deve unicamente ao seu charme, mas ao farto de que ele manifestou a todos a misericórdia de Deus em Jesus Cristo. Sua mensagem foi sempre a do Evangelho, uma mensagem libertadora, que requer justiça, solidariedade, amor, alegria e paz.

Assim como Jesus Cristo, o Papa não veio para julgar nem condenar. Mas ele sabe que o Evangelho não é uma superestrutura, ele supõe um lastro humano sobre o qual ele trabalha, para levar o ser humano à perfeição. Se quiséssemos usar uma expressão provocativa poderíamos – inspirados no Concílio do Vaticano II – dizer que “Jesus Cristo veio revelar o homem ao homem” (Cf. Gaudium et Spes, 22). Sob este aspecto, o importante não é ser cristão, é ser homem, pois na visão antropológica da Igreja, cristão é o verdadeiro homem, disposto a crescer até alcançar “a estatura de Cristo” (Ef 4,13).

Houve um tempo, na verdade ele ainda não acabou, em que os gays foram estigmatizados, e para isso até mesmo a Igreja colaborou. A sociedade os enquadrava num catálogo de doenças. Há religiões que tratam os gays como criminosos. Ainda hoje tomamos conhecimento de países onde a legislação civil e religiosa é tão retrógrada que leva gays à prisão e à morte, tal como fazem com mulheres consideradas adúlteras. Ora, nem a sociedade civil, nem a religiosa podem admitir tais situações.

O que o Papa disse é a doutrina da Igreja. Todos os seres humanos têm uma dignidade que lhes vem do Criador. Cabe a cada ser humano reconhecer e aceitar a sua identidade, inclusive sexual. A diferença e a complementaridade físicas, morais e espirituais estão orientadas para os bens do casamento e para o desabrochar da vida familiar. Esse é o caminho dado a todos, razão pela qual o casamento, na visão da Igreja, sempre será a união estável entre um homem e uma mulher para seu mútuo enriquecimento humano e santificação, mediante a doação de seus corpos, abertos para a geração e educação de filhos. Se a história nos revelar outras modalidades de união, desde que mantida a qualidade verdadeiramente humana – isto é, livres e respeitando as consciências – entre seres humanos, quem poderá se arvorar com o direito de desrespeitá-las ou julgá-las?

Ora, tudo na vida deve estar aberto ao aperfeiçoamento, razão pela qual não é desejável que se façam lobbies para impor visões e pragmáticas que ferem a sensibilidade dos simples, ou dos que ainda não se desvincularam de uma leitura fundamentalista de textos bíblicos (que fomenta a culpabilidade e discriminação de qualquer tipo de diferença existencial). A solução está (e o papa insistiu bastante sobre este aspecto) no diálogo. O universo da afetividade, com suas expressões na sexualidade, é fenômeno demasiadamente complexo e polivalente, que envolve enraizamentos biológicos, culturais e psíquicos das pessoas, com desdobramentos em outras forças nem sempre conhecidas pelas nossas pretensas sabedorias. OPapa nos falou da cultura do encontro, mas ainda estamos longe de sequer nos aproximarmos, quanto mais compreendermos o mundo dos gays e de tantos outros que a nossa sociedade se compraz em ofender e humilhar.

Respeitar os homossexuais, achar que eles também podem aspirar à perfeição moral, renunciando às práticas que contrariam a exigente ética do Sermão da Montanha, é ser revolucionário, é ir contra a corrente. Assim como muitos não esperavam que “algo de bom pudesse vir de Nazaré” (Jo 1,46), assim também nos surpreenderíamos se Deus comunicasse a sua Palavra, através de quem nós menos esperaríamos?

- Domingos Zamagna, no G1 de 29/07/2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

Lobby Gay X Lobby Anti-gays


Comentário de Frei Betto sobre a declaração do papa Francisco.

"Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados, mas integrados à sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby."

São palavras do papa Francisco ao deixar o Brasil, no voo entre Rio e Roma. A mensagem é esperançosa, mas, ao contrário do que o papa diz, o problema no Brasil é o lobby antigay, liderado pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Deputados que consideram a homossexualidade uma doença propõem a "cura gay". Querem alterar a resolução do Conselho Federal de Psicologia que impede seus profissionais de tratar homossexuais como doentes. O que é um gay? Como diz a palavra inglesa, é uma pessoa alegre. Se os homossexuais são felizes, por que submetê-los à terapia?

Terapia é própria para obsessivos, como é o caso de quem odeia constatar que homossexual é uma pessoa feliz. Isto sim é doença: a homofobia, aliás, como toda fobia. E há inúmeras: desde a eleuterofobia, o medo da liberdade que, com certeza, caracteriza os fundamentalistas, até a malaxofobia, o medo de amar sobretudo quem de nós difere.

Sugiro aos deputados cortar o mal pela raiz: proibir a promíscua narrativa de "Branca de Neve e os Sete Anões", a relação pedófila entre o lobo mau e a Chapeuzinho Vermelho e, na Bíblia, o relato da íntima ligação entre Jônatas e Davi, aquele que "ele amava como a sua própria alma". (1 Livro de Samuel, 18).

Segundo censo do IBGE, há no Brasil 60 mil casais assumidamente gays. São pelo menos 120 mil pessoas que, em princípio, deveriam ser "submetidas a tratamento". Considerando que a Parada de Orgulho LGBT reúne, em São Paulo, cerca de 4 milhões de pessoas, haveria que construir uma clínica do tamanho de 50 Maracanãs para abrigar toda essa gente.

O processo terapêutico certamente teria início com uma sessão de exorcismo, já que, no fundo, a obsessão fundamentalista considera a homossexualidade muito mais coisa do demônio do que doença.

Outra sugestão é comprar um armário para cada gay e obrigá-lo a ficar lá dentro. Dizem os moralistas que qualquer um tem direito de ser gay, não deve é sair do armário.

Imagino que, terminado o processo de "cura gay", haverá uma grande Parada de Ex-Gays subindo a rampa da Câmara em Brasília para agradecer aos deputados que, iluminados, aprovaram a medida.

Ainda que todos os gays sejam confinados na clínica dos deputados, de uma coisa não poderão se queixar: será divertido contar ali com shows de Daniela Mercury e sir Elton Hercules John.

Saiba Feliciano que Alan Chambers, ex-presidente da associação Exodus International, destinada a curar gays, declarou em junho deste ano que também é gay, pediu perdão pelos sofrimentos causados a homossexuais e fechou a entidade.

À luz do Evangelho, o melhor é seguir o conselho de santo Agostinho: "Ama e faz o que quiseres." Ou, como diz Francisco, sejamos todos irmãos.

- Frei Betto, ontem na Folha de S. Paulo

Repercussões da declaração do Papa Francisco sobre o acolhimento dos gays na Igreja Católica

"'Igualmente abençoados': Católicos fervorosos comprometidos
com a plena igualdade das pessoas LGBT" (Foto: Cristiana Serra)

De organizações de católicos LGBT:

"[Nessa entrevista,] o papa explica suas motivações: abrir caminho para os jovens ao invés de insistir nas proibições da moral sexual. Isto que muitos já tinham percebido, e que gera forte oposição dos segmentos conservadores, foi explicitado por ele. Seguir neste propósito de abrir caminhos vai nos ajudar muito. A cultura do encontro e da acolhida, estimulada pelo papa, é a grande chance de romper as barreiras da homofobia e dos demais preconceitos.

De qualquer maneira, ele não absolutiza a família tradicional. Uma coisa são os princípios morais, outra coisa são as circunstâncias concretas que levam a atitudes ousadas. Tudo isto dá muito samba..."

- Diversidade Católica


"O Papa Francisco proferiu algumas das palavras mais encorajadoras já ditas por um pontífice a respeito de gays e lésbicas. Ao fazer isso, ele criou um grande exemplo para os católicos em todos os lugares.

O Papa rejeitou a linguagem dura de seu antecessor, Bento XVI, substituindo-a por uma abordagem de compaixão e um tom pastoral. Lésbicas e gays não são mais uma 'ameaça à civilização', mas pessoas de fé e boa vontade.

Líderes católicos que continuam a menosprezar gays e lésbicas não podem mais alegar que seus comentários inflamados representam os sentimentos do papa. Bispos que se opõem à expansão de direitos civis básicos, tais como o fim da discriminação no local de trabalho, não podem mais afirmar que o papa aprova suas pretensões discriminatórias.

O Papa Francisco não articulou uma mudança no ensinamento da Igreja hoje, mas falou com compaixão; ao fazê-lo, incentiva um diálogo renovado, que pode um dia tornar possível para a igreja abraçar plenamente os católicos LGBT."

- Equally Blessed


"Muita gente estava à espera de uma mensagem clara do Papa Francisco sobre questões LGBT, e essa sua fala parece indicar que ele terá uma abordagem decididamente diferente daquela de seus antecessores imediatos.

Alguns dirão que isso não é suficiente, que ele ainda se refere aos pecados dos homossexuais, mas acho que o importante é a questão da ênfase. Enquanto seus antecessores enfatizava o pecado em relação às pessoas LGBT, o Papa Francisco parece preferir enfatizar a dignidade humana, o respeito e a integração social. Mesmo não abandonando o discurso do 'pecado', ainda é um grande passo adiante, que pode abrir caminho para novos avanços mais à frente."

- Francis DeBernardo, New Ways Ministry


"A declaração do papa, adotando uma atitude de não-julgamento quanto à integração dos gays na sociedade é um avanço considerável em relação aos duros comentários de seu antecessor, sempre que a mídia entrevistava o antigo papa sobre homossexualidade. Se Francisco algum dia decidir visitar as Filipinas, adoraremos se ele buscar a juventude LGBT pobre e urbana, desempregada e mal remunerada, que enfrenta a tripla opressão da discriminação de gênero, a pobreza e a vulnerabilidade às doenças sexualmente transmissíveis, problemas agravados pelo velho estigma de inspiração católica contra nós."

- Clyde Pumihic, ProGay (Filipinas), via

* * *


Da hierarquia da Igreja Católica, teólogos e representantes do movimento LGBT:

"Não é uma mudança do ponto de vista moral, é de ordem pastoral. É extremamente positiva e importante para marcar uma posição, não de ordem normativa, mas de ordem pastoral, de respeito, de confiança. Ele não entra no mérito da questão, mas tem uma postura pastoral, de quem deve acolher as pessoas. Ele quer acentuar esse lado de acolhimento e de compreensão."
- Frei Luiz Carlos Susin, professor de Teologia na PUCRS

"Não é que seja novidade o que o Papa disse. É o modo como ele fala. Os outros papas, em geral, quando falam sobre esses assuntos, é por meio de discursos, homilias, um texto previamente estabelecido. O papa Francisco tem inovado nesse sentido. O centro de toda a pregação de Cristo é a pesssoa humana. O Papa está nessa esteira."
- Leandro Chiarello, diretor da Faculdade de Teologia da PUCRS

"Nossa, gostei tanto da declaração do Papa! Segue o que ele tem demonstrado em suas manifestações, de absoluta inclusão e aceitação. Outros padres já se manifestaram, mas não era oficial. Claro que isso não revela aceitação ao vínculo homoafetivo, é a aceitação da pessoa, a Igreja faz essa distinção. Mas não dá para deixar de reconhecer que é um avanço."
- Maria Berenice Dias, advogada e presidente da Comissão da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) federal

"Fiquei feliz com a declaração, me surpreendeu. Só pelo fato de não atacar a comunidade gay já ajuda muito. Já me dá uma esperança de que a Igreja possa, futuramente, mudar. Tínhamos o histórico dos papas anteriores, condenando a nossa comunidade. Acho que abre uma porta, uma esperança. A Igreja precisa assumir o debate sobre os direitos da comunidade."
- Carlos Magno, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)

"A frase é forte se comparada com as posições que o Vaticano sempre teve. Os outros papas não iam nessa linha. Essa posição dele parece abrir a possibilidade de outro entendimento por parte da religião. Acho que influenciará as pessoas que acreditam no discurso da Igreja Católica. Mas será que essa é a posição do Vaticano ou é uma posição mais individual do Papa?"
- Célio Golin, coordenador do Nuances - Grupo pela Livre Expressão Sexual

"Ele lança a questão a todos nós: quem é ele e quem somos nós para julgar a homossexualidade? O ponto chave nessa declaração é abrir mão da ideia de julgamento da sexualidade humana, seja ela qual for. Ele também diz que não podemos marginalizar as pessoas. Não é mais possível hoje qualquer ideia de marginalização da homossexualidade. Por muitos anos, a Igreja tomou a homossexualidade como pecado, desvio de norma, déficit moral. Ele começa a colocar em cena alguns problemas que até então eram internos da Igreja."
- Norton Cezar Dal Follo da Rosa Junior, psicanalista e membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA)

"Ele manda uma mensagem para seus fiéis, de que os dogmas da Igreja não podem ser usados para justificar a violência e a discriminação. Ainda é preciso esperar mais para ter clareza das consequências da entrevista do Pontífice. Mas o Papa tirou do armário o assunto, que veio para a antessala. Veremos, agora, se virá para a sala. Mas já é um passo importante."
- Cláudio Nascimento, coordenador do programa estadual Rio Sem Homofobia (RJ)

"Agora, vamos esperar ações concretas da Igreja. Primeiro, vejo (as declarações) como uma posição dele (do Papa). Mas, como líder e com poder de influência, creio que ele possa inspirar outros católicos."
- Julio Moreira, presidente do Grupo Arco-Íris

"Ele fala diretamente desse acolhimento ao homossexual. Temos um Papa falando isso de forma direta: vamos amar aquele que está numa condição de segregado, tratado de maneira discriminatória."
- Paulo Bosco, teólogo da Universidade Católica de Brasília

"No próprio cristianismo, Cristo sempre esteve do lado dos mais fragilizados. Hoje, entre outros grupos, os LGBTs estão entre os mais fragilizados. Nada mais justo do que uma visão mais humana sobre o tema."
- Fernando Quaresma, presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo

"A Igreja Católica tem aprofundado estudos sobre homossexualidade. É preciso esperar a continuidade desses estudos e aguardar os avanços da própria sociedade."
- Érico João Hammes, teólogo e professor da PUC-RS

* * *


"(...) é perfeitamente possível interpretar a declaração de Francisco sobre os gays em geral no mesmo contexto do que ele disse sobre sua recusa em mencionar temas como aborto, casamento homossexual (e não orientação gay em geral) e ordenação de mulheres.

Nesses três temas polêmicos, ele se limitou a dizer: o ensinamento da Igreja não muda e não achei que era o caso ficar martelando esses temas, em especial durante a Jornada Mundial da Juventude.

Por outro lado, é inegável que, numa instituição com tanto peso histórico quanto a Igreja, enfoques e ênfases também são importantes. Só para citar um exemplo, é improvável que João Paulo 2° achasse supérfluo, ou "fora de hora", insistir nessas questões.

E abordar a questão da homossexualidade primeiro pelo ângulo da "misericórdia", por mais que isso possa soar condescendente aos ouvidos da militância gay, pode ter repercussões importantes na maneira como a questão é tratada no cotidiano pastoral da Igreja."
- Reinaldo José Lopes, jornalista e editor do caderno "Ciência", da Folha de S. Paulo

(Fontes: Equally Blessed, New Ways Ministry, Zero Hora, Extra, Folha de S. Paulo)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

'Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-lo?', diz papa



Na mais ousada declaração de um pontífice sobre homossexualismo homossexualidade, o papa Francisco disse que os gays "não devem ser marginalizados, mas integrados à sociedade" e que não se sente em condição de julgá-los.

"Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo?", afirmou Francisco aos cerca de 70 jornalistas que embarcaram a Roma com ele. "O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas integrados à sociedade."

As declarações foram em resposta a recentes revelações de que um assessor próximo seria homossexual e a uma frase atribuída a ele no início de junho, de que havia um "lobby gay" no Vaticano. Segundo ele explicou ontem, o problema não é ser gay, mas o lobby em geral.

"Vocês vêm muita coisa escrita sobre o "lobby gay". Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com um cartão de identidade dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que, quando alguém se encontra com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay de formar um lobby gay, porque nem todos os lobbies são bons. Isso é o que é ruim."

"O problema não é ter essa tendência [gay]. Devemos ser como irmãos. O problema é o lobby dessa tendência, da tendência de pessoas gananciosas: lobby político, de maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema."

Questionado sobre o movimento carismático no Brasil, Francisco disse que, no início, chegou a compará-los com uma "escola de samba", mas que se arrependeu: diz que os movimentos "bem assessorados" são parte da "igreja que se renova".

Antes de aceitar perguntas, Francisco disse que "foi uma bela viagem" e elogiou o "povo brasileiro". "Espiritualmente me fez bem, estou cansado, mas me fez bem", afirmou.

"A bondade e o coração do povo brasileiro são muito grandes. É um povo tão amável, que é uma festa, que no sofrimento sempre vai achar um caminho para fazer o bem em alguma parte.

Um povo alegre, um povo que sofreu tanto. É corajosa a vida dos brasileiros. Tem um grande coração, este povo."

O papa elogiou os organizadores "tanto da nossa parte quanto dos brasileiros", com menções à parte artística e religiosa. "Era tudo cronometrado, mas muito bonito."

Sobre a segurança, uma grande preocupação principalmente no início, o papa lembrou que "não teve um incidente com esses jovens, foi super espontâneo".

Fonte: Folha de S. Paulo hoje

Lampedusa, uma homilia que é também o programa de um pontificado


Afirma o historiador da Igreja Alberto Melloni: "Muitos não se deram conta. É um texto comparável ao discurso de abertura do Concílio".

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 16-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto (via)

"A homilia que o Papa Francisco proferiu em Lampedusa representa uma reviravolta, é um documento comparável ao Gaudet Mater Ecclesia, o discurso de abertura do Concílio de João XXIII. Parece-me que muitos não se deram conta disso realmente". A convicção é do historiador da Igreja Alberto Melloni, que convida a considerar bem as palavras proferidas pelo papa durante a sua visita a Lampedusa no dia 8 de julho passado.

"O Papa Roncalli [João XXIII] – explica Melloni ao Vatican Insider –, dentro de uma trama linguística perfeitamente tradicional e devocional, dizia coisas de um poder evangélico enorme. E estava consciente desse poder, como atesta a decisão de conservar o manuscrito do discurso de abertura do Vaticano II, para que, no futuro, se pudesse ver como se tratava de farinha do seu saco. O segredo do Papa Francisco é diferente: com uma linguagem acessível, ele comunica conteúdos doutrinais extraordinários. Lampedusa é um desses casos, o mais importante para mim".

Para o estudioso, qualquer outro, em uma ocasião como aquela, "teria feito um discurso imputando aquelas mortes à nossa sociedade, à modernidade, ao indiferentismo. Francisco, ao invés, falou do lugar dos cristãos na sociedade e no mundo. Ele celebrou uma liturgia penitencial, e não nos deixou de fora. Nem mesmo o papa se deixou de fora".

A referência de Melloni é à passagem da homilia em que Bergoglio afirmou: "Muitos de nós, eu também me incluo, estamos desorientados, não estamos mais atentos ao mundo em que vivemos, não nos importamos, não cuidamos do que Deus criou para todos e não somos mais capazes sequer de cuidarmo-nos uns aos outros. E quando essa desorientação assume as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como a que assistimos".

O papa (...) "não quer ensinar aos seus interlocutores como estar no mundo, mas diz coisas que têm a ver com o pranto e a acusação de si mesmo. E, na oração final que ele pronunciou, quando pediu perdão 'pela indiferença para com tantos irmãos e irmãs', por quem 'se fechou no seu próprio bem-estar que leva à anestesia do coração', por 'aqueles que, com as suas decisões em nível mundial, criaram situações que conduzem a esses dramas', Francisco indicou um papel e uma função da Igreja no espaço público".

Para Melloni, depois de João Paulo II, que "concebia a Igreja como um elemento tencionado a demonstrar a sua própria força no mundo", e depois de Bento XVI, "que falava da Igreja como de uma pequena e humilde comunidade, uma minoria criativa, que de modo não arrogante ajuda o mundo a se dar conta dos seus males, eis Francisco que nos fala de um 'povo teóforo', portador de Deus".

A referência é, nesse caso, aos lampedusanos, que, vivendo a sua vida, interpretaram humanamente os versículos de Mateus 25: "Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era forasteiro e me hospedastes, nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e fostes me ver".

Com essas palavras, segundo o historiador, o Papa Bergoglio "disse que a tarefa da Igreja no espaço público não é o de manifestar a sua força. Basta ver o que aconteceu com o episódio do casamento homossexual na França. O fato de que Francisco não tenha falado a respeito não significa que ele aprove ou que não tenha ideia do que está acontecendo, nem que busque mediações. Ele propõe uma perspectiva completamente diferente, que vê no centro o último, a presença de Cristo nos pobres. Uma presença que julga não o mundo, mas a Igreja. E, ao fazê-lo, o papa – observa Melloni – faz uma operação doutrinal prodigiosa".

O papa, explica o estudioso, "não diz: 'Sigam o direito natural e ao menos considerem Deus como hipótese, vejam que as coisas na sociedade vão melhorar'. Ao contrário, ele diz que há um poder evangélico que se manifesta lá onde é exercida a custódia do pobre. E é lá que a Igreja encontra o seu sentido. O papa vai em busca do povo descrito em Mateus 25, não só os cristãos ou aqueles que ajudam como cristãos".

Para o professor Melloni seria equivocado se concentrar apenas no problema da imigração: "A Igreja é penitente diante do seu Senhor. O papa reconhece que há, lá fora, no tempo, na vida de cada dia, realidades que dizem o Evangelho à própria Igreja. É a doutrina conciliar dos 'sinais dos tempos', isto é, as coisas que nos falam do Evangelho. Pessoalmente, considero o discurso de Lampedusa como uma encíclica programática de pontificado".

sábado, 27 de julho de 2013

O que o Papa Francisco trouxe até agora de novo



Para encerrar esta JMJ, escolhemos as palavras otimistas de Leonardo Boff sobre o papa Francisco e seus reflexos na Igreja. Que sejam proféticas...

É arriscado fazer um balanço do pontificado de Francisco pois o tempo decorrido não é suficiente para termos uma visão de conjunto. Numa espécie de leitura de cego que capta apenas os pontos relevantes, poderíamos elencar alguns pontos.

1.Do inverno eclesial à primavera: saímos de dois pontificados que se caracterizaram pela volta à grande disciplina e pelo controle das doutrinas. Tal estratégia criou uma espécie de inverno que congelou muitas iniciativas. Com o Papa Francisco, vindo de fora da velha cristandade europeia, do Terceiro Mundo, trouxe esperança, alívio, alegria de viver e pensar a fé crista. A Igreja voltou a ser um lar espiritual.

2.De uma fortaleza à uma casa aberta: Os dois Papas anteriores passaram a impressão de que a Igreja era uma fortaleza, cercada de inimigos contra os quais devíamos nos defender, especialmente o relativismo, a modernidade e a pós-modernidade. O Papa Francisco disse claramente: “quem se aproxima da Igreja deve encontrar as portas abertas e não fiscais da afândega da fé; “é melhor uma Igreja acidentada porque foi à rua do que uma Igreja doente e asfixiada porque ficou dentro do templo”. Portanto mais confiança que medo.

3.De Papa a bispo de Roma: Todos os Pontífices anteriores se entendiam como Papas da Igreja universal, portadores do supremo poder sobre todos as demais igrejas e fiéis. Francisco prefrere se chamar bispo de Roma, resgatando a memória mais antiga da Igreja. Quer presidir na caridade e não pelo direito canônico, sendo apenas o primeiro entre iguais. Recusa o título de Sua Santidade, pois diz que “somos todos irmãos e irmãs”. Despojou-se de todos os títulos de poder e honra. O novo Anuário Pontifício que acaba de sair cuja página inicial deveria trazer o nome do Papa com todos os títulos, agora aparece apenas assim: Francesco, bispo de Roma.

4.Do palácio à hospedaria: O nome Francisco é mais que nome; sinaliza um outro projeto de Igreja na linha de São Francisco de Assis: “uma Igreja pobre para os pobres” como disse, humilde, simples, com “cheiro de ovelhas” e não de flores de altar. Por isso deixou o palácio papal e foi morar numa hospedaria, num quarto simples e comendo junto com os demais hóspedes.

5.Da doutrina à prática: Não se apresenta como doutor mas como pastor. Fala a partir da prática, do sofrimento humano, da fome do mundo, dos imigrados da África, chegados à ilha de Lampedusa. Denuncia o fetichismo do dinheiro e o sistema financeiro mundial que martiriza inteiros países. Desta postura resgata as principais intuições da teologia da libertação, sem precisar citar o nome. Diz:”atualmente, se um cristão não é revolucionário, não é cristão; deve ser revolucionário da graça”. E continua:”é uma obrigação para o cristão envolver-se na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade”. E disse à Presidenta Cristina Kirchner:”é a primeira vez que temos um Papa peronista” pois nunca escondeu sua predileção pelo peronismo. Os Papas anteriores colocavam a política sob suspeita, alegando a eventual ideologização da fé.

6.Da exclusividade à inclusão: Os Papas anteriores enfatizaram, especialmento Bento XVI a exclusividade da Igreja Católica, a única herdeira de Cristo fora da qual corre-se risco de perdição. O Francisco, bispo de Roma, prefere o diálogo entre as Igrejas numa perspectiva de inclusão, também com as demais religiões no sentido de reforçar a paz mundial.

7. Da Igreja ao mundo: Os Papas anteriores davam centralidade à Igreja reforçando suas instituições e doutrinas. O Papa Francisco coloca o mundo, os pobres, a proteção da Terra e o cuidado pela vida como as questões axiais. A questão é: como as Igrejas ajudam a salvaguardar a vitalidade da Terra e o futuro da vida?

Como se depreende, são novos ares, nova música, novas palavras para velhos problemas que nos permitem pensar numa nova primavera da Igreja.

Leonardo Boff é teólogo e autor de Francisco de Assis e Francisco de Roma, Editora Mar de Ideias, Rio 2013.
Fonte: Blog do autor

quarta-feira, 24 de julho de 2013

"Onde estás? Onde está o sangue do teu irmão?"


No início de julho, o Papa Francisco visitou a cidade de Lampedusa, no sul da Itália, "uma das principais rotas de entrada de refugiados do Norte da África em direção à Europa. A costa do Mediterrâneo naquela região é digna de uma versão contemporânea do inferno de Dante. Nos poucos mais de 100 quilômetros de mar que dividem a Europa do Norte da África já morreram milhares de pessoas. A maioria delas em função dos naufrágios das precárias embarcações, mas parte faleciam por falta de água e comida, enquanto ficavam à deriva no mar" (saiba mais aqui).

"Em Lampedusa começa o pontificado de Francisco. Não em ordem cronológica, mas de importância e significação de seu ato (
kairós). Lampedusa é a primeira “encíclica” de Francisco. Não é uma encíclica escrita, mas uma encíclica em ato, em gestos. Nesta encíclica, “o ministério petrino se despe das suas vestes monárquicas para se tornar encontro com a pessoa humana”, como diz Christian Albini.

Esta encíclica é diferente da outra, a
Lumen Fidei, escrita por Ratzinger, mas, na caridade, assumida por Francisco, para, de acordo com Marco Politi ser “enviada para ser impressa e enterrá-la”. A de Lampedusa, ao contrário, tem a sua cara. Nela palpita seu coração. Nela transparece e reluz o seu programa" (leia uma análise aprofundada da viagem de Francisco a Lampedusa e suas implicações para o atual momento da Igreja aqui).

A missa, presidida pelo papa, foi celebrada depois de Francisco, acompanhado por barcos de pescadores de Lampedusa, ter jogado no mar uma coroa de crisântemos seguido de uma profunda e emociante oração silenciosa, em memória dos emigrantes que morreram no Mediterrâneo, na entrada da Europa.

Na missa, o altar, o cálice e o báculo do Papa foram feitos com restos de madeira que sobraram dos barcos naufragados. Sim, o Papa, no meio dos emigrantes, usou um báculo de madeira. Algo raro na história.

Eis a homilia, que reproduzimos aqui via IHU.


Emigrantes mortos no mar; barcos que em vez de ser uma rota de esperança, foram uma rota de morte. Assim recitava o título dos jornais. Desde há algumas semanas, quando tive conhecimento desta notícia (que infelizmente se vai repetindo tantas vezes), o caso volta-me continuamente ao pensamento como um espinho no coração que faz doer. E então senti o dever de vir aqui hoje para rezar, para cumprir um gesto de solidariedade, mas também para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu. Que não se repita, por favor.

Antes, porém, quero dizer uma palavra de sincera gratidão e encorajamento a vós, habitantes de Lampedusa e Linosa, às associações, aos voluntários e às forças de segurança, que tendes demonstrado – e continuais a demonstrar – atenção por pessoas em viagem rumo a qualquer coisa de melhor. Sois uma realidade pequena, mas ofereceis um exemplo de solidariedade! Obrigado! Obrigado também ao Arcebispo Dom Francesco Montenegro pela sua ajuda, o seu trabalho e a sua solidariedade pastoral. Saúdo cordialmente a Presidente da Câmara Senhora Giusi Nicolini, muito obrigado por aquilo que fez e faz. Desejo saudar os queridos emigrantes muçulmanos que hoje, à noite, começam o jejum do Ramadã, desejando-lhes abundantes frutos espirituais. A Igreja está ao vosso lado na busca de uma vida mais digna para vós e vossas famílias. A vós digo: oshià!

Nesta manhã quero, à luz da Palavra de Deus que escutamos, propor algumas palavras que sejam sobretudo uma provocação à consciência de todos, que a todos incitem a reflectir e mudar concretamente certas atitudes.

"Adão, onde estás?": é a primeira pergunta que Deus faz ao homem depois do pecado. "Onde estás, Adão?". E Adão é um homem desorientado, que perdeu o seu lugar na criação, porque presume que vai tornar-se poderoso, poder dominar tudo, ser Deus. E quebra-se a harmonia, o homem erra; e o mesmo se passa na relação com o outro, que já não é o irmão a amar, mas simplesmente o outro que perturba a minha vida, o meu bem-estar. E Deus coloca a segunda pergunta: "Caim, onde está o teu irmão?" O sonho de ser poderoso, ser grande como Deus ou, melhor, ser Deus, leva a uma cadeia de erros que é cadeia de morte: leva a derramar o sangue do irmão!

Estas duas perguntas de Deus ressoam, também hoje, com toda a sua força! Muitos de nós – e neste número me incluo também eu – estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como aquela a que assistimos.

"Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim", diz o Senhor Deus. Esta não é uma pergunta posta a outrem; é uma pergunta posta a mim, a ti, a cada um de nós. Estes nossos irmãos e irmãs procuravam sair de situações difíceis, para encontrarem um pouco de serenidade e de paz; procuravam um lugar melhor para si e suas famílias, mas encontraram a morte. Quantas vezes outros que procuram o mesmo não encontram compreensão, não encontram acolhimento, não encontram solidariedade! E as suas vozes sobem até Deus! Uma vez mais vos agradeço, habitantes de Lampedusa, pela solidariedade. Recentemente falei com um destes irmãos. Antes de chegar aqui, passaram pelas mãos dos traficantes, daqueles que exploram a pobreza dos outros, daquelas pessoas para quem a pobreza dos outros é uma fonte de lucro. Quanto sofreram! E alguns não conseguiram chegar.

"Onde está o teu irmão?" Quem é o responsável por este sangue? Na literatura espanhola, há uma comédia de Félix Lope de Vega, que conta como os habitantes da cidade de Fuente Ovejuna matam o Governador, porque é um tirano, mas fazem-no de modo que não se saiba quem realizou a execução. E, quando o juiz do rei pergunta "quem matou o Governador", todos respondem: "Fuente Ovejuna, senhor". Todos e ninguém! Também hoje assoma intensamente esta pergunta: Quem é o responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs? Ninguém! Todos nós respondemos assim: não sou eu, não tenho nada a ver com isso; serão outros, eu não certamente. Mas Deus pergunta a cada um de nós: "Onde está o sangue do teu irmão que clama até Mim?"

Hoje ninguém no mundo se sente responsável por isso; perdemos o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do levita de que falava Jesus na parábola do Bom Samaritano: ao vermos o irmão quase morto na beira da estrada, talvez pensemos "coitado" e prosseguimos o nosso caminho, não é dever nosso; e isto basta para nos tranquilizarmos, para sentirmos a consciência em ordem.

A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolhas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!

Reaparece a figura do "Inominado" de Alexandre Manzoni. A globalização da indiferença torna-nos a todos "inominados", responsáveis sem nome nem rosto.

"Adão, onde estás?" e "onde está o teu irmão?" são as duas perguntas que Deus coloca no início da história da humanidade e dirige também a todos os homens do nosso tempo, incluindo nós próprios. Mas eu queria que nos puséssemos uma terceira pergunta: "Quem de nós chorou por este facto e por factos como este?"

Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por estas pessoas que vinham no barco? Pelas mães jovens que traziam os seus filhos? Por estes homens cujo desejo era conseguir qualquer coisa para sustentar as próprias famílias? Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de "padecer com": a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar!

No Evangelho, ouvimos o brado, o choro, o grande lamento: "Raquel chora os seus filhos (...), porque já não existem". Herodes semeou morte para defender o seu bem-estar, a sua própria bolha de sabão. E isto continua a repetir-se... Peçamos ao Senhor que apague também o que resta de Herodes no nosso coração; peçamos ao Senhor a graça de chorar pela nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada aos dramas como este. "Quem chorou?" Quem chorou hoje no mundo?

Senhor, nesta Liturgia, que é uma liturgia de penitência, pedimos perdão pela indiferença por tantos irmãos e irmãs; pedimo-Vos perdão, Pai, por quem se acomodou e se fechou no seu próprio bem-estar que leva à anestesia do coração; pedimo-Vos perdão por aqueles que, com as suas decisões a nível mundial, criaram situações que conduzem a estes dramas. Perdão, Senhor!

Senhor, fazei que hoje ouçamos também as tuas perguntas: "Adão, onde estás? Onde está o sangue do teu irmão?"

Que o papa que nos convida a não ter medo de renovar as estruturas da Igreja nos inspire, a cada um de nós e a todos os nossos irmãos, a assumir a responsabilidade cristã perante a dor do outro. E que nossa Igreja se inspire, assim, a assumir sua responsabilidade cristã de ir ao encontro de cada irmão LGBT que sofre, que se vê excluído e marginalizado, e abra os braços para acolhê-lo, como o Pai amoroso, no calor do seu coração.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Boas-vindas ao Papa Chico


Querido papa Francisco, o povo brasileiro o espera de braços e coração abertos. Graças à sua eleição, o papado adquire agora um rosto mais alegre.

O senhor incutiu em todos nós renovadas esperanças na Igreja Católica ao tomar atitudes mais próximas ao Evangelho de Jesus que às rubricas monárquicas predominantes no Vaticano: uma vez eleito, retornou pessoalmente ao hotel de três estrelas em que se hospedara em Roma, para pagar a conta; no Vaticano, decidiu morar na Casa Santa Marta, alojamento de hóspedes, e não na residência pontifícia, quase um palácio principesco; almoça no refeitório dos funcionários e não admite lugar marcado, variando de mesa e companhias a cada dia; mandou prender o padre diretor do banco do Vaticano, envolvido em falcatrua de 20 milhões de euros.

Em Lampedusa, onde aportam os imigrantes africanos que sobrevivem à travessia marítima (na qual já morreram 20 mil pessoas) e buscam melhores condições de vida na Europa, o senhor criticou a “globalização da indiferença” e aqueles que, no anonimato, movem os índices econômicos e financeiros, condenando multidões ao desemprego e à miséria.

Um Brasil diferente o espera. Como se Deus, para abrilhantar ainda mais a Jornada Mundial da Juventude, tivesse mobilizado os nossos jovens que, nas últimas semanas, inundam nossas ruas, expressando sonhos e reivindicações. Sobretudo, a esperança em um Brasil e um mundo melhores.

É fato que nossas autoridades eclesiásticas e civis não tiveram o cuidado de deixá-lo mais tempo com os jovens. Segundo a programação oficial, o senhor terá mais encontros com aqueles que ora nos governam ou dirigem a Igreja no Brasil do que com aqueles que são alvos e protagonistas dessa jornada.

Enquanto nosso povo vive um momento de democracia direta nas ruas, os organizadores de sua visita cuidam de aprisioná-lo em palácios e salões. Assim como seus discursos sofrem, agora, modificações em Roma para estarem mais afinados com o clamor da juventude brasileira, tomara que o senhor altere aqui o programa que lhe prepararam e dedique mais tempo ao diálogo com os jovens.

Não faz sentido, por exemplo, o senhor benzer, na prefeitura do Rio, as bandeiras dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. São eventos esportivos acima de toda diversidade religiosa, cultural, étnica, nacional e política.

Por que o chefe da Igreja Católica fazer esse gesto simbólico de abençoar bandeiras de dois eventos que nada têm de religioso, embora contenham valores evangélicos por zerar divergências entre nações e promover a paz? Talvez seja o único momento em que atletas da Coreia do Norte e dos EUA se confraternizarão.

Como nos sentiríamos se elas fossem abençoadas por um rabino ou uma autoridade religiosa muçulmana?

Nos pronunciamentos que fará no Brasil, o senhor deixará claro a que veio. Ao ser eleito e proclamado, declarou à multidão reunida na Praça de São Pedro, em Roma, que os cardeais foram buscar um pontífice “no fim do mundo.”

Tomara que o seu pontificado represente também o início de um novo tempo para a Igreja Católica, livre do moralismo, do clericalismo, da desconfiança frente à pós-modernidade. Uma Igreja que ponha fim ao celibato obrigatório, à proibição de uso de preservativos, à exclusão da mulher do acesso ao sacerdócio.

Igreja que reincorpore os padres casados ao ministério sacerdotal, dialogue sem arrogância com as diferentes tradições religiosas, abra-se aos avanços da ciência, assuma o seu papel profético de, em nome de Jesus, denunciar as causas da miséria, das desigualdades sociais, dos fluxos migratórios, da devastação da natureza.

Os jovens esperam da Igreja uma comunidade alegre, despojada, sem luxos e ostentações, capaz de refletir a face do Jovem de Nazaré, e na qual o amor encontre sempre a sua morada.

Bem-vindo ao Brasil, papa Chico! Se os argentinos merecidamente se orgulham de ter um patrício como sucessor de Pedro, saiba que aqui todos nos contentamos em saber que Deus é brasileiro!

- Frei Betto, via

domingo, 21 de julho de 2013

"Queremos uma nova Igreja!": Carta Aberta de Católicas ao Papa Francisco


Recebemos, na nossa página no Facebook, a carta aberta escrita pelo Católicas pelo Direito de Decidir ao Papa Francisco, por ocasião desta sua visita ao Brasil, e a compartilhamos aqui, para reflexão. Lembrou-nos um pouco outra carta aberta, escrita há uns 2 anos pelo Fórum Europeu LGBT para Bento XVI, que também publicamos aqui.

Queremos saudá-lo, Papa Francisco, como mulheres que, desde a perspectiva da fé, temos a esperança de que profundas mudanças permitam à Igreja apresentar-se ao mundo como essa luz de que fala a Encílica Lumen Fidei, sua primeira carta à comunidade católica.


Esperamos, em primeiro lugar, que a escolha do nome Francisco signifique um programa de renovação das próprias estruturas da Igreja, assim como da sua doutrina, na fidelidade à figura desse homem de Assis que abalou o mundo com sua radicalidade.

Mulheres católicas que somos, queremos viver uma fé que liberte e não condene, ameace ou inspire medo. Respeitamos e admiramos os gestos do novo Papa de simplicidade e acolhimento das pessoas. Por isso, esperávamos que trouxesse à Igreja outros ares, como o fez João XXIII. Que abençoasse todas as famílias, hétero ou homossexuais; que compreendesse que uma experiência positiva da maternidade ou da paternidade não resulta da possibilidade biológica de gerar, mas da capacidade de amar, respeitar e educar uma criança. Foi por isso que, com tristeza, lemos sua primeira carta dirigida ao povo católico reafirmando a união heterossexual como a única expressão do amor verdadeiro. Quando a Igreja vai se abrir à realidade da diversidade das formas de amor e de expressão da sexualidade humana? Quando compreenderá que existe um imenso universo de possibilidades de realizar-se como ser humano?

Queremos uma nova Igreja. Uma Igreja na qual as mulheres sejam reconhecidas por si mesmas, em seu direito à autonomia na condução de suas vidas. Que sejam reconhecidas como animadoras de comunidades, com pleno acesso ao exercício do sacerdócio e às instâncias decisórias da instituição. Uma Igreja que valorize as comunidades religiosas femininas que evangelicamente se inseriram nos setores mais pobres de nosso país. E que elas sejam respeitadas, admiradas por sua audácia e generosidade. Queremos uma Igreja na qual o celibato não seja uma obrigação e a direção das comunidades seja decisão das e dos fiéis.

Queremos uma nova moral relativa à sexualidade e à reprodução humana que reconheça o valor moral da decisão de mulheres católicas pela interrupção de uma gravidez. Dados de pesquisas indicam que são católicas, em sua maioria, as mulheres que abortam em nosso país. Que elas possam fazê-lo não apesar de sua fé, mas apoiadas nela, com a certeza de que Deus as compreende, como se expressou uma delas após a realização de um aborto. A manutenção da ilegalidade tem levado milhares de mulheres à morte. As nossas vidas tem sido utilizadas politicamente como moeda de troca, para garantir maioria eleitoral. É contra essa situação que a Igreja deve lutar. Essa é a luta a favor da vida que a Igreja deve abraçar.

Queremos, sim, uma nova igreja, que abandone as ambições de poder e riqueza e se mostre audaz no compromisso com sua renovação interna e com a justiça social e a paz. E que a bênção dada pelo povo ao Papa Francisco na Praça de São Pedro, no dia de sua escolha como chefe espiritual da Igreja, o acompanhe, ilumine e fortaleça em sua missão.

Equipe de Católicas pelo Direito de Decidir

terça-feira, 16 de julho de 2013

"Uma revolução latino-americana no Vaticano"

Fonte: Facebook

"Enquanto os votos da quinta rodada são apurados, a esperança dos cardeais da Cúria afunda a olhos vistos. 'Bergoglio, Bergoglio, Bergoglio', ressoa novamente pela Capela Sistina. Tarcisio Bertone simplesmente não pode entender." Quem revela o clima da votação que elegeu Francisco é o jornalista Andreas Englisch, em entrevista publicada dia 14/07 no Estado de S. Paulo.

Vaticanista há 25 anos, ele escreveu sobre João Paulo II, Bento XVI e, agora, traz Francisco - o papa dos humildes (ed. Universo dos Livros, R$ 39,90). Na obra, bastidores do conclave, como o desespero da Cúria com a eleição do papa argentino, e as mudanças já percebidas nos corredores do Vaticano.

Os cardeais escolheram um "papa forte". O interesse da Cúria, liderada pelo cardeal Tarcisio Bertone, seria por outro papa apolítico, tal qual Bento XVI?

Exatamente. João Paulo II tomou o poder da Cúria. Bento XVI devolveu. Por seu perfil, Bergoglio era o pesadelo da Cúria durante a eleição. Ele é completamente anticúria.

Francisco abriu mão do palácio para viver em uma suíte da Casa Santa Marta. Mais do que evitar o luxo, o senhor diz que foi uma estratégia para saber tudo o que ocorre no Vaticano. É um sinal de que a Cúria perdeu o poder?

Sim. Tenho certeza de que nunca nenhum outro papa conseguiu reduzir o poder da Cúria tão drasticamente como Francisco. Ele quebrou a estrutura de isolamento. A Cúria sabe que pode controlar qualquer papa, desde que ele esteja isolado do restante da Igreja.

Havia uma expectativa de que Francisco mudasse de imediato a estrutura da Cúria. Ele já não deveria ter feito isso, a começar pela demissão de Bertone?

Ele precisa demitir Bertone, mas Bergoglio é muito inteligente. Sabe que ninguém espera mudanças drásticas no Vaticano. Por isso, criou uma comissão com oito cardeais. Se decide com o aval e a participação da comissão, terá respaldo para outras decisões difíceis.

Na mídia, durante o conclave, Bergoglio não aparecia na lista de favoritos. Para os cardeais sua vitória também foi surpresa?

Para entender isso, é preciso considerar que Bergoglio foi eleito porque os cardeais estavam completamente aborrecidos com o péssimo trabalho da Cúria, o que inclui o escândalo do banco do Vaticano.

O senhor diz que Bento XVI era um admirador de Bergoglio. Será que ele imaginava que teria o argentino como sucessor?

Tenho certeza de que não. Bento XVI não sabia o quão mal avaliados estavam seu governo e sua Cúria. Ele nunca imaginou que a ira dos cardeais estivesse tão grande a ponto de escolherem pela revolução. Bergoglio era o pesadelo da Cúria. Nenhum outro cardeal foi tão maltratado como ele durante seu tempo em Buenos Aires. Uma das críticas era porque enviava os melhores padres para os pobres e não para as paróquias ricas da cidade.

Como você avalia a primeira encíclica de Francisco? Teólogos dizem que o texto foi totalmente escrito por Bento XVI.

Francisco foi instado a publicar a encíclica de Ratzinger. Não teve outra opção, senão permitir que sua primeira encíclica, a primeira declaração do que ele pensa sobre a fé, fosse escrita por Bento XVI. Ele foi gentil e a publicou com o seu nome, mas a fé não é o ponto principal para Francisco. Ele não acredita que se encontra Deus lendo livros sobre a fé. Para ele, se encontra Cristo ajudando os pobres, os doentes e as pessoas desesperadas.

Como você vê as mudanças no banco do Vaticano, como a prisão de um padre e a demissão de um diretor?

Por décadas, bispos e padres, mesmo quando culpados, eram protegidos pelo Vaticano. Exemplo: o cardeal americano Bernard Law, de Boston, ganhou um passaporte do Vaticano para escapar da Justiça dos EUA (ele é acusado de encobrir casos de pedofilia). Mas Francisco disse ao governo italiano que isso acabou. Agora, o Vaticano vai ajudar a encontrar os sacerdotes culpados.

Francisco prega uma "Igreja pobre para os pobres". O que ele já fez em direção a isso?

Fez a coisa certa: disse à Igreja que o tempo de não fazer nada, apenas de estudar e rezar, acabou. Para ele, é desnecessário dizer a alguém no que acreditar e como se comportar, se essa pessoa está desesperadamente com fome. Primeiro a ajude, depois fale sobre Deus.

A Cúria repreendeu o papa por lembrar o "suntuoso Vaticano que tudo começou com o pobre Jesus de Nazaré", como o senhor diz no livro?

A Cúria não tem qualquer influência sobre ele. Isso ficou claro quando se recusou a ir a um concerto de gala no Vaticano. Toda a Cúria foi, mas ele declarou que não gosta de compromissos da sociedade elegante. Acontece agora uma revolução latino-americana no Vaticano, em que as famílias europeias aristocráticas não são melhores do que as outras.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...