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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Para sempre


A liturgia, na sequência do Tempo Pascal, faz questão de celebrar na semana depois da Santíssima Trindade, uma grande festa da Eucaristia: a festa do Cristo que se dá em alimento para a felicidade de seus irmãos.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Festa do Corpo e Sangue de Cristo (quinta-feira, 19 de Junho de 2014). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências:
1ª leitura: Deuteronômio 8,2-3.14-16
2ª leitura: 1Coríntios 10,16-17
Evangelho: João 6,51-58

Para além do rito

Seja na 1ª leitura, que fala do maná e da água do rochedo, seja na Carta de Paulo ou no capítulo 6 de João, em nenhum lugar encontramos a ideia de «adoração do Santo Sacramento». O pão e o vinho da Eucaristia não estão aí para serem olhados, mas para serem compartilhados e consumidos. Repetindo, a presença de Deus e do Cristo é «presença real» e permanente, em todas as coisas. Presença esta que se torna eficaz, operativa em nós, quando aceitamos nos reunir, fazendo-nos um só, em seu nome (Mateus 18,20). É isto mesmo o que se passa quando fazemos a Eucaristia, mas devemos compreender que o «sacramento» significa, convoca e sustém o que temos que viver por todo o tempo. O «fazei isto em memória de mim» não se refere apenas a um rito, mas à reprodução ao longo de nossas existências do dom de si mesmo que o Cristo nos fez. Que fique bem entendido, este dom da nossa vida para os irmãos não assume sempre a forma de uma paixão corporal e sangrenta, mas sempre passa pela crucifixão dos nossos egoísmos e das nossas vontades de possuir e dominar. Uma descoberta a ser feita: a alegria incomparável de uma nova vida que vem habitar todos os que escolhem reproduzir da forma que for a atitude doCristo «dando sua vida pelos seus amigos». Por isso a forma ritual da memória da Paixão e Ressurreição do Cristotoma o nome de «Eucaristia», ou seja, «ação de graças».

Mas, então, por que o rito, o "sacramento"?

Esta questão se põe, de fato, e explica um pouco porque hoje muitos crentes desertam de nossas Eucaristias. Quando alguém aceita passar por algum detrimento para que outro possa viver, o Cristo está aí, mesmo se não é nomeado e, até mesmo, no limite, se sequer é conhecido. Este exatamente é o caso da viúva de Marcos 12,41-44: deu para o Templo «tudo o que tinha para viver». Sim, talvez pudesse encontrar melhor destinatário, mas na verdade também o Templo é uma figura do Corpo do Cristo. Muitas são as razões para a celebração do sacramento, sejam quais forem. Primeiro, o que o Cristo fez na última Ceia traz já um caráter ritualístico: através da partilha do pão e do vinho, significando o dom de sua carne e do seu sangue, é que o fato se dá. É uma antecipação que vai tornar os discípulos parte interessada nos acontecimentos da Páscoa. Já para nós que viemos depois esta antecipação dá lugar a uma re-atualização, mas, por ela, também nós seremos integrados ao dom da sua vida que o Cristo nos fez. O rito é a linguagem, a proclamação pública do que consideramos primordial e que temos de fazer o mundo saber, pois que se refere também a ele, bem entendido. Mas é preciso acrescentar que o desprezo ao mandamento doCristo, ao «fazei isto em memória de mim», no que se refere também ao rito, nos destina ao esquecimento (que é o contrário da memória). Ao fim de certo tempo, a Páscoa, o Evangelho e o próprio Cristo acabam saindo das nossas vidas e dos nossos espíritos.

"Eu sou o pão da vida vindo do céu"

Tem mais: a convergência dos crentes para celebrar o sacramento significa a sua unidade. E ela mesma produz esta unidade. Lembremos que, para santo Agostinho, o corpo que põe no mundo o sinal sacramental (todo sacramento é «sinal sensível») é, enfim, este corpo que chamamos de Igreja. A eficácia do sacramento não é mágica: ela se faz pela nossa adesão livre ao dom de si mesmo que o Cristo nos faz, entregando-nos a sua vida. «Nós comemos deste pão.» Isto que Jesus fez na Páscoa torna-se a nossa Sabedoria, a nossa «filosofia», a nossa razão de viver. E se nos rendemos à Missa, é porque esta escolha do amor não vem de nós mesmos: não podemos produzir este pão porque ele não vem da terra. Na linguagem bíblica (1ª leitura e evangelho) se diz que ele «vem do céu», ou seja, desta presença que, mesmo se inacessível aos nossos sentidos, nos envolve, nos habita e nos faz existir. Este “outro” do mundo, de nós mesmos e de tudo o que podemos produzir abre as nossas vidas, arranca-nos das nossas escravidões, das nossas solidões e dos nossos fechamentos em nós mesmos. Da fé neste «outro lugar» e neste «outro modo de ser» é que nasce a esperança. E aqui estamos nós, abertos que estamos já, e em condições de encarnar o amor que nos faz ser. O pão e o vinho que recebemos permitem que nos tornemos no pão que, por nossa vez, podemos dar também. Assim o «pão do céu» pode tornar-se o pão da terra.

Fonte

domingo, 8 de junho de 2014

Pentecostes: o perdão para recriar o mundo


O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do Domingo de Pentecostes – Ciclo A do Ano Litúrgico (08 de junho de 2014). A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 2,1-11
Segunda leitura: 1 Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

Eis o texto.


O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas, em particular em João: “Tudo está realizado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30).

No mistério pascal, todos os elementos desse mistério – a Morte, a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes – são tão importantes que os primeiros cristãos fizeram deles acontecimentos distintos separados no tempo: três dias para a Ressurreição, 40 dias para a Ascensão e 50 dias para o Pentecostes. Mas, na realidade, trata-se de um mesmo e único acontecimento teológico que nos fala simultaneamente de Deus, do homem, de Cristo e da Igreja. Não há, portanto, contradições entre os escritos e seus autores; encontramos simplesmente maneiras diferentes de descrever a riqueza do mistério cristão.

Desde o início do tempo pascal, nós lemos os relatos da Páscoa e da Ascensão. Hoje, celebramos o Pentecostes, a festa do Espírito de Cristo, o Espírito de Deus, a festa da Igreja. O que nos dizem os textos bíblicos que a Igreja nos propõe hoje?

1. Atos dos Apóstolos 2,1-11

Neste texto de Lucas, sobre o dom do Espírito Santo dado aos apóstolos reunidos, o autor não procura descrever um acontecimento material e histórico que aconteceu num dado momento da história da Igreja nascente. O fato de que Lucas tenha escolhido compor seu relato por meio de uma série de alusões ao Antigo Testamento, pode desviar a nossa atenção para uma leitura de tipo histórico, que procurasse determinar como as coisas se passaram. Devemos, ao contrário, compreender as mensagens que Lucas quer dar à sua comunidade sobre o papel e a força do Espírito:

1) O Pentecostes judaico celebrava o dom da Lei ao Povo de Israel, o povo da antiga Aliança. O Pentecostes cristão celebra o dom do Espírito ao novo Povo de Deus, a Igreja, o povo da nova Aliança.

2) Assim como Moisés subiu ao Sinai para dar ao povo a Lei de Deus, Cristo subiu ao céu para derramar o Espírito de Deus, o Espírito da nova Aliança.

3) Assim como para Moisés o barulho do trovão e o fogo das luzes acompanham o dom da Lei de Deus, aqui o barulho, o vento e o fogo acompanham a vinda do Espírito Santo.

4) No Sinai, de acordo com tradições judaicas, Deus propôs os mandamentos nas diversas línguas do mundo, mas apenas Israel os aceitou. No livro dos Atos dos Apóstolos, Deus repara esse fracasso: todas as nações compreendem a linguagem do Espírito: “Cheios de espanto e de admiração, diziam: ‘Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?’” (At 2,7-8)

5) No Antigo Testamento, as 12 tribos de Israel estão reunidas para ouvir Moisés. Aqui, os 12 povos são chamados para ouvir os 12 apóstolos investidos pelo Espírito do Cristo, proclamar as maravilhas de Deus: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11b)

Em suma, este relato de Lucas é o inverso de Babel, é a abertura à universalidade e o sopro do Espírito da nova Aliança que abole as fronteiras; não há mais exclusão nem rejeição.

2. 1 Cor 12,3b-7.12-13

Os coríntios acreditavam que o dom do Espírito Santo estava reservado a uma elite. Eles só reconheciam sua presença no sensacional, nos cristãos que tinham o dom de falar em línguas e, particularmente, naqueles que eram eloquentes na animação das assembleias. Paulo quer, aqui, restabelecer a realidade do Espírito Santo:

1) Todo fiel que proclamar que “Jesus é o Senhor” (1 Cor 12,3), é habitado pelo Espírito Santo. Portanto, o mais humilde e o menor dos batizados também recebeu o Espírito Santo.

2) O Espírito, o Senhor e Deus são inseparáveis. Sem mesmo chamá-lo pelo nome, Paulo nos fala da Trindade que se dispensa em carismas: dons da graça, mas o Espírito é o mesmo (v. 4), dons dos serviços na Igreja, mas o Senhor é o mesmo (v. 5) e dons das atividades, mas é o mesmo Deus que as realiza (v. 6). O Espírito põe, portanto, todos os fiéis a agir, cada um segundo seus carismas, em vista do bem de todos (v. 7).

3) Esta unidade na diversidade Paulo a exprime através de uma fábula, conhecida na sua época, sobre o corpo e seus membros, para significar que todos os cristãos, em sua diversidade, pertencem ao mesmo corpo, o Corpo do Cristo ressuscitado. Esta pertença transcende as clivagens étnicas: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1 Cor 12,13).

3. João 20,19-23

Para João, é na noite da Páscoa que o Espírito Santo é dado aos discípulos reunidos. Que mensagens podemos tirar dessa passagem bíblica?

1) O medo: os discípulos têm medo, eles são fracos, eles se sentem abandonados. As portas estão trancadas. Apesar disso, Jesus se apresenta a eles (v. 19). É, portanto, na humanidade dos discípulos que Cristo se faz presente.

2) A Paz: duas vezes Cristo oferece a sua paz (vv. 19.21). Mas, por que esta insistência? O sentido bíblico da palavra paz não é a ausência de guerra ou de conflitos; é a plenitude de vida que lembra a presença do Ressuscitado (cf. TOB, Lc 1,79 nota J). É, portanto, a sua Vida de Ressuscitado que Cristo dá aos seus discípulos. É uma promessa de Ressurreição também para eles.

3) A Alegria: João sublinha que o Ressuscitado da Páscoa é o Crucificado da Sexta-Feira Santa: “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20a). O evangelista não quer dizer que se trata do cadáver de Jesus reanimado; o Ressuscitado se apresenta como aquele que fica para sempre marcado por sua humanidade, aquele que, pela cruz, testemunhou o Amor infinito de Deus. Do seu lado aberto nasceu a Igreja, ápice do sangue da Vida nova e da água viva do Espírito. Esta é a Alegria pascal experimentada pelos discípulos reunidos na noite da Páscoa.

4) O perdão: o sopro do Cristo sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, para que advenha um mundo novo. Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: é o perdão. Deus deve, em primeiro lugar, apagar a nossa história passada, derramando sobre nós o sopro do perdão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo e é com toda a liberdade que nós podemos fazê-lo ou recusá-lo. Que responsabilidade!

Para terminar, é uma missão que nos é confiada: nós temos a responsabilidade de fazer nascer o mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa. Esta missão é confiada a todos os cristãos em geral e, em particular, aos padres no ministério do perdão. É, portanto, pela nossa abertura ao outro, pela nossa acolhida da sua diferença que nós testemunhamos o Cristo ressuscitado e que nós trabalhamos para fazer nascer esse mundo novo. O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos. O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.

Bom Pentecostes!

Fonte

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um grande mestre e aliado se vai


Faleceu no dia 30 de janeiro o padre João Batista Libânio, SJ, mestre e doutor em Teologia e teólogo da libertação. Sua obra lhe rendeu uma legião de admiradores dentro de fora da Companhia de Jesus, dos quais alguns criaram o site http://jblibanio.com.br, reunindo importantes materiais do teólogo, conforme nota publicada no jornal O Globo. Sua morte foi lamentada pelo Papa Francisco, segundo quem "Libânio fez muito bem à Igreja e à Vida Consagrada” (aqui) Leonardo Boff referiu-se a ele como seu "amigo-irmão", que "morreu de pé, vela acesa" (aqui).
 
Professor de Teologia no Instituto Santo Inácio de Belo Horizonte, o Pe. Libânio teve entre seus alunos alguns importantes aliados nossos aqui no Brasil, como, por exemplo, James Alison. Embora durante um bom tempo tivesse mantido as concepções dominantes da doutrina católica em relação aos homossexuais, com a convivência ele se abriu a novas perspectivas, a ponto de ter escrito o prefácio do livro do Pe. Alison sobre a relação entre LGBTs e Igreja, "Fé além do ressentimento", que reproduzimos na íntegra aqui e da qual selecionamos alguns trechos a seguir.

Um grande teólogo, sem dúvida. Fará imensa falta. Que possa seguir intercedendo por nós junto ao Pai, e que sirva de inspiração a outros para seguirem seus passos pelos caminhos que abriu.



(...) Evita gerar no leitor extremos do sentimento de rejeição da condição gay ou de compaixão pela vítima ou de revolta contra o sistema social ou contra a máquina eclesiástica. Atravessam-lhe a obra transparência e honestidade do relato. Em qualquer situação existencial, gay ou não, o leitor se toca. A pessoa gay certamente encontra uma palavra de libertação, não pela via barata da contestação, mas por honesto processo reestruturante interno, baseado fundamentalmente na ação criativa e bondosa de Deus e apoiado por inúmeras passagens da Escritura feita em voz gay.

(...) Não se trata de fazer das pessoas gays vítimas e cerrar fileiras ao seu lado contra o aparato eclesiástico, nem também de posicionar-se como defensor deste em nome da lei e da norma, sem alcançar o espírito íntimo do cristianismo.

(...) Ressentimento não se supera com luta, com batalhas contra ou em defesa de alguma posição julgada errada tanto pelos que rejeitam o mundo homossexual quanto pelos que o defendem. Não vai por aí. Mesmo o mais intransigente inquisidor se sente tocado e questionado pelo livro. Solapa-lhe a base inquisitorial.

(...) A libertação vem da dupla experiência de sentir-se filho amado de Deus e de poder dizer “nós” numa comunidade de irmãos em Igreja, sinal de um Reino apenas imaginável.

O discurso eclesiástico, que considera algum grupo de pessoa como “os outros”, separando-os do corpo eclesial, gera vítimas. Deus criador de todos, a quem ama incondicionalmente e que nos fala como a irmãos em seu Filho Jesus, refuga os mecanismos geradores da exclusão em nome da inclusão querida por ele.

(...) A verdadeira natureza de Deus se descobre não por meio da verticalidade de uma paternidade que se impõe, mas pela horizontalidade de uma fraternidade que se vive. Essa ideia volta sob muitos aspectos como fundamental da leitura cristã de Deus.

(...) No decorrer do livro, o leitor detecta como muitas atitudes e escritos eclesiásticos não respondem a gestos, palavras e atitudes de Jesus. Alison o mostra por fidelidade à mensagem evangélica e não em nome de algum confronto. Um dos pontos fundamentais dessa obra consistiu em pensar teologicamente em voz gay, sem ressentimento nem proselitismo, mas de maneira serena, fina e profunda. Se há algo duro, não vem do discurso, mas da própria objetividade da realidade.

(...) A todo o texto preside a convicção vivida de que o amor de Deus excede a todo desenho humano e não há diferença que esteja fora do longo e amoroso olhar de Deus.


Leia o prefácio do Pe. Libânio para o livro "Fé além do ressentimento" na íntegra aqui.

(Com as preciosas colaborações de Lula Ramires e Cristiana Coimbra, da Pastoral da Diversidade/SP)





domingo, 20 de maio de 2012

A Ascensão do Senhor

Imagem daqui

Ele chama a mostrar sinais e a não se fechar numa ideologia. É uma mudança de mundo que perde seu mau espírito, que fala um sermão novo, que não tem mais medo de nada porque ele tem confiança e porque ousa curar o Homem.

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do Domingo da Ascensão (20 de maio de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: At 1,1-11
2ª leitura: Ef 4,1-13
Evangelho: Mc 16, 15-20

Festa da Ascensão é a segunda face da Páscoa. Todavia, constitui a primeira face, quando tomado cronologicamente em relação aos discípulos, que experimentaram primeiro a Ausência de Jesus, a sua Ascensão, antes de experimentar a sua Presença nova, a sua Ressurreição, no coração da Igreja nascente. Em outras palavras, se a Ressurreição de Cristo marca o começo de um mundo novo, o início da criação nova, foi preciso a Ascensão para que os primeiros cristãos o realizem. Nesta festa da Ascensão do ano B, os textos bíblicos que nos são propostos comportam belas mensagens de esperança que exprimem essa dupla realidade da nossa fé cristã: Cristo está, ao mesmo tempo, no céu e na terra, assim como nós estamos, ao mesmo tempo, na terra e já no céu.

1. Uma Ausência que se faz Presença: A Páscoa é a festa da Presença. Jesus está ressuscitado, ele está vivo, seus próximos o encontraram. Por outro lado, como falar dessa presença, quando foi difícil reconhecer o Cristo Ressuscitado? Era ele mesmo, mas era diferente do Jesus com quem eles tinham se encontrado, conhecido, amado e servido. Jesus morreu, ele partiu; isso é uma evidência. É preciso viver essa realidade para descobrir que ele está presente de outra maneira, mas realmente. Além do mais, não foi preciso que Jesus partisse para que ele nos desse seu Espírito? Não disse o Cristo do evangelho de João: “Entretanto, eu lhes digo a verdade: é melhor para vocês que eu vá embora, porque, se eu não for, o Advogado não virá para vocês. Mas se eu for, eu o enviarei” (Jo 16,7)?

Isso não pode ser mais claro: foi preciso a Ascensão para que o Pentecostes chegasse. O teólogo Michel Deneken escreve: “A Ascensão é uma maneira de morrer aos olhos e de nascer ao coração”. E ele acrescenta: “Isso traz uma verdade psicológica básica. A ausência é uma condição necessária para viver... como a morte. A ausência de Jesus é abertura da liberdade a esse vento que sopra onde ele quer e quando ele quer. Jesus se retira do olhar psíquico dos humanos para iluminar todos aqueles e aquelas que o Espírito habita”.

2. Se Cristo é vivo e presente, não pode sê-lo senão de nós: as narrativas da Ascensão são sóbrias como aquelas da Páscoa. O evangelho de Marcos não trazia nem narrativas de aparições nem a narrativa da Ascensão. O evangelho de Marcos conclui-se com o medo das mulheres no túmulo e com o silêncio delas (Mc 16,1-8). Um escriba do século II, que achava que o final de Marcos era insustentável, compôs uma narrativa que se inspira nos outros evangelhos e o acrescentou ao evangelho de Marcos (Mc 16,9-20). Encontramos, então, nesse acréscimo alusões à aparição à Maria Madalena do evangelho de João (Mc 16,9), à dúvida dos discípulos, quando as mulheres vieram lhes anunciar que o Jesus do evangelho de Lucas estava vivo (Mc 16,10-11), aos discípulos de Emaús do evangelho de Lucas (Mc 16,12), à aparição aos Onze dos evangelhos de Lucas e de João (Mc 16,14), ao envio para missão do evangelho de Mateus (Mc 16,15-16), e finalmente aos sinais que acompanham a realização da missão cristã do evangelho de Marcos (Mc 16,17-18).

Esse autor do século II, que escreveu tardiamente e que refletiu sobre a Páscoa, disse, ao mesmo tempo, que o Cristo ausente fica presente através dos seus discípulos: “Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus" (Mc 16,19). “Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e, por meio dos sinais que os acompanhavam, provava que o ensinamento deles era verdadeiro” (Mc 16,20). É o que fez dizer a Santo Agostinho no século IV: “Cristo não deixou o céu quando ele desceu até nos, e ele não nos deixou quando ele subiu ao céu”.

3. Jesus, novo Elias: Lucas começa o livro dos Atos dos Apóstolos como ele tinha começado seu evangelho, dirigindo-se a certo Teófilo, personagem real ou literária, mas seguramente teológica, que significa: amigo de Deus. Contrariamente ao seu evangelho, onde São Lucas situa a Ascensão na noite da Páscoa (Lc 24,50-53), aqui, no início do livro dos Atos dos Apóstolos, ele a situa quarenta dias após a Páscoa, isto é, o tempo teológico necessário para que os discípulos possam realizar a sua missão cristã. São duas maneiras de apresentar, no tempo, um mistério que escapa ao tempo.

Para São Lucas, Jesus foi o profeta por excelência, o novo Elias. É por isso que a realização do evento da Ascensão nos remete à cena da ascensão do profeta Elias, no segundo livro dos Reis (2R 2,1-14), onde o profeta Eliseu, seu discípulo, receberia a plenitude do espírito profético de Elias, se ele visse a elevação celeste do seu mestre. E ela a viu! Da mesma maneira, os apóstolos herdam o Espírito de Cristo porque eles o veem elevar-se até o céu: “Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu à vista deles” (At 1,9). Para São Lucas, sendo que se trata da segunda face da Páscoa, os dois homens de branco que se dirigiam às mulheres na manhã da Páscoa para lhes dizer: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5), são as mesmas que dizem aos apóstolos que olhem para o céu: “Homens da Galileia, por que vocês estão aí parados, olhando para o céu?” (At 1,11). No fundo, não é a hora de contemplação nem de nostalgia; mas a hora da missão: “Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os extremos da terra” (At 1,8). Eis a missão cristã de todos os tempos.

4. A unidade na diversidade: O tema da carta aos Efésios é a unidade na diversidade: “Mantenham entre vocês laços de paz, para conservar a unidade do Espírito” (Ef 4,3). Mas atenção! A uniformidade não é garantia de unidade; a unidade se constrói na diversidade. Há, certamente, os dons de cada um para que se construa o corpo de Cristo que nós formamos: “Foi ele quem estabeleceu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas e outros como pastores e mestres” (Ef 4,11). Todos esses dons foram dados por amor e devem ser recebidos no amor. É por isso que São Paulo convida toda a Igreja a adotar o seguinte comportamento: “Sejam humildes, amáveis, pacientes e suportem-se uns aos outros no amor” (Ef 4,2). É a única maneira de construir a unidade e de realizar a missão cristã que é a nossa: “A meta é que todos juntos nos encontremos unidos na mesma fé e no conhecimento do Filho de Deus, para chegarmos a ser o homem perfeito que, na maturidade do seu desenvolvimento, é a plenitude de Cristo” (Ef 4,13).

Para concluir, a Boa Nova a anunciar é sempre atual, pois Cristo está sempre vivo e ele fala e age através das mulheres e dos homens do nosso tempo. Se hoje a mensagem não tem sido transmitida e as pessoas parecem indiferentes, sem dúvida é porque como Igreja nós temos dificuldade em atualizar a Palavra de Deus às novas realidades vividas pelas mulheres e pelos homens. O problema não é a Páscoa nem a Ascensão, tampouco o Pentecostes. O problema está na linguagem para falar nesta realidade do mistério pascal. No fundo, o problema não está do lado de Deus nem de Cristo. Mas do nosso lado: nós somos frequentemente incapazes de falar de Deus e de testemunhar o Cristo Ressuscitado ao mundo atual.

Gostaria de terminar com esse bonito comentário do exegeta francês Jean Debruyenne que diz: “Antes da sua partida do visível para entrar no invisível, Jesus lança um último apelo aos crentes. Jesus chama a crer. Ele chama a mostrar sinais e a não se fechar numa ideologia. Os sinais do crente não são um sistema ou uma mágica, trata-se de um começo, de uma boa nova que não é simplesmente boa mas que é também novidade. É uma mudança de mundo que perde seu mau espírito, que fala um sermão novo, que não tem mais medo de nada porque ele tem confiança e porque ousa curar o Homem”.

sábado, 28 de abril de 2012

A metáfora da semente. Gérmens de ressurreição na Igreja


Declarar que a Igreja é uma semente implica indicar duas dinâmicas complementares: a disponibilidade de se esvaziar das suas aquisições para enriquecer-se através da comunhão vital com os outros, ou seja, "a disponibilidade de morrer para que a vida possa florescer".

A opinião é do teólogo italiano Carlo Molari, ex-professor das universidades Urbaniana, Lateranense e Gregoriana de Roma, em artigo publicado na revista Oreundici, de abril de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


O Concílio Vaticano II, descrevendo a forma ideal de Igreja na Constituição Lumen Gentium, afirma que deve "constituir o germe e o princípio do Reino de Cristo e de Deus na terra" (LG n. 5), e que constitui para toda a humanidade "um germe mais firme de unidade, de esperança e de salvação" (n. 9). A metáfora do germe deve ser explicada. O germe ou semente não é autossuficiente, tem alguns componentes essenciais da realidade futura, mas, para desenvolvê-los, precisa ser completado pela água, pelos sais da terra, pelo calor e pela luz do sol. Esse completamento ocorre através de uma decomposição. Para desenvolver as potencialidades, ele deve, acima de tudo, se desfazer, se perder, se decompor.

Jesus insistiu sobre esse processo de aniquilação, porque é indicativo de atitudes e de dinâmicas essenciais da Igreja. "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto" (Jo 12, 24). Paulo retoma a mensagem a propósito da ressurreição, indicando a morte como condição para a vida nova: "Aquilo que você semeia não volta à vida, a não ser que morra" (1Cor 15, 36).

Concretamente, declarar que a Igreja é uma semente implica indicar duas dinâmicas complementares: a disponibilidade de se esvaziar das suas aquisições para enriquecer-se através da comunhão vital com os outros, ou seja, "a disponibilidade de morrer para que a vida possa florescer".

Esse processo nunca é apenas individual, mas pressupõe e envolve ambientes vitais. O primeiro problema, por isso, é comunitário: que ambiente vital a comunidade é capaz de criar, de modo a fazer florescer e amadurecer os gérmens de ressurreição? É preciso um ambiente de vida teologal, de acolhida, de oração, de atenção aos sinais dos tempos. Neste tempo, existem muitos gérmens de ressurreição na Igreja, mas exigem o ambiente adequado para se expressar como sinais do Reino e para florescer como novidades de vida.

Se quisermos examinar alguns deles podemos lembrar: os muitos lugares de diálogo inter-religioso no mundo, as comunidades ecumênicas, as formas de voluntariado, os grupos de solidariedade. As comunidades de diálogo inter-religioso são pequenos lugares de fraternidade entre as pessoas de culturas e religiões diversas. O documento Diálogo e Anúncio (1991) os descreve de modo exato: "... pessoas radicadas nas próprias tradições religiosas compartilham as suas riquezas espirituais, por exemplo, no que se refere à oração e à contemplação, à fé e aos caminhos da busca de Deus e do Absoluto" (n. 42).

Esses centros modificam a partir de dentro a interioridade, oferecem uma contribuição notável no campo da teologia das religiões e acompanham o caminho da reflexão católica com intuições originais e com uma base experiencial muito ampla. O conhecimento a partir de dentro das respectivas religiões permite que se forneçam elementos que dificilmente podem ser encontrado nesse nível em outros autores.

O valor da teologia do diálogo entre as religiões está na sua base experiencial. Não partimos de categorias pré-constituídas, mas sim das experiências realizadas e do seu caminho espiritual, que certamente nem todos podem fazer, mas que amanhã se tornará obrigatório. Não haverá futuro se ficarmos fechados nas nossas pequenas experiências religiosas. O futuro pertence àqueles que serão capazes de falar mais linguagens e de entrar nos diferentes mundos religiosos. Os sinais estão nas inúmeras pessoas que praticam o diálogo e alimentam as relações.

A principal dificuldade está no fato de que não fomos educados para reconhecer as riquezas das outras culturas e das outras religiões. Ao contrário, era proibido pensar que houvesse, era proibido dialogar. Nos anos 1950, quando eu estudava teologia, os livros dos protestantes na biblioteca eram mantidos sob chave e, para lê-los, era necessária a autorização do Santo Ofício. Foram os modernistas que começaram a refletir sobre os elementos comuns das diversas religiões, mas o fizeram com uma atitude sincretista que depreciava o valor da religião cristã. Habitualmente, todas as culturas tendem a se considerar como únicas e a subestimar os outros. O pluralismo dá medo, porque implica a ideia de que toda tradição religiosa não é tudo, precisa ser confrontada, deve acolher os outros.

Por outro lado, as afirmações da unicidade da salvação em Jesus expressam, sem dúvida, a riqueza da experiência que os primeiros cristãos fizeram, mas pesaram notavelmente sobre a teologia das religiões em âmbito cristão. Aqueles que se dedicavam a ela eram logo postos em suspeita. Só depois do Concílio Vaticano II é que se rompeu o muro de separação, e o diálogo se tornou um componente essencial da missão. O relativismo ou o sincretismo são um risco, mas podem ser evitados, e é justamente esse aspecto que constitui um sinal de ressurreição: viver o diálogo como reconhecimento mútuo e aprofundamento da riqueza adquirida.

A humanidade mediante homens e mulheres espirituais está dando um passo à frente na acolhida recíproca. Como bem observa o missionário comboniano Giuseppe Scattolin, especialista em diálogo com o Islã: "Deve-se dizer que é justamente ao assumir a alteridade do outro com toda a seriedade e sem álibis que chegamos a compreender a própria identidade de modo cada vez mais profundo e verdadeiro. Alteridade e identidade não se excluem nem se anulam necessariamente, ao contrário, elas se requerem e se reforçam mutuamente. A compreensão de si mesmo não é cancelada, ao contrário, é amplificada e aprofundada através da abertura ao outro, ao diferente. É preciso, portanto, ter um olhar mais holístico da experiência religiosa, e não um preconceito relativista e reducionista dela" (Spiritualità in dialogo).

Um outro gérmen de ressurreição é constituído pelo voluntariado. Em um mundo em que as relações são cada vez mais condicionadas pelo interesse econômico, ganham espaço formas de atividade desinteressada e gratuita. São inúmeras iniciativas de fraternidade e de solidariedade que modificam desde a raiz as dinâmicas de relação.

Bento XVI, na encíclica Deus caritas est, escreve: "Nasceram e desenvolveram-se numerosas formas de colaboração entre as estruturas estatais e as eclesiais"; "um fenômeno importante do nosso tempo é a aparição e difusão de diversas formas de voluntariado, que se ocupam duma pluralidade de serviços. Desejo aqui deixar uma palavra de particular apreço e gratidão a todos aqueles que participam, de diversas formas, nestas atividades. Tal empenho generalizado constitui, para os jovens, uma escola de vida que educa para a solidariedade e a disponibilidade a darem não simplesmente qualquer coisa, mas darem-se a si próprios. À anticultura da morte, que se exprime por exemplo na droga, contrapõe-se deste modo o amor que não procura o próprio interesse, mas que, precisamente na disponibilidade a 'perder-se a si mesmo' pelo outro, se revela como cultura da vida" (n. 30).

Ligado a isso está o terceiro gérmen de ressurreição na Igreja: a difusão do espírito de misericórdia e a atenção pelos mais fracos da sociedade. Difunde-se cada vez mais a sensibilidade pelos marginalizados e as intervenções pela defesa das crianças, das mulheres solteiras, dos idosos abandonados.

Um quarto gérmen de ressurreição na Igreja é constituído pelo crescente interesse de muitos pela renovação da teologia. O teólogo é aquele que acompanha o caminho da comunidade eclesial estimulando a reflexão crítica sobre a experiência de fé de modo a saber traduzi-la em formas corretas e eficientes. O teólogo não é capaz por si só de formular a experiência de fé da Igreja, ele precisa da contribuição de todos: "A teologia cristã sempre existiu como elemento de um todo" (G. Ruggieri, Prima lezione di teologia, Ed. Laterza, 2011 p. 44).

A esse propósito, deve-se observar que, em certos ambientes eclesiais, dá-se excessiva importância à doutrina, enquanto que "a intenção principal da narrativa fundacional não está na determinação objetiva dos elementos, mas sim no alimento espiritual da experiência de fé, na sua legitimação profunda, além da preocupação apologética. A 'doutrina' continua sendo, portanto, elemento orgânico de um 'todo', isto é, de uma ordem entre diversas instâncias da vida da comunidade" (Ibid., p. 43).

De acordo com as fases da história e de acordo com o caminho da comunidade eclesial, a função do teólogo adquire maior ou menor importância, mas nos períodos de reviravolta cultural ele precisa da contribuição contínua da comunidade. A estrutura difusa e capilar do ensino teológica no Itália favoreceu o interesse pelos problemas da renovação do método e das pesquisas de teologia entre os fiéis. Espera-se que as respostas das estruturas oficiais também respondam a essa demanda de base.

domingo, 22 de abril de 2012

Páscoa, um novo dia que dura ainda!

Imagem daqui

Deixemos de materializar as narrativas de Páscoa, para não reduzir o conteúdo e o significado profundo. Essas narrativas nos dizem respeito, pois temos a possibilidade de reencontrar o Ressuscitado e a obrigação de testemunhar para que outros possam também encontrá-lo... E é pelo amor que nós faremos que os outros o reconheçam.

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 3º Domingo de Páscoa (22 de abril de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
2ª leitura: 1 Jo 2,1-5
Evangelho: Lc 24,35-48

Nesse ano do ciclo B da liturgia, passamos de Marcos a João e de João a Lucas para mostrar toda a riqueza das manifestações do Cristo Ressuscitado aos discípulos da primeira hora. Depois da sua presença física perto dos seus, Jesus agora não está mais presente segundo a carne, mas segundo o Espírito. E a experiência do primeiro dia da Páscoa ainda dura, porque esse dia não termina: trata-se da experiência do testemunho: “E vocês são testemunhas disso” (Lc 24,48). Que mensagens podemos tirar das leituras bíblicas de hoje?

1. Páscoa – um novo dia que dura ainda. No evangelho de Lucas, o dia de Páscoa é o dia mais longo do ano... é um dia que não termina. De manhã bem cedo, umas mulheres vão ao cemitério para visitar um morto e recebem uma mensagem dizendo que ele está vivo e elas recebem como missão anunciá-lo aos discípulos (Lc 24,1-10). Os discípulos não acreditam nelas; eles dizem que as mulheres deliram (Lc 24,11). Chegada a noite, dois discípulos caminham até Emaús, a duas horas a pé de Jerusalém, e no caminho eles encontram um estrangeiro que lhes acalenta o coração com a sua Palavra. Os dois discípulos convidam o estrangeiro para ir a sua casa, pois está tarde e eles reconhecem o Ressuscitado nesse estrangeiro, quando ele parte o pão e o divide com eles (Lc 24,13-32). Logo, esses dois discípulos voltam para Jerusalém (mais duas horas de caminhada), para reencontrar os outros discípulos reunidos (Lc 24,33-34). Chegados a Jerusalém, segundo o evangelho de hoje, os discípulos de Emaús contam aos outros discípulos a sua experiência do Ressuscitado (Lc 24,35). Estamos no mesmo dia; já está ficando tarde... Enquanto eles contam, Cristo se faz presente no meio deles, desejando-lhes a paz, como no evangelho de João, na semana anterior (Lc 24,36). E lá São Lucas nos dá uma catequese sobre a missa; ele nos faz assistir a uma eucaristia como lugar de encontro e de reconhecimento do Ressuscitado (Lc 24,37-48). Depois dessa eucaristia, o Cristo Ressuscitado leva os discípulos a Betânia, outra pequena cidade no sul de Jerusalém, desta vez para abençoá-los e elevar-se no céu (Lc 24,50-51). Após a Ascensão, sempre no mesmo dia, os discípulos voltam para Jerusalém, ao templo, para bendizer a Deus (Lc 24,52). Finalmente, Lucas salienta: “E estavam sempre noTemplo, bendizendo a Deus” (Lc 24,53).

Em 1991, na revista Sinais de hoje (Signes d’aujourd’hui), o teólogo Marcel Metzger formula a seguinte pergunta: “A que horas os discípulos de Emaús foram deitar na noite da Páscoa?” É uma boa pergunta, se fizermos uma leitura literal do texto... Ao mesmo tempo, encontramos várias incoerências: no tempo bíblico, à noite, não dá para circular... Não há luz. Se todos esses movimentos na noite foram sem luz, como eles conseguiram ver Jesus subir ao céu em plena noite? No fundo, o que Lucas quer nos fazer compreender através dessa narrativa é que a Páscoa é uma nova aventura, um novo dia para a Igreja que é um sinal da presença do Ressuscitado através dos seus discípulos, os cristãos de todos os tempos. Essa nova aventura não se termina; ela continua na Igreja de hoje. É um dia novo que ainda dura... Nós estamos sempre no domingo de Páscoa!

2. A morte-ressurreição – uma mesma realidade. Como no evangelho de João, a morte-ressurreição de Jesus são dois eventos inseparáveis para a fé cristã. Que devemos reter dessa presença do Ressuscitado? Há semelhanças em todos os evangelhos em relação à Ressurreição de Cristo: todos afirmam que o sepulcro está vazio, que Jesus está vivo, que aqueles e aquelas que o viram não o reconheceram imediatamente e que a dúvida e o medo fazem parte da experiência de fé daqueles e daquelas que o encontraram. O que significa que o Cristo Ressuscitado não é o cadáver reanimado de Jesus de Nazaré; é o Crucificado transformado pela Páscoa: “Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo.Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho” (Lc 24,39). E para dizer que ele é o mesmo sendo completamente diferente daquele que eles conheceram nos caminhos da Galileia, após lhes ter pedido algo para comer (Lc 24,41), o Ressuscitado: “Jesus pegou o peixe, e o comeu diante deles” (Lc 24,43), não com eles, mas diante deles, para significar, segundo o teólogo Gérard Sindt, que “comer se torna aqui uma prova da verdade de um ser em relação que abole as distâncias mantendo-as por sua vez”.

Mas por que essa insistência sobre a materialidade do Ressuscitado no evangelho de Lucas? São Lucas conhece muito bem a teologia de São Paulo que diz que a Igreja é o Corpo de Cristo Ressuscitado através dos seus discípulos, que são seus membros. É, então, através deles que Cristo pode se manifestar não como fantasma, mas como ser humano, de carne e osso: “Espantados e cheios de medo, pensavam estarvendo um espírito” (Lc 24,37). “Então Jesus disse: Por que vocês estão perturbados, e por que o coração de vocês está cheio de dúvidas? (Lc 24,38). “Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo.Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho” (Lc 24,39). Mas quem é ele então? Ele é aqueles e aquelas que levam as marcas da sua paixão (nós estamos em plena perseguição), que anunciam a sua Palavra abrindo os espíritos à inteligência das Escrituras, que repartem o pão, e que proclamam, em seu nome, o perdão dos pecados para todos. Esses são as primeiras testemunhas da Páscoa.

3. Testemunhas oficiais para os cristãos de hoje. Por que as narrativas das aparições aos discípulos? Simplesmente para fazer dos discípulos da Igreja primitiva testemunhas oficiais da Páscoa: “E vocês são testemunhas disso” (Lc 24,48). Ainda hoje é possível fazermos a experiência do Ressuscitado como no primeiro tempo da Igreja. A única diferença é que fica impossível para nós compararmos essa presença do Ressuscitado com aquela de Nazareno, tal como os primeiros cristãos podiam fazer. Porém, seus testemunhos deveriam nos bastar.

Os discípulos da primeira hora conheceram a Jesus de Nazaré; eles lhe viram morrer, eles o reencontraram na Igreja do século I e eles puderam verificar a autenticidade do Ressuscitado como a continuidade de Jesus de Nazaré que eles conheceram, amaram e seguiram. Então, eles se tornam testemunhas privilegiadas, e as experiências ulteriores do Ressuscitado se fundam necessariamente nos seus testemunhos. É sobre a fé das primeiras testemunhas que se exprime nossa própria fé em Cristo. No século IV, Santo Agostinho tinha uma forma bem característica dele de expressar essa realidade. No seu sermão 116, sobre o evangelho de hoje, ele escreve. : “O Cristo total se deu a conhecer a eles (seus discípulos) e se deu a conhecer a nós. Eles viram a cabeça (Jesus) e eles acreditaram no corpo (Igreja). Nós vimos o corpo (Igreja) e acreditamos na cabeça (Jesus). Porém, o Cristo não se oculta para ninguém: ele é e está completamente inteiro em nós e, portanto, seu corpo permanece unido a ele”.

Para concluir, na 2ª leitura de hoje, São João lembra que para conhecer Jesus Cristo, precisamos fazer a experiência do Amor: “Quem diz que conhece a Deus, mas não cumpre os seus mandamentos, é mentiroso, e a Verdade não está nele” (1 Jo 2,4). “Por outro lado, o amor de Deus se realiza de fato em quem observa a Palavra de Deus. É assim que reconhecemos que estamos com ele” (1 Jo 2,5). Deixemos de materializar as narrativas de Páscoa, para não reduzir o conteúdo e o significado profundo. Essas narrativas nos dizem respeito, pois temos a possibilidade de reencontrar o Ressuscitado e a obrigação de testemunhar para que outros possam também encontrá-lo... E é pelo amor que nós faremos que os outros o reconheçam.

sábado, 21 de abril de 2012

Testemunhas

Ícone daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 24,34-48 que corresponde ao Domingo 3º da Páscoa, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. O desejo de Jesus é claro. Sua tarefa não acabou na cruz. Ressuscitado por Deus depois de sua execução, ele toma contato com os seus para pôr em funcionamento um movimento de “ testemunhas” capaz de contagiar a todos os povos com a Boa Notícia. Vocês são minhas testemunhas. Não é fácil converter em testemunhas esses homens afundados no desconcerto e no medo. Ao longo de toda a cena os discípulos permanecem calados, num silêncio total. O narrador só descreve seu mundo interior: eles estão cheios de terror, só sentem turbação e incredulidade, tudo aquilo lhes parece demasiado formoso para que seja verdadeiro.

É Jesus quem vai regenerar sua fé. O mais importante é que eles não se sintam sozinhos. Eles o sentiram cheio de vida no meio deles. Estas são as primeiras palavras que escutam do Ressuscitado: “Paz para vocês... Por que o coração de vocês esta cheio de dúvidas?”

Quando esquecemos a presença viva de Jesus no meio de nós, quando o fazemos opaco e invisível com os nossos protagonismos e conflitos, quando a tristeza impede-nos sentir de tudo menos sua paz, quando nos contagiamos uns aos outros, o pessimismo e a incredulidade... aí então estamos pecando contra o Ressuscitado. Torna-se impossível uma igreja de testemunhas.

Para despertar sua fé, Jesus não lhes pede que olhem seu rosto senão suas mãos e seus pés. Que vejam as feridas da crucificação. Que tenham sempre ante seus olhos seu amor entregado até o fim. Ele não é um fantasma: “Sou eu mesmo”, O mesmo que conheceram pelos caminhos da Galileia.

Cada vez que tentamos fundamentar a fé no Ressuscitado com nossas elucubrações, nós o convertemos num fantasma. Para nos encontrarmos com ele, temos que percorrer o relato dos evangelhos: descobrir essas mãos que bendiziam os enfermos e acariciavam as crianças, esses pés cansados de caminhar ao encontro com os mais esquecidos, descobrir suas feridas e sua paixão. Esse Jesus é o mesmo que agora vive Ressuscitado junto ao Pai.

Apesar de vê-los cheios de medo e dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. Ele mesmo lhes enviara o Espírito que os sustentava. Por isso encomenda-lhes que prolonguem sua presença no mundo: “Vocês são testemunhas disso”. Eles não hão de ensinar doutrinas sublimes, mas contagiar sua experiência. Eles não têm que predicar grandes teorias sobre o Cristo, mas irradiar o seu Espírito. Eles devem fazê-lo crível com sua vida, não somente com as palavras. Este é sempre o verdadeiro problema da Igreja: a falta de testemunhas.

(Fonte: IHU)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sinais de Deus para o nosso tempo


Tudo começou de novo com a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Passou o que era velho e tudo se fez novo, a partir de dentro, num dinamismo plantado no coração de cada cristão que recebe o Sacramento do Batismo. Caiu a velhice do pecado e do egoísmo, desmoronaram os muros da desconfiança, da inveja e do ciúme. Os cristãos exultam pela sua renovação espiritual, pois recuperaram com alegria a condição de filhos de Deus e podem esperar com plena confiança o dia da ressurreição (cf. Oração do III Domingo da Páscoa).

Descrever assim a vida pode parecer sonho, quem sabe, uma ilusão, ou otimismo ingênuo. Alguns chamariam utopia, por não perceberem que o sentido originário de palavra aponta para o lugar ideal a ser alcançado e não um projeto imaginário e impossível de se concretizar. É que os cristãos não têm medo de ver as coisas a partir dos olhos de Deus, enxergando, além de todas as chagas existentes no mundo, a grandeza o plano de Deus. “O olho de Deus sobre o mundo é o Coração de Cristo, mas a pupila é aquela ferida de amor! A ferida está no Coração de Cristo. Ele foi ferido porque manifestou por inteiro o amor. Ele é o amor do Pai vindo à terra, e nos amou dando tudo... E nós, se vivermos como Ele, poderemos olhar por dentro e ver a Deus, e o Pai pode olhar dentro da chaga do Coração de Cristo e ver a todos nós” (Chiara Lubich, cf. Nuova Umanità 2012/2, p. 167).

Após a Ressurreição de Jesus, seus discípulos tiveram que aprender este novo modo de compreender a vida (Lc 24,35-48). Ao mostrar-lhes suas mãos e seus pés, com as marcas da crucifixão, ele abriu-lhes os olhos. Não estavam diante de um fantasma! A experiência da presença do Ressuscitado foi novidade para todos. Madalena pensou estar diante de um jardineiro, os discípulos de Emaús o viam apenas como andarilho, os próprios apóstolos à margem do lago não o reconheceram. Os gestos de delicadeza, com que de várias formas se apresentou aos seus, foram mimos cujos frutos se multiplicam no correr dos séculos para as sucessivas gerações de cristãos, das quais nós somos, por enquanto, os últimos! Não é mais possível ver Jesus Cristo e os acontecimentos com os olhos da carne. Faz-se necessário dar o salto da fé!

Os primeiros discípulos de Jesus receberam a missão de espalharem pela terra uma vida nova e um modo novo para compreender o mundo e os acontecimentos. Cheios do Espírito Santo, eles começaram a pregar o Evangelho de Cristo. Quando experimentaram a incompreensão e a prisão, ficavam “alegres por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do santo Nome. E cada dia, no templo e pelas casas, eles não cessavam de ensinar e anunciar que Jesus é o Cristo” (At 5,41-42). Quando se desencadeou a perseguição e mataram Tiago, um dos Apóstolos (At 12,1), “a palavra do Senhor crescia e se espalhava cada vez mais” (At 12,24). Todos os períodos mais críticos e de maior sofrimento para a Igreja, com a força da Páscoa de Cristo, suscitaram novos frutos, quando acolhidos como chamado à fidelidade ao Senhor!

Até hoje, “no jardim da Igreja se cultivam as rosas dos mártires, os lírios das virgens, as rosas dos casados, as violetas das viúvas” (Santo Agostinho). Cada pessoa, segundo a vocação e o estado de vida que lhe foi concedido pelo Senhor, é chamada a “ser testemunha” (Lc 24,42). Sua vida fará referência a valores consistentes, que não se abalam com ameaças, segundo a orientação do Apóstolo: “Não seremos mais como crianças, entregues ao sabor das ondas e levados por todo vento de doutrina, ludibriados pelos homens e por eles, com astúcia, induzidos ao erro. Ao contrário, vivendo segundo a verdade, no amor, cresceremos sob todos os aspectos em relação a Cristo, que é a cabeça” (Ef 4,14-15).

Comprometer-se com a verdade, denunciar o mal existente, indicando em Jesus Cristo o único caminho e o remédio eficaz, orar pelos que nos perseguem, tomar a iniciativa da caridade, perdoar sempre, valorizar mais o que une do que o que separa as pessoas, esperar com paciência a vitória do bem, são algumas das muitas possibilidades para oferecer o testemunho de Cristo em todos os tempos, inclusive o nosso, a partir do olhar da pessoa que entrou no Coração de Cristo, para ver tudo através da chaga aberta em seu peito. Ali, o cristão se sente cômodo, sem ser acomodado, para não ficar sossegado até que os confins da terra reconheçam que Jesus é o Senhor.

- Dom Alberto Taveira Corrêa, Arcebispo Metropolitano de Belém
Fonte: ZENIT (Grifos nossos)

Leia também:
A esperança como atitude crítica
Os cristãos e o seguimento de Cristo
Incontrolável compaixão

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O encontro que não pode ser esquecido

Foto via Blue Pueblo

A palavra “Páscoa” evoca no coração de todos nós cristãos sentimentos de alegria, de fé, de amor pela Pessoa de Jesus que, tendo vencido a morte, ressuscitou dando-nos a todos o anúncio que não somos mais escravos da morte e do pecado. A vida resplandece e floresce em quem crê no Senhor ressuscitado. Mas ao mesmo tempo esta palavra evoca todo o caminho que o povo de Israel realiza desde a sua libertação da escravidão do Egito nas noites estreladas no deserto, na experiência do frio e do calor, da fome. Evoca a tentação da idolatria de um lado e de outro o amor incansável de Deus que através de Moises, caminha na frente do povo rumo a terra prometida. Um caminho que inicia com a libertação e que termina somente no encontro definitivo com o novo cordeiro imolado, Cristo Jesus, em cujo sangue somos lavados e nossas vestes se fazem mais brancas do que a neve.

Páscoa, nova aliança sagrada da passagem da morte a vida. A grande páscoa de Cristo, resultado de tantas pequenas Páscoas que se realizam no caminho de todo cristão. Páscoa, experiência de nossa fragilidade e da graça de Deus. Um encontro que não pode ser esquecido porque é festa a ser contada de pai para filho por todas as gerações. Celebração em que o menor de todos, vendo todos os preparativos, fica extasiado e se aproxima do mais velho e pergunta com alegria e brilho nos olhos: por que fazemos isto? E inicia o relato pascal, a grande alegria de contar aos que vêm depois de nós que fomos amados por Deus e libertados de todos os nossos pecados.

Páscoa celebrada de pé, com sandálias nos pés, com bastão na mão, comendo o cordeiro “sem mancha e defeito”, imolado, pronto para retomar o caminho, comido com erva amarga para que o povo nunca esqueça que a alegria maior é sempre unida a cruz e a dor. Uma dor de alegria e celebração, é verdade que os pés sangram e doem, que o coração está ferido, mas é também verdade que um espírito novo está presente no coração de quem crê. Páscoa nova, celebrada não mais de pé, mas com pressa, por Jesus no cenáculo como despedida solene dos seus discípulos, como entrada dolorosa na paixão, onde o mesmo Jesus experimenta o abandono de todos, a solidão, a dificuldade do caminho, as lágrimas amargas, a negação dolorosa. Mas com plena consciência de ter realizado o projeto do Pai até o fim no amor oblativo de si mesmo. Onde tudo é consagrado com o derramamento do seu sangue, sangue vivo de amor e fecundante de una nova vida.

Páscoa não compreendida, sofrida no início do caminho da traição, mas que na medida em que a morte de cruz se aproxima, aumenta a dor e incerteza, o medo de que tudo está terminado. Mas o Cristo caminha de cabeça erguida, voluntariamente, até o calvário, para se consumir no amor ao Pai. O seu “tudo está consumado” não é desespero e nem fracasso, mas sim realização de amor e “sim” definitivo. Como é bela a páscoa contemplada como pequenas ou grandes mortes, pequenas ou grandes ressurreições. Páscoa é festa que se prepara a partir de dentro para fora, num processo de conversão e de infinito amor. Experiência de pecado e de graça, somente os que tem atravessado consciente e corajosamente o deserto da “quaresma”, nos quatro caminhos indicados pelo Papa Bento XVI: oração, silêncio, partilha e jejum poderão experimentar a alegria da Páscoa. Sem esta vivencia a Páscoa será um canto vazio, um conector não marcante, uma passagem que não transforma a vida, mas a torna ainda mais vazia.

A páscoa é uma festa que é marcada por uma palavra tão familiar a todos nós e inclusive presente em todas a s línguas de todos os que creem “aleluia”. É necessário que cante a mente, cante o coração e cante o corpo que se acorda do seu sono e do seu silêncio para contemplar o Cristo ressuscitado. O canto do aleluia nos faz perceber que a nossa “HORA” chegou, embora não ainda plenamente, a hora da vida, da alegria, da vitória sobre o mal. Páscoa no mundo tecnológico e do consumismo, banalizada, reduzida a “férias”, viagens, compras, ovos pascais e colombas pascais, chocolate diet e outras coisinhas que servem para preencher o vazio do coração sem fé.

Banalizar a Páscoa, instrumentalizá-la para comércio é algo que fere não a sensibilidade dos cristãos, mas a fé. A páscoa no hoje da nossa história é sermos semeadores de esperança somente, que nasce da noite para o dia, outra numa semana e outra num mês e outra no fim da vida e outra ainda daqui a 100 anos. Quero ser semeador da semente da esperança que nascerá daqui a 100 anos, assim não correrei o risco da vaidade. Crer na Páscoa é graça de Deus. Dizer feliz páscoa é dizer ao outro, seja qual for, “você é feliz só se crê que Cristo nasceu, sofreu, morreu e ressuscitou” e que ele lhe espera no céu para você participar da sua glória. A páscoa, mais que uma celebração, uma memória, é uma Pessoa viva, Cristo, e você que crê em Cristo.

Feliz páscoa!

- Frei Patrício Sciadini, OCD, religioso, Carmelita Descalço
Reproduzido via ZENIT

domingo, 15 de abril de 2012

Ressurreição: modo de viver

Foto via Blue Pueblo

O tempo pascal – os quarenta dias que se seguem até a festa da Ascensão, quando cessam o tempo das aparições do Ressuscitado às testemunhas da primeira hora do Cristianismo – é ocupado pela Igreja com constantes e profundas meditações sobre a Ressurreição.

Contemplando as passagens evangélicas, os fiéis são introduzidos não apenas no sentido da morte cruel do Galileu de Nazaré sobre o lenho da cruz. Mas também e sobretudo em um radicalmente novo modo de viver.

A narrativa da Ressurreição sempre nos recorda a morte. Só ressuscita quem morreu. E o suplício ignóbil peloqual passou aquele homem que só fazia o bem intrigava e escandalizava a todos os que nele haviam acreditado. A experiência de ver vivo o que haviam visto Crucificado e morto desvela fulgurantemente a resposta de Deus sobre o destino da humanidade: a vida em plenitude.

Mais importante porém do que recordar a morte daquele que se foi é aprender de sua vida e dispor-se a entrar em um novo modo de viver. O mistério pascal – morte e ressurreição de Jesus Cristo – não apenas ilumina e ajuda a reler sua vida, mas também ensina poderosamente qual é a vida que Deus diz que é plena, perene e que não é engolida pela morte.

Por isso, mais importante que crer na ressurreição após a morte, é viver desde já como ressuscitados. É aceitar que o mistério da Ressurreição de Jesus Cristo da cruz e do túmulo configure nossa vida e lhe dê uma nova forma. Não forma física, pois não se trata de reencarnação, mas forma nova no espírito que por sua vez transfigura a corporeidade e a totalidade do humano.

Viver como ressuscitados é viver fora de si. Ser sábio de uma loucura repudiada pelos sábios deste mundo que crêem conhecer e dominar a riqueza e o poder, mas na verdade por elas são dominados. É “saber” com uma força indestrutível que somos criados pelo Autor da vida a cada minuto para viver e dar vida. E quanto mais vida dada, tanto mais vida recebida. Trata-se de conhecer o jogo que aí ganha nova preponderância: perder é ganhar, entregar-se e perder-se no amor e no serviço é encontrar-se e possuir-se.

Viver como ressuscitados é ter o olhar transfigurado pelo Espírito que permite ver beleza e dignidade aonde parece só existir lixo e miséria. É ter ouvidos abertos para, em meio aos ruídos dissonantes, escutar murmúrios e clamores dos que amam e dos que sofrem e sentir-se comovido por eles. É sentir na boca o beijo exigente da fome e da sede de justiça e dar-se em eucarístico alimento para saciá-las. É estender as mãos para servir e ajudar aqueles que buscam um rumo em suas vidas solitárias e perdidas e transmitir-lhes a inefável experiência de sentir-se amados, acompanhados e curados em suas feridas profundas e doloridas.

Viver como ressuscitados é encontrar o segredo da alegria, esse mistério tão desejado e ansiado pelo coração humano. É ser capacitado a encontrá-lo longe das drogas, viagens sem volta; longe das adicções e no abismo fecundo da paixão; longe do artificial sossego feito de conforto e diversão impunes e atravessado por urgências compadecidas.

Viver como ressuscitados é experimentar que o centro da vida se encontra à margem do caminho, muitas vezes ferido e semi morto; é saber que a criação é feita não para a destruição e a morte, mas para o baile do amor fecundo que não termina e se desdobra em frutos de paz, diálogo e convivência.

Viver como ressuscitados é estar sempre em movimento, sempre em busca, nunca instalados. É saber que não temos aqui morada permanente, mas não somente esperamos a que há de vir como a construímos com o sopro do Espírito presenteado pelo Ressuscitado aos discípulos ainda atônitos e assustados.

Viver como ressuscitados é levar no próprio corpo as marcas de Jesus para que a vida por Ele dada se manifeste plenamente ao mundo. É estar no mundo sem ser do mundo, mas pertencer ao Senhor. É não ter domicílio em nenhum lugar, mas encontrar o próprio lar dentro de si mesmo, onde o Espírito do Pai e do Filho faz morada.

Viver como ressucitados é, em suma, viver urgidos pela caridade, iluminados pela esperança, suportados pela fé no que ainda não se vê, mas se ‘sabe” que será. É não guardar para si este segredo sussurrado ao ouvido na manhã do domingo, mas anunciá-lo sem medo em todos os dias da semana, convertendo o discipulado em ardente e constante apostolado.

- Maria Clara Bingemer
Reproduzido via Amai-vos

Nós somos Cristo Ressuscitado!


"É quando não há mais razão para crer que a fé abre seus olhos".

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, 2° Domingo de Páscoa (15 de abril de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifo nosso.


Referências bíblicas:
1ª leitura: At 4,32-35
2ª leitura: 1 Jo5,1-6
Evangelho: Jo 20,19-31

Durante cinquenta dias (7 x 7), a Igreja estende a festa da Páscoa. Este tempo se termina no 50° dia, que chamamos Pentecostes. São Atanásio dizia que não há mais que um domingo de Páscoa que vai até Pentecostes. Se for verdade que sem a Páscoa não haveria jamais o Natal, sabemos que antes de ser anual, a celebração pascal era, para os primeiros cristãos, semanal: cada domingo era um memorial da Ressurreição do Senhor. Foi somente no século II que a Igreja escolheu celebrar a cada ano a festa da Páscoa. De fato, cada domingo é a Páscoa, pois nós celebramos o memorial da morte-ressurreição de Cristo. Infelizmente, na Igreja Católica, a partir do século XVI, no conflito com os protestantes, insistiu-se tanto no sacrifício da missa que nos faz lembrar do sacrifício da cruz, que se colocou em segundo plano o memorial da Ressurreição. Porém, não podemos separar os dois: a missa ou a Eucaristia constituem o memorial da morte-ressurreição de Cristo, o que faz a festa da Páscoa.

Hoje, os textos bíblicos propostos são ricos de sentido e significado. Vejamos alguns deles:

1. O ideal da Igreja primitiva: Na primeira leitura de hoje, no livro dos Atos dos Apóstolos, nós temos o segundo resumo de três, sobre o ideal proposto pelos primeiros cristãos. Esse resumo retoma o que foi o tema inicial: a pregação apostólica e seu sucesso com as multidões (Atos 4,33). São Lucas insere esse versículo entre duas descrições da vida interna da comunidade cristã:

a. "A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles" (At 4,32).

b. "Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; depois, ele era distribuído a cada um conforme a sua necessidade" (At 4,34-35).

Essas duas descrições do vivido pelas primeiras comunidades podem parecer irreais e utópicas. Mas trata-se de um ideal proposto pela Igreja primitiva a partir do conceito da amizade grega de Aristóteles: “Os amigos têm uma só alma entre eles e os bens são uma propriedade em comum”; também a partir de uma releitura do livro do Deuteronômio sobre a repartição da riqueza: “No meio de você não haverá nenhum pobre” (Dt 15,4). É evidente que nos primeiros cristãos como nos cristãos de hoje, estamos longe da aplicação desse ideal. O episódio de Safira e Ananias narrado nos Atos (At 5,1-11) nos mostra isso claramente. Por outro lado, ainda hoje devemos nos deixar interpelar por esse ideal; nós estamos longe ainda desta realização. Porém, a fé cristã o exige.

2. Nascidos de Deus, nós somos o Cristo Ressuscitado: Que bela carta que é essa carta de São João a qual nos fala sobre a dignidade daqueles e daquelas que creem em Cristo Ressuscitado: “Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus; e quem ama aquele que gerou, ama também aquele que por este foi gerado” (1 Jo 5,1). A Páscoa está apresentada como uma nova criação, e já sobre a cruz da Sexta-Feira Santa, a Igreja nasce e a sua missão começa na manhã da Páscoa. São João Crisóstomo, no século IV, dizia: “do seu lado saiu sangue e água (Jo 19,34)... Eu disse que essa água e esse sangue são o símbolo do batismo e dos mistérios (a eucaristia). A Igreja nasceu desses dois sacramentos: pelo banho do renascimento e da renovação no Espírito, pelo batismo e pelos mistérios. Mas os sinais do batismo e dos mistérios vêm ao lado. Desse modo, Cristo formou a Igreja a partir do seu lado, assim como Deus formou Eva a partir do lado de Adão”.

Ao mesmo tempo, tudo é Amor: “Nisto reconhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus” (1 Jo 5,2), e para amor a Deus, é preciso primeiro amar seus filhos: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, e, no entanto, odeia o seu irmão, está sendo mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4,20). E o amor se manifesta na nossa forma de viver como cristão: “Porque amar a Deus significa observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5,3). Isso fez que, no século IV, Santo Agostinho dissesse: “No que nós amamos, ou não há cansaço ou nós amamos esse cansaço”.

3. A missão cristã: Paz, felicidade, libertação, esperança e presença: essa página do evangelho que nós lemos a cada ano, no 2° Domingo de Páscoa, constituía, no início da Igreja, o final do evangelho de João. O capítulo 21 é um acréscimo posterior, em que o autor ou os autores quiseram reconciliar os cristãos que acreditavam no papel particular de Pedro e daqueles que davam um lugar preponderante ao discípulo que Jesus amava. Essa página do evangelho de hoje traz mensagens importantes:

a. Essa aparição aos discípulos na noite da Páscoa e no domingo seguinte significa, primeiramente, a importância da assembleia dominical como lugar de encontro do Ressuscitado. De maneira que, na primeira assembleia, Tomé não está; não há como fazer a experiência do Ressuscitado. Foi só no domingo seguinte que também ele conseguiu encontrar o Senhor. O que significa que, ainda hoje, é possível que também nós façamos a experiência do Ressuscitado em nossas assembleias dominicais.

b. Nessas assembleias, Cristo se faz presente, apesar das nossas portas enferrujadas. E ele está aí para nos dar a sua paz. Mas de que maneira o reconhecemos? São João nos diz que o Ressuscitado da Páscoa é o Crucificado da Sexta-Feira Santa. Trata-se, então, de uma continuidade entre o Jesus do Calvário e o Cristo da manhã da Páscoa. No fundo, a Ressurreição não abole a paixão, o sofrimento e a morte; ele os transforma, ele nos revela seu sentido. Não esqueçamos sobretudo que nós estamos no final do século I, em plena perseguição dos cristãos. É por isso que olhando para os outros, e especialmente para aqueles e aquelas que levam as marcas e as feridas do crucificado, que os participantes na assembleia reconhecem o Senhor e experimentam uma grande alegria: “Os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.” (Jo 20,20). A paz os invade: “A paz esteja com vocês” (Jo 20,19.21).

c. Reunidos no nome da nossa fé e de nossa pertença a Cristo, nós somos recriados, investidos do seu Espírito: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,22). É o Pentecostes, é a missão que começa. Essa nova criação faz dos discípulos cristos ressuscitados. Precisamos, então, abrir as portas e sair para anunciar a Boa Nova de que Cristo está vivo, de que ele nos garante a sua presença, de que ele nos deixa a sua paz e de que nos oferece a sua libertação, a liberdade: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem não serão perdoados” (Jo 20,23). É uma responsabilidade: temos o poder de liberar as pessoas ou de rejeitar de fazê-lo. Uma coisa é certa, se nós queremos ser semelhantes a Cristo, a libertação é obrigatória.

d. Estando ausente no primeiro encontro, Tomé, que é juntamente nosso gêmeo e nosso modelo na fé, ele não fez a experiência do Ressuscitado. Ele escutava o testemunho dos outros, mas precisava mais do que isso: “Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei” (Jo 20,25). Na assembleia do domingo seguinte, Tomé está presente. O texto de João não diz que Tomé tocou as feridas de Cristo... Ele diz simplesmente que ele as viu, e o verbo ver, no evangelho de João, tem o mesmo sentido que o verbo crer: ver conduz necessariamente à fé. A expressão: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28) é mais bela profissão de fé do discípulo que encontra o Ressuscitado.

e. A bem-aventurança que se segue no versículo 29: “Felizes os que acreditaram sem ter visto” se dirige a todos os cristãos de todos os tempos que estão convidados a crer nos depoimentos das primeiras testemunhas, isto é, aquelas e aqueles que conheceram a Jesus de Nazaré e que, após a sua morte, lhe reconheceram vivo na comunidade dos discípulos. A experiência deles do Ressuscitado é única, no sentido que eles podem verificar a sua autenticidade, em relação a esse Jesus que eles conheceram, seguiram, amaram e acompanharam até a morte. De certo modo, eles são testemunhas privilegiadas, e é sobre esse testemunho deles que se funda a fé de todos nós, discípulos dele hoje.

Concluindo, gostaria de partilhar com vocês esse belo comentário do exegeta francês Jean Debruynne sobre essa página do evangelho: “Esse texto do Evangelho é uma maravilhosa canção de esperança. É exatamente quando nós fechamos a porta para Jesus, quando colocamos as trancas, que ele entra e fica aí. É precisamente no momento em que duvidamos mais dele que Jesus chega. É na noite que nasce o dia. É no inverno que a primavera começa. É quando não há mais razão para crer que a fé abre seus olhos. As trancas estão colocadas, a porta está hermeticamente fechada e, no entanto, Jesus está aí. Ele não está fora de nós, ele está dentro. Ele se apresenta: A paz esteja com vocês! Jesus não faz reproches nem acusações, ele é a Paz. A Paz esteja com vocês!

sábado, 14 de abril de 2012

Percurso para a fé

"A incredulidade de São Tomé", Caravaggio, 1601

Estando ausente Tomé os discípulos de Jesus tiveram uma experiência inaudita. Quanto O vêm chegar, comunicam-lhe cheios de alegria: "Vimos o Senhor". Tomé escuta-os com ceticismo. Por que irá acreditar em algo tão absurdo? Como podem dizer que viram Jesus cheio de vida, se morreu crucificado? Em todo o caso, será outro.

Os discípulos dizem-lhe lhes mostrou as feridas das Suas mãos e das Suas costas. Tomé não pode aceitar o testemunho de ninguém. Necessita comprova-lo pessoalmente: "Se não vejo nas Suas mãos o sinal dos Seus pregos... e não coloco a mão no Seu costado, não o creio". Só acreditará na sua própria experiência.

Este discípulo que se resiste a acreditar de forma ingénua, vai ensinar-nos o percurso que temos de fazer para chegar à fé em Cristo ressuscitado os que nem sequer vimos o rosto de Jesus, nem escutamos as Suas palavras, nem sentimos os Seus abraços.

Aos oito dias, apresenta-se de novo Jesus aos Seus discípulos. Imediatamente, se dirige a Tomé. Não critica a sua ideia. As suas dúvidas não têm nada de ilegítimo ou escandaloso. A sua resistência em acreditar revela a sua honestidade. Jesus entende-o e vem ao seu encontro mostrando-lhe as Suas feridas.

Jesus oferece-se para satisfazer as suas exigências: "Trás o teu dedo, aqui tens as minhas mãos. Trás a tua mão, aqui tens o meu costado". Essas feridas, mais do que "provas" para verificar algo, não serão "sinais" do Seu amor entregue até há morte? Por isso, Jesus convida-o a aprofundar para lá das suas dúvidas: "Não sejas incrédulo, mas sim crente".

Tomé renuncia a verificar. Já não sente necessidade de provas. Experimenta a presença do Mestre que o ama, o atrai e o convida a confiar. Tomé, o discípulo que fez percurso mais longo e laborioso que ninguém até encontrar-se com Jesus, chega mais longe que ninguém na profundidade da sua fé: "Senhor meu e Deus meu". Ninguém se confessou assim a Jesus.

Não temos de nos assustar ao sentir que brotam de nós dúvidas e interrogações. As dúvidas, vividas de forma sã, salvam-nos de uma fé superficial que se contenta com repetir fórmulas, sem acreditar em confiança em amor. As dúvidas estimulam-nos a ir até ao final na nossa confiança no Mistério de Deus encarnado em Jesus.

A fé cristã cresce em nós quando nos sentimos amados e atraídos por esse Deus cujo Rosto podemos vislumbrar no relato que os evangelhos nos fazem de Jesus. Então, a Sua chamada a confiar tem em nós mais força que as nossas próprias dúvidas. "Ditosos os que creem sem ter visto".

- José Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O dia da vitória do amor

Foto via Blue Pueblo

Jesus anunciava um Deus cujo amor nunca deve ser merecido, um Deus que nos ama sempre e gratuitamente, um Deus que não castiga, mas perdoa aqueles que caem no mal, um Deus que pede reconciliação e amor recíproco entre as pessoas, um Deus que quer reconhecimento e culto como meios em visto do amor, porque ele mesmo é amor.

A análise é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 08-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Nestes dias de Páscoa, surge com força a singularidade do cristianismo entre todas as religiões, mas também surge com força o que na fé cristã parece ser um "escândalo" e uma "loucura" para as pessoas religiosas e para aquelas que se consideram autossuficientes em seu pensar.

Deve-se reconhecer: as outras festas cristãs, com a sua aura poética, são vividas mais ou menos por todos, mas a Páscoa parece ser uma memória e uma festa irredutível para a mentalidade e o sentir comum.

O que os cristãos revivem? Acima de tudo, eles leem e releem uma história de paixão e de morte. A de Jesus de Nazaré, um homem que – dizem-nos aqueles que estiveram envolvidos na sua vida, que viveram e comeram com ele – passava pelas cidades e os vilarejos da terra de Israel fazendo o bem, cuidando, curando, consolando todos os que ele encontrava.

Jesus também falava de um Deus que parecia ser "outro" para os homens religiosos do seu tempo, tornava "evangelho", boa notícia, aquele Deus ao qual os homens haviam acabado por dar imagens perversas, projetando nelas os seus desejos mundanos. Ele anunciava um Deus cujo amor nunca deve ser merecido, um Deus que nos ama sempre e gratuitamente, um Deus que não castiga, mas perdoa aqueles que caem no mal, um Deus que pede reconciliação e amor recíproco entre as pessoas, um Deus que quer reconhecimento e culto como meios em visto do amor, porque ele mesmo é amor.

Jesus, além disso, tinha palavras duríssimas para os detentores do poder religioso, sacerdotes e doutores da lei, porque eles se isentavam dos pesos que faziam os outros carregar, porque procuravam parecer exemplares sem jamais tentar sê-lo realmente. Jesus era incômodo, e por isso teve inimigos, caluniadores que o chamavam de falso profeta e de endemoninhado.

Esses inimigos conseguiram, mediante um processo-farsa ilegal, condená-lo como blasfemador de Deus e convenceram o poder político de que Jesus também era um perigo para a autoridade de César. E assim o poder religioso e o político, concordes entre si, o condenaram à morte na cruz, sentença executada no dia 7 de abril do ano 30 da nossa era.

Naquele dia, Jesus na cruz parecia um amaldiçoado por Deus e pelos homens para os fiéis judeus, como um homem nocivo para o império aos olhos dos romanos: nu, na vergonha, morreu sem se defender, sem responder à violência, amando e perdoando "até o fim", como tinha vivido.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os pés de Cristo

Foto daqui

"Como são belos sobre as montanhas
os pés do Mensageiro da Paz". (Is. 52,6)

Pés tenros de criança
acariciados pela mãe.
Pés sujos de menino
brincando em Nazaré.
Pés firmes de moço
pisando os caminhos do Pai.
Pés tostados nas areias
do mundo dos homens.
Pés encardidos nas caminhadas,
viajantes no fazer o bem.
Pés do Pastor
feridos por espinhos e pedras
nas encostas,
nos vales,
procurando ovelhas perdidas
de Israel.
Pés lavados no Jordão
e no mar da Galiléia,
santificando as águas.
Pés ligeiros
no visitar amigos,
curar enfermos,
consolar aflitos.
Pés galgando montes
para vigílias de preces.
Pés de gigante,
devorados pelo zelo
da casa do Pai,
contidos diante do cinismo
dos fariseus,
beijados pelas pecadoras,
perfumados pelo amor da Madalena.
Pés angustiados
atravessando o Cedron
a caminho do Horto,
sangrando
na trilha do Calvário.
Pés redentores,
partidos,
fixados na Cruz,
para que nossos pés fossem livres.
Cristo,
eloqüentes os teus pés
que, reverentes,
em gratidão beijamos!

- D. Mauro Morelli

Cristo, nossa páscoa, foi imolado

Foto daqui

Sabemos que a origem da Páscoa cristã remonta a tradições religiosas anteriores ao mundo da Bíblia. Inicialmente era uma festa para celebrar a chegada da primavera no hemisfério norte. Depois ela passou a ser também um momento cultual de agricultores, no qual se oferecia às divindades os primeiros frutos da terra. Quando as populações mediterrâneas se tornaram nômades e pastoris, a festa da Páscoa passou a ser um ritual para oferecer aos deuses os primogênitos dos animais. Uma espécie de culto de gratidão e ao mesmo tempo de súplica pela prosperidade e fertilidade da terra e dos rebanhos. Mais tarde, quando tribos nômades da então Canaã se juntam para formar o povo de Israel, a Páscoa passou a ser a festa da libertação, vista como a passagem de Javé pelo Egito para tirar o povo da escravidão.

Com a chegada do cristianismo, a Páscoa judaica, aos poucos, foi se convertendo em Páscoa de Jesus. Passou-se a celebrar a ressurreição de Cristo, evento central da fé cristã. Um dos primeiros escritos cristãos, datado entre os anos 54 a 57 d. C., assim se expressava: "Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que vocês têm” (1Cor 15,14). A fé na ressurreição de Jesus é a crença na vitória de Cristo sobre a morte. Ele morreu, mas está vivo e caminha conosco. Assim sendo, a celebração da Páscoa cristã é a celebração da vida: "A morte foi engolida pela vitória. Morte, onde está a sua vitória? Morte, onde está o seu ferrão?” (1Cor 15,54-55).

Portanto, celebrar a Páscoa é celebrar a vida, com toda a sua beleza e riqueza. Não teria, pois, sentido celebrar a Páscoa aceitando passivamente todas aquelas formas de violência e de ódio que ceifam vidas humanas e destroem o nosso planeta, única casa que temos para viver. Neste sentido, a Páscoa cristã, recuperando a simbologia da Páscoa judaica, é a festa do compromisso e do engajamento, da luta pela liberdade e contra todas as formas de escravidão.

A Páscoa é a festa da disponibilidade, a festa da audácia, do convite para ir à luta, na busca da terra prometida, ou seja, da justiça que gera igualdade e equidade. A Páscoa não pode ser celebrada por quem cruza os braços e aceita tudo resignadamente. Segundo a tradição judaica, durante a Páscoa Deus passa para libertar, mas as pessoas precisam acolher essa passagem lutando e conquistando o espaço da liberdade. Por essa razão, diz a narrativa simbólica da Páscoa judaica, é preciso celebrá-la "com cintos na cintura, sandálias aos pés e cajado na mão” (Êx 12,11). Assim sendo, a celebração da Páscoa é convite à prontidão. Sem sair do próprio lugar, sem ir à procura, sem enfrentar os desafios, a liberdade e a libertação não virão.

As primeiras comunidades cristãs entenderam isso muito bem e desde cedo falaram da Páscoa como imolação de Jesus: "Cristo, nossa páscoa, foi imolado” (1Cor 5,7). Não se trata de um elogio fúnebre ao sacrifício de Jesus, à sua morte brutal, uma vez que essas comunidades tinham consciência de que Jesus não fora mandado por Deus para morrer de modo violento. Jesus fora enviado para anunciar uma Boa Notícia aos pobres: a libertação de toda forma de opressão (Lc 4,18-19). A sua morte brutal foi o resultado de um pacto entre o poder político romano e o poder religioso do templo. Ambos se uniram para eliminar um profeta incômodo que, anunciando a libertação dos cativos, ameaçava esfacelar um sistema construído sobre a opressão política e religiosa do povo (Jo 19,9-12).

Sendo celebração da vida, a Páscoa cristã, recuperando a simbologia judaica (Êx 12,1-20), foi vista desde o início como a festa da imolação. Imolação entendida como coragem para romper com sistemas e situações que impedem a vida de desabrochar. Os sistemas religiosos e políticos, corruptos e violentos, que geram morte e destroem a vida são, de acordo com os primeiros cristãos, o "fermento velho” que faz a vida apodrecer. Por essa razão é preciso celebrar a Páscoa "sem fermento”, ou seja, sem corrupção, sem adesão a tais sistemas (1Cor 5,6-8). Sem isso, diz esse texto do cristianismo nascente, haverá só malícia e perversidade.

Portanto, celebrar a Páscoa não é comer ovo de chocolate e sair por aí distribuindo figurinhas de coelhinho e nem "santinhos” de Jesus ressuscitado. Precisamos retornar às origens e entender a Páscoa como festa da vida e como compromisso para que a vida seja sempre uma festa. Sem engajamento e sem participação da nossa parte, sem compromisso com a justiça e sem luta, a Páscoa se transforma numa celebração consumista, voltada para o superficial e para o medíocre. Não será a festa da libertação e da ressurreição de Jesus.

Nós cristãos muitas vezes agimos como aquelas primeiras pessoas que na madrugada do domingo de Páscoa foram procurar Jesus no túmulo. Mais de dois mil anos depois nós nos comportamos como se Cristo estivesse apodrecido no sepulcro. Não temos esperança, não acreditamos na vida, não nos comprometemos com nada. Vivemos com medo e só pensando em nós mesmos. É hora de agirmos como anjos da ressurreição, gritando para todos os que fazem parte do cristianismo: "Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!” (Lc 24,5-6).

É hora de dizermos que o encontro com a vida plena, com o Ressuscitado, não se dá na escuridão dos túmulos do egoísmo, mas na claridade, na luz da abertura para o outro, na solidariedade. Mas para que tal encontro aconteça é indispensável o deslocamento para a Galileia, ou seja, para as periferias do mundo. Por mais contraditório que possa parecer, é na periferia que se dá a verdadeira Páscoa. Ali todos nós podemos encontrar aquele que é a Vida e o sentido para as nossas vidas: "Vão anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão” (Mt 28,10). Oxalá, nesta Páscoa, tenhamos a coragem de realizar este deslocamento, que, às vezes, é mais mental e cultural do que físico e geográfico. Isso nos permitirá um verdadeiro encontro com o Ressuscitado!

- José Lisboa Moreira de Oliveira
Reproduzido via Amai-vos

terça-feira, 10 de abril de 2012

Jesus, embrenhado na noite, luta com o Pai


A Quinta-feira Santa não é apenas o dia da instituição da Santíssima Eucaristia, cujo esplendor se estende sem dúvida sobre tudo o mais, tudo atraindo, por assim dizer, para dentro dela. Faz parte da Quinta-feira Santa também a noite escura do Monte das Oliveiras, nela Se embrenhando Jesus com os seus discípulos; faz parte dela a solidão e o abandono vivido por Jesus, que, rezando, vai ao encontro da escuridão da morte; faz parte dela a traição de Judas e a prisão de Jesus, bem como a negação de Pedro; e ainda a acusação diante do Sinédrio e a entrega aos pagãos, a Pilatos. Nesta hora, procuremos compreender mais profundamente alguma coisa destes acontecimentos, porque neles se realiza o mistério da nossa Redenção.

Jesus embrenha-se na noite. A noite significa falta de comunicação, uma situação em que não nos vemos um ao outro. É um símbolo da não compreensão, do obscurecimento da verdade. É o espaço onde o mal, que em presença da luz tem de se esconder, pode desenvolver-se. O próprio Jesus – que é a luz e a verdade, a comunicação, a pureza e a bondade – entra na noite. Esta, em última análise, é símbolo da morte, da perda definitiva de comunhão e de vida. Jesus entra na noite para a superar, inaugurando o novo dia de Deus na história da humanidade.

Pelo caminho, Jesus cantou com os seus discípulos os Salmos da libertação e redenção de Israel, que evocavam a primeira Páscoa no Egito, a noite da libertação. Chegado ao destino Ele, como faz habitualmente, vai rezar sozinho e, como Filho, falar com o Pai. Mas, diversamente do que é costume, quer ter perto de Si três discípulos: Pedro, Tiago e João; são os mesmos três que viveram a experiência da sua Transfiguração – viram transparecer, luminosa, a glória de Deus através da sua figura humana – , tendo-O visto no centro da Lei e dos Profetas, entre Moisés e Elias. Ouviram-No falar, com ambos, acerca do seu «êxodo» em Jerusalém. O êxodo de Jesus em Jerusalém: que palavra misteriosa! No êxodo de Israel do Egipto, dera-se o acontecimento da fuga e da libertação do povo de Deus. Que aspecto deveria ter o êxodo de Jesus, para que nele se cumprisse, de modo definitivo, o sentido daquele drama histórico? Agora os discípulos tornavam-se testemunhas do primeiro trecho de tal êxodo – a humilhação extrema –, mas que era o passo essencial da saída para a liberdade e a vida nova, que o êxodo tem em vista. Os discípulos, cuja proximidade Jesus pretendeu naquela hora de ânsia extrema como elemento de apoio humano, depressa se adormentaram. Todavia ainda ouviram alguns fragmentos das palavras ditas em oração por Jesus e observaram o seu comportamento. Estas duas coisas gravam-se profundamente no espírito deles, que depois as transmitiram aos cristãos para sempre. Jesus chama a Deus «Abbá»; isto significa – como eles adiantam – «Pai». Não é, porém, a forma usual para dizer «pai», mas uma palavra própria da linguagem das crianças, ou seja, uma palavra meiga que ninguém ousaria aplicar a Deus. É a linguagem d’Aquele que é verdadeiramente «criança», Filho do Pai, d’Aquele que vive em comunhão com Deus, na unidade mais profunda com Ele.

Se nos perguntássemos qual era o elemento mais característico da figura de Jesus nos Evangelhos, temos de dizer: a sua relação com Deus. Ele está sempre em comunhão com Deus; estar com o Pai é o núcleo da sua personalidade. Através de Cristo, conhecemos verdadeiramente Deus. «A Deus jamais alguém O viu»: diz São João. Aquele que «está no seio do Pai (…) O deu a conhecer» (1, 18). Agora conhecemos Deus, como Ele é verdadeiramente: Ele é Pai; e Pai com uma bondade absoluta, à qual nos podemos confiar. O evangelista Marcos, que conservou as recordações de São Pedro, narra que Jesus, depois da invocação «Abbá», acrescentou: Tudo Te é possível; Tu podes tudo (cf. 14, 36). Aquele que é a Bondade, ao mesmo tempo é poder, é omnipotente. O poder é bondade e a bondade é poder. Esta confiança podemos aprendê-la a partir da oração de Jesus no Monte das Oliveiras.

Antes de refletir sobre o conteúdo da súplica de Jesus, devemos ainda fixar a nossa atenção sobre o que os evangelistas nos referem a propósito do comportamento d’Ele durante a sua oração. Mateus e Marcos dizem-nos que «caiu com a face por terra» (Mt 26, 39; cf. Mc 14, 35), assumindo por conseguinte a posição de submissão total, como se manteve na liturgia romana de Sexta-feira Santa. Lucas, por sua vez, diz-nos que Jesus rezava de joelhos. Nos Atos dos Apóstolos, fala da oração de joelhos feita pelos santos: Estêvão durante a sua lapidação, Pedro no contexto da ressurreição de um morto, Paulo a caminho do martírio. Assim Lucas redigiu uma pequena história da oração feita de joelhos na Igreja nascente. Ajoelhando-se, os cristãos entram na oração de Jesus no Monte das Oliveiras. Ameaçados pelo poder do mal, eles ajoelham: permanecem de pé frente ao mundo, mas, enquanto filhos, estão de joelhos diante do Pai. Diante da glória de Deus, nós, cristãos, ajoelhamo-nos reconhecendo a sua divindade; mas, com tal gesto, exprimimos também a nossa confiança de que Ele vence.

Jesus luta com o Pai: melhor, luta consigo mesmo; e luta por nós. Sente angústia frente ao poder da morte. Este sentimento é, antes de mais nada, a turvação que prova o homem, e mesmo toda a criatura viva, em presença da morte. Mas, em Jesus, trata-se de algo mais. Ele estende o olhar pelas noites do mal; e vê a maré torpe de toda a mentira e infâmia que vem ao seu encontro naquele cálice que deve beber. É a turvação sentida pelo totalmente Puro e Santo frente à torrente do mal que inunda este mundo e que se lança sobre Ele. Vê-me também a mim, e reza por mim. Assim este momento da angústia mortal de Jesus é um elemento essencial no processo da Redenção; de fato, a Carta aos Hebreus qualificou a luta de Jesus no Monte das Oliveiras como um acontecimento sacerdotal. Nesta oração de Jesus, permeada de angústia mortal, o Senhor cumpre a função do sacerdotes: toma sobre Si o pecado da humanidade, toma a todos nós e leva-nos para junto do Pai.

Por último, devemos debruçar-nos sobre o conteúdo da oração de Jesus no Monte das Oliveiras. Jesus diz: «Pai, tudo Te é possível; afasta de Mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres» (Mc 14, 36). A vontade natural do Homem Jesus recua, assustada, perante uma realidade tão monstruosa; pede que isso Lhe seja poupado. Todavia, enquanto Filho, depõe esta vontade humana na vontade do Pai: não Eu, mas Tu. E assim Ele transformou a atitude de Adão, o pecado primordial do homem, curando deste modo o homem. A atitude de Adão fora: Não o que quiseste Tu, ó Deus; eu mesmo quero ser deus. Esta soberba é a verdadeira essência do pecado. Pensamos que só poderemos ser livres e verdadeiramente nós mesmos, se seguirmos exclusivamente a nossa vontade. Vemos Deus como contrário à nossa liberdade. Devemos libertar-nos d’Ele – isto é todo o nosso pensar –; só então seremos livres. Tal é a rebelião fundamental, que permeia a história, e a mentira de fundo que desnatura a nossa vida. Quando o homem se põe contra Deus, põe-se contra a sua própria verdade e, por conseguinte, não fica livre mas alienado de si mesmo. Só somos livres, se permanecermos na nossa verdade, se estivermos unidos a Deus. Então tornamo-nos verdadeiramente «como Deus»; mas não opondo-nos a Deus, desfazendo-nos d’Ele ou negando-O. Na luta da oração no Monte das Oliveiras, Jesus desfez a falsa contradição entre obediência e liberdade, e abriu o caminho para a liberdade. Peçamos ao Senhor que nos introduza neste «sim» à vontade de Deus, tornando-nos deste modo verdadeiramente livres.

Amém.

- Papa Bento XVI
Homilia proferida na Sexta-feira Santa, em Roma, e publicada pelo sítio do Vaticano, 05-04-2012.
Reproduzido via IHU.
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