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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O mundo do domínio e da posse em crise por causa de um Menino


Um cordeiro é posto sobre os ombros do Papa Francisco
por ocasião da festa da Epifania, na Igreja Santo Afonso Maria Ligório,
na periferia de Roma. | Foto: Osservatore Romano, via

Os Reis Magos “ensinam a não nos contentarmos com uma vida medíocre, mas sim a querermos nos fascinar pelo que é bom, verdadeiro, bonito”. Foi o que disse o Papa Francisco na homilia da missa da Epifania. Tomando o exemplo dos Reis Magos, convidou “a não nos deixarmos enganar pelas aparências do que, para o mundo, é grande, sábio, potente”, mas a irmos além.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 06-01-2014. A tradução é do Cepat, via IHU.

O Papa, que celebrou a missa com os cardeais e bispos da Cúria romana, explicou que o caminho dos Magos do Oriente, que seguiam “uma luz em busca da Luz”, “simboliza o destino de cada homem: nossa vida é um caminhar, iluminados pelas luzes que iluminam o caminho, para encontrar a plenitude da verdade e do amor, que nós, cristão, reconhecemos em Jesus, a Luz do mundo”. Cada homem, assim como os Reis Magos – acrescentou Bergoglio – tem a sua disposição dois grandes “livros” dos quais se pode extrair “os sinais para se orientar na peregrinação: o livro da criação e o livro das Sagradas Escrituras. O importante é estar atento, vigiar e escutar o Deusque nos fala”.

Francisco recordou que os Reis, quando chegaram a Jerusalém perderam de vista, por um momento, a estrela, cuja luz não era vista no palácio do Rei Herodes: “Aquela demora era tenebrosa, reinava a obscuridade, a desconfiança, o medo.Herodes, de fato, mostrou-se desconfiado e preocupado pelo nascimento do frágil Menino, sentido como um rival. Na realidade – explicou o Papa – Jesus não veio para derrubá-lo, fantoche miserável, mas para ser o príncipe deste mundo! No entanto, o rei e seus conselheiros ouviram o ranger dos andaimes de seu poder, temendo que, uma vez desmascaradas as aparências, as regras do jogo mudassem”.

Assim todo um mundo “construído sobre o domínio, o sucesso e o poder, entraria em crise por um Menino! E Herodes chegou, inclusive, a mandar matar os meninos. Um padre da Igreja dizia: ‘Matas aos meninos de carne, porque o medo o mata em seu coração’. E tinha medo”. Os Reis Magos souberam superar – acrescentou Francisco – “aquele perigoso momento de escuridão de Herodes, porque acreditaram nas Escrituras, na palavra dos profetas que indicavam Belém como o lugar do nascimento do Messias”.

O Papa também lembrou outro aspecto desta luz que guia o caminho da fé: a “santa astúcia, que também é uma virtude”. Trata-se, explicou, da “sutileza espiritual que nos permite reconhecer os perigos e evitá-los. Os Reis Magossouberam utilizar esta luz da “astúcia” quando, no caminho de volta, decidiram não passar pelo tenebroso palácio deHerodes e percorrer outro caminho. Estes sábios vindos do Oriente nos ensinam a não cair nas armadilhas da escuridão e a nos defender da escuridão que tenta envolver nossas vidas. Com esta santa astúcia, mantiveram a fé. Assim como nós também devemos mantê-la. Às vezes o demônio, como disse São Paulo, se veste de luz, e nós, frente às sereias do mundo, devemos manter a fé. É necessário acolher a luz de Deus em nosso coração e, ao mesmo tempo, cultivar a astúcia espiritual que sabe conjugar simplicidade e astúcia”.

O exemplo dos Reis Magos “nos ajuda – concluiu Bergoglio – a olhar para a estrela e seguir os grandes desejos do nosso coração. Ensinam a não nos contentarmos com uma vida medíocre, sem “grandes voos”, mas deixar-nos atrair sempre pelo que é bom, verdadeiro e belo... por Deus, e para que tudo isso seja cada vez maior! E nos ensinam a não nos deixarmos enganar pelas aparências, por aquilo que, para o mundo, é grande, sapiente, poderoso. Não deve se deter aí. Não se deve se contentar com a aparência, a fachada. Em nosso tempo é necessário e muito importante que se mantenha a fé. É preciso ir além da escuridão, além do canto das sereias, da mundano, das tantas modernidades de hoje. É necessário ir até Belém onde, na simplicidade de uma casa de periferia, entre uma mãe e um pai repletos de amor e de fé, resplandece o Sol nascido do alto, o Rei do universo”.

A chegada dos Magos do Oriente a Belém, para homenagear o Rei dos judeus, é um tema que o Papa voltou a tratar durante a Angelus. “É um episódio que o papa Bento comentou magnificamente em seu livro sobre a infância de Jesus. Esta – disse o Papa Francisco durante o Angelus – foi a primeira ‘manifestação’ de Cristo às pessoas, por isto a Epifania evidencia a abertura universal trazida por Jesus”. “Jesus – destacou o Papa – veio para todos os povos, para todos nós”.

O Papa insistiu sobre o “duplo movimento” desta festa, de Deus até os homens e dos homens até Deus, junto às “religiões, na busca da verdade, do caminho dos povos até a paz, a justiça, a liberdade”. Neste movimento, o Pontíficesublinhou, “a iniciativa é de Deus. O amor de Deus vem antes do nosso”. “A Igreja – observou – está toda dentro deste movimento”. E concluiu rezando para que a Igreja tenha sempre “a alegria de se evangelizar”.

“O profeta Isaías – explicou o Papa – dizia que ‘Deus é como a flor da amêndoa, porque naquela terra a amêndoa é a primeira a florescer e Deus sempre precede, Ele dá o primeiro passo’”.

“Gostaria de dizer a todos aqueles que se sentem distantes da Igreja – disse o Papa – que ‘os respeito’ e, àqueles temerosos, indiferentes, que ‘o Senhor também chama a ti, e o faz com grande respeito, o Senhor te espera, te procura, o Senhor não faz proselitismo, te espera, te procura, inclusive se, neste momento, estás longe”.

Depois do Angelus, recitado da janela do estúdio papal na Praça de São Pedro, o Papa dirigiu uma “cordial felicitação aos irmãos e irmãs das Igrejas orientais que – como ele lembrou – amanhã celebram o Santo Natal. A paz de Deus – acrescentou – foi dada à humanidade com o nascimento de Jesus, Verbo encarnado, reforço a todos a fé, a esperança e a caridade, assim como o apoio as comunidades cristãs que estão sofrendo”.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Carta de um pai gay a um bispo homofóbico


Nos últimos dias, lemos na imprensa as palavras insistentes do Papa Francisco de que "o Evangelho se anuncia com doçura e amor, não com porretadas inquisitoriais" (aqui) e na necessidade de manter o coração aberto e em busca, movido pelo desejo profundo de mudar o mundo (ainda aqui); lemos suas reflexões sobre a importância de formar o coração dos sacerdotes, para que "despertem o mundo" (aqui) e não se transformem em "pequenos monstros" (aqui, aqui e aqui); e recordamos, ainda, como fato-síntese do diálogo entre LGBTs e Igreja em 2013, a resposta e a benção dada pelo Papa a um grupo de LGBTs católicos italiano (aqui). Ontem, lemos também esta carta de um espanhol, gay, casado e pai de um menino de três anos, que defende seu casamento e seu filho dos ataques de um bispo homofóbico.

Achei de fundamental importância traduzir e compartilhar essa carta não só por sua clareza e pertinência, mas também porque coincide em muitos pontos com a carta que enviamos aos Bispos da Igreja Católica (saiba mais aqui. Ainda não assinou a petição on-line? Clique aqui!). Suas palavras sobre a família, especialmente, encontram eco em nosso pedido:
Todos nós, como pessoas LGBT, filhas e filhos de Deus, nascemos no seio de famílias, das mais diversificadas, e todos nós buscamos viver em família, seja ela eletiva ou biológica. Como Católicos, sabemos que Nosso Senhor Jesus Cristo sempre promoveu e promove mais a família eletiva que a biológica. Ou seja, consideramos que o discurso Católico sobre a família nos toca profundamente, sobretudo porque estas palavras de Jesus nos ressoam: "A minha mãe e os meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lucas 8, 21). Temos as mais variadas experiências de vida familiar (...). Por isto, não podemos deixar de notar que, até agora, o discurso eclesiástico sobre a família nos trata como se fôssemos os inimigos da família, hostis de alguma forma à sobrevivência da mesma. Porém, nenhuma dinâmica familiar pode ser considerada saudável se alguém nela é tratado como ovelha negra (ou rosa). E isto nos leva a pedir que os Senhores não insistam em “defender” a família contrapondo-a aos direitos e à estabilidade psíquica e espiritual das pessoas LGBT. Estas “defesas” soam como forma de se imiscuir de maneira pouco evangélica em vivências familiares complexas em que todos sairiam ganhando se o assunto fosse tratado com honestidade, escuta, paciência e carinho. [Leia na íntegra aqui.]
Que a defesa veemente que este marido e pai faz de sua família nos inspire a buscar um coração sempre mais aberto, como pede o Papa Francisco, e um olhar sempre mais evangélico e acolhedor em relação às realidades vividas pelos nossos irmãos, por mais distintas ou distantes que possam parecer das nossas próprias vivências; e a orar por nossos sacerdotes, para que cada vez mais tenham o coração e os olhos abertos em amoroso serviço aos irmãos e possam ser, assim, sinais da Boa Nova de Cristo na terra.

Com carinho,


Casimiro Lopez Llorente, bispo de Segorbe Castellón [Espanha], começou 2014 não só atacando o casamento gay, mas também criticando os filhos de famílias homoparentais. Ao mesmo tempo em que responsabiliza o primeiro pela destruição da família, descreve os segundos como crianças com graves perturbações de personalidade, propensas a desenvolver comportamentos violentos.

Pedro Fuentes, casado com um homem e pai de um filho de três anos, responde ao bispo:

"Monsenhor, na minha cidade, quando uma pessoa é de classe social baixa ou baixa em termos de sua conduta, usamos uma expressão simples: 'pobre' — embora seja muito diferente ser pobre de dinheiro ou pobre de espírito. Digo isso por causa de uma carta em que o senhor denigre certas crianças, ainda que a palavra amor permeie cada uma das homilias que se ouve nas igrejas e catedrais.

Suas palavras, senhor bispo, soam como um tapa na cara. São palavras inaceitáveis, por mais que, ao revesti-las de assertividade, o senhor pretenda conferir-lhes um brilho de que carecem.

O senhor alega que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é a base "para a destruição da família" e tem entre seus efeitos "o aumento significativo de crianças com grave distúrbio de personalidade".

Só me ocorrem três possíveis razões para tais afirmações.

A primeira é que o senhor se baseie em evidências. Mas isso não é possível, não existem evidências disso. Eu poderia lhe apresentar uma infinidade de referências a artigos publicados em revistas médicas, de bioética, psicológicas ou psiquiátricas (estas, talvez as mais significativas, se é nesses dados que o senhor tem maior interesse) mostrando que não há nenhuma diferença entre os filhos de homossexuais e os de heterossexuais, entre crianças de famílias tradicionais e de famílias não tradicionais, como o senhor diria. Não só não existem, como os estudos indicam uma tendência (não significativa, é verdade, mas tendência ainda assim) a um maior compromisso dessas crianças com os Direitos Humanos e a defesa dos mais fracos, com relação aos quais elas mostram mais empatia. Os pesquisadores concluem que isso se deve à sua criação em um ambiente familiar que lhes inculca esses valores, já que seus pais ainda precisam defender os próprios direitos, Direitos Humanos, quase todos os dias, como estou fazendo aqui. Pena que o senhor mesmo não foi educado nesses valores e nessa defesa.

A segunda razão possível para que o senhor faça tais afirmações é que esteja falando por experiência. Espero que não seja essa a razão; caso seja, lamento muito. Viver em uma família que destroce uma criança deve ser horrível; e se, mais de 60 anos depois, as feridas ainda estão sangrando, só pode ser por terem sido muito profundas. A violência na família é algo medonho. Ainda assim, suas dores não podem ser uma desculpa para infligir dor aos outros. Ao contrário, devem constituir razão para defender o ser humano, não para criminalizá-lo injustamente.

A terceira razão seria a impudência da palavra: falar por falar, para causar danos e dor, para criar uma base ideológica a partir da qual atacar o outro só por ser diferente, por não viver como eu desejo. Aí há que reconhecer a existência de uma grande tradição. Basta lembrar a facilidade com que passamos do "não julgueis e não sereis julgados" para a Santa Inquisição — que, além de julgar, foi responsável pelo saque, tortura e morte de milhares de pessoas. Contudo, senhor bispo, por mais que o senhor queira a Idade de Ferro do papado não voltará mais, nem o esplendor do Poder Temporal, nem o senhor poderá ostentar seu ouropel em passeio por suas terras, recebendo as homenagens do povo.

Respeito se conquista, não é concedido por um anel ou uma mitra. A Igreja vem se esquecendo das bases que a formaram e o episcopado se distorceu de uma tal maeira que ninguém mais se lembra das palavras da Primeira Epístola de S. Paulo a Timóteo: 'quem aspira ao episcopado, saiba que está desejando uma função sublime. Porque o bispo tem o dever de ser irrepreensível, casado uma só vez, sóbrio, prudente, regrado no seu proceder, hospitaleiro, capaz de ensinar. Não deve ser dado a bebidas, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; deve saber governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Pois quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?' [1 Timoteo 3:1-5] Marido... prudente... condescendente... filhos... são belas palavras. O senhor, que não formou uma família (viver em família não é o mesmo que formá-la), em vez de vivê-las, não só se permite opinar como tem o atrevimento de condenar.

Defenda seu modelo de família ou sociedade, mas respeite, como quer ser respeitado, os outros modelos. E, se quiser falar de crianças em situação de risco, volte seu olhar para as centenas delas que, aqui na Espanha, passam fome todos os dias — FOME, senhor bispo, enquanto milhões de euros chegam às mãos dos ricos sem que ressoe, nos palácios episcopais, o chicote com que Jesus açoitou os vendilhões do templo. Não admito que ninguém falte ao respeito com meu filho, nem pelo modo como ele nasceu, nem por ser filho de quem é. Com suas palavras, o senhor desrespeitou não só a ele, mas a milhares de crianças que não conhece e, obviamente, nem pretende conhecer. Desrespeitou milhares de famílias sobre as quais nada sabe, porque nem as entende nem tem a alma limpa para delas se aproximar. A concupiscência, a lascívia na palavra, é um pecado grave, especialmente quando fere inocentes.

'Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.' (Mt, 25, 40)

Esta é a minha esperança: saber, que mais cedo ou mais tarde, o senhor comparecerá perante Ele. Saber que Ele o olhará no rosto. Saber que Ele lhe lançará Seu desprezo. Porque ser bispo não pode jamais significar ferir qualquer um destes meus irmãos pequeninos.

A meu marido e a mim, Deus nos deu um filho. O fato de o senhor não ter compreendido isso só mostra o quanto está longe d’Ele.

Pedro Fuentes"

domingo, 5 de janeiro de 2014

Faleceu o Pe. Robert Nugent, sacerdote fundador do grupo católico LGBT “New Ways Ministry”


É com pesar, mas gratos por ter-lhe sido dado repousar e confiantes na promessa da Ressurreição, que compartilhamos a nota de falecimento do Pe. Robert Nugent, inspirado pioneiro da luta pela inclusão dos LGBTs a Igreja Católica. Que sua alma descanse em paz e ele siga intercedendo por nós junto ao Pai Amoroso.

Faleceu o Pe. Robert Nugent, SDS, fervoroso defensor dos gays e lésbicas católicos. Nugent ficou conhecido como um dos fundadores do New Ways Ministry, organização que trabalha com gays e lésbicas católicos.

O blog do New Ways Ministry divulgou a notícia de seu falecimento, ocorrido em 1º de janeiro de 2014 em Milwaukee, Wisconsin. Havia três meses, ele sofria de câncer no cérebro.

Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, assim refletiu sobre o impacto da vida do Pe. Nugent:

"Enquanto alguns poucos sacerdotes limitam-se a falar aos sussurros sobre a homossexualidade, o Pe. Nugent se reunia com lésbicas e gays e os incentivava a reivindicar seu lugar de direito na Igreja Católica. Em um tempo de intensa homofobia na Igreja e na sociedade, manifestou uma rara coragem e presciência de ao acolher e afirmar a bondade de Deus para com seus filhos gays e lésbicas."

O trabalho de Nugent nem sempre foi apreciado pelo Vaticano, que, em 1999, proibiu-o de continuar escrevendo e falando sobre a homossexualidade. Ele obedeceu a determinação por lealdade a seu voto de obediência, e permaneceu sacerdote.

O Rev. James Martin, SJ, diretor da revista católica América, comentou:

"Sempre admirei o trabalho pioneiro de Padre Nugent junto aos gays e lésbicas católicos; em parceria com a irmã Jeannine Gramick, Pe. Nugent ajudou muitos milhares de pessoas a se sentirem mais bem-vindas em sua igreja. Mas eu admirava também sua fidelidade ao seu voto de obediência. Em um momento difícil, o Padre Nugent soube equilibrar-se entre a justiça e a fidelidade com enorme graça e confiança em Deus. Todos os católicos - não apenas gays e lésbicas - têm para com ele uma dívida de gratidão. Que ele descanse em paz.

Fonte

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A verdade sobre a homossexualidade


Nossos amigos do Equally Blessed começaram o ano compartilhando um texto do padre americano Gary F. Meier no Huffington Post, do qual traduzimos e compartilhamos parte com vocês (para ler o artigo original, na íntegra, clique aqui). O Pe. Meier lançou em 2013 o livro Hidden Voices, Reflections of a Gay Catholic Priest ("Vozes Ocultas - Reflexões de um padre católico gay"), a princípio anonimamente, para depois assumir que era o autor do livro. Seu testemunho é rico e significativo, e coincide em muitos pontos com a carta que enviamos aos Bispos da Igreja Católica (saiba mais aqui. Ainda não assinou a petição on-line? Clique aqui!). Suas palavras sobre a verdade e a necessidade premente de mudança, especialmente, encontram eco em nosso pedido:
"Pedimos, então, não como mera questão acadêmica, mas como urgente exercício de responsabilidade pastoral, que os Senhores busquem a maneira de entrar pública e honestamente no processo de elucidar conosco aquilo que realmente é neste campo. Sem medo da verdade, pois sem ela, nenhuma Pastoral Católica é possível. O medo da verdade, além de pouco eficaz para a ação pastoral, também é inútil, pois, como lemos na Declaração Dignitatis Humanae, n.1, do Concílio Vaticano II, 'A verdade não se impõe de outro modo senão pela força da própria verdade'".

Segue o texto.


(...) Faz pouco mais de seis meses que anunciei que sou o autor de Hidden Voices, Reflections of a Gay Catholic Priest, e muita coisa aconteceu . O livro foi lançado no dia 23 de maio de 2013, e levou a uma série de entrevistas de televisão, rádio e jornais. Muitas dessas entrevistas podem ser encontradas no meu site (...).

Meu livro tem gerado muito interesse e, literalmente, milhares de e-mails e cartas de pessoas de todo o mundo. De tudo que recebi, apenas alguns foram negativos. O resto são um misto de e-mails de apoio e mensagens afirmativas daqueles que foram feridos pelos ensinamentos da Igreja Católica sobre a homossexualidade. Entristece-me que uma igreja que eu amo possa ser tão prejudicial para muitos de seus membros " - pessoas boas e amorosas . São seminaristas, sacerdotes, bispos, alguns jovens LGBT e seus pais, e aliados LGBT - todos eles estão desesperadamente tentando conciliar o que eles acreditam sobre a homossexualidade com o que a Igreja ensina. Se aprendi alguma coisa em 2013, é que o nível de dor que causamos é mais profundo do que eu poderia ter imaginado.

Recebi um e-mail de uma mãe cujo filho estuda em uma escola primária católica. Ela está tentando conciliar suas crenças com a decisão de sua escola de expulsar os escoteiros por causa de sua "nova política pró-gay". Ela me escreveu: "Será que realmente quero pertencer a uma instituição que não vai permitir gays em suas instalações?". Um homem hétero escreveu: "É cada vez mais difícil para mim continuar indo à missa sabendo que meus amigos gays e seus cônjuges não são bem-vindos no altar". Uma avó escreveu: "O meu neto é gay e vai se casar em poucos meses, e não sei o que fazer. Amo meu neto e amo seu parceiro. E amo a minha igreja. Será que os bispos percebem a posição em que estão nos colocando?". Um padre gay, de seus 60 anos, escreveu: "Um pedaço de mim morre cada vez que pego o jornal e leio mais falas anti-gays vindas de bispos católicos. Sinto-me encurralado entre permanecer em silêncio ou perder meus rendimentos, minha aposentadoria, meu plano de saúde - tudo".

Recentemente, almocei com a Irmã Jeannine Gramick, SL, co-fundadora do New Ways Ministry, e Mathew Myers, seu diretor-adjunto. Eles perguntaram: "O que podemos fazer para incentivar outros padres gays  a sair do armário?" Respondi: "Os padres não saem do armário por medo. Mas desconfio de que seu medo é mais de perder seus meios de subsistência (renda, aposentadoria, moradia, alimentação etc.) do que de ser rejeitados. Se minha história pode servir de exemplo do que as pessoas acreditam, parece que elas estão dispostas a aceitar padres gays. É o medo de perder tudo que é assustador".

Os e-mails mais perturbadores vêm de adolescentes anônimos que falam em "acabar com tudo" e se dizem dilacerados por se acreditarem falhos, desordenados, doentes ou, de alguma forma, traidores. Só posso imaginar a coragem que um adolescente precisa ter para escrever em segredo um e-mail e enviá-lo para mim. Eles estão em minhas orações todos os dias.

Em meados de novembro, recebi uma carta da arquidiocese de Saint Louis, afirmando que o arcebispo gostaria que eu "solicitasse voluntariamente minha demissão do estado clerical". A carta chegou a dizer que, se eu não "solicitasse voluntariamente minha demissão, a diocese dará início a um processo involuntário para me retirar do estado clerical". De um jeito ou de outro, seguir sendo um clérigo não é uma opção para mim.

Afirmei desde o começo que nunca duvidei da minha vocação ao sacerdócio e retornaria ao ministério ativo se pudesse falar a verdade sobre a homossexualidade. Para que isso aconteça, a igreja teria de mudar ou ampliar seus ensinamentos sobre a homossexualidade. Nosso novo Papa nos dá a esperança de estarmos em um bom caminho. Costumo dizer que sinto-me "cautelosamente otimista" a respeito do novo tom adotado pelo Papa. Otimista com relação à possibilidade de que, um dia, os ensinamentos da igreja vão mudar; e cauteloso, porque os ensinamentos da igreja ainda não mudaram. Nesse meio tempo, católicos continuam perdendo seus empregos e a ter os sacramentos negados em nossa igreja simplesmente por causa de quem eles amam.

Então, aonde é que isto me leva? Isso me leva a seguir em frente e continuar a falar a verdade - a verdade de Deus - a verdade sobre a homossexualidade. A verdade de que a homossexualidade não é uma cruz, não é uma doença, não um transtorno, mas um belo presente de Deus. A verdade de que fomos criados por amor, com amor - e a verdade que reconhece a dignidade e a igualdade inerentes a todas as pessoas, independentemente de quem eles amam. Santa Catarina de Siena disse: "Fale a verdade com mil vozes; é o silêncio que mata o mundo". 2013 chega ao fim, eu estou ansioso por um novo ano e um novas oportunidades para falar a verdade. (...)

- Pe. Gary M. Meier
(Fonte)

Fraternidade, fundamento e caminho para a paz

"Pomba da paz", Pablo Picasso


Começamos o ano compartilhando a mensagem do Papa Francisco para este Dia Mundial da Paz:

1. Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular a todos, indivíduos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperança. Com efeito, no coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar.

Na realidade, a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor.

O número sempre crescente de ligações e comunicações que envolvem o nosso planeta torna mais palpável a consciência da unidade e partilha dum destino comum entre as nações da terra. Assim, nos dinamismos da história – independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas –, vemos semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta vocação é muitas vezes contrastada e negada nos factos, num mundo caracterizado pela «globalização da indiferença» que lentamente nos faz «habituar» ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos.

Em muitas partes do mundo, parece não conhecer tréguas a grave lesão dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos à vida e à liberdade de religião. Exemplo preocupante disso mesmo é o dramático fenómeno do tráfico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escrúpulos. Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas.

A globalização, como afirmou Bento XVI, torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos.[1] As inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do «descartável» que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados «inúteis». Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero do ut des pragmático e egoísta.

Ao mesmo tempo, resulta claramente que as próprias éticas contemporâneas se mostram incapazes de produzir autênticos vínculos de fraternidade, porque uma fraternidade privada da referência a um Pai comum como seu fundamento último não consegue subsistir.[2] Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.

«Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9)
2. Para compreender melhor esta vocação do homem à fraternidade e para reconhecer de forma mais adequada os obstáculos que se interpõem à sua realização e identificar as vias para a superação dos mesmos, é fundamental deixar-se guiar pelo conhecimento do desígnio de Deus, tal como se apresenta de forma egrégia na Sagrada Escritura.

Segundo a narração das origens, todos os homens provêm dos mesmos pais, de Adão e Eva, casal criado por Deus à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26), do qual nascem Caim e Abel. Na história desta família primigénia, lemos a origem da sociedade, a evolução das relações entre as pessoas e os povos.
Abel é pastor, Caim agricultor. A sua identidade profunda e, conjuntamente, a sua vocação é ser irmãos, embora na diversidade da sua actividade e cultura, da sua maneira de se relacionarem com Deus e com a criação. Mas o assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua história (cf. Gn 4, 1-16) põe em evidência o difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros. Caim, não aceitando a predilecção de Deus por Abel, que Lhe oferecia o melhor do seu rebanho – «o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta» (Gn 4, 4-5) –, mata Abel por inveja. Desta forma, recusa reconhecer-se irmão, relacionar-se positivamente com ele, viver diante de Deus, assumindo as suas responsabilidades de cuidar e proteger o outro. À pergunta com que Deus interpela Caim – «onde está o teu irmão?» –, pedindo-lhe contas da sua acção, responde: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Depois – diz-nos o livro do Génesis –, «Caim afastou-se da presença do Senhor» (4, 16).

É preciso interrogar-se sobre os motivos profundos que induziram Caim a ignorar o vínculo de fraternidade e, simultaneamente, o vínculo de reciprocidade e comunhão que o ligavam ao seu irmão Abel. O próprio Deus denuncia e censura a Caim a sua contiguidade com o mal: «o pecado deitar-se-á à tua porta» (Gn 4, 7). Mas Caim recusa opor-se ao mal, e decide igualmente «lançar-se sobre o irmão» (Gn 4, 8), desprezando o projecto de Deus. Deste modo, frustra a sua vocação original para ser filho de Deus e viver a fraternidade.

A narração de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição. Disso mesmo dá testemunho o egoísmo diário, que está na base de muitas guerras e injustiças: na realidade, muitos homens e mulheres morrem pela mão de irmãos e irmãs que não sabem reconhecer-se como tais, isto é, como seres feitos para a reciprocidade, a comunhão e a doação.

«E vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8)
3. Surge espontaneamente a pergunta: poderão um dia os homens e as mulheres deste mundo corresponder plenamente ao anseio de fraternidade, gravado neles por Deus Pai? Conseguirão, meramente com as suas forças, vencer a indiferença, o egoísmo e o ódio, aceitar as legítimas diferenças que caracterizam os irmãos e as irmãs?

Parafraseando as palavras do Senhor Jesus, poderemos sintetizar assim a resposta que Ele nos dá: dado que há um só Pai, que é Deus, vós sois todos irmãos (cf. Mt 23, 8-9). A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha activa.

Em particular, a fraternidade humana foi regenerada em e por Jesus Cristo, com a sua morte e ressurreição. A cruz é o «lugar» definitivo de fundação da fraternidade que os homens, por si sós, não são capazes de gerar. Jesus Cristo, que assumiu a natureza humana para a redimir, amando o Pai até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8), por meio da sua ressurreição constitui-nos como humanidade nova, em plena comunhão com a vontade de Deus, com o seu projecto, que inclui a realização plena da vocação à fraternidade.
Jesus retoma o projecto inicial do Pai, reconhecendo-Lhe a primazia sobre todas as coisas. Mas Cristo, com o seu abandono até à morte por amor do Pai, torna-Se princípio novo e definitivo de todos nós, chamados a reconhecer-nos n’Ele como irmãos, porque filhos do mesmo Pai. Ele é a própria Aliança, o espaço pessoal da reconciliação do homem com Deus e dos irmãos entre si. Na morte de Jesus na cruz, ficou superada também a separação entre os povos, entre o povo da Aliança e o povo dos Gentios, privado de esperança porque permanecera até então alheio aos pactos da Promessa. Como se lê na Carta aos Efésios, Jesus Cristo é Aquele que reconcilia em Si todos os homens. Ele é a paz, porque, dos dois povos, fez um só, derrubando o muro de separação que os dividia, ou seja, a inimizade. Criou em Si mesmo um só povo, um só homem novo, uma só humanidade nova (cf. 2,14-16).

Quem aceita a vida de Cristo e vive n’Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado vê, em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, é solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente perante a sorte dos irmãos.

A fraternidade, fundamento e caminho para a paz
4. Suposto isto, é fácil compreender que a fraternidade é fundamento e caminho para a paz. As Encíclicas sociais dos meus Predecessores oferecem uma ajuda valiosa neste sentido. Basta ver as definições de paz da Populorum progressio, de Paulo VI, ou da Sollicitudo rei socialis, de João Paulo II. Da primeira, apreendemos que o desenvolvimento integral dos povos é o novo nome da paz[3] e, da segunda, que a paz é opus solidaritatis, fruto da solidariedade.[4]

Paulo VI afirma que tanto as pessoas como as nações se devem encontrar num espírito de fraternidade. E explica: «Nesta compreensão e amizade mútuas, nesta comunhão sagrada, devemos (...) trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade».[5] Este dever recai primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obrigações radicam-se na fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tríplice aspecto: o dever de solidariedade, que exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas; o dever de justiça social, que requer a reformulação em termos mais correctos das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros.[6]

Ora, da mesma forma que se considera a paz como opus solidarietatis, é impossível não pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma João Paulo II, é um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não o é de ninguém. Na realidade, a paz só pode ser conquistada e usufruída como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustentável, se estiver viva, em todos, «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum».[7] Isto implica não deixar-se guiar pela «avidez do lucro» e pela «sede do poder». É preciso estar pronto a «“perder-se” em benefício do próximo em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio (...). O “outro” – pessoa, povo ou nação – [não deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalhar e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim como um nosso “semelhante”, um “auxílio”».[8]
 
A solidariedade cristã pressupõe que o próximo seja amado não só como «um ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos os demais, mas [como] a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da acção permanente do Espírito Santo»,[9] como um irmão. «Então a consciência da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, “filhos no Filho”, e da presença e da acção vivificante do Espírito Santo conferirá – lembra João Paulo II – ao nosso olhar sobre o mundo como que um novo critério para o interpretar»,[10] para o transformar.

A fraternidade, premissa para vencer a pobreza
5. Na Caritas in veritate, o meu Predecessor lembrava ao mundo que uma causa importante da pobreza é a falta de fraternidade entre os povos e entre os homens.[11] Em muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional, devido à carência de sólidas relações familiares e comunitárias; assistimos, preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de carências, marginalização, solidão e de várias formas de dependência patológica. Uma tal pobreza só pode ser superada através da redescoberta e valorização de relações fraternas no seio das famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.

Além disso, se por um lado se verifica uma redução da pobreza absoluta, por outro não podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza relativa, isto é, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa região específica ou num determinado contexto histórico-cultural. Neste sentido, servem políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade, garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais – acesso aos «capitais», aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projecto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa.

Reconhece-se haver necessidade também de políticas que sirvam para atenuar a excessiva desigualdade de rendimento. Não devemos esquecer o ensinamento da Igreja sobre a chamada hipoteca social, segundo a qual, se é lícito – como diz São Tomás de Aquino – e mesmo necessário que «o homem tenha a propriedade dos bens»,[12] quanto ao uso, porém, «não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros».[13]

Por último, há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza – que deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão. É o caso não só das pessoas consagradas que professam voto de pobreza, mas também de muitas famílias e tantos cidadãos responsáveis que acreditam firmemente que a relação fraterna com o próximo constitua o bem mais precioso.

A redescoberta da fraternidade na economia
6. As graves crises financeiras e económicas dos nossos dias – que têm a sua origem no progressivo afastamento do homem de Deus e do próximo, com a ambição desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das relações interpessoais e comunitárias, por outro – impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável. Já, em 1979, o Papa João Paulo II alertava para a existência de «um real e perceptível perigo de que, enquanto progride enormemente o domínio do homem sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu domínio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele próprio se torne objecto de multiforme manipulação, se bem que muitas vezes não directamente perceptível; manipulação através de toda a organização da vida comunitária, mediante o sistema de produção e por meio de pressões dos meios de comunicação social».[14]

As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise actual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual. As referidas virtudes são necessárias sobretudo para construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana.

A fraternidade extingue a guerra
7. Ao longo do ano que termina, muitos irmãos e irmãs nossos continuaram a viver a experiência dilacerante da guerra, que constitui uma grave e profunda ferida infligida à fraternidade.

Há muitos conflitos que se consumam na indiferença geral. A todos aqueles que vivem em terras onde as armas impõem terror e destruição, asseguro a minha solidariedade pessoal e a de toda a Igreja. Esta última tem por missão levar o amor de Cristo também às vítimas indefesas das guerras esquecidas, através da oração pela paz, do serviço aos feridos, aos famintos, aos refugiados, aos deslocados e a quantos vivem no terror. De igual modo a Igreja levanta a sua voz para fazer chegar aos responsáveis o grito de dor desta humanidade atribulada e fazer cessar, juntamente com as hostilidades, todo o abuso e violação dos direitos fundamentais do homem.[15]

Por este motivo, desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide ao encontro do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor! «Nesta óptica, torna-se claro que, na vida dos povos, os conflitos armados constituem sempre a deliberada negação de qualquer concórdia internacional possível, originando divisões profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejeição prática de se comprometer para alcançar aquelas grandes metas económicas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu».[16]

Mas, enquanto houver em circulação uma quantidade tão grande como a actual de armamentos, poder-se-á sempre encontrar novos pretextos para iniciar as hostilidades. Por isso, faço meu o apelo lançado pelos meus Predecessores a favor da não-proliferação das armas e do desarmamento por parte de todos, a começar pelo desarmamento nuclear e químico.

Não podemos, porém, deixar de constatar que os acordos internacionais e as leis nacionais, embora sendo necessários e altamente desejáveis, por si sós não bastam para preservar a humanidade do risco de conflitos armados. É precisa uma conversão do coração que permita a cada um reconhecer no outro um irmão do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, construírem uma vida em plenitude para todos. Este é o espírito que anima muitas das iniciativas da sociedade civil, incluindo as organizações religiosas, a favor da paz. Espero que o compromisso diário de todos continue a dar fruto e que se possa chegar também à efectiva aplicação, no direito internacional, do direito à paz como direito humano fundamental, pressuposto necessário para o exercício de todos os outros direitos.

A corrupção e o crime organizado contrastam a fraternidade
8. O horizonte da fraternidade apela ao crescimento em plenitude de todo o homem e mulher. As justas ambições duma pessoa, sobretudo se jovem, não devem ser frustradas nem lesadas; não se lhe deve roubar a esperança de podê-las realizar. A ambição, porém, não deve ser confundida com prevaricação; pelo contrário, é necessário competir na mútua estima (cf. Rm 12, 10). Mesmo nas disputas, que constituem um aspecto inevitável da vida, é preciso recordar-se sempre de que somos irmãos; por isso, é necessário educar e educar-se para não considerar o próximo como um inimigo nem um adversário a eliminar.
A fraternidade gera paz social, porque cria um equilíbrio entre liberdade e justiça, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indivíduos e bem comum. Uma comunidade política deve, portanto, agir de forma transparente e responsável para favorecer tudo isto. Os cidadãos devem sentir-se representados pelos poderes públicos, no respeito da sua liberdade. Em vez disso, muitas vezes, entre cidadão e instituições, interpõem-se interesses partidários que deformam essa relação, favorecendo a criação dum clima perene de conflito.

Um autêntico espírito de fraternidade vence o egoísmo individual, que contrasta a possibilidade das pessoas viverem em liberdade e harmonia entre si. Tal egoísmo desenvolve-se, socialmente, quer nas muitas formas de corrupção que hoje se difunde de maneira capilar, quer na formação de organizações criminosas – desde os pequenos grupos até àqueles organizados à escala global – que, minando profundamente a legalidade e a justiça, ferem no coração a dignidade da pessoa. Estas organizações ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irmãos e lesam a criação, revestindo-se duma gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.

Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho; penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas económicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres; penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no abomínio do tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade. A este respeito escreveu João XXIII: «Uma convivência baseada unicamente em relações de força nada tem de humano: nela vêem as pessoas coarctada a própria liberdade, quando, pelo contrário, deveriam ser postas em condição tal que se sentissem estimuladas a procurar o próprio desenvolvimento e aperfeiçoamento».[17] Mas o homem pode converter-se, e não se deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de vida. Gostaria que isto fosse uma mensagem de confiança para todos, mesmo para aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23).

No contexto alargado da sociabilidade humana, considerando o delito e a pena, penso também nas condições desumanas de muitos estabelecimentos prisionais, onde frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na sua dignidade de homem e sufocado também em toda a vontade e expressão de resgate. A Igreja faz muito em todas estas áreas, a maior parte das vezes sem rumor. Exorto e encorajo a fazer ainda mais, na esperança de que tais acções desencadeadas por tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser sustentadas, leal e honestamente, também pelos poderes civis.

A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza
9. A família humana recebeu, do Criador, um dom em comum: a natureza. A visão cristã da criação apresenta um juízo positivo sobre a licitude das intervenções na natureza para dela tirar benefício, contanto que se actue responsavelmente, isto é, reconhecendo aquela «gramática» que está inscrita nela e utilizando, com sabedoria, os recursos para proveito de todos, respeitando a beleza, a finalidade e a utilidade dos diferentes seres vivos e a sua função no ecossistema. Em suma, a natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela ganância, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não guardamos a natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras.

De modo particular o sector produtivo primário, o sector agrícola, tem a vocação vital de cultivar e guardar os recursos naturais para alimentar a humanidade. A propósito, a persistente vergonha da fome no mundo leva-me a partilhar convosco esta pergunta: De que modo usamos os recursos da terra? As sociedades actuais devem reflectir sobre a hierarquia das prioridades no destino da produção. De facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as soluções possíveis são muitas, e não se limitam ao aumento da produção. É mais que sabido que a produção actual é suficiente, e todavia há milhões de pessoas que sofrem e morrem de fome, o que constitui um verdadeiro escândalo. Por isso, é necessário encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da terra, não só para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que têm mais e os que devem contentar-se com as migalhas, mas também e sobretudo por uma exigência de justiça e equidade e de respeito por cada ser humano. Neste sentido, gostaria de lembrar a todos o necessário destino universal dos bens, que é um dos princípios fulcrais da doutrina social da Igreja. O respeito deste princípio é a condição essencial para permitir um acesso real e equitativo aos bens essenciais e primários de que todo o homem precisa e tem direito.

Conclusão
10. Há necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada; mas só o amor dado por Deus é que nos permite acolher e viver plenamente a fraternidade.

O necessário realismo da política e da economia não pode reduzir-se a um tecnicismo sem ideal, que ignora a dimensão transcendente do homem. Quando falta esta abertura a Deus, toda a actividade humana se torna mais pobre, e as pessoas são reduzidas a objecto passível de exploração. Somente se a política e a economia aceitarem mover-se no amplo espaço assegurado por esta abertura Àquele que ama todo o homem e mulher, é que conseguirão estruturar-se com base num verdadeiro espírito de caridade fraterna e poderão ser instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz.

Nós, cristãos, acreditamos que, na Igreja, somos membros uns dos outros e todos mutuamente necessários, porque a cada um de nós foi dada uma graça, segundo a medida do dom de Cristo, para utilidade comum (cf. Ef 4, 7.25; 1 Cor 12, 7). Cristo veio ao mundo para nos trazer a graça divina, isto é, a possibilidade de participar na sua vida. Isto implica tecer um relacionamento fraterno, caracterizado pela reciprocidade, o perdão, o dom total de si mesmo, segundo a grandeza e a profundidade do amor de Deus, oferecido à humanidade por Aquele que, crucificado e ressuscitado, atrai todos a Si: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). Esta é a boa nova que requer, de cada um, um passo mais, um exercício perene de empatia, de escuta do sofrimento e da esperança do outro, mesmo do que está mais distante de mim, encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que sabe doar-se e gastar-se gratuitamente pelo bem de cada irmão e irmã.

Cristo abraça todo o ser humano e deseja que ninguém se perca. «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17). Fá-lo sem oprimir, sem forçar ninguém a abrir-Lhe as portas do coração e da mente. «O que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve – diz Jesus Cristo –. Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 26-27). Deste modo, cada actividade deve ser caracterizada por uma atitude de serviço às pessoas, incluindo as mais distantes e desconhecidas. O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.

Que Maria, a Mãe de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que jorra do coração do seu Filho, para levar a paz a todo o homem que vive nesta nossa amada terra.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2013.

Franciscus

(Fonte)



[1]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.
[2]Cf. Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de Junho de 2013), 54: AAS 105 (2013), 591-592.
[3]Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 87: AAS 59 (1967), 299.
[4]Cf. João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 39: AAS 80 (1988), 566-568.
[5]Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 43: AAS 59 (1967), 278-279.
[6]Cf. ibid., 44: o. c., 279.
[7]Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 566.
[8] Ibid., 38-39: o. c., 566-567.
[9] Ibid., 40: o. c., 569.
[10] Ibid., 40: o. c., 569.
[11]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.
[12] Summa theologiae, II-II, q. 66, a. 2.
[13] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69; cf. Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de Maio de 1891), 19: ASS 23 (1890-1891), 651; João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 573-574; Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 178.
[14] Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 16: AAS 61 (1979), 290.
[15]Cf. Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 159.
[16] Francisco, Carta ao Presidente Vladimir Putin (4 de Setembro de 2013): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 8/IX/2013), 5.
[17] Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963), 17: AAS 55 (1963), 265.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Papa responde a carta enviada por grupo de gays católicos e os abençoa


Não, o título acima não é uma pegadinha, paródia ou fantasia. Aconteceu este ano e foi notícia em outubro. Deixamos este como nosso último post neste ano de 2013 como nossa retrospectiva particular: de tudo o que aconteceu neste ano em relação aos LGBTs em geral e aos cristão em especial, se fôssemos escolher uma notícia-síntese, seria esta. Ao mesmo tempo, deixamos este como nosso último post deste ano de 2013 como um testemunho-síntese das nossas esperanças para 2014: que, neste ano de Sínodo sobre as Famílias (saiba mais aqui. Não assinou a petição online ainda? Assine aqui!), a consulta pública solicitada pelo Vaticano sirva de inspiração para o diálogo e para uma maior participação e envolvimento de todos os batizados nos rumos não só da nossa Igreja, mas do mundo. Como nos convida insistentemente o Papa Francisco, que cada vez mais nossos ouvidos se abram e nossos corações e mãos se disponibilizem para atender ao chamado do Evangelho para o serviço ao próximo e para a construção de um mundo e que sejamos todos irmãos.

A imprensa italiana informou em 8/10/2013 que o Papa Francisco respondeu a uma carta enviada por um grupo de homossexuais que pedia abertura e diálogo por parta da Igreja Católica. Segundo o jornal La Repubblica, o Pontífice definiu a carta como um gesto de "espontânea confiança", mas o Vaticano não divulgou a troca de correspondências, que chegou até os jornais por meio do italiano Innocenzo Pontillo, um dos responsáveis pela iniciativa.

A carta foi enviada ao Papa em junho. O documento lamentava a maneira como a Igreja "alimenta sempre a homofobia" e pedia que o Vaticano começasse a tratar os gays como pessoas, e não como uma "categoria". Pontillo destacou que, em sua resposta, o Papa enviou sua "benção" e demonstrou "apreciar muito o que foi escrito".

"Nenhum de nós poderia imaginar que ele faria uma coisa do tipo", contou o italiano, surpreendido. Desde quando foi eleito, em março, Francisco fez declarações polêmicas sobre os homossexuais, reprimindo, às vezes, as concepções da própria Igreja Católica.

Em julho, o Papa declarou que não se deve "julgar" ninguém por ser gay. "Se uma pessoa é gay e procura Jesus, e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O catecismo diz que não se deve marginalizar essas pessoas, devem ser integradas à sociedade. Devemos ser irmãos. O problema é fazer lobby, de pessoas gananciosas, lobby de políticos, de maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema", afirmou.

No mês passado, em uma entrevista exclusiva a um jornal italiano, Francisco também disse que a Igreja era "obcecada por aborto e gays".

Fonte: Jornal do Brasil

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Núncio Apostólico em Uganda contra a nova lei anti-gay


Enquanto isso, em Uganda, o núncio apostólico posicionou-se firmemente contra a aprovação do projeto de lei que criminaliza a homossexualidade naquele país e que vem mobilizando a comunidade internacional (assine a petição online aqui). É a Igreja se colocando claramente contra a violência que vitima os LGBTs, como já pedia o Fórum Europeu LGBT em 2011 ao Papa Bento XVI (leia aqui). Como defendemos aqui, "antes mesmo de qualquer discussão sobre a doutrina vigente da Igreja Católica a respeito da homossexualidade, uma coisa é certa: a Igreja - e, como sempre, por 'Igreja' referimo-nos não só ao Magistério, mas a todos os batizados - precisa assumir seu papel histórico de mediadora e pacificadora, que tantas vezes desempenhou com mérito, e, também na questão da homofobia, atuar como a defensora da justiça social, contrária a toda forma de violência, que é".

O Núncio Apostólico em Uganda, Arcebispo Michael Blume, expressou sua consternação com a iminente aprovação da lei que pune com prisão perpétua aqueles que mantiverem práticas homossexuais no país. O representante do Vaticano anunciou publicamente a preocupação da comunidade católica com a nova lei.

Ele cita uma carta escrita por missionários do Verbo Divino, liderados por Brian McLauchlin, que afirma: "Estamos preocupados com o elevado número de violações dos direitos humanos que irão ocorrer caso o presidente aprove esse projeto de lei. Por mais que a hierarquia católica não aprove o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo ou o estilo de vida homossexual, concordamos que todos têm o direito de ser tratado com dignidade e respeito. Prender alguém por seu estilo de vida constitui claramente um abuso de seus direitos."

McLauchlin exortou os católicos de Uganda a lançar mão de todos os recursos ao seu alcance para garantir que o projeto não se torne lei. "Pedimos que você use sua influência como núncio papal para fazer com que os bispos se pronunciem contra esse projeto de lei. Quando falar com o Papa Francisco, coloque-o a par desta situação. Tenho certeza de que ele vai defender que a dignidade e o respeito a todas as pessoas honestas são sagrados."

O núncio respondeu a McLauchlin no mesmo dia, assegurando-lhe que compartilha de suas preocupações quanto ao projeto de lei, e reiterou a oposição da Igreja Católica ao mesmo: "Tenho certeza de que haverá um grande movimento no âmbito da Conferência Episcopal e várias instituições do país contra esse projeto de lei, que será arquivado caso o presidente não o assine no prazo de trinta dias. Oremos para que o Espírito Santo lhe dê sabedoria". Já em 2009, quando se tentou aprovar o texto, que incluía a pena de morte, os bispos escreveram: "O recente projeto de lei contra a homossexualidade não pode ser aprovado a partir da cosmovisão cristã. Sua falha fundamental é atacar o pecador, não o pecado."

Fonte

Como salientamos em nossa carta aos bispos (saiba mais aqui. Não assinou a petição online ainda? Assine aqui!), está cada vez mais claro que o entendimento atual da Lei Natural como base para condenar a homoafetividade e o homoerotismo como "desordenados" carece de evidência na realidade. Mas o posicionamento claro do Magistério e da comunidade não só católica, mas cristã, contra toda e qualquer violência (e, para nós aqui, em especial contra os LGBTs) já é um passo importante.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Papa Francisco, "personalidade do ano" para a revista LGBT americana 'The Advocate'


Assim como a revista Time, a publicação LGBT americana The Advocate elegeu o Papa Francisco "Personalidade do Ano" de 2013. Nosso amigo Lula Ramires, da Pastoral da Diversidade, de São Paulo, traduziu a matéria (leia a original aqui) para nós:


Na hora de decidir quem foi a pessoa que mais afetou as vidas das pessoas LGBT em 2013, havia escolhas óbvias. Pelo menos, era o que parecia inicialmente.

Se, por um lado, Edie Windsor, por exemplo, está na lista dos finalistas, não foi a ela que escolhemos para ser a Personalidade do Ano. Windsor é uma heroína para os norte-americanos LGBT por dar o golpe final na luta contra a discriminatória Lei de Defesa do Casamento (DOMA), sendo que a seção 3 deixou de existir. Quando ela saiu da audiência na Suprema Corte, houve uma chuva de aplausos. Na premiação dos Out 100, em que ela recebeu um prêmio por Realizações ao Longo da Vida, gritos de "Edie! Edie!" a saudaram no palco. Na capa de novembro da revista, sorria radiante enquanto segurava uma pomba branca — um símbolo.

De fato, a própria Windsor é um poderoso símbolo representando muitos outros que atuam nos bastidores. Também na Suprema Corte naquele dia, por exemplo, havia quatro demandantes no caso da Proposição 8, vindos da Califórnia, e estas pessoas merecem ser louvadas. Ou qualquer dos seus advogados. Há a equipe hétero de David Boies e Ted Olson, cujo componentes frequentemente se tornam heróis públicos em defesa do avanço do casamento igualitário através do sistema judiciário por meio de entrevistas na TV e nos noticiários. E tem também a promotora Roberta Kaplan, uma de nós, que com eloquência refutou o Presidente da Suprema Corte John Roberts quando este sugeriu que os tempos haviam mudado e que as pessoas LGBT não eram mais uma minoria oprimida.

Não para por aqui. Um punhado de outros casos poderia ter ido para a Suprema Corte este ano, mas não foram escolhidos. Há demandantes e advogados em todos eles. São provenientes de estados que vão de Michigan a Massachusetts. Frequentemente, o apoio para estes casos é dado por pessoas que atuam em organizações de defesa dos direitos LGBT, tais como o Gay and Lesbian Advocates and Defenders (Defensores Gays e Lésbicas) ou o Lambda Legal, ou aliados sem interesse pessoal na causa — caso da União Americana pelas Liberdades Civis. Centenas trabalham nessas organizações e há anos contestam a Lei de Defesa do Casamento nos tribunais. Tome-se, por exemplo, o caso de Gill contra a Secretaria de Administração de Pessoal, ação iniciada em 2009 e que, originalmente, envolvia 19 pessoas.

Edie Windsor é uma heroína, que bem merece ter seu nome registrado nos livros de História que narram os meandros da derrota da DOMA. Mas não é a Personalidade do Ano. Não poderia ser, não para a The Advocate, onde celebramos o trabalho de tantas e tantos que contribuíram para esta vitória na Suprema Corte que é um verdadeiro marco.

Quando Windsor apareceu em terceiro lugar na lista anual de personalidades do ano da revista Time , ela aceitou a comenda de forma digna, como sempre. “É uma honra para mim ter sido escolhida pela Time ," escreveu ela num pronunciamento, "mas sou apenas uma pessoa que tomou parte na extraordinária e ainda inacabada luta pela igualdade no casamento para todas as nossas famílias. Há milhares de pessoas que nos ajudaram a chegar até aqui e ainda temos muito trabalho a fazer."

A pessoa mais influente em 2013 não vem do nosso embate permanente no campo jurídico mas, ao contrário, do mundo espiritual — onde as conquistas são de definição mais difícil. Não foi por causa de nenhum voto ou decisão tomada, e ainda assim uma mudança significativa e sem precedentes aconteceu este ano em termos de como as pessoas LGBT são vistas por uma das maiores comunidades de fé do mundo.

O Papa Francisco é o líder de 1,2 bilhão de católicos romanos em todo o mundo. Existem três vezes mais católicos no mundo do que cidadãos nos Estados Unidos. Goste-se ou não, o que ele diz faz diferença. Claro, todos sabemos que os católicos dão “um jeitinho” quando se trata de cumprir as regras da religião que envolvem questões de moral. Há muito desacordo quanto ao papel das mulheres, a contracepção e outras questões. Mas nenhuma delas deveria nos levar a subestimar a capacidade do papa de convencer corações e mentes a se abrirem para as pessoas LGBT — e não somente nos EUA, mas no mundo inteiro.

É mais provável que os redutos contrários à aceitação dos LGBT na religião ainda existentes, aqueles que impedem o avanço no trabalho que resta ser feito, se deixem convencer por uma figura que conheçam. Assim como o Presidente Obama transformou a política ao expor a evolução de seu entendimento dos direitos civis dos LGBT, uma mudança partindo do papa pode ter um efeito duradouro sobre a religião.

A notória diferença na retórica do Papa Francisco [leia nosso comentário aqui] em relação à de seus dois predecessores —ambos os quais já estiveram presentes entre os agraciados com o Prêmio Fobia que a The Advocate distribui todos os anos — aumenta ainda mais a ousadia de seus gestos em 2013. Primeiro, temos o Papa João Paulo II, contra quem os militantes pelos direitos LGBT protestaram durante sua visita aos Estados Unidos em 1987, que ganhou muito destaque em função daquela que viria a ficar conhecida como a “Carta do Rat(o)” — uma condenação sem precedentes da homossexualidade como “intrinsecamente má”. Foi escrita por um dos seus cardeais, Joseph Ratzinger, que viria a se tornar o Papa Bento XVI. Desde 1978, o Vaticano esteve sob o comando de um dos dois — até este ano.

Quando a revista Time indicou o Papa Francisco como Personalidade do Ano, na semana passada, corretamente assinalou a dificuldade da Igreja Católica para realizar mudanças com rapidez, chamando-a de "um lugar onde a mudança é medida em séculos". O Papa Francisco ainda não é a favor dos gays segundo os padrões atuais. Após assumiu o cargo, em julho ele lançou uma encíclica conjunta com Bento, na qual reiteram que o casamento deve ser uma “união estável entre homem e mulher”. O texto continua: “essa união nasce do seu amor mútuo, como sinal e presença do próprio amor de Deus, e do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferenciação sexual”.

Enquanto arcebispo na Argentina, o Cardeal Jorge Bergoglio se opôs à aprovação do casamento igualitário naquele país, afirmando em 2010 que se trata de um “atraque destrutivo ao plano de Deus”. Quando Bergoglio se tornou papa, a GLAAD logo assinalou que ele certa vez havia dito que a adoção por casais do mesmo sexo era uma forma de discriminação contra as crianças.

Mas foi, de fato, durante o tempo do Papa Francisco como cardeal que sua diferença em relação a Bento e prelados de linha dura da Igreja se evidenciou. À medida que o casamento entre pessoas do mesmo sexo parecia mais próximo da legalização na Argentina, Bergoglio argumentava privadamente que a Igreja deveria assumir a defesa das uniões civis, pois seria "o menor de dois males" — isso, segundo o biógrafo autorizado do Papa Francisco, Sergio Rubin. O militante gay argentino Marcelo Márquez confirmou essa versão, declarando ao The New York Times, em março, que Bergoglio "ouviu os meus pontos de vista com muito respeito. Disse que os homossexuais precisavam ter seus direitos reconhecidos e que ele apoiava as uniões civis, mas não o casamento entre pessoas do mesmo sexo".

Como papa, ele ainda não disse que a Igreja Católica apoia as uniões civis. Mas o que Francisco de fato tem dito sobre as pessoas LGBT vem causando reflexão e consternação no interior de sua igreja. O momento que chegou às manchetes foi durante um voo do Brasil para Roma. Quando indagado acerca de padres gays, o Papa Francisco disse aos repórteres, de acordo com a tradução do italiano, "Se alguém é gay e busca o Senhor com boa vontade, quem sou eu para julgar?".

A concisão dessa declaração e a enorme atenção que obteve de imediato são evidências da influência do papa. A pergunta simples, com fortes raízes cristãs, proposta nesse contexto por esse homem — "Quem sou eu para julgar?" — foi encarada por católicos e pelo mundo como um sinal de que o novo papa não é como o anterior.

A visão de Francisco sobre o modo como a Igreja Católica deve abordar as pessoas LGBT foi bem explicada por ele mesmo em uma entrevista detalhada para a revista America, em setembro, quando ele recordou: “uma pessoa uma vez me perguntou, de forma provocativa, se eu aprovava a homossexualidade. Respondi com outra pergunta: ‘Diga-me: quando Deus olha para um gay, ele endossa a existência dessa pessoa com amor ou será que Ele rejeita ou condena esta pessoa?’ Devemos sempre levar a pessoa em consideração”.

Quando ainda era cardeal, disse, “eu costumava receber cartas de pessoas homossexuais que estavam ‘socialmente feridas’ porque me diziam que tinham a sensação de que a Igreja sempre as condenava. Mas a Igreja não tem essa intenção. Durante um [recente] voo de volta, vindo do Rio de Janeiro, eu disse que se uma pessoa homossexual tem boa vontade e busca a Deus, não sou ninguém para julgá-la. Ao dizer isso, repeti o que diz o catecismo. A religião tem o direito de expressar sua opinião a serviço do povo, mas Deus em sua criação nos fez livres: não é possível interferir espiritualmente na vida de uma pessoa.”

Ele continua, afirmando que “não podemos insistir somente nas questões relacionadas ao aborto, ao casamento gay e aos uso de métodos anticoncepcionais. Não é possível. Não tenho falado muito sobre estas coisas e fui repreendido por esse motivo. Mas, quando falamos dessas questões, temos de abordá-las num contexto. O ensinamento da Igreja, neste aspecto, é claro, e eu sou um filho da Igreja; mas não é necessário ficar repetindo estes pontos o tempo todo”.

Autêntico em suas palavras, o Papa Francisco não se valeu de seus grandes momentos quando esteve sob os holofotes do mundo para condenar as pessoas LGBT, como Bento costumava fazer. Nesta mesma época, no ano passado, o Papa Bento tinha acabado de lançar sua mensagem pelo Dia Mundial da Paz, celebrado pela Igreja Católica em 1º de janeiro, advertindo que os esforços em prol do casamento de gays e lésbicas "na verdade prejudicam e ajudam a desestabilizar o matrimônio, obscurecendo sua natureza especifica e seu papel indispensável na sociedade". Bento descreveu o casamento igualitário como "uma ofensa contra a verdade da pessoa humana". Em contrapartida, o Papa Francisco lançou sua primeira mensagem pelo Dia Mundial da Paz na semana passada [leia aqui].

A fraternidade, diz ele, "é o fundamento e o caminho para a paz". Ele retoma a história de Caim e Abel como exemplo da incapacidade da humanidade de reconhecer seus irmãos e, pelo contrário, fazer inimigos. "Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como um irmão ou irmã, não como um estranho, e muito menos como um rival ou mesmo um inimigo. Na família de Deus, todos são filhos e filhas do mesmo Pai". E prossegue: "Todo homem e toda mulher desfrutam de uma mesma e inviolável dignidade. Somos todas e todos amados por Deus".

O Papa Francisco dedica seu tempo a discorrer contra os malefícios da cobiça e a falta de foco na justiça e no enfrentamento da pobreza. Por isso, conservadores como Rush Limbaugh o atacam, chamado-o de marxista. Mas Francisco prega a igualdade quanto ao direito de cada um à auto-realização. "Os seres humanos necessitam e são capazes de algo maior do que maximizar seus interesses individuais", diz o Papa em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz.

Poderíamos nos indagar como a aceitação das pessoas LGBT se adéqua à atitude do Papa com relação ao amor que se deve dar a cada ser humano e à valorização da contribuição de cada um à sociedade. Em menos de um ano como papa, Francisco ainda precisa mostrar se suas aspirações se limitam a simplesmente não ser nosso inimigo. Será ele um agente ativo na luta contra a discriminação dos LGBTs no mundo inteiro?

A revista Time assinala que um incomum grupo de oito bispos foi selecionado pelo Papa Francisco para aconselhá-lo periodicamente. Entre eles está o Cardeal Oswald Gracias, da Índia, que neste mês condenou publicamente a criminalização da homossexualidade em seu país. A Suprema Corte da Índia acaba de emitir uma decisão escandalosa, restabelecendo a pena de até 10 anos de prisão para o sexo entre gays. “A Igreja Católica nunca se opôs à descriminalização da homossexualidade, pois nunca consideramos que os gays fossem criminosos," sublinhou o cardeal, segundo o Asia News. "A Igreja Católica se opõe à legalização do casamento gay, mas ensina que os homossexuais têm a mesma dignidade de todos os demais seres humanos e condena todas as formas de discriminação injusta, de assédio ou abuso." Mais cedo em 2013, ele havia declarado a um grupo LGBT da Índia, segundo a revista Time, que “é equivocado afirmar que os que têm outra orientação sexual sejam pecadores” e que “devemos buscar uma maior sensibilidade em nossas homilias e nossa maneira de falar em público, e é essa a recomendação que farei aos nossos padres”.
O jornal italiano La Repubblica relatou que um grupo LGBT católico daquele país, o Kairós, de Florença, escreveu uma carta ao papa em junho, pedindo "abertura e diálogo" e observando que a falta desses dois elementos "sempre alimenta a homofobia". Os católicos LGBT haviam escrito para os papas anteriores, mas Francisco é o primeiro a dar uma resposta. Os dois lados mantêm privado o conteúdo da conversa, exceto pela indicação de certo assombro por o Papa ter dado sua benção ao grupo LGBT.

Uma coisa que aprendemos em 2013 foi que, por mais que nossos militantes se dediquem, no fim somos sempre confrontados com algum hétero que decide o nosso destino. Será que as nove pessoas que têm assento na Suprema Corte americana — seis das quais são católicas romanas — algum dia emitirão uma decisão abrangente que torne o casamento igualitário legal em todos os 50 estados dos EUA? Será que os deputados americanos — cerca de um terço dos quais professa o catolicismo, a religião com maior número de representantes — aprovará a Lei de Não Discriminação no Emprego? Será que algum deles levará em conta a recomendação do papa no sentido de não se julgar os homossexuais?

Nada disso vai afetar o possível retorno dos americanos LGBT que abandonaram a Igreja Católica. O impacto do gesto do papa nada tem a ver com nossa decisão quanto a voltarmos ou não às igrejas, mas afeta as pessoas que já estão sentadas em seus bancos. Afeta também aqueles e aquelas que vão às igrejas todo domingo, e também durante a semana, bem como aqueles que se dedicam ao trabalho voluntário em obras filantrópicas — que são, muitas vezes, nossos mais ardorosos opositores.

Ainda assim, os católicos LGBT que permanecem na Igreja de fato têm mais motivos para ter esperança de que uma mudança se aproxima. Basta ouvir as reações ao "Quem sou eu para julgar?" do papa.

"O Papa Francisco expressou hoje algumas das palavras mais encorajadoras já usadas por um pontífice a respeito das pessoas gays e lésbicas", diz uma declaração [leia a nota original aqui] da organização LGBT católica Equally Blessed ("Igualmente Abençoados") [Eles participaram do evento que realizamos durante a JMJ, como contamos aqui]. "Ao fazê-lo, deu um grande exemplo para os católicos de todo o mundo". A nota prossegue, com expectativa crescente: "os líderes católicos que insistem em depreciar gays e lésbicas não podem mais afirmar que seus comentários inflamados representam os sentimentos do papa. Os bispos que se opõem à ampliação de direitos civis básicos — tal como pôr fim à discriminação no ambiente de trabalho — não podem mais alegar que o papa aprova seu discurso discriminatório. O Papa Francisco não expressa nenhuma mudança na doutrina da Igreja, mas fala com compaixão — e, ao fazê-lo, incentiva um diálogo já animado, que talvez um dia possibilite à Igreja acolher integralmente os católicos que são gays e lésbicas".

(Tradução livre de Lula Ramires e revisão de Cristiana Serra)
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