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sábado, 10 de agosto de 2013
Servos responsáveis!
Nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (11 de agosto de 2013). A tradução é de André Langer.
Referências bíblicas:
Segunda leitura: Hb 11, 1-2.8-19
Evangelho: Lc 12, 32-48
Nós continuamos no caminho que leva para Jerusalém, com Cristo e, no caminho, somos interpelados pela Palavra de Deus que nos questiona sobre a qualidade da nossa fé. Onde estamos como cristãos e cristãs? Como crentes? Como lideranças na Igreja? A carta aos Hebreus, da segunda leitura de hoje, nos recorda que: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hb 11, 1). Estamos convencidos disso? Na carta aos Romanos, Paulo chega inclusive a nos convidar a “esperar contra toda a esperança” (Rm 4, 18). E, portanto, quando olhamos para a Igreja de hoje, a Igreja que somos e que formamos, podemos nos perguntar se não estamos em pane, em falta de fé, porque a nossa Igreja não se arrisca mais; ela se assenta sobre seus dogmas e não avança mais nos caminhos do Evangelho, cujos caminhos ainda não estão demarcados ou previamente traçados. Felizmente, o Papa Francisco traz um pouco de frescor à nossa Igreja. Ele nos ensina que o medo, a certeza da fé e o autoritarismo abusivo são freios no caminho da vida cristã.
1. O medo
O Cristo do evangelho de Lucas diz aos seus discípulos: “Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino” (Lc 12, 32). Infelizmente, esse versículo foi, muitas vezes, mal interpretado: uma certa direita religiosa que acredita ter a verdade, porque faz parte do pequeno rebanho, do pequeno resto de Israel, e que impõe sua verdade mesmo quando permanece sozinha para crer nisso. Eu retorno ao Evangelho: o que Lucas nos diz é uma promessa que nos é feita. Prometer é dizer que será dado. É dar sua palavra, retardando o momento do dom efetivo. É confiar no outro, e convidá-lo para a confiança recíproca.
É isso que nos recorda o autor da carta aos Hebreus, quando escreve: “Pela fé, Abraão, chamado por Deus, obedeceu e partiu para um lugar que deveria receber como herança. E partiu sem saber para onde” (Hb 11, 8). Mas mais do que isso, diz a carta aos Hebreus, falando de Abraão, de Sara, de Isaac e de Jacó: “Todos eles morreram na fé. Não conseguiram a realização das promessas, mas só as viram e saudaram de longe: e confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11, 13). Isso quer dizer que os nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?
2. A certeza da fé
A fé nunca pode ser uma certeza. A única certeza que temos é não ter nunca certeza de nada. Doris Lussier dizia: “Eu não disse: eu sei; eu disse: eu creio. Crer não é saber. Eu saberei quando verei, como vocês outros. Se eu tenho que saber... E então, depois de tudo, como eu disse um dia a um amigo que é descrente: tu sabes, as nossas respectivas opiniões sobre os mistérios do além não tem grande importância. O que nós cremos ou o que nós não cremos, isso não muda absolutamente nada a verdade da realidade: o que é, é... e o que não é, não é, um ponto, é tudo. E temos de conviver com isso”. Doris Lussier descrevia sua fé da seguinte maneira: “Eu só tenho uma pequeníssima fé natural, frágil, vacilante, resmungona e sempre inquieta. Uma fé que se parece bem mais a uma esperança que a uma certeza”. E a esperança é a fé no seu melhor, dizia Charles Péguy, porque a esperança nos faz crer que amanhã será melhor, quando hoje tudo está mal. Eis a maravilha da esperança!
É a esperança que nos permite “estar com os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12, 35). Porque, para esperar o senhor voltar das núpcias (Lc 12, 36), é preciso saber esperar. Se estivermos certos de seu retorno, da data e da hora em que chegará, não precisamos mais esperar; saberemos exatamente como será seu retorno. É por isso que o evangelista Lucas formula esta bem-aventurança: “Felizes dos empregados que o senhor encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá” (Lc 12, 37). Para vigiar, basta esperar; caso contrário, para que serve vigiar? A certeza é o que há de mais prejudicial à fé, porque a certeza acaba por ter razão da esperança.
3. O autoritarismo abusivo
Lucas escreve: “Então Pedro disse a Jesus: ‘Senhor, estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?” (Lc 12, 41). Por meio de outra parábola, o evangelho parece dizer que os primeiros envolvidos são justamente aqueles que exercem uma responsabilidade dentro da Igreja; com a questão de Pedro, o Senhor ressuscitado, mestre da Igreja, interpela todos aqueles que têm por missão dar o grão da Palavra ao pequeno rebanho. Sobre o administrador fiel e sensato, que o senhor, na sua chegada, encontrará em seu trabalho, diz: “Em verdade, eu digo a vocês: o senhor lhes confiará a administração de todos os seus bens” (Lc 12, 44). Mas se os responsáveis pela Igreja sofrem do autoritarismo abusivo e se metem a rejeitar, condenar, marginalizar e excluir as mulheres e os homens que lhes são confiados, o mestre lhes tirará todas as responsabilidades: “Por isso eu lhes afirmo: o Reino de Deus será tirado de vocês, e será entregue a uma nação que produzirá seus frutos” (Mt 21, 43). Quanto mais se é responsável na Igreja, mais se deve produzir e dar os frutos: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12, 48b).
Para finalizar, gostaria de compartilhar com vocês a bela reflexão do exegeta francês Jean Debruynne sobre o evangelho de hoje: Um coração em desejo! “Sejam como pessoas que esperam... Mas, quem ainda pode ter tempo para esperar? Por acaso, o tempo não é dinheiro, e, atualmente, não é o tempo o item mais caro? Não são os prazos os mais ruinosos? Está na hora de não mais confundir espera com impaciência. A espera do Reino de Deus não é aquela de esperar o trem ou o avião partir. A espera do Reino de Deus é um coração em desejo e não o medo de se atrasar. Aquele que espera é aquele que ainda encontra no fundo de si um pouquinho de esperança acesa”.
Fonte Tweet
Estai preparados!
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum (11 de agosto de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.
Referências bíblicas:
1ª leitura: Sabedoria 18,6-9
2ª leitura: Hebreus 11,1-2,8-19
Evangelho: Lucas 12,32-48
Neste domingo, somos lembrados da importância da espera. E da alegria da espera: o Senhor voltará, mas nós já o possuímos. E Ele nos enche de felicidade: «O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem!»
Possuir desde já o que se espera
Trazemos todos no fundo de nós mesmos uma insatisfação escondida: uma certeza confusa de que tudo poderia ser melhor, de que poderíamos ser diferentes, de que as coisas que determinam a nossa situação atual poderiam e deveriam ser outras. As leituras de hoje estão cheias de referências a esta espera por uma "pátria melhor" (Hebreus 11,16). E o que esperamos exatamente? Não sabemos. No âmbito da fé, chamamos isto de «vida eterna» que consiste, diz Jesus, em conhecer -em sentido forte- o Pai e Aquele que Ele enviou; o Cristo (João 17,3). Conhecer, nascer com, para viver de sua vida. Esta é a Terra prometida para onde nos dirigimos sem que jamais, nesta vida, cheguemos a atingi-la. Como os Hebreus (11,13), nós a saudamos de longe, considerando-nos estrangeiros e viajantes nesta terra. Somos locatários provisórios dos lugares em que moramos. Mas isto não deveria nos instalar na tristeza e insatisfação? Não, uma vez que "a fé é a garantia dos bens que se esperam e a prova das realidades que não se veem" (Hebreus 11,1). A fé as antecipa. Quando a prostituta de Lucas 7 manifesta seu amor de reconhecimento antes mesmo de ter ouvido a palavra de perdão, ela copia a atitude dos Hebreus que celebraram a Páscoa antes mesmo de terem deixado o Egito: entoaram o hino de louvor, de ação de graças, antes mesmo de serem libertados, "como se isto já tivesse sido feito" (1a leitura). Alegremo-nos desde agora por aquilo em que nos tornaremos, pela vida para a qual somos chamados.
Conservai vossas lâmpadas acesas
Nosso evangelho inscreve-se perfeitamente no contexto que acaba de ser evocado. No versículo 32, Jesus nos recomenda não ter medo; a renunciar, portanto, à inquietação com respeito ao futuro. A insatisfação quanto ao nosso presente, moral, físico, espiritual, certamente tem fundamento. Corresponde ao que somos e vivemos; projeta-nos para o futuro. Mas insatisfação não quer dizer inquietude e nem mesmo medo; estas duas atitudes sinalizam a ausência da fé. E por que podemos de fato não ter medo? É Jesus quem o diz: porque «foi do agrado do Pai dar a vós o Reino». Reino significa realização, paz alegria. Mas leiamos de novo a frase que acabamos de citar: o Reino não é apresentado simplesmente como promessa, mas como um dom já realizado. Acrescente-se a isto outra palavra de Jesus: «O Reino de Deus está no meio de vós.» Ou «entre vós», ou «em vós». O futuro está já aí, portanto, presente já. Um pouco como o adulto está presente na criança. Digamos que a promessa de Deus já foi realizada na medida em que cremos nela. A nossa maneira de possuí-la é esperá-la. Espera simbolizada pelas lâmpadas que é preciso conservar acesas. Finalmente, o que esperamos não é alguma coisa, mas Alguém. E sua presença nos irá saciar porque é presença do amor. Este Amor que é «o Outro», capaz de nos penetrar e de nos transformar.
Vigiar sem descanso
Nenhum repouso nesta espera; as lâmpadas não devem se apagar jamais. É este exatamente o sentido dos versículos 35-40. Na seqüência, introduz-se, no entanto, um novo tema. De fato, o que pode exatamente significar vigiar sem descanso? Será que iremos nos tornar obcecados por esta espera, tendo apenas isto na cabeça, como um pensamento único? É claro que não. Seria um esforço em vão e logo nos descobriríamos incapazes de uma constância deste tipo. Já não é difícil para nós perseverarmos em oração, em nossa participação na missa, por exemplo, sem a menor distração? Felizmente, a partir do versículo 42, Jesus nos explica em que consiste a espera perfeita. Não se trata de manter os olhos fixos na porta para observar o momento da entrada do mestre, mas de fazer o nosso trabalho conscienciosamente. Num certo sentido, a espera do Cristo passa pelo trabalho que se nos impõe. Mas não importa como: o desejo e a espera da vinda de Deus são como uma bem leve coloração que afeta tudo o que vemos, sofremos e fazemos. Uma atmosfera em que tudo está imerso. Uma espécie de distância que nos permite dominar todas as coisas e não nos deixa afundar nas águas que não nos são favoráveis, a não ser que permaneçamos na superfície. Se esta espera se esvanece, somos entregues a todos os demônios. O chefe da casa (o responsável, conforme o v. 42 do nosso texto) não se preocupa mais com o pão dos seus empregados, mas pensa apenas em dominá-los e explorá-los (v. 45). Ao contrário, esperar é amar.
Fonte Tweet
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Um pequeno erro no começo torna-se muito maior ao final: rumos da discussão eclesial sobre a questão gay
É uma honra e uma alegria para nós reproduzir aqui esta palestra ministrada por nosso amigo Pe. James Alison no XXXVII Congresso de Teologia Moral, São Paulo 2-5 de Setembro de 2013 (via). É longo, mas vale muito a pena deixar separado para uma leitura com calma e reflexão.
Uma versão deste texto, com aparato científico, está incluída no livro que reúne os textos do XXXVII Congresso de Teologia Moral, e que sairá em setembro 2013: Zacharias e Pessini (Eds.). ÉTICA TEOLÓGICA E JUVENTUDES: interpelações recíprocas - diversidade sexual – drogas – violência – redes sociais virtuais. Aparecida: Santuário 2013.
i. introdução
Minhas irmãs, meus irmãos, agradeço enormemente o convite para participar deste congresso, e fico muito comovido por vocês terem me oferecido o uso da palavra no mesmo. Fico particularmente honrado com o convite já que vocês são teólogos moralistas com especialidades e áreas de perícia muito específicas. A minha formação, por contraste, é de teólogo sistemático. Tenho-me dedicado nos últimos anos à elaboração de um novo paradigma para a evangelização, tendo criado um curso de introdução à fé cristã para adultos. Meu envolvimento, então, com a matéria sobre a qual vocês pedem a minha intervenção tem sido eclesial, espiritual e pessoal: uma questão que incide na vivência de um cristianismo básico no mundo de hoje antes do que uma discussão moral. Necessariamente, então, a minha abordagem do assunto vai faltar muito em termos da finura da vossa disciplina, e por isso peço desculpas de antemão.
Proponho deixar de lado aquela nuvem de sentido, e de disfarce de sentido, que vem com a frase “diversidade sexual” por considerar que abrange demasiados temas para que seja útil num tempo limitado como este – temas onde tanto as realidades biológicas, químicas e neurológicas, quanto as possíveis consequências espirituais e morais delas decorrentes são suficientemente diferentes para que seja realmente uma curiosidade querer falar delas como se de uma categoria única se tratasse.
Em vez disso, vou me limitar muito mais a um assunto relativamente fácil de circunscrever: à parte LG da sigla LGBTQQ, ou à parte GL da sigla GLS. Ou seja, aquelas pessoas, homens e mulheres, que se sentem principalmente atraídos por pessoas do mesmo sexo. E vou falar disto sendo eu mesmo uma de tais pessoas. Se há uma primeira interpelação eclesial aqui, seria que, a meu ver, o uso correto da primeira pessoa, singular e plural, é muito importante. Uma das coisas que passa por apenas uma mentirinha nos meios eclesiásticos, mas que esconde na verdade algo muito mais grave é o uso de “eles” ou “vocês” em ocasiões quando “eu” ou “nós” seria mais certeiro. Pessoalmente creio que se não sou capaz de honestidade num assunto relativamente pouco importante, como este, então, por quê vou merecer credibilidade quando falo sobre coisas bem mais importantes, como o amor de Deus, a ressurreição dos mortos, ou a presença de Jesus nos sacramentos?
Gostaria, então, de desenvolver para vocês uma meditação sobre três dimensões daquilo que é, na minha opinião, a principal interpelação que faz a questão gay à vida eclesial, antes de terminar numa breve reflexão sobre o assunto “juventudes”. As três dimensões da mesma interpelação são estas: verdade, veracidade e honestidade. Na vida real, evidentemente, as três dimensões vêm juntas. As distingo com a intenção de facilitar uma discussão mais estruturada.
ii. a questão da verdade
Primeiro, o assunto da verdade. No fundo, há uma só questão a ser abordada entre as pessoas gays e a vida da Igreja, e é uma questão simples. Será que existem mesmo pessoas gays? Ou é mais verdadeiro dizer que no universo dos humanos, todos os quais são intrinsecamente heterossexuais, existem alguns que sofrem de uma desordem objetiva que poderia ser chamada de “inclinação homossexual”, ou num falar um pouco mais moderno, “atração pelo mesmo sexo”? Dito de outro modo: será que ser gay se trata de uma variante minoritária não patológica que ocorre regularmente dentro da condição humana, ou será antes que se trata de uma desordem objetiva? Se for o primeiro, uma analogia poderia ser o ser canhoto, onde os atos típicos decorrentes da variante minoritária seriam bons ou ruins conforme as circunstâncias. Se for o segundo, então uma analogia talvez possa ser a anorexia. Todos entenderíamos a anorexia como sendo uma desordem objetiva, uma patologia do desejo cujos comportamentos típicos, se não forem corrigidos, controlados e superados, levam à autodestruição da pessoa.
Bom, sobre este assunto, como vocês sabem muito bem, existe uma clara manifestação das Congregações Romanas, um ensinamento de terceira ordem na hierarquia das verdades, mas que se impõe em toda discussão oficial sobre o assunto. Este ensinamento, que foi acunhado em 1986, reza assim: “é necessário precisar que a particular inclinação da pessoa homossexual, embora não seja em si mesma um pecado, constitui, no entanto, uma tendência, mais ou menos acentuada, para um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral. Por este motivo, a própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada”. Ou seja, o ensino comum das Congregações Romanas é clara: “a inclinação homossexual ... deve ser considerada objetivamente desordenada”.
Pessoalmente, e contrariamente àquilo que poderia se supor, agradeço esta lucidez do autor, ou autores, da “Homosexualitatis problema” [2], porque nos permite avançar claramente na questão da verdade. Ele, ou eles, vinculam indissoluvelmente a intrínseca ruindade dos atos a uma desordem objetiva. E nisso, são pessoas muito mais finas do que aqueles lobos em pele de ovelha que tem abundado no nosso meio nos anos recentes. Tais lobos querem dizer algo assim: “Nós amamos todos os seres humanos, todos são filhos e filhas de Deus. Não temos nada contra as pessoas gays em si, só dizemos que devem se abster dos atos homossexuais. O nosso ensino é sobre os atos, e não sobre o ser”. Bom, a pele de ovelha está em “nós amamos todos” e os dentes do lobo se escondem sob “é só se abster para sempre dos atos”, como se fosse possível que os atos pudessem ser desligados da inclinação de uma maneira simples. Graças a Deus, as Congregações Romanas, neste ensinamento, são mais honestas, sendo ou todo ovelha, ou todo lobo, mas nada de híbrido disfarçado. Porque as Congregações Romanas sabem muito bem que é um absurdo moral, espiritual e de doutrina católica imaginar que a partir de uma condição neutra ou positiva, podem fluir atos típicos que seriam intrinsecamente ruins. Se aquilo que chamam de “inclinação homossexual” for uma coisa neutra ou positiva, os atos daí decorrentes não poderiam ser intrinsecamente ruins, mas bons ou ruins segundo o uso. As Congregações Romanas são claras: se queremos chamar os atos de intrinsecamente maus, não há como evitar categorizar a condição em si como uma desordem objetiva.
Esta lucidez deles nos leva, agradecidos, àquela questão de fundo que falei para vocês. Será que é verdade que ser gay é uma desordem objetiva? Ou será que é antes verdade que é uma variante minoritária e não patológica que ocorre regularmente dentro da condição humana? E gostaria de agradecer mais uma vez o(s) autor(es) da Homosexualitatis problema porque ele(s) indica(m) os termos de referência desta questão da verdade ao utilizar a palavra “objetivo”. Indicam, muito claramente, que aqui não estamos diante de uma questão de perspectiva pós-moderna, ou de “achismo”, não podemos fugir da questão por meio do relativismo, alegando questões de consciência, ou do direito humano ou civil de manter uma opinião subjetiva errada. Estamos diante de algo que é ou não é.
Ou ser gay é uma desordem objetiva, ou não é. No caso afirmativo, todos os avanços científicos no mundo da genética, dos neurônios, da química cerebral, da endocrinologia, dos hormônios intrauterinos, da psicologia infantil e assim por diante, tenderão a demonstrar o fato. E todas as evidências de vida testemunhadas pelas pessoas afetadas vão ser sinais da sua verdade: que as pessoas que são gay só levam uma vida sadia, só tendem a florescer, na medida em que tratam esta característica delas como sendo algum tipo de defeito a ser controlado ou superado. Por outro lado, pela evidencia da vida das pessoas que tratam esta sua característica como uma coisa normal, e se empenham em procurar um florescimento por meio de desenvolver esta característica como se fosse uma simples variante minoritária e não patológica, vai ficar cada vez mais público e notório que estas pessoas não são capazes de um florescimento humano e que a suposta autoaceitação delas não é na verdade senão uma forma de autodestruição. Nem todo o autoengano deste mundo vai conseguir abafar a verdade objetiva: pois lentamente, e apesar das formidáveis barreiras que a nossa cultura humana, fruto da queda de Adão, costuma levantar contra a verdade, aquilo que é termina se impondo, se nos faz presente e resplandece em nosso meio, porque o Criador de todas as coisas está por detrás dele.
E, é claro, as consequências decorrem com exatamente o mesmo rigor no sentido contrário se a verdade não for aquela da desordem objetiva, mas da variante minoritária não patológica. Apesar das formidáveis barreiras levantadas contra a verdade pela nossa cultura humana, fruto da queda de Adão, que neste caso incluiriam barreiras idolátricas levantadas por autoridades religiosas, aquilo que é termina se impondo, se nos faz presente e resplandece em nosso meio, porque o Criador de todas as coisas está por detrás dele. Todos os avanços nos diversos campos científicos acima citados tenderão a mostrar que se trata de uma variante minoritária, não patológica, na condição humana, e que ocorre regularmente. E todas as evidências da vida das pessoas também tornarão público e notório que quem aceitar esta característica dele como algo normal vai florescer na medida desta aceitação de que seu crescimento passa pelo desenvolvimento normal deste elemento da vida. E por outro lado, quem vive no engano, ou autoengano, de imaginar que o seu florescimento só pode se dar apesar desta característica e não com a contribuição da mesma, que deve ser então escondida, abafada, ou até “curada”, esta pessoa se diminui e colabora para a sua autodestruição.
Estamos falando então de uma questão de verdade objetiva. E uma das coisas boas da verdade objetiva é que não depende de nós. Não depende de quem seja melhor no debate, ou mais poderoso, ou mais rico, ou sequer mais inteligente, nem muito menos de qualquer autoridade religiosa. Simplesmente é. Se ser gay é uma desordem objetiva, então todos os supostos lobbies gays no mundo não vão fazer uma mínima diferença em alterar esta realidade, por mais estragos que possam causar antes de reconhecê-lo. E por outro lado, se for o caso que ser gay é uma variante minoritária não patológica dentro da condição humana, então nem os cientistas do exército americano, ou soviético, dos anos 1950, nem os propulsores da chamada terapia reparativa em suas várias versões, os doutores Nicolosi, Van Aardweg, Polaino e Anatrella, nem os exorcismos dos pastores Malafaia ou Feliciano, por exemplo, vão fazer a mínima diferença em alterar a realidade, por mais estragos que possam causar antes de reconhecê-lo. Como seus antecessores aprenderam no caso Galileu, nem o Papa tem o poder de alterar uma realidade objetiva deste tipo. E não é amigo verdadeiro do Papa aquele cuja bajulação leva o mesmo a ter pretensões de uma autoridade além do seu alcance.
iii. do ponto de partida, todo o resto flui
Desculpe a lentidão em chegar a este ponto, mas quis sinalizar uma coisa que é, em certo sentido, óbvia. Dependendo de qual destas posições seja verdadeira, todo o resto flui. Donde decorre que não vale a pena sequer começar a discutir os detalhes menores daquilo que segue – quais direitos humanos seriam aplicáveis, se deve ser lícito o casamento ente pessoas do mesmo sexo, ou antes a punição, talvez drástica como em certos países islâmicos, de qualquer ato que delate a existência desta inclinação na vida de uma pessoa, – não vale a pena discutir estas questões até cumprirmos a tarefa de nos colocar diante da verdadeira caracterização da pessoa em questão. Santo Tomás nos oferece uma bela frase para descrever as graves consequências de não ter acertado o primeiro passo: Error parvus in principio, magnus est in fine. Mesmo que um erro seja só aparentemente pequeno no começo, se não for corrigido, termina levando o caminhante muito longe mesmo do caminho certo. Aqui poderíamos dizer que a diferença entre a analogia do canhoto e a analogia do anoréxico não é, aparentemente, muito grande. Porém, as consequências para a vida da Igreja, das famílias e das pessoas, de partir da falsa e não da verdadeira analogia, vão muito longe mesmo.
Bom, como vocês sabem, a esta altura do jogo, na segunda década do século 21, a evidência da razão está se mostrando contundentemente pelo lado de uma destas duas caracterizações: não há evidência alguma de tipo genético, neurobiológico, químico, endocrinológico, hormonal, nem de psicologia infantil ou adulta para indicar que ser gay é uma desordem objetiva. Ao contrário, toda a evidência atualmente disponível, e ainda estamos nos primórdios de muitos campos novos de estudo, leva a pensar que não há patologia alguma que seja intrínseca ao ser gay, mas que as pessoas gays têm as mesmas tendências à saúde e à patologia que as pessoas heterossexuais. Ou seja, que ser gay é mesmo uma variante minoritária e não patológica que ocorre regularmente dentro da condição humana. Não somos nem mais nem menos “fodidos” só pelo assunto da orientação sexual; antes, em termos de “fodidez”, somos bem iguais. E estas evidências de tipo científico estão recebendo uma confirmação de tipo popular cada vez mais forte a cada dia, na medida em que, por todo o planeta, a começar pelos países de ocidente, as pessoas gays vão perdendo o medo de viver de maneira transparente, e por isso a gama das nossas características, em toda a sua variedade, chega a ser cada vez mais visível. Com a visibilidade some o mistério, e percebe-se que não somos nem mais nem menos generosos, irresponsáveis, ignorantes, ciumentos, paranoicos, inteligentes, honestos, preguiçosos, violentos ou confiáveis que os outros. Antes, somos banalmente muito parecidos.
Vale a pena insistir nisto ante este público já que alguns de vocês dependem para o vosso sustento de um meio eclesiástico onde ainda há um abismo entre a primeira categoria de evidência, aquilo que se conhece formalmente de tipo científico, e a segunda categoria de evidência, a sua confirmação cotidiana em meio ao povo pelo conhecimento de parentes e amigos que vivem isto de maneira transparente e sem distúrbios. No meio eclesiástico, não dá para perceber tal vivência transparente e sem distúrbios. De fato, qualquer pessoa hétero morando num seminário, ou comunidade religiosa, e que não tinha antes muito conhecimento de pessoas gays talvez vá se dando conta que tem uma desproporção muito grande de pessoas gays no meio religioso, porém nenhuma delas consegue ser plenamente honesta nem com os outros, nem consigo mesma. Antes paira uma nuvem de chantagem e de esconde-esconde sobre toda a convivência. Não seria de se surpreender que tal pessoa hétero chegasse a deduzir, a partir da evidência que tem diante do nariz, que existe um elo intrínseco entre a homossexualidade e a desonestidade. Para que tal pessoa chegue a suspeitar que talvez a desonestidade que tem razão em detectar ao seu redor seja uma dimensão estruturante da vivência eclesiástica atual, que impõe como premissa uma caracterização falsa da psique de boa parte dos seus integrantes clericais, e não um elemento intrínseco às pessoas gays, será ainda necessário caminhar muito.
iv. recusa do binômio “verdade objetiva e honestidade”
Bom, parece que deslizei da questão da verdade para a da honestidade. Mas curiosamente, não é o que quero fazer. De fato, é demasiado fácil saltar do elemento “verdade objetiva” para o elemento “honestidade” como se o mundo e a nossa vivência real fossem divididos entre verdades conhecidas objetivamente, por um lado, e por subjetividades mais o menos desonestas, por outro. E que por algum mandamento moral, ou força de vontade, teriam de se adequar estas subjetividades à verdade objetiva. A meu ver, uma grande parte da dificuldade que a Igreja tem para lidar com esta questão é justamente neste ponto: fora alguns redutos rigoristas, mais ou menos todo mundo minimamente informado sabe que aquela premissa básica que é a caracterização da desordem objetiva é falsa. E mais ou menos todo o mundo quer ser honesto. Por outro lado, todo mundo sabe que reconhecer a falsidade da premissa equivale a dizer que a Igreja está ensinando um erro. E mesmo que seja só um erro antropológico, e não sobre uma questão de revelação divina, dá muito medo no nosso meio assumir esta posição. Em simples termos de colocar em risco o emprego: a gente deixa de ser gente se não se é “confiável” em manter a fachada sobretudo nesta questão, que tem tão íntimas consequências na vivência eclesiástica, especialmente a masculina. Juntam-se a isto as consequências deste reconhecimento, mesmo no nível intelectual. Se retirar este naipe da desordem objetiva das pessoas gays do castelo de cartas da antropologia sexual católica oficial, então deixa de ser possível manter que todos os atos entre pessoas do mesmo sexo seriam intrinsecamente ruins. E basta que um ato sexual entre pessoas do mesmo sexo não seja ruim, no qual por razões evidentes a função unitiva está sem ligação com qualquer função procriativa, e o castelo de cartas desaba. Deixa de ser possível insistir que é somente bom o ato heterossexual onde as funções unitiva e procriativa não são deliberadamente separadas. Pois, seria um absurdo manter um maior rigor para as pessoas heterossexuais do que para os gays.
Porém, não quero saltar do assunto da verdade objetiva para o assunto da honestidade subjetiva das pessoas individuais na Igreja. Mesmo que seja este binômio, entre verdade e desonestidade, ou entre verdade de fachada e vida dupla, que nos faz, como católicos, tão suscetíveis à acusação de hipocrisia. De fato, qualquer acusador nosso, seja do lado secularizante – por exemplo, um ativista gay que vê na Igreja só um inimigo da felicidade –, seja do lado sacralizante – no caso de um paladino da tradição que vê nos gays só inimigos da fé e dos valores familiares se assemelham no seguinte: os dois lados têm em nós um alvo demasiado fácil. Nos pegam de mãos atadas. Os dois lados estão com raiva do estado atual das coisas na Igreja, e com justa razão. Entendendo as coisas por um lado, a Igreja deve simplesmente reconhecer a verdade científica, e os seus integrantes simplesmente deveriam aprender a ser honestos. E entendendo as mesmas coisas pelo outro lado, todos os integrantes eclesiásticos devem reconhecer honestamente a verdade do atual ensinamento, e os que são gay deveriam reconhecer a sua inadequação para o ministério e se retirar, ou não se propor para qualquer ministério público na Igreja.
v. o “skandalon”
Nos termos de Bateson é um “duplo vínculo” perfeito: se falar a verdade, você fica de fora (do grupo); e se não falar a verdade, fica de fora (do sentido para o qual existe o grupo). Então muitos integrantes da Igreja preferem ficar num espaço ambíguo, uma espécie de “Don’t ask, Don’t tell” onde tudo é cinzento. Mesmo sem falar da miséria psíquica que este ambiente produz, nem dos relacionamentos disfuncionais e inapropriados que nele abundam, isto é evidentemente o ambiente mais propício para toda classe de chantagem.
Bom, aquilo que Bateson teria chamado de “duplo vínculo”, o meu guru, o René Girard, chama pelo nome mais clássico em termos teológicos de “skandalon” [3]. E é mesmo. A vivência eclesial desta questão merece mesmo o nome de escândalo, não no sentido jornalístico, mas no sentido estrito, de um mecanismo que é pedra de tropeço, algo que atrai e repele a seus integrantes ao mesmo tempo, atando-nos em ritmos de desejo insuportáveis de viver com e insuportáveis de viver sem. É um escândalo vivido na carne própria pelos de dentro, e tende a se reproduzir como escândalo nos inocentes que são induzidos a formar parte deste mundo escandalizado. Este processo de ficar atado num “skandalon” leva à paralisia do coração, passo muito próximo à perda da alma. Mas é aqui onde me parece que vem em jogo aquele terceiro elemento da interpelação que mencionei ao começo, a da veracidade.
Aqui, a meu ver, é a área mais frutífera para a interpelação entre pessoas gays e a vivência eclesial. Pois se estamos diante de um “skandalon” no sentido de Girard, que creio ser o do Evangelho, procurar, então, esticar as pessoas escandalizadas entre a “verdade” e a “honestidade” é mais uma maneira de nos deixarmos cozinhar pelo inexorável fogo baixo da acusação. Ora, a qualidade da acusação é que só atiça e estreita os nós do escândalo, mas não oferece nenhuma saída dos seus laços.
Por isto, gostaria de oferecer para vocês algumas observações sobre a dimensão da veracidade neste campo. A minha tarefa, como cristão, como padre, e como teólogo, não é atiçar os laços do escândalo, mas reconhecendo sem fingimento o skandalon por aquilo que é, procurar desatar aqueles nós, oferecendo caminhos pelos quais seja possível sair de tanta dor e autodestruição.
vi. a veracidade
Quando falo veracidade, então, falo do processo pelo qual o grupo humano e os seus integrantes chegam a adquirir uma disposição estável de se deixar ajustar àquilo que realmente é, e poder falar a respeito. Por exemplo, durante os últimos séculos temos crescido muito no conhecimento da meteorologia. Temos chegado, como sociedade, e com pouquíssimas exceções, a compreender sem sequer pensar muito no assunto, que as forças do vento, do mar, da chuva, as temperaturas altas e baixas, a produção de furacões, etc. seguem certos ritmos e leis da física, e que são interdependentes. Temos nos ajustado a esta maneira de entender as coisas, e de dar certo crédito aos meteorólogos, suas predições e explicações. Se um membro de uma comunidade recentemente afetada por uma tempestade nos propusesse que aquele evento é o resultado de uma bruxaria, e que a pessoa que lançou o feitiço deveria ser achada e punida pelos estragos causados, duvidaríamos primeiro da inteligência do nosso informante e, caso o mesmo se revelasse inteligente, e ainda insistente, duvidaríamos da saúde mental ou da honestidade das intenções dele. Teria se mostrado uma pessoa com um defeito sério na veracidade, na capacidade para ser esticada por aquilo que é. Em contrapartida, muitos de nós recitamos sem escândalo o salmo 147 que diz de Deus: “Ele atira seu gelo em migalhas”. Mas consideraríamos muito estranho que alguém propusesse que a explicação real das chuvas de granizo é mesmo uma confusão divina entre gelo e pão. Sabemos muito bem distinguir entre as causas secundárias, em termos de Santo Tomás, e a primeira causa, e também sabemos que aquelas não estão em rivalidade com esta.
Ou seja, conseguimos distinguir entre acontecimentos meteorológicos por um lado e projeções sobre a divindade ou alterações sociais produzidas pela inveja e rivalidade dos membros de uma comunidade, por outro. E fazemos esta distinção sem escândalo. Este processo de ajuste dos seres humanos à realidade não foi imediato; de fato, demorou séculos, mas uma vez feito, resultou ser estável.
Proponho para vocês que é precisamente a um processo de veracidade deste tipo ao qual somos chamados como Igreja pela questão gay. E gostaria de sublinhar que sair de um escândalo não é um processo puramente intelectual. De fato, funciona muito mais ao nível do desejo que nos estrutura do que naquele nível relativamente secundário que é o do raciocínio. Dou-lhes um exemplo. Recentemente um Bispo amigo meu foi chamado pelo Vaticano para responder por uma pastoral gay na diocese dele. Os acusadores tinham outros motivos para incomodar o Bispo, mas acusar um bispo de demasiado liberal no assunto gay é sempre uma boa arma no campo minado do amor cristão. O Bispo me consultou a respeito, e eu disse para ele aquilo que digo para vocês: que, havendo seguido os estudos durante anos, a meu ver, trata-se de uma variante minoritária não patológica e que ocorre regularmente na condição humana, com as consequências normais que disto decorrem. O Bispo, muito inteligentemente, e não querendo depender numa questão de evidência científica da opinião de um mero teólogo que é também um homem pessoalmente envolvido no assunto, procurou os principais médicos, psicólogos e cientistas da diocese dele, um por um, e perguntou qual era o parecer deles na matéria. E todos, sem exceção, disseram para ele a mesma coisa. Então, durante a entrevista dele no Vaticano, ele levantou esta questão, sugerindo que estamos diante de um fato já aceito pacificamente no universo científico. Os seus interlocutores romanos informaram ele que não era para ele ser enganado deste jeito, e que a pretendida cientificidade deste fato é simplesmente o resultado de um lobby gay muito poderoso e influente.
Agora, espero que vocês vejam a diferença entre as duas maneiras de proceder. Por um lado tem alguém que está disposto a perder a reputação dele no grupo que o sustenta, ao reconhecer a possibilidade, mas não a certeza, de que a realidade talvez seja diferente do que pensava. Por isto ele se dá o trabalho de estudar o assunto, confiante de que, seja qual for o resultado da pesquisa, a verdade é aquilo que nos faz bem, e que é muito exatamente uma parte do exercício do dom da Fé confiar em que Deus nos mostrará aquilo que é realmente bom para nós se estivermos dispostos a correr o risco de nos percebermos errados. Ou seja, por um lado alguém se encontrou com suficiente liberdade no meio do grupo dele como para se permitir o exercício da virtude da studiositas como parte do caminho para se ajustar à verdade das coisas.
Por outro lado, temos uma pessoa ou grupo de pessoas de tal modo escandalizadas pela possibilidade de que a verdade objetiva não esteja conforme aquilo que deve ser, segundo o entendimento deles do ensino da Igreja, que resolvem o problema por meio de uma teoria de conspiração. “Só os médicos e psicólogos que estão de acordo conosco são aceitáveis. Se existem muitas pessoas alegando que estamos diante de uma verdade de tipo científico discordante do nosso ensinamento, mas que agora é pacificamente aceita pela imensa maioria dos estudiosos, então a explicação é que um poderoso grupo de malfeitores teria adulterado a ciência a favor do autoengano deles.” Espero que dê para perceber que uma teoria da conspiração deste tipo é o equivalente intelectual da premissa da bruxaria causadora da tempestade, e é um empecilho perfeito à possibilidade da veracidade. Quem se aferra a uma causalidade social acusadora desta maneira nunca vai ter acesso à possibilidade do conhecimento científico, nem da meteorologia, nem das ciências modernas que estão nos permitindo entender a orientação sexual. Ou seja, o pensamento escandalizado é justamente o oposto do caminho da veracidade. Nos mantém longe da possibilidade de nos ajustar àquilo que realmente é e menos ainda de poder falar a partir de dentro daquele processo de ajuste.
vii. passos para sair do “skandalon”
Graças a Deus, os nós do “skandalon” são desatáveis. Se os mecanismos do constante atiçamento dos nós do skandalon são potenciados pela acusação, aquilo que potencia o soltar os laços é o perdão. E de fato, no epicentro da fé cristã e católica entendemos muito bem que a chave para abrir a verdade que nos libera é o Espirito d’Aquele que estava disposto não a fugir do skandalon mas Ele mesmo entrar no lugar do skandalon, sendo definido Ele mesmo como escandaloso, e suportando o peso da violência, das falsas acusações, da vergonha, da desfiguração e da morte. E o fez tudo para que nós pudéssemos passar pelo espaço dos escândalos sem ficar escandalizados: “Feliz aquele que não se escandalizar em mim”.
E é isso mesmo: na medida em que achamos que nesta situação de vivência eclesial, não há nada para ser perdoado, é só insistir nas definições de sempre com maior rigor frente a um mundo perverso cada vez menos disposto a nos ouvir. Deste modo, só conseguimos atiçar o skandalon até o ponto onde a nossa perda de razão fica evidente para todo mundo menos para nós. Assim ficamos ainda mais escandalizados ao percebermos como os outros consideram tabu irracional aquilo que chega a ser para nós pedra de toque da nossa sacralidade. Por outro lado, na medida em que reconhecemos que tem algo para ser perdoado, quer dizer solto, permitido a fluir, e que somente na medida em que nos deixamos perdoar é que vamos perceber a realidade daquilo que é, assim veremos o skandalon se esfumar e vamos ficar livres.
Repito isto, porque é um dos segredos do cristianismo que a Igreja muitas vezes consegue esconder de si própria. O principio da realidade flui a partir da vítima que nos perdoa, e que nos dá o poder de segui-la sendo perdoados e espalhando o perdão, fazendo dos lugares escuros e aparentemente tóxicos da vergonha e do escândalo, lugares onde podemos morar pacificamente, e por isso, começar a detectar e descrever sem medo aquilo que realmente está acontecendo. Aquele que diz “Eu sou a verdade, o caminho e a vida, ninguém vem ao Pai a não ser por mim” soprou nos apóstolos o Espirito Criador mandando-os perdoar, e é aquele Espírito que nos leva a toda a verdade, e nos assegura que a verdade nos libertará.
Ou seja, o primeiro passo para sair do skandalon que é a atual vivência eclesial do assunto gay é se deixar perdoar. E o segundo passo, que flui automaticamente do primeiro é na medida em que começamos a nos descobrirmos perdoados, e por isso capazes de caminhar com maior leveza de espírito em meios perigosos, onde só o perdão nos dará a capacidade de não nos preocuparmos pela perda de reputação e assim por diante, a perdoar aqueles que ainda ficam escandalizados e por isso são pessoas violentas, ainda filhos da ira, que não entendem bem as forças cruéis do desejo escandalizado que as agitam. Os escandalizados não serão capazes de deixar de mentir, de atacar, de acusar, se pensando justos ao fazê-lo, e agindo até com maior ferocidade na medida em que perceberem a liberdade e a tranquilidade alheia. Com o escandalizado, nunca entrar em debate. Ao escandalizado se perdoa sem que ele o peça, pois não sabe o que faz, e porque, não o perdoando, ficamos com o risco de sermos contagiados pelo mesmo escândalo.
O terceiro passo, e é um grande privilégio da fé católica, é poder ver com aquela racionalidade tranquila de quem passou pela perda de tudo, e ainda se descobriu mantido em vida, como é que esta pequena abertura para uma antropologia mais verdadeira não é, como se poderia pensar, uma ruptura da fé, ou uma brecha na bela totalidade da vivência católica, mas, ao contrário: é o seu desenvolvimento, a partir de dentro, mais orgânico. É uma daquelas coisas que do lado de fora parece um obstáculo, e por isso uma pedra a ser rejeitada, mas pelo lado de dentro, percebe-se o seu vínculo íntimo com a pedra angular. Ou seja, uma vez que a gente está além do escândalo, a gente olha para atrás e percebe que o pleno reconhecimento da humanidade das pessoas gays foi, e está sendo, o desenvolvimento mais íntegro da vivência cristã, seguindo muito exatamente aquilo que Jesus nos prometeu. Curiosamente, este desenvolvimento integralmente cristão tem sido liderado por pessoas que pouco sabiam o quanto eram cristãs a ousadia, a humildade e a perseverança delas, e tem sido obstruído por pessoas que pouco sabiam que a rigidez, o escândalo e a desonestidade delas nada de cristão tinham. Um fato assim deveria ser motivo de vergonha para nós que levamos o nome de cristão, porém só pode ser motivo de surpresa para quem não tiver dedicado o mínimo de tempo a ler os Evangelhos…
O quarto passo, descobrindo-nos, sem mérito nosso, por dentro da dinâmica orgânica do Evangelho é nos dar conta de que a fé católica sempre previa possibilidades deste tipo. O ensinamento católico com respeito a Fé e a Razão, a Graça e a Natureza, mantido nos conselhos de Trento, Vaticano I e II, e ensinado com particular lucidez pelo Bento XVI nos facilita muito a tarefa de sair dum escândalo que é muito mais forte para grupos que não tem este ensinamento. Pois, uma vez que é o ensinamento constante da Igreja que a razão humana, por débil que seja, não ficou totalmente danificada na queda, e por isso ainda é capaz de aprender a verdade, mesmo que por caminhos árduos e onde avançamos só em meio a muitos erros; e que a natureza humana, e junto com ela o desejo humano não é radicalmente depravado, mas em si uma coisa boa, mesmo que vivido por todos nós de uma forma distorcida e debilitada; uma vez lembradas estas coisas, então podemos entender que é absolutamente conforme à nossa fé o poder aprender, ao longo do tempo e de maneira árdua, que alguma coisa que parecia ser um defeito da natureza humana não o é e que aquilo que se pensava uma condição viciada ou patológica não o é. Devido justamente a esta compreensão, a fé católica entende que Deus, porque nos ama, não proíbe coisas de maneira caprichosa, só proíbe aquilo que nos faz mal. Quando se pensava que ser gay era um defeito numa natureza humana intrinsecamente heterossexual, então não se colocava em questão que a proibição fosse para o nosso bem. No momento em que se descobre que, antes, ser gay diz respeito a uma variante minoritária e não patológica na condição humana, então automaticamente fica claro que aquilo que se pensava ser uma proibição divina não é, e nunca foi, tal. É e foi um tabu humano, parte daquele mundo de ignorância e violência que ainda não tinha aprendido a respeitar a dignidade, a beleza, e a capacidade para o florescimento de diversos membros da raça humana. Mas que agora, e como parte integrante da Boa Nova, estamos descobrindo que ser humano é uma aventura maior e mais rica do que se pensava antes.
viii. a catolicidade do caminho proposto
Quero insistir nisto, porque significa que o descobrimento da condição não patológica do ser gay, um autêntico descobrimento de tipo antropológico, um autêntico ganho para a humanidade, não é um ataque frontal a uma doutrina da Igreja. Ao contrário, é parte de um mecanismo absolutamente normal, e interno à vida da Igreja, pelo qual chegamos a perceber um conflito entre duas doutrinas que antes não pareciam ter nenhum conflito entre elas: a doutrina acerca da fé, da razão, da natureza e da graça, por um lado, e a proibição absoluta de todo ato de amor entre pessoas do mesmo sexo, por outro. As duas doutrinas de fato têm um conflito, se aquilo que chegamos a perceber e apreciar ao seguir a primeira doutrina, que é, de toda evidência, central para a visão católica do mundo, nos leva muito obedientemente a relativizar e finalmente a rejeitar, como sendo expressão de um tabu, a segunda doutrina. A primeira doutrina nos teria ensinado que a segunda não pode ser de origem divina, sendo que é incompatível com a benevolência e a sabedoria do Criador ter querido frustrar por meio de uma proibição absoluta o desenvolvimento e crescimento normal de uma condição que ele mesmo teria se comprazido em introduzir na nossa experiência de filhas e filhos dele. A bondade ou ruindade dos atos de amor entre pessoas do mesmo sexo dependeria de seu uso, como é de fato a experiência das pessoas gays, e os critérios para isto deveriam ser aprendidos por nós, guiados por aquela inapagável tendência em nós para a verdade que a Igreja tanto preconiza e à qual tantas pessoas gays e lésbicas têm dado testemunho na face de tanta rejeição eclesiástica.
Acho que vale a pena lembrar disto: como o ensinamento da Igreja vem de Deus, quando descobrimos um erro, é evidente que aquilo não era, na verdade, o ensinamento da Igreja. E os que insistiam que era, resultaram ser os que foram na verdade pouco leais à Igreja, preferindo uma aparente continuidade tingida com erro a uma vivacidade sempre mais ricamente portadora da verdade [4].
ix. conclusão
E isto me leva ao ponto com o qual quero concluir. Estamos reunidos para falar sobre as recíprocas interpelações entre juventudes e teologia moral. Conforme lhes disse no começo, não sou formado em teologia moral, e o meu interesse principal é no cristianismo básico e a evangelização. Espero que tudo que disse até agora sirva para sublinhar a tarefa que temos em comum: até descobrirmos as maneiras, internas às nossas disciplinas, de entender que o processo de crescente veracidade em matéria de orientação sexual, que tem ocorrido muito mais fora da Igreja do que no seu meio, tem sido, e é, parte orgânica da Boa Nova que vem de Cristo, e não o inimigo daquela Boa Nova. Até que descubramos isto por nós mesmos, a única interpelação que teremos para as juventudes é querer trazê-las para dentro da nossa vivência escandalizada. Neste caso, seria muito apropriado que tivéssemos medo de que venham a cair sobre nós os “ai” de Mateus (23, 13-36) com todo seu peso. Enquanto, por outro lado, a principal interpelação das juventudes para nós, se é que sequer se preocupam em procurar o diálogo, vai ser “Onde estavam vocês quando tivemos de crescer sem apoio, sem modelos, sem exemplos, quando tivemos de passar pelo vale da sombra da morte? Ficamos a sós com o Senhor, como nosso único Pastor, muitas vezes sem que sequer o percebêssemos, já que vocês, que foram formados para nos ajudar, e tinham tudo para fazer brilhar o sinal eficaz do pastoreio d’Ele, tiveram medo do lobo e fugiram.”
São Paulo e Londres, Maio/Junho/Julho de 2013
Endnotes
[1] Agradeço ao meu amigo Lula Ramires por ter revisado a redação deste meu texto, escrito originalmente em português.
[2] #3.
[3] Por exemplo, na IIIª parte do seu livro Coisas ocultas desde a fundação do mundo.
[4] Veja Marcos 7, 13 Tweet
domingo, 4 de agosto de 2013
Contra a insensatez
Depois do Reino de Deus, o tema mais abordado por Cristo
era o dinheiro e nossa relação com a riqueza. (Via)
era o dinheiro e nossa relação com a riqueza. (Via)
A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 12,13-21 que corresponde ao 18º Domingo do Tempo Ordinário, ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Cada vez sabemos mais da situação social e econômica que Jesus conheceu na Galileia dos anos trinta. Enquanto nas cidades de Séforis e Tiberíades crescia a riqueza, nas aldeias aumentava a fome e a miséria. Os camponeses ficavam sem terras e os proprietários construíam silos e armazéns cada vez maiores.
Num pequeno relato, conservado por Lucas, Jesus revela o que pensa daquela situação tão contrária ao projeto querido por Deus, de um mundo mais humano para todos. Não narra esta parábola para denunciar os abusos e os atropelos que cometem os proprietários, mas para desmascarar a insensatez em que vivem instalados.
Um rico proprietário vê-se surpreendido por uma grande colheita. Não sabe como gerir tanta abundância. “Que farei?”. O seu monólogo mostra-nos a lógica insensata dos poderosos que só vivem para acumular riqueza e bem-estar, excluindo do seu horizonte os necessitados.
O rico da parábola planifica a sua vida e toma decisões. Destruirá os velhos armazéns e construirá outros maiores Armazenará ali toda a sua colheita. Pode acumular bens para muitos anos. De futuro, só viverá para desfrutar: ”deita-te, come, bebe e leva uma boa vida”. De forma inesperada, Deus interrompe os seus projetos: “Imbecil, esta mesma noite, vão exigir-te a tua vida. O que acumulaste, de quem será?”.
Este homem reduz a sua existência a disfrutar da abundância dos seus bens. No centro da sua vida está apenas ele e o seu bem-estar. Deus está ausente. Os jornaleiros que trabalham as suas terras não existem. As famílias das aldeias que lutam contra a fome não contam. O juízo de Deus é determinante: esta vida só é estupidez e insensatez.
Nestes momentos, praticamente em todo o mundo está a aumentar de forma alarmante a desigualdade. Este é o facto mais sombrio e inumano: ”os ricos, tendem a se tornar ainda mais ricos enquanto os pobres afundam na miséria” (Zygmunt Bauman).
Este facto não é algo normal. É, simplesmente, a última consequência da insensatez mais grave que os humanos estamos a cometer: substituir a cooperação amistosa, a solidariedade e a busca do bem comum da Humanidade pela competição, a rivalidade e o açambarcamento de bens em mãos dos mais poderosos do Planeta.
Desde a Igreja de Jesus, presente em toda a Terra, deveria escutar-se o clamor dos seus seguidores contra tanta insensatez, e a reação contra o modelo que guia hoje a história humana.
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domingo, 28 de julho de 2013
Três chamados de Jesus
A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 11, 1-13, que corresponde ao 17º Domingo do Tempo Ordinário, ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
“Todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta” (Lc 11,10). É possível que Jesus tenha pronunciado estas palavras quando ele andava pelas aldeias da Galileia pedindo alguma coisa para comer, procurando ser acolhido e batendo na porta da casa dos vizinhos. Ele sabia aproveitar as experiências mais simples da vida para despertar a confiança de seus seguidores no Pai de todos.
Curiosamente, em nenhum momento é dito para nós o que devemos pedir ou buscar nem em qual porta devemos bater. O mais importante para Jesus é a atitude. Diante do Pai, devemos viver como pobres que pedem o que precisam para viver, como os perdidos que procuram um caminho que ainda não conhecem bem, como desamparados que batem à porta de Deus.
Nas três chamadas de Jesus, somos convidados a despertar a confiança no Pai. Este convite é realizado com diferentes matizes. “Pedir” é a atitude própria do pobre. Devemos pedir a Deus aquilo que não podemos dar a nós mesmos: o sopro da vida, o perdão, a paz interior, a salvação. “Buscar” não é somente pedir; é dar passos para conseguir o que não está ao nosso alcance. Assim devemos buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça: um mundo mais humano e digno para todos. “Chamar” é bater na porta, insistir, gritar a Deus quando o sentimos longe.
A confiança de Jesus no Pai é absoluta. Ele quer que seus seguidores não esqueçam nunca: “todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta”. Jesus não disse que recebem concretamente o que estão pedindo, que encontram o que estão procurando ou que atingem aquilo pelo que clamam. Sua promessa é outra: para quem confia nele, Deus se dá a eles; quem recorre a ele, dele recebe “coisas boas”.
Jesus não oferece explicações difíceis. Apresenta três exemplos que podem entender os pais e as mães de todos os tempos. Quem é o pai ou a mãe que, quando um filho pede um pedaço de pão, lhe dá uma pedra como aquelas que estão nos caminhos? Ou se pede um peixe lhe dá uma cobra? Ou ainda: se pede um ovo, será que vai lhe dar um escorpião daqueles que estão na beira do lago? (Lc 11, 11-12).
Os pais não zombam dos filhos. Não os enganam nem dão aquilo que possa machucá-los, mas somente "coisas boas". Jesus dá rapidamente uma conclusão: “quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo àqueles que o pedirem” (Lc 11,13). Para Jesus, o melhor que podemos pedir e receber de Deus é Seu sopro que sustenta e salva nossa vida. Tweet
sexta-feira, 26 de julho de 2013
“Ele vem oculto até nós, e a salvação consiste no fato de o reconhecermos”
O novo tipo de vida que a Ressurreição possibilita não depende da evidência forense da tumba vazia, ou da evidência circunstancial das aparições.
Encontramos a evidência na vida cotidiana. A fé na ressurreição não é algo insano, mas reside em um tipo particular de senso e de racionalidade. As ideias quanto ao que constitui a razão são historicamente variáveis. Assim como o amor, a fé na Ressurreição tem sua própria razão e qualidade de ser, um elevado grau de inteireza, que alcançamos mais do que aprendemos. As experiências, até mesmo as aparições ligadas à Ressurreição, surgem e desaparecem.
Tornam-se memórias. Nós, contudo, reconhecemos a Ressurreição naquilo que os primeiros discípulos chamaram de o “Dia de Cristo”. Trata-se do momento presente iluminado pela capacidade que a fé tem de ver o invisível, de reconhecer o que é óbvio. Como escreveu Simone Weil: “Ele vem oculto até nós, e a salvação consiste no fato de o reconhecermos”.
A pergunta que Jesus nos faz ["E vós, quem dizeis que eu sou?"] é a dádiva oferecida a nós pelo rabbuni: sua própria formulação concede a “graça do guru”.
Em todas as épocas, sua pergunta é a dádiva que espera ser recebida. Seu poder, simples e sutil, de despertar o autoconhecimento em nossa própria experiência da Ressurreição é perene. São Tomás se utiliza do tempo presente para falar da Ressurreição. Ele pode ser entendido como se afirmasse que a Ressurreição (...) transcende todas as categorias de espaço e de tempo. De maneira semelhante, os ícones da Ressurreição da tradição ortodoxa sugerem a mesma transcendência e mostram que o poder que ressuscitou Jesus continua presente e ativo.
O trabalho essencial de um mestre espiritual é apenas este: não nos dizer o que fazer, mas ajudar-nos a ver quem somos. O Eu que passamos a conhecer através de sua graça não é um ego pequeno, isolado e separado que se apega às suas memórias, desejos e medos. É um campo da consciência que se assemelha, e dela é indivisível, à consciência de que Deus é, ao mesmo tempo, a revelação cósmica e bíblica: o grande e único “EU SOU”.
- Laurence Freeman, OSB
Extraído do livro Jesus, O Mestre Interior – Martins Fontes, São Paulo, 2004, pgs. 63 e 64. Tweet
quarta-feira, 24 de julho de 2013
"Onde estás? Onde está o sangue do teu irmão?"
No início de julho, o Papa Francisco visitou a cidade de Lampedusa, no sul da Itália, "uma das principais rotas de entrada de refugiados do Norte da África em direção à Europa. A costa do Mediterrâneo naquela região é digna de uma versão contemporânea do inferno de Dante. Nos poucos mais de 100 quilômetros de mar que dividem a Europa do Norte da África já morreram milhares de pessoas. A maioria delas em função dos naufrágios das precárias embarcações, mas parte faleciam por falta de água e comida, enquanto ficavam à deriva no mar" (saiba mais aqui).
"Em Lampedusa começa o pontificado de Francisco. Não em ordem cronológica, mas de importância e significação de seu ato (kairós). Lampedusa é a primeira “encíclica” de Francisco. Não é uma encíclica escrita, mas uma encíclica em ato, em gestos. Nesta encíclica, “o ministério petrino se despe das suas vestes monárquicas para se tornar encontro com a pessoa humana”, como diz Christian Albini.
Esta encíclica é diferente da outra, a Lumen Fidei, escrita por Ratzinger, mas, na caridade, assumida por Francisco, para, de acordo com Marco Politi ser “enviada para ser impressa e enterrá-la”. A de Lampedusa, ao contrário, tem a sua cara. Nela palpita seu coração. Nela transparece e reluz o seu programa" (leia uma análise aprofundada da viagem de Francisco a Lampedusa e suas implicações para o atual momento da Igreja aqui).
A missa, presidida pelo papa, foi celebrada depois de Francisco, acompanhado por barcos de pescadores de Lampedusa, ter jogado no mar uma coroa de crisântemos seguido de uma profunda e emociante oração silenciosa, em memória dos emigrantes que morreram no Mediterrâneo, na entrada da Europa.
Na missa, o altar, o cálice e o báculo do Papa foram feitos com restos de madeira que sobraram dos barcos naufragados. Sim, o Papa, no meio dos emigrantes, usou um báculo de madeira. Algo raro na história.
Eis a homilia, que reproduzimos aqui via IHU.
Emigrantes mortos no mar; barcos que em vez de ser uma rota de esperança, foram uma rota de morte. Assim recitava o título dos jornais. Desde há algumas semanas, quando tive conhecimento desta notícia (que infelizmente se vai repetindo tantas vezes), o caso volta-me continuamente ao pensamento como um espinho no coração que faz doer. E então senti o dever de vir aqui hoje para rezar, para cumprir um gesto de solidariedade, mas também para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu. Que não se repita, por favor.
Antes, porém, quero dizer uma palavra de sincera gratidão e encorajamento a vós, habitantes de Lampedusa e Linosa, às associações, aos voluntários e às forças de segurança, que tendes demonstrado – e continuais a demonstrar – atenção por pessoas em viagem rumo a qualquer coisa de melhor. Sois uma realidade pequena, mas ofereceis um exemplo de solidariedade! Obrigado! Obrigado também ao Arcebispo Dom Francesco Montenegro pela sua ajuda, o seu trabalho e a sua solidariedade pastoral. Saúdo cordialmente a Presidente da Câmara Senhora Giusi Nicolini, muito obrigado por aquilo que fez e faz. Desejo saudar os queridos emigrantes muçulmanos que hoje, à noite, começam o jejum do Ramadã, desejando-lhes abundantes frutos espirituais. A Igreja está ao vosso lado na busca de uma vida mais digna para vós e vossas famílias. A vós digo: oshià!
Nesta manhã quero, à luz da Palavra de Deus que escutamos, propor algumas palavras que sejam sobretudo uma provocação à consciência de todos, que a todos incitem a reflectir e mudar concretamente certas atitudes.
"Adão, onde estás?": é a primeira pergunta que Deus faz ao homem depois do pecado. "Onde estás, Adão?". E Adão é um homem desorientado, que perdeu o seu lugar na criação, porque presume que vai tornar-se poderoso, poder dominar tudo, ser Deus. E quebra-se a harmonia, o homem erra; e o mesmo se passa na relação com o outro, que já não é o irmão a amar, mas simplesmente o outro que perturba a minha vida, o meu bem-estar. E Deus coloca a segunda pergunta: "Caim, onde está o teu irmão?" O sonho de ser poderoso, ser grande como Deus ou, melhor, ser Deus, leva a uma cadeia de erros que é cadeia de morte: leva a derramar o sangue do irmão!
Estas duas perguntas de Deus ressoam, também hoje, com toda a sua força! Muitos de nós – e neste número me incluo também eu – estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como aquela a que assistimos.
"Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim", diz o Senhor Deus. Esta não é uma pergunta posta a outrem; é uma pergunta posta a mim, a ti, a cada um de nós. Estes nossos irmãos e irmãs procuravam sair de situações difíceis, para encontrarem um pouco de serenidade e de paz; procuravam um lugar melhor para si e suas famílias, mas encontraram a morte. Quantas vezes outros que procuram o mesmo não encontram compreensão, não encontram acolhimento, não encontram solidariedade! E as suas vozes sobem até Deus! Uma vez mais vos agradeço, habitantes de Lampedusa, pela solidariedade. Recentemente falei com um destes irmãos. Antes de chegar aqui, passaram pelas mãos dos traficantes, daqueles que exploram a pobreza dos outros, daquelas pessoas para quem a pobreza dos outros é uma fonte de lucro. Quanto sofreram! E alguns não conseguiram chegar.
"Onde está o teu irmão?" Quem é o responsável por este sangue? Na literatura espanhola, há uma comédia de Félix Lope de Vega, que conta como os habitantes da cidade de Fuente Ovejuna matam o Governador, porque é um tirano, mas fazem-no de modo que não se saiba quem realizou a execução. E, quando o juiz do rei pergunta "quem matou o Governador", todos respondem: "Fuente Ovejuna, senhor". Todos e ninguém! Também hoje assoma intensamente esta pergunta: Quem é o responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs? Ninguém! Todos nós respondemos assim: não sou eu, não tenho nada a ver com isso; serão outros, eu não certamente. Mas Deus pergunta a cada um de nós: "Onde está o sangue do teu irmão que clama até Mim?"
Hoje ninguém no mundo se sente responsável por isso; perdemos o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do levita de que falava Jesus na parábola do Bom Samaritano: ao vermos o irmão quase morto na beira da estrada, talvez pensemos "coitado" e prosseguimos o nosso caminho, não é dever nosso; e isto basta para nos tranquilizarmos, para sentirmos a consciência em ordem.
A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolhas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!
Reaparece a figura do "Inominado" de Alexandre Manzoni. A globalização da indiferença torna-nos a todos "inominados", responsáveis sem nome nem rosto.
"Adão, onde estás?" e "onde está o teu irmão?" são as duas perguntas que Deus coloca no início da história da humanidade e dirige também a todos os homens do nosso tempo, incluindo nós próprios. Mas eu queria que nos puséssemos uma terceira pergunta: "Quem de nós chorou por este facto e por factos como este?"
Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por estas pessoas que vinham no barco? Pelas mães jovens que traziam os seus filhos? Por estes homens cujo desejo era conseguir qualquer coisa para sustentar as próprias famílias? Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de "padecer com": a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar!
No Evangelho, ouvimos o brado, o choro, o grande lamento: "Raquel chora os seus filhos (...), porque já não existem". Herodes semeou morte para defender o seu bem-estar, a sua própria bolha de sabão. E isto continua a repetir-se... Peçamos ao Senhor que apague também o que resta de Herodes no nosso coração; peçamos ao Senhor a graça de chorar pela nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada aos dramas como este. "Quem chorou?" Quem chorou hoje no mundo?
Senhor, nesta Liturgia, que é uma liturgia de penitência, pedimos perdão pela indiferença por tantos irmãos e irmãs; pedimo-Vos perdão, Pai, por quem se acomodou e se fechou no seu próprio bem-estar que leva à anestesia do coração; pedimo-Vos perdão por aqueles que, com as suas decisões a nível mundial, criaram situações que conduzem a estes dramas. Perdão, Senhor!
Senhor, fazei que hoje ouçamos também as tuas perguntas: "Adão, onde estás? Onde está o sangue do teu irmão?"
Que o papa que nos convida a não ter medo de renovar as estruturas da Igreja nos inspire, a cada um de nós e a todos os nossos irmãos, a assumir a responsabilidade cristã perante a dor do outro. E que nossa Igreja se inspire, assim, a assumir sua responsabilidade cristã de ir ao encontro de cada irmão LGBT que sofre, que se vê excluído e marginalizado, e abra os braços para acolhê-lo, como o Pai amoroso, no calor do seu coração.
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terça-feira, 23 de julho de 2013
O único necessário
Uma bela reflexão sobre a liturgia do último domingo.
Somos hóspedes de uma casa. Mais que hóspedes, somos já parte da família. Nossa casa é esta: este espaço físico e humano nos abrigando, esta comunidade cristã da qual fazemos parte, esta assembleia na qual vivemos uma experiência de fé. Isto é, acolhidos por Deus na pessoa de cada um de nós, aqui reunidos, sentimo-nos um corpo: corpo eclesial de Cristo. Por isso que todos aclamaram há pouco, em alto e bom tom: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”.
Nesta experiência de povo de Deus reunido, unimo-nos desde já aos milhares de jovens que nesta semana se reúnem para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Que o Espírito Santo de Deus ilumine este evento e a todos fortaleça para o testemunho da fé em Cristo. (...)
O Evangelho fala de uma visita de Jesus a Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42). A relação de Jesus com elas (e com Lázaro, o irmão delas que aparece no evangelho de João) era de muita familiaridade de amizade (cf. Jo 11,1-44; 12,1-8), o que aparece também pelo tom da conversa de Marta com Jesus hoje (Lc 10,40).
Trata-se de um Jesus que continua sua viagem rumo a Jerusalém. No início desta viagem, ele não fora acolhido num vilarejo da Samaria (Lc 9,51-56). Entretanto, no domingo passado, esse mesmo Jesus, não acolhido em Samaria, nos trouxe precisamente um samaritano como exemplo de alguém que de fato sabe acolher; que se faz “próximo” dos que precisam de ajuda (Lc 10,30-37)! Conclusão, o não acolhido – Jesus – aparece como o melhor acolhedor, pois é capaz de acolher o próprio inimigo!
Hoje vemos Jesus entrando “num povoado” (Lc 10,38), onde vive a experiência de ser acolhido. E quem o acolhe “em sua casa”? Uma mulher, de nome Marta (v. 38). Ela tem uma irmã de nome Maria que, sentada aos pés de Jesus, “escutava a sua palavra” (v. 39). Esta, numa atitude típica de discípula diante do mestre, frontalmente contrastava com sua irmã “ocupada com muitos afazeres” (v. 40).
Marta se queixa com Jesus porque sua irmã a deixa sozinha, com todo o serviço. Jesus, por sua vez, amorosamente chamando-a duas vezes pelo nome, a alerta para o fato de estar dominada pela “preocupação” e “agitação” por muitas coisas (v.41). E aproveita para lhe mostrar qual é a “única coisa necessária” (v. 42) – escutar Jesus – e qual é a atitude que convém: a de Maria (v. 39) (1). Em outras palavras, para não se deixar contaminar pela “preocupação” e “agitação” com os muitos afazeres, e para curar o decorrente estresse e mau humor pelo desmedido esforço, Marta precisava dar um passo a mais, a saber: mesmo servindo, aprender a focar-se no “único necessário”, isto é, centrar-se na serenidade do mestre em arte de acolher, ali presente, e aprender com ele. “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (v. 42): assimilar a atitude do próprio hóspede Jesus que, em suas andanças, por suas palavras e gestos, vem demonstrando o quanto Deus é mestre na arte de acolher.
A presente experiência de acolhida vivida nesta história nos traz à lembrança outra, lá do Antigo Testamento, como ouvimos na primeira leitura: a experiência de Abraão (cf. Gn 18,1-10a). Abraão acolhe generosa e despreocupadamente em sua tenda três homens em viagem. Gratuitamente e, por isso, sem se estressar, ele oferece o melhor que podia para os hóspedes. É que Abraão intuiu na pessoa daqueles desconhecidos viajantes a presença do próprio Senhor e Deus. E o resultado foi este: a atitude gratuita de Abraão mesclou-se, comungou, com a gratuidade do seu Senhor. E o que aconteceu? Deus lhe garante o que praticamente era impossível: “Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara, tu mulher, já terá um filho” (v. 10a).
Quem, então, fará a grata experiência de comunhão com a gratuidade de Deus? Esta pergunta é elaborada e respondida pelo Salmo 14, cujo refrão assim hoje cantamos: “Senhor, quem morará em vossa casa?” (v. 1a).
Toda essa imensa gratuidade de Deus que nos acolhe, foi definitivamente revelada em Cristo Jesus, pela sua encarnação, vida, sofrimento, morte, ressurreição, dom do Espírito, e contínua presença no seu corpo eclesial, a Igreja. Como ouvimos na segunda leitura, pela boca do apóstolo Paulo, Deus quis manifestar como é rico e glorioso entre as nações este mistério, a saber, a presença de Cristo em nós, a esperança da glória. Por isso, até o sofrimento por que passamos não é mais em vão. Somos plenamente acolhidos por Deus, em Cristo e no Espírito Santo.
“Um grande mal em nossa sociedade, e também na Igreja, é o ativismo, a falta de disposição para aprofundar o essencial, sob o pretexto de tarefas urgentes” (2).
Nesse sentido, Jesus é um exemplo para todos nós. Sua pessoa está prioritária e permanentemente focada no modo de ser do Pai. A partir do hábito desta escuta é que ele possui uma atitude de serena e saudável acolhida de tudo e de todos. E é a partir daí que “Jesus observa a Marta que ela anda ocupada e preocupada com muitas coisas, enquanto uma só é necessária. Essa observação não é uma recusa da hospitalidade, mas indica uma escala de valores: a melhor parte é a que Maria escolheu! O que esta faz é fundamental e indispensável: escutar. O resto (as correrias pastorais, as reuniões) é importante, mas deve ter fundamento no escutar. Jesus censura Marta não porque ela cuida da cozinha, mas porque quer tirar Maria do escutar, para fazê-la entrar no ritmo de suas próprias ocupações. Marta não conhecia a escala de valores de Jesus” (Ibid.).
Podemos perceber pela segunda leitura de hoje que foi pela identificação profunda do com Cristo que Paulo tirou a força para seu surpreendente apostolado. “Gente ocupada é o que menos falta. Mas sabemos muito bem que toda essa ocupação não gira em torno daquilo que é fundamental. Dá até pena ver certas pessoas complicarem sua vida com mil coisas de que dizem que simplificam a vida. Ao lado delas encontramos o pobre, o lavrador, o índio, vivendo uma vida simples, mas com muito mais conteúdo e, sobretudo, com um coração sensível e solidário” (Ibid.).
A exemplo do nosso mestre Jesus, “importa acolher (a Deus, a Jesus, aos outros) em primeiro lugar no coração. Só então as demais ações terão sentido. Isso vale na vida pessoal e também na vida comunitária. Comunidades que giram exclusivamente em torno de preocupações e reivindicações materiais acabam esvaziando-se, caem em brigas de personalismo e ambição. Mas comunidades que primeiro acolhem com carinho a palavra de Jesus num coração disposto saberão desenvolver os projetos certos e por a palavra de Jesus em prática. ‘Buscai primeiro o Reino de Deus...’” (Ibid.).
Que Deus nos ajude a vivermos este espírito do Evangelho trazido por Jesus. Por isso que, logo mais, uma vez alimentados pela Palavra e pela Ceia do Senhor, concluiremos com esta oração: “Ó Deus, permanecei junto ao povo que iniciastes nos sacramentos do vosso reino, para que, despojando-nos do velho homem, passemos a uma vida nova” (Oração depois da comunhão de hoje ).
Sim, que pela força desta Eucaristia, na qual o Pai nos acolheu como corpo eclesial de Cristo, possamos viver a atitude de Maria para que, empenhados como Marta mas conectados ao “único e necessário”, que é a Palavra reveladora do Pai, trabalhemos com serenidade e paz pelo bem da humanidade.
- Frei José Ariovaldo, OFM
(1) J. M. Romaguera. El evangelio en medio de la vida. Domingos y fiestas del ciclo C. Barcelona: Centre de Pastoral Litúrgica, 2006, p. 140. [Emaús maior 2]
(2) J. Konings. Liturgia dominical... Petrópolis: Vozes, 22003, p. 436 Tweet
sábado, 20 de julho de 2013
O bom travesti
E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?“
E ele lhes contou a seguinte parábola:
”Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram:
“Vá passando a carteira“.
O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.
Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o carro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas:
“Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.“ Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo...“
Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.
Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho:
“Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!“
O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!“ e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.
Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse:
“Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.“
Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.
O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.”
Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou:
“Quem foi o próximo do homem ferido?“
Rubem Alves
* * *
Atualização em 7 de maio de 2014:
Essa fábula nada tem de irreal. Tantas vezes a vida imita mesmo a arte... Veja isto aqui. Tweet
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Só a bondade é digna de fé
Eis o artigo.
A crise econômica, a incompetência dos políticos para resolver essa crise e tantas outras, a independência da Catalunha, o caso Bolinaga, os problemas da educação e da saúde, o desconforto geral sentido na Espanha, todos estes assuntos e muitos outros, que preocupa a todos nós, nos angustiam, nos irritam..., não se resolvem – nem irão se resolver - apenas por modificar o sistema político ou tentar corrigir as mil dores de cabeça que a situação econômica está nos dando.
Para ver se, de uma vez por todas, colocamos na cabeça que esta incrível confusão, de dificuldades e problemas, não é corrigida mudando normas ou retirando alguns governantes para colocar outros. É claro que essas mudanças, se é que são feitas com acerto, poderiam melhorar algumas coisas.
Porém, que fique claro, como solução de fundo, que o decisivo não é a mudança das normas ou de quem administra o cumprimento de tais normas. O que é verdadeiramente decisivo é a mudança das pessoas. Enquanto não mudarmos nossa mentalidade, nossas convicções, nossa forma de ver e valorizar a vida e, sobretudo, a atitude que cada qual adota diante dos demais, podemos ficar seguros de que isto não muda, não saímos da crise e nem encontramos solução.
Compreendo que algumas pessoas, ao ler o que estou dizendo, irão pensar que isto não passa da sabida solução da ingênua “bondade”, que não passa disso: uma ingenuidade bem intencionada, com a qual não se vai a lugar nenhum. E é verdade - e já disse isso - que precisamos de leis justas e de governantes capazes de colocá-las em prática, fazendo-as realizar-se. Isso todos nós sabemos.
Porém, o que não acabamos aceitando é que o principal problema está no coração de cada um de nós. Quando escrevo isto (no dia 13 de setembro de 2012), li e pensei por um bom tempo no texto fundamental do evangelho de Lucas (6, 27-38), que é o centro do sermão da planície, o equivalente ao sermão da montanha no evangelho de Mateus (5, 7). E confesso que senti uma profunda tristeza. Por dois motivos:
1) Quando escrevo algo sobre o Evangelho, dou-me conta de que isso apenas interessa a grande maioria dos leitores.
2) Quando publico algo relativo à Igreja, sua liturgia, suas normas, seus bispos..., os comentários são, não apenas mais abundantes, mas sobretudo (e com certa frequência) de uma acidez e, às vezes, até de má educação, que chego ao fato de que, durante muito tempo, resisti aceitar, mas que percebo que é como é: muitas pessoas se importam mais com a Igreja do que com o Evangelho.
E, portanto, interessam-se mais pelo que disse uma figura eclesiástica, do que por aquilo que disse Jesus. Isto é realmente assim? E se é, não valeria apena analisar a fundo? Tweet
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Ceia contextualizada
Do Ide por toda a Web:
Na última ceia de Jesus com seus discípulos estão a mesa todos aqueles que religiosamente falando são excluídos, a começar pelo simples fato de que todos naquela mesa não puderam seguir um rabino, pois, não passaram pelas fases de estudos conhecidas no sistema judaico da época, “Beit Sefer” primeiro, “Beit Talmud” segundo e tão pouco pelo “Beit Midrash” terceiro nível, pois, não eram intelectualmente capazes de prosseguir nos estudos da torah, sendo assim, por exemplo os pescadores na mesa com Jesus tiveram que seguir a profissão da família mesmo por não serem capazes, sem contar os cobradores de impostos que também acompanhavam Jesus na partilha do pão e do vinho, completamente mal visto e mal quistos pelos religiosos da época.
Evidente que Jesus não estava nem um pouco preocupado por seus discípulos serem excluídos pela religião, tão pouco preocupado com o antigo ditado que diz, “diga-me com quem tu andas, que te direi quem tu és”, ate mesmo por esta conduta Jesus já tinha sido também chamado de bêbado e guloso, somente porque comia na casa e participava das festas daqueles que os religiosos nem perto queriam chegar, porém, destes Jesus convivia com intimidade.
Interessante é que na pintura de Da Vinci representando a última ceia de Jesus, a mesa esta cheia de cálices, entretanto, na palestina na época de Jesus não era bem assim, neste tipo de ceia, o vinho era dividido entre todos no mesmo recipiente, o que me faz pensar em tantas coisas, porém, quero dividir apenas um pesamento:
“Será que tal como Jesus, nós estamos preparados para dividir a mesma mesa com os excluídos pela religião, e, não somente se assentar na mesma mesa, mas, dividir do mesmo copo o vinho?”
Pense em todos aqueles que pela religião são condenados e julgados, por seu comportamento, por sua sexualidade, cor, etnia, crença e se a resposta for Não, por que então não estamos preparados?!
Acredito e tenho fé de que um dos grandes ensinamentos deste momento da vida de Jesus é que não importam as nossas diferenças, pois, elas não devem nos separar mas sim em amor nos unir.
Suas instruções naquele dia foi para que quando cearmos, dividirmos a mesa, que assim seja feita em sua memória, por isso, quando penso em Jesus neste momento me vem a mente que naquela mesa ninguém foi excluído, nem aquele que minutos depois iria trai-lo, tão pouco aquele que horas depois iria nega-lo, porém, todos puderam dividir o seu corpo e o seu sangue representados naquela ceia.
E ainda ouso pensar que tal gesto realizado por Jesus, este de dividir o pão e o vinho dizendo “este é o meu corpo e o meu sangue que será entregue por todos vocês”, queira significar que o Senhor prefere ser divido ao meio para que não haja mais divisão entre nós, pois, somos todos irmãos.
Graça e Paz a todos!!! Tweet
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
A Igreja conforme Jesus
Igreja da Sagrada Família (Barcelona), Gaudí
"(...) Para Jesus, o reino de Deus não se manifestaria com demonstrações visíveis, mas invisíveis e interiores; seria um poder no olhar, no espírito, na existencialidade; seria algo somente discernível por quem tivesse nascido da água e do espírito; e que aconteceria sempre sob o signo do desprezo e das muitas batalhas.
Quanto a não permitir que qualquer impressão de supremacia da Igreja como Potestade se instalasse na mente dos Seus discípulos, Ele afirmou: 'Não será assim entre vós; antes, o maior seja o menor; o grande seja o que sirva; o poderoso seja o fraco do amor e da entrega'. E, lhes lavando os pés, disse: 'Compreendeis o que vos fiz? Eu vos dei o exemplo!'
(...) Jesus, no entanto, nos disse que a Igreja estaria aqui; e que testemunharia; e que morreria; e que não desistiria; e que não seria enganada; e que não viveria de contabilidades de poder humano; mas da força do Espírito e do olhar do Reino instalado nos corações de todos os que viram e entraram no Mistério do Indiscernível do Reino de Deus em sua atual manifestação não disponível ao mundo."
- Caio Fábio D'Araújo Filho, no blog A fé absurda, de Leonel D'Ávila - leia na íntegra aqui
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012
O povo me honra com os lábios, mas tem o coração longe de mim
Por isso, em diversas passagens O veremos apoiando ações aparentemente contrárias às práticas dos judeus. Seus discípulos colherão espigas em dia de sábado e não lavaram as mãos antes de comer. Toda essa nova postura será considerada por muitos como uma afronta às leis. Jesus, porém, irá demonstrar que a lei maior é a lei do amor e por isso dirá que o maior mandamento será amar uns aos outros e que deste, todos os demais decorrerão.
As Suas palavras “o povo me honra com os lábios, mas tem o coração longe de mim” (Mc 7, 6) refletirão a necessidade de trazer no coração aquilo que é dito pela boca, ou seja, ter uma prática coerente com a palavra que prega, viver em testemunho constante daquilo que se acredita. Este é o Seu ensinamento que ainda hoje nos deve fazer pensar sobre nossa própria coerência de vida. Estamos vivendo um cristianismo testemunhal ou apenas pregamos palavras bonitas? Somos realmente agentes de transformação da sociedade ou vivemos uma fé morna, apenas justificada pela presença nas missas de domingo? Fazemos dos ritos uma real liturgia ou apenas estamos presentes para nos fazer vistos pelos demais?
Aproximar o coração de Cristo significa viver em plenitude os seus ensinamentos e tentar fazer de nossa vida um constante testemunho de nossa fé. Ainda que isso nos leve a ser repreendidos pelos demais, como Jesus e seus discípulos o foram, ainda que nos leve ao julgamento alheiro, ainda que nos aproxime da cruz. Porque é da aproximação com Jesus em seu sofrimento, que nos aproximaremos também de sua glória.
Texto para reflexão: Mc 7, 1-23
Autor: Gilda Carvalho
Via Amai-vos Tweet
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Setembro, mês da Bíblia: discípulos e missionários a partir do Evangelho de Marcos
O livro deste Mês da Bíblia é o Evangelho mais antigo, o de Marcos. O tema: Discípulos e missionários a partir do Evangelho de Marcos seguindo Jesus. O lema: Coragem! Levanta-te! Ele te chama (Mc 10,49). Levanta-te, para assumir a missão que Deus lhe confia!
Existe uma diferença entre a Palavra de Deus escrita e a Palavra de Deus revelada, imperativo pessoal de Deus para cada um. Telechea, no seu precioso livro Inácio de Loyola, sozinho e a pé, tem um frase paradigmática: Ele (Inácio de Loyla) é um perpétuo e sensivel ouvinte da Palavra de Deus, de uma palavra interior, rubricada pela alegria e pela paz, muito mais do que pela Palavra material (exterior!) da Bíblia... Sem esta escuta interior a Palavra de Deus na Bíblia fica oca e vazia, e não se concretiza.
Quando acolhemos esta Palavra interior como Boa Nova e a concretizamos, surge logo o conflito... Mas, não tenhas medo! Desse encontro e desencontros nos topamos com o mistério da Cruz, convidando-nos sempre a pôr a nossa fé e esperança no Senhor da Vida; no Senhor e não nas coisas ou pessoas que o rodeiam...
No horizonte, pois, dos 50 anos do Concílio Vaticano II e às portas do Ano da Fé (11/OUT/2012-24/NOV/2013) aproximemo-nos confiantes da Palavra de Deus para que, como discípulos e missionários possamos sempre amar e servir.
Uma pergunta: Somos ouvintes ou apenas leitores da Palavra de Deus?
- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña sj, em seu blog Terra Boa
* * *
Oração para antes de ler a Bíblia
Jesus Mestre, que dissestes: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu aí estarei no meio deles”, ficai conosco, aqui reunidos para melhor meditar e comungar com vossa Palavra.
Sois o Mestre e a Verdade; iluminai-nos, para que melhor compreendamos as Sagradas Escrituras.
Sois o Guia e o Caminho: fazei-nos dóceis ao vosso seguimento. Sois a Vida: transformai nosso coração em terra boa, onde a Palavra de Deus produza frutos abundantes de santidade e de apostolado.
Amém.
(Oração extraída do livro ”O povo em oração”, compilação organizada por Maria Goretti Oliveira e Claudia Zem da Silva. Publicado pelas Edições Paulinas, em 1998. Via Amai-vos) Tweet
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