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terça-feira, 5 de junho de 2012

O que deixamos de fazer


"Deus elevou o ser humano e concedeu-lhe perspectivas de liberdade e amplidão, mas o ser humano fica para trás e se recusa a acolher essa perspectiva. Deus promete uma nova criação de todas as coisas em justiça e paz, mas o ser humano faz e age como se tudo permanecesse como sempre foi. Deus o faz digno de suas promessas, mas os ser humano não confia naquilo que lhe é proposto. Este é o pecado que mais profundamente ameaça o crente, não o mal que ele faz, mas o bem que deixa de fazer.”

- Jürgen Moltmann, teólogo reformado alemão
Via nosso amigo Marcio Retamero

Chore comigo


Chore comigo. Precisamos nos juntar e reverter o que disfarça os processos que conspiram contra a vida. Vivemos em um mundo alheio, frio, indiferente. Para não ficarmos cara a cara com a morte lenta do planeta, das famílias, das pessoas, criamos palavras, conceitos e lógicas; meros anteparos para nosso desdém. Quando convém somos piedosos, outras vezes, inclementes. Mas, sempre em busca de justificativas.

Chore comigo. Fazemos tudo para impedir que alardeiem, em cima dos telhados, uma verdade cruel: somos fugitivos. Fugimos, sim, de admitir a nossa indiferença. Procuramos dar um ar de intelectualidade ao nosso distanciamento. Como somos rigorosos em nossas análises, desde que não precisemos sujar colarinhos bem engomados e punhos abotoados. Discussões intermináveis camuflam nossa complacência. Raiva, muxoxo, zelo, zanga, tudo para preservar-nos nas zonas de conforto.

Chore comigo. Andam bombardeando as salas de diálogo. “Cala a boca que eu tenho a razão…”, é o que mais se ouve. Somos previsíveis em nossa intolerância; donos de uma razão vaidosa. E não conseguimos esconder os sintomas dessa tosca onipotência. Nosso monólogo é afetado, o discurso, rancoroso, e o ponto de vista, intolerante. Conversar virou um exercício penoso. Odiamos sem conhecer, desmerecemos sem ouvir. Cortamos, machucamos. E mal notamos a volta do bumerangue. Quantas feridas! Um mundo onde se retribui ódio com ódio, desprezo com desprezo, frieza com frieza, merece ser chamado de inferno.

Chore comigo. Até esgotarmos nosso paiol de autodefesa, nunca experimentaremos uma nesga de liberdade. Enquanto projetarmos no outro o motivo de nossa pequenez, precisaremos nos especializar em diminuir os demais. Icemos bandeiras brancas antes que se torne necessário contemplá-las a meio pau.

Chore comigo. Acolhamos amorosamente a falibilidade humana. Sejamos compreensivos com nossas inadequações. Lembremo-nos: cada um foi criado do pó. Baixemos a guarda. Deponhamos os escudos. Algumas de nossas feridas ainda não cicatrizaram. Celebremos as dores comuns de mãos dadas.

Chore comigo. Gritemos chega. Já não resta tempo para semear desesperança. Se não podemos conviver no mesmo espaço, cedamos. Quem dará um passo para trás? O outro merece respirar. Que nosso discurso se manifeste pelo entendimento que limpezas étnicas, propostas eugênicas e ambições totalitárias só produziram carnificinas. Assim como a humanidade acabou com a paralisia infantil, vamos acabar com valas comuns, salas de torturas, movimentos persecutórios. Homossexuais, ciganos, deficientes físicos, negros, pobres ou quaisquer outras minorias (pobres, minorias?) merecem viver com a mesma dignidade que todos.

Chore comigo. Parir outro mundo nunca será indolor. Não tenhamos nosso conforto por precioso. Encarnar a regra de ouro custa caro: “Faça com o outro o que você gostaria que fizessem com você”. Caminhar uma segunda milha ao lado de gente que discordamos requer grandeza. Querer salvar a vida do proscrito antes da sua exige verdadeiro amor. Transformar o substantivo abstrato amor no verbo transitivo amar diviniza.

“Bem aventurados os que choram, pois serão consolados” Mateus 5.4.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim, via PavaBlog

domingo, 3 de junho de 2012

A Trindade Santa


Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. Fazer discípulos não é recrutar mão de obra ou procurar aderentes. Antes de qualquer coisa, trata-se de ir. O único mandamento é amar!

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do Domingo de Pentecostes (3 de junho de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Dt 4,32-34.39-40
2ª leitura: ROM 8,14-17
Evangelho: MT 28,16-20

Cada ano, após Pentecostes, desde o século XIV, nós celebramos a festa da Trindade Santa: a festa de Deus, o Deus único e trino, o Deus em pessoas. Eu lia o comentário de Gérard Sindt na revista Signes d’aujourd’hui, que dizia: “O nosso Deus é um Deus pessoal. Em Cristo, nós descobrimos Deus em pessoas (no plural), que nos ensina a nossa personalidade relacional” e – eu acrescentaria – comunional. De fato, Deus é relação e comunhão com a sua criação, conosco. E por que isso? Simplesmente porque Deus é Amor. No Ângelus do dia 22 de maio de 2005, o Papa Bento XVI convidava as pessoas a reconhecer que Deus é único, que ele é Pai, Filho e Espírito Santo, que ele não é solidão, mas comunhão perfeita, pois Deus é Amor. Eis aí a grande revelação que Cristo nos trouxe: o Ser de Deus é o Amor em estado puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão. Na história, Deus não cessou de se revelar e ele continua a fazê-lo hoje, pois se é Deus ele não pode ser e não pode existir mais que como Fonte de Amor, o amor criado que dá a vida, que se multiplica, que se expande e nos faz descobrir sempre mais Deus.

Para falar em Deus, precisamos defini-lo como relação, dom, partilha, comunicação, intercâmbio, comunhão. A única maneira de alcançar a totalidade é necessariamente três pessoas em Deus, porque o Amor tem isto de particular: é preciso que exista um terceiro: “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12). O Amor não volta àquele que ama; se dá a outro, daí seu crescimento e a sua fecundidade. Também, o Amor não se fusiona; ele estabelece uma relação interpessoal. É o que faz dizer ao padre francês Léon Paillot: “Deus, nosso Deus é essencialmente relação, intercâmbio. Mas é preciso uma terceira pessoa para que todos os Eu se tornem um Nós”.

Não podemos falar de um Deus Pai sem que haja uma relação de amor com um dos filhos gerados por ele. E se não houvesse nada além do que o Pai e o Filho, poderíamos pensar que eles se bastariam a se próprios: o Pai dá a vida e o Filho a recebe... Porém, isso faria um Deus limitado, centrado em si próprio. E, portanto, diz o teólogo Gérard Sindt: “Deus, na Bíblia, tende ao descentramento de si próprio, e é o Espírito que é o operador. Ele é a fecundidade operacional de Deus, a sua feminidade e a sua maternidade. A feminidade, ela própria, é experiência de Deus”. E Gérard Sindt acrescenta: “Quando se fala de pessoas em Deus, é sempre o Espírito que é mais difícil de atingir. Ele representa aqui a terceira pessoa, isto é, nós”. Nós estamos envolvidos, portanto, do mistério de Deus, da Trindade. Também, para que haja comunhão, é preciso três pessoas; se não houvesse mais do que duas, seria simplesmente uma relação. Assim, o Espírito assegura a fecundidade do Amor do Pai ao seu Filho que partilha conosco.

Mas o que nos dizem as três leituras de hoje sobre Deus?

1. Deuteronômio 4,32-40: Estamos no Antigo Testamento, a Antiga Aliança, e o autor do Deuteronômio se maravilha diante deste Deus diferente dos outros deuses; não é uma força escura ou impessoal como os outros deuses: Deus está, juntamente, longe e perto: “Javé é o único Deus, tanto no alto do céu, como aqui em baixo, na terra” (Dt 4,39). Ele fala ao homem (Dt 4,33) e ele se escolheu um povo (Dt 4,34). Essas duas coisas fazem parte da sua singularidade. Poderíamos ter pensado que Deus é incomunicável, que o mundo dos homens e o mundo de Deus não se encontram nunca, que eles não falam a mesma língua... Mas não! É tudo o contrário: com Deus existe uma comunicação possível, uma proximidade admirável, e não morremos! (Dt 4,33). Deus liberou seu povo da escravidão (Dt 4,34), e ele quer a felicidade dos seres humanos que ele escolheu (Dt 4,40).

Esse antigo texto do Deuteronômio não conhecia certamente o Deus Trino tal como o conhecemos hoje e que foi definido pela Igreja do século IV. Mas já podemos entrever sinais da Trindade, nos versículos 35-38, que o lecionário infelizmente cortou na liturgia deste domingo: fala-se da Palavra, do Verbo (segunda pessoa da Trindade), e do Fogo, do Espírito (terceira pessoa da Trindade). É uma antecipação do Deus relação e comunhão, tal como hoje é confessado.

2. Romanos 8,14-17: Na sua carta aos Romanos, São Paulo nomeia as três pessoas em Deus, sem mesmo conhecer o conceito da Trindade. Além do mais, ele nos integra na família trinitária: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rom 8,14). É o Espírito que segura o vínculo entre Deus e nós; ele nos tira dos nossos medos e das nossas escravidões, e nos faz reconhecer Deus como Pai (Rom 8,15). Além disso, diz São Paulo, nós somos como Cristo: “E se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, herdeiros junto com Cristo” (Rom 8,17). E São Paulo acrescenta: “uma vez que, tendo participado dos seus sofrimentos, também participaremos da sua glória” (Rom 8,17). Mas atenção para não cair na teologia do martírio como necessidade de salvação! O que São Paulo quer dizer é que nas nossas experiências humanas de libertação e de sofrimento, nós somos como Cristo; assemelhamo-nos a ele. Assim como ele, nós também devemos assumir a nossa condição humana até o fim, isto é, até a morte, para ressuscitar como Cristo.

É evidente que no momento em que São Paulo escreve a sua carta, a perseguição cristã fazia parte do programa. Mas, hoje, como não é mais o caso, nós não devemos inventar silícios, como parecem propô-lo algumas correntes conservadoras cristãs. Nós não devemos levar mais do que os silícios que a vida nos impõe: os nossos limites humanos, as nossas capacidades, a doença, o sofrimento e a morte. A Sexta-Feira Santa precede sempre o Domingo de Páscoa. Foi o caso de Jesus de Nazaré e será o caso para nós também.

3. Mateus 28,16-20: Em nenhum lugar da Bíblia nós encontramos uma fórmula trinitária tão explícita e elaborada como no final do Evangelho de Mateus, onde assistimos ao envio missionário dos apóstolos, na noite da Páscoa: “Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Segundo os exegetas, essa fórmula se constituiu na liturgia do batismo, no final do século I. Isso não quer dizer que o evangelista Mateus conhecia o Deus Trino como o conhecemos hoje; ele utiliza simplesmente o nome de Deus, revelado na história, como um Pai, por Jesus Cristo seu Filho, no Espírito de Cristo que nos habita. Devemos salientar que para Mateus o batismo não está reservado a um povo em particular; ele é universal: “todos os povos” (Mt 28,19).

A missão consiste, então, em batizar, em fazer discípulos. Não aderindo a uma doutrina, mas sim entrando numa comunidade de fé que se enraíza em Deus, pelo Espírito Santo que nos habita. É evidente que a pessoa que ensina é importante, mas ele diz respeito aos mandamentos que Cristo nos deu: “ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês” (Mt 28,20)... Porém, de fato, estes mandamentos se resumem num só: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12). O nosso Amor deve ser fecundo, voltado aos outros, para que ele produza frutos, e que ele revele outros rostos do Deus Amor, outras pessoas em Deus, pelo Espírito Santo. Apesar das dúvidas que surgissem e que persistissem sobre Deus, da parte desses próximos (Mt 28,17), Cristo nos confirma a sua presença, pois ele mora em nós pelo seu Espírito: “ensinando-os a observar tudo o que ordenei avocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Concluindo, eu gostaria simplesmente de propor a vocês esta bela reflexão do exegeta francês Jean Debruynne sobre o evangelho desse domingo: “Trata-se de fazer discípulos e fazer discípulos não é recrutar mão de obra ou procurar aderentes. Antes de qualquer coisa, trata-se de ir. Ir é partir, é sair. É ser livre. Ir é o contrário de estar fechado na verdade, e prisioneiro dos seus princípios. Ir é caminhar para a frente, e não de ré. Ir é um sinal de confiança. Vá! É uma decisão. Trata-se de aprender a guardar os mandamentos e não guardá-los na geladeira. O único mandamento é amar!”.

sábado, 2 de junho de 2012

Deus não pertence a uma religião


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 28, 16-20 que corresponde ao Domingo da Santíssima Trindade, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


No núcleo da fé cristã num Deus trinitário há uma afirmação essencial. Deus não é um ser tenebroso e impenetrável, encerrado egoisticamente em si mesmo. Deus é Amor e só Amor. Nós cristãos acreditamos que no mistério último da realidade, dando sentido e consistência a tudo, não há senão Amor.

Jesus não escreveu nenhum tratado acerca de Deus. Em nenhum momento o encontramos expondo aos camponeses da Galileia alguma doutrina sobre Ele. Para Jesus, Deus não é um conceito, uma bela teoria, uma definição sublime. Deus é o melhor Amigo do ser humano.

Os investigadores não duvidam de um dado que recolhem dos evangelhos. As pessoas que escutavam Jesus a falar de Deus e o viam atuar em seu nome experimentavam Deus como uma Boa Nova. O que Jesus diz de Deus soa-lhes a algo de novo e bom. A experiência que comunica e contagia parece-lhes a melhor notícia que podem escutar de Deus. Por quê?

Talvez o primeiro que captam é que Deus é de todos, não só dos que se sentem dignos para apresentar-se ante Ele no templo. Deus não está preso a um lugar sagrado. Não pertence a uma religião. Não é uma propriedade dos piedosos que peregrinam a Jerusalém. Segundo Jesus, ele “faz sair o seu sol sobre bons e maus”. Deus não exclui nem discrimina ninguém. Jesus convida todos a confiar Nele: “Quando oreis dizei: Pai!”

Com Jesus eles vão descobrindo que Deus não é só dos que se aproximam dele carregados de méritos. Antes deles, escuta a quem lhe pede compaixão porque se sentem pecadores sem remédio. Segundo Jesus, Deus anda sempre procurando aqueles que vivem perdidos. Por isso se sente tão amigo de pecadores. Por isso lhes diz que Ele “veio procurar e salvar o que estava perdido”.

Também se dão conta de que Deus não é só dos sábios e entendidos. Jesus agradece ao Pai porque gosta de revelar aos pequenos coisas que estão ocultas aos ilustrados. Deus tem menos problemas para entender-se com o povo simples do que com os doutos que acreditam saber tudo.

Sem dúvida, a vida de Jesus foi dedicada em nome de Deus a aliviar o sofrimento dos doentes, libertar os possuídos por espíritos malignos, resgatar leprosos da marginalização, oferecer o perdão a pecadores e prostitutas..., o que os convenceu que Jesus experimentava Deus como o melhor Amigo do ser humano, que só procura o nosso bem e apenas se opõe aos que nos fazem mal. Os seguidores de Jesus nunca puseram em dúvida que o Deus encarnado e revelado em Jesus é Amor e só Amor para todos.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

''O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor''

Foto: Pink Sword

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças.

Publicamos aqui a Audiência Geral do Papa Bento XVI, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 23-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


Queridos irmãos e irmãs,

Quarta-feira passada, eu mostrei como São Paulo diz que o Espírito Santo é o grande mestre da oração e nos ensina a nos voltarmos novamente para Deus com os termos afetuosos dos filhos, chamando-o de "Abba, Pai". Assim fez Jesus. Mesmo no momento mais dramático da sua vida terrena, Ele nunca perdeu a confiança no Pai e sempre o invocou com a intimidade do Filho amado. No Getsêmani, quando sente a angústia da morte, a sua oração é: "Abba! Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice! Mas não o que eu quero, mas sim o que tu queres" (Mc 14, 36).

Desde os primeiros passos do seu caminho, a Igreja acolheu essa invocação e a assumiu como própria, sobretudo na oração do Pai Nosso, em que dizemos cotidianamente: "Pai ... seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6, 9-10). Nas Cartas de São Paulo, encontramo-la duas vezes. O Apóstolo, ouvimo-lo agora, se dirige aos gálatas com estas palavras: "A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abba, Pai!" (Gl 4, 6). E no centro daquele canta ao Espírito que é o capítulo oitavo da Carta aos Romanos, São Paulo afirma: "E vocês não receberam um Espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abba! Pai!" (Rm 8, 15).

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças; uma relação filial análoga à de Jesus, embora a origem e a espessura sejam diferentes: Jesus é o Filho eterno de Deus que se fez carne, nós, ao contrário, nos tornamos filhos n'Ele, no tempo, mediante a fé e os Sacramentos do Batismo e da Crisma. Graças a esses dois sacramentos somos imersos no Mistério pascal de Cristo. O Espírito Santo é o dom precioso e necessário que nos torna filhos de Deus, que realiza aquela adoção filial a qual são chamados todos os seres humanos para que, como precisa a bênção divina da Carta aos Efésios, Deus, em Cristo, "nos escolheu antes de criar o mundo para que sejamos santos e sem defeito diante dele, no amor" (Ef 1,4).

Talvez, o ser humano de hoje não percebe a beleza, a grandeza e a consolação profunda contidas na palavra "pai" com que podemos nos dirigir a Deus na oração, porque a figura paterna muitas vezes hoje não é suficientemente presente, embora muitas vezes não seja suficientemente positiva na vida cotidiana. A ausência do pai, o problema de um pai não presente na vida da criança é um grande problema do nosso tempo, por isso se torna difícil entender na sua profundidade o que quer dizer que Deus é Pai para nós.

De Jesus mesmo, da sua relação filial com Deus, podemos aprender o que significa propriamente "pai", qual é a verdadeira natureza do Pai que está nos céus. Críticos da religião disseram que falar do "Pai", de Deus, seria uma projeção dos nossos pais no céu. Mas o oposto é verdadeiro: no Evangelho, Cristo nos mostra quem é pai e como é um verdadeiro pai, de modo que possamos intuir a verdadeira paternidade, aprender também a verdadeira paternidade. Pensemos na palavra de Jesus no Sermão da Montanha, onde diz: "Amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu" (Mt 5, 44-45).

É justamente o amor de Jesus, o Filho unigênito – que chega ao dom de Si mesmo na cruz – que nos revela a verdadeira natureza do Pai: Ele é o Amor, e nós também, na nossa oração de filhos, entramos nesse circuito de amor, amor de Deus que purifica os nossos desejos, as nossas atitudes marcadas pelo fechamento, pela autossuficiência, pelo egoísmo típicos do homem velho.

Gostaria de me deter um momento sobre a paternidade de Deus, para que possamos nos deixar aquecer o coração por essa profunda realidade que Jesus nos fez conhecer plenamente e para que a nossa oração seja por ela nutrida. Portanto, podemos dizer que, em Deus, o ser Pai tem duas dimensões. Acima de tudo, Deus é nosso Pai, porque é o nosso Criador. Cada um de nós, cada homem e cada mulher, é um milagre de Deus, é querido por Ele e é conhecido pessoalmente por Ele.

No Livro do Gênesis, quando se diz que o ser humano é criado à imagem de Deus (cf. 1, 27), quer-se expressar justamente essa realidade: Deus é o nosso Pai, por Ele não somos seres anônimos, impessoais, mas temos um nome. E uma palavra nos Salmos sempre me toca quando eu a rezo: "Tuas mãos me plasmaram", diz o salmista (Sl 119,73). Cada um de nós pode dizer, nessa bela imagem, a relação pessoal com Deus: "Tuas mãos me plasmaram. Tu me pensaste e criaste e desejaste".

Mas isso ainda não basta. O Espírito de Cristo nos abre a uma segunda dimensão da paternidade de Deus, além da criação, porque Jesus é o "Filho" em sentido amplo, "da mesma substância do Pai", como professamos no Credo. Tornando-se um ser humano como nós, com a Encarnação, a Morte e a Ressurreição, Jesus, por sua vez, nos acolhe na sua humanidade e no seu próprio Filho, para que possamos entrar no seu específico pertencimento a Deus.

Certamente, o nosso ser filhos de Deus não tem a plenitude de Jesus: devemos nos torná-lo cada vez mais, ao longo do caminho de toda a nossa existência cristã, crescendo no seguimento de Cristo, na comunhão com Ele para entrar cada vez mais intimamente na relação de amor com Deus Pai, que sustenta a nossa vida. É essa realidade fundamental que nos é descerrada quando nos abrimos ao Espírito Santo, e Ele nos faz voltar novamente a Deus dizendo-lhe: "Abbá!", Pai! Realmente entramos além da criação na adoção com Jesus; unidos estamos realmente em Deus e filhos de um modo novo, em uma dimensão nova.

Mas gostaria agora de voltar aos dois trechos de São Paulo que estamos considerando acerca dessa ação do Espírito Santo na nossa oração. Aqui também são duas passagens que se correspondem, mas contêm uma tonalidade diferente. Na Carta aos Gálatas, de fato, o Apóstolo afirma que o Espírito grita em nós "Abba! Pai!". Na Carta aos Romanos, ele diz que somos nós que gritamos: "Abbá! Pai". E São Paulo quer nos fazer compreender que a oração cristã nunca é, nunca ocorre apenas em sentido único de nós a Deus, não é só um "agir nosso", mas é também expressão de uma relação recíproca em que Deus age por primeiro: é o Espírito Santo que grita em nós, e nós podemos gritar porque o impulso vem do Espírito Santo. Nós não poderíamos rezar se não estivesse inscrito nas profundezas do nosso coração o desejo de Deus, o ser filhos de Deus.

Desde que existe, o “homo sapiens” sempre está em busca de Deus, tenta falar com Deus, porque Deus inscreveu a si mesmo nos nossos corações. Portanto, a primeira iniciativa vem de Deus, e, com o Batismo, Deus de novo age em nós, o Espírito Santo age em nós; é o primeiro iniciador da oração, para que possamos depois realmente falar com Deus e dizer "Abba". Portanto, a Sua presença abre a nossa oração e a nossa vida, abre aos horizontes da Trindade e da Igreja.

Além disso, compreendemos – este é o segundo ponto – que a oração do Espírito de Cristo em nós e a nossa n'Ele não é só um ato individual, mas também um ato de toda a Igreja. No rezar, abre-se o nosso coração, entramos em comunhão não só com Deus, mas precisamente com todos os filhos de Deus, porque somos uma coisa só. Quando nos dirigimos ao Pai na nossa sala interior, no silêncio e no recolhimento, jamais estamos sozinhos. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, fazemos parte de uma grande sinfonia que a comunidade cristã espalhada em toda a parte da terra e em todo tempo eleva a Deus.

Certamente, os músicos e os instrumentos são diferentes – e esse é um elemento de riqueza –, mas a melodia de louvor é única e em harmonia. Todas as vezes, então, que gritamos e dizemos: "Abba! Pai!" é a Igreja, toda a comunhão dos seres humanos em oração que sustenta a nossa invocação e a nossa invocação é invocação da Igreja. Isso se reflete também na riqueza dos carismas, dos ministérios, das tarefas, que desenvolvemos na comunidade.

São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: "Existem diversos carismas, mas um só é o Espírito; há diversos ministérios, mas um só é o Senhor; há diversas atividades, mas um só é Deus que realiza tudo em todos" (1Cor 12, 4-6). A oração guiada pelo Espírito Santo que nos faz dizer "Abbá! Pai!" com Cristo e em Cristo nos insere no único grande mosaico da família de Deus, em que cada um tem um lugar e um papel importante, em profunda união com o todo.

Uma última anotação: aprendemos a gritar! "Abba!, Pai" também com Maria, a Mãe do Filho de Deus. O cumprimento da plenitude do tempo, do qual fala São Paulo na Carta aos Gálatas (cf. 4, 4), acontece no momento do "sim" de Maria, da sua adesão plena à vontade de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38).

Queridos irmãos e irmãs, aprendamos a apreciar na nossa oração a beleza de sermos amigos, ou, melhor, filhos de Deus, de podê-lo invocar com a confidência e a confiança que um filho tem pelos pais que o amam. Abramos a nossa oração à ação do Espírito Santo para que em nós ele grite a Deus "Abba! Pai" e para que a nossa oração mude, se converta constantemente o nosso pensar, o nosso agir para torná-lo cada vez mais conforme ao do Filho Unigênito, Jesus Cristo. Obrigado.

sábado, 26 de maio de 2012

Vem Espírito Santo e ensina-nos a viver


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20, 19-23 que corresponde ao Domingo de Pentecostes, ciclo B do Ano Litúrgico.

O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Pouco a pouco aprendemos a viver sem interioridade. Já não precisamos estar em contato com aquilo que há de melhor em nosso coração. É suficiente para vivermos distraídos nas nossas ocupações. Contentamo-nos com funcionar sem alma e nos alimentarmos somente de pão. Não gostamos de nos expor na busca da verdade. Vem Espírito e liberta-nos do vazio interior.

Já não sabemos viver sem raízes e sem metas. É suficiente nos deixarmos programar externamente. Movemo-nos e agitamo-nos sem cessar, mas não sabemos o que desejamos e para onde vamos. Estamos cada vez melhor informados, mas sentimo-nos mais perdidos que nunca. Vem Espírito e liberta-nos da desorientação.

Quase não nos interessam as grandes questões da existência. Não nos preocupa ficarmos sem luz para enfrentarmos à vida. Transformamos-nos em pessoas céticas e ao mesmo tempo mais frágeis e inseguras. Queremos ser inteligentes e lúcidos. Por que não encontramos sossego e paz? Por que a tristeza nos visita tão seguidamente? Vem Espírito Santo e liberta-nos da escuridão interior.

Queremos viver mais, viver melhor, viver sem tempo. Mas viver o quê? Queremos nos sentir bem; buscamos nos sentir melhor. Mas para que? Procuramos desfrutar intensamente da vida, tirar proveito ao máximo, mas nos contentamos somente com passar bem. Realizamos aquilo que gostamos. Apenas há algumas proibições ou terrenos vetados. Por que desejamos alguma coisa diferente? Vem Espírito Santo e ensina-nos a viver.

Queremos ser livres e independentes e nos encontramos cada vez mais a sós. Necessitamos viver em grupo, mas às vezes nos fechamos no nosso pequeno mundo. Necessitamos nos sentir queridos e não sabemos criar contatos vivos e amistosos. O sexo é nomeado “amor” e o prazer “felicidade”. Mas quem saciará nossa sede? Vem Espírito Santo e ensina-nos a amar.

Na nossa vida já não há espaço para Deus. Sua presença ficou reprimida ou atrofiada dentro de nós mesmos. Cheios de ruídos interiores, já não conseguimos escutar sua voz. Dedicados a milhares de desejos e sensações, não conseguimos perceber sua proximidade. Sabemos dialogar com todo o mundo, menos com ele. Temos aprendido a viver de costas ao Mistério. Vem Espírito Santo e ensina-nos a acreditar.

Sejamos crentes ou não crentes, pouco a pouco vamos virando poucos crentes e maus crentes e assim peregrinamos muitas vezes pela vida. Na festa cristã do Espírito Santo Jesus disse para todos nós aquilo que um dia falou para seus discípulos exalando seu espírito sobre eles: “Recebam o Espírito Santo”. Esse Espírito que sustenta nossas pobres vidas e anima nossa débil fé pode entrar em nós por caminhos que somente ele conhece.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A polarização não interessa a ninguém

Da esquerda para a direita: Steve e Maria Newnum, Luiz Modesto, Luiz Silva, 
Pr. Célio Camargo, Arnaldo Adnet, D. Anuar Batisti e Pe. Rildo. 
Foto enviada pelo Pr. Célio, via Facebook

Conforme havíamos comentado aqui, após a repercussão deste texto do blog um dos fundadores do Diversidade Católica viajou a Maringá, a convite dos organizadores da Parada LGBT local, para participar dos eventos previstos na programação da semana, entre eles um encontro entre representantes de grupos religiosos da região e do movimento LGBT. Foi um momento de encontro entre pessoas que se abriram para a troca e o diálogo franco e honesto, que já começou a gerar frutos - alguns bem notórios, como este; outros, talvez mais importantes, menos visíveis. Haverá outros, haverá muitos (como o evento que realizaremos no próximo dia 03/06 no Rio de Janeiro - mais informações aqui). É por isso que trabalhamos.


Nosso querido Arnaldo conta como foi o encontro. 

Na sala de reuniões da Arquidiocese de Maringá, Paraná, dia 18 de maio, às 17h, o arcebispo Dom Anuar Battisti recebeu o organizador da Parada LGBT de Maringá e representantes religiosos ligados ao movimento gay [conforme contamos aqui].

Ao lado do Arcebispo, seu secretário e um padre, Rildo.

Entre os religiosos estávamos eu, Arnaldo Adnet - representando o movimento Diversidade Católica - do Rio de Janeiro, um pastor luterano de Maringá e sua esposa, também teóloga, que ressaltaram estar ali em seus nomes pessoais e não representarem a Igreja; além do Pr. Célio Camargo, da Igreja da Comunidade Metropolitana de Maringá, com seu companheiro.

Luiz Modesto, o organizador da Parada, abriu a reunião lembrando o primeiro encontro entre ele o o Bispo, a respeito do que teria sido uma provocação dos gays contra a Igreja de Maringá, ao usarem uma imagem estilizada da Catedral no cartaz da Parada LGBT que aconteceu dia 20 [história que contamos aqui]. No primeiro encontro, Luiz desculpou-se e negou qualquer intenção de ofensa ou provocação, mas aproveitou a ocasião para apresentar ao Bispo os números referentes às vitimas da homofobia nas cidades de sua Arquidiocese. Dom Anuar mostrou-se sensibilizado e acolheu a proposta de desenvolver um trabalho pastoral no sentido de frear a violência. Foi quando decidiram convidar religiosos que já trabalhassem a questão da diversidade sexual para um encontro.

O Pastor Célio, da ICM, contou como transformou sua casa de madeira em uma igreja que abriga jovens expulsos de suas famílias, entre eles travestis, soropositivos, que não freqüentavam escola nem vislumbravam qualquer possibilidade de inserção social. Falou-nos dos rapazes que já deixaram sua casa com um emprego e educação em curso. Mas disse também que alguns pais acreditam que ele influencie seus filhos, induzindo-os à homossexualidade, e ameaçam processá-lo. Alguns dos presentes se surpreenderam quando o pastor Célio contou que rezavam para Nossa Senhora, e que muitos dos membros de sua comunidade eram de formação católica.

Todos quiseram saber quem eram os membros do Diversidade Católica e como eram nossas relações com a Igreja. Contei-lhes um pouco da minha história, de nascido família católica com um tio frei e 2 tias freiras. Contei como havia recebido educação religiosa, passando por colégio religioso, que fiz Primeira Comunhão; fui líder de grupo jovem e catequista, fui coordenador da Pastoral da Juventude, que recebi o Papa, na visita de 1980, até decidir deixar de evitar minha vocação homoafetiva e fazer a escolha que parecia inevitável: seguir fiel aos valores e princípios segundo os quais havia sido educado e que mais tarde abraçara por escolha própria, ou ser fiel a mim mesmo, aos meus sentimentos e desejos, ainda que para tal tivesse que abrir mão daqueles valores. Disse que foi preciso um longo, duro e tortuoso caminho para chegar até este momento.

Perguntado sobre nossa relação com o Magistério da Igreja Católica, contei-lhes que contamos com a orientação espiritual de um sacerdote e que individualmente estávamos cada um inserido em suas próprias paróquias. As relações variam caso a caso; entre nós há desde um Ministro da Eucaristia - investido pelo pároco, que o conhece e sabe de sua orientação sexual e sua inserção no DC - até o jovem que foi destituído de suas funções de coordenador da Crisma e da Pastoral da Juventude após ter aberto em confissão ao pároco sua orientação sexual. Mas esse mesmo jovem, na Jornada Mundial da Juventude em Madrid, interpelou o Arcebispo do Rio de Janeiro sobre a relação da Igreja com os gays, e Dom Orani respondeu que a Igreja precisava voltar novo olhar para esta questão [como o próprio rapaz relatou aqui]. Lembrei que o pároco da minha Igreja – a Paróquia da Ressurreição – me convidara a falar para toda a comunidade sobre homossexualidade e fé católica. Contei também que canto no Coral da Igreja e que frequento a missa com minha mãe e meu companheiro. Disse que, assim como estes padres, vários outros podem até não se pronunciar publicamente sobre a questão, mas não hesitam em abrir os braços para receber-nos sem julgamento, no puro exercício do amor cristão.

Disse também que posso até sonhar com a aprovação do clero às uniões homoafetivas, mas que não alimento ilusões de imediato e que não é isso o que me preocupa. O que não é aceitável são os crimes de ódio aos gays, crimes que vão muito além das estatísticas oficiais de assassinatos e agressões cruéis, mas que começam nas casas de famílias ditas religiosas. Ainda mais inaceitável é o fato de que muitos desses crimes sejam praticados com argumentos religiosos. Todos se lembraram então de casos diversos de ataques covardes de agressores de rua ou de abandonos, não menos covardes, por parte de pais envergonhados de seus filhos travestis, transexuais, transgêneros, lésbicas e gays.

Falamos também dos pais que transformaram vergonha em orgulho e até em razão de viver - alguns deles após atos de violência que levaram seus filhos a agressões e até à morte.

Sensibilizado neste momento, Dom Anuar contou que no sábado viajaria justamente para uma reunião de bispos sobre violência contra jovens e adolescentes, em Foz do Iguaçu. Pediu-nos um documento com dados oficiais sobre vitimas da homofobia em seu Estado e disse que estaria tudo sob o mesmo guarda-chuva.

Agradecemos sua disponibilidade, mas ressaltamos que não se tratava da mesma coisa. Que era preciso dar nome aos bois. Lembramos de como Oscar Wilde chamava o amor entre iguais de “o amor que não ousa dizer seu nome”, e de como os gays viveram séculos à sombra da História, sujeitos ocultos ou inexistentes aos olhos gerais. Choveram exemplos e razões para que esta violência específica fosse nomeada e citada explicitamente.

Falei de como recusamos a oposição entre gays e Igreja e quão pouco interessante esta polarização é para ambas as partes. Lembrei de como a imprensa já antecipa a tradicional polêmica confrontando opiniões de lado a lado - como no episódio da aprovação da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo STF. Na ocasião, a cada manifestação favorável, os jornalistas procuravam representantes da posição contrária na CNBB [e, no entanto, como mostramos aqui, não foram poucas as vozes a favor, mas que não chegaram ao grande público]. Como se a garantia de legítimos direitos civis sem qualquer conotação religiosa pudesse abalar valores cristãos [como discutimos aqui]. Falamos muito sobre a armadilha implícita neste tradicional antagonismo: aos gays é vetada associação a uma vida espiritual e à Igreja é imputado o lugar de fonte geradora de toda a homofobia.

O pastor luterano Robert Stephen e sua esposa, Maria Newnum, expressaram a emoção de todos diante do relato do Pastor Célio e propuseram um pacto de solidariedade, ao exemplo de cristianismo verdadeiro, comparando os abrigados da ICMos excluídos de nossos dias – aos samaritanos, leprosos e os excluídos do tempo de Jesus, que Ele insistia em amar. O Bispo recomendou os serviços da Casa de Emaús, que o Pastor Célio disse ser exatamente onde eles obtinham medicamentos e cestas básicas.

O Padre Rildo, então, pediu a Dom Anuar que desse permissão para que ele fosse visitar a casa. Passado algum tempo de reflexão e após outras intervenções, o Bispo autorizou-o a visitar a ICM.

Esclarecemos a dúvida do Bispo sobre a lei que garante aos trans o uso de nome condizente a seu gênero, como forma de evitar evasão escolar e de tratamentos de saúde. Entreguei ao Bispo uma cópia que havia levado do artigo "Homossexualidade e Evangelização" [que estamos publicando aqui no blog, em partes, às quintas-feiras - e você pode acessar pela tag "homossexualidade e evangelização", aqui]. O padre Rildo fez questão de fazer uma cópia, na hora.

Ao final da reunião o Bispo convocou-nos a formular em conjunto um release único sobre o encontro. Ele mesmo sugeriu que falássemos da necessidade de abalar a tal polarização Igreja vs. gays. Nem os gays devem ser privados de sua vocação espiritual, nem a Igreja deve ser confundida como foco de ódio aos gays ou como fornecedora de munição ou justificativa para ataques homofóbicos. Comprometemo-nos todos a trabalhar pelo enfraquecimento deste antagonismo.

- Arnaldo Adnet

Nota da equipe do blog:
No dia seguinte ao encontro relatado acima pelo Arnaldo, D. Anuar deu à Rádio CBN de Maringá uma entrevista em que defendeu uma mudança de postura da Igreja em relação aos homoafetivos. Se você ainda não ouviu, vale ouvir aqui.

* * *

Todos, cristãos e não-cristãos, gays e não gays, estão convidados para o evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays cristãos na Igreja Católica", que realizaremos no dia 3/6, na UNIRIO. Vamos debater e refletir sobre as possibilidades de conciliação, encontro e diálogo entre fé cristã e diversidade sexual - e mostrar que há mais pontos de convergência do que estamos habituados a perceber.

Estamos esperando vocês!

Mais informações aqui

quinta-feira, 24 de maio de 2012

À mesa do rei


Era uma vez um rei leal.

Quando seu amigo morreu, ele jurou que cuidaria dos seus filhos.

Ele não era rei ainda quando fez a promessa mas, coroado, não a esqueceu.

Um dia saiu procurando pelo reino um descendente do seu amigo.

Encontrou um ex-empregado da família do amigo que sabia.

Ziba, o ex-empregado, lhe disse que numa cidade obscura (Lo-Debar), havia um aleijado dos pés que era filho do seu amigo Jônatas. Ele vivia de favor na casa de um certo Maquir.

O rei (Davi) mandou chamar o herdeiro: Mefibosete, que estranhou que o poderoso rei se importasse com um cão morto como ele.

Davi lhe devolveu todas as propriedades, suas por terem sido de seu avô e de seu pai.

Além disso, chamou-o para morar no palácio.

E Mefibosete foi feliz para sempre.

Desta história, real, aprendemos várias lições:

1. Quando nos posicionamos como vítimas, temos medo que gestos generosos de outras possam nos alcançar. Afinal, não somos como cães mortos?

2. Quando nos posicionamos como vítimas, fazemos com que os outros nos vejam como coitadinhos, não como pessoas dignas, e perpetuam nossa miséria. Não podemos ser conhecidos por nossas deficiências ("aleijado dos pés"). Serão estas as nossas únicas características, se nós mesmos as destacarmos.

3. Precisamos saber que nosso lugar é à mesa do Rei, não nos cantos, como se vivêssemos de favor (como Mefibosete na casa de Maquir numa cidade inexpressiva). Não importa se temos uma deficiência física ou mental; nosso lugar é à mesa do Rei. Não importa se fomos machucados e feridos na infância ou recentemente; nosso lugar é a mesa do Rei. Não importa se fomos rejeitados; nosso lugar é à mesa do Rei. Ele está à nossa procura para nos fazer assentar à sua mesa.

- Israel Belo de Azevedo, no Prazer da Palavra (via PavaBlog)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Acreditar é humano; duvidar é divino

Foto: Martin Zalba

Acho muito interessante a frase do meu amigo Peter Rollins : “To believe is human; to doubt divine” – Acreditar é humano; duvidar é divino. Ou seja, onde não houver espaço para a dúvida, também não haverá espaço para especular sobre o que a fé, no sentido mais amplo, significa – Basta analisar a realidade dos personagens bíblicos.

A fé é nostalgia. É um nó na garganta. A fé é mais um passo adiante do que uma posição, mais um pressentimento do que uma certeza.

A fé é espera. Ela está caminhando no tempo e no espaço.

Portanto, se alguém se achega a mim e me pede ( o que acontece com frequência) para falar sobre minha fé, é exatamente sobre essa jornada no tempo e no espaço que falo. Os altos e baixos das lágrimas, os sonhos, os momentos particulares, as intuições. Falo sobre a sensação ocasional que tenho de que a vida não é uma sequência de eventos que gera outros eventos tão a esmo, quanto uma tacada no jogo de bilhar faz que as bolas se afastem em diferentes direções, mas que a vida tem um roteiro, assim como num romance – aqueles eventos que, de algum modo, nos levam a algum lugar.

Embora passe a vida à busca de Deus, com frequência sinto que Deus está na próxima curva do caminho, ali atrás da próxima árvore na floresta. Continuo andando porque gosto de onde a jornada me levou até agora, pois outros caminhos parecem ainda mais problemáticos do que o meu próprio e porque anseio pela conclusão do plano. Conheço pouco das tragédias da vida. Provei sua comédia. Continuo andando porque creio no conto de fadas de que um Deus forte e sábio o suficiente para criar um mundo marcado por tal beleza e bondade será fiel em restaurar sua aparência original. Quero me esforçar para cooperar nesse projeto, e coloco todas as minhas fichas na firme promessa de Cristo, de que, no final , tudo sairá bem. Tanto para mim quanto para todos!

- Nelson Costa Jr.
(Fonte: A fé absurda)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Enquanto isso, em Maringá

Imagem daqui

Enquanto isso, em Maringá, onde foi agendada uma "Marcha para Jesus" em clima de confronto com a Parada LGBT:

"Temos de ajudar a desconstruir essa ideia de que religião e fé são antagônicas à orientação sexual da pessoa", disse a professora universitária Maria Newmum, que é da Igreja Metodista. "O ideal é que todos que foram à Marcha para Jesus estivessem aqui também, pregando o respeito e o amor ao próximo. Jesus sempre defendeu as minorias", disse.

Mais ou menos na mesma linha das palavras do Arcebispo local, que, após encontro com representantes do movimento LGBT e outros líderes religiosos, defendeu uma mudança na postura da Igreja Católica com relação à homossexualidade. (Ainda não ouviu a entrevista dele à CBN? Clique e ouça aqui.)

(Fonte: Folha de S. Paulo)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O sândalo e o machado

Imagem daqui

Do Pastor Ricardo Gondim, via PavaBlog:

Doces lembranças me ligam à casa da vovó. Mergulho nos porões mais remotos da infância e lá, na pequena casa de vila, encontro meu natal colorido, minhas inquietações adolescentes, minhas viagens juvenis. Numa estreita moradia de Fortaleza, meia parede, experimentei o carinho de tios e tias. No bairro de nome doce, Gentilândia, acordei para a vida. Estranho, sempre chamei casa da vovó, nunca casa do vovô.

Amei minha avó materna. Ela me embalava na rede para dormir, contava histórias de fadas; por suas mãos, fui levado ao mundo corajoso dos cangaceiros. Vovó me encantou; conhecia os seres que povoam o mundo mágico do matuto cearense. Sem exagero: Vovó Maria Cristina Sales Gondim foi a mulher mais doce e, ao mesmo tempo, mais determinada e firme que já conheci.

Sua casa era pequena, mínima: sala de visita e jantar juntas; dois quartos para o lado esquerdo de quem entra; no fundo, cozinha e banheiro diminutos. Quando a ditadura militar prendeu papai, nos vimos obrigados a morar nesse aperto.

Só havia duas camas na casa – e somávamos 13 almas. Eu dormia de rede. Depois que todos se acomodavam, pendurava os punhos nos ganchos que atravessavam a sala, e procurava apagar.

Sempre que alguém se mexia, ouvia o ranger doloroso das outras redes. As caladas da madrugada me metiam medo. Aquele barulho, que mais parecia um choro, amedrontaria qualquer insônia. Repousávamos amontoados – as redes se entrelaçavam, umas por cima das outras. Com o tempo, aprendi a reconhecer o fôlego de todos. De portas fechadas, com uma janela apenas, a casa esquentava. Eu ressentia, naquele calor, o forje do amor. A sala era forno e nos fundiamos uns nos outros. Viramos uma grande família.

Depois de vários anos, visitei vovó. Ela já não morava na mesma vila. Idosa e cansada, vivia com uma tia. Vovó gostava de conversar comigo. Por vezes implorava por minha companhia. E eu, absurdamente idiotizado pelo idealismo religioso, esquecia; varava semanas sem aparecer.

Numa tarde, fui ver-lhe. Péssimo dia para visitar uma pessoa querida; eu estava com raiva. Fora traído por pessoas mesquinhas há pouco. Sem me dar conta, comecei a despejar um rancor bolorento na vovó.

Como eu estava amargo! Havia esquecido que ódio guardado apodrece, vira amargura. Falei para ela do quanto desejava uma vingança divina. Enquanto debulhava ira, me desfigurava. Rancor deforma. Eu esquecera de escalar um sentinela para os lábios; e vomitei toda a ira que trouxe comigo.

Sem me repreender, ela perguntou:

–Você se lembra do quadro que ficava pendurado no quarto lá de casa?
– Claro – respondi. Ele é uma das boas recordações daqueles dias.

Um quadro tridimensional bem pequeno ficava pendurado no primeiro cômodo da casa. Nele, havia a miniatura de uma tora de árvore. Um machado cravado, feria o caule. Por cima, a frase: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

Vovó não disse mais nada. Eu me calei. Dei-lhe um beijo na testa e parti. Nunca mais fui o mesmo.

Passados tantos anos, ganhei uma talha de madeira que virou sacramento de uma verdade, que espero reproduzir na vida dos meus netos. A talha se parece com o quadro, e tem a mesma inscrição: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem… Não retribuam a ninguém mal por mal”. – [Romanos 12.14 e 17]

Soli Deo Gloria

Comprometidos com a dignidade humana

Foto via Blue Pueblo

Pouco mais de um ano depois, reproduzimos a nota abaixo, emitida no dia 11/05/11 pelo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), tanto para marcar o primeiro aniversário da decisão do STF em prol da união civil homoafetiva, como para assinalar que nem tudo é fundamentalismo entre os religiosos e, sim, é possível uma leitura das Escrituras e dos acontecimentos no mundo mais próxima do olhar amoroso e inclusivo de Cristo.

“... o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com teu Deus.” Miqueias 6. 8.

Recebemos com serenidade a recente decisão unânime do STF sobre o reconhecimento jurídico das uniões estáveis de pessoas homoafetivas. Tal aprovação representa um importante avanço em nossa sociedade na busca pela superação de todas as formas de preconceito e um aperfeiçoamento no conceito de igualdade e cidadania numa sociedade marcada pela pluralidade, mas também por profundas desigualdades e discriminações;

Nosso reconhecimento é feito com base em sólida tradição de defesa da separação entre igreja e estado (e entre religiões e estado), que não significa a sujeição de um campo ao outro, nem a substituição de um pelo outro, mas a necessária junção da autonomia institucional e legal com a liberdade de expressão e o pluralismo. Ou seja, a IEAB sente-se perfeitamente à vontade para expressar sua posição porque sua prática a recomenda e porque entende que o estado deve ser continuamente acompanhado em suas decisões, em qualquer esfera de poder, aprovando-o ou questionando-o em suas ações; - A decisão do STF levanta sérios desafios a todos os cristãos de todas as igrejas, pois requer abertura para reconhecer que as relações homoafetivas são parte do jeito de ser da sociedade e do próprio ser humano. A partir de agora, os direitos desse grupo tornaram-se iguais aos de todas as outras pessoas. Reconhecemos que há ainda muito que fazer nesse campo, pastoral e socialmente, para afirmar a dignidade da pessoa humana e seus direitos. Sabemos que um profundo e longo debate deve acontecer na sociedade brasileira a este respeito, e a IEAB não está isenta de nele participar, com profunda seriedade e compromisso de entender as implicações do evangelho de Jesus Cristo em nosso tempo e lugar; - Reconhecemos que tal decisão é resposta à prece que sempre fazemos em nossos ritos de Oração Matutina/Vespertina: “Ó Senhor, que nos governas... ao teu misericordioso cuidado encomendamos nossa Pátria... concede a todas as Autoridades, sabedoria e força para conhecer e praticar a tua vontade. Enche-os de amor à verdade e à justiça...” (Livro de Oração Comum, pg. 38). Assim, afirmamos nosso compromisso pastoral para com essas pessoas. Cremos que a promessa declarada no rito do batismo: “És de Cristo para sempre!” (Livro de Oração Comum pag. 169) repousa sobre todos nós e, portanto, não nos cabe decidir quem pertence ou não a Deus.

Neste momento de mudança, reafirmamos nosso compromisso de ser uma Igreja que Acolhe e Serve, reconhecendo o sensus fidelium declarado na última CONFELIDER: defender os Direitos Humanos e o Direito à Cidadania plena. Entendemos que esse compromisso é decorrência dos votos que fazemos perante o altar em nossa confirmação: "Defenderás a justiça e a paz para todos, respeitando a dignidade de todo ser humano" (Livro de Oração Comum pg 179);

Louvamos a Deus pelos avanços conquistados, entendendo que fazem parte da sutil e gradativa inspiração do Espírito Santo para transformar nossa sociedade. Conclamamos todos os anglicanos e as anglicanas a acolher as pessoas que nos buscam, a orar por elas e acompanhá-las pastoralmente, entendendo que a Igreja é um edifício ainda em construção e que a totalidade de sua membresia só é conhecida pelo próprio Cristo, Senhor da Igreja.

No amor inclusivo de Jesus Cristo, nosso Senhor e Rei e supremo juiz dos vivos e mortos,

Dom Maurício José Araújo de Andrade
Bispo Primaz

Uma carta do papa em 2020

Foto daqui

No livro The content of faith, do teólogo jesuíta Karl Rahner (1904-1984), organizado a partir de seus escritos, consta o trecho abaixo, intitulado "Uma carta do papa em 2020". Expressa-se nele a profecia do pensamento de Rahner, em um artigo que oferece um vislumbre de esperança de que, um dia, algum papa será suficientemente corajoso para enviar tal carta à Igreja e ao mundo.

Este breve ensaio parece ser particularmente relevante neste momento na história, em que as rodas parecem estar caindo do carro institucional mais seriamente do que em qualquer momento anterior. O que Karl Rahner escreve aqui se encaixa muito bem com os muitos pensamentos já publicados nos últimos tempos, incluindo os de Dom Geoffrey Robinson.

O artigo foi publicado no sítio australiano
Catholica, 03-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Embora eu não atribua a nenhum dos meus antecessores, ou ao menos aos meus predecessores imediatos, uma falta de humildade e de modéstia, parece-me que hoje um papa [no ano 2020] pode, até mesmo publicamente, fazer esta autoavaliação crítica mais claramente do que costumava ser feita. Pessoas importantes na história do mundo e da Igreja costumaram ter a ideia de que a sua autoridade legítima se colocaria em risco se deixassem seus "súditos" ver que eles também eram apenas seres humanos que cometiam erros. Era somente após a sua morte que os historiadores da Igreja eram autorizados a descobrir falhas, erros ou hesitações em um papa.

Mas, se eu estou convencido de que, mesmo como papa, eu continuo sendo um ser humano que irá cometer falhas, talvez até mesmo graves, por que não me seria permitido reconhecer isso mesmo durante a minha vida? Será que a mentalidade de pessoas que realmente não importam tanto hoje é a de que a autoridade não sofre danos, mas ao contrário lucra quando o seu portador admite abertamente as limitações de um pobre e pecador ser humano, e não tem medo de reconhecê-los? Por enquanto, ao menos, estou disposto a ouvir discussões públicas em minha presença, eventualmente para aprender com os outros e para reconhecer que eu aprendi.

Mesmo como papa, eu gostaria de continuar aprendendo. Deixe que as pessoas percebam que um papa pode errar, cometer equívocos, estar mal informado e escolher o tipo errado de assistentes. Tudo isso é evidente, e eu acredito que nenhum papa recente duvidou seriamente disso. Mas por que tal evidência deve permanecer oculta e encoberta? Pedro permitiu que Paulo o confrontasse frente a frente, e eu suponho que Pedro reconheceu que Paulo estava certo. Mesmo hoje, um papa pode se permitir algo desse tipo. Eu, pessoalmente, reivindico esse direito e estou disposto, se necessário, a permitir que a minha autoridade sofra uma perda, o que seria meu dever aceitar.

Eu não deverei ser um grande papa. Eu não tenho os meios para isso. Portanto, não vou ter um complexo de inferioridade se eu parecer bastante modesto em comparação com os grandes papas do século XX. Para mim, isso parece ser providencial. Tenho a sensação de que, através da sua grandeza, esses papas tiveram uma influência na Igreja que provavelmente nunca pretenderam ter e que teve seu lado questionável, uma influência que eu vou tentar compensar com o meu pontificado mais modesto.

Não é verdade? Esses papas não fomentaram involuntariamente uma mentalidade na Igreja que superestima a função apropriada do papa, de acordo com o dogma e de como ela foi na maior parte da história dos papas? Essa mentalidade não implica que um papa deva ser, em todos os aspectos, o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais pernate o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens ?

Eu não vou me tornar um papa desses e não considero necessário isso a todos. O papa tem uma tarefa na Igreja que é estritamente limitada, apesar da jurisdição universal e da plenitude da autoridade de ensino mencionada pelo Concílio Vaticano Primeiro. Vou exercer essa plenitude de poder, mas dentro dos limites impostos sobre mim pelas limitações da minha própria natureza. Isso e nada mais.

Eu não vou ser o mais santo da Igreja. Perante Deus, eu sou menos do que os santos que vivem hoje na Igreja, aqueles que rezam em silêncio, aqueles que são misticamente arrebatados, aqueles que perecem por causa de sua fé nas prisões dos inimigos de Cristo e da Igreja, aqueles que amam altruisticamente, como Teresa de Calcutá, todos os heróis desconhecidos e não recompensados do dever e da abnegação cotidianos.

Ninguém pode negar que até mesmo um Inocêncio III empalidece diante de Francisco de Assis, e que os papas Pio dos dois últimos séculos são menos importantes do que um Cura d'Ars ou do que uma Santa Teresinha de Lisieux. Você podem dizer, é claro, que eu estou comparando realidades que não podem ser comparadas. No entanto, na vida da Igreja e diante do tribunal eterno de Deus, santos e grandes teólogos como um Tomás de Aquino ou um John Henry Newman são mais importantes do que a maioria dos papas, e sobretudo mais importante do que jamais vou ser.

Há muitos carismas na Igreja, e o papa não tem todos em si mesmo. Se é verdade que podemos realmente compreender apenas os nossos próprios carismas, então até mesmo um papa deve dizer a si mesmo que ele não pode avaliar tudo o que vive na Igreja, e que só Deus, e não o papa, se encontra onde tudo o que é bom e santo na Igreja se funde em uma sinfonia perfeita.

É por isso que nenhum dano será feito se o meu pontificado corrigir, em certa medida, a mentalidade dos cristãos piedosos que equivocadamente esperam dos papas aquilo que eles podem receber apenas dos santos e das grandes mentes da Igreja e, possivelmente, de si mesmos.

Será que há cristãos, e talvez papas, que se lembram de que, ao rezar o Pai Nosso com esperança impaciente pela vinda do reino eterno de Deus, eles estão rezando também pelo fim do papado?

terça-feira, 15 de maio de 2012

Não temos medo de pensar. Temos medo de não amar.

Foto: David Talley

Texto escrito a quatro mãos por Lucas Lujan e Suênio Alves e publicado no extraordinário blog Fora da Zona de Conforto em 4 de agosto de 2009. Fica para reflexão... :-)

Não temos medo de (re)pensar conceitos sobre Deus. Temos medo de não (re)amar como Cristo, quem na realidade não amamos: os mendigos, os pobres, os excluídos, os marginalizados, as crianças africanas, os homens e mulheres de Darfur.

Não temos medo de incertezas. Temos medo que nosso Amor deixe de ser nossa bandeira do Reino de Deus.

Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema.

Não temos medo de questionar dogmas. Temos medo de que os dogmas impeçam a transformação de vidas.

Não temos medo do inferno. Temos medo de que nossas mãos se fechem, e não possam ajudar o nosso próximo a sair de sua existência-inferno. Ou pior, que as nossas próprias mãos sejam as quais o empurra para esta existência-inferno.

Não temos medo de devanear teorias loucas. Temos medo que a loucura desse mundo violento cegue nossos olhos a ponto de sempre que pararmos num farol, nesta cidade-sombria, fechemos nossos vidros para a sinceridade dos filhos da injustiça.

Não entendemos como problema sair do molde da teologia sistemática. Temos medo de sistematizar Deus e modela-lo a algum padrão.

Nós não temos medo de chorar por nós mesmos. Nós temos medo de que não mais choremos o choro dos outros.

Não sentimos culpas pelas nossas dúvidas. Mas pedimos que nos lembre sempre de amar como Cristo.

Não temos medo ter uma fé cheia de espelhos em enigmas e despedaçada, que não tem a precisão de uma fé “face a face”. Temos medo de perder o que existe de mais precioso: Amar.

Não temos medo de balançar alicerces religiosos construídos por pensamentos humanos. Temos medo de perder a doçura e a simplicidade de Jesus.

Não temos medo de sermos rejeitados pela instituição. Temos medo da hipocrisia religiosa.

Não temos medo de sermos chamados de hereges. Temos medo de compactuar com o sistema religioso e seus interesses, e esquecermos de amar pessoas.

Não temos a pretensão que nossos argumentos tenham todos os versículos a favor, e assim entrarmos numa guerra de versículos. Temos medo que nós não cumpramos aquilo que Cristo chamou de o resumo da lei e dos profetas: Amar a Deus e ao próximo.

Não temos medo de nos manifestar a favor de alguém. Desde que esse alguém não se esqueça que o conceito central do cristianismo é o amor.

Aprendemos que não podemos ficar presos às amarras da religião e da instituição.

Aprendemos que Deus está acima da religião.

Aprendemos que no Reino não importa o que se pensa, importa o que se ama.

Aprendemos a olhar pessoas como “filhos de Deus”, e amá-las incondicionalmente.

Aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.

Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cardeal apela por uma Igreja aberta à diversidade e ao amor ao próximo

Imagem daqui

O cardeal D. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, propôs esta noite [ontem] no Santuário de Fátima um modelo de Igreja assente na abertura à diferença e no amor ao próximo.

Na homilia da missa, enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o prelado italiano recordou o excerto da Bíblia onde se narra a primeira conversão de um pagão ao cristianismo.


O especialista em estudos bíblicos apelou à superação de «distâncias e diversidades» e convidou as dezenas de milhares de fiéis a abraçarem o amor que penetra «nos caminhos obscuros da história, no subsolo do mal e do vício, no espaço do desespero e do ódio».

«Com ele [amor], entremos no horizonte gélido e sombrio do sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs, para aí acender a luz e o calor do amor que conforta e salva», disse.

D. Gianfranco Ravasi referiu-se também à Virgem Maria: «É ela que nos convida a acender a pequena vela do amor, em vez de pararmos a maldizer a noite do mal e do ódio que invade o mundo».

Segue a homilia na íntegra, aqui reproduzida via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal).


Caros irmãos e irmãs,

Através da Palavra de Deus, que ressoou nesta noite de oração e neste recinto sagrado, faremos agora uma outra viagem espiritual, mais longa do que a procissão que realizámos guiados por Maria. Três são as cidades do espírito onde juntos vamos parar: ali escutaremos três diferentes vozes, todas porém assinaladas pela mesma mensagem.

A primeira cidade debruça-se sobre o Mediterrâneo ao longo da costa da Terra Santa: é Cesareia Marítima, a sede do governador imperial da Palestina no tempo de Jesus. Entramos num dos palácios, na residência de um oficial romano, o centurião Cornélio. Ele é o primeiro pagão que entrará na nova fé cristã. Diante dele apresenta-se são Pedro que está para batizar aquele soldado de bom coração e justo bem como a sua família. As palavras do apóstolo são simples e essenciais mas abrem um horizonte que hoje se alarga até nós, vindos de povos e nações diferentes: "Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável" (Atos 10, 34-35).

O olhar amoroso de Deus estende-se sobre todas as criaturas porque, como se lê no livro da Sabedoria, "Tu, Senhor, amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste ... Tu és indulgente com todos, porque todos são teus, ó Senhor, amante da vida!" (11,24.26). Então, na casa daquele centurião, numa cidade elegante e mundana, sopra o vento do Espírito Santo: de facto, "o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a Palavra" (Atos 10,44). É o "Pentecostes dos pagãos" que abate "o muro de separação que os dividia" dos hebreus, como acontecia no templo de Jerusalém e como recordava o apóstolo Paulo escrevendo aos cristãos de Éfeso (2,14). Com Cristo, portanto, "não há mais Grego ou Judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou cita, escravo ou livre, o que há é Cristo, que é tudo e está em todos" (Co/. 4,11).
A nossa viagem conduz-nos, agora, à segunda cidade: talvez seja mesmo a esplêndida Éfeso onde Paulo tinha vivido momentos árduos da sua missão apostólica. A voz que agora ressoa é a de um outro apóstolo, João, no fragmento da sua admirável Primeira Carta proposto pela liturgia deste domingo pascal. Em Efeso e nas outras fascinantes cidades, que constelavam a costa mediterrânica da atual Turquia, tinha feito resplandecer o verdadeiro rosto de Deus naquela inesquecível definição que acabou de ser proclamada: " Deus é ágape, amor".

É um amor que irradia penetrando também nos caminhos obscuros da história, no subsolo do mal e do vicio, no espaço do desespero e do ódio. É um amor que se manifestou em Cristo, o Filho, que atravessou aquele mundo tenebroso de morte " para que tivéssemos a vida por meio dele", como diz são João. E porque Deus é amor, também nós "amemo-nos uns aos outros", superando distâncias e diversidades, como faremos daqui a pouco quando nos saudarmos no abraço da paz. Como ele, entremos no horizonte gélido e sombrio do sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs, para aí acender a luz e o calor do amor que conforta e salva.

E eis-nos chegados à última etapa, à cidade santa, Jerusalém. Subamos ao "andar superior" de uma casa, entremos numa "grande sala, preparada, já pronta" (Marcos 14,15). Estamos no Cenáculo. E a última noite da vida terrena de Jesus. Ele está a falar longamente com os discípulos durante a sua última ceia, a primeira da eucaristia. Também nos seus lábios ressoa repetidamente a palavra "amor" que nos acompanhou já em Cesareia e em Éfeso, mas agora brilha de uma forma total e absoluta.

Deixemo-la ecoar no nosso coração, enquanto somos envolvidos no silêncio desta noite. Connosco a escutar estas palavras está Maria, a estrela que preanuncia a aurora depois das horas noturnas do mal, do medo e da dor. Como recordava Lúcia nas suas Memórias, a Senhora de Fátima "difunde luz mais clara e intensa do que um copo de cristal, pleno de água cristalina, através dos raios do sol mais ardente". É ela que nos convida a acender a pequena vela do amor, em vez de pararmos a maldizer a noite do mal e do ódio que invade o mundo. Jesus fala-nos agora e repete: "Como o Pai me amou, também eu vos amei. Permanecei no meu amor... é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos... O que vos mando é que vos ameis uns aos outros" (João 15, 9. 12-12.17).

- D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura

domingo, 13 de maio de 2012

Amar!

Imagem daqui

Amar o outro, todo outro, gratuitamente. Como poderíamos excluir alguém por Amor? Isso seria uma contradição nos termos e uma incompreensão da missão que nos foi confiada. O Amor não é reciprocidade; ele é continuidade, fecundidade e gratuidade.

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 6º Domingo de Páscoa (13 de maio de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências Bíblicas:
1ª leitura: At 10,25-26.34-35.44-48
2ª leitura: 1 Jo 4,7-10
Evangelho: Jo 15,9-17

A uma semana da Ascensão, a segunda face da Páscoa, São João na segunda leitura e no evangelho de hoje nos lembra da essência do que nós nos tornamos por causa de Cristo: amor, e o essencial da fé cristã que é amar. O Pai ama o Filho, o Filho nos ama comunicando a nós o amor do Pai. Esse amor nos impulsiona a nos amarmos uns aos outros. Existe um vínculo tão íntimo entre Deus, Cristo e nós, que nós somos todos da mesma família.

1. Deus é Amor – Deus se define com uma só palavra: amor. Que bela definição de Deus dada por São João. Tudo começa aí... Deus primeiramente ama; ele é o fundamento de todo o Amor. O nosso se origina nele. Nós não existimos por nada... mas, por causa de Deus, nós somos capazes de nos tornar, nós também, todo Amor: “E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou” (1 Jo 4,10). O Amor de Deus se manifesta por Cristo: “Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo, para dar-nos a vida por meio dele” (1 Jo 4,9). São João nos faz ver também quem nós somos e quem é Deus: “Todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4,7)

2. Permanecer no Amor – No evangelho de São João, o verbo permanecer (demeurer) é muito importante. Ele significa: viver, ficar, partilhar, estar na intimidade daquele que ama. São João fala a todos os crentes de ontem e de hoje da fidelidade a um nome que é um lugar: uma moradia (demeure), e um rosto: o Amor. No fundo, nós cristãos, devemos ser moradias de Amor, e é o que Cristo veio nos ensinar na sua passagem, isto é, na sua Páscoa: a festa da passagem. O exegeta francês Jean Debruynne escreveu: “Jesus passa todos os dias deste mundo ao seu Pai e, porém, ao mesmo tempo Jesus fica (demeure). Trata-se, ao mesmo tempo, de ficar na passagem e de uma passagem que fica. Jesus não tem outra moradia (demeure) senão a passagem. Jesus fica passando porque, doravante, o único mandamento e a única fidelidade é amar. Deus não procura servidores ou empregados que não sejam importantes para ele. Deus procura amigos. Se Deus se faz homem, não é nem por interesse nem por benefício, mas é por paixão, é por Amor”.

3. Um Amor fecundidade – O Amor de Deus manifestado em Cristo não é primeiramente reciprocidade. Jesus não diz: Amem-me como eu amei vocês. Ele diz:
“Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12). O que quer dizer que nós devemos amar ao outro não para que ele nos ame, mas para que, por sua vez, ele possa amar mais alguém. Assim, o Amor não se merece, não se compra, não se ganha. O Amor se recebe para ser dado gratuitamente: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês. Eu os destinei para ir e dar fruto, e para que o fruto de vocês permaneça” (Jo 15,16). Não é um amor recíproco, interessado, mas sim um Amor gratuito, fecundo, que não cessa de crescer e de aumentar.
Santo Agostinho, no século IV, tinha compreendido isso. Ele distinguia três graus no ato de amor. Primeiro grau: “Amar ser amado”. É o grau mais baixo. Quem não gosta disso? Precisaríamos ser marionetes para pretender o contrário. Estamos todos incluídos nisso. É o amor narcisista. Segundo grau: “Amar amar”. É gostar de amar os outros. Nós esquecemos um pouco de nós mesmos; tornamo-nos generosos, altruístas. Fazemos a nossa boa ação, nos preocupamos com os outros, mas isso é gratificante, de maneira que um excesso nessa forma de amar pode se converter, às vezes, em uma forma megalômana de amor de si próprio. Terceiro grau: “Amar!”. Só isso. Amar simplesmente, amar o outro por ele mesmo, não para lhe fazer bem nem para fazer crescer as nossas virtudes... Não! Amar sem esperar nenhum retorno. Não amamos para... alguém ou algo. Amamos e ponto, só isso. É o topo da gratuidade. É o fruto que devemos dar como cristãos e que permanece.

4. Um Amor liberdade – Na primeira leitura de hoje, nós temos um belo exemplo do Amor do nosso Deus que se expressa com total liberdade. A Igreja do século I o experimentou com Pedro como cabeça. Anunciando a Palavra, a Boa Nova da Ressurreição de Cristo aos pagãos, Pedro teve que reconhecer a igualdade entre os humanos: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as pessoas” (At 10,34). Até mais, seu Espírito está sempre antes. De maneira que Pedro rapidamente compreendeu que Deus era livre de agir sem que ele ou a Igreja tivesse que decidir: “Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra” (At 10,44). Todo o mundo ficou admirado de que os pagãos não batizados recebessem o dom do Espírito de Pentecostes (At 10,45). Pedro deve, então, render-se perante a evidência de que Deus não pertence à Igreja. É um Deus de liberdade: “Será que podemos negar a água do batismo a estas pessoas que receberam o Espírito Santo, da mesma forma que nós recebemos?” (At 10,47).

Se eu atualizo, hoje, a mensagem que se tira do livro dos Atos dos Apóstolos, me parece que há ali um convite e uma interpelação que se dirige a todo cristão, mas mais ainda aos dirigentes, de demonstrar humildade no exercício das suas funções. Cada vez que uma pessoa é rejeitada, condenada ou excluída da Igreja, deveríamos nos perguntar se nós somos fiéis ao Amor de Deus que se manifesta em Cristo e que nos convida a amar ao outro, a todo mundo, gratuitamente. Como poderíamos excluir alguém por Amor? Lá há uma contradição nos termos e uma incompreensão da missão que nos foi confiada. O Amor não é reciprocidade; ele é continuidade, fecundidade e gratuidade. O Espírito Santo age ainda hoje com toda liberdade. O resultado não nos pertence. É preciso que nós nos digamos e redigamos isso seguidamente...

sábado, 12 de maio de 2012

Quem ama como Jesus aprende a olhar os rostos das pessoas com compaixão

Imagem daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 15, 9-17 que corresponde ao Domingo 6º da Páscoa, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Jesus despede-se dos seus discípulos. Amou-os com o mesmo amor com que o amou o Pai. Agora tem de deixá-los. Conhece o seu egoísmo. Não sabe querer-se. Ve-os discutindo entre si para obter os primeiros lugares. Que será deles?
As palavras de Jesus adquirem um tom solene. Precisam ficar bem gravadas em todos: "Este é o meu mandato: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei". Jesus não quer que o seu estilo de amar se perda. Se um dia o esquecem, ninguém os poderá reconhecer como discípulos.

De Jesus ficou uma recordação inesquecível. As primeiras gerações resumiam assim a sua vida: "Passou por toda a parte fazendo o bem". Era bom encontrar-se com ele. Procurava sempre o bem das pessoas. Ajudava a viver. Sua vida foi uma Boa Nova. Podia-se descobrir nele a proximidade boa de Deus.

Jesus tem um estilo de amar inconfundível. É muito sensível ao sofrimento das pessoas. Não pode passar ao lado de quem está a sofrer. Ao entrar um dia na pequena aldeia de Naín, encontra-se com um enterro: uma viúva vai a enterrar o seu filho único. Sai de dentro de Jesus o seu amor para com aquela desconhecida: "Mulher, não chores". Quem ama como Jesus vive aliviando o sofrimento e secando lágrimas.

Os evangelhos recordam em diversas ocasiões como Jesus captava com o seu olhar o sofrimento das pessoas. Olhava-as e comovia-se: via-as sofrendo, ou abatidas ou como ovelhas sem pastor. Rapidamente punha-se a curar aos mais doentes ou a alimentá-las com as suas palavras. Quem ama como Jesus aprende a olhar os rostos das pessoas com compaixão.

É admirável a disponibilidade de Jesus para fazer o bem. Não pensa em si mesmo. Está atento a qualquer chamada, disposto sempre a fazer o que possa. A um mendigo cego que lhe pede compaixão quando passa, acolhe-o com estas palavras: "Que queres que faça por ti?".

Jesus sabe estar junto aos mais desvalidos. Ele faz o que pode para curar as suas doenças, libertar as suas consciências ou contagiar confiança em Deus. Mas não pode resolver todos os problemas daquelas pessoas.

Então, dedica-se a fazer gestos de bondade: abraça as crianças da rua; não quer que ninguém se sinta órfão; abençoa os doentes: não quer que se sintam esquecidos por Deus; acaricia a pele dos leprosos: não quer que se vejam excluídos. Assim são os gestos de quem ama como Jesus.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Carne e ossos

Foto: Eva Patikian

O homem moderno acredita mais nas coisas que nas ideias. A gente é concreta, empírica e carnal. Nós gostamos mais da solidez do dado científico que das noções ilusórias da filosofia, da poesia e do sentimento. Assim, se tem forjado o império deste mundo. Qualquer pode constatar as glórias arquitetônicas das nossas cidades, o milagre das comunicações eletrônicas e a maravilha da medicina moderna.

Mas, assim com tudo, se vive carente. Falta um elemento. Todos o sabem, mas muitos optam por ignorá-lo. Trata-se da essência mesma, da faísca da vida, da energia do amor difundida no planeta, como pequenas gotas dum licor concentrado, animando nossa aridez com seu alento de sentido.

O problema, no entanto, não é que sejamos concretos, mas que, ao distanciar a essência espiritual do discurso cotidiano, transforma-se aquela num refúgio alienante para quem não se atrever enfrentar a vida de carne e ossos que a gente tem que vivenciar aqui e agora. A transcendência mística, quando é tratada como coisa de cada um, deixa de ser o mistério partilhado que une com laços profundos. Os fantasmas pessoais, ademais, muitas vezes, são falsos, efêmeros e vingativos.

O Ressuscitado não é um sentimento. Não é um espírito. Não é uma fantasia. Quem acreditar nisso, vai morar nas nuvens. Decola-se do mundo real, e termina mais amigo dos passarinhos na sua própria cabeça que do próximo que está ao seu lado. Sua religião é de muita superstição e pouca fé. Pretende manipular o destino com ritos e encantamentos, mas sem se envolver no amor nem na vida.

O Senhor vem aos seus discípulos na carne e no osso. Ele é. Está ai para que eles o toquem, para que o vejam. O seguimento de Cristo é um compromisso com a substância concreta da vida eterna. Não é uma formalidade para fantasmas. É plenitude à qual aspira toda a criação. É de abraços e suor, trabalho e pão, águas frescas e vinho concentrado. A ressurreição é o matrimônio entre a realidade material e a transcendência poética, porque o amor se põe mais nas obras que nas palavras; porque se disser amar a Deus, e não amar ao seu irmão, a gente mente.

Aqueles que ficarem somente com suas fórmulas catequéticas traíram ao Senhor de carne e osso. Seu amor não é uma finura da metafísica, mas uma obra testemunhal, um gesto compassivo, a palavra precisa que transforma o entorno decaído num anúncio dos céus novos e das terras novas.

A religião espiritualista do além-mundo, aquela que flutuar arriba das nuvens, não tem muito a ver com Jesus. A vida no espírito não deve se confundir com a alienação. A santidade em nada parece à frialdade esotérica. A superstição pagã fantasiada de devoção é uma piedade vazia que faz mais dano ao Reino de Deus que a inocente ignorância de quem não tem conhecido a Boa Notícia. Atrevamos-nos a vivenciar a ressurreição na carne e no osso, como fez Jesus.

- Nathan Stone
Fonte: Mirada Global, via Amai-vos

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O bom pastor não faz distinção entre as pessoas

Ainda no ciclo de comentários ao texto do Bom Pastor, de semana passada, não podíamos deixar passar a oportunidade de publicar ainda este último texto, que tanto enfatiza que o Pastor veio para todos. Sem exceção, sem distinções. :-)

Texto sugerido para oração: Jo 10, 27-30

Jesus Cristo se apresenta à humanidade como o Bom Pastor, aquele que conhece seu rebanho e dá a vida por ele. As atitudes do Bom Pastor revelam um conhecimento e amor profundos por seu rebanho: eu os conheço e eles conhecem a minha voz – dirá Jesus.

Viver essa relação de intimidade é a proposta de Jesus Cristo para a humanidade: no meio dela Ele veio fazer morada, instalar-se para, fazendo-se homem, fazer com que este creia que é possível viver a dimensão de semelhança à Deus.

O bom pastor zela por suas ovelhas – propõem-lhes o cuidado, promete-lhes não perdê-las e não deixá-las ser roubadas por invasores estranhos. E em sendo dóceis as ovelhas, confiantes no seguimento de seu pastor poderão, assim, alcançar Sua promessa maior – a vida eterna.

Ao se colocar como o bom pastor, Jesus rememora o cuidado que o Pai tem com seus filhos. Mais: traz para próximo dos filhos o Pai, fazendo-lhes ver com os olhos do mundo, naquilo que é para cada um uma situação cotidiana (era bastante comum a atividade do pastoreio no tempo de Jesus) a forma como o Pai age. Jesus e o Pai são um e em Jesus podemos ver como o Pai pastoreia cuidadosamente seu rebanho – não deixando que nenhuma ovelha se perca, cuidando individualmente de cada uma, conhecendo-a pelo nome, pelo modo de ser, pelo que é.

Assim, o Mestre afirma: “conheço minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10, 14) em uma alusão à relação que deseja ter com cada um de nós – a intimidade daqueles que se (re)conhecem e se entendem mutuamente.

O pastor sabe quais são as suas ovelhas, ainda que seja chamado a também cuidar de outras, como Ele próprio afirmará no mesmo texto (“Tenho outras ovelhas que não são desse redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor” – Jo 10, 16). Jesus vem para todos, sem distinção. E, de todos se dispõe a cuidar, a dar a vida, a se entregar.

Esforcemo-nos, também por nos tornarmos pastores, bons cuidadores e condutores das vidas que o Senhor coloca em nossos caminhos. Esforcemo-nos para, como Jesus, não fazermos distinção entre as pessoas: a mensagem de Deus é para todos! Assim, estaremos testemunhando o Pai diante da humanidade, como o Filho um dia o fez.

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

Leia também:
O amor de Jesus às pessoas não tem limites
A vocação: um chamado à dignidade
O Bom Pastor
“Ele chama as ovelhas pelo nome” (Jo 10, 1-10)
Eu dou vida em abundância para TODOS
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