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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Vozes cristãs pró-LGBT que se destacaram em 2011

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Em nosso trabalho pela conciliação da dupla identidade gay e (cristã) católica, o que talvez tenha nos chamado mais atenção ao longo deste ano de 2011 foi o quanto uma minoria ruidosa de extremistas de ambos os lados vem conseguindo criar uma situação de fragmentação social, colocando religiosos e LGBTs em campos opostos, incompatíveis e mutuamente excludentes. Parece-nos que essa divisão se presta a fins políticos que nada têm a ver com o interesse dos LGBTs em construir uma sociedade plural e tolerante, em que haja espaço para o diálogo e a convivência pacífica entre as diferenças, e muito menos com valores cristãos legítimos e a busca de um mundo de mais justiça e fraternidade, verdadeiro Reino de Deus aqui e agora.

Perniciosamente, a divisão em campos opostos cria - qualquer que seja o "lado" em que cada um se coloca - um "nós" santificado contra os "eles" demonizados, "tudo farinha do mesmo saco". Pobres de "nós", oprimidos e vitimizados, e malvados "eles", ditadores, opressores, excludentes. "Eles", com frequência, chegam a ser vistos, com pena ou com desprezo, como "loucos" - clássico recurso dos humanos jogos de poder para esvaziar e desqualificar o discurso do outro ao tirar-lhe o direito a uma voz própria; pois, se é "louco", não sabe o que está dizendo, e não pode haver diálogo com alguém assim!

Parece-nos que há justamente aí um grande problema: ao colocar todos no mesmo saco de uma categoria genérica e abstrata - seja a categoria dos "fundamentalistas" ou a dos "gays pecadores/doentes" -, privamos o outro da sua identidade. Deixamos de enxergar as pessoas para ver apenas o adversário no meio da massa "inimiga". Ao classificar o outro como louco, perturbado ou doente, privamos nosso interlocutor de sua voz e vedamos o diálogo. Instaura-se assim a lógica da guerra, segundo a qual, para um lado vencer, é preciso que o outro perca. A perversidade dissimulada aí é que guerra nenhuma tem vencedores. Dilacerada, a sociedade toda perde.

Preconceitos e segregações, sejam ou não justificados com argumentos religiosos ou de qualquer outra ordem, são eminentemente problemas sociais e culturais, muito mais amplos que qualquer religião. A nosso ver, a homofobia que se encontra entre religiosos é fruto da homofobia arraigada em nossa sociedade, e não o contrário - embora, claro, as justificativas de cunho religioso sejam usadas para reforçar a homofobia, criando um círculo vicioso sem fim. Acreditamos, porém, que, para superar esse estado de coisas, o bom caminho não será entrar em guerra com "as religiões"; muito pelo contrário, os valores religiosos podem e devem ser convocados à luta por um mundo mais justo e mais plural.

Nos EUA, por exemplo, onde a maioria da opinião pública até muito recentemente encarava LGBTs e cristãos como forças em campos opostos, hoje quase dois terços (64%) da população concordam que os relacionamentos gays devem ser aceitos pela sociedade, incluindo a maioria de todos os principais grupos religiosos, com exceção dos evangélicos brancos (Public Religion Research Institute, 29 de agosto de 2011). No Brasil, apesar do acirramento do conflito e da violência mútua, uma pesquisa do Ibope sobre atitudes da população brasileira em relação aos LGBTs, divulgada no final de julho, trouxe à tona alguns dados surpreendentes acerca da evolução da opinião pública a este respeito - revelando, por exemplo, que 52% das mulheres, 50% dos católicos, 60% dos jovens de 16 a 24 anos e 60% dos com nível superior são favoráveis à união estável entre casais homoafetivos (saiba mais e leia uma análise aqui).

Muitos acontecimentos em 2011 evidenciaram essa mudança. Se, no Brasil, o ano foi marcado por importantes conquistas em termos de direitos civis, nos EUA a equipe do Believe Out Loud, organização americana que incentiva e dá subsídios a inclusão dos LGBT nas Igrejas cristãs protestantes (saiba mais aqui), compilou um top 10 de vozes cristãs pró-LGBT que se destacaram em 2011. Estamos trabalhando para que essas vozes se façam ouvir cada vez mais alto também por aqui.

E que 2012 seja ainda melhor.

Equipe Diversidade Católica  :-)

* * *


Top 10 das vozes cristãs pró-LGBT que se destacaram em 2011:

10. A Sojourners, maior organização de cristãos progressistas dos EUA, repudia o movimento Believe Out Loud e inspira reação
No Dia das Mães, o Believe Out Loud tentou lançar seu vídeo viral (aqui) através de um anúncio pago na newsletter eletrônica da Sojourners. Recusando-se a "tomar partido" na busca por aceitação dos LGBTs na Igreja, a Sojourners rejeitou o anúncio, inspirando mais de 100 publicações em veículos da imprensa e blogs ("A Sojourners não nos representa mais"), além de um abaixo-assinado do Change.org pedindo que a Sojourners modificasse sua posição anti-LGBT.

9. A retórica cristã anti-LGBT de Rick Perry é repudiada com veemência
Em novembro, o candidato à presidência americana Rick Perry lançou um vídeo, ironicamente intitulado "Strong" ("Forte"), numa tentativa equivocada de atrair os cristãos por meio da crítica aos militares LGBTs. O tiro saiu pela culatra, e ele recebe uma saraivada de críticas - sobretudo dos cristãos, ultrajados com seu ponto de vista discriminatório, tornando-se a figura com mais alto índice de desaprovação no YouTube em 2011.

8. O bullying recebe a atenção devida
Embora as consequências trágicas do bullying tenham continuado a se fazer sentir em 2011, as iniciativas e atitudes pró-LGBT e anti-bullying souberam fazer-lhes frente. Quando o Estado de Michigan tentou promulgar uma lei anti-bullying que eximia abusos com justificativa religiosa, deixando aberta uma brecha para o ódio e a violência, vozes mais sensatas acabaram se impondo. Duas incríveis respostas baseadas na fé foram o programa anti-bullying para escolas da organização Lutherans Concerned, chamado "Where All Can Safely Live" ("Onde todos possam viver em segurança"), e o "In Our Shoes" ("No seu lugar"), uma iniciativa para divulgar as histórias de adolescentes vítimas de bullying por meio da vivência de um dia inteiro em seu lugar.

7. A UCC se aproxima da milésima congregação aberta e afirmativa
A UCC, United Church of Christ ("Igreja Unida de Cristo"), há muito uma organização de destaque na cristandade inclusiva (que ordenou um pastor abertamente gay 1972 e manifestou seu apoio à igualdade matrimonial em 2005), acolheu sua 971ª congregação "aberta e afirmativa" em outubro e se aproximou da meta de 1.000 congregações ainda no primeiro semestre de 2012.

6. Coalizão LGBT realiza encontro histórico com a Southern Baptist Convention
A Association of Welcoming and Affirming Baptists realizou um encontro pioneiro e sem precedentes entre uma coalizão de ativistas seculares e religiosos e a Southern Baptist Convention, apresentando um abaixo-assinado com mais de 10 mil assinaturas solicitando que a SBC pedisse desculpas pelos males que possam ter causado à comunidade LGBT.

5. Ativistas metodistas adotam a igualdade LGBT como meta central
Houve um furacão de ativismo pela inclusão LGBT na United Methodist Church em 2011: do apoio maciço à Rev. Amy DeLong quando ela foi levada a julgamento (e absolvida) pela realização de um matrimônio homoafetivo aos 900 metodistas dos estados de Nova York e Connecticut que se organizaram para tornar o casamento acessível a todos, passando pelos agora mais de 1.000 clérigos da UMC de todos os EUA que se comprometeram a criar um "Altar para todos" (Altar for All) e a casar ou dar bênçãos a casais do mesmo sexo. Tal movimentação está preparando o terreno para a Conferência Geral da UMC em 2012, na qual os ativistas esperam que seus esforços resultem em uma política denominacional mais inclusiva para os LGBTs.

4. A Igreja Presbiteriana dos EUA aprova a ordenação para LGBTs
Em maio, após anos de luta, a Igreja Presbiteriana dos EUA ratificou a Emenda 10-A, uma mudança constitucional histórica que permite que pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneras sejam ordenadas na denominação. Em outubro, o Rev. Scott Anderson tornou-se a primeira pessoa abertamente LGBT a ser ordenada dentro da nova política.

3. O Don't Ask, Don't Tell é página virada
Em setembro, o veto dos militares a membros gays e lésbicas finalmente tornou-se uma página virada, possibilitando que os soldados LGBT possam servir abertamente, com a dignidade e respeito que merecem, e (espera-se) abrindo as portas para que o país finalmente corrija as centenas de outras desigualdades jurídicas e políticas ainda enfrentadas pelos LGBTs em seu dia-a-dia.

2. O estado de Nova York aprova a Igualdade Matrimonial
Em junho, Nova York tornou-se o sexto estado (mais o Distrito de Colúmbia) a reconhecer a igualdade matrimonial, uma vitória que mais que dobrou a porcentagem de cidadãos americanos vivendo em estados que lhes asseguram esse direito fundamental, e que deve boa parte de seu êxito ao ativismo incansável de ativistas movidos pela fé, inclusive mais de 700 líderes leigos e religiosos que apoiaram a lei ativamente.

1. O Departamento de Estado americano se compromete a promover a igualdade LGBT em todo o mundo
No começo de dezembro, num discurso arrebatador na ONU, a Secretária de Estado Hillary Clinton anunciou a intenção do governo dos EUA de combater ativamente as violações dos direitos humanos dos LGBTs. Abordando uma série de argumentos habitualmente utilizados para renegar os direitos LGBT, inclusive de ordem religiosa, Hillary Clinton assinalou com coragem para o mundo inteiro que "nenhuma prática ou tradição pode se antepor aos direitos humanos que pertencem a todos nós". Com efeito, ela defendeu eloquentemente que as tradições religiosas podem e devem ser usadas como "fontes de compaixão e inspiração para todos os seres humanos".

- Joseph Ward III, Diretor da Believe Out Loud
Fonte: The Huffington Post

domingo, 25 de dezembro de 2011

A humanidade de Deus e a divindade do Homem

Imagem daqui

Natal é, pois, uma questão de nascimento: a luz, um mundo novo, o Cristo ressuscitado, o nascimento de Deus. Para nós cristãos, Natal é tudo isso... todos esses nascimentos... Mas, de fato, que mensagens podemos reter nesta festa de Natal de 2011?

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do Domingo da Natividade do Senhor (24-25 de dezembro de 2011). A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências Bíblicas:
Noite de Natal:
1ª leitura: Is 9, 1-6
Evangelho: Lc 2, 1-14

Dia de Natal:
1ª leitura: Is 52, 7-10
Evangelho: Jo 1, 1-18

Em cada ano, no mês de dezembro, nós nos preparamos para a festa de Natal. Decoram-se nossas casas, iluminam-se os quarteirões, ouve-se na rádio a música de Natal, vai-se às lojas, compram-se presentes, fazem-se festas no local de trabalho, escrevem-se votos, compartilham-se fantasias de Papai Noel, cestas de Natal, participa-se da Missa, tem-se o coração em festa, fica-se mais sensível à família, à amizade, à pobreza, à paz e ao amor. Natal é a ocasião das partilhas, dos perdões, das reconciliações, das trocas de todo tipo. Isso deveria ser Natal todos os dias! Natal é para todos, pois todo o mundo encontra aí sua parte. Seja-se crente ou não ou ainda de diversas religiões, no Natal pode-se celebrar qualquer coisa.

A origem desta festa é inicialmente natural e pagã. Quer se queira ou não, nesta época do ano, no solstício do inverno, tem-se a impressão que a noite leva vantagem sobre o dia, segundo o eixo de rotação de nossa boa e velha terra. É por isso que, no Império Romano, tinha-se o hábito de celebrar o sol nascente, o solis invecti, na noite de 24 a 25 de dezembro, para significar o renascimento da luz, já que os dias começam a se alongar, e isso até o solstício do verão. Natal é, pois, uma questão de nascimento: a luz, um mundo novo, o Cristo ressuscitado, o nascimento de Deus.

Para nós cristãos, Natal é tudo isso... todos esses nascimentos... Mas, de fato, que mensagens podemos reter nesta festa de Natal de 2011?

1. A luz

“O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Para nós cristãos, esta luz não é o sol, é o Cristo da Páscoa que vem transformar nossas vidas ainda hoje. Ele é a luz sobre a estrada; ele é o sol de nossas vidas. Em seus respectivos evangelhos, Mateus e Lucas compuseram um relato de nascimento para aquele que se tornou Cristo, Senhor, Salvador na Páscoa.

Mas, atenção! Mateus e Lucas não contam o nascimento de Jesus de Nazaré; eles nada sabem a respeito. Em vez disso, o que eles contam é o nascimento do Cristo ressuscitado que foi, segundo a expressão de Paulo, o “primogênito dentre os mortos” (Cl 1, 18). Então, a festa de Natal nasceu após a Páscoa. Foi preciso que Jesus ressuscitasse para que se pudesse celebrar seu nascimento... E, com seu nascimento, ocorre ao mesmo tempo o nascimento de um mundo novo, iniciado na Páscoa e que continua hoje, através dos cristãos de todos os tempos. Em cada ano somos convidados a fazer nascer esta luz em nós e em torno de nós, para expulsar todas as formas de trevas de nossas existências que ainda subsistem hoje.

2. Deus e o Homem

Santo Irineu dizia: “Deus se fez homem para o que o Homem se torne Deus”. A história de Natal é de Deus que vem ao encontro das mulheres e dos homens de todas as épocas para divinizá-los, isto é, ensiná-los a serem mais humanos pela acolhida, pela abertura, pelo respeito de suas diferenças, pela restauração da justiça, da dignidade, da igualdade para todos, pela partilha de suas riquezas, pelo amor incondicional e pelo cuidado dos pobres, dos machucados da vida e dos mais desamparados.

Não é por nada que São Lucas faz nascer o Cristo numa imensa pobreza: num menino, numa criança, em primeiro lugar, com toda a vulnerabilidade, a fraqueza e a fragilidade que comporta esta etapa da vida... Porém, mais do que isso, um bebê pobre, saído de uma família não convencional, que nasce numa manjedoura de animais, porque demasiado pobre para nascer em outro lugar. Além disso, seu nascimento é anunciado em primeiro lugar aos pastores, os excluídos, os marginais, os desprezados da época.

Se não há aí uma mensagem do evangelista, de que o próprio Deus é pobre e que ele escolheu seu campo, o campo dos excluídos, dos rejeitados, dos desprezados da sociedade para nascer, eu me pergunto: O que realmente significa essa história contada por Lucas? E a mensagem que daí decorre é que o mundo novo, que começou na manhã da Páscoa, só pode se realizar se este mundo for construído sobre a dignidade, a justiça e a igualdade das pessoas, seja qual for seu status social, seu sexo, sua religião e sua cultura. Não há aí um olhar a todos os Indignados da terra que se manifestam ao mundo de hoje?

Que não venham me dizer que o Evangelho não é atual! No fundo, são Lucas nos diz que a construção de um mundo melhor não é somente um voto, um desejo piedoso ou um sonho; é uma realidade começada há mais de dois mil anos com o nascimento do Cristo e que deve prosseguir hoje; caso contrário, o Cristo não pode ter nascido... Isso quer dizer que hoje, em nosso mundo, em nossa sociedade, em nossa Igreja, não se pode celebrar o Natal caso se persista em discriminar as mulheres, os pobres, os homossexuais, os divorciados-redesposados, as mulheres que tiveram um aborto, os esquecidos e os feridos da vida.

Como cristãos, todos e todas temos uma responsabilidade. O início do evangelho de João, que se tem na manhã de Natal, nos diz que o Cristo é o logos, o Verbo, a Palavra de Deus, que esta Palavra se tornou humana e que ela é transportada por aqueles e aquelas que a receberam e que creem no Cristo (Jo 1,12). E aí o versículo seguinte é de uma importância capital: “Estes foram gerados não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,13). Isso quer dizer que do Cristo ressuscitado se é porta-voz, porta-voz de Deus. Que responsabilidade!

3. Uma liberdade responsável

O Cristo de Natal nasce para libertar-nos. Ele nos liberta das trevas que frequentemente se manifestam pela opressão, o ódio, o desprezo, a rejeição, a exclusão, a injustiça, as desigualdades, etc. O Cristo também nos liberta de uma religião opressora, legalista e injusta que procura destruir o cristianismo, entupindo-o com leis e regras discrimatórias, e que quer amordaçar Deus controlando-o e recusando-lhe seu direito de palavra às mulheres e aos homens de hoje.

Os fiéis e os cristãos que tomaram distância em relação à Igreja, não é a Cristo que eles rejeitam, mas à instituição que pretende representá-lo. As pessoas não se tornaram anticristãs; pelo contrário, nossos modos de viver sempre refletem os valores cristãos fundamentais: a justiça, a liberdade, a igualdade, a dignidade das pessoas. O que as pessoas rejeitam são os gurus, os aiatolás, os ditadores religiosos que creem deter a verdade sobre Deus e sobre o mundo e que esmagam os fiéis com interditos, regras e leis que convidam à intolerância, ao ódio e ao desprezo da pessoa humana.

Na história humana, Deus se revela como um Deus de Liberdade... uma liberdade responsável. Ser livre não é fazer não importa o que, nem importa quando; pelo contrário, ser livre é ser exigente. Isso supõe uma aprendizagem no sentido de se viver juntos, tendo em conta os outros, e isso se aprende pela educação. Quando há leis ou interditos com ameaças punitivas conservam-se simplesmente as pessoas no medo de serem descobertas numa falta e isso mantém o infantilismo e a não responsabilidade. Ensinando às pessoas a se tornarem responsáveis para salvaguardar seus valores, para serem felizes, as leis se tornam caducas e inúteis. Não necessito de uma lei sobre o homicídio para não matar alguém. Aprendi a me respeitar e a respeitar aos outros. E, quando se produzem ocorrências trágicas e infelizes, não são as leis e as punições que conseguem evitá-las.... Mas é pela prevenção, pela reabilitação, pela responsabilização que se pode esperar mudar as coisas.

Concluindo, pode-se esperar celebrar o Natal neste ano? Creio que sim, se cremos verdadeiramente que o Cristo só pode nascer em nós através de nós. Desejo a todos esta Liberdade responsável, sendo nós mais humanos, a fim de nos tornarmos mais divinos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Questão de ética

Foto: Kyle Bean

“A questão que se levanta é dramática: sobre que fundamentos devemos edificar a nova era histórica, que está a nascer das grandiosas transformações do século XX? É suficiente confiar na revolução tecnológica, hoje em acto, que parece respeitar unicamente os critérios da produtividade e da eficácia, sem fazer referência à dimensão espiritual do indivíduo ou a quaisquer valores éticos universalmente compartilhados? É justo contentar-se com respostas provisórias aos problemas de fundo, abandonando a vida aos impulsos do instinto, às sensações efémeras ou aos entusiasmos passageiros? Esta interrogação volta a ressoar: sobre que fundamentos e que certezas deveremos edificar as nossas vidas e a existência da comunidade a que pertencemos?"

- João Paulo II, na Jornada Mundial da Juventude de 2002, dirigindo-se a jovens do mundo inteiro em sua última viagem às Américas.

Vale muito a pena ler o artigo completo do qual a citação acima foi extraída, postado pelo historiador Leandro Cruz em seu excelente blog Viagem no Tempo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Artesão do desarmamento

Foto: Edu Marin

Não sou eu quem determina o destino do mundo.
Não sou eu quem começa as guerras.

Apenas sigo o meu caminho. Faço o meu trabalho.
Nada faço de errado.
Mas não sei.

E essa é a questão,
que sempre me atormenta.
Não quem determina,
e no entanto nada faço de mal.

Faço girar parafusos pequeninos com os meus dedos,
fabricando componentes de armas
que nos ameaçam a todos.
E ainda assim não sou eu quem determina
o destino que aparece diante de nós.

Eu poderia criar outro destino,
tornando o mundo seguro para todos aqueles
que anseiam viver a sua vida.

E então eu saberia
a razão sagrada,
o significado brilhante
da nossa existência.

Ninguém então poderia destruir-nos
com as suas ações
ou iludir-nos
com as suas palavras.

O mundo que eu ajudo a fazer
não é um mundo bom.
No entanto eu não sou mau.
E não fui eu que o inventei.
Mas será isso suficiente?

- Karol Wojtyla, poeta, ator e dramaturgo polonês, futuro papa João Paulo II

Vale muito a pena ler o artigo completo do qual a poesia acima foi extraída, postado pelo historiador Leandro Cruz em seu excelente blog Viagem no Tempo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Novo olhar sobre o universo


A visão que temos do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo como entendemos Deus influi em nossa visão da vida e do mundo. Ao longo de 1.000 anos predominou, no Ocidente, a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém celestial.

Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta. Qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o Sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.

Agora, a modernidade cede lugar à pós-modernidade. Mais uma vez, a nossa visão do Universo sofre radicais mudanças. Newton cede lugar a Einstein, e o advento da astrofísica e da física quântica nos obrigam a encarar o Universo de modo diferente e, portanto, também a ideia de Deus.

Se na Idade Média Deus habitava “lá em cima” e, na Idade Moderna, “aqui embaixo”, dentro do coração humano, agora conhecemos melhor o que o apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar: "Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'" (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).

A física quântica, que penetra a intimidade do átomo e descreve a dança das partículas subatômicas, nos ensina que toda a matéria, em todo o Universo, não passa de energia condensada. No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas. Essa imprevisibilidade só predomina em duas instâncias do Universo: no interior do átomo e na liberdade humana.

Em que a física quântica modifica nossa visão do Universo? Ela nos livra dos conceitos de Newton, de que o Universo é um grande relógio montado pelo divino Relojoeiro e cujo funcionamento pode ser bem conhecido estudando cada uma de suas peças. A física quântica ensina que não há o sujeito observador (o ser humano) frente ao objeto observado (o Universo). Tudo está intimamente interligado. O bater de asas de uma borboleta no Japão desencadeia uma tempestade na América do Sul... Nosso modo de examinar as partículas que se movem no interior do átomo interfere no percurso delas...

Tudo que existe coexiste, subsiste, pré-existe, e há uma inseparável interação entre o ser humano e a natureza. O que fazemos à Terra provoca uma reação da parte dela. Não estamos acima dela, somos parte e resultado dela; ela é Pacha Mama ou, como diziam os antigos gregos, Gaia, um ser vivo. Deveríamos manter com ela uma relação inteligente de sustentabilidade.

Esse novo paradigma científico nos permite contemplar o Universo com novos olhos. Nem tudo é Deus, mas Deus se revela em tudo. Nossa visão religiosa é agora panenteísta. Não confundir com panteísta. O panteísmo diz que todas as coisas são Deus. O panenteísmo, que Deus está em todas as coisas. “Nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disse Paulo. E Jesus nos ensina que Deus é amor, essa energia que atrai todas as coisas, desde as moléculas que estruturam uma pedra às pessoas que comungam um projeto de vida.

Como dizia Teilhard de Chardin, no amor tudo converge, de átomos, moléculas e células que formam os tecidos e órgãos do nosso corpo às galáxias que se aglomeram múltiplas nesta nossa Casa Comum que chamamos, não de Pluriverso, mas de Universo.

- Frei Betto
Reproduzido via Amai-vos

sábado, 10 de dezembro de 2011

Por uma cultura da vida nos perigos do tempo presente


Hoje, nos confrontamos com uma nova religião da morte. Uma vida não mais amada está pronta para matar e para ser morta.

A opinião é do teólogo alemão Jürgen Moltmann, em conferência apresentada durante a cerimônia de abertura do sétimo Fórum de Pequim, organizado entre os dias 5 e 7 de novembro de 2010 pela Universidade de Pequim.

Com a participação de mais de 350 estudiosos representantes de 50 países, o tema do fórum foi “Harmonia das civilizações e prosperidade para todos. Compromissos e responsabilidades para um mundo melhor”.

O artigo foi publicado no blog da Editora Queriniana, 17-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Conferência de abertura do Fórum de Pequim, China, novembro de 2010

A minha intervenção será sobre o que está me ocupando há muito tempo:
  • uma cultura da vida mais forte do que o terror da morte;
  • um amor à vida que supera as forças destrutivas presentes hoje no mundo.
E isso porque acredito firmemente que "onde há perigo é, cresce também aquilo que salva" [1].

Vou começar com alguns dos perigos do nosso tempo na primeira parte, às quais vou responder na segunda parte com as dimensões de um mundo vivível e a vitalidade do amor.

I. O terror hoje de uma morte universal

1. A vida humana atualmente está em perigo, e não só porque a nossa existência é mortal. De fato, sempre foi assim. Mas está em perigo porque ela já não é mais amada, afirmada e acolhida. O poeta francês Albert Camus, depois da Segunda Guerra Mundial, afirmava: "Este é o mistério da Europa: a vida não é mais amada". Aqueles que sofreram naquela guerra homicida sabe o que ele queria dizer. Uma vida não mais amada está pronta para matar e para ser morta.

Hoje, nos confrontamos com uma nova religião da morte. Não quero dizer com isso a religião do Islã, mas sim a ideologia do terror tão típica do século XXI: "Os seus jovens amam a vida", assim se expressou o mulá talibã Omar, no Afeganistão, "os nossos amam a morte". Depois do assassinato em massa de Madri, no dia 11 de marco de 2004, foram encontradas cartas com a mesma mensagem: "Vocês amam a vida; nós, a morte". Essa parece ser a ideologia do terrorista moderna dos assassinos suicidas. Lembro que ainda 60 anos atrás, na Europa, houve um evento semelhante: "Viva la muerte", gritou um velho general fascista durante a Guerra Civil. E não se pode dissuadir um assassino suicida: ele rompeu o temor da morte, não ama mais a vida e quer morrer junto a suas vítimas.

2. Além dessa superfície de terror, encontra-se um perigo maior. Os tratados de paz e pela não proliferação das armas entre as nações têm um pressuposto tácito: a vontade de sobrevivência, a vontade de viver de ambos os lados. Mas o que acontece se um parceiro não quer sobreviver, mas pretende morrer, e se, com essa morte, ele pode destruir, como um todo, esse mundo "ímpio" e "sem Deus"? O que acontece quando um país que possui armas nucleares está obcecado por essa "religião da morte" e se torna o agente suicida do extermínio coletivo do resto do mundo, só porque está empurrado contra um canto e renuncia a todas as formas de esperança? A dissuasão só funciona se todas as partes têm a vontade de viver e querem sobreviver.

A sedução de destruir este mundo, que é percebido como velho, ímpio ou ateu, pode crescer em um desejo de morte universal. Se queremos sacrificar nossa própria vida, que parece ser inútil e sem significado, podemos destruir este mundo hostil por inteiro. Essa "religião da morte" apocalíptica é o verdadeiro inimigo da vontade de viver, do amor pela vida e da afirmação do ser.

3. Além dos perigos que existem hoje para a vida comum das nações em nível político, existe uma ameaça constante de data mais antiga: a nuclear. A primeira bomba atômica sobre Hiroshima, em agosto de 1945, marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e foi, ao mesmo tempo, o início do fim para todo o gênero humano, ou seja, a idade em que é possível, a qualquer momento, o fim da humanidade. Nenhum ser humano é capaz de sobreviver ao "inverno nuclear" que se seguiria a uma grande guerra atômica. Lembrem-se: o gênero humano esteve à beira de um evento semelhante há mais de 40 anos durante a Guerra Fria. E é verdade que o conflito aberto não é mais muito provável, já que tal confronto cessou em 1990. Vivemos em um tempo de relativa paz, mas ainda há tantas bombas atômicas e de hidrogênio armazenadas nos arsenais das grandes nações (e até mesmo das mais pequenas), capazes de autodestruir a humanidade. Sakharov chamou isso de "suicídio coletivo": "Quem atira primeiro morre por segundo" – essa foi, há mais de 40 anos, a chamada "destruição recíproca assegurada".

Muitas pessoas haviam se esquecido da ameaça atômica até que o presidente Obama despertou no ano passado, em Praga, o velho sonho de um "mundo sem bombas atômicas" e empreendeu novas negociações com a Rússia para o desarmamento. Então, de repente, muito de nós se deram conta novamente do destino que paira como uma nuvem escura sobre as nações. Insolitamente, tem-se a percepção explícita da presença da ameaça nuclear naquilo que os psicanalistas norte-americanos chamam de "entorpecimento nuclear". Reprimimos a ansiedade, procuramos esquecer essa ameaça e vivemos como se o perigo não existisse, embora ele corroa o nosso subconsciente, desgastando o nosso amor pela vida.

4. Diferentemente da ameaça nuclear, as mudanças climáticas não são apenas uma ameaça, mas já uma realidade que está surgindo em toda parte. As pessoas sabem disso porque todos podem vê-las, percebê-las e, às vezes, sentir o seu odor.

A destruição do meio ambiente que causamos por meio do sistema econômico global de hoje, indubitavelmente, danificará seriamente a sobrevivência da humanidade no século XXI. A sociedade industrial moderna desequilibrou o equilíbrio do organismo Terra e deu início à morte ecológica universal, a menos que se mude o modo em que as coisas se desenvolvem. Os cientistas mostraram que as emissões de dióxido de carbono e de gás metano destroem o nível de ozônio da atmosfera, enquanto o uso dos fertilizantes químicos e de uma multidão de pesticidas torna o solo estéril. Eles demonstraram que o clima global já está mudando agora, hoje, tanto que experimentamos um aumento de catástrofes "naturais", como secas e inundações, que não são naturais, mas sim causadas pela mão do homem. O gelo do Ártico e da Antártida derrete, e, nos próximos séculos – dizem-nos os cientistas –, cidades costeiras como Hamburgo, minha cidade, e regiões como Bangladesh e muitas ilhas dos mares do Sul serão inundadas. Tudo, em todas as formas de vida sobre a Terra, está ameaçado.

A crise ecológica é, em primeiro lugar, causada pela civilização científica e tecnológica ocidental. Isso é verdade.

Mas é um erro pensar que os problemas ambientais são problemas unicamente dos países industriais do Ocidente. Ao contrário, as catástrofes ecológicas estão agravando ainda mais os problemas econômicos e sociais já existentes nos países do Terceiro Mundo. Indira Gandhi tinha razão quando dizia que "a pobreza é a pior poluição".

Todos conhecemos essa realidade, mas parecemos paralisados. Não fazemos aquilo que sabemos que é necessário para impedir as piores consequências. Essa paralisia também pode ser definida de "aturdimento ecológico". Nada acelera uma catástrofe iminente como a paralisia do fazer.

Não sabemos se o gênero humano vai sobreviver ao destino que ele criou. E isso é bom. Porque, se soubéssemos que não sobreviveremos, não faríamos nada. Se soubéssemos que existem possibilidades, igualmente não faríamos nada. Só se o futuro for aberto a ambas as soluções, somos obrigados a fazer hoje o que é necessário para sobreviver amanhã. Como não somos capazes de saber se o gênero humano vai sobreviver, devemos agir hoje como se o futuro da vida dependesse de nós, e devemos, ao mesmo tempo, confiar que nós e os nossos filhos faremos a vida e a sobrevivência vencerem.

5. Mas deve haver uma raça humana ou somos só um acidente da natureza? Atualmente, mais de seis bilhões de seres humanos vivem na terra, e esse número deverá crescer rapidamente. Mas a Terra também poderia não ser habitada. Ela viveu sem seres humanos por milhões de anos e pode sobreviver talvez por milhões de anos depois que a raça humana desapareça. Tudo isso deixa o campo aberto para a pergunta última e mais crucial:

Nós, seres humanos, estamos sobre a terra só por acaso, ou faz parte da evolução da vida que os homens deviam vir? Se a natureza mostrasse um "forte princípio antrópico", poderíamos nos sentir "em casa no universo" (Stuart Kauffman). Se isso não pode ser provado, o universo não dá nenhuma resposta à questão existencial da humanidade. Nem as estrelas, nem os nossos genes nos dizem se um ser humano deve existir ou não. Mas como podemos amar a vida e afirmar o nosso existir humano se a humanidade é só um acidente da natureza e, como tal, supérfluo e irrelevante para o universo, talvez só um erro dela? Há um "dever ser", como nos diz Hans Jonas? Existe qualquer razão para amar a vida e afirmar o ser humano? Se não há respostas, toda cultura da vida é incerta em seus fundamentos e está construída sobre bases precárias.

II. Uma cultura da vida deve ser uma cultura de vida comum entre os humanos e o mundo natural

1. Podemos "viver com a bomba"? Acho que é possível crescer em sabedoria, mas como?

O sonho do presidente Obama de um "mundo sem armas nucleares" é justo, mas continua sendo um sonho. Jamais a humanidade será capaz de enfrentar aquilo que agora ela consegue fazer. Qualquer pessoa que tenha aprendido a fórmula da fissão atômica não a esquece jamais. Desde Hiroshima, em 1945, o gênero humano perdeu a sua "inocência atômica".

Mas o prazo atômico é também a primeira idade comum das nações. Todos os países se encontram no mesmo barco. Todos nós compartilhamos a mesma ameaça, cada um de nós pode se tornar uma vítima. Nessa nova situação, a humanidade deve se organizar como sujeito da sobrevivência comum. A criação das Nações Unidas em 1946 foi um primeiro passo. Os acordos de segurança internacionais vão garantir a paz e nos darão tempo para viver, e um dia, talvez, a unificação transnacional entre humanos manterá sob controle os meios de destruição nuclear. A ciência nos diz como adquirir poder sobre a natureza; a sabedoria nos ensina a controlar o nosso poder. O desenvolvimento da sabedoria pública e política é tão importante quanto o progresso científico.

A primeira lição a ser aprendida é esta: a dissuasão não assegura mais a paz. Só a justiça salva a paz entre as nações. Não há outro caminho para alcançar a paz no mundo se não houver ações e equilíbrios harmônicos entre os vários interesses. A paz não é a ausência da violência, mas sim a presença da justiça. A paz é um processo, não uma propriedade. Ela é um caminho comum de redução da violência e de construção da justiça nas relações sociais e globais do gênero humano.

A paz dentro das nossas nações é uma questão de justiça social. A alternativa à pobreza não é a propriedade. A alternativa à pobreza e à propriedade é a comunidade, e o espírito de comunidade é a solidariedade e a ajuda recíproca. Esse é, em síntese, o ensinamento moral das religiões mundiais.

2. O "respeito pela Vida"

Se, em um sistema de vida, que liga uma sociedade humana com o ambiente natural, se verifica uma crise – a morte da natureza –, tem-se também uma crise de todo o sistema vital. Aquela que hoje chamamos de "crise ecológica" não é simplesmente uma crise do nosso ambiente, mas é uma crise total do nosso sistema de vida e não pode ser resolvida apenas com os instrumentos tecnológicos. Ela pede uma mudança do sistema e uma mudança dos valores e das convicções-guia da nossa sociedade. As sociedades modernas industriais não estão mais em harmonia com os ciclos e os ritmos da terra como ocorria nas sociedades agrícolas pré-modernas. As sociedades da modernidade estão programadas sobre o progresso e a expansão dos projetos humanos. Reduzimos a natureza da terra a "nosso ambiente" e destruímos o espaço vital das outras formas de vida. Ano após ano, centenas delas morrem. Nada é mais destrutivo do que reduzir a natureza a ambiente do homem.

Precisamos de uma mudança do domínio moderno da natureza a um "respeito pela vida", como Albert Schweitzer e o Tao Te Ching nos ensinam. Isto é, respeito por cada forma única de vida e pela nossa vida comum no mundo humano e natural e pela grande comunidade de todos os seres vivos. Um biocentrismo pós-moderno substituirá o antropocentrismo ocidental e moderno. Naturalmente, não se pode voltar a uma orientação ao “kósmos” do mundo rural antigo e pré-moderno, mas podemos dar início a uma necessária transformação ecológica da sociedade industrial. Para isso, devemos – acho – mudar o nosso conceito de tempo. A concepção linear de progresso no consumo e no descarte da produção deve abrir caminho para uma concepção circular de tempo de "energia renovável" e de "economia da reciclagem". Só as circulações da vida podem dar estabilidade ao nosso mundo de progresso. Mas a economia da reciclagem ainda é a economia dos pobres.

A Carta Mundial para a Natureza, aprovada no dia 28 de outubro de 1982 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, vai neste sentido:
A humanidade faz parte da natureza [...] Toda forma de vida é única e merece ser respeitada, qualquer que seja a sua utilidade para o homem [2].
Nós fazemos "parte da natureza" e só podemos sobreviver, portanto, preservando a integridade da natureza.

3. A vida do amor em tempos de perigo

O ser humano não é apenas um dom da natureza, mas é também a tarefa do ser humano. Aceitar isso em tempos de terror requer uma grande coragem de viver. A vida deve ser afirmada contra o terror e a ameaça. Em palavras simples: a vida deve ser vivida; a vida amada, a vida comum no mundo humano e no natural é mais forte do que a ameaça da aniquilação universal. Vejo três fatores maiores dessa coragem de existir e da coragem de viver:

a) A vida humana deve ser afirmada, porque também pode ser negada. Como todos sabem, uma criança só pode crescer em uma atmosfera de confiança. Em uma atmosfera de rejeição, a criança desapareceria na alma e no corpo. Ela aprende a se aceitar quando é aceita. O que é verdade para ela vale para os seres humanos sempre: onde somos acolhidos, apreciados e afirmados, somos motivados a viver; onde percebemos um mundo hostil de desprezo e de rejeição, nos retiraremos em nós mesmos e ficamos na defensiva. Precisamos de uma forte afirmação de vida que possa enfrentar tais negações. Cada sim à vida é mais forte do que toda negação da vida, porque pode criar algo novo que os resíduos não podem fazer.

b) A vida humana é uma vida de participação e de partilha. Estamos vivos onde sentimos a simpatia dos outros e permanecemos vivos onde compartilhamos a nossa vida com outros. Na medida em que temos interesses, estamos vivos. É fácil fazer a contraprova: a indiferença leva à apatia. A apatia total é uma vida absolutamente não vivida; é a morte da alma antes da morte física.

c) A vida humana é viva se for busca da felicidade. A vida humana ganha em vitalidade com o seu lutar inato. A "busca da felicidade" é, desde os tempos da Declaração Americana de Independência, um direito humano essencial. Buscar a própria felicidade não é só um direito humano privado, mas é também um direito público. Falamos de "vida boa" ou de uma "vida significativa" e, com isso, queremos dizer uma vida que vive suas máximas potencialidades na vida pública de uma sociedade boa e harmoniosa, como nos disse Confúcio.

Quando levamos a sério essa "busca da felicidade", encontramos o infortúnio das massas pobres e começamos a sofrer com aqueles aos quais cabe esse destino. A compaixão com a qual tomamos parte na sua paixão pela vida é o reverso da busca da felicidade. Quanto mais nos tornamos capazes de felicidade na vida, mais somos capazes de sentir dor e compaixão. Essa é a grande dialética da vida humana.

Mas "onde há perigo, cresce também aquilo que salva". Como cresce a salvação? Tentei mostrar como o Ser pode levar consigo o não-ser e como a vida pode superar a morte mediante o amor e como as contradições mortais podem se transformar em diferenças produtivas e em formas superiores de vida e de comunidade, ou – como disse o professor Tu Weiming – "enquanto a harmonia reconhece o conflito e a contradição, busca transformar a tensão destrutiva em tensão criativa, de modo que uma relação estressante pode ser regenerada em uma síntese superior".

Lembro-me da famosa afirmação do filósofo alemão Friedrich Hegel, amigo de Hölderlin desde seus tempos de estudante na Universidade de Tübingen. Ele escreveu a primeira afirmação do pensamento dialético na sua Fenomenologia do Espírito de 1807:
[A vida do Espírito, ao contrário, não é] aquela que se enche de horror perante a morte e se preserva íntegra da decadência e da devastação, mas é aquela vida que suporta a morte e nela se mantém [3].
Uma vida humana plenamente amada e vivida supera as contradições do terror e da ameaça. Toda verdadeira espiritualidade religiosa revela o grande e divino Sim à vida, Sim à Terra e Sim ao futuro, apesar dos perigos.

Notas:
1 - Patmos, in F. Hölderlin, Poesie, Ed. Rizzoli, Milão, 2001, p.489.
2 - http://nadiadesantis.com/leggi-e-trattati/la-carta-mondiale-della-natura.html
3 - Bompiani, Milão 2000, 87 (Prefácio 27).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Espiritualidade e religião‏

Ilustração: Minjae Lee

Espiritualidade e religião se complementam mas não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser humano irrompeu na natureza, há mais de 200 mil anos. As religiões são recentes, não ultrapassam 8 mil anos de existência. A religião é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há relações amorosas sem se constituírem em família. Do mesmo modo, há quem cultive sua espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo, uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o “toque” divino.

A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de aproximação e respeito. Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem.

A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas sem vida.

Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente à religião.

Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião esclerosada de seu tempo, e vivencia e anuncia uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o cristianismo.

Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia espiritual.

O fiel que pratica todos os ritos de sua religião, acata os mandamentos e paga o dízimo, e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor. O apóstolo Paulo descreve magistralmente o que é espiritualidade no capítulo 13 da Primeira carta aos coríntios. E Jesus a exemplifica na parábola do bom samaritano (Lucas 10, 25-37), e faz uma crítica mordaz à religião em Mateus 23.

- Frei Betto
Reproduzido via Conteúdo Livre

Quem mostra o amor de Jesus?

Imagem do post original

Não acreditamos que, por ser gay, alguém será necessariamente, a priori, pior ou melhor do que os demais, sob qualquer aspecto. Do mesmo modo, não acreditamos que ser cristão, ou especificamente católico, necessariamente tornará alguém melhor do que os outros. Ser cristão (católico ou não) constitui, a nosso ver, antes de tudo um compromisso - um compromisso com uma determinada ética, com a busca de superar as dificuldades e limitações tão demasiadamente humanas e tentar, a cada dia mais, abrir-se para o outro, olhá-lo com os olhos de compaixão e coração misericordioso que só a graça de Cristo pode nos dar, quando caminhamos com Ele. Ser cristão é, para nós, ser plenamente humano, reconhecendo as limitações inerentes à nossa humanidade e buscando abrir-se e entregar-se à graça de Cristo para colocar nossas capacidades e talentos a serviço da construção de um mundo mais amoroso e fraterno, um mundo plural, onde haja espaço para o respeito às diferenças e onde cada um tenha lugar para ser tal como é.

Ser cristão, pois, a nosso ver não constitui garantia de salvação. Pelo contrário, é um compromisso com um permanente estado de conversão, que exige de nós atenção redobrada com as tentações do caminho, sobretudo a acomodação, a passividade, a soberba dos que se creem "certos", salvos e em segurança; um estado de conversão que nos mantenha vigilantes para os sinais de Deus Pai que zela por nós e Sua voz que fala no silêncio, no mais íntimo dos nossos corações, e nos mantenha a caminho, procurando sempre descobrir novas maneiras de em tudo amar e servir.

Daí o alerta de que é pelos frutos que se conhece a videira: não basta dizer "Senhor, Senhor", como advertem os evangelistas; é nas obras que se traduz o serviço a Cristo. Daí se entende que a Graça possa tocar a todos, crentes ou não crentes, filhos de Deus de todos os povos e nações - a Graça está com aqueles que amam, aqueles que se entregam à vida de coração aberto e inundado pela alegria e compaixão que são sinais inequívocos da presença de Cristo.

É sob essa ótica que reproduzimos o texto abaixo, de autoria do americano Philip Yancey, autor americano de vários
best sellers cristãos que conhecemos através do ótimo blog Teologia Inclusiva, do Alexandre Feitosa.

Eu estava em Washington num dia em que 300 mil ativistas de direitos dos homossexuais se reuniram lá para uma manifestação. Era outubro, o dia estava muito frio, e nuvens cinzentas derramavam a chuva sobre os manifestantes que desfilavam pelas ruas da capital do país. Enquanto olhava a movimentação, na calçada bem em frente à Casa Branca, assisti a um confronto muito notável.

Aproximadamente quarenta policiais, muitos deles a cavalo, formaram um círculo para proteger um pequeno grupo de manifestantes cristãos. Graças aos enormes cartazes alaranjados com ameaças vívidas do fogo do inferno, o pequeno grupo de crentes conseguira atrair a maioria dos fotógrafos da imprensa. Apesar de ser um deles para cada 15 mil homossexuais, gritavam frases inflamadas contra os manifestantes.

O líder gritava ao microfone, mandando que as “bichas” fossem para casa, e os outros o seguiam, repetindo o mesmo grito. Quando se cansaram disto, passaram para “Que vergonha o que você faz!” No intervalo entre os gritos, o líder fazia sermões breves, carregados de enxofre, sobre falsos pastores, lobos em pele de cordeiro, e o fogo mais quente do inferno (que, para ele, estava reservado para os sodomitas e outros pervertidos).

O último insulto do repertório, gritado com mais entusiasmo, foi “Aids, Aids, ela espera por você.” Tanto eu quanto eles acabáramos de ver uma procissão com várias centenas de pessoas com Aids, algumas em cadeiras de rodas, outras com o rosto macilento e encovado como o dos sobreviventes dos campos de concentração e alguns cobertos de feridas vermelhas. Ouvindo os gritos, não conseguia compreender como alguém pudesse desejar esse destino para outro ser humano.

Os manifestantes responderam de formas diversas aos cristãos. Os mais briguentos jogavam beijos ou gritavam de volta: “Fanáticos! Que vergonha vocês são!” Um grupo de lésbicas fez com que membros da imprensa rissem, gritando em uníssono: “Queremos a esposa de vocês!”

Dentre os manifestantes gays, pelo menos 3 mil faziam parte de grupos religiosos: movimento Dignidade Católica, grupo Integridade Episcopal e, até mesmo, alguns mórmons e adventistas do sétimo dia. Mais de mil marchavam sob a bandeira da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), denominação que professa uma teologia bem ortodoxa, exceto quanto à homossexualidade. Este último grupo respondeu de forma tocante aos cristãos cercados por eles: pararam bem firmes, voltaram o rosto para eles, e cantaram algo mais ou menos assim: “Jesus ama vocês, sabemos com certeza, porque a Bíblia assim o diz.”

As fortes ironias presentes naquela cena de confronto me acompanharam até muito tempo depois que saí de Washington. De um lado, os cristãos “justos”, defendendo a pura doutrina (nem mesmo o Conselho Nacional de Igrejas considera a ICM apta a ser aceita como membro). Do outro lado, os “pecadores”, muitos dos quais admitiam abertamente sua prática homossexual. Ainda assim, um lado destilou ódio e o outro cantou o amor de Jesus.

- Philip Yancey
Reproduzido via blog Teologia Inclusiva
In Perguntas que Precisam de Respostas, editora Textus, 2001

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

''Eu ouvi os clamores da Natureza'', diz Deus

Foto: Nick Brandt

"Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!", escreve Antonio Cechin, citando Santo Agostinho.

E Irmão Cechin pergunta: "Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina?"

Segundo ele, "é uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante".

Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, é autor do livro "Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação". Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


Eis que o Natal vem aí!... E vem com força!... Com a força que Deus costuma dar ao evento que acontece ao longo de dois mil e onze anos, sem solução de continuidade.

Mas cadê os profetas?... Cadê os Isaías, Jeremias, Malaquias e tantos outros que anunciaram com grande antecedência, ao longo de todo o Antigo Testamento, a vinda do Deus Messias Salvador?...

Cadê hoje, o tonitruante João Batista, do Novo Testamento, Precursor que vinha logo aí, correndo na frente do cortejo real, gritando aos quatro ventos o nome do Justiceiro que, à semelhança de um foguista, estaria a caminho a fim de limpar a sua eira? Cortaria a árvore seca? Tocaria fogo em toda a planta que não desse frutos, a ponto de assustar a muitos que perguntavam: "E daí?... O que devemos fazer para escapar do flagelo iminente?" a que o Batista respondia: "Quem tem dois pães dê um a quem não tem; e quem tem duas túnicas faça o mesmo?"

Mas cadê mesmo os profetas de hoje? Aqueles que têm como Missão ler os sinais dos tempos para o povo, isto é, clarear os acontecimentos em sua significação mais profunda? Cadê os evangelizadores ou transmissores da Boa Nova?... Cadê os Catequistas da Libertação anunciando que o fim do cativeiro está a caminho, uma vez mais, por ocasião do Natal ano 2011, às portas?

Nos tempos que correm e que são os nossos, na falta de autênticos evangelizadores, o Deus-Amor, o Paizinho dos céus nos envia uma vez mais, o seu Filho muito amado. Em seu infinito amor O envia para um povo cada vez mais surdo e cego, sem olhos para ver e sem ouvidos para ouvir. Por isso mesmo, Ele já não fala mais do mesmo jeito que antigamente quando dizia "Eu ouvi os clamores do meu Povo". Em 2011, Ele fala com mais ênfase: "Meu Povo: Eu hoje estou ouvindo berros que são da Mãe Natureza!"

Não esqueçamos que o único Mestre Jesus de Nazaré, de uma feita, soltou a queixa: “se os profetas deixarem de gritar, as pedras falarão!” Pois não é que vivemos tempos de pedra? Já nos alertava o profeta da cidade de Hipona (norte da África) o bispo Agostinho. Ele vivia nos bons tempos chamados "dos Padres da Igreja", por terem sido fundadores de Comunidades ou Igrejas. Na qualidade de Bom Pastor, Agostinho dizia: "Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!" É que, a respeito dos bons tempos de antigamente, aqueles de Agostinho, dos padres da Igreja, o escritor clássico português, padre Manuel Bernardes, contemporâneo do Concílio de Trento, em seu livro "A Nova Floresta" nos diz: "Antigamente os cálices eram de pau, mas os padres eram de ouro; hoje, os cálices são de ouro e os padres de pau!" Em tempos de pedra, não deveríamos preparar a chegança de Quem prometeu "trocar coração de pedra por coração de carne"?... Substituir ódios e guerras por amor e paz?...

Neste 2011 o Lite-motiv, isto é "o motivo condutor" da Igreja, no Brasil, é a Natureza. O lema que nos ilumina é a frase de São Paulo: "A Natureza geme em dores de parto enquanto espera a manifestação dos filhos de Deus".

Pois não é que domingo passado iniciou o ano litúrgico com o primeiro domingo do advento ou seja, a primeira das quatro semanas que preparam o Natal? Isso aqui em terra, porque da banda dos céus, o que nos veio, exatamente aqui, na região metropolitana, neste início de advento? Nada menos que um imenso toró, com uma ventania de velocidade superior a 100 quilômetros horários, destelhando centenas de casas, derrubando postes elétricos de cimento armado, pondo por terra árvores e muros, abalroando automóveis e provocando outros desastres similares. Até pouco tempo atrás, cataclismos desse tipo aconteciam como verdadeira raridade. Hoje desastres ditos naturais acontecem com sempre maior freqüência com nomes os mais diversos, tais como: tsunamis, tempestades, desmoronamentos, destelhamentos, demolições, vulcões, maremotos, e quejandos outros designativos.

É a Natureza saída das mãos de Deus que não suporta mais tanta agressão por parte dos "filhos de Deus" ingratos e que não tornam Deus manifesto de jeito nenhum. Ela, a Mãe Natureza não consegue mais suportar as agressões que recebe, de quem tem o dever de tratá-la com respeito e cuidados, como merece a obra de arte tecida pelo artista Criador.

Será que em algum lugar desta região metropolitana se estará lendo "o sinal dos tempos" tão claro como o berro que a natureza deu aqui, inteiramente perceptível para nossos olhos e nossos ouvidos, em nome do único Mestre Jesus de Nazaré?... Será que em alguma sala de aula de religião de alguma escola, ou em alguma catequese em âmbito paroquial, algum profeta, algum evangelista, algum catequista da libertação, ou em alguma homilia de missa dominical ter-se-á ligado o berro da natureza com o grande grito do Homem-Deus pregado no Calvário no instante da morte? Grito e berro naquele instante final de Vida do Mestre por excelência, se deram juntos, numa fusão homem-natureza. O primeiro, o Homem, fazendo parte integrante e inseparável da segunda, a Natureza.

Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina? É uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Águas da ética

Fotocolagem: Serge Mendzhiyskogo

Sócrates foi condenado à morte por heresia, como Jesus. Acusaram- no de pregar novos deuses. Tal iluminação não lhe abriu os olhos diante do céu, e sim da Terra. Percebeu não poder deduzir do Olimpo uma ética. Os deuses do Olimpo podiam explicar a origem das coisas, não ditar normas de conduta.

A promiscuidade no Olimpo não convinha traduzir-se em atitudes; assim, a razão conquistou autonomia frente à religião. Em busca de valores capazes de normatizar a convivência humana, Sócrates apontou a nossa caixa de Pandora: a razão.

Se a moral não decorre dos deuses, devemos erigi-la. Em Antígona, peça de Sófocles, em nome de razões de Estado Creonte proibiu Antígona de sepultar seu irmão Polinice. Ela se recusou a obedecer a “leis não escritas imutáveis, que não datam de hoje nem de ontem, que ninguém sabe quando apareceram”. Eis a afirmação da consciência sobre a lei, da cidadania sobre o Estado.

Platão ensinou a discernir realidade e ilusão. Em República, lembrou que, para Trasímaco, a ética de uma sociedade reflete os interesses de quem ali detém o poder. Poder é o direito concedido a um indivíduo ou conquistado por um partido ou classe social de impor a sua vontade aos demais.

Aristóteles nos arrancou do solipsismo ao associar felicidade e política. Mais tarde, Santo Tomás de Aquino, inspirado nele, formulou uma ética política ao priorizar o bem comum e valorizar a soberania popular e a consciência individual como reduto indevassável.

Maquiavel, na contramão, destituiu a política de ética e a reduziu ao jogo de poder.

Para Kant, a grandeza do ser humano reside na ética, na capacidade de se autodeterminar a partir da própria liberdade. Há em nós um senso inato do dever. Não deveríamos deixar de fazer algo por ser pecado, e sim por ser injusto. A ética individual deve se complementar pela ética social, já que não somos um rebanho de indivíduos, mas uma sociedade que exige, à boa convivência, normas e leis e, sobretudo, cooperação de uns com os outros.

Hegel e Marx acentuaram que a liberdade é sempre relacional, consiste na construção de comunhões com a natureza e os nossos semelhantes. Porém, a injustiça torna alguns dessemelhantes.

Nas águas da ética judaico-cristã, Marx ressaltou a irredutível dignidade de cada ser humano e, portanto, o direito à igualdade de oportunidades. Em outras palavras, somos tanto mais livres quanto mais construímos instituições que promovam a felicidade de todos.

A filosofia moderna abriu novo campo de tensão ao frisar que, respeitada a lei, cada um é dono de seu nariz. A privacidade como reino da liberdade total. Deslocou a ética da responsabilidade social (cada um deve preocupar-se com todos) para os direitos individuais (cada um que cuide de si).

Tal distinção ameaça a ética de ceder ao subjetivismo egocêntrico. Tenho direitos, prescritos numa Declaração Universal, mas e os deveres? Que obrigações tenho para com a sociedade em que vivo? O que tenho a ver com o faminto, o excluído e o meio ambiente?

Daí a importância do conceito de cidadania. Os indivíduos são diferentes e, numa sociedade desigual, tratados segundo sua importância na escala social. Já o cidadão, pobre ou rico, é dotado de direitos invioláveis, e está sujeito à lei como todos os demais.

Agora, a humanidade desperta para os efeitos nefastos de seu modo de subjugar a natureza.

A recente consciência ecológica amplia a noção de ethos. A casa é todo o Universo. Não se fala de Pluriverso, mas de Universo. Há uma íntima relação entre todos os seres visíveis e invisíveis, do macro ao micro, das partículas elementares aos vulcões.

Segundo Teilhard de Chardin, o princípio da ética é o respeito a todo o criado para que desperte suas potencialidades. Assim, faz sentido falar da dimensão holística da ética.

O ponto de partida da ética foi assinalado por Sócrates: a polis, a cidade. A vida é processo pessoal e social. A ótica neoliberal erra ao dizer que cada um se contente com o seu mundinho.

Mas fica a pergunta de Walter Benjamin: o que dizer a milhões de vítimas de nosso egoísmo?

- Frei Betto
Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ser gay é pecado?

Pintura: René Magritte, em exposição no Albertina Museum

Atualização de 5/12/11: O artigo aqui publicado, originalmente reproduzido via site da Revista Carta Capital, estava incompleto. Reproduzimos agora na íntegra, via Blog do Pablo. Faltava o texto a partir do parágrafo que começa com "Mais: segundo Padilha (...)".

Em seu programa de tevê e nos cultos, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, um dos maiores porta-vozes do conservadorismo religioso no País, costuma repetir a ladainha: “Homossexualidade na Bíblia é pecado. Pode tentar, forçar, mas é pecado”. Mas será mesmo pecado ser gay? Não, contestam, baseados na interpretação da mesma Bíblia, sacerdotes cristãos, tanto católicos quanto evangélicos. [Saiba mais aqui] Para eles, a mensagem de Jesus era de inclusão: se fosse hoje que viesse à Terra, o filho de Deus teria recebido os homossexuais de braços abertos.

“Orientação sexual não é o que vai definir a nossa salvação”, afirma o bispo primaz da Igreja Anglicana no Brasil, dom Maurício Andrade. “É muito provável que as pessoas homoafetivas fossem acolhidas por Jesus. O Evangelho que ele pregou foi de contracultura e inclusão dos marginalizados”, opina. Segundo o bispo, ao mesmo tempo que não há nenhuma menção à homossexualidade no Novo Testamento, há várias passagens que demonstram a pregação de Jesus pela inclusão. Não só o conhecido “quem nunca pecou que atire a primeira pedra” à adúltera Maria Madalena.

No Evangelho de João, capítulo 4, Jesus está a caminho da Galileia, partindo de Jerusalém. Cansado, decide descansar ao lado de um velho poço, em plena região da Samaria, cujos habitantes eram desprezados pelos judeus. E inicia conversação com uma mulher samaritana que vinha buscar água, e lhe oferece a salvação da alma, para espanto de seus próprios apóstolos, que a consideravam ímpia. Também quando Jesus vai à casa de Zaqueu, o coletor de impostos decidido a passar a noite lá, os discípulos murmuram entre si que se hospedaria “com homem pecador”. Mas Jesus não só o faz como também oferece a Zaqueu, homem rico tido como ladrão, a salvação. “Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão.”

“Jesus inaugura o momento da Graça, os Evangelhos atualizam vários trechos do Velho Testamento. Ou alguém pode imaginar apedrejar pessoas hoje em dia?”, questiona dom Maurício, para quem a interpretação da Bíblia deve se basear no tripé tradição, razão e experiência cotidiana. “Quem interpreta que a Bíblia condena a homoafetividade está sendo literalista. Cada texto bíblico está inserido num contexto político, histórico e cultural, não pode ser transportado automaticamente para os dias de hoje. Além disso, a Igreja tem de dar resposta aos anseios da sociedade, senão estaremos falando com nós mesmos.

Também anglicano, o arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984, lançou em março deste ano o livro "Deus Não É Cristão e Outras Provocações", que traz um texto sobre a inclusão dos cidadãos LGBT à Igreja e à sociedade (leia um trecho aqui). Para Tutu, a perseguição contra os homossexuais é uma das maiores injustiças do mundo atual, comparável ao apartheid contra o qual lutou na África do Sul. “O Jesus que adoro provavelmente não colabora com os que vilipendiam e perseguem uma minoria já oprimida”, escreveu. “Todo ser humano é precioso. Somos todos parte da família de Deus. Mas no mundo inteiro, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros são perseguidos. Nós os tratamos como párias e os fazemos duvidar que também sejam filhos de Deus. Uma blasfêmia: nós os culpamos pelo que são.

Nos Estados Unidos, a Igreja Anglicana foi a primeira a ordenar um bispo homossexual, em 2004. “Não por ser gay, mas porque a Igreja reconheceu o serviço e o ministério dele”, alerta dom Maurício. Foi com base na demanda crescente de respostas por parte dos fiéis homossexuais ou com parentes e amigos gays que os anglicanos começaram a rever suas posturas, a partir de 1997. No ano seguinte, foi feita uma recomendação para que os homoafetivos fossem escutados, embora a união de pessoas do mesmo sexo ainda fosse condenada e que se rejeitasse a prática homossexual como “incompatível” com as Escrituras.

No Brasil, onde possui mais de 60 mil seguidores, a Igreja Episcopal Anglicana realizou em 2001 a primeira consulta nacional sobre sexualidade, quando seus fiéis decidiram rejeitar “o princípio da exclusão, implícito na ética do pecado e da impureza”, e fazer uma declaração pública em favor da inclusividade como “essência do ministério encarnado de Jesus”. Em maio deste ano, os anglicanos divulgaram uma carta de apoio à decisão do Supremo Tribunal Federal de permitir a união civil entre pessoas do mesmo sexo, baseados não só na defesa da separação entre Estado e Igreja como no reconhecimento de que as relações homoafetivas “são parte do jeito de ser da sociedade e do ser humano”.

Com o reconhecimento pelo Superior Tribunal de Justiça, em 25 de outubro, da união civil de duas lésbicas, é possível que a intolerância religiosa contra os homossexuais volte a se acirrar. No Twitter, Malafaia atiçava os seguidores a enviar e-mails aos juízes do Tribunal pedindo a rejeição do recurso. Em vão: a união entre as duas mulheres gaúchas, juntas há cinco anos, ganhou por 4 votos a 1.

A partir da primeira decisão do STF, foi criada, informalmente até agora, uma frente religiosa pela diversidade sexual, que reúne integrantes de diversas igrejas: batistas, metodistas, anglicanos, luteranos, presbiterianos, católicos e pentecostais. Coordenador do grupo, o metodista Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha) diz que a homossexualidade é hoje um dos temas que mais dividem as igrejas, tanto evangélicas quanto católicas. “Quem alimenta o preconceito são as lideranças. Os fiéis manifestam dificuldade em obter respostas, porque no convívio com amigos, colegas ou mesmo parentes que sejam homossexuais não veem diferença.”

Mais: segundo Padilha, a proporção de homossexuais entre os evangélicos é bastante similar à da sociedade brasileira como um todo. Sua convicção vem da pesquisa "O Crente e o Sexo", do Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã, entidade que possui o maior banco de dados com e-mails de evangélicos brasileiros – mais de 1,6 milhão. Na pesquisa, foram ouvidos pela internet 6.721 solteiros evangélicos de todo o País, entre 16 e 60 anos. Os resultados, divulgados em junho deste ano: 5,02% dos evangélicos tiveram uma experiência homossexual e 10,69% disseram desejar experimentar ter relações com pessoas do mesmo sexo.

Uma pesquisa feita em 2009 pelo Ministério da Saúde com os brasileiros em geral apontou que 7,6% das pessoas- entre 15 e 64 anos haviam tido relações com o mesmo sexo na vida. Quer dizer, a diferença entre os hábitos sexuais dos crentes e do resto da população é quase nula. “A questão não é teológica”, argumenta Padilha. “O que existe é que esse tema tem sido utilizado politicamente pela direita brasileira. Como não existe mais o comunismo, conseguem manipular a opinião pública assim. Eles têm o direito de expressar opiniões, mas não se pode impor ao Estado conceitos de pecado que não dizem respeito aos que professam outras religiões, ou nenhuma.”

De acordo com historiadores, a posição religiosa em relação à homossexualidade mudou ao longo dos séculos: de mais tolerante para menos. O americano John Boswell, pesquisador da Universidade Yale que morreu de Aids aos 47 anos em 1994 e que dedicou a vida acadêmica a investigar a homossexualidade relacionada ao cristianismo, afirmava que a Igreja Católica não condenou as relações entre o mesmo sexo até o século XII. Ao contrário: o historiador, contestado por alguns e aclamado por outros, revelou no livro "O Casamento entre Semelhantes – Uniões entre pessoas do mesmo sexo na Europa pré-moderna" (1994) a existência de manuscritos que comprovam a celebração de rituais matrimoniais religiosos durante toda a Idade Média por sacerdotes católicos e ortodoxos para consagrar uniões homossexuais.

Nos 80 manuscritos descobertos por Boswell sobre as bodas gays entre os primeiros cristãos, invocava-se como protetores os santos católicos Sérgio e Baco, tidos como homossexuais. Celebrados no dia 7 de outubro, São Sérgio e São Baco aparecem juntos em toda a iconografia religiosa a partir do século IV depois de Cristo e atualmente são objeto de homenagem de vários artistas plásticos ligados ao movimento LGBT. Soldados do imperador romano Maximiano, foram ambos martirizados por se recusar a entrar em um templo e adorar Júpiter. Baco, flagelado com chicotadas, morreu primeiro. Uma crônica, provavelmente do século- X, conta que Sérgio “com o coração enfermo pela perda de Baco, chorava e gritava: ‘te separaram de mim, foste ao Céu e me deixaste só na Terra, sem companhia nem consolo’”.

Em fevereiro deste ano, o pesquisador e professor de Literatura Carlos Callón, da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, foi premiado pelo ensaio "Amigos e Sodomitas: A configuração da homossexualidade na Idade Média", onde conta a história de Pedro Díaz e Muño Vandilaz, protagonistas do primeiro matrimônio homossexual da Galícia, em 16 de abril de 1061. No documento, o casal compromete-se a morar juntos e se cuidar mutuamente “todos os dias e todas as noites, para sempre”.

Segundo Callón, há muitos relatos semelhantes, inclusive com rituais religiosos similares aos heterossexuais, com a diferença de que as bênçãos faziam alusão ao salmo 133 (“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos”), ao amor de Jesus e João ou a São Sérgio e São Baco.

“Trato também na pesquisa de como na lírica ou na prosa galego-portuguesa medievais aparecem alguns exemplos de relações entre homens”, diz o professor. “As relações homossexuais são documentáveis em todas as épocas, o que houve foi um processo de adulteração, de falsificação da história, para nos fazer pensar que não.” Outro dado importante ressaltado pelo pesquisador é que a perseguição contra os homossexuais vem originalmente do Estado. Só mais tarde a Igreja se converteria na principal fonte do preconceito.

“Os traços básicos do preconceito contra a homossexualidade tiveram sua origem na Baixa Idade Média, entre os séculos XI e XIV. É nessa altura que emerge a intolerância homofóbica, desconhecida na Antiguidade. Inventa-se o pecado da sodomia, inexistente nos mil primeiros anos do cristianismo, a englobar todo o sexo não reprodutivo, mas tendo como principal expoente as relações entre homens ou entre mulheres. Com o tempo, passará a ser o seu único significado”, explica Callón.

De fato, a palavra “sodomia” para designar o coito anal em geral e as relações homossexuais em particular, e ao que tudo indica foi introduzida na Bíblia por seu primeiro tradutor ao inglês, o britânico John Wycliffe (1320-1384). Wycliffe traduziu o termo grego arsenokoitai como “pecado de Sodoma”. Daí a utilização da palavra “sodomita” para designar os gays, o que acabou veiculando-os para sempre com o relato bíblico das pecadoras cidades de Sodoma e Gomorra, destruídas por Deus com fogo e enxofre para punir a imoralidade de seus habitantes. Mas o significado real de arsenokoitai (literalmente, a junção das palavras “macho” e “cama”) é ainda hoje alvo de controvérsia.

O próprio termo “homossexual” para designar as pessoas que preferem se relacionar com outras do mesmo sexo é recente: só passou a existir a partir do século XIX. A versão revisada em inglês da Bíblia, de 1946, é a primeira a utilizá-lo. Isto significa que as menções à “homossexualidade”, “sodomia” e “sodomitas” nas escrituras seriam mais uma questão de interpretação do que propriamente de tradução.

“A Bíblia, infelizmente, tem sido usada para defender quaisquer posicionamentos, desde a escravidão (sobram textos que legitimam a escravatura) ao genocídio”, opina o pastor Ricardo Gondim, da Igreja Betesda de São Paulo, protestante. “Como o sexo é uma pulsão fundamental da existência, o controle sobre essa pulsão mantém um fascínio enorme sobre quem procura preservar o poder. Assim, o celibato católico e a rígida norma puritana não passam de mecanismos de controle. O uso casuístico das Escrituras na defesa de posturas consideradas conservadoras ou ‘ortodoxas’ não passa, como dizia Michel Foucault, de instrumentos de dominação.”

“Um teólogo que eu admiro muito, Carlos Mesters, costuma dizer que a Bíblia é uma flor sem defesa. Dependendo da mão e da intencionalidade de quem a usa, a posição mais castradora ou a mais libertadora pode ser defendida usando-a”, concorda a pastora Odja Barros, presidente da Aliança de Batistas do Brasil, espécie de dissidência da Igreja Batista que aceita homossexuais entre seus integrantes – são seis igrejas no País. Tudo começou há cinco anos, conta Odja, quando se colocou diante de sua igreja, em Maceió, o desafio: um homossexual converteu-se e não queria abrir mão de seu gênero. Foi uma pequena revolução.

Alguns integrantes deixaram a Igreja, outros se juntaram a ela, e houve fiéis que, animados, também resolveram se revelar homossexuais. “Em todas as comunidades evangélicas existem gays, mas são reprimidos”, afirma a pastora.

Um dos pontos principais para a compreensão da questão à luz da Bíblia, de acordo com Odja Barros, é desconstruir as leituras mais hegemônicas, patriarcais, que afetam a vida não só dos gays, como das mulheres. Há trechos, por exemplo, que justificam a submissão e a violência contra a mulher. A própria Odja só se tornou pastora graças a essa releitura. “As pessoas vêm me dizer que sou feminista, que sou moderna, mas me sinto muito fiel a algo muito antigo, que é a defesa da dignidade do ser humano sobre todas as coisas. O Evangelho tem a ver com esses valores”, argumenta. “A sociedade caminhou mais rápido e é um desafio à Igreja, quando deveria ser o contrário.

Entre os católicos, curiosamente, a homossexualidade não é vetada a partir da Bíblia, mas a partir da concepção de que seria antinatural, ou seja, fora do objetivo da procriação. É assim, até hoje, que prega a Igreja, daí a condenação também ao uso de contraceptivos como a camisinha. Tudo isso vem de uma época em que se conhecia muito pouco de biologia. A descoberta do clitóris como fonte do prazer feminino, por exemplo, é do século XVI. O ovário, que sacramentou a diferença entre homem e mulher, só foi descoberto no século XVIII. Até então, pensava-se que a mulher era um homem em desvantagem, um corpo masculino “castrado”.

“Além disso, hoje temos conhecimento de uma gama impressionante de comportamentos sexuais entre os animais, o que inclui homossexualidade e hermafroditismo”, defende o padre católico James Alison, britânico radicado em São Paulo. Homossexual assumido, Alison conta que se situa numa espécie de “buraco negro” em que se encontram, segundo ele, muitos padres católicos gays: sem função como párocos, não estão subordinados a bispos e, por isso mesmo, escapam de sanções da Igreja. O padre, que vive como teólogo, compara a homossexualidade a ser canhoto. Ou seja, um porcentual da população nasceria homossexual, assim como nascem pessoas que escrevem com a mão esquerda. “Aproximadamente 9,5% das pessoas são canhotas e isso também já foi considerado uma patologia.”

Alison conta que a Igreja Católica faz um malabarismo ideológico para sustentar a proibição de ser homossexual, pois no ensino teológico do Vaticano o fato em si não é considerado pecado. “Eles dizem que ‘enquanto a inclinação homossexual não seja em si um pecado, é uma tendência para atos intrinsecamente maus’, uma coisa confusa e insustentável a essa altura.” O padre acredita, porém, que a aceitação da homossexualidade pelos católicos melhorou sob Bento XVI. “Neste tema, os prudentes calam e os burros gritam. João Paulo II promovia os gritões. Hoje a tendência é prudência. Já não se veem bispos falando publicamente que é uma patologia. Se a Igreja reconhecer que não há patologia, será natural reconhecer a homossexualidade. É um lado bom de Ratzinger, mas tudo isso ocorre caladamente, nos bastidores da Igreja.

Para o padre, a falta de discussão no catolicismo sobre a homossexualidade “emburreceu” as pessoas para o debate em torno da pedofilia, que tanto tem causado danos à imagem da Igreja nos últimos anos. Daí a reação lenta diante das denúncias. E também se tornou um obstáculo à evangelização. “A homofobia instintiva já não é mais realidade, há cada vez mais solidariedade fraterna concreta. Muitos jovens são por natureza gay friendly. E se perguntam: por que seguir Jesus se tenho de odiar os gays?

- Cynara Menezes
Publicado originalmente no site da Revista Carta Capital, e reproduzido com grifos nossos. Reproduzido na íntegra via Blog do Pablo.
Dica do sempre querido @realfpalhano :-)

* * *

Se tiver interesse, veja também os "Anais da Religião" da Revista Piauí: Malafaia e sua "Vitória em Cristo"

domingo, 20 de novembro de 2011

O decisivo


O relato não é propriamente uma parábola mas uma evocação do juízo final de todos os povos. Toda a situação concentra-se num diálogo longo entre o Juiz que não é outro que Jesus ressuscitado e dois grupos de pessoas: os que aliviaram o sofrimento dos mais necessitados e os que viveram negando-lhes a sua ajuda.

Ao longo dos séculos os cristãos viram neste diálogo fascinante "a melhor recapitulação do Evangelho", "o elogio absoluto do amor solidário" ou "a advertência mais grave a quem vive refugiado falsamente na religião". Vamos assinalar as afirmações básicas.

Todos os homens e mulheres sem exceção serão julgados pelo mesmo critério. O que dá um valor imperecível à vida não é a condição social, o talento pessoal ou o êxito conseguido ao longo dos anos. O decisivo é o amor prático e solidário aos necessitados de ajuda.

Este amor traduz-se em atos muito concretos. Por exemplo, «dar de comer», «dar de beber», «acolher o emigrante», «vestir o nu», «visitar os doentes ou os presos». O decisivo ante Deus, não são as ações religiosas, mas estes gestos humanos de ajuda aos necessitados. Podem brotar de uma pessoa crente ou do coração de um agnóstico que pensa nos que sofrem.

O grupo dos que ajudaram os necessitados que foram encontrando no seu caminho, não o fizeram por motivos religiosos. Não pensaram em Deus nem em Jesus Cristo. Simplesmente procuram aliviar um pouco o sofrimento que há no mundo. Agora, convidados por Jesus, entram no reino de Deus como "benditos do Pai".

Por que é tão decisivo ajudar os necessitados e tão condenável negar-lhes ajuda? Porque, segundo revela o Juiz, o que se faz ou o que se deixa de fazer a eles, está-se a fazer ou a deixar de fazer a Deus encarnado em Cristo. Quando abandonamos um necessitado, estamos a abandonar a Deus. Quando aliviamos o seu sofrimento, estamos a faze-lo com Deus.

Esta surpreendente mensagem coloca-nos a todos a olhar os que sofrem. Não há religião verdadeira, não há política progressista, não há proclamação responsável dos direitos humanos se não é defendendo aos mais necessitados, aliviando o seu sofrimento e restaurando a sua dignidade.

Em cada pessoa que sofre Jesus sai ao nosso encontro, olha-nos, interroga-nos e suplica-nos. Nada nos aproxima mais Dele que aprender a olhar demoradamente o rosto dos que sofrem, com compaixão. Em nenhum lugar poderemos reconhecer com mais verdade o rosto de Jesus.

- José Antonio Pagola

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Das tecelãs da minha história...

500 autorretratos: Tieman Rapati

Li o texto que segue hoje (30-10-11) cedo - com voz bastante embargada - na missa celebrada por ocasião do Dia Nacional da Juventude (DNJ), em Ponte Nova, Minas Gerais. Para os que não conhecem a festa, trata-se de uma das atividades organizadas anualmente pelas Pastorais da Juventude do Brasil, e que este ano propôs suas reflexões a partir do tema "Juventude e Protagonismo Feminino" e do lema "Jovens Mulheres tecendo relações de vida".

O texto é uma grande memória e uma grande oração, nascida dos sentimentos mais sinceros e profundos deste homem feminista, cristão homossexual (sem nenhuma ambiguidade em nada disto), que tanto aprendeu com as mulheres que o cercaram e cercam, e que, além de ser solidário a elas pela violência que sofrem, se sente também todos os dias violentado pelas opressões decorrentes da desigualdade de gênero.

Publico aqui para outros possam juntar as suas orações à minha, e para que ela fique num registro mais permanente, ainda que sem a carga de emoção e de lágrimas que partilhei com a linda juventude da Região Leste da Arquidiocese de Mariana neste 30 de outubro.


* * *

Ê, Mamãe, abraça eu, Mamãe,
Embala eu, Mamãe,
Tem dó de mim...


Salve juventude! Bom dia a todas! Bom dia a todos!

Quando o pessoal daqui de Ponte Nova me pediu para escrever esta mensagem, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi a seguinte: não estamos falando de protagonismo feminino? Então por que não pedir a uma de nossas jovens que produzisse um texto para encerrar a missa do nosso DNJ? Mas para não parecer que estava fugindo da tarefa, aceitei. E aceitei também porque achei que não tinha nada a ver, né? Querer o protagonismo feminino não significa que vamos fazer os homens todos correrem das igrejas e dos grupos de jovens, querendo que as mulheres tomem a frente de tudo. Há espaço para todos e todas por aqui. É o bonito de ser juventude. Homens também podem ser grandes protagonistas femininos.

E sei lá, acho que eu também não queria perder a oportunidade de falar sobre isso, não... A primeira coisa que me passou pela cabeça foi a de escrever uma mensagem bonita, poética... Mas pensei que tudo o que eu andei até hoje, só andei nesta vida graças às mulheres protagonistas por quem estive cercado. Então, se for pra falar de Protagonismo Feminino, tenho que contar algumas histórias. Peço um pouquinho do tempo e da atenção de vocês pra falar dessas mulheres:

Cassiana, Dona Cassi, benzedeira - minha bisavó. A mulher que teve uma filha "roubada", entregue de presente a um compadre, porque o marido já não queria mais filhas mulheres na família – queria um varão. Anos depois foi que conseguiu correr atrás da filha, e tê-la de volta, principalmente por saber que, aos 12 anos, a menina ainda não tinha sido alfabetizada.

Maria - nome forte, nome da minha avó. Avó que casou jovem e separou-se jovem, perdeu a guarda dos filhos, casou-se novamente, e teve seu marido assassinado. Mudando-se para outra cidade, para trabalhar de empregada doméstica em casa de família rica, engravidou do filho da patroa, e teve que voltar fugida para a sua cidade pequena, com medo de ter o seu filho roubado também.

Neide, minha mãe, que engravidou – de mim – aos 18 anos de idade, e negada pelo namorado, teve que assumir o peso de terminar os estudos, cuidar de um menino recém-nascido (e eu dava muito trabalho), e ainda ver uma cidade inteira lhe virar a cara nas ruas por ser mãe solteira tão cedo.

Rosimeire, minha tia, a ovelha negra da família, mas talvez a única pessoa que tenha me compreendido verdadeiramente até hoje. Dependente química, mulher prostituída, envolvida com tráfico de drogas, brutalmente assassinada por policiais aos 27 anos de idade.

E eu não tenho problema nenhum em contar nenhuma destas histórias.
Porque essas mulheres me amaram, me deram carinho, e me ensinaram a sempre lutar muito na vida para conquistar os meus sonhos. Elas me mostraram o quanto a luta, a garra, a força e a esperança são fundamentais para quem tem desejos e utopias de transformação.

Se hoje eu sou protagonista em alguma coisa, devo isso a estas mulheres.

Se sou protagonista em alguma coisa hoje, é porque não quero que outras tantas mulheres continuem tendo os seus filhos roubados, não quero que tantas outras mulheres sofram sob os desmandos de seus maridos, não quero que outras tantas mulheres sejam vítimas das drogas, que outras tantas mulheres sejam vítimas da violência e do extermínio.

Se sou protagonista hoje, é porque quero continuar a ver sorrisos livres no rosto de cada Maria, Meire, Cassiana, Neide, Dinalva, Flor, Antônia, Lina, Elizabete, Aparecida, Mônica, Yasmin, Janine, Kátia, Fernanda, Lucilene, Iara, Natália, Mirele, Mariana, Franciele, Thaís, Bruna, Daniela...

E eu poderia ficar horas aqui falando de tantas outras, que tanto me ensinaram, de tantas outras jovens mulheres que seguem seu caminho sempre tecendo relações de vida. Mas a gente ainda tem muito DNJ pela frente ainda, não é?

Assim, a mensagem que fica neste dia é que todos e todas podemos ser protagonistas, inspirados no exemplo de tantas jovens mulheres que tanto lutam pela transformação de suas realidades. Jovens mulheres marcadas pelas feridas do machismo, do sexismo, que ainda as expulsa do mundo do trabalho, que ainda explora seus corpos como se fossem mercadoria, que ainda lhes impõe padrões de beleza, que ainda lhes rouba tantas liberdades.

A mensagem que fica neste DNJ é um sonho de transformação, o sonho de um mundo mais igual onde mulheres e homens, negras e negros, povos indígenas, todos e todas tenhamos igual direito à Vida e à liberdade.

Que possamos cantar ao Deus-Pai-Mãe a nossa festa, o nossa sonho e o nosso louvor neste dia!

Por que este dia é nosso, Juventude!

- Murilo Araújo
Ponte Nova, Minas Gerais, 30 de outubro de 2011
Dia Nacional da Juventude
Reproduzido via blog do autor
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